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Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Direito Processual Penal I 
Américo Braga Júnior 
 
AULA 02/10/2021 
 
DISCUSSÕES INICIAIS 
 
Bibliografia 
Legislação: 
- Código de Processo Penal 
- Lei de Execução Penal (LEP – Lei nº 
7.210/84) 
 
Doutrinas: 
LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de 
Direito Processual Penal. vol. único. 
Editora JusPodivm. 
LOPES JÚNIOR, Aury. Direito Processual 
Penal. Editora Saraiva. 
PACELLI, Eugênio. Curso de Processo 
Penal. Editora Atlas. 
RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. 
Editora Atlas. 
 
Canais no YouTube: 
- Fábio Roque 
- Américo Braga Júnior 
 
 
 
 
 
 
 
 
Plano de ensino 
• Relação entre jurisdição, ação, 
processo e defesa; 
 
• O Código de Processo Penal (CPP) na 
sua origem (permanece a 
mentalidade inquisitória do CPP de 
1941); 
 
• A Constituição Federal de 1988 
(CF/88) – a norma 
infraconstitucional que estiver em 
desarmonia com a CF/88, se for 
anterior ao parâmetro, não será 
recepcionada pela CF/88. “Filtragem 
constitucional” ou “releitura 
constitucional do processo penal”. A 
CF/88 estatui as bases do 
ordenamento jurídico. Por isso, o 
estudo do Direito Constitucional é 
imprescindível ao estudo do Direito 
Processual Penal; 
 
• Lei processual penal no tempo e no 
espaço – paralelo com o tratamento 
jurídico dispensado à lei penal no 
tempo e no espaço. 
Ex.: lei penal nova benéfica à defesa 
retroage para ser aplicada a fatos 
ocorridos antes do início da sua 
vigência (art. 5º, XL, CF/88 e art. 2º, 
CP). A lei processual penal não goza 
de retroatividade. 
A extraterritorialidade é um 
fenômeno da lei penal no espaço (art. 
7º, I e II do CP); 
 
• Sistemas processuais penais: (i) 
acusatório (a base é o art. 129, I, 
CF/88, segundo o qual, cabe ao 
Ministério Público (MP), na ação 
penal pública, o exercício das 
atribuições da acusação, havendo 
um impedimento intransponível 
para que o Poder Judiciário exerça o 
papel da acusação); (ii) 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
inquisitivo/inquisitório; (iii) misto. 
O Pacote Anticrime (Lei nº 
13.964/2019) teve a eficácia 
suspensa no tocante a alguns artigos. 
Mas essa lei alterou o CPP, trazendo 
expressamente a previsão de que o 
processo penal brasileiro tem 
estrutura acusatória. O Juiz das 
Garantias está com a eficácia 
suspensa por decisão do Ministro 
Luiz Fux do STF. 
 
• Princípios do Direito Processual 
Penal 
 - O que é princípio; 
 - Qual o papel do princípio; 
 - Por que é importante; 
- Utilizar Ronald Dworkin e Robert 
Alexy. 
Principais princípios: 
- Devido processo legal (art. 5º LIV, 
CF/88); 
- Juiz natural (art. 5º, XXXVII e LIII, 
CF/88); 
- Ampla defesa (art. 5º, LV, CF/88); 
- Contraditório (art. 5º, LV, CF/88); 
- Estado de não culpabilidade 
(presunção de inocência) (art. 5º, 
LVII, CF/88); 
- Vedação de prova obtida por meio 
ilícito (art. 5º, LVI, CF/88); 
- Proporcionalidade; 
- Duração razoável do processo (art. 
5º, LXXVIII, CF/88); 
- Ninguém é obrigado a produzir 
prova contra si mesmo; 
- Identidade física do juiz; 
- Vedação da reformatio in pejus; 
- Vedação de bis in idem; 
- In dubio pro reo; 
- Favor rei. 
 
• Fase pré-processual: investigação 
criminal; inquérito policial (próprio 
das policias investigativas, isto é, 
Polícia Civil e Polícia Federal). A fase 
de investigação criminal não se 
esgota no inquérito policial; 
 
• Procedimento Investigativo Criminal 
(PIC) do Ministério Público; 
 
• Comissão Parlamentar de Inquérito 
(CPI) – não é um procedimento de 
investigação criminal, mas, sim, de 
investigação de fato político, de 
atribuição do Poder Legislativo. É 
um instrumento da minoria, para 
que a minoria possa investigar a 
maioria. Basta a assinatura de 1/3 da 
Casa Legislativa para instaurar a CPI. 
Enseja consequências no âmbito 
criminal, então, reflexamente, a CPI 
acaba investigando crime; 
 
• Inquérito Policial Militar – está 
regulamentado no Código Penal 
Militar (CPM); 
 
• Fase processual (estudo da ação 
penal condenatória) – arts. 24 a 62, 
do CPP 
 - ação; 
 - ação penal pública; 
 - ação penal de iniciativa privada; 
- denúncia (inicial da ação penal 
pública); 
 - queixa-crime; 
- princípios que orientam a ação 
penal pública e a ação penal privada; 
- ação civil ex delicto (arts. 63 a 68, do 
CPP); 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
- competência (arts. 69 a 91, do CPP); 
- prisão cautelar; 
- prisão em flagrante delito (arts. 301 
a 310, do CPP); 
- prisão preventiva (arts. 311 a 316, 
do CPP); 
- prisão temporária (não tem 
previsão no CPP, mas, sim, na Lei nº 
7.960/1989); 
- medidas cautelares pessoais 
diversas da prisão (arts. 318 e 319, 
do CPP). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AULA 09/10/2021 
 
O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL 
 
No estudo da teoria do processo e, portanto, 
para compreendermos o processo penal e 
os demais processos, é muito importante 
compreendermos que temos a jurisdição. 
 
A jurisdição é uma função/atividade/papel 
para se dirimir uma crise jurídica, 
classicamente denominado conflito de 
interesses, qualificada por uma pretensão 
resistida, no clássico conceito de Carnelutti. 
Mas existe atividade jurisdicional sem lide. 
 
A atividade jurisdicional pode ser estatal e 
pode ser privada. A estatal possui várias 
características e uma delas é a inércia. Ou 
seja, para iniciar a sua atuação, precisa ser 
provocada com a propositura/deflagração 
da ação. Uma vez provocada, a jurisdição se 
vale do processo para prestar a atividade 
jurisdicional. E, portanto, a atividade 
jurisdicional é prestada no e pelo processo. 
 
Principalmente no Direito Processual Penal 
(DPP), é necessário compreender, 
definitivamente, que o processo é um 
potente método de efetivação de direitos e 
garantias fundamentais. Os direitos 
fundamentais individuais 
constituem/forjam o devido processo 
jurisdicional. 
 
Portanto, essa prestação jurisdicional que 
se dá por meio do instrumento do processo, 
será controlada pelo processo. Daí dizer que 
os direitos individuais forjam o devido 
processo constitucional, notadamente no 
Direito Processual Penal e no Direito Penal, 
em que se lida com a possibilidade da 
privação de liberdade. 
 
Então, para que a decisão estatal que 
determina a privação de liberdade seja 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
legítima, ao se permitir o cumprimento 
dessa decisão, os direitos e garantias 
fundamentais individuais devem ser 
observados. Portanto, pode-se concluir que 
o processo, em última análise, é limitador do 
exercício do poder, porque o poder deve ser 
exercido com a observância do devido 
processo. 
 
O Código de Processo Penal vigente é de 
1941. Claro que o CPP hoje é totalmente 
diferente, porque veio sendo alterado com o 
passar dos anos e o surgimento das 
constituições. O vigente CPP foi inspirado na 
legislação processual penal italiana de 1930 
(Código de Rocco), em pleno regime 
fascista. Essa nota é fundamental, porque o 
CPP, em alguma medida, mesmo tendo sido 
substancialmente alterado, ainda encontra 
resquícios da sua origem. 
 
Notadamente, esses resquícios estão não no 
CPP, mas na mentalidade daqueles que o 
interpretam. Por isso, precisamos, 
urgentemente, de uma ruptura cultural com 
a mentalidade inquisitória, porque a 
alteração de literalidade do Código é 
importante, mas é insuficiente se a 
mentalidade inquisitória persistir. É 
necessária uma ruptura epistemológica com 
essas bases inquisitórias. 
 
Quais eram as principais características do 
CPP na sua origem (1940) – corolárias de 
uma mentalidade inquisitória? 
(i) Presunção de culpabilidade: se o Estado 
está acusando uma pessoa, é porque essa 
pessoa é culpada; o Estado não acusaria 
alguém inocente, de modo que, se há uma 
ação penal em face de uma pessoa,ou 
antes de proferir sentença, a realização de 
diligências para dirimir dúvida sobre ponto 
relevante. 
 
Alguns doutrinadores afirmam que se a 
defesa alega legítima defesa, a defesa teria o 
ônus de prová-la. Se alega estado de 
necessidade, também atrairia para si o ônus 
da prova. O mesmo ocorreria com qualquer 
tese defensiva. 
 
