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Povos indígenas Direito dos Indígenas e Quilombolas Aula 01 ALCANCE CONCURSOS JURÍDICOSALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS 1. POVOS INDÍGENAS Oi, minha gente, tudo bom? Bom dia, boa tarde, boa noite para você que está se preparando para o concurso do Ministério Público Federal. Nossa discussão hoje vai ser uma discussão envolvendo um assunto que para mim é muito caro, muito querido, que é o assunto de direito relacionado a comunidades tradicionais. É um tema muito caro ao Ministério Público Federal, a gente vai ver aqui algumas observações, e para mim é muito especial porque já era um assunto que eu pesquisava na época da faculdade e foi a primeira matéria, digamos assim, a primeira área que eu atuei no MPF como procuradora da República e que eu tenho ainda um grande apreço ainda hoje. Para quem não me conhece, meu nome é Natália Mariel, sou procuradora da República desde 2014, fazendo 10 anos de carreira. Atualmente eu sou lotada no Pará, mas eu estou atuando aqui em Brasília, junto com a Procuradoria Geral Eleitoral, mas sempre com aquele pezinho ali na Câmara mais querida, que é a Câmara de Coordenação e Revisão, que é a Câmara que é a área do Ministério Público Federal que cuida de comunidades tradicionais. Então, minha missão hoje aqui é conversar com vocês um pouquinho sobre essas comunidades, sobre o direito que regulamenta esse assunto, sobre a posição do Ministério Público Federal com relação a algumas temáticas e fazer com que o assunto para vocês seja tão apaixonante quanto é para mim. Geralmente, quem se prepara para o MPF tem um cuidado, tem uma atenção específica com relação a esse assunto, porque é um tema que vai aparecer não só como matéria específica dentro da proteção internacional dos direitos humanos, mas vai aparecer abraçando outras áreas também. Pode aparecer em constitucional, em direito eleitoral, em direito penal, no direito civil. É uma área que provoca muita atuação no Ministério Público Federal, a gente tem uma Câmara de Coordenação, que é a apenas para isso. Realmente é ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS um tema muito pertinente, muito importante. Independentemente de quem esteja na banca, sempre vai ser uma boa pedida para o concurso. E a primeira dica que eu posso passar para vocês é, entrem na página da Câmara, se vocês encontrarem o site da PGR, joga no Google PGR, vai aparecer o site oficial do Ministério Público Federal, e lá em cima tem as atuações temáticas. Você entra na página da CCR e lá você vai conseguir ler os enunciados da Câmara. O que são esses enunciados, Natália? São como se fossem súmulas. A Câmara coordena o trabalho de procuradores da República no Brasil inteiro. Por questões relacionadas à independência funcional, obviamente cada membro é livre de maneira fundamentada para atuar, mas o papel da Câmara é tentar organizar, orientar temáticas relacionadas à CCR e comunidades tradicionais, pra tentar dar uma uniformizada no tratamento e orientar como é que a Câmara vai entender certos assuntos, até porque eventuais arquivamentos, eventuais atuações vão ter que passar pela CCR. Ela tem enunciado Das outras câmaras também, vale a pena dar uma olhada, mas aqui especificamente ler os enunciados da CCR e ver as notícias. Veja, o concurso da MPF é um concurso de banca própria, então é muito comum que os membros dessa banca, que em sua maioria são membros da MPF, cobrem coisas do nosso dia a dia. É muito importante você estar acompanhando as notícias. Fica a minha dica também para vocês darem uma olhada nas notícias relacionadas à câmara. Ah, Natália, que livro que eu posso estudar? Com relação a esse assunto específico, a gente não tem um manual, a gente tem algumas bibliografias que são interessantes para a gente poder dar uma olhada, relacionado à território indígena, relacionado à autodeterminação, vocês acham muitos artigos na internet, muitas manifestações. Eu recomendo muito o livro do colega Júlio Araújo sobre direitos territoriais, a gente tem também o livro do colega Paulo Tadeu, ele é procurador regional da República de São Paulo, ele tem o livro ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS sobre direitos indígenas. A gente tem também o estatuto da igualdade racial do Edilson Vitorelli, que cuida da temática relacionada à matéria quilombola, mas a gente não tem um manual específico, a gente tem alguns materiais que podem