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SP 3.2 - ABDOME AGUDO PROPEDÊUTICA CLÍNICA DO ABDOME Abdome Agudo: Abdome agudo é definido como um quadro clínico caracterizado por dor abdominal de início súbito e intensidade variável, geralmente associado a sinais de irritação peritoneal e/ou comprometimento visceral, exigindo avaliação diagnóstica e terapêutica rápida devido ao risco potencial de complicações graves ou morte. As causas são diversas — inflamatórias, obstrutivas, isquêmicas, perfurativas ou hemorrágicas — e frequentemente exigem intervenção cirúrgica urgente. Anamnese Geral A anamnese abdominal exige abordagem sistemática, alinhada à anatomia da cavidade abdominopélvica. Deve-se esclarecer o significado de sintomas (ex.: “queimação” pode ser refluxo ou angina), investigar início, progressão e fatores modificadores. Com a experiência, o questionamento se torna mais direcionado. A habilidade na anamnese, exame físico e correlação de achados é essencial para um bom raciocínio clínico. Sinais/sintomas comuns ou relevantes Distúrbios gastrintestinais ➔ Dor abdominal, aguda e crônica ➔ Indigestão, náuseas, vômitos (incluindo hematêmese), anorexia, saciedade precoce ➔ Disfagia, odinofagia ➔ Diarreia, constipação ➔ Icterícia Distúrbios renais e urinários ➔ Dor suprapúbica, disúria, urgência, polaciúria, noctúria, poliúria, incontinência, hematúria ➔ Dor no flanco, cólica ureteral Dor abdominal A HDA é a parte mais importante. Anamnese detalhada pode esclarecer até 76% dos diagnósticos. ➔ Dor e desconforto na região abdominal alta e pirose ➔ Inclui sintomas como distensão, plenitude, náuseas. ➔ Dor epigástrica: DRGE, pancreatite, úlcera ➔ Dor no QSD: vias biliares e fígado ➔ Investigar início, duração, padrão e tipo da dor. ➔ Solicitar descrição com palavras do paciente, localização, irradiação, intensidade (1 a 10). ➔ Analisar fatores agravantes/aliviadores: postura, alimentação, álcool, AINEs, estresse. Emergência : 15 a 30% dos casos com dor abdominal aguda exigem cirurgia (apendicite, obstrução, colecistite). Dor ou desconforto crônico na região abdominal alta ➔ Dispepsia: dor ou desconforto epigástrico, plenitude ou saciedade precoce. ➔ Dispepsia funcional: sem causa estrutural, sintomas há 3+ meses (6+ meses de evolução). ➔ Pirose é retroesternal e ascendente; piora com álcool, café, frutas cítricas, hortelã, esforço ou decúbito. Sinais de alarme: ➔ Disfagia, odinofagia ➔ Vômitos recorrentes ➔ Hemorragia digestiva ➔ Saciedade precoce ➔ Perda de peso ➔ Anemia ➔ Massa palpável ➔ Icterícia indolor ➔ Fatores de risco para câncer gástrico ANAMNESE BÁSICA ➔ Onde começou? Mostre. ➔ Ela permaneceu somente neste local ou atingiu outros pontos? ➔ Quando começou?É a primeira vez? ➔ Está relacionada com as refeições? ➔ É cólica, pontada ou dor contínua? ➔ Houve alguma mudança no funcionamento intestinal? ➔ Alguma alteração das fezes ou da urina? ➔ Eliminou gases? Vomitou? ➔ Junto com essa dor ocorreu algum outro problema? ➔ A dor é forte a ponto de mudar sua rotina? Dor e desconforto na região abdominal baixa: Podem ser agudos ou crônicos. ➔ Avaliar localização, irradiação e associação com sinais físicos. ➔ Investigar alterações do hábito intestinal, alternância entre diarreia e constipação. ➔ QID: pode indicar apendicite ➔ Cólica com irradiação para flanco/virilha + sintomas urinários: suspeita de nefrolitíase ➔ Dor em QIE + diarreia e história de constipação: sugerem diverticulite ➔ Dor difusa + distensão, náuseas, vômitos, sem flatos: possível obstrução intestinal ➔ Dor em QIE ou difusa com febre e anorexia: avaliar cuidadosamente Dor abdominal e sintomas gastrointestinais associados: ➔ Iniciar perguntando pelo apetite e explorar: indigestão, náuseas, vômitos e anorexia. ➔ Indigestão: desconforto associado à alimentação, com diversos significados. ➔ Anorexia: investigar se é por intolerância, medo de comer ou distorção da autoimagem. ➔ Náuseas e vômitos: náusea pode evoluir para ânsia e vômito. ➔ Ânsia: espasmos involuntários ➔ Vômito: ejeção do conteúdo gástrica ➔ Hematêmese: vômito com sangue; “borra de café” sugere sangue alteradA ➔ Xerostomia: boca seca, comum em idosos Mulheres em idade reprodutiva: é indispensável correlacionar a dor com o ciclo menstrual. ➔ Deve-se questionar irregularidades menstruais, data da última menstruação, dispareunia, características do corrimento vaginal e sangramentos. Diagnósticos ginecológicos devem sempre ser considerados, como gravidez ectópica, ovulação dolorosa (mittelschmerz), endometriose, doença inflamatória pélvica e anexites. A síndrome de Fitz-Hugh-Curtis (peri-hepatite gonocócica) pode mimetizar colecistite aguda, confundindo o diagnóstico. Micção: ➔ Deve ser investigada quanto a sintomas como aligúria, disúria, polaciúria e retenção urinária, além de alterações no aspecto da urina. Tais sintomas podem indicar afecções urológicas como pielonefrite, cólica renal ou cistite, que frequentemente são causas diretas de dor abdominal. No entanto, alterações urinárias também podem ser secundárias à proximidade de processos inflamatórios viscerais, como apendicite ou diverticulite com comprometimento pélvico. Exame físico ➔ Ao exame físico geral avaliar ⇒ mucosas, PA, FC, hidratação, condição geral do paciente ➔ Exame físico específico ⇒ local da dor, irradiação, presença de rigidez da parede, dor de descompressão, dor à palpação e distensão. ➔ Indispensável o exame de toda a parede anterior do abdome, palpando cada quadrante, para avaliar o local mais doloroso, se a dor é difusa, se tem tumorações, ver se há irradiação da dor e distensão abdominal ➔ Toque retal e vaginal no quadro de abdome agudo deve fazer parte da rotina ➔ Pesquisa de dor nas lojas renais por meio do sinal de Giordano ➔ palpação, a inspeção simples e a percussão da região mais dolorosa do abdome ⇒ informações de irritação peritoneal ➔ Ausculta do abdome ⇒ avalia presença de ruídos hidroaéreos; auxilia na definição do tipo de abdome agudo Correlação da região com a dor : ➔ Dor em epigástrio: estômago, duodeno, pâncreas, coração. ➔ Hipocôndrio direito: fígado, vesícula biliar, ângulo hepático do cólon. ➔ Mesogástrio: intestino delgado, apêndice em fase inicial. ➔ Fossa ilíaca direita: apêndice, ceco, trompas. ➔ Fossa ilíaca esquerda: cólon sigmóide, diverticulite. ➔ Hipogástrio: bexiga, útero, reto. Toque Retal e Exame Ginecológico : O toque retal deve ser realizado obrigatoriamente em casos suspeitos de obstrução intestinal — pois pode revelar ampola retal vazia ou fecaloma — e em quadros de sangramento digestivo baixo (hematoquezia), em que pode confirmar a presença de sangue vivo no canal anal ou sangue digerido. O toque também pode auxiliar na detecção de massas pélvicas, dor localizada, prostatomegalia e abscessos perianais. ➔ Já o exame genital, perineal e ginecológico deve ser realizado quando houver suspeita de causas ginecológicas para a dor abdominal ou pélvica, sendo especialmente relevante em mulheres em idade fértil. ➔ Situações como doença inflamatória pélvica (DIP), gravidez ectópica, cistos ovarianos rotos ou torção de anexos exigem avaliação detalhada do trato reprodutivo. ➔ O sinal de Chandelier, caracterizado por dor intensa à mobilização do colo do útero durante o exame especular ou toque bimanual, é sugestivo de DIP. A presença de dor pélvica associada a atraso menstrual, instabilidade hemodinâmica ou sangramento vaginal. ASPECTOS CLÍNICOS E FISIOPATOLÓGICOS DOS ABDOME AGUDOS ABDOME AGUDO PERFURATIVO:a dor costuma ser súbita, de grande intensidade e localizada inicialmente, tornando-se difusa com o tempo. O paciente apresenta rigidez abdominal, sinais de peritonite à palpação e descompressão, além de hipotensão, taquicardia, sudorese e evidências clínicas de infecção. A principal causa é a ruptura de úlceras gastroduodenais, sendo o pneumoperitônio visível em radiografias um achado típico. A perfuração ocorre quando há lesão de espessura total da parede intestinal, o que pode resultar de traumas, procedimentos invasivos, isquemia, neoplasias, entre outras causas. Inicialmente, há