Como é a distribuição do ônus da prova no 
processo civil? 
 
Art. 373, CPC. O ônus da prova incumbe: 
I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de 
seu direito; 
II - ao réu, quanto à existência de fato 
impeditivo, modificativo ou extintivo do 
direito do autor. 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
O CPC/2015 adota uma teoria chamada 
teoria estática da distribuição do ônus da 
prova, isto é, não interessa o processo, é a lei 
que distribui o ônus da prova. O CPC 
também adota a teoria dinâmica, hipótese 
em que o juiz, no caso concreto, de acordo 
com as peculiaridades do caso, que 
redistribuirá o ônus da prova, de acordo 
com aquele que tenha maior facilidade para 
produzi-la (inversão do ônus da prova). 
 
No processo penal é diferente, uma vez que 
o ônus da prova é todo da acusação. Há uma 
única exceção no processo penal em que o 
ônus da prova é todo da defesa: absolvição 
sumária (art. 397, do CPP) e absolvição 
sumária nos processos de competência do 
Tribunal do Júri (art. 415, do CPP). Isso, 
pois, são absolvições antecipadas, de modo 
que, para que elas ocorram, a tese 
absolutória deve estar provada de modo 
irrefutável. Caso não prove, o acusado não 
será absolvido sumariamente e o processo 
seguirá o seu curso. 
 
(iii) regra do julgamento: a regra de 
julgamento é estado de não culpabilidade. 
Se a acusação não provar de modo 
cabal/irrefutável que o acusado é culpado, 
este será absolvido por insuficiência de 
provas (art. 386, VII, CPP). 
 
A execução provisória da pena no Brasil 
e a evolução do entendimento do STF 
sobre o tema: a execução provisória da 
pena significa o início do cumprimento da 
pena antes do trânsito em julgado da 
decisão penal condenatória. Até o ano de 
2009, o STF admitia a execução provisória 
da pena. Em 2009, com o julgamento do HC 
84.078-7/MG, a possibilidade de prisão 
definitiva passou a ser admitida somente 
após o trânsito em julgado da decisão penal 
 
2 Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante 
delito ou por ordem escrita e fundamentada da 
autoridade judiciária competente, em decorrência de 
condenatória. Ou seja, em 2009, a execução 
provisória da pena passou a ser inadmitida. 
Esse entendimento de inadmissão da 
execução provisória da pena prevaleceu até 
2016. Em 2016, no julgamento do HC 
126.292, o STF, por maioria de votos no 
plenário, voltou a admitir a execução 
provisória da pena após o exaurimento das 
vias impugnativas no segundo grau de 
jurisdição. A fim de que o STF revesse essa 
decisão, foram propostas as Ações 
Declaratórias de Constitucionalidade 43, 44 
e 54, tendo como parâmetro o art. 283, 
caput, do CPP 2 , o qual veda a execução 
provisória da pena. O propósito era o de que 
se o STF reconhecesse a constitucionalidade 
do art. 283 do CPP, estaria reconhecendo a 
inconstitucionalidade da sua decisão HC nº 
126.292. A propositura das ADCs teve 
pedidos de medidas cautelares. Contudo, o 
STF não concedeu a medida cautelar e a 
execução provisória da pena continuava a 
ser admitida. Em 2019, no julgamento do 
mérito dessas ADCs, o STF mudou o 
entendimento: reconheceu a 
constitucionalidade do art. 283, do CPP e 
deixou de admitir a execução provisória da 
pena. Para se iniciar a execução definitiva da 
pena, tem que haver o trânsito em julgado 
da decisão penal condenatória. A decisão 
nas ADCs possui efeitos erga omnes e 
vinculante, não mais admitindo a execução 
provisória da pena. Não se admite a 
execução provisória da pena por violar a 
regra de tratamento do princípio do estado 
de não culpabilidade. Execução provisória 
da pena tem, pois, relação direta com a regra 
de tratamento. 
 
 
Vedação de prova obtida por meio ilícito 
(art. 5º, LVI, CF/88 e art. 157, CPP) 
 
prisão cautelar ou em virtude de condenação criminal 
transitada em julgado. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Existe diferença entre prova ilícita e prova 
ilegítima? Na prova ilícita, a mácula é na 
origem/produção da prova: a prova é 
produzida de modo viciado, violando norma 
de direito material. Já a prova ilegítima, não 
guarda vício ou mácula na sua produção. A 
prova ilegítima é produzida de modo lícito. 
A prova ilegítima viola norma de direito 
processual. Tanto a prova ilícita quanto a 
prova ilegítima devem ser desentranhadas 
dos autos do processo. Sobre o tema, segue 
excerto literal da doutrina de Aury Lopes 
Júnior (LOPES JÚNIOR, Aury. Direito 
Processual Penal. 17. ed. São Paulo: Saraiva 
Educação, 2020, n.p. E-book.): 
 
 
Prova ilegítima: quando ocorre a violação 
de uma regra de direito processual penal no 
momento da sua produção em juízo, no 
processo. A proibição tem natureza 
exclusivamente processual, quando for 
imposta em função de interesses atinentes à 
lógica e à finalidade do processo. Exemplo: 
juntada fora do prazo, prova 
unilateralmente produzida (como o são as 
declarações escritas e sem contraditório) 
etc. 
 
 
Prova ilícita: é aquela que viola regra de 
direito material ou a Constituição no 
momento da sua coleta, anterior ou 
concomitante ao processo, mas sempre 
exterior a este (fora do processo). Nesse 
caso, explica MARIA THEREZA, embora 
servindo, de forma imediata, também a 
interesses processuais, é vista, de maneira 
fundamental, em função dos direitos que o 
ordenamento reconhece aos indivíduos, 
independentemente do processo. Em geral, 
ocorre uma violação da intimidade, 
privacidade ou dignidade (exemplos: 
interceptação telefônica ilegal, quebra ilegal 
do sigilo bancário, fiscal etc.). 
 
Há dois momentos processuais em que o 
Código de Processo Penal veda a juntada de 
prova aos autos do processo. Ambos os 
momentos estão previstos no rito do 
tribunal do júri: 
(i) fase de alegações finais na primeira fase 
do rito do júri (iudiciun acusationes) do rito 
do júri. 
 
(ii) segunda fase do rito do júri (iudiciun 
causae): só é possível a juntada de provas 
aos autos com a antecedência mínima de 03 
(três) dias úteis antes da realização da data 
do júri. 
 
Art. 479, CPP. Durante o julgamento não 
será permitida a leitura de documento ou a 
exibição de objeto que não tiver sido juntado 
aos autos com a antecedência mínima de 3 
(três) dias úteis, dando-se ciência à outra 
parte. 
 
Obs.: os artigos. 406 a 497 do Código de 
Processo Penal são os dispositivos 
pertinentes aos processos de competência 
do Tribunal do Júri. 
 
São também inadmitidas as provas 
derivadas das ilicitudes (ilicitude por 
derivação). 
 
Teoria dos frutos da árvore envenenada: se 
a prova “A” é ilícita e a prova “B” deriva da 
prova “A”, há ilicitude por derivação. 
Contudo, se ficar provado que, pelo 
andamento típico da investigação, a prova 
“B” pode ser identificada 
independentemente da prova “A”, há uma 
mutação: a prova “B” não será uma prova 
ilícita. 
 
O art. 157, §5º, do CPP, versa que: 
 
Art. 157, CPP. São inadmissíveis, devendo 
ser desentranhadas do processo, as provas 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
ilícitas, assim entendidas as obtidas em 
violação a normas constitucionais ou legais. 
§5º O juiz que conhecer do conteúdo da prova 
declarada inadmissível não poderá proferir a 
sentença ou acórdão. 
 
Trata-se de dispositivo introduzido pelo 
Pacote Anticrime, a partir do qual se 
depreende que, mesmo que a prova tenha 
sido desentranhada dos autos, o juiz está 
subjetivamente contaminado. Mas, o §5º, do 
art. 157, está com a eficácia suspensa por 
decisão do Ministro Luiz Fux (videADI 
6.298, 6.299, 6.300 e 6.305). 
 
 
Ninguém é obrigado a produzir prova 
contra si mesmo – nemo denetur si 
detegere 
(art. 5º, LXIII, CF/88) 
 
Art. 5º, LXIII. CF. O preso será informado de 
seus direitos, dentre os quais o de 
permanecer calado [base normativa 
constitucional do princípio em análise], 
sendo-lhe assegurado a assistência da 
família e a presença de advogado. 
 
É um dos princípios mais caros para a CF/88 
e para o processo penal. Existem inúmeros 
desdobramentos e incontáveis violações a 
esse princípio. Aparentemente, seria 
possível apenas dizer que ninguém 
(investigado/acusado) é obrigado a 
produzir prova contra si e, portanto, 
ninguém é obrigado a se submeter ao teste 
do bafômetro, a realizar exame de sangue 
em uma investigação criminal, a ceder 
cabelo para exame de DNA etc. Esse 
princípio também vale para o processo civil. 
 
