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Com base nas questões e respostas apresentadas nas fontes, é possível fazer um resumo com explicações e contexto sobre diversos tópicos do Direito Internacional, abrangendo Direito Internacional Privado (DIPRI), Tratados Internacionais, Domínio Público Internacional e Conflitos Internacionais/Tribunal Penal Internacional (TPI). Direito Internacional Privado (DIPRI) As questões de DIPRI apresentadas nas fontes,,,, e focam na aplicação de regras de conexão para determinar qual lei e qual jurisdição são competentes para resolver litígios com elementos estrangeiros. O elemento de estraneidade é essencial para a aplicação das normas de DIPRI. · União Estável e Bens no Exterior (Questão 1,): Quando brasileiros e argentinos em união estável no Uruguai adquirem um imóvel na França e discutem a partilha após a dissolução, a lei aplicável à partilha do imóvel é a lei francesa, pois é o local onde o bem está situado (Lex Rei Sitae). Este princípio é reiterado em outras questões sobre doação de imóvel no exterior (Questão 6) e para qualificar e regular bens em geral (Art. 8º, LINDB). Para bens móveis trazidos pelo proprietário, aplica-se a lei do domicílio do proprietário (Art. 8º, §1º). · Contrato Internacional e Falência (Questão 2,): Em um contrato entre empresa chilena e brasileira, com a brasileira em falência antes da execução, a lei que rege as obrigações contratuais é a lei do domicílio do proponente do contrato, que neste caso seria a lei do domicílio do contratado (empresa brasileira). O Artigo 9º da LINDB determina que as obrigações se regem pela lei do país onde se constituírem, considerando-se o lugar onde residir o proponente. · Sucessão Transnacional (Questão 3,; Questão 9,; Questão 16,; Questão 20,; Questão 18/19,): A sucessão por morte obedece à lei do país em que domiciliado o falecido (de cujus), independentemente da natureza ou localização dos bens (Art. 10º, LINDB). Assim, para um português domiciliado no Brasil com bens em ambos os países, a lei brasileira rege a sucessão. A lei brasileira beneficia filhos ou cônjuge brasileiros se for mais favorável que a lei pessoal do falecido (Art. 10 §1º, LINDB). O domicílio do falecido é o principal elemento de conexão para a sucessão. A lei do domicílio do herdeiro ou legatário regula a capacidade para suceder (Art. 10, §2º, LINDB). · Cláusula de Eleição de Foro Nula (Questão 4,): Se as partes escolhem um foro sem jurisdição sobre o objeto ou as partes, a cláusula não é válida. Nestes casos, pode-se aplicar uma cláusula de escape (onde o juiz ignora a legislação escolhida). O foro competente seria o local da execução do contrato ou o domicílio do Réu. · Casamento Internacional e Reconhecimento (Questão 5,; Questão 14,; Questão 21/22,; Questão 24,; Questão 16/17,; Questão 24/25,): · O casamento de brasileira por procuração com cidadão saudita é válido no Brasil se respeitadas as formalidades da lei brasileira (Art. 7º, § 1 e art. 17, LINDB). As formalidades do casamento no Brasil seguem a lei brasileira. · O regime de bens de um casal (francesa e brasileiro) que se casa na Suíça e se muda para o Brasil prevalece pela lei do primeiro domicílio conjugal, que é a lei da Suíça neste caso (Art. 7º, §4º, LINDB). Para um casal (italiano e brasileira) que casa no consulado italiano no Brasil, mas fixa domicílio em Portugal, a lei aplicável ao regime de bens será a lei portuguesa. A lei do domicílio dos nubentes à época do casamento determina o regime de bens. · A naturalização brasileira cumulada com a homologação do casamento pode levar à alteração do regime de bens para a separação parcial, o regime aceito no Brasil (Art. 7º, § 4º e 5º, LINDB). · Filiação Socioafetiva (Questão 7,): O reconhecimento por brasileiro domiciliado na Itália de criança italiana como filha afetiva segue a lei do domicílio do reconhecedor, ou seja, a lei italiana (Art. 7º, LINDB). · Obrigações Contratuais com Moeda Estrangeira (Questão 8,): Contrato entre brasileiros celebrado nos EUA com pagamento em euros rege-se pela lei dos Estados Unidos (Art. 9º, LINDB). · Sociedade Internacional com Filial Irregular (Questão 10,): A atuação de uma filial de sociedade argentina