extravasamento de secreções intestinais, provocando uma peritonite química, que evolui com invasão bacteriana e instalação de um quadro infeccioso com repercussões sistêmicas. As complicações incluem sepse, choque séptico, abscessos, sangramentos, obstrução intestinal e falência de órgãos. Pneumoperitônio e pneumomediastino são os principais diagnósticos diferenciais. Fisiopatologia: Lesão da parede de víscera oca (úlcera, diverticulite, trauma) ➜ Perfuração da viscera = extravasamento de conteúdo (ác, bile, fezes) ➜ contato direto com o peritônio = peritonite química inicial ➜ Colonização bacteriana secundária = peritonite infecciosa ➜ Resposta inflamatória sistêmica = risco de sepse ➜ Comprometimento hemodinâmico ➜ choque séptico e falência de órgãos. ABDOME AGUDO ISQUÊMICO ou VASCULAR: decorre de interrupção do fluxo sanguíneo intestinal, mais frequentemente por isquemia mesentérica aguda, geralmente causada por êmbolos ou trombos, e menos frequentemente por trombose venosa mesentérica. Pode ocorrer também de forma crônica ou não oclusiva, esta última geralmente associada a estados de baixo débito, como na insuficiência cardíaca. A dor abdominal costuma ser súbita e de intensidade variável, frequentemente associada a distensão abdominal, arritmias, hipotensão e ausência de ruídos hidroaéreos. Os fatores de risco incluem infarto do miocárdio, fibrilação atrial, estenose mitral e aterosclerose. Os exames complementares recomendados incluem testes laboratoriais, radiografias, angio-TC, angiografia e videolaparoscopia. Fisiopatologia: Obstrução ou redução do fluxo sanguíneo mesentérico (trombose, embolia, baixo débito) ➜ Isquemia intestinal (redução de O 2 e nutrientes ➜ Sofrimento celular e dano na mucosa intestinal ➜ aumento da permeabilidade da parede = translocação bacteriana e toxinas ➜ Necrose intestinal = risco de perfuração ➜ Peritonite, sepse Acidose metabólica e Falência de múltiplos órgãos ABDOME AGUDO HEMORRÁGICO é caracterizado por sangramento intra-abdominal não traumático, podendo ter origem esplênica, hepática, renal, adrenal, pancreática, ginecológica ou vascular. Entre as causas mais frequentes estão a gravidez ectópica rota, ruptura do baço, aneurisma de aorta abdominal, cistos ovarianos hemorrágicos e necrose tumoral. Clinicamente, apresenta dor intensa e difusa, rigidez abdominal, dor à descompressão, sinais de choque como hipotensão e taquicardia, mucosas descoradas e queda de hemoglobina. No caso da ruptura da aorta abdominal, a tríade clássica envolve dor abdominal ou em flanco, hipotensão e massa pulsátil. Na gravidez ectópica, o quadro pode incluir dor intensa e hemoperitônio após ruptura, enquanto aneurismas viscerais podem causar sintomas variáveis como icterícia, hemorragia digestiva e colapso hemodinâmico. Os exames de imagem, como ultrassonografia e tomografia, além de testes laboratoriais, são fundamentais para o diagnóstico. Fisiopatologia: Ruptura vascular intra-abdominal (gravidez ectópica rota, aneurisma, trauma) ➜ Sangramento livre na cavidade peritoneal ➜ Irritação peritoneal = dor súbita e intensa ➜ Redução do volume circulante = hipovolemia ➜ Queda da perfusão tecidual = Choque hemorrágico ➜ Hipoperfusão sistêmica = Disfunção de múltiplos órgãos ➜ Risco de morte ABDOME AGUDO OBSTRUTIVO ocorre quando há interrupção do trânsito intestinal, que pode afetar o intestino delgado ou o cólon. As principais causas no delgado são aderências pós-operatórias, hérnias, vólvulos e neoplasias; no cólon, destacam-se neoplasias malignas, volvo do ceco ou sigmoide, diverticulites e colite isquêmica. Clinicamente, manifesta-se com dor abdominal difusa em cólica ou periumbilical, náuseas, vômitos, parada na eliminação de gases e fezes, distensão progressiva do abdome e ruídos hidroaéreos aumentados. Inicialmente, a dor é visceral e intermitente, mas pode tornar-se parietal e contínua conforme a gravidade evolui. O conteúdo do vômito varia conforme o local da obstrução, podendo conter bile ou fezes. Os exames de imagem, especialmente as radiografias e a tomografia, são úteis para identificar distensão de alças e níveis hidroaéreos. Quando há sinais de isquemia intestinal, o quadro pode se complicar com necrose e perfuração. Fisiopatologia: Obstrução do lúmen intestinal (brida, hérnia , tumor, volvo) ➜ Acúmulo de líquido, gás e conteúdo intestinal proximal à obstrução ➜ Distensão progressiva das alças intestinais ➜ Aumento da pressão intraluminal e da parede intestinal ➜ Redução do fluxo venoso e = edema da parede ➜ Compressão dos vasos sanguíneos arteriais = Isquemia = necrose da parede intestinal ➜ Perda da integridade da mucosa = translocação bacteriana ➜ Perfuração intestinal peritonite e sepse. ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO: o quadro clínico costuma incluir febre, dor de início súbito ou insidioso com caráter progressivo, sinais de infecção ou sepse, e achados típicos de peritonite, especialmente nas regiões do epigástrio e mesogástrio. A fisiopatologia envolve a extensão do processo inflamatório ou infeccioso ao peritônio, com alteração do trânsito intestinal. Quando o peritônio visceral é acometido, há paralisia da musculatura lisa e surgimento de íleo paralítico, caracterizado por dor difusa e mal localizada, devido à inervação autonômica. Já a inflamação do peritônio parietal provoca contratura muscular com dor localizada, contínua e intensa, por conta da inervação somática. A evolução para peritonite representa grave deterioração clínica e sinaliza pior prognóstico. As complicações mais comuns incluem peritonite localizada ou difusa, fístulas, abscessos e obstruções. Diagnósticos diferenciais incluem apendicite, colecistite, pancreatite, diverticulite, doenças inflamatórias intestinais, infarto agudo do miocárdio e embolia pulmonar. Fisiopatologia: Inflamação da parede do órgão afetado ➜ Liberação de citocinas inflamatórias e recrutamento de neutrófilos ➜ Edema local + aumento da pressão intraluminal ➜ Proliferação/colonização bacteriana secundária ➜ Obstrução da drenagem venosa e linfática ➜ Compressão dos vasos sanguíneos arteriais = Isquemia = necrose da mucosa ➜ Fragilidade da parede ➜ Perfuração da víscera ➜ Risco de peritonite PRINCIPAIS CAUSAS DE ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO ➔ Apendicite; ➔ Colecistite; ➔ Diverticulite; ➔ Pancreatite; ➔ Colangite aguda supurativa; ➔ Abscesso pancreático; ➔ Adenite mesentérica; ➔ Salpingite aguda; ➔ Pelviperitonite. MECANISMOS DE EVOLUÇÃO (INFLAMATÓRIO → PERFURATIVO) A progressão de um abdome agudo inflamatório para perfuração é uma emergência cirúrgica que requer intervenção imediata. O abdome agudo perfurativo ocorrequando há ruptura de um órgão do órgão (como apêndice, estômago, intestino ou vesícula biliar), levando ao extravasamento de conteúdo intestinal ou biliar para a cavidade peritoneal, resultando em peritonite química ou bacteriana. Os mecanismos de progressão incluem: ➔ Isquemia e Necrose da Parede do Órgão ◆ Aumento a pressão intraluminal → comprometimento da perfusão da parede do órgão → necrose. ◆ A parede enfraquecida pode se romper, liberando conteúdo (fezes, bile, pus) para o peritônio. ◆ Exemplo: Apendicite não tratada = pressão intraluminal excede a capacidade da parede, causando lesões. ➔ Erosão Progressiva da Mucosa ◆ Erosão contínua da mucosa por ácido gástrico e pepsina → atinge camadas mais profundas (muscular e serosa) → profundidade. ◆ Exemplo: Úlcera gástrica ou duodenal perfurante, liberando conteúdo gástrico ácido no peritônio, causando peritonite química. ➔ Infecção e Formação de Abscessos ◆ Inflamação grave → formação de abscessos locais → não drenados → rompimento → pus na cavidade peritoneal. ◆ Exemplo: Diverticulite complicada com abscesso pericólico que perfura. ➔ Aumento da Pressão Intraluminal ◆ Obstruções → acúmulo de secreções → distensão do órgão + aumento da pressão → rompimento da parede comprometida devido inflamação. ◆ Exemplo: Colecistite aguda com obstrução do ducto cístico pode evoluir para vesícula empiematosa e perfuração. ➔ Disseminação de Mediadores Inflamatórios ◆ Liberação de citocinas pró-inflamatórias → agravamento a intensidade local → comprometendo a integridade tecidual. ◆ Exemplo: Pancreatite aguda grave com necrose pancreática pode levar à erosão de estruturas adjacentes, como o duodeno. RESUMO: inflamação localizada -> isquemia e necrose tecidual -> perfuração -> contaminação peritoneal -> peritonite generalizada. Etiologia do Abdômen Agudo Inflamatório: 1. Apendicite: causa mais comum com incidência de 1 por 1000 pessoas por ano. Definida como uma inflamação do apêndice vermiforme e se classifica como “não complicada” ou “complicada”. ➔ Apendicite não complicada: inflamação na ausência de flegão, gangrena, fluido purulento livre ou abscesso. ➔ Apendicite complicada: acompanhada por um flegão periapendicular com ou sem perfuração, gangrena ou abscesso peritiflítico. Complicações podem acontecer e estão diretamente associadas ao tempo de evolução da doença, tais como: feimão (massa inflamatória sem conteúdo purulento localizado na base apendicular), abscessos (o abscesso intra-abdominal (AIA) é uma coleção intra-abdominal purulenta ou de material infectado, geralmente decorrente de uma infecção localizada dentro da cavidade abdominal, podendo ocorrer antes ou após a apendicectomia), peritonite generalizada (a apendicite é uma das principais causas de peritonite, pois a inflamação que acontece no apêndice pode se estender através da cavidade abdominal e atingir o peritônio, principalmente quando ela não é rapidamente tratada e apresenta complicações como ruptura ou formação de abscesso) e pielotrombofebite. 2. Diverticulite: inflamação dos divertículos. Fisiopatologia: obstrução ostial do divertículo por fezes ou restos alimentares, levando a prejuízos na mucosa e posterior isquemia, microperfuração e infecção. Todavia, novos estudos apontam que o estado de inflamação crônica e alterações no microbioma intestinal estão envolvidos no processo patogênico. Epidemiologia: mais comum em pessoas idosas, uma vez que com o passar do tempo a estrutura muscular do intestino grosso tem maior tendência a perder a elasticidade e favorecer a formação dos divertículos. Sua incidência é de cerca de 70% da população entre 80 e 90 anos. Quadro clínico: A dor característica da diverticulite ocorre nos quadrantes inferior, predominantemente no lado esquerdo. O paciente apresenta febre e podem estar presentes sintomas urinários. Complicações : Os quadros de diverticulite com evolução desfavorável estão associados a perfuração, estenose (obstrução), fístulas ou abscessos. 3. Pancreatite: fisiopatologicamente é definida como uma inflamação primariamente estéril do pâncreas, caracterizada por ativação enzimática anormal, causando uma reação inflamatória com edema, dano vascular e morte celular. Principais fatores de risco: doença do cálculo biliar e abuso de álcool, visto que cada um deles é responsável por 30% a 50% dos casos. É mais frequente em pessoas de meia idade, principalmente do sexo masculino. Pessoas com histórico de cálculo biliar, dislipidemias e etilistas. Quadro clínico: Na pancreatite aguda é característica a dor na região epigástrica em faixa, com irradiação dorsal, presença de febre, náuseas e vômitos. É importante pesquisar os sinais de Grey-Turner e Cullen, ambos característicos de sangramento retroperitoneal. O sinal de Cullen, eventualmente presente na pancreatite aguda, é caracterizado por uma coloração escurecida na região periumbilical e pode estar associado ao sinal de Grey-Turner que é caracterizado por equimose em flancos. Complicações: Sepse e disfunção orgânica. Complicações locais: necrose, abscesso, pseudocisto pancreático. 4. Colangite Aguda: tem como fisiopatologia dois fenômenos: a obstrução do trato biliar por um obstáculo, levando à paralisação da circulação entero-hepática da bile e ao aumento da pressão intraductal, que é responsável pela secreção biliar alterada e gera refluxo biliovenoso e biliolinfático. Tal como, a proliferação bacteriana na bile, que normalmente é estéril, uma vez que uma colonização tenha sido vista em indivíduos sem infecção do trato biliar. Epidemiologia: A prevalência de colecistite aguda é no sexo feminino, pessoas de meia idade e a obesidade é um fator relevante. Quadro clínico: Achados comuns: dor contínua no hipocôndrio direito, presença de febre, náuseas e vômitos. Sinal de Murphy também pode estar presente, este sinal é pesquisado realizando uma palpação profunda no ponto cístico (localizado na intersecção da linha hemiclavicular com o rebordo costal direito) e solicitando que o paciente realize uma inspiração profunda. É considerado positivo quando há uma interrupção abrupta do movimento respiratório. Segundo o Guideline de Tóquio de 2018, o diagnóstico definitivo deve preencher 3 critérios: ➔ Sinal local de inflamação (dor, sensibilidade, massa palpável ou sinal de Murphy); ➔ Sinal sistêmico de inflamação (febre, leucocitose ou PCR elevada); ➔ Achados de imagem característicos. Principais complicações: Peritonite; Perfuração; Fístulas; Choque séptico; Abscessos. 5. Doença Inflamatória Pélvica (DIP) : síndrome clínica infamatória e infecciosa, que resulta do avanço de microrganismos da vagina e colo uterino até o trato genital superior. É uma das principais consequências das cervicites. As bactérias mais correlacionadas à DIP são a Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis e Mycoplasma genitalium. Epidemiologia: mais frequente em mulheres jovens com histórico de relação sexual sem proteção adequada. Quadro clínico: defesa abdominal, dor ao exame físico e mobilização do colo uterino, corrimento vaginal, dor em faixa, febre, náuseas e vômito. Complicações mais comuns da DIP: abcessos, adesões, bloqueio das trompas, Síndrome de Fitz-Hugh-Curtis (infamação da cápsula hepática) e peritonite, nos casos em que há disseminação da infecção para a cavidade pélvica. ABDOMEAGUDO PERFURATIVO síndrome dolorosa abdominal grave, com caráter de urgência, de natureza não traumática. Tipicamente é identificado como um quadro álgico intenso, de início súbito, localização difusa, que pode ou não estar associado a sinais de septicemia e/ou choque, ocasionado pela perfuração de vísceras ocas do TGI como o estômago ou intestinos. Dentre as possíveis causas de abdome agudo, destacase como o 3º subtipo, perdendo apenas para os inflamatórios e obstrutivos. Etiologia do abdome agudo perfurativo: As etiologias das causas são diversas. Pode ser desencadeado por complicações de doenças inflamatórias como Síndrome de Crohn, úlceras pépticas, apendicites e divertículos intestinais e/ou colônicos, pela ingesta de corpos estranhos, por neoplasias com alto grau de invasão, por causas infecciosas como salmonelose, citomegalovirose e tuberculose intestinal ou por iatrogenias como procedimentos diagnósticos e terapêuticos. O abdome agudo perfurativo tem como causa mais comum a ruptura de úlceras pépticas gastroduodenais, sendo mais frequente no duodeno do que no estômago. A úlcera duodenal normalmente perfura em região anterior do bulbo duodenal. As úlceras gástricas perfuradas encontram-se normalmente na parede anterior do antro. O quadro clínico cursa com dor abdominal lancinante, em pontada, de localização próxima à víscera perfurada, juntamente a náuseas, vômitos, atitude de imobilização com respiração superficial, podendo ocorrer instabilidade e choque de evolução rápida. A tríade clínica clássica para este acometimento consiste em dor abdominal, taquicardia e rigidez abdominal. Mecanismo anatomopatológico do quadro perfurativo: o mais aceito pressupõe que a partir da lesão da víscera oca de ordem ulcerativa ou inflamatória tem-se, como um dos primeiros sinais semiológicos, a formação do pneumoperitônio que é a presença de gás na cavidade abdominal. A perfuração desencadeia inicialmente uma peritonite regional evoluindo posteriormente para um quadro generalizado, podendo estar associado a uma peritonite química - devido ao extravasamento de secreções digestivas - e/ou uma peritonite de