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Síndrome Coronariana Crônica MECANISMOS FISIOPATOLÓGICOS DA ISQUEMIA MIOCÁRDICA → INTRODUÇÃO A doença arterial coronariana (DAC) estável tem como principal causa a obstrução de uma ou mais artérias coronárias por placas ateroscleróticas - A palavra “estável” explica como essa doença se comporta: de forma estável. Não há progressão dos sintomas, os pacientes apresentam uma dor precipitada geralmente pela mesma intensidade de atividade física, de caráter crônico (> 2 meses de duração) e que não muda de padrão. O eletrocardiograma (ECG) geralmente é normal, e os marcadores de necrose miocárdica, negativos. Anatomia → FISIOPATOLOGIA Isquemia - A angina é o resultado final da isquemia que ocorre devido ao desbalanço entre a oferta e o consumo de oxigênio pelo miocárdio. A autorregulação coronariana é o que mantém uma oferta constante de oxigênio para o miocárdio, mesmo quando há uma grande variação da pressão de perfusão coronariana - A vasodilatação pode aumentar o fluxo coronariano de repouso em até cinco vezes, fenômeno conhecido como reserva de fluxo coronariano. Quando a pressão de perfusão ultrapassa o limite inferior da autorregulação, a circulação coronariana já se encontra na sua vasodilatação máxima e, dessa forma, ocorre a isquemia miocárdica. - A resposta à isquemia pode ser representada pela cascata isquêmica, que se inicia com alterações metabólicas devido à hipoperfusão, evoluindo para disfunção diastólica, disfunção sistólica, alterações eletrocardiográficas (do segmento ST) e, por fim, para sintomas de angina → Resultado: menos oxigênio chega ao coração → ocorre isquemia (sofrimento do músculo cardíaco por falta de oxigênio) → surge a angina (dor no peito) Aterosclerose - A velocidade de progressão da placa é altamente dependente da localização e dos fatores individuais. A aorta abdominal, as artérias coronárias, as artérias ilíacas e femorais, e as bifurcações carotídeas são as mais afetadas. - O grande vilão desse mecanismo é o LDL. A formação da placa aterosclerótica inicia-se com a agressão ao endotélio por diversos fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia e tabagismo. - Como resultado, ocorre a disfunção endotelial, que aumenta a permeabilidade da camada íntima às lipoproteínas plasmáticas e favorece a retenção dessas no espaço subendotelial. A LDL retida na camada íntima fica sujeita à oxidação e modificação celular. - Uma resposta imune é desencadeada e reage à LDL oxidada, resultando numa reação multifacetada. Esse é o início de um processo pró-inflamatório crônico na parede arterial, que culminará na formação da placa aterosclerótica. - Continuando o processo, as células endoteliais e as células musculares lisas (CMLs) reagem à LDL oxidada e expressam moléculas de adesão (molécula de adesão intercelular [ICAM-1], E-selectina, molécula de adesão vascular [VCAM-10]) e citocinas (interleucinas 6 e 8), que interagem com receptores dos monócitos circulantes e estimulam sua migração e diferenciação em macrófagos. - Na íntima, as células recrutadas fagocitam a LDL oxidada e formam as células espumosas (macrófagos cheios de lípides), com acúmulo de colesterol no seu interior. As células espumosas são o principal componente das estrias gordurosas, lesões iniciais da aterosclerose. - Inicialmente, a função dos monócitos/macrófagos seria protetora, removendo a LDL modificada da íntima e minimizando seus efeitos sobre o endotélio vascular. - Porém, as células espumosas acabam exacerbando o estado pró- inflamatório, expressando mais citocinas e outras moléculas de adesão (como a P-selectina) e favorecendo a migração de monócitos e linfócitos T para a íntima arterial. - Ao mesmo tempo, CMLs migram da camada média para a íntima e passam a produzir citocinas, fatores de crescimento e matriz extracelular rica em colágeno e proteoglicanos. Dessa maneira, a placa gordurosa evolui para uma lesão fibrogênica. - O resultado é o espessamento da camada íntima, com formação de uma capa fibrosa que tende a isolar o conteúdo lipídico. Tanto as CMLs quanto os macrófagos e as células espumosas sofrem apoptose e morte celular, resultando na formação do núcleo lipídico-necrótico que compõe a placa aterosclerótica. - A necrose das lesões predispõe a eventos cardiovasculares. Na sua ausência, a aterosclerose seria muito menos perigosa. → CAUSAS DA ISQUEMIA