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a literatura como arquivo da ditadura brasileira a literatura como arquivo da ditadura brasileira Eurídice Figueiredo sumário Introdução 11 Os arquivos do mal: memória, esquecimento e perdão 13 A literatura sobre a ditadura: estratégias de escrita 41 K. de B. Kucinski: Kaddish por uma irmã desaparecida 125 Minha terra tem palmeiras... e me expulsaram de lá (Geração 1968) 145 Referências bibliográficas 169 O real precisa ser ficcionado para ser pensado Jacques Rancière Quando termina a escrita de um trauma? Quantos anos, ou décadas, são necessários para que um fato traumático se incorpore à memória social sem machucar nem se banalizar? Maria Rita Kehl Os oficiais-generais que ordenaram, estimularam e defenderam a tortura levaram as Forças Armadas brasileiras ao maior desastre de sua história. Elio Gaspari Enterrar os casos, sem enterrar os mortos, sem abrir espaço para uma investigação. Manobra sutil que tenta fazer de cada família cúmplice involuntária de uma determinada forma de lidar com a história. B. Kucinski Aos meus netos E a todos os netos da Geração 1968 11 Introdução Este livro começou a ser gestado no início de 2014, quando fui convi- dada por Márcia Paraquett a escrever um relato de minha experiência durante a ditadura para o livro Caminhando e contando, que ela estava organizando com Sávio Siqueira, e que viria a ser publicado em 2015 pela Editora da Universidade Federal da Bahia. O meu texto, “Geração 1968”, que reproduzo no final deste volume, numa versão um pouco modificada, foi o elemento desencadeador do processo de memória, pois foi depois dele que mergulhei na literatura escrita sobre a ditadura. A pessoa afetada pela repressão, ainda que de modo relativamente leve, como foi o meu caso, não tem vontade de olhar para trás e reviver, através da lembrança, os sofrimentos do passado. Segundo a metáfora bíblica, tem medo de se transformar numa estátua de sal. Em razão do efeito catártico provocado pelo processo da escrita memorial, algo me impulsionou a ler e/ou a reler tudo o que estava disponível, a fim de refletir sobre a literatura brasileira que tematiza a ditadura. Amadureci as minhas reflexões durante o curso de Mestrado/Dou- torado que ministrei no primeiro semestre de 2015, no Programa de Pós- -Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Flumi- nense. Presto aqui minha homenagem aos alunos que fizeram parte desse momento de leituras e de troca de ideias. Apresentei uma primeira versão do texto sobre K., de Kucinski, em colóquio na Universidade de Rennes, na França (2014), publicado, em francês, no livro Cartographies littéraires du Brésil actuel: espaces, acteurs et mouvements sociaux, organizado por Rita Olivieri Godet. As questões envolvendo a ideia da literatura como arquivo foram apresentadas e discutidas nos dois encontros do Grupo de Trabalho “Relações literárias interamericanas”, realizados na UFMG em 2015 e na Unicamp em 2016. Uma breve apresentação do ensaio sobre a literatura como arquivo foi publicado no livro Memória social: pesqui- sas e temas emergentes, organizado por Zilá Bernd e Nádia Maria Weber 12 Santos. A interlocução, em debates públicos ou em conversas particulares, com colegas e alunos, foi muito proveitosa. Agradeço ao Jaime Ginzburg pela leitura cuidadosa do original, pelas sugestões e pela orelha. Agradeço também ao Rodrigo Jorge, que fez a revisão, assim como à equipe da 7Letras, que preparou o livro. Registro meu agradecimento especial ao cnpq, que me concede bolsa de produti- vidade em pesquisa desde 1993. Receber a bolsa é, ao mesmo tempo, um estímulo e um reconhecimento do valor do trabalho do pesquisador. 13 Os arquivos do mal: memória, esquecimento e perdão protocolo de leitura O filósofo Paul Ricœur aponta para o dever de memória, “o dever de fazer justiça, pela lembrança, a um outro que não o si” (2007, p. 101). Isso sig- nifica, para nós, que todo o trabalho de investigação e divulgação do que ocorreu nos porões da ditadura é um dever de memória em relação às víti- mas, a seus familiares e à sociedade em geral. E a psicanalista Maria Rita Kehl pergunta: “Quando termina a escrita de um trauma? Quantos anos, ou décadas, são necessários para que um fato traumático se incorpore à memória social sem machucar nem se banalizar?” E continua: “E qual o tempo necessário para se transformar o horror sem sentido em experiên- cia estética compartilhada?” (KEHL, 2014, p. 15). Essas são as questões que nortearam a pesquisa que fiz sobre livros, ficcionais ou referenciais, que