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AULA 3 - ESPÉCIES TRIBUTÁRIAS E REGIMES DE TRIBUTAÇÃO • Compreender o estudo das espécies tributárias (impostos, taxas, contribuições, empréstimos compulsórios, contribuições sociais interventivas econômicas e contribuições profissionais), após o estudo da parte geral em matéria tributária; • Entender a origem, o regramento e o funcionamento dos principais impostos atualmente existentes (IR, IOF, II, IE, ITR, IPVA, ICMS, ITCMD, ITBI, IPTU, ISS etc.); • Analisar a repartição de receitas tributárias e entender a sistemática do regime especial de tributação - “Simples Nacional”. CONTEXTUALIZANDO A APRENDIZAGEM Você é capaz de descrever quais são os tipos de tributos existentes? Sabe como as receitas tributárias são repartidas entre os entes públicos? E quais são os regimes de apuração e de recolhimento de tributos? Até este momento, apresentamos questões gerais em matéria tributária, fundamentais à compreensão sistemática dos institutos, conceitos, regras e exceções aplicáveis de forma geral, sem o quê não seria possível a compreensão da legislação específica e de questões mais pontuais. Nesta Aula, adentraremos no campo das espécies tributárias e analisaremos os diversos tipos de tributos existentes, sua disciplina legal, bem como os regimes de tributação, especialmente o Simples Nacional. Mapa mental panorâmico Para contextualizar e ajudá-lo(a) a obter uma visão panorâmica dos conteúdos que você estudará na Aula 3, bem como entender a inter- relação entre eles, é importante que se atente para o Mapa Mental, apresentado a seguir: ESPÉCIES TRIBUTÁRIAS E REGIMES DE TRIBUTAÇÃO 1 ESPÉCIES TRIBUTÁRIAS 1.1 TIPOS DE TRIBUTOS 1.1.1 IMPOSTOS 1.1.2 TAXAS 1.1.3 CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA 1.1.4 EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS 1.1.5 CONTRIBUIÇÕES 1.2 REPARTIÇÃO DE RECEITAS 2 IMPOSTOS 3 REGIMES DE TRIBUTAÇÃO 3.1 SIMPLES NACIONAL ESPÉCIES TRIBUTÁRIAS E REGIMES DE TRIBUTAÇÃO 1 ESPÉCIES TRIBUTÁRIAS O art. 145 da Constituição Federal e o art. 5° do CTN elencam três tipos de tributos: impostos, taxas e contribuições de melhoria. Alguns autores, no entanto, entendem que existem cinco espécies de tributos, compreendendo, também, empréstimos compulsórios e outras contribuições. 1.1 TIPOS DE TRIBUTOS 1.1.1 IMPOSTOS Previstos no art. 16 do CTN e no art. 145, I, da CF, impostos são tributos que têm como fato gerador uma situação na qual é gerada riqueza, relativa à vida, ao patrimônio ou à atividade do sujeito passivo , mas que independe de uma atividade ou de um serviço estatal. Geralmente, os tributos são mais conhecidos por nós todos, como, por exemplo, as siglas IR (IRPF, IRPJ, IRRF), IPI, IOF, ITR, ICMS, ITCMD, IPVA, IPTU, ITBI. Vamos, neste momento, nos ater apenas à sua menção. Daremos continuidade à análise dos demais tributos (taxas, contribuições de melhoria, empréstimos compulsórios e outras contribuições) antes de tratar mais detalhadamente sobre impostos no item “2”. 1.1.2 TAXAS Previstas nos arts. 145, II, da CF e 77 a 79 do CTN, as taxas, diferentemente dos impostos, vinculam-se a uma atividade pública estatal. Têm como fato gerador o exercício do poder de polícia (fiscalização) e/ou a utilização (efetiva ou potencial) de serviço público específico e divisível colocado à disposição do contribuinte. Sobre a base de cálculo das taxas, isto é, aquilo que expressa o valor econômico do fato gerador, ou aquilo que o quantifica (o valor mensurado sobre o qual a alíquota será aplicada a fins de indicar o valor devido), devemos esclarecer que ela não pode ser a mesma que a base de cálculo de um imposto, assim como impostos e taxas não podem ter fato gerador igual. Também não podem as alíquotas serem calculadas em função do capital de uma empresa (vide arts. 77, parágrafo único do CTN; 145, §2° da CF e Ato Complementar 34/67), por possuir correlação com um serviço estatal, e não com o patrimônio do sujeito passivo. Deverá ser dimensionado um valor compatível dos serviços públicos ou do exercício do poder de polícia (não é possível analisar todos os elementos de um determinado serviço, mas deve ser previsto um valor razoável entre o custo dos serviços e o que pode ser cobrado do contribuinte). Muitos defendem que a base de cálculo das taxas seja proporcional. Isso se afigura tanto possível quanto justo, já que empresas maiores, com maior grau de poluição potencial, ou maior utilização de recursos naturais, demandam maior fiscalização, devendo pagar taxa maior que outras empresas, por exemplo. As taxas dividem-se em dois tipos, conforme seja seu fato gerador: incide quando a Administração exerce a atividade fiscalizatória por meio de seus órgãos ou entidades, a fim de limitar direitos e liberdades individuais em benefício da coletividade. Como exemplo, temos a taxa de alvará (ou taxa de funcionamento); a taxa de fiscalização de mercados de títulos e valores mobiliários (cobrada pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM); a taxa de fiscalização dos serviços de cartórios extrajudiciais; taxa de controle e fiscalização ambiental (TCFA), cobrada pelo IBAMA; taxa para o Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização (FUNDAF). A expressão “poder de polícia”, neste caso, refere-se ao poder de fiscalização, e não se confunde com as atividades de manutenção da ordem ou segurança pública (feita, por exemplo, pelas polícias civil, militar, federal e rodoviária) e nem com as da polícia judiciária (aquela que auxilia a Justiça na manutenção da ordem, em mandados de prisão, condução de testemunhas, execução de mandados de busca e apreensão etc.). Para a compreensão da existência das taxas, devemos nos atentar ao fato de que a fiscalização é exercida porque nós, particulares, ao exercermos nossos direitos individuais (como direito ao livre comércio, à livre iniciativa, à propriedade privada etc.) podemos, por vezes, afetar a coletividade. Assim, é necessário que estes direitos individuais sejam limitados. É no contexto desta prerrogativa que haverá a taxa de polícia, para a manutenção da ordem pública, com a licença, inspeção e fiscalização do ambiente (industrial, comercial, de lazer etc.), com a análise de suas condições de higiene e segurança e da licitude da atividade. é cobrada quando o Estado presta determinado serviço que seja específico e divisível, seja ele aproveitado pelo sujeito passivo (quando há utilização efetiva), seja ao menos colocado à sua disposição (utilização potencial). Por vezes, já tentaram enquadrar várias cobranças como taxas de serviço e que foram julgadas inconstitucionais, como quando alguns governos criaram a Taxa de Segurança Pública, a Taxa de Limpeza Pública e a Taxa de Iluminação Pública. Estes tipos de serviço não podem ser remunerados mediante taxa, por terem utilidades inespecíficas, que não podem ser divididas, ou vinculadas a um determinado contribuinte (já que vimos que o serviço deve ser específico e divisível). As