natureza infecciosa, por conta de multiplicação bacteriana. O tempo decorrido do início do quadro até a intervenção médica, os fatores intrínsecos ao individuo como idade, presença de outras comorbidades, estado nutricional, capacidade imunológica/ reserva orgânica ou ainda a localização da perfuração no TGI e a etiologia perfurativa são fatores que interferem diretamente no desfecho clínico. Nas perfurações altas, como nas ulcerações gastroduodenais - principais causas dessa síndrome - a fisiopatologia é principalmente por uma peritonite química devido ao extravasamento de secreções digestivas. Nas perfurações baixas , como na apendicite perfurada, 2ª causa mais frequente, o quadro é de peritonite infecciosa desde o seu início devido à exposição de conteúdo fecal e proliferação da microbiota colônica na cavidade abdominal. Quadro clínico do abdome perfurativo: dor abdominal bastante intensa, do tipo lancinante ou em pontada, abrupta, de evolução rapidamente progressiva, localização imprecisa, irradiação variável, sem fator de melhora. Muitas vezes é associada a um estado de agitação psicomotora - devido ao desconforto abdominal mesmo que em repouso - inapetência e, ocasionalmente, febre, náuseas e/ou vômitos. No exame físico, encontra-se como achados relevantes: defesa abdominal generalizada - clássico sinal de peritonite denominado ‘abdome em tábua’ - dor à descompressão brusca, hipersensibilidade cutânea mesmo à palpação superficial, presunção de pneumoperitônio pelo sinal de Jobert, que é o timpanismo da região de loja hepática, e íleo adinâmico. RECURSOS DIAGNÓSTICOS DO ABDOME AGUDO EXAMES LABORATORIAIS Hemograma Completo ➔ Indicação: Avaliar resposta inflamatória/infecciosa, anemia ou trombocitopenia. ➔ Achados: ◆ Leucocitose com desvio à esquerda: Infecção bacteriana (ex.: apendicite, colecistite). ◆ Leucopenia: Sepse grave ou imunossupressão. ◆ Plaquetopenia: Coagulação intravascular disseminada (CIVD) em sepse. ➔ Vantagem: Ampla disponibilidade, triagem inicial. ➔ Limitação: Inespecífico, requer correlação clínica. Proteína C-Reativa (PCR) ➔ Indicação: Detectar/monitorar processos inflamatórios/infecciosos. ➔ Achados: Elevação significativa em apendicite, diverticulite, pancreatite. ➔ Vantagem: Sensível para inflamação aguda. ➔ Limitação: Inespecífica, pode estar elevada em outras condições. Procalcitonina ➔ Indicação: Diferenciar infecções bacterianas de outras inflamações, avaliar gravidade. ➔ Achados: Níveis elevados sugerem infecção bacteriana sistêmica (ex.: peritonite, sepse). ➔ Vantagem: Útil para guiar antibioticoterapia. ➔ Limitação: Menos acessível, custo maior. Amilase e Lipase ➔ Indicação: Diagnosticar pancreatite aguda em dor epigástrica. ➔ Achados: Elevação (especialmente lipase) é altamente sugestiva de pancreatite. ➔ Vantagem: Alta especificidade para pancreatite. ➔ Limitação: Elevações leves podem ocorrer em outras condições (ex.: obstrução biliar). Lactato Sérico ➔ Indicação: Avaliar hipoperfusão tecidual/isquemia (ex.: isquemia mesentérica). ➔ Achados: Níveis elevados indicam choque, hipoperfusão ou sepse. ➔ Vantagem: Sensível para gravidade sistêmica. ➔ Limitação: Inespecífico, requer contexto clínico. Gasometria Arterial ➔ Indicação: Avaliar equilíbrio ácido-base e oxigenação em sepse ou isquemia. ➔ Achados: ◆ Acidose metabólica: Sepse ou isquemia intestinal. ◆ Hipoxemia: Comprometimento respiratório em sepse grave. ➔ Vantagem: Útil em casos graves. ➔ Limitação: Inespecífica, invasiva. Exame de Urina (EAS) ➔ Indicação: Identificar infecção urinária ou litíase como causa de dor abdominal. ➔ Achados: ◆ Piúria/bacteriúria: Infecção urinária (ex.: pielonefrite). ◆ Hematúria: Litíase urinária. ➔ Vantagem: Simples, diferencia causas urológicas. ➔ Limitação: Requer bacterioscopia/cultura para confirmação. Beta-hCG ➔ Indicação: Diagnosticar gravidez ectópica em mulheres com dor abdominal. ➔ Achados: Níveis elevados sugerem gravidez ectópica. ➔ Vantagem: Essencial em mulheres em idade fértil. ➔ Limitação: Restrito a causas ginecológicas. Eletrólitos (ex.: Potássio, Cálcio) ➔ Indicação: Avaliar desequilíbrios em diarreia, obstrução (potássio) ou pancreatite (cálcio). ➔ Achados: ➔ Hipopotassemia: Diarreia, obstrução. ➔ Hipocalcemia: Pancreatite aguda. ➔ Vantagem: Orienta reposição eletrolítica. ➔ Limitação: Complementar, não diagnóstico primário. Escórias Nitrogenadas (Ureia, Creatinina) ➔ Indicação: Avaliar desidratação ou doença renal preexistente. ➔ Achados: Elevação sugere desidratação ou insuficiência renal. ➔ Vantagem: Útil em contexto de comprometimento sistêmico. ➔ Limitação: Inespecífica. Glicemia ➔ Indicação: Detectar hiperglicemia em inflamações (ex.: pancreatite) ou diabetes descompensado. ➔ Achados: Elevada em processos inflamatórios ou diabetes. ➔ Vantagem: Simples, auxilia manejo metabólico. ➔ Limitação: Inespecífica, requer contexto. Nota: A escolha dos exames deve ser guiada por raciocínio clínico, correlacionando achados com mecanismos fisiopatológicos para evitar atrasos terapêuticos. EXAMES DE IMAGEM Raio-X Abdominal ➔ Indicação: Avaliar abdômen agudo obstrutivo (ex.: níveis hidroaéreos, distensão de alças) e perfurativo (ex.: pneumoperitônio).➔ Achados: Pneumoperitônio, níveis hidroaéreos, aerobilia, cálculos ou corpos estranhos. ➔ Limitação: Menos detalhado, usado como triagem inicial. Tomografia Computadorizada (TC) de Abdome ➔ Indicação: Padrão ouro para diagnóstico detalhado em abdômen agudo, especialmente em casos incertos, obstrutivos ou perfurativos. ➔ Achados: Apendicite, diverticulite, pancreatite, perfuração (ar extraluminal), isquemia. ➔ Vantagem: Alta sensibilidade/especificidade; contraste opcional. Nota: Raio-X é útil na triagem inicial, mas TC é preferida para confirmação diagnóstica devido à maior precisão. Ultrassonografia Abdominal ➔ Indicação: Avaliação inicial de órgãos sólidos em abdômen agudo inflamatório (ex.: colecistite, apendicite) ou para detectar líquido livre (ex.: perfuração, sangramento). ➔ Achados: Colecistite (vesícula espessada, cálculos), apendicite (apêndice dilatado, não compressível), líquido livre. ➔ Vantagem: Não invasiva, sem radiação, acessível em emergências. Limitação: Dependente do operador, menos eficaz em obesos ou gás intestinal. Ultrassonografia Transvaginal ➔ Indicação: Avaliar causas ginecológicas de abdômen agudo em mulheres (ex.: gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica). ➔ Achados: Gravidez ectópica (massa anexial, ausência de saco gestacional intrauterino), DIP (espessamento tubário, líquido pélvico). ➔ Vantagem: Alta sensibilidade para patologias pélvicas. ➔ Limitação: Restrita a estruturas pélvicas, não avalia outros órgãos abdominais. Ressonância Magnética (RM) ➔ Indicação: Uso limitado, indicada em pancreatite com icterícia (colangiopancreatografia por RM) ou colangite com suspeita de litíase biliar quando ultrassom é inconclusivo. ➔ Achados: Estreitamentos biliopancreáticos, litíase biliar, pancreatite. ➔ Vantagem: Detalhamento de vias biliares sem radiação. ➔ Limitação: Menos prática em emergências, custo elevado, pouca vantagem sobre TC. Arteriografia ➔ Indicação: Diagnóstico de abdômen agudo vascular (ex.: isquemia mesentérica oclusiva/não oclusiva) ou hemorragias (ex.: ruptura de pseudoaneurisma, diverticulite hemorrágica). ➔ Achados: Identifica obstruções vasculares, pontos de sangramento; permite intervenções (ex.: embolização, trombolíticos). ➔ Vantagem: Diagnóstico e terapia simultâneos em casos vasculares. ➔ Limitação: Invasiva, requer equipe especializada, não é exame inicial. Punção Abdominal ➔ Indicação: Detectar secreção purulenta ou líquidos entéricos em abdômen agudo perfurativo (ex.: peritonite). ➔ Achados: Líquido purulento/entérico confirma infecção/perfuração. ➔ Vantagem: Rápida, pode orientar conduta cirúrgica. ➔ Limitação: Alto índice de falso-negativos, risco de lesão intestinal, menos usada atualmente. Videolaparoscopia Diagnóstica ➔ Indicação: Casos de abdômen agudo sem diagnóstico após exames não invasivos; permite diagnóstico e tratamento. ➔ Achados: Identifica