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Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Direito Processual Penal I Américo Braga Júnior AULA 02/10/2021 DISCUSSÕES INICIAIS Bibliografia Legislação: - Código de Processo Penal - Lei de Execução Penal (LEP – Lei nº 7.210/84) Doutrinas: LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Direito Processual Penal. vol. único. Editora JusPodivm. LOPES JÚNIOR, Aury. Direito Processual Penal. Editora Saraiva. PACELLI, Eugênio. Curso de Processo Penal. Editora Atlas. RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Editora Atlas. Canais no YouTube: - Fábio Roque - Américo Braga Júnior Plano de ensino • Relação entre jurisdição, ação, processo e defesa; • O Código de Processo Penal (CPP) na sua origem (permanece a mentalidade inquisitória do CPP de 1941); • A Constituição Federal de 1988 (CF/88) – a norma infraconstitucional que estiver em desarmonia com a CF/88, se for anterior ao parâmetro, não será recepcionada pela CF/88. “Filtragem constitucional” ou “releitura constitucional do processo penal”. A CF/88 estatui as bases do ordenamento jurídico. Por isso, o estudo do Direito Constitucional é imprescindível ao estudo do Direito Processual Penal; • Lei processual penal no tempo e no espaço – paralelo com o tratamento jurídico dispensado à lei penal no tempo e no espaço. Ex.: lei penal nova benéfica à defesa retroage para ser aplicada a fatos ocorridos antes do início da sua vigência (art. 5º, XL, CF/88 e art. 2º, CP). A lei processual penal não goza de retroatividade. A extraterritorialidade é um fenômeno da lei penal no espaço (art. 7º, I e II do CP); • Sistemas processuais penais: (i) acusatório (a base é o art. 129, I, CF/88, segundo o qual, cabe ao Ministério Público (MP), na ação penal pública, o exercício das atribuições da acusação, havendo um impedimento intransponível para que o Poder Judiciário exerça o papel da acusação); (ii) Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 inquisitivo/inquisitório; (iii) misto. O Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/2019) teve a eficácia suspensa no tocante a alguns artigos. Mas essa lei alterou o CPP, trazendo expressamente a previsão de que o processo penal brasileiro tem estrutura acusatória. O Juiz das Garantias está com a eficácia suspensa por decisão do Ministro Luiz Fux do STF. • Princípios do Direito Processual Penal - O que é princípio; - Qual o papel do princípio; - Por que é importante; - Utilizar Ronald Dworkin e Robert Alexy. Principais princípios: - Devido processo legal (art. 5º LIV, CF/88); - Juiz natural (art. 5º, XXXVII e LIII, CF/88); - Ampla defesa (art. 5º, LV, CF/88); - Contraditório (art. 5º, LV, CF/88); - Estado de não culpabilidade (presunção de inocência) (art. 5º, LVII, CF/88); - Vedação de prova obtida por meio ilícito (art. 5º, LVI, CF/88); - Proporcionalidade; - Duração razoável do processo (art. 5º, LXXVIII, CF/88); - Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo; - Identidade física do juiz; - Vedação da reformatio in pejus; - Vedação de bis in idem; - In dubio pro reo; - Favor rei. • Fase pré-processual: investigação criminal; inquérito policial (próprio das policias investigativas, isto é, Polícia Civil e Polícia Federal). A fase de investigação criminal não se esgota no inquérito policial; • Procedimento Investigativo Criminal (PIC) do Ministério Público; • Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) – não é um procedimento de investigação criminal, mas, sim, de investigação de fato político, de atribuição do Poder Legislativo. É um instrumento da minoria, para que a minoria possa investigar a maioria. Basta a assinatura de 1/3 da Casa Legislativa para instaurar a CPI. Enseja consequências no âmbito criminal, então, reflexamente, a CPI acaba investigando crime; • Inquérito Policial Militar – está regulamentado no Código Penal Militar (CPM); • Fase processual (estudo da ação penal condenatória) – arts. 24 a 62, do CPP - ação; - ação penal pública; - ação penal de iniciativa privada; - denúncia (inicial da ação penal pública); - queixa-crime; - princípios que orientam a ação penal pública e a ação penal privada; - ação civil ex delicto (arts. 63 a 68, do CPP); Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 - competência (arts. 69 a 91, do CPP); - prisão cautelar; - prisão em flagrante delito (arts. 301 a 310, do CPP); - prisão preventiva (arts. 311 a 316, do CPP); - prisão temporária (não tem previsão no CPP, mas, sim, na Lei nº 7.960/1989); - medidas cautelares pessoais diversas da prisão (arts. 318 e 319, do CPP). AULA 09/10/2021 O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL No estudo da teoria do processo e, portanto, para compreendermos o processo penal e os demais processos, é muito importante compreendermos que temos a jurisdição. A jurisdição é uma função/atividade/papel para se dirimir uma crise jurídica, classicamente denominado conflito de interesses, qualificada por uma pretensão resistida, no clássico conceito de Carnelutti. Mas existe atividade jurisdicional sem lide. A atividade jurisdicional pode ser estatal e pode ser privada. A estatal possui várias características e uma delas é a inércia. Ou seja, para iniciar a sua atuação, precisa ser provocada com a propositura/deflagração da ação. Uma vez provocada, a jurisdição se vale do processo para prestar a atividade jurisdicional. E, portanto, a atividade jurisdicional é prestada no e pelo processo. Principalmente no Direito Processual Penal (DPP), é necessário compreender, definitivamente, que o processo é um potente método de efetivação de direitos e garantias fundamentais. Os direitos fundamentais individuais constituem/forjam o devido processo jurisdicional. Portanto, essa prestação jurisdicional que se dá por meio do instrumento do processo, será controlada pelo processo. Daí dizer que os direitos individuais forjam o devido processo constitucional, notadamente no Direito Processual Penal e no Direito Penal, em que se lida com a possibilidade da privação de liberdade. Então, para que a decisão estatal que determina a privação de liberdade seja Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 legítima, ao se permitir o cumprimento dessa decisão, os direitos e garantias fundamentais individuais devem ser observados. Portanto, pode-se concluir que o processo, em última análise, é limitador do exercício do poder, porque o poder deve ser exercido com a observância do devido processo. O Código de Processo Penal vigente é de 1941. Claro que o CPP hoje é totalmente diferente, porque veio sendo alterado com o passar dos anos e o surgimento das constituições. O vigente CPP foi inspirado na legislação processual penal italiana de 1930 (Código de Rocco), em pleno regime fascista. Essa nota é fundamental, porque o CPP, em alguma medida, mesmo tendo sido substancialmente alterado, ainda encontra resquícios da sua origem. Notadamente, esses resquícios estão não no CPP, mas na mentalidade daqueles que o interpretam. Por isso, precisamos, urgentemente, de uma ruptura cultural com a mentalidade inquisitória, porque a alteração de literalidade do Código é importante, mas é insuficiente se a mentalidade inquisitória persistir. É necessária uma ruptura epistemológica com essas bases inquisitórias. Quais eram as principais características do CPP na sua origem (1940) – corolárias de uma mentalidade inquisitória? (i) Presunção de culpabilidade: se o Estado está acusando uma pessoa, é porque essa pessoa é culpada; o Estado não acusaria alguém inocente, de modo que, se há uma ação penal em face de uma pessoa,ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante. Alguns doutrinadores afirmam que se a defesa alega legítima defesa, a defesa teria o ônus de prová-la. Se alega estado de necessidade, também atrairia para si o ônus da prova. O mesmo ocorreria com qualquer tese defensiva. Como é a distribuição do ônus da prova no processo civil? Art. 373, CPC. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 O CPC/2015 adota uma teoria chamada teoria estática da distribuição do ônus da prova, isto é, não interessa o processo, é a lei que distribui o ônus da prova. O CPC também adota a teoria dinâmica, hipótese em que o juiz, no caso concreto, de acordo com as peculiaridades do caso, que redistribuirá o ônus da prova, de acordo com aquele que tenha maior facilidade para produzi-la (inversão do ônus da prova). No processo penal é diferente, uma vez que o ônus da prova é todo da acusação. Há uma única exceção no processo penal em que o ônus da prova é todo da defesa: absolvição sumária (art. 397, do CPP) e absolvição sumária nos processos de competência do Tribunal do Júri (art. 415, do CPP). Isso, pois, são absolvições antecipadas, de modo que, para que elas ocorram, a tese absolutória deve estar provada de modo irrefutável. Caso não prove, o acusado não será absolvido sumariamente e o processo seguirá o seu curso. (iii) regra do julgamento: a regra de julgamento é estado de não culpabilidade. Se a acusação não provar de modo cabal/irrefutável que o acusado é culpado, este será absolvido por insuficiência de provas (art. 386, VII, CPP). A execução provisória da pena no Brasil e a evolução do entendimento do STF sobre o tema: a execução provisória da pena significa o início do cumprimento da pena antes do trânsito em julgado da decisão penal condenatória. Até o ano de 2009, o STF admitia a execução provisória da pena. Em 2009, com o julgamento do HC 84.078-7/MG, a possibilidade de prisão definitiva passou a ser admitida somente após o trânsito em julgado da decisão penal 2 Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de condenatória. Ou seja, em 2009, a execução provisória da pena passou a ser inadmitida. Esse entendimento de inadmissão da execução provisória da pena prevaleceu até 2016. Em 2016, no julgamento do HC 126.292, o STF, por maioria de votos no plenário, voltou a admitir a execução provisória da pena após o exaurimento das vias impugnativas no segundo grau de jurisdição. A fim de que o STF revesse essa decisão, foram propostas as Ações Declaratórias de Constitucionalidade 43, 44 e 54, tendo como parâmetro o art. 283, caput, do CPP 2 , o qual veda a execução provisória da pena. O propósito era o de que se o STF reconhecesse a constitucionalidade do art. 283 do CPP, estaria reconhecendo a inconstitucionalidade da sua decisão HC nº 126.292. A propositura das ADCs teve pedidos de medidas cautelares. Contudo, o STF não concedeu a medida cautelar e a execução provisória da pena continuava a ser admitida. Em 2019, no julgamento do mérito dessas ADCs, o STF mudou o entendimento: reconheceu a constitucionalidade do art. 283, do CPP e deixou de admitir a execução provisória da pena. Para se iniciar a execução definitiva da pena, tem que haver o trânsito em julgado da decisão penal condenatória. A decisão nas ADCs possui efeitos erga omnes e vinculante, não mais admitindo a execução provisória da pena. Não se admite a execução provisória da pena por violar a regra de tratamento do princípio do estado de não culpabilidade. Execução provisória da pena tem, pois, relação direta com a regra de tratamento. Vedação de prova obtida por meio ilícito (art. 5º, LVI, CF/88 e art. 157, CPP) prisão cautelar ou em virtude de condenação criminal transitada em julgado. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Existe diferença entre prova ilícita e prova ilegítima? Na prova ilícita, a mácula é na origem/produção da prova: a prova é produzida de modo viciado, violando norma de direito material. Já a prova ilegítima, não guarda vício ou mácula na sua produção. A prova ilegítima é produzida de modo lícito. A prova ilegítima viola norma de direito processual. Tanto a prova ilícita quanto a prova ilegítima devem ser desentranhadas dos autos do processo. Sobre o tema, segue excerto literal da doutrina de Aury Lopes Júnior (LOPES JÚNIOR, Aury. Direito Processual Penal. 17. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020, n.p. E-book.): Prova ilegítima: quando ocorre a violação de uma regra de direito processual penal no momento da sua produção em juízo, no processo. A proibição tem natureza exclusivamente processual, quando for imposta em função de interesses atinentes à lógica e à finalidade do processo. Exemplo: juntada fora do prazo, prova unilateralmente produzida (como o são as declarações escritas e sem contraditório) etc. Prova ilícita: é aquela que viola regra de direito material ou a Constituição no momento da sua coleta, anterior ou concomitante ao processo, mas sempre exterior a este (fora do processo). Nesse caso, explica MARIA THEREZA, embora servindo, de forma imediata, também a interesses processuais, é vista, de maneira fundamental, em função dos direitos que o ordenamento reconhece aos indivíduos, independentemente do processo. Em geral, ocorre uma violação da intimidade, privacidade ou dignidade (exemplos: interceptação telefônica ilegal, quebra ilegal do sigilo bancário, fiscal etc.). Há dois momentos processuais em que o Código de Processo Penal veda a juntada de prova aos autos do processo. Ambos os momentos estão previstos no rito do tribunal do júri: (i) fase de alegações finais na primeira fase do rito do júri (iudiciun acusationes) do rito do júri. (ii) segunda fase do rito do júri (iudiciun causae): só é possível a juntada de provas aos autos com a antecedência mínima de 03 (três) dias úteis antes da realização da data do júri. Art. 479, CPP. Durante o julgamento não será permitida a leitura de documento ou a exibição de objeto que não tiver sido juntado aos autos com a antecedência mínima de 3 (três) dias úteis, dando-se ciência à outra parte. Obs.: os artigos. 406 a 497 do Código de Processo Penal são os dispositivos pertinentes aos processos de competência do Tribunal do Júri. São também inadmitidas as provas derivadas das ilicitudes (ilicitude por derivação). Teoria dos frutos da árvore envenenada: se a prova “A” é ilícita e a prova “B” deriva da prova “A”, há ilicitude por derivação. Contudo, se ficar provado que, pelo andamento típico da investigação, a prova “B” pode ser identificada independentemente da prova “A”, há uma mutação: a prova “B” não será uma prova ilícita. O art. 157, §5º, do CPP, versa que: Art. 157, CPP. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. §5º O juiz que conhecer do conteúdo da prova declarada inadmissível não poderá proferir a sentença ou acórdão. Trata-se de dispositivo introduzido pelo Pacote Anticrime, a partir do qual se depreende que, mesmo que a prova tenha sido desentranhada dos autos, o juiz está subjetivamente contaminado. Mas, o §5º, do art. 157, está com a eficácia suspensa por decisão do Ministro Luiz Fux (videADI 6.298, 6.299, 6.300 e 6.305). Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo – nemo denetur si detegere (art. 5º, LXIII, CF/88) Art. 5º, LXIII. CF. O preso será informado de seus direitos, dentre os quais o de permanecer calado [base normativa constitucional do princípio em análise], sendo-lhe assegurado a assistência da família e a presença de advogado. É um dos princípios mais caros para a CF/88 e para o processo penal. Existem inúmeros desdobramentos e incontáveis violações a esse princípio. Aparentemente, seria possível apenas dizer que ninguém (investigado/acusado) é obrigado a produzir prova contra si e, portanto, ninguém é obrigado a se submeter ao teste do bafômetro, a realizar exame de sangue em uma investigação criminal, a ceder cabelo para exame de DNA etc. Esse princípio também vale para o processo civil. Ex.: em uma ação de investigação de paternidade, o suposto genitor não é obrigado a se submeter ao teste de DNA. Mas a condenação é possível, ainda que não haja a produção de provas por parte do investigado/acusado, porque existem outros tipos de prova, a exemplo da prova testemunhal. Ao contrário do que muitos pensam e dizem, esse princípio não gera impunidade, porque, reprise-se, existem inúmeros outros instrumentos probatórios. O princípio de que ninguém é obrigado a produzir prova contra si decorre do direito ao silêncio. O STJ já pacificou o entendimento de que o direito ao silêncio pode ser parcial. Ou seja, o investigado/acusado responderia a algumas perguntas, mas a outras não, à sua livre escolha. Então, por exemplo, o acusado pode responder apenas às perguntas da defesa e não responder às da acusação e vice-versa. Então, a resposta às perguntas pode ser algo seletivo e esse tema está superado e pacífico no Poder Judiciário. Confirmar isso aqui. Reconhecimento de pessoas (art. 226 e seguintes, CPP) Art. 226. Quando houver necessidade de fazer-se o reconhecimento de pessoa, proceder-se-á pela seguinte forma: I - a pessoa que tiver de fazer o reconhecimento será convidada a descrever a pessoa que deva ser reconhecida; Il - a pessoa, cujo reconhecimento se pretender, será colocada, se possível, ao lado de outras que com ela tiverem qualquer semelhança, convidando-se quem tiver de fazer o reconhecimento a apontá-la; III - se houver razão para recear que a pessoa chamada para o reconhecimento, por efeito de intimidação ou outra influência, não diga a verdade em face da pessoa que deve ser reconhecida, a autoridade providenciará para que esta não veja aquela; IV - do ato de reconhecimento lavrar-se-á auto pormenorizado, subscrito pela autoridade, pela pessoa chamada para Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 proceder ao reconhecimento e por duas testemunhas presenciais. Parágrafo único. O disposto no no III deste artigo não terá aplicação na fase da instrução criminal ou em plenário de julgamento. Art. 227. No reconhecimento de objeto, proceder-se-á com as cautelas estabelecidas no artigo anterior, no que for aplicável. Art. 228. Se várias forem as pessoas chamadas a efetuar o reconhecimento de pessoa ou de objeto, cada uma fará a prova em separado, evitando-se qualquer comunicação entre elas. Duração razoável do processo (art. 5º, LXXVIII, CF/88) Art. 5º (...), LXXVIII, CF/88. A todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Esse princípio, até o ano de 2004, era um princípio constitucional implícito ao devido processo constitucional. No ano de 2004, a EC/45 criou o inciso LXXVIII do art. 5º da CF/88, de modo que a duração razoável do processo passou a ser um princípio constitucional explícito (ganhou luz própria/independência). Mas duração razoável do processo não necessariamente significa celeridade. Há a exigência de celeridade, mas, quanto mais celeridade, menos garantias. Se o processo está rápido demais, pode significar que estão ocorrendo violações a garantias constitucionais, o que também viola o devido processo constitucional. Em resumo, a duração razoável do processo pode ser celeridade, mas pode ser, inclusive, a necessidade de uma demora, a fim de que as garantias sejam devidamente observadas. Qual é o prazo para que haja observância da duração razoável do processo? Não há prazo específico. Então, como saber se o princípio da duração razoável do processo está sendo observado ou não? Existem vários vetores de análise, ou seja, a análise não é objetiva. Tais vetores não são isolados, mas, sim, cumulativos. São parâmetros referenciais. Senão vejamos: i) complexidade da causa: existem causas muito mais complexas do que outras. Então, um processo no tocante a uma causa extremamente complexa, demorará mais do que um processo que se refira a uma temática considerada mais simples. ii) estrutura do órgão jurisdicional: Ex. hipotético: a 1ª Vara Criminal da comarca de Diamantina tem 2 servidores. A 2ª Vara Criminal de Curvelo tem 5 servidores. Então, a tendência é que o trâmite dos processos na 1ª Vara Criminal de Diamantina demore mais, porque esta conta com menos servidores. iii) volume de processos: existem juízos/varas que têm muitos processos, enquanto outros têm muito menos, de modo que a tendência é que os processos sejam mais morosos naqueles juízos que possuem um maior volume de processos. iv) atuação do juiz: o juiz é uma pessoa física e todo juiz é um administrador, que administra o órgão jurisdicional no qual atua. Então, existem juízes que se organizam melhor. v) comportamento da parte: a parte pode fazer muitos recursos, dificultar o andamento do processo e, em certa medida, Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 não cooperar com o andamento e bom desenvolvimento das fases processuais. Veja-se que há uma margem de subjetividade naquilo que se entende por “duração razoável”. Apesar disso, na maioria dos casos, a inobservância desse princípio é flagrante. Ex.: os autos estão conclusos para o magistrado proferir sentença há dois anos. É nítido que não há duração razoável do processo. O ponto fundamental é que o princípio é da duração razoável do processo. A reflexão é: e na fase de investigação criminal (pré- processual)? O princípio da duração razoável do processo abrange/abarca também a fase pré-processual (investigação criminal)? Vários doutrinadores dizem que não, porque a fase pré-processual não é processo (e realmente não é). Mas, será que é razoável que uma investigação criminal dure, por exemplo, 19 anos? Ex.: crime de homicídio — a pretensão punitiva estatal prescreve em 20 anos (art. 109, I, do CP). Enquanto não houver a prescrição da pretensão punitiva, o Estado pode realizar a persecução penal. Suponha que foi instaurado o inquérito policial em 2002. Contudo, não foi identificado elemento algum que vincule o investigado à prática do homicídio. Essa investigação criminal pode perdurar até a prescrição da pretensão punitiva? Outra parte da doutrina considera a duração razoável do processo como uma garantia fundamental que também se aplica à fase de investigação, tendo em vista que é o Estado que a realiza. Para que se inicie a persecução penal, basta que haja indícios de autoria. Então, seria razoável que a investigação durasse até a prescrição ou até outra causa extintiva da punibilidade? Obs.: a prescrição é uma causa extintiva da punibilidade e, portanto, extingue a pretensão punitiva do Estado, ou seja, a pretensão do Estado de punir o autor do crime. A prescrição não atinge/extingue o crime, mas, sim, a pretensão punitiva do Estado. O crime podeaté ter acontecido. Mas, ocorrendo a prescrição, o autor não será punido, porque o Estado dispõe de um lapso temporal limitado para exercer a persecução, nos moldes do art. 109, do Código Penal. Obs.: existem causas interruptivas da prescrição. Ou seja, ocorrendo uma das causas interruptivas, a contagem da prescrição é zerada e começa a contar de novo. A primeira causa interruptiva da prescrição, conforme previsão do art. 117, do Código Penal, é o recebimento da inicial acusatória (denúncia ou queixa-crime). Ex.: depois de 19 anos e 11 meses do cometimento de um crime de homicídio, cujo prazo prescricional é de 20 anos (art. 109, I, CP), o Ministério Público oferece a denúncia e o juízo recebe a denúncia. Mesmo tendo passado 19 anos e 11 meses, haverá a interrupção da prescrição (começará a contar tudo de novo). É digno de nota que no âmbito do júri, tem-se a decisão de pronúncia (interrompe novamente a prescrição, conforme art. 117, II, do CP). Essa discussão existe porque não raras vezes a investigação criminal é instaurada, mas nada nela é produzido. Contudo, tal investigação não é arquivada. A pergunta é: a investigação pode ficar parada (sem ser arquivada) até a prescrição? Há quem diga que sim e há quem diga que não. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Proporcionalidade O entendimento amplamente majoritário na doutrina, que também é o entendimento do STF, é de que a proporcionalidade é um princípio constitucional. Mas, na doutrina, há, também, o entendimento minoritário de que a proporcionalidade seria um postulado. O entendimento majoritário é de que a norma jurídica é gênero, do qual o princípio é uma espécie. Mas, alguns doutrinadores entendem, que, dentro do gênero norma jurídica, há, além de princípio e regra, o que se chama de postulado (norma de segundo grau). Seria uma norma imanente a todas as leis. Segundo o STF, a proporcionalidade é um princípio constitucional implícito ao princípio do devido processo constitucional, na sua dimensão substancial (art. 5º, LIV, CF/88). Na doutrina, o tema é divergente. Alguns doutrinadores concordam com o STF. Outros, entendem que a proporcionalidade é um princípio constitucional implícito ao Estado de Direito. Outros doutrinadores, ainda, entendem que a proporcionalidade é um princípio constitucional implícito à teoria dos direitos fundamentais. Outros, ainda, entendem que a proporcionalidade é um princípio constitucional explícito no art. 5º, V, da CF/88, ou explícito na duração razoável do processo. Conteúdo da proporcionalidade: a proporcionalidade se desdobra em três máximas: (i) adequação: juízo de meio e fim. O meio escolhido é adequado para o atingimento do fim pretendido? (ii) necessidade: este meio é adequado, mas é necessário para se atingir o fim? Existe outro menos gravoso para se atingir o fim? (iii) proporcionalidade em sentido estrito (lei da ponderação/balanceamento): quais são os pontos favoráveis e negativos deste meio? Os pontos favoráveis pesam mais do que os negativos? Sobre a proporcionalidade, Jellinek sustenta que “não se deve abater pardais disparando canhões.” Um tiro de canhão mata pardal, havendo, pois, a adequação de meio e fim. Mas, matar pardal com tiro de canhão não é necessário, pois existem outros modos menos gravosos para se matar pardal. É necessário se ter claro que a análise da proporcionalidade não é uma análise objetiva. Por isso, essas regras são muito importantes. Ao se aplicar a proporcionalidade, exige-se uma densa carga argumentativa, a fim de que seja possível analisar se a conclusão pela proporcionalidade ou desproporcionalidade foi correta ou não. O texto “A Estória da Katchanga Real”, escrito por Lênio Streck, demonstra que a proporcionalidade é como se fosse uma carta curinga no Brasil, sem explicitar o percurso traçado na proporcionalidade para chegar à conclusão. Texto disponível em: https://dagmarvulpi.blogspot.com/2012/1 1/a-estoria-da-katchanga-real.html. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Vedação de bis in idem No âmbito penal, ninguém pode ser prejudicado mais de uma vez pelo mesmo fato. Esse tema é muito relevante na fixação da pena. Isso porque, nos termos do art. 68, caput, do CP, o sistema de fixação de pena no Brasil é o trifásico, defendido por Nelson Hungria. Nesse sistema, temos 3 fases. Art. 68, CP. A pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 59 deste Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e agravantes; por último, as causas de diminuição e de aumento. • 1ª fase: pena-base – fixada analisando as circunstancias judiciais previstas no art. 59, do CP; • 2ª fase: circunstâncias legais – agravantes e atenuantes, nos moldes dos artigos 62 a 66 do CP; • 3ª fase: causas de aumento e de diminuição de pena. A importância do princípio da vedação do bis in idem na fixação da pena é no sentido de que a mesma circunstância não pode ser utilizada mais de uma vez para agravar a pena, sob consequência de incidir em dupla punição pelo mesmo fato. Ex.: reincidência – a reincidência é uma circunstância agravante. Então, o fato de o condenado ser reincidente, agravará a pena na 2ª fase de aplicação. Mas, acontece muito de, na 1ª fase, o juiz, ao analisar a conduta social do acusado, vislumbrar que é uma conduta voltada para o crime, o que se comprova pela reincidência. Então, a reincidência já prejudica o acusado na 1ª fase. Na 2ª fase, o juiz diz: agravo a pena porque o condenado é reincidente. O correto é: na 1ª fase não interessa se o acusado é reincidente, porque essa é uma análise a ser feita na 2ª fase, sob pena de bis in idem. CUIDADO! Temos a responsabilidade penal, civil, administrativa e política. Isso implica em bis in idem? NÃO. Porque bis in idem refere-se ao âmbito penal. Essas responsabilizações são independentes. Ex.: um servidor público desvia dinheiro público, valendo-se da profissão exercida, praticando o crime de peculato. Nesse caso, tem-se: o Responsabilidade penal: peculato; o Responsabilidade administrativa: instauração de Procedimento Administrativo Disciplinar – PAD; o Responsabilidade civil: ressarcimento do valor desviado; o Responsabilidade política: improbidade administrativa. O fato é um só, mas enseja várias responsabilizações independentes, não caracterizando bis in idem. CUIDADO! Exemplo do ex-goleiro Bruno. Bruno foi condenado criminalmente por ter matado Elisa Samúdio. O fato teria sido praticado em 2006 e ele foi condenado em 2009 e está cumprindo pena. Suponhamos que, em 2022, Elisa Samúdio apareça no Carnaval de Diamantina. Bruno pensa: já fui processado, condenado e já cumpri a pena, mas ela está viva. Então, posso matá-la, já cumpri a pena mesmo... ISSO ESTÁ ERRADO!!! Se bruno mata Elisa em 2022, será condenado, porque são fatos completamente diferentes, sobretudo no tocante à data, ao local e à motivação. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Vedação de reformatio in pejus (art. 617, CPP) Art. 617, CPP. O tribunal, câmara ou turma atenderá nas suas decisões ao disposto nos arts. 383, 386 e 387, no que for aplicável, não podendo, porém, ser agravada a pena, quando somente o réu houver apelado da sentença. A vedação de reformatio in pejus é um desdobramento do princípio da ampla defesa. Não é um princípio autônomo, porque é imanente/é um desdobramento lógico da ampla defesa. No julgamento de recurso da defesa, o órgão ad quem não pode agravar a situação do recorrido. Trata- se de uma garantia da defesa. Ex.: meu cliente é condenado criminalmente, à pena privativa de liberdadede 04 anos, no juízo primevo de Diamantina. Eu, como advogado, vislumbro que cabe recurso. O meu cliente fica temeroso de recorrer e a pena ser aumentada. Ocorre que isso fragilizaria em grande medida a ampla defesa, porque fragilizaria a interposição do recurso. Por isso, à luz do princípio da vedação da reformatio in pejus, há uma vedação ao agravamento da situação jurídica do acusado, em sede de recurso da defesa. CUIDADO! E se o julgamento for de recurso da acusação? Nesse caso, não haverá incidência do princípio em análise. O Tribunal, pode, então, exasperar a pena no julgamento do recurso da acusação. No exemplo em tela, o Tribunal pode negar provimento ao recurso da defesa e dar provimento ao recurso da acusação, aumentando a pena para 06 anos. Tudo o que foi mencionado até então, refere-se à vedação da reformatio in pejus direta. Existe a vedação da reformatio in pejus indireta. Na indireta, tem-se a nulidade/invalidação. Ou todo o processo foi inválido, ou apenas a sentença foi inválida. Ex.: um indivíduo foi condenado no âmbito da 1ª Vara Criminal da comarca de Diamantina/MG, pela prática do crime X, à pena privativa de liberdade de 05 anos de reclusão, em regime inicial semiaberto. A defesa do indivíduo interpôs recurso de apelação e requereu a anulação do processo, porque teria havido um vício insanável na citação do acusado, isto é, no começo do processo. O TJMG deu provimento ao recurso e anulou todo o processo, inclusive a sentença condenatória. Desse modo, o processo deve retornar do momento da citação. Agora, nesse novo processo, se for proferida sentença condenatória, a pena e/ou o regime inicial de cumprimento poderão ser mais gravosos do que a situação jurídica da condenação da sentença que foi anulada? NÃO. O máximo que poderá ocorrer é uma condenação com a mesma gravidade da condenação da primeira sentença que foi anulada. Trata-se da vedação da reformatio in pejus indireta. O ponto mais sensível desse princípio (reformatio in pejus indireta) é no tocante ao Tribunal do Júri. Ex.: a acusação é de homicídio triplamente qualificado. O Conselho de Sentença (jurados) decota/afasta duas qualificadoras. O acusado é condenado, portanto, por homicídio com uma qualificadora. A pena, então, é fixada em 13 anos de reclusão, em regime inicial fechado. A defesa interpõe recurso de apelação e requer a anulação/invalidação da Sessão do Júri por algum fundamento. O TJMG dá provimento ao recurso da defesa e anula o júri. Anulado o júri, o acusado deverá ser submetido a um novo júri. A acusação é a Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 mesma: homicídio triplamente qualificado. Neste ponto, deve-se recordar que um dos princípios do júri é a soberania dos veredictos (art. 5º, XXXVIII, “c”, CF/88). Analisemos, então, três hipóteses: a) Os jurados condenam o acusado pela prática do crime de homicídio duplamente qualificado, afastando, portanto, apenas uma qualificadora. O juiz presidente do Tribunal do Júri fixa a pena em 15 anos de reclusão, em regime inicial fechado. Pergunta- se: houve violação ao princípio da vedação da reformatio in pejus? NÃO. É necessário analisar as teses da condenação no 1º e no 2º júri. No primeiro, o que condenou o acusado foi o homicídio com uma qualificadora. No segundo júri, a condenação foi por homicídio com duas qualificadoras. b) Os jurados condenam o acusado acatando a mesma tese acatada no primeiro Júri. Isto é, os jurados decotam duas qualificadoras, condenando o acusado pelo crime de homicídio com uma qualificadora, sendo que esta qualificadora é a MESMA reconhecida no primeiro júri. A tese, pois, é idêntica. O juiz presidente do segundo júri, fixa a pena em 14 anos de reclusão, em regime inicial fechado. Houve violação ao princípio da reformatio in pejus indireta? SIM. Por que as teses acatadas são IDÊNTICAS. c) No segundo júri, os jurados decotam as três qualificadoras e condenam o acusado por homicídio simples. Mas, o juiz, no segundo júri, fixa a pena em 13 anos de reclusão, em regime inicial fechado (a mesma pena do primeiro Júri). Houve violação ao princípio da reformatio in pejus indireta? SIM. Novamente, as teses são diferentes. Mas, a tese acatada no segundo Júri, é muito mais branda do que a tese do primeiro júri. As penas, portanto, devem acompanhar esse abrandamento. Em síntese, no tocante à vedação da reformatio in pejus indireta no âmbito do Tribunal do Júri, é indispensável a análise das teses. Se a tese acatada no segundo júri é mais gravosa do que a do primeiro, a pena do segundo júri poderá ser mais gravosa. Se as teses são idênticas, a pena no segundo júri não poderá ser mais gravosa do que a do primeiro. Se a tese acatada no segundo júri é mais branda do que a do primeiro, necessariamente, a pena na segunda condenação tem que ser mais branda do que a fixada na primeira condenação. Lembre-se: a vedação da reformatio in pejus é corolário da garantia fundamental da ampla defesa. Art. 5º (...), LV, CF. Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. In dubio pro reo (art. 386, VII, CPP) Art. 386, CPP. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: VII – não existir prova suficiente para a condenação. O princípio do in dubio pro reo tem a ver com a valoração da prova. Ao valorar o conjunto probatório, havendo dúvida se o Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 acusado é culpado ou não, o acusado deve ser absolvido por insuficiência de provas. Não significa que o acusado seja inocente, mas, sim, que não houve produção de prova suficiente para legitimar uma sentença penal condenatória. É importante destacar, reprise-se, que o princípio in dubio pro reo se refere ao conjunto probatório. Favor rei Havendo julgamento por órgão colegiado e havendo empate, prevalece o entendimento benéfico à defesa. Ex.: o STF tem 11 ministros. Hoje, no entanto, hipoteticamente, só há 10 ministros no STF, em razão da aposentadoria de um deles. No exemplo, o STF vai julgar um Recurso Extraordinário e há empate: 5 votos dando provimento ao recurso da defesa e 5 votos negando provimento ao recurso da defesa. Nesse caso, o acusado será absolvido ou a acusação será mantida? Pelo princípio favor rei, não haveria um voto de desempate, mas, sim, prevaleceria o entendimento favorável à defesa. No julgamento de Habeas Corpus, não há dúvidas quanto à incidência desse princípio. Mas, no julgamento de Recurso Extraordinário, há dúvida. Em determinada ocasião, uma das Turmas do STF estava com 04 membros e houve empate nos votos. O ordenamento jurídico não dá uma resposta clara para essa situação. Poderia ser usado o princípio favor rei e o caso estaria encerrado. Mas, decidiu-se por suspender o julgamento e aguardar o novo Ministro do STF. Deve-se reconhecer que isso é bastante prejudicial à defesa. Fato é que o princípio favor rei aplica-se a julgamentos criminais de órgãos colegiados. Identidade física do juiz (art. 399, §2º, do CPP) Art. 396 (...), §2º, CPP. O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença. Significa que o juiz que encerra/preside a instrução criminal (audiência para produção de provas) se vincula àquele processo e é ele que deve proferir a sentença. O vetor axiológico é que o juiz que presidiu a audiência de produção de provas teria melhores condições de proferir a sentença. O princípio da identidade física do juiz surge no processo penal em 2008. O princípio da identidade física do juiz, antes disso,existia apenas no processo civil. Ocorre que o STF entendia que não obstante a inexistência expressa do princípio da identidade física do juiz no processo penal, no julgamento do Tribunal do Júri, mesmo não havendo previsão legal, existiria esse princípio. Mas, desde 2008, em todos os processos criminais, tem-se o princípio da identidade física do juiz. Ex.: no júri, testemunhas são ouvidas, o acusado é interrogado e há, também, os debates entre defesa e acusação. Existem júris que demoram dias/semanas. Suponha que no quarto dia do júri, o juiz presidente passou mal. Em vez de dissolver o Conselho de Sentença (não dar prosseguimento ao júri), houve a substituição do juiz presidente do júri e o júri teve continuidade. Esse caso chegou ao STF. Alegaram que a continuidade do júri era legítima, porque não havia incidência do princípio da identidade física do juiz. O STF entende que tal sentença é inválida, porque já antes de 2008 haveria o princípio da identidade física do juiz. A partir de uma reforma do processo penal (Lei nº 11.619/2008), o princípio da identidade física do juiz é um princípio geral. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Mas, existem exceções: o juiz morreu, se aposentou, foi promovido. Esses casos são inerentes ao sistema e, por isso, são excepcionais. Mas, em regra, o juiz que presidiu a instrução/colheu a prova, se vincula ao processo, devendo proferir a sentença. AULA 04/12/2021 e AULA 11/12/2021 Fase pré-processual, investigação criminal Conceito de inquérito policial segundo Renato Brasileiro de Lima: O inquérito policial (IP) é um procedimento investigativo, administrativo, persecutório, instaurado e presidido por Delegado de Polícia, consistente em um conjunto de diligências (que consubstanciam a investigação) para se identificar meios de prova (não se produz prova, porque a prova é produzida na fase processual) e produzir elementos informativos para formar o conhecimento/convencimento do titular da ação penal (destinatário imediato/direto/primário), no sentido de propor a ação penal em juízo ou não e subsidiar o Poder Judiciário (destinatário mediato/indireto/secundário) no tocante à decretação ou não de eventuais medidas cautelares. A previsão sobre o IP no Código de Processo Penal se encontra nos artigos 4º a 23 do referido diploma legal. O inquérito policial é o procedimento investigatório da polícia investigativa, também chamada de polícia judiciária (polícia civil e polícia federal). Na fase pré-processual, não se produz prova, mas se identificam meios e fontes de prova. Isso, pois, a prova será produzida na fase processual, caso seja deflagrada a ação penal em juízo. Mas é possível a produção de prova na fase pré-processual. A prova será ou cautelar, ou irrepetível ou antecipada. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 o Na prova cautelar, haverá contraditório, porque se não houver, não é prova. Só que na prova cautelar o contraditório é postergado para ser efetivamente exercido no processo. A produção de prova cautelar exige autorização judicial. o A prova irrepetível também é prova. Nela, o contraditório também é postergado. Contudo, não há exigência de autorização judicial. o Na prova antecipada, o contraditório não é postergado ou diferido. Ele é atual, naquele momento. O art. 155, caput, do CPP, permite que o juiz, na sentença, se valha de elementos informativos (produzidos na fase pré- processual), desde que o elemento informativo esteja acompanhado por prova produzida na fase processual. Art. 155, CPP. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Há críticas e essa possibilidade, no sentido de que elemento informativo jamais pode fundamentar decisão de mérito, ainda que acompanhado por prova. Isso porque, elemento informativo serve apenas para formar o entendimento do titular da ação penal (Ministério Público), o qual é o destinatário principal/imediato/direto do inquérito policial e também o Poder Judiciário, mas este, apenas quanto à decretação ou não de medidas cautelares e não quanto ao mérito! Características do inquérito • Inquisitório: diz-se que não se aplica o princípio do contraditório ao inquérito policial, apesar de parcela da doutrina defender o contrário. A não aplicação do princípio do contraditório, porém, não anula a aplicação do princípio da ampla defesa. Por isso, o investigado pode se fazer acompanhar por defensor em todos os atos do inquérito policial, podendo, inclusive, se negar a fornecer/produzir prova contra si mesmo. • Escrito Art. 9º, CPP. Todas as peças do inquérito policial serão, num só processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade. Art. 405, CPP. Do ocorrido em audiência será lavrado termo em livro próprio, assinado pelo juiz e pelas partes, contendo breve resumo dos fatos relevantes nela ocorridos. §1º Sempre que possível, o registro dos depoimentos do investigado, indiciado, ofendido e testemunhas será feito pelos meios ou recursos de gravação magnética, estenotipia, digital ou técnica similar, inclusive audiovisual, destinada a obter maior fidelidade das informações • Sigiloso: o inquérito pode ser sigiloso, na medida em que for necessário. Art. 20, CPP. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Súmula Vinculante 14. É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. • Dispensável: qualquer outra peça de informação que traga prova da materialidade delitiva e indícios suficientes de autoria pode servir de base para o oferecimento da denúncia ou queixa-crime. Art. 12, CPP. O inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa, sempre que servir de base a uma ou outra. • Discricionário: não há uma sequência pré-determinada dos atos que devem ser seguidos pela autoridade policial. A autoridade policial determinará as diligências necessárias a depender do avanço dos trabalhos de investigação e das peculiaridades do caso concreto. • Oficial: a condução do inquérito policial cabe a um órgão oficial do Estado. Segundo a Lei nº 12.830/2013, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercida pelo delegado de polícia são de natureza jurídica essenciais e exclusivas de Estado. • Oficioso: a autoridade policial deve instaurar o inquérito policial de ofício, sempre que tomar conhecimento da prática de crime de ação penal pública incondicionada. Nos demais casos, a instauração do inquérito policial sempre dependerá de representação do ofendido. • Indisponível: a autoridade policial não pode determinar o arquivamento do inquérito policial. Art. 17, CPP. A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito. Art. 28, CPP. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de homologação, na formada lei. Está com a eficácia suspensa! ADIs 6.298, 6.300 e 6.305. • Temporário Conclusão IP instaurado pela Polícia Civil - 10 dias: investigado preso em decorrência daquela investigação, a contar da efetivação da prisão (e não da decretação); - 30 dias: investigado solto. Art. 10, CPP. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Conclusão IP (crimes da Lei nº 11.343/06 – Lei de Drogas) - 30 dias (pode ser duplicado): investigado preso; - 90 dias (pode ser duplicado): investigado solto. Art. 51, Lei nº 11.343/06. O inquérito policial será concluído no prazo de 30 (trinta) dias, se o indiciado estiver preso, e de 90 (noventa) dias, quando solto. Parágrafo único. Os prazos a que se refere este artigo podem ser duplicados pelo juiz, ouvido o Ministério Público, mediante pedido justificado da autoridade de polícia judiciária. Conclusão IP instaurado pela Polícia Federal - 15 dias (prorrogável por igual período): investigado preso Art. 66, Lei nº 6.010/66. O prazo para conclusão do inquérito policial será de quinze dias, quando o indiciado estiver prêso (sic), podendo ser prorrogado por mais quinze dias, a pedido, devidamente fundamentado, da autoridade policial e deferido pelo Juiz a que competir o conhecimento do processo. Conclusão IP (crimes contra a economia popular) De acordo com a Lei nº 1.251/51, tratando-se de crimes contra a economia popular, o prazo é um só: 10 dias, estando o investigado preso ou solto. AULA 18/12/2021 Continuação Inquérito Policial É importante ressaltar que, caso o inquérito policial não for concluído no prazo legal, pode haver a dilação do prazo. Contudo, um dos requisitos para a dilação é que não haja investigado preso. Assim, caso o inquérito policial não for encerrado no prazo e o investigado estiver preso, este deverá ser colocado em liberdade para que haja a dilação do prazo para a conclusão das investigações. A relevância do prazo é que, se o investigado estiver solto e o prazo para a conclusão do inquérito exaurir, a autoridade policial, obrigatoriamente, deve remeter os autos ao juízo competente e pedir a dilação de prazo (art. 10, §3º, CPP). Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. §3º Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz. Quando houver pedido de dilação de prazo para a conclusão do IP, o juízo competente abre vistas para o MP. Se o MP estiver de acordo, os autos voltam para o juízo competente, o qual estabelece um novo prazo e os autos voltam para a Delegacia de Polícia para a continuidade das investigações. Exaurido o prazo dilatado, ocorre o mesmo procedimento. E essa dinâmica pode durar anos. Por isso, é Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 comum ter inquéritos policiais que duram meses, anos, décadas... É necessário que haja toda essa dinâmica TODA vez que o prazo for esgotado e é possível que isso dure até que haja a extinção da punibilidade pela prescrição, por exemplo. Obs.: no CPP, a dinâmica da dilação de prazo é esta: a autoridade policial pede dilação de prazo ao juízo competente, o qual remete os autos ao MP, para que o órgão ministerial se manifeste. Depois, se o MP estiver de acordo, os autos voltam ao juízo competente e são novamente remetidos para a delegacia de polícia. Mas, à luz do sistema processual penal acusatório, o correto é que o pedido de dilação de prazo não passe pelo Poder Judiciário e seja feito diretamente ao MP. Na Justiça Federal, há uma resolução do CNJ nesse sentido. No âmbito estadual, também existem Portarias no sentido de o pedido de dilação não passar pelo Poder Judiciário. Obs.: o pedido de dilação de prazo para a conclusão do IP deve passar pelo MP por dois fundamentos: i) o MP é o titular privativo da iniciativa da ação penal pública (art. 129, I, CF/88); ii) o MP exerce a atribuição de controle externo da atividade policial (art. 129, VII, CF/88). Ex.: em uma situação hipotética, a autoridade policial formula o oitavo pedido de dilação de prazo, sendo que, entre o primeiro e o último pedido não se produziu nenhuma prova. Nesse caso, em vez de o MP só se manifestar “de acordo com a dilação de prazo”, solicita que seja dada a devida atenção a essa investigação criminal. • Destinatário imediato do IP: titular da ação penal pública (Ministério Público); • Destinatário mediato do IP: Poder Judiciário. O Poder Judiciário não é destinatário do inquérito policial no tocante ao mérito penal e, por isso mesmo, não pode fundamentar sua decisão com base unicamente no inquérito policial. O art. 155, do CPP, (lei infraconstitucional) permite que o Judiciário fundamente a decisão de mérito em elemento informativo, desde que o elemento informativo esteja acompanhado de prova. Art. 155, CPP. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Parágrafo único. Somente quanto ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil. Contudo, com base no sistema processual penal acusatório, tal disposição é equivocada. Arquivamento do inquérito policial O Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/2019) alterou o novo modo de realizar o arquivamento do inquérito policial, conforme previsão do art. 28, do CPP. Ocorre que o art. 28, do CPP, está com a eficácia suspensa, por decisão do Min. Luiz Fux. Significa que ainda estamos aplicando a redação antiga. Hoje (aplicando a redação antiga), o arquivamento se dá da seguinte forma: quem arquiva os autos do IP é o Poder Judiciário. O MP é o titular privativo da ação penal pública. Quando a autoridade policial encerra o inquérito, elabora o que se chama de relatório. O MP recebe os autos do Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 inquérito e os estuda. Quando o MP está convencido de que não houve crime ou de que, apesar de ter havido o crime, o investigado não teve relação com a prática, o MP, requer, de modo fundamentado, o arquivamento. Se o Poder Judiciário, por meio do juiz da Vara Criminal respectiva, concordar com as razões invocadas pelo MP, há o arquivamento. Se o juiz discordar, aplica-se o art. 28, do CPP. Hoje, o art. 28 que está vigente determina que: Art. 28, CPP (antes do Pacote Anticrime). Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o Juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o Juiz obrigado a atender. Com base na redação acima, tem-se que o Procurador-Geral de Justiça(PGJ) pode: a) insistir no arquivamento do IP. Nesse caso, os autos voltam para a comarca e o juiz é obrigado a arquivar. Isso porque, o MP é o titular da iniciativa da ação penal pública; b) entender que não é caso de arquivamento, mas, sim, de ação penal. Nesse caso, o PGJ oferece a denúncia (inicial acusatória). Em vez de ele oferecer a denúncia, pode designar outro membro do MP para fazê-lo. Depois do oferecimento da denúncia, os autos voltam para a comarca para a devida tramitação. Obs.: esse membro do MP designado pelo PGJ pode optar por não oferecer a denúncia? Há uma divergência na doutrina. Mas o entendimento que prevalece é o de que não pode haver essa negativa. Prevalece o entendimento de que o membro do MP é designado não para fazer uma análise de cabimento ou não, mas simplesmente para oferecer a denúncia. Atua como longa manus (extensão do braço do PGJ e não em nome próprio). Mas há entendimentos em sentido diverso, de que o membro designado poderia deixar de oferecer a denúncia com base na independência funcional do Ministério Público. E o promotor da comarca que requereu o arquivamento? Ele não poderá atuar neste processo, porque violaria a independência funcional, já que, para ele, nem sequer seria caso de ação penal. Essa dinâmica do arquivamento ocorre no âmbito da justiça estadual. No âmbito da justiça federal, a dinâmica do arquivamento é um pouco diferente. No âmbito federal, o Procurador-Geral da República (PGR) recebe os autos do IP (quando for crime da competência de juiz federal). Se o PGR entender que não há justa causa para deflagrar a ação penal em juízo, deverá requerer, de modo fundamentado, o arquivamento. Caso o juiz federal concorde com as razões invocadas pelo PGR, procede- se ao arquivamento. Mas, se o juiz federal discordar, remeterá os autos à 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. Essa Câmara deverá elaborar um parecer opinativo, sendo que a decisão será do PGR. Mas o PGR pode delegar a decisão à 2ª Câmara de Coordenação e Revisão. Assim o fazendo, esta não irá elaborar nenhum parecer, mas, sim, oferecer a denúncia. Mas, com o Pacote Anticrime, a dinâmica é totalmente diferente. Quando a eficácia deixar de estar suspensa, o Ministério Público será o responsável pelo Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 arquivamento. Não haverá mais a participação do Poder Judiciário. Mas esse arquivamento tem que ter um controle, que será exercido pelo próprio MP. A suposta vitima pode se manifestar sobre o arquivamento. Havendo o arquivamento, o MP comunicará à polícia, ao suposto autor e à suposta vítima, sendo que esta terá um prazo de 30 (trinta) dias para se manifestar sobre. Essa nova dinâmica está de acordo com o sistema processual penal acusatório, porque o Poder Judiciário estará à margem da acusação. Art. 28, CPP (atualmente, com a eficácia suspensa). Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de homologação, na forma da lei. §1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva lei orgânica. §2º Nas ações penais relativas a crimes praticados em detrimento da União, Estados e Municípios, a revisão do arquivamento do inquérito policial poderá ser provocada pela chefia do órgão a quem couber a sua representação judicial. Em vários momentos, os tribunais determinam que a dinâmica do arquivamento seja aplicada em outras matérias. Ex.: suspensão condicional do processo (art. 89, da Lei nº 9.099/95). Suponha que o MP deixa de oferecer a 3 Art. 136 (...), §3º, CF/88. Na vigência do estado de defesa: IV - é vedada a incomunicabilidade do preso. proposta de suspensão condicional do processo. E se o juiz discordar? Aplica-se a Súmula 696, do STF. Súmula 696, STF. Reunidos os pressupostos legais permissivos da suspensão condicional do processo, mas se recusando o Promotor de Justiça a propô-la, o Juiz, dissentindo, remeterá a questão ao Procurador-Geral, aplicando-se por analogia o art. 28 do Código de Processo Penal. Incomunicabilidade do preso Art. 21, CPP. A incomunicabilidade do indiciado dependerá sempre de despacho nos autos e somente será permitida quando o interesse da sociedade ou a conveniência da investigação o exigir. Parágrafo único. A incomunicabilidade, que não excederá de três dias, será decretada por despacho fundamentado do Juiz, a requerimento da autoridade policial, ou do órgão do Ministério Público, respeitado, em qualquer hipótese, o disposto no artigo 89, inciso III, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (Lei n. 4.215, de 27 de abril de 1963). Essa incomunicabilidade não atinge advogado e quem a decreta é o Poder Judiciário. Acontece que o art. 136, §3º, IV3, da CF/88, proíbe a incomunicabilidade durante o estado de defesa. Acerca disso, surgiram dois entendimentos: (i) o primeiro deles, que é o que prevaleceu e hoje é pacífico, é no sentido de que estado de defesa é um momento de fragilidade e turbulência democrática e que por isso, com muito mais razão, a incomunicabilidade seria vedada num momento de normalidade democrática e, portanto, tal dispositivo não Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 teria sido recepcionado pela CF/88. Então, não caberia a incomunicabilidade, porque o art. 21, do CPP, não foi recepcionado; (ii) o segundo entendimento, que não prevaleceu, é no sentido de que a CF/88 proibiu a incomunicabilidade no estado de defesa e, portanto, não sendo estado de defesa, caberia a incomunicabilidade. Trata- se de uma interpretação rasa do ordenamento jurídico. Hoje, esse entendimento está superado, porque no estado de defesa, que, repita-se, é um momento de instabilidade democrática, a própria CF/88 autoriza a mitigação de direitos fundamentais e, ainda assim, proibiu a incomunicabilidade do preso. Logo, por óbvio, a incomunicabilidade é proibida no momento de normalidade. Sigilo do inquérito policial O art. 20, do CPP, trata da decretação do sigilo do inquérito policial. Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. Parágrafo único. Nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados, a autoridade policial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a instauração de inquérito contra os requerentes. Parece um tema mal explicado pela doutrina. Ex.: os doutrinadores vão dizer que o inquérito é sigiloso. Mas, se o inquérito já e sigiloso, como decretar sigilo no inquérito? Há uma aparente contradição. O inquérito é sigiloso e esse não é um aspecto controverso. É sigiloso para viabilizar a investigação criminal, uma vez que, ser for público, prejudicará a eficiência desta. O Estatuto da OAB prevê expressamente que é direito de todo e qualquer advogado ter acesso a qualquer investigação criminal. Logo, a característica de ser sigiloso é mitigada. Mas, se o sigilo for decretado nos termos do art. 20, do CPP, só poderá ter acesso o advogado que estiver atuando na defesa do suposto autor. Em resumo, o inquérito é sigiloso e só não o é para os advogados, conforme prevê o Estatuto da OAB. Assim, o sigilo é decretado apenas para os advogados, porque para as demais pessoas já era sigiloso. Exigência ou nãoda observação das garantias fundamentais do contraditório e da ampla defesa no IP Os princípios do contraditório e da ampla defesa estão previstos no art. 5º, LV, CF/88. Na fase pré-processual, tem-se investigação e não de acusação. Se não tem acusação, como falar em ampla defesa? Por isso, o entendimento majoritário é que não há exigência de observância do contraditório e da ampla defesa, porque no IP não há acusação, mas, sim, investigação. Mas, a cada dia, esse entendimento vem perdendo força para um outro entendimento: não há uma acusação formal, mas há uma acusação em potencial, porque aquela investigação pode resultar em uma acusação. O Estatuto da OAB diz, também, que o investigado tem o direito de ser acompanhado por advogado. Pensemos: o advogado no âmbito penal, em regra, atua para exercer a defesa. Então, alguns doutrinadores se valem dessa previsão para dizer que há contraditório e ampla defesa no inquérito. Trata-se de um argumento frágil. Há, contudo, um argumento forte, perpassado pela previsão do art. 14-A, do CPP (redação dada pelo Pacote Anticrime). Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Art. 14-A, CPP. Nos casos em que servidores vinculados às instituições dispostas no art. 144 da Constituição Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, inquéritos policiais militares e demais procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos relacionados ao uso da força letal praticados no exercício profissional, de forma consumada ou tentada, incluindo as situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), o indiciado poderá constituir defensor. Com base nesse dispositivo, ganha muita força o entendimento da presença de contraditório e ampla defesa na investigação criminal. Pelo princípio da isonomia, essa previsão poderia ser estendida a qualquer outro IP. Contudo, atualmente, o entendimento que prevalece é o de que contraditório e ampla defesa não devem ser observados, porque não há acusação. Investigação criminal pelo Ministério Público O Ministério Público, que é o titular da iniciativa da ação penal pública, pode investigar no âmbito criminal. Só que o procedimento não é o inquérito policial, porque este é o procedimento de investigação criminal da polícia investigativa (polícia judiciária). Quando o MP investiga no âmbito criminal, se vale do Procedimento Investigativo Criminal (PIC). O PIC não está disciplinado no CPP, mas, sim, na Resolução 181 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Este tema já foi muito polêmico. Há alguns anos, havia uma intensa discussão se o MP teria atribuição para investigar no âmbito criminal. Prevaleceu o entendimento de que sim. Temos que conhecer os principais argumentos favoráveis e desfavoráveis: Argumentos favoráveis: • O MP está regulamentado nos artigos 127, 128 e 129, da CF/88. O art. 129 traz as funções institucionais do MP. Tal dispositivo não prevê, expressamente, a investigação criminal pelo MP, mas também não proíbe. Versa o art. 129, IX, da CF, que cabe ao MP: Art. 129. (...) IX, CF/88. exercer outras funções que lhe forem conferidas, desde que compatíveis com sua finalidade, sendo-lhe vedada a representação judicial e a consultoria jurídica de entidades públicas. O MP é o titular privativo da ação penal pública. Para se deflagrar uma ação penal em juízo, tem que haver a justa causa, isto é, o lastro probatório mínimo para sustentar a propositura da ação penal, sob pena de rejeição da inicial acusatória. Logo, a investigação criminal pelo MP seria cabível. Com base nesse argumento, a investigação pelo MP seria inerente à titularidade da iniciativa da ação penal pública. • Teoria dos Poderes Implícitos: se o MP é o titular da iniciativa da ação penal pública, está implícito o seu poder de investigação. • A investigação criminal pelo MP não exclui as demais investigações. O problema no Brasil não é jurídico, é cultural. Noutros termos, a investigação não quer dizer Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 acusação, mas, na contramão disso, o simples fato de uma pessoa estar sendo investigada, faz com esta seja condenada pelos olhos da sociedade e da mídia. • Não há desequilíbrio no sistema acusatório, pois a defesa pode investigar também (investigação defensiva) e, na fase processual, o acusado terá o exercício do contraditório e da ampla defesa. Argumentos desfavoráveis • Não há previsão legal acerca da possibilidade da investigação criminal pelo MP, havendo somente uma