Ex.: em uma ação de investigação de 
paternidade, o suposto genitor não é 
obrigado a se submeter ao teste de DNA. 
Mas a condenação é possível, ainda que não 
haja a produção de provas por parte do 
investigado/acusado, porque existem 
outros tipos de prova, a exemplo da prova 
testemunhal. Ao contrário do que muitos 
pensam e dizem, esse princípio não gera 
impunidade, porque, reprise-se, existem 
inúmeros outros instrumentos probatórios. 
 
O princípio de que ninguém é obrigado a 
produzir prova contra si decorre do direito 
ao silêncio. O STJ já pacificou o 
entendimento de que o direito ao silêncio 
pode ser parcial. Ou seja, o 
investigado/acusado responderia a 
algumas perguntas, mas a outras não, à sua 
livre escolha. Então, por exemplo, o acusado 
pode responder apenas às perguntas da 
defesa e não responder às da acusação e 
vice-versa. Então, a resposta às perguntas 
pode ser algo seletivo e esse tema está 
superado e pacífico no Poder Judiciário. 
Confirmar isso aqui. 
 
 
Reconhecimento de pessoas 
(art. 226 e seguintes, CPP) 
 
Art. 226. Quando houver necessidade de 
fazer-se o reconhecimento de pessoa, 
proceder-se-á pela seguinte forma: 
I - a pessoa que tiver de fazer o 
reconhecimento será convidada a descrever 
a pessoa que deva ser reconhecida; 
Il - a pessoa, cujo reconhecimento se 
pretender, será colocada, se possível, ao lado 
de outras que com ela tiverem qualquer 
semelhança, convidando-se quem tiver de 
fazer o reconhecimento a apontá-la; 
III - se houver razão para recear que a pessoa 
chamada para o reconhecimento, por efeito 
de intimidação ou outra influência, não diga 
a verdade em face da pessoa que deve ser 
reconhecida, a autoridade providenciará 
para que esta não veja aquela; 
IV - do ato de reconhecimento lavrar-se-á 
auto pormenorizado, subscrito pela 
autoridade, pela pessoa chamada para 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
proceder ao reconhecimento e por duas 
testemunhas presenciais. 
Parágrafo único. O disposto no no III deste 
artigo não terá aplicação na fase da 
instrução criminal ou em plenário de 
julgamento. 
 
Art. 227. No reconhecimento de objeto, 
proceder-se-á com as cautelas estabelecidas 
no artigo anterior, no que for aplicável. 
 
Art. 228. Se várias forem as pessoas 
chamadas a efetuar o reconhecimento de 
pessoa ou de objeto, cada uma fará a prova 
em separado, evitando-se qualquer 
comunicação entre elas. 
 
 
Duração razoável do processo 
(art. 5º, LXXVIII, CF/88) 
 
Art. 5º (...), LXXVIII, CF/88. A todos, no 
âmbito judicial e administrativo, são 
assegurados a razoável duração do processo 
e os meios que garantam a celeridade de sua 
tramitação. 
 
Esse princípio, até o ano de 2004, era um 
princípio constitucional implícito ao devido 
processo constitucional. No ano de 2004, a 
EC/45 criou o inciso LXXVIII do art. 5º da 
CF/88, de modo que a duração razoável do 
processo passou a ser um princípio 
constitucional explícito (ganhou luz 
própria/independência). 
 
Mas duração razoável do processo não 
necessariamente significa celeridade. Há a 
exigência de celeridade, mas, quanto mais 
celeridade, menos garantias. Se o processo 
está rápido demais, pode significar que 
estão ocorrendo violações a garantias 
constitucionais, o que também viola o 
devido processo constitucional. Em resumo, 
a duração razoável do processo pode ser 
celeridade, mas pode ser, inclusive, a 
necessidade de uma demora, a fim de que as 
garantias sejam devidamente observadas. 
 
Qual é o prazo para que haja observância da 
duração razoável do processo? Não há 
prazo específico. Então, como saber se o 
princípio da duração razoável do processo 
está sendo observado ou não? Existem 
vários vetores de análise, ou seja, a análise 
não é objetiva. Tais vetores não são isolados, 
mas, sim, cumulativos. São parâmetros 
referenciais. Senão vejamos: 
 
i) complexidade da causa: existem causas 
muito mais complexas do que outras. Então, 
um processo no tocante a uma causa 
extremamente complexa, demorará mais do 
que um processo que se refira a uma 
temática considerada mais simples. 
 
ii) estrutura do órgão jurisdicional: Ex. 
hipotético: a 1ª Vara Criminal da comarca 
de Diamantina tem 2 servidores. A 2ª Vara 
Criminal de Curvelo tem 5 servidores. 
Então, a tendência é que o trâmite dos 
processos na 1ª Vara Criminal de 
Diamantina demore mais, porque esta conta 
com menos servidores. 
 
iii) volume de processos: existem 
juízos/varas que têm muitos processos, 
enquanto outros têm muito menos, de modo 
que a tendência é que os processos sejam 
mais morosos naqueles juízos que possuem 
um maior volume de processos. 
 
iv) atuação do juiz: o juiz é uma pessoa física 
e todo juiz é um administrador, que 
administra o órgão jurisdicional no qual 
atua. Então, existem juízes que se 
organizam melhor. 
 
v) comportamento da parte: a parte pode 
fazer muitos recursos, dificultar o 
andamento do processo e, em certa medida, 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
não cooperar com o andamento e bom 
desenvolvimento das fases processuais. 
 
Veja-se que há uma margem de 
subjetividade naquilo que se entende por 
“duração razoável”. Apesar disso, na 
maioria dos casos, a inobservância desse 
princípio é flagrante. Ex.: os autos estão 
conclusos para o magistrado proferir 
sentença há dois anos. É nítido que não há 
duração razoável do processo. 
 
O ponto fundamental é que o princípio é da 
duração razoável do processo. A reflexão é: 
e na fase de investigação criminal (pré-
processual)? 
 
O princípio da duração razoável do 
processo abrange/abarca também a fase 
pré-processual (investigação criminal)? 
 
Vários doutrinadores dizem que não, 
porque a fase pré-processual não é processo 
(e realmente não é). Mas, será que é 
razoável que uma investigação criminal 
dure, por exemplo, 19 anos? 
 
Ex.: crime de homicídio — a pretensão 
punitiva estatal prescreve em 20 anos (art. 
109, I, do CP). Enquanto não houver a 
prescrição da pretensão punitiva, o Estado 
pode realizar a persecução penal. Suponha 
que foi instaurado o inquérito policial em 
2002. Contudo, não foi identificado 
elemento algum que vincule o investigado à 
prática do homicídio. Essa investigação 
criminal pode perdurar até a prescrição da 
pretensão punitiva? 
 
Outra parte da doutrina considera a 
duração razoável do processo como uma 
garantia fundamental que também se aplica 
à fase de investigação, tendo em vista que é 
o Estado que a realiza. Para que se inicie a 
persecução penal, basta que haja indícios de 
autoria. Então, seria razoável que a 
investigação durasse até a prescrição ou até 
outra causa extintiva da punibilidade? 
 
Obs.: a prescrição é uma causa extintiva da 
punibilidade e, portanto, extingue a 
pretensão punitiva do Estado, ou seja, a 
pretensão do Estado de punir o autor do 
crime. A prescrição não atinge/extingue o 
crime, mas, sim, a pretensão punitiva do 
Estado. O crime podeaté ter acontecido. 
Mas, ocorrendo a prescrição, o autor não 
será punido, porque o Estado dispõe de um 
lapso temporal limitado para exercer a 
persecução, nos moldes do art. 109, do 
Código Penal. 
 
Obs.: existem causas interruptivas da 
prescrição. Ou seja, ocorrendo uma das 
causas interruptivas, a contagem da 
prescrição é zerada e começa a contar de 
novo. A primeira causa interruptiva da 
prescrição, conforme previsão do art. 117, 
do Código Penal, é o recebimento da inicial 
acusatória (denúncia ou queixa-crime). 
 
Ex.: depois de 19 anos e 11 meses do 
cometimento de um crime de homicídio, 
cujo prazo prescricional é de 20 anos (art. 
109, I, CP), o Ministério Público oferece a 
denúncia e o juízo recebe a denúncia. 
Mesmo tendo passado 19 anos e 11 meses, 
haverá a interrupção da prescrição 
(começará a contar tudo de novo). É digno 
de nota que no âmbito do júri, tem-se a 
decisão de pronúncia (interrompe 
novamente a prescrição, conforme art. 117, 
II, do CP). 
 
Essa discussão existe porque não raras 
vezes a investigação criminal é instaurada, 
mas nada nela é produzido. Contudo, tal 
investigação não é arquivada. A pergunta é: 
a investigação pode ficar parada (sem ser 
arquivada) até a prescrição? Há quem diga 
que sim e há quem diga que não. 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Proporcionalidade 
 
O entendimento amplamente majoritário na 
doutrina, que também é o entendimento do 
STF, é de que a proporcionalidade é um 
princípio constitucional. Mas, na doutrina, 
há, também, o entendimento minoritário de 
que a proporcionalidade seria um 
postulado. 
 
