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ESTABILIDADE E GARANTIAS DE EMPREGO, INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS E DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS Autoria: Dárlen Prietsch Medeiros CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Cristiane Lisandra Danna Norberto Siegel Camila Roczanski Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Bárbara Pricila Franz Marcelo Bucci Revisão de Conteúdo: Lucilaine Ignacio da Silva Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2018 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. M488e Medeiros, Dárlen Pritsch Estabilidade e garantias de emprego, indenizações rescisórias e direito coletivo do trabalho. / Dárlen Pritsch Medeiros – Indaial: UNIASSELVI, 2018. 144 p.; il. ISBN 978-85-53158-59-1 1.Direito trabalhista – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 344 Impresso por: Dárlen Prietsch Medeiros Professora de Direito do Trabalho e Direito Constitucional da FACCAT/RS. Professora conteúdista na UNIASSELVI. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC/ Minas. Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário pela UGF/RJ. Graduada em Direito pela UFPel/RS. Advogada. Pesquisadora. Sumário APRESENTAÇÃO ..........................................................................07 CAPÍTULO 1 Estabilidade e Garantia de Emprego ........................................09 CAPÍTULO 2 Indenizações Rescisórias ...........................................................75 CAPÍTULO 3 Direito Coletivo do Trabalho .................................................103 APRESENTAÇÃO Neste livro serão estudados pontos extremamente importantes do Direito do Trabalho, principalmente se considerarmos o contexto atual, onde tantas mudanças têm acontecido neste ramo especial do Direito. Iniciaremos o estudo pelos institutos da Estabilidade e Garantias de emprego, cujo estudo torna-se primordial em razão da tendência atual de flexibilização das normas trabalhistas e a redução considerável da proteção dos empregados. Uma das maiores relevâncias do estudo é a compreensão dos fatores que culminaram na proteção do empregado em situações especiais, para a manutenção da aplicação do instituto, mesmo diante de prováveis relativizações dos direitos ali consagrados. O estudo inicia-se com a diferenciação entre estabilidade e garantia de emprego, estudam-se as modalidades que originaram as proteções vigentes até o momento e as mudanças trazidas pela reforma trabalhista. No próximo capítulo serão estudadas as indenizações rescisórias vigentes e aquelas que as precederam em nosso ordenamento jurídico, buscando uma compreensão global do tema. O estudo deste ponto se faz necessário para compreender os mecanismos de inibição ao término da relação de emprego que já foram utilizados e aqueles que ainda estão vigentes na tentativa de dar efetividade ao princípio da continuidade da relação de emprego. No último capítulo, dedicado ao estudo de Direito Coletivo do Trabalho, faremos uma análise breve do instituto, iniciando com a contextualização do Direito coletivo, relembrando que suas origens, princípios aplicáveis e o estudo de um breve retrospecto histórico do Direito Coletivo no Brasil, apontando os principais instrumentos legais que forma sendo disponibilizados aos longos dos anos até chegar ao Direito Coletivo nos tempos atuais, seu conceito e alterações trazidas pela Reforma Trabalhista. A partir da reflexão sobre estes temas, serão analisados aspectos mais práticos do Direito Coletivo com o estudo das negociações coletivas (convenções e acordos coletivos) observando novamente as alterações recentes na Legislação trabalhista. Dárlen Prietsch Medeiros CAPÍTULO 1 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Compreender o instituto da Estabilidade no emprego e das garantias de emprego, bem como sua diferenciação. Conhecer as hipóteses de incidência dos institutos e sua aplicação no caso concreto, bem como os posicionamentos dos tribunais acerca da matéria. 10 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 11 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Ao longo deste capítulo, estudaremos dois importantes institutos do Direito do Trabalho: a estabilidade e a garantia de emprego. A relevância deste estudo é cada vez maior, tendo em vista a tendência atual de fl exibilização das normas trabalhistas e a redução considerável da proteção dos empregados. Pode-se arriscar afi rmar que mais importante do que conhecer a legislação atinente a cada uma das formas de proteção do empregado é conhecer as razões da proteção, para seguir defendendo a aplicação do instituto, mesmo diante de possíveis (ou prováveis) relativizações dos direitos ali consagrados. Ao conhecer as modalidades de proteção que foram sendo relativizadas e até mesmo suprimidas ao longo dos anos, evidencia-se o movimento do legislador neste sentido e pode-se, ao menos em tese, prever os acontecimentos e traçar estratégias para segurar (ou alavancar) o avanço desta tendência, conforme nossos interesses ou ideologias. O estudo inicia-se pela diferenciação entre estabilidade e garantia de emprego, entendendo seu alcance, a diferenciação necessária na utilização da nomenclatura, eis que há uma diferença substancial entre garantia e estabilidade, como veremos. Inicia-se pelo estudo da estabilidade no emprego e, logo após, o estudo das garantias de empregos, apontando algumas situações em que a lei protege os trabalhadores, as condições para se dar esta proteção (que poderá ser estabilidade ou garantia) e o alcance dela, ou seja, até quando esta proteção é vigente. Ao longo do estudo, será feita a utilização de citações de autores com pontos de vista nem sempre comuns, algumas vezes, até mesmo divergentes, o que enriquecerá a discussão e possibilitará uma refl exão e mesmo a escolha de uma corrente doutrinária para atender ao interesse de cada parte (empregado ou empregador). Em algumas circunstâncias apresentaremos decisões judiciais para tentar demonstrar como a matéria está sendo tratada e quais argumentos são utilizados com mais frequência nos tribunais, por esta razão, elas devem ser lidas com muita atenção. Por fi m, ao fi nal do capítulo, é apresentado um quadro com um resumo do que foi estudado, a fi m de facilitar a consulta rápida e memorização dos diferentes tipos de proteção legal vigentes. 12 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 2 ESTABILIDADE E GARANTIAS DE EMPREGO O estudo destes institutos pressupõe esclarecer a diferença entre estabilidade e garantia, duas palavras que usualmente são utilizadas como sinônimos, no entanto, principalmente no contexto jurídico laboral, possuem signifi cados bem diferentes. Se você consultar qualquer dicionário, irá observar que estabilidade é uma palavra aplicada com o sentido de solidez, que denota fi rmeza e até mesmo invariabilidade, já ao buscar o signifi cado de garantia, aparece como a ação ou efeito de garantir, como caução ou mesmo segurança. Embora, aparentemente, possuam signifi cados afi ns, a garantia pode ser substituída, é mutável diante de algumas condições e pode perecer, enquanto a estabilidade traz maior confi abilidade, não tem em sua essência a mudança, ao contrário, traduz-se como uma situação sólida,é discutida diz respeito à negativa da gestante de ser reintegrada ao trabalho: GESTANTE. GARANTIA PROVISÓRIA DE EMPREGO. FALTA DE INTERESSE PELA REINTEGRAÇÃO. INDENIZAÇÃO. A negativa expressa e injustifi cada em juízo de retorno ao emprego confi gura renúncia ao direito à estabilidade prevista no art. 10, II, “b”, do ADCT, fi cando restrita a indenização respectiva ao valor dos salários vencidos e suas projeções até a data da recusa à reintegração (Súmula nº 59, item IV, do TRT/SC) (TRT/SC, RO 0001832-20.2015.5.12.0055, 21/07/2017, Rel. Narbal A. Mendonça Fileti, grifo nosso). Todavia, pelo teor da súmula isso não afetaria o seu direito, eis que a garantia se dá pela confi rmação da gravidez e não pela comunicação, como sugere Sergio Pinto Martins. Nesta linha, a resposta ao quesito supra pode ser respondida por Alice Monteiro de Barros: Sempre divergimos desta orientação e sustentamos que a reparação proveniente da dispensa imotivada da empregada gestante se impõe, independentemente do conhecimento, pelo empregador, do estado de gravidez da trabalhadora. A responsabilidade patronal, no caso, parte de um dado objetivo, constituindo a gravidez um risco empresarial assumido pelo empregador ao formar contrato de trabalho com uma mulher. Em consequência, a responsabilidade do empregador prescinde de culpa, autorizando a reparação não só na 40 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho dispensa injusta, como no encerramento total ou parcial das atividades empresariais e ainda nas rescisões indiretas, que, evidentemente, pressupõem culpa [...]. Continuamos nos fi liando às correntes doutrinárias e jurisprudencial segundo as quais a gravidez da empregada se vincula à teoria do risco objetivo, do risco social, porquanto o Direito do Trabalho não protege, simplesmente, o conhecimento da gravidez pelo empregador, mas a gestação, na sua grandeza biológica. O termo “confi rmar “ não altera o critério objetivista, sufragado pelos tribunais do trabalho, segundo o qual a “garantia de emprego” e a licença-maternidade independem de comunicação ao empregador (BARROS, 2016, p. 718). Assim, conclui-se que a resposta ao primeiro quesito levantado por Vóglia Cassar é que não há necessidade de avisar o empregador sobre a gravidez, ainda que subsistam correntes contrárias a este entendimento. Portanto, dependendo do lado em que você está, irá adotar uma ou outra corrente doutrinária. 8.2 A Empregada Precisa Ter Conhecimento de seu Estado GravÍdico Antes da Dispensa? O segundo questionamento levantado pela autora é se a empregada precisa ter conhecimento de sua gravidez no momento em que se afasta da empresa. Sérgio Pinto Martins entende que sim, e vai além, esclarece ainda que o empregador não pode ser responsabilizado se não houve a comunicação do fato, conforme se destaca a seguir: Desconhecendo a mulher sua gravidez, menos ainda teria condições de saber o empregador. O empregador não tem como ser responsabilizado se a empregada não o avisa que está grávida. Não se pode imputar a alguém a consequência a quem não deu causa. Na data da dispensa não havia qualquer óbice à dispensa da trabalhadora, pois naquele momento não estava comprovada a gravidez ou era impossível constatá-la. Logo, não houve dispensa arbitrária com objetivo de obstar o direito à garantia de emprego da gestante (MARTINS, 2010, p. 439). Apesar de Sergio Pinto Martins ter posicionamentos que divergem em vários pontos do teor da Súmula 244 do TST, a observação é muito relevante, ainda mais se considerado que o empregador não tem o direito de efetuar exames para comprovar o estado gravídico no momento da dispensa, como lembra Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1193): Portanto, dependendo do lado em que você está, irá adotar uma ou outra corrente doutrinária. 41 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Não pode o empregador obrigar a empregada a se submeter ao exame médico de esterilização ou de gestação, porque é considerado crime pelo art. 2º da Lei nº 9.029/95 e proibida a prática pelo art. 373-A, IV, da CLT. O exame médico periódico e demissional exigido pelo art. 168 da CLT não inclui o de sangue ou de urina, mas tão somente os superfi ciais ou os necessários para exercício da função. Uma resposta a este quesito é indiscutível, a gestante não precisa ter conhecimento de sua gravidez antes da dispensa para ser protegida pela garantia de emprego, desde que a concepção já tenha ocorrido, ou seja, se já estava grávida no momento da dispensa, tem a garantia de emprego. A jurisprudência majoritária se posiciona no sentido de que a empregada terá direito à reintegração ou indenização desde a CONCEPÇÃO (se esta se deu no curso do contrato de trabalho), pois este é o marco inicial da estabilidade, mesmo que a confi rmação para a gestante tenha ocorrido após a “dispensa”. Este entendimento visa proteger a gestante, independentemente de qualquer outra medida objetiva, como atestados, exames ou comprovações do estado gravídico. Baseia-se na responsabilidade objetiva do empregador (CASSAR, 2015, p. 1193). A grande razão para a discussão deste tema é o marco inicial da proteção, e, portanto, o início da indenização quando for o caso. “Não há unanimidade na doutrina e na jurisprudência quanto à data do início da estabilidade da gestante, já que o art. 10, II, b, do ADCT menciona como início a confi rmação da gravidez, sem especifi car se esta deve ou não ocorrer na vigência do pacto” (CASSAR, 2017, p. 1193). Quanto ao fato da concepção ter ocorrido na vigência do pacto, não parece subsistir nenhum tipo de dúvida, e é neste sentido a jurisprudência: ESTABILIDADE GESTANTE. RECONHECIMENTO DO DIREITO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO EMPREGADOR. O fato gerador do direito da empregada gestante manter-se no emprego, com restrição do direito de o empregador dispensá-la, salvo por justa causa, origina-se com a concepção e se projeta até 5 (cinco) meses após o parto (art. 7º XVIII, da CRFB/88, e art. 10, II, b, da ADCT). A fi nalidade da garantia constitucional é, além da proteção à maternidade contra dispensa arbitrária, também, a tutela dos interesses do nascituro. TRT/SC – Processo nº: 02618.2004.007.12.00.5 – Rel. Designado: Juíza Lígia Maria M. Teixeira Gouvêa. DJ/SC28/04/2006). GARANTIA DA GESTANTE À ESTABILIDADE PROVISÓRIA NO EMPREGO. A reclamante não faz jus à estabilidade prevista no artigo 10, inciso II, alínea b da ADCT, tampouco à indenização relativa ao período de estabilidade, diante do início da gravidez em data posterior à rescisão contratual constatada nos autos. Recurso a que se nega provimento. (TRT da 4ª Região, Se já estava grávida no momento da dispensa, tem a garantia de emprego. 42 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 1ª Turma, 0000529-08.2015.5.04.0341 RO, em 22/03/2017, Desembargadora Rosane Serafi ni Casa Nova – Relatora, grifo nosso). ESTABILIDADE GESTANTE. A estabilidade da gestante ocorre desde a confi rmação da gravidez até cinco meses após o parto. In casu, a confi rmação não ocorreu na vigência do contrato de trabalho e, portanto, não faz jus a reclamante ao pagamento de indenização estabilitária gestante. Recurso desprovido (TRT 02, RO 1001284-93.2016.5.02.0063, 3ª turma, 11/10/2016, RELATORA: MARGOTH GIACOMAZZI MARTINS). No entanto, uma vez esclarecido que ao menos a concepção deve se dar na constância do pacto, outras questões se impõem e são motivo de divergência nos tribunais, como nas questões analisadas a seguir. 8.3 Esta Estabilidade EnseJa a ReintegraçÃo ou a IndenizaçÃo? Para responder este quesito precisamos pensar na razão de existir a proteção à gestante. O motivo principal é não deixar a gestante, e consequentemente seu fi lho, desamparados em um momento de maior fragilidade. Se entre as funções e princípios do Direito do Trabalhoestá a manutenção do emprego e a melhoria nas condições de pactuação das condições de trabalho, pode-se concluir que inicialmente o Direito do Trabalho busca a manutenção do emprego, como forma de manutenção das condições de sobrevivência e sustento desta gestante e do nascituro. Por algum tempo o entendimento era de que não era possível a reintegração da gestante, sendo devida apenas a indenização do período correspondente, como se depreende da leitura do antigo texto da Súmula 244 do TST, que assim dispunha: “A garantia de emprego à gestante não autoriza a reintegração, assegurando-lhe apenas o direito a salários e vantagens correspondentes ao período e seus refl exos”. Em 2003, o texto sofre alteração e passa a apresentar a seguinte redação: “A garantia de emprego à gestante só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. Do contrário, a garantia restringe-se aos salários e demais direitos correspondentes ao período de estabilidade”. E este é o texto vigente até os dias atuais. Não autoriza a reintegração, assegurando-lhe apenas o direito a salários e vantagens correspondentes ao período e seus refl exos. Só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. 43 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Com suporte no antigo Enunciado 244 do TST, entendia cabível somente o pagamento do respectivo período de frustração estabilitária. Tal interpretação, construída no início da década de 1980, não se ajustava ao exato sentido do art. 10, II, “b”, do ADCT da Constituição de 5.10.1988. Felizmente foi superada pela nova redação conferida à Súmula 244 pelas Resoluções do TST n. 121/2003 e n. 129/2005. Para o novo texto sumular, a garantia de emprego à gestante autoriza a reintegração “se esta se der durante o período de estabilidade” (Súmula n. 244, ab initio). Apenas se já estiver vencido o lapso temporal estabilitário é que “a garantia restringe-se aos salários e demais direitos correspondentes ao período de estabilidade” (Súmula n. 244, in fi ne) (DELGADO, 2017, p. 1432). Embora o texto da Súmula 244 do TST aparentemente encerre a discussão sobre a indenização ou reintegração, na prática, as coisas não são tão simples assim, como veremos. É evidente que existem situações em que a reintegração não prevalece. A CLT já previa uma delas, tratando do antigo estável: se a reintegração fosse desaconselhável, em virtude da incompatibilidade formada entre as partes, caberia sua conversão na respectiva indenização compensatória (art. 496, CLT). Não existe óbice à interpretação analógica desse preceito para casos similares, que envolvam as estabilidades temporárias. Uma segunda situação ocorre quando o período de estabilidade provisória já estiver exaurido à data da sentença: neste caso, a reintegração deixaria de prevalecer, cabendo apenas o pagamento das verbas contratuais, a título indenizatório, desde a irregular dispensa até o termo fi nal do “período estabilitário” (nesta linha, ver Súmula n. 396, I, TST, e ex-OJ n. 116, SDI-I/TST). Outra situação que torna inviável, do ponto de vista fático, a reintegração, é a derivada da extinção do estabelecimento ou da empresa. A CLT, tratando do estável decenal, determinava, em tais casos, o pagamento da correspondente indenização, calculada em dobro (art. 498, CLT). A Constituição, regulando a estabilidade do art. 41, assegura, em casos semelhantes, a disponibilidade remunerada do servidor atingido (§§ 2º e 3º do art. 41, CF/88). Parece claro, portanto, caber também, regra geral, a correspondente indenização no tocante aos empregados protegidos por estabilidades provisórias, embora se possa afi rmar que, sem dúvida, fi ca prejudicada, no restante, a referida proteção e seu resultado jurídico máximo, a reintegração (DELGADO, 2017, p. 1433). Assim, a regra atual é que deverá a gestante ser reintegrada no emprego quando ainda se encontra no período de proteção legal, o que será substituído pela indenização se o julgador entender que o retorno desta ao ambiente de trabalho não é aconselhável. No entanto, caso já tenha passado o período estabilitário, a indenização correspondente ao período de proteção legal. 44 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Atenção! É importante destacar ainda, como já observado em algumas decisões destacadas anteriormente, que as decisões dos tribunais não raramente entendem que quando a empregada somente comunica seu estado gravídico depois de decorrido o período de garantia, não teria direito a indenização. Na mesma linha de raciocínio, a Súmula 99 do TRT4, editada em outubro de 2016, entende que a recusa injustifi cada da gestante em retornar ao trabalho também seria razão de negar a indenização pelo período estabilitário a partir da recusa, conforme se verifi ca no texto da referida súmula: Súmula 99 do TRT4 GESTANTE. GARANTIA PROVISÓRIA NO EMPREGO. RECUSA À REINTEGRAÇÃO. A recusa injustifi cada da empregada gestante à proposta de retorno ao trabalho afasta o direito à indenização do período da garantia de emprego prevista no artigo 10, inciso II, alínea b, do ADCT, a partir da recusa. Assim, a regra será a reintegração, e não sendo possível, a indenização do período. “Diferente é a situação da doméstica, pois sua reintegração depende da concordância expressa do empregador, já que a casa é o asilo inviolável. Não autorizando, terá ela direito aos salários do período” (CASSAR, 2017, p. 1197). 8.4 Se a GestaçÃo É Interrompida Por Aborto EspontÂneo ou se a Criança Nasce Morta, Como Fica a Estabilidade da Empregada? A legislação institui que em caso de aborto, o período de afastamento por licença-maternidade, ou em razão de aborto, será computado normalmente no período aquisitivo (art. 131, II, CLT). “Independente do nascimento com vida da criança ou da interrupção da gestação por aborto espontâneo, tem a trabalhadora estabilidade enquanto estiver grávida” (CASSAR, 2017, p. 1195). 45 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 A questão que gera maior discussão diz respeito à manutenção da estabilidade a partir do nascimento sem vida ou aborto, ou seja, no período após a ocorrência da interrupção da gestação por uma das ocorrências citadas. No que diz respeito à garantia de emprego, a CLT apresenta uma solução específi ca em caso de aborto espontâneo, no artigo 395: Art. 395 - Em caso de aborto não criminoso, comprovado por atestado médico ofi cial, a mulher terá um repouso remunerado de 2 (duas) semanas, fi cando-lhe assegurado o direito de retornar à função que ocupava antes de seu afastamento. Já no que diz respeito ao nascimento sem vida, Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1197, grifo nosso) explica a ocorrência de dois posicionamentos: Para os casos de nascimento sem vida, ou com morte pós- parto da criança, a doutrina e jurisprudência não afi nam no mesmo diapasão. A primeira corrente entende que houve parto, assim entendido como o nascimento com ou sem vida da criança (ou após a 12ª semana completa, conforme a medicina, ou após a 23ª semana de gestação, conforme a previdência), este é o fato gerador da estabilidade, na forma da interpretação literal do dispositivo constitucional. Portanto, teria a mulher a mesma estabilidade que a mãe que acabou de parir seu fi lho com vida. A segunda corrente, em sentido contrário, equipara o nascimento sem vida ao aborto, mesmo após a 12ª ou 23ª semana, acarretando apenas o direito ao repouso previsto no art. 395 da CLT. Argumentam que em caso de morte de fi lho (em outra fase da vida) a CLT garante apenas o descanso de dois dias – art. 473, I da CLT, logo, o repouso remunerado de duas semanas é mais benéfi co que a regra geral. Ademais, a estabilidade de cinco meses após o parto destina-se à criança, à maternidade, o fato não ocorreu. Estes posicionamentos apresentados pela autora se confi rmamnas decisões dos tribunais: EMPREGADA GESTANTE - ESTABILIDADE PROVISÓRIA - PARTO PREMATURO - NATIMORTO - Eventualmente se o fi lho da reclamante gestante nascer sem vida, em parto prematuro, não afasta a garantia de emprego de que trata o art. 10, inciso II, alínea “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (TRT da 3.ª Região; PJe: 0010999-32.2015.5.03.0178(RO); 17/12/2015, DEJT/TRT3/ Sétima Turma; Relator: Paulo Roberto de Castro). EMENTA: GESTANTE. ABORTO ESPONTÂNEO. PARTO PREMATURO. ESTABILIDADE PREVISTA NO ARTIGO 395 DA CLT. A distinção entre aborto e parto prematuro se mostra 46 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho relevante, visto que as consequências jurídicas são distintas: em caso de aborto não criminoso, comprovado por atestado médico, é devido repouso de 2 (duas) semanas a título de salário- maternidade (artigo 93, §5º, do Decreto 3.048/99 c/c artigo 395 da CLT). Ocorrendo parto antecipado, ainda que de natimorto, comprovado por atestado médico, a empregada terá direito a 120 (cento e vinte) dias de salário maternidade (artigo 93, §4º, do Decreto 3.048/99) e à estabilidade prevista no artigo 10, II, “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Sendo inconteste a ocorrência de aborto espontâneo no primeiro trimestre de gestação, atestado pelo profi ssional médico, o direito obreiro cinge-se à estabilidade no emprego por duas semanas (artigo 395 da CLT). (TRT da 3.ª Região; Processo: 0000629-13.2013.5.03.0162 RO; 24/07/2014, DEJT/TRT3/Cad.Jud, Sétima Turma; Relator: Convocada Martha Halfeld F. de Mendonca Schmidt; Revisor: Fernando Luiz G. Rios Neto, grifo nosso). Apesar das correntes doutrinárias, o posicionamento adotado por Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1197) parece o mais adequado, eis que a autora entende que: a gestante que perde seu fi lho após a 12ª semana, seja no início ou no fi m da gestação, além da perda irreparável, sofre com a queda brusca dos hormônios, que geram efeitos colaterais mais gravosos, tanto psicológicos, como físicos. Além do mais, se a própria previdência garante a licença-maternidade nestes casos, por que o empregador não garantiria a estabilidade, já que não terá prejuízos fi nanceiros com este afastamento? Portanto, apesar do tratamento diferenciado para caso do aborto e de natimorto, o correto seria a manutenção da garantia de emprego, no entanto, não é isto que se verifi ca, como vimos. Por fi m, cabe esclarecer que “a mãe adotiva, apesar de ter direito à licença- maternidade – art. 392 - A da CLT, não tem direito à estabilidade no emprego, pois a lei não lhe garante este direito” (CASSAR, 2017, p. 1197). 8.5 Se a Empregada Engravidar no Curso do Contrato a Termo, AdQuire Estabilidade? Durante muitos anos, a empregada que engravidasse durante o contrato por prazo determinado não tinha nenhuma proteção legal, inclusive este era o teor da Súmula 244 antes da alteração: 47 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Item III - Não há direito da empregada gestante à estabilidade provisória na hipótese de admissão mediante contrato de experiência, visto que a extinção da relação de emprego, em face do término do prazo, não constitui dispensa arbitrária ou sem justa causa (ex-OJ nº 196 da SBDI-1 - inserida em 08.11.2000) (grifo nosso). Veja que o argumento para não estender a garantia de emprego à gestante contratada mediante contrato de experiência, e que era adotado para os contratos por tempo determinado em geral, era que não se trataria de dispensa injusta ou arbitrária, tendo em vista que a data de fi nal da contratação já era de conhecimento de ambas as partes. “Felizmente, contudo, a jurisprudência evoluiu, consagrando tal garantia também nos contratos a termo, em conformidade com a nova redação conferida ao item III da Súmula 244 pelo TST em setembro de 2012” (DELGADO, 2017, p. 663). A respeito da evolução deste dispositivo legal é importante observar as colocações de Mauricio Godinho Delgado acerca da temática: Há que se registrar, contudo, que a jurisprudência trabalhista por longo período não absorveu a presente situação excetiva, considerando incompatível com contratos a termo a garantia de emprego da trabalhadora gestante e parturiente (antigo item III da Súmula 244 do TST). Em contrapartida, o Supremo Tribunal Federal vinha brandindo com insistência a efetividade da garantia fi xada pelo art. 10, II, “b”, do ADCT da Constituição, mesmo nos casos de relações administrativas precárias e a prazo no âmbito da Administração Pública. Conforme ponderamos na edição de janeiro de 2012 deste Curso, reaberto o debate na comunidade jurídica, parecia-nos irreprimível a tendência ao alargamento da efetividade dos direitos humanos e sociais trabalhistas, em especial quando possuem matriz na própria Constituição. Felizmente, é o que ocorreu em setembro de 2012, com a nova redação promovida pelo TST no item III de sua Súmula 244: “A empregada gestante tem direito à estabilidade provisória prevista no art. 10, inciso II, alínea ‘b’, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, mesmo na hipótese de admissão mediante contrato por tempo determinado” (DELGADO, 2017, p. 1250). Assim, a partir de 2012 a garantia de emprego foi estendida também às empregadas contratadas por tempo determinado, conforme redação atual da Súmula 244: Súmula nº 244 do TST GESTANTE. ESTABILIDADE PROVISÓRIA (redação do item III alterada na sessão do Tribunal Pleno realizada em 14.09.2012) - Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I - O desconhecimento do estado gravídico pelo empregador não afasta o direito ao pagamento da indenização decorrente da estabilidade (art. 10, II, “b” do ADCT). II - A garantia de emprego à gestante só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. Do contrário, 48 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho a garantia restringe-se aos salários e demais direitos correspondentes ao período de estabilidade. III - A empregada gestante tem direito à estabilidade provisória prevista no art. 10, inciso II, alínea “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, mesmo na hipótese de admissão mediante contrato por tempo determinado (grifo nosso). E é neste sentido que as decisões dos tribunais têm trabalhado desde então: ESTABILIDADE PROVISÓRIA. GESTANTE. CONTRATO DE EXPERIÊNCIA. CONTRATO POR PRAZO DETERMINADO. Tendo a reclamante sido despedida em estado gestacional, conquanto em contrato por experiência ou por prazo determinado, aplica-se a Súmula 244 do TST, cabendo-lhe a estabilidade provisória e a indenização pelo período estabilitário, até cinco meses após o parto (Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, 5ª turma, 0020692- 13.2015.5.04.0663 (RO), em 17/11/2016, redator Brígida Joaquina Charão Barcelos Toschi). Tendo em vista o estudado, a resposta ao quesito é muito simples: Sim. As empregadas contratadas por tempo determinado possuem garantia de emprego ou estabilidade provisória. 8.6 A Emprega DomÉstica Grávida tem Estabilidade? Durante muitos anos os empregados domésticos têm sido negligenciados em seus direitos, tanto na esfera trabalhista como previdenciária. Por esta razão, esta refl exão se faz muito importante dentro desta temática. Luciano Martinez faz uma refl exão muito interessante sobre o tema: Os domésticos têm, sim, direito ao recebimento dessa indenização, pois prevista no inciso I do ADCT, que tem ligação umbilical com o próprio art. 7º, I, da Carta. Ainda na linha dos efeitos decorrentes da aplicabilidade do inciso I do art. 7º da Constituição em favor dos domésticos, cabe anotar que a estabilidade por estado de gravidez (art. 10, II, b, do ADCT) apenas passou a ser estendida em favor das empregadas domésticas por força da Lei n. 11.324, de 19 de julhode 2006, entendida como fonte mais favorável nos termos do caput do art. 7º da Carta. Antes disso, por uma gélida interpretação sistemática do mesmo art. 7º, I (que gerou a redação do citado art. 10 do ADCT), e do seu parágrafo único, não era possível falar em estabilidade da gestante para as domésticas. 49 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 A Lei Complementar n. 150/2015 reafi rmou esse direito ao prever no parágrafo único do seu art. 25 que a confi rmação do estado de gravidez durante o curso do contrato de trabalho, ainda que durante o prazo do aviso prévio trabalhado ou indenizado, garante à empregada gestante a estabilidade provisória prevista na alínea b do inciso II do art. 10 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (MARTINEZ, 2016, p. 358, grifo nosso). Assim, a última constatação que se faz neste estudo é que um grande equívoco legislativo foi corrigido pela Lei nº 11.324, de 19 de julho de 2006 e reafi rmado pela Lei nº 150/2015, estendendo a estas trabalhadoras a estabilidade decorrente do estado gravídico. 9 EMPREGADO ACIDENTADO A proteção do empregado acidentado provém da lei previdenciária (Lei nº 8.213/1991), que garante ao trabalhador que tenha sofrido acidente do trabalho, típico ou por equiparação, garantia de emprego durante 12 meses a contar do seu retorno ao emprego (art. 118 da Lei nº 8.213/1991). Para adquirir o direito de garantia de emprego nestas condições, a lei previdenciária prevê que o empregado tenha fi cado afastado do trabalho por período superior a 15 dias, e que tenha percebido benefício previdenciário de auxílio-doença acidentário ou, ainda, se sobrevier doença ocupacional contraída no curso do contrato, assunto que será detalhado mais à frente. No âmbito trabalhista o tema é tratado na Súmula 378 do TST, a seguir apresentada: Súmula nº 378 do TST ESTABILIDADE PROVISÓRIA. ACIDENTE DO TRABALHO. ART. 118 DA LEI Nº 8.213/1991. (Inserido item III) - Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I - É constitucional o artigo 118 da Lei nº 8.213/1991 que assegura o direito à estabilidade provisória por período de 12 meses após a cessação do auxílio-doença ao empregado acidentado (ex-OJ nº 105 da SBDI-1 - inserida em 01.10.1997). II - São pressupostos para a concessão da estabilidade do afastamento superior a 15 dias e a consequente percepção do auxílio-doença acidentário, salvo se constatada após a despedida, doença profi ssional que guarde relação de causalidade com a execução do contrato de emprego (primeira parte - ex-OJ nº 230 da SBDI-1 - inserida em 20.06.2001). III – O empregado submetido a contrato de trabalho por tempo determinado goza da garantia provisória de emprego decorrente de acidente de trabalho prevista no art. 118 da Lei nº 8.213/91. 50 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Veja que a súmula em comento apresenta as mesmas condições da lei previdenciária, ou seja: a garantia de emprego ou estabilidade provisória será de 12 meses após o fi nal da fruição do auxílio-doença acidentário, que é um dos pressupostos para a garantia de emprego. Neste item, é importante chamar a atenção para a diferença existente entre os institutos previdenciários e a possível confusão que eles podem causar no momento de aplicar esta regra. Neste ponto, abrimos um “parêntese” para relembrar a diferença entre auxílio-doença, auxílio-doença comum e auxílio-acidente, três benefícios previdenciários comumente confundidos. Vamos conhecer melhor cada um deles! 9.1 AuXÍlio-Doença Com previsão legal na Lei nº 8.213, de 1991, o auxílio-doença é um benefício previdenciário pago ao segurado (aquele que contribui para a Previdência Social) que fi car incapacitado para seu trabalho por mais de 15 dias. O auxílio-doença poderá ser de duas modalidades, auxílio-doença comum ou auxílio-doença acidentário, sendo que somente este último garante ao empregado a estabilidade provisória ou garantia de emprego por 12 meses, descritos no artigo 118 da lei previdenciária. O auxílio-doença tem na sua previsão requisitos descritos nos artigos 59 e seguintes da Lei nº 8.213/91, conforme se verifi ca a seguir: Art. 59. O auxílio-doença será devido ao segurado que, havendo cumprido, quando for o caso, o período de carência exigido nesta Lei, fi car incapacitado para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15 (quinze) dias consecutivos. Parágrafo único. Não será devido auxílio-doença ao segurado que se fi liar ao Regime Geral de Previdência Social já portador da doença ou da lesão invocada como causa para o benefício, salvo quando a incapacidade sobrevier por motivo de progressão ou agravamento dessa doença ou lesão. Art. 60. O auxílio-doença será devido ao segurado empregado a contar do décimo sexto dia do afastamento da atividade, e, no caso dos demais segurados, a contar da data do início da incapacidade e enquanto ele permanecer incapaz. § 1º Quando requerido por segurado afastado da atividade por mais de 30 (trinta) dias, o auxílio-doença será devido a contar Neste item, é importante chamar a atenção para a diferença existente entre os institutos previdenciários e a possível confusão que eles podem causar no momento de aplicar esta regra. 