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MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS DOENÇAS DA VALVA AÓRTICA A valva aórtica é fundamental para o bom desenvolvimento do ciclo cardíaco. Sua função é abrir-se durante a sístole, permitindo o esvaziamento do ventrículo esquerdo (VE), e fechar-se na diástole, permitindo o bom enchimento do VE. ESTENOSE AÓRTICA É a limitação na abertura dessa valva durante a ejeção do sangue pelo ventrículo esquerdo (sístole). Em provas de Residência, os tópicos mais cobrados sobre essa valvopatia são: diagnóstico e critérios de decisão por intervenção. A principal etiologia no mundo é degenerativa (valva calcificada) e o envelhecimento populacional predispõe a esse aumento. Essa é a valvopatia mais prevalente na população idosa, atingindo 3-5% dos indivíduos acima de 75 anos. Outra causa bastante comum é a doença reumática A tríade de sintomas da estenose aórtica grave é composta por PRECORDIALGIA, SÍNCOPE E DISPNEIA. Imagine um coração fazendo força ao longo dos anos para vencer a resistência imposta pela estenose aórtica. O que irá acontecer com suas paredes musculares? “Músculo que malha fica hipertrofiado!”. Logo, um achado comum nesses pacientes é a hipertrofia ventricular esquerda. Agora, some à hipertrofia ventricular (muito músculo) uma restrição ao fluxo que sai pela valva aórtica. Teremos então a fórmula: hipoperfusão coronariana + excesso de músculo cardíaco! Além disso, na estenose aórtica, a restrição de esvaziamento ventricular causa um aumento da pressão no ventrículo esquerdo ao final da diástole (PD2). Como na estenose aórtica a PD2 está elevada, a perfusão coronariana está prejudicada, sendo essa mais uma justificativa para a precordialgia. A síncope da estenose aórtica também ocorre principalmente durante os esforços, pela 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 > área valvarnormala a mm mu etiologi e es ↑ jovens un MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS elevação da demanda metabólica que não pode ser suprida pelo aumento do débito cardíaco, uma vez que há um anteparo fixo na valva. Sendo assim, falta sangue nas carótidas no esforço e isso ocasiona pré-síncope ou síncope. O uso de vasodilatadores pode precipitar esses episódios ao promover roubo sanguíneo do território carotídeo. Já a dispneia irá surgir em um período mais tardio, quando o ventrículo esquerdo não consegue mais vencer a obstrução valvar e a pressão dentro dessa câmara é tão elevada que ocorre insuficiência cardíaca e congestão pulmonar retrogradamente. Os mecanismos envolvidos relacionam-se a uma disfunção diastólica inicial, que pode ser seguida, tardiamente, por uma disfunção sistólica. EXAME FÍSICO - pulso de baixa amplitude (parvus) e ascensão lenta (tardus). Sendo assim, o pulso da estenose aórtica é conhecido como pulso parvus et tardus. Como a ejeção ventricular se dá contra uma va lva pa rc i a lmen te f echada , oco r r e turbilhonamento do fluxo e surgimento de um sopro. O sopro da estenose aórtica é descrito como sendo sistólico, ejetivo, rude, começa crescendo e depois decresce (formato de diamante – mesotelessistólico), tem irradiação para as carótidas e para a fúrcula e é panprecordial, porém mais audível em foco aórtico ou aórtico acessório. Quanto mais tardio for o pico do sopro, pior o prognóstico. Nos pacientes com estenose aórtica, a diminuição do retorno venoso pela manobra de Valsalva reduz o fluxo de sangue passando pela valva aórtica e, consequentemente, reduz o sopro. Já na CMH, o sopro ocorre pela dificuldade do sangue de passar pela via de saída do ventrículo esquerdo pelo excesso de músculo na região septal. Dessa forma, quanto menos sangue houver na cavidade, mais o músculo obstrui a saída e maior será o sopro. O fenômeno de Gallavardin representa o fato de o sopro da estenose aórtica ser mais audível nos focos aórticos e reaparecer no foco mitral. O sopro da estenose aórtica surge com a contração do ventrículo esquerdo (VE) contra uma resistência. Sendo assim, todas as manobras que aumentem a contratilidade do VE ou o retorno venoso irão aumentar o sopro. Já as manobras que diminuam o retorno venoso ou que aumentem a resistência vascular periférica irão diminuir o sopro. Além do sopro, a estenose aórtica provoca alterações nas bulhas cardíacas. Um achado frequente é a presença de quarta bulha (B4). 