Prévia do material em texto
PATOLOGIA GERAL AULA 2 Profª Giane Favretto 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, estudaremos as alterações celulares e teciduais bem como as mudanças morfológicas. Vamos estudar os acúmulos intracelulares de lipídeos (triglicerídeos, colesterol, esfingolipídeos), pigmentos (lipofuscina, melanina, carbono), glicogênio (glicogenoses) e proteínas (degeneração hialina e amiloidoses). Esse acúmulo anormal pode ser resultante de distúrbios metabólicos, da fagocitose de compostos não metabolizáveis, por deficiências em enzima de metabolização e proteínas mal dobradas. Também vamos analisar o processo de calcificação. Por fim, estudaremos alterações teciduais, como a cicatrização e a fibrose. TEMA 1 – ACÚMULOS INTRACELULARES DE LIPÍDEOS Os acúmulos intracelulares de lipídeos, também conhecidos como lipidoses, podem afetar a capacidade funcional das células e são importantes na patogênese de diversas doenças, como a aterosclerose. Sob essa perspectiva, vamos estudar os principais lipídeos acumulados, dentre os quais estão os triglicerídeos (esteatose), o colesterol e os esfingolipídeos. 1.1 Esteatose A esteatose, também conhecida por degeneração gordurosa, consiste no acúmulo intracelular excessivo de lipídeos, tais como monoglicerídeos, diglicerídeos e sobretudo triglicerídeos. O acúmulo de lipídeos pode ser decorrente do aumento da sua captação e síntese bem como do comprometimento da sua metabolização e excreção. Em relação à morfologia, as células apresentam inicialmente diversos vacúolos contendo lipídeos na região intracelular (microgoticular) que coalescem com a progressão da esteatose, formando um vacúolo maior que desloca o núcleo para a região periférica da célula (macrogoticular), como podemos observar na Figura 1. 3 Figura 1 – Histopatologia de um fígado com esteatose. Na imagem, é possível verificar a presença de grandes vacúolos, que são correspondentes ao acúmulo principalmente de triglicerídeos Fonte: Kateryna Kon/Shutterstock. O órgão mais afetado pela esteatose é o fígado, pois é o principal responsável pela metabolização dos lipídeos e, portanto, distúrbios nesse processo podem levar à esteatose. Dessa forma, os hepatócitos podem desenvolver esteatose a partir da captação de quantidades elevadas de ácidos graxos e triglicerídeos da circulação, absorvidos na digestão ou derivados da lipólise do tecido adiposo. Nos hepatócitos, esses lipídeos são normalmente metabolizados em colesterol, fosfolipídeos, esfingolipídeos, triglicerídeos, e também catabolizados no processo de β-oxidação. Porém, em condições patológicas, o processo de oxidação, de síntese e de transporte de lipoproteínas pode esta prejudicado, propiciando a formação de esteatose. As causas da esteatose hepática podem estar relacionadas ao etilismo (alcoolismo), consumo crônico de etanol. Na esteatose hepática alcoólica, o etanol interfere em diversas vias de metabolização dos lipídeos que acarretam no acúmulo lipídico, tais como a redução da β-oxidação dos lipídeos devido ao aumento de radicais livres e a indução da síntese de ácidos graxos com o aumento de acetil-CoA. Já a esteatose hepática não alcoólica está relacionada com a presença de diabetes, obesidade, desnutrição proteica, entre outros fatores. 4 Na esteatose hepática, o fígado apresenta aumento de volume e peso, além de a cor alterar-se para o aspecto amarelado devido à presença de gordura. Na progressão da doença, ocorre inflamação e fibrose no fígado. Nos casos mais graves de esteatose hepática, o paciente pode desenvolver cirrose e hepatocarcinomas. Esse processo pode ser observado no esquema da figura 2. Além do fígado, pode-se encontrar esteatose em células do coração, dos rins, do pâncreas e do músculo esquelético. Figura 2 – Esquema dos estágios da lesão hepática. O acúmulo de lipídeos ocasiona a esteatose hepática, e a sua progressão leva à fibrose e à cirrose. Por fim, podem-se desenvolver hepatocarcinomas e levar ao óbito Fonte: Andrii Bezvershenko/Shutterstock. 