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0 1 GASTO ENERGÉTICO E BALANÇO ENERGÉTICO Para ganhar peso é necessário que o consumo de calorias seja maior que o gasto energético do indivíduo (balanço energético positivo) e para perder peso é necessário que o consumo de calorias seja menor do que o gasto energético (balanço energético negativo). O gasto energético total (GET) é a energia que nosso corpo consome diariamente a partir de carboidratos, gorduras e proteínas. Os macronutrientes fornecem energia para o desenvolvimento e funcionamento do organismo. Para lutar contra a epidemia de obesidade é necessário criar estratégias que visem a redução da ingestão energética e/ou o aumento do gasto energético. Por esse motivo, precisamos conhecer todos os componentes da equação do balanço energético. Os componentes da ingestão energética são os macronutrientes, abordados nos capítulos anteriores. O gasto energético total pode ser dividido em três componentes: GET = GER + ETA + GAF Onde GER é o gasto energético de repouso, ETA é o efeito térmico dos alimentos e GAF é o gasto energético da atividade física, que se refere a todo gasto energético que realizamos ao nos movimentarmos, também chamado de gasto energético não repouso. No meu livro Emagrecimento e Metabolismo discuto com detalhes cada um dos componentes do gasto energético. Embora seja possível medi-los, na prática clínica é difícil ter aparelhos disponíveis para realizar essas medições. Portanto, uma das finalidades desse material é ensinar como calcular e estimar os valores do gasto energético total usando o fator atividade. GASTO ENERGÉTICO E FATOR ATIVIDADE O GER é influenciado por fatores como sexo, idade, “composição corporal”, estado nutricional. A composição corporal influencia o GER, pois os órgãos e tecidos possuem taxas metabólicas diferentes. O cérebro tem uma taxa metabólica de 240 kcal/kg, o fígado 200 kcal/kg, enquanto o músculo tem uma 2 taxa metabólica de apenas 13 kcal/kg. Portanto, ganhar 1 kg de massa muscular pode aumentar 13 kcal no GER. A taxa metabólica do tecido adiposo é ainda menor, sendo apenas 4,5 kcal/kg. Ou seja, ganhando gordura o GER também aumenta, mas o aumento é muito menor do que com o o ganho de massa muscular (8,5 kcal menor). Para indivíduos jovens eutróficos, as equações da FAO/OMS, Harris- Benedict e Mifflin-St Jeor podem ser boas escolhas. No entanto, para obesos e atletas, essas equações podem superestimar (obesos) e subestimar (fisiculturistas) o GER, devido às diferenças na composição corporal. Como o tecido muscular consome mais energia que o tecido adiposo, o GER de atletas com baixo percentual de gordura e muita massa muscular será maior que a de indivíduos eutróficos ou obesos. A equação de Mifflin-St Jeor é a única que mostrou boa concordância com o GER de indivíduos obesos medido com calorimetria indireta (FRAKENFIELD, 2005). Tabela 1. Equação de Mifflin-St Jeor para cálculo do GER. P é o peso; A é altura (em centímetros); I é idade (em anos). É a mais indicada para o cálculo do GER de indivíduos obesos e indivíduos com metabolismo lento (já que os valores costumam ser menores que as equações de Harris-Benedict e FAO/OMS). Sexo Fórmula de Mifflin-St Jeor Feminino (10 x P) + (6,25 x A) – (5,0 x I) – 161 Masculino (10 x P) + (6,25 x A) – (5,0 x I) + 5 Calculando o gasto energético de repouso (GER) do indivíduo, podemos estimar seu gasto energético diário (GET) se conseguirmos estimar seu gasto de atividade física (GAF). Por simplicidade, uma forma de estimar o GET é multiplicar o GER por um fator relacionado ao gasto energético da atividade física, o fator atividade (FA). A tabela 1 apresenta números aproximados para o fator atividade de acordo com nível de atividade física do indivíduo, sendo que os valores mais prováveis para a maioria da população se situam na faixa de 1,5 a 1,6, principalmente em indivíduos com obesidade. Sendo assim, o gasto energético diário é dado por: GET = GER x FA 3 Considerando as informações acima, parece simples afirmar que para emagrecer basta apenas comer menos calorias do que seu GET. Por outro lado, só iremos engordar se comermos mais calorias do que nosso GET. Perda de peso: IE GET (balanço energético positivo) Tabela 2. O fator atividade (FA) deve ser multiplicado pelo GER para encontrar o cálculo do GET (GET = GER x FA). A maior parte da população tem um FA em torno de 1,6 (HALUCH, 2021). Nivel de atividade física diária Fator atividade (FA) Muito sedentário 1,3 – 1,4 Sedentário pouco ativo 1,5 Sedentário mais ativo (mais comum) 1,6 Moderadamente ativo 1,7 Muito ativo 1,8 – 1,9 Atividade intensa 2,0 ou mais COMO ESCOLHER O DÉFICIT CALÓRICO? As recomendações de uma dieta para perda de gordura normalmente são de um déficit calórico na faixa de 500 kcal por dia, o que equivale a 3500 kcal por semana. Esse déficit calórico costuma provocar uma perda de peso de aproximadamente 0,5 kg por semana nas primeiras semanas. No