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS Como na estenose aórtica existe hipertrofia do ventrículo esquerdo, com consequente dificuldade de relaxamento, essa bulha aparece. Quanto menos a valva se abre, mais fracamente ela se fecha. Por isso, em casos avançados de estenose aórtica, a segunda bulha pode tornar- se hipofonética ou ausente. À medida que a estenose progride, as pressões nas câmaras cardíacas também aumentam. Quando a pressão no VE está muito alta, a valva mitral não se abre totalmente, sendo assim, seu fechamento é mais suave, fazendo com que a p r i m e i r a b u l h a t a m b é m s e t o r n e hipofonética. Também pode haver o desdobramento paradoxal de B2. Em indivíduos normais, durante a inspiração, aumentamos o retorno venoso para o lado direito e atrasamos assim o fechamento da valva pulmonar, causando um desdobramento da B2 na inspi ração (desdobramento fisiológico de B2). Como, na estenose aórtica, há uma dificuldade de esvaziamento do ventrículo esquerdo, a valva aórtica é que está atrasada em relação à valva pulmonar. Já, na inspiração, as duas se igualam. Logo, o desdobramento só aparece na expiração (A2 atrasado em relação à P2) e isso é chamado de desdobramento paradoxal de B2. Um fator interessante: o ictus cordis não aumenta de tamanho nem se desloca. O máximo de alteração que pode sofrer é se tornar propulsivo, refletindo o trabalho do coração para ejetar o sangue contra uma resistência. Os achados que indicam que a estenose se tornou grave, são eles: • Sopro com pico tardio (a valva demora mais tempo para se abrir); • Desdobramento paradoxal de B2 ou B2 inaudível; • Pulso parvus et tardus; e • Presença de B4. Alguns exames complementares podem ser realizados • Eletrocardiograma (ECG): O ECG tende a ser o primeiro exame realizado. O achado mais comumente encontrado, presente em mais de 85% dos casos, é a sobrecarga ventricular esquerda. • RX de tórax: A radiografia de tórax, geralmente, não evidencia aumento de área cardíaca. O motivo para isso é que na estenose aórtica ocorre uma hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo. Ou seja, o coração cresce “para dentro” da cavidade. Porém, nas fases mais tardias da doença, pode ocorrer a dilatação do coração e a radiografia mostrar aumento da silhueta cardíaca. 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS • Ecocardiografia: A primeira medida possível de ser avaliada é a área de abertura valvar aórtica . É fácil entendermos que, quanto mais grave a doença, menor será essa abertura. Outras duas medições importantes que faremos são a velocidade de fluxo transvalvar aórtica máxima e a medida do gradiente médio. INSUFICIÊNCIA AÓRTICA Na insuficiência o defeito é que a valva não se fecha totalmente durante a diástole, dessa forma, ocorre uma regurgitação de sangue para dentro do ventrículo esquerdo proveniente da aorta. A insuficiência aórtica pode ocorrer por falhas dos próprios folhetos (causas primárias) ou por dilatação da raiz da aorta (causas secundárias). No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a principal causa dessa valvopatia é a febre reumática. Também podemos encontrar algumas situações em que a insuficiência aórtica é aguda. Dentre as valvopatias agudas, as mais comuns são: insuficiência mitral