1.2 Acúmulo de colesterol O acúmulo intracelular de colesterol está relacionado à patogênese da aterosclerose. Basicamente, a aterosclerose é decorrente da inflamação vascular e do depósito de colesterol e ésteres do colesterol, principalmente lipoproteínas de baixa densidade (LDL) oxidada, na camada íntima das artérias. Macrófagos fazem a captação intensa desse colesterol, dando origem às células espumosas devido ao excesso de colesterol intracelular que pode levar à morte dessas células. Além disso, o colesterol pode ser acumulado nas células musculares lisas vasculares. Dessa forma, forma-se a placa aterosclerótica, caracterizada pelo acúmulo de lipídeos e pelo espessamento da íntima, como é demonstrado na Figura 2. Figura 2 – Processo de patogênese da aterosclerose. O depósito de colesterol na camada íntima dos vasos e a ativação das células endoteliais acarretam no 5 recrutamento de monócitos que se diferenciam em macrófagos. Os macrófagos fazem a captação do colesterol e se tornam células espumosas que são sujeitas à morte celular. Fonte: Designua/Shutterstock. Macrófagos com acúmulo de colesterol também podem ser observados em lesões de pele, denominadas xantomas, geralmente associados ao aumento de colesterol sérico (hipercolesterolemia). Em razão do excesso de gordura, os xantomas apresentam coloração amarelada. 6 1.3 Acúmulo de esfingolipídeos O acúmulo intracelular de esfingolipídeos pode ocorrer devido a deficiências de enzimas lisossomais, de origem genética. As doenças decorrentes do acúmulo de esfingolipídeos são conhecidas como esfingolipidoses. É o caso da Doença de Fabry, no qual a ausência ou a deficiência da enzima α-galactosidase ocasionam o acúmulo lisossomal de globotriaosilceramida (Gb3). Outro exemplo de esfingolipidose é a Doença de Gaucher, que afeta a enzima β-glicosidase e causa o acúmulo de glicosilceramida. Esses acúmulos podem levar à disfunção lisossomal. Em relação à morfologia, ocorre o aumento do tamanho do fígado e baço. TEMA 2 – ACÚMULOS INTRACELULARES DE PIGMENTOS E GLICOGÊNIO As células podem passar a acumular pigmentos, tais como a lipofuscina, a melanina e o carbono. Além disso, a deficiência no metabolismo da glicose pode ocasionar o acúmulo de glicogênio, como veremos a seguir. 2.1 Acúmulo de pigmentos As células podem acumular compostos pigmentosos, de origem endógena ou exógena. Os exemplos mais comuns de acúmulos intracelulares de pigmentos são: • Lipofuscina – A lipofuscina é um pigmento endógeno, composto proteínas e lipídeos, de cor castanho-amarelado, resultante da peroxidação de lipídeos induzida por radicais livres. É um indicador de envelhecimento celular e atrofia; • Melanina – A melanina é um composto endógeno de cor castanha, sintetizado pelos melanócitos e que protege contra a radiação ultravioleta. O albinismo é uma condição genética que acarreta na deficiência da enzima tirosinase nos melanócitos, essencial para a síntese de melanina; • Carbono – O carbono é um composto exógeno, proveniente do ar poluído, de pigmento negro que se acumula no interior das células pulmonares. O excesso de carbono nas células pulmonares é denominado antracose, que acomete principalmente mineiros e pessoas 7 expostas à poluição atmosférica. Na antracose, os pulmões ficam escuros, com diversas manchas negras que consistem em macrófagos com acúmulo intracelular de carbono. 2.2 Acúmulo de glicogênio O acúmulo anormal de glicogênio, as glicogenoses, ocorrem devido a deficiências no metabolismo da glicose. Dentre elas, a mais comum é a Doença de von Gierke, também conhecido como glicogenose tipo I, caracterizada pela deficiência da enzima glicose-6-fosfatase, que leva ao acúmulo intracelular de glicogênio,afetando principalmente os hepatócitos. Esse acúmulo acarreta no aumento do volume do fígado. Além disso, a estrutura microscópica dos hepatócitos apresenta citoplasma vacuolado. O paciente com Doença de von Gierke apresenta hipoglicemia devido à falta de liberação de glicose na circulação. Outro exemplo é a Doença de Cori, ou glicogenose tipo III, que é resultante da deficiência da enzima