custas processuais, pagas pelas partes que recebem um serviço do Judiciário, ou a taxa para emissão de passaporte, ou para a coleta de lixo (que passa de casa em casa), são exemplos de taxas. Já serviços como iluminação pública e limpeza de ruas, prestados à sociedade como um todo, não são divisíveis e não podem ser taxados. Assim, o STF editou a Súmula 670, convertida na Súmula Vinculante n° 41. É vinculante porque não vale apenas para um caso específico, e, sim, de forma geral, além de orientar decisões jurisprudenciais em casos semelhantes, vinculando a todos, com caráter de lei ordinária (SABBAG, 2019, p. 45). Já adiantamos, em Aula anterior, que taxas e tarifas são diferentes. Taxas são tributo; são compulsórias (obrigatórias); não há autonomia da vontade do sujeito passivo; decorrem de lei (assim como a obrigação de pagá-las); obedecem aos princípios tributários. As regras são do regime de direito público; não é necessário que o serviço seja efetivamente prestado e a cobrança não é proporcional ao uso, além do que só são cobradas emrazão do poder de polícia (fiscalização) e só podem ser cobradas por pessoas jurídicas de direito público (o Tribunal, por exemplo). As tarifas, ou preços públicos, não. Não são tributos; são facultativas; há autonomia da vontade do sujeito passivo; decorrem de um contrato administrativo (e não da lei); pode haver rescisão; não se sujeitam aos princípios tributários (apenas aos de direito administrativo); sujeitam-se ao regime de direito privado; só são cobrados em caso de uso efetivo; não são cobrados por mero poder de polícia; a cobrança é proporcional ao uso e pode ser exigida por pessoas de direito privado também, como concessionárias, que nos cobram pedágios (que, apesar de não parecerem facultativos, são considerados preços públicos, e não taxas, inclusive de acordo com o entendimento do STF). 1.1.3 CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA Estes tributos estão previstos nos arts. 145, III da CF, 81 do CTN e 3° do Decreto-lei n° 195/1967 e possuem como fato gerador a valorização imobiliária decorrente de obra pública; e, como base de cálculo, o quantum da valorização, isto é, a quantia, o valor acrescido ao imóvel do particular (SABBAG, 2019). São cobradas no intuito de evitar o enriquecimento involuntário de proprietários de imóveis localizados próximos a obras públicas que os valorizem. Estes proprietários, para não “locupletarem-se”, isto é, para não enriquecerem sem causa, são obrigados a indenizar o Estado por experimentarem uma valorização em seus imóveis sem que tenham contribuído para isso. Vale ressaltar que, além de cumprirem alguns requisitos legais (como apresentar o memorial e o orçamento do projeto, delimitação da zona beneficiada pelas melhorias, entre outros), só podem ser cobradas ao término da obra (pois, antes, não será possível mensurar a valorização). Além disto, possuem dois limites: individual (a Administração deve discriminar a valorização de cada imóvel, ou seja, cada proprietário pagará um valor proporcional) e global (a arrecadação não pode ser superior ao gasto despendido com a obra pública realizada, pois, ao evitar o enriquecimento do particular, quem estaria se enriquecendo sem causa, ao não limitar o valor da contribuição de melhoria, seria o Estado). Podem ser impugnadas pelos proprietários dos imóveis, caso discordem da exação (seja da cobrança em si, seja de algum critério utilizado). 1.1.4 EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS Previstos no art. 148, e respectivos incisos da CF, são de competência exclusiva (exclusiva, não privativa; ou seja, são indelegáveis) da União e serão instituídos por lei complementar (somente) para atender a algumas despesas consideradas extraordinárias, como despesas decorrentes de calamidade pública, ou de conflito armado externo (esteja na iminência de eclodir uma guerra, ou caso já esteja ocorrendo), ou caso seja realizado algum investimento público urgente e relevante para a nação. A Medida Provisória é um dos veículos normativos que tramitam com maior velocidade e menor complexidade. No entanto, neste caso, é vedada a edição de Medida Provisória para matérias reservadas à Lei Complementar, em respeito ao art. 62, inc. III da CF. Neste caso, como o próprio parágrafo único determina, os recursos arrecadados serão vinculados às despesas que fundamentaram sua instituição. Isto porque, nestas situações, o Tesouro pode estar passando por uma situação inesperada, os fundos podem ter se esgotado, não podendo suprir algumas necessidades, seja diante da guerra internacional, seja diante de algumas catástrofes naturais ou eventos devastadores. No caso de investimento público urgente (e a nível nacional, não valendo no caso de ser realizado em apenas alguma região ou localidade do país), será antecipado o que seria arrecadado ao longo dos anos e, neste caso, há devolução dos valores. De acordo com Sacha Calmon N. Coelho (2018), os tributos são finalísticos, ou seja, têm destinação, ou finalidade, específica; e causais, isto é, suas causas podem ocorrer ou não. São restituíveis e, caso se encerre o prazo para restituição, o sujeito passivo, na qualidade de credor, poderá cobrar judicialmente seu direito mediante ação contra a Fazenda Pública. Por fim, devemos esclarecer que, conforme previsto no art. 150, §1°, da CF, não se aplicam a estes tributos as limitações da anterioridade anual e nonagesimal (aos impostos que se aplicam esses princípios, a sua cobrança só é devida decorrido um prazo após a publicação da lei que os instituíram ou aumentaram), de tal modo que sua exigência será imediata, quando exigidos com base no inc. I. Ou seja, quando houver guerra, sua iminência ou calamidade pública, enseja-se despesas extraordinárias. Não importa, neste caso, qual seja o fato gerador, não sendo aplicado, no caso dos empréstimos compulsórios, o art. 4°, inc. I e II do CTN, pois está ligado a uma finalidade emergencial, ou urgente (SABBAG, 2019). 1.1.5 CONTRIBUIÇÕES As contribuições (exceto as de melhoria, já vistas) são tributos de expressiva relevância no quesito volume de arrecadação. Estão previstos no art. 149, da CF, e são relacionados ao financiamento de gastos e setores específicos (ou seja, também são vinculados como as taxas, ao contrário dos impostos) e que, embora sejam “especiais”, não são “excepcionais”, isto é, não são urgentes ou emergentes, pelo que se sujeitam às limitações ao poder de tributar do art. 150, da CF. Poderão ser devidos a entidades paraestatais (isto é, paralelas ao Estado e à sua atuação) e sua alíquota poderá ser ad valorem (percentual aplicado sobre um valor) ou específica. Poderão incidir apenas uma vez, ou de forma contínua, a depender do que definir a lei. O próprio art. 149 nos traz alguns exemplos de contribuições. Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir contribuições a seus servidores, para custear os sistemas de previdência e assistência social; os Municípios e o DF poderão instituir contribuição para custear o serviço de iluminação pública, podendo, ou não, cobrá-la diretamente na fatura de consumo de energia elétrica. Podem ser divididas em: • a)Contribuições sociais: com previsão nos arts. 149 e 195 da CF, dividem-se em: custeiam a saúde, a previdência e a assistência social, como a contribuição ao salário-educação e as Contribuições destinadas aos Serviços Sociais Autônomos, ou contribuições ao sistema “S”, formados por entidades voltadas para treinamento profissional, assistência social, consultoria, pesquisa etc., como Senai, SESI, SENAC, SESC, SEBRAE, SEST, SENAT, entre outras. Passaram a ser cobradas dos empregadores pela Receita Federal e sua base de cálculo vincula-se à folha de pagamento de segurados como empregados e avulsos, com alíquota de quase 6%. o orçamento da Seguridade Social é formado por receitas dos entes públicos (impostos) e, também, de contribuições específicas, previstas no art. 195, da CF, e no art. 11, da Lei n° 8.212/91. Vale lembrar que não se aplicarão às entidades beneficentes de assistência social e sobre receitas decorrentes de exportação (vide “Aula 1”). Algumas contribuições previdenciárias são devidas por servidores públicos em seus regimes próprios de previdência e, também, podemos citar: chega a quase 30% da folha salarial. incide sobre o lucro real de um negócio e possui alíquota de 9% sobre o lucro. Possui o mesmo prazo de recolhimento do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e tem apuração conforme a opção de tributação (“lucro real”, “presumido” ou “arbitrado” - item “3” desta Aula). incidem sobre a receita bruta (faturamento) da empresa e têm prazo de recolhimento até o último dia útil da quinzena do mês seguinte. A PIS/Pasep é apurada mensalmente sobre o faturamento de empresas privadas, públicas e de economia mista. ou da folha de pagamento de entidades sem fins lucrativos, com alíquota de 0,65% a 1,65% (enquanto a da COFINS é de 3% a 7,6%). Em geral, ambas vêm com alíquota combinada de 3,65% (3% de COFINS e 0,65% de PIS/PASEP) e, semelhante ao que podemos observar na leido IRPJ, são retidas pelos clientes do negócio no momento do pagamento das faturas. Na gestão financeira e tributária de um negócio, o profissional deve se aprofundar sobre o estudo destas contribuições sociais, que representam, juntamente com o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), tributos que causam expressivo impacto às empresas em geral e que necessitam de um estudo mais aprofundado em todas as suas particularidades. Inclusive, alguns termos são melhor detalhados na área da Contabilidade, tais como lucro real, receita bruta, entre outros. Mesmo profissionais ligados estritamente à área Direito, embora devam conhecer a lei, necessitam do trabalho dos profissionais das Ciências Contábeis para uma atuação tributária mais ampla. outras que se fizerem necessárias e forem instituídas em observância ao que determina a CF/88 e outras leis. também chamadas de contribuições interventivas, ou CIDE´s. Podem incidir importações de produtos e serviços estrangeiros (não valendo para exportações), faturamento, receita bruta, valor de eventual operação realizada, petróleo e derivados, gás natural e derivados e álcool combustível. Como exemplo, temos a “CIDE-Combustíveis”, regulada pela Lei 10.336/01 e a “CIDE-Remessas” (Lei 10.168/2000). são contribuições de competência da União, isto é, a nível federal, para o financiamento da atuação de algumas categorias em suas respectivas áreas. Podemos citar a contribuição-anuidade (paga, por exemplo, a instituições como CREA e CRM, cujas atividades são entendidas como de interesse público) e a contribuição sindical (cobrada dos filiados de sindicato respectivo) (SABBAG, 2019). 1.2 REPARTIÇÃO DE RECEITAS Neste ponto, observaremos como é repartida parte da arrecadação tributária entre os entes políticos tributantes. É importante ter em mente que a transferência sempre se dá de um ente ou governo de maior nível para um ente de menor nível. A União pode transferir para Estados, Distrito Federal e Municípios; e, por sua vez, os Estados podem transferir para Municípios e, como não há ente federativo abaixo dos destes, não dividem nada; apenas recebem parte de receitas de outros entes. Figura 1 – Repartição de Receitas Fonte: Elaborada pelo NEAD. Dizemos “parte” da arrecadação porque há tributos, como as taxas e as contribuições de melhoria, que, por sua vinculação específica a um serviço, obra, ou atividade estatal ligada ao sujeito passivo, ou a alguma despesa extraordinária, não são abrangidos pela repartição das receitas tributárias. Outros tributos, tais como impostos, e como a CIDE-Combustível, serão, objeto de repartição, observadas algumas regras legais. Quanto aos impostos, não serão repartidos os impostos municipais (IPTU, ITBI e ISS). Quanto aos impostos estaduais, o ITCMD não participa das receitas; enquanto que ICMS e IPVA, sim. Já no que diz respeito aos impostos federais, IPI, IOF, IR, ITR e o Imposto Residual, são transferidos, na medida do que determina a lei, aos demais entes pela União (não sendo repassados II, IE e IEG). As transferências de receitas da União para Estados e Municípios são chamadas de transferências diretas (quando é repassada parte da arrecadação para determinado governo) ou indiretas (quando se formarem “fundos especiais” para este repasse). Estão disciplinadas pelos art. 157 a 162, da Constituição Federal. 2 IMPOSTOS Os impostos, sobre os quais começamos a tratar no item “1.1.1”, podem ser divididos em federais, estaduais e municipais e, além de sua previsão constitucional (a partir do art. 153), adotam normativas específicas. Vejamos: a) Quanto aos impostos federais (arts. 153, 154 e incisos, da CF), temos: a.1) II (Imposto sobre importação de produtos estrangeiros, mais conhecido como Imposto de Importação): Também previsto nos arts. 19 a 22, do CTN, é de competência da União, incide sobre a importação de produtos estrangeiros e tem como fato gerador a entrada destes produtos no território nacional. O contribuinte deste imposto será ou aquele que realizar a importação (importador), ou quem for equiparado a ele pela lei, ou quem arrematar produtos importados que forem apreendidos ou abandonados. Quanto à parte quantitativa da norma, a base de cálculo dependerá do caso e poderá ser uma unidade de medida adotada pela lei tributária, o preço considerado “normal” do produto, ou o valor da arrematação. Há a possibilidade de ser alterada pelo Poder Público, assim como as alíquotas; a.2) IE (Imposto sobre exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados, mais conhecido como “Imposto de Exportação”): Disciplinado pelos arts. 23 a 28, do CTN, tem com fato gerador a saída de produtos do território nacional, sejam nacionais (aquele que sofreu alguma forma de industrialização no país), ou nacionalizados (de procedência estrangeira que foram importados definitivamente e submetidos ao desembaraço aduaneiro no Brasil) e o