O entendimento majoritário é de que a 
norma jurídica é gênero, do qual o princípio 
é uma espécie. Mas, alguns doutrinadores 
entendem, que, dentro do gênero norma 
jurídica, há, além de princípio e regra, o que 
se chama de postulado (norma de segundo 
grau). Seria uma norma imanente a todas as 
leis. 
 
Segundo o STF, a proporcionalidade é um 
princípio constitucional implícito ao 
princípio do devido processo 
constitucional, na sua dimensão substancial 
(art. 5º, LIV, CF/88). 
 
Na doutrina, o tema é divergente. Alguns 
doutrinadores concordam com o STF. 
Outros, entendem que a proporcionalidade 
é um princípio constitucional implícito ao 
Estado de Direito. Outros doutrinadores, 
ainda, entendem que a proporcionalidade é 
um princípio constitucional implícito à 
teoria dos direitos fundamentais. Outros, 
ainda, entendem que a proporcionalidade é 
um princípio constitucional explícito no art. 
5º, V, da CF/88, ou explícito na duração 
razoável do processo. 
 
Conteúdo da proporcionalidade: a 
proporcionalidade se desdobra em três 
máximas: 
 
(i) adequação: juízo de meio e fim. O meio 
escolhido é adequado para o atingimento do 
fim pretendido? 
 
(ii) necessidade: este meio é adequado, mas 
é necessário para se atingir o fim? Existe 
outro menos gravoso para se atingir o fim? 
 
(iii) proporcionalidade em sentido estrito 
(lei da ponderação/balanceamento): quais 
são os pontos favoráveis e negativos deste 
meio? Os pontos favoráveis pesam mais do 
que os negativos? 
 
Sobre a proporcionalidade, Jellinek sustenta 
que “não se deve abater pardais disparando 
canhões.” 
 
Um tiro de canhão mata pardal, havendo, 
pois, a adequação de meio e fim. Mas, matar 
pardal com tiro de canhão não é necessário, 
pois existem outros modos menos gravosos 
para se matar pardal. 
 
É necessário se ter claro que a análise da 
proporcionalidade não é uma análise 
objetiva. Por isso, essas regras são muito 
importantes. Ao se aplicar a 
proporcionalidade, exige-se uma densa 
carga argumentativa, a fim de que seja 
possível analisar se a conclusão pela 
proporcionalidade ou 
desproporcionalidade foi correta ou não. 
 
O texto “A Estória da Katchanga Real”, 
escrito por Lênio Streck, demonstra que a 
proporcionalidade é como se fosse uma 
carta curinga no Brasil, sem explicitar o 
percurso traçado na proporcionalidade 
para chegar à conclusão. 
 
Texto disponível em: 
https://dagmarvulpi.blogspot.com/2012/1
1/a-estoria-da-katchanga-real.html. 
 
 
 
 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Vedação de bis in idem 
 
No âmbito penal, ninguém pode ser 
prejudicado mais de uma vez pelo mesmo 
fato. Esse tema é muito relevante na fixação 
da pena. Isso porque, nos termos do art. 68, 
caput, do CP, o sistema de fixação de pena no 
Brasil é o trifásico, defendido por Nelson 
Hungria. Nesse sistema, temos 3 fases. 
Art. 68, CP. A pena-base será fixada 
atendendo-se ao critério do art. 59 deste 
Código; em seguida serão consideradas as 
circunstâncias atenuantes e agravantes; por 
último, as causas de diminuição e de 
aumento. 
 
• 1ª fase: pena-base – fixada 
analisando as circunstancias 
judiciais previstas no art. 59, do CP; 
 
• 2ª fase: circunstâncias legais – 
agravantes e atenuantes, nos moldes 
dos artigos 62 a 66 do CP; 
 
• 3ª fase: causas de aumento e de 
diminuição de pena. 
 
A importância do princípio da vedação do 
bis in idem na fixação da pena é no sentido 
de que a mesma circunstância não pode ser 
utilizada mais de uma vez para agravar a 
pena, sob consequência de incidir em dupla 
punição pelo mesmo fato. 
 
Ex.: reincidência – a reincidência é uma 
circunstância agravante. Então, o fato de o 
condenado ser reincidente, agravará a pena 
na 2ª fase de aplicação. Mas, acontece muito 
de, na 1ª fase, o juiz, ao analisar a conduta 
social do acusado, vislumbrar que é uma 
conduta voltada para o crime, o que se 
comprova pela reincidência. Então, a 
reincidência já prejudica o acusado na 1ª 
fase. Na 2ª fase, o juiz diz: agravo a pena 
porque o condenado é reincidente. O 
correto é: na 1ª fase não interessa se o 
acusado é reincidente, porque essa é uma 
análise a ser feita na 2ª fase, sob pena de bis 
in idem. 
 
CUIDADO! Temos a responsabilidade 
penal, civil, administrativa e política. Isso 
implica em bis in idem? NÃO. Porque bis in 
idem refere-se ao âmbito penal. Essas 
responsabilizações são independentes. 
 
Ex.: um servidor público desvia dinheiro 
público, valendo-se da profissão exercida, 
praticando o crime de peculato. Nesse caso, 
tem-se: 
o Responsabilidade penal: peculato; 
o Responsabilidade administrativa: 
instauração de Procedimento 
Administrativo Disciplinar – PAD; 
o Responsabilidade civil: 
ressarcimento do valor desviado; 
o Responsabilidade política: 
improbidade administrativa. 
 
O fato é um só, mas enseja várias 
responsabilizações independentes, não 
caracterizando bis in idem. 
 
CUIDADO! Exemplo do ex-goleiro 
Bruno. Bruno foi condenado criminalmente 
por ter matado Elisa Samúdio. O fato teria 
sido praticado em 2006 e ele foi condenado 
em 2009 e está cumprindo pena. 
Suponhamos que, em 2022, Elisa Samúdio 
apareça no Carnaval de Diamantina. Bruno 
pensa: já fui processado, condenado e já 
cumpri a pena, mas ela está viva. Então, 
posso matá-la, já cumpri a pena mesmo... 
ISSO ESTÁ ERRADO!!! Se bruno mata Elisa 
em 2022, será condenado, porque são fatos 
completamente diferentes, sobretudo no 
tocante à data, ao local e à motivação. 
 
 
 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Vedação de reformatio in pejus 
(art. 617, CPP) 
 
Art. 617, CPP. O tribunal, câmara ou turma 
atenderá nas suas decisões ao disposto nos 
arts. 383, 386 e 387, no que for aplicável, não 
podendo, porém, ser agravada a pena, 
quando somente o réu houver apelado da 
sentença. 
 
A vedação de reformatio in pejus é um 
desdobramento do princípio da ampla 
defesa. Não é um princípio autônomo, 
porque é imanente/é um desdobramento 
lógico da ampla defesa. No julgamento de 
recurso da defesa, o órgão ad quem não 
pode agravar a situação do recorrido. Trata-
se de uma garantia da defesa. 
 
Ex.: meu cliente é condenado 
criminalmente, à pena privativa de 
liberdadede 04 anos, no juízo primevo de 
Diamantina. Eu, como advogado, vislumbro 
que cabe recurso. O meu cliente fica 
temeroso de recorrer e a pena ser 
aumentada. Ocorre que isso fragilizaria em 
grande medida a ampla defesa, porque 
fragilizaria a interposição do recurso. Por 
isso, à luz do princípio da vedação da 
reformatio in pejus, há uma vedação ao 
agravamento da situação jurídica do 
acusado, em sede de recurso da defesa. 
 
CUIDADO! E se o julgamento for de 
recurso da acusação? Nesse caso, não 
haverá incidência do princípio em análise. O 
Tribunal, pode, então, exasperar a pena no 
julgamento do recurso da acusação. No 
exemplo em tela, o Tribunal pode negar 
provimento ao recurso da defesa e dar 
provimento ao recurso da acusação, 
aumentando a pena para 06 anos. 
 
Tudo o que foi mencionado até então, 
refere-se à vedação da reformatio in pejus 
direta. Existe a vedação da reformatio in 
pejus indireta. Na indireta, tem-se a 
nulidade/invalidação. Ou todo o processo 
foi inválido, ou apenas a sentença foi 
inválida. 
 
Ex.: um indivíduo foi condenado no âmbito 
da 1ª Vara Criminal da comarca de 
Diamantina/MG, pela prática do crime X, à 
pena privativa de liberdade de 05 anos de 
reclusão, em regime inicial semiaberto. A 
defesa do indivíduo interpôs recurso de 
apelação e requereu a anulação do processo, 
porque teria havido um vício insanável na 
citação do acusado, isto é, no começo do 
processo. O TJMG deu provimento ao 
recurso e anulou todo o processo, inclusive 
a sentença condenatória. Desse modo, o 
processo deve retornar do momento da 
citação. Agora, nesse novo processo, se for 
proferida sentença condenatória, a pena 
e/ou o regime inicial de cumprimento 
poderão ser mais gravosos do que a 
situação jurídica da condenação da sentença 
que foi anulada? NÃO. O máximo que poderá 
ocorrer é uma condenação com a mesma 
gravidade da condenação da primeira 
sentença que foi anulada. Trata-se da 
vedação da reformatio in pejus indireta. 
 