ser consultados relacionados a esse assunto pontualmente, então é bom vocês darem uma olhadinha um pouco mais ampla. E com relação à consulta prévia, eu vou fazer uma autopropaganda, a consulta prévia, vocês vão ver que é um assunto que é muito pertinente, muito frequente e é talvez o principal tema que a gente usa em comunidades tradicionais. A minha dissertação de mestrado foi sobre isso, ela está disponível de maneira gratuita, inclusive, tem um livro que a gente publicou pela Editora Dialética sobre consulta prévia, mas eu disponibilizei a minha dissertação de mestrado de maneira gratuita na minha página da Academia.edu, então vocês podem in lá baixar também para dar uma olhadinha em alguns conceitos, não ler toda a dissertação, mas pelo menos a introdução e a conclusão ali, que fala um pouquinho sobre o que é a convenção 169, e o que é o direito à consulta prévia, vale a pena dar uma olhada. Então, eu vou compartilhar aqui com vocês os slides que eu preparei para a gente poder estudar juntos aqui os direitos das comunidades tradicionais e vou compartilhar aqui a minha tela, só um minutinho. É interessante porque quando a gente vai falar de comunidades tradicionais, minha gente, vocês vão ver uma observação que é muito pertinente, a gente sempre fala e pensa em indígenas, a gente pensa logo em comunidades indígenas, só que vocês vão ver aqui comigo, comunidades tradicionais é um conceito muito mais do que o conceito apenas de comunidades indígenas. A sempre pensa logo em comunidades indígenas, mas povos e populações tradicionais é um conceito muito mais amplo do que o conceito de indígenas. A gente tem atualmente catalogados, informados, 28 povos e populações tradicionais, dentre eles indígenas, quilombolas e ciganos, que são os três grupos que a gente consegue pensar de maneira mais automática, mas ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS nós temos várias outras populações. Nós temos mais de 25 povos tradicionais, como ribeirinhos, pantaneiros, quebradeiras de COCO babaçu, e diversos outros que são povos tradicionais que, pelos termos da Convenção 169 da OIT, que a gente vai ver mais à frente, merecem uma atenção específica e demandam atuação do Ministério Público Federal também de maneira específica. Mas a gente vai começar tratando dos indígenas. Por ser o grupo mais amplo, a gente tem um regramento no Plano Internacional e no Plano Nacional e a gente vai ver alguns pontos específicos. Eu sei, já me informaram, que dentro de direito constitucional alguns temas já foram abordados, mas eu acho que seria interessante a gente abordar alguns outros e voltar em alguns desses assuntos, especialmente porque, por exemplo, a temática de território indígena, de territorialidade, é um tema que foi, recentemente, decidido, afrontado pelo Supremo Tribunal Federal e pela edição de uma lei, que teve alguns vetos, mas que, igualmente, teve esses vetos derrubados pelo Congresso Nacional. Então é importante que a gente entre em algumas temáticas. Mas, beleza, vamos lá, indígenas. É muito comum a gente falar, eu aprendi assim na escola, pelo menos, que o Brasil, por exemplo, foi descoberto pelos portugueses. E aí, hoje, a gente já tem algumas discussões, relacionadas a esse conceito de descoberta, que você descobre algo que ainda não foi encontrado, sendo que, quando os portugueses chegaram aqui no território brasileiro, nós já tínhamos os chamados povos originários, indígenas, ocupando e, enfim, possuindo todo um histórico de ocupação, de costumes, de ancestralidade. E, vejam, os portugueses, na época, estavam tentando encontrar as Índias, o caminho para as Índias, relembrando um pouco de história. A busca ali era por especiarias, tivemos uma discussão enorme atrás, expedições enormes atrás das chamadas especiarias, que era o que movimentava o comércio na época. E, aí, Portugal chega ao território brasileiro e, ao ver aquela população, chama aquela galera toda ali de índios, achando ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS que eles tinham chegado na Índia. Então, o termo índio é um termo que foi utilizado pelos colonizadores e ele acaba, colocando todas essas populações que são diferentes entre si, apesar de terem um trato comum de vínculo ao território, de ocupação originária, cada etnia vai possuir uma especificidade, uma linha, um costume diverso, então, eles não são a mesma coisa. O termo índio acaba usando, fazendo com que todas essas populações que são