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TOXICOLOGIA DOS ALIMENTOS
“Toxicologia de alimentos estuda os efeitos nocivos provocados por substâncias químicas presentes em alimentos, para definir as condições (aqui entra a avaliação de risco) em que os alimentos podem ser ingeridos sem causar danos aos organismos”.
· A principal fonte de exposição aos agrotóxicos ocorre através dos alimentos. Um produto é considerado um alimento se for considerado seguro mesmo com a existência de substâncias tóxicas, pois estas se encontram em concentrações mínimas que não são capazes de gerar danos ao organismo. Em contrapartida os agrotóxicos por principio precisam ser tóxicos.
Conceito: “centra-se na análise dos efeitos tóxicos e de substâncias bioativas, e de sua ocorrência em alimentos. É um campo distinto, que avalia os efeitos dos componentes químicos da matriz complexa da dieta sobre a atividade dos agentes tóxicos que podem ser naturais ou produtos endógenos, que podem ser introduzidos a partir de organismos contaminantes, ou do processamento dos alimentos, da sua produção do seu preparo.”
“Os alimentos são considerados seguros para o consumo humano”
· Para que se considere algum produto como alimento, ele tem que ter como principais componentes macro e micronutrientes e isso demonstra que o agente tóxico presente no alimento representa a minoria dos componentes presentes nesse alimento, de preferência no ponto de vista quantitativo.
· Componentes que podem estar presentes e oferecer riscos à saúde humana: 
- compostos tóxicos naturalmente presentes, parte do próprio alimento 
- compostos provenientes do processamento e estocagem
- contaminantes provenientes da água, do solo, das condições ambientais
- aditivos deliberadamente introduzidos em diferentes partes do processamento desses alimentos
a) COMPOSTOS TÓXICOS NATURALMENTE PRESENTES
Glicoalcalóides - característica majoritariamente de vegetais
Glicosinolatos
Glicosídeos Cianogênicos 
Oxalatos – crianças ao ingerirem a planta “comigo ninguém pode” tem a formação de cristais de cálcio na forma de agulha na mucosa podendo levar a morte por asfixia. 
Nitritos
Aminas Biogênicas (ex. histamina)
Toxinas (ex. tetrodotoxina constitutiva do baiacu)
b) COMPOSTOS PROVENIENTES DO PROCESSAMENTO E ESTOCAGEM
Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPA) – presentes em tudo que envolve queima, portanto em qualquer alimento que vá ao fogo, como churrasco, sendo uma parte considerável desse grupo mutagênica/ carcinogênica.
Aminas Aromáticas Heterocíclicas - características de alimentos com proteínas, como o Triptofano que durante o processamento gera essas aminas.
Nitrosaminas – provenientes de alimentos, como carnes.
Acrilamidas e produtos da Reação de Maillard - proveniente do processo de fritura, principalmente da batata, e predominante em alimentos ricos em proteínas. 
- A reação de Maillard inicialmente ocorre entre os grupos amínicos livres de aminoácidos, peptídeos ou proteínas e os grupos hidroxil-glicosídicos dos açúcares redutores. É descrito como uma amina (R-NH2) que ao reagir com um açúcar redutor gera uma base de Schiff. Esta base é capaz de gerar o produto de Amadori (ou desoxicetose) e no final gera uma melanoidina, que são os produtos finais. Essa reação que confere a aparência tostada da comida.
c) CONTAMINANTES DIRETOS E INDIRETOS DE ALIMENTOS
Metais geralmente são de origem de uma produção inadequada, mas também podem ser introduzidas por matérias primas contaminadas durante o processamento dos alimentos.
Compostos N-nitrosos são relacionados ao uso de nitratos e nitritos em alimentos
Micotoxinas
Resíduos de Praguicidas
Resíduos de Medicamentos Veterinários
Migrantes de Embalagens como os solventes extratores (ex. álcool) podem seqüestrar substâncias das embalagens ou como o plástico amarelo que tem cádmio e pode ser seqüestrado pelos alimentos em contato.
d) ADITIVOS INTENCIONAIS
Nutricionais - Cálcio, Ferro, Vitaminas podem causar intoxicação.