O ponto mais sensível desse princípio 
(reformatio in pejus indireta) é no tocante ao 
Tribunal do Júri. 
 
Ex.: a acusação é de homicídio triplamente 
qualificado. O Conselho de Sentença 
(jurados) decota/afasta duas 
qualificadoras. O acusado é condenado, 
portanto, por homicídio com uma 
qualificadora. A pena, então, é fixada em 13 
anos de reclusão, em regime inicial fechado. 
A defesa interpõe recurso de apelação e 
requer a anulação/invalidação da Sessão do 
Júri por algum fundamento. O TJMG dá 
provimento ao recurso da defesa e anula o 
júri. Anulado o júri, o acusado deverá ser 
submetido a um novo júri. A acusação é a 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
mesma: homicídio triplamente qualificado. 
Neste ponto, deve-se recordar que um dos 
princípios do júri é a soberania dos 
veredictos (art. 5º, XXXVIII, “c”, CF/88). 
Analisemos, então, três hipóteses: 
 
a) Os jurados condenam o acusado pela 
prática do crime de homicídio 
duplamente qualificado, afastando, 
portanto, apenas uma qualificadora. 
O juiz presidente do Tribunal do Júri 
fixa a pena em 15 anos de reclusão, 
em regime inicial fechado. Pergunta-
se: houve violação ao princípio da 
vedação da reformatio in pejus? NÃO. 
É necessário analisar as teses da 
condenação no 1º e no 2º júri. No 
primeiro, o que condenou o acusado 
foi o homicídio com uma 
qualificadora. No segundo júri, a 
condenação foi por homicídio com 
duas qualificadoras. 
 
b) Os jurados condenam o acusado 
acatando a mesma tese acatada no 
primeiro Júri. Isto é, os jurados 
decotam duas qualificadoras, 
condenando o acusado pelo crime de 
homicídio com uma qualificadora, 
sendo que esta qualificadora é a 
MESMA reconhecida no primeiro 
júri. A tese, pois, é idêntica. O juiz 
presidente do segundo júri, fixa a 
pena em 14 anos de reclusão, em 
regime inicial fechado. Houve 
violação ao princípio da reformatio 
in pejus indireta? SIM. Por que as 
teses acatadas são IDÊNTICAS. 
 
c) No segundo júri, os jurados decotam 
as três qualificadoras e condenam o 
acusado por homicídio simples. Mas, 
o juiz, no segundo júri, fixa a pena em 
13 anos de reclusão, em regime 
inicial fechado (a mesma pena do 
primeiro Júri). Houve violação ao 
princípio da reformatio in pejus 
indireta? SIM. Novamente, as teses 
são diferentes. Mas, a tese acatada no 
segundo Júri, é muito mais branda do 
que a tese do primeiro júri. As penas, 
portanto, devem acompanhar esse 
abrandamento. 
 
Em síntese, no tocante à vedação da 
reformatio in pejus indireta no âmbito do 
Tribunal do Júri, é indispensável a análise 
das teses. Se a tese acatada no segundo júri 
é mais gravosa do que a do primeiro, a pena 
do segundo júri poderá ser mais gravosa. Se 
as teses são idênticas, a pena no segundo 
júri não poderá ser mais gravosa do que a do 
primeiro. Se a tese acatada no segundo júri 
é mais branda do que a do primeiro, 
necessariamente, a pena na segunda 
condenação tem que ser mais branda do que 
a fixada na primeira condenação. 
 
 
Lembre-se: a vedação da reformatio in 
pejus é corolário da garantia fundamental 
da ampla defesa. 
 
Art. 5º (...), LV, CF. Aos litigantes, em 
processo judicial ou administrativo, e aos 
acusados em geral são assegurados o 
contraditório e ampla defesa, com os meios e 
recursos a ela inerentes. 
 
 
In dubio pro reo 
(art. 386, VII, CPP) 
 
Art. 386, CPP. O juiz absolverá o réu, 
mencionando a causa na parte dispositiva, 
desde que reconheça: 
VII – não existir prova suficiente para a 
condenação. 
 
O princípio do in dubio pro reo tem a ver 
com a valoração da prova. Ao valorar o 
conjunto probatório, havendo dúvida se o 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
acusado é culpado ou não, o acusado deve 
ser absolvido por insuficiência de provas. 
Não significa que o acusado seja inocente, 
mas, sim, que não houve produção de prova 
suficiente para legitimar uma sentença 
penal condenatória. É importante destacar, 
reprise-se, que o princípio in dubio pro reo 
se refere ao conjunto probatório. 
 
 
Favor rei 
 
Havendo julgamento por órgão colegiado e 
havendo empate, prevalece o entendimento 
benéfico à defesa. 
 
Ex.: o STF tem 11 ministros. Hoje, no 
entanto, hipoteticamente, só há 10 
ministros no STF, em razão da 
aposentadoria de um deles. No exemplo, o 
STF vai julgar um Recurso Extraordinário e 
há empate: 5 votos dando provimento ao 
recurso da defesa e 5 votos negando 
provimento ao recurso da defesa. Nesse 
caso, o acusado será absolvido ou a 
acusação será mantida? Pelo princípio favor 
rei, não haveria um voto de desempate, mas, 
sim, prevaleceria o entendimento favorável 
à defesa. 
 
No julgamento de Habeas Corpus, não há 
dúvidas quanto à incidência desse princípio. 
Mas, no julgamento de Recurso 
Extraordinário, há dúvida. Em determinada 
ocasião, uma das Turmas do STF estava com 
04 membros e houve empate nos votos. O 
ordenamento jurídico não dá uma resposta 
clara para essa situação. Poderia ser usado 
o princípio favor rei e o caso estaria 
encerrado. Mas, decidiu-se por suspender o 
julgamento e aguardar o novo Ministro do 
STF. Deve-se reconhecer que isso é bastante 
prejudicial à defesa. 
 
Fato é que o princípio favor rei aplica-se a 
julgamentos criminais de órgãos colegiados. 
Identidade física do juiz 
(art. 399, §2º, do CPP) 
 
Art. 396 (...), §2º, CPP. O juiz que presidiu a 
instrução deverá proferir a sentença. 
 
Significa que o juiz que encerra/preside a 
instrução criminal (audiência para 
produção de provas) se vincula àquele 
processo e é ele que deve proferir a 
sentença. O vetor axiológico é que o juiz que 
presidiu a audiência de produção de provas 
teria melhores condições de proferir a 
sentença. O princípio da identidade física do 
juiz surge no processo penal em 2008. O 
princípio da identidade física do juiz, antes 
disso,existia apenas no processo civil. 
 
Ocorre que o STF entendia que não obstante 
a inexistência expressa do princípio da 
identidade física do juiz no processo penal, 
no julgamento do Tribunal do Júri, mesmo 
não havendo previsão legal, existiria esse 
princípio. Mas, desde 2008, em todos os 
processos criminais, tem-se o princípio da 
identidade física do juiz. 
 
Ex.: no júri, testemunhas são ouvidas, o 
acusado é interrogado e há, também, os 
debates entre defesa e acusação. Existem 
júris que demoram dias/semanas. Suponha 
que no quarto dia do júri, o juiz presidente 
passou mal. Em vez de dissolver o Conselho 
de Sentença (não dar prosseguimento ao 
júri), houve a substituição do juiz 
presidente do júri e o júri teve continuidade. 
Esse caso chegou ao STF. Alegaram que a 
continuidade do júri era legítima, porque 
não havia incidência do princípio da 
identidade física do juiz. O STF entende que 
tal sentença é inválida, porque já antes de 
2008 haveria o princípio da identidade 
física do juiz. A partir de uma reforma do 
processo penal (Lei nº 11.619/2008), o 
princípio da identidade física do juiz é um 
princípio geral. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Mas, existem exceções: o juiz morreu, se 
aposentou, foi promovido. Esses casos são 
inerentes ao sistema e, por isso, são 
excepcionais. Mas, em regra, o juiz que 
presidiu a instrução/colheu a prova, se 
vincula ao processo, devendo proferir a 
sentença. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AULA 04/12/2021 e AULA 11/12/2021 
 
Fase pré-processual, investigação 
criminal 
 
Conceito de inquérito policial segundo 
Renato Brasileiro de Lima: 
 
O inquérito policial (IP) é um 
procedimento investigativo, 
administrativo, persecutório, instaurado e 
presidido por Delegado de Polícia, 
consistente em um conjunto de diligências 
(que consubstanciam a investigação) para 
se identificar meios de prova (não se produz 
prova, porque a prova é produzida na fase 
processual) e produzir elementos 
informativos para formar o 
conhecimento/convencimento do titular da 
ação penal (destinatário 
imediato/direto/primário), no sentido de 
propor a ação penal em juízo ou não e 
subsidiar o Poder Judiciário (destinatário 
mediato/indireto/secundário) no tocante à 
decretação ou não de eventuais medidas 
cautelares. 
 