MIOCÁRDICA - Quando falamos em angina estável, a primeira coisa que deve vir à mente é que o paciente tem uma DAC com placa aterosclerótica estável. Essa “estabilidade da placa” é responsável pelo caráter não progressivo da dor, já que ela não aumenta de tamanho e, consequentemente, não resulta na piora dos sintomas - Já na angina instável, o próprio nome sugere o comportamento da placa. Essa instabilidade faz com que a placa progrida e sofra ruptura, resultando em obstrução arterial aguda e dor torácica típica da angina instável. A placa instável é menor quando comparada a estável, mas muito mais perigosa ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO Estratificação de risco cardiovascular - Existem vários escores de risco cardiovascular, e o mais recomendado é o Escore de Risco Global (ERG), que estima o risco de infarto do miocárdio, AVC, insuficiência cardíaca ou insuficiência vascular periférica em 10 anos. - Ele deve ser utilizado na avaliação inicial dos indivíduos que não foram considerados de muito alto ou alto risco pelos critérios que discutiremos a seguir. Ele é encontrado pelo aplicativo obtido no site do Departamento de Aterosclerose da SBC. - Etapa 1: presença de doença aterosclerótica significativa (coronária, cerebrovascular, vascular periférica), com ou sem eventos clínicos ou obstrução ≥ 50% em qualquer território arterial? - Se sim, o paciente é de muito alto risco. Se não, siga para o passo 2. - Etapa 2: o paciente é portador de diabetes mellitus tipo 1 ou 2? - Se sim, utilize os estratificadores de risco (ER) e de doença aterosclerótica subclínica (DASC). Se presentes, alto risco. Se ausentes, risco intermediário. - Etapa 3 (em não diabéticos): portadores de aterosclerose na forma subclínica documentada por metodologia diagnóstica? - Se sim, alto risco. Se não, ir para a etapa 4. - Etapa 4: utilizar a pontuação fornecida pelo ERG de acordo com as variáveis sexo, idade, PAS, PAS tratada/não tratada, tabagismo, uso de estatina, colesterol total, colesterol HDL Estratificação em pacientes com uso de estatina - Nos pacientes que já fazem uso de terapia hipolipemiante, o uso dos escores de risco cardiovascular é mais impreciso. Dessa forma, é recomendado utilizar um fator de correção para o cálculo do ERG. - É só multiplicar o colesterol total por 1,43. Porém, o uso desse fator de correção tem limitações, principalmente naqueles pacientes que usam estatinas potentes em doses altas (atorvastatina, rosuvastatina). - Para esse perfil de pacientes, o cálculo do colesterol total basal pode ser subestimado. Um detalhe importante: o escore de risco é dinâmico, ou seja, o risco cardiovascular calculado pode alterar-se após o controle farmacológico e não farmacológico. - Mesmo que o valor do LDL do paciente seja muito menor do que a meta preconizada pelo ERG, a dose e a intensidade do tratamento não devem ser modificadas. Outros - O escore mais usado para avaliação do prognóstico é o de Escore de Duke, que mede o tempo de exercício, a variação do segmento ST e o grau de angina durante o TE. O escore varia de –25 (alto risco) a +15 (baixo risco). DIAGNÓSTICO 1) Anamnese e exame físico - A apresentação clínica é variável, com pacientes apresentando dor torácica típica, pacientes assintomáticos ou, ainda, com sintomas atípicos (equivalentes isquêmicos). - A angina típica é descrita como um desconforto torácico (constrição, aperto, peso, queimação) que pode irradiar para regiãocervical, mandíbula, dorso, epigástrio ou membros superiores, com duração menor do que 10 minutos. - Frequentemente, é desencadeada ou agravada por atividade física ou por estresse emocional e aliviada com repouso ou com uso de nitratos (normalmente, a melhora ocorre em menos de 5 minutos). - Para classificação adequada da dor torácica, três dados da anamnese são fundamentais: 1) localização e tipo; 2) irradiação ou sintomas associados (dispneia, sudorese, palidez); 3) fatores desencadeantes - A angina típica equivale às dores do tipo A e B, enquanto a atípica equivale aos tipos C e D. Um cardiologista americano observou que os pacientes faziam repetidamente um mesmo sinal na hora de descrever a dor torácica anginosa, colocando o punho cerrado sobre o peito. Esse sinal recebeu o seu nome: sinal de Levine - Uma dor acima da mandíbula, abaixo do epigástrio ou localizada em uma região pontual do tórax, raramente é anginosa. - Alguns