Sensoriais - aromas, corantes
Conservantes - classe mais preocupante, pois são produtos que levam a morte de fungos, bactérias e, portanto, tóxicos
Auxiliares no processamento do alimento - estabilizantes, emulsionantes
“Os agentes químicos de interesse para a toxicologia de alimentos são aqueles que podem afetar negativamente a saúde humana e de animais de criação”
Ao falar da toxicidade dos alimentos, não só a quantidade da substância presente no alimento é importante, mas também o quanto é ingerida daquela substância.
MICOTOXINAS
São substâncias químicas produzidas durante o metabolismo secundário de fungos filamentosos que contaminam alimentos e rações animais. O efeito adverso à saúde provocado pela ingestão de alimento ou ração que contém micotoxinas é denominado Micotoxicose.
Aflatoxina
Ocratoxina A
Patulina
Zearalenona (efeito estrogênico)
Tricotenos
Cirinina
Ácido Penicílico
Esterigmatocistina
Rubratoxinas A e B
Citroveridina
Fumomisinas
Os principais gêneros de fungos que causam doenças no homem são o Aspergillus, Fusarium e Penicillium, que são fungos de vida livre, rápido crescimento e produtores de toxinas como aflatoxinas, ocratoxina A, zearanelona, citrinina, tricotecenos, patulina, ácido penicílico, alcalóides do ergot e fumonisinas. 
Importante: a simples presença do fungo não significa a presença da toxina no alimento.
Fatores que influenciam o crescimento de fungos:
- Teor de umidade do alimento
- Umidade relativa do ar - importante na silagem, pois quanto mais seco o ar nos silos de grão, menor o crescimento de fungos e menor a chance de ter micotoxinas presentes.
- Temperatura varia de acordo com a temperatura ideal para crescimento de cada fungo
- Composição do substrato (ex. a castanha do caju não tem aflatoxina porque o substrato não permite, ou o caso da soja que por deficiência em Zn dificulta o crescimento fúngico).
- Linhagem do fungo crescendo
A contaminação é maior em grãos danificados!
AFLATOXINAS
São substâncias derivadas da furanocumarina, provenientes de dois grandes grupos fúngicos, Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus e as principais congêneres são:
- B1 e B2 (blue) que emitem fluorescência azulada; último anel de 5 membros
- G1 e G2 (green) que emitem fluorescência esverdeada; último anel de 6 membros
- M1 e M2 (milk) que não são produzidas por fungo, mas são geradas pelo metabolismo hepático. Estão presentes no leite de mamíferos e produtos derivados de animais que possam ter presente a Aflatoxina M; a M é produto das B.
· Os alimentos mais susceptíveis à contaminação são amendoim, castanha do Brasil, nozes, sementes de algodão e coco, farinha de mandioca e de trigo, alfafa, arroz, feijão, aveia, café e farinha de rosca.
 
Mecanismo de Ação: sofrem oxidação pela via do CYP 450 e forma uma ligação epóxido (AFB1-2,3-epóxido) extremamente reativa e capaz de se ligar a proteínas e ao DNA, principalmente a guanina N7, formando adutos que levam a mutação e posteriormente a hepatocarcinogenicidade.
Efeitos Agudos anorexia, apatia, prostração e alterações nervosas.
Efeitos Crônicos pode causar cirrose hepática, carcinomas hepáticos e teratogênese.
GLICOSÍDEOS CIANOGÊNICOS
São compostos orgânicos formados por uma porção açúcar + porção não-açúcar (aglicona)
 
Mecanismo de Ação: os glicosídeos cianogênicos liberam ácido cianídrico que interrompe a cadeia respiratória e leva a morte através da interação com o citocromo impedindo a transferência de elétrons e o transporte de oxigênio. 
O mais famoso é a Linamarina presente na mandioca brava, que deve ficar cozinhando por 7 dias para eliminar os GC
Tratamento: são usados os agentes metahemoglobinizantes que aumentam os níveis de metaHb para que o ácido cianídrico se ligue preferencialmente ao Fe3+ formando SCN- que não interrompe a cadeia e é excretado facilmente pela urina. O azul de metileno também é um agente metahemoglobinizante usado para reverter essa intoxicação.