e insuficiência aórtica.6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS Quando há regurgitação aórtica, há um incremento do volume diastólico que o VE recebe, proveniente da insuficiência aórtica. O excesso de sangue irá causar uma sobrecarga de volume nessa câmara. No início, nosso organismo tem mecanismos compensatórios que fazem com que não haja nenhuma consequência clínica. Sendo assim, na insuficiência aórtica crônica, teremos um longo período de latência, com pacientes assintomáticos. No entanto, com o passar do tempo, essa sobrecarga de volume faz com que o ventrículo esquerdo se dilate e, retrogradamente, sobrecarregue o átrio esquerdo e o capilar pulmonar, causando assim dispneia, fadiga e ortopneia (piora da falta de ar ao deitar-se). EXAME FÍSICO Se a valva aórtica não se fecha totalmente, parte da pressão arterial diastólica na aorta será aliviada pelo retorno de sangue para o ventrículo esquerdo. Em contrapartida, no momento da sístole, mais sangue será ejetado, elevando-se, assim, a pressão arterial sistólica. Dessa forma, nessa condição, teremos uma pressão arterial divergente, também chamada de pressão de pulso aumentada, ou seja, grande diferença entre a pressão sistólica e a diastólica. No entanto, com a evolução da doença, a pressão sistólica tende a diminuir devido à disfunção do ventrículo esquerdo que essa valvopatia causa. Além disso, a pressão arterial diastólica, que, nas fases iniciais, é muito baixa, pela regurgitação valvar, tende a subir à medida que a pressão no VE aumenta. Sendo assim, a pressão arterial divergente pode não existir em fases terminais da doença. A sístole faz uma grande onda, que se reduz profundamente depois . Sendo ass im, encontraremos um pulso em martelo d ́água, também conhecido como pulso de Corrigan ou pulso magno e célere (amplo e rápido). Outra possibilidade na insuficiência aórtica é que o pulso apresente dois picos sistólicos devido à sobrecarga de volume do ventrículo esquerdo. Nesse caso, será denominado bisferiens. Sinal de Musset: marcado pela presença de movimentos pulsáteis da cabeça. Curiosidade: esse sinal foi ob- servado, inicial- mente, ao se cons- tatar que as mulhe- res com insuficiên- cia aórtica, quando 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS colocavam chapéus como o da figura, apresentavam pequenas oscilações da pena. Sinal de Traube: também conhecido como “pistol shot”. É um som forte sisto-diastólico audível na artéria femoral. Sinal de Duroziez: aumento do sopro quando se comprime a artéria femoral. Sinal de Müller: pulsação da úvula. Sinal de Quincke: pulsação do leito ungueal. Sinal de Landolfi: pulsação das pupilas. Sinal de Rosenback: pulsação do fígado. Sinal de Gerhard: pulsação do baço. 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS Sinal de Hill: pressão sistólica da artéria poplítea que excede a pressão da artéria braquial em mais de 20 mmHg com o paciente em decúbito dorsal. A sobrecarga de volume do ventrículo esquerdo causa um aumento dessa câmara cardíaca. Dessa forma, o ictus cordis se apresenta aumentado e desviado para a esquerda. É um sopro protodiastólico, aspirativo e decrescente, mais audível no foco aórtico acessório (3o espaço intercostal esquerdo), com irradiação cervical e que aumenta com o paciente sentado e inclinado para frente. Como volta muito sangue para o ventrículo esquerdo na sístole, esse excesso de sangue vai ter que passar pela valva aórtica. Sendo assim, também é possível verificar um sopro sistólico por hiperfluxo, que é mais audível no foco aórtico (2o espaço intercostal direito). Sopro de Austin Flint. Esse sopro decorre do seguinte fato: o jato de regurgitação aórtica “bate” no folheto anterior da valva mitral e dificulta sua abertura na diástole. Dessa forma, causa uma estenose mitral funcional, que testemunharemos