pacientes podem apresentar os famosos equivalentes isquêmicos: dispneia, síncope, fadiga ou palpitações - A dor do tipo pleurítica (em pontada ou “agulhada”) ou aquela reproduzida por movimento ou palpação do tórax não são sugestivas de angina. Dor constante, por várias horas, ou episódios fugazes que duram segundos, também são menos prováveis de serem angina. - A maioria dos pacientes apresenta exame físico normal. Porém, durante o episódio de angina, pode ocorrer indícios da existência ou não de DAC. Terceira bulha (B3) ou galope, quarta bulha (B4), sopro de insuficiência mitral, desdobramento paradoxal de segunda bulha (B2) e crepitações pulmonar bibasal são achados sugestivos e preditores de DAC. - Achados de doença aterosclerótica em outros territórios, como pulsos em membros inferiores diminuídos, endurecimento arterial e aneurisma de aorta abdominal, aumentam a probabilidade de DAC. - A classificação de Diamond-Forrester estima a probabilidade pré- teste de DAC em pacientes sintomáticos de acordo com idade e sexo. É de grande utilidade na hora de indicar a realização de um exame diagnóstico 2) Diagnóstico diferencial - Em todos os pacientes, mesmo naqueles com angina típica, as doenças que podem precipitar precordialgia devem ser consideradas. A dor torácica pode ter origem cardíaca ou não cardíaca. - Na dor de origem cardíaca, muita atenção às causas de angina “funcional”, ou seja, aquelas que provocam isquemia miocárdica na ausência de obstrução coronariana anatomicamente significativa. 3) Exames complementares a. Exames laboratoriais - Nos pacientes com DAC, anormalidades metabólicas e fatores de risco cardiovasculares são frequentemente encontrados. Todos os pacientes suspeitos devem realizar perfil lipídico, glicemia de jejum e função renal com estimativa da taxa de filtração glomerular. - A dosagem da lipoproteína (a) é indicada em casos selecionados: - Pacientes com doença cardiovascular precoce; - História familiar de doença cardiovascular precoce; - Pacientes com hipercolesterolemia familiar; - Pacientes com eventos cardiovasculares recorrentes, apesar do uso das estatinas e controle dos outros fatores de risco. - A troponina ultrassensível e o NT-proBNP podem ser detectados em pacientes com DAC e possuem valor prognóstico (estão associados a um maior risco de eventos). b. Eletrocardiograma - O ECG de repouso é indicado a todos os pacientes, mas é normal em até metade dos casos. Os achados mais característicos são as alterações inespecíficas do segmento ST, onda T e ondas Q patológicas. - Durante o episódio de angina, o ECG se torna alterado em 50% ou mais dos pacientes com ECG de repouso normal. Nesses casos, a depressão do segmento ST é o achado mais comum. Um ECG de repouso normal sugere a presença de função do ventrículo esquerdo (VE) preservada (> 50%) c. Radiografia de tórax - Normalmente, é o primeiro exame de imagem a ser realizado nos pacientes com dor torácica e possui grande valor na determinação dos diagnósticos diferenciais de angina (pneumotórax, dissecção de aorta, tromboembolismo pulmonar, pneumomediastino, fraturas de costela e infecções agudas - Está indicado nas seguintes situações: Pacientes com DAC e sinais ou sintomas de insuficiência cardíaca congestiva; Pacientes com sinais e sintomas de doença pulmonar d. Ecocardiograma - O ecocardiograma possui um importante papel no diagnóstico e no prognóstico de DAC, sobretudo naqueles pacientes em que a história clínica e o ECG são inconclusivos. Por ser um exame que possibilita a avaliação da contração do ventrículo esquerdo, permite a documentação da extensão e da gravidade da isquemia. - Pode ser realizado por meio de estresse físico (bicicleta ergométrica) ou, na maioria das vezes, com estresse farmacológico com dobutamina. O exame é considerado positivo quando há hipocinesia ou acinesia naqueles segmentos que apresentavam contratilidade normal em repouso, ou quando há piora da contratilidade em segmentos previamente hipocinéticos. - Nesses segmentos, quando há melhora da contratilidade com baixas doses de dobutamina seguida de piora da hipocinesia com doses mais elevadas, dizemos que o músculo cardíaco é viável. Caso haja fibrose (ausência de viabilidade), não haverá modificação da contratilidade, mesmo após a infusão de doses mais elevadas de dobutamina. - O ecocardiograma de estresse é um exame seguro, mas é operador-dependente