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CÁLCULO DIFERENCIAL E INTEGRAL II Prezado Aluno, Nesta aula, vamos avançar nos estudos sobre o cálculo diferencial e integral. Primeiramente, você vai aprender as integrais múltiplas, que são uma extensão das integrais simples, adaptadas para funções de várias variáveis. Uma das aplicações das integrais múltiplas é o cálculo de áreas de regiões planas e sólidos geométricos em regiões de três dimensões. As integrais simples permitem determinar o valor de áreas e volumes, e, agora, você conhecerá novas maneiras de executar esses cálculos, podendo escolher a ferramenta que determine com maior rapidez de computação e maior precisão os resultados que você precisa. Outro tema abordado é o teorema de Fubini, que versa sobre a possibilidade de inversão da ordem de integração das integrais múltiplas, permitindo que você encontre soluções para integrais difíceis. Bons estudos! AULA 8 – CÁLCULO DAS INTEGRAIS MÚLTIPLAS 8 INTEGRAIS MÚLTIPLAS Conforme mencionado nas primeiras aulas, o estudo das integrais surgiu historicamente a partir do desafio de calcular áreas de figuras irregulares, possibilitando a medição dessas formas geométricas complexas. As ideias para resolver esse problema foram desenvolvidas no método da exaustão, que serviu como inspiração e base para os matemáticos que formularam os princípios fundamentais do cálculo integral. Através do cálculo integral, é possível encontrar as chamadas funções primitivas, que são aquelas que existiam antes de passarem pelo processo de derivação. As regras utilizadas nesse contexto são, essencialmente, as mesmas já estabelecidas anteriormente. 8.1 Integral dupla A definição matemática para integrais de duas variáveis difere do caso de integrais simples no desenvolvimento do cálculo diferencial e integral. Enquanto no caso de uma integral simples ∫ 𝑓(𝑥)𝑑𝑥 𝑏 𝑎 o domínio é um intervalo [𝑎, 𝑏], para as integrais de duas variáveis, o domínio é uma região 𝐷 no plano que pode apresentar uma curva de fronteira mais geral (ROGAWSKI, 2009). Para resolver essa integral, primeiro é necessário fixar uma variável e integrar em relação à outra. Vejamos o exemplo: ∫ ∫ (40 − 2𝑥𝑦)𝑑𝑦 𝑑𝑥 4 2 3 1 Para resolver a integral dupla, é importante começar pela integral "interna" (neste caso, integrar em relação a 𝑦) e, em seguida, realizar a integração em relação à outra variável (𝑥). ∫ ∫ (40 − 2𝑥𝑦)𝑑𝑦 𝑑𝑥 4 2 3 1 Agora, chegamos a: ∫ [∫ (40 − 2𝑥𝑦)𝑑𝑦] 𝑑𝑥 = 4 2 3 1 ∫ [40𝑦 − 2𝑥𝑦2 2 ] 2 43 1 𝑑𝑥 = ∫ [40𝑦 − 𝑥𝑦2]2 4 𝑑𝑥 = 3 1 ∫[40 ⋅ 4 − 𝑥 ⋅ 42] 3 1 − [40 ⋅ 2 − 𝑥 ⋅ 22] 𝑑𝑥 = ∫[160 − 16𝑥] 3 1 − [80 − 4𝑥] 𝑑𝑥 = ∫(80 − 