diversas entre si pareçam a mesma coisa, usando o termo mas, enfim, que são farinha do mesmo saco, e isso não é verdade. Então, o termo índio não é mais um termo que é antropologicamente correto, aceito. A gente usa o termo indígena ou povo originário para poder fazer menção a essas populações. E, vejam, a primeira forma de tratamento desses povos era uma forma de silenciar, de colonizar, porque se entendia que aquela religião, especialmente o fundamento da religião, que aqui era muito relevante, a religião católica, a religião dos portugueses era religião correta, então, eles tinham que levar salvação para aquele povo que estava condenado ao inferno porque não conhecia o verdadeiro Deus. Então, essa foi a primeira técnica de colonização, o uso do território, essas populações, em um primeiro momento, foram escravizadas pelos colonizadores para poder produzir o que eles estavam querendo produzir ali no território brasileiro e houve uma tentativa de silenciamento muito violenta, seja pelo apagamento dessa cultura específica por imposição religiosa, seja pela escravização que foi imposta para esses povos. Por exemplo, o povo de originários ali do Chile, da Argentina, que seriam os índios, mais os astecas, eles foram praticamente exterminados pela colonização espanhola. Aqui no Brasil, mediante muita luta e muita resistência, não por bondade dos colonizadores, é importante aqui destacar, conseguiu-se manter uma cultura, manter-se costumes de diversos povos. E esses povos foram sofrendo vários tipos de violência, não só no momento da colonização, em diversos outros momentos essas violências foram e permanecem sendo praticadas contra esses ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS grupos. A Constituição de 1988 foi o primeiro documento interno constitucional, com caráter constitucional, porque a gente tem o estatuto do índio que é anterior, mas foi o primeiro documento que veio trazer, de fato, um reconhecimento do direito a esses costumes, a preservação dos direitos dessas comunidades tradicionais, comunidades indígenas em específico, e o reconhecimento aqui intercultural, ou seja, de diálogo com essas comunidades de preservação da sua cultura, de reconhecimento da diferença e de diálogo. É muito importante fazer essa diferenciação de dois conceitos que normalmente são utilizados. Nós vivemos em um Estado democrático de direito plural, que reconhece essa pluralidade de diversidades de pessoas, de grupos, mas em um momento inicial o reconhecimento era apenas do ponto de vista multicultural. E quando você vê multiculturalismo fica parecendo algo muito legal. Em um primeiro momento é muito legal, porque o multiculturalismo reconhece a diferença, ele entende que existem diferenças, mas ele não quer trocar, dialogar com essas diferenças. Aqui a gente forma o que são chamados de ilhas culturais, você reconhece a diferença, mas você não faz nenhum tipo de troca, nenhum tipo de diálogo com essa diferença, você deixa o grupo lá e o outro grupo aqui, reconhecendo ainda que existe uma superioridade desse grupo majoritário, em detrimento daquele grupo minoritário. Então, além de você não promover o diálogo, você reconhece ali invariavelmente uma hierarquia. Esse multiculturalismo que pautou por muito tempo as relações vai sendo substituído pelo que a gente busca hoje, que é a interculturalidade. Você reconhece a diferença, mas reconhece também que não existe hierarquia entre saberes, entre costumes, e que esses saberes devem dialogar, cultura é diálogo, é dinamismo, troca, então a gente tem que alcançar essa interculturalidade. Esse conceito é muito importante e ele é tão relevante que já foi cobrado em prova, eu não me lembro agora qual foi o concurso, acho que foi o 26° ou 27° CPR, que a doutora Débora Duprat, que era examinadora de Direito Constitucional, ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS especificamente, ela cobrou qual era a diferença de conceitos entre interculturalidade e multiculturalismo. É importante vocês terem esse conceito em mente. Mas isso já é um ambiente legal, por quê? Pré-88, a ideia era de nem reconhecer essa diferença e tentar fazer uma homogeneização, você esquece essas diferenças e tenta assimilar, integrar aquelas comunidades, então era um valor de integração. E esse valor de integração pauta, inclusive, quase a totalidade do chamado estatuto do índio, é por isso que parte dele não foi recepcionada pela Constituição Federal de 88, por conta