e limitado, sobretudo quando a janela ecocardiográfica está prejudicada (imagens de difícil aquisição). As principais são - Avaliação de dor torácica em pacientes que não conseguem fazer esforço físico; - Avaliação de isquemia miocárdica em indivíduos assintomáticos com teste ergométrico positivo ou duvidoso; - Avaliação de dor torácica em pacientes com bloqueio de ramo esquerdo (BRE) ou infra de ST ≥ 1 mm; - Determinação de viabilidade miocárdica (músculo cardíaco que ainda está vivo após injúria cardíaca); - Avaliação funcional em pacientes com lesões coronarianas conhecidas; - Pré-operatório de cirurgia não cardíaca de pacientes com três ou mais fatores de risco para DAC e que não podem se exercitar e. Teste ergométrico - É o exame não invasivo mais utilizado na angina estável. Para avaliação de DAC crônica, as principais indicações são: - Pacientes com probabilidade pré-teste intermediária que conseguem se exercitar e com ECG interpretável (ausência de BRE, marca-passo, depressão do segmento ST > 1 mm em repouso); - Avaliação de prognóstico de DAC conhecida (ver a capacidade funcional, os sintomas); - Suspeita de angina vasoespástica (Prinzmetal); - Avaliação de indivíduos assintomáticos com mais de dois fatores de risco; - História familiar de doença cardiovascular precoce ou de morte súbita. Geralmente, em pacientes assintomáticos, não há necessidade de solicitar TE. Exceções: pacientes que iniciarão atividade física intensa e vigorosa, profissões de alto risco (ex: piloto de avião) e evidências de aterosclerose em exames não invasivos, bem como naqueles pacientes com escore de risco cardiovascular alto. - Interpretação do TE: deve ser baseada em dados clínicos, eletrocardiográficos, hemodinâmicos e em escores prognósticos. - Nas variáveis clínicas, os sinais e os sintomas relatados pelos pacientes são de grande importância e devem ser detalhados com todas as suas características. A ocorrência de angina típica, por si só, é considerada como equivalente de isquemia ao exercício. - Ao analisar o ECG, as modificações do segmento ST e da onda U são valorizadas. As seguintes alterações do segmento ST (no exercício ou na recuperação) são consideradas sugestivas de isquemia: i. Infradesnivelamento com morfologia horizontal ou descendente ≥ 1mm, aferido no ponto J; ii. Infradesnivelamento com morfologia ascendente ≥ 1,5 mm, em indivíduos de moderado ou de alto risco de DAC; > 2 mm em indivíduos de baixo risco(aferido no ponto Y, ou seja, a 80 ms do ponto J). f. Cintilografia de perfusão miocárdica (CPM) - Avalia o coração nos aspectos de perfusão miocárdica, integridade celular, metabolismo, contratilidade e função global ou segmentar. - As imagens são registradas por meio da técnica tomográfica SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography) e o exame é realizado em quatro etapas: i. Esforço físico (esteira ou bicicleta ergométrica) ou farmacológico (dipiridamol); ii. Injeção do radiofármaco: tecnécio-sestamibi (mais comum) ou tálio; iii. Aquisição da imagem miocárdica de esforço: obtida minutos após a injeção do radiofármaco; iv. Aquisição da imagem em repouso: obtida no dia seguinte (tecnécio) ou após 2 a 4 horas (tálio). Ao induzir aumento do fluxo coronário (por estresse físico ou farmacológico com dipiridamol), as lesões graves (> 70%) limitarão a captação do radiofármaco pelo miocárdio, acusando isquemia - Sem falhas de perfusão no repouso e no estresse: exame negativo para isquemia; - Falha de perfusão apenas no esforço: exame positivo para isquemia; - Falha de perfusão no repouso e no estresse: infarto antigo, fibrose ou miocárdio hibernante. - Para facilitar a interpretação dessa imagem, veja o coração como um donut. Um donut inteiro significa boa perfusão, enquanto um donut mordido representa áreas de isquemia. - A CPM também permite quantificar o grau de isquemia de acordo com a intensidade da hipocaptação do radiofármaco (leve, moderada ou importante) e quanto à massa do VE acometida (≥ 10% é sinal de alto risco) - As indicações da CPM na coronariopatia são as seguintes: - Pacientes sintomáticos com probabilidade pré-teste moderada a alta e ECG não interpretável ou quando não conseguem se exercitar; - Avaliação de indivíduos assintomáticos com teste ergométrico positivo ou duvidoso; - Determinação da viabilidade miocárdica; - Avaliação funcional em pacientes com lesões coronarianas conhecidas