com o surgimento na ausculta de um sopro de estenose mitral (sopro diastólico, em ruflar, e mais audível em foco mitral). Nessa situação, diferentemente da estenose mitral verdadeira, não teremos hiperfonese de B1 e estalido de abertura da mitral. Se a pressão na aorta estiver mais alta, mais sangue voltará para o ventrículo, concorda? Sendo assim, a manobra que aumenta a resistência vascular periférica, handgrip, aumenta o sopro! Já as manobras que diminuem o retorno venoso irão diminuir a quantidade de sangue que passa pela valva aórtica. Sendo assim, esse sopro diminui com a manobra de Valsalva e com o uso de vasodilatadores. A segunda bulha (B2) pode estar hipofonética ou ausente. O motivo para isso é que essa bulha representa o fechamento da valva aórtica. Como essa valva não se fecha bem, não produz som. Pode aparecer também uma terceira bulha (B3), já que o excesso de sangue que inunda o 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS ventrículo esquerdo na diástole não consegue ser ejetado totalmente na sístole. Sendo assim, quando a valva mitral se abre, o sangue proveniente do átrio esquerdo choca-se com o sangue residual que sobrou no VE após a sístole e produz a B3. DOENÇAS DA VALVA AÓRTICA ESTENOSE MITRAL Trata-se de um transtorno da valva em que, durante a diástole, sua abertura se encontra limitada. No Brasil, a estenose mitral, quase sempre, é reumática! A forma mais comum de apresentação é uma dupla lesão valvar, ou seja, estenose associada à insuficiência. Outro dado importantíssimo quanto à estenose mitral é que essa doença é a valvopatia mais comum em gestantes. É importante destacar que o fluxo de sangue proveniente do átrio esquerdo tem dificuldade de atingir o ventrículo esquerdo durante a diástole. Sendo assim, o átrio fica MUITO sobrecarregado, enquanto o ventrículo fica protegido. Portanto, ocorre uma sobrecarga atrial esquerda isolada. Como ocorre grande sobrecarga do átrio esquerdo, retrogradamente, há aumento da pressão venocapilar pulmonar, manifestando sintomas pela congestão pulmonar e, posteriormente, hipertensão pulmonar. Tais pessoas entram em um ciclo vicioso, em que a pressão aumentada no capilar pulmonar provoca um remodelamento da camada muscular dos vasos pulmonares, com vasoconstrição reflexa, e isso aumenta ainda mais a pressão pulmonar. Além disso, o edema pulmonar provocado pela sobrecarga pressórica também contribui para elevação da pressão pulmonar. O sintoma mais comum nessa valvopatia é a dispneia, que pode vir associada a sintomas clássicos de insuficiência cardíaca, como ortopneia e dispneia paroxística noturna (sensação de afogamento à noite que melhora após se levantar). Frequentemente, por haver tanta sobrecarga a t r ia l esquerda, os pacientes podem desenvolver também fibrilação atrial e reclamarem de palpitações. Como o átrio esquerdo fica muito sobrecarregado, ele começa a se dilatar e, dessa forma, pode comprimir estruturas próximas a ele, fazendo surgir rouquidão (por compressão do nervo laríngeo recorrente – síndrome de Ortner) e a disfagia (por compressão esofágica pelo átrio esquerdo). A hemoptise, que ocorre por ingurgitamento e ruptura das veias brônquicas devido à intensa sobrecarga venocapilar pulmonar. Como a estenose mitral cursa com hipertensão pulmonar, o ventrículo direito pode ficar sobrecarregado (tentando vencer a alta pressão na artéria pulmonar). Dessa forma, com o passar do tempo, esses pacientes podem desenvolver sintomas clássicos de insuficiência 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS cardíaca direita, como turgência jugular, edema de membros inferiores, hepatomegalia etc. Se a grande dificuldade imposta pela estenose mitral é fazercom que o sangue passe do átrio para o ventrículo esquerdo, a fase do ciclo cardíaco mais prejudicada é a diástole. Os pacientes