Efeitos Agudos hiperpnéia, cefaléia, convulsões, morte
Efeitos Crônicos neuropatia atáxica tropical (TAN) caracterizada por atrofia ótica bilateral, surdez bilaterale polineuropatia; doença de Parkinson, degeneração cerebelar, psicose e demência 
NITRITOS, NITRATOS E COMPOSTOS N-NITROSOS
A ocorrência natural de nitratos em vegetais se deve principalmente a:
- solo rico em nitrato e uso indiscriminado de fertilizantes (mais importante chama NPK – nitrogênio, fósforo e potássio)
- há espécies geneticamente propensas ao acúmulo de nitrato, como vegetais verdes e berinjela
- deficiências nutricionais da planta, como falta de molibdênio
- luminosidade diminuída durante a maturação
- danos na plantas por tratamentos químicos
- falta de água
· O nitrato se converte microbiologicamente em nitrito
Essa conversão se dá por má conservação de alimentos após o cozimento, condições inadequadas de umidade e temperatura ou por interrupção da baixa temperatura de alimentos congelados.
Uso intencional: aditivo intencional é toda substância ou mistura de substâncias, dotadas ou não de valor nutritivo, adicionada ao alimento com finalidade de impedir as alterações, manter, conferir ou intensificar seu aroma, cor e sabor, modificar ou manter seu estado físico geral ou exercer qualquer ação exigida para uma boa tecnologia de fabricação do mesmo.
· Sais de nitrato e nitrito de sódio e potássio são muito utilizados em produtos embutidos de carne, conferindo sabor e uma aparência vermelha de “carne fresca”, além de funcionar conservante e antioxidante para evitar principalmente o botulismo causado pelo Clostridium botulinum.
Formação dos compostos N-nitrosos
Um dos problemas dos nitratos e nitritos é a formação dos compostos N-nitrosos, relacionados a compostos ricos em proteínas, formados a partir da nitrosação de aminas, amidas (uréias substituídas), aminoácidos ou proteínas. Estão presentes em duas classes:
- Classe I chamada nitrosaminas no qual o R1 e R2 são radicais arilo ou alquilo, são mais freqüentes e carcinogênicas.
- Classe II chamada nitrosamidas no qual os radicais são nitrocarbamatos e nitrosouréias.
Produzidos através da reação química entre aminas e amidas com um agente nitrosante, obtido a partir do nitrito
Nitratos
Estão presentes na água; são precursores dos nitritos (agentes formadores de metaHb) e compostos N-nitrosos (compostos carcinogênicos) que podem interferir no metabolismo da vitamina A e nas funções da glândula tireóide. 
Nitritos
Cerca de 70-80% de nitrito são formados endogenamente na saliva, e são responsável pela formação de metaHb que se dá pela conversão de Fe2+ em Fe3+. O nitrito também age aumentando as concentrações de metaHb interferindo nas enzimas diaforase reduzida e diaforase oxidada na conversão de metaHb em oxiHb pelos co-fatores NAD e NADH. 
- pode levar a cianose assintomática quando a concentração de metaHb até 10%; entre 20-30% cefaléia, taquicardia e inconsciência (pouco frequente); 50-70% há risco de morte. 
Importante: os neonatos na fase de amamentação podem beber leite e se exporem a nitritos e nitratos. O neonato tem uma maior acidez gástrica que favorece o crescimento de bactérias redutoras de nitratos a nitritos, e essa geração de nitritos associada a alta quantidade de Hb fetal torna esse grupo bastante susceptível a intoxicação por nitritos.
- a Hb fetal é mais sensível e corresponde de 60-80% da Hb total nos neonatos
- acidez do estômago favorece o crescimento de bactérias redutoras de nitrato em nitrito
- ingerem cerca de 10x mais água que um adulto
- baixa atividade da NADH metemoglobina redutase
Tratamento: é feito ao reativar o sistema de NADPH-metemoglobina redutase - diaforase utilizando um transportador artificial de elétrons, o azul de metileno que é convertido em azul de leucotrieno, favorecendo o sistema de diaforase e consequentemente a conversão de metaHb em oxiHb. Como tratamento auxiliar utiliza-se ácido ascórbico (vitamina C) como aceptor de elétrons. Não é comum precisar de tratamento
O grande alvo das nitrosaminas simétricas como dimetilnitrosamina e dietilnitrosamina é o fígado, já as nitroaminas assimétricas, principalmente com pelo menos um radical metila é no esôfago. No estomago, por presença das bactérias, aumentam a formação de compostos N-nitrosos que agem no próprio local onde estão sendo formados
Efeitos tóxicos dos compostos N-nitrosos necrose do fígado (agudo), mutagênicos, teratogênicos, carcinogênicos.