exatamente dessa lógica integracionista, mas beleza, o que a gente tem na Constituição de 88? Então, uma Constituição pautada nessa interculturalidade, nesse pluralismo. A gente tem o direito à cultura, à preservação da memória e o reconhecimento dos territórios indígenas, territorialidade. Temos várias etnias, como eu disse, diversas entre si, mas existe um trato comum entre essas etnias, alguns tratos comuns, que é o fato de serem próprios originários, de terem costumes próprios e de serem muito vinculados ao território. O território indígena não tem a mesma lógica da propriedade do direito civil. Não é simplesmente uma casa, não é simplesmente uma área, uma propriedade, é um local de reprodução cultural, de manutenção de costumes. Então é um local onde você reproduz sua cultura, você preserva sua religião, você tem um vínculo muito grande com aquele território. Então qualquer tipo de violação a esse território é uma violação ao próprio povo que ali E aí a Constituição de 88 vem trazendo o seguinte, que são bens da União as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. Então vejam, os indígenas não têm a propriedade das suas terras, eles têm o usufruto exclusivo dessas terras, mas essas terras são propriedade da União. E aí vejam, segundo o artigo 231, da Constituição, são terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles habitadas em caráter permanente, áreas utilizadas para suas atividades produtivas, imprescindíveis à preservação dos seus recursos ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS ambientais necessários ao bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural segundo seus usos, costumes e tradições. Então terras indígenas, são terras da União, mas com o usufruto exclusivo dos indígenas. Eles têm o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos. A discussão mais recente foi: quais são os limites dessas terras protegidas pelos indígenas? A gente ainda tem o dispositivo constitucional, e a súmula, até botei aqui para vocês, dizendo que aldeamentos extintos ocupados por indígenas no passado remoto não estão protegidos pela Constituição. Só que existem territórios, por exemplo, em que esses indígenas foram expulsos, violentados, impedidos de ocupar e de reocupar, e que há uma busca pelo reconhecimento daquela terra. E mais, existem diversos territórios que estão tendentes de reconhecimento. A gente tem atualmente a FUNAI, Fundação Nacional do Índio, Fundação Nacional dos Polos Indígenas, a gente teve uma operação dos termos, que faz que tenha um trabalho de reconhecer os limites dos territórios indígenas de proteção, fora outras políticas que eles acompanham. E nós temos no Brasil um problema gigantesco de reconhecimento dessas terras. Nós temos muitas terras que não foram ainda reconhecidas, nós temos muitas terras que foram reconhecidas de maneira equivocada, e aí essas duas situações geram um problema muito grande de conflitos fundiários, porque quando você não reconhece o território, você não tem como proteger esse território. E aí existem diversas pessoas que vão ocupando esse território, e depois, para poder fazer a convivência, a chamada desintrusão, que é retirada de não indígenas dentro de território de indígenas, isso é um problemão. No estado do Pará, por exemplo, eu posso falar por ter atuado por muito tempo com essa temática, quase todos meus 10 anos de MTF, mas nós temos diversos problemas relacionados à sobreposição de áreas, então, são áreas que os indígenas reclamam como deles, que também estão ocupadas por particulares e tem grandes projetos sendo explorados, empresas instaladas. ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS Isso gera um problemão, porque entra em conflito a proteção daqueles territórios que não foram bem marcados, entram em conflito e colocam-se em insegurança, tiveram lideranças indígenas que tentam brigar por aquelas terras, e briga de terra é briga por dinheiro, necessariamente. E você tem a exploração econômica naquela área por empresas privadas e tudo mais, sem qualquer repasse para essas comunidades, e sem sequer ouvi-las sobre os dados que podem e que estão sendo causados naquela área. Então essa não demarcação significa violência no campo, significa violência contra povos indígenas. Então há um grande problema relacionado a isso. Brasil inclusive já foi condenado, mais à frente está aí, já vou dando spoiler. Uma das condenações que o Brasil sofreu na Corte Interamericana