51 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 da data da entrada do requerimento [...] Art. 61. O auxílio-doença, inclusive o decorrente de acidente do trabalho, consistirá numa renda mensal correspondente a 91% (noventa e um por cento) do salário-de-benefício, observado o disposto na Seção III, especialmente, no art. 33 desta Lei. Art. 62. O segurado em gozo de auxílio-doença, insuscetível de recuperação para sua atividade habitual, deverá submeter- se a processo de reabilitação profi ssional para o exercício de outra atividade. Parágrafo único. O benefício a que se refere o caput deste artigo será mantido até que o segurado seja considerado reabilitado para o desempenho de atividade que lhe garanta a subsistência ou, quando considerado não recuperável, seja aposentado por invalidez. Art. 63. O segurado empregado, inclusive o doméstico, em gozo de auxílio-doença será considerado pela empresa e pelo empregador doméstico como licenciado. Parágrafo único. A empresa que garantir ao segurado licença remunerada fi cará obrigada a pagar-lhe durante o período de auxílio-doença a eventual diferença entre o valor deste e a importância garantida pela licença. Pela leitura atenta dos dispositivos de lei supra, não há como fazer distinção entre o benefício recebido na modalidade auxílio-doença e auxílio-doença acidentária, sendo que ambos possuem os mesmos pré-requisitos, tratamento legal e inclusive o mesmo valor de benefício, como verifi cado no artigo 61. Então qual é a diferença entre um e outro tipo de benefício? A diferença entre auxílio-doença comum e auxílio-doença acidentário reside no fator que deu origem ao afastamento e, portanto, ao recebimento do benefício previdenciário. Quando estamos diante de um auxílio-doença, ele pode ser pago em razão de qualquer tipo de enfermidade, por exemplo, uma infecção renal, quebrar a perna jogando futebol no fi nal de semana, ou alguma doença incapacitante que faça com que o trabalhador permaneça mais de 15 dias afastado de seu trabalho. Um acidente de carro, queda de escada ou lesão muscular podem ser oriundos de doença comum, mas também podem ser fonte do pagamento de auxílio-doença acidentário, se as circunstâncias em que ocorrerem puderem ser consideradas acidente de trabalho, conforme passaremos a estudar a seguir. 52 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 9.2 AuXÍlio-Doença Acidentário Para que o empregado tenha direito a receber o auxílio-doença acidentário, ele deverá ter sido acometido por alguma doença ou problema de saúde que o faça permanecerafastado do trabalho por mais de 15 dias, assim como no caso de auxílio-doença comum, no entanto, neste caso, a doença, lesão ou enfermidade foi causada por um acidente do trabalho e não por um mero infortúnio, como no caso de auxílio-doença comum. A própria lei previdenciária (Lei nº 8.213, de 1991) determina o que será ou não considerado acidente do trabalho nos artigos 19 e seguintes: Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho [...] Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas: I - doença profi ssional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social; II - doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada no inciso I. § 1º Não são consideradas como doença do trabalho: a) a doença degenerativa; b) a inerente a grupo etário; c) a que não produza incapacidade laborativa; d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho. § 2º Em caso excepcional, constatando-se que a doença não incluída na relação prevista nos incisos I e II deste artigo resultou das condições especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona diretamente, a Previdência Social deve considerá-la acidente do trabalho. Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei: I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação; II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em consequência de: 53 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho; b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho; c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho; d) ato de pessoa privada do uso da razão; e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior; III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade; IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho: a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa; b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar proveito; c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando fi nanciada por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão de obra, independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de propriedade do segurado; d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado. § 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fi siológicas, no local do trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do trabalho. § 2º Não é considerada agravação ou complicação de acidente do trabalho a lesão que, resultante de acidente de outra origem, se associe ou se superponha às consequências do anterior. Como se pode observar, há um rol bem extenso de situações que são consideradas acidente do trabalho, e são estas situações que determinam se o benefício pago será auxílio-doença comum ou auxílio-doença acidentário. Uma vez que a doença ou acidente que deu origem ao afastamento esteja enquadrado em uma das situações supra, o empregado terá direito ao auxílio-doença acidentário e, consequentemente, a aplicação do disposto no artigo 118, ou seja, a garantia de emprego. Art. 118. O segurado que sofreu acidente do trabalho tem garantida, pelo prazo mínimo de doze meses, a manutenção do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessação do auxílio-doença acidentário, independentemente de percepção de auxílio-acidente. 54 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Assim, devemos relembrar que as garantias de emprego são situações que a legislação optou por dar uma proteção especial em razão das condições especiais dos empregados que os tornam mais vulneráveis na constância da relação de emprego, em outras palavras, situações em que haveria um risco muito grande de ocorrer a dispensa deles, como o caso de um empregado que esteve afastado em razão de acidente do trabalho. Atividade de Estudos: 1) Após a leitura atenta dos dispositivos previdenciários apresentados anteriormente, utilize o quadro a seguir para organizar este conhecimento, descrevendo as situações que a legislação considera acidente de trabalho (conforme exemplo), e que, portanto, estão protegidos pela garantia de emprego: Garantia de emprego - acidente de trabalho Situação Fato gerador Justifi cativa legal Acidente de trabalho Acidente que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico Art. 19 da Lei nº 8.213/91 55 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 No âmbito trabalhista, o tema é tratado na Súmula 378 do TST já mencionada, que assegura o direito à estabilidade provisória por período de 12 meses após a cessação do auxílio-doença ao empregado acidentado e determina os pressupostos para a concessão da estabilidade, ou seja: • o afastamento superior a 15 dias; • percepção do auxílio-doença acidentário. Lembre-se de que o empregado submetido a contrato de trabalho por tempo determinado também goza da garantia provisória de emprego decorrente de acidente de trabalho, prevista no art. 118 da Lei nº 8.213/91. A última e necessária distinção se dá em razão da nomenclatura do benefício auxílio-acidente causar equívocos nesta seara, embora se trate de benefício concedido em situação distinta e com repercussões diversas. 9.3 AuXÍlio-Acidente O auxílio-acidente é concedido quando o segurado se encontra com uma lesão consolidada, a princípio, irrecuperável, mas não perdeu sua total capacidade laborativa, embora esta tenha sido reduzida. Este benefício serve como uma compensação pela redução da capacidade laborativa e pode ou não ter sido precedido do percebimento de auxílio-doença acidentário. E mais, o percebimento deste benefício não impede que o seu benefi ciário trabalhe ou mesmo receba outro benefício previdenciário. Vejamos como funciona este tipo de benefício: Do auxílio-acidente Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem sequelas (sic) que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia. 56 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho §1º O auxílio-acidente mensal corresponderá a cinquenta (sic) por cento do salário-de-benefício e será devido, observado o disposto no § 5º, até a véspera do início de qualquer aposentadoria ou até a data do óbito do segurado. § 2º O auxílio-acidente será devido a partir do diaseguinte ao da cessação do auxílio-doença, independentemente de qualquer remuneração ou rendimento auferido pelo acidentado, vedada sua acumulação com qualquer aposentadoria. § 3º O recebimento de salário ou concessão de outro benefício, exceto de aposentadoria, observado o disposto no § 5º, não prejudicará a continuidade do recebimento do auxílio-acidente. § 4º A perda da audição, em qualquer grau, somente proporcionará a concessão do auxílio-acidente, quando, além do reconhecimento de causalidade entre o trabalho e a doença, resultar, comprovadamente, na redução ou perda da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia (BRASIL, 2013, s.p.). Portanto, apesar de o nome do benefício ter o condão de criar pequenas confusões, o instituto é bem diverso e não se relaciona com a garantia de emprego, que somente é um direito daquele que esteve percebendo auxílio-doença acidentário. 10 EMPREGADO ELEITO DIRETOR DE COOPERATIVA Os dirigentes de cooperativas formadas pelos empregados de uma determinada empresa terão a mesma estabilidade dos dirigentes sindicais, conforme previsão do art. 55 da Lei nº 5.764/1971: Art. 55. Os empregados de empresas que sejam eleitos diretores de sociedades cooperativas pelos mesmos criadas, gozarão das garantias asseguradas aos dirigentes sindicais pelo artigo 543 da Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto- Lei n. 5.452, de 1° de maio de 1943). Art. 543 da CLT - O empregado eleito para cargo de administração sindical ou representação profi ssional, inclusive junto a órgão de deliberação coletiva, não poderá ser impedido do exercício de suas funções, nem transferido para lugar ou mister que lhe difi culte ou torne impossível o desempenho das suas atribuições sindicais. Sobre a compatibilidade e aplicabilidade do dispositivo celetista, Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1222) entende pela sua utilização no que não for incompatível: Não se relaciona com a garantia de emprego, que somente é um direito daquele que esteve percebendo auxílio-doença acidentário. 57 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 O art. 543 da CLT deve ser aplicado naquilo que for compatível. O suplente que de fato substituir o diretor terá direito à estabilidade, pois também sofrerá pressões do patrão. O mandato do diretor de cooperativa é defi nido no estatuto e não poderá ser superior a quatro anos (arts. 21, V, e 47 da Lei nº 5.764/71). Aplica-se ao dirigente de cooperativa as ponderações feitas a respeito da necessidade de comunicação do registro da candidatura e da eleição exigida para os dirigentes sindicais. O número de dirigentes também deve respeitar o limite contido no art. 522 da CLT, por semelhança de tratamento que lei empregou. Em sentido contrário, Sérgio Pinto Martins, advertindo que fi cará a cargo do estatuto estabelecer o número de dirigentes da cooperativa, salvo se houve abuso. Portanto, pela aplicação do artigo 55 da Lei nº 5.764/1971 combinado com o artigo 543 da CLT, que dispõe que empregado eleito não poderá ser impedido do exercício de suas funções, nem transferido para lugar ou mister que lhe difi culte ou torne impossível o desempenho das suas atribuições, evidencia-se que fi ca avalizada a estabilidade provisória, ou garantia de emprego aos empregados de empresas que sejam eleitos diretores de sociedades cooperativas, cujo mandato será defi nido pelo estatuto da própria cooperativa. 11 MEMBRO DO CONSELHO CURADOR DO FGTS Esta modalidade de proteção legal, não muito difundida, tem sua previsão expressa na Lei nº 8.036, de 1990, que disciplina o FGTS, em seu artigo 3º, parágrafo 9º, que determina a estabilidade dos empregados trabalhadores, efetivos e suplentes, da nomeação até um ano após o término do mandato de representação, somente perdendo esta proteção se cometer falta grave, regularmente comprovada através de processo sindical. O mesmo dispositivo de lei determina como será formado o Conselho Curador, nomeações e outras disposições: Art. 3º O FGTS será regido por normas e diretrizes estabelecidas por um Conselho Curador, composto por representação de trabalhadores, empregadores e órgãos e entidades governamentais, na forma estabelecida pelo Poder Executivo. § 1º A Presidência do Conselho Curador será exercida pelo representante do Ministério do Trabalho e da Previdência Social. Efetivos e suplentes, da nomeação até um ano após o término do mandato de representação. 58 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho § 2º Revogado. § 3º Os representantes dos trabalhadores e dos empregadores e seus respectivos suplentes serão indicados pelas respectivas centrais sindicais e confederações nacionais e nomeados pelo Ministro do Trabalho e da Previdência Social, e terão mandato de 2 (dois) anos, podendo ser reconduzidos uma única vez. § 4º O Conselho Curador reunir-se-á ordinariamente, a cada bimestre, por convocação de seu presidente. Esgotado esse período, não tendo ocorrido convocação, qualquer de seus membros poderá fazê-la, no prazo de 15 (quinze) dias. Havendo necessidade, qualquer membro poderá convocar reunião extraordinária, na forma que vier a ser regulamentada pelo Conselho Curador. § 5º As decisões do Conselho serão tomadas com a presença da maioria simples de seus membros, tendo o presidente voto de qualidade. § 6º As despesas porventura exigidas para o comparecimento às reuniões do Conselho constituirão ônus das respectivas entidades representadas. § 7º As ausências ao trabalho dos representantes dos trabalhadores no Conselho Curador, decorrentes das atividades desse órgão, serão abonadas, computando-se como jornada efetivamente trabalhada para todos os fi ns e efeitos legais. § 8º Competirá ao Ministério do Trabalho e da Previdência Social proporcionar ao Conselho Curador os meios necessários ao exercício de sua competência, para o que contará com uma Secretaria Executiva do Conselho Curador do FGTS. § 9º Aos membros do Conselho Curador, enquanto representantes dos trabalhadores, efetivos e suplentes, é assegurada a estabilidade no emprego, da nomeação até um ano após o término do mandato de representação, somente podendo ser demitidos por motivo de falta grave, regularmente comprovada através de processo sindical. Observe que o Conselho Curador é formado por membros indicados para representar empregados e empregadores, no entanto, seguindo a lógica do instituto e tudo que já estudamos sobre a garantia de emprego, esta somente se destina aos representantes e suplentes indicados para representação dos trabalhadores. A garantia de emprego ou estabilidade provisória concedida aos membros do Conselho Curador é semelhante à garantia de emprego do representante sindical, sendo que ela se inicia na nomeação e se estende até um ano após o mandato, que é de dois anos. Esta somente se destina aos representantes e suplentes indicados para representação dos trabalhadores. A garantia de emprego ou estabilidade provisória concedida aos membros do Conselho Curador é semelhante à garantia de emprego do representante sindical, sendo que ela se inicia na nomeação e se estende até um ano após o mandato, que é de dois anos. 59 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 12 MEMBRO DO CONSELHO NACIONAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL Previsto no Decreto nº 3.048, de 1999, que regulamenta a Previdência Social, o Conselho Nacional de Previdência Social tem sua composição e funcionamento descritos nos artigos 295 e seguintes. Art. 295. O Conselho Nacional de Previdência Social, órgão superior de deliberação colegiada, terá como membros: I - seis representantes do Governo Federal; e II - nove representantes da sociedade civil, sendo: a) três representantes dos aposentados e pensionistas; b) três representantes dos trabalhadores em atividade; e c) três representantes dos empregadores. § 1º Os membrosdo Conselho Nacional de Previdência Social e seus respectivos suplentes serão nomeados pelo Presidente da República, tendo os representantes titulares da sociedade civil mandato de dois anos, podendo ser reconduzidos, de imediato, uma única vez. [...] (grifo nosso). Sendo que a proteção ao emprego dos seus membros está defi nida no artigo 301 do Decreto nº 3.048/99, conforme se observa a seguir: Art. 301. Aos membros do Conselho Nacional de Previdência Social, enquanto representantes dos trabalhadores em atividade, titulares e suplentes, é assegurada a estabilidade no emprego, da nomeação até um ano após o término do mandato de representação, somente podendo ser demitidos por motivo de falta grave, regularmente comprovada mediante processo judicial (grifo nosso). Neste ponto também é conveniente destacar que a proteção novamente é voltada aos representantes dos trabalhadores e que o mandato é de dois anos, nos mesmos moldes do item anterior. 13 EMPREGADO REABILITADO E EMPREGADO COM DEFICIÊNCIA Aqui não se trata exatamente de uma garantia de emprego, nem mesmo a proteção legal é voltada a um sujeito específi co, mas se trata de uma proteção impessoal direcionada a um grupo maior de indivíduos que se encontra em uma situação semelhante, por esta razão a legislação os coloca em uma posição diferenciada, tentando com isso fazer a sua inclusão no mercado de trabalho, como se depreende da leitura do artigo 93 da Lei nº 8.213/91: Neste ponto também é conveniente destacar que a proteção novamente é voltada aos representantes dos trabalhadores e que o mandato é de dois anos, nos mesmos moldes do item anterior. Se trata de uma proteção impessoal direcionada a um grupo maior de indivíduos que se encontra em uma situação semelhante. 60 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com benefi ciários reabilitados ou pessoas portadoras de defi ciência, habilitadas, na seguinte proporção: I- até 200 empregados - 2% II- de 201 a 500 - 3% III- de 501 a 1.000 - 4% IV- de 1.001 em diante - 5% § 1º A dispensa de pessoa com defi ciência ou de benefi ciário reabilitado da Previdência Social ao fi nal de contrato por prazo determinado de mais de 90 (noventa) dias e a dispensa imotivada em contrato por prazo indeterminado somente poderão ocorrer após a contratação de outro trabalhador com defi ciência ou benefi ciário reabilitado da Previdência Social (grifo nosso). É relevante que o Decreto nº 3.298/99 dispõe sobre a cota legal exigida de pessoas com defi ciência ou reabilitados. Uma vez cumprida esta exigência, a empresa não mais se verá obrigada a manter o contrato de trabalhador com defi ciência ou benefi ciário reabilitado da Previdência Social. “Consequentemente, se o empregador estiver mantendo empregados portadores de defi ciência em percentuais superiores aos exigidos pela norma legal, não estará sujeito a qualquer exigência legal” (MARTINEZ, 2016, p. 1264). Recentemente, a Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Defi ciência) estabeleceu que cabe ao Ministério do Trabalho e Emprego estabelecer a sistemática de fi scalização, bem como gerar dados e estatísticas sobre o total de empregados e as vagas preenchidas por pessoas com defi ciência e por benefi ciários reabilitados da Previdência Social, fornecendo-os, quando solicitados, aos sindicatos, às entidades representativas dos empregados ou aos cidadãos interessados. Observe que as decisões judiciais não são no sentido de garantir o retorno do empregado com defi ciência ou reabilitado ao trabalho de origem, preocupando-se apenas com a manutenção da cota indicada na lei. Todavia, há defensores da tese contrária, como é o caso de Gustavo Felipe Barbosa. Observe atentamente as decisões a seguir, nas quais, excepcionalmente, foi admitida a reintegração: EMPREGADO REABILITADO. GARANTIA NO EMPREGO. A norma inserta no art. 93 da Lei nº 8.213/91 não estabelece nenhuma forma de estabilidade no emprego, todavia impõe restrições ao direito potestativo da empregadora de despedir empregados reabilitados. Na hipótese, a reclamada foi confessa quanto à não contratação de substituto, em igual condição da reclamante, requisito esse previsto no parágrafo 61 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 único do dispositivo legal em análise. Diante disso, impõe- se declarar a nulidade da despedida, determinando a reintegração do autor no emprego. Recurso provido (TRT da 4 ª Região, Processo nº 0020208-11.2015.5.04.0012 (RO), 8ª turma, Data: 06/07/2017, Redator: Angela Rosi Almeida Chapper, grifo nosso). DEFICIENTE FÍSICO. REINTEGRAÇÃO. COTA SOCIAL. O quadro fático trazido pelo Regional, de insuscetível revisão (Súmula nº 126 desta Corte), evidencia que a Reclamada não observa a norma contida no artigo 93, § 1º, da Lei nº 8.213/91, segundo o qual a dispensa de trabalhador defi ciente habilitado de forma motivada só pode ocorrer após a contratação de um substituto em condições semelhantes. Nesse contexto, a decisão regional que reconhece a nulidade da dispensa encontra amparo na jurisprudência desta corte (TRT da 12ª Região, Processo: 0001074- 22.2016.5.12.0050, Data: 18/12/2017, redator Marcos Vinicio Zanchetta). Nesta decisão, a tendência já mencionada é bem clara: NULIDADE DA DESPEDIDA. REINTEGRAÇÃO AO EMPREGO. PORTADOR DE DEFICIÊNCIA. Prevalece nesta Turma Julgadora o entendimento segundo o qual o art. 93, §1º, da Lei nº 8.213/91 não consagra uma espécie de estabilidade no emprego ao trabalhador, mas apenas uma restrição ao exercício do poder potestativo do empregador de despedir empregados. Nesse contexto, eventual infração a essa disposição legal enseja tão somente uma punição em caráter administrativo à empresa, sendo incabível, por ausência de amparo legal, a reintegração do trabalhador portador de defi ciência ao emprego (TRT da 4ª Região, Processo nº 0020730-93.2015.5.04.0511 (RO), Relator: Herbert Paulo Beck, grifo nosso). ESTABILIDADE DO EMPREGADO REPRESENTANTE DA EMPRESA Uma importante alteração na legislação ocorreu com a Lei nº 13.467/17, conhecida como a Reforma Trabalhista, que inseriu os artigos 510-A e seguintes da CLT, que criaram e regulamentaram a estabilidade dos representantes dos empregados nas empresas com mais de 200 empregados. Vejamos o que os novos diplomas legais instituíram: 62 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 510- A. Nas empresas com mais de duzentos empregados, é assegurada a eleição de uma comissão para representá-los, com a fi nalidade de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. § 1º A comissão será composta: I- nas empresas com mais de duzentos empregados e até três mil empregados, por três membros; II- nas empresas com mais de três mil e até cinco mil empregados, por cinco membros; III- nas empresas com mais de cinco mil empregados, por sete membros. § 2º No caso de a empresa possuir empregados em vários Estados da Federação e no Distrito Federal, será assegurada a eleição de uma comissão de representantes dos empregados por Estado ou no Distrito Federal, na mesma forma estabelecida no § 1º deste artigo. Segundo o novo mandamento celetista, as empresas que possuam mais de 200 empregados deverão criar uma comissão de representação dos empregados, regulamentando o mandamento do art. 11 da Constituição Federal: Art. 11. Nas empresas de mais de duzentos empregados, é assegurada a eleição de um representante destes com a fi nalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. A regulamentação celetista determina que as empresas que possuam de 200 a três mil empregados terão uma comissão formada por três membros; enquanto as empresasque possuam mais de três mil empregados até cinco mil empregados terão uma comissão formada por cinco membros. Já as empresas com mais de cinco mil empregados serão representadas por uma comissão formada por sete membros, conforme quadro a seguir: QUADRO 1 – COMPOSIÇÃO DA COMISSÃO DE REPRESENTAÇÃO DOS EMPREGADOS 200 a 3 mil empregados Comissão composta por 3 membros + de 3 mil a 5 mil empregados Comissão composta por 5 membros + de 5 mil empregados Comissão composta por 7 membros FONTE: A autora 63 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 As atribuições das comissões de representantes dos empregados estão dispostas no artigo 510-B, a seguir apresentadas: Art. 510- B. A comissão de representantes dos empregados terá as seguintes atribuições: I- representar os empregados perante a administração da empresa; II- aprimorar o relacionamento entre a empresa e seus empregados com base nos princípios da boa-fé e do respeito mútuo; III- promover o diálogo e o entendimento no ambiente de trabalho com o fi m de prevenir confl itos; IV- buscar soluções para os confl itos decorrentes da relação de trabalho, de forma rápida e efi caz, visando à efetiva aplicação das normas legais e contratuais; V- assegurar tratamento justo e imparcial aos empregados, impedindo qualquer forma de discriminação por motivo de sexo, idade, religião, opinião política ou atuação sindical; VI- encaminhar reivindicações específi cas dos empregados de seu âmbito de representação; VII- acompanhar o cumprimento das leis trabalhistas, previdenciárias e das convenções coletivas e acordos coletivos de trabalho. § 1º As decisões da comissão de representantes dos empregados serão sempre colegiadas, observada a maioria simples. § 2º A comissão organizará sua atuação de forma independente. As eleições serão convocadas com 30 dias de antecedência, por meio de edital, e seguirão as determinações do artigo 510-C da CLT: Art. 510-C. A eleição será convocada, com antecedência mínima de trinta dias, contados do término do mandato anterior, por meio de edital que deverá ser fi xado na empresa, com ampla publicidade, para inscrição da candidatura. § 1º Será formada comissão eleitoral, integrada por cinco empregados, não candidatos, para a organização e o acompanhamento do processo eleitoral, vedada interferência da empresa e do sindicato da categoria. § 2º Os empregados da empresa poderão candidatar-se, exceto aqueles com contrato de trabalho por prazo determinado, com contrato suspenso ou que estejam em período de aviso-prévio, ainda que indenizado. § 3º Serão eleitos membros da comissão de representantes dos empregados os candidatos mais votados, em votação secreta, vedado o voto por representação. § 4º A comissão tomará posse no primeiro dia útil seguinte à eleição ou ao término do mandato anterior. § 5º Se não houver candidatos sufi cientes, a comissão de representantes dos empregados poderá ser formada com número de membros inferior ao previsto no art. 510- A desta Consolidação. § 6º Se não houver registro de candidatura, será lavrada ata e convocada nova eleição no prazo de um ano. 64 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A garantia de emprego instituída pela Reforma Trabalhista está consagrada no novo artigo 510-D da CLT, que protege os membros desde o registro da candidatura até um ano após o fi m do mandato. Art. 510- D. O mandato dos membros da comissão de representantes dos empregados será de um ano. § 1º O membro que houver exercido a função de representante dos empregados na comissão não poderá ser candidato nos dois períodos subsequentes. § 2º O mandato de membro da comissão de representantes dos empregados não implica suspensão ou interrupção do contrato de trabalho, devendo o empregado permanecer no exercício de suas funções. § 3º Desde o registro da candidatura até um ano após o fi m do mandato, o membro da comissão de representantes dos empregados não poderá sofrer despedida arbitrária, entendendo-se como tal a que não se fundar em motivo disciplinar, técnico, econômico ou fi nanceiro. § 4º Os documentos referentes ao processo eleitoral devem ser emitidos em duas vias, as quais permanecerão sob a guarda dos empregados e da empresa pelo prazo de cinco anos, à disposição para consulta de qualquer trabalhador interessado, do Ministério Público do Trabalho e do Ministério do Trabalho (Grifo nosso). Assim, em conformidade com os novos dispositivos legais inseridos na CLT, os representantes dos empregados das empresas com mais de 200 empregados terão mandato de um ano e serão protegidos pela garantia de emprego desde o registro da candidatura até um ano após o fi m do mandato. 14 PERÍODO ELEITORAL A legislação ainda prevê uma garantia de emprego aos servidores públicos, celetistas ou estatutários que não tenham adimplido os requisitos para a aquisição da estabilidade, ou seja, aqueles que ainda se encontrem em estágio probatório. Eis que, caso já houvessem adquirido a estabilidade, estariam protegidos pelo art. 41 da Constituição. “Observe-se, ainda, que a estabilidade pré-eleitoral opera-se unicamente na circunscrição do pleito. Isso signifi ca que a garantia de emprego não se aplica aos servidores públicos dos locais onde não ocorrem as eleições” (MARTINEZ, 2016, p. 1262). A Lei nº 9.504/1997 estabelece normas eleitorais nos seguintes termos: Os representantes dos empregados das empresas com mais de 200 empregados terão mandato de um ano e serão protegidos pela garantia de emprego desde o registro da candidatura até um ano após o fi m do mandato. A legislação ainda prevê uma garantia de emprego aos servidores públicos, celetistas ou que ainda se encontrem em estágio probatório. 65 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais: V - nomear, contratar ou de qualquer forma admitir, demitir sem justa causa, suprimir ou readaptar vantagens ou, por outros meios, difi cultar ou impedir o exercício funcional e, ainda, ex offi cio, remover, transferir ou exonerar servidor público, na circunscrição do pleito, nos três meses que o antecedem e até a posse dos eleitos, sob pena de nulidade de pleno direito, ressalvados: a) a nomeação ou exoneração de cargos em comissão e designação ou dispensa de funções de confi ança. Por fi m, cabe a análise da Orientação Jurisprudencial 51 da SDI-1, do TST: LEGISLAÇÃO ELEITORAL. EMPRESAS PÚBLICAS E SOCIEDADES DE ECONOMIA MISTA (título alterado e inserido dispositivo) - DEJT divulgado em 16, 17 e 18.11.2010. Aos empregados das empresas públicas e das sociedades de economia mista regidos pela CLT aplicam-se as vedações dispostas no art. 15 da Lei nº 7.773, de 08.06.1989. Cumpre esclarecer o que dispõe o artigo 15 da Lei nº 7.773/89: Art. 15. São vedados e considerados nulos de pleno direito, não gerando obrigações de espécie alguma para a pessoa jurídica interessada e nenhum direito para o benefi ciário, os atos que, no período compreendido entre o trigésimo dia da publicação desta Lei e o término do mandato do Presidente da República, importarem em nomear, admitir ou contratar ou exonerar ex offi cio, demitir, dispensar, transferir ou suprimir vantagens de qualquer espécie de servidor público, estatutário ou não, da Administração Pública Direta ou Indireta e Fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e dos Territórios (Grifo nosso). Assim, tem sido admitida a aplicabilidade da legislação eleitoral também em favor dos empregados contratados pelas empresas públicas e sociedades de economia mista nos moldes da OJ em comento. Vejamos as decisões acerca da matéria: EMENTA: EMPREGADO DE EMPRESA PÚBLICA. NULIDADEDA DISPENSA OCORRIDA EM PERÍODO ELEITORAL. O empregado de empresa pública, considerado servidor público em seu sentido lato, goza da garantia prevista no item V, do art. 73 da Lei n. 9.504/97, não podendo ser dispensado nos três meses anteriores ao pleito realizado em sua circunscrição, até a posse dos eleitos (Precedente n. 51 da SDI/TST). Entretanto, se o contrato de trabalho, em razão da dispensa, extingue-se 66 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho antes daquele período, ainda que computado o prazo do aviso prévio como tempo de serviço efetivo, a dispensa é válida. (TRT da 3ª Região; Processo: RO - 18479/00; Data de Publicação: 27/01/2001, DJMG, Página 15; Órgão Julgador: Quarta Turma; Relator: Luiz Otavio Linhares Renault; Revisor: Julio Bernardo do Carmo). MANDADO DE SEGURANÇA. REINTEGRAÇÃO. NULIDADE DA DISPENSA DE EMPREGADO PÚBLICO EM PERÍODO DE PLEITO ELEITORAL. Nos termos do art. 73, V, da Lei nº 9.504/97, é vedada a exoneração de servidor público na circunscrição do pleito no período dos três meses que antecedem as eleições e até a posse dos eleitos. Comprovada a dispensa do empregado público dentro desse período de estabilidade e evidenciados os prejuízos irreparáveis pela demora do processo, deve ser concedida a antecipação de tutela, nos termos do art. 300 do CPC/2015. Direito líquido e certo demonstrado. Segurança concedida. (TRT da 4ª Região, PROCESSO nº 0021684-86.2016.5.04.0000 (MS), Data: 22/03/2017,1ª Seção de Dissídios Individuais, Redator: Brígida Joaquina Charão Barcelos Toschi). Dos julgados supra, podemos concluir que o empregado de empresa pública é considerado servidor público e, portanto, goza da garantia prevista no item V, do art. 73 da Lei nº 9.504/97, não podendo ser dispensado nos três meses anteriores ao pleito realizado em sua circunscrição, até a posse dos eleitos. 15 ESTABILIDADE DO ART. 19 DO ADCT DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 A Constituição de 1988 extinguiu a estabilidade da CLT e criou regras específi cas de estabilidade direcionadas aos servidores públicos. Interessam-nos ao estudo deste ponto as regras constantes no art. 19, do ADCT/CF-88, e a do art. 41 da Constituição. Iniciamos pela análise do artigo 19 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT): Art. 19. Os servidores públicos civis da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, da administração direta, autárquica e das fundações públicas, em exercício na data da promulgação da Constituição, há pelo menos cinco anos continuados, e que não tenham sido admitidos na forma regulada no art. 37 da Constituição, são considerados estáveis no serviço público. § 1º O tempo de serviço dos servidores referidos neste artigo Não podendo ser dispensado nos três meses anteriores ao pleito realizado em sua circunscrição, até a posse dos eleitos. 