A previsão sobre o IP no Código de Processo 
Penal se encontra nos artigos 4º a 23 do 
referido diploma legal. 
 
O inquérito policial é o procedimento 
investigatório da polícia investigativa, 
também chamada de polícia judiciária 
(polícia civil e polícia federal). 
 
Na fase pré-processual, não se produz 
prova, mas se identificam meios e fontes de 
prova. Isso, pois, a prova será produzida na 
fase processual, caso seja deflagrada a ação 
penal em juízo. 
 
Mas é possível a produção de prova na fase 
pré-processual. A prova será ou cautelar, ou 
irrepetível ou antecipada. 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
o Na prova cautelar, haverá 
contraditório, porque se não houver, 
não é prova. Só que na prova cautelar 
o contraditório é postergado para 
ser efetivamente exercido no 
processo. A produção de prova 
cautelar exige autorização judicial. 
 
o A prova irrepetível também é prova. 
Nela, o contraditório também é 
postergado. Contudo, não há 
exigência de autorização judicial. 
 
o Na prova antecipada, o contraditório 
não é postergado ou diferido. Ele é 
atual, naquele momento. 
 
O art. 155, caput, do CPP, permite que o juiz, 
na sentença, se valha de elementos 
informativos (produzidos na fase pré-
processual), desde que o elemento 
informativo esteja acompanhado por prova 
produzida na fase processual. 
 
Art. 155, CPP. O juiz formará sua convicção 
pela livre apreciação da prova produzida em 
contraditório judicial, não podendo 
fundamentar sua decisão exclusivamente nos 
elementos informativos colhidos na 
investigação, ressalvadas as provas 
cautelares, não repetíveis e antecipadas. 
 
Há críticas e essa possibilidade, no sentido 
de que elemento informativo jamais pode 
fundamentar decisão de mérito, ainda que 
acompanhado por prova. Isso porque, 
elemento informativo serve apenas para 
formar o entendimento do titular da ação 
penal (Ministério Público), o qual é o 
destinatário principal/imediato/direto do 
inquérito policial e também o Poder 
Judiciário, mas este, apenas quanto à 
decretação ou não de medidas cautelares e 
não quanto ao mérito! 
 
 
Características do inquérito 
 
• Inquisitório: diz-se que não se aplica 
o princípio do contraditório ao 
inquérito policial, apesar de parcela 
da doutrina defender o contrário. A 
não aplicação do princípio do 
contraditório, porém, não anula a 
aplicação do princípio da ampla 
defesa. Por isso, o investigado pode 
se fazer acompanhar por defensor 
em todos os atos do inquérito 
policial, podendo, inclusive, se negar 
a fornecer/produzir prova contra si 
mesmo. 
 
• Escrito 
 
Art. 9º, CPP. Todas as peças do 
inquérito policial serão, num só 
processado, reduzidas a escrito ou 
datilografadas e, neste caso, 
rubricadas pela autoridade. 
 
Art. 405, CPP. Do ocorrido em 
audiência será lavrado termo em livro 
próprio, assinado pelo juiz e pelas 
partes, contendo breve resumo dos 
fatos relevantes nela ocorridos. 
§1º Sempre que possível, o registro 
dos depoimentos do investigado, 
indiciado, ofendido e testemunhas 
será feito pelos meios ou recursos de 
gravação magnética, estenotipia, 
digital ou técnica similar, inclusive 
audiovisual, destinada a obter maior 
fidelidade das informações 
 
• Sigiloso: o inquérito pode ser 
sigiloso, na medida em que for 
necessário. 
 
Art. 20, CPP. A autoridade 
assegurará no inquérito o sigilo 
necessário à elucidação do fato ou 
exigido pelo interesse da sociedade. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Súmula Vinculante 14. É direito do 
defensor, no interesse do 
representado, ter acesso amplo aos 
elementos de prova que, já 
documentados em procedimento 
investigatório realizado por órgão 
com competência de polícia 
judiciária, digam respeito ao 
exercício do direito de defesa. 
 
• Dispensável: qualquer outra peça de 
informação que traga prova da 
materialidade delitiva e indícios 
suficientes de autoria pode servir de 
base para o oferecimento da 
denúncia ou queixa-crime. 
 
Art. 12, CPP. O inquérito policial 
acompanhará a denúncia ou queixa, 
sempre que servir de base a uma ou 
outra. 
 
• Discricionário: não há uma 
sequência pré-determinada dos atos 
que devem ser seguidos pela 
autoridade policial. A autoridade 
policial determinará as diligências 
necessárias a depender do avanço 
dos trabalhos de investigação e das 
peculiaridades do caso concreto. 
 
• Oficial: a condução do inquérito 
policial cabe a um órgão oficial do 
Estado. Segundo a Lei nº 
12.830/2013, as funções de polícia 
judiciária e a apuração de infrações 
penais exercida pelo delegado de 
polícia são de natureza jurídica 
essenciais e exclusivas de Estado. 
 
• Oficioso: a autoridade policial deve 
instaurar o inquérito policial de 
ofício, sempre que tomar 
conhecimento da prática de crime de 
ação penal pública incondicionada. 
Nos demais casos, a instauração do 
inquérito policial sempre dependerá 
de representação do ofendido. 
 
• Indisponível: a autoridade policial 
não pode determinar o 
arquivamento do inquérito policial. 
 
Art. 17, CPP. A autoridade policial 
não poderá mandar arquivar autos de 
inquérito. 
 
Art. 28, CPP. Ordenado o 
arquivamento do inquérito policial ou 
de quaisquer elementos informativos 
da mesma natureza, o órgão do 
Ministério Público comunicará à 
vítima, ao investigado e à autoridade 
policial e encaminhará os autos para 
a instância de revisão ministerial 
para fins de homologação, na formada lei. Está com a eficácia 
suspensa! ADIs 6.298, 6.300 e 
6.305. 
 
• Temporário 
 
Conclusão IP instaurado pela 
Polícia Civil 
- 10 dias: investigado preso em 
decorrência daquela investigação, a 
contar da efetivação da prisão (e não 
da decretação); 
 
- 30 dias: investigado solto. 
 
Art. 10, CPP. O inquérito deverá 
terminar no prazo de 10 dias, se o 
indiciado tiver sido preso em 
flagrante, ou estiver preso 
preventivamente, contado o prazo, 
nesta hipótese, a partir do dia em que 
se executar a ordem de prisão, ou no 
prazo de 30 dias, quando estiver solto, 
mediante fiança ou sem ela. 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Conclusão IP (crimes da Lei nº 
11.343/06 – Lei de Drogas) 
- 30 dias (pode ser duplicado): 
investigado preso; 
- 90 dias (pode ser duplicado): 
investigado solto. 
 
Art. 51, Lei nº 11.343/06. O 
inquérito policial será concluído no 
prazo de 30 (trinta) dias, se o 
indiciado estiver preso, e de 90 
(noventa) dias, quando solto. 
Parágrafo único. Os prazos a que se 
refere este artigo podem ser 
duplicados pelo juiz, ouvido o 
Ministério Público, mediante pedido 
justificado da autoridade de polícia 
judiciária. 
 
Conclusão IP instaurado pela 
Polícia Federal 
- 15 dias (prorrogável por igual 
período): investigado preso 
 
Art. 66, Lei nº 6.010/66. O prazo 
para conclusão do inquérito policial 
será de quinze dias, quando o 
indiciado estiver prêso (sic), podendo 
ser prorrogado por mais quinze dias, 
a pedido, devidamente 
fundamentado, da autoridade policial 
e deferido pelo Juiz a que competir o 
conhecimento do processo. 
 
Conclusão IP (crimes contra a 
economia popular) 
De acordo com a Lei nº 1.251/51, 
tratando-se de crimes contra a 
economia popular, o prazo é um só: 
10 dias, estando o investigado preso 
ou solto. 
 
 
 
AULA 18/12/2021 
 
Continuação Inquérito Policial 
 
É importante ressaltar que, caso o inquérito 
policial não for concluído no prazo legal, 
pode haver a dilação do prazo. Contudo, um 
dos requisitos para a dilação é que não haja 
investigado preso. Assim, caso o inquérito 
policial não for encerrado no prazo e o 
investigado estiver preso, este deverá ser 
colocado em liberdade para que haja a 
dilação do prazo para a conclusão das 
investigações. 
 
A relevância do prazo é que, se o investigado 
estiver solto e o prazo para a conclusão do 
inquérito exaurir, a autoridade policial, 
obrigatoriamente, deve remeter os autos ao 
juízo competente e pedir a dilação de prazo 
(art. 10, §3º, CPP). 
 
Art. 10. O inquérito deverá terminar no 
prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido 
preso em flagrante, ou estiver preso 
preventivamente, contado o prazo, nesta 
hipótese, a partir do dia em que se executar a 
ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, 
quando estiver solto, mediante fiança ou sem 
ela. 
§3º Quando o fato for de difícil elucidação, e 
o indiciado estiver solto, a autoridade poderá 
requerer ao juiz a devolução dos autos, para 
ulteriores diligências, que serão realizadas 
no prazo marcado pelo juiz. 
 