contribuinte será o exportador, ou pessoa a ele equiparada. Outros aspectos relativos a este imposto são bem semelhantes aos do imposto sobre importações. a.3) IR/IRPF/IRPJ/IRRF (Imposto sobre renda e proventos de qualquer natureza, ou Imposto de Renda, que pode ser dividido em Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e Imposto de Renda Retido na Fonte): Previsto no art. 43, é um dos tributos de maior complexidade, por sua extensa legislação, como, por exemplo, o Regulamento do Imposto de Renda (RIR), antes aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999; e, agora, após várias alterações, está previsto, regulamentado e consolidado pelo recente Decreto n° 9.580, de 22 de novembro de 2018. Para se ter uma noção, o novo documento legislativo, editado no governo Temer, possui mais de 1000 (mil) artigos, isto sem contar seus parágrafos (§), incisos, alíneas e que reúne dispositivos normativos contidos em mais de quatrocentas leis e decretos-lei editados desde o ano de 1937, referentes ao Imposto sobre a Renda No entanto, visa tornar mais simples e claro seu processo de apuração. É de competência da União, possui como fato gerador a aquisição de renda (isto é, produto do capital, do trabalho ou de ambos), ou de proventos de qualquer natureza (que são acréscimos patrimoniais que não sejam renda). Ter uma casa e um salário é riqueza. Mas ter uma casa é uma riqueza estática. Ter um salário, uma renda, é dinâmico. Renda e proventos são elementos que, diferente de um patrimônio, representam um ganho novo, um acréscimo patrimonial além do que já possui. Assim, serão considerados rendimentos tributáveis, por exemplo: salário, aposentadoria, pensão, dinheiro ganho com aluguel de um imóvel, honorários, ganhos (comissões) de representantes comerciais autônomos, gratificações, porcentagens, rendimentos oriundos do exterior etc. Este imposto independe da origem da renda, da denominação da receita, do rendimento, da localização, da nacionalidade da fonte, de como foi auferida. Vale dizer que, mesmo a receita obtida de forma ilegal, poderá ser tributada. À época do Imperador Vespasiano, havia um tributo para a utilização de banheiros públicos. Daí veio uma expressão denominada “non olet” (não tem cheiro), ou “pecunia non olet”, que representa esta ideia de que, para o Fisco, pouco importa se os rendimentos cheiram, de onde vêm, ou se vieram de fontes ilícitas ou imorais. Assim, se uma atividade ilícita gerou renda, a renda continua sendo elemento tributável. A base de cálculo será o montante das rendas ou dos proventos; e há casos em que será considerado o montante real, há casos em que será presumido ou arbitrado (inclusive, sobre isto, trataremos no tópico seguinte, sobre regimes de tributação). Já o contribuinte será o titular daquela renda, ou o titular dos bens produtores de renda ou proventos. Por vezes, a fonte pagadora será responsável por reter o imposto que deveria ser recolhido pelo contribuinte (como o empregado de uma empresa, em cuja folha de pagamento há o desconto do Imposto Retidona Fonte, ou IRRF). a.4) IPI (Imposto sobre produtos industrializados): Produto industrializado, para os efeitos da lei, representa aquele que foi submetido a algum processo que modifique sua natureza ou finalidade, ou que é aperfeiçoado para o consumo. O IPI, previsto nos arts. 46 a 51, é de competência da União, e terá como fato gerador o desembaraço aduaneiro de um bem industrializado advindo do estrangeiro (isto é, a liberação de uma mercadoria pela alfândega para entrar ou a sair do país); a saída do bem de um estabelecimento importador, industrial, comerciante ou arrematante; ou a arrematação, quando se tratar de bem apreendido ou abandonado (deixado na alfândega até transcorrer o desembaraço aduaneiro, por exemplo) e levado a leilão. Terá como base de cálculo ou o preço normal, acrescido do imposto sobre a importação, das taxas para entrada no país e dos demais encargos pagos pelo importador no caso de desembaraço aduaneiro; o valor da operação ou, se não tiver valor expresso, valor corrente ou similar do bem praticado no mercado, no caso de saída da mercadoria de um dos estabelecimentos mencionados (importador, industrial, comerciante ou arrematante); ou o preço da arrematação, considerada a ocorrência de um leilão. Devemos ainda ter em mente que o imposto é seletivo, isto é, ele depende de alguns critérios, como essencialidade dos produtos, tendo alíquota mais altas para produtos menos essenciais. Também será não cumulativo, isto é, não poderá ir se acumulando em cada etapa do processo pelo qual passa a mercadoria (indústria, distribuidor, atacadistas e varejistas etc.). Desta feita, o que for devido em cada operação será compensado com o montante cobrado em operações anteriores. E, se houver saldo, será transferido às operações seguintes. Vários são os contribuintes elencados pela lei. O primeiro deles poderá ser o importador, o industrial, ou a pessoa a eles equiparada. Quanto à equiparação, podemos dizer que é o enquadramento de algumas pessoas no mesmo “nível” dado pela lei. Se uma filial recebe da matriz, isto é, se um estabelecimento recebe de outro estabelecimento da mesma empresa, os produtos importados serão equiparados, por exemplo. Também poderá figurar como contribuinte, o comerciante de produtos sujeitos ao imposto, que os forneça ao importador, ao industrial ou aos equiparados a eles, ou o arrematante de produtos apreendidos ou abandonados que foram a leilão. a.5) IOF (Imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro ou relativas a títulos ou valores mobiliários, ou Imposto sobre operações financeiras): Com previsão nos arts. 63 a 67, do CTN, é de competência da União e tem como fato gerador a efetivação de uma operação de crédito, ou de câmbio (nesta pela entrega da moeda nacional ou estrangeira, ou documento que a represente, ou colocado à disposição do interessado); a emissão de uma apólice de seguro; o recebimento de prêmio; o resgate de títulos e valores mobiliários, além de outras operações financeiras; e terá como contribuinte qualquer uma das partes envolvidas nestas operações. Pode ter como base de cálculo o valor da obrigação (incluindo valor principal e juros), o valor da moeda do câmbio, o montante do prêmio de um seguro, o preço ou valor nominal de um título etc. a.6) ISTC (Imposto sobre Serviços de Transportes e Comunicações): Poderá incidir quando prestado um serviço de transporte de pessoas, bens, mercadorias, valores; ou de comunicação, isto é, a transmissão de mensagens, sejam elas escritas, faladas, ou visuais (a não ser quando este transporte ocorra, do início ao fim, no território de um mesmo município, ou quando a comunicação ocorra neste mesmo limite e não possa ser captada fora deste território, pois, neste caso, teremos a incidência de outro tributo). Terá como base de cálculo o preço do serviço prestado e o contribuinte será o prestador do serviço em questão. a.7) ITR (Imposto sobre propriedade territorial