67 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 será contado como título quando se submeterem a concurso para fi ns de efetivação, na forma da lei. § 2º O disposto neste artigo não se aplica aos ocupantes de cargos, funções e empregos de confi ança ou em comissão, nem aos que a lei declare de livre exoneração, cujo tempo de serviço não será computado para os fi ns do caput deste artigo, exceto se se tratar de servidor. § 3º O disposto neste artigo não se aplica aos professores de nível superior, nos termos da lei. A leitura do dispositivo legal supra leva à conclusão de que o legislador constituinte incluiu apenas os empregados públicos da administração direta, autárquica e fundacional na proteção legal, garantindo essa vantagem da estabilidade, desde que contassem com, pelo menos, cinco anos contínuos de prestação de serviços a estes órgãos estatais. A mens legislatoris no art. 19 do ADCT foi a de garantir a alguns empregados públicos a estabilidade, já que o art. 39 da Carta tornou único o regime jurídico dos servidores da administração direta, autárquica e fundacional – regime estatutário. Exatamente estes são os entes indicados pelo constituinte no art. 19 do ADCT, cujos empregados foram benefi ciados com a estabilidade. Ademais, as Disposições Constitucionais são transitórias, o que quer dizer, até que a lei regulamente os comandos contidos na Carta, prevalece a disposição transitória. Logo, o art. 19 do ADCT regulamentou, temporariamente, o art. 39 da Carta até que a Lei nº 8.112/90 convertesse seus regimes jurídicos de celetistas para estatutários. Atualmente, os servidores públicos submetidos ao regime estatutário sujeitam-se à aprovação em concurso público de provas, provas de título e a estágio probatório. Em suma, exclusivamente os empregados da administração direta, autárquica ou fundacional, cujos regimes jurídicos mais tarde foram transformados em estatutários, se benefi ciam da estabilidade contida no art. 19 do ADCT. O legislador, para estes casos, considerou os cinco anos de tempo de serviço que antecederam a promulgação da Carta como estágio probatório, pois estavam sujeitos à dispensa ad nutum. Excepcionalmente, os empregados de fundações privadas, regidos pela CLT, desde que subvencionadas e mantidas pelo Poder Público, para realizar atividades típicas do Estado, estão atingidos pela estabilidade contida no art. 19 do ADCT – OJ nº 364 da SDI-I do TST (CASSAR, 2017, p.1432). A regra genérica e indiferenciada insculpida nesse dispositivo da Constituição de 1988 (servidores públicos civis) não permite, para os fi ns de sua incidência, vislumbrar-se distinção entre servidores sob regime administrativo e sob regime celetista. Neste quadro, os empregados públicos vinculados, nos moldes supra, à União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com suas respectivas administrações diretas, autárquicas e fundacionais, são, inquestionavelmente, “considerados estáveis no serviço público” (art. 19, ADCT/CF-88). (DELGADO, 2017, p. 1321). A leitura do dispositivo legal supra leva à conclusão de que o legislador constituinte incluiu apenas os empregados públicos da administração direta, autárquica e fundacional na proteção legal, garantindo essa vantagem da estabilidade, desde que contassem com, pelo menos, cinco anos contínuos de prestação de serviços a estes órgãos estatais. 68 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Em suma, somente os empregados da administração direta, autárquica ou fundacional, cujos regimes jurídicos foram transformados posteriormente em estatutários pelo artigo 39 da Constituição, se benefi ciam da estabilidade contida no art. 19 do ADCT, pois, como destacou Cassar (2017), o legislador considerou os cinco anos de tempo de serviço anteriores à promulgação da Constituição como estágio probatório, eis que, na atualidade, os servidores estatutários devem ser aprovados por concurso público e são sujeitos a estágio probatório. 16 ESTABILIDADE DO ART. 41 DA CONSTITUIÇÃO DE 1988 A outra modalidade de estabilidade do servidor público é a prevista no artigo 41 da Constituição Federal: Art. 41. São estáveis após três anos de efetivo exercício os servidores nomeados para cargo de provimento efetivo em virtude de concurso público. § 1º O servidor público estável só perderá o cargo: I - em virtude de sentença judicial transitada em julgado; II - mediante processo administrativo em que lhe seja assegurada ampla defesa; II I - mediante procedimento de avaliação periódica de desempenho, na forma de lei complementar, assegurada ampla defesa. § 2º Invalidada por sentença judicial a demissão do servidor estável, será ele reintegrado, e o eventual ocupante da vaga, se estável, reconduzido ao cargo de origem, sem direito a indenização, aproveitado em outro cargo ou posto em disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço. § 3º Extinto o cargo ou declarada a sua desnecessidade,o servidor estável fi cará em disponibilidade, com remuneração proporcional ao tempo de serviço, até seu adequado aproveitamento em outro cargo. § 4º Como condição para a aquisição da estabilidade, é obrigatória a avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa fi nalidade. É necessário estar atento ao fato de que embora os empregados de empresas públicas e sociedades de economia mista sejam admitidos por meio de concurso público, não fazem jus à estabilidade, haja vista que o seu contrato de trabalho é o mesmo observado para as empresas privadas, conforme artigo 173 da CF e Súmula 390, II, do TST. Em suma, somente os empregados da administração direta, autárquica ou fundacional se benefi ciam da estabilidade contida no art. 19 do ADCT. 69 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Súmula nº 390 do TST ESTABILIDADE. ART. 41 DA CF/1988. CELETISTA. ADMINISTRAÇÃO DIRETA, AUTÁRQUICA OU FUNDACIONAL. APLICABILIDADE. EMPREGADO DE EMPRESA PÚBLICA E SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. INAPLICÁVEL (conversão das Orientações Jurisprudenciais nºs 229 e 265 da SBDI-1 e da Orientação Jurisprudencial nº 22 da SBDI-2) - Res. 129/2005, DJ 20, 22 e 25.04.2005 I - O servidor público celetista da administração direta, autárquica ou fundacional é benefi ciário da estabilidade prevista no art. 41 da CF/1988. (ex-OJsnºs 265 da SBDI-1 - inserida em 27.09.2002 - e 22 da SBDI-2 - inserida em 20.09.2000) II - Ao empregado de empresa pública ou de sociedade de economia mista, ainda que admitido mediante aprovação em concurso público, não é garantida a estabilidade prevista no art. 41 da CF/1988 (ex-OJ nº 229 da SBDI-1 - inserida em 20.06.2001). Destaque-se que o servidor celetista (empregado público), mesmo sendo concursado, não tem a proteção da estabilidade constitucional, sendo que sua proteção legal se restringe ao fato da proibição da dispensa meramente arbitrária, sendo necessário que sua dispensa seja motivada. 70 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Proteção Legal Benefi ciário Marco inicial e fi nal Previsão normativa Jurisprudência Dirigente Sindical Empregado sindicalizado A partir do registro da candidatura até um ano após o fi nal do mandato Art. 8º, VIII, da CF Súmulas 369, 379 e 396 do TST OJ 369 da SDI-1 do TST CIPA Empregado eleito para cargo de direção da CIPA A partir registro candidatura até um ano após o fi nal do mandato Art. 10, II, a, do ADCT Súmulas 339 e 396 do TST Gestante Empregada gestante ou, em caso de morte desta, a quem detiver aguarda de seu fi lho Desde confi rmação da gravidez até 5 meses após o parto Art. 10, II, b, do ADCT Súmulas 244 e 396 do TST Acidentado Empregado acidentado do trabalho ou com doença profi ssional Após cessação auxílio- doença acidentário ou após reintegração por um ano Art. 118 da Lei nº. 8.213/91 Súmula 378 do TST OJ 41 da SDI-1 do TST Diretor de cooperativa de empregados Empregados eleitos diretores titulares de sociedades cooperativas A partir registro candidatura até um ano após o fi nal do mandato # Não se aplica aos suplentes Art. 55 da Lei nº 5.764/71 OJ 253 da SDI-1 do TST Membro trabalhador do Conselho Nacional de Previdência Social Membros do CNPS, representantes dos trabalhadores em atividade, titulares/ suplentes A partir nomeação até um ano após o fi nal do mandato Art. 3º, § 7º da Lei nº 8.213/91 Representantes dos empregados em Comissões de Conciliação Prévia Representantes dos empregados membros da comissão de conciliação prévia A partir registro candidatura até um ano após o fi nal do mandato # titulares e suplentes Art. 625-B, § 1º da CLT Representante dos empregados no Conselho Curador do FGTS Membros do Conselho Curador, enquanto representantes dos trabalhadores A partir nomeação até o fi nal do mandato # efetivos e suplentes Art. 3º, § 9º da Lei nº 8.036/90 Estabilidade do empregado representante da empresa Empregado membro do comitê de representantes das empresas Desde o registro da candidatura até um ano após o fi m do mandato Art. 510-D da CLT Período pré- eleitoral Servidor público no probatório, Celetista e empregados públicos Durante os três meses Que antecedem pleito Art. 73, V, da Lei nº 9.504/97 OJ 51 da SDI-1 do TST Pessoa com defi ciência ou benefi ciário reabilitado Pessoa com defi ciência ou reabilitado Desde contratação # Não é condição pessoal Art. 93, § 1º da Lei nº 8.213/91 QUADRO 2 – GARANTIAS E ESTABILIDADES DE EMPREGO FONTE: A autora Após o estudo do tema estabilidade e garantia de emprego, vamos relembrar alguns pontos respondendo às questões a seguir apresentadas: 71 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Atividades de Estudos: 1) Qual é a diferença entre estabilidade e garantia de emprego? Cite exemplos de cada tipo de proteção legal. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) A garantia de emprego concedida à empregada gestante é alvo de muitas polêmicas, uma delas diz respeito ao alcance desta proteção. É correto afi rmar que esta proteção se estende à empregada doméstica? Qual é o fundamento legal para a sua resposta? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) No que diz respeito à garantia de emprego conferida ao empregado acidentado, quais são os requisitos e a previsão legal dela? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ _____________________________________ _______________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 72 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 17 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Ao longo deste capítulo estudamos dois importantes institutos do Direito do Trabalho: a Estabilidade e a Garantia de Emprego, o que tornou possível identifi car as modalidades de proteção que foram sendo relativizadas e até mesmo suprimidas ao longo dos anos e aquelas que permanecem vigentes até a atualidade. Foi possível distinguir a Estabilidade da Garantia de Emprego, sobretudo sob o aspecto do alcance de cada modalidade de proteção vigente, fi cando claro que as garantias de emprego, assim como a estabilidade, são situações que a legislação optou por dar uma proteção especial em razão das condições especiais dos empregados, que os tornam mais vulneráveis na permanência da relação de emprego. Em suma, a relevância dos temas foi evidenciada e sua aplicação foi analisada em conformidade com a interpretação atual, permitindo uma visão global do tema estudado. REFERÊNCIAS BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. 10. ed., atual. por Jessé Claudio Franco de Alencar. São Paulo: LTr, 2016. BRASIL. Parecer CONJUR-MPS/CGU/AGU n. 17, de 21 de janeiro de 2013. Disponível em: .imutável (a princípio). Nós podemos tentar compreender esta diferenciação em seu aspecto jurídico laboral quando estudamos os conceitos de ambos os institutos, que serão revisitados, conforme destacado a seguir por Luciano Martinez (2016, p. 1211, grifo do autor): A garantia de emprego básica, também conhecida como garantia de emprego em sentido estrito, é mero entrave imposto ao desligamento. Ela funciona, como se verá em detalhes mais adiante, mediante desestímulos à atuação resilitória patronal. A garantia de emprego especial, também conhecida como estabilidade, por seu turno, é um verdadeiro obstáculo imposto ao desligamento. Ela, na verdade, impede o despedimento diante de algumas situações particulares. Como foi possível compreender pela leitura da análise do autor, quando nos deparamos com uma garantia, estamos diante de um mero impeditivo, algo que pode se transpor, já quando se trata de estabilidade, algumas situações descritas pela legislação impedem a ação, não podem ser transpostas. Assim, evidencia-se a diferença entre garantia e estabilidade. 13 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Outra abordagem muito interessante é apresentada por Vólia Bomfi m Cassar (2017, p. 1127, grifo nosso): Toda medida praticada com o intuito de diminuir o desemprego, recolocar o trabalhador no mercado de trabalho, incentivar a admissão, desestimular a dispensa, obstar ou onerar a despedida arbitrária, capacitar o profi ssional no sentido de aproveitá-lo no mercado é considerada medida de garantia no emprego. A garantia de emprego é um instituto político-social- econômico, enquanto a estabilidade é um instituto trabalhista. Assim, quando a lei autoriza o recolhimento do FGTS em percentual menor para estimular a criação de novos empregos (Lei nº 9.601/91) ou para incluir o menor aprendiz no mercado (art. 432 da CLT c/c art. Lei nº 8.036/90) ou na indústria (art. 429 da CLT) está, na verdade, tomando medidas de garantia de empregos. Quando a lei impõe o pagamento de adicionais remuneratórios ou indenizatórios em virtude da dispensa imotivada (art. 14 da Lei nº 8.036/90 – 40% sobre o FGTS; Lei nº 8.880/94) está desestimulando a despedida. Quando o empregador cria espontaneamente restrições à dispensa, exigindo, por exemplo, como pré-requisito desta a submissão da intenção de dispensa a uma comissão paritária para análise e tentativa de recolocação e aproveitamento dentro dos quadros da empresa, está criando um mecanismo de garantia de emprego. Quando a lei obriga a contratação de defi cientes físicos (art. 93 da Lei nº 8.213/91) ou de qualquer minoria está, também, fomentando o emprego. Enfi m, a garantia de emprego do empregado. Uma vez compreendida esta diferença, passa-se à análise dos institutos da estabilidade de emprego e garantia de emprego, também conhecida como estabilidade provisória. 2.1 Estabilidade de Emprego O Direito do Trabalho tem a forte infl uência de seus princípios, na formação, aplicação e interpretação das normas. Sendo que no que diz respeito ao estudo deste instituto, a forte infl uência dos princípios da continuidade da relação de emprego e a busca pela inserção do trabalhador na relação de emprego se evidencia. Precisamos nos lembrar das lições de Mauricio Godinho Delgado sobre o estudo do Direito do Trabalho e suas funções, ou seja, a melhoria das condições de pactuação da força de trabalho na ordem socioeconômica, o caráter modernizante e progressista e a função civilizatória e democratizante. Mas em que sentido isso se relaciona à estabilidade no emprego? Mas em que sentido isso se relaciona à estabilidade no emprego? 14 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho • Como o empregado poderá negociar as condições de sua força de trabalho frente ao empregador, se não há nenhum tipo de proteção a ele? • O que acontece com empregados que exigem melhores condições de trabalho e não têm a proteção legal de sua manutenção no emprego? Pode-se responder com uma paráfrase do professor Márcio Túlio Viana (2004), que habitualmente repete a citação a seguir: “ – O empregado descontente sempre tem a opção de ir embora”. A refl exão principal diz respeito à razão de criação do instituto da estabilidade, que ocorreu em uma época de poucas proteções ao emprego e de uma busca pelo crescimento econômico. Sendo uma das funções do Direito do Trabalho a melhoria das condições de trabalho, esta se consolida quando a lei restringe a liberdade do empregador e protege o empregado, assim deixando-o em uma condição mais favorável para negociar as condições de sua prestação de serviço, sem receio de uma represália ou mesmo dispensa em razão de suas reivindicações. E mais, no que diz respeito à economia e à previdência (origem primeira do instituto), estas são benefi ciadas pelas relações de trabalho estáveis. Quando o empregado não tem receio de perder seu emprego, acaba adquirindo bens e serviços, benefi ciando a economia; e a previdência, sob a mesma perspectiva, tem garantida sua fonte de renda para manter com suas obrigações. Assim fi ca claro que a função do Direito do Trabalho, assim como seus princípios, é a manutenção do emprego, o que dá equilíbrio ao mercado de trabalho e às relações interpessoais e coaduna perfeitamente com o instituto da estabilidade do emprego em sua origem. É justamente essa segurança social o elemento motivador de um conjunto de normas jurídicas que visam impedir ou restringir os atos de terminação dos contratos de emprego por iniciativa patronal (MARTINEZ, 2016, p. 1211). Infelizmente, como veremos na sequência, gradativamente a proteção concedida pela estabilidade de emprego foi sendo desfragmentada, restando aos empregados, ao menos por enquanto, as estabilidades provisórias ou garantias de emprego. 15 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 3 DENOMINAÇÃO E CONCEITO DE ESTABILIDADE Conforme se pode observar, quando distinguimos a estabilidade da garantia de emprego, a nomenclatura estabilidade oferece a ideia de permanência do empregado em seu emprego e não se confunde com estabilidade provisória, que pode ser entendida como sinônimo de garantia de emprego. Assim, quando se trata de uma previsão de manutenção no emprego indefi nidamente, denomina-se estabilidade ou estabilidade provisória. Como visto anteriormente, a estabilidade pode ser conceituada como “o direito de o trabalhador permanecer no emprego, restringindo o direito do empregador de dispensá-lo sem justa causa ou de forma arbitrária” (GARCIA, 2017, p. 794). Portanto, sob a égide da estabilidade, o empregado será protegido da dispensa arbitrária ou sem justa causa, somente podendo perder este direito nas circunstâncias legalmente determinadas. Então pode-se afi rmar que a estabilidade “trata-se de um direito do empregado, de não ser dispensado, salvo nos casos excepcionalmente previstos em lei” (GARCIA, 2017, p. 794). Ou ainda, Estabilidade é o direito do empregado de continuar no emprego, mesmo contra a vontade do empregador, desde que inexista uma causa objetiva a determinar sua despedida. Tem, assim, o empregado o direito ao emprego, de não ser despedido, salvo determinação de lei em sentido contrário (MARTINS, 2008, p. 422). Nos ensinamentos de Mauricio Godinho Delgado, a estabilidade é conceituada da seguinte forma: É a vantagem jurídica de caráter permanente deferida ao empregado em virtude de uma circunstância tipifi cada de caráter geral, de modo a assegurar a manutenção indefi nida no tempo do vínculo empregatício, independentemente da vontade do empregador (DELGADO, 2017, p. 795). Assim, tendo em vista os conceitos apresentados, podemos defi nir que estabilidade é um mecanismo utilizado pela legislação que tem o intuito de garantir que o empregado continue no emprego quando não houver motivo para tal. 16 Estabilidade e GarantiasAcesso em: 5 jan. 2018. CASSAR, Vólia Bomfi m; BORGES, Leonardo Dias. Comentários à reforma Trabalhista. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 16. ed. São Paulo: LTR, 2017. GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Curso de Direito do Trabalho. 11. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017. MARTINS, Sergio Pinto. Direito do trabalho. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2008. MARTINEZ, Luciano. Curso de Direito do Trabalho. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito Contemporâneo do Trabalho. São Paulo: Saraiva, 2011. 73 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 PAGANI, Marcella; MIRAGLIA, Lívia Mendes Moreira; FINELLI, Lília C. Direito individual do trabalho: manual simplifi cado. Belo Horizonte: RTM, 2016, v. 1. p. 576. PORTAL BRASIL. Mulheres ganham espaço no mercado de trabalho. Disponível em: . Acesso em: 28 dez. 2017. VIANA, Márcio Túlio. A reforma sindical, entre o bem e o mal. 2004. Disponível em: . Acesso em: 13 dez. 2017. 74 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho CAPÍTULO 2 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Analisar as teorias que fundamentam as indenizações rescisórias a fi m de compreender o instituto e sua aplicabilidade. Compreender a evolução da indenização rescisória. Reconhecer as hipóteses de tutela legal, cabimento e consequências legais. 76 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 77 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo, trataremos das indenizações rescisórias vigentes e daquelas que as precederam em nosso ordenamento jurídico. O estudo deste ponto se faz necessário para compreender os mecanismos de inibição ao término da relação de emprego que já foram utilizados e aqueles que ainda estão vigentes, na tentativa de dar efetividade ao princípio da continuidade da relação de emprego. O estudo se inicia pelas indenizações por tempo de serviço previstas na CLT nos artigos 477 e 478, caput, analisando os dispositivos de leis e as razões de sua atual inaplicabilidade. No ponto seguinte, são analisadas as indenizações devidas em contratos por prazo determinado, vigentes até os dias atuais com fulcro nos artigos 479 e 480 da CLT, e ainda a indenização cabível em caso de dispensa injusta no trintídio anterior à data-base. Por fi m, o estudo se encerra com a análise da transição das proteções da relação de emprego até a instituição da indenização compensatória do FGTS de 40% sobre os depósitos na conta vinculada do empregado, que é aplicável em caso de dispensa sem justa causa. 2 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Este instituto conhecido como indenizações rescisórias é mais um dos mecanismos do Direito do Trabalho que visam a manutenção do emprego. Embora não possa ser entendido como garantia de emprego, certamente atua como um obstáculo no poder empregatício, eis que, embora não impeça a dispensa de um empregado, torna a sua dispensa mais onerosa, portanto pressupõe uma decisão mais assertiva. Luciano Martinez trata estas indenizações como garantia de emprego em sentido estrito, pois a fórmula de proteção é caracterizada pela imposição de desestímulos à resilição por iniciativa patronal, por meio dela o empregador não fi ca impedido de desligar o empregado, mas, se assim agir, será obrigado a pagar- lhe uma indenização compensatória. Por isso, diz-se que a garantia de emprego em sentido estrito turba a liberdade patronal de despedir sem causa justa. Aqui não há de se falar em direito à reintegração, uma vez que a dispensa não é vedada por lei, mas apenas por esta desestimulada. Embora não impeça a dispensa de um empregado, torna a sua dispensa mais onerosa, portanto pressupõe uma decisão mais assertiva. 78 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Como a garantia de emprego em sentido estrito apenas condiciona a liberdade patronal de resilir, ela tem sido progressivamente adotada como fórmula substituinte da estabilidade, que a seguir será analisada. O sistema jurídico apresenta múltiplas situações de garantia de emprego em sentido estrito, inclusive desestimuladoras de qualquer situação de despedimento. Grande parte delas, porém, existe apenas durante o tempo necessário à superação de uma difícil etapa contratual (MARTINEZ, 2016, p. 1220). Nesta linha, cumpre relembrar que a Constituição Federal traz a previsão de uma relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa no artigo 7º, inciso I, que dispõe ainda que lei complementar preverá indenização compensatória, entre outros direitos. Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos. Apesar do texto constitucional vigente, esta norma não é autoaplicável por falta de regulamentação, o que chegou a ser suprido momentaneamente pela ratifi cação da Convenção 158 da OIT em 1996, que acabou sendo denunciada no mesmo ano. Sérgio Pinto Martins (2011) lembra que a evolução da legislação sobre a despedida dos empregados apresenta-se sob dois aspectos, o impeditivo da despedida e o da reparação econômica. O primeiro aspecto (impeditivo), já estudado no ponto anterior, diz respeito à estabilidade no emprego oriunda da Lei Eloy Chaves, que se manteve até a instituição do FGTS facultativo, sendo defi nitivamente substituído pela obrigatoriedade da adesão ao FGTS com a Constituição de 1988. Assim, apesar de, inicialmente, tratar-se de um mecanismo de impedimento, tornou-se um mecanismo de reparação econômica, ou seja, uma indenização por força do disposto no art. 10 da ADCT (Atos das Disposições Constitucionais Transitórias). O aspecto da reparação econômica aparece sob a forma das indenizações estudadas neste ponto. Delgado (2017) explica que o Direito do Trabalho visa controlar as relações de emprego para efetivar o princípio da continuidade da relação de emprego, por esta razão é natural a instituição de indenizações aplicáveis ao término da relação de emprego, eis que parte do pressuposto de que a extinção contratual causa danos ao empregado. Por estas razões foram sendo instituídas diferentes indenizações ao longo dos anos. O primeiro aspecto (impeditivo), já estudado no ponto anterior, diz respeito à estabilidade no emprego. O aspecto da reparação econômica aparece sob a forma das indenizações estudadas neste ponto. 79 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 A mais notável de tais indenizações, própria aos contratos de duração indeterminada, era a estipulada pelo caput dos arts. 477 e 478 da CLT, que vigorou até o advento da Constituição de 1988. A seu lado, entretanto, outras indenizações rescisórias existiam na CLT, inerentes aos contratos a termo (arts. 479 e 480, CLT), as quais não foram afetadas pelo advento da Constituição de 1988. De par com essas fi guras mais conhecidas, há também a indenização do art. 9º das Leis nº 6.708/79 e 7.238/84, cuja permanência tem sido fi rmemente acatada pela jurisprudência (DELGADO, 2017, p. 1436). No próximo ponto estudaremos as indenizações dos artigos 477 e 478 da CLT, que vigoraram até a Constituição de 1988, quando a indenização do FGTS tornou-se a medida de compensação vigente. 3 INDENIZAÇÃO POR TEMPO DE SERVIÇO Os artigos477 e 478 da CLT regulamentavam a indenização por tempo de serviço, que era devida nos contratos por prazo indeterminado, anteriores à Constituição de 1988, que instituiu o regime do FGTS. Art. 477 da CLT. É assegurado a todo empregado, não existindo prazo estipulado para a terminação do respectivo contrato, e quando não haja ele dado motivo para cessação das relações de trabalho, o direito de haver do empregador uma indenização, paga na base da maior remuneração que tenha percebido na mesma empresa. Art. 478 da CLT - A indenização devida pela rescisão de contrato por prazo indeterminado será de 1 (um) mês de remuneração por ano de serviço efetivo, ou por ano e fração igual ou superior a 6 (seis) meses. Esta indenização prevista no art. 477 deixou de ser aplicada com a promulgação da Constituição Federal de 1988, quando a opção pelo FGTS passou a ser obrigatória, como já vimos sucintamente no Capítulo Garantia de emprego e veremos detalhadamente no próximo tópico. Portanto, somente é aplicável para aqueles empregados não optantes pelo FGTS, relativos aos períodos anteriores à atual Constituição, o que nos parece extremamente raro de encontrar nos dias atuais. E ainda cumpre esclarecer que, com o advento da Constituição atual, a indenização por despedida injusta é indenizada pela multa de 40% dos depósitos do FGTS, independentemente do período de prestação do serviço, portanto, não se aplica o art. 478 da CLT. 80 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A indenização por tempo de serviço prevista no art. 478 da CLT era devida para empregados que contassem com mais de um ano nos contratos indeterminados, desde que dispensados imotivadamente e não fossem optantes pelo regime do FGTS. Após a Carta/88, o FGTS passou a ser o único regime de proteção ao tempo de serviço, ressalvado o direito adquirido daqueles que já tinham o direito à indenização na forma do artigo supracitado (art. 14, § 1º, da Lei nº 8.036/90), isto é, aos não optantes admitidos antes da Constituição/88. Seu valor correspondia a uma remuneração por ano de serviço ou fração superior a seis meses. Portanto, tanto a indenização prevista no art. 478 da CLT quanto o FGTS são tipos de regime de proteção ao tempo de serviço do empregado. Todavia, a natureza jurídica e os fundamentos destes institutos são distintos, não podendo ser comparados, pois o FGTS, segundo a corrente majoritária, tem natureza jurídica de salário diferido, já que é de propriedade do empregado em qualquer caso. Apenas há distinção legal quanto ao momento de levantamento dos respectivos valores, podendo ser imediato ou postergado. Já a indenização por tempo de serviço prevista no art. 478 da CLT não é devida em algumas hipóteses, como no pedido de demissão, aposentadoria espontânea, justa causa, terminação normal do contrato a termo e é devida pela metade nos casos de força maior e culpa recíproca. Não há sequer equivalência econômica entre o FGTS e a indenização por tempo de serviço, pois os valores correspondentes são diferentes (Súmula nº 98 do TST) (CASSAR, 2017, p. 1198). Neste sentido, veja a jurisprudência que corrobora as explicações apresentadas: INDENIZAÇÃO DA MULTA PREVISTA NO ARTIGO 478 DA CLT - IMPOSSIBILIDADE. A partir de 1988, a Constituição Federal adotou o regime de FGTS. Por este regime, em lugar da indenização prevista no artigo 478, da CLT, o empregado recebe os depósitos de FGTS, acrescidos de correção monetária e juros e, se for o caso, a multa de 40%. Extrai-se dos autos que a Reclamante não era detentora de estabilidade decenal, advinda daí a impossibilidade do deferimento do pedido. Recurso não provido (TRT10 - RO 1101200501410009, 2ª Turma, relator Desembargadora Heloisa Pinto Marques, publicação 09/02/2007). Portanto, a indenização por tempo de serviço do art. 478 da CLT foi substituída pela indenização compensatória do FGTS, ou seja, a popularmente conhecida como multa de 40% do FGTS. 81 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 É importante ressaltar que a Reforma Trabalhista alterou o texto do artigo 477 da CLT, excluindo o mandamento legal que já estava em desuso, conforme texto destacado a seguir: Art. 477. Na extinção do contrato de trabalho, o empregador deverá proceder à anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social, comunicar a dispensa aos órgãos competentes e realizar o pagamento das verbas rescisórias no prazo e na forma estabelecidos neste artigo. 3.1 Conceito Segundo os ensinamentos de Sergio Pinto Martins (2011), a indenização trabalhista também é um pagamento realizado pelo empregador ao empregado quando este é dispensado sem justa causa, com o intuito de recompensá-lo pela perda do emprego. Distingue-se a indenização do Direito do Trabalho da indenização do Direito Civil. Esta decorre da existência de dano ou prejuízo causado a outrem por dolo ou culpa, correspondendo ao ressarcimento que deve ser feito pelo causador do dano. No direito do trabalho, não se discute a existência de prejuízo, de dolo ou culpa, mas se o empregado foi dispensado sem justa causa. A indenização trabalhista visa compensar o tempo de serviço do empregado na empresa (MARTINS, 2011, p. 455). Ou ainda, como ensina Gustavo Felipe Barbosa Garcia (2017, p. 848): A indenização, especifi camente no Direito do Trabalho, quanto ao término da relação de emprego, pode ser conceituada como o valor devido pelo empregador, por dispensar o empregado sem justa causa. Na verdade, a referida indenização trabalhista apresenta contornos próprios, quando comparada com a tradicional indenização, presente no Direito Civil. Na responsabilidade civil, a indenização é a reparação devida pelos prejuízos decorrentes da lesão ao direito, podendo, também, assumir a feição de compensação de prejuízos sofridos, ou mesmo a natureza de sancionar (penalizar) a conduta, visando a desestimular a sua ocorrência. 82 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Um conceito mais objetivo é apresentado por Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1199): É o pagamento efetuado pelo empregador ao empregado em virtude da despedida sem justa causa, ou quando o empregador toma a iniciativa do rompimento do contrato (aposentadoria compulsória – art. 51 da Lei nº 8.213/91), ou, ainda, nos demais casos legais: conversão da reintegração em indenização – art. 496 da CLT; extinção do estabelecimento ou empresa por falência ou não – art. 497 da CLT; força maior ou culpa recíproca (arts. 484 e 502 da CLT). Sua fi nalidade é de recompensar o empregado pelo tempo que prestou serviços ao empregador. 3.2 Natureza JurÍdica da IndenizaçÃo Por Tempo de Serviço Como visto, a indenização trabalhista decorrente da dispensa sem justa causa do empregado apresenta muitas diferenças com a indenização civil, por esta razão diversas teorias são utilizadas para explicar a natureza jurídica desta. 3.3 Teorias Acerca da Natureza JurÍdica As teorias acerca da natureza jurídica se apresentam sob diversas óticas e são tratadas de formas bem específi cas pelos doutrinadores, vejamos as mais usuais: 3.3.1 Teoria do crédito A teoria do crédito parte do pressuposto de que o empregado deve ser compensado fi nanceiramente pela perda do emprego que não motivou. Segundo as lições de Cassar (2017), esta teoria foi inspirada na lei italiana de 1919 e no princípio da mais-valia da empresa. De acordo com a autora, o empregado colabora com o desenvolvimento da empresa, no entanto, não se benefi cia deste fato e por esta razão teria direito a um crédito sobre os fundos da empresa, proporcionalmente ao tempo de serviço prestado, o que lhe seria devido em caso de dispensa imotivada. O empregado colabora com o desenvolvimento da empresa, no entanto, não se benefi cia deste fato e por esta razão teria direito a um crédito sobre os fundos da empresa,proporcionalmente ao tempo de serviço prestado, o que lhe seria devido em caso de dispensa imotivada. 83 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 A crítica que sobressai a esta teoria vem do fato do empregado não ter direito ao recebimento deste crédito, ou indenização, em caso de pedido de demissão, aposentadoria voluntária ou justa causa, o que faz todo sentido, pois se sua natureza fosse de um crédito pela sua colaboração no crescimento da empresa, a forma de resolução do contrato não deveria ser relevante para sua concessão. 3.3.2 Teoria do ressarcimento do dano ou assistencial “A teoria do dano estabelece uma relação entre a indenização devida e o prejuízo sofrido pelo empregado dispensado” (GARCIA, 2017, p. 849). Em outras palavras, esta teoria considera que a indenização é uma compensação ao empregado pela perda do emprego, partindo do pressuposto de que a despedida é um dano causado ao empregado. A crítica apresentada por Cassar (2017) é que o ressarcimento do dano deve considerar os prejuízos imediatos ou futuros, no entanto, a indenização por tempo de serviço considera o tempo de serviço prestado, ou seja, o passado. “Ademais, o ato de despedir não gera culpa do patrão, pois está exercendo um direito potestativo” (CASSAR, 2017, p. 1200). Assim, esta teoria também não se apresenta como a mais correta para explicar a indenização por tempo de serviço. 3.3.3 Teoria do risco profi ssional, do risco criado ou da teoria objetiva Segundo esta teoria, como os riscos da atividade profi ssional são da empresa, o empregador seria responsável pela indenização na hipótese de dispensa imotivada do empregado. “Parte do princípio de que o empregador responde sempre, independente de culpa, pois assume os riscos do negócio e do empreendimento e com estes estão os da dispensa imotivada” (CASSAR, 2017, p. 1200). A teoria é criticada por não apresentar explicações para o fato de não ser devida em casos de pedido de demissão, aposentadoria espontânea, justa causa e ainda, qual a razão de ser devida pela metade em casos de força maior, como explica Cassar (2017). Esta teoria considera que a indenização é uma compensação ao empregado pela perda do emprego, partindo do pressuposto de que a despedida é um dano causado ao empregado. Como os riscos da atividade profi ssional são da empresa, o empregador seria responsável pela indenização na hipótese de dispensa imotivada do empregado. 