no Brasil sem registro segue a legislação brasileira, pois a lei do local onde a filial está regula sua operação (Art. 11, §1º, LINDB). · Reconhecimento de Sentença Estrangeira (Questão 11,; Questão 17,; Questão 19/25,; Questão 23,; Questão 29/30,): · Sentença arbitral de Singapura entre empresas brasileiras pode ser executada no Brasil se homologada pelo STJ e não contrariar a ordem pública (Art. 15 e 17, LINDB). · Sentença espanhola de guarda de filhos pode ter eficácia no Brasil se homologada pelo STJ e não ferir o ordenamento jurídico (Art. 15º e 17º, LINDB). · Sentença italiana de divórcio consensual entre brasileiros residentes na Itália, ao retornarem ao Brasil, prescinde de homologação pelo STJ (Art. 961, §5º, CPC). Antes da alteração pela EC 66/2010, o divórcio consensual obtido no exterior por brasileiros só era reconhecido após 1 ano da sentença, salvo precedido de separação judicial, e dependia de homologação pelo STJ. O fato de não haver advogado no processo italiano não interfere no reconhecimento se a lei local não o exigia (Lex Fori). · Uma sentença estrangeira de divórcio consensual com partilha de bens, incluindo bens imóveis no exterior, produz efeitos no Brasil independentemente de homologação pelo STJ (Questão 23 C). · Mudança de Domicílio Após Contrato (Questão 12,): Contrato internacional celebrado na França com mudança posterior do domicílio das partes para o Brasil rege-se pela lei da França, local onde a obrigação se constituiu (Art. 9º, LINDB). · Compensação Internacional de Danos Morais (Questão 13,): Dano moral sofrido por brasileiro na Itália, com pedido de indenização no Brasil, segue a lei italiana, lei do fato gerador (local da prática ilícita) (Art. 13º, LINDB). · Fraude à Lei (Questão 15,): Reconhecimento de criança brasileira por cidadão francês para fins de visto não tem eficácia no Brasil por fraude e ofensa à ordem pública (Art. 17º, LINDB). A ordem pública é um limite à aplicação da lei estrangeira no Brasil (Art. 17º, LINDB) e pode ser invocada através de cláusulas de escape. · Contrato com Norma de Ordem Pública (Questão 18,): Cláusula em contrato internacional prevendo exclusão de responsabilidade por dano ambiental não é válida pois fere o ordenamento jurídico brasileiro (ordem pública) (Art. 17º, LINDB). · Contrato Internacional e Autonomia da Vontade (Questão 22,): Em contrato internacional, a escolha da lei aplicável e do foro arbitral pode ser afastada caso fira normas de ordem pública brasileira, como princípios do direito do consumidor. A autonomia da vontade permite que as partes escolham o direito aplicável em relações privadas internacionais. · Elementos de Conexão Brasileiros (Questão 32,): A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) adota diversos elementos de conexão: · Domicílio: Principal elemento no Brasil. Determina regras sobre personalidade, capacidade e direitos de família. · Nacionalidade: Usado para questões como casamento e sucessão. No entanto, o critério brasileiro para personalidade é o domicílio. · Lex Fori: Lei do local onde a ação judicial é instaurada, regula aspectos processuais. · Lex Rei Sitae: Lei do local onde a coisa está situada, aplicada a bens. · Lex loci delicti comissi: Lei do local onde o ilícito foi cometido, aplicada a danos. · Lex loci execucionis: Lei do local de execução de contrato ou obrigação. · Lugar de constituição da obrigação: Lei do local onde a obrigação foi contraída. · Autonomia da vontade: Partes escolhem o direito aplicável. A correta correlação entre fato jurídico e elemento de conexão na LINDB, conforme a questão 32, é a da personalidade e capacidade - domicílio da pessoa (Art. 7º, LINDB). Outras opções são incorretas: Regime de bens segue o domicílio dos cônjuges ou primeiro domicílio conjugal (Art. 7, §4º), não a nacionalidade. Qualificação e regulação das obrigações seguem a lei do país ondese constituírem, não o domicílio dos contratantes (Art. 9º). Formalidades do casamento no Brasil seguem a lei brasileira (Art. 7, §1º), não a nacionalidade dos nubentes. Penhor segue a lei do local do bem (Art. 8º). · Lei Aplicável ao Mérito de Contrato Firmado no Exterior (Questão 31,): Em controvérsia submetida ao juiz