amilo-1,6-glicosidase, responsável pela desramificação do glicogênio. Consequentemente, o glicogênio se acumula no citoplasma, acometendo principalmente o fígado e os músculos. TEMA 3 – DEGENERAÇÃO HIALINA E AMILOIDOSE A degeneração hialina corresponde ao acúmulo de proteínas, o qual pode ser decorrente de erros no dobramento de proteínas ou agregação proteica. O termo hialino significa semelhante ao vidro, de aspecto vítreo, tal como o acúmulo proteico aparenta nos cortes histológicos. Esse acúmulo intracelular pode apresentar caráter acidófilo e, portanto, ser eosinofílico na coloração hematoxilina e eosinina. Diante disso, veremos a seguir a formação de corpúsculos e o caso de acúmulo do peptídeo β-amiloide (amiloidose). 3.1 Corpúsculos de proteínas As regiões de acúmulo ou agregação proteica podem formar corpúsculos intracelulares. Vamos ver os principais tipos de corpúsculos de proteínas? 8 3.1.1 Corpúsculo hialino de Mallory-Denk Ocorrem em hepatócitos, geralmente associados ao etilismo, hepatites virais, hepatocarcinomas e esteatose não alcoólica. Esses corpúsculos correspondem a filamentos intermediários e proteínas do citoesqueleto que se encontram agregados de forma desorganizada. A causa do surgimento desses corpúsculos está relacionada ao estresse oxidativo celular, no qual há a peroxidação das proteínas induzindo a agregação proteica. 3.1.2 Corpúsculos de Russel São encontrados no retículo endoplasmático rugoso de plasmócitos, células derivadas dos linfócitos B. Esse acúmulo consiste em imunoglobulinas que se agregam. Morfologicamente, são eosinofílicas e arredondadas. 3.1.3 Corpúsculos de Negri Esses corpúsculos são derivados de inclusões do vírus da raiva. Nesse caso, as proteínas virais são acumuladas no citoplasma de neurônios, principalmente no hipocampo e no cerebelo. 3.1.4 Corpúsculos de Councilman – Rocha Lima Ocorre em doenças de hepatites virais e de febre amarela, afetando principalmente o fígado. Esses corpúsculos estão relacionados com a apoptose dos hepatócitos. 3.2 Amiloidose A amiloidose é o depósito de fibrilas amiloides no meio extracelular. Pode ser sistêmica, quando o acúmulo se dá em diversos tecidos, ou localizada, quando contida em uma região. Um exemplo importante é o acúmulo de β- amiloide junto aos neurônios. O acúmulo de β-amiloide no sistema nervoso é associado ao desenvolvimento da doença de Alzheimer, uma doença neurodegenerativa caracterizada pela perda cognitiva progressiva. Dessa forma, o acúmulo de β- amiloide forma placas na região extracelular dos neurônios, comprometendo as 9 sinapses (Figura 3). O excesso de β-amiloide pode ser derivado da maior síntese ou depuração reduzida. Figura 3 – Esquema comparando o cérebro saudável com a Doença de Alzheimer, que contém placas de amiloide Fonte: Designua/Shutterstock. Além das placas de amiloide, a doença de Alzheimer também é caracterizada pela perda neuronal e pela formação de emaranhados neurofibrilares, alterações proteicas intracelulares que levam à sua agregação. TEMA 4 – CALCIFICAÇÃO PATOLÓGICA Em condições patológicas, a calcificação é o processo anormal de depósito de sais de cálcio. Morfologicamente, essa deposição é observada como agregados esbranquiçados nos tecidos. A calcificação é importante, pois pode levar à disfunção do órgão ou do tecido afetado. Por exemplo, a calcificação vascular. Considerando isso, a calcificação patológica pode ser distrófica ou metastática, como veremos a seguir. 10 Figura 4 – Histopatologia mostrando a calcificação vascular, com coloração de hematoxilina e eosina Fonte: Kateryna Kon. 4.1 Calcificação distrófica A calcificação distrófica corresponde ao processo fisiopatológico de calcificação de regiões que apresentam lesão, como em tecidos degenerados ou que sofreram necrose. Um exemplo desse processo é a calcificação de placas ateroscleróticas. Também ocorre em valvas cardíacas lesionadas, o que pode ocasionar a sua disfunção. Outro exemplo é a calcificação de tumores. 