84 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 3.3.4 Teoria da previdência ou assistência social Esta teoria coloca a indenização como uma modalidade de cobertura social, como denomina Garcia (2017), tem em sua essência na forma de garantir a subsistência do empregado em virtude da despedida, sendo um benefício social. A crítica é muito simples, para ser um benefício social seria necessário que houvesse contribuição, e a responsabilidade de adimplemento da indenização deveria ser da Previdência Social e não do empregador. 3.3.5 Teoria da pena ou penal A teoria da pena surge com o argumento de que a dispensa de empregados é indesejada e, portanto, deve ser punida. Parte do pressuposto de que o empregador sofre uma pena em face das despedidas injustas. “Assim a indenização seria uma pena, multa, punição” (CASSAR, 2017, p. 1201). Devemos ter claro que a dispensa do empregado é um direito do empregador, faz parte de seu poder discricionário, não se traduzindo como um ato ilegal, portanto, a crítica desta teoria é que “o ato da dispensa não pode ser punido porque não é ilegal, e sim um exercício de um direito garantido por lei. A teoria não explica como a indenização é devida, mesmo que pela metade, nos casos de força maior” (CASSAR, 2017, p. 1201). 3.3.6 Teoria do prêmio Neste caso, o que justifi caria a indenização seria o fato do empregado ter colaborado com a empresa (semelhante à primeira teoria apresentada) e se caracterizaria como um prêmio estatuído por lei para indenizar o empregado pelo tempo em que colaborou com a empresa. Entre as críticas apresentadas estaria o fato do prêmio ser espontâneo, e, portanto, não deveria ser submetido a regras e ao fato de discriminar uns empregados em detrimento de outros (em razão da forma de resolução do contrato). Esta teoria coloca a indenização como uma modalidade de cobertura social. Se caracterizaria como um prêmio estatuído por lei para indenizar o empregado pelo tempo em que colaborou com a empresa. A teoria da pena surge com o argumento de que a dispensa de empregados é indesejada e, portanto, deve ser punida. 85 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 Em defesa desta teoria, Vóglia Bomfi m Cassar refere que “apesar de o prêmio ser parcela, normalmente espontânea, nada obsta ao legislador fi xar e tarifar um prêmio devido em caso de dispensa imotivada e nas outras hipóteses legais” (CASSAR, 2017, p. 1201). 3.3.7 Teoria do salário diferido ou retido Esta teoria “indicaria que o empregado vai acumulando, no decorrer da prestação de serviços, certos valores, a serem recebidos quando da cessação do contrato de trabalho” (GARCIA, 2017, p. 849). Assim, a indenização prevista no art. 478 da CLT consistiria em um salário complementar à remuneração, retido mensalmente para ser pago quando e se houvesse a dispensa imotivada do empregado. Todavia, não se pode considerar como salário, pois a indenização prevista na CLT não apresenta natureza salarial, tampouco tem as prerrogativas de proteção salarial. “Ademais, salário é devido em qualquer hipótese, pois é a contraprestação pelos serviços prestados, o que não acontece com a indenização contida no art. 478 da CLT” (CASSAR, 2017, p. 1201). 3.3.8 Teoria do abuso de direito Os defensores desta teoria entendem que o ato de dispensar um empregado se caracterizaria como abuso de direito, eis que descumpriria com o fi m social do emprego. A crítica, já utilizada em outras circunstâncias, reside na liberdade do empregador dispensar seus empregados, eis que a despedida é um direito potestativo do empregador, ou seja, é parte dos poderes inerentes à sua condição. A indenização prevista no art. 478 da CLT consistiria em um salário complementar à remuneração, retido mensalmente para ser pago quando e se houvesse a dispensa imotivada do empregado. O ato de dispensar um empregado se caracterizaria como abuso de direito, eis que descumpriria com o fi m social do emprego. 86 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 3.3.9 Teoria da integração do aviso prévio Segundo os adeptos desta teoria, o empregado deveria ter um prazo de aviso prévio superior ao do empregador em razão de sua maior vulnerabilidade e por necessitar procurar um novo emprego. “Como a lei garantiu a ambos o mesmo prazo, a indenização seria devida ao empregado para compensar o exíguo prazo do pré-aviso, como se fosse um prazo suplementar” (CASSAR, 2017, p. 1202). Aviso prévio e indenização são fi guras jurídicas diversas, não apresentam o mesmo signifi cado, portanto esta crítica é muito pertinente. 3.3.10 Conclusão acerca das teorias A conclusão acerca da adoção ou não das teorias apresentadas é feita por Vóglia Bomfi m Cassar, que assim dispõe: Dentre as teorias vistas, verifi camos que nenhuma delas consegue explicar, por completo, a natureza jurídica do instituto. Algumas justifi cam a natureza jurídica de acordo com a fi nalidade da parcela (previdencial, salário diferido, crédito e prêmio), outras se preocupam com a causa, isto é, o fato gerador, o benefício e, a partir daí, sua natureza jurídica (teoria do abuso do direito, da pena, do dano e do risco). Alguns estudiosos preferiram não adotar uma destas teorias, mas sim uma teoria mista, misturando algumas das teorias vistas. É o caso de Hugo Gueiros, que adota ao mesmo tempo asteorias do dano, do risco, da pena e do abuso. Outros, apesar de confi rmarem a teoria mista (outras misturas), se posicionam pela natureza jurídica preponderante, isto é, a principal, como é o caso de Orlando Gomes, Russomano e Catharino. De qualquer sorte, todas são importantes para justifi car um estudo acadêmico e a preocupação por parte da doutrina a respeito da matéria (CASSAR, 2017, p. 1202, grifos do autor). Maurício Godinho Delgado se posiciona da seguinte forma: Na verdade, a indenização celetista por tempo de serviço e rescisão contratual tratava-se de parcela com caráter de ressarcimento do dano presumido sofrido pelo empregado, em virtude da perda do emprego, cujo montante era estimado de modo objetivo e impessoal pela ordem jurídica, a partir de seu tempo de serviço. A verba era devida, ainda que pela metade, mesmo em casos de rupturas provocadas por força maior, isso em decorrência da alteridade inerente aos contratos empregatícios (DELGADO, 2017, p. 1438, grifo nosso). O empregado deveria ter um prazo de aviso prévio superior ao do empregador em razão de sua maior vulnerabilidade e por necessitar procurar um novo emprego. 87 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 Como visto, não há consenso entre os doutrinadores acerca da natureza jurídica da indenização concedida ao empregado em razão da dispensa imotivada. Todavia, independentemente da corrente adotada para justifi car a natureza jurídica da indenização por tempo de serviço, a sua relevância, no momento de sua instituição, não pode ser desconhecida. Enquanto estudávamos sobre a inaplicabilidade dos artigos 477 e 478 da CLT desde a Constituição de 1988, é possível que tenha surgido um questionamento, essencialmente, aos colegas que atuam na jurisdição trabalhista, acerca da Multa do art. 477, §8º da CLT, que é aplicada corriqueiramente no contencioso trabalhista. É importante salientar que o art. 477, caput da CLT, que dispõe sobre o que é assegurado a todo empregado, quando não existe prazo estipulado para o término do contrato de trabalho, ou seja, no curso de um contrato por prazo indeterminado, e quando o empregado não tenha dado motivo para cessação das relações de trabalho, a conhecida dispensa sem justa causa, ele tem o direito de haver do empregador uma indenização, paga com base da maior remuneração que tenha recebido na mesma empresa. Neste sentido, o fato gerador da indenização é a dispensa sem justa causa em um contrato por prazo indeterminado e nada mais. No entanto, a multa usualmente cobrada nas demandas trabalhistas é a prevista no parágrafo 8º do art. 477 da CLT, cujo fato gerador é o não adimplemento do pagamento das verbas rescisórias dentro do prazo previsto por lei. Portanto, são indenizações diversas, e a sua aplicabilidade será apresentada brevemente a seguir. 88 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 3.4 Multa do Art. 477, § 6º da CLT – DiFerenciaçÃo do Instituto O art. 477, § 6º da CLT estipula prazos para o pagamento das verbas rescisórias. Observe que os prazos descritos no parágrafo citado devem ser adimplidos, independentemente do tipo de rescisão contratual. Vejamos o que determinava o artigo celetista (eis que foi modifi cado pela Reforma Trabalhista): Art. 477, § 6º da ANTIGA CLT - O pagamento das parcelas constantes do instrumento de rescisão ou recibo de quitação deverá ser efetuado nos seguintes prazos: a) até o primeiro dia útil imediato ao término do contrato; b) até o décimo dia, contado da data da notifi cação da demissão, quando da ausência do aviso prévio, indenização do mesmo ou dispensa de seu cumprimento. Com a Reforma Trabalhista, implementada pela Lei nº 13.467/2017, o texto do parágrafo 6º do artigo 477 da CLT fi cou com a seguinte redação: Art. 477, § 6º da NOVA CLT - A entrega ao empregado de documentos que comprovem a comunicação da extinção contratual aos órgãos competentes, bem como o pagamento dos valores constantes do instrumento de rescisão ou recibo de quitação deverão ser efetuados dez dias contados a partir do término do contrato. Portanto, atualmente, o prazo para pagamento das verbas rescisórias foi unifi cado para 10 dias em qualquer hipótese de terminação contratual, independentemente do cumprimento de aviso prévio ou indenização dele. A consequência para o descumprimento do disposto no artigo 466, §6º da CLT não modifi cou, permanece a mesma, conforme se pode conferir pela leitura do texto legal em questão: Art. 477, § 8º - A inobservância do disposto no § 6º deste artigo sujeitará o infrator à multa de 160 BTN, por trabalhador, bem assim ao pagamento da multa a favor do empregado, em valor equivalente ao seu salário, devidamente corrigido pelo índice de variação do BTN, salvo quando, comprovadamente, o trabalhador der causa à mora. Portanto, o descumprimento dos prazos previstos no parágrafo 6º do artigo 477 impõe a aplicação do disposto no artigo 477, §8, que se caracteriza como uma multa (equivalente ao salário do empregado) e não como uma indenização. Uma última e relevante observação é Observe que os prazos descritos no parágrafo citado devem ser adimplidos, independentemente do tipo de rescisão contratual. Portanto, atualmente, o prazo para pagamento das verbas rescisórias foi unifi cado para 10 dias. Que se caracteriza como uma multa (equivalente ao salário do empregado) e não como uma indenização. 89 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 que os prazos observados devem obedecer à vigência da nova CLT, portanto, para os contratos fi ndos antes de 11/11/2017 utiliza-se a previsão da antiga CLT e para os posteriores a Nova CLT. Com base no que foi estudado até o momento, responda às questões a seguir: Atividade de Estudos: 1) Pode-se afi rmar que as indenizações dos artigos 477 e 478 da CLT são impeditivos à dispensa sem justa causa do empregado? Explique. ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 2) Qual é o argumento para não se utilizar mais as indenizações dos artigos 477 e 478 da CLT? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) Qual é a diferença entre o pagamento de um salário ao empregado disposto no caput do artigo 477 e no seu parágrafo 8º? E qual deles ainda é aplicável em nosso ordenamento jurídico? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ Que os prazos observados devem obedecer à vigência da nova CLT. 90 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 4 INDENIZAÇÃO NOS CONTRATOS POR PRAZO DETERMINADO OU A TERMO Além das já estudadas indenizações que eram aplicáveis na rescisão injusta dos contratos por prazo indeterminado até o advento da Constituição de 1988, o ordenamento jurídico trabalhista também traz a previsão de indenizações aplicáveis aos contratos por prazo determinado, no entanto, estas permanecem vigentes, eis que não foram afetadas pela promulgaçãoda Constituição de 1988. As indenizações vigentes são aquelas previstas nos artigos 479 e 480 da CLT, além da indenização do art. 9º da Lei nº 6.708/79, reafi rmado no artigo 9 da Lei nº 7.238/84, que se trata da indenização por dispensa injusta no trintídio anterior à data-base. 4.1 IndenizaçÃo do Artigo 479 da CLT O artigo 479 da CLT traz a previsão de uma indenização em caso de ruptura do contrato a termo antes do prazo estipulado, conforme se depreende do texto legal a seguir analisado: Art. 479 - Nos contratos que tenham termo estipulado, o empregador que, sem justa causa, despedir o empregado será obrigado a pagar-lhe, a título de indenização, e por metade, a remuneração a que teria direito até o termo do contrato. Parágrafo único - Para a execução do que dispõe o presente artigo, o cálculo da parte variável ou incerta dos salários será feito de acordo com o prescrito para o cálculo da indenização referente à rescisão dos contratos por prazo indeterminado. No dispositivo em análise, estamos diante de mais uma estratégia de desestímulo às resilições antecipadas nos contratos de emprego por iniciativa do empregador, neste caso, especifi camente, nos contratos por tempo determinado. “A indenização funciona, então, como freio contra a atuação resilitiva patronal e como incentivo ao cumprimento do ajuste a termo” (MARTINEZ, 2016, p. 1225, grifo nosso). É devida nos casos em que antecipe o empregador a dispensa do obreiro, em contratos a prazo sem cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão antecipada. Além das demais verbas rescisórias pertinentes (levantamento de depósitos de FGTS, com 40%; 13º salário proporcional; férias proporcionais com 1/3), desponta a indenização prevista no art. 479, da CLT, cujo valor corresponde à metade dos salários que seriam devidos pelo período restante do contrato (DELGADO, 2017, p. 1439). 91 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 Como relembra Mauricio Godinho Delgado, este dispositivo de lei somente é aplicável quando não existir cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão antecipada prevista no parágrafo 1º do artigo 1º da Lei nº 9.601/98, que dispõe sobre os contratos por prazo determinado, a seguir transcrito: Art. 1º da Lei 9.601/98 - As convenções e os acordos coletivos de trabalho poderão instituir contrato de trabalho por prazo determinado, de que trata o art. 443 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, independentemente das condições estabelecidas em seu § 2º, em qualquer atividade desenvolvida pela empresa ou estabelecimento, para admissões que representem acréscimo no número de empregados. § 1º As partes estabelecerão, na convenção ou acordo coletivo referido neste artigo: I - a indenização para as hipóteses de rescisão antecipada do contrato de que trata este artigo, por iniciativa do empregador ou do empregado, não se aplicando o disposto nos arts. 479 e 480 da CLT; II - as multas pelo descumprimento de suas cláusulas. Observe que o mandamento legal é explícito em afastar a aplicação dos artigos 479 e 480 da CLT quando houver a previsão de cláusula assecuratória de rescisão antecipada do contrato a termo. Outra observação muito importante diz respeito aos entendimentos de que a indenização do artigo 479 poderia ser compensada com a multa de 40% do FGTS devida na rescisão do contrato, neste sentido Delgado (2017) explica que não é possível: Relembre-se de que há entendimentos favoráveis à compensação desses 40% com a indenização do art. 479, por atenderem as duas parcelas à mesma causa e objetivos jurídicos, ou seja, a reparação pela dispensa imprevista. Esta interpretação não está respaldada no Regulamento Normativo do Fundo de Garantia, que determina, ao revés, o pagamento, nos contratos a termo, dos 40% sobre o Fundo em situações de dispensa antecipada por ato empresarial, e dos 20% de acréscimo em situações de dispensa antecipada por culpa recíproca (arts. 14 e 9º, §§ 1º e 2º, Decreto n. 99.684, de 1990). Ressalte-se, de todo modo, estar pacifi cada na jurisprudência, já desde antes da Constituição de 1988, a compreensão de que os depósitos mensais do Fundo de Garantia não poderiam ser compensados com a indenização do art. 479, CLT, por atenderem a objetivos distintos (Súmula 125, TST) (DELGADO, 2017, p. 1439). A título de complementação da informação, cabe colacionar a citada súmula, que assim dispõe: O mandamento legal é explícito em afastar a aplicação dos artigos 479 e 480 da CLT quando houver a previsão de cláusula assecuratória de rescisão antecipada do contrato a termo. 92 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Súmula nº 125 do TST CONTRATO DE TRABALHO. ART. 479 DA CLT (mantida) - Res. 121/2003, DJ 19, 20 e 21.11.2003 O art. 479 da CLT aplica-se ao trabalhador optante pelo FGTS admitido mediante contrato por prazo determinado, nos termos do art. 30, § 3º, do Decreto nº 59.820, de 20.12.1966. Diante do exposto, pode-se concluir que o empregado que for dispensado de um contrato por prazo determinado antes de seu termo fi nal fará jus ao pagamento de indenização à metade do valor que lhe seria devido até o fi nal do contrato, independentemente do percebimento da multa de 40% sobre o FGTS. Observado, neste caso, que a multa não será devida em caso de previsão expressa de cláusula assecuratória de rescisão antecipada do contrato. 4.2 IndenizaçÃo do Artigo 480 da CLT A indenização prevista no artigo 479 a favor do empregado apresenta seu contraponto no artigo 480 da CLT, que prevê que o empregado também é obrigado a indenizar o empregador em caso de rescisão antecipada do contrato a termo, todavia o dispositivo em questão apresenta uma condição para seu adimplemento, conforme se depreende da leitura do mandamento celetista: Art. 480 da CLT - Havendo termo estipulado, o empregado não se poderá desligar do contrato, sem justa causa, sob pena de ser obrigado a indenizar o empregador dos prejuízos que desse fato lhe resultarem. § 1º - A indenização, porém, não poderá exceder àquela a que teria direito o empregado em idênticas condições. Como foi possível observar, o empregador somente será credor da indenização prevista no artigo 480 da CLT se comprovar que houve prejuízo pela rescisão antecipada por parte do empregado e que esta indenização fi ca limitada ao valor que o empregado teria direito caso a iniciativa tivesse partido do empregador. Nesta hipótese, a observação feita acerca da cláusula assecuratória de direito recíproco de rescisão antecipada também se aplica, portanto, à indenização: É devida nos casos em que antecipe o próprio empregado o término do contrato, em pactos a prazo sem cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão antecipada. Conforme visto, neste caso, as únicas parcelas rescisórias sempre devidas ao trabalhador serão o 13º salário proporcional e as férias proporcionais com 1/3 (estas, mesmo em contratos inferiores a 12 meses — nova redação da Súmula O empregado que for dispensado de um contrato por prazo determinado antes de seu termo fi nal fará jus ao pagamento de indenização à metade do valor que lhe seria devido até o fi nal do contrato, independentemente do percebimento da multa de 40% sobre o FGTS. 93 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 261,repercutindo a Convenção 132 da OIT). Não se prevê, por fi m, neste caso, o saque do FGTS pelo empregado. A indenização prevista é estipulada em benefício do empregador, que pode ter sido prejudicado com a ruptura. Assim, dispõe a CLT que a denúncia vazia do contrato obrigará o obreiro a “indenizar o empregador dos prejuízos que desse fato lhe resultarem” (art. 480, caput). Tal indenização não poderá suplantar “àquela a que teria direito o empregado em idênticas condições” (parágrafo único do art. 480 combinado com art. 479, CLT). Aduza-se, por fi m, que, tratando-se de pacto a termoque contenha cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão, as regras referentes ao término contratual e parcelas rescisórias serão aquelas próprias aos contratos de duração indeterminada, caso alguma das partes acione a referida cláusula (art. 481, CLT). Não há, pois, que se falar mais em aplicação das duas indenizações aqui examinadas (DELGADO, 2017, p. 1440, grifo nosso). Assim, pode-se concluir que o empregado deverá indenizar o empregador em caso de rescisão antecipada do contrato a termo, caso a ruptura do contrato em questão tenha causado prejuízo, esta indenização fi ca limitada à metade dos salários que o empregado faria jus até o fi nal do contrato. No entanto, a indenização prevista no artigo 480 não é aplicável no caso de existência de cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão prevista no parágrafo 1º do artigo 1º da Lei nº 9.601/98, já estudado no tópico anterior. Por fi m, os esclarecimentos de Luciano Martinez (2016, p. 1225) são muito esclarecedores: Há, na situação contida no art. 479 da CLT, uma presunção absoluta de ocorrência de prejuízo para o empregado. Tal presunção, é bom destacar, não comporta prova em sentido contrário. Havendo, por outro lado, termo estipulado, o empregado não se poderá desligar do contrato sem justa causa, sob pena de ser obrigado a indenizar o empregador dos prejuízos que resultarem desse fato. Na situação inserta no art. 480 da CLT, somente haverá sanção pecuniária se houver prejuízo, não podendo a mencionada indenização exceder àquela a que teria direito o empregado em idênticas condições. Há, nesse caso, na verdade, presunção relativa de inocorrência de prejuízo para o empregador. Essa presunção comporta prova do empregador em sentido contrário, ou seja, prova de que o empregado, por conta de sua opção, gerou prejuízo para o empreendimento patronal (grifos do autor). o empregado deverá indenizar o empregador em caso de rescisão antecipada do contrato a termo, caso a ruptura do contrato em questão tenha causado prejuízo, esta indenização fi ca limitada à metade dos salários que o empregado faria jus até o fi nal do contrato. A indenização prevista no artigo 480 não é aplicável no caso de existência de cláusula assecuratória do direito recíproco de rescisão. 94 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Além destas duas situações de indenizações estudadas, outra indenização merece destaque, a indenização por dispensa injusta no trintídio anterior à data- base, estudada a seguir. 5 INDENIZAÇÃO POR DISPENSA INJUSTA NO TRINTÍDO ANTERIOR À DATA-BASE A outra modalidade de indenização vigente diz respeito à indenização devida em caso em que o empregado é dispensado dentro dos 30 dias anteriores à data-base da Convenção ou Acordo Coletivo de Trabalho, e sua justifi cativa é que a dispensa anterior à data-base faria com que o empregado fosse privado dos direitos que a nova convenção ou acordo poderia dispor, como explica Mauricio Godinho Delgado (2017, p. 1441): A jurisprudência tem considerado vigorante no Direito brasileiro também a indenização do art. 9º das Leis ns. 6.708/79 e 7.238/84. É o que defl ui da leitura das Súmulas 182, 242 e 314 do Tribunal Superior do Trabalho. Tal parcela é devida somente se a dispensa, considerada a projeção do aviso-prévio no contrato (Súm. 182), tiver ocorrido nos trinta dias anteriores à data-base do empregado. Ilustrativamente, despedida comunicada em 16.8.2001 (termo inicial do aviso) ensejará a indenização referida, se a data-base estiver fi xada no mês de outubro (1º.10.2001): é que o contrato se expirou dentro do trintídio anterior à data-base (em meados de setembro), uma vez que se deve computar a projeção do pré-aviso. Note-se que, incidindo a proporcionalidade do aviso quanto a certo empregado (Lei n. 12.506/2011), tal lapso também será considerado para cálculo do trintídio anterior à data-base, em conformidade com o critério da Súmula 182 do TST. A presente indenização visa compensar a perda potencial pela não inserção do obreiro nas vantagens da nova Convenção ou Acordo Coletivos de Trabalho. Trata-se, como se percebe, de uma perda suposta pela ordem jurídica, dado que, na prática, nenhum ganho real pode ser, de fato, alcançado. O montante da indenização examinada corresponde “ao salário mensal, no valor devido à data da comunicação do despedimento, integrado pelos adicionais legais ou convencionais, ligados à unidade de tempo mês, não sendo computável a gratifi cação natalina” (Súm. 242). Vejamos o que dispõe a lei: Art. 9º da Lei nº 7.238/84 - O empregado dispensado, sem justa causa, no período de 30 (trinta) dias que antecede a data de sua correção salarial, terá direito a indenização adicional Sua justifi cativa é que a dispensa anterior à data- base faria com que o empregado fosse privado dos direitos que a nova convenção ou acordo poderia dispor. 95 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 equivalente a um salário mensal, seja ele, ou não, optante pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Conforme esclareceu Delgado (2017), esta indenização será devida somente se (considerada a projeção do aviso prévio no contrato) tiver ocorrido nos trinta dias anteriores à data-base do empregado, conforme o exemplo que se apresentou anteriormente. Responda à questão a seguir com base no que foi estudado. Atividade de Estudos: 1) As indenizações vigentes, em caso de ruptura do contrato por prazo determinado, são aquelas previstas nos artigos 479 e 480 da CLT. Diferencie ambas as previsões legais, determinando seus benefi ciários e condições de adimplemento, se houver. _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ Conforme esclareceu Delgado (2017), esta indenização será devida somente se tiver ocorrido nos trinta dias anteriores à data-base do empregado. 96 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 6 INDENIZAÇÃO COMPENSATÓRIA DO FGTS Partimos agora para o estudo mais detalhado da indenização instituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS, já mencionada muitas vezes neste estudo. Como vimos anteriormente, com a Lei Eloy Chaves, Decreto Legislativo nº 4.682/1923, os ferroviários adquiriam o direito à estabilidade no emprego depois de transcorridos dez anos de prestação de serviço. Algum tempo depois, os portuários e marítimos também tiveram o direito à estabilidade garantido pela Lei nº 5.109/1926. Esta tendência de estabilidade no emprego acabou sendo estendida aos demais trabalhadores nos artigos 492 e seguintes da CLT promulgada em 1943, que também instituiu as indenizações dos artigos 477 e 478 estudados anteriormente. No entanto, este sistema de proteção rígido que se formou em torno do empregado acabou sofrendo pressão empresária, que não podia dispensar empregados com mais de 10 anos de serviço e, mesmo quando não tinham atingido a estabilidade decenal, deveriam arcar com os custos das indenizações celetistas aplicáveisem caso de dispensa imotivada nos contratos por prazo indeterminado. Neste contexto de pressão econômica, primordialmente dos empregadores descontentes com as proteções concedidas aos empregados, foi criado em 1966 o Sistema do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço pela Lei nº 5.107/1966, com intuito de criar uma reserva para os empregados utilizarem quando fossem dispensados da empresa ou em outras situações previstas na lei, e ainda se pretendia alavancar a economia utilizando os recursos obtidos pelo FGTS para fi nanciar a aquisição de imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação e, consequentemente, até aumentar as demandas da construção civil. O sistema do FGTS coexistia com a estabilidade e indenizações celetistas, eis que aderir ao sistema era facultativo. No entanto, uma vez que o empregado optasse pelo FGTS, o que deveria ser feito de forma escrita, automaticamente fi cava excluído da estabilidade decenária. Vejamos como a lei tratava o assunto à época: Art. 1º da Lei nº 5.107/1966 - Para garantia do tempo de serviço fi cam mantidos os Capítulos V e VII do Título IV da Consolidação das Leis do Trabalho, assegurado, porém, aos empregados o direito de optarem pelo regime instituído na presente Lei. 97 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 § 1º O prazo para a opção é de 365 (trezentos e sessenta e cinco) dias, contados da vigência desta Lei para os atuais empregados, e da data da admissão ao emprego quanto aos admitidos a partir daquela vigência. § 2º A preferência do empregado pelo regime desta Lei deve ser manifestada em declaração escrita, e, em seguida anotada em sua Carteira Profi ssional, bem como no respectivo livro ou fi cha de registro. § 3º Os que não optarem pelo regime da presente Lei, nos prazos previstos no § 1º, poderão fazê-lo, a qualquer tempo, em declaração homologada pela Justiça do Trabalho, observando- se o disposto no Art. 16 [...]. Inicialmente, a multa do FGTS era de 10% sobre o valor depositado, como se verifi ca pela leitura do texto vigente à época: Art. 6º da Lei nº 5.107/1966 - Ocorrendo rescisão do contrato de trabalho, por parte da empresa, sem justa causa, fi cará esta obrigada a depositar, na data da dispensa, a favor do empregado, importância igual a 10% (dez por cento) dos valores do depósito, da correção monetária e dos juros capitalizados na sua cota vinculada, correspondentes ao período em que o empregado trabalhou na empresa. Apesar de ser opcional ao trabalhador, gradativamente o regime do FGTS tornou-se a alternativa mais comum, como explica Alice Monteiro de Barros (2016, p. 767-768), e já aduzido quando estudamos a estabilidade e garantias de emprego: Logo, em geral, a partir deste ano, a admissão do trabalhador urbano verifi ca-se sob a égide do regime do FGTS. É que, embora o ingresso nesse regime fosse uma faculdade, por ser mais conveniente ao empregador, este costumava não admitir o candidato ao emprego que não assinasse a declaração de opção pelo referido regime no ato da contratação. Ingressando o empregado na empresa, na condição de optante pelo FGTS, impossível seria a aquisição da estabilidade decenária, a não ser que o regimento interno das empresas o previsse como regra mais favorável, o que é pouco provável ou quase impossível. A partir da Constituição de 1988, o sistema do FGTS deixa de ser opcional e passa a ser obrigatório, deixando de existir a estabilidade decenária e as indenizações dos contratos por prazo determinado previstas nos artigos 477 e 478 da CLT. No ano seguinte, a Lei nº 7.839/1989 confi rmou o entendimento A partir da Constituição de 1988, o sistema do FGTS deixa de ser opcional e passa a ser obrigatório, deixando de existir a estabilidade decenária e as indenizações dos contratos por prazo determinado previstas nos artigos 477 e 478 da CLT. 98 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho que vinha sendo consolidado pela Cconstituição, de que o FGTS agora era obrigatório. Esta lei foi regulamentada pelo Decreto nº 98.813/1990, que revogou a antiga lei do FGTS, posteriormente revogada pela Lei nº 8.036/1990, que disciplina o FGTS até os dias atuais. Foi a partir da Lei 8.036/1990 que a indenização compensatória do FGTS passa de 10% para 40%, conforme se verifi ca pelo texto a seguir destacado e vigente: Art. 18 - Ocorrendo rescisão do contrato de trabalho, por parte do empregador, fi cará este obrigado a depositar na conta vinculada do trabalhador no FGTS os valores relativos aos depósitos referentes ao mês da rescisão e ao imediatamente anterior, que ainda não houver sido recolhido, sem prejuízo das cominações legais. § 1º Na hipótese de despedida pelo empregador sem justa causa, depositará este, na conta vinculada do trabalhador no FGTS, importância igual a quarenta por cento do montante de todos os depósitos realizados na conta vinculada durante a vigência do contrato de trabalho, atualizados monetariamente e acrescidos dos respectivos juros. § 2º Quando ocorrer despedida por culpa recíproca ou força maior, reconhecida pela Justiça do Trabalho, o percentual de que trata o § 1º será de 20 (vinte) por cento. § 3° As importâncias de que trata este artigo deverão constar da documentação comprobatória do recolhimento dos valores devidos a título de rescisão do contrato de trabalho, observado o disposto no art. 477 da CLT, eximindo o empregador, exclusivamente, quanto aos valores discriminados. Uma questão importante deve ser destacada, a multa é incidente sobre a totalidade dos depósitos, ainda que o empregado tenha efetuado algum saque durante o período, conforme Orientação Jurisprudencial nº 42 da SDI-I do TST. Por fi m, com a instituição da indenização de 40% sobre os depósitos do FGTS, restabelece-se a indenização para os casos de dispensa sem justa causa, eis que “a indenização adicional incidente sobre o FGTS (40%) tem a mesma natureza jurídica da antiga indenização prevista no art. 478 da CLT” (CASSAR, 2017, p. 1190). Portanto, no atual sistema legal, esta é a fórmula que se dispõe para inibir a dispensa sem justa causa em substituição ao art. 478 da CLT. Conclua o estudo do tema respondendo à questão a seguir: Lei nº 8.036/1990, que disciplina o FGTS até os dias atuais. 99 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 Atividade de Estudos: 1) A indenização de 40% sobre os depósitos do FGTS é devida em que circunstâncias? Qual é a previsão legal desta? _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ 7 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Com base no que foi estudado, é possível concluir que a proteção à relação de emprego conta, atualmente, com as indenizações previstas em caso de resilição imotivada do contrato por prazo determinado, previstas nos artigos 479 e 480 da CLT, com a indenização para o caso de dispensa do empregado nos 30 dias que antecedem à data-base, conforme preceitua o art. 9º da Lei nº 7.238/84. Por fi m, apesar de termos estudado a inaplicabilidade dos artigos 477 e 478 da CLT, anteriormente aplicáveis em caso de dispensa injusta em contratos por prazos determinados, foi possível verifi car que a indenização de 40% sobre o FGTS veio suprir a lacuna deixada pela ausência daqueles dispositivos legais. REFERÊNCIAS BARROS, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. 10. ed., atual. por Jessé Claudio Franco de Alencar. São Paulo: LTr, 2016. BATISTA, Homero. Comentários à reforma trabalhista [Livro eletrônico]. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. 100 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e DireitoColetivo do Trabalho BRASIL. Lei nº 7.783, de 28 de junho de 1989. Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. ______. Constituição Federal de 1988. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2017. ______. Consolidação das Leis do Trabalho, de 1º de maio de 1943. Disponível em: . Acesso em: 15 maio 2017. CASSAR, Vólia Bomfi m. Direito do trabalho. 13. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. CASSAR, Vólia Bomfi m; BORGES, Leonardo Dias. Comentários à reforma trabalhista. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. CHIARELLI, Carlos Alberto. O trabalho e o sindicato: evolução e desafi os. São Paulo: LTR, 2005. DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 16. ed. São Paulo: LTR, 2017. GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Curso de direito do trabalho. 11. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017. MAIOR, Jorge Luis Souto. A Reforma trabalhista e seus refl exos no direito coletivo do trabalho, 2017. Disponível em: . Acesso em: 23 jun. 2018. MARTINEZ, Luciano. Curso de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. MERÍSIO, Patrick Maia. Direito coletivo do trabalho [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. ______. Direito contemporâneo do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2011. 