de Direitos Humanos, e a única até hoje relacionada a populações tradicionais, foi o caso do povo Shukuru versus Brasil. povo Shukuru é uma etnia que habita a região de Pernambuco, e é uma terra que por conta da não demarcação sofreu um processo de violência muito grande, que culminou com a morte de uma das suas lideranças. Esse caso bate na Corte Interamericana, depois de todos os trânsitos possíveis, e aí o Brasil é condenado a indenizar aquele povo pela demora no reconhecimento do território, e para que reconheça o território. E aí para vocês verem, esse problema é tão grande que esse povo foi indenizado por essa mora, mas até hoje essa terra ainda não foi formalmente reconhecida, o processo ainda está andando. Então é realmente um problema gigante, fora, como eu disse, problemas de territórios que foram demarcados, mas foram demarcados com erro, demarcados em um território muito menor do que realmente é. A gente tem situações, por exemplo, lá no Pará de terras indígenas, que foram demarcadas com o rio que corta aquela terra e que alimenta aquele povo para fora dos limites da terra. Então realmente são situações muito complicadas, e a gente tem um problema estrutural relacionado a isso, porque além da violência do campo, outro problema é: como os indígenas têm acesso a um tratamento de saúde ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS diferenciado. A gente tem uma subsecretaria de saúde dentro do SUS, que é a SESAI, a Secretaria de Atendimento à Saúde Indígena, que tem, que diante do não aldeamento, que diante da não demarcação tem dificuldade de conseguir levar postos de saúde para essas populações, tem dificuldade, por exemplo, de levar escolas indígenas para essas áreas. Então toda a temática relacionada a políticas públicas para populações indígenas passa necessariamente pelo reconhecimento do seu território, e se esse território não é reconhecido, além de gerar violência, você também prejudica a execução de diversas políticas públicas. Então por isso que eu falo, território é talvez o ponto central. São dois grandes pontos centrais relacionados a comunidades tradicionais de geral e, especificamente, comunidades indígenas, que é a questão do território, que aí demanda muita atuação do Ministério Público Federal nesse ponto, e, ao lado disso, o direito à consulta prévia, que a gente vai ver mais à frente. São as duas grandes bandeiras e aí sempre são duas grandes apostas para concurso, obviamente. E aí vamos lá, a gente teve há alguns anos a discussão do Serra Raposa do Sol, não vou entrar tanto em por menores, porque isso é matéria de direito constitucional, mas a principal temática discutida ali era o seguinte. Terras, a partir de que momento você tem a proteção de territórios indígenas? E aí surgiu a tese do marco temporal no julgamento do caso Serra Raposa do Sol, dizendo o seguinte, que só são terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas daquelas que estavam ocupadas quando da promulgação da Constituição de 88. Então colocou-se ali um marco temporal para a proteção daquelas terras. Terras que não estavam ocupadas quando da promulgação da Constituição de 88 não têm proteção, não podem ser reconhecidas como terras tradicionalmente ocupadas, nem como bens da União. Então, se em 5 de outubro de 88 aquela área não estava ocupada, não é área indígena. Essa tese foi levantada com o julgamento do Serra Raposa do Sol e aí algumas coisas devem ser esclarecidas. Esse caso chega no Supremo Tribunal Federal através de ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS recursos extraordinários sem qualquer tipo de repercussão geral. Então o julgamento desse caso iria vincular unicamente as partes daquele caso. Só que essa tese no marco temporal fugiu desse processo e começou a ser ventilada, levantada, seja no Congresso Nacional, seja em outras demandas processais também, ao ponto de o Supremo Tribunal Federal ter, em um momento seguinte, dizer que as condicionantes, o julgamento do caso Serra Raposa do Sol não fazia coisa julgada, não vinculava outros processos, porque quando resolveu esse caso, a STF colocou ali uma série de condicionantes para poder permitir ter essa solução naquele conflito. Só que posteriormente, em sede de repercussão geral, chega à discussão do marco temporal no Supremo Tribunal Federal, no ano passado. E aí o STF julga essa situação, porque, veja, quando surge a teoria do marco temporal, se diz o seguinte, cara, mas tinha diversos