entanto, com o decorrer dos meses, a perda de peso e gordura é cada vez mais lenta. Isso acontece porque nosso metabolismo não é estático e sim dinâmico, ou seja, a restrição calórica induz adaptações metabólicas (termogênese adaptativa, aumento do apetite), que são uma resposta do organismo que visa atenuar a perda de peso e reestabelecer as reservas de energia. Essas adaptações metabólicas são inevitáveis e tornam o processo de perda de gordura cada vez mais difícil, conforme se reduz o percentual de gordura. Além da termogênese adaptativa, a redução do gasto energético de repouso é esperada, porque conforme o indivíduo perde peso, seu gasto energético será menor em um peso corporal reduzido. A cada 1 kg de peso perdido, a estimativa é que o gasto energético sofra uma redução de 20 a 30 kcal. 4 Se um indivíduo de 100 kg inicia uma dieta com um déficit calórico de 500 kcal, depois de perder 10 kg é esperada uma redução de 200 a 300 kcal no gasto energético total. Consequentemente, o déficit inicial de 500 kcal passa a ser menor, e isso explica porque o processo de emagrecimento se torna mais lento, mesmo se o indivíduo mantém adesão à dieta. De qualquer forma, se o indivíduo mantém adesão perfeita à dieta, o platô pode levar mais de 2 anos para acontecer. Como visto anteriormente, em indivíduos de vida livre o platô costuma acontecer por volta de 6 a 8 meses de dieta, devido ao aumento do apetite e da ingestão calórica. Para indivíduos obesos, um déficit calórico de 500 kcal pode ser desanimador, já que a perda de peso seria muito lenta (2 kg por mês para alguém pesando 130 kg não é nada estimulante). Isso explica porque muitas pessoas procuram seguir dietas mais restritivas, que oferecem uma perda de peso mais expressiva. Existe uma forte crença entre profissionais da nutrição de que uma dieta muito restritiva pode promover perda de muita massa magra e fazer o indivíduo desenvolver compulsão alimentar. Nesse sentido, dietas com grande restrição de peso não seriam eficientes para tratar obesidade. No entanto, essas alegações carecem de evidências científicas robustas. Diversos estudos que investigaram dietas muito hipocalórias e rápida perda de peso não suportam essas alegações. Uma grande preocupação de muitos nutricionistas e profissionais de saúde é de que uma grande e rápida perda de peso leve a um grande reganho de peso (efeito rebote). No entanto, diversos estudos têm mostrado que uma taxa inicial maior de perda de peso leva ao sucesso no longo prazo, promovendo maior perda de peso e manutenção do peso. É uma crença comum que a perda de peso obtida a uma taxa lenta seja melhor preservada do que se o peso for perdido mais rapidamente. No entanto, a literatura mostra que a perda de peso inicial está positiva, e não negativamente, relacionadaà manutenção do peso a longo prazo. Existem evidências de estudos de intervenção randomizados para apoiar que uma maior perda de peso inicial induzida sem mudanças no estilo de vida (por exemplo, dietas com fórmula líquida ou medicamentos 5 anoréticos) melhora a manutenção do peso a longo prazo, desde que seja seguido por um programa integrado de manutenção de peso de 1-2 anos consistindo de intervenções no estilo de vida que envolvem mudanças na dieta, educação nutricional, terapia comportamental e aumento da atividade física. Em conclusão, encontramos evidências que sugerem que uma maior perda de peso inicial como o primeiro passo de um programa de gerenciamento de peso pode resultar em uma melhor manutenção sustentada do peso (ASTRUP, 2000). Isso não significa que uma rápida perda de peso seja aconselhável para qualquer indivíduo que deseje perder peso. Indivíduos com peso dentro da faixa normal (eutróficos) que perdem peso com dietas extremistas, como fisiculturistas e lutadores, têm grande risco de sofrer um efeito rebote agressivo, ganhando mais peso com a ciclagem de peso (oscilações do peso). Além disso, indivíduos com menor percentual de gordura perdem mais massa muscular com a perda rápida de peso. Tabela 3. Escolhendo o déficit calórico de acordo com o perfil do indivíduo. O percentual de gordura deve ser considerado na escolha, pois indivíduos com mais gordura corporal tendem a sofrer menos catabolismo muscular. Usuários de esteroides também podem trabalhar com um déficit calórico maior (de acordo com as drogas e dosagens utilizadas), pois o uso de esteroides minimiza o risco de perda de massa muscular. Perfil Déficit calórico Homens eutróficos 500 – 600 kcal Mulheres eutróficas 400 – 600 kcal Sobrepeso, obesidade 500 – 1500 kcal Usuários de esteroides 500 – 1500 kcal Para indivíduos obesos, um déficit calórico superior a 500 kcal é aconselhável, e nos casos de indivíduos muito obesos, mesmo déficits superiores a 1000 kcal são recomendados, sem risco de perder muita massa muscular ou de ter grande recuperação de peso quando existe acompanhamento profissional e mudanças no estilo de vida. Indivíduos eutróficos (IMC