g. Tomografia de artérias coronárias - A tomografia computadorizada (TC) cardíaca oferece duas modalidades distintas de exames: o Escore de Cálcio (EC) e a angiotomografia coronariana # Escore de cálcio - O escore de cálcio é obtido por meio do produto entre a área de calcificação e a densidade máxima da placa. A quantidade de cálcio nas artérias coronárias está correlacionada ao total de carga de aterosclerose. Porém, a presença de cálcio não significa, necessariamente, que há obstrução da artéria coronária. - A informação mais importante que o EC traz é a respeito da forte associação com risco de eventos cardiovasculares futuros, independentemente da presença de isquemia e dos fatores de risco tradicionais (hipertensão, diabetes, tabagismo etc.). - É um exame de alta sensibilidade, com elevado valor preditivo negativo, que não utiliza contraste iodado, e com baixíssima dose de radiação. Atualmente, a principal utilização é na estratificação de risco cardiovascular por meio da detecção de aterosclerose subclínica, principalmente em pacientes assintomáticos de risco intermediário. # Angiotomografia de coronárias - Permite a avaliação da anatomia coronariana, determinando o grau de obstrução das artérias. Assim como o EC, apresenta elevado valor preditivo negativo, ou seja, uma angio-TC normal praticamente exclui a possibilidade de estenose coronariana. - Essa é a grande vantagem quando comparada aos testes funcionais (ergometria, eco estresse e cintilografia miocárdica). - Sua maior desvantagem está no fato de que a presença de placa não necessariamente significa que ela é a responsável pela isquemia miocárdica. Por isso, é importante estabelecer uma correlação entre os testes funcionais e os anatômicos (angiotomografia e cateterismo), já que um complementa o outro. - Outras desvantagens são a presença de artefatos provocados por placas muito calcificadas e stents, além da necessidade de controle rigoroso da frequência cardíaca (deve estar em torno de 60-70 bpm – o paciente deve estar betabloqueado). - A principal utilidade da angiotomografia coronária é na exclusão de DAC em pacientes sintomáticos de probabilidade intermediária. É muito útil na sala de emergência quando a equipe está em dúvida se a dor torácica é de etiologia coronariana. - Outras indicações são: Pacientes sintomáticos com testes não invasivos duvidosos ou conflitantes; Sintomas persistentes à despeito de testes de isquemia normais ou inconclusivos; Avaliação de enxertos de revascularização miocárdica (ponte de safena e/ou mamária) em pacientes sintomáticos. h. Ressonância magnética cardíaca - Excelente método diagnóstico que permite a avaliação da anatomia cardíaca e vascular, da função ventricular e da perfusão miocárdica. Suas vantagens incluem o fato de não necessitar de controle rigoroso da frequência cardíaca, não utilizar radiação, e de o contraste (gadolínio) não ser nefrotóxico. - Pode ser feita com estresse farmacológico com dobutamina ou vasodilatador (dipiridamol/adenosina), com protocolos semelhantes ao eco estresse e à cintilografia, respectivamente. - Falando em cardiopatia isquêmica, a ressonância cardíaca pode ser aplicada para a pesquisa de isquemia, detecção de fibrose/infarto/ viabilidade miocárdica e para avaliação não invasiva das artérias coronárias. i. Cateterismo cardíaco - Os principais objetivos do cateterismo ou angiografia coronariana são estratificar o risco de morte e eventos cardiovasculares e avaliar se a anatomia coronária é favorável para revascularização percutânea ou cirúrgica. - Estenoses coronarianas de artérias epicárdicas com no mínimo 70% de obstrução, ou de TCE com, no mínimo 50%, são classificadas como significativas. - A gravidade e a localização da lesão são importantes fatores prognósticos. Pacientes com doença nas três principais artérias (triarteriais), no TCE e na porção proximal da artéria descendente anterior têm pior prognóstico. Por ser um método invasivo, possui indicações mais restritas. As principais são: - Pacientes com angina CCS ≥ 3 refratária ao tratamento clínico; - Achados de alto risco nos testes não invasivos; - História de morte súbita abortada (parada cardiorrespiratória revertida); - Presença de arritmias ventriculares significativas; - Pacientes com angina e com evidências de insuficiência cardíaca; - Diagnósticos incertos após realização de testes não invasivos ABORDAGEM