12𝑥) 3 1 𝑑𝑥 Restou apenas a integral "externa", que é uma integral simples, então basta integrar em relação a 𝑥: ∫(80 − 12𝑥) 3 1 𝑑𝑥 = [80𝑥 − 12 ⋅ 𝑥2 2 ] 1 3 = [80𝑥 − 6𝑥2]1 3 = [80 ⋅ 3 − 6 ⋅ 32] − [80 ⋅ 1 − 6 ⋅ 12] = [240 − 6 ⋅ 9] − [80 − 6] = 186 − 74 = 112 8.2 Integral tripla O limite ∭ 𝑓 𝐺 (𝑥, 𝑦, 𝑧) 𝑑𝑉 = lim 𝑛→∞ ∑ 𝑓(𝑥𝑘 ∗𝑛 𝑘=1 , 𝑦 𝑘 ∗ , 𝑧𝑘 ∗) ∆𝑉𝑘 é nomeada integral tripla de 𝑓(𝑥, 𝑦, 𝑧) na região 𝐺. É definida quando a função 𝑓 for contínua em 𝐺 (ANTON; BIVENS; DAVIS; 2007). O método utilizado é semelhante ao da integral dupla, porém adaptado para lidar com três variáveis, como ilustrado no exemplo a seguir: ∫ ∫ ∫ 12𝑥𝑦2 2 0 3 0 2 −1 𝑧3 𝑑𝑧 𝑑𝑦 𝑑𝑥 Mais uma vez, é necessário iniciar pela integral "interna" ou "do miolo": ∫ ∫ ∫ 12𝑥𝑦2 2 0 3 0 2 −1 𝑧3 𝑑𝑧 𝑑𝑦 𝑑𝑥 ∫ ∫ [ 12𝑥𝑦2𝑧4 4 ] 0 23 0 2 −1 𝑑𝑦 𝑑𝑥 = ∫ ∫[3𝑥𝑦2𝑧4]0 2 3 0 2 −1 𝑑𝑦 𝑑𝑥 = ∫ ∫[3𝑥𝑦2 ⋅ 24] 3 0 2 −1 − [3 ⋅ 𝑥𝑦2 ⋅ 04] 𝑑𝑦 𝑑𝑥 = ∫ ∫[48𝑥𝑦2] 3 0 2 −1 𝑑𝑦 𝑑𝑥 Em seguida, é necessário integrar a integral "do meio": ∫ ∫[48𝑥𝑦2] 3 0 2 −1 𝑑𝑦 𝑑𝑥 então: ∫ [ 48𝑥𝑦3 3 ] 0 32 −1 𝑑𝑥 = ∫ [16𝑥𝑦3]0 3 2 −1 𝑑𝑥 = ∫ [16𝑥 ⋅ 33] 2 −1 − [16 ⋅ 03]𝑑𝑥 Agora, a solução final foi simplificada para uma integral simples: ∫ 432 𝑥 2 −1 𝑑𝑥 = [ 432𝑥2 2 ] −1 2 = [216 ⋅ 22] − [216 ⋅ (−1)2] = 864 − 216 = 648 8.3 Integrais múltiplas, áreas e volumes As integrais múltiplas evoluíram a partir da busca por soluções para determinar o volume de sólidos. Durante o estudo desses sólidos, tornou-se evidente que é possível construir diversos deles através da revolução de figuras planas, um procedimento trivial bem conhecido pelos estudiosos do cálculo. Considere o exemplo do cone, que é formado no espaço 3D pela rotação de um triângulo retângulo com raio 𝑟 e altura ℎ. É importante destacar a relação entre a altura, o raio, a área e o volume do cone. A geometria espacial fornece as fórmulas que resolvem as questões relacionadas à área do cone, conforme mostrado na Figura 1. Figura 1. Fórmulas da área e do volume do cone Fonte: Shutterstock.com. O cálculo do volume do cone é fundamental para fabricantes de sorvete, pois eles precisam saber a quantidade que pode ser colocada em uma casquinha em formato de cone. Além disso, essa informação é ainda mais importante para crianças de todas as idades, que desejam aproveitar ao máximo sua guloseima nas tardes ensolaradas de domingo (Figura 2). No entanto, nem sempre os problemas são tão simples a ponto de podermos aplicar diretamente as fórmulas da geometria espacial, que solucionam muitas demandas de forma direta. Às vezes, nos deparamos com elementos expressos no plano cartesiano, representados por funções matemáticas, e nesses