brasileiro sobre contrato firmado no exterior, aplica-se ao mérito a lei do local da celebração do contrato, que é o lugar de constituição da obrigação (Art. 9º, LINDB). Tratados Internacionais A fonte explora o processo de elaboração e validade dos tratados-. Uma questão de concurso aborda a validade de um tratado que viola o direito interno de um Estado sobre competência para concluir tratados. · Validade de Tratado vs. Direito Interno (Questão 34,): Um Estado não pode invocar o fato de que seu consentimento em obrigar-se por um tratado foi expresso em violação de uma disposição de seu direito interno sobre competência para concluir tratados, a não ser que essa violação fosse manifesta e dissesse respeito a uma norma de seu direito interno de importância fundamental. Isso significa que, em geral, uma violação interna não invalida o consentimento no plano internacional, a menos que seja flagrante e toque em norma basilar do direito interno. A opção correta é a B). Domínio Público Internacional As fontes- definem e listam as áreas consideradas Domínio Público Internacional e aquelas sob soberania estatal, e as questões em- testam essa distinção. · Áreas de Domínio Público Internacional (Questão 42,): Domínio Público Internacional são regiões que podem ser utilizadas pela sociedade internacional, regidas por tratados e convenções. Incluem oceanos, rios internacionais, espaço aéreo (embora sob soberania estatal, é regulado internacionalmente permitindo sobrevoo e escala), Antártida, Polo Norte/Ártico, mares internacionais (alto-mar), fundos marinhos, estreitos internacionais, e espaço extra-atmosférico. Áreas que não configuram Domínio Público Internacional são aquelas onde um ou mais Estados detêm soberania, regidas por normas nacionais. Exemplos incluem canais, águas interiores, mar territorial (até 12 milhas), zona contígua (12 a 24 milhas), zona económica exclusiva (ZEE, até 200 milhas), e plataformas continentais. A Sibéria é um território terrestre sob soberania da Rússia, portanto não é domínio público internacional. A Internet, embora global, não é um domínio geográfico físico no mesmo sentido que os outros espaços. · A questão 42 pergunta qual não é tema de domínio público internacional. As opções incluem espaço aéreo, espaço sideral, continente antártico, Internet e Sibéria. A resposta correta é a Sibéria, pois é território soberano da Rússia, e a Internet (embora a explicação não a categorize explicitamente como não DP, ela a lista como uma opção incorreta, implicando que não é um tema geográfico/espacial típico de DP internacional). · Espaços que não se sujeitam à soberania de nenhum país (Questão 43,): O domínio público internacional refere-se a espaços de interesse geral. A opção correta afirma que os espaços territoriais de domínio público internacional não se sujeitam à soberania de nenhum país. Isso é verdade para o alto-mar, fundos marinhos (princípio da não apropriação), Antártida (reivindicações suspensas), e espaço extra-atmosférico (não pertence a nenhum país). Embora o espaço aéreo esteja sob soberania estatal, a questão parece focar nos espaços que são res communis. Outras opções são incorretas: Espaço aéreo é considerado domínio público internacional em certo sentido, mas sob soberania estatal. A Antártida destina-se a fins científicos e pacíficos, atividades militares são proibidas. O domínio privado dos corpos celestes não é juridicamente possível, o espaço extra-atmosférico e corpos celestes são para uso pacífico e benefício da humanidade. Rios internacionais são regulados pelo uso equitativo, respeitando a soberania dos Estados ribeirinhos. · Navegação Aérea e Direito Internacional (Questão 44,): A Convenção de Aviação Civil Internacional (Convenção de Chicago) regula o espaço aéreo. A questão 44 aborda aspectos da navegação aérea. A opção correta é que, no caso de acidente de aeronave de um Estado em território de outro Estado, ocasionando a morte de passageiros, será oferecido ao Estado de registro designar observadores para assistirem às investigações. Isso reflete a cooperação internacional em investigações de acidentes aéreos. As outras opções são incorretas: A zona contígua não é considerada território