povos, diversas etnias que não estavam nas suas terras, quando da promulgação da Constituição de 88, porque foram expulsos, porque foram obrigados a se retirar. E aí aparece a primeira exceção do marco temporal, que é a tese do renitente esbulho ou esbulho renitente, que é a necessidade de você comprovar que aquele povo não estava naquela área, não por vontade própria, mas por violência, por impedimentos de terceiros. E ainda os mais radicais, dizendo que, independentemente da existência ou não de violência, tem diversas áreas que estão tradicionais, que não estavam ocupadas quando da Constituição de 88 e que demandam uma atenção, porque veja, como o território indígena não é exatamente uma propriedade civil, você não tem como dizer que só é território, terra indígena, aquela área onde os indígenas moram, mas toda aquela terra é necessária para a sua reprodução cultural. Então se a gente tem um determinado pedaço do território que é necessário para os costumes, que tem um segmento indígena, por exemplo, nessa área, ela merece proteção, ela é reconhecida como terra indígena. Então é um conceito muito mais amplo. É por isso que, para você fazer uma ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS demarcação de terra indígena no âmbito da Funai, você tem a realização de estudos antropológicos, de todo um acompanhamento para realmente identificar quais são os limites daquele território. Aqui eu coloquei para vocês a ressalva do renitente esbulho, e aí o que entrou em discussão foi o seguinte, a teoria do indigenato versus a teoria do fato indígena. A teoria do indigenato, ela entende que terra indígena independe de um marco temporal, então somente o estudo antropológico pode realmente reconhecer o que é terra indígena e o que não é, e a teoria do fato indígena é a teoria que adota, que abraça a regra do marco temporal. Foi a tese usada no caso Terra e Raposa do Sol, e eu repito, não vinculou, não fez coisa julgada para os demais, não valeu como coisa julgada. Só que aí, como eu disse, no ano passado o STS se debruçou sobre a temática e em um primeiro momento afasta a tese do marco temporal, dizendo exatamente que a posse indígena é diferente da posse civil, que ela é uma posse que se vincula não apenas à reprodução econômica, mas à reprodução cultural. Eu coloquei aqui o trecho complexo da conclusão do julgamento e em diversas condicionantes a gente tem o fortalecimento da terra e do renitente esbulho. Então a proteção constitucional dos direitos originários independe da existência de um marco temporal ou da configuração do renitente esbulho, porque vai depender realmente do estudo antropológico para definir quais são os limites daquela terra. Se existir, aí aqui começou a bronca, o STF afasta o marco temporal, mas diz o seguinte. Se ficar comprovado que existe uma ocupação naquela área, que existe um conflito, porque tem o renitente esbulho, tem uma discussão sobre aquela propriedade, à época da Constituição de 88, a gente vai ter a necessidade de indenizar as pessoas que ocuparam aquela terra e que vão ser desintrusadas, ou seja, uma desintrusão está retirada de não indígenas de terra indígena. Se não tiver ocupação tradicional, quando da Constituição ou comprovação do renitente esbulho, o STF entende que todos os negócios ACESSEALCANCE CONCURSOS JURÍDICOS jurídicos feitos sobre aquela terra foram feitos de boa-fé, então eles não podem ser afastados e deve haver indenização, e só vai haver a possibilidade de desintrusão e de demarcação se houver essa prévia indenização. inciso IV e o V da decisão do STF do ano passado são problemáticos, porque, apesar de terem afastado o marco temporal e o renitente esbulho como requisitos para reconhecer a terra, eles usam esses dois conceitos para vincular a necessidade de uma indenização e para o reconhecimento da validade de negócios jurídicos feitos dentro desses territórios. Isso, na prática, vai inviabilizar, vai fazer com que demore ainda mais a demarcação e a desintrusão de territórios indígenas. A gente não vai ver como isso vai funcionar. Mas o ponto é que, além desse regime imposto pelo Supremo Tribunal Federal, em sede de repercussão, e aí, aqui, sim, vale como coisa julgada, porque a repercussão vai vincular, na verdade, não é nem coisa julgada, ela vincula a todos, a gente ainda teve a edição de legislação relacionada à propriedade, que a gente vai ver no próximo bloco. Então eu encerro aqui e a gente volta já já. ACESSE