- podem promover a formação de tumores após dose única
- induzem a neoplasia transplacentalmente
- apresentam especificidade por determinados órgãos
- ativos em todas as espécies testadas
ASPECTOS TOXICOLÓGICOS DOS AGROTÓXICOS
O termo correto é praguicida, só que muitos chamam de pesticidas, que seria uma tradução errônea. 
Definição: no Brasil os agrotóxicos são definidos na Lei n° 7.802 (1990) como os “produtos químicos destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e na proteção de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da fauna ou da flora, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como as substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, estimuladores e inibidores do crescimento”.
Já os praguicidas poder ser definidos como “qualquer substância ou mistura de substâncias introduzidas deliberadamente no meio ambiente com a intenção de prevenir, destruir, repelir ou mitigar pragas”.
Inseticidas (insetos)
Herbicidas (plantas)
Fungicidas (fungos)
Rodenticidas (roedores)
Acaricidas (ácaros)
Muluscicidas (moluscos)
Larvicidas (larvas)
Pediculicidas (piolhos)
RISCO - Pode levar a uma toxicidade aguda ou crônica para organismos não alvo (incluso diretamente o homem)
BENEFÍCIO - Aumento na produção agrícola
Controle de vetores de doenças
Controle de pragas domésticas
Principais objetivos do uso dos agrotóxicos
- aumentar o rendimento e a qualidade da produção de alimentos
- proteger a saúde de seres humanos e outras espécies animais - expulsão de espécies invasoras 
- preservar florestas e fontes de fibras 
- melhorar as oportunidades de recreação (ex. uso de algicidas na piscinas)
Principais problemas associados ao uso de agrotóxicos
- utilização indiscriminada podendo levar a resistência
- ausência de especificidade podendo ter ação no homem
- persistência nos compartimentos ambientais quando as moléculas permanecem no ambiente
- acúmulo no homem e em animais – como um bom inseticida tem de ser lipossolúvel para ingressar facilmente no organismo por difusão simples, a chance de bioacumular e biomagnificar na cadeia alimentar aumenta.
Atualmente o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
Teoricamente os agrotóxicos passam por 3 instituições para conseguir o registro, sendo uma avaliação tripartite. Envolve o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que verifica a eficiência agronômica (se é bom para aquilo que deve ser), o IBAMA, que é uma autarquia do Ministério do Meio Ambiente, preocupados com os aspectos ecotoxicológicos e a ANVISA que se preocupa com a avaliação toxicológica (efeitos nos seres humanos).
Os agrotóxicos são classificados pela OMS por grau de toxicidade (referência a saúde humana), baseado em dados de DL50 oral e dérmica, pois os produtos têm uma alta lipossolubilidade, tendo uma absorção dérmica razoável. E também classificado em sólidos e liquidos, porque virtualmente a chance de se intoxicar com sólidos é maior. A classificação também pode ser feita em relação a classe química.
ORGANOFOSFORADOS
Os inseticidas fosforados são ésteres fosfóricos que surgiram no final dos anos 1930 e início dos anos 1940. Nesse período os organoclorados eram mais utilizados por serem mais estáveis no ambiente e bem mais baratos, porém com a proibição na década de 70, os organofosforados passaram a reinar.
· Existem 2 grupos de organofosforados, um que tem =O (terminam em ON) que estão prontamente ativos e os que tem =S que precisam ser biotransformados (oxidados) a forma OXON para causar o efeito.Tanto eles quanto os carbamatossão inibidores da AchE, são muito tóxicos para o ser humano e outros mamífeiros, alem de insetos. Envolve transmissão nervosa tanto nicotínica quanto muscarinica. Degrada Ach em colina e ácido acético.A ACh se acumula na fenda levando a uma crise colinérgica.