tematizaram a repressão aos brasileiros que ousaram se rebelar contra a ditadura nos anos 1964-1985. O historiador francês Henry Rousso (1990, p. 251) considera quatro vetores para analisar o trabalho de “reconstrução voluntária do aconteci- mento com fins sociais”: os vetores oficiais (comemorações, monumen- tos, celebrações), os vetores associativos (associações e grupos de pessoas interessadas), os vetores culturais (cinema, literatura, televisão) e os veto- res científicos (produção de livros de história e manuais escolares). Minha pesquisa situa-se no campo dos vetores culturais, em especial, no campo literário; ela não dispensa, naturalmente, a leitura da produção de historia- dores e jornalistas, que muito contribuiu para uma melhor compreensão das entranhas do regime. Como me interessa ver de que maneira a litera- tura consegue transmutar elementos relacionados ao trauma em “experiên- cia estética compartilhada”, somente livros que se apresentem como obras literárias, como expressão de uma subjetividade, serão considerados como corpus das análises. Considerando a extensão e a complexidade do campo 14 literário, não adentrarei no terreno do cinema, do teatro, da música popular e das artes plásticas, que já deram, aliás, obras significativas sobre a ditadura. a vida nua Parto da premissa de que o golpe de 1964 foi um atentado à legalidade e à constituição, instaurando um regime de exceção, em que as liberdades democráticas eram tolhidas por um regime repressor. Como afirma Giorgio Agamben, o “estado de exceção é um espaço anômico onde o que está em jogo é uma força de lei sem lei” (2004, p. 61). Ao rasgar a constituição e editar Atos Institucionais a fim de governar com todo o poder, o regime se tornou o que Agamben chama de “ditadura soberana”, “que não se limita a suspender uma constituição vigente (...), mas visa principalmente a criar um estado de coisas em que se torne possível impor uma nova constitui- ção” (2004, p. 55). Foi contra a falta de liberdade que muitos lutaram. Se os chamados subversivos defendiam ideias socialistas e comu- nistas, se não eram verdadeiros democratas, não cabe cogitar o que teria acontecido caso eles tivessem sido vitoriosos, assim como não procede a hipótese de que Jango estaria prestes a instaurar um regime comunista. O jornalista Marcelo Netto chegou a escrever que foi bom para o Brasil “que os militares tenham vencido aquela guerra suja dos anos 1970”. E acres- centa: “Mas não eram necessários tantos crimes bárbaros, tanta violên- cia, tanta tortura, tanta gente morta” (apud GUERRA et alii, 2012, p. 19). Ele considera que o Brasil está melhor do que estaria se os subversivos (dentre os quais ele se incluía) tivessem ganhado. Esse tipo de argumento em cima de uma hipótese não faz sentido na perspectiva histórica. O que me parece relevante abordar é como as autoridades do país deram carta branca a policiais e militares, muitos deles verdadeiros psicopatas, a fim de eliminar pessoas de forma sistemática, simulando teatrinhos ou des- cartando os corpos como se fossem animais. Matadores como Cláudio Guerra tinham livre trânsito nas altas esferas militares para eliminar opo- sitores e dar sumiço nos corpos; torturadores foram promovidos e conde- corados; os que se opuseram, tanto nas Forças Armadas quanto na Justiça, foram perseguidos ou relegados na carreira em favor dos que coopera-ram com o regime. O delegado Sérgio Fleury, membro do Esquadrão da Morte e elemento todo poderoso no DOPS paulista, circulava incólume até o dia em que os próprios homens do esquema repressivo decidiram 15 eliminá-lo porque sabia demais, se julgava acima de qualquer lei (GUERRA et alii, 2012). De outro lado, homens e mulheres, a grande maioria muito jovens, foram barbaramente torturados, alguns foram mortos, em nome da democracia, quando o regime era tudo menos democrático. O psicanalista Hélio Pellegrino, em artigo publicado na Folha de S. Paulo de 3 de junho de 1982, parcialmente retomado no livro BRASIL: NUNCA MAIS, escreve que a tortura visa a separar corpo e mente, através de um sofrimento insuportável. E ele continua: Através da tortura, o corpo torna-se nosso inimigo e nos persegue. É este o modelo básico no qual se apoia a ação de qualquer torturador (...). Na tortura, o corpo volta-se contra nós, exigindo que falemos. Da mais íntima espessura de nossa própria carne, se levanta uma voz que nos nega, na medida em que pretende arrancar de nós um discurso do qual temos horror, já que é a negação de nossa liberdade. O problema da alienação alcança, aqui, o seu ponto