Resolução do CNMP. Mas, será mesmo que, no Brasil, haveria uma lei autorizando a investigação pelo MP? Os políticos e grandes empresários do Brasil querem ser investigados pelo MP? • Ausência de previsão constitucional. • A investigação do inquérito policial é suficiente/satisfatória. Mas, às vezes não. E quando um membro da própria polícia está sendo investigado? E se a polícia não investigar (dilação reiterada de prazos)? Às vezes há necessidade da investigação criminal pelo MP. • Violação do sistema penal acusatório, porque geraria um desequilíbrio em relação à defesa. Na prática, em que pese haja discussão doutrinária, o tema está superado, sendo possível, assim, a realização de investigação criminal por parte do MP. AULA 05/02/2022 REVISÃO (Inquérito Policial) O inquérito policial é um dos instrumentos investigativos que integram a fase pré- processual. A fase pré-processual é integrada por vários outros instrumentos investigativos além dele, a exemplo da investigação criminal pelo MP, do inquérito policial militar (regulamentado no Código Penal Militar) e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A CPI não é um procedimento de investigação criminal, mas, sim, de investigação de fato político. É o instrumento de investigação do parlamento. Ocorre que o fato político objeto da CPI, ao ser investigado, acaba redundando na investigação de prática de ato penal. Assim, reflexamente, a CPI acaba por investigar crime. o Quem instaura IP? Delegado de Polícia, porque o IP é o procedimento investigativo da polícia investigativa ou judiciária (Polícia Civil e Polícia Federal). o Qual é o conceito de IP? É um procedimento persecutório, administrativo, instaurado e presidido por delegado de polícia, consistente em um conjunto de diligências que tem por escopo produzir elementos comprovativos e identificar meios de provas, para formar o conhecimento do titular da iniciativa da ação penal, no sentido de propô-la em juízo ou não e subsidiar o Poder Judiciário no tocante à decretação ou não de medidas cautelares. o Destinatários do IP: (i) imediato: o titular da iniciativa da ação penal pública (Ministério Público), pois vai Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 formar o seu conhecimento no sentido de propor a ação penal ou não; (ii) secundário, indireto, mediato: Poder Judiciário, no tocante às medidas cautelares, as quais precisam de autorização judicial, mas podem ser requeridas no curso da investigação. Jamais é destinatário no tocante ao mérito penal (condenação ou absolvição). O convencimento do judiciário será formado na fase processual. o O Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/19) – art. 14-A (CPP), diz que: Art. 14-A, CPP. Nos casos em que servidores vinculados às instituições dispostas no art. 144 da Constituição Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, inquéritos policiais militares e demais procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos relacionados ao uso da força letal praticados no exercício profissional, de forma consumadaou tentada, incluindo as situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), o indiciado poderá constituir defensor. §1º Para os casos previstos no caput deste artigo, o investigado deverá ser citado da instauração do procedimento investigatório, podendo constituir defensor no prazo de até 48 (quarenta e oito) horas a contar do recebimento da citação. §2º Esgotado o prazo disposto no § 1º deste artigo com ausência de nomeação de defensor pelo investigado, a autoridade responsável pela investigação deverá intimar a instituição a que estava vinculado o investigado à época da ocorrência dos fatos, para que essa, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, indique defensor para a representação do investigado. A pessoa investigada deverá ser citada e terá o prazo de 48 (quarenta e oito) horas para constituir advogado. Se não constituir nesse prazo, a autoridade policial irá intimar a instituição a que o investigado pertencia no momento da conduta criminosa e a instituição deverá constituir o advogado. Existe contraditório e ampla defesa no IP? A instituição vai constituir advogado. Mas qual? Defensoria Pública (DP)? A DP atua em favor dos vulneráveis. Integrantes das forças públicas são vulneráveis? Procuradores do Estado? Procuradores federais? o Investigação pelo MP: Procedimento Investigativo Criminal (PIC). O PIC não está regulamentado no CPP, mas, sim, na resolução 181 no CNMP. Não obstante toda a polêmica teórica/doutrinária sobre o tema, na prática, trata-se de uma questão pacífica. Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) A CPI não é um procedimento de investigação criminal, mas, sim, de investigação de fato político. É o instrumento de investigação do parlamento. Ocorre que o fato político objeto da CPI, ao ser investigado, acaba redundando na investigação de prática de ato penal. Assim, obliquamente ou reflexamente, a CPI acaba por investigar crime. A CPI está disciplinada no art. 58, da CF/88. A CPI gozará das atribuições inerentes ao Poder Judiciário. A ideia é: tudo aquilo que o juiz puder fazer na investigação, a CPI também poderá fazer. Acontece que existem algumas matérias denominadas matérias/temas de reserva de jurisdição¸ Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 isto é, só o Poder Judiciário pode fazê-las. Ex.: decretação de prisão preventiva/temporária; autorização de interceptação telefônica; captação ambiental; autorização de busca e apreensão domiciliar. Logo, não obstante à CF mencionar que a CPI gozará dos mesmos poderes do Poder Judiciário, a CPI não pode desenvolver as matérias de reserva de jurisdição. A CPI, nesses casos, deverá fazer um requerimento ao Judiciário e este será o que vai decidir. IMPORTANTE! Delegado de Polícia não pode quebrar sigilo bancário. Caso a quebra seja necessária, o delegado fará uma representação ao juiz, solicitando a quebra de sigilo bancário. O MP também não pode quebrar o sigilo bancário, devendo requerer ao juiz. Exceção: contas bancárias públicas (ex.: conta bancária do município) não tem sigilo, podendo o MP requisitar diretamente à instituição financeira. O art. 6º, da Lei Complementar 105/2001, autoriza os agentes e as autoridades fiscais a terem acesso diretamente às movimentações bancárias de quem quer que seja. Este tema chegou ao STF, a fim de que fosse analisada a constitucionalidade do dispositivo. No âmbito da União, tem-se o Decreto 3724/2001, o qual regulamenta o art. 6º, da Lei Complementar 105/2001. O STF decidiu que é constitucional, sob o argumento de que não seria hipótese de quebra de sigilo, mas, de transferência de sigilo bancário. O STF decidiu, portanto, que os estados, o DF e os municípios terão que editar um decreto similar ao decreto federal. A CPI pode quebrar o sigilo bancário, sem que seja necessária autorização do Poder Judiciário. Pode, portanto, requisitar, diretamente, às instituições financeiras, as movimentações bancárias de determinada pessoa. CUIDADO! A CPI é o procedimento investigativo do Poder Legislativo. Podemos ter CPI estadual ou distrital e podemos ter CPI municipal. O ponto fundamental é: CPI municipal não pode quebrar sigilo bancário. O tema não é pacífico, mas esse é o entendimento do STF. O fundamento é: a CF/88 estabelece que a CPI gozará das atribuições investigativas do Poder Judiciário. O STF diz que não existe Poder Judiciário municipal, na medida em que o juiz integra o Poder Judiciário estadual e apenas atua no município. Assim, se não existe Poder Judiciário municipal, a CPI municipal não goza de poder algum. AÇÃO PENAL (artigos 24 a 62 do CPP) O que é ação? Temos a jurisdição que, em regra, é inerte. Em regra, para a atividade jurisdicional iniciar a sua atuação, deve ser provocada. O instituto processual para se provocar a jurisdição é a ação. A atividade jurisdicional, provocada pela ação, é prestada no processo. A ação, portanto, é o instituto constitucional processual, posto à disposição de todos para provocar a atividade jurisdicional estatal. O art. 5º, XXXV, CF/88 diz que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito”. Trata-se do princípio da inafastabilidade da jurisdição (também previsto no art. 3º, do CPC). A ação é o instituto constitucional e processual, posto à disposição de todos, para se provocar a atividade jurisdicional estatal, para que o estado-juiz preste essa atividade e tutele um direito violado. A ação Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 é, pois, o instituto para se provocar a atividade jurisdicional, a qual é inerte. Existem várias teorias da ação: o Teoria Civilista ou Imanentista: o direito de ação não gozava de independência em relação ao direito material alegado na ação. O direito de ação era, pois, imanente ao direito material alegado na ação. Essa teoria está superada e a sua relevância é meramente histórica. o Teoria Concreta da Ação: é a partir da teoria concreta, que o direito de ação passa a gozar de independência em relação ao direito material alegado na ação. Essa teoria é representada pelo jurista Oscar Von Bullow (Teoria dos Pressupostos Processuais e Exceções Dilatórias). Esse marco histórico inaugura a independência do direito de ação em relação ao direito material alegado na ação. Ex.: uma criança propõe uma ação de investigação de paternidade. Existe o direito fundamental de ação (de propor a ação) e o direito material alegado (a paternidade). São direitos independentes. Na teoria concreta, o direito de ação gozaria de independência, mas não gozaria de autonomia. Assim, só haveria direito de ação se o pedido fosse julgado procedente. Se o pedido fosse julgado improcedente ou houvesse extinção do processo sem resolução do mérito, não haveria direito de ação. Parece que a teoria concreta é equivocada, razão pela qual ela também está superada. o Teoria Abstrata da Ação: para a teoria abstrata, o direito de ação gozaria de independência e de autonomia em relação ao direito material. Ou seja, não interessa se a decisão judicial foi sem ou com resolução do mérito ou se foi com procedência ou improcedência. Para essa teoria, o direito de ação é, pura e simplesmente, o direito de acesso à justiça. A teoria abstrata é relevante. Inclusive, muitos doutrinadores no Brasil defendem a teoria abstrata. o Teoria Mista ou Eclética da ação: quem trouxe esta teoria para o Brasil foi Enrico Tullio Liebman. O CPC/73 adotava a teoria mista ou eclética da ação. A teoria mista ou eclética é uma teoria intermediária entre a teoria abstrata e a teoria concreta. Para a teoria mista ou eclética, somentehaveria direito de ação se houvesse julgamento de mérito (independentemente da procedência, se diferindo, neste ponto, da teoria concreta). Se houvesse julgamento de extinção do processo sem resolução do mérito, não teria havido direito de ação. Aparentemente, esta teoria se aproxima mais da teoria concreta. A doutrina majoritária no Brasil defende a teoria mista ou eclética. Por quê? O art. 485, do CPC, estabelece que, que ausente legitimidade ad causam e/ou interesse de agir (condições da ação), haverá extinção do processo sem resolução do mérito. Esta decisão, se fizer coisa julgada, fará coisa julgada meramente formal, sendo possível a repropositura da ação. Mas essa é uma análise estritamente processual, atrelada meramente à repropositura da ação ou não. O parâmetro seria: se é possível a repropositura da ação, é porque não houve o direito de ação. As condições da ação aqui, não seriam condições da ação, mas, sim, do mérito da ação. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Condições da ação CPC/2015 • legitimidade ad causam; • interesse de agir/interesse processual. O CPC/2015 excluiu a possibilidade jurídica do pedido como condição da ação. Duas teorias sobre as condições da ação: • Teoria da Apresentação: para essa teoria, toda vez que o processo for extinto por ausência de condições de ação, haverá extinção do processo sem resolução do mérito, em qualquer fase do processo. Haverá, assim, somente coisa julgada formal, de modo que, corrigido o vício, será possível a repropositura da ação. Para essa teoria, não interessa se a ausência das condições da ação se dá antes ou depois da produção da prova. Do mesmo modo, não interessa se a ausência das condições da ação se deu em cognição sumária ou exauriente. Ou seja, se o Poder Judiciário extinguir o processo por ausência de condições da ação, sempre será sem resolução do mérito, sendo possível, pois, a repropositura da ação. • Teoria da Asserção/Teoria da Prospectação/Teoria da Verificação em status asserciones: se a extinção do processo por ausência de condições de ação se der antes da produção da prova em juízo (cognição sumária), haverá extinção do processo sem resolução do mérito. Após a produção da prova (cognição exauriente) haverá extinção do processo com resolução do mérito. A teoria adotada no Processo Civil, é a teoria da apresentação, em razão do art. 485 do CPC/2015. Mas, no Poder Judiciário, notadamente no STJ, a teoria adotada é a da asserção. Se a decisão se der em cognição exauriente, com a produção da prova, não é possível a repropositura da ação, porque as condições da ação se confundem com o mérito. Mas se a decisão se der antes da produção de prova, não pode ensejar coisa julgada material. Ex.: a criança propõe uma ação de reconhecimento de paternidade. Uma das condições da ação é a legitimidade ad causam. O réu é parte legítima? Ora, se o Judiciário reconhece, depois da prova produzida (cognição exauriente), que o réu não é o pai, o réu é parte ilegítima. Mas isso é o mérito (julgamento de improcedência). Se for feita alguma pergunta sobre esse tema na prova, deve-se lembrar que a teoria adotada pelo CPC é da apresentação, enquanto a adotada pelo Poder Judiciário, notadamente pelo STJ, é a da asserção. AÇÃO PENAL Vamos estudar a ação penal condenatória, em que pese exista outras (ex.: Habeas Corpus). A ação penal se subdivide em dois grandes grupos: o grupo da ação penal pública e o grupo da ação penal privada. O MP é o titular privativo da iniciativa da ação penal pública (art. 129, I, CF). A regra é que os crimes sejam de ação penal pública. Todas as contravenções penais são de ação penal pública incondicionada. O grupo da ação penal pública se subdivide em: (i) ação penal pública incondicionada; (ii) ação penal pública condicionada: Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 - ação penal pública condicionada à representação do ofendido ou de seu representante legal; - ação penal pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça. O grupo da ação penal privada (ou de iniciativa privada) se subdivide em: (i) ação penal privada personalíssima; (ii) ação penal privada exclusiva; (iii) ação penal privada subsidiária da pública. PRINCÍPIOS DA AÇÃO PENAL Princípios da ação penal pública o Obrigatoriedade mitigada: havendo justa causa, o MP é obrigado a propor a ação penal. A obrigatoriedade é mitigada, porque há vários institutos que mitigam essa obrigatoriedade (transação penal, ANPP, composição civil dos danos no JECCRIM, delação premiada). o Indisponibilidade: neste ponto, a ação já foi proposta. O MP não pode desistir/dispor da ação. Acaso pudesse, violaria, reflexamente, a obrigatoriedade. o Indivisibilidade ou divisibilidade (tema polêmico): parcela da doutrina faz referência ao princípio da divisibilidade, enquanto outros mencionam indivisibilidade. A indivisibilidade parece ser corolário da obrigatoriedade: se existe elemento probatório com relação aos sujeitos “A”, “B” e “C”, o MP deve propor a ação contra todos. Mas, aqueles que defendem a divisibilidade, dizem que, se só há justa causa em relação a “A”, o MP vai acusar apenas “A”, demonstrando a divisibilidade. Ocorre que, a análise da indivisibilidade deve ser feita com a presença da justa causa. Havendo justa causa com relação a todos os sujeitos investigados, o MP deverá, logicamente, processar todos. Art. 48, CPP. A queixa contra qualquer dos autores do crime obrigará ao processo de todos, e o Ministério Público velará pela sua indivisibilidade. Art. 49, CPP. A renúncia ao exercício do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, a todos se estenderá. Princípios da ação penal de iniciativa privada o Facultatividade ou oportunidade: ainda que presentes os elementos mínimos necessários para a propositura da ação penal em juízo, a vítima (o ofendido) escolhe propor a ação penal ou não, a partir de um juízo de oportunidade. o Disponibilidade: a vítima (o ofendido) pode desistir da ação. o Indivisibilidade (nunca houve polêmica). O querelante tem a faculdade de propor a ação penal ou não. Mas, caso opte pela propositura da ação penal e havendo justa causa em relação a todos os investigados, deve-se processar todos. Não é possível “escolher”. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Toda ação é pública e isso se confunde com o acesso à justiça. Se toda ação é pública, como falar em ação penal privada? Essa classificação em pública e privada não é uma classificação da ação, mas, sim, quanto à iniciativa da ação. Mas como vou saber qual é a ação penal de determinado crime? Há dois critérios: (i) o artigo de lei que define o crime, tecnicamente é chamado de tipo penal incriminador. Se o tipo penal não disser nada sobre a ação penal, aquele crime será de ação penal pública incondicionada. Para que o crime seja de ação penal pública condicionada, o tipo penal incriminador tem que mencionar especificamente. A mesma regra vale para a ação penal pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça. Para que o crime seja de ação penal de iniciativa privada, o tipo penal incriminador também precisa mencionar que a ação penal “se procede mediante queixa-crime”. A queixa-crime é a inicial acusatória da ação penal de iniciativa privada; (ii) pode acontecer de o tipo penal incriminador não falar nada sobre a ação penal. Mas, pode haver um artigo ao final do Capítulo que estabeleça que a ação penal para os crimes definidos no Capítulo dependerá de representação. Todas as contravenções penais são de ação penal pública incondicionada.essa pessoa é culpada. Se inocente fosse, o Estado não a estaria acusando; (ii) O acusado era um mero objeto do processo. Não era um sujeito titular de direitos fundamentais; (iii) O processo era meramente formal, porque o acusado já era considerado culpado, não era titular de direitos e o processo seria apenas um procedimento formal para aplicar a pena. A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE 1988 A CF/88 caminhou em sentido diametralmente oposto às características originárias do CPP. Portanto, se na origem do CPP a presunção era de culpabilidade, na CF/88, não há nem previsão de presunção inocência, mas, sim, um plus: um estado (situação) constitucional de inocência, também chamado de estado constitucional de não culpabilidade. Na origem do CPP, como dito, o acusado era mero objeto do processo e não era sujeito de direitos e garantias fundamentais. Ao revés, com a CF/88, o acusado é sujeito de direitos e garantias fundamentais. No CPP na sua origem, o processo era mero instrumento de aplicação de pena. Com a CF/88, o processo passou a ser um potente método de efetivação de direitos e garantias fundamentais e também instrumento de limitação do exercício do poder. Exemplos (que já não mais existem): (i) Na origem do CPP, uma pessoa estava presa. Essa pessoa impetrava Habeas Corpus (HC). Na primeira instância, a justiça criminal concedia a ordem de HC, determinando que a pessoa presa fosse colocada em liberdade. Só que essa decisão de primeira instância não produzia efeitos e a pessoa continuava presa. Para que a decisão produzisse seus efeitos, o Tribunal de Justiça (segunda instância) precisava confirmar a decisão (reexame necessário). Somente se a segunda instância, ao Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 reanalisar o HC, confirmasse a decisão de primeira instância, colocando o preso em liberdade (o que era muito raro), é que o sujeito seria colocado em liberdade. Ora, a presunção era de culpabilidade. A ideia era a de que o juiz de primeira instância que concedeu a ordem de HC teria se equivocado ao colocar o preso em liberdade. Em regra, o tribunal não confirmava a ordem de HC concedida na primeira instância. Então, mesmo com uma ordem concessiva de HC, a pessoa continuava presa por um longo período, até que o Tribunal revisasse a decisão. (ii) O acusado era condenado criminalmente na primeira instância. Para interpor recurso (apelação), o acusado