rural): Conforme arts. 29 a 31, do CTN, incide sobre a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel localizado fora da zona urbana do Município. O contribuinte será o proprietário, o titular do domínio útil ou o possuidor do imóvel, e a base de cálculo será o valor fundiário, isto é, o valor do terreno. Devemos entender, ainda que de forma superficial, as diferenças entre propriedade, domínio e posse, melhor estudadas pelo Direito Civil. Com o domínio, a pessoa pode usar o bem. Pode gozar (fruir) do bem. Pode dispor desse bem. E, caso alguém, injustamente, possua ou detenha este bem, ainda tem o direito de reaver este bem. Trata da relação da pessoa com a coisa, de sua ingerência no bem. Já a propriedade, envolve estes quatro direitos - quais sejam usar, gozar, dispor e reaver - e ainda envolve o título, isto é, o registro legal deste direito (como o registro imobiliário). Já a posse indica o exercício de algum, ou alguns, destes quatro direitos, e não todos. A pessoa detém uma coisa, ela exerce um senhorio sobre a coisa; tem um poder, um exercício, pleno ou parcial, de algum dos poderes do real proprietário. No caso, podemos citar um locador, que possui alguns poderes do proprietário, mesmo não o sendo. a.7) Imposto sobre Operações Relativas a Combustíveis, Lubrificantes, Energia Elétrica e Minerais do País: Terá como fato gerador a produção, a importação, a circulação, a distribuição e o consumo de combustíveis, lubrificantes, energia elétrica e minerais no País. a.8) IGF (Imposto sobre Grandes Fortunas): É possível à União tributar grandes fortunas (como heranças, grandes patrimônios), mas este imposto ainda não possui previsão ou regulamentação, embora a CF o autorize no art. 153, inc. VII. a.9) Impostos residuais: Quanto a estes, a União poderá instituir, por meio de lei complementar, impostos não previstos, desde que sejam não cumulativos e não tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados na Carta Magna, conforme estipulado em seu art. 154, inc. I. a.10) IEG (Imposto Extraordinário de Guerra): Poderá ser instituído e cobrado no caso de guerra externa ou sua iminência (como os empréstimos compulsórios), mas este imposto não precisa estar compreendido entre os demais referidos na lei. Trata-se de imposto extraordinário, e poderá adotar qualquer fato como tributável. b) Como impostos estaduais (art. 155 e incisos, da CF), temos: b.1) ITCMD (Imposto sobre transmissão causa mortis e doação, de quaisquer bens ou direitos): Tem previsão nas legislações estaduais, incidirá sobre a transmissão de propriedade de bens (sendo este o fato gerador), ou de direitos em caso de falecimento de seu titular (como no caso morte, quando haverá um inventário), ou sobre a transmissão e cessão gratuitas (de mera liberalidade, como na doação) e será devido pelos herdeiros, ou pelas partes ligadas à doação. Terá como base de cálculo o valor dos bens ou direitos. b.2) ICMS (Imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação): É de competência dos Estados e do Distrito Federal, e terá contribuinte e base de cálculo definidos a depender do fato gerador. E a depender do contribuinte, que poderá ser, por exemplo, quem promova a circulação de mercadorias, ou importe mercadorias, ou preste serviços de transporte entre estados e entre municípios, ou preste serviços de comunicação em geral. Devemos mencionar que há alguns casos nos quais não irá incidir, como na alienação do ativo imobilizado (bens fundamentais à atividade da empresa, como edifícios, maquinários etc.); de bens de particulares, de mudança dos bens de um estabelecimento para outro quando este é transferido; ou em casos de serviços de transporte que estejam sujeitos ao Imposto Sobre Serviços, etc. Terá dois tipos de alíquotas: as internas (fixadas livremente pelos Estados) e as interestaduais. b.3) IPVA (Imposto sobre propriedade de veículos automotores): Tem como fato gerador a propriedade de algumveículo automotor (automóvel, motocicleta, caminhão, barco etc.), como contribuinte o proprietário ou a pessoa jurídica ou física em nome de quem o veículo está licenciado, é anual e pode utilizar como base de cálculo o valor venal, o valor da nota fiscal, entre outros critérios. c) Já os impostos municipais são (art. 156, e incisos, do CF) são: c.1) IPTU (Imposto sobre propriedade territorial urbana); Conforme artigos 32 a 34, do CTN, tem como fato gerador a propriedade, a posse ou o domínio útil de bem imóvel localizado na zona urbana do Município e observadas as leis civil e municipal, que determinam a zona urbana; e o contribuinte será o proprietário, o titular do domínio útil, ou quem esteja em sua posse. Para que seja considerada zona urbana, além da definição dada por cada lei municipal, devem existir ao menos dois dos seguintes melhoramentos indicados no CTN, a serem construídos ou mantidos pelo Poder Público: meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais; abastecimento de água; sistema de esgoto sanitário; rede de iluminação pública; escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de até 3km do imóvel. A lei municipal ainda poderá considerar urbana uma zona de expansão, ou “urbanizável”, como loteamentos destinados a indústrias, habitação etc., mesmo que localizados fora das zonas urbanas. A base de cálculo para este tributo será o valor venal do imóvel, isto é, o valor estabelecido pelo Poder Público, a partir do qual será calculado o imposto. Não serão incluídos, na determinação, os bens móveis que se encontram no imóvel, como veículos, móveis, eletrodomésticos etc. É diferente do valor de mercado, que representa o valor pelo qual o imóvel pode ser vendido. c.2) ITBI (Imposto sobre transmissão inter vivos, a qualquer título, por ato oneroso, de bens imóveis, por natureza ou acessão física, e de direitos reais sobre imóveis, exceto os de garantia, bem como cessão de direitos a sua aquisição): Embora o art. 35, do CTN, trate do ITBI como imposto de competência estadual, em verdade, ele é de competência do município. Incide sobre a transmissão de bens imóveis (terrenos, casas, apartamentos, galpões etc.) ou os direitos a eles relativos, o que será seu fato gerador, a não ser quando a transferência de um imóvel seja para incorporá-lo ao patrimônio de uma pessoa jurídica após ocorrer a fusão de uma pessoa jurídica com outra (quando duas empresas se fundirem, se unirem, resultando em uma empresa só); a título de pagamento de um capital nela subscrito (por exemplo, se alguém ingressa em uma empresa e, em vez de subscrever capital, em vez de entrar com dinheiro, entra com um imóvel, que é incorporado ao patrimônio desta empresa). Acabamos de nos referir a dois casos de transferência de um imóvel para incorporação ao patrimônio de uma pessoa jurídica, como exceções à incidência do ITBI. No entanto, estas situações excepcionais também têm sua exceção! É o caso do art. 37, do CTN, que dispõe que incidirá ITBI no caso de a pessoa jurídica (em cujo patrimônio foi incorporado