crucial. A tortura nos impõe a alienação total de nosso corpo, tornando estrangeiro a nós, e nosso inimigo de morte (BRASIL: NUNCA MAIS, 1987, p. 282). Giorgio Agamben pode ajudar a pensar a questão de como a dita- dura eliminou os chamados “comunistas”, sem nenhum respeito por suas vidas. No livro Homo sacer (2004), o filósofo italiano distingue zoè (o viver comum de todos os seres vivos) de bíos (a vida dos homens em sociedade). O homo sacer, que está no domínio do zoè, é aquele que tem a “vida nua”, que pode ser morto porque sua vida não vale nada. Para Hitler, os judeus podiam ser eliminados e virarem pó nos crematórios, suas vidas não tinham valor algum. Ainda que em outra dimensão, o Estado brasileiro, através de seu aparato repressivo, considerou que os “comunistas” eram indignos de viver e podiam morrer como ratos. Um governo que faz isso não é defensável porque esse caminho só leva a mais violência e crueldade. a apuração das violações e o arquivamento Para tratar dos arquivos da ditadura, é imprescindível se referir a três momentos que foram fundamentais tanto para a apuração das graves vio- lações aos direitos humanos quanto para o arquivamento dos documentos que comprovavam as acusações. No vetor associativo, por iniciativa da sociedade civil, houve o trabalho feito pelo grupo “Brasil: nunca mais”, e no vetor oficial, por ação governamental, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos e a Comissão Nacional da Verdade. 16 Primeiro momento: “Brasil: nunca mais” O projeto “Brasil: nunca mais” reuniu religiosos, advogados e jornalistas, em que se destacaram Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e o reverendo Jaime Wright, pastor presbiteriano, cujo irmão, Paulo Wright, militante da Ação Popular (AP), havia desaparecido em 1973. A partir de 1979 o grupo começou seu trabalho de fotocopiar os processos nos tribu- nais militares, aproveitando o tempo que os advogados tinham para exa- miná-los. Neles constavam, muitas vezes, depoimentos de presos sobre torturas sofridas. “Pretendia-se (...) evitar o possível desaparecimento dos documentos durante o processo de redemocratização. Considerava-se que a preservação desses elementos era indispensável como fonte de pesquisa sobre essa fase da história do Brasil”. Como afirma Dom Paulo Evaristo Arns no prefácio do livro, a equipe correu contra o tempo, temendo que “algum incêndio ardiloso eliminasse das repartições oficiais docu- mentos que eram preciosos para as conclusões da pesquisa” (1987, p. 23), lembrando o incêndio que destruíra os documentos da polícia política comandada por Felinto Müller, no fim do Estado Novo. Para conceber o projeto o arcebispo de São Paulo se baseava nas premissas de Michel Foucault no livro Vigiar e punir, segundo o qual é possível “reconstruir boa parte da história de uma época através do processo penal arquivado no Poder Judiciário de cada país” (ARNS, 1987, p. 23). Depois de fotocopiar 710 processos, que envolviam 7367 acusados em processos criminais e 10034 em inquéritos policiais, eles chegaram a cerca de 900 mil fotocópias, o que resultou no documento-mãe chamado de Projeto A. Em seguida, Dom Paulo Evaristo Arns, o líder do empreen- dimento, decidiu fazer um livro que resumisse o material de maneira sucinta e legível. Foi criada uma comissão de redação, composta pelo jor- nalista Ricardo Kotscho e por Frei Betto, sob a direção de Paulo de Tarso Vannuchi, que resultou no livro BRASIL: NUNCA MAIS, publicado em 1985.1 O livro teve 40 edições e ficou na lista dos mais vendidos por longo tempo. Este trabalho de arquivamento, feito clandestinamente, que contou com o 1 Essas informações se encontram no site , que disponibiliza todo o acervo digitalizado. O livro foi publicado em inglês com o título Torture in Brazil em 1986 pela Random House. O acervo físico está na Unicamp; foram feitas 25 cópias do Projeto A e oferecidas a universidades e centros de referência na defesa dos direitos huma- nos no Brasil e no exterior. 