apendicite, perfurações, aderências, etc.; possibilita intervenções (ex.: apendicectomia). ➔ Vantagem: Evita laparotomias desnecessárias, minimamente invasiva. ➔ Limitação: Requer anestesia geral e equipe cirúrgica CONDUTAS TERAPÊUTICAS DO ABDOME AGUDO ★ Abdome hemorrágico = cirúrgico ★ abdome inflamatório sempre vai ter antibiótico ➔ abscesso = drenagem ➔ diverticulite = clínico se tiver abscesso = drenagem e lavagem (pode ter a necessidade de 2º look) ➔ isquemia = arteriografias = cirúrgico ➔ Colecistite = cirúrgico ➔ apendicite = às vezes clínico às vezes cirúrgico (videoscopia exceto se tiver pus = aberta) ➔ peritonite graves = curativos a vácuo e necessidade de múltiplas cirurgias ★ Abdome perfurativo = sempre cirúrgico ★ Abdome obstrutivo = depende se for parcial pode se resolver sozinha (fecaloma) mas o mais comum = cirúrgico ABDOME AGUDO PERFURATIVO O abdome agudo perfurativo corresponde a um quadro de dor abdominal súbita, intensa e de gravidade crescente devido à perfuração de vísceras ocas (estômago, intestino delgado, cólon, ureteres, bexiga). As etiologias principais desse quadro incluem, úlceras gastroduodenais, diverticulites, lesões iatrogênicas e neoplasias. As principais causas de dor abdominal de origem perfurativa envolvem a liberação de conteúdo intraluminal na cavidade peritoneal, obstrução intestinal (intrínseca ou extrínseca) e a perda direta da integridade da parede intestinal, não decorrente de corpos estranhos. Como exemplos, pode-se citar as lesões ocasionadas por úlcera péptica e doença de Crohn. A peritonite localizada é comumente relatada em pacientes com abdome agudo perfurativo, visto que os episódios etiológicos envolvem a liberação de conteúdo luminal, tornando suscetível a ocorrência de uma irritação e subsequente contaminação peritoneal. Com isso, a perfusão abdominal pode ser comprometida, apresentando uma alteração no fluxo sanguíneo da mucosa seguida de um aumento em sua permeabilidade e translocação bacteriana, além de promover o desenvolvimento de futuras hérnias na parede abdominal, hipoperfusão de órgãos viscerais e isquemia. A abordagem diagnóstica inicial do abdome agudo perfurativo, assim como de outras categorias de abdome agudo, é baseada na avaliação clínica. No entanto, não se restringe apenas a ela, tornando-se imprescindível a realização de exames complementares para a confirmação diagnóstica dos sintomas. Exemplos incluem exames de imagem, de urina e sanguíneos. É recomendada a realização de uma radiografia simples, de modo a identificar uma suspeita de lesão perfurativa abdominal e fornecer uma visualização rápida de ar intra-abdominal livre, ocasionada pela perfuração de vísceras ocas. Devido ao fato das radiografias simples serem incapazes de delinear o local da perfuração, faz-se necessária a obtenção de imagens através de uma TC com contraste. O tratamento desta patologia consiste em antibióticos e fluidos intravenosos. Uma abordagem cirúrgica deve ser considerada na maioria das ocorrências de perfuração, principalmente aquelas acompanhadas de sepse e peritonite. Em casos de apendicite aguda, úlcera péptica e colecistite aguda, a abordagem laparoscópica é tão segura e eficaz quanto uma cirurgia aberta. ABDOME AGUDO ISQUÊMICO As características do abdome agudo isquêmico são dor abdominal não traumática, de caráter súbito e de intensidade variável, que ocorre devido a isquemia mesentérica ou intestinal, a qual gera uma interrupção do fornecimento de sangue para porções variáveis do intestino delgado. Este processo, se não tratado de forma adequada, evoluirá para necrose intestinal. A isquemia mesentérica pode ser aguda ou crônica. No caso da aguda, as três principais síndromes são a oclusão da artéria mesentérica superior por êmbolo (50% dos casos) ou trombo (25%), trombose da veia mesentérica superior (menos de 10% dos casos) e isquemia mesentérica não-oclusiva (20%). Vale ressaltar que a clínica da isquemia mesentérica geralmente se apresenta como dor abdominal desproporcional ao exame físico, além de acometer mais o sexo feminino, representando cerca de 70% dos pacientes. A embolia arterial mesentérica aguda é a causa mais comum. Os êmbolos são decorrentes de trombos do átrio esquerdo ou do ventrículo esquerdo, podendo ser provenientes também das valvas cardíacas ou da aorta proximal. O infarto agudo do miocárdio, fibrilação atrial e estenose mitral são os fatores de risco. No caso da trombose arterial mesentérica aguda,a principal causa é a aterosclerose pré-existente. Na isquemia mesentérica aguda não oclusiva, a principal etiologia é a insuficiência cardíaca crônica (ICC). Por fim, a isquemia mesentérica crônica ocorre devido a episódios constantes de hipoperfusão. A tríade clínica dessa manifestação é a dor abdominal pós-prandial, aversão a comida e perda de peso . O diagnóstico da isquemia mesentérica depende dos exames de imagem, já que os exames laboratoriais são inespecíficos. A primeira escolha é a tomografia computadorizada, porém a angiografia é o exame padrão ouro dessa síndrome. Nesse exame, pode-se identificar oclusão abrupta da artéria mesentérica superior e irregularidades nos ramos intestinais, por exemplo. O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico: O tratamento clínico consiste na monitorização dos sinais vitais, reposição volêmica individualizada, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, analgesia, antibiótico venoso de amplo espectro, anticoagulantes e suspensão de drogas vasoconstritoras. Já o tratamento cirúrgico é indicado nos casos de sinais de irritação peritoneal, sinais de infarto intestinal pelos exames de imagem e em casos de dúvida diagnóstica ABDOME AGUDO HEMORRÁGICO O abdome agudo hemorrágico é definido como hemorragia intra-abdominal de causa não traumática. As duas razões mais triviais de sangramento abdominal espontâneo em mulheres em idade fértil são a ruptura de cisto hemorrágico ou a ruptura de uma gravidez ectópica. O quadro clínico de maneira geral é de dor intensa e difusa, rigidez e dor à descompressão. Na ruptura de artéria aorta abdominal (AAA) o indivíduo cursa com dor abdominal ou no flanco, hipotensão e massa abdominal pulsátil, essa é a tríade clássica. Mas podem incluir abdominalgia ou nas costas e manifestações abdominais vagos e inespecíficas. Já na gestação ectópica (GE), a gestante pode apresentar sangramento vaginal e dor abdominal. Caso tenha ruptura da gravidez ectópica pode acentuar o hemoperitônio e intensa dor generalizada por todo o abdome. Ao exame físico tem-se sinais de choque hipovolêmico e desconforto ao toque. Os pacientes podem ser assintomáticos no Aneurisma de Artéria Esplênica (AAEs). Entretanto, quando há presença de sintomas, os mais comuns incluem massa abdominal pulsátil, dor abdominal no quadrante superior esquerdo e até choque hipotensivo secundário se caso houver ruptura desse aneurisma. A apresentação clínica dos aneurismas de artéria hepática (AAH) podem não perdurar com os sintomas por longo tempo. As manifestações clínicas podem não ser específicas, assim como o exame físico, em especial nos casos em que não existe repercussão hemodinâmica. Todavia, alguns pacientes apresentam massas abdominais, icterícia, hipovolemia e choques secundários com sangramento gastrointestinal ou ruptura. Ainda, os aneurismas de artéria mesentérica superior, ao contrário dos outros aneurismas, são sintomáticos em mais de 90% dos casos. O quadro é composto por dor abdominal associada a sangramento gastrointestinal, assim como náuseas, vômitos e febre. O diagnóstico de sangramento abdominal espontâneo é fundamentado em achados radiológicos, já que sua apresentação clínica é inespecífica. Vale informar que, devido à grande gama do abdome agudo hemorrágico, o tratamento será majoritariamente definido conforme a apresentação clínica do paciente. Cabe ao médico intervir, seja de forma clínica ou cirúrgica.. Nos casos de aneurismas, por existir risco de ruptura, todos devem ser tratados, independente do tamanho ou da manifestação. Porém, a terapêutica deve ser prescrita