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232 Endocardite e infecção de corrente sanguínea • Alta morbidade e alta mortalidade (Até 40% em 1 ano, dependendo da coorte) • Elevada taxa de subdiagnóstico por desconheci- mento das manifestações clínicas e, consequen- temente, por não ser aventada a suspeita clínica • Mudança de padrão de prevalência: • Em relação à prevalência mundial, a endo- cardite associada a dispositivos implantáveis, próteses e acessos intravenosos tem se torna- do mais prevalente que a de causa reumática. • Infecção microbiana da superfície endotelial cardíaca ou sobre a superfície de dispositivos (marcapasso, CDI, próteses valvares). • Principal local acometido: valvas cardíacas atrio- ventriculares. • Pode acometer qualquer área cardíaca: endo- cárdio atrial/ventricular, grandes vasos. • Mecanismo fisiopatológico relacionado ao turbilhonamento de sangue Epidemiologia Definição Endocardite: visão geral 233 • A fisiopatologia se inicia com uma lesão en- dotelial. • Fatores de risco para lesão endotelial: • Turbilhonamento por valvopatias • Trauma local devido a cateteres • Tóxicos por drogas injetáveis • Uso de drogas IV, cateter, dispositivos, cirurgias cardíacas prévias. • Ocorre o depósito de fibrina e plaquetas no local da lesão, formando uma vegetação trombótica não bacteriana (endocardite trombótica não infecciosa). • Um exemplo parecido é a Endocardite de Li- bman-Sacks, associada ao Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), como vegetação trombótica não bacteriana. • A bacteremia transitória (ex: extração dentária, procedimentos cardíacos) leva à colonização da vegetação trombótica por bactérias. • Isso resulta em invasão tecidual e crescimento da vegetação, caracterizando a endocardite infecciosa. Fisiopatologia Espécime patológico de endocardite. A: mostra aspecto macroscópico de valva mitral com lesão reumática prévia, associada ao achado de vegetação, medida pela régua. B: mostra a análise histológica de uma valva mitral infectada - a seta preta aponta para bactérias cercadas por fibrina e incrustadas na vegetação, enquanto a seta branca aponta para células inflamatórias ao redor da lesão. Fonte: CHAMBERS, Henry F.; BAYER, Arnold S. Native-Valve Infective Endocarditis. New England Journal of Medicine, Boston, v. 383, n. 6, p. 567–576, 6 ago. 2020. DOI: 10.1056/NEJMcp2000400. Vegetação aderida à prótese aórtica biológica. Fonte: CABEZÓN, G.; PULIDO, P.; LÓPEZ DÍAZ, J.; DE MIGUEL-ÁLAVA, M.; VILACOSTA, I.; GARCÍA-AZORÍN, D.; LOZANO, A.; OÑA, A.; ARENILLAS, J. F.; SAN ROMÁN, J.-A. Embolic Events in Infective Endocarditis: a comprehensive review. Revista Cardiovascular Medicine, [S. l.], v. 25, n. 3, p. 97, 7 mar. 2024. DOI: 10.31083/j.rcm2503097 234 • Mais comum no Brasil: Streptococcus viridans. • Nos países desenvolvidos: Staphylococcus au- reus. • A etiologia varia de acordo com o fator de risco predominante. Fatores de risco para endocardite infecciosa Classificação Agente etiológico 1. Alteração valvar estabelecida (prolapso de valva mitral, valvopatia degenerativa) 2. Presença de valva protética 3. Anomalias congênitas valvares 4. Cardiopatia reumática 5. Coarctação de aorta 6. Uso de drogas injetáveis 7. Uso de cateteres endovenosos 8. Imunossupressão 9. Procedimentos cirúrgicos invasivos (dentários) De acordo com o lado Esquerda X Direita (Tricúspide) Início dos sintomas Aguda - dias a poucas semanas Subaguda - semanas a meses Presença de dispositivos cardíacos (Importante para a suspeição do agente) Tipo de Valva Nativa X Prótese (precoce 1 ano da cirurgia) Valva Quadro clínico Agentes Característica Valva Nativa Aguda (toxemiante) Staphylococcus aureus Mais comum das EI agudas Usuários drogas IV Insidioso Streptococcus viridans Mais comum das EI subagudas Procedimentos odontológicos Enterococcus fecalis 2º mais comum Streptococcus gallolyticus (bovis) Associada a neoplasia de cólon Valva protética 1 ano = valva nativa Entre 2m-1 ano Pode ser qualquer coisa 235 Fenômenos embólicos: Lembrar do grupo HACEK: bacilos gram-negativos de crescimento lento que colo- nizam a orofaringe. Aneurisma micótico Abscesso