para delimitação do espaço aéreo, que está acima do território terrestre e mar territorial. A Convenção de Chicago se aplica a aeronaves civis, e não primariamente a aeronaves governamentais usadas para fins alfandegários, embora haja regras específicas. O registro duplo de aeronaves não é a norma. A nacionalidade da aeronave é a do Estado onde está registrada. Conflitos Internacionais e Tribunal Penal Internacional (TPI) As fontes- abordam mecanismos de solução pacífica de controvérsias, o uso da força no Direito Internacional, o Direito Internacional Humanitário (DIH) e o TPI. · Mecanismos de Solução de Controvérsias: O Artigo 33 da Carta da ONU lista meios pacíficos como negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, e recurso a acordos regionais. A guerra não é um meio lícito de resolução, salvo legítima defesa ou interesse da sociedade internacional em manter a paz. Os mecanismos devem ser preventivos e admitem o emprego de meios que não recorram ao Direito (meios diplomáticos/políticos). Não há hierarquia entre os mecanismos. Meios diplomáticos/políticos incluem consultas, inquérito, negociação, bons ofícios, mediação e conciliação. Meios semijudiciais referem-se à arbitragem. Meios judiciais envolvem submissão a órgãos preexistentes e permanentes como a CIJ e o TPI. · Violações da Carta da ONU em Conflitos Recentes-: Exemplos de violações do Artigo 2(4) (proibição do uso da força) são citados na expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia, na invasão russa na Ucrânia, e na intervenção saudita no Iêmen. O Artigo 25 (aceitar decisões do Conselho de Segurança) foi violado por Israel e, implicitamente, pelo veto da Rússia no Conselho de Segurança. O Artigo 55 (promoção de direitos humanos) foi violado no bloqueio a Gaza e na fome e ataques a hospitais no Iêmen. O Artigo 51 (legítima defesa) foi invocado pela Ucrânia. O Artigo 1(2) (autodeterminação) foi violado na Caxemira. O Artigo 3 (direitos humanos básicos) foi violado nos massacres em Darfur. O Artigo 39 (Conselho de Segurança agir diante de ameaças à paz) falhou no Sudão devido a divisões internas. · Direito de Guerra (Jus in Bello): O Direito Internacional regulamenta a conduta na guerra. Convenções de Haia (1899, 1907) estabelecem regras sobre meios e métodos de guerra, proibindo armas que causem sofrimento desnecessário, uso de veneno ou armas traiçoeiras, e ataques a cidades indefesas. As Convenções de Genebra protegem pessoas fora de combate (civis, feridos, prisioneiros). Proíbem assassinato, tortura, mutilações, tomada de reféns, tratamentos degradantes e execuções sem julgamento justo para pessoas protegidas. Médicos, enfermeiros e capelães capturados não são prisioneiros de guerra, tendo proteções especiais. Hospitais civis nunca podem ser atacados e devem ser protegidos, a menos que sejam usados para fins militares. Prisioneiros de guerra (POWs) devem ser tratados com humanidade, protegidos contra violência e humilhação, e só são obrigados a fornecer informações básicas (nome, patente, data de nascimento, identificação). O uso de força contra POWs só é permitido como último recurso em caso de fuga, com avisos e proporcionalidade. Devem ser libertados e repatriados sem demora ao cessarem as hostilidades. · Tribunal Penal Internacional (TPI): Criado pelo Estatuto de Roma (1998-2002), julga crimes de gravidade internacional quando os países não o fazem. Sua jurisdição abrange genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crime de agressão.O TPI julga pessoas físicas, não Estados. A responsabilidade individual pode decorrer da prática direta do crime, ordenação, solicitação, incitação, ajuda, facilitação ou contribuição intencional para crimes de um grupo criminoso. A hierarquia das fontes do TPI inclui o Estatuto de Roma e seus elementos e regulamentos (primário), tratados e princípios de direito internacional como DIH e direito consuetudinário (secundário), e princípios gerais de direito nacional compatíveis (subsidiário). O TPI pode usar sua jurisprudência. Um Estado Parte pode denunciar crimes ao Procurador do TPI. O erro de fato exclui responsabilidade se anular o dolo, mas o erro de direito geralmente não exclui responsabilidade, salvo