individualmente, considerando as manifestações clínicas, etiologias e anatômicas. ABDOME AGUDO OBSTRUTIVO O abdome agudo obstrutivo é caracterizado pela interrupção do trânsito intestinal, culminando em quadro clínico com dores abdominais difusas do tipo cólica ou peri umbilicais, juntamente com náuseas, vômitos, parada de eliminação de flatos e fezes e distensão abdominal progressiva. A obstrução intestinal aguda geralmente começa com dor visceral vaga e intermitente com progressão posterior para dor parietal, que é aguda e de localização mais discreta. A característica do vômito depende do local da obstrução, podendo evoluir de conteúdo gástrico, a bile, chegando até o aspecto fecalóide. A incidência do abdome agudo obstrutivo varia de 11% a 24% dentre as causas de dor abdominal admitidas na urgência. Suas causas podem ser divididas em baixas e altas. As obstruções altas correspondem ao intestino delgado e, as baixas, ao cólon No intestino delgado, as principais etiologias são as aderências pós-operatórias, outras causas incluem hérnia, volvo, intussuscepção, fecaloma, corpo estranho, neoplasia, doença de chron. No jejuno e no íleo, as lesões obstrutivas mais comuns são provenientes de doença maligna, volvo, aderências e intussuscepção. No cólon, as causas mais comuns de obstrução são doenças malignas, volvo de ceco, volvo de sigmóide, diverticulite e colite isquêmica. Um exame físico padronizado associado a radiografia simples de abdome ainda são utilizados como conduta de primeira linha na suspeita de obstrução, porém seu valor diagnóstico é fraco e limitado a complementação da avaliação clínica. A ultrassonografia tem mais precisão na detecção da oclusão, mas ambos exames têm limitações na identificação da localização, etiologia ou gravidade da obstrução. Nesse sentido, o melhor exame de escolha é a tomografia computadorizada pois ela é mais fidedigna na hora de detectar uma causa urgente de obstrução ou fornecer informações sobre diagnósticos alternativos. O tratamento é baseado na correção hidroeletrolítica, ressuscitação volêmica, além de jejum e descompressão do trânsito intestinal por sonda gástrica, durante 24 a 48 horas, até a melhora do caso. A cabeceira do leito do paciente deve ser posicionada a pelo menos 30 graus para evitar aspiração. De acordo com as diretrizes de Bolonha para diagnóstico e tratamento da obstrução intestinal, a terapia não operatória deve ser limitada a 3 dias, quando um estudo de contraste solúvel em água ou cirurgia é recomendado. Se houver suspeita de obstrução por hérnias, brida, volvo de sigmóide, intussuscepção, neoplasias e isquemia intestinal, a cirurgia deve ser considerada. PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES DO ABDOME AGUDO ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO Etiologias principais: apendicite, colecistite, diverticulite, pancreatite, DIP. Complicações principais: ➔ Peritonite (secundária à progressão da inflamação ou perfuração); ➔ Perfuração visceral (ex: apêndice, vesícula, cólon sigmoide); ➔ Abscessos intra-abdominais (ex: periapendiculares, pericolecísticos); ➔ Fístulas intestinais ou colecistocólicas (sobretudo na diverticulite complicada); ➔ Choque séptico (em infecções graves não contidas); ➔ Gangrena apendicular ou colecistite enfisematosa; ➔ Flegmão inflamatório (massa inflamatória mal delimitada); ➔ Retardo diagnóstico → aumento da morbimortalidade. ABDOME AGUDO OBSTRUTIVO Etiologias principais: bridas (faixas de tecido cicatricial que se formam entre órgãos e tecidos internos, geralmente após uma cirurgia abdominal ou inflamação), hérnias,tumores, volvo (uma torção de uma parte do intestino sobre si mesma, causando obstrução intestinal e, potencialmente, comprometimento do fluxo sanguíneo), fecaloma. Complicações principais: ➔ Sofrimento de alça intestinal (isquemia por distensão e compressão vascular); ➔ Perfuração intestinal (por aumento da pressão intraluminal ou necrose) ➔ Peritonite secundária à perfuração; ➔ Abscessos ou fístulas (em quadros arrastados); ➔ Distúrbios hidroeletrolíticos graves (por vômitos persistentes e desidratação); ➔ Sepse e deterioração clínica se não tratado em tempo hábil. ABDOME AGUDO PERFURATIVO Etiologias principais: úlcera péptica, apendicite/diverticulite perfurada, tumores perfurados. Complicações principais: ➔ Peritonite difusa grave (quadro clínico fulminante); ➔ Extravasamento de conteúdo gastrointestinal para a cavidade peritoneal; ➔ Choque hipovolêmico ou séptico; ➔ Sepse e falência orgânica múltipla (FOM); ➔ Pneumoperitônio (sinal radiológico e clínico de perfuração); ➔ Recidiva (especialmente em úlceras pépticas mal tratadas); ➔ Complicações pós-operatórias: fístulas, abscessos residuais, deiscência. ABDOME AGUDO VASCULAR (ISQUÊMICO) Etiologias principais: trombose/embolia mesentérica, colite isquêmica. Complicações principais: ➔ Infarto intestinal transmural (necrose de alça); ➔ Perfuração secundária à necrose; ➔ Peritonite tardia; ➔ Sepse de origem intestinal; ➔ Pneumoperitônio e líquido livre (em fases avançadas); ➔ Alta letalidade se não reconhecido precocemente. Abdome Agudo Hemorrágico: Etiologias principais: gravidez ectópica rota, aneurisma roto, cisto ovariano hemorrágico, tumores sangrantes. Complicações principais: ➔ Hemorragia intra-abdominal maciça; ➔ Choque hipovolêmico (por perda sanguínea aguda); ➔ Anemia aguda severa; ➔ Hemoperitônio (acúmulo de sangue no abdômen); ➔ Hemorragia retroperitoneal (em aneurismas abdominais); ➔ Morte súbita em casos não tratados rapidamente. APENDICITE Apendicite: causa mais comum com incidência de 1 a 1000 pessoas por ano. Definida como uma inflamação do apêndice vermiforme e se classifica como “não complicada” ou “complicada”. ➔ Apendicite não complicada: inflamação na ausência de flegão, gangrena, fluido purulento livre ou abscesso. ➔ Apendicite complicada: acompanhada por um flegão periapendicular com ou sem perfuração, gangrena ou abscesso peritiflítico. Definição e epidemiologia A apendicite aguda se refere a uma inflamação do apêndice. A apendicite é a emergência cirúrgica mais comum que envolve o abdome. Embora a apendicite ocorra mais comumente em adultos jovens, pode desenvolver-se em qualquer idade. A prevalência de apendicite aguda durante a vida é de aproximadamente 7% Fisiopatologia A obstrução do apêndice por fecalito, que parece ser o evento usual de estímulo, é encontrada em menos de 30% dos pacientes. Outras causas de obstrução incluem ulceração do orifício apendiceal, hiperplasia linfóide, tumor (p. ex., carcinoide; Capítulo 240), espessamento de bário e ascaridíase. A obstrução bloqueia a produção contínua de muco pelo apêndice, resultando em distensão e subsequente isquemia da mucosa. Esse processo permite a invasão por bactérias intraluminais, infecção e inflamação. A persistência de obstrução e inflamação pode resultar em perfuração, peritonite e formação de abscesso. ➔ Perfuração: obstrução-> líquido, bactéria-> distensão, inflamação e infecção, vai começar uma maior pressão intraluminal (pelo líquido também) -> aumenta pressão-> vai começar compressão venosa, compressão linfática da região-> aumenta o edema o que + ainda mais pressão- > isquemia na região. Com a isquemia a parede da mucosa do apêndice se torna muito fraca, de modo que tem uma perfuração do lumen ao peritônio=líquido, bactérias e infecção se espalha- dor abdominal muito intensa, peritonite, ficam quietos, sem se mexer e nao deixa fazer exame físico, e abdômen rígido em tábua. Se ar vazar ao peritônio= pneumoperitônio. ➔ Abscesso - depois da perfuração, as bactérias vão ao peritônio e formam um abscesso logo fora do lúmen - área de colonização de bactéria. A pessoa ainda tem aquela dor no quadrante inferior direito, e se o abscesso for grande suficiente você pode até palpar, além disso as bactérias vão liberar citocinas e vai ter ativação do sistema imune- leucocitose e febre. O abscesso é identificado por imagem Os mecanismos de obstrução da luz apendicular variam com a idade: ➔ Jovens: predomina a hiperplasia linfóide secundária