bem imóvel, seja para subscrição de capital, seja para fusão de empresas) ter sua atividade econômica voltada justamente para a venda e a locação de imóveis. Basta que, no período indicado na lei, mais de metade da receita de uma empresa seja oriunda da locação da venda ou locação de imóveis, ou da cessão de direitos imobiliários, para que seja compelida ao pagamento do ITBI e, mesmo se uma pessoa jurídica, só após a aquisição, venha a trabalhar neste ramo, poderá ser cobrada posteriormente (vide parágrafos 1° a 4° do art. 37). Subscrição de capital, incorporação de patrimônio e operações empresariais como a fusão, citadas, são temas próprios de direito empresarial, e serão explanados a partir da Aula 5. Assim como no caso do IPTU, a base de cálculo do ITBI é o valor venal dos bens imóveis, com a diferença que, aqui, também podem ser negociados direitos imobiliários; então, neste caso, será o valor venal (atribuído pelo Poder Público) a estes direitos também, caso haja. Já o contribuinte será qualquer uma das partes envolvidas nesta operação, em qualquer um dos lados. Importante salientar que, com a venda ou cessão de um bem imóvel ou direito, aquele que o alienou (vendeu, cedeu) terá auferido um ganho, tributável pelo Imposto de Renda. Neste caso, o montante do ITBI será deduzido - em outras palavras, descontado - do imposto devido à União, credora do IR. c.3) ISS (Imposto sobre serviços de qualquer natureza): Tem como fato gerador a efetiva prestação de um serviço remunerado e que esteja previsto na lista anexa à Lei que regula o imposto (Lei Complementar n° 116/2003, alterada pela Lei Complementar n° 157/2016), sendo devido pelos prestadores dos serviços em questão, pelas empresas ou pelos profissionais autônomos, que tenham ou não estabelecimento fixo. A base de cálculo será o valor bruto do preço do serviço (isto é, o valor sem os descontos) e terá alíquotas em torno de 2% a 5%. Como a matéria é extensa, não é possível que detalhemos o regramento de todos os assuntos ora abordados, cabendo a nós apresentá-los e adentrar em alguns tópicos importantes. Sugerimos a consulta à Biblioteca Virtual, para um melhor e mais completo aprendizado! 3 REGIMES DE TRIBUTAÇÃO Os Regimes de tributação são muito importantes aos empreendedores que precisam escolher como efetuar o recolhimento de tributos da forma mais adequada para cada tipo de empresa. A elevada carga tributária que incide sobre os particulares acaba por trazer-lhes ônus excessivos, forçando-os a buscar estratégias que reduzam a onerosidade do sistema de tributação, por meio de um planejamento que vise uma economia fiscal - basicamente reduzir ou evitar o pagamento de tributos, mitigando os efeitos da tributação - sem que, para isto, incorram em ilegalidades, como a opção, quando possível, dos regimes de tributação. Embora sejam mais bem ilustrados pela Contabilidade, não podemos nos eximir de buscar entendê-los, ainda que superficialmente, já que guardam uma estrita relação com a temática do Planejamento Tributário, a ser abordada na Aula seguinte. Os regimes tributários reúnem-se em sistemas que definem a cobrança de tributos de cada empresa de acordo com a arrecadação, e caracterizam-se pela forma com a qual o contribuinte deve tributar seus resultados, suas operações, suas rendas. No regime de tributação determinado como Lucro Real, geralmente adotado por empresas corporativas ou multinacionais, a apuração é calculada sobre o lucro líquido do período de apuração e as pessoas jurídicas sob o regime devem apresentar, à Receita Federal, seus registros financeiros e contábeis. São considerados, para esta apuração, descontos concedidos, valores adicionais etc., devendo ser delimitado o exato lucro atingido, para o cálculo do IRPJ e da CSLL e, de acordo com a apuração, os encargos diminuirão, aumentarão ou, a depender dos prejuízos havidos pela empresa durante o ano, poderão isentá-la do pagamento de impostos. PIS, Cofins, Imposto de Renda e Contribuição Social também são abarcados por este regime de lucro real, sendo que o regime não é cumulativo para PIS e Cofins. Por sua vez, o Lucro Presumido traz uma simplificação, pois, além de cumular PIS e Cofins, fixa uma base de cálculo do IRPJ e da CSLL de acordo com uma margem de lucro variável de 1,6% a 32%, a depender do tipo de negócio, isto é, do tipo de atividade exercida, conforme fixado pela lei. Pode ser adotado por aqueles não obrigados ao regime de apuração do lucro real. Todavia, como a margem de lucro é presumida e, assim, o valor é estipulado previamente, poderá ocorrer de uma empresa a ele sujeita pagar mais tributos do que efetivamente deve. 3.1 SIMPLES NACIONAL Considerando a importância do regime de tributação favorecida e unificada denominado “Simples Nacional” em nosso sistema, que teve vigência a partir de 1° de julho de 2007, com o advento da Lei Complementar n° 123, de 2006 (que definiu o Estatuto Nacionalda Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte), devemos dedicar-lhe algumas linhas. Os arts. 146, 170, inc. IX e 179, da Constituição Federal, determinam que os entes da Administração Pública direta (União, Estados, Distrito Federal e Município), por meio de lei, dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte (ME´s e EPP´s) sediadas e com administração no país um tratamento jurídico diferenciado, visando incentivá-las pela simplificação de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou pela eliminação ou redução destas por meio de lei. Também trataremos sobre ME´s e EPP´s a partir da Aula 5, quando partirmos para o estudo do Direito Empresarial. Apenas para nos situarmos, micro e pequenas empresas são a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada (“EIRELI”) e o empresário, definido pelo art. 966, do Código Civil; os quais estejam devidamente registrados no Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas; e, também, as sociedades de advogados registradas na OAB, as quais atenderão a alguns requisitos da lei. No caso da microempresa, para se enquadrar no regime especial do Simples, deve auferir receita bruta anual igual ou inferior a R$ 360.000,00. Se empresa de pequeno porte, este valor deve estar compreendido entre o limite da microempresa e R$ 4.800.000,00. Como as empresas são constituídas (abertas, formalizadas) em qualquer data, este cálculo de receita bruta, apesar de considerar o ano-calendário, é feito de forma proporcional (do início da atividade ao término daquele ano). Receita Bruta: Para as Ciências Contábeis, receita bruta representa o produto (somatória) da venda de bens e serviços, bem como o resultado nas operações em conta alheia (operações com comissão a terceiros vendedores, ou quando estes alienam, por conta, a mercadoria recebida em consignação e emitem as notas fiscais em seu nome, por exemplo), custo de financiamento nas vendas a prazo, gorjetas, trocas de mercadorias, aluguéis, royalties, verbas decorrentes de patrocínio, entre outros. Como exemplo do que não