Quando houver pedido de dilação de prazo 
para a conclusão do IP, o juízo competente 
abre vistas para o MP. Se o MP estiver de 
acordo, os autos voltam para o juízo 
competente, o qual estabelece um novo 
prazo e os autos voltam para a Delegacia de 
Polícia para a continuidade das 
investigações. Exaurido o prazo dilatado, 
ocorre o mesmo procedimento. E essa 
dinâmica pode durar anos. Por isso, é 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
comum ter inquéritos policiais que duram 
meses, anos, décadas... É necessário que 
haja toda essa dinâmica TODA vez que o 
prazo for esgotado e é possível que isso dure 
até que haja a extinção da punibilidade pela 
prescrição, por exemplo. 
 
Obs.: no CPP, a dinâmica da dilação de prazo 
é esta: a autoridade policial pede dilação de 
prazo ao juízo competente, o qual remete os 
autos ao MP, para que o órgão ministerial se 
manifeste. Depois, se o MP estiver de 
acordo, os autos voltam ao juízo competente 
e são novamente remetidos para a delegacia 
de polícia. Mas, à luz do sistema processual 
penal acusatório, o correto é que o pedido 
de dilação de prazo não passe pelo Poder 
Judiciário e seja feito diretamente ao MP. Na 
Justiça Federal, há uma resolução do CNJ 
nesse sentido. No âmbito estadual, também 
existem Portarias no sentido de o pedido de 
dilação não passar pelo Poder Judiciário. 
 
Obs.: o pedido de dilação de prazo para a 
conclusão do IP deve passar pelo MP por 
dois fundamentos: i) o MP é o titular 
privativo da iniciativa da ação penal pública 
(art. 129, I, CF/88); ii) o MP exerce a 
atribuição de controle externo da atividade 
policial (art. 129, VII, CF/88). Ex.: em uma 
situação hipotética, a autoridade policial 
formula o oitavo pedido de dilação de prazo, 
sendo que, entre o primeiro e o último 
pedido não se produziu nenhuma prova. 
Nesse caso, em vez de o MP só se manifestar 
“de acordo com a dilação de prazo”, solicita 
que seja dada a devida atenção a essa 
investigação criminal. 
 
• Destinatário imediato do IP: titular 
da ação penal pública (Ministério 
Público); 
 
• Destinatário mediato do IP: Poder 
Judiciário. 
 
O Poder Judiciário não é destinatário do 
inquérito policial no tocante ao mérito 
penal e, por isso mesmo, não pode 
fundamentar sua decisão com base 
unicamente no inquérito policial. 
 
O art. 155, do CPP, (lei infraconstitucional) 
permite que o Judiciário fundamente a 
decisão de mérito em elemento informativo, 
desde que o elemento informativo esteja 
acompanhado de prova. 
 
Art. 155, CPP. O juiz formará sua convicção 
pela livre apreciação da prova produzida em 
contraditório judicial, não podendo 
fundamentar sua decisão exclusivamente nos 
elementos informativos colhidos na 
investigação, ressalvadas as provas 
cautelares, não repetíveis e antecipadas. 
Parágrafo único. Somente quanto ao estado 
das pessoas serão observadas as restrições 
estabelecidas na lei civil. 
 
Contudo, com base no sistema processual 
penal acusatório, tal disposição é 
equivocada. 
 
 
Arquivamento do inquérito policial 
 
O Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/2019) 
alterou o novo modo de realizar o 
arquivamento do inquérito policial, 
conforme previsão do art. 28, do CPP. 
Ocorre que o art. 28, do CPP, está com a 
eficácia suspensa, por decisão do Min. Luiz 
Fux. Significa que ainda estamos aplicando a 
redação antiga. 
 
Hoje (aplicando a redação antiga), o 
arquivamento se dá da seguinte forma: 
quem arquiva os autos do IP é o Poder 
Judiciário. O MP é o titular privativo da ação 
penal pública. Quando a autoridade policial 
encerra o inquérito, elabora o que se chama 
de relatório. O MP recebe os autos do 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
inquérito e os estuda. Quando o MP está 
convencido de que não houve crime ou de 
que, apesar de ter havido o crime, o 
investigado não teve relação com a prática, 
o MP, requer, de modo fundamentado, o 
arquivamento. Se o Poder Judiciário, por 
meio do juiz da Vara Criminal respectiva, 
concordar com as razões invocadas pelo MP, 
há o arquivamento. Se o juiz discordar, 
aplica-se o art. 28, do CPP. Hoje, o art. 28 que 
está vigente determina que: 
 
Art. 28, CPP (antes do Pacote Anticrime). 
Se o órgão do Ministério Público, ao invés de 
apresentar a denúncia, requerer o 
arquivamento do inquérito policial ou de 
quaisquer peças de informação, o Juiz, no 
caso de considerar improcedentes as razões 
invocadas, fará remessa do inquérito ou 
peças de informação ao procurador-geral, e 
este oferecerá a denúncia, designará outro 
órgão do Ministério Público para oferecê-la, 
ou insistirá no pedido de arquivamento, ao 
qual só então estará o Juiz obrigado a 
atender. 
 
Com base na redação acima, tem-se que o 
Procurador-Geral de Justiça(PGJ) pode: 
 
a) insistir no arquivamento do IP. Nesse 
caso, os autos voltam para a comarca e o juiz 
é obrigado a arquivar. Isso porque, o MP é o 
titular da iniciativa da ação penal pública; 
 
b) entender que não é caso de 
arquivamento, mas, sim, de ação penal. 
Nesse caso, o PGJ oferece a denúncia (inicial 
acusatória). Em vez de ele oferecer a 
denúncia, pode designar outro membro do 
MP para fazê-lo. Depois do oferecimento da 
denúncia, os autos voltam para a comarca 
para a devida tramitação. 
 
Obs.: esse membro do MP designado pelo 
PGJ pode optar por não oferecer a denúncia? 
Há uma divergência na doutrina. Mas o 
entendimento que prevalece é o de que não 
pode haver essa negativa. Prevalece o 
entendimento de que o membro do MP é 
designado não para fazer uma análise de 
cabimento ou não, mas simplesmente para 
oferecer a denúncia. Atua como longa 
manus (extensão do braço do PGJ e não em 
nome próprio). Mas há entendimentos em 
sentido diverso, de que o membro 
designado poderia deixar de oferecer a 
denúncia com base na independência 
funcional do Ministério Público. 
 
E o promotor da comarca que requereu o 
arquivamento? Ele não poderá atuar neste 
processo, porque violaria a independência 
funcional, já que, para ele, nem sequer seria 
caso de ação penal. 
 
Essa dinâmica do arquivamento ocorre no 
âmbito da justiça estadual. No âmbito da 
justiça federal, a dinâmica do arquivamento 
é um pouco diferente. No âmbito federal, o 
Procurador-Geral da República (PGR) 
recebe os autos do IP (quando for crime da 
competência de juiz federal). Se o PGR 
entender que não há justa causa para 
deflagrar a ação penal em juízo, deverá 
requerer, de modo fundamentado, o 
arquivamento. Caso o juiz federal concorde 
com as razões invocadas pelo PGR, procede-
se ao arquivamento. Mas, se o juiz federal 
discordar, remeterá os autos à 2ª Câmara de 
Coordenação e Revisão do Ministério 
Público Federal. Essa Câmara deverá 
elaborar um parecer opinativo, sendo que a 
decisão será do PGR. Mas o PGR pode 
delegar a decisão à 2ª Câmara de 
Coordenação e Revisão. Assim o fazendo, 
esta não irá elaborar nenhum parecer, mas, 
sim, oferecer a denúncia. 
 
Mas, com o Pacote Anticrime, a dinâmica é 
totalmente diferente. Quando a eficácia 
deixar de estar suspensa, o Ministério 
Público será o responsável pelo 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
arquivamento. Não haverá mais a 
participação do Poder Judiciário. Mas esse 
arquivamento tem que ter um controle, que 
será exercido pelo próprio MP. A suposta 
vitima pode se manifestar sobre o 
arquivamento. Havendo o arquivamento, o 
MP comunicará à polícia, ao suposto autor e 
à suposta vítima, sendo que esta terá um 
prazo de 30 (trinta) dias para se manifestar 
sobre. Essa nova dinâmica está de acordo 
com o sistema processual penal acusatório, 
porque o Poder Judiciário estará à margem 
da acusação. 
 
Art. 28, CPP (atualmente, com a eficácia 
suspensa). Ordenado o arquivamento do 
inquérito policial ou de quaisquer elementos 
informativos da mesma natureza, o órgão do 
Ministério Público comunicará à vítima, ao 
investigado e à autoridade policial e 
encaminhará os autos para a instância de 
revisão ministerial para fins de 
homologação, na forma da lei. 
§1º Se a vítima, ou seu representante legal, 
não concordar com o arquivamento do 
inquérito policial, poderá, no prazo de 30 
(trinta) dias do recebimento da 
comunicação, submeter a matéria à revisão 
da instância competente do órgão 
ministerial, conforme dispuser a respectiva 
lei orgânica. 
§2º Nas ações penais relativas a crimes 
praticados em detrimento da União, Estados 
e Municípios, a revisão do arquivamento do 
inquérito policial poderá ser provocada pela 
chefia do órgão a quem couber a sua 
representação judicial. 
 