em exceções específicas. As penas principais são prisão temporária (até 30 anos) ou prisão perpétua em casos de extrema gravidade, podendo haver multas e perda de bens como penas acessórias. O TPI escolhe o Estado para cumprimento da pena a partir de uma lista de voluntários, considerando a gravidade, condições do condenado, opinião e nacionalidade. A pena definida pelo TPI é vinculativa, e apenas o TPI pode decidir sobre revisões. O TPI pode solicitar a detenção e entrega de acusados aos Estados. · Atividade Prática / Cenário do TPI: O cenário de um ex-comandante militar acusado de crimes contra a humanidade, crimes de guerra e extermínio populacional (bloqueio de água) levanta questões cruciais no âmbito do DIH e do Estatuto de Roma: · Responsabilidade de comando (Artigo 28, Estatuto de Roma): O comandante sabia ou deveria saber dos crimes cometidos por suas tropas?. · Proporcionalidade dos ataques: Os ataques a hospitais foram intencionais (crime de guerra) ou erros acidentais?. · Defesa de "ordens superiores" (Artigo 33, Estatuto de Roma): O acusado agiu sob coação, ou seja, foi forçado a cometer os crimes?. O erro sobre a ilegalidade da ordem pode ser aceito se a ordem não fosse manifestamente ilegal. · Questões para Debate: As fontes sugerem debates sobre a utilização da água como arma política, o possível papel da ONU em conflitos hídricos, o equilíbrio entre soberania e intervenção humanitária, a eficácia do DIPRI na resolução de conflitos atuais, e o papel do Brasil nesses cenários. Este resumo abrange os principais pontos e contextos ilustrados pelas questões e respostas presentes nas fontes fornecidas, oferecendo uma visão geral dos temas abordados em cada aula/lista de exercícios. Outro resumo Com base nas informações fornecidas nas fontes, apresento um resumo completo dos temas abordados, com o devido contexto: As fontes tratam de diversos aspetos do Direito Internacional, divididos principalmente em Direito Internacional Público (Tratados, Domínio Público Internacional, Conflitos Internacionais) e Direito Internacional Privado. 1. Tratados Internacionais Os tratados são instrumentos fundamentais no Direito Internacional. São definidos como acordos entre sujeitos de Direito Internacional, regidos exclusivamente pelo Direito Internacional. A terminologia pode variar, incluindo termos como Carta, Estatuto, Concordata, Convenção, Convênio, Declaração, Memorando de Entendimento, Modus Vivendi, Pacto, Protocolo. Os "Gentlemen’s Agreements" formalmente parecem tratados, mas não visam produzir efeitos jurídicos cogentes, estabelecendo apenas princípios e condutas esperadas. O processo de elaboração de um tratado internacional geralmente segue as etapas de Negociação, Assinatura, Ratificação e Entrada em Vigor. A negociação é conduzida por autoridades competentes, muitas vezes funcionários com plenos poderes. No Brasil, a União é competente para negociar, sendo o Presidente da República a autoridade para celebrá-los, sujeito ao referendo do Congresso Nacional. A Assinatura marca o encerramento das negociações, a adoção e autenticação do texto, e o encaminhamento para ratificação. Em regra, a assinatura não gera efeitos jurídicos imediatos, sendo uma "anuência preliminar". As partes só ficam vinculadas após a ratificação e a entrada em vigor. Contudo, existem tratados que obrigam as partes apenas com a assinatura, como os acordos executivos que não implicam novos compromissos externos. Mesmo antes da ratificação, ao assinar, o Estado tem a obrigação de se abster de condutas que frustrem o objeto do tratado. A Ratificação é o ato pelo qual um Estado confirma seu interesse e estabelece seu consentimento em obrigar-se pelas normas do tratado. É um ato discricionário do Presidente da República no Brasil, com autorização do Congresso Nacional. Para que um tratado entre em vigor, é necessário que todas as partes relevantes ratifiquem ou que um número mínimo de ratificações seja alcançado. Todo tratado concluído por Estados-membros da ONU deve ser registrado e publicado pelo Secretariado-Geral da ONU. Embora a Carta da ONU sugira que o registro é condição para a entrada em vigor, na prática, os tratados entram no âmbito do