17 apoio do Conselho Mundial das Igrejas, foi fundamental para se começar a escrever a história das torturas no período. Essa luta pela memória e pela versão oficial sobre os feitos do governo militar nos livros de História se exprime bem na confrontação entre o tra- balho do grupo Brasil: nunca mais e do grupo dos militares. O Exército ficou incomodado com a publicação do livro em 1985 e decidiu dar sua versão dos fatos, criando o Projeto Orvil (anagrama da palavra livro), coor- denado pelo general Agnaldo Del Nero, sob as ordens do general Leônidas Pires Gonçalves. Foi elaborada uma obra de 900 páginas com a ambição de desconstruir o BRASIL: NUNCA MAIS, mas não chegou a ser publicada. “Em 1988, os originais do Orvil, batizado formalmente com o título As tentativas de tomada do poder, foram levados por Leônidas ao então presidente José Sarney. ‘Eu fiz este livro. É uma arma que eu tenho na mão’, disse o gene- ral a Sarney. O presidente, contudo, achou por bem vetar a publicação”. O projeto Orvil permaneceu secreto até 2007, quando começou a aparecer na imprensa (FIGUEIREDO, 2015, p. 83). O conteúdo foi disponibilizado para download gratuito na internet pelo site . Segundo momento: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi criada pela Lei 9.140/1995, disposta a elucidar a situação dos mortos e desapareci- dos no regime militar e começou seus trabalhos em janeiro de 1996, sob a presidência de Miguel Reale Júnior. Um de seus idealizadores foi Nilmário Miranda, que havia sido preso e torturado nos anos 1970 e que, eleito depu- tado federal, a partir de 1991 começou a instar a Câmara a exercer um papel na busca e reparação em relação aos mortos e desaparecidos através da cria- ção de comissões. Ao fim dos trabalhos da CEMDP, ela elencou uma lista de 362 nomes de pessoas, com uma pequena biografia de cada um deles. Tudo o que foi apurado está disponível no site . Dois livros impressos fornecem fundamentalmente as mesmas informações: Os filhos deste solo (2003, nova edição em 2012), de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio e Direito à memória e à verdade (2007) da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, disponível para download em: . Foi a partir da promulgação dessa lei que as famílias dos desapare- cidos puderam receber atestados de óbito e indenização. Esta lei aparece 18 em todos os livros sobre os desaparecidos porque ela resolvia parte dos problemas dos familiares, que até então não podiam fazer inventários dos bens deixados pelos desaparecidos, já que não havia provas deque os desaparecidos estavam mortos. As famílias estavam no limbo. Como conta Marcelo Rubens Paiva, em 1995, com a posse de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República, os familiares começaram a ter esperanças de que algo seria feito, tendo em vista que o sociólogo FHC havia escrito sobre essa necessidade em 1981, durante o governo de José Sarney. O secretário-geral da Anistia Internacional, Pierre Sané, pediu um encontro com o presidente, mas saiu dele considerando “decepcionante” a situação, já que FHC havia dito que “é um passado complicado de remexer, que incomoda muitos setores” (apud PAIVA, 1995). Depois da declaração pública de Sané, a assessoria de imprensa da Presidência da República atribuiu a declaração a um mal entendido linguístico. Um mês depois, como nenhuma providência tinha sido tomada, Marcelo Paiva escreveu um artigo na revista Veja intitulado “Nós não esquecemos”, que fazia eco ao título do artigo de FHC de 1981 “Sem esquecimento”. Nele, cobrava coerência de FHC, que havia sido, inclusive, amigo de seu pai, Rubens Paiva. Outros grupos fizeram pressão no sentido de o Estado brasileiro: 1. Reconhecer sua responsabilidade; 2. Investigar cada caso de morte; 3. Indenizar as famílias. A lei foi aprovada, mas a segunda tarefa – a investigação – , a mais espinhosa, não foi contemplada. Susana Keniger Lisboa, representante das famílias na Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos, reivindica a elucidação dos crimes: “A comissão tem como tarefa a continuidade da busca das ossadas, mas há diversas questões que não foram abrangidas pela lei. Além de não determinar a responsabilidade de apurar as circuns- tâncias das mortes, a legislação eximiu o Estado de localizar, identificar e punir os responsáveis pelos crimes” (apud ARBEX, 2015, p. 283). Além disso, para iniciar o processo, os familiares ficaram com o ônus da prova. “Apesar de o Governo Federal não ter possibilitado a abertura dos arquivos secretos das Forças Armadas e da Polícia Federal, o trabalho de busca dos parentes permitiu que dezenas de versões oficiais de sui- cídios fossem derrubados” (ARBEX, 2015, p. 283). Vale acrescentar que muitos familiares puderam contar com a ajuda constante de membros da CEMDP, participando das buscas e dando seu apoio moral. 