condenado, obrigatoriamente, teria que se apresentar/recolher à prisão. Não era possível recorrer em liberdade. (iii) Em alguns crimes punidos com pena privativa de liberdade de reclusão, o simples processo, obrigatoriamente ensejava a prisão preventiva, pela simples existência da ação penal. Havia uma prisão preventiva obrigatória (efeito automático da ação penal). Tais exemplos não existem mais dessas formas, mas existem resquícios com uma outra roupagem/outra narrativa. Ex.: execução provisória da pena (a pessoa fica presa enquanto o recurso ainda não foi julgado; ou seja, a pessoa é presa antes do trânsito em julgado). A mentalidade inquisitória ainda está presente em todos nós e, por isso, precisamos nos policiar para romper com essa mentalidade. A sociedade brasileira entende que a única decisão justa é a condenação. Se alguém é julgado e absolvido, a comunicação que é gerada na sociedade é de impunidade. E, mais do que isso, a sociedade entende que não basta a condenação, é necessário haver a pena privativa de liberdade. Qual é o principal papel do processo, notadamente no processo penal? Limitar o exercício do poder. O processo penal possui como escopo principal proteger o acusado em relação ao Estado, porque a tendência de quem exerce poder é o abuso. Ao limitar o exercício do poder, o processo também legitima o exercício desse mesmo poder, desde que o devido processo seja observado. Estado de não culpabilidade e estado de inocência Falar em “presunção” de inocência significa relativizar/minimizar a importância da garantia fundamental. Por isso, o que há é o estado constitucional de inocência ou de não culpabilidade. Em algum momento da história, tivemos a presunção de inocência/não culpabilidade. Mas essa garantia se tornou mais robusta, chegando-se ao estado constitucional de não culpabilidade. Conforme o art. 5º, LVII, CF: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.” Não há presunção. Mas, na praxe forense, fala-se em “presunção”. Diferença: Américo é atleticano e não é presumidamente atleticano. É uma situação posta. Presunção de inocência é menos garantia do que estado constitucional de inocência/não culpabilidade. Conclusão: Significa, portanto, que temos que estudar o processo penal à luz da CF/88, porque vários dispositivos do CPP contrariam a CF/88. Por isso, é necessário realizar a filtragem/releitura constitucional Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 do processo. Um artigo de qualquer lei processual penal anterior à CF que a contrarie estaria envolto pelo fenômeno da não recepção. Mas, se for posterior, estaremos diante do fenômeno da inconstitucionalidade. Controle de constitucionalidade: Todos os poderes realizam o controle de constitucionalidade, mas o Poder Judiciário é o que detém o protagonismo. Pode ocorrer de um artigo do CPP ser posterior à CF/88. Mas a CF/88 foi alterada por uma emenda constitucional. Ex.: o CPP foi alterado em 2011, mas em 2014 surgiu uma emenda constitucional, alterando o texto da CF/88 (modificação formal). Com a alteração da CF/88, o artigo do CPP alterado em 2011 passa a contrariar a CF/88. Mas, esse artigo não será inconstitucional. Também haverá o fenômeno da não recepção, porque o parâmetro para essa análise é a norma constitucional de 2014, de modo que o dispositivo do CPP é anterior. LEI PROCESSUAL PENAL NO TEMPO Muito cuidado para não confundir o tratamento jurídico da lei processual penal no tempo e no espaço com o tratamento jurídico da lei penal no tempo e no espaço. São temas completamente diferentes. Todos sabemos que a lei penal benéfica à defesa goza de retroatividade. A regra é que a lei seja aplicada aos fatos ocorridos após o início da sua vigência, mas a lei pode retroagir para ser aplicada a fatos praticados antes do início da sua vigência. Mas a regra da retroatividade é uma regra da lei penal no tempo (art. 5º, XL da CF e art. 2º, do Código Penal). A Lei Processual Penal no tempo nunca retroage para alcançar os atos já praticados, ainda que benéfica à defesa (art. 2º, do Código de Processo Penal). Art. 2o A lei processual penal aplicar-se-á desde logo [princípio da imediatidade], sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior. Os atos realizados anteriormente são válidos e não serão refeitos com base na lei nova, porque a lei processual penal nova, ainda que benéfica à defesa, não retroage (princípio tempus regit actum — o ato processual penal será regido pela lei do seu tempo). Princípio da imediatidade: o ato processual penal será regido pela lei processual penal vigente no momento de sua prática. A lei processual penal nova, ainda que benéfica à defesa, não retroage. Ato jurídico perfeito — princípio tempus regit actum. Ex.: o processo penal está tramitando. Já houve oferecimento da denúncia, o recebimento, a citação, a resposta à acusação e está há poucos dias da audiência de instrução e julgamento. Ontem, entrou em vigor uma legislação que altera o procedimento para oitiva de testemunhas. A oitiva das testemunhas do processo penal que está tramitando já observará a lei nova? Sim, em razão da teoria adotada pelo Brasil,AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA O Ministério Público, que é o titular da ação penal pública, não precisa de condição alguma para exercer o direito de ação de modo regular. Ex.: art. 171, do Código Penal (crime de estelionato). No crime de estelionato, a ação penal, antes de 2020, era pública incondicionada, isto é, o MP não precisava da concordância da vítima para a propositura da ação penal. Presente a justa causa — lastro probatório mínimo a legitimar a propositura da ação penal em juízo — seria irrelevante a concordância ou não da vítima. Com o Pacote Anticrime, a natureza da ação do crime de estelionato foi alterada, passando a ser, como regra, ação penal pública condicionada à representação do ofendido ou de seu representante legal. Significa que o MP, para exercer regularmente o direito de ação, precisa da representação (autorização/manifestação de vontade da vítima). Portanto, atualmente, a regra é que o crime de estelionato é de ação penal pública condicionada à representação. Excepcionalmente, será incondicionada (quando a vítima for criança, adolescente, idoso etc.). AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À REPRESENTAÇÃO A representação é uma mera autorização/concordância, para que o Estado exerça a persecução penal. Não há formalidade alguma. Quem realiza a representação é a vítima ou o seu representante legal (nos casos em que a vítima não tenha capacidade postulatória). A representação deve se dar em até 06 (seis) meses a contar da identificação da autoria do crime. Esse prazo é decadencial. Ex.: uma pessoa é vítima de um crime de ação penal condicionada à representação no dia 12/02/2022. Não se sabe quem é o autor do crime. Para que se proponha a ação penal, faz-se imprescindível a representação. Se não se sabe a autoria do Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 crime, o prazo de 06 (seis) meses não é iniciado. Já se passaram dois anos da data do crime. Será possível a representação? Sim, porque o prazo de 06 (seis) meses não foi iniciado, uma vez que este inicia-se a partir da identificação da autoria do crime. Contudo, é necessário analisar se já não houve a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva estatal. Ex.: um adolescente de 17 anos é vítima de um crime de lesão corporal leve (ação penal pública condicionada à representação). A autoria do crime é verificada de imediato e quem praticou a lesão corporal foi um vizinho. A vítima é relativamente incapaz e não pode representar. Os seus responsáveis resolvem não representar e o prazo decadencial de 06 (seis) meses é exaurido. A vítima completa 18 anos e adquire capacidade postulatória. Ao se tornar absolutamente capaz, a vítima terá o prazo decadencial de 06 (seis) meses para representar? O tema é polêmico! No Poder Judiciário, o entendimento que prevalece é o de que o adolescente pode representar. Mas, para vários doutrinadores, o prazo é único e não haveria um novo prazo a partir do momento em que a vítima se tornasse capaz. Qual a natureza jurídica da representação? A natureza jurídica é de condição específica da ação penal, uma vez que só é exigida se a ação penal for pública condicionada à representação. As condições da ação se desdobram em genéricas e específicas: (i) condições genéricas (aplicadas a todas as ações penais): legitimidade ad causam, interesse de agir, possibilidade jurídica do pedido e justa causa. (ii) condições específicas ou de procedibilidade: representação. A natureza da representação pode ser alterada de acordo com o momento da persecução penal. No momento da propositura da ação, trata-se de condição específica (de procedibilidade); no momento da instauração da investigação, trata-se de condição de persequibilidade; se no curso da ação a natureza dessa ação for alterada, dever-se-á indagar a vítima sobre o seu interesse de prosseguir ou não com o processo, ou seja, a representação será uma condição de prosseguibilidade. Em resumo: - condição específica (de procedibilidade): propositura da ação; - condição de persequibilidade: instauração da investigação; - condição de prosseguibilidade: prosseguimento da investigação, nos casos em que, no curso da ação, a natureza desta for alterada. A PERGUNTA É: crime de estelionato. Suponha que, quando o crime foi praticado, a ação era pública incondicionada. Depois, passou a ação penal passou a ser condicionada. Ex.: em dezembro de 2018, alguém cometeu estelionato. O MP, em agosto de 2019, propôs ação penal em juízo. Em janeiro de 2020, ocorreu alteração na natureza da ação penal, passando esta a ser pública condicionada à representação. Dever-se-á indagar a vítima sobre o seu interesse de prosseguir ou não (prosseguibilidade). Mas, não estaria havendo a retroatividade desta lei? Sabemos que a lei processual penal não goza de retroatividade, ainda que benéfica à Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 defesa. Então, porque essa lei de 2020 irá retroagir e ser aplicada ao crime praticado em 2018? Bom, a despeito do princípio tempus regit actum, tem-se uma hipótese de lei processual penal mista ou híbrida, já que, apesar de ser processual, interfere diretamente no ius puniendi estatal, produzindo efeitos materiais (penais). Por isso, a lei processual penal mista ou híbrida, observa o tratamento da lei penal no tempo, a qual, se benéfica à defesa, goza de retroatividade (art. 5º, XL, CF/88). Assim, a alteração da ação penal do crime de estelionato que ocorreu no ano de 2020, retroagirá, devendo ser aplicada, também, aos crimes cometidos antes da sua vigência. É um tema muito polêmico na 5ª e 6ª Turmas do STJ, as quais tinham decisões contraditórias. O STF decidiu que retroage. A representação é retratável ou irretratável? Art. 25, CPP. A representação será irretratável, depois de oferecida a denúncia. Art. 102, CP. A representação será irretratável depois de oferecida a denúncia. A representação é retratável, até o oferecimento da denúncia e a retratação pode ocorrer em qualquer âmbito (Promotoria de Justiça, Delegacia de Polícia etc.). Oferecida a denúncia, a representação é irretratável. CUIDADO! Tratando-se de crime contra a mulher no contexto da violência doméstica e familiar, é diferente. Nesse caso, a retratação só é possível ser realizada em uma audiência específica para este fim. Isso é para que o juiz/promotor verifique que a mulher queira, realmente, se retratar. Art. 16, Lei nº 11.343/06 (Lei Maria da Penha). Nas ações penais públicas condicionadas à representação da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à representação perante o juiz, em audiência especialmente designada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e ouvido o Ministério Público. AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À REQUISIÇÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA A requisição do Ministro da Justiça também é uma condição de persequibilidade e de procedimentalidade. Mas a requisição do Ministro da Justiça é um ato político. Ex.: crime contra a honra do Presidente da República ou de Chefe de Governo estrangeiro. Sem a requisição do Ministro da Justiça, o MP não pode propor, regularmente, a ação penal. Ou seja, se o Ministro da Justiça realiza a requisição, o MP não está obrigado a propor a ação penal. Lado outro, o MP não pode propor a ação penal sem a requisição do Ministro da Justiça, o qual, frise-se, é nomeado pelo Presidente da República. Diferenças entre representação e requisição do Ministro da Justiça A requisição do Ministro da Justiça não é retratável porque, reprise-se, é um ato político. Na representação, falou-se que, identificada a autoria, há o prazo decadencialde 06 (seis) meses para realizar a representação. No caso da requisição do Ministro da Justiça não há prazo decadencial. Não é ad eternum, em razão da prescrição da pretensão punitiva estatal. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 AÇÃO PENAL DE INICIATIVA PRIVADA Ação penal de iniciativa privada personalíssima Só existe um crime no Brasil de ação penal privada personalíssima (art. 236, CP). Todos os demais são de ação penal privada exclusiva. Se o querelante propõe a ação penal privada e no curso do processo vier a falecer ou a se tornar incapaz, o processo será extinto. NINGUÉM poderá sucedê-lo ou substituí-lo no processo. Art. 236, CP. Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Parágrafo único - A ação penal depende de queixa do contraente enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento. Ação penal de iniciativa privada exclusiva É possível a sucessão do querelante (no caso de morte) ou a substituição (no caso de incapacidade). Quais pessoas podem substituir ou suceder? Lembre-se do minemônico CADI. C – cônjuge A – ascendente D – descendente I – irmão Deve ser obedecida a ordem de preferência, a qual se dá a partir da observância das letras do próprio minemônico. E o companheiro na união estável? Este é um tema muito delicado. Isso porque, no Direito Penal, não se admite a analogia in malan partem. Se o processo prosseguir com a sucessão ou representação pelo companheiro, poderá haver julgamento e o réu poderá ser condenado. Então, admitir a sucessão ou substituição por parte do companheiro é prejudicial à defesa. O que se discute é: trata-se de uma hipótese de analogia in malan partem? O tema é polêmico, mas prevalece o entendimento de que não é analogia, mas, sim, uma interpretação evolutiva. O CPP é de 1941, época em que o único arranjo familiar reconhecido era o casamento, uma vez que o reconhecimento da união estável enquanto entidade familiar ocorreu recentemente. CUIDADO! Jamais escreva em uma resposta que se admite a sucessão ou substituição pelo companheiro por analogia, até porque, se fosse analogia, indubitável que seria in malan partem, a qual é inadmitida!!! Ação penal privada subsidiária da pública ART. 5º (...), LIX, CF/88. Será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal. Art. 29, CPP. Será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal, cabendo ao Ministério Público aditar a queixa, repudiá- la e oferecer denúncia substitutiva, intervir em todos os termos do processo, fornecer elementos de prova, interpor recurso e, a todo tempo, no caso de negligência do querelante, retomar a ação como parte principal. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 A ação penal privada subsidiária da pública é uma ação peculiar. Os crimes de ação penal pública, dos quais o MP é o titular privativo, preveem um prazo para que o MP tome algumas providências: arquivar os autos de investigação, devolver os autos à delegacia de polícia para novas diligências ou oferecer a ação. Se o MP permanecer inerte, surge a possibilidade de ação penal privada subsidiária da pública. Portanto, todos os crimes de ação penal pública podem se tornar crimes de ação penal privada subsidiária da pública, a qual é uma válvula de escape do sistema para evitar a impunidade. Ex.: um caso envolvendo homicídio duplamente qualificado: trata-se de crime de ação penal pública incondicionada. Nesse caso, o processo penal poderá ser iniciado mediante ação penal privada? Sim, na hipótese de ação penal privada subsidiária da pública. Todos os crimes de ação penal pública, eventualmente, poderão ser modificados para ação penal privada subsidiária da publica em caso de inércia do MP. Obs.: o art. 5º, LIX, CF/88 e o art. 29, do CPP trazem a seguinte redação: “não sendo proposta a ação penal no prazo legal, será cabível ação penal privada subsidiária da pública.” De acordo com a interpretação literal, se o MP arquivasse os autos ou os devolvesse para a DEPOL para novas diligências, caberia a ação privada subsidiária da pública. Mas a interpretação adequada não é essa. Não obstante à literalidade, somente será cabível ação penal privada subsidiária da pública se o Ministério Público for inerte. Causas extintivas da punibilidade na ação penal de iniciativa privada Art. 107, CP. Extingue-se a punibilidade: I - pela morte do agente; II - pela anistia, graça ou indulto; III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso; IV - pela prescrição, decadência ou perempção; V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de ação privada; VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite; VII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) VIII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei. Algumas delas são aplicáveis apenas à ação penal de iniciativa privada: - renúncia: a renúncia é um ato unilateral, dispensando a concordância do suposto autor do crime; - perdão (parte final do inciso V do dispositivo acima – não é o perdão do inciso IX, eis que este somente é concedido pelo juiz): o perdão é um ato bilateral. Para que o perdão produza efeitos, faz-se necessária a aquiescência do acusado. Ex.: a vítima de um crime de ação penal de iniciativa privada propõe ação penal contra Américo, mas, no curso da ação penal, percebe que Américo pode ser inocente. Então, a vítima pode propor o perdão, sendo que, por outro lado, para que surta efeitos, Américo deve aceitar. Mas, qual é a relevância do aceite do réu? O perdão extingue o processo sem julgamento do mérito (não há sentença condenatória e nem absolutória). Por outro lado, uma vez demonstrada a inocência do réu e sendo proferida uma sentença absolutória, o réu Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 pode processar a suposta vítima na seara cível, para além de uma questão social e cultural. O perdão pode ser expresso ou tácito. Feita a proposta de perdão, o réu tem o prazo de 03 (três) dias para aceitar ou não o perdão. Caso o réu não se manifeste no prazo de 03 (três) dias, o CPP prevê que o silêncio importará na aceitação do perdão. Em regra, o silêncio não significa nada, mas o ordenamento jurídico pode atribuir efeitos a ele, como ocorre no caso do perdão. - perempção: art. 60, do CPP. Art. 60, CPP. Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal: I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos; II - quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36; III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais; IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor. AULA 05/03/2022 AÇÃO CIVIL EX DELICTO (artigos 63 a 68 do CPP) Art. 63, CPP. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover- lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representantelegal ou seus herdeiros. Parágrafo único. Transitada em julgado a sentença condenatória, a execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos termos do inciso iv do caput do art. 387 deste Código sem prejuízo da liquidação para a apuração do dano efetivamente sofrido. (Incluído pela Lei nº 11.719, de 2008). Art. 64, CPP. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, a ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, contra o autor do crime e, se for caso, contra o responsável civil. (Vide Lei nº 5.970, de 1973) Parágrafo único. Intentada a ação penal, o juiz da ação civil poderá suspender o curso desta, até o julgamento definitivo daquela. Art. 65, CPP. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. Art. 66, CPP. Não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser proposta quando não tiver sido, categoricamente, reconhecida a inexistência material do fato. Art. 67, CPP. Não impedirão igualmente a propositura da ação civil: I - o despacho de arquivamento do inquérito ou das peças de informação; II - a decisão que julgar extinta a punibilidade; Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 III - a sentença absolutória que decidir que o fato imputado não constitui crime. Art. 68, CPP. Quando o titular do direito à reparação do dano for pobre (art. 32, §§ 1o e 2o), a execução da sentença condenatória (art. 63) ou a ação civil (art. 64) será promovida, a seu requerimento, pelo Ministério Público. De acordo com o art. 68, do CPP, se a vítima for pobre na acepção legal, o MP poderá propor a ação civil ex delicto para ela. De acordo com a CF/88, quando é pessoa é financeiramente vulnerável, a instituição que propõe a ação é a Defensoria Pública. Essa questão foi levada ao STF há alguns anos, o qual decidiu que deveria ser a DP, mas, no local em que não houver DP, o MP pode propor a ação civil ex delicto. Para esse fenômeno, o STF deu o nome de inconstitucionalidade progressiva (mas o termo adequado seria de não recepção progressiva, porque o art. 68 do CPP é anterior à CF/88). Obs.: o arquivamento da investigação criminal não impede a propositura da ação civil ex delicto. Obs.: até o ano de 2008, o juízo criminal, na sentença criminal, não podia condenar o acusado à reparação de danos experimentados pela vítima. Mas, desde 2008, se houver prova, o juiz poderá, na decisão penal condenatória, condenar o réu, também, à reparação dos danos, conforme art. 387, IV, do CPP. Contudo, para haver condenação à reparação dos danos, tem que haver pedido. Não cabe a condenação de ofício. Art. 387, CPP. O juiz, ao proferir sentença condenatória: IV - fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido. Obs.: se na decisão penal condenatória já é possível a condenação à reparação dos danos, para que serve a ação civil ex delicto? Porque na reparação dos danos na ação penal, o valor é mínimo, e pode ser ampliado na ação civil ex delicto. Ainda, pode acontecer que, depois da sentença criminal, a vítima experimente outros danos, inexistentes à época da sentença. Assim, será possível pleitear o aumento do valor, por meio da ação civil ex delicto. COMPETÊNCIA (artigos 69 a 91 do CPP) Como se deve estudar o tema competência no CPP? O art. 69 nos apresenta os critérios definidores da competência e os artigos seguintes explicam cada um desses critérios. Art. 69, CPP. Determinará a competência jurisdicional: I - o lugar da infração: II - o domicílio ou residência do réu; III - a natureza da infração; IV - a distribuição; V - a conexão ou continência; VI - a prevenção; VII - a prerrogativa de função. Os artigos 70 e 71 explicam o lugar da infração; os artigos 72 e 73 explicam o critério domicílio do réu; o artigo 74 explica o critério natureza da infração penal; o artigo 75 explica a distribuição; os artigos 76 a 82 explicam conexão e continência; o artigo 83 explica a prevenção; os artigos 84 a 87 explicam a prerrogativa de função. Um grande tema dentro da competência é o crime de estelionato (art. 171, do CP). O crime de estelionato se consuma com a Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 obtenção da vantagem indevida. Verbo reitor: obter. Pelo critério lugar da infração penal, se o crime é consumado, em regra, a competência será o juízo do local em que o crime se consumou. Se o crime é tentado, em regra, a competência será do juízo criminal do local em que se executou o último ato executório. Se houver mais de uma vara, incidirá o critério distribuição. Ex.: Américo vai a Curvelo e compra uma TV e a paga com um cheque, sabendo que não há fundos (dolo!!!). Américo traz a TV para Diamantina e a sua agência bancária é de Diamantina. Quando o cheque é apresentado ao sacado (banco), este não paga, porque não tem fundos. Neste exemplo, a obtenção da vantagem indevida ocorre na agência bancária, porque esta recusará o pagamento, momento em que se consumará o crime de estelionato. Em relação ao crime de estelionato, a definição da competência sempre se deu assim. Mas, desde 2021, passou a ser diferente. A Lei nº 14.155/2021 incluiu o §4º ao art. 70, do CPP. Agora, há o critério residência da vítima (que só vale para o crime de estelionato). Se forem várias vítimas, adota-se o critério da prevenção. Art. 70 (...). §4º. Nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção. A disposição acima vale para o estelionato praticado: (i) com cheque sem provisão de fundos; (ii) mediante frustração no pagamento; (iii) por meio de depósito bancário; e (vi) por meio de transferência bancária. Mas, cuidado! Estelionato praticado mediante cheque falso (fraude) é diferente!!! Cheque falso não é cheque, razão pela qual o §4º do art. 70 deve ser esquecido no caso de cheque falso. Nesse caso, a competência continua sendo do local da consumação do crime. Súmula 521, STF. (está superada) O foro competente para o processo e julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade da emissão dolosa de cheque sem provisão de fundos, é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado. Súmula 48, STJ. (ainda é válida) Compete ao juízo do local da obtenção da vantagem ilícita processar e julgar crime de estelionato cometido mediante falsificação de cheque. Critério da prerrogativa de função Tecnicamente, é errado falar em privilégio (foro privilegiado), porque privilégio é pessoal. A prerrogativa, por sua vez, não é da pessoa, mas, sim, da função. Por isso, a prerrogativa da função é irrenunciável. Na ação penal nº 937/2018, na questão de ordem, o STF alterou drasticamente o seu entendimento. Desde sempre, o entendimento do STF foi no sentido de que sempre haveria prerrogativa de função, não interessando se o crime foi praticado antes do mandato ou durante o mandato ou se tinha ou não pertinência com as funções exercidas. Ocorre que, atualmente, com a ação penal nº 937/2018, só haverá a Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 prerrogativa de função, com relação a deputados e senadores, se: (i) o crime tiversido praticado após a diplomação; e (ii) o crime tiver pertinência/relação com as funções exercidas. Ex.: Américo não é Deputado Federal e pratica um crime hoje. Américo é eleito Deputado Federal daqui uma semana. Assim, mesmo sendo Deputado Federal, não gozará de prerrogativa de função em relação ao crime cometido anteriormente à diplomação. O mesmo ocorre nos casos em que, mesmo já tendo sido diplomado, o sujeito comete crime que não tenha aderência com a função exercida. Desembargador tem prerrogativa de função no STJ. O entendimento do STJ, excepcionando o entendimento do STF, foi o de que, em relação a desembargador, haverá prerrogativa de função, mesmo que o crime praticado não tenha aderência com à função, sob pena de mitigar a imparcialidade do juiz de primeira instância. Promotor de Justiça também tem prerrogativa de função no TJ. A decisão do STF, na ação penal 937/2018, foi uma decisão sobre deputados e senadores. Por uma questão de coerência, o entendimento HOJE é o de que Promotor de Justiça continua tendo prerrogativa de função, mesmo que o crime praticado não tenha relação com a função exercida. O tema ainda não é pacífico, porque o STF ainda decidirá se a decisão proferida na ação penal 937/2018 é aplicável a todas as prerrogativas de função, para além de deputados e senadores. Análise histórica: até a EC 35/2001, a dinâmica da prerrogativa de função era a de que deputado federal e senador tinham prerrogativa no STF. Para que o STF pudesse receber a inicial acusatória, era necessária a autorização da Casa Legislativa respectiva. O problema é que, geralmente, não havia essa autorização, havendo uma impunidade. Mas, desde 2001, houve uma inversão na dinâmica e não precisa mais dessa autorização. Se o STF recebe a inicial acusatória, deve comunicar a Casa Legislativa sobre o recebimento, a qual PODE votar para que haja a suspensão do processo. Ocorre que o STF começou a condenar, de modo que a prerrogativa de função que era um escudo de proteção, ensejador de impunidade, começou a ser algo ruim. Isso porque, não cabe recurso contra condenação do STF. Com isso, deputados e senadores, dias antes do julgamento, renunciavam ao mandato para fugir do julgamento do STF, uma vez que, com a renúncia do mandato, não há mais prerrogativa de função. O STF, na mesma ação penal, decidiu que pode haver a renúncia. Mas, após a publicação para oferecimento de alegações finais (após o encerramento da instrução processual), pode haver a renúncia, contudo, não haverá alteração da competência. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 AULA 12/03/2022 PRISÃO TEMPORÁRIA Decisões STF ADI 3360: https://portal.stf.jus.br/processos/downlo adPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf ADI 4109: https://portal.stf.jus.br/processos/downlo adPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdf PESQUISAR O que é ação de prevenção penal, ação penal indireta, ação penal secundária e ação penal pública subsidiária da pública? https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdf https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdfde observância da lei vigente na prática do ato. Teorias: - Existe uma teoria que entende o processo como um todo. Então, se o processo já iniciou, será observada a lei anterior, que estava sendo aplicada no início do processo. - Existem teorias que dizem que vai depender da fase do processo (fase Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 postulatória, fase instrutória e fase decisória). - Há outra teoria que isola os atos (não é análise do processo como um todo e nem análise de fases do processo). A teoria adotada no processo penal brasileiro é encontrada no art. 2º, do CPP. A adotada pelo Brasil é a última (ato a ato). “[...]sem prejuízo dos atos realizados sob a vigência de lei anterior”. LEI PROCESSUAL PENAL NO ESPAÇO Não confundir com a lei penal no espaço! Art. 1o O processo penal reger-se-á, em todo o território brasileiro, por este Código, ressalvados: I - os tratados, as convenções e regras de direito internacional; II - as prerrogativas constitucionais do Presidente da República, dos ministros de Estado, nos crimes conexos com os do Presidente da República, e dos ministros do Supremo Tribunal Federal, nos crimes de responsabilidade; III - os processos da competência da Justiça Militar; IV - os processos da competência do tribunal especial; V - os processos por crimes de imprensa. Princípio da territorialidade: o processo penal brasileiro será aplicado às infrações cometidas em território brasileiro. Mas o princípio da territorialidade é corolário da soberania, a qual é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, conforme se extrai da redação do art. 1º da CF/88. O princípio da territorialidade é, pois, materialização da soberania. No Brasil, aplica-se as leis brasileiras. Lei penal no espaço: também há o princípio da territorialidade no que se refere à lei penal, pelo mesmo motivo de que este é corolário do fundamento soberania. No entanto, a lei penal pode gozar de extraterritorialidade, isto é, aplicação da lei penal brasileira a um crime cometido fora do território brasileiro. A extraterritorialidade da lei penal brasileira está prevista no art. 7º, do CP. Há três espécies de extraterritorialidade da lei penal: (i) extraterritorialidade incondicionada; (ii) extraterritorialidade condicionada; (iii) extraterritorialidade hipercondicionada. O tema é importante para o tema lei processual penal no espaço, porque a lei processual penal brasileira será aplicada aos crimes praticados no território brasileiro (territorialidade). Mas há a extraterritorialidade da lei penal. Ex.: um crime foi praticado na Itália. O crime se adequa a uma das hipóteses de extraterritorialidade incondicionada (ex.: crime contra a vida do Presidente da República). Significa que o autor desse crime será processado e julgado no Brasil, mas também poderá ser processado e julgado na Itália. Veja que o crime foi praticado fora do território brasileiro, mas será aplicada a lei penal brasileira e o processo tramitará no Brasil, em que pese o crime tenha sido praticado fora do Brasil. É necessário fazer um acréscimo ao tema lei processual penal no espaço: nas hipóteses de extraterritorialidade da lei penal, será aplicada a lei processual penal brasileira aos crimes que forem processados no Brasil. Ou seja, a infração penal não foi praticada em território brasileiro, mas será aplicada a lei processual penal brasileira. A definição Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 do art. 1º, do CPP, não abrange a extraterritorialidade da lei penal. Por isso, a melhor conclusão é a de que a lei processual penal brasileira será aplicada aos processos penais com tramitação no Brasil. Porque se concluirmos que a lei processual penal brasileira será aplicada aos processos penais com tramitação no Brasil, estaremos abarcando as infrações penais cometidas no Brasil e os crimes cometidos fora do Brasil que se adequem à extraterritorialidade da lei penal, porque em ambas as hipóteses o processo será desenvolvido em território brasileiro. Então, a conclusão seria: lei processual no espaço tem aplicação aos processos penais que tramitem no território brasileiro, ainda que o crime tenha sido praticado fora do território brasileiro, desde que seja uma hipótese de extraterritorialidade da lei penal. É possível que uma lei processual penal também seja penal, isto é, híbrida/mista. Ou seja, a lei processual penal também pode ter conteúdo de direito penal: lei processual penal de efeitos penais. Em regra, essa identificação é polêmica. Mas se a prova/alguém perguntar qual o tratamento jurídico à lei processual mista ou híbrida no tempo ou no espaço, será observado o tratamento jurídico da lei penal no tempo e no espaço. Logo, uma lei processual penal mista ou híbrida benéfica à defesa retroage, porque segue o tratamento jurídico da lei penal, assim como uma lei processual penal mista ou híbrida no espaço pode ter extraterritorialidade, porque segue o tratamento jurídico da lei penal. A lei processual penal de efeitos penais (mista ou híbrida) segue o tratamento penal do tempo e do espaço. Essa lei processual penal mista ou híbrida significa que ela interfere diretamente na persecução penal. Então, se perguntarem qual o conceito de lei processual mista ou híbrida, a resposta será: a lei processual penal mista ou híbrida é a lei processual penal que interfere diretamente na persecução penal, no ius puniendi estatal. Ex.: até o ano de 1995, os crimes de lesão corporal leve e de lesão corporal culposa, eram crimes de ação penal pública incondicionada. Em 1995, o art. 88, da Lei 9.099/95 (Lei que instituiu o JECRIM no âmbito da justiça estadual) alterou a natureza jurídica da ação penal nos crimes de lesão corporal leve e lesão corporal culposa. A ação penal que era pública incondicionada, passou a ser pública condicionada à representação. Então, para que o MP proponha a ação penal em juízo, passou a ser imprescindível a autorização da vítima do crime (o que chamamos de representação). Ação é um tema de direito processual, mas a ação penal era pública incondicionada, de modo que o MP não precisava da “autorização” (representação) da vítima. Com a alteração, sem a representação, o MP não pode propor a ação penal em juízo de modo regular. Então, essa alteração interfere diretamente na persecução penal e no ius puniendi estatal. Por isso, o art. 88, da Lei 9.099/95 é uma lei processual penal mista ou híbrida, isto é, tem tratamento de direito penal. Essa nova lei é benéfica à defesa, pois sem a representação, o MP não pode oferecer a denúncia. E as pessoas que estavam sendo processadas pelos crimes em análise antes da referida lei? Os processos que já estavam tramitando foram paralisados e as vítimas foram perguntadas acerca do interesse ou não pela representação (art. 91, da Lei nº 9.099/95). Se a vítima manifestasse interesse em representar, o processo prosseguiria. Caso contrário, se extinguiria Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 o processo. Portanto, houve retroatividade da lei processual penal benéfica à defesa. Ex.: com o Pacote Anticrime, houve alteração da natureza jurídica da ação penal no crime de estelionato. O crime de estelionato, em regra, era um crime de ação penal pública incondicionada. A ação penal do crime de estelionato passou a ser pública condicionada à representação. Existem exceções, em que a ação penal continua a ser incondicionada: crime contra administração pública direta; crime contra criança ou adolescente; contra pessoa com deficiência; contra maior de 70 anos. É necessário questionar se essa lei que altera a natureza jurídica do crime de estelionato é mista/híbridaou não. Se for, deverá retroagir. Trata-se de tema polêmico na jurisprudência. Ex.: art. 366, do CPP (dispositivo sem prestígio, mas muito importante) Art. 366. Se o acusado, citado por edital, que não comparecer e não constituir advogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional. Prescrição é direito penal (direito material). O fundamental é saber que a lei processual penal mista ou híbrida segue o tratamento jurídico no tempo e no espaço da lei penal. AULA 16/10/2021 SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS Sistema processual penal acusatório (Brasil) A base do sistema acusatório é o art. 129, I, da CF/88. Tal dispositivo estabelece que o Ministério Público é o titular privativo da ação penal pública, significando que quem deflagra a ação penal pública em juízo é o Ministério Público. Isso significa que todas as atribuições da acusação são realizadas pelo Ministério Público. Isso significa um obstáculo intransponível para que o Judiciário exerça atribuição da acusação, sob pena de flagrante violação ao sistema processual penal acusatório, o qual, inclusive, é constitucional. O Pacote Anticrime instituiu o art. 3º-A ao CPP, de modo a clarificar a adoção do sistema processual penal acusatório pelo Brasil. Contudo, tal dispositivo está suspenso por decisão do Ministro Luiz Fux. É muito importante ter uma visão panorâmica da disciplina. Já estudamos o CPP na sua origem, a CF/88 e a filtragem/releitura constitucional do processo. Posteriormente, estudamos lei processual penal no tempo e no espaço (o ideal é sempre fazer um paralelo com a lei penal no tempo e no espaço). Também estudamos a lei processual penal híbrida (possui efeitos penais no tocante ao tempo e ao espaço, de modo que, sendo benéfica à defesa, gozará de retroatividade, nos termos do art. 5º, XL, da CF e art. 2º, do CP). O sistema processual penal brasileiro é o acusatório (art. 129, I, CF/88 e art. 3º-A, CPP). No art. 3º-A, do CPP, vamos verificar expressamente que o sistema processual penal tem estrutura acusatória. Já na CF/88, vamos encontrar que o MP é o titular Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 privativo da iniciativa da ação penal pública (base material do sistema penal acusatório). Ao se atribuir ao MP a titularidade privativa da iniciativa da ação penal pública, a CF/88 atribui ao MP o exercício de todas as atribuições da acusação. Assim, por corolário, há um obstáculo constitucional para que o Judiciário exerça qualquer atribuição da acusação. Essa é a base do sistema processual penal acusatório. O Poder Judiciário não pode exercer, em hipótese alguma, qualquer atividade que tenha conteúdo de acusação, pelo motivo óbvio de que o Judiciário vai julgar. Ao exercer a acusação, viola flagrantemente o sistema penal acusatório. O sistema processual penal acusatório é constitucional desde 1988. Ocorre que o CPP e várias leis extravagantes (normas infraconstitucionais) autorizam o Poder Judiciário a exercer atribuição da acusação. Por isso, vários doutrinadores defendiam que o sistema processual penal brasileiro não seria acusatório, mas, sim, misto (acusatório e inquisitório). Mas esses doutrinadores estavam equivocados, uma vez que o sistema processual penal acusatório é constitucional (art. 129, I, CF/88). Logo, todos os dispositivos do CPP e de leis extravagantes que autorizam ao Poder Judiciário exercer atribuição da acusação, violam a CF. Portanto, se anteriores a 1988, tais normas não teriam sido recepcionadas pela CF. Se posteriores a 1988, tais normas seriam inconstitucionais. Agora, temos o art. 3º-A, do CPP, que expressamente versa que o processo penal brasileiro tem estrutura acusatória. Por isso, hoje não há como defendermos outro sistema que não seja o acusatório. O sistema processual penal acusatório possui outras características: contraditório, ampla defesa, paridade de armas, transparência, vedação