casos, não é possível resolver utilizando apenas fórmulas geométricas. É quando precisamos recorrer ao cálculo para nos auxiliar. Por exemplo, há situações em que é necessário calcular a área entre duas curvas, definidas por expressões matemáticas, e essa necessidade exige a aplicação do cálculo para obter a solução adequada. Exemplo 1 - Considere uma região delimitada pela parábola 𝑦 = 𝑥2 2 e a reta 𝑦 = 2𝑥. É possível calcular a área dessa região utilizando integrais duplas. Para começar, devemos determinar os pontos de interseção das duas funções, o que é feito igualando as duas expressões. 𝑥2 2 = 2𝑥 → 𝑥2 = 2 ⋅ 2𝑥 → 𝑥2 = 4𝑥 → 𝑥2 − 4𝑥 = 0 Ao resolver a equação: 𝑥(𝑥 − 4) = 0 ∴ 𝑥 = 0 𝑒 𝑥 = 4 E para calcular a área, o intervalo é delimitado por 0 ≤ 𝑥 ≤ 4, o que será o parâmetro de integração em relação a 𝑥. Já para integrar em relação a 𝑦, utilizamos os dados do enunciado,𝑦 = 𝑥2 2 e 𝑦 = 2𝑥. É importante construir um esboço da função para visualizar qual curva está por baixo, pois isso definirá o valor mínimo da integral em relação a 𝑦 (Figura 3). Uma sugestão é utilizar o Graphmática para auxiliar nessa visualização. Figura 3. Gráfico da área compreendida entre 𝑦 = 𝑥2 2 e y = 2x. Fonte: Elaborado pelo autor. A análise do gráfico da Figura 3 revela que a reta 𝑦 = 2𝑥 está acima da parábola definida pela equação 𝑦 = 𝑥2 2 definindo assim os limites de integração. Agora, podemos escrever a integral com base nos cálculos realizados: ∫ ∫ 𝑑𝑦 𝑑𝑥 2𝑥 𝑥2 2 4 0 A partir desse ponto, basta resolver a integral, obtendo assim: ∫[𝑦]𝑥2 2 2𝑥 4 0 𝑑𝑥 = ∫ 2𝑥 − 𝑥2 2 4 0 𝑑𝑥 = [2 𝑥2 2 − 𝑥3 2 ⋅ 3 ] 0 4 = [𝑥2 − 𝑥3 6 ] 0 4 = [42 − 43 6 ] − [02 − 03 6 ] = 16 − 64 6 = 16 − 32 3 = 48 − 32 3 = 16 3 8.4 Teorema de Fubini Conforme mencionado por Rogawski (2009), o teorema de Fubini afirma que: ∫ ( 𝐴 ∫ 𝑓( 𝐵 𝑥, 𝑦)𝑑𝑦)𝑑𝑥 = ∫ ( 𝐵 ∫ 𝑓( 𝐴 𝑥, 𝑦)𝑑𝑥)𝑑𝑦. Isso significa que, na prática, podemos inverter a ordem de integração sem que o resultado seja alterado. Vamos utilizar a integral que resolvemos na primeira parte como exemplo para ilustrar esse conceito. Exemplo 2 – Seja a integral ∫ ∫ (40 − 2𝑥𝑦)𝑑𝑦 𝑑𝑥 4 2 3 1 . Invertendo sua ordem, termos:∫ ∫(40 − 2𝑥𝑦)𝑑𝑥 𝑑𝑦 = 3 1 4 2 ∫ (40𝑥 − 2𝑥2𝑦 3 ) 1 34 2 𝑑𝑦 = ∫(40𝑥 − 𝑥2𝑦)1 3 4 2 𝑑𝑦 = ∫(40 ⋅ 3 − 32 ⋅ 𝑦) 4 2 − (40 ⋅ 1 − 1 ⋅ 𝑦) 𝑑𝑦 ∫(120 − 9𝑦 − 40 + 𝑦) 4 2 𝑑𝑦 = ∫ 80 − 8𝑦 4 2 𝑑𝑦 = [80𝑦 − 8𝑦2 2 ] 2 4 = [80𝑦 − 4𝑦2]2 4 = [80 ⋅ 4 − 4 ⋅ 42] − [80 ⋅ 2 − 4 ⋅ 22] = [320 − 64] − [160 − 16] = 256 − 144 = 112 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTON, H.; BIVENS, I.; DAVIS, S. Cálculo. v. 2. Porto Alegre: Bookman, 2005. ROGAWSKI, J. Cálculo. v. 2. Porto Alegre: Bookman, 2009.