Direito Internacional independentemente do registro. As condições de validade de um tratado incluem a capacidade das partes (Estados, OIs, Santa Sé), habilitação dos agentes, objeto lícito e possível que não viole o jus cogens, e consentimento regular, livre de vícios como erro, dolo, coação e corrupção do representante do Estado. A ameaça ou o emprego da força constitui causa de nulidade absoluta. A Adesão é o processo pelo qual um Estado ou OI manifesta vontade de se tornar parte de um tratado já assinado ou em vigor, sujeitando-se aos critérios estabelecidos no tratado. Tratados podem ser modificados por Emenda (mudanças simples) ou Revisão (mudanças complexas). Reservas são declarações unilaterais de um Estado para excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições de um tratado multilateral em sua aplicação. A extinção de um tratado pode ocorrer por vontade comum ou unilateral das partes, alteração das circunstâncias, acordo posterior, violação substancial, retirada, ou impossibilidade de cumprimento. A Denúncia é a forma unilateral de uma parte se desvincular, com efeitos ex nunc. A Suspensão temporária dos efeitos também é possível, seja prevista no tratado ou por acordo posterior. No sistema brasileiro, a denúncia é ato privativo e discricionário do Presidente da República, não sujeito a autorização do Congresso Nacional. A relação entre tratados e direito interno no Brasil envolve critérios cronológico e da especialidade, sujeitos a controle de constitucionalidade, e tratados não podem regular matérias reservadas à lei complementar. 2. Domínio Público Internacional O Domínio Público Internacional refere-se a regiões utilizáveis pela sociedade internacional, cujo regime jurídico é internacional, regulado por tratados e convenções. Exemplos incluem: · Oceanos e Rios Internacionais: Regulados por tratados como a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS), exigindo uso equitativo por Estados ribeirinhos. · Espaço Aéreo: Embora sob soberania do Estado, é considerado domínio público internacional regulado pela Convenção de Chicago, permitindo sobrevoo e escala técnica conforme as "liberdades do ar". · Antártida: Regida pelo Tratado da Antártida, garante uso pacífico e científico, proíbe atividades militares e exploração mineral, suspende reivindicações de soberania e é gerida por cooperação. · Polo Norte/Ártico: Parcialmente regulado pela UNCLOS (ZEEs de até 200 milhas), com reivindicações territoriais avaliadas pela ONU; área estratégica por rotas e recursos. · Mares Internacionais (Alto-Mar): Áreas além das 200 milhas náuticas, sem soberania estatal, regidas pelo princípio da liberdade dos mares (navegação, sobrevoo, pesca, pesquisa). · Fundos Marinhos: Localizados além das 200 milhas náuticas, são patrimônio comum da humanidade, regulados pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), com princípios de não apropriação, uso pacífico e interesse da humanidade. · Estreitos Internacionais: Passagens naturais que conectam mares abertos, garantindo trânsito livre e contínuo. · Espaço Extra-Atmosférico (Sideral): Começa na linha Kármán (cerca de 100 km),não pertence a nenhum país, regido por tratados como o Tratado do Espaço Exterior de 1967, para uso pacífico em benefício da humanidade. Em contraste, existem Áreas que Não Configuram Domínio Público Internacional, onde um ou mais Estados detêm soberania e o regime jurídico é interno, regulado por normas nacionais. Exemplos incluem: · Canais: Vias artificiais em territórios soberanos, regidos por tratados específicos que restringem a "passagem inocente". · Águas Interiores: Águas dentro das linhas de base de um país (baías, estuários, rios, lagos), sob soberania plena, sem obrigação de permitir “passagem inocente”. · Mar Territorial: Faixa de até 12 milhas náuticas, sob quase total soberania do Estado, onde navios estrangeiros têm direito de “passagem inocente”, desde que não comprometam a paz, ordem ou segurança. · Zona Contígua: Vai de 12 a 24 milhas náuticas, onde o Estado tem poderes limitados de fiscalização para prevenir/punir infrações (alfândega, imigração, saúde, segurança). · Zona Económica Exclusiva (ZEE): Vai até 200 milhas náuticas, onde o Estado costeiro tem direitos soberanos para explorar e gerenciar recursos naturais, mas Estados estrangeiros mantêm liberdade de navegação e colocação de cabos/dutos. · Plataforma Continental: Continuação natural do território submerso, onde o Estado tem direito exclusivo de explorar recursos do solo e subsolo, mas as águas acima permanecem internacionais. 