de provas obtidas por meios ilícitos, publicidade etc. Mas o que caracteriza um sistema processual penal como sendo acusatório é a clara divisão de atribuições: um órgão acusa, outro órgão defende, outro órgão, independente desses dois, julga. Ou seja, as atribuições na persecução penal estão muito bem delineadas, de modo que o Poder Judiciário não pode, em hipótese alguma, realizar atribuição da acusação, sob pena de flagrante violação ao sistema processual penal acusatório. Exemplos práticos: Ex. 1: A Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime) alterou várias leis (CP, CPP, LEP, Lei de Interceptação Telefônica, Lei de Improbidade Administrativa, Lei dos Crimes Hediondos etc.). Antes da Lei 13.964/2019, o art. 5º, do CPP, autorizava ao juiz a requisitar a instauração de inquérito policial. O problema é que o juiz seria também o responsável por conduzir o eventual processo e por proferir sentença. Se o juiz requisita a instauração de inquérito, é porque vislumbra elementos mínimos de que tenha havido um crime. Ou seja, em alguma medida o juiz já estaria psicologicamente vinculado à acusação. Ex. 2: A prisão preventiva está disciplinada nos arts. 311 a 316, do CPP. Até o ano de 2011 (Lei 12.403/2011), o CPP (Lei infraconstitucional) autorizava que o juiz decretasse prisão preventiva de oficio, na fase pré-processual e também na fase processual, violando flagrantemente o sistema penal acusatório. Ou seja, nem MP nem delegado requeriam a prisão preventiva, mas o juiz a decretava (o mesmo juiz que futuramente iria conduzir o Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 processo e proferir sentença). Em 2011, houve uma mudança infraconstitucional, proibindo o juiz de decretar prisão preventiva, de ofício, na fase pré- processual, mas continuou a permitir a decretação na fase processual. O pedido do MP, tecnicamente, recebe o nome de requerimento. O pedido do delegado recebe o nome de representação. Assim, de 2011 até a Lei Anticrime, o CPP autorizava a decretação de prisão preventiva por parte do juiz durante o processo, violando a CF e o sistema processual penal acusatório. Agora, com a Lei Anticrime, o juiz não pode decretar prisão preventiva de ofício em momento algum. Ex. 3: art. 385, CPP. Esse dispositivo estabelece que no processo, ainda que o MP se manifeste pela absolvição do acusado, o juiz poderá condená-lo. Mas o MP é o titular privativo da iniciativa da ação penal pública. O Promotor de Justiça oferece a denúncia (inicial acusatória), deflagrando a ação penal. O juiz recebe a denúncia, iniciando o rito processual. No momento das alegações finais, o MP, que é o órgão da acusação, entende que não há prova suficiente a demonstrar, de modo cabal, a culpabilidade do acusado. O MP, portanto, requer a absolvição do réu. O art. 385, do CPP, diz que o juiz pode condenar o réu. Mas, se o juiz condena, está, ao mesmo tempo, acusando e julgando. Se quem julga é o Judiciário, ele pode condenar. Aparentemente é um raciocínio correto, mas, tecnicamente, é errado. É errado porque o Poder Judiciário não tem compromisso com o combate à criminalidade. Quem tem esse compromisso são as instituições policiais. O Poder Judiciário tem compromisso com a CF, com os direitos e garantias fundamentais. A absolvição ou a condenação são questões secundárias/oblíquas/ reflexas. O papel do Poder Judiciário no processo penal não é proferir muitas condenações, mas, sim, prezar pelo devido processo constitucional, zelando pelos direitos e garantias do acusado. Repita-se, no sistema acusatório, cada órgão exerce determinadas atribuições. Art. 385. Nos crimes de ação pública, o juiz poderá proferir sentença condenatória, ainda que o Ministério Público tenha opinado pela absolvição,bem como reconhecer agravantes, embora nenhuma tenha sido alegada. Ex. 4: a Lei de Interceptação Telefônica é a Lei nº 9296/96 (estudar essa lei). O art. 5º, XII, da CF/88 traz o sigilo das conversas telefônicas, ao mencionar que, nos termos da Lei, pode haver interceptação das conversas telefônicas. A Lei nº 9296/96 autoriza ao juiz a decretar a interceptação telefônica de oficio. Mas isso está equivocado. É um exemplo atual porque a Lei Anticrime introduziu na Lei nº 9296/96 o que se chama “escuta ambiental”. Não é interceptação das ligações telefônicas, mas, sim, a gravação de conversa em um ambiente (algumas pessoas estão conversando em um bar, vem uma outra pessoa e grava essa conversa). Ocorre que, na escuta ambiental, não há previsão da decretação de oficio por parte do juiz. O problema é que continua havendo a previsão da decretação de oficio da interceptação das ligações telefônicas. Ou seja, é algo, no mínimo, incoerente. Na verdade, nunca pode haver a decretação de ofício, com base na filtragem/releitura constitucional do processo. Ou seja, como a autorização de decretação de interceptação telefônica de ofício é posterior a 1988, é uma previsão inconstitucional. O mesmo raciocínio vale para os demais exemplos. Após a Lei nº 13.964/2019: essa lei, ao alterar o CPP, prevê, expressamente, que o Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 juiz não pode exercer atribuição de investigação criminal. Todos os exemplos citados (exceto o art. 385, do CPP), já não são mais polêmicos, porque após a Lei nº 13.964/19, não há, por parte do Poder Judiciário, requisição de instauração de inquérito, decretação de prisão preventiva, prova para acusação ou defesa. Sobre a interceptação telefônica, o tema ainda não está pacificado. Mas o entendimento que deve prevalecer é o de que, tendo em vista o sistema acusatório e a escuta ambiental, essa modificação/interpretação deve se estender à interceptação telefônica, como uma espécie de reforço hermenêutico (uma vez que o art. 129, da CF/88, já prevê o sistema acusatório). O fundamental é entender que o sistema processual penal acusatório é constitucional. Qualquer norma infraconstitucional que permita ao Poder Judiciário o exercício de atribuição de acusação viola a CF/88. Se anterior à CF/88, a norma não será recepcionada. Se posterior à CF/88, será inconstitucional. Breves palavras sobre a defesa no sistema acusatório O juiz pode exercer atribuição em benefício da defesa? Não. Por que? É uma observação estrutural do sistema acusatório. O CPP prevê no art. 386, VII: Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: VII – não existir prova suficiente para a condenação. Essa é uma previsão estrutural do sistema acusatório, no sentido de que o juiz não precisa se preocupar em produzir prova para beneficiar a defesa. No processo penal, há o princípio do estado de não culpabilidade (presunção de inocência). Quando estudamos esse princípio, estudamos o ônus da prova no processo penal, concluindo que o ônus da prova é todo da acusação. Significa que a defesa não tem ônus de provar que o acusado é inocente. Quem tem que provar que o acusado praticou o crime que lhe está sendo imputado é quem acusa (Ministério Público ou querelante). A defesa não tem ônus algum e o juiz não tem que se preocupar com isso. Ônus significa que se a pessoa não fizer, sofrerá um prejuízo, o que não ocorre com a defesa que, ao contrário da acusação, tem a mera faculdade de provar. Em síntese, quem tem que produzir a prova é a acusação, de modo que se não provar de modo irrefutável que o acusado é culpado, não precisa ter prova da defesa, devendo o Judiciário absolver o réu por insuficiência de provas, nos termos do art. 386, VII do CPP. Ou seja, o Judiciário também não pode produzir provas para a defesa, sob pena de violar o sistema acusatório. Mesmo se a defesa não produz nenhuma prova e o juiz entende que a acusação não produziu provas suficientes para provar de modo cabal que o acusado é culpado, o acusado deve ser absolvido. Mas, se a acusação prova, de modo irrefutável, afasta as provas (ainda que ausentes) da defesa. Sistema inquisitivo/inquisitório Principal característica: o órgão julgador (Poder Judiciário), além de exercer atribuição de julgar, também exerce atribuição de acusar, sendo que ambas se confundem. Decreta prisão de ofício, Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 requisita instauração de inquérito, condena o acusado ainda que o MP requeira absolvição, produz prova de oficio, determina interceptação telefônica etc. E o sistema misto? Possui características do sistema acusatório e possui características do sistema inquisitivo. Vários doutrinadores no Brasil já defenderam a existência do sistema processual penal misto, à luz de dois fundamentos: (i) Fundamento fraco: a persecução penal se subdivide em: fase pré-processual (investigação) e fase processual (ação penal). Na fase pré-processual, há uma temática interessante e polêmica, que é a indagação se na fase pré-processual os princípios constitucionais (contraditório e ampla defesa) estariam presentes. Esses princípios são garantias fundamentais individuais. O art. 5º, LV, CF/88, traz essas garantias, estabelecendo que, onde houver acusação, deve haver contraditório e ampla defesa. A fase pré-processual é de investigação e não de acusação, prevalecendo o entendimento de que nessa fase não haveria contraditório/ampla defesa, sendo, portanto, inquisitiva/inquisitória. Já na fase processual, há acusação, de modo que o contraditório e a ampla defesa são imprescindíveis. É um fundamento fraco porque, em que pese seja verdade o prevalecimento do entendimento de que a fase pré-processual é inquisitiva, também é verdade que essa fase, como a própria semântica indica, não é processo, porque é anterior (pré) ao processo. (ii) Fundamento forte (equivocado): vários artigos do CPP e de leis processuais penais extravagantes, autorizavam o juiz a exercer atribuições da acusação, sendo verdade que, com base nesses dispositivos infraconstitucionais, o sistema processual penal brasileiro seria misto. Mas todos esses dispositivos violam a CF/88 (ou não foram recepcionados ou são inconstitucionais). Esses doutrinadores diziam, com uma certa razão, que a teoria da não recepção ou inconstitucionalidade é correta. Mas na prática, o Judiciário viola, até hoje, o sistema processual penal acusatório. Com base na alteração do CPP pela Lei nº 13.964/2019, parece não caber mais o entendimento de que o sistema processual penal brasileiro seja o misto, porque agora, de modo expresso, o CPP, no art. 3º-A, diz que o processo penal brasileiro tem estrutura acusatória. JUIZ DAS GARANTIAS O Juiz das Garantias é condição de possibilidade para o devido processo constitucional. Ou seja, sem juiz das garantias, nenhum processo penal é devido. Hoje, ainda não temos o juiz das garantias. A Lei nº 13.964/2019 alterou o CPP e previu o juiz das garantias. Ocorre, que o Ministro Luiz Fux, do STF, concedeu medida cautelar em algumas ações diretas de inconstitucionalidade (ADI 6298, 6296, 62300 e 62305), suspendendo a eficácia dos artigos do CPP sobre juiz das garantias. Por que o juiz das garantias é condição de possibilidade para o devido processo constitucional? A persecução penal se subdivide em fase pré-processual e fase processual. Com o juiz das garantias, teremos um juiz atuante apenas na fase pré- processual e um outro juiz que irá atuar na fase processual. Este último, não pode ter contato algum com o material produzido na fase pré-processual.Durante a fase pré- Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 processual, medidas cautelares podem ser requeridas pelo MP ou pode haver representação pelo Delegado de Polícia, para que medidas cautelares sejam deferidas. Ex.: representação ou requerimento da prisão temporária do investigado, ou da busca e apreensão etc. Quem vai decidir é o juiz (da fase pré-processual), o qual vai atuar para preservar a legalidade da investigação. O problema, desde sempre, é que o mesmo juiz que atua na fase pré- processual, atua na fase processual. Ex.: há um inquérito policial (IP) investigando crime de estupro. O delegado representa pela interceptação de ligações telefônicas em determinado número. O juiz Roberto, da 1ª Vara Criminal, autoriza a interceptação. O inquérito é encerrado e o promotor de justiça oferece a denúncia. Quem vai analisar se recebe ou não a denúncia é o mesmo juiz. O juiz Roberto teve contato com todo material produzido na fase de investigação e está, pois, contaminado pelo material produzido na fase pré-processual. Ele levará essa contaminação para a fase processual. Uma das bases do sistema penal acusatório é que o juiz que atua na fase processual, não pode ter tido contato com a fase pré-processual. Mas, até hoje, uma vez que não temos o juiz das garantias na prática, é o mesmo juiz que atua em ambas as fases. O ponto fundamental é que o IP não é o único instrumento investigativo, apesar de ser o mais estudado. A conceituação de IP é um procedimento investigativo administrativo, persecutório, instaurado e presidido por delegado de polícia consistente em um comando de diligências para se identificar meios de prova, produzir elementos informativos, formar o conhecimento do titular da iniciativa da persecução penal, no sentido de deflagrar em juízo ou não e subsidiar o Poder Judiciário no tocante a eventuais medidas cautelares. Com base nesse conceito, extrai-se os destinatários do material produzido no IP: a) Destinatário imediato (direto): o titular da iniciativa da ação penal vai formar o seu conhecimento para verificar se os materiais necessários para instaurar estão presentes ou não, com base nos materiais produzidos; b) Destinatário mediato (indireto): o Poder Judiciário, no tocante à decretação ou não de eventuais medidas cautelares, que podem ser requeridas ou representadas no curso da investigação criminal. A decisão pela decretação ou não, será feita com base no que foi produzido na fase pré-processual. Mas o Poder Judiciário não é destinatário em relação ao mérito da ação penal (acusação ou absolvição). Significa, portanto, que o juiz que for decidir o mérito, não pode decidi-lo com base no material produzido na fase pré- processual, mas, sim, na fase processual. Por isso, o juiz das garantias é condição de possibilidade para o devido processo constitucional, porque o juiz que for decidir o mérito não pode ter contato algum com a fase pré-processual. Por mais que na sentença o juiz não mencione expressamente material produzido na fase pré-processual, psicologicamente, por ter tido contato, esse material estará introjetado na sua mente, contribuindo, em alguma medida, para a interpretação do material produzido no processo. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 AULA 23/10/2021 PRINCÍPIOS DO DIREITO PROCESSUAL PENAL O que é princípio e qual a sua relevância? Não há dúvidas de que princípio é um tema extremamente relevante. Em algum momento, estudamos o positivismo, o qual possui várias vertentes. Um ponto fundamental no positivismo é o seu contraponto com as teorias jusnaturalistas. Algumas características das teorias positivistas são: (i) o distanciamento entre o direito e a moral (secularização do Direito); (ii) grande preocupação com o ativismo do órgão decisório (ativismo judicial). As teorias positivistas buscavam limitar o espaço de criação do órgão julgador, porque em algum momento da história, o Estado criava as leis e o mesmo órgão as interpretava, o que ensejava muitas arbitrariedades (para Kelsen: decisionismo; para Dworkin: discricionariedade em sentido forte e combate à filosofia da consciência). Então, o órgão julgador simplesmente verificaria a previsão positiva para determinado caso concreto e a aplicaria ao caso, sem fazer qualquer interpretação (“juiz boca da lei”). Ocorre que a Lei não consegue prever todas as hipóteses possíveis da vida. Então, sempre ocorria uma hipótese concreta que não guardava paralelo à lei. Como decidir nessas hipóteses? Sabemos que no Direito há algo chamado non liquid — significa que o órgão decisório não pode deixar de decidir sob o fundamento de que não há previsão legal para aquela hipótese. Algumas teorias jurídicas caem nessa armadilha. Para essas teorias, se o caso em concreto não possui previsão no ordenamento jurídico, o juiz decide como quiser. Assim, essas teorias legitimam e escancaram a discricionariedade e a arbitrariedade. Decidir fora do ordenamento não é algo democrático e fragiliza o Estado Democrático e a autonomia do Direito, a separação de poderes (art. 60, §4º, CF/88). Isso, pois, a lei é elaborada pelo povo e contempla a vontade da coletividade. Quando um juiz decide fora do ordenamento jurídico, está sobrepujando a vontade da coletividade, do povo. “Quando a lei (o ordenamento jurídico) for omissa, o juiz decidirá de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do Direito.” Essa frase é típica do paradigma teórico das teorias positivistas. Princípio geral do Direito não seria, pois, norma jurídica, mas seria algo não pertencente ao ordenamento jurídico, porque, se fosse, o ordenamento não seria omisso. O que é princípio geral do Direito e o que é princípio? Atualmente, alguns doutrinadores os diferenciam e outros não. Com base nos ensinamentos do Prof. Lênio Streck, a frase em análise é um mecanismo de fechamento de várias teorias positivistas, porque a regra, em várias teorias positivistas, é o juiz boca da lei. E se o caso não guarda previsão no ordenamento, o positivismo é fechado com essa frase. Por isso, essa frase não deve mais ser utilizada, porque, segundo ela, princípio geral do Direito não é norma; se fosse, o ordenamento jurídico não seria omisso. Princípio ganha uma enorme relevância após a 2ª Guerra Mundial, porque as atrocidades ocorridas na 2ª Guerra Mundial Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 fizeram com que os países repensassem o Direito, uma vez que o nazismo possuía adequação com o ordenamento jurídico da Alemanha. Surge, então, um movimento na Europa chamado neoconstitucionalismo, desencadeando um novo olhar sobre o constitucionalismo. O que é um princípio? Já há algum tempo, princípio é norma jurídica, assim como a regra também o é. Então, princípio é algo cogente, de observância obrigatória. Quando dizemos “a lei tem que ser cumprida”, está-se dizendo que os princípios, assim como as regras, têm que ser cumpridos. Quais as diferenças entre princípios e regras? Há uma discussão teórica intensa sobre esse tema. Uma mesma previsão legal pode ser uma regra. Toda regra existe para concretizar/densificar um ou mais princípios. Os princípios é que conferem sentido/legitimidade às regras. A regra não está isolada/independente dos princípios. Ex.: no DPP, o prazo para apresentação de resposta à acusação é de 10 dias (regra – aquilo que normalmente acontece, que é ordinário). Essa regra concretiza princípios constitucionais: contraditório e ampla defesa. O prazo de 10 dias é suficiente para a concretização dos princípios do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LV, CF)? Em regra, o prazo de 10 dias ésuficiente. Mas, em um determinado processo, a acusação oferece a denúncia (inicial acusatória da ação penal pública) e junta aos autos 20 mil páginas de documentos. Neste caso, a regra do prazo de 10 dias será suficiente para a resposta à acusação? Não. Neste caso extraordinário, o juiz afastará o prazo de 10 dias para apresentação de resposta à acusação e estabelecerá um novo prazo. O princípio corrige a regra para adaptá-la às peculiaridades do caso concreto. A regra prevista no ordenamento jurídico é concreta, com baixo grau de abstração e alto grau de concretude. O princípio, por sua vez, é uma norma jurídica fluida, de conteúdo indeterminado. Por isso, o princípio é plástico e pode se amoldar às peculiaridades daquele caso. Para Lênio Streck, o princípio é que vai colorir o ordenamento jurídico, trazendo a riqueza da vida concreta. Princípio, então, possui alto grau de abstração, para alguns doutrinadores, princípios possuem a dimensão do peso (calibragem). A doutrina diz, ainda, que, havendo conflito entre regras, a resposta se daria no plano da validade, porque a regra não teria o plano do peso. “Tudo ou nada” = ou é válida e cumprimos a regra ou é inválida e não cumprimos, salvo se houver uma cláusula de exceção que possibilite a convivência harmônica entre regras conflituosas. Já os princípios, não. Pela sua maleabilidade, é possível a calibragem dos princípios ao caso concreto. Alexy (procedimento da ponderação) e Dworkin (direito como integridade e coerência) buscam resolver a colisão de princípios. A calibragem de princípios não pode ser discricionária/decisionista. Essa calibragem é de acordo com o ordenamento jurídico. A CF/88 estabelece vetores/balizas para orientar a calibragem. Por isso mesmo, há a fundamentação da decisão, a fim de que haja um controle, inclusive pela própria sociedade. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 PRINCÍPIOS Devido processo constitucional/legal (art. 5º, LIV, CF/88) Art. 5º (...), LIV, CF/88. Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. Todos os demais princípios decorrem deste. Havendo violação a qualquer um deles, o processo não será devido e também estará havendo violação ao devido processo constitucional. Em algum momento da história, existia apenas esse princípio de modo expresso. Os demais, eram implícitos. Mas, no decorrer da história, foram ganhando vida/luz própria. Mas ainda há princípios constitucionais implícitos, por exemplo, proporcionalidade e efetividade do processo. O princípio da duração razoável do processo, por exemplo, sempre existiu. Contudo, até o ano de 2004 (EC 45/2004), a duração razoável do processo era um princípio implícito. Hoje, desde a EC 45/2004, tem previsão explicita no art. 5º, LXXVIII, CF/88. Os princípios do processo são direitos fundamentais. O direito fundamental de conteúdo processual pode ser denominado de garantia fundamental. Por isso, vários doutrinadores fazem referência apenas a direitos fundamentais, porque abarca as garantias. Portanto, o conjunto de direitos/garantias fundamentais é que constituem o devido processo constitucional e limitam o exercício do poder. Cada vez mais, o ordenamento jurídico brasileiro mitiga/relativiza o devido processo constitucional. Em direito penal, há um doutrinador espanhol, Silva Sanchez, que desenvolveu uma ideia de direito penal em velocidades (1ª, 2ª e 3ª velocidades). O que nos interessa aqui é a 2ª velocidade. Vai cair na prova. (i) A primeira velocidade, seria o direito penal clássico, tradicional, que abarca os crimes mais graves (homicídio, estupro, roubo, tráfico). nesses crimes, o direito penal lidaria com a pena privativa de liberdade. Portanto, o devido processo deveria ser observado de modo estrito. (ii) Na segunda velocidade, o direito penal não lidaria com a pena privativa de liberdade. Por isso, se admitiria a mitigação/relativização de garantias fundamentais, a exemplo do devido processo constitucional. Isso, pois, não haveria prisão. Ex.: transação penal no Juizado Especial Criminal (art. 76 da Lei nº 9.099/95). Na transação penal, não há processo. O MP oferece um acordo, para que o réu cumpra pena(s) restritiva(s) de direitos ou pena(s) pecuniária(s), para que não seja preso em caso de condenação. E o devido processo constitucional? Portanto, o Direito Penal de segunda velocidade relativiza esse princípio constitucional. (iii) Na terceira velocidade, o direito penal lidaria com a pena privativa de liberdade e, mesmo assim, se admitiria a mitigação de garantias fundamentais. Não é sinônimo, embora sejam similares, ao Direito Penal do Inimigo de Gunther Jakobs. Ex.: regime disciplinar diferenciado. Juiz(ízo) natural (art. 5º, XXXVII e LIII, CF/88) O inc. LIII complementa a garantia contida no inc. XXXVII. Art. 5º (...), LIII, CF/88. Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 Art. 5º (...), XXXVII, CF/88. Não haverá juízo ou tribunal de exceção. O segundo veda tribunal de exceção, enquanto o primeiro estabelece a competência desse tribunal. Ou seja, o inc. XXXVII se refere à existência do juízo/tribunal, enquanto o LIII, em complemento, faz referência à competência. Juízo ou tribunal de exceção significa a criação de um tribunal para julgar um caso ou alguns casos específicos (ad hoc). Ex.: Américo comete um crime e o presidente do STF é amigo de Américo. Américo deveria ser processado (competência) e julgado (órgão) na Vara Criminal de Diamantina. Américo vai até o presidente do STF e pede ajuda. Este determina a criação de uma nova Vara Criminal em Diamantina (observe, após o cometimento da conduta) e designa um juiz que é amigo de infância de Américo. Uma das características da vedação de juízo ou tribunal de exceção é que este deve existir antes/a priori do cometimento da conduta em tese delituosa. Porque se o tribunal é criado após o cometimento da conduta, pode ter sido criado para beneficiar ou prejudicar o suposto autor do crime. Busca-se preservar a imparcialidade do julgador que irá conduzir o processo e decidir, uma vez que a imparcialidade é um requisito de validade do processo. O inc. LIII, por sua vez, complementa o inc. XXXVII. Neste caso, o juízo já existe. Se fosse possível, após o cometimento da conduta em tese delituosa, a alteração da competência desse juízo, também violaria o juízo natural. Ex.: se Américo comete um crime em Diamantina, deverá ser processado e julgado pela Vara Criminal de Diamantina e não de Curvelo. O inc. LIII traz um equívoco técnico: a competência não é do juiz (da autoridade/ da pessoa), mas, sim, do órgão jurisdicional (limite da jurisdição). Juiz pode ser impedido ou suspeito, mas jamais competente ou incompetente. É algo similar com o Ministério Público: “representante do Ministério Público” para fazer referência ao promotor, por exemplo. Mas, tecnicamente, isso está errado. Tecnicamente, o correto é “presentante”. Isso, pois, o promotor não REPRESENTA o Ministério Público, mas, sim, É o Ministério Público. Ampla defesa (art. 5º, LV, CF/88) Art. 5º (...), LV, CF/88. Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. Hoje, esse princípio é corriqueiramente violado no âmbito da Administração Pública, em processos administrativos disciplinares, à margem do Poder Judiciário. O art. 5º, LV, CF/88, estabelece que sempre que houver uma acusação (não necessariamente criminal) os princípiosdo contraditório e da ampla defesa devem ser observados. O princípio da ampla defesa abrange/abarca o princípio do contraditório, ou seja, o princípio do contraditório está contido na ampla defesa. Ou seja, havendo violação ao princípio do contraditório, inexoravelmente haverá violação do princípio da ampla defesa. Significa que a recíproca não é verdadeira. Poderá haver lesão à ampla defesa e não Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 haver violação ao princípio do contraditório. O princípio do contraditório é mais restrito. NÃO CONFUNDIR AMPLA DEFESA COM PLENITUDE DE DEFESA!!! A plenitude de defesa está prevista no art. 5º, XXXVIII, CF/88. A plenitude de defesa só está presente no julgamento pelo Conselho de Sentença, na sessão plenária perante o Tribunal do Júri. Não sendo julgamento no Tribunal do Júri, a defesa é ampla e não plena. Na ampla defesa, a defesa poderá se valer de todos os argumentos lícitos, jurídicos, admitidos no ordenamento jurídico ou não proibidos no ordenamento jurídico. Isso, pois, o juiz que vai julgar é vinculado ao ordenamento jurídico e deve fundamentar a sua decisão com base neste, uma vez que argumentos metajurídicos não podem ser levados em consideração pelo juiz togado. Na plenitude de defesa, a defesa é plena, isto é, mais do que a ampla defesa. A ampla defesa está contida na defesa plena. Mas o que é esse plus na plenitude de defesa? Nesta, a defesa pode se valer de argumentos jurídicos, mas também pode se valer de argumentos metajurídicos, isto é, fora do ordenamento (políticos, sociais, criminológicos, raciais, sexuais, psicológicos, históricos etc.). Na plenitude de defesa, quem julga são os jurados e estes não fundamentam as suas decisões, apenas votam “sim” ou “não”, sem explicitar ou publicizar quais foram os fundamentos que o levaram a julgar naquele sentido. Há o sistema da íntima convicção, de modo que o jurado só tem compromisso com a sua própria consciência, sem ter que decidir de acordo com o ordenamento jurídico. Portanto, a defesa é plena, porque o jurado pode decidir “com base no que ele quiser”, sem que saibamos os seus fundamentos. Por isso, é necessário linkar a plenitude de defesa com o sistema da íntima decisão. Ex.: em clubes ou condomínio, em um jogo de futebol, dois associados discutem e um agride o outro. Na semana seguinte, um dos associados volta ao clube. Quando passa pela portaria do clube, a pessoa que trabalha na portaria o impede de ingressar no clube, em razão da briga na semana anterior. E o contraditório e a ampla defesa? Essa decisão do clube é nula, por mais grave que tenha sido a conduta, porque é necessário observar o devido processo. O que é importante destacar é que esses princípios não são aplicáveis apenas ao processo jurisdicional. Alguns, sim. Mas outros, transcendem e aplicam-se a qualquer processo. Eficácia horizontal dos direitos fundamentais: aplicação dos direitos fundamentais às relações privadas, nas quais não há a figura do Estado. É com base na garantia fundamental da ampla defesa (não é contraditório) que se admite, excepcionalmente, prova ilícita em benefício da defesa. Mas é algo muito excepcional, cujo cabimento será analisado casuisticamente. Em regra, não se admite prova ilícita. Em benefício da acusação jamais será admitida prova ilícita (não há exceção). Um dos temas mais árduos do processo penal é se na investigação criminal, na fase pré-processual, os princípios do contraditório e da ampla defesa devem ser observados ou não. O entendimento majoritário é o de que a fase preliminar é uma investigação e não uma acusação e, por isso, não haverá a obrigatoriedade de se observar o contraditório e ampla defesa. A pergunta Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 seria: contraditar e defender o que, se não há acusação? Mas observe que não há acusação formalizada, tendo em vista que a formalização ocorre com o oferecimento da inicial acusatória (petição inicial da ação penal). Se a ação penal é pública, a inicial acusatória é a denúncia. Se é privada, a inicial acusatória é a queixa-crime. O Ministério Público é o titular privativo da ação penal pública (art. 129, I, CF/88). A queixa-crime é oferecida pelo querelante (vítima do crime ou o seu representante legal na hipótese de incapacidade). Fato é que na investigação criminal (fase pré-processual), não há uma acusação formal. Entretanto, há uma acusação em potencial (não é concreta/efetiva), mas é claro que há uma carga de acusação. Se é instaurado um inquérito policial para investigar alguém pela suposta prática de crime de furto, em que pese seja apenas uma investigação, há a potencialidade de uma acusação. Por isso, alguns doutrinadores entendem, de forma minoritária, que na fase pré-processual poderá haver uma acusação em potencial e, portanto, exigiria contraditório e ampla defesa. Mas é claro que o contraditório e a ampla defesa presentes na investigação criminal teriam um conteúdo diferente do contraditório e da ampla defesa na fase processual. Para corroborar esse entendimento minoritário, o Estatuto da OAB, no art. 7º, prevê expressamente a atuação do advogado na investigação criminal. Ora, se pode haver atuação de advogado durante a investigação criminal, não seria óbvio que o seu papel, em alguma medida, seria para defender o investigado? Assim, em alguma medida, há acusação. Essa “em alguma medida” é a acusação em potencial, demonstrando a existência de contraditório e ampla defesa na investigação. O Pacote Anticrime alterou o CPP para prever no art. 14-A que instaurada investigação criminal para se investigar agente público integrante da segurança pública ou das forças armadas (art. 144, CF), em decorrência do uso de força letal, necessariamente a autoridade que instaurou a investigação criminal, deverá “citar” (o adequado seria intimar) o agente público investigado para que este, no prazo de 48 horas constitua advogado. E o art. 14 ainda diz em um de seus parágrafos que se a pessoa citada não constituir advogado em 48 horas, haverá a intimação da instituição que o agente público integrava no momento do suposto crime, para que a instituição designe advogado para atuar na investigação criminal. - Inquérito policial: instrumento investigatório das polícias investigativas (polícia federal e polícia civil). - Procedimento de Investigação Criminal (PIC): Ministério Público. - Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI): procedimento investigativo do poder legislativo. - Inquérito policial militar: instrumento investigativo da polícia militar. Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 AULA 13/11/2021 e AULA 20/11/2021 Contraditório A ampla defesa e o contraditório são umbilicalmente ligados e, em alguma medida, se confundem, mas em outra medida, não. O contraditório perfaz o direito de informação e reação. Essa dinâmica, contudo, é o conteúdo do contraditório em uma acepção clássica. Modernamente, o conteúdo do contraditório foi enriquecido e é o que se chama acepção moderna do contraditório. A acepção moderna nada mais é do que a acepção clássica/tradicional cotejada pelo princípio da proporcionalidade. Modernamente, é possível conceituar o contraditório como direito à informação e oportunidade de reação de modo proporcional à informação. Portanto, a acepção moderna de contraditório é: -> Direito de informação; -> Oportunidade de reação na mesma extensão e na mesma profundidade da acusação (paridade de armas/proporcionalidade). Não podemos nos esquecer que princípios do processo (qualquer processo) são direitos fundamentais de conteúdo processual (garantiasprocessuais/cláusulas pétreas). Direitos e garantias fundamentais individuais são cláusulas pétreas, nos termos do art. 60, §4º, da CF/88. Mas o STF e a doutrina entendem, pacificamente, que qualquer direito ou garantia fundamental é cláusula pétrea. É importante destacar que todos os princípios são garantias fundamentais/cláusulas pétreas e contraditório e ampla defesa são garantias fundamentais muito importantes. Um processo penal que os viole não é um processo devido. É necessário entender que no processo penal a forma é garantia. A finalidade do processo penal é limitar o exercício do ius puniendi. As garantias fundamentais que forjam o devido processo penal limitam o poder estatal. Ao final do processo penal, com uma decisão condenatória, para que esta seja legitimamente executada, todas as garantias fundamentais do acusado devem ter sido observadas. Ou seja, o Estado só terá legitimidade para executar a decisão se todas as garantias fundamentais do acusado tiverem sido observadas. Mas a observância das garantias fundamentais faz com que o processo seja um pouco mais moroso. Por isso, a Constituição da República não prevê o princípio da “celeridade”, mas, sim, da duração razoável do processo. Processo “rápido” significa violação das garantias fundamentais. Então, tem que haver um equilíbrio. As garantias fundamentais não podem ser exacerbadas com o escopo protelatório de postergar a prestação jurisdicional. Estado de não culpabilidade – presunção de inocência (art. 5º, LVII, CF) Art. 5º (...), LVII, CF/88. Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Nomenclatura adequada: essa discussão tem relevância apenas teórica, porque, na prática, ela é inócua/estéril. De acordo com o entendimento do STF, a nomenclatura adequada é princípio do estado de não Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 culpabilidade. Mas, de acordo com a doutrina, a nomenclatura adequada seria presunção de inocência. “Ninguém será considerado culpado até o trânsito julgado da sentença penal condenatória.” Nessa redação, há alguma presunção ou há o estabelecimento de um estado constitucional? Por isso, acertadamente, Pacelli diz que falar em presunção já significa uma mitigação indevida dessa garantia. Não há presunção alguma. O que há é um estado constitucional (uma situação constitucional). Não faz referência a inocente, mas, sim, a não culpado. A discussão teórica é o Pacto de São José da Costa Rica (Convenção Interamericana de Direitos Humanos), de 1976. O Pacto só foi aderido pelo Brasil em 1992. No Pacto, o princípio é o da presunção de inocência. A Constituição Federal é de 1988. Então, discute-se: essa previsão no Pacto alterou a previsão do art. 5º, LVII, da CF/88, já que a adesão ao Pacto é posterior à CF/88? Qual é o estado normativo do Pacto de São José da Costa Rica? Se tiver ingressado no ordenamento jurídico com o status de emenda constitucional, altera a CF. Se tiver ingressado com status diferente do constitucional, não alterou a CF. O STF entende que pactos/tratados internacionais de Direitos Humanos, ao ingressarem no direito brasileiro, se observarem o procedimento legislativo da emenda constitucional, ingressa no ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional. Essa possibilidade surge no Brasil apenas em 2004 com a EC 45/2004. A EC 45/2004 insere no art. 5º, da CF/88 o parágrafo 3º, o qual admite a observância do procedimento legislativo da EC para ter status constitucional. O STF entende que pacto que não observa o procedimento legislativo teria status supralegal (abaixo hierarquicamente da CF, mas acima das demais leis). O Pacto de São José, tem status supralegal e, portanto, não altera a CF. Os principais doutrinadores (Flavia Piovesan, Cançado Trindade) e a doutrina amplamente majoritária discorda do STF, se valendo do §2º, do art. 5º, da CF/88 como fundamento. Para a maioria da doutrina, todo e qualquer tratado/pacto internacional de Direitos Humanos, ao ingressar no Direito Brasileiro, ingressaria com status normativo constitucional, sendo irrelevante a observância ou não do procedimento legislativo das emendas constitucionais. Então, para a doutrina, o Pacto de São José da Costa Rica tem status constitucional e, portanto, alterou o conteúdo do art. 5º, LVII, CF/88 e a nomenclatura correta seria presunção de inocência. Como dito, essa discussão é teórica e não tem nenhuma relevância prática. O princípio e seus desdobramentos: o princípio do estado de não culpabilidade se desdobra em três regras: (i) regra do tratamento: impõe a todos que, enquanto não transitar em julgado a sentença penal condenatória, a pessoa seja tratada como não culpada. Então, TODOS (polícia, poder judiciário, imprensa...) têm o dever constitucional de tratar a pessoa como não culpado até o trânsito em julgado da decisão penal. Ex.: vou prestar um concurso público para a magistratura de Minas Gerais e sou aprovada no concurso público. Entretanto, Laís Lopes de Sousa 7º período – 2021/02 estou respondendo a um processo criminal por um crime de homicídio. Já fui condenada pelo Tribunal do Júri a uma pena de 22 anos de reclusão. Entretanto, interpus apelação, de modo que ainda não houve o trânsito em julgado da decisão condenatória. Eu vou tomar posse nesse concurso? Sim, em razão da regra de tratamento. Ex.: fiz uma festa na república, os vizinhos chamaram a polícia e fui chamado a comparecer no Juizado Especial e aceitei uma proposta transação penal (art. 76, da Lei nº 9099/95). Agora, colei grau. Isso vai me prejudicar em eventual prestação de concurso público? Não. A transação penal ocorre antes mesmo do processo, de modo que não há decisão penal condenatória, muito menos transitada em julgado. O único prejuízo sofrido é que no lapso temporal de 05 anos, não poderá ser realizada nova transação penal. Mas, apesar disso, alguns concursos desclassificam o candidato e o candidato deve impetrar um mandado de segurança. (ii) regra sobre a distribuição do ônus da prova: a regra sobre o ônus da prova estabelece de que modo o ônus da prova é distribuído no processo penal. É um desdobramento do estado de não culpabilidade. O ônus da prova no processo penal é todo da acusação. A defesa não possui ônus probatório algum. Isso se deve em razão do estado de não culpabilidade, isto é, o acusado é constitucionalmente não culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Em Direito Penal I, estudamos o conceito analítico- dogmático de infração penal, conceito tripartido com 3 atributos ou substratos 1 Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: (...) VII – não existir prova suficiente para a condenação. (fato típico, ilicitude e culpabilidade). Significa que é a acusação que tem que provar que o fato praticado é típico, que o fato típico é ilícito e que o fato típico e ilícito é culpável. Mas, é claro que, se a defesa quiser provar, ela pode. Mas, se não provar, não sofre prejuízo algum. Trata-se, pois, de uma mera faculdade, diferente da acusação que tem ônus, sob pena do acusado ser absolvido por insuficiência de provas nos termos do art. 386, VII, do CPP1. O tema do ônus da prova está previsto no art. 156, do CPP. Art. 156, CPP. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; II – determinar, no curso da instrução,