4.2 Calcificação metastática A calcificação metastática ocorre na presença de hipercalcemia, ou seja, concentrações elevadas de cálcio no sangue. Afeta de forma disseminada no organismo, incluindo tecidos não lesionados. Geralmente, a calcificação metastática acomete rins, pulmões e parede vascular de artérias. 11 TEMA 5 – ALTERAÇÕES TECIDUAIS: CICATRIZAÇÃO E FIBROSE Os processos patológicos podem ocasionar alterações teciduais. Diante de uma agressão seguida de resposta inflamatória, ocorrem os mecanismos de reparação tecidual. Esses mecanismos dependem de componentes da matriz extracelular, tais como o colágeno, a elastina, os proteoglicanos, as glicoproteínas de adesão, entre outros. Pode haver a regeneração da região lesionada, que depende da capacidade regenerativa das células, a extensão da lesão, o tempo do processo inflamatório, entre outros fatores. Dessa forma, pode ocorrer a cicatrização e a fibrose, que são os próximos temas a ser discutidos. 5.1 Cicatrização A cicatrização é um processo de formação de tecido conjuntivo fibroso em substituição à região lesionada. Para formar a cicatriz, o reparo tecidual após a resposta inflamatória consiste na formação de novos vasos, migração e proliferação de fibroblastos que realizam a deposição de componentes da matriz extracelular. Esses elementos são remodelados para maior estabilidade do reparo tecidual. 5.2 Fibrose A fibrose consiste em um processo de aumento do estroma conjuntivo, com deposição de colágeno e remodelação de um órgão diante de uma lesão crônica. É derivado de um processo inflamatório que induz à formação de matriz extracelular. A fibrose é decorrente do desenvolvimento de doenças crônicas e pode levar a disfunção do órgão. Na progressão da esteatose hepática, como vimos anteriormente, o parênquima do fígado passa por um processo inflamatório e necrose que segue para a fibrose hepática. Isso ocorre comumente em lesões crônicas no fígado, como hepatites virais, etilismo, esquistossomose, entre outros. As fibroses cardíacas também são desenvolvidas em lesões crônicas, como na Doença de Chagas. A principal consequência desse processo é a redução da capacidade contrátil do coração. 12 NA PRÁTICA Paciente do sexo masculino, 56 anos, etilista crônico há 35 anos. O paciente chegou ao hospital apresentando icterícia, ascite, vômitos, dor abdominal e confusão mental. Além disso, não apresentava histórico de hepatites. Exames laboratoriais indicaram um aumento de aspartato aminotransferase (AST), gama glutamiltransferase e bilirrubina. O exame de ultrassonografia indicou o fígado com textura heterogênea. Considerando o estado clínico do paciente e seu histórico, disserte sobre a possível causa e desenvolvimento do processo patológico, abordando as alterações celulares e teciduais. FINALIZANDO Nesta aula, analisamos os acúmulos intracelulares anormais, as calcificações e as alterações teciduais, destacando as características morfológicas macro e microscópicas. Sobre isso, estudamos a esteatose, que é o acúmulo intracelular de triglicerídeos. A esteatose afeta principalmente o fígado, podendo ser alcóolica ou não alcóolica, acarretando a formação de vacúolos de lipídeos intracelulares e também no aumento do tamanho do órgão. O acúmulo de colesterol está intrinsecamente relacionado à patogênese da aterosclerose. Já o acúmulo intracelular de esfingolipídeosé decorrente de deficiências de enzimas lisossomais. O acúmulo de pigmentos intracelulares pode ser de origem endógena, tais como a lipofuscina e a melanina, ou de origem exógena, como o carbono que causa a antracose. Já o acúmulo de glicogênio é decorrente de deficiências no metabolismo da glicose. Estudamos também a degeneração hialina e a amiloidose que são acúmulo e agregação de proteínas intracelular e extracelular, respectivamente. O acúmulo do peptídeo de β-amiloide está relacionado com a Doença de Alzheimer. A calcificação patológica é o depósito de sais de cálcio que afeta os diversos sistemas do organismo, podendo causar a sua disfunção. A calcificação pode ser distrófica e metastática. Por fim, estudamos o reparo tecidual, incluindo a cicatrização e a fibrose.