com estenose mitral necessitam de um longo tempo diastólico para completar a passagem de sangue do átrio para o ventrículo. Sendo assim, condições que aumentem a frequência cardíaca podem causar descompensações dessa doença. Nesse mesmo sentido, como a pré-carga do ventrículo esquerdo está elevadíssima (alta pressão no átrio esquerdo), condições que a u m e n t e m a i n d a m a i s e s s a c a r g a descompensarão a doença. Posto isso, podemos entender que arritmias (principalmente fibrilação atrial), esforço físico, estresse emocional, anemia, febre, hipertireoidismo e gestação são causas comuns de agravamento da estenose mitral. EXAME FÍSICO - Podemos encontrar alguns sinais clássicos de insuficiência cardíaca, como crepitações pulmonares, edema de membros inferiores, hepatomegalia, turgência jugular patológica, refluxo hepatojugular etc. A primeira bulha (B1) é hiperfonética em foco mitral. Porém, em fases tardias da doença, quando a estenose se torna mais importante e há um aumento da calcificação, a primeira bulha pode se normalizar. Além disso, a abertura da valva também produz um ruído, conhecido como estalido de abertura da valva mitral. O sopro da estenose mitral é diastólico, em ruflar, com reforço pré- sistólico, mais audível com a campânula, em foco mitral e em decúbito lateral esquerdo. Esse reforço acontece, já que, ao final da diástole, o átrio esquerdo se contrai e, dessa forma, acelera a passagem de sangue pela valva mitral estenosada. Nas situações em que não houver contração atrial, principalmente representadas pela fibrilação atrial, o reforço não acontecerá. Outro ponto que pode ajudar na análise desse sopro é que há uma diminuição durante a manobra de Valsalva. Essa manobra produz uma redução do retorno venoso, sendo assim diminui transitoriamente a sobrecarga no átrio esquerdo. Nos pacientes em que a estenose mitral não é de origem reumática, não há B1 hiperfonética nem estalido de abertura da mitral. Um achado possível, nos casos em que há hipertensão pulmonar, é a presença de segunda bulha hiperfonética, sobretudo pelo componente P2. A sobrecarga de câmaras direitas, provocada pela hipertensão pulmonar, pode desencadear um alargamento do anel tricúspide e causar uma insuficiência valvar tricúspide, que será suspeitada no exame físico por um sopro sistólico, aspirativo, mais audível no rebordo 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS esternal esquerdo baixo e que aumenta com a inspiração. Esse achado, assim como a insuficiência cardíaca direita, denota maior gravidade da estenose mitral. EXAMES COMPLEMENTARES ECG - Sobrecarga de átrio esquerdo e de câmaras direitas e Fibrilação atrial. RX de tórax - sinais clássicos de sobrecarga atrial esquerda, sem que haja aumento concomitante do ventrículo esquerdo (exceto quando houver insuficiência mitral conco- mitante). Também poderemos encontrar uma dilatação do tronco da artéria pulmonar e, em alguns casos, sinais de sobrecarga das câmaras direitas. TRATAMENTO A primeira escolha são os betabloqueadores (atenolol, metoprolol, bisoprolol etc.), mas também podemos usar bloqueadores de canal de cálcio não diidropiridínicos (verapamil e diltiazem). Essas medicações irão reduzir o gradiente transvalvar mitral por permitirem um melhor esvaziamento do átrio esquerdo, ou seja, reduzirão a pressão no átrio esquerdo. Para controlar a hipervolemia, podemos fazer uso de diuréticos, mas tenha cuidado! O uso excessivo dessas medicações pode levar a um baixo débito cardíaco, uma vez que a diástole já se encontra limitada pela estenose. A estenose mitral é a valvopatia mais comum na gravidez. Durante a gestação, ocorre aumento da volemia e da frequência cardíaca e, dessa forma, pode haver descompensação da valvopatia. Sendo assim, para controle de sintomas, é possível usar betabloqueadores e