às causas infecciosas. ➔ Idosos: as fecalomas e as obstruções por tumores como carcinóide, adenocarcinoma e mucocele são mais frequentes. Tempo necessário para perfurar o apêndice é variável: ➔ Nas primeiras 24 horas dos sintomas: 90% das apendicites apresentam inflamação e até necrose, mas não perfuração. ➔ Sintomatologia > de 48 horas, febre alta ou leucocitose > 15 mil: a possibilidade de perfuração é > 50%. Microbiota: varia com a fase da apendicite: ➔ Fase inicial: predominam bactérias aeróbias. ➔ Fases avançadas, com necrose e perfuração: microbiota mista. Nessa situação, são comuns a Escherichia coli, Bacteroides fragilis e ➔ Pseudomonas, o que torna mandatória a antibioticoterapia de amplo espectro, incluindo cobertura para anaeróbios. RESUMO: Obstrução da luz (mecânica: sementes, fezes, fibras) ➜ proliferação bacteriana e acúmulo de secreções ➜ aumento da pressão intraluminal + distensão + compressão venosa + edema = dor região umbilical ➜ Atinge a serosa e o peritônio = dor na fossa ilíaca direita ➜ surge líquido purulento e seroso) ➜ Compressão arterial = isquemia = necrose ➜ Liberação de toxinas = febre e leucocitose ➜ bloqueio da região inflamada ➜ abscesso, peritonite necrose e perfuração Manifestações clínicas; Mais de 95% dos pacientes com apendicite têm dor abdominal, mas apenas 50% a 60% apresentam os sintomas clássicos: quadro agudo de dor periumbilical, frequentemente com náuseas e vômitos e, posteriormente, localização no quadrante inferior direito. A posição do apêndice tem implicações importantes para a localização da dor, em região suprapúbica ou no quadrante superior direito. Anorexia é quase universal, náuseas são frequentes, mas vômito é um sintoma incomum. A apendicite aguda ocorre com sintomas abdominais inespecíficos e sinais em pacientes idosos e em doentes que estão imunossuprimidos, por causa da utilização de corticosteroides, transplante de órgãos ou diabetes melito. Em pacientes idosos, o diagnóstico não é suspeitado em 25% das vezes. Adultos com mais de 50 anos apresentam taxa de perfuração superior a 50%, com abscessos intra-abdominais em um terço. Sinais de perfuração incluem irritação peritoneal, febre e dor abdominal crescente. Diagnóstico; Um amplo diagnóstico diferencial pode ser estreitado por meio de exames, que, em geral, incluem contagem sanguínea completa, eletrólitos do soro e testes para função renal, com adição de níveis de amilase e lipase quando ocorre suspeita de pancreatite e enzimas do fígado (níveis de aminotransferase e fosfatase alcalina) e nível de bilirrubina quando as condições do fígado ou da vesícula biliar são suspeitas. Uma contagem elevada de leucócitos, em geral variando de 12.000 a 18.000/mm3, é comum em apendicite aguda, mas pode não ser observada no início de seu curso; a presença e o grau de elevaçãonão ajudam a identificar uma apendicite complicada ★ Etiologia mais comum: germes gram-negativos aeróbios ex escherichia coli de comunidade ANTIBIÓTICOS CEFALOSPORINAS : As cefalosporinas, inicialmente eficazes apenas contra bactérias Gram-positivas, passaram a ter ação também contra Gram-negativas com o avanço das gerações — quanto maior a geração, maior essa atividade. Sua estrutura varia conforme as substituições nos radicais R1 e R2, e apresentam maior nefrotoxicidade em comparação às penicilinas. Existem várias gerações, de acordo com seu espectro de ação, que evolui desde uma maior eficácia contra bactérias gram-positivas nas primeiras gerações até uma maior eficácia contra bactérias gram-negativas nas gerações mais recentes. ➔ Cefalosporinas de 1ª geração: As cefalosporinas de primeira geração são uma classe de antibióticos beta-lactâmicos comumente utilizados devido ao seu espectro de atividade eficaz contra várias bactérias gram-positivas e alguns bacilos gram-negativos. ◆ Elas foram desenvolvidas inicialmente como alternativas à penicilina, especialmente em situações onde a resistência à penicilina, como a produção de penicilinase por estafilococos, é uma preocupação. ◆ São ativas contra a maioria dos cocos gram-positivos, incluindo Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA) e Streptococcus spp. Têm eficácia contra Proteus mirabilis, Escherichia coli, e Klebsiella pneumoniae, que são causas comuns de infecções do trato urinário e pneumonia. São geralmente ineficazes contra enterococos, Listeria monocytogenes, Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Streptococcus pneumoniae resistente à penicilina, e vários bacilos gram-negativos, como Proteus vulgaris, Enterobacter, Serratia, Acinetobacter spp., e Pseudomonas aeruginosa. ➔ Cefalosporinas de 2ª geração: As cefalosporinas de segunda geração são uma classe de antibióticos beta-lactâmicos que oferecem uma cobertura antimicrobiana mais ampla em comparação com as de primeira geração, especialmente contra certos bacilos gram-negativos e algumas espécies anaeróbicas. ◆ São um pouco menos ativas contra estafilococos comparadas às de primeira geração. Demonstram maior eficácia contra bacilos gram-negativos, especialmente Haemophilus influenzae, Enterobacter aerogenes, e algumas espécies de Neisseria ◆ Apresentam resistência a um maior número de betalactamases comparado às cefalosporinas de primeira geração. No entanto, a resistência ao grupo Bacteroides fragilis pode variar, o que limita a eficácia em algumas infecções. Podem causar diarreia, elevação das enzimas hepáticas, reações de hipersensibilidade e, raramente, agranulocitose ou nefrite intersticial. ➔ Cefalosporinas de 3ª geração: As cefalosporinas de terceira geração são essenciais no tratamento de infecções por bacilos gram-negativos, como Enterobacterales e Serratia marcescens. Ceftriaxona e cefotaxima são preferidas para tratar meningite, enquanto ceftazidima é eficaz contra Pseudomonas aeruginosa, embora a resistência a essa última seja crescente. ◆ Essas cefalosporinas são menos ativas contra gram-positivos, e seu uso pode levar ao desenvolvimento de resistência antimicrobiana, exigindo cautela, especialmente em infecções graves. Além disso, o uso dessas cefalosporinas pode resultar em superinfecções ou complicações, como a pseudolitíase biliar associada à ceftriaxona. ➔ Cefalosporinas de 4ª geração: A cefepima, a única cefalosporina de quarta geração, apresenta um espectro de ação ampliado. Sua estrutura permite uma melhor penetração em bactérias gram-negativas e uma menor afinidade por certas beta-lactamases cromossômicas em comparação com as cefalosporinas de terceira geração. Ela é eficaz contra pneumococos e estafilococos sensíveis à meticilina, além de ser ativa contra Enterobacterales, Neisseria e H. influenzae, com maior eficácia contra organismos com beta-lactamase AmpC, como Enterobacter e Citrobacter. ◆ A cefepima também é potente contra Pseudomonas aeruginosa, muitas vezes superior à ceftazidima, e deve ser usada em combinação com aminoglicosídeos para infecções graves quando as suscetibilidades são desconhecidas. É indicada para tratar meningite por bacilos gram-negativos, mas não para profilaxia cirúrgica. ◆ Embora ofereça vantagens sobre as cefalosporinas de terceira geração, como melhor atividade contra alguns organismos resistentes, a cefepima foi associada a preocupações sobre segurança, incluindo uma possível elevação na mortalidade, embora a FDA tenha confirmado sua adequação para uso clínico. O tratamento pode levar a superinfecções e, em casos de insuficiência renal, a risco de convulsões se a dose não for ajustada. ➔ Cefalosporinas de 5ª geração: As cefalosporinas de quinta geração, como ceftarolina e ceftobiprole, têm características distintas em relação às gerações anteriores. ◆ Ceftarolina é eficaz contra estafilococos resistentes à meticilina (MRSA) e Streptococcus pneumoniae com resistência intermediária à penicilina. Não atua contra enterococos, Pseudomonas aeruginosa ou Acinetobacter baumannii. ◆ Estudos mostram que é tão eficaz quanto a vancomicina e aztreonam para infecções complicadas da pele e tecidos moles, e para pneumonia adquirida na comunidade. Sua eficácia para