compõe o total da receita bruta, podemos citar: vendas canceladas e descontos incondicionais (basicamente descontos simples concedidos de valores para o comprador, colocados das faturas ou notas fiscais); juros moratórios, multas e demais encargos pagos por terceiros; remessas de amostras grátis; venda de bens do ativo imobilizado; alguns valores como multa ou indenização decorrentes da rescisão de um contrato; valores pagos por um salão ao cabeleireiro, esteticista, manicure, depilador, maquiador etc., quando este possui cadastro no CNPJ; e, também, rendimentos de algumas aplicações (CAPARROZ, 2019). Para fins tributários, este conceito é um pouco diferente, pois exclui impostos como IPI e o ICMS/ST, isto é, o ICMS na modalidade “Substituição Tributária”, quando cobrado pelo vendedor ou prestador de serviços na condição de substituto tributário - vide Aula 2). Este sistema, de nome oficial “Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte”, possui recolhimento unificado e centralizado, do ponto de vista do contribuinte; e o repasse das parcelas relativas aos Estados e Municípios é imediato, vedada à União a retenção ou a imposição de condições para a transferência financeira (CAPARROZ, 2019). Ele também trata da apuração e do recolhimento de impostos em todos os âmbitos (nacional, estadual e municipal), inclusive quanto às obrigações acessórias; dispõe sobre algumas obrigações principais e acessórias de natureza trabalhista; busca promover o acesso das ME´s e das EPP´s ao crédito e ao mercado (quanto à sua inclusão, à sua preferência na aquisição de bens e serviços pelos Poderes Públicos, à tecnologia etc.) e a criação de um cadastro nacional único de contribuintes. Isto representou um importante passo na legislação brasileira tanto para a proteção dos pequenos empresários, quanto para a desburocratização de alguns procedimentos e mecanismos postos à sua disposição. De acordo com Roberto Caparroz, A sistemática veiculada pelo Simples Nacional representa um grande avanço nas relações sociais do Brasil, pois permite que o pequeno empreendedor saia da informalidade e participe efetivamente, em condições de mercado, da atividade econômica. Isso possibilita a celebração de contratos, o registro de funcionários, a obtenção de financiamentos, a participação em licitações e todas as demais práticas necessárias para a sustentabilidade e o crescimento do negócio (CAPARROZ, 2019, p. 421). Mesmo sendo facultativo, este regime confere às ME e EPP´s não optantes pelo regime muitos benefícios, ainda que de natureza não tributária. É gerido pelo Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN), vinculado ao Ministério da Fazenda; pelo Fórum Permanente das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte e pelo Comitê para Gestão da Rede Nacional para Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios (CGSIM). A opção pelo regime deve ser feita via internet até o último dia útil do mês de janeiro e terá efeito a partir do primeiro dia deste ano- calendário, devendo o contribuinte declarar, desde sua inscrição, que preenche os requisitos da lei e estando ciente de que não poderá haver retratação (desistência) do pedido de enquadramento neste período durante este período. Uma vez incluso neste regime, os tributos serão cobrados conjuntamente, terão alíquotas progressivas, calculadas nos termos da LC 123/2006 e das alterações trazidas pela Lei Complementar n° 155/2016, incidentes sobre a receita bruta auferida no mês. O valor será recolhido mensalmente por meio de um documento denominado Documento único de Arrecadação - DAS. Apesar das alterações no cálculo das alíquotas, a Receita Federal disponibiliza, em seu sítio eletrônico, um sistema denominado Programa Gerador do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (PGDAS), que realiza os cálculos e já é emitido com efeito de declaração e de confissão de dívida, podendo ser executado posteriormente. Mesmo que os tributos devidos sejam inclusos em um único documento, por vezes, deverão ser recolhidos separadamente e de acordo com suas regras normais, como acontece quando o optante pelo Simples Nacional promover a importação de produtos estrangeiros, sobre os quais incidem IPI, ICMS, PIS e COFINS. No caso do ICMS/ST, quando as empresas figurarem como substituídos do ICMS (quando não forem responsáveis pela retenção do imposto), devendo indicar as receitas separadamente, para que não sejam computadas na base de cálculo mensal do imposto. Caso atuem como substitutas tributárias, o valor do ICMS será recolhido fora do Simples Nacional, enquanto o ICMS próprio será recolhido normalmente (vide art. 28 da Resolução CGSN 140/2018). Alguns tributos não foram contemplados nesta sistemática, de forma que, para eles, serão seguidas as regras aplicáveis a todas as pessoas jurídicas, sem diferenciação. São eles: taxas, contribuições de melhoria, empréstimos compulsórios, impostos extraordinários criados pela União e aqueles previstos no art. 5° da Resolução CGSN n° 140/2018. A mesma norma, em seus arts. 30 e seguintes, também prevê algumas imunidades e isenções. É importante, também, observarmos que, quanto aos tributos abarcados pelo regime, poderá haver pedido de parcelamento dos débitos do Simples Nacional, a qualquer tempo, em até 60 (sessenta) parcelas mensais e sucessivas, com valor calculado automaticamente pelo sistema (isto é, não sendo opção do contribuinte o número de parcelas), observado o mínimo de R$300,00 por parcela. A primeira será devida no próprio mês em que realizado o pedido de parcelamento, e as demais, que serão pagas até o último dia útil dos meses seguintes, serão atualizadas mensalmente com juros, taxa SELIC (taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), calculados desde o mês subsequente(posterior) ao da consolidação, isto é, da formalização do pedido, até o mês que anteceder ao pagamento, acrescidos de 1% em relação ao mês em que o pagamento for efetuado (CAPARROZ, 2019). No caso de valores recolhidos indevidamente, ou a maior, a restituição ou compensação é feita também pela internet, no prazo de 5 (cinco) anos contados do pagamento, observadas as disposições da lei relativas às condições e as vedações à compensação (ou o aproveitamento dos créditos para a extinção de outros débitos). Há também que se observar as regras processuais e suas exceções, relativas às autuações em face de omissões de receitas no contexto deste regime; quanto à competência para julgamento administrativo das discussões eventualmente surgidas; as consultas tributárias; a competência para atuação nos processos judiciais e a representação do ente público que será parte nestas demandas etc. A legislação também traz - além da vedação àqueles inclusos no Simples Nacional quanto a beneficiarem-se de incentivos fiscais destinados às empresas em geral ou transferirem, a outros, créditos relativos aos tributos abarcados por este regime (já que prevê um tratamento a eles diferenciado) - diversas