3. Conflitos Internacionais O Direito Internacional busca a solução pacífica de controvérsias. A guerra não é um meio lícito, exceto em legítima defesa ou para manter/restaurar a paz. Os mecanismos de solução de controvérsias (MSC) são baseados no voluntarismo (consentimento dos sujeitos) e devem ser preventivos sempre que possível. O Artigo 33 da Carta da ONU lista meios pacíficos como negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais, ou qualquer outro meio pacífico escolhido pelas partes. Os meios de solução podem ser classificados como Facultativos ou Obrigatórios (quanto à compulsoriedade das decisões) e Diplomáticos/Políticos ou Jurídicos (quanto à fundamentação da decisão). · Meios Políticos e Diplomáticos são aqueles em que as partes mantêm o controle sobre o resultado. Incluem Consultas, Inquérito (investigação para esclarecer fatos), Negociação (entendimentos diretos), Bons Ofícios (terceiro oferece local neutro), Mediação (terceiro propõe solução não vinculativa), e Conciliação (comissão propõe parecer/relatório não vinculativo). · Meios Jurídicos envolvem a aplicação do direito por um terceiro. · Meio Semijudicial: Arbitragem. As partes concordam em submeter a controvérsia a árbitros de sua escolha e se obrigam a cumprir a sentença ou laudo arbitral. O tribunal arbitral se dissolve após o trabalho. · Meio Judicial: Submissão a órgãos permanentes e preexistentes, como a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e o Tribunal Penal Internacional (TPI). Existem também os Meios Coercitivos, utilizados quando os pacíficos falham, que nem sempre são abonados pelo Direito Internacional. O Direito Internacional também se ocupa da regulamentação da conduta em conflitos armados (Jus in bello). Documentos importantes incluem as Convenções de Haia (sobre meios e métodos de guerra, proibindo sofrimento desnecessário e protegendo civis/prisioneiros) e as Convenções de Genebra (protegendo pessoas fora de combate: feridos, doentes, náufragos, prisioneiros de guerra, civis). As Convenções de Genebra detalham a proteção a pessoas fora de combate, o tratamento de feridos e enfermos, quem são as pessoas protegidas (forças armadas, milícias, levée en masse), o tratamento de prisioneiros de guerra (custódia estatal, proibição de violência/mutilação/humilhação, respeito à dignidade, informações obrigatórias, proibição de tortura), a condição especial de médicos/capelães capturados, o uso de força contra prisioneiros (apenas como último recurso contra fuga), e a repatriação de prisioneiros após o cessar das hostilidades. Também tratam da proteção de civis em território ocupado, com algumas exceções, e da inviolabilidade de hospitais civis, desde que não usados para fins militares. O Estatuto de Roma de 1998 criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), responsável por julgar crimes de maior gravidade internacional quando os países não o fazem. Os crimes sob sua jurisdição são Genocídio, Crimes contra a Humanidade, Crimes de Guerra e Crime de Agressão. O TPI julga pessoas físicas, não Estados. O Estatuto define Genocídio como atos cometidos com a intenção específica de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Crimes contra a Humanidade são atos sistemáticos contra uma população civil (homicídio, extermínio, escravidão, tortura, etc.). Crimes de Guerra são violações graves das leis da guerra. Estados Partes podem denunciar situações ao TPI para investigação. As fontes de direito utilizadas pelo TPI incluem o Estatuto de Roma, tratados internacionais (como o Direito Internacional Humanitário) e princípios gerais do direito nacional. O Estatuto prevê formas de responsabilidade individual (cometer crime, ordenar, auxiliar, contribuir), defesas como erro de fato (se anular o dolo) ou erro de direito (em exceções limitadas, como ordens ilegais não manifestamente ilegais), e as penas aplicáveis (prisão, multa, perda de bens). A execução das penas ocorre em Estados voluntários, e as decisões do TPI sobre a pena são vinculativas para o Estado de execução. 