diuréticos e fazer restrição hidrossalina. Uma fase crítica do período gestacional para a estenose mitral é o secundamento (fase de desprendimento e expulsão da placenta). Isso ocorre devido à exclusão da circulação placentária e ao fim da compressão aorto-cava, que causa elevação importante e aguda no retorno venoso e aumento do débito cardíaco, podendo descompensar a estenose mitral com congestão pulmonar. INSUFICIÊNCIA MITRAL Podemos classificar a insuficiência mitral como primária ou secundária. É dita primária quando ligada a uma doença 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS própria dos folhetos valvares ou da cordoalha tendínea, ou seja, o problema está diretamente relacionado à estrutura da valva, como ocorre nos casos de febre reumática, prolapso, endocardite e rotura de cordoalha. Assim como na estenose mitral, a principal causa de insuficiência mitral no Brasil é a febre reumática. Já em pacientes com doença secundária, teremos uma perda de coaptação da valva devido a uma dilatação do anel mitral ou por insuficiência dos músculos papilares, como observamos na cardiomiopatia dilatada, em doenças isquêmicas e na cardiomiopatia hipertrófica. Tem-se como etiologia o prolapso valvar mitral (PVM). Essa doença é caracterizada por um deslocamento sistólico de um ou de ambos os folhetos da valva mitral em direção ao átrio esquerdo, como se esses folhetos valvares tivessem um excesso de tecido. É um achado muito comum na população, com prevalência próxima a 2%. O mecanismo envolvido nessa doença é a deposição de mucopolissacarídeos no aparato valvar, aumentando sua elasticidade. Associada a isso, pode haver uma degeneração da valva (chamada degeneração mixomatosa – síndrome de Barlow). Essa doença tem associação com doenças do tecido conjuntivo, como Ehlers-Danlos e síndrome de Marfan. Além disso, também tem associação com malformações torácicas, como cifoescoliose dorsal, pectus excavatum ou carinatum, retificação da coluna dorsal e diminuição do diâmetro póstero-anterior do tórax. Em geral, o PVM não determina sintomas ou complicações. Porém, existe um grupo de pacientes que pode evoluir para insuficiência mitral grave e necessitar de tratamento, até mesmo com cirurgias cardíacas. Há a síndrome do prolapso valvar mitral ou síndrome hiperadrenérgica. Essa doença acomete principalmente mulheres jovens que se queixam de palpitações, desconforto torácico, síncope, fadiga ao exercício e arritmias sintomáticas. Pode ser facilmente confundida com um transtorno de ansiedade pelo seu comportamento pouco específico. C o m o t r a t a m e n t o , p o d e - s e u s a r betabloqueadores, já que há um componente hiperadrenérgico envolvido. As sobrecargas de volume tendem a dilatar as câmaras cardíacas, logo, como veremos à frente, tanto o átrio quanto o ventrículo esquerdo tendem a estar dilatados. Os pacientes com insuficiência mitral crônica desenvolvem, ao longo de anos, diversos mecanismos compensatórios que os permite serem assintomáticos por bastante tempo. Porém, quando chegam ao limite da compensação, esses pacientes apresentam uma dilatação importante das cavidades esquerdas, com perda progressiva do débito cardíaco efetivo. Portanto, os primeiros sintomas dessa doença são relacionados a uma síndrome de 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS insuficiência cardíaca, que se manifesta com dispneia, ortopneia, dispneia paroxística noturna etc. Uma consequência da sobrecarga crônica das cavidades esquerdas é o aumento da pressão venocapilar pulmonar, com desenvolvimento de hipertensão pulmonar e, mais tardiamente, insuficiênciacardíaca direita, manifestando- se com edema, turgência jugular patológica, hepatomegalia etc. EXAME FÍSICO - O principal marcador do exame físico desses pacientes é o sopro. Como a falha é de coaptação da valva