hipóteses a partir das quais fica vedada a opção ao regime, constante do art. 15 da Resolução CGSN 140/2018. Estão ligadas basicamente a quatro fatores: ao porte da empresa (como empresas de médio e grande porte, com receita superior à estabelecida); à sua composição societária (sócios domiciliados no exterior, ou participantes de entidades da administração pública, direta ou indireta, em qualquer esfera da federação); à atividade exercida (excluindo, por exemplo, serviços bancários, empresas de geração de energia, de importação de alguns produtos). Por fim, também ocorrerão caso o contribuinte possua débitos com o INSS ou de natureza tributária, a não ser que estes débitos estejam com exigibilidade suspensa (de acordo com as circunstâncias elencadas na aula anterior). Se, porventura, houver a exclusão de alguma micro ou pequena empresa do regime, ela deverá recolher a totalidade ou a diferença dos tributos devidos; mas todas as hipóteses, requisitos e exceções devem ser observadas na respectiva normativa. Com a criação, pela Lei Complementar n° 128/2008, do Microempreendedor Individual (MEI), também incluído no Estatuto da Micro e Pequena Empresa, foi criado, para ele, um novo regime especial, o Sistema de Recolhimento em Valores Fixos Mensais dos Tributos Abrangidos pelo Simples Nacional (SIMEI). Pode participar o empresário individual que exerça atividade ligada à produção e à circulação de bens e serviços, com faturamento anual de até R$ 81.000,00 (valor também proporcional em caso de já ter iniciado atividade); com apenas um estabelecimento; não participante de outras empresas como sócio, titular ou administrador e com no máximo um empregado (que só poderá receber um salário mínimo); nem possuir relação de emprego perante algum contratante. Este sistema possui valores fixos, a depender de quais incidirão sobre cada empreendedor, tais como: contribuição previdenciária, de 5% do salário de contribuição; e, caso devido, ICMS a R$ 1,00 e ISS a R$ 5,00. Além disso, o MEI optante pelo Sistema em questão fica isento de tributos como IRPJ, CSLL, PIS/Pasep, COFINS, IPI (embora deva efetuar a retenção dos quatro primeiros). E, caso não tenha empregado contratado, ainda fica dispensado do INSS Patronal. Outros não sofrem alteração. São eles: IOF; tributos devidos na importação (IOF, IPI, ICMS, PIS e COFINS) e na exportação; ITR; imposto de renda relativo aos rendimentos ou ganhos líquidos auferidos em aplicações de renda fixa ou variável, ou relativo aos ganhos de capital auferidos na alienação de bens do ativo permanente, ou relativo aos pagamentos ou créditos efetuados pela pessoa jurídica a pessoas físicas e a contribuição previdenciária relativa ao empregado, caso haja (CAPARROZ, 2019). Saiba mais em: PORTAL TRIBUTÁRIO (http://www.portaltributario.com.br/guia/mei.html) SEBRAE (http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/UFs/BA/Anexos/guia_do_microempreendedor_(2).pdf) Visto isso, você deve se perguntar: foi possível compreender o estudo das espécies tributárias (impostos, taxas, contribuições, empréstimos compulsórios, contribuições sociais interventivas econômicas e contribuições profissionais)? E a origem, o regramento e o funcionamento dos principais impostos atualmente existentes? Você é capaz de descrever como funciona a repartição de receitas tributárias e a sistemática dos regimes de tributação, em especial o Simples Nacional? Caso você consiga responder a estas questões, parabéns! Você atingiu os objetivos específicos desta Aula! Caso tenha dificuldade para responder alguma, ou algumas delas, aproveite para reler o conteúdo da Aula, acessar o UNIARAXÁ Virtual e interagir com seus colegas, tutor(a) e professor(a). Você não está sozinho nessa caminhada! Conte conosco! http://www.portaltributario.com.br/guia/mei.html http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/UFs/BA/Anexos/guia_do_microempreendedor_(2).pdf Chegou o momento de complementar seu conhecimento. Vá até seu Ambiente Virtual de Aprendizagem e acesse esta aula para assistir a Video Aula RECAPITULANDO Vamos, agora, recordar os principais pontos abordados, para, enfim, continuar nosso aprendizado com as Aulas que seguem. Nesta Aula, vimos que, embora falemos em “impostos” em nosso dia a dia, estes representam apenas uma espécie dentre outras espécies de tributos, tais como taxas, contribuições, empréstimos compulsórios, contribuições sociais interventivas econômicas e contribuições profissionais. Além de mencionarmos outros tipos de tributos, também verificamos a sistemática e o funcionamento dos principais impostos, tais como Imposto de Renda (IR), Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), Imposto de Importação (II), Imposto de Exportação (IE), Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), Imposto Sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), Propriedade Predial e Territorial Urbana ou Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Imposto Sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), Imposto Sobre Serviços (ISS), dentre outros. Também analisamos como funcionam o sistema de repartição de receitas tributárias e os regimes de tributação, especialmente o “Simples Nacional”. Com isto, podemos partir para a próxima Aula, na qual aprofundaremos em questões também mais pontuais, como processo e planejamento tributário, Administração Tributária, privilégios e garantias do crédito tributário e processo tributário. Nos vemos na próxima Aula! REFERÊNCIAS CAPARROZ, Roberto; LENZA, Pedro (coord.). Direito tributário esquematizado. 3. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. COELHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro. 16. ed., rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018. PAULSEN, Leandro. Curso de direito tributário completo. 10. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. SABBAG, Eduardo. Direito tributário. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2019. Fato gerador Sujeito passivo Serviço público específico e divisível Exação Capital Subscrito Fato Gerador: é a ocorrência, em si, que traz à tona a exigência do respectivo ônus (obrigação) para o contribuinte. Sujeito Passivo: é o chamado contribuinte, quando tem relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador ou responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Serviço Público Específico e Divisível: pode ser identificado o beneficiário a quem é prestado e que consegue dele usufruir de forma individualizada, sem obrigatoriamente compartilhar com terceiros. Exação: cobrança específica doEstado. Capital Subscrito: quando um determinado acionista ou cotista se compromete a integralizar posteriormente um dado valor para formação do capital social da empresa, dizemos que esse é um capital subscrito. Capital Subscrito: quando um determinado acionista ou cotista se compromete a integralizar posteriormente um dado valor para formação do capital social da empresa, dizemos que esse é um capital subscrito.