TERAPÊUTICA → MUDANÇA DE ESTILO DE VIDA → TRATAMENTO FARMACOLÓGICO - Os antiagregantes plaquetários, hipolipemiantes (especialmente as estatinas), betabloqueadores e inibidores da enzima conversora de angiotensina I (iECA) são fármacos capazes de reduzir a incidência de infarto e aumentar a sobrevida. - Os antagonistas dos canais de cálcio e a trimetazidina reduzem os sintomas e os episódios de isquemia miocárdica, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. A ivabradina se mostrou benéfica nos pacientes com disfunção ventricular e FC > 70 bpm à despeito do uso de betabloqueadores. - Portanto, o uso de drogas que reduzem a morbimortalidade associadas, quando possível, a medicamentos que controlam a angina e reduzem a isquemia miocárdica, são os pilares do tratamento da DAC crônica. Drogas anti-isquêmicas 1) Beta-bloqueadores - São drogas antianginosas de primeira linha. Apresentam benefícios em relação à mortalidade e à redução de infarto após síndrome coronariana aguda. São medicações que diminuem a frequência cardíaca (efeito cronotrópico negativo), a contratilidade miocárdica (efeito inotrópico negativo), a condução atrioventricular e a atividade ectópica ventricular. - Muito eficazes na redução da angina induzida por esforço, melhorando a capacidade de exercício. Os agentes seletivos são preferíveis devido à maior tolerância (atenolol, bisoprolol, metoprolol, nebivolol). O ajuste das doses pode ser realizadode forma progressiva até o controle da angina e da FC em torno 50-60 bpm. - Vale lembrar que, na presença de disfunção ventricular (FEe na gravidade dos sintomas de isquemia, na extensão, na complexidade e na localização das lesões, na disfunção ventricular e na presença de comorbidades. - Os principais objetivos são redução de eventos, aumento da sobrevida e controle dos sintomas anginosos. A grande vantagem é poder oferecer ao paciente a redução do risco de morte. Na DAC crônica com isquemia comprovada, existem situações em que a revascularização miocárdica aumenta a sobrevida 1) Angioplastia coronária percutânea - As primeiras angioplastias foram desenvolvidas com o uso do balão insuflado sobre a placa aterosclerótica (segmento estenosado). Com o passar dos anos, passou-se a usar stents metálicos e, posteriormente, os stents farmacológicos. - Os stents são estruturas metálicas que sustentam o interior da parede arterial com o intuito manter a patência da artéria após ela ser aberta. - Os stents farmacológicos foram desenvolvidos para reduzir a reestenose após seu implante e possuem fármacos antiproliferativos (sirolimus, everolimus, paclitaxel) carreados ao sítio da lesão por meio de um polímero, que também controla sua liberação. Devido a toda essa bioengenharia, os stents farmacológicos são os preferíveis - A angioplastia reduz morte ou infarto no paciente com DAC crônica? NÃO! Diversos estudos mostraram que a angioplastia reduz os sintomas isquêmicos e a necessidade de revascularização, mas não apresenta benefício na mortalidade ou no infarto. Portanto, nos pacientes com DAC estável sem achados de alto risco, a estratégia inicial é manter apenas o tratamento clínico otimizado. 2) Cirurgia de revascularização miocárdica - A cirurgia de revascularização miocárdica é feita utilizando enxertos para as artérias coronárias a partir da aorta (ponte de safena) ou utilizando a própria artéria nativa (mamária). As principais complicações são acidente vascular cerebral (AVC), IAM pericirurgia, fibrilação atrial e insuficiência renal aguda - Qual método de revascularização escolher? Para responder a essa pergunta, foi desenvolvido um grande estudo chamado Synthax, que comparou 1.800 pacientes com DAC crônica (triarterial ou com lesão de tronco) submetidos de forma randomizada a uma das terapias. Outros estudos vieram posteriormente e a conclusão foi a seguinte: - Para simplificar, você gravará da seguinte forma: quanto maior o acometimento do tronco da coronária esquerda ou da DA proximal e maior a disfunção do ventrículo esquerdo, maior o benefício da cirurgia. Portanto, a escolha pela angioplastia é reservada para situações menos complexas, como lesões uni ou biarteriais, em não diabéticos e que não envolvem a DA proximal - Nunca se esqueça de que a decisão deve levar muitos fatores em consideração, como: a anatomia coronariana, a função ventricular, as comorbidades e, claro, a preferência do paciente.