mitral na sístole, teremos um sopro sistólico mais audível no foco mitral (5o espaço intercostal esquerdo na linha hemiclavicular ou axilar anterior), com intensidade, geralmente, ≥ 3+/ 6+. Os sopros regurgitativos, de uma forma geral, têm como característica ocuparem toda a fase do ciclo cardíaco a que pertencem, ou seja, são, quase sempre, HOLO. No caso da insuficiência mitral, o sopro pode até abafar a segunda bulha (B2). O sopro do prolapso valvar mitral tende a ser telessistólico e pode surgir após um clique mesossistólico. Esse clique corresponde ao momento em que a valva prolapsada é empurrada em direção ao átrio esquerdo. O sopro da insuficiência mitral aumenta com a manobra de handgrip, pois ocorre uma competição constante entre a aorta e o átrio esquerdo, disputando o sangue que sai do ventrículo durante a sístole. Como a valva mitral não consegue se fechar completamente, a primeira bulha — B1 (som produzido pelo fechamento da valva mitral e tricúspide) — será hipofonética. A exceção a essa regra é o prolapso valvar mitral (PVM). Como a valva tem uma morfologia muito diferente, seu fechamento pode produzir um som mais audível . Sendo ass im, na insuficiência mitral por PVM, a B1 pode ser normofonética ou, em alguns casos mais raros, hiperfonética. Nesses pacientes, poderemos verificar a presença de B3. Essa bulha reflete que “sobrou” sangue no ventrículo esquerdo ao final da sístole. Na insuficiência mitral, isso ocorre pela sobrecarga de volume. Dessa forma, no início da diástole, o sangue que vem do átrio se choca com o sangue remanescente do ventrículo e produz a B3. Sendo assim, o ictus cordis pode estar aumentado e desviado para esquerda e para baixo. Se o átrio esquerdo crescer demais, veremos também um impulso sistólico no segundo ou terceiro espaço intercostal esquerdo. EXAMES COMPLEMENTARES - ECG - O primeiro achado e o mais comum é a sobrecarga atrial esquerda, seguindo os mesmos parâmetros que foram descritos para a estenose mitral. Outra possibilidade é e n c o n t r a r m o s s i n a i s d e s o b re c a r g a 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS ventricular esquerda e, assim como em todas as valvopatias que sobrecarregam os átrios, a fibrilação atrial. RX de tórax - veremos sinais de sobrecarga atrial e ventricular esquerda. Ecocardiograma DOENÇAS DA VALVA TRICÚSPIDE ESTENOSE TRICÚSPIDE A estenose tricúspide é uma valvopatia rara e, assim como a estenose mitral, tem como principal etiologia a febre reumática. A apresentação mais comum é associada a outras valvopatias, principalmente mitral e aórtica. Os pacientes só desenvolverão sintomas em casos graves. Geralmente, as queixas são de fadiga e a apresentação clínica é de uma insuficiência cardíaca direita, com turgência jugular, hepatomegalia, edema de membros inferiores, refluxo hepatojugular etc. O exame físico desses pacientes conta com uma ausculta cardíaca muito semelhante à da estenose mitral, com um sopro em ruflar diastólico, com reforço pré-sistólico, B1 hiperfonética e estalido de abertura. Quando realizamos uma inspiração profunda, diminuímos a pressão intratorácica e aumentamos o retorno de sangue para o lado direito do coração. Sendo assim, os sopros tricúspides aumentam e os sopros mitrais não. A inspiração profunda é conhecida como manobra Rivero-Carvallo. Outro sinal que pode se apresentar é o sinal de Kussmaul. Nele, observa-se um ingurgitamento do pulso venoso jugular na inspiração. INSUFICIÊNCIA TRICÚSPIDE Ela é definida pela presença de um refluxo de sangue do ventrículo direito para o átrio direito durante a sístole. Nessa fase do ciclo cardíaco, espera-se que a valva tricúspide permaneça fechada, e é justamente um fechamento não efetivo que provoca a insuficiência tricúspide. Quanto à etiologia, podemos fazer uma correlação com a insuficiência mitral. O