19 Terceiro momento: Comissão Nacional da Verdade Em dezembro de 2009, por ocasião da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, houve a recomendação de que se criasse uma Comissão Nacional da Verdade, nos moldes do que já fora feito em vários países, a fim de “promover o esclarecimento público das violações dos direitos humanos por agentes do Estado na repressão aos opositores”.2 Luís Inácio da Silva, então Presidente da República, afirmou que apenas “conhecendo inteiramente tudo o que se passou naquela fase lamentável de nossa vida republicana o Brasil construirá dispositivos seguros e um amplo compro- misso consensual (...) para que tais violações não se repitam nunca mais”. A Comissão Nacional da Verdade só seria instalada em 16 de maio de 2012, já que a lei 12.528/2011 só fora aprovada pelo Congresso Nacional no final de 2011. A lei 12.527/2011, lei de acesso à informação, que dava mais transparência às práticas da administração pública, impedindo a classi- ficação dos documentos, ou seja, o fechamento dos arquivos à consulta pública, contribuiria para viabilizar os trabalhos. Depois de sindicâncias em sete instalações militares em que fora comprovada a prática de graves violações, os comandantes do Exército, da Aeronáutica e da Marinha afirmaram não dispor de elementos que possibilitassem qualquer contestação aos atos jurídicos relatados pela Comissão Nacional da Verdade, por meio dos quais o Estado brasileiro já havia oficialmente reconhecido sua responsabilidade por graves violações de direitos humanos. Em nota de 19 de setembro de 2014 a Comissão Nacional da Verdade considerou positiva a manifestação dos comandantes militares, mas jul- gou-a insuficiente na medida em que não contemplou, de forma clara e inequívoca, o expresso reconhecimento do envolvimento das Forças Armadas nos casos de tortura, morte e desaparecimento relatados pela Comissão Nacional da Verdade e já reconhecido pelo Estado brasileiro. O relatório final da Comissão Nacional da Verdade foi entregue à presidenta Dilma Rousseff em 10 de dezembro de 2014. A Comissão Nacional da Verdade teve acesso aos documentos do Arquivo Nacional, que recebeu mais de 20 milhões de páginas sobre a ditadura, inclusive os arquivos do extinto SNI (Serviço Nacional de 2 Todas as citações e demais informações estão nos documentos preparados pela CNV e dis- poníveis no site: www.cnv.gov.br/. 20 Informação). O país ainda está aguardando que as Forças Armadas libe- rem os arquivos secretos em seu poder e façam um pedido formal de des- culpas pela tortura e morte de pessoas, realizadas em dependências mili- tares, oficiais ou clandestinas. trabalhos de jornalistas em diferentes arquivos Além desses três momentos fundamentais, desde 1980 muitas pessoas esti- veram envolvidas em desvendar os arquivos da ditadura, de maneira mais ou menos organizada, em especial historiadores e jornalistas. Destaco os livros dos jornalistas porque tiveram ampla repercussão na mídia e junto aos leitores, sem deixar de reconhecer o valor das pesquisas dos historia- dores cujas obras, porém, acabam atingindo um público mais restrito. Para escrever os dois volumes de As ilusões armadas3 e outros dois de O sacerdote e o feiticeiro, além do 5º, A ditadura acabada, o jornalista Elio Gaspari teve acesso aos arquivos privados de Golbery do Couto e Silva, de Heitor Aquino Ferreira e do presidente Castelo Branco. O arquivo funda- mental foi o de Heitor Aquino: um “diário manuscrito que em 1985 somava dezessete cadernos escolares com cerca de meio milhão de palavras, sufi- ciente para formar uma obra de 1500 páginas”. Gaspari informa que rece- beu cópia do diário do período compreendido entre 1964 e 1976, além de excertos de outros anos. Heitor foi secretário de Golbery de 1964 a 1967 e de Geisel de 1971 a 1979, e em seu diário “está o mais minucioso e sur- preendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil” (GASPARI, 2002a, p. 15). Além dessas fontes primárias, o autor pesquisou nos inúme- ros livros brasileiros, nos documentos depositados em bibliotecas norte-a- mericanas e no Departamento de Estado dos Estados Unidos, entrevistou o presidente Ernesto Geisel e o ministro Golbery em várias ocasiões. Desse trabalho resultou uma obra monumental em cinco volumes. Para escrever o livro A casa da vovó, Marcelo Godoy (2014), que ganhou o prêmio Jabuti de reportagem em 2015, ouviu 25 antigos agen- tes que trabalharam no DOI de São Paulo. Alguns pediram para não ter seus nomes revelados, outros não se incomodaram de mostrar a cara. Eles revelaram o funcionamento do DOI na rua Tutoia, em São Paulo, a política de extermínio praticada por eles, descrevendo alguns episódios bastante 3 Os títulos dos cinco volumes são: A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A dita- dura encurralada, A ditadura derrotada e A ditadura acabada.