esplênico Abscesso cerebral • H: Haemophilus influenzae • A: Actinomycetemcomitans e Aggregatibacter aphrophilus • C: Cardiobacterium hominis • E: Eikenella corrodens • K: Kingella kingae e Kingella denitrificans • O quadro clínico depende dos fatores associa- dos: presença de prótese, agente etiológico, cardiopatia prévia. • Sintoma mais comum: febre. • Outros sintomas gerais: perda de peso, calafrio, anorexia. • Exame físico: sopro novo, principalmente em câmaras esquerdas. Anamnese e exame físico Suspeita clínica e manifestações Endocardite: quadro clínico e diagnóstico Suspeita de Endocardite Infecciosa (EI) Febre + Sopro de origem recente e/ou fenô- meno embólico + Fator predisponente. 236 Manchas de Janeway (indolores) Manchas splinter (hemorragias subungueais) Fenômenos imunológicos: Mancha de Roth (hemorragias retinianas) Nódulos de Osler (dolorosos) 237 • Insuficiência cardíaca: a principal complicação aguda. • Bloqueios atrioventriculares: consequência de abscessos perivalvares. • Embolias: sistema nervoso central, esplênica, pulmonar. • Descontrole da infecção: microrganismos resis- tentes e/ou com alta virulência. Complicações Relação entre Etiologia e Quadro Clínico Mais comuns Países desenvolvidos e uso de drogas IV = S. aureus Brasil = estreptococos Relação com CA cólon S. gallolyticus S.aureus Agudo, valvas direitas, nosocomial Estreptococos Subagudo, valvas esquerdas 238 Diagnóstico e Critérios de Duke Critérios maiores de Duke (2023) • O diagnóstico requer a combinação de: paciente suscetível, agente provável (hemoculturas) e visualização da vegetação (ecocardiograma, TC cardíaca, PET). • Critérios de Duke: • Conjunto de achados clínicos, laboratoriais e radiológicos para diagnosticar EI. • Possuem alta sensibilidade (80%) e especi- ficidade (99%). • Bons para identificar e excluir EI. • Importantes para planejar o tratamento. • Atualização de 2023: • Motivada por novos microrganismos, novos métodos diagnósticos e maior uso de dispo- sitivos cardíacos implantáveis. • Estrutura dos Critérios: • Baseados em evidências de EI, divididos em critérios maiores e menores. • Classificam a EI como: definitiva, provável ou descartada. • Dica: • Critérios maiores = ver a vegetação e/ou isolar o germe característico. • Critérios menores = fatores de risco + achados clínicos. Hemoculturas • Germes típicos em pelo menos 2 amostras separadas (ex: Estreptococos, S. aureus, HACEK, Enterococcus faecalis). • Germes típicos na presença de dispositivos intracardíacos (ex: Serratia, P. aeruginosa, Corynebacterium, Candida spp, estafilococos coagulase- negativos). • Germes atípicos em pelo menos 3 amostras separadas. • 1 única amostra com Coxiella burnetii (ou anticorpos > 1:800). • PCR positivo para Coxiella burnetii, Bartonella spp ou Tropheryma whipplei. • IFI com IgG ≥ 1:800 para Bartonella henselae ou quintana. Critérios radiológicos maiores • ECO ou TC compatível com EI: vegetação, abscesso, perfuração, aneurisma perivalvar, nova deiscência em prótese. • Nova regurgitação valvular significativa. • Alteração em prótese na PET-TC (se implante > 3 meses) ou alteração SPECT-TC. Critério cirúrgico maior • EI documentada por inspeção direta durante cirurgia cardíaca. 239 “ECOTT de paciente com endocardite de valva mitral - imagem de cima mostra vegetação aderida (seta) à face atrial da val- va. A imagem de baixo mostra o ECOTE do mesmo paciente, com a mesma lesão. RV = ventrículo direito, RA = átrio direito, LV = ventrículo esquerdo, LA = átrio esquerdo. Fonte: KLEIN, Michael; WANG, Andrew. Infective endocarditis. Journal of In- tensive Care Medicine, [S. l.], v. 31, n. 3,p. 151–163, mar. 2016. DOI: 10.1177/0885066614554906. Paciente com abscesso perivalvar aórtico - ECOTE mostra região em formato de anel e hiperecogênica, com centro ecoluscente, característico de abscesso (seta). Ao = aorta. Fonte: KLEIN, Michael; WANG, Andrew. Infective endocarditis. Journal of Intensive Care Medicine, [S. l.], v. 31, n. 3, p. 151–163, mar. 2016. DOI: 10.1177/0885066614554906. ECOTE de paciente com endocardite de valva aórtica - imagem de cima mostra a valva incompetente e a de baixo mostra a regurgitação decorrente de tal alteração. Fonte: KLEIN, Mi- chael; WANG, Andrew. Infective endocarditis. Journal of In- tensive Care Medicine, [S. l.], v. 31, n. 3, p. 151–163, mar. 2016. DOI: 10.1177/0885066614554906. 