São utilizados na agricultura e pecuária como inseticidas, acaricidas, nematicidas e fungicidas; e divididos em diversas subclasses de acordo com suas características químicas (fosfatos, fosforotioatos, fosforamidas, fosfonatos, etc).
 Os Cl na molécula aumentam a lipossolubilidade e aumenta sua estabilidade.
 SARIN usado como arma química e não são vendidos sem controle.
Os organofosforados Tabun, Sarin, Ciclosarin, Soman, VX e VR foram utilizados como gases de guerra por serem super tóxicos e apresentarem uma DL50 baixíssima.
Propriedades físico-químicas
- são insolúveis ou muito pouco solúveis em água (porque são lipossolúveis)
- solúveis na maioria dos solventes orgânicos (o solvente utilizado no produto comercial contribui para a toxicidade)
- decomposição lenta em meio aquoso e rápida em meio alcalino
- não se acumulam no ambiente ou nos organismos (isso que fez eles ganharem o mercado)
- facilmente oxidados em oxons (se tornam ativos facilmente)
- isomerização quando armazenados de forma inadequada (pode mudar o potencial de toxicidade para mais ou menos)
Toxicocinética
- Absorção: são bem absorvidos pelo TGI, pulmões, pele e mucosas. Na pele em geral os produtos tem baixa absorção dérmica, mas os inseticidas são de contato e precisam ser bem absorvidos por qualquer via.
- Distribuição: são levados a todas as partes do organismo, atingindo maiores concentrações no tecido adiposo, fígado (metabolismo de lipídeos e produção de lipoproteínas), rins, glândulas salivares, tireóide, pâncreas, pulmões, paredes do estômago e intestino. Em menores proporções podem estar no SNC e nos músculos.
- Excreção: difícil, predominantemente pela urina e pequena quantidade pelas fezes.
- Biotransformação: complexa, mas se sabe que para os compostos que possuem átomos de S ligados ao átomo de P a bioativação é necessária para a manifestação dos efeitos tóxicos, pois somente os compostos P=O são efetivamente capazes de inibir a enzima AchE. A etapa de dessulfuração oxidativa ocorre principalmente no fígado e é catalisada por enzimas do CYP450 gerando as formas “oxon”. Outro mecanismo importante para o inseticidas OF é a oxidação de tioésteres com formação de um sulfóxido (S=O), seguida da formação de uma sulfona (O=S=O); e ai sim consegue chegar na detoxificação por hidrólise via paraoxonase.
Toxicodinâmica
- são potentes inibidores da enzima AchE. A enzima butirilcolinesterase, também conhecida como pseudocolonesterase (PChE) também é inibida pelos OF. A inibição da AchE e da PChE ocorre nas junções sinápticas e nas hemácias. Na junção sináptica é o que causa as crises colinérgicas. Nas hemácias mede o biomarcador indireto de efeito ao medir a inibição das enzimas dos eritrócitos, podendo estimar quanto está inibido nas junções sinápticas. Verifica a atividade das esterases e através dela se estima o quanto está inibindo na transmissão nervosa, sendo um biomarcador de efeitos para a exposição à OF e carbamatos.
- bloqueio de AchE leva a um acúmulo de elevadas quantidade de Ach nos receptores muscarínicos (presentes em células secretoras colinérgicas) e nos receptores nicotínicos (presentes nas JNM e gânglios autônomos) e no SNC, pois a pouca quantidade que chega é capaz de inibir.
- a ligação entre o OF e a enzima é forte e estável, conhecida como envelhecimento, pois não é revertida naturalmente
Obs.: a enzima tem dois sítios de ligação, e os OF podem se ligar a qualquer um, enquanto os carbamatos só se ligam em 1 sitio, e a ligação é covalente e estável.
Alem desses sinais clássicos de Intoxicação aguda existe o fenômeno que é a Polineuropatia Retardada que é induzida por alguns OF, acontece de 2-3 semanas após a exposição, após a intoxicação aguda, que tem como sinais formigamento das mãos e pés seguido de perda sensorial, fraqueza muscular progressiva e flacidez da musculatura esquelética das extremidades superiores e inferiores, ataxia e mediada pelas esterases neurotóxicas.