Em vários momentos, os tribunais 
determinam que a dinâmica do 
arquivamento seja aplicada em outras 
matérias. Ex.: suspensão condicional do 
processo (art. 89, da Lei nº 9.099/95). 
Suponha que o MP deixa de oferecer a 
 
3 Art. 136 (...), §3º, CF/88. Na vigência do estado de 
defesa: IV - é vedada a incomunicabilidade do preso. 
proposta de suspensão condicional do 
processo. E se o juiz discordar? Aplica-se a 
Súmula 696, do STF. 
 
Súmula 696, STF. Reunidos os pressupostos 
legais permissivos da suspensão condicional 
do processo, mas se recusando o Promotor de 
Justiça a propô-la, o Juiz, dissentindo, 
remeterá a questão ao Procurador-Geral, 
aplicando-se por analogia o art. 28 do Código 
de Processo Penal. 
 
 
Incomunicabilidade do preso 
 
Art. 21, CPP. A incomunicabilidade do 
indiciado dependerá sempre de despacho nos 
autos e somente será permitida quando o 
interesse da sociedade ou a conveniência da 
investigação o exigir. 
Parágrafo único. A incomunicabilidade, que 
não excederá de três dias, será decretada por 
despacho fundamentado do Juiz, a 
requerimento da autoridade policial, ou do 
órgão do Ministério Público, respeitado, em 
qualquer hipótese, o disposto no artigo 89, 
inciso III, do Estatuto da Ordem dos 
Advogados do Brasil (Lei n. 4.215, de 27 de 
abril de 1963). 
 
Essa incomunicabilidade não atinge 
advogado e quem a decreta é o Poder 
Judiciário. Acontece que o art. 136, §3º, IV3, 
da CF/88, proíbe a incomunicabilidade 
durante o estado de defesa. Acerca disso, 
surgiram dois entendimentos: 
 
(i) o primeiro deles, que é o que prevaleceu 
e hoje é pacífico, é no sentido de que estado 
de defesa é um momento de fragilidade e 
turbulência democrática e que por isso, com 
muito mais razão, a incomunicabilidade 
seria vedada num momento de normalidade 
democrática e, portanto, tal dispositivo não 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
teria sido recepcionado pela CF/88. Então, 
não caberia a incomunicabilidade, porque o 
art. 21, do CPP, não foi recepcionado; 
 
(ii) o segundo entendimento, que não 
prevaleceu, é no sentido de que a CF/88 
proibiu a incomunicabilidade no estado de 
defesa e, portanto, não sendo estado de 
defesa, caberia a incomunicabilidade. Trata-
se de uma interpretação rasa do 
ordenamento jurídico. Hoje, esse 
entendimento está superado, porque no 
estado de defesa, que, repita-se, é um 
momento de instabilidade democrática, a 
própria CF/88 autoriza a mitigação de 
direitos fundamentais e, ainda assim, 
proibiu a incomunicabilidade do preso. 
Logo, por óbvio, a incomunicabilidade é 
proibida no momento de normalidade. 
 
 
Sigilo do inquérito policial 
 
 
O art. 20, do CPP, trata da decretação do 
sigilo do inquérito policial. 
 
Art. 20. A autoridade assegurará no 
inquérito o sigilo necessário à elucidação do 
fato ou exigido pelo interesse da sociedade. 
Parágrafo único. Nos atestados de 
antecedentes que lhe forem solicitados, a 
autoridade policial não poderá mencionar 
quaisquer anotações referentes a 
instauração de inquérito contra os 
requerentes. 
 
Parece um tema mal explicado pela 
doutrina. Ex.: os doutrinadores vão dizer 
que o inquérito é sigiloso. Mas, se o 
inquérito já e sigiloso, como decretar sigilo 
no inquérito? Há uma aparente contradição. 
O inquérito é sigiloso e esse não é um 
aspecto controverso. É sigiloso para 
viabilizar a investigação criminal, uma vez 
que, ser for público, prejudicará a eficiência 
desta. O Estatuto da OAB prevê 
expressamente que é direito de todo e 
qualquer advogado ter acesso a qualquer 
investigação criminal. Logo, a característica 
de ser sigiloso é mitigada. Mas, se o sigilo for 
decretado nos termos do art. 20, do CPP, só 
poderá ter acesso o advogado que estiver 
atuando na defesa do suposto autor. Em 
resumo, o inquérito é sigiloso e só não o é 
para os advogados, conforme prevê o 
Estatuto da OAB. Assim, o sigilo é decretado 
apenas para os advogados, porque para as 
demais pessoas já era sigiloso. 
 
 
Exigência ou nãoda observação das 
garantias fundamentais do 
contraditório e da ampla defesa no IP 
 
Os princípios do contraditório e da ampla 
defesa estão previstos no art. 5º, LV, CF/88. 
 
Na fase pré-processual, tem-se investigação 
e não de acusação. Se não tem acusação, 
como falar em ampla defesa? Por isso, o 
entendimento majoritário é que não há 
exigência de observância do contraditório e 
da ampla defesa, porque no IP não há 
acusação, mas, sim, investigação. Mas, a 
cada dia, esse entendimento vem perdendo 
força para um outro entendimento: não há 
uma acusação formal, mas há uma acusação 
em potencial, porque aquela investigação 
pode resultar em uma acusação. 
 
O Estatuto da OAB diz, também, que o 
investigado tem o direito de ser 
acompanhado por advogado. Pensemos: o 
advogado no âmbito penal, em regra, atua 
para exercer a defesa. Então, alguns 
doutrinadores se valem dessa previsão para 
dizer que há contraditório e ampla defesa 
no inquérito. Trata-se de um argumento 
frágil. Há, contudo, um argumento forte, 
perpassado pela previsão do art. 14-A, do 
CPP (redação dada pelo Pacote Anticrime). 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Art. 14-A, CPP. Nos casos em que servidores 
vinculados às instituições dispostas no art. 
144 da Constituição Federal figurarem como 
investigados em inquéritos policiais, 
inquéritos policiais militares e demais 
procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for 
a investigação de fatos relacionados ao uso 
da força letal praticados no exercício 
profissional, de forma consumada ou 
tentada, incluindo as situações dispostas no 
art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de 
dezembro de 1940 (Código Penal), o 
indiciado poderá constituir defensor. 
 
Com base nesse dispositivo, ganha muita 
força o entendimento da presença de 
contraditório e ampla defesa na 
investigação criminal. Pelo princípio da 
isonomia, essa previsão poderia ser 
estendida a qualquer outro IP. 
 
Contudo, atualmente, o entendimento que 
prevalece é o de que contraditório e ampla 
defesa não devem ser observados, porque 
não há acusação. 
 
 
Investigação criminal pelo Ministério 
Público 
 
O Ministério Público, que é o titular da 
iniciativa da ação penal pública, pode 
investigar no âmbito criminal. Só que o 
procedimento não é o inquérito policial, 
porque este é o procedimento de 
investigação criminal da polícia 
investigativa (polícia judiciária). Quando o 
MP investiga no âmbito criminal, se vale do 
Procedimento Investigativo Criminal (PIC). 
O PIC não está disciplinado no CPP, mas, 
sim, na Resolução 181 do Conselho Nacional 
do Ministério Público (CNMP). 
 
Este tema já foi muito polêmico. Há alguns 
anos, havia uma intensa discussão se o MP 
teria atribuição para investigar no âmbito 
criminal. Prevaleceu o entendimento de que 
sim. Temos que conhecer os principais 
argumentos favoráveis e desfavoráveis: 
 
Argumentos favoráveis: 
 
• O MP está regulamentado nos artigos 
127, 128 e 129, da CF/88. O art. 129 
traz as funções institucionais do MP. 
Tal dispositivo não prevê, 
expressamente, a investigação 
criminal pelo MP, mas também não 
proíbe. Versa o art. 129, IX, da CF, 
que cabe ao MP: 
 
Art. 129. (...) IX, CF/88. exercer 
outras funções que lhe forem 
conferidas, desde que compatíveis 
com sua finalidade, sendo-lhe vedada 
a representação judicial e a 
consultoria jurídica de entidades 
públicas. 
 
O MP é o titular privativo da ação 
penal pública. Para se deflagrar uma 
ação penal em juízo, tem que haver a 
justa causa, isto é, o lastro probatório 
mínimo para sustentar a propositura 
da ação penal, sob pena de rejeição 
da inicial acusatória. Logo, a 
investigação criminal pelo MP seria 
cabível. Com base nesse argumento, 
a investigação pelo MP seria inerente 
à titularidade da iniciativa da ação 
penal pública. 
 
• Teoria dos Poderes Implícitos: se o 
MP é o titular da iniciativa da ação 
penal