aparato da valva tricúspide também envolve folhetos (nesse caso são três): um anel valvar, cordoalha tendínea e músculos papilares. Sendo assim, podemos dividir as etiologias dessa valvopatia entre primárias (lesões diretas do aparato valvar) ou secundárias 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS (causadas por dilatação do anel ou por incompetência dos músculos papilares). As insuficiências secundárias são muito mais comuns, uma vez que todas as situações que causem dilatação do ventrículo direito propiciam o surgimento de uma IT secundária. Quando a valvopatia é grave, ocorre uma sobrecarga de volume nas câmaras direitas, assim como a insuficiência mitral faz nas câmaras esquerdas. Essa sobrecarga de volume dilata o átrio direito e o ventrículo direito, assim aumenta ainda mais a insuficiência tricúspide. Sendo assim, nessa valvopatia, as pressões de enchimento do átrio e do ventrículo direito estão aumentadas. Apesar disso, a maioria dos pacientes acometidos por essa valvopatia são assintomáticos. Quando os sintomas surgem, tendem a refletir sinais de insuficiência cardíaca direita, com fadiga e dispneia, associados a turgência jugular, hepatomegalia, edema de membros inferiores e até anasarca. Quanto à ausculta cardíaca, o sopro é praticamente igual ao da insuficiência mitral, ou seja, holossistólico, regurgitativo, porém mais audível em borda esternal baixa (pode ser à direita ou à esquerda), geralmente, sem irradiação para axila, que piora com manobra de Rivero- Carvallo (inspiração profunda). Quanto ao tratamento, podemos lançar mão de diuréticos e de restrição salina, como forma de minimizar os sintomas congestivos. DOENÇAS DA VALVA PULMONAR A insuficiência valvar pulmonar em grau discreto é fisiológica. Nos casos mais graves, pode causar sobrecarga de volume do ventrículo direito (VD), com consequente dilatação e insuficiência de VD. Pode ser causada por iatrogenia (quando se usa balão para dilatar a valva), endocardite, síndrome carcinoide ou secundária à dilatação da artéria pulmonar em casos de hipertensão pulmonar. A ausculta cardíaca revelará um sopro holodiastólico, melhor audível no foco pulmonar (2o espaço intercostal esquerdo) e que aumenta com a inspiração profunda (manobra Rivero-Carvallo). Pode haver ainda um sopro sistólico por hiperfluxo. O sopro de Graham-Steel é um sopro de insuficiência pulmonar secundária à dilatação da artéria pulmonar em casos de hipertensão pulmonar. Ele é descrito como sendo mais agudo e explosivo e associado à hiperfonese de B2 (comum nos casos de hipertensão pulmonar). 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 MEDICINA LÍDIA JÚLIA DOS SANTOS FARIAS Principais epônimos relacionados às valvopatias: Fenômeno de Gallavardin: sopro de estenose aórtica que aumenta sua intensidade no foco mitral. Esse fenômeno ocorre pela vibração das estruturas aórticas que se transmite pelo anel mitral. Sopro de Austin Flint: na insuficiência aórtica, o jato de regurgitação incide sobre o folheto anterior da valva mitral, causando um sopro de estenose mitral funcional. Síndrome de Ortner: é descrita como uma compressão do nervo laríngeo recorrente (rouquidão) por um crescimento não maligno de uma estrutura cardíaca, geralmente o átrio esquerdo na estenose mitral. Síndrome de Barlow: sinônimo do prolapso valvar mitral com degeneração mixomatosa. Circular de Miguel Couto: irradiação do sopro de insuficiência mitral para a região axilar, denotando acometimento do folheto anterior. Manobra Rivero-Carvallo: inspiração profunda. Aumenta os sopros do lado direitodo coração. S o p ro d e G r a h a m - S t e e l : s o p r o d e insuficiência pulmonar secundário à dilatação da artéria pulmonar causada por hipertensão pulmonar. 6° PERÍODO ITPAC CRUZEIRO DO SUL MARC S17 ->meio da sistole nu diastólica holossistólica