A Síndrome Intermediária são alterações neurológicas que ocorrem de 24-96h após a intoxicação aguda, desenvolvendo fraqueza muscular (respiratória, flexores do pescoço e membros inferiores).
E Toxicidade Crônica que embora a existência dos efeitos seja controvérsia, há os que acreditam que exposições abaixo daquelas que inibem a AchE podem levar a efeitos no SNC e pode haver tolerância aos efeitos colinérgicos.
CARBAMATOS
São derivados do ácido carbâmico (N-metilcarbamatos). A toxicidade aguda dos congêneres dessa classe varia de pouco tóxica (carbaril) a extremamente tóxica (aldicarb - “chumbinho”). Também inibem a AchE levando a efeitos semelhantes aqueles causados por OF, porém são considerados menos tóxicos que os OF porque essa ligação é instável e se rompe naturalmente.
Propriedades físico-química
- sólidos de coloração branca
- muito pouco solúveis em água
- solúveis na maioria dos solventes orgânicos
- estáveis nas condições normais de armazenamento (não sofrem isomerização, facilitando o tratamento)
- instáveis em meio alcalino e em temperaturas elevadas 
Toxicocinética
Os efeitos no SNC em geral são menos pronunciados que os OF porque tem mais dificuldades em atravessar a BHE.
- Absorção: formulação do tipo pó ou pó-molhável são pouco absorvidas pelos seres humanos. O solvente das formulações pode favorecer a absorção dos carbamatos, incluindo a absorção dérmica do carbaril que não é considerada importante e pode ser afetada pelo solvente do produto. E rapidez e eficácia na absorção pelo TGI.
- Distribuição: é rápida e as maiores concentrações são atingidas nos órgãos responsáveis pela biotransformação, não havendo evidência de acumulação.
- Biotransformação: hidrólise do grupo éster carbâmico. Várias reações de oxidação e redução envolvendo enzimas do CYP450.
- Excreção: principalmente pela urina e pelas fezes e de 80-90% eliminada pela urina.
Toxicodinâmica
- Inibem a AchE rapidamente de forma reversível, não tem envelhecimento da enzima e portanto sua toxicidade é mais breve, cessando mais rapidamente que os OF. 
- A toxicidade dos solventes dos produtos comerciais deve ser considerada, como com xileno, ciclo-hexanona, nafta que também são depressores do SNC.
- Sinais e sintomas semelhantes aos OF
Tratamento
- Medidas gerais de descontaminação: descartar os trajes da pessoas, lavagem da área de contato, carvão ativado
- Desobstrução e aspiração das secreções, manutenção das funções respiratórias e cardiovasculares
- Antes das medidas específicas é necessário controlas as convulsões com BDZ, como diazepam
- Atropina, um agente muscarínico que vale tanto pra carbamatos quando OF; bloqueia o receptor muscarínico, bloqueando o acesso da Ach ao receptor. Deve ser administrada até o indivíduo começar a apresentar sinais de intoxicação por Atropina, que será o inverso dos sinais de intoxicação colinérgica. 
- Pralidoxima, um reativador enzimático que vale apenas para OF; não funciona pra carbamato porque a ligação é reversível, já pro OF ele desliga o composto da enzima.
PIRETRINAS E PIRETRÓIDES
São os mais utilizados porque são pouco tóxicos para mamíferos, produzidos a partir das piretrinas presentes nos estratos das flores do crisântemo. As piretrinas naturais são uma mistura de seis ésteres e facilmente degradadas pela presença da luz solar, por isso se modificou para se tornar mais estável, criando os piretróides que são divididos em tipo I (não tem ciano substituído na posição alfa) que causa síndrome T caracterizada por tremores e tipo II (tem ciano substituído na posição alfa) que causa a síndrome CS caracterizada por coreatetose (movimentos involuntários) e salivação. 
Toxicocinética
- Absorção: prontamente absorvidos por VO e em pequenas quantidades por via dérmica, que diminui bastante umaintoxicação, precisando ser ingerido para o ingresso de uma quantidade razoável.
- Distribuição: rapidamente distribuídos e devido a lipossolubilidade e presença de glicoproteínas transportadoras atingem o SNC com certa facilidade.