4. Direito Internacional Privado O Direito Internacional Privado (DIPRI) é um conjunto de normas jurídicas que determina qual legislação é aplicável e qual jurisdição é competente para resolver conflitos de leis no espaço. Suas normas são de "sobredireito" ou indiretas, pois não regulam diretamente o facto, mas indicam qual ordenamento jurídico deve ser aplicado. No entanto, há uma tendência moderna para algumas normas de DIPRI regularem fatos diretamente. O DIPRI busca evitar conflitos de leis, promover justiça e equidade, evitar decisões divergentes e facilitar o comércio/relações privadas internacionais, proporcionando previsibilidade e segurança jurídica. A aplicação do DIPRI requer a presença de um elemento de estraneidade. Os mecanismos para resolver conflitos de leis incluem: · Regras de Conexão: Indicam a lei aplicável com base em elementos como o domicílio, nacionalidade, localização do bem, ou lugar da celebração do ato. O domicílio é o principal elemento de conexão no Brasil. · Lex Fori e Lex Causae: A Lex Fori é a lei do local onde a ação é instaurada (regula aspetos processuais). A Lex Causae é a lei determinada pelas regras de conexão (regula o mérito). · Cláusulas de Escape: Permitem ao juiz desconsiderar a lei estrangeira se for contrária à ordem pública do foro. · Reconhecimento e Execução de Decisões Estrangeiras: Trata da aceitação e implementação de julgamentos de outro país, sob condições como a não violação da ordem pública local. No Brasil, a homologação de sentenças estrangeiras compete ao STJ, embora o divórcio consensual estrangeiro de brasileiros possa ser reconhecido imediatamente sem homologação do STJ. As fontes do DIPRI incluem Tratados e Convenções Internacionais, Costume Internacional, Princípios gerais do Direito, Jurisprudência, Doutrina, Lex Mercatoria e Legislação Nacional. A hierarquia geralmente coloca tratados e convenções acima das leis nacionais. A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) contém diversas regras de DIPRI, como: · Art. 7º: A lei do domicílio da pessoa rege a personalidade, capacidade e direitos de família. O regime de bens obedece à lei do domicílio dos nubentes ou do primeiro domicílio conjugal. · Art. 8º: A lei do país em que estiverem situados os bens rege sua qualificação e relações. Bens móveis para transporte obedecem à lei do domicílio do proprietário. Imóveis no Brasil sujeitam-se à jurisdição brasileira. · Art. 9º: As obrigações regem-se pela lei do país em que se constituírem. Contratos consideram-se constituídosonde residir o proponente. · Art. 10º: A sucessão obedece à lei do domicílio do falecido. Há uma exceção em benefício do cônjuge ou filhos brasileiros se a lei brasileira lhes for mais favorável. A capacidade para suceder rege-se pela lei do domicílio do herdeiro/legatário. · Art. 11º: Organizações obedecem à lei do Estado em que se constituírem, mas filiais no Brasil ficam sujeitas à lei brasileira. · Art. 15º: Requisitos para execução de sentença estrangeira no Brasil. · Art. 16º: Exclui a remissão a outra lei (renvoi) quando a lei estrangeira é aplicada. · Art. 17º: Leis, atos e sentenças estrangeiras não terão eficácia no Brasil se ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. · Art. 18º: Competência das autoridades consulares brasileiras para atos de registro civil de brasileiros no exterior. Os elementos de conexão são flexíveis e podem ser desconsiderados se a aplicação da lei estrangeira violar a ordem pública do foro. Em suma, as fontes cobrem desde a criação e aplicação das normas que regem as relações entre sujeitos de Direito Internacional (tratados), passando pelo estatuto jurídico de espaços geográficos e espaciais de interesse comum (domínio público internacional), pelos mecanismos de resolução de conflitos (pacíficos e coercitivos) e a regulamentação da conduta em guerra, até as regras que resolvem conflitos entre leis de diferentes Estados em relações jurídicas privadas com conexão internacional (direito internacional privado).