240 Critérios menores de Duke (2023) - "5 F's" Fechando o diagnóstico com Critérios de Duke 5 F's Fenômenos vascularesMicrobiológico Fenômenos imunológicos Febre Predisposição • EI Definitiva: 2 maiores OU 1 maior + 3 menores OU 5 menores. • EI Provável: 1 maior + 1 menor OU 3 menores. • EI Descartada: não preenche critérios para EI possível OU resolve quadro clínico com ≤ 4 dias de antibiótico. Febre > 38ºC Fatores de predisposição Uso de drogas IV Ei prévia, cirurgia valvar prévia, cardiopatia congênita, insuficiência ou estenose valvar moderada-grave, dispositivos cardíacos, cardiomiopatia hipertrófica Fenômenos vasculares Embolias arteriais Infarto pulmonar séptico Aneurisma micótico Hemorragia intracraniana e conjuntival Manchas de Janeway Abscesso esplênico, cerebral, púrpura purulenta Fenômenos imunológicos Glomerulonefrite Nódulos de Osler Manchas de Roth Fator reumatoide Fatores microbiológicos HMC (+) que não atende o critério maior Cultura (+) ou PCR para organismos de EI de um local estéril do corpo PETCT com atividade anormal dentro de 3 meses de implante de prótese valvar Nova regurgitação valvar na ausculta se ECO ausente 241 • Princípios: Antibiótico (ATB) intravenoso por longos períodos, em altas doses. • Tendência recente: antibioticoterapia domici- liar quando disponível e o paciente paciente estiver estável. • Iniciar empiricamente e lembrar das indicações de cirurgia. • A escolha do esquema depende do tipo de valva, local de tratamento e fatores de risco. Endocardite: tratamento e profilaxias Tratamento clínico Tratamento empírico • Cobrir estreptococos, estafilococos e enterococos. • Cobrir MRSA, enterococcus e gram-negativos. • Rifampicina deve ser iniciada 3-5 dias após o esquema de vancomicina + gentamicina Situação Antibióticos Dose EI comunitária de valva nativa ou protética tardia (implantada há 12 meses ou mais) Ampicilina + Oxacilina + Gentamicina 12 g/dia IV em 4-6 doses 12 g/dia IV em 4-6 doses 3 mg/kg/dia IV em 1 dose Para alérgicos à penicilina Vancomicina + Gentamicina 30-60 mg/kg/dia IV em 2-3 doses 3 mg/kg/dia em 1 dose Situação Antibióticos Dose EI associada a cuidados de saúde ou hospitalar ou protética precoce (implantada há menos de 12 meses completos) Vancomicina + Gentamicina + Rifampicina* 30 mg/kg/dia IV em 2 doses 3 mg/kg/dia IV em 1 dose 900-1200 mg IV ou oral em 2-3 doses Valva nativa ou prótese há > 1 ano: Prótese há 10 mm • Infecção de corrente sanguínea pode ser de 2 tipos: • Primária: definição laboratorial (hemocultura positiva sem relação com outro foco) ou clíni- ca (sem associação com infecção em outros sítios, hemocultura negativa). • Secundária: bactérias em hemocultura por consequência da infecção em outros sítios. • Colonização: 1 hemocultura positiva apenas no cateter central. • ICS Associada a Cateter: 1 hemocultura positiva do cateter venoso central (CVC) + 1 hemocultura positiva de amostra periférica, com o mesmo microrganismo. • Para quem? Pacientes de alto risco que serão submetidos a procedimentos dentários invasivos. • Pacientes de alto risco: • EI prévia • Prótese valvar (inclui TAVI)/prótese para re- paro valvar • Cardiopatia congênita cianótica não corrigida • Cardiopatia congênita corrigida com shunts • Cardiopatia congênita corrigida com prótese (nos primeiros 6 meses) • Transplante cardíaco com insuficiência valvar • Procedimentos dentários invasivos: • Manipulação gengival/região periapical, per- furação da mucosa oral. • Como? • Amoxicilina 2g, dose única via oral, 30-60 min antes do procedimento. • Se alergia: Clindamicina 600mg ou Azitromi- cina/Claritromicina. • Diretriz SBC 2017 e 2020: recomenda também para procedimentos com perfuração/biópsia de trato respiratório; para procedimentos em tratos urinário e gastrointestinal, recomendam considerar profilaxia em paciente com fatores de risco para EI grave e que serão submetidos a procedimentos com perfuração