pneumonia por MRSA adquirida em hospital ainda não está completamente estabelecida. Ceftobiprole é eficaz contra MRSA e tem atividade contra Enterobacterales similar à ceftazidima e cefepima. Também apresenta atividade contra enterococos, embora isso não tenha sido amplamente estudado. Mecanismo de ação: A s cefalosporinas atuam como antibióticos β-lactâmicos que inibem a síntese da parede celular bacteriana. Elas se ligam às proteínas ligadoras de penicilina (PBPs), principalmente à transpeptidase, enzima responsável pelas ligações cruzadas entre os peptídeos da camada de peptidoglicano. Essa inibição impede a formação adequada da parede celular, comprometendo sua integridade. O efeito bactericida decorre também da ativação de enzimas autolíticas, normalmente reguladas por inibidores, que ao serem desinibidas promovem lise da célula bacteriana. Cefalotina: A cefalotina é um antibacteriano da classe das cefalosporinas, com ação bactericida em doses adequadas. É indicada para o tratamento de diversas infecções, incluindo pulmonar, de pele e tecidos moles, urinária, sanguínea, gastrintestinal, meningite, articulações e ossos, além de ser utilizada na prevenção de infecções cirúrgicas. Suas principais vias de administração são intramuscular (IM) e intravenosa (EV). Posologia: 80 a 150mg/kg/dia, divididos em doses a cada 4 ou 6 horas. EFEITOS ADVERSOS ➔ Hipersensibilidade: erupções cutâneas maculopapulosas, urticária, reações tipo doença do soro, anafilaxia, eosinofilia e febre medicamentosa — mais comuns em pacientes alérgicos, especialmente à penicilina. ➔ Alterações hematológicas: neutropenia, trombocitopenia e anemia hemolítica. ➔ Alterações hepáticas: elevação transitória da TGO e da fosfatase alcalina. ➔ Alterações renais: aumento da ureia sanguínea (BUN) e redução do clearance de creatinina, especialmente em pacientes com insuficiência renal prévia. ➔ Reações locais: dor, enduração, sensibilidade e aumento da temperaturaem aplicações IM repetidas; tromboflebite em infusões EV contínuas >6g por mais de 3 dias. ➔ Gastrointestinais: colite pseudomembranosa (durante ou após o tratamento), diarreia, náuseas e vômitos (raros). Ceftriaxona : A ceftriaxona é uma cefalosporina de terceira geração muito usada atualmente. É uma droga que age inibindo a síntese da parede microbiana, possuindo amplo espectro de ação contra bactérias gram-negativas. Possui meia-vida elevada, alcançando altos picos séricos. É indicada para gonorreia endocervical e uretral não complicada, infecções articulares, da pele e tecidos moles, intra-abdominais, ósseas, pélvicas em mulheres, profilaxia da infecção periorbitária, urinárias, meningite, pneumonia e septicemia. A ceftriaxona em geral é um antibiótico bem tolerado, com estabilidade relativa na presença de beta-lactamases e alta afinidade pelas proteínas. Posologia : IV ou IM, 500 mg ou 1 g, 1-2 g a cada 12h ou 1 vez ao dia, máximo 4 g/dia. EFEITOS ADVERSOS Os principais efeitos adversos são os distúrbios gastrointestinais, as alterações hematológicas e as reações cutâneas. ➔ Os distúrbios gastrointestinais incluem diarreia, náuseas, vômitos, estomatite e glossite. ➔ As alterações hematológicas incluem eosinofilia, leucopenia, granulocitopenia, anemia hemolítica e trombocitopenia. ➔ As reações cutâneas são: exantema, dermatite alérgica, prurido, urticária, edema e eritema multiforme. ➔ Existem ainda os efeitos colaterais raros, que são cefaleia, tontura, elevação das enzimas hepáticas, sedimento sintomático de ceftriaxona cálcica na vesícula biliar, oligúria, aumento da creatinina sérica, micose do trato genital, tremores e reações anafiláticas. Metronidazol: classe dos nitroimidazólicos. Utilizado como agente antiparasitário e antibiótico para organismos anaeróbios. É administrado como uma pró-droga, ou seja, precisa ser metabolizada (modificada) para conseguir agir, sendo que essa metabolização ocorre de maneira local no sítio de ação da droga (não é a metabolização que ocorre no fígado). Mecanismo de ação: Esse medicamento age de forma local através do dano oxidativo ao DNA celular, que ocorre quando elétrons são doados pelos microrganismos susceptíveis para a molécula de metronidazol, havendo a liberação de radicais livres. A droga ativa depois é metabolizada novamente na pró-droga (inativa) em um processo de reciclagem. O O2 compete como receptor de elétrons com o metronidazol e aumenta a reciclagem da droga ativa na pró-droga, o que explica a resistência dos organismos aeróbicos a esse fármaco bem como o desenvolvimento de resistência por organismos anaeróbios capazes de aumentar a concentração tecidual de oxigênio. Espectro de ação: O espectro de ação do metronidazol contra bacilos gram-positivos é variável e a droga não possui efeito sobre a maioria das seguintes bactérias: Actinomyces spp, Cutibacterium acne, Propionibacterium propionica e Lactobacillus. Essa resistência dos lactobacilos à ação do metronidazol é o que torna possível seu uso para tratar infecções vaginais, que são normalmente causadas a partir do desequilíbrio entre patógenos e a microbiota vaginal, essa última formada principalmente de lactobacilos. Indicações : Para o tratamento de amebíase e tricomoníase, assim como contra infecções por bactérias anaeróbicas em diversos sítios, incluindo endocardites, infecções no SNC e infecções ósseas. O metronidazol também pode ser utilizado em conjunto com outras drogas no tratamento da Doença Inflamatória Pélvica (DIP). Uso off-label: indicado em infecções leves a moderadas por C. difficile, no tratamento da Doença de Crohn e da infecção por H. pylori, para profilaxia em cirurgias colorretais ou em casos de esvaziamento uterino, seja em casos de abortamento voluntário ou perda gestacional, entre outras. Não é incomum falha no tratamento contra C. difficile com o uso de metronidazol e, por isso, nos casos graves, é indicado realizar tratamento oral com vancomicina ou fidaxomicina. Seu uso para tratamento da giardíase também é off-label. EFEITOS ADVERSOS ➔ Metronidazol oral: Os efeitos adversos gastrointestinais são os mais comuns e incluem náuseas, vômitos, desconforto abdominal, boca seca, gosto metálico e diarreia ou constipação. Outros efeitos incluem cefaleia e, raramente, pancreatite e hepatite. Entre os efeitos no trato geniturinário, destaca-se a coloração vermelho/marrom escura da urina. ➔ O metronidazol possui potencial neurotoxicidade dose-dependente e pode cursar com parestesia em extremidades, situação que indica a suspensão do tratamento. Podem ocorrer tontura ou vertigem e sintomas neurológicos mais graves e raros como convulsões, ataxia e encefalopatia, sendo que esses últimos sinais requerem também a suspensão da droga. ➔ O metronidazol pode causar reações de hipersensibilidade em indivíduos susceptíveis e há risco, embora raro, de cursar com a Síndrome de Stevens-Johnson, principalmente no uso concomitante de mebendazol. ➔ Metronidazol tópico: Efeitos adversos locais - não são comumente observados, mas pode haver irritação cutânea, secura da pele ou ainda queimadura da pele. ➔ Creme vaginal: Os sintomas locais são mais comuns - cervicite e vaginite sintomática por Cândida, prurido vaginal ou na região do períneo, edema vulvar e corrimento vaginal. Podem ainda ocorrer, com menos frequência, os mesmos efeitos gastrointestinais observados com a administração oral do metronidazol. ★ INDICAÇÕES: COM SEPSE, CHOQUE SÉPTICO ABSCESSO PERITONITE, INFECÇÃO ABDOMINAL COMPLICADA ★ CEFALOTINA É CEFALOSPORINA DE 1 GERAÇÃO QUE COBRE AERÓBIOS = GRAM-POSITIVAS ★ CEFALOSPORINA 3 GERAÇÃO = ABDOME MENOS COMPLICADO COM GRAM-NEGATIVOS OU URINÁRIAS E PELES ★ ABDOME AGUDO = CEFALOSPORINA DE 3 GERAÇÃO = SE COMPLICADA = ESCALONAR = CARBAPENÊMICOS OU PIPERACILINA + TAZOBACTAM OU METRONIDAZOL ★ OU SEJA SE NÃO RESPONDEU = ESCALONAR = NUNCA USAR METRONIDAZOL SOZINHO ★ CEFALOSPORINA DE 2 E 4 GERAÇÃO NÃO SE USA MAIS NA MAIORIA DOS CASOS = PROFILAXIA ★ APENDICITE SEM COMPLICAÇÃO = CEFTRIAXONA ★ APENDICITE COMPLICADA = CARBAPENÊMICO (MEROPENEM OU PIPERACILINA + TAZOBACTAM OU METRONIDAZOL