- Biotransformação: rapidamente por duas vias, hidrólise da ligação éster por ação das enzimas carboxilesterases ou oxidação da ligação alcoólica via CYP450. 
Obs.: Quando se tem produtos que tem OF e piretróides isso agrava a intoxicação por OF, porque as esterases envolvidas na inativação (ex. paroxonases) compete pela enzima agravando uma intoxicação por OF.
- Excreção: rapidamente liberados por via renal. Não bioacumula e não há evidências de recirculação entero-hepática.
Toxicodinâmica
- São inibidores seletivos e potentes do canal de sódio, com o mesmo mecanismo dos organoclorados. Piretróides tipo I agem principalmente nos canais de sódio voltagem dependente e do tipo II atuam também nos transportadores voltagem dependentes de cloreto. 
- Tipo I: afetam os canais de sodio em membranas de células nervosas causando descargas neuronais repetidas e um período maior de repolarização.
- Tipo II: produzem maior atraso na inativação do canal de sódio, levando a despolarização persistentes da membrana, sem descargas repetitivas. 
O Piretróide age, abre o canal de sódio, inativa temporariamente o canal e mantém aberto, tendo um influxo permanente, que leva a esses movimentos involuntários.
Sinais e Sintomas
Em geral os quadros de toxicidade aguda são leves e moderadas, a menor que a pessoa seja alérgica pode ser fatal.
- Em exposições dérmicas: eritema, vesículas, parestesia e sensação de queimação e prurido.
- Após a inalação: coriza, congestão nasal e sensação de garganta arranhando.
Pessoas sensíveis podem apresentar hipersensibilidade (cutânea e/ou ofegante). São observados espirros, respiração ofegante, broncoespasmo, rinite, sinusite, faringite, bronquite e pneumonite.
- Em exposição por via digestiva: dor epigástrica, náusea e vômito. Os sintomas sistêmicos mais importantes são sonolência, cefaléia, fadiga e fraqueza.
Nos casos mais graves podem ser observadas fasciculações musculares intensas nas extremidades e alterações no estado de consciência que variam de sonolência à coma. Podem ocorrer convulsões tônico-clônicas e não há um tratamento específico por não ser freqüente.
ORGANOCLORADOS
Foram os primeiros produtos produzidos industrialmente e comercializados em larga escala. Incluem o DDT e seus análodos aldrin, dieldrin, endrin, clordano, lindano, mirex, etc. O DDT ficou famoso pela “Primavera Silenciosa”, eleito como o maior problema ambiental durante muitos anos por causa da persistência ambiental e dos danos em não alvos. 
Possuem toxicidade aguda moderada (menores que os inseticidas OF) porém apresentam efeitos crônicos como hepatotoxicidade, interferência endócrina e danos ao sistema reprodutor.
· São estruturas cíclicas com cloros, e quanto mais cloros mais estável e mais lipossolúvel.
Características físico-químicas
- elevada lipossulubilidade e elevada estabilidade química (faz com que permaneçam no ambiente)
- baixa volatilidade e baixas taxas de biotransformação e biodegradação 
- fáceis de serem sintetizados e de baixo custo
- capacidade de bioacumulação e biomagnificação (caso da “Primavera Silenciosa”)
Proibido no Brasil desde 1985
Toxicocinética
- Absorção: elevada, com passagem através das membranas por difusão simples.
- Distribuição: por todo o organismo, principalmente para tecidos com alto teor lipídico. Podem se armazenar no tecido adiposo (meia vida de ~10 anos)
- Biotransformação: por oxidação via CYP450. Ocorre a desalogenação oxidativa como forma de detoxificação.
- Excreção: de metabólitos desalogenados/conjugados na urina e pela bile.
Toxicodinâmica
Todos os compostos dessa classe neurotóxicos, porque agem em canais de sódio dos neurônio e o mecanismo não é totalmente elucidade.
Efeitos nocivos: variam com a classe dos compostos, mas os mais comum são tontura, cefeléia, anorexia, náuseas, confusão mental, alterações visuais, ansiedade, tremores, hiperexcitabilidade nervosa, fraqueza muscular e convulsão (devem ser tratadas inicialmente). 
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