de mucosa (nessas últimas, a profilaxia é preferencialmente feita com ampicilina + gentamicina). Infecção de Corrente Sanguínea (ICS) • 90% relacionadas a cateter central • Doenças crônicas • Nutrição parenteral total • Quebra da integridade da barreira cutânea • Imunossupressão • Desnutrição • ICS prévia 244 Tipos de cateteres • Centrais: inserção em direção às câmaras direitas (jugular, subclávia, femoral). • Periféricos: não drenam diretamente para câ- maras direitas. • Tunelizados são usados para hemodiálise, qui- mioterapia, nutrição parenteral total. Centrais vs. Periféricos: Tunelizados (longa permanência) vs. Não tunelizados (curta permanência): Cateter Átrio direito Sangue direcionado à máquina de diálise Sangue proveniente da máquina de diálise Cateter venoso central triplo lúmen Cateter de curta permanência para hemodiálise(Shilley) Cateter venoso totalmente implantável (Port-a-cath®) Cateter venoso central de inserção periférica (PICC) Cateter de longa permanência para hemodi- álise (Permcath®) Cateter venoso totalmente implantável (Port-a-cath®) 245 Fisiopatologia e etiologia Quadro clínico e diagnóstico • Ocorre pela presença de patógeno no equipo, fluidos, cateter, óstio do cateter ou corrente sanguínea. • A maioria dos casos é por colonização subcutâ- nea/cateter/biofilme por germes da pele. • Sinais de Infecção: febre, calafrios, instabilidade hemodinâmica. • Sinais Locais no Cateter: sinais flogísticos, saída de pus pelo óstio. • Complicações: embolia séptica, EI, infecção metastática musculoesquelética.• Queimaduras: Pseudomonas aeruginosa •Ne- oplasias: Gram-negativos • Cateteres: Gram-positivos (S. aureus, S. coagu- lase-negativo, Enterococos) Patógeno Frequência Staphylococcus coagulase-negativo 16,4% Enterococcus 15,2% Candida 13,3% Staphylococcus aureus 13,2% Klebsiella 8,4% Escherichia coli 5,4% Enterobactérias 4,4% Pseudomonas 4% • Cateter há pelo menos 2 dias OU retirado há 1 dia. • Sinais clínicos de infecção. • Padrão de positividade de hemocultura com- patível com ICS. • Atenção: se o germe for comensal, as culturas precisam ser coletadas em momentos e sítios diferentes. • Germes comensais: Corynebacterium spp. (exclui C. diphtheriae), Bacillus spp. (exclui B. anthra- cis), Propionibacterium spp., Staphylococcus coagulase negativa, Streptococcus do grupo viridans, Aerococcus spp. e Micrococcus spp • Germes que necessitam apenas de uma amostra positiva: S. aureus, enterococci, Enterobacteria- ceae (eg, Escherichia coli, Klebsiella species, En- terobacter species), Pseudomonas aeruginosa, Candida species Diagnóstico:Quadro clínico: 246 Quando retirar o cateter? Antibioticoterapia empírica: Monitoramento: Atenção: Lockterapia: Troca de cateter: • Higienização das mãos. • Técnica asséptica para inserção do cateter. • Uso de clorexidina para desinfecção da pele. • Evitar inserção de cateter na região femoral (se possível). • Remover cateteres que não tenham mais indi- cação de permanência. • Sinais de sepse • Instabilidade hemodinâmica • Complicações sistêmica: EI, embolia séptica • Bacteremia persistente (HMC + > 72 horas de ATB) • Sinais flogísticos / secreção purulenta no óstio do cateter • Germes que demandam retirada inequívoca do cateter: • S. aureus • S. lugdunensis • Pseudomonas aeruginosa • Candida spp • Avaliar perfil de resistência local. • Vancomicina/daptomicina. • Considerar cobertura antipseudomonas (ex: cefepime, piperacilina-tazobactam) se imunossu- primidos, neutropenia, queimados, instabilidade. • Considerar colher culturas a cada 24-48 horas. • Se positivas nas 72h iniciais, pensar em compli- cações ou resistência. • ICS confirmada por S. aureus ou S. lugdunensis requer investigação de infecção metastática. So- licitar Ecocardiograma Transesofágico (ECOTE). • Opção se não for possível trocar o cateter. • Injeção de solução concentrada de antibiótico no lúmen do cateter. • Indicado para cateteres de longa duração (fa- lência de acesso, dificuldade de troca). • Mantém-se o antibiótico sistêmico associado. • Idealmente, esperar 2-3 dias após o início do antibiótico. • Em candidemia, esperar 5 dias. Tratamento Prevenção