101 INDENIZAÇÕES RESCISÓRIAS Capítulo 2 PAGANI, Marcella et al. (coord). Direito do trabalho simplifi cado. Belo Horizonte: RTM, 2016. PIMENTA, José Roberto Freire et al. (coord). Direito do trabalho: evolução, crise e perspectivas. São Paulo: LTR, 2004. PORTAL BRASIL. Mulheres ganham espaço no mercado de trabalho. Disponível em: . Acesso em: 28 dez. 2017. SILVA, José Afonso da Silva. Direito constitucional positivo. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. VIANA, Márcio Túlio et al. (coord). Direito do trabalho e trabalhos sem direitos. Belo Horizonte: Melhoramentos, 2008. VIANA, Márcio Túlio. A reforma sindical, entre o bem e o mal. Disponível em: . Acesso em: 13 dez. 2017. 102 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho CAPÍTULO 3 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Possibilitar ao aluno, conhecer, identifi car e compreender os conceitos e princípios que servem de base ao Direito coletivo do trabalho. Realizar estudo sistemático acerca do direito coletivo do trabalho, passando pelos assuntos que compõem essa parte da disciplina como: organização sindical, confl itos coletivos de trabalho e direito de greve; Proceder a um estudo analítico da liberdade sindical no direito nacional eno intuito de estabelecer os contornos desta liberdade no país. 104 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 105 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo dedicado ao estudo do Direito Coletivo doTrabalho, faremos uma análise breve do instituto, que, dada sua complexidade, necessitaria um curso específi co somente sobre esta temática. O estudo inicia com a contextualização do Direito Coletivo, relembrando que suas origens se confundem com o início do Direito Individual do Trabalho. Apresentaremos a sugestão de um fi lme no próximo tópico (Deans, um grito de justiça) que ajuda muito a relembrar estes episódios. O passo seguinte é entender as funções do Direito do Trabalho e como ele é regido, como atua e quais os princípios aplicáveis ao ramo estudado, trazendo mais uma sugestão de complementação de estudo com a indicação de livros bem relevantes para o Direito Coletivo do Trabalho, para aqueles que desejam aprofundar o estudo deste tema tão importante. Logo após, inicia-se o estudo de um breve retrospecto histórico do Direito Coletivo no Brasil, apontando os principais instrumentos legais que foram sendo disponibilizados ao longo dos anos até chegar ao Direito Coletivo nos tempos atuais, seu conceito e alterações trazidas pela Reforma Trabalhista. Continuando a caminhada rumo à compreensão global do Direito Coletivo, o estudo dos Princípios aplicáveis a este ramo é indispensável para a completa compreensão de sua função no ordenamento jurídico. Partimos então para aspectos mais práticos do Direito Coletivo, com o estudo das negociações coletivas (convenções e acordos coletivos), observando novamente as alterações recentes. Finalizamos o estudo do tema com a análise da greve e das alternativas propostas na lei através de mediação e arbitragem. 2 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO O estudo do Direito Coletivo do Trabalho se confunde com as origens do Direito do Trabalho, com as lutas de classe oriundas da Revolução Industrial que foram o berço das primeiras conquistas trabalhistas e originaram o Direito do Trabalho. 106 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho No cenário da Revolução Industrial iniciado na Inglaterra tivemos a exploração desregrada da mão de obra, onde se podia observar uma carga horária extenuante de trabalho que chegou a alcançar 12 horas de trabalho por dia, ou a exploração absurda de crianças a partir de seis ou sete anos de idade, talvez menos. Naquele período tivemos a inserção das mulheres e crianças no mercado de trabalho como uma alternativa mais barata de mão de obra, observou-se também uma oferta de mão de obra muito grande, que fez com que os detentores de poder ditassem as regras e pudessem impor condições de trabalho indignas e inseguras. A ideia de união evoluiu como condição básica para o movimento de reivindicação e de luta, de ações pacífi cas a confl itos violentos. A identidade de aspirações vinculou os trabalhadores relacionando-os com um sentido de aproximação que impulsiona as pessoas que integram um grupo social e desde que as pessoas desse grupo tenham um interesse comum. A ação dos trabalhadores passou de desorganizada para organizada (NASCIMENTO, 2012, p. 166). Para compreender o que ocorria na Revolução Industrial e todo o contexto de formação do Direito do Trabalho, costumo apresentar aos alunos o fi lme Daens, um Grito de Justiça, que narra a história verídica do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade de Aalst (Bélgica), no fi nal do século XIX e, ao se deparar com a degradação a que a população era submetida pela industrialização, passa a lutar contra as constantes mortes por acidentes nas indústrias e as condições miseráveis em que viviam as famílias operárias. Como é um fi lme de 1992 e seu acesso é muito difícil, indico o site onde está disponível em duas partes: Parte 1: https://vimeo.com/46428638 Parte 2: https://vimeo.com/46316968 O contexto histórico demonstra que os empregadores sempre estiveram unidos de uma forma ou outra para atingir seus objetivos, e a união dos trabalhadores em geral se fez necessária para que tivessem força para resistir aos abusos. 107 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 No transcorrer do século XIX, perceberam os trabalhadores que um dos sujeitos da relação de emprego (o empregador) sempre foi um ser coletivo, isto é, ser cuja vontade era hábil a defl agrar ações e repercussões de impacto social, seja certamente no âmbito da comunidade do trabalho, seja eventualmente até mesmo no âmbito comunitário maisamplo. Isso porque a vontade empresarial, ao se concretizar em ação, atinge um universo bastante amplo de pessoas no conjunto social em que atua. Em comparação a ela, a vontade obreira, enquanto manifestação meramente individual, não tem a natural aptidão para produzir efeitos além do âmbito restrito da própria relação bilateral pactuada entre empregador e empregado (DELGADO, 2017, p. 1459, grifos do autor). Uma vez que tenhamos relembrado como o coletivo começa a se formar no contexto dos trabalhadores, enquanto os empregadores já se caracterizavam como coletivo, surge o cenário ideal para um direito da coletividade, que tem recebido denominações diversas desde seu surgimento em meados do século XIX, tendo prevalecido as nomenclaturas Direito Coletivo e Direito Sindical nos últimos anos. O conteúdo do Direito Coletivo do Trabalho é, pois, dado pelos princípios, regras e institutos que regem a existência e desenvolvimento das entidades coletivas trabalhistas, inclusive suas inter-relações, além das regras jurídicas trabalhistas criadas em decorrência de tais vínculos. São os princípios e normas reguladores dos sindicatos, da negociação coletiva, da greve, do dissídio coletivo, da mediação e arbitragem coletivas, ao lado dos dispositivos criados pela negociação coletiva e dissídios coletivos, por exemplo (DELGADO, 2017, p. 1460, grifos do autor). O Direito coletivo vai disciplinar as relações coletivas de trabalho, ou seja, de um grupo de empregados e um grupo de empregadores, ditando as regras desta relação, seus limites e proteções. No direito do trabalho há dois tipos fundamentais de relações jurídicas, assim entendidas as relações sociais disciplinadas pelo direito: as relações coletivas e as relações individuais de trabalho. A diferença entre ambas se faz a partir dos sujeitos, dos interesses e da causa fi nal de ambas. Nas relações coletivas, os sujeitos são os grupos de trabalhadores e de empregadores, normalmente representados pelos sindicatos trabalhistas e patronais, apresentando-se como relações intersindicais. Podem caracterizar-se como coletivas relações entre os próprios trabalhadores e uma ou mais empresas com as quais se relacionam diretamente, sem a via sindical-patronal, quando têm por fi nalidade a tutela de interesses de um grupo de trabalhadores de uma empresa. Serão relações que não se 108 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho desfi guram como grupais, uma vez que atingem também um grupo, embora em esfera mais restrita, daí por que na empresa também há relações individuais e coletivas, sendo conhecidos os mecanismos existentes em outros países para a representação do grupo de trabalhadores visando a soluções de problemas coletivos, como as fi guras do representante dos trabalhadores e do conselho de empresa. Não se confundem com as relações individuais, cujos sujeitos são os trabalhadores singularmente considerados e não como parte de um grupo. Os interesses nas relações coletivas são grupais, isto é, referem-se a uma coletividade, sendo comuns a todos os seus membros, enquanto nas relações individuais são isolados, autônomos, não se comunicam entre diversas pessoas porque pertencem à esfera jurídica de uma só delas. Nem sempre o número de pessoas é fundamental para distinguir entre os dois tipos de relações. Podem alguns empregados agir simultaneamente, porém com reivindicações diferentes, cada um com uma específi ca pretensão, caso em que não há um interesse coletivo, mas individual, porque aquele supõe um elo que unifi ca as pessoas por uma só e comum reivindicação (NASCIMENTO, 2011, p. 1264-1265, grifo nosso). Como visto, o Direito coletivo atua predominantemente por meio dos sindicatos de empregados e patronais. Sindicatos são entidades associativas permanentes, que representam trabalhadores vinculados por laços profi ssionais e laborativos comuns, visando tratar de problemas coletivos das respectivas bases representadas, defendendo seus interesses trabalhistas e conexos, com o objetivo de lhes alcançar melhores condições de labor e vida (DELGADO, 2017, p. 1512). Portanto, a atuação do Direito coletivo comumente ocorre por intermédio de sindicatos, que mereceriam um capítulo à parte, dadas as inúmeras particularidades de sua composição e regramento. 109 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Para aqueles que têm interesse em aprofundar o estudo do Direito Sindical, a leitura das obras de Amauri Mascaro do Nascimento é indispensável, as duas obras utilizadas neste material são obras básicas para conhecer a temática: • NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 26º ed. São Paulo: Saraiva, 2011. • NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Direito Contemporâneo do Trabalho. 1ª ed. 2ª tiragem. São Paulo: Saraiva, 2012. Observe que ambas as obras citadas (assim como a maioria utilizada na bibliografi a) ainda se encontram em desacordo com a Reforma Trabalhista, portanto deve-se ter atenção redobrada ou aguardar edições atualizadas que devem entrar no mercado em breve. 3 FASES DO DIREITO COLETIVO NO BRASIL Para o estudo deste ponto utilizamos a divisão cronológica apresentada por Amauri Mascaro do Nascimento no Curso de Direito do Trabalho, onde apresenta as seguintes fases: o anarcossindicalismo, que teria ocorrido pela infl uência dos imigrantes italianos, seguido do período de intervencionismo a partir de 1930 com o Estado Novo de Getúlio Vargas; a próxima fase desponta na década de 80, com a abertura política que possibilitou a ampliação do movimento sindical, e por fi m caminhamos até o momento atual do Direito coletivo, representado pelo sindicalismo. 3.1 Anarcossindicalismo Este período é também conhecido como Sindicalismo Revolucionário e foi trazido para o Brasil pelos imigrantes, especialmente italianos, que estavam sob forte infl uência do movimento sindical europeu. Como explica Nascimento (2011), foi sob esta infl uência que se publicaram as primeiras leis sindicalistas, em 1903 e 1907. 110 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A primeira lei sindical brasileira é o Decreto nº 979, de 06/01/1903, já trazen do a faculdade dos profi ssionais da agricultura e das indústrias rurais de qualquer gênero se organizarem em sindicatos para o estudo, custeio e defesa dos seus interesses. O sindicato, inspirado pela doutrina social católica, se aproximava da cooperativa, tendo também como atribuição a intermediação de crédito, aquisi ção de bens necessários ao exercício da profi ssão em favor dos associados. O Decreto Legislativo nº 637 (05/06/1907) facultou aos exercentes de profi s sões similares ou conexas, inclusive aos profi ssionais liberais, organizarem-se em sindicatos, tendo por fi m o estudo, a defesa e o desenvolvimento dos interesses gerais da profi ssão e dos interesses profi ssionais dos seus membros, permitindo-se mesmo a constituição de sindicatos mistos (identifi cação plena do sindicato com a profi ssão, o que possibilitava a conciliação em tese entre empregado e patrão) (MERÍSIO, 2011, p. 30). Nascimento (2011) explica que este período fi ndou com a expulsão dos estrangeiros ocorrida entre os anos de 1907 e 1921. Mas devemos admitir que suas infl uências permaneceram apesar de seu afastamento. 3.2 Intervencionismo Neste período, com o Estado Novo de Getúlio Vargas aliado à criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio em 1930, reforçado pela Lei dos Dois Terços que visou restringir os operários estrangeiros nas fábricas, e a Lei dos Sindicatos, criou-se o cenário para o intervencionismo estatal sobre o Direito coletivo, com um maior controle sobre o sindicato. A Lei dos Dois Terços (Decreto-Lei nº 1.843/39) está disponível em: . A Lei dos sindicatos (Decreto-Lei nº 1.402/39) está disponível em: . 111DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Foram diretrizes que marcaram o modelo sindical corporativista, entre outras: a) o agrupamento das profi ssões idênticas, similares e conexas em categorias organizadas pelo Estado por meio da Comissão de Enquadramento Sindical do então Ministério do Trabalho; b) a exigência do número mínimo de trinta sócios para que fosse possível pleitear a criação de um sindicato, cujo reconhecimento dependia de ato concessivo do Estado; c) a atribuição das funções assistenciais aos sindicatos, vedada a ação política; d) a proibição da transferência do diretor do sindicato pela empresa para outra localidade; e) a proibição de sindicalização do funcionário público e de fi liação de qualquer sindicato a organizações internacionais sem autorização do Ministério do Trabalho; f) a permissão para que os interessados, observados alguns requisitos, criassem federações e confederações (NASCIMENTO, 2011, p. 1245). Este período foi o de maior duração e com grande movimentação normativa, por esta razão chamado intervencionista. O Decreto n° 19.770 (19/03/1931) foi a primeira lei sindical do governo au toritário de Vargas, já trazendo a necessidade de aprovação dos estatutos e re conhecimento pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, para fi ns de constituição de federações e confederações, legitimidade para celebração de con venções coletivas de trabalho, adoção do regime da unicidade sindical. O Decreto n° 24.694, de 1934, regulamentou a Constituição de 1934 na parte sindical, trazendo amplas possibilidades de intervenção do Estado na vida sindi cal (principalmente a necessidade de reconhecimento pelo Ministério do Traba lho), mas prevendo apenas teoricamente a pluralidade sindical (que na prática nunca foi implementada após o ingresso de Getúlio Vargas no poder e mesmo após a sua saída). O Decreto-lei n° 1.402 (05/07/1939) é resultado de novo golpe varguista, com a implementação do Estado Novo, afastando a pluralidade sindical (que só existira no papel) e com aumento do controle sobre a administração sindical, podendo o Ministério do Trabalho suspender e destituir diretorias e até mesmo fechar os sindicatos. A Consolidação das Leis do Trabalho, desta forma, não nasceu do vácuo, uti lizando-se de diversos elementos normativos a ela anteriores. (MERÍSIO, 2011, p. 31) Neste período ainda houve a proibição da greve com a Constituição de 1937, reforçando a tendência demonstrada pelos autores citados, e com a promulgação da CLT em 1943 reforçou-se ainda mais o controle estatal sobre os sindicatos. 112 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 3.3 Sindicalismo AutÔnomo e Aspectos da ReForma trabalhista Esta fase ocorre com a abertura política que se evidencia a partir dos anos 80, que possibilitou aos sindicatos uma atuação mais livre, e a criação de diversas centrais sindicais. Houve a constituição da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Central Geral dos Trabalhadores que originou a Força Sindical ligada aos metalúrgicos, e a União Sindical Independente (USI), que representava os comerciários. E os avanços seguiram: No plano legal, os textos mais relevantes foram a Portaria nº 3.100/85, que revogou a proibição das Centrais, antes estabelecida pela Portaria n. 3.337/78, a Lei n. 4.060, de 1964, sobre exercício do direito de greve, e, principalmente, a Constituição Federal de 1988, que fi xou novos princípios para o direito sindical, fundados na ideia da maior autonomia das organizações sindicais, embora mantendo algumas restrições. A Constituição Federal de 1988 rompeu em diversos pontos com o sistema intervencionista da CLT, em especial ao vedar a interferência e a intervenção do Estado na organização sindical; princípio que levou o Ministério do Trabalho e Emprego a concluir que qualquer atuação que pudesse ter sobre o movimento sindical, incluindo o reconhecimento de sindicatos, a expedição de cartas sindicais, a solução das disputas entre sindicatos que se intitulavam representantes de uma categoria, a sua participação em assembleias sindicais e a exigência de estatuto padrão para as entidades sindicais, seria contrária à Constituição (NASCIMENTO, 2011, p. 1249). Deste período cabe destacar o artigo 8º da Constituição Federal de 1988, que trouxe as seguintes normativas: Art. 8º É livre a associação profi ssional ou sindical, observado o seguinte: I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical; II - é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profi ssional ou econômica, na mesma base territorial, que será defi nida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um município; III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; IV - a assembleia geral fi xará a contribuição que, em se tratando 113 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 de categoria profi ssional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei; V - ninguém será obrigado a fi liar-se ou a manter-se fi liado a sindicato; VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho; VII - o aposentado fi liado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais; VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o fi nal do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer. Do presente artigo de lei se pode retirar a base do sindicalismo atual e de seus princípios, estudados a seguir. O inciso I do art. 8º da CF consagra o Princípio da Autonomia Sindical, que se traduz na liberdade de fundação, bastando o registro no órgão competente, sendo vedada ao poder público a interferência ou intervenção na organização dos mesmos. No inciso II do mesmo artigo está consagrada a unicidade sindical, ou seja, somente é permitida a criação de um sindicato para cada categoria profi ssional ou econômica na mesma base territorial. Este mandamento ainda é alvo de muitas controvérsias, há aqueles que defendem que a pluralidade sindical seria mais benéfi ca, e outros que difundem que esta acabaria pulverizando a força dos sindicatos. No artigo 8º, III está a legitimidade dos sindicatos para representar seus membros judicial ou administrativamente. A polêmica contribuição sindical aparece no inciso IV do artigo 8º da CLT, que apesar de prever a contribuição sindical, não traz expressa a sua obrigatoriedade, o que tem sido disciplinado pela CLT nos artigos 545 e seguintes e que sofreram um grande impacto após a Reforma Trabalhista. Vejamos o que foi alterado: A polêmica contribuição sindical aparece no inciso IV do artigo 8º da CLT, que apesar de prever a contribuição sindical, não traz expressa a sua obrigatoriedade. 114 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 545 ANTIGA CLT - Os empregadores fi cam obrigados a descontar na folha de pagamento dos seus empregados, desde que por eles devidamente autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este notifi cados, salvo quanto à contribuição sindical, cujo desconto independe dessas formalidades. (grifo nosso) Art. 545 NOVA CLT - Os empregadores fi cam obrigados a descontarde Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 4 FONTES FORMAIS DA ESTABILIDADE NO EMPREGO Esta tendência de proteger a relação de emprego se inicia com a Lei Eloy Chaves (Lei nº 4.682/23), que criou as Caixas de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários, e garantiu a estabilidade após 10 anos de serviços aos empregados daquela categoria profi ssional (NASCIMENTO, 2011). A Lei Eloy Chaves, de 24 de janeiro de 1923, art. 42: Depois de 10 anos de serviços efetivos, o empregado das empresas a que se refere a presente lei só poderá ser demitido no caso de falta grave constatada em inquérito administrativo, presidido por engenheiro da Inspetoria e Fiscalização das Estradas de Ferro (NASCIMENTO, 2011, p. 1157). Em seguida, os portuários, nas mesmas condições, também foram amparados pela estabilidade (Lei n. 5.109, de 1926), “transportes urbanos, luz, força, telefone, telégrafos, portos, águas e esgotos (Dec. n. 20.465, de 1930) e bancários com dois anos de casa (Dec. n. 24.615, de 1934)” (NASCIMENTO, 2011, p. 1157). Entretanto, no Brasil, o objetivo imediato da estabilidade foi a necessidade de assegurar o custeio do sistema previdenciário, o que só é possível com o emprego de mão de obra permanente. [...] A CLT disciplina essa matéria do art. 492 ao 500. No plano constitucional, a primeira carta que tratou do assunto foi a de 1937; a de 1946 assegurou-a na “empresa ou exploração rural”. Com a Constituição de 1967, a estabilidade no emprego passou a coexistir com o regime do Fundo de Garantia e, fi nalmente, a partir da Constituição de 1988, este regime tornou-se obrigatório, eliminando-se do cenário jurídico nacional a estabilidade no emprego, ressalvado o direito adquirido dos que já eram contemplados com ela, porque já contavam com mais de 10 anos de serviço junto ao mesmo empregador, sem terem manifestado a opção pelo FGTS. Lembre-se de que, até a Constituição de 1988, o FGTS não se estendia ao trabalhador do campo. Consequentemente, hoje, é mais fácil encontrarmos trabalhadores portadores de estabilidade decenal no meio rural do que no meio urbano, em que o FGTS já existe desde 1967. Logo, em geral, a partir deste ano, a admissão do trabalhador urbano verifi ca-se sob a égide do regime do FGTS. É que, embora o ingresso nesse 17 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 regime fosse uma faculdade, por ser mais conveniente ao empregador, este costumava não admitir o candidato ao emprego que não assinasse a declaração de opção pelo referido regime no ato da contratação. Ingressando o empregado na empresa, na condição de optante pelo FGTS, impossível seria a aquisição da estabilidade decenária, a não ser que o regimento interno das empresas o previsse, como regra mais favorável, o que é pouco provável ou quase impossível (BARROS, 2016, p. 767, grifo nosso). Assim, a estabilidade que se inicia com uma lei previdenciária, passa a ser relacionada à extinção do contrato de trabalho. A Carta constitucional de 1937, em seu artigo 137, alínea f, concedeu status constitucional à temática. Em 1943, com a promulgação da CLT, a estabilidade decenal passou a ser regulamentada nos artigos 492 e seguintes da CLT. A estabilidade garantida aos trabalhadores com mais de 10 anos de serviços ao mesmo empregador é conhecida como estabilidade decenal ou decenária. “A estabilidade decenal funcionava da seguinte maneira: o empregado que atingisse dez anos e um dia de trabalho não poderia ser mandado embora sem justa causa, sendo necessário um inquérito para apurar eventual falta grave” (PAGANI; MIRAGLIA; FINELI, 2016, p. 529). E, em 1966, com a criação da Lei do FGTS (facultativo à época), o instituto da estabilidade decenal passa a perder força gradativamente, eis que: Inserindo-se, por meio da opção escrita, no FGTS, o empregado estaria excluído, automaticamente, do sistema de indenização crescente por tempo de serviço previsto na CLT, não podendo também mais alcançar, em consequência, a clássica estabilidade no emprego, após nove ou dez anos de tempo de serviço na empresa. Contudo, teria direito ao saque do Fundo de Garantia, no caso de sua dispensa desmotivada (denúncia vazia do contrato) (DELGADO, 2017, p. 1410). Ao optar pela estabilidade, caso fosse dispensado sem justa causa, poderia requerer sua reintegração ou, caso houvesse incompatibilidade entre empregador e empregado, convertê-la em indenização. Essa quantia signifi caria o correspondente a um mês de remuneração por ano de serviço ou fração superior a seis meses (PAGANI; MIRAGLIA; FINELI, 2016, p. 529). 18 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A criação do sistema do FGTS vai, gradativamente, extinguindo a proteção da estabilidade decenal, obviamente pela pressão empresarial no momento da contratação, eis que assim não fi cariam mais obrigados a manter seus empregados, caso permanecessem no emprego pelo período aquisitivo da estabilidade legal. (É conveniente que fi quemos atentos que, nesta época, os empregados permaneciam durante muitos anos na mesma empresa.) Em poucos anos após 1967 (data de efetiva implantação do novo sistema), o mercado de trabalho já estava quase todo submetido ao sistema “fundiário”, excetuados os velhos contratos oriundos do período anterior. Mesmo para estes velhos contratos, a Lei n. 5.107/66 abriu a possibilidade de opção retroativa pelo sistema do Fundo de Garantia — o que mais alargaria a abrangência do novo sistema (DELGADO, 2017, p. 1411, grifo nosso). O derradeiro fi m do instituto da estabilidade decenal ocorre com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que revogou os artigos 492 e seguintes da CLT, tornando o FGTS obrigatório para todos os empregados, ressalvados, é claro, casos de direito adquirido. A Constituição de 1988 universalizou o sistema do FGTS: a um só tempo, eliminou a exigência de opção escrita pelo Fundo (excetuada a opção retroativa, evidentemente), fazendo do FGTS um direito inerente a todo contrato empregatício, inclusive o do rurícola (art. 7º, III, CF/88). Apenas o empregado doméstico é que não foi incorporado ao sistema do Fundo de Garantia (parágrafo único do mesmo art. 7º), fi cando a categoria, neste aspecto, na dependência de lei favorável futura (DELGADO, 2017, p. 1412). Ao referir-se à Lei favorável futura, em nota, Delgado (2017, p. 1412) explica: Esse diploma seria a Medida Provisória n. 1.986, de 10 de dezembro de 1999, a qual criou a faculdade de inserção, pelo empregador doméstico, de seu empregado no sistema do FGTS e, consequentemente, no sistema do seguro- desemprego (faculdade exercitável somente a contar de março de 2000 — Decreto n. 3.361/2000). Com a EC n. 72, publicada em 3.4.2013, o FGTS tornou-se obrigatório para os contratos domésticos, porém desde que aprovada lei regulatória prevista pelo novo texto do parágrafo único do art. 7º da Constituição — diploma normativo especial que surgiu com a Lei Complementar n. 150, publicada em 2.6.2015. A propósito, pelo sistema estruturado pela LC n. 150, com a implantação do Simples Doméstico é que iria se iniciar a imperatividade do FGTS para os empregados domésticos, fato que se consumou a partir de 1º.10.15). 19 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Assim, a partir da Constituição de 1988, todos os empregados, urbanos e rurais, passaram a ser obrigatoriamente abrangidos pelo sistema do FGTS, “sendo que apenas os empregados (rurais e urbanos) que tenham adquirido a estabilidade por tempo de serviço até a sua promulgação (05.10.1988) é que possuem o referido direito adquirido” (GARCIA, 2017, p. 798). Em suma, a leitura da linha do tempo da estabilidade pode ser entendida desta forma: FIGURA 1 – CRONOLOGIA DA ESTABILIDADE 1923 Lei Eloy Chaves 1937 Carta Constitucional de 1937 1943 CLT 1946 CF 46 estende a estabilidade ao rural 1966 Lei nº 5107/66da folha de pagamento dos seus empregados, desde que devidamente autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este notifi cados. Para complementar o entendimento das repercussões das alterações, a leitura dos artigos 578, 579, 582, 583, 587 e 602 da CLT e suas alterações é muito esclarecedora. Art. 578 ANTIGA CLT. As contribuições devidas aos sindicatos pelos que participem das categorias econômicas ou profi ssionais ou das profi ssões liberais representadas pelas referidas entidades serão, sob a denominação do "imposto sindical", pagas, recolhidas e aplicadas na forma estabelecida neste Capítulo. Art. 578 NOVA CLT. As contribuições devidas aos sindicatos pelos participantes das categorias econômicas ou profi ssionais ou das profi ssões liberais representadas pelas referidas entidades serão, sob a denominação de contribuição sindical, pagas, recolhidas e aplicadas na forma estabelecida neste Capítulo, desde que prévia e expressamente autorizadas. Art. 579 ANTIGA CLT. A contribuição sindical é devida por todos aqueles que participarem de uma determinada categoria econômica ou profi ssional, ou de uma profi ssão liberal, em favor do sindicato representativo da mesma categoria ou profi ssão ou, inexistindo este, na conformidade do disposto no art. 591. Art. 579 NOVA CLT. O desconto da contribuição sindical está condicionado à autorização prévia e expressa dos que participarem de uma determinada categoria econômica ou profi ssional, ou de uma profi ssão liberal, em favor do sindicato representativo da mesma categoria profi ssional, ou inexistindo este, na conformidade do disposto no art. 591 desta Consolidação. NR Art. 582 ANTIGA CLT. Os empregadores são obrigados a descontar, da folha de pagamento de seus empregados relativa ao mês de março de cada ano, a contribuição sindical por estes devida aos respectivos sindicatos. Art. 582 NOVA CLT. Os empregadores são obrigados a descontar, da folha de pagamento de seus empregados relativa ao mês de março de cada ano, a contribuição sindical dos empregados que autorizam prévia e expressamente o seu 115 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 recolhimento aos respectivos sindicatos. Art. 583 ANTIGA CLT. O recolhimento da contribuição sindical referente aos empregados e trabalhadores avulsos será efetuado no mês de abril de cada ano, e o relativo aos agentes ou trabalhadores autônomos e profi ssionais liberais realizar- se-á no mês de fevereiro. Art. 583 NOVA CLT. O recolhimento da contribuição sindical referente aos empregados e trabalhadores avulsos será efetuado no mês de abril de cada ano, e o relativo aos agentes ou trabalhadores autônomos e profi ssionais liberais realizar- se-á no mês de fevereiro, observada a exigência de autorização prévia e expressa prevista no art. 579 desta Consolidação. Art. 587 ANTIGA CLT O recolhimento da contribuição sindical dos empregadores efetuar-se-á no mês de janeiro de cada ano, ou, para os que venham a estabelecer-se após aquele mês, na ocasião em que requeiram às repartições o registro ou a licença para o exercício da respectiva atividade. Art. 587 NOVA CLT. Os empregadores que optarem pelo recolhimento da contribuição sindical deverão fazê-lo no mês de janeiro de cada ano, ou, para os que venham a se estabelecer após o referido mês, na ocasião em que requererem às repartições o registro ou a licença para o exercício da respectiva atividade. NR Art. 602 ANTIGA CLT. Os empregados que não estiverem trabalhando no mês destinado ao desconto do imposto sindical serão descontados no primeiro mês subsequente ao do reinício do trabalho. Art. 602 NOVA CLT. Os empregados que não estiverem trabalhando no mês destinado ao desconto da contribuição sindical e que venham a autorizar prévia e expressamente o recolhimento serão descontados no primeiro mês subsequente ao do reinício do trabalho. Da leitura do novo texto legal do artigo 545 da CLT pode-se observar que foi retirado o seguinte trecho da lei: “salvo quanto à contribuição sindical, cujo desconto independe dessas formalidades”, o que, combinado com a leitura das demais alterações na CLT, leva à conclusão de que o imposto sindical (agora uniformizado o tratamento para contribuição sindical, dada a sua natureza) é facultativo a partir da Reforma Trabalhista, e não mais compulsório, como era tratado anteriormente. O Governo Federal sabia que não se pode eliminar a contribuição sindical por lei ordinária, haja vista sua previsão expressa na Constituição Federal de 1988, tanto no art. 8º, IV, in fi ne, quanto no art. 149. Não havia maioria parlamentar para Proposta de Emenda Constitucional. Assim, a solução criativa encontrada foi trocar a compulsoriedade pela facultatividade. Leva à conclusão de que o imposto sindical (agora uniformizado o tratamento para contribuição sindical, dada a sua natureza) é facultativo. 116 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Pode haver questionamento sobre a constitucionalidade desse artifício, mas, de fato, a Constituição não é expressa quanto ao alcance e à obrigatoriedade do recolhimento. Houve o cuidado de inserir a facultatividade em todos os dispositivos da CLT que mencionam a compulsoriedade, com destaque para os arts. 545, 578, 579, 582, 583, 587 e 602 (BATISTA, 2017, p. 72). Já houve e ainda haverá muita discussão sobre este tema também. Argumentos a favor e contra a compulsoriedade da contribuição sindical dividem os juristas. Há quem defenda que as alterações enfraquecem os sindicatos, já tão sucateados, corrente que me parece muito plausível, e outros que responsabilizam a má gestão e até mesmo desonestidade pelas alterações e por esta razão defendem a não obrigatoriedade, alegando que os sindicatos deverão trabalhar mais para se fazerem merecedores da confi ança dos membros e, portanto, terem adesão à contribuição prevista na CLT. O que acontecerá? O tempo dirá. Retomando a análise do artigo 8º da CF, passamos ao estudo do inciso V, que dispõe que ninguém será obrigado a fi liar-se ou a manter-se fi liado a sindicato, para tal utilizamos as lições de José Afonso da Silva: Liberdade de adesão sindical, que consiste no direito de os integrantes aderirem ou não ao sindicato de sua categoria profi ssional ou econômica, sem autorização ou constrangimento, liberdade que envolve também o direito de desligar-se dele quando o interessado desejar (SILVA, 2005, p. 302). O próximo inciso, o VI, diz respeito à obrigatoriedade de participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho. A partir deste mandamento, os sindicatos são respeitados e as negociações coletivas apresentam-se como instrumentos importantes na solução de controvérsias. O inciso VII apresenta o direito dos aposentados de votarem e serem votados, privilegiando esta categoria. Por fi m, o já estudado inciso VIII do art. 8º dispõe sobre a vedação da dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o fi nal do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Ou seja, é a hipótese já estudada de estabilidade provisória ou garantia de emprego. Assim, a trajetória do Direito do Trabalho no Brasil chega aos dias atuais num cenário de Reforma Trabalhista que, por um lado, privilegia a negociação coletiva e, por outro, parece tentar enfraquecê-la, como no caso da facultatividade do pagamento da contribuição compulsória. Já houve e ainda haverá muita discussão sobre este tema também. Argumentos a favor e contra a compulsoriedade da contribuição sindical dividem os juristas. 117 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 4 PRINCÍPIOS DO DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Ainda que os princípios do Direito Coletivo do Trabalho estejam atrelados aos princípios do Direito Individualdo Trabalho pela sua natureza, diferenciam-se, pois, enquanto naqueles há uma relativa equivalência entre os seres coletivos, nestes se verifi ca um grande desnível caracterizado pela hipossufi ciência do empregado frente ao empregador. 4.1 PrincÍpio da Liberdade Sindical Pode-se afi rmar que este princípio é derivado do princípio da liberdade de associação, insculpido no artigo 5º da CF, no entanto, o seu alcance é mais complexo, como ensina Maurício Godinho Delgado: A liberdade associativista tem uma dimensão positiva (prerrogativa de livre criação e/ou vinculação a uma entidade associativa) ao lado de uma dimensão negativa (prerrogativa de livre desfi liação da mesma entidade). Ambas estão mencionadas no Texto Magno (“ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado” — art. 5º, XX, CF/88). [...] Tal princípio engloba as mesmas dimensões positivas e negativas já referidas, concentradas no universo da realidade do sindicalismo. Abrange, desse modo, a liberdade de criação de sindicatos e de sua autoextinção (com a garantia de extinção externa somente por intermédio de sentença judicial regularmente formulada). Abrange, ainda, a prerrogativa de livre vinculação a um sindicato, assim como a livre desfi liação de seus quadros (o art. 8º, V, da Constituição especifi ca o comando já lançado genericamente em seu art. 5º, XX: “ninguém será obrigado a fi liar-se ou a manter-se fi liado a sindicato”) (DELGADO, 2017, 1481). No entanto, sobre este aspecto cumpre lembrar que o Brasil ainda não incorporou em seu ordenamento jurídico a Convenção 87 da OIT que versa sobre a liberdade sindical e que representaria, sim, efetivamente, a concretização deste princípio. 118 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 4.2 PrincÍpio da Autonomia Sindical Segundo este princípio, os sindicatos têm a autonomia administrativa, estando livres da ingerência do Estado, das empresas ou de qualquer outra entidade. Tal princípio sustenta a garantia de autogestão às organizações associativas e sindicais dos trabalhadores, sem interferências empresariais ou do Estado. Trata ele, portanto, da livre estruturação interna do sindicato, sua livre atuação externa, sua sustentação econômico-fi nanceira e sua desvinculação de controles administrativos estatais ou em face do empregador (DELGADO, 2017, 1485). Amauri Mascaro do Nascimento esclarece que a autonomia vai muito além da não intervenção, está na ação: Em linhas amplas, a autonomia coletiva compreende a autonomia organizativa, da qual resulta o direito dos sindicatos de elaborar os próprios estatutos; a autonomia negocial, que permite aos sindicatos fazer convenções coletivas de trabalho; a autonomia administrativa, da qual resulta o direito do sindicato de eleger a sua diretoria e exercer a própria administração; e a autotutela, que é o reconhecimento de que o sindicato deve ter meios de luta, previstos nos termos da lei, para a solução dos confl itos trabalhistas, entre os quais a greve, o lockout e o direito a um arbitramento das suas disputas. (NASCIMENTO, 2011, p. 1272, grifos do autor) Apresenta-se, portanto, como importante instrumento de efetividade dos sindicatos, confi rmando o que preceitua o artigo 8º, I da CF, que veda a interferência estatal sobre os mesmos. 4.3 PrincÍpio da InterveniÊncia Sindical na NormatizaçÃo Coletiva Consagra este princípio o que dispõe a Constituição Federal no artigo 8º, inciso VI, que aduz ser obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho. No entanto, pode-se dizer que esta obrigatoriedade é voltada aos sindicatos dos empregados e não necessariamente ao dos empregadores, eis que a Constituição reconhece o Acordo Coletivo de Trabalho como instrumento da negociação coletiva e este é fi rmado entre empresa(s) e sindicato dos trabalhadores, sem a interveniência do sindicato patronal. 119 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Assumido pela Constituição de 1988 (art. 8º, III e VI, CF/88), o princípio visa a assegurar a existência de efetiva equivalência entre os sujeitos contrapostos, evitando a negociação informal do empregador com grupos coletivos obreiros estruturados apenas de modo episódico, eventual, sem a força de uma institucionalização democrática como a propiciada pelo sindicato (com garantias especiais de emprego, transparência negocial, etc.). Em face de tal princípio não constitui, para o Direito, negociação coletiva trabalhista qualquer fórmula de tratamento direto entre o empregador e seus empregados, ainda que se trate de fórmula formalmente democrática (um plebiscito intraempresarial, por exemplo). Os poderes da autonomia privada coletiva, no Direito brasileiro, passam necessariamente pelas entidades sindicais obreiras. Neste quadro, qualquer ajuste feito informalmente entre empregador e empregado terá caráter de mera cláusula contratual, sem o condão de instituir norma jurídica coletiva negociada. Na qualidade jurídica de mera cláusula contratual, este ajuste informal submete-se a todas as restrições postas pelo ramo justrabalhista às alterações do contrato de trabalho, inclusive o rigoroso princípio da inalterabilidade contratual lesiva (DELGADO, 2017, 1488/1489). 4.4 PrincÍpio da EQuivalÊncia dos Contratantes Coletivos Enquanto no Direito Individual há fl agrante disparidade entre as partes e por esta razão os princípios tendem a atenuar estas diferenças, no Direito Coletivo se espera que haja equivalência entre ambos, ou seja, devem estar em igualdade de condições. O princípio da equivalência dos contratantes coletivos postula pelo reconhecimento de um estatuto sociojurídico semelhante a ambos os contratantes coletivos (o obreiro e o empresarial). [...] circunstância de contarem os dois seres contrapostos (até mesmo o ser coletivo obreiro) com instrumentos efi cazes de atuação e pressão (e, portanto, negociação) (DELGADO, 2017, 1490). Mantém-se, assim, igualdade de condições para as negociações entre ambos na defesa dos interesses de seus membros. 120 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Será que há efetivamente equivalência entre os entes coletivos em nosso país? Temos sindicatos efetivamente fortes e bem estruturados, especialmente de representatividade de empregados? Não há como se falar na efetividade do princípio da equivalência entre os contratantes coletivos se a realidade do sindicalismo no país é formada por entidades sindicais extremamente frágeis, pequenas, modestas. Ora, conforme já se mencionou neste curso, entidade sindical frágil e sem representatividade consiste na antítese da ideia de sindicato e de ente integrante do sindicalismo, difi cilmente sendo apta a realmente desfrutar da natureza de ser coletivo obreiro e de cumprir o princípio cardeal da equivalência entre os seres coletivos trabalhistas. Em segundo lugar, há que se perceber que a garantia de emprego relativa aos dirigentes sindicais, afi rmada pela Constituição de 1988 (art. 8º, VIII), envolve um número exíguo de trabalhadores, se considerados os casos de sindicatos realmente grandes, abrangentes e com larga base obreira representada. A verdade é que a superação, pelo art. 8º da Constituição, do antigo critério do art. 522, CLT (que confere garantia apenas ao máximo de sete diretores e três conselheiros fi scais eleitos, e respectivos suplentes), ainda não conduziu ao vislumbre do novo critério surgido em harmonia com a vontade constitucional de 1988. Não há dúvida de que se mostra evidente a inadequação da tímida garantia do art. 522 da Consolidação perante o largo espectro constitucional (e perante a sociedade complexa hoje existente no Brasil). Contudo, a ausência de um parâmetro alternativo claro (que evite também, ao reverso, o abuso do direito pelos sindicalistas) tem inclinado os tribunais à acomodaçãocom o velho texto da CLT — o que frustra, obviamente, o princípio da efetiva equivalência entre os seres coletivos trabalhistas (DELGADO, 2017, p. 1492). E não devemos desprezar ainda o fato já estudado de a Reforma Trabalhista ter tornado a contribuição sindical facultativa, o que poderá ser um fator a mais a ser considerado sob este aspecto. 121 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 4.5 PrincÍpio da Lealdade e TransparÊncia na NegociaçÃo Coletiva O mesmo que se espera nas negociações individuais deve ser esperado nas negociações coletivas, sobretudo se considerarmos a representatividade que possuem e os direitos envolvidos. Há duas faces no princípio: lealdade e transparência. Ambas são premissas essenciais ao desenvolvimento democrático e efi caz do próprio processo negocial coletivo. Afi nal, o Direito Coletivo objetiva formular normas jurídicas - e não apenas cláusulas obrigacionais -, razão por que a lealdade e o acesso a informações inscrevem-se no núcleo de sua dinâmica de evolução. A lisura na conduta negocial atinge qualquer das duas partes coletivas envolvidas. Não se pode aqui, regra geral, invocar o princípio tutelar (próprio ao Direito Individual) para negar validade a certo dispositivo ou diploma anteriormente celebrado na negociação coletiva — as partes são teoricamente equivalentes (ao contrário do que ocorre no ramo justrabalhista individual) (DELGADO, 2017, p. 1494). 4.6 PrincÍpio da Criatividade JurÍdica nas Negociações Coletivas A nomenclatura aqui utilizada deve nos remeter à criação de direitos e obrigações recíprocas. O princípio da criatividade jurídica da negociação coletiva traduz a noção de que os processos negociais coletivos e seus instrumentos (contrato coletivo, acordo coletivo e convenção coletiva do trabalho) têm real poder de criar norma jurídica (com qualidades, prerrogativas e efeitos próprios a estas), em harmonia com a normatividade heterônoma estatal (DELGADO, 2017, p. 1495). Não podemos esquecer que as convenções coletivas de trabalho e os acordos coletivos de trabalho são considerados fontes formais do Direito do Trabalho, portanto este princípio exerce um papel extremante relevante. 122 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 4.7 PrincÍpio da NegociaçÃo Setorial Negociada Não é um princípio muito difundido, mas é defendido por Mauricio Godinho Delgado, que assim o explica: Pelo princípio da adequação setorial negociada as normas autônomas juscoletivas construídas para incidirem sobre certa comunidade econômico-profi ssional podem prevalecer sobre o padrão geral heterônomo justrabalhista desde que respeitados certos critérios objetivamente fi xados. São dois esses critérios autorizativos: a) quando as normas autônomas juscoletivas implementam um padrão setorial de direitos superior ao padrão geral oriundo da legislação heterônoma aplicável; b) quando as normas autônomas juscoletivas transacionam setorialmente parcelas justrabalhistas de indisponibilidade apenas relativa (e não de indisponibilidade absoluta) (DELGADO, 2017, p. 1498-1499). Em outras palavras, as normas coletivas criadas para surtir efeitos sobre um determinado grupo podem prevalecer sobre as regras genéricas desde que elevem os padrões destas ou quando a transação de direitos versar sobre direitos disponíveis ou de disponibilidade relativa. 5 NEGOCIAÇÃO COLETIVA TRABALHISTA É através da negociação coletiva que o Direito coletivo se materializa. É através da negociação que as partes buscam equilibrar seus interesses e criar obrigações recíprocas, visando à manutenção das relações pacífi cas entre os envolvidos. Caracteriza-se como fonte de elaboração de normas positivadas, portanto, como fonte material, as negociações coletivas têm como função a criação, modifi cação ou supressão de condições de trabalho, isto é, sua função é normativa ou fl exibilizadora. Além disso, se destina à composição de confl itos, logo, também tem função pacifi cadora, servindo de importante instrumento de redução das demandas judiciais e estabilidade social. Não se está negando com isso o caráter obrigacional das normas resultantes da negociação coletiva, mas tão somente apontando as funções jurídicas mais importantes. Acrescente-se, ainda, a estas funções jurídicas, outras que também são encontradas na negociação coletiva, dentre as quais, a função política, a econômica e a social (CASSAR, 2017, p. 1303). As normas coletivas criadas para surtir efeitos sobre um determinado grupo podem prevalecer sobre as regras genéricas desde que elevem os padrões destas ou quando a transação de direitos versar sobre direitos disponíveis ou de disponibilidade relativa. 123 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Como lembrou a autora, são muitas as funções desenvolvidas pela negociação coletiva, “por esta razão a Organização Internacional do Trabalho considera a negociação coletiva a melhor forma de composição dos confl itos coletivos e, por isso, incentiva a prática nos países através de várias convenções” (CASSAR, 2017, p. 1304). Os confl itos trabalhistas podem surgir em diversas situações que desarmonizam a relação entre empregados e empregadores, normalmente o confl ito reside em fatores econômicos e a negociação coletiva tem se apresentado como imprescindível mecanismo neste ponto. Há mais de um nível de negociação coletiva, o de categoria, o de empresa, em alguns países, o nacional e, com a União Europeia, o comunitário. Das negociações em nível de categoria resultam convenções coletivas de trabalho aplicáveis a todos os empregadores e a todos os empregados, sócios ou não dos sindicatos, do setor de atividade em que a negociação se desenvolver. Das negociações em nível de empresa resultam acordos coletivos cujo âmbito de aplicação é menor, ou seja, é aplicável às empresas que participaram da negociação. A Consolidação das Leis do Trabalho (art. 611) prevê esses dois âmbitos de entendimentos (NASCIMENTO, 2011, p. 1388). Como vimos, nosso ordenamento dispõe de modalidades importantes de negociação coletiva, que serão estudados a seguir. 6 DIPLOMAS NEGOCIAIS COLETIVOS Os diplomas negociais coletivos são instrumentos utilizados para negociação coletiva, sendo que em nosso ordenamento dois métodos merecem destaque: as convenções coletivas e os acordos coletivos, estudados a seguir. 6.1 Convenções e Acordo Coletivo de Trabalho As convenções coletivas de trabalho são o instrumento utilizado para negociação entre sindicatos patronais e de empregados e têm sua previsão no artigo 611 e seguintes da CLT, de onde são extraídos os conceitos de convenção e acordo coletivo, conforme se pode observar a seguir: 124 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 611 - Convenção Coletiva de Trabalho é o acordo de caráter normativo, pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profi ssionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho. § 1 º É facultado aos sindicatos representativos de categorias profi ssionais celebrar Acordos Coletivos com uma ou mais empresas da correspondente categoria econômica, que estipulem condições de trabalho, aplicáveis no âmbito da empresa ou das acordantes respectivas relações de trabalho. § 2 º As Federações e, na falta desta, as Confederações representativas de categorias econômicas ou profi ssionais poderão celebrar convenções coletivas de trabalho para reger as relações das categorias a elas vinculadas, inorganizadas em sindicatos, no âmbito de suas representações. Do dispositivo de lei supra é possível então concluirmos o seguinte: • Convenções Coletivas se traduzem como um acordo de caráter normativo, ou seja, possui força de lei entre as partes,pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profi ssionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho. Portanto, o que estiver normatizado na convenção coletiva deverá ser aplicado nos contratos individuais das empresas e empregados vinculados, é lei entre as partes. As convenções coletivas distinguem-se da lei, principalmente, pelas seguintes características: a) pelo processo de formação, pois as leis, no sentido estrito, emanam de órgão estatal e as convenções coletivas resultam de negociações produzidas pelo grupo social interessado; b) pela esfera de aplicação, na lei, abrangendo toda a sociedade política, na convenção, limitando-se ao âmbito econômico- profi ssional; c) pelo conteúdo, na lei, mais geral e diversifi cado, na convenção coletiva mais particular e restrito às condições de trabalho; d) pela supremacia das leis de ordem pública, porque nesse caso a convenção coletiva não poderá derrogar a lei, como ensinam Despax, Mario de La Cueva, Carnelutti e Barassi. A submissão, nesse caso, é um imperativo de intangibilidade das estruturas institucionais e uma decorrência normal do princípio da graduação da positividade jurídica. Pode, no entanto, a convenção coletiva mencionar disposições mais favoráveis que aquelas das leis e regulamentos em vigor não revestidos do caráter de norma de ordem pública. e) pela fonte de poder, pois a lei é imposta e a convenção coletiva é uma regra consentida (NASCIMENTO, 2011, p. 1392-1393). Convenções Coletivas se traduzem como um acordo de caráter normativo, ou seja, possui força de lei entre as partes, pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profi ssionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho. 125 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 • Acordos coletivos são resultantes da negociação entre uma ou mais empresas e os sindicatos dos empregados, que visam criar normatização para este grupo um pouco mais restrito que a convenção coletiva, possuindo também caráter normativo. A Reforma Trabalhista ampliou consideravelmente o poder de atuação das convenções e acordos coletivos com a inserção do artigo 611-a na CLT, que institui uma fi gura jurídica que tem sido alvo de grande polêmica, o negociado sobre o legislado. Há dois fundamentos constitucionais normalmente utilizados pelos defensores do “negociado sobre o legislado”: O primeiro e mais evidente está no art. 7º, XXVI, da CF, que refere ao reconhecimento das convenções e acordos coletivos, como parte integrante dos direitos trabalhistas. Existe até mesmo quem discuta se a palavra “reconhecimento” seria uma espécie de favor do legislador, que simplesmente capta aquilo que é feito dentro da autonomia dos particulares. Há razoável consenso no sentido de que a norma coletiva é também uma maneira de positivação de direitos – quer se entenda de origem autônoma, quer se entenda como uma forma delegada pelo legislador – de modo que o direito do trabalho pode ser considerado um ramo plurinormativo, ou seja, com variados centros de positivação da norma, não vinculados apenas ao Poder Legislativo. O segundo fundamento está na leitura dos demais incisos do art. 7º da CF, em conjunto, que nos revelam ser possível (a) majoração de jornada – inciso XIV, (b) compensação de jornada – inciso XIII e, sobretudo, (c) redução salarial – inciso VI, através da negociação coletiva. Diz essa corrente doutrinária que, se o constituinte autoriza aos sindicatos prover a redução salarial, que há de ser o exemplo mais dramático de negociação, por muito mais razão está a autorizar outras modalidades de fl exibilização das normas. “Quem pode o mais pode o menos”, é a frase que vem à mente com a interpretação conjugada do inciso VI (BATISTA, 2017, p. 77). Vamos tentar compreender estes argumentos para depois passar à leitura dos dispositivos inseridos no novo artigo 611-a. Iniciaremos nossa análise com essa modalidade atualmente difundida de negociado sobre legislado. Quando nos referimos ao legislado, estamos tratando dos direitos trabalhistas consagrados na lei, primordialmente na Constituição Federal nos artigos 7º a 11º, assim como em toda legislação infraconstitucional que trata da matéria. Já quando estamos falando de negociado, estamos tratando dos Acordos Coletivos e Convenções Coletivas de Trabalho, já explicados anteriormente. Acordos coletivos são resultantes da negociação entre uma ou mais empresas e os sindicatos dos empregados, que visam criar normatização para este grupo um pouco mais restrito que a convenção coletiva, possuindo também caráter normativo. 126 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Desde a sua origem, o Direito do Trabalho surge para elencar os direitos mínimos que devem ser garantidos aos empregados, os princípios de Direito Individual do trabalho, da mesma forma, remetem à mesma conclusão. A breve retrospectiva feita neste capítulo nos relembrou a hipossufi ciência do empregado e as razões para a criação de um Direito do Trabalho e também um Direito Coletivo do Trabalho. A intervenção do Estado se fez necessária, pois as relações eram desiguais e acabaram em superexploração, como vimos. E os sindicatos patronais e de empregados, efetivamente, estão em paridade de condições? Existe de fato representatividade destes sindicatos? E poder de negociação dos sindicatos dos empregados? Ainda mais agora, com a contribuição facultativa? A tese do negociado sobre o legislado se apresenta como um retrocesso social, o que é vedado no Direito do Trabalho por força do caput do artigo 7º da CF, que prevê que somente podem ser negociados direitos melhores aos trabalhadores. No entanto, o artigo 611-a está aí para desafi ar tudo o que se tem defendido no Direito do Trabalho. Vamos ao texto inserido na CLT: Art. 611-A. A convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre: I- pacto quanto à jornada de trabalho, observados os limites constitucionais; II- banco de horas anual; III- intervalo intrajornada, respeitado o limite mínimo de trinta minutos para jornadas superiores a seis horas; IV- adesão ao Programa Seguro-Emprego (PSE), de que trata a Lei 13.189, de 19 de novembro de 2015; V- plano de cargos, salários e funções compatíveis com a condição pessoal do empregado, bem como identifi cação dos cargos que se enquadram como funções de confi ança; VI- regulamento empresarial; VII- representante dos trabalhadores no local de trabalho; VIII- teletrabalho, regime de sobreaviso, e trabalho intermitente; IX- remuneração por produtividade, incluídas gorjetas percebidas pelo empregado, e remuneração por desempenho individual; X- modalidade de registro de jornada de trabalho; XI- troca do dia de feriado; XII- enquadramento do grau de insalubridade; XIII- prorrogação de jornada em ambientes insalubres, sem licença prévia das autoridades competentes do Ministério do Trabalho; XIV- prêmios de incentivo em bens ou serviços, eventualmente, concedidos em programas de incentivo; XV- participação nos lucros ou resultados da empresa. Desde a sua origem, o Direito do Trabalho surge para elencar os direitos mínimos que devem ser garantidos aos empregados, os princípios de Direito Individual do trabalho, da mesma forma, remetem à mesma conclusão. 127 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 § 1º No exame da convenção coletiva ou do acordo coletivo de trabalho, a Justiça do Trabalho observará o disposto no § 3º do art. 8 desta Consolidação. § 2º A inexistência de expressa indicação de contrapartidas recíprocas em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalhonão ensejará sua nulidade, por não caracterizar um vício do negócio jurídico. § 3º Se for pactuada cláusula que reduza o salário ou a jornada, a convenção coletiva ou o acordo coletivo de trabalho deverão prever a proteção dos empregados contra dispensa imotivada durante o prazo de vigência do instrumento coletivo. Da análise dos dispositivos pode-se concluir que muitas matérias poderão ser livremente negociadas e não podemos garantir que os sindicatos estejam efetivamente aptos a defender os interesses dos empregados. O que torna um pouco menos gravosa a inserção deste dispositivo é o artigo de lei seguinte: Art. 611-B. Constituem objeto ilícito de convenção coletiva ou de acordo coletivo de trabalho, exclusivamente, a supressão ou a redução dos seguintes direitos: I- normas de identifi cação profi ssional, inclusive as anotações na Carteira de Trabalho e Previdência Social; II- seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; III- valor dos depósitos mensais e da indenização rescisória do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); IV- salário mínimo; V- valor nominal do décimo terceiro salário; VI- remuneração do trabalho noturno superior à do diurno; VII- proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa; VIII- salário-família; IX- repouso semanal remunerado; X- remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em 50% (cinquenta por cento) à do normal; XI- número de dias de férias devidas ao empregado; XII- gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal; XIII- licença-maternidade com a duração mínima de cento e vinte dias; IV- licença-paternidade nos termos fi xados em lei; XV- proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específi cos, nos termos da lei; XVI- aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; XVII- normas de saúde, higiene e segurança do trabalho previstas em lei ou em normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho; XVIII- adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou periculosas; XIX- aposentadoria; 128 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho XX- seguro contra acidentes do trabalho, a cargo do empregador; XXI- ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho; XXII- proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador com defi ciência; XXIII- proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito anos e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos; XXIV- medidas de proteção legal de crianças e adolescentes; XXV- igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso; XXVI- liberdade de associação profi ssional ou sindical do trabalhador, inclusive o direto de não sofrer, sem sua expressa e prévia anuência, qualquer cobrança ou desconto salarial estabelecidos em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho; XXVII- direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender; XXVIII- defi nição legal sobre os serviços ou atividades essenciais e disposições legais sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade em caso de greve; XXIX- tributos e outros créditos de terceiros; XXX- as disposições previstas nos arts. 373- A, 390, 392, 392- A, 394, 394-A, 395, 396 e 400 desta Consolidação. Parágrafo único. Regras sobre duração do trabalho e intervalos não são consideradas como normas de saúde, higiene e segurança do trabalho para os fi ns do disposto neste artigo. O regramento das convenções e acordos coletivos é disciplinado nos artigos 612 e seguintes da CLT, em que constam as regras para votação, quórum, elementos obrigatórios do documento, penalidades e prazos que devem ser observados, conforme segue, com destaques em alguns pontos que merecem atenção. Art. 612. Os sindicatos só poderão celebrar Convenções ou Acordos Coletivos de Trabalho, por deliberação de Assembleia Geral especialmente convocada para esse fi m, consoante o disposto nos respectivos Estatutos, dependendo a validade da mesma do comparecimento e votação, em primeira convocação, de 2/3 (dois terços) dos associados da entidade, se se tratar de Convenção, e dos interessados, no caso de acordo, e, em segunda, de 1/3 (um terço) dos mesmos. Parágrafo único. O "quorum" de comparecimento e votação será de 1/8 (um oitavo) dos associados em segunda convocação, nas entidades sindicais que tenham mais de 5.000 (cinco mil) associados. 129 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Art. 613 - As Convenções e os Acordos deverão conter obrigatoriamente: I - designação dos sindicatos convenentes ou dos sindicatos e empresas acordantes; II- prazo de vigência; III- categorias ou classes de trabalhadores abrangidas pelos respectivos dispositivos; IV - condições ajustadas para reger as relações individuais de trabalho durante sua vigência; V - normas para a conciliação das divergências surgidas entre os convenentes por motivos da aplicação de seus dispositivos; VI - disposições sobre o processo de sua prorrogação e de revisão total ou parcial de seus dispositivos; VII - direitos e deveres dos empregados e empresas; VIII - penalidades para os sindicatos convenentes, os empregados e as empresas em caso de violação de seus dispositivos. Parágrafo único - As Convenções e os Acordos serão celebrados por escrito, sem emendas nem rasuras, em tantas vias quantos forem os sindicatos convenentes ou as empresas acordantes, além de uma destinada a registro. O art. 613 determina as cláusulas obrigatórias que deverão constar da convenção ou do acordo coletivo, mas não é restritiva. Art. 614. - Os sindicatos convenentes ou as empresas acordantes promoverão, conjunta ou separadamente, dentro de 8 (oito) dias da assinatura da Convenção ou Acordo, o depósito de uma via do mesmo, para fi ns de registro e arquivo, no Departamento Nacional do Trabalho, em se tratando de instrumento de caráter nacional ou interestadual, ou nos órgãos regionais do Ministério do Trabalho e Previdência Social, nos demais casos. § 1º As Convenções e os Acordos entrarão em vigor 3 (três) dias após a data da entrega dos mesmos no órgão referido neste artigo. § 2º Cópias autênticas das Convenções e dos Acordos deverão ser afi xadas de modo visível, pelos sindicatos convenentes, nas respectivas sedes e nos estabelecimentos das empresas compreendidas no seu campo de aplicação, dentro de 5 (cinco) dias da data do depósito previsto neste artigo. § 3º Não será permitido estipular duração de Convenção Coletiva ou Acordo Coletivo de trabalho superior a 2 (dois) anos, sendo vedada a ultratividade. Destaque-se, entre estes, o parágrafo 3º do artigo 614 da CLT modifi cado pela Reforma Trabalhista, no que diz respeito à vedação à ultratividade, ou seja, as convenções coletivas não terão duração superior a dois anos, mesmo que não haja outra convenção ou acordo vigente para substituir o anterior, portanto, as convenções e acordos coletivos perderão sua efi cácia quando completados dois anos de vigência, contrariando o que ocorria antes da reforma, quando a convenção produzia efeitos até que outra estivesse vigente, o que é conhecido como ultratividade. 130 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 615 - O processo de prorrogação, revisão, denúncia ou revogação total ou parcial de Convenção ou Acordo fi cará subordinado, em qualquer caso, à aprovação de Assembleia Geral dos sindicatos convenentesou partes acordantes, com observância do disposto no art. 612. § 1º - O instrumento de prorrogação, revisão, denúncia ou revogação de Convenção ou Acordo será depositado, para fi ns de registro e arquivamento, na repartição em que o mesmo originariamente foi depositado, observado o disposto no art. 614. § 2º - As modifi cações introduzidas em Convenção ou Acordo, por força de revisão ou de revogação parcial de suas cláusulas, passarão a vigorar 3 (três) dias após a realização do depósito previsto no § 1º. Art. 616 - Os Sindicatos representativos de categorias econômicas ou profi ssionais e as empresas, inclusive as que não tenham representação sindical, quando provocados, não podem recusar-se à negociação coletiva. § 1º - Verifi cando-se recusa à negociação coletiva, cabe aos sindicatos ou empresas interessadas dar ciência do fato, conforme o caso, ao Departamento Nacional do Trabalho ou aos órgãos regionais do Ministério do Trabalho para convocação compulsória dos sindicatos ou empresas recalcitrantes. § 2º - No caso de persistir a recusa à negociação coletiva, pelo desatendimento às convocações feitas pelo Departamento Nacional do Trabalho ou órgãos regionais do Ministério do Trabalho ou se malograr a negociação entabulada, é facultada aos sindicatos ou empresas interessadas a instauração de dissídio coletivo. § 3º - Havendo convenção, acordo ou sentença normativa em vigor, o dissídio coletivo deverá ser instaurado dentro dos 60 (sessenta) dias anteriores ao respectivo termo fi nal, para que o novo instrumento possa ter vigência no dia imediato a esse termo. § 4º - Nenhum processo de dissídio coletivo de natureza econômica será admitido sem antes se esgotarem as medidas relativas à formalização da Convenção ou Acordo correspondente. O dissídio coletivo é justamente uma das formas de disciplinar os confl itos coletivos de trabalho, no caso, por meio de decisão judicial (GARCIA, 2017, p. 1415), o que ocorre em um processo chamado Dissídio Coletivo. 131 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Dissídio coletivo é processo cuja competência originária é do TRT, no qual se discutem as negociações coletivas, sendo instaurado quando as negociações das partes não têm êxito. Efetivamente, não havendo êxito na negociação coletiva de trabalho, se o empregador não concordar com o ajuizamento do dissídio coletivo de natureza econômica, na forma do atual § 2.º do art. 114 da CF/1988, invocando a ausência de “comum acordo”, assegura-se à categoria profi ssional a alternativa do exercício do direito de greve, como forma de pressão para a negociação coletiva ou mesmo para obter a solução jurisdicional (GARCIA, 2017, p. 1468). Portanto, se as negociações não forem exitosas, pode-se iniciar um dissídio coletivo, sendo ainda permitido aos empregados exercer pressão mediante a utilização da greve. Art. 617 - Os empregados de uma ou mais empresas que decidirem celebrar Acordo Coletivo de Trabalho com as respectivas empresas darão ciência de sua resolução, por escrito, ao sindicato representativo da categoria profi ssional, que terá o prazo de 8 (oito) dias para assumir a direção dos entendimentos entre os interessados, devendo igual procedimento ser observado pelas empresas interessadas com relação ao sindicato da respectiva categoria econômica. § 1º - Expirado o prazo de 8 (oito) dias sem que o sindicato se tenha desincumbido do encargo recebido, poderão os interessados dar conhecimento do fato à Federação a que estiver vinculado o sindicato e, em falta dessa, à correspondente Confederação, para que, no mesmo prazo, assuma a direção dos entendimentos. Esgotado esse prazo, poderão os interessados prosseguir diretamente na negociação coletiva até fi nal. § 2º - Para o fi m de deliberar sobre o Acordo, a entidade sindical convocará Assembleia Geral dos diretamente interessados, sindicalizados ou não, nos termos do art. 612. Art. 618 - As empresas e instituições que não estiverem incluídas no enquadramento sindical a que se refere o art. 577 desta Consolidação poderão celebrar Acordos Coletivos de Trabalho com os sindicatos representativos dos respectivos empregados, nos termos deste Título. Art. 619 - Nenhuma disposição de contrato individual de trabalho que contrarie normas de Convenção ou Acordo Coletivo de Trabalho poderá prevalecer na execução do mesmo, sendo considerada nula de pleno direito. 132 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Art. 620. As condições estabelecidas em acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladas em convenção coletiva de trabalho. Por fi m, também merece destaque outra inovação trazida pela Reforma Trabalhista no art. 620, que dispõe que as condições estabelecidas em acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladas em convenção coletiva de trabalho, alterando o entendimento de que somente prevaleceriam se fossem mais vantajosas do que as condições das convenções coletivas. Art. 621 - As Convenções e os Acordos poderão incluir, entre suas cláusulas, disposição sobre a constituição e funcionamento de comissões mistas de consulta e colaboração, no plano da empresa e sobre participação nos lucros. Estas disposições mencionarão a forma de constituição, o modo de funcionamento e as atribuições das comissões, assim como o plano de participação, quando for o caso. Art. 622 - Os empregados e as empresas que celebrarem contratos individuais de trabalho, estabelecendo condições contrárias ao que tiver sido ajustado em Convenção ou Acordo que lhes for aplicável, serão passíveis da multa neles fi xada. Parágrafo único - A multa a ser imposta ao empregado não poderá exceder da metade daquela que, nas mesmas condições, seja estipulada para a empresa. Art. 623 - Será nula de pleno direito disposição de Convenção ou Acordo que, direta ou indiretamente, contrarie proibição ou norma disciplinadora da política econômico-fi nanceira do Governo ou concernente a política salarial vigente, não produzindo quaisquer efeitos perante autoridades e repartições públicas, inclusive para fi ns de revisão de preços e tarifas de mercadorias e serviços. Parágrafo único - Na hipótese deste artigo, a nulidade será declarada, de ofício ou mediante representação, pelo Ministro do Trabalho ou pela Justiça do Trabalho, em processo submetido ao seu julgamento. Art. 624 - A vigência de cláusula de aumento ou reajuste salarial, que implique elevação de tarifas ou de preços sujeitos à fi xação por autoridade pública ou repartição governamental, dependerá de prévia audiência dessa autoridade ou repartição e sua expressa declaração no tocante à possibilidade de elevação da tarifa ou do preço e quanto ao valor dessa elevação. Art. 625 - As controvérsias resultantes da aplicação de Convenção ou de Acordo celebrado nos termos deste Título serão dirimidas pela Justiça do Trabalho. As condições estabelecidas em acordo coletivo de trabalho sempre prevalecerão sobre as estipuladas em convenção coletiva. 133 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Portanto, são essas as principais disposições legais concernentes aos acordos e convenções coletivas, no entanto, o Direito coletivo ainda abrange muitas outras situações, como já dito, merecedoras de um curso específi co abrangendo todo o tema, dada sua complexidade. 7 GREVE NO DIREITO COLETIVO Com previsão no artigo 9º da Constituição Federal, este constitui um dos mais relevantes mecanismos de luta de classe da história do Direito coletivo. Não obstante, a greve exerce uma pressão necessária que leva à reconstrução do direito do trabalho quando as normas vigentes não atendem às exigências do grupo social. Força o empregador a fazer concessões que não faria de outro modo. Obriga o legislador a se manter vigilante e reformular a ordem jurídica. Logo, apesar dos seus inconvenientes, a greve é necessária ecompatível com as estruturas capitalistas (NASCIMENTO, 2011, p. 1368). Segundo o preceito constitucional, o direito de greve está assegurado aos trabalhadores, que decidirão sobre a sua conveniência ou não. Art. 9° - É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. § 1° - A lei defi nirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. § 2° - Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. O direito de greve pode ser considerado como uma suspensão temporária do trabalho, uma paralisação dos serviços que tem como objetivo a reivindicação e a obtenção de melhores condições de trabalho ou o cumprimento das obrigações pelo empregador. 134 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Além disso, a greve é uma forma de solução de confl ito coletivo de trabalho, ou seja, por meio da autodefesa (autotutela), por ser uma reação contra a resistência do empregador diante da reivindicação de melhores condições de trabalho (GARCIA, 2017, p. 1460). A regulamentação do direito de greve é objeto da Lei nº 7.783/89, conforme passamos a estudar. LEI Nº 7.783, DE 28 DE JUNHO DE 1989: Art. 1º - É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. Parágrafo único. O direito de greve será exercido na forma estabelecida nesta Lei. Art. 2º Para os fi ns desta Lei, considera-se legítimo exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífi ca, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador. O artigo 1º trata da legitimidade dos empregados para decidir sobre instaurar ou não a greve, enquanto a legitimidade para representação está determinada no artigo 5º desta lei. A titularidade do direito de greve é dos trabalhadores, pois a eles cabe decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender (art. 9.º, caput, CF/1988). Já a legitimidade para a instauração da greve é da organização sindical dos trabalhadores, tratando-se de direito de natureza coletiva (GARCIA, 2017, p. 1463). É importante observar que o artigo 2º explica o que é a greve, ou a conceitua como a suspensão do trabalho pelos empregados, por isso coletiva. Determina, também, que esta deve ser temporária e pacífi ca, explicando ainda que ela pode ser parcial ou total, o que pode dizer respeito à sua adesão pelos trabalhadores, ou mesmo quanto à suspensão dos serviços, que também poderá ser total ou parcial. Art. 3º - Frustrada a negociação ou verifi cada a impossibilidade de recursos via arbitral, é facultada a cessação coletiva do trabalho. Parágrafo único. A entidade patronal correspondente ou os empregadores diretamente interessados serão notifi cados, com antecedência mínima de 48 (quarenta e oito) horas, da paralisação. Art. 4º - Caberá à entidade sindical correspondente convocar, na forma do seu estatuto, assembleia geral que defi nirá as reivindicações da categoria e deliberará sobre a paralisação coletiva da prestação de serviços. § 1º O estatuto da entidade sindical deverá prever as 135 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 formalidades de convocação e o quórum para a deliberação, tanto da defl agração, quanto da cessação da greve. § 2º Na falta de entidade sindical, a assembleia geral dos trabalhadores interessados deliberará para os fi ns previstos no "caput", constituindo comissão de negociação. Os requisitos da greve estão descritos nos artigos 3º e 4ª da lei. A partir destes, concluímos que para se instaurar a greve é necessário que haja prévia tentativa de conciliação, que, não tendo sido exitosa, precederá a convocação de Assembleia Geral para determinar a instauração ou não de greve. Em caso de decidirem pela greve, deverão notifi car o empregador com antecedência mínima de 48 horas. Cabe analisar o procedimento pelo qual o movimento de greve pode passar. Primeiramente, tem-se a negociação coletiva, ou seja, a tentativa de solução do confl ito por meio da autocomposição. Trata-se de fase antecedente e necessária, sendo possível, ainda, a mediação nos órgãos do Ministério do Trabalho (art. 616, § 1.º, CLT). Conforme a Orientação Jurisprudencial 11 da SDC do TST: “É abusiva a greve levada a efeito sem que as partes hajam tentado, direta e pacifi camente, solucionar o confl ito que lhe constitui o objeto”. Não sendo obtido sucesso na fase inicial de negociação coletiva, a arbitragem é colocada como via meramente facultativa, conforme art. 3.º da Lei 7.783/1989. Ultrapassadas as referidas fases, a Assembleia Geral deve ser convocada pela entidade sindical, para defi nir as reivindicações da categoria, deliberando sobre a greve, conforme o estatuto (art. 4.º, Lei 7.783/1989) (CASSAR, 2017, p. 1466-1467). Uma vez defi nido que a greve será o caminho a ser seguido, os interesses dos trabalhadores serão representados pelo seu sindicato. “Art. 5º - A entidade sindical ou comissão especialmente eleita representará os interesses dos trabalhadores nas negociações ou na Justiça do Trabalho.” Este dispositivo trata da legitimidade para representar os trabalhadores, como já comentado. Art. 6º São assegurados aos grevistas, dentre outros direitos: I - o emprego de meios pacífi cos tendentes a persuadir ou aliciar os trabalhadores a aderirem à greve; II - a arrecadação de fundos e a livre divulgação do movimento. § 1º Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem. § 2º É vedado às empresas adotar meios para constranger o empregado ao comparecimento ao trabalho, bem como capazes de frustrar a divulgação do movimento. Os requisitos da greve estão descritos nos artigos 3º e 4ª da lei. 136 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho § 3º As manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas não poderão impedir o acesso ao trabalho nem causar ameaça ou dano à propriedade ou pessoa. O artigo 6º determina os direitos dos trabalhadores em greve, as vedações a pressões do empregador e proibições aos grevistas. Art. 7º Observadas as condições previstas nesta Lei, a participação em greve suspende o contrato de trabalho, devendo as relações obrigacionais, durante o período, ser regidas pelo acordo, convenção, laudo arbitral ou decisão da Justiça do Trabalho. Parágrafo único. É vedada a rescisão de contrato de trabalho durante a greve, bem como a contratação de trabalhadores substitutos, exceto na ocorrência das hipóteses previstas nos arts. 9º e 14º. A consequência lógica da suspensão do contrato é a proibição do empregador em despedir, sem justa causa, os empregados que aderiram ao movimento paredista. Aliás, esta determinação está expressa no parágrafo único do art. 7° da Lei nº 7.783/89. (GARCIA, 2017, p. 1356), que veda a dispensa dos trabalhadores em greve expressamente. Art. 8º - A Justiça do Trabalho, por iniciativa de qualquer das partes ou do Ministério Público do Trabalho, decidirá sobre a procedência, total ou parcial, ou improcedência das reivindicações, cumprindo ao Tribunal publicar, de imediato, o competente acórdão. O presente artigo determina que será o tribunal competente que irá decidir sobre as questões controvertidas em negociações coletivas, inclusive greve. A iniciativa na instauração do dissídio coletivo de greve é de qualquer das partes ou do MPT, conforme o art. 8º da Lei 7.783/1989. [...] Esse é um processo coletivo diferenciado, em que se observa tanto o aspecto declaratório, em decisão a respeito da abusividade ou não do exercício desse direito, como o aspecto econômico, pois a sentença normativa decidea respeito de novas condições de trabalho almejadas, com a incidência do poder normativo. Além disso, faz-se necessário regular as relações obrigacionais durante o período de greve, como a questão a respeito do pagamento ou não dos dias parados (art. 7.º da Lei 7.783/1989) (GARCIA, 2017, p. 1472). Algumas decisões de tribunais a respeito de dissídios coletivos serão analisadas na sequência do estudo. 137 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Art. 9º - Durante a greve, o sindicato ou a comissão de negociação, mediante acordo com a entidade patronal ou diretamente com o empregador, manterá em atividade equipes de empregados com o propósito de assegurar os serviços cuja paralisação resulte em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento. Parágrafo único. Não havendo acordo, é assegurado ao empregador, enquanto perdurar a greve, o direito de contratar diretamente os serviços necessários a que se refere este artigo. Art. 10 - São considerados serviços ou atividades essenciais: I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis; II - assistência médica e hospitalar; III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos; IV - funerários; V - transporte coletivo; VI - captação e tratamento de esgoto e lixo; VII - telecomunicações; VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais nucleares; IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais; X - controle de tráfego aéreo; XI - compensação bancária. Art. 11 - Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores fi cam obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. Parágrafo único. São necessidades inadiáveis da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população. Art. 12 - No caso de inobservância do disposto no artigo anterior, o Poder Público assegurará a prestação dos serviços indispensáveis. Art. 13 - Na greve, em serviços ou atividades essenciais, fi cam as entidades sindicais ou os trabalhadores, conforme o caso, obrigados a comunicar a decisão aos empregadores e aos usuários com antecedência mínima de 72 (setenta e duas) horas da paralisação. Art. 14 - Constitui abuso do direito de greve a inobservância das normas contidas na presente Lei, bem como a manutenção da paralisação após a celebração de acordo, convenção ou decisão da Justiça do Trabalho. Parágrafo único. Na vigência de acordo, convenção ou sentença normativa não constitui abuso do exercício do direito de greve a paralisação que: I - tenha por objetivo exigir o cumprimento de cláusula ou condição; 138 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho II - seja motivada pela superveniência de fato novo ou acontecimento imprevisto que modifi que substancialmente a relação de trabalho. Art. 15 - A responsabilidade pelos atos praticados, ilícitos ou crimes cometidos, no curso da greve, será apurada, conforme o caso, segundo a legislação trabalhista, civil ou penal. Parágrafo único. Deverá o Ministério Público, de ofício, requisitar a abertura do competente inquérito e oferecer denúncia quando houver indício da prática de delito. Os artigos anteriores apresentam algumas restrições ou condições ao exercício do direito de greve que deverão ser observadas em consonância com o artigo 9º da CF já apresentado, sob pena de ser considerada abusiva ou ilegal. Vejamos como os tribunais têm se posicionado: TRANSPORTE COLETIVO URBANO. GREVE. PARALISAÇÃOTOTAL. INOBSERVÂNCIA DA MANUTENÇÃO DE FROTA MÍNIMA PARA ASSEGURAR A PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS INDISPENSÁVEIS. DISPOSIÇÃO LEGAL VIGENTE NÃO ATENDIDA. ILEGALIDADE. Não tendo havido o cumprimento da Lei de Greve e da liminar concedida em sede de ação cautelar, a greve é declarada ilegal e abusiva. (DC nº 0010256-90.2013.5.12.0000, TRT12, relator GILMAR CAVALIERI, Publicação: 19/07/2013) DISPENSA EM PERÍODO POSTERIOR À GREVE. DESCONTO DOS DIAS PARADOS. Os descontos efetuados no Termo de Rescisão referem-se aos dias em que o reclamante participou de movimento grevista declarado abusivo pelo E. TRT, conforme sentença normativa proferida em dissídio. Não havia compensado a totalidade do tempo em que se manteve no movimento paredista, o desconto dos dias de paralisação decorrentes da greve ilegal foi legítimo, como bem decidiu o MM. Juízo de origem. Nego provimento. (RO 1000613- 59.2014.5.02.0251. TRT2, relator Ricardo Apostólico Silva, publicação 03/02/2016) Dissídio Coletivo. Greve. Mora salarial. Não abusividade. Pagamento dos dias parados e concessão de estabilidade. A greve é um direito-liberdade fundamental de matriz constitucional (art. 9º, CF/88), instrumento legítimo de reivindicação da melhoria da condição social do trabalhador (art. 7º, caput da CF/88). Não há como se olvidar de sua importância para os trabalhadores quando frustradas as negociações coletivas com os empregadores, sendo este, muitas vezes, o único instrumento efi caz para que se alcance um denominador comum nos confl itos sociais de cunho trabalhista (art. 3º da Lei nº 7.783/1989). No caso dos autos, não se confi gura qualquer abuso dos trabalhadores na defl agração do movimento paredista, uma vez não existir Os artigos anteriores apresentam algumas restrições ou condições ao exercício do direito de greve que deverão ser observadas em consonância com o artigo 9º da CF já apresentado, sob pena de ser considerada abusiva ou ilegal. 139 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 nem mesmo controvérsia a respeito da mora salarial, o que confere evidente e inequívoca legalidade e não abusividade ao movimento, conforme art. 14, parágrafo único, I, da Lei nº 7.783/1989. Em razão disso, declaro não abusiva a greve e determino o pagamento dos dias e/ou horas parados, conforme art. 7º, da citada Lei de Greve. Concedo, ainda, estabilidade aos trabalhadores desde a defl agração do movimento paredista até 90 dias após o julgamento do presente dissídio coletivo, de acordo com o PN nº 36 da SDC/TRT 2ª Região. (DC 1000493-56.2015.5.02.0000, TRT2, Gabinete da Vice-Presidência Judicial, relator Ivani Contini Bramante, publicação: 04/08/2015) Como visto, quando a greve é considerada abusiva, são legítimos os descontos de dias parados dos empregados, observadas as determinações do dissídio coletivo; no entanto, sendo considerada legal, são devidos os dias de paralisação aos empregados, também nos moldes que o dissídio conceder. “Art. 16 - Para os fi ns previstos no art. 37, inciso VII, da Constituição, lei complementar defi nirá os termos e os limites em que o direito de greve poderá ser exercido”. O referido artigo diz respeito à greve no serviço público, que embora não esteja regulamentada, pode se amparar nas disposições constitucionais acerca da greve. Existe um Projeto de Lei do Senado, de nº 710/2011, de autoria do senador Aloysio Nunes, que busca regulamentar o direito de greve dos servidores públicos, no entanto, tem muitos pontos polêmicos. Art. 17 - Fica vedada a paralisação das atividades, por iniciativa do empregador, com o objetivo de frustrar negociação ou difi cultar o atendimento de reivindicações dos respectivos empregados (lockout). Parágrafo único. A prática referida no caput assegura aos trabalhadores o direito à percepção dos salários durante o período de paralisação. A título de esclarecimento, o artigo 17 traz o conceito de lockout, que signifi ca a paralisação das atividades por iniciativa do empregador, com o objetivo de frustrar a negociação ou difi cultar o atendimento de reivindicaçõesdos respectivos empregados (GARCIA, 2017) e prevê a indenização dos trabalhadores em caso de sua ocorrência. Finalmente, sempre é importante relembrar que o direito de greve, assegurado pelo art. 9º da CF, não pode ser restringido ou modifi cado pela norma coletiva (inc. XXVII), nem mesmo para alterar o conceito de serviços essenciais (inc. XXVIII), o que também está inserido no artigo 611-b da CLT já estudado. A título de esclarecimento, o artigo 17 traz o conceito de lockout, o direito de greve, assegurado pelo art. 9º da CF, não pode ser restringido ou modifi cado pela norma coletiva. 140 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 8 ARBITRAGEM E MEDIAÇÕES NO DIREITO COLETIVO A mediação é uma forma de negociação em que um terceiro, não envolvido no confl ito, intermedeia o confl ito buscando ajudar as partes a chegarem a um consenso e alcançando um denominador comum, este pode transformar-se em parte da convenção coletiva. A mediação esteve prevista na Lei nº 4.330/64 (Lei de Greve – revogada pela Lei nº 7.783/89), quando era procedimento prévio e obrigatório realizado pela Delegacia Regional do Trabalho. Também o art. 616, § 1º, da CLT c/c OJ nº 24102 da SDC do TST dispõem acerca da necessidade de mediação na negociação prévia, autorizando o Delegado Regional do Trabalho a agir como mediador dos confl itos coletivos, tendo o poder de convocar as partes, a fi m de que compareçam à mesa-redonda para tentativa de negociação e possibilidade de acordo. Na negociação coletiva trabalhista, a mediação é facultada às partes, que podem escolher o mediador para compor o confl ito. Tal fundamento está consubstanciado no Decreto nº 1.572/95, que estabeleceu regras para a mediação na negociação coletiva c/c art. 11 da Lei nº 10.192/01 e Instrução Normativa nº 23.103, de 23 de maio de 2001 da SRT- TEM (GARCIA, 2017, p. 1309). Já a arbitragem, disciplinada na Lei nº 9.307/96, é um instrumento no qual um terceiro é escolhido pelas partes para solucionar o litígio, este terceiro é o árbitro. Os árbitros são escolhidos pelas partes, sempre em número ímpar (art. 13, § 1º da Lei nº 9.307/96) e fazem o papel de juiz de direito e de fato (art. 18). A sentença que proferir tem a mesma força que um título executivo judicial (art. 31) e tem requisitos para validade similares aos da sentença judicial (relatório, fundamentação e dispositivo) – art. 26. Apesar de fazer coisa julgada, a sentença arbitral não pode ser desconstituída por ação rescisória, mas sim por ação anulatória (art. 33). As partes devem escolher o tipo de arbitragem que desejam, isto é, se de direito ou de equidade (art. 1º, §§ 1º e 2º). Se de direito, podem, ainda, indicar quais as regras serão aplicadas, desde que não violem os bons costumes e a ordem pública. É facultado às partes renunciar ou não aos recursos (GARCIA, 2017, p. 1310). É importante destacar que uma vez determinado que o confl ito será resolvido por arbitragem, esta forma de solução torna-se obrigatória e a sentença arbitral deverá ser cumprida pelas partes. A mediação é uma forma de negociação em que um terceiro, não envolvido no confl ito, intermedeia o confl ito. A arbitragem, disciplinada na Lei nº 9.307/96, é um instrumento no qual um terceiro é escolhido pelas partes para solucionar o litígio. 141 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 Mais um fato que precisa fi car claro é que o artigo 1º da Lei esclarece que a arbitragem somente é viável para dirimir confl itos de natureza patrimonial, mais especifi camente, direitos disponíveis. Por esta razão, não pode ser utilizada em muitas questões de Direito Individual, mas encontra amparo para a utilização em confl itos de Direito Coletivo, em que os direitos em questão têm natureza disponível. Atividade de Estudos: 1) Após o estudo da temática, relacione o instituto ao seu conceito correspondente: 1. Direito Coletivo 2. Convenções coletivas de trabalho 3. Acordos coletivos 4. Ultratividade 5. Dissídio Coletivo 6. Greve 7. Lockout 8. Sindicato ( ) A paralisação das atividades por iniciativa do empregador, com o objetivo de frustrar a negociação ou difi cultar o atendimento de reivindicações dos respectivos empregados. ( ) É o instrumento utilizado para negociação entre sindicatos patronais e de empregados e tem sua previsão no artigo 611 e seguintes da CLT. ( ) São resultantes da negociação entre uma ou mais empresas e os sindicatos dos empregados, que visam criar normatização para este grupo um pouco mais restrito que a convenção coletiva, possuindo também caráter normativo. ( ) Ramo do Direito que visa disciplinar as relações coletivas de trabalho, ou seja, de um grupo de empregados e um grupo de empregadores, ditando as regras desta relação, seus limites e proteções. ( ) Uma das formas de disciplinar os confl itos coletivos de trabalho, no caso, por meio de decisão judicial que ocorre em um processo chamado... ( ) As convenções e acordos coletivos perderão sua efi cácia quando completados dois anos de vigência, contrariando o que ocorria antes da reforma, quando a convenção produzia efeitos até que outra estivesse vigente, o que é conhecido como... 142 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho ( ) Pode ser considerado como uma suspensão temporária do trabalho, uma paralisação dos serviços que tem como objetivo a reivindicação e a obtenção de melhores condições de trabalho ou o cumprimento das obrigações pelo empregador. ( ) São entidades associativas permanentes, que representam trabalhadores vinculados por laços profi ssionais e laborativos comuns, visando tratar de problemas coletivos das respectivas bases representadas, defendendo seus interesses trabalhistas e conexos, com o objetivo de lhes alcançar melhores condições de labor e vida. 9 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Após transcorrer um pouco sobre o Direito Coletivo, sua história e, principalmente, sua função, podemos concluir o quanto sua aplicação é relevante para o Direito Individual do Trabalho, para viabilizar os princípios do Direito individual e, portanto, a conquista e manutenção de direitos dos trabalhadores. No entanto, ao refl etir sobre a realidade do Direito coletivo em nosso ordenamento jurídico, e ainda, sobre as inovações trazidas pela Reforma Trabalhista, a sua efetividade parece um pouco prejudicada. Deste estudo podemos levar muito conteúdo de refl exão e poucas respostas, mas a certeza de que um Direito Coletivo é primordial e que fortalecer a atuação dos sindicatos é uma necessidade para a defesa dos direitos individuais. REFERÊNCIAS BATISTA, Homero. Comentários à reforma trabalhista [Livro eletrônico]. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017. BRASIL, Lei n. 7.783, de 28 de junho de 1989. Disponível em: . Acesso em: 1º fev. 2018. ______. Constituição Federal de 1988. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em: . Acesso em: 15 jan. 2017. 143 DIREITO COLETIVO DO TRABALHO Capítulo 3 ______. Consolidação das Leis do Trabalho, de 1º de maio de 1943. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. de 2017. CASSAR, Vólia Bomfi m; BORGES, Leonardo Dias. Comentários à reforma Trabalhista. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. CASSAR, Vólia Bomfi m. Direito do trabalho. 13. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. CHIARELLI, Carlos Alberto. O trabalho e o sindicato: evolução e desafi os. São Paulo: LTR, 2005. DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 16. ed. São Paulo: LTR, 2017. GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Curso de Direito do Trabalho. 11. ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017.MAIOR, Jorge Luis Souto. A Reforma Trabalhista e seus refl exos no Direito Coletivo do Trabalho, 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2018. MERÍSIO, Patrick Maia. Direito coletivo do trabalho [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 26. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. ______. Direito Contemporâneo do Trabalho. São Paulo: Saraiva, 2011. PAGANI, Marcella et al. (coord). Direito do trabalho simplifi cado. Belo Horizonte: RTM, 2016. PIMENTA, José Roberto Freire et al. (coord). Direito do Trabalho: evolução, crise e perspectivas. São Paulo: LTR, 2004. PORTAL BRASIL. Mulheres ganham espaço no mercado de trabalho. Disponível em: . Acesso em: 28 dez. 2017. 144 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho SILVA, José Afonso da Silva. Direito Constitucional Positivo. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. VIANA, Márcio Túlio. A reforma sindical, entre o bem e o mal. 2004. Disponível em: . Acesso em: 13 dez. 017. VIANA, Márcio Túlio et al. (coord). Direito do Trabalho e trabalhos sem direitos. Belo Horizonte: Melhoramentos, 2008.institui o FGTS (atualmente a Lei n. 8036/90) 1988 CF 88 FGTS obrigatório para todos FONTE: A autora 20 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 5 ESTABILIDADE POR TEMPO DE SERVIÇO Até a entrada em vigor da Constituição de 1988, por força do artigo 492 da CLT, havia a previsão em nosso ordenamento jurídico da estabilidade por tempo de serviço, cujo texto legal assim dispôs: Art. 492 - O empregado que contar mais de 10 (dez) anos de serviço na mesma empresa não poderá ser despedido senão por motivo de falta grave ou circunstância de força maior, devidamente comprovadas. Parágrafo único - Considera-se como de serviço todo o tempo em que o empregado esteja à disposição do empregador. A estabilidade prevista no artigo 492 da CLT era de caráter defi nitivo e somente admitia a dispensa do empregado caso praticasse alguma falta grave e esta fosse devidamente apurada através de inquérito judicial nos moldes dos artigos 492, 493 e 494 da CLT. A estabilidade ainda trazia consigo outras proteções que transcendem a proteção contra a dispensa imotivada, como explica Vóglia Bomfi m Cassar (2017, p. 1135): Cessando a atividade da empresa, havendo morte do empregador constituído em empresa individual, extinguindo-se a empresa, fechando-se o estabelecimento, fi lial ou agência ou havendo supressão necessária da atividade, era assegurado ao empregado (não optante) o direito a indenização contida no art. 478 da CLT, que seria paga de forma dobrada, caso contassem com mais de dez anos no serviço. Em casos fortuitos ou de força maior (a CLT não os distingue), a indenização (do não optante) era paga pela metade (art. 502 da CLT). Não havia estabilidade nos cargos de confi ança e para os empregados admitidos diretamente neste, sem antes ter ocupado qualquer outra função na empresa, não havia possibilidade de se adquirir a estabilidade nem na função nem no emprego. A exceção também se estendia aos empregados em consultórios médicos, ou em escritórios de profi ssionais liberais (arts. 499 e 507 da CLT). Os rurais também eram benefi ciados pelo sistema previsto nos arts. 478 e 492 da CLT. Sob a égide da Constituição de 1988, não existe mais a previsão de estabilidade no ordenamento jurídico brasileiro, exceto no caso da estabilidade dos servidores públicos prevista no art. 41 da Constituição Federal. A estabilidade decenal acabou sendo substituída pelo sistema do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. A transição entre a estabilidade decenal e o sistema do FGTS garantiu aos empregados rurais e urbanos que já houvessem preenchido os requisitos legais 21 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 para adquirir a estabilidade até 05/10/1988, data de promulgação da Constituição, o direito adquirido. Todavia, estes já não representavam um número muito relevante de detentores, como já havíamos observado, eis que a fase anterior, de FGTS opcional, já havia representado o início do fi m do instituto. Todavia, estes já não representavam um número muito relevante de detentores, como já havíamos observado. Lembre-se da citação de Alice Monteiro de Barros (2016) na qual ela comenta que desde que o FGTS se tornou facultativo, e mais conveniente ao empregador, este costumava não admitir o candidato para o emprego que não assinasse a declaração de opção pelo FGTS no ato da contratação. No contexto atual, as proteções que os empregados ainda dispõem são as garantias de emprego, também chamadas de estabilidades provisórias, estudadas a seguir. 5.1 Garantia de Emprego Como vimos até o momento, as garantias de emprego são situações que a legislação optou por dar uma proteção especial em razão das condições especiais dos empregados que os tornam mais vulneráveis na constância da relação de emprego, em outras palavras, situações em que haveria um risco muito grande de ocorrer a dispensa deles. Assim, garantia de emprego é: A vantagem jurídica de caráter transitório deferida ao empregado em virtude de uma circunstância contratual ou pessoal obreira de caráter especial, de modo a assegurar a manutenção do vínculo empregatício por um lapso temporal defi nido, independentemente da vontade do empregador (DELGADO, 2017, p. 1259). 22 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho As situações que estudaremos a seguir incluem a proteção do dirigente sindical; representante da CIPA; empregada gestante; empregado acidentado; empregado eleito diretor de cooperativa; empregado membro da comissão de conciliação prévia; membro do conselho curador do FGTS; membro do Conselho Nacional de Previdência Social; empregado reabilitado e empregado com defi ciência; período eleitoral; estabilidade de servidores públicos regidos pela CLTN e estabilidade do art. 19 do ADCT. A simples leitura das condições especiais destes empregados já nos remete imediatamente a prováveis problemas na manutenção dos empregos, por exemplo, o dirigente sindical, uma vez que foi eleito pelos seus colegas também empregados, com a atribuição de defender seus interesses frente aos interesses do empregador. Imagine como ele faria a negociação se o seu emprego estivesse em risco? Você, no lugar dele, seria enfático nos seus argumentos e requerimentos? Assim também ocorre com o membro da CIPA, da mesma forma deverá exigir o cumprimento das normas de segurança tanto dos empregados, como do empregador... No entanto, ele é um empregado! O raciocínio é o mesmo em todas as situações, como estudaremos individualmente a seguir. Quando o legislador optou por proteger estes empregados em condições especiais de trabalho, o fez com o intuito de cumprir com as funções do Direito do Trabalho na proteção do emprego e melhoria de condições de trabalho, mas, sobretudo, atender a um dos princípios mais caros ao Direito do Trabalho, o princípio da continuidade da relação de emprego. Uma vez observados estes fatos, o conceito de Luciano Martinez (2016, p. 1211) se torna muito esclarecedor: As garantias de emprego são, em rigor, fórmulas genéricas que visam à proteção do empregado contra a resilição por iniciativa patronal. O princípio da continuidade é entendido como fundamento dessas fórmulas, porque se baseia na ideia de que a constância do vínculo entre empregado e empregador produz uma sensação de segurança social. É justamente essa segurança social o elemento motivador de um conjunto de normas jurídicas que visam impedir ou restringir os atos de terminação dos contratos de emprego por iniciativa patronal. Assim, como se pode entender, as garantias de emprego cumprem o papel de proteção do emprego, consagram o princípio da continuidade da relação de emprego e, consequentemente, asseguram a segurança social. Assim, como se pode entender, as garantias de emprego cumprem o papel de proteção do emprego, consagram o princípio da continuidade da relação de emprego e, consequentemente, asseguram a segurança social. 23 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 6 DIRIGENTE SINDICAL A proteção conferida ao dirigente sindical inicia com a Convenção nº 98 da OIT de 1949, que dispõe sobre a aplicação dos princípios do direito de sindicalização e de negociação coletiva, aprovada pelo Brasil pelo Decreto Legislativo nº 49, de 1952, e promulgada pelo Decreto nº 33.196/53. A evolução da proteção se deu com a Lei nº 5.107/66, que trazia a proteção ao empregado sindicalista, do registro da candidatura até o fi nal de seu mandato. Em 1973, a Lei nº 5.911 alterou a redação do parágrafo 3º do artigo 543 da CLT, ampliando a proteção até um ano após o fi nal do mandato, inclusive para o suplente. Em 1968, a Lei nº 7.543 estende essa proteção aos dirigentes de associações profi ssionais também. Em 1988, a proteção ganha status constitucional, conforme se depreende da leitura do artigo 8º, VIII daConstituição: VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o fi nal do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer (BRASIL, 1988, s.p.). O regramento do instituto permanece na CLT, no artigo 543 e pela Súmula 369 do TST, cujo estudo atento é recomendado: Art. 543 - O empregado eleito para cargo de administração sindical ou representação profi ssional, inclusive junto a órgão de deliberação coletiva, não poderá ser impedido do exercício de suas funções, nem transferido para lugar ou mister que lhe difi culte ou torne impossível o desempenho das suas atribuições sindicais. § 1º - O empregado perderá o mandato se a transferência for por ele solicitada ou voluntariamente aceita. § 2º - Considera-se de licença não remunerada, salvo assentimento da empresa ou cláusula contratual, o tempo em que o empregado se ausentar do trabalho no desempenho das funções a que se refere este artigo. § 3º - Fica vedada a dispensa do empregado sindicalizado ou associado, a partir do momento do registro de sua candidatura a cargo de direção ou representação de entidade sindical ou de associação profi ssional, até 1 (um) ano após o fi nal do seu mandato, caso seja eleito inclusive como suplente, salvo se cometer falta grave devidamente apurada nos termos desta Consolidação. § 4º - Considera-se cargo de direção ou de representação sindical aquele cujo exercício ou indicação decorre de eleição prevista em lei. 24 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho § 5º - Para os fi ns deste artigo, a entidade sindical comunicará por escrito à empresa, dentro de 24 (vinte e quatro) horas, o dia e a hora do registro da candidatura do seu empregado e, em igual prazo, sua eleição e posse, fornecendo, outrossim, a este, comprovante no mesmo sentido. O Ministério do Trabalho e Previdência Social fará no mesmo prazo a comunicação no caso da designação referida no fi nal do § 4º. § 6º - A empresa que, por qualquer modo, procurar impedir que o empregado se associe a sindicato, organize associação profi ssional ou sindical ou exerça os direitos inerentes à condição de sindicalizado fi ca sujeita à penalidade prevista na letra a do art. 553, sem prejuízo da reparação a que tiver direito o empregado. Súmula nº 369 do TST DIRIGENTE SINDICAL. ESTABILIDADE PROVISÓRIA (redação do item I alterada na sessão do Tribunal Pleno realizada em 14.09.2012) - Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I - É assegurada a estabilidade provisória ao empregado dirigente sindical, ainda que a comunicação do registro da candidatura ou da eleição e da posse seja realizada fora do prazo previsto no art. 543, § 5º, da CLT, desde que a ciência ao empregador, por qualquer meio, ocorra na vigência do contrato de trabalho. II - O art. 522 da CLT foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988. Fica limitada, assim, a estabilidade a que alude o art. 543, § 3.º, da CLT a sete dirigentes sindicais e igual número de suplentes. III - O empregado de categoria diferenciada eleito dirigente sindical só goza de estabilidade se exercer na empresa atividade pertinente à categoria profi ssional do sindicato para o qual foi eleito dirigente. IV - Havendo extinção da atividade empresarial no âmbito da base territorial do sindicato, não há razão para subsistir a estabilidade. V - O registro da candidatura do empregado a cargo de dirigente sindical durante o período de aviso prévio, ainda que indenizado, não lhe assegura a estabilidade, visto que inaplicável a regra do § 3º do art. 543 da Consolidação das Leis do Trabalho. Vamos à análise dos dispositivos legais em questão: • A proteção legal é dirigida aos empregados sindicalizados, mas não a todos sindicalizados. O amparo é ao empregado sindicalizado que se candidatar a cargo de direção ou representação sindical e, caso eleito, a proteção perdura durante seu mandato e mais um ano após. • O empregado protegido pela legislação é o representante dos empregados, não do empregador. • Em caso de reeleição, a contagem da proteção legal recomeça, conforme se verifi ca a seguir: 25 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 a) Proteção dirigente sindical eleito: FIGURA 2 – LINHA DO TEMPO DA PROTEÇÃO LEGAL ELEITO Registro da candidatura eleição mandato 1 ano Registro da 1ª candidatura eleição 1º mandato Registro da 2ª candidatura reeleição 2º mandato 1 ano após o 2º mandato FONTE: A autora Observe a sequência anterior: • O empregado ingressa no manto da proteção legal com o registro da candidatura até a eleição. • Não sendo eleito, a proteção se esvai. • Sendo eleito, a proteção se mantém durante todo o seu mandato e ainda por um ano após o fi nal deste. b) Proteção do dirigente sindical reeleito FIGURA 3 – LINHA DO TEMPO DA PROTEÇÃO LEGAL FONTE: A autora Observe a sequência anterior: • O empregado ingressa no manto da proteção legal com o registro da candidatura que se mantém durante o seu mandato. • No transcurso do seu primeiro mandato, o empregado registra sua candidatura à reeleição, uma vez reeleito a proteção se estende pelo 2º mandato e um ano após o término deste. • O empregado deve comunicar por escrito ao seu empregador sobre 26 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho o registro da sua candidatura. A CLT disciplina que esse comunicado deve ocorrer em 24 horas, no entanto, o Tribunal Superior do Trabalho entende que a estabilidade é assegurada mesmo que a comunicação da candidatura ou da eleição seja realizada fora desse prazo, desde que ocorra durante a vigência do contrato de trabalho (Súmula 369, I do TST). • A estabilidade legal se limita a sete dirigentes sindicais e igual número de suplentes. Apesar do texto constitucional não trazer a proteção aos dirigentes de associações profi ssionais, também não a proíbe. Portanto, toda proteção infraconstitucional que for estendida a outras categorias será efi caz da mesma forma. Quanto ao alcance da proteção, ainda é importante observar que: O empregado eleito para cargo de direção sindical, titular ou suplente, tem estabilidade no emprego desde o registro de sua candidatura e, se eleito, até um ano após o término do mandato, salvo se cometer falta grave devidamente apurada e comprovada em prévio inquérito judicial – art. 543, § 3º, da CLT c/c art. 8º, VIII, da CRFB c/c Súmula nº 379 do TST. Aliás, a garantia de emprego destinada aos dirigentes sindicais está em consonância com as Convenções nº 98/49 (Decreto Legislativo nº 49/52) e nº 135 da OIT. A estabilidade só atinge os membros do conselho administrativo, não sendo aplicável aos do conselho fi scal, já que se limitam a fi scalizar a gestão fi nanceira do sindicato, na forma do art. 522, § 2º, da CLT, não atuando diretamente na defesa dos interesses da categoria – OJ nº 365 da SDI-I do TST. A garantia também se estende aos dirigentes das federações e confederações, pois também sofrem pressão pelo cargo que exercem, dentro do limite contido no art. 522 da CLT (CASSAR, 2015, p. 1184, grifo nosso). A proteção conferida ao sindicalista vai além da proteção contra a dispensa arbitrária, há também a proteção do seu mandato, coadunando com a Convenção 98 da OIT, como destacado anteriormente por Vóglia Cassar e sustentado por Mauricio Godinho Delgado (2017, p. 1426): A garantia sindical abrange também a inamovibilidade do dirigente e seu suplente; a par disso, assegura ainda o franqueamento de condições para o livre exercício das funções sindicais, embora, obviamente, exercício respeitoso. Assim, estipula a CLTque tal líder “não poderá ser impedido do exercício de suas funções, nem transferido para lugar ou mister que lhe difi culte ou torne impossível o desempenho das suas atribuições sindicais” (art. 543, caput, in fi ne, CLT; grifos acrescidos). Portanto, toda proteção infraconstitucional que for estendida a outras categorias será efi caz da mesma forma. 27 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Como já estudado anteriormente, a proteção ao representante sindical também inclui a vedação de atos que impossibilitem ou difi cultem a execução de suas atribuições em consonância com os mandamentos da Convenção 98 da OIT. Em nosso ordenamento jurídico esta previsão está no artigo 543 da CLT: Art. 543 - O empregado eleito para cargo de administração sindical ou representação profi ssional, inclusive junto a órgão de deliberação coletiva, não poderá ser impedido do exercício de suas funções, nem transferido para lugar ou mister que lhe difi culte ou torne impossível o desempenho das suas atribuições sindicais. § 1º - O empregado perderá o mandato se a transferência for por ele solicitada ou voluntariamente aceita. § 2º - Considera-se de licença não remunerada, salvo assentimento da empresa ou cláusula contratual, o tempo em que o empregado se ausentar do trabalho no desempenho das funções a que se refere este artigo. Neste sentido, impedir o empregador de transferir o empregado como uma manobra para retirar-lhe o poder é uma forma de conceder maior efetividade à lei, eis que não basta a proteção contra a dispensa, deve-se proteger a atuação do sindicalista. No entanto, se for do interesse do próprio empregado a transferência, ela será efetivada e o empregado perde a garantia de emprego. Art. 543, § 3º, da CLT - Fica vedada a dispensa do empregado sindicalizado ou associado, a partir do momento do registro de sua candidatura a cargo de direção ou representação de entidade sindical ou de associação profi ssional, até 1 (um) ano após o fi nal do seu mandato, caso seja eleito inclusive como suplente, salvo se cometer falta grave devidamente apurada nos termos desta Consolidação. Art. 543, § 4º, da CLT - Considera-se cargo de direção ou de representação sindical aquele cujo exercício ou indicação decorre de eleição prevista em lei. O presente parágrafo esclarece que a proteção legal é direcionada aos empregados sindicalizados que se candidatam a cargos de direção ou representação sindical, e mais, estende essa proteção aos representantes e direção de associação profi ssional. Art. 543, § 5º, da CLT - Para os fi ns deste artigo, a entidade sindical comunicará por escrito à empresa, dentro de 24 (vinte e quatro) horas, o dia e a hora do registro da candidatura do seu empregado e, em igual prazo, sua eleição e posse, fornecendo, outrossim, a este, comprovante no mesmo sentido. O Ministério do Trabalho e a Previdência Social farão, no mesmo prazo, a comunicação no caso da designação referida no fi nal do § 4º. 28 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho Este parágrafo exige a comunicação do registro da candidatura em 24 horas, no entanto, o TST já entendeu que este prazo não é tão rigoroso, conforme a Súmula 369 do TST: Súmula nº 369 do TST DIRIGENTE SINDICAL. ESTABILIDADE PROVISÓRIA (redação do item I alterada na sessão do Tribunal Pleno realizada em 14.09.2012) - Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I - É assegurada a estabilidade provisória ao empregado dirigente sindical, ainda que a comunicação do registro da candidatura ou da eleição e da posse seja realizada fora do prazo previsto no art. 543, § 5º, da CLT, desde que a ciência ao empregador, por qualquer meio, ocorra na vigência do contrato de trabalho. Por fi m, a lei prevê a punição do empregador que tente obstar de qualquer forma a atuação sindical. Encerrando, assim, a proteção mais ampla possível para a sua atuação: Art. 543, § 6º, da CLT - A empresa que, por qualquer modo, procurar impedir que o empregado se associe ao sindicato, organize associação profi ssional ou sindical ou exerça os direitos inerentes à condição de sindicalizado fi ca sujeita à penalidade prevista na letra a do art. 553, sem prejuízo da reparação a que tiver direito o empregado. A relevância deste último ponto é muito grande para dar efetividade aos mandamentos legais apresentados. Finalmente, para concluir o estudo do tema, observaremos atentamente a jurisprudência a seguir: CONTRATO DE EXPERIÊNCIA - DIRIGENTE SINDICAL - ESTABILIDADE. Na extinção do contrato de experiência não há ato de despedimento por parte do empregador. O contrato de experiência é um ato jurídico a termo fi nal. Atingindo este, extingue-se o direito a que ele se refere. Não cabe arguir-se a condição de dirigente sindical somente quando o contrato de experiência está por atingir o seu termo. (TRT da 3.ª Região; Processo: RO - 2041/86; Data de Publicação: 23/01/1987, DJMG; Órgão Julgador: Primeira Turma; Relator: Luiz Carlos da Cunha Avellar, grifo nosso). GARANTIA PROVISÓRIA DE EMPREGO. DIRIGENTE SINDICAL. A garantia provisória no emprego decorrente da eleição para cargo de direção ou representação sindical não subsiste havendo extinção da atividade empresarial no âmbito da base territorial do sindicato. Direito potestativo do empregador à despedida sem justa causa preservado. Adoção da Súmula 369, item IV, do TST. (TRT da 4ª Região, acórdão do processo nº 0020377-10.2016.5.04.0029, 29 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 disponibilização 18/12/2017, 7ª turma, redatora Carmen Izabel Centena Gonzalez, grifo nosso). ESTABILIDADE PROVISÓRIA - MANDATO SINDICAL - CONTRATO POR PRAZO DETERMINADO - NÃO CABIMENTO - A estabilidade provisória decorrente da eleição para dirigente sindical é incompatível com o contrato por tempo determinado, pois a extinção deste na data aprazada faz cessarem os direitos e as obrigações assumidas pelas partes contratantes. Se as partes tinham prévia ciência da condição estipulada relativa ao termo do contrato, não há que se falar em dispensa injusta e tampouco em nulidade do contrato anteriormente avençado, mas em término do contrato pelo decurso do tempo (TRT da 3.ª Região; PJe: 0010542-41.2016.5.03.0153 (RO); Disponibilização: 31/03/2017, DEJT/TRT3/Cad.Jud, Página 444; Órgão Julgador: Nona Turma; Relator: Monica Sette Lopes, grifo nosso). Pela leitura atenta dos julgados supra, foi possível, por fi m, concluir que não é somente em caso de aviso prévio que a estabilidade do dirigente sindical não se sustenta, conforme já verifi cado pela leitura da Súmula 369, V do TST, mas que esta regra é aplicável a todo contrato por tempo determinado, eis que já há data prevista para o fi m deste, como acontece no contrato de experiência ou em modalidades de contrato a termo. A partir da leitura atenta de todos os dispositivos legais apresentados acerca da proteção conferida ao dirigente sindical, responda às questões propostas a seguir: Atividade de Estudos: 1) A garantia de emprego é dirigida a todos os empregados sindicalizados? Qual é a justifi cativa legal? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 30 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho 2) Para que o empregado goze do direito à estabilidade, é necessário que as atividades que ele realize na empresa sejam relacionadas à categoria profi ssional do sindicato em que foi eleito como dirigente? Qual é o diploma legal que apresentaeste esclarecimento? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 3) O dirigente sindical pode ser demitido durante o período da estabilidade? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 4) O empregado indicado como dirigente sindical para representar o empregador tem direito à estabilidade? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 5) Se o registro da candidatura ocorrer durante o contrato de experiência ou aviso prévio, o empregado tem direito à estabilidade? ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 31 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 7 REPRESENTANTE DA CIPA O representante da CIPA é protegido pela legislação, pois representa os demais empregados na busca de prevenir acidentes e doenças decorrentes do trabalho, e como já refl etimos, não é uma posição muito agradável para o empregado, que, muitas vezes, terá que enfrentar o empregador, contrariando suas expectativas. O artigo 163 da CLT obriga as empresas a constituírem Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) nos moldes das instruções do Ministério do Trabalho, que regulamentou o tema na Norma Regulamentadora (NR) nº 5, aprovada pela Portaria 3.214/78. Art. 163 - Será obrigatória a constituição de Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), de conformidade com instruções expedidas pelo Ministério do Trabalho, nos estabelecimentos ou locais de obra nelas especifi cadas. Parágrafo único - O Ministério do Trabalho regulamentará as atribuições, a composição e o funcionamento das CIPA (s). A maioria dos estabelecimentos com mais de 19 empregados está obrigada a constituir Cipas – Portaria nº 3.214/78 c/c Decreto nº 97.995/89 c/c art. 163 da CLT c/c NR 5. Outras, dependendo da sua atividade econômica (NR 5, anexos), só estão obrigadas a constituir a CIPA quando tiverem, por estabelecimento, mais de 29, 50, 100 etc., empregados. De acordo com a NR 5, item 5.46, mesmo que não sejam empregados do tomador, os terceirizados que trabalhem no estabelecimento entram na contagem. A função do dirigente da CIPA é indicar a área de risco de acidente e solicitar as medidas necessárias para recuperação, manutenção e prevenção de riscos. Tais medidas muitas vezes contrariam os interesses do empregador, pois deve despender dinheiro para a melhoria do local de trabalho (CASSAR, 2017, p. 1199, grifo nosso). Nos artigos seguintes, a CLT expõe como será a composição da CIPA, o mandato e outras disposições: Art. 164 - Cada CIPA será composta de representantes da empresa e dos empregados, de acordo com os critérios que vierem a ser adotados na regulamentação de que trata o parágrafo único do artigo anterior. § 1º - Os representantes dos empregadores, titulares e suplentes serão por eles designados. § 2º - Os representantes dos empregados, titulares e suplentes serão eleitos em escrutínio secreto, do qual participem, independentemente de fi liação sindical, exclusivamente os empregados interessados. § 3º - O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de 1 (um) ano, permitida uma reeleição. Representantes da empresa e dos empregados. O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de 1 (um) ano, permitida uma reeleição. 32 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho § 4º - O disposto no parágrafo anterior não se aplicará ao membro suplente que, durante o seu mandato, tenha participado de menos da metade do número de reuniões da CIPA. § 5º - O empregador designará, anualmente, dentre os seus representantes, o presidente da CIPA e os empregados elegerão, dentre eles, o vice-presidente. 165 - Os titulares da representação dos empregados nas CIPA (s) não poderão sofrer despedida arbitrária, entendendo-se como tal a que não se fundar em motivo disciplinar, técnico, econômico ou fi nanceiro. Parágrafo único - Ocorrendo a despedida, caberá ao empregador, em caso de reclamação à Justiça do Trabalho, comprovar a existência de qualquer dos motivos mencionados neste artigo, sob pena de ser condenado a reintegrar o empregado. A proteção do membro da CIPA tem previsão constitucional no art. 10, inciso II, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, conforme segue: Art. 10. Até que seja promulgada a lei complementar a que se refere o art. 7º, I, da Constituição: II - fi ca vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa: a) do empregado eleito para cargo de direção de comissões internas de prevenção de acidentes, desde o registro de sua candidatura até um ano após o fi nal de seu mandato; A disposição supra não faz distinção sobre o alcance da proteção legal. Resta o questionamento se esta se refere somente ao titular ou se também será estendida aos suplentes, para tanto utilizamos as lições de Gustavo Felipe Garcia (2017, p. 809): Como o dispositivo acima não distingue entre membro titular e suplente, o entendimento já pacifi cado pela jurisprudência, tanto do TST (Súmula 339, Inciso I) como do STF (Súmula 676), é no sentido de que “A garantia da estabilidade provisória prevista no art. 10, II, a do direito à garantia de emprego prevista no art. 10, inciso II, b do ato das Disposições Constitucionais Transitórias, também se aplica ao suplente do cargo de direção de comissões internas de prevenção de acidentes (CIPA). Já Vóglia Bomfi m Cassar apresenta o seguinte posicionamento: Tanto a CLT quanto a Carta/88 garantiram a estabilidade apenas dos empregados eleitos ao cargo de direção das Cipas, excluindo, assim, o presidente, uma vez que este é designado pelo empregador – art. 164, § 5º, da CLT. 56 Antes da Carta era duvidosa a estabilidade do suplente, inclinando-se a corrente majoritária em negar-lhe tal direito – Súmula nº 339, I do TST. Após a Constituição, a doutrina e a jurisprudência majoritária adotaram a posição oposta, concedendo estabilidade ao suplente. Não poderão sofrer despedida arbitrária. 33 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 Portanto, após a Constituição apenas o vice-presidente das Cipas tem estabilidade, pois a Carta não recepcionou a CLT na parte que concedia a estabilidade a todos os membros titulares eleitos, pois usou a palavra “empregado” no singular. Em sentido contrário, Valentin Carrion e Süssekind que entendem perfeitamente compatível o art. 165 da CLT com o art. 10, II, a, do ADCT, defendendo a tese de que todos os empregados eleitos têm estabilidade pelo período do mandato e apenas o vice-presidente até um ano após o mandato (CASSAR, 2017, 1201, grifo nosso). Outra observação muito importante que deve ser feita após a leitura das refl exões da autora é que a proteçãolegal é voltada aos membros eleitos da CIPA, o que signifi ca que são os eleitos pelos empregados e não se aplica aos membros indicados pelo empregador, eis que somente aqueles que representam o empregado têm seus empregos ameaçados pela sua atuação. Vejamos como tem sido decidido nos tribunais: ESTABILIDADE. CIPEIRO. É garantida na forma prevista no artigo 10 do ADCT a estabilidade do trabalhador representante dos empregados, titulares e suplentes, devendo ser respeitada a distribuição entre representantes designados pelo empregador e eleitos pelos empregados, de acordo com o dimensionamento constante no quadro I, da NR-5 da Portaria nº 3.214/1978 do Ministério do Trabalho e Emprego (TRT4, 0020107-29.2015.5.04.0511 RO, 9ª Turma, 05/05/2017, Redator João Alfredo Borges Antunes de Miranda). GARANTIA PROVISÓRIA NO EMPREGO DO INTEGRANTE DA CIPA. ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES. A estabilidade provisória garantida ao membro da CIPA não prevalece na hipótese de encerramento das atividades desenvolvidas pela empresa. Aplicação do inc. II da Súmula nº 339 do TST. (TRT4 - 0021704-72.2015.5.04.040 (RO), 4ª Turma, 29/06/2017, Redator: George Achutti). SUPLENTE DA CIPA. RENÚNCIA À ESTABILIDADE PROVISÓRIA. DISPENSA SEM JUSTA CAUSA. VALIDADE. É válida a dispensa sem justa causa do membro suplente da CIPA que solicitou expressamente o desligamento desta, renunciando à estabilidade provisória, sem qualquer elemento de prova a demonstrar a existência de vício de consentimento na manifestação de vontade. HORAS EXTRAS. COMPENSAÇÃO HORÁRIA SEMANAL. INVALIDADE. A prestação habitual de horas extras, inclusive com o trabalho em dias destinados à compensação, torna inválido o regime de compensação horária semanal. É devido ao adicional respectivo em relação às horas irregularmente compensadas na semana, excedentes da 8ª diária até o limite da 44ª semanal. Adoção da Súmula 85, IV, do TST (TRT4, 0000958-81.2014.5.04.0511(RO), 25/08/2016, 7ª Turma, Redator: Wilson Carvalho Dias). Não se aplica aos membros indicados pelo empregador. 34 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A partir das decisões supra, pode-se confi rmar a garantia de emprego dos membros eleitos para representar os empregados (suplentes inclusive) e observar que o membro da CIPA pode abrir mão de sua estabilidade provisória, e ainda, que em razão da Súmula 339 do TST, a extinção da empresa acaba com a garantia de emprego deste, conforme se observa pela leitura dela: Súmula nº 339 do TST CIPA. SUPLENTE. GARANTIA DE EMPREGO. CF/1988 (incorporadas as Orientações Jurisprudenciais nºs 25 e 329 da SBDI-1) - Res. 129/2005, DJ 20, 22 e 25.04.2005. I - O suplente da CIPA goza da garantia de emprego prevista no art. 10, II, “a”, do ADCT a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 (ex-Súmula nº 339 - Res. 39/1994, DJ 22.12.1994 - e ex-OJ nº 25 da SBDI-1 - inserida em 29.03.1996). II - A estabilidade provisória do cipeiro não constitui vantagem pessoal, mas garantia para as atividades dos membros da CIPA, que somente tem razão de ser quando em atividade a empresa. Extinto o estabelecimento, não se verifi ca a despedida arbitrária, sendo impossível a reintegração e indevida a indenização do período estabilitário (ex-OJ nº 329 da SBDI-1 - DJ 09.12.2003). Em suma, a Súmula 339 do TST esclarece que se a empresa encerrar suas atividades, o membro da CIPA não terá garantia de emprego, pois ela existe em razão da existência da CIPA. Uma vez extinta a empresa, extingue-se a CIPA conjuntamente e a razão da proteção se esvai. 8 EMPREGADA GESTANTE A primeira refl exão que deve ser feita é sobre a razão de o legislador ter optado pela proteção da gestante, entre as outras distinções legais sobre o assunto. Embora, nas últimas décadas, as mulheres tenham conquistado espaço cada vez maior no mercado de trabalho, a renda delas ainda é menor que a dos homens. Nos últimos 50 anos, as mulheres têm deixado de atuar apenas no ambiente privado para também se lançarem no mercado de trabalho. Os avanços nas leis trabalhistas permitiram o crescimento dessa mão de obra. Em 2007, as mulheres representavam 40,8% do mercado formal de trabalho; em 2016, passaram a ocupar 44% das vagas. [...]. A renda dessas trabalhadoras também tem ganhado cada vez mais importância no sustento das famílias. Os lares Em suma, a Súmula 339 do TST esclarece que se a empresa encerrar suas atividades, o membro da CIPA não terá garantia de emprego. 35 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 brasileiros estão sendo chefi ados por mulheres. Em 1995, 23% dos domicílios tinham mulheres como pessoas de referência. Vinte anos depois, esse número chegou a 40%. Cabe ressaltar que as famílias chefi adas por mulheres não são exclusivamente aquelas nas quais não há a presença masculina: em 34% delas, havia a presença de um cônjuge. Apesar dessas melhoras, as mulheres ainda ganham em média menos do que os homens, mesmo tendo mais tempo de estudo e qualifi cação. No total, a diferença de remuneração entre homens e mulheres em 2015, ano com os dados mais recentes do indicador, era de 16%. O rendimento médio do homem era de R$ 2.905.91, e o das mulheres, de R$ 2.436,85. Contudo, quanto à participação em cargos de chefi a e gerência nas empresas e organizações, ainda é preciso avançar. Isso porque entre 5% e 10% dessas instituições são chefi adas por mulheres no Brasil, de acordo com um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) (PORTAL BRASIL, 2017, s.p.). Nesta perspectiva, se as mulheres ainda sofrem discriminação no mercado de trabalho, vamos imaginar a mulher grávida. A gravidez não é um impeditivo para o trabalho, e na grande maioria das vezes não causa nenhum tipo de transtorno, mas, infelizmente, esse não é o pensamento dominante. Por esta razão, a fi m de proteger a empregada gestante e, consequentemente, o seu fi lho e sua família, inicialmente, a CLT e, posteriormente, a Constituição Federal (ADCT) apresentam as seguintes disposições: DA PROTEÇÃO À MATERNIDADE A rt. 391 da CLT - Não constitui justo motivo para a rescisão do contrato de trabalho da mulher o fato de haver contraído matrimônio ou de encontrar-se em estado de gravidez. P arágrafo único - Não serão permitidas em regulamentos de qualquer natureza, contratos coletivos ou individuais de trabalho, restrições ao direito da mulher ao seu emprego, por motivo de casamento ou de gravidez. Art. 391-A da CLT. A confi rmação do estado de gravidez advindo no curso do contrato de trabalho, ainda que durante o prazo do aviso prévio trabalhado ou indenizado, garante à empregada gestante a estabilidade provisória prevista na alínea b do inciso II do art. 10 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Pa rágrafo único. O disposto no caput deste artigo aplica- se ao empregado adotante ao qual tenha sido concedida guarda provisória para fi ns de adoção (Incluído pela Lei nº 13.509, de 2017). 36 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A Lei nº 13.509/17 é também conhecida como Reforma Trabalhista e pode ser acessada pelo site do Planalto: . Acesso em: 8 jun. 2018. Art. 392. da CLT - A empregada gestante tem direito à licença- maternidade de 120 (cento e vinte) dias, sem prejuízo do emprego e do salário. § 1º A empregada deve, mediante atestado médico, notifi car o seu empregador da data do início do afastamento do emprego, que poderá ocorrer entre o 28º (vigésimo oitavo) dia antes do parto e ocorrência deste. § 2º Os períodos de repouso, antes e depois do parto, poderão ser aumentados de 2 (duas) semanas cada um, mediante atestado médico. § 3º Em caso de parto antecipado, a mulher terá direito aos 120 (cento e vinte) dias previstos neste artigo . § 4º É garantidoà empregada, durante a gravidez, sem prejuízo do salário e demais direitos: I - transferência de função, quando as condições de saúde o exigirem, assegurada a retomada da função anteriormente exercida, logo após o retorno ao trabalho; II - dispensa do horário de trabalho pelo tempo necessário para a realização de, no mínimo, seis consultas médicas e demais exames complementares. Art. 392- A da CLT - À empregada que adotar ou obtiver guarda judicial para fi ns de adoção de criança ou adolescente será concedida licença-maternidade nos termos do art. 392 desta Lei (Redação dada pela Lei nº 13.509, de 2017). § 4º A licença-maternidade só será concedida mediante apresentação do termo judicial de guarda à adotante ou guardiã. § 5º A adoção ou guarda judicial conjunta ensejará a concessão de licença-maternidade a apenas um dos adotantes ou guardiões empregados ou empregadas. Art. 10 do ADCT- Até que seja promulgada a lei complementar a que se refere o art. 7º, I, da Constituição: II - fi ca vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa: b) da empregada gestante, desde a confi rmação da gravidez até cinco meses após o parto. Como visto, a empregada gestante possui garantia de emprego, ou estabilidade provisória, independente da modalidade contratual, desde a confi rmação da gravidez até cinco meses após o parto, portanto, durante este intervalo a empregada está protegida de dispensa arbitrária e sem justa causa. A empregada gestante possui garantia de emprego, ou estabilidade provisória, independente da modalidade contratual, desde a confi rmação da gravidez até cinco meses após o parto, portanto, durante este intervalo a empregada está protegida de dispensa arbitrária e sem justa causa. 37 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 No entanto, Vóglia Bomfi m Cassar (2015, p. 1192) levanta alguns questionamentos bem relevantes sobre a aplicação do referido texto legal: A estabilidade em comento instiga cinco questões de relevo: 1. Se o empregador necessita ser comunicado do estado gravídico da empregada. 2. Se a empregada precisa ter conhecimento de seu estado gravídico antes da dispensa. 3. Se esta estabilidade enseja a reintegração ou a indenização. 4. Se a gestação é interrompida por aborto espontâneo ou se a criança nasce morta, como fi ca a estabilidade da empregada? 5. Se a empregada engravidar no curso do contrato a termo, adquire estabilidade? 6. Se a empregada doméstica grávida tem estabilidade. 8.1 O Empregador Necessita Ser Comunicado do Estado GravÍdico da Empregada? A primeira questão levanta a necessidade ou não da comunicação do estado gravídico da empregada ao empregador. Aliás, esta questão rendeu muitos anos de discussões em processos judiciais e acabou pacifi cada pela edição da Súmula 244 do TST, atualmente sendo predominante a posição de que “a gestação é o fato jurídico que faz a empregada adquirir o direito à estabilidade. A comunicação é mero requisito da prova do ato e não de substância” (CASSAR, 2015, p. 1192). A Súmula 244 do TST assim dispõe: GESTANTE. ESTABILIDADE PROVISÓRIA (redação do item III alterada na sessão do Tribunal Pleno realizada em 14.09.2012) -Res. 185/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I - O desconhecimento do estado gravídico pelo empregador não afasta o direito ao pagamento da indenização decorrente da estabilidade (art. 10, II, "b" do ADCT). II - A garantia de emprego à gestante só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. Do contrário, a garantia restringe-se aos salários e demais direitos correspondentes ao período de estabilidade. III - A empregada gestante tem direito à estabilidade provisória prevista no art. 10, inciso II, alínea “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, mesmo na hipótese de admissão mediante contrato por tempo determinado. Como vimos, o inciso I da Súmula 244 encerra com a discussão acerca da necessidade de avisar ao empregador sobre a gravidez, embora ainda existam muitas correntes contrárias a este posicionamento, como se depreende abaixo: 38 Estabilidade e Garantias de Emprego, Indenizações Rescisórias e Direito Coletivo do Trabalho A palavra “confi rmação” deve ser entendida no sentido de a empregada demonstrar a gravidez para o empregador, deve confi rmá-la perante o empregador. A trabalhadora precisa dar ciência ao empregador de que está grávida, o que é feito pela apresentação do atestado médico ou exame laboratorial, quer dizer, por ato formal, até cientifi cando por escrito, que está grávida, pois do contrário o empregador não tem como saber se a empregada está grávida. Somente a partir do momento em que a empregada demonstrar a gravidez ao empregador é que estará protegida. A empregada tanto poderá apresentar atestado médico, como também será possível constatar seu estado físico externo, demonstrado pela gravidez (MARTINS, 2010, p. 438). Como visto na passagem acima, o autor deixa claro que a garantia de emprego da empregada somente teria validade a partir da comunicação do estado gravídico ao empregador. Ainda que o entendimento seja minoritário, o raciocínio é muito importante e comumente levantado quando o tema é discutido em litígios. Ainda que a súmula não faça a exigência, costuma-se levantar a hipótese de má-fé da empregada que não comunica o fato ao empregador, tentando, desta forma, transformar o período de garantia de emprego em indenização sem que haja a necessidade de trabalhar. E esta não é uma mera discussão acadêmica, tendo sim consequências na hora de buscar o direito junto à Justiça do Trabalho, como se observa pelas decisões acostadas a seguir: ESTABILIDADE GESTANTE. EMPREGADA GRÁVIDA. A estabilidade garantida à gestante se trata, basicamente, de garantia de emprego, havendo indenização compensatória apenas nos casos em que é impossível a reintegração da empregada. Empregada que postulou tal direito após decorrido o período pelo qual tinha garantida a sua estabilidade. Ingressou na Justiça quando já impossível cumprir com o dever associado ao direito a ela garantido, de trabalhar em benefício da reclamada, motivo pelo qual entende-se haver, em verdade, abuso de direito, na forma do art. 187 do CC/202, norma de aplicação subsidiária no Direito do Trabalho por força do art. 8º, § único, da CLT. Nego provimento ao recurso (TRT da 4ª Região, 1ª Turma, 0020759-91.2015.5.04.0205 RO, em 05/05/2016, Desembargador Marçal Henri dos Santos Figueiredo). GESTANTE. ESTABILIDADE PROVISÓRIA. REINTEGRAÇÃO. INDENIZAÇÃO SUBSTITUTIVA. Evidenciada nos autos a gravidez, durante o período do pacto laboral, faz jus a reclamante à garantia de emprego prevista no art. 10, II, "b", do ADCT. Contudo, a manifesta intenção da autora em não retornar ao emprego no curso do período estabilitário importa em renúncia ao período da estabilidade provisória. Apelo desprovido. (TRT da 4ª Região, 1ª Turma, 0020167- Costuma-se levantar a hipótese de má-fé da empregada que não comunica o fato ao empregador, tentando, desta forma, transformar o período de garantia de emprego em indenização sem que haja a necessidade de trabalhar. 39 ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO Capítulo 1 73.2015.5.04.0261 RO, em 02/03/2016, Desembargadora Rosane Serafi ni Casa Nova - Relatora). Em sentido diverso temos a seguinte decisão: ESTABILIDADE GESTANTE. INDENIZAÇÃO SUBSTITUTIVA. ABUSO DE DIREITO NÃO CONFIGURADO. O ajuizamento da demanda trabalhista após o término do período de estabilidade gestacional não caracteriza abuso de direito pela parte autora, a teor do que dispõe a Orientação Jurisprudencial 399 da SBDI-1 do TST, não constituindo, tampouco, renúncia à garantia de emprego, do que decorre inexistir óbice ao pleito de pagamento de indenização substitutiva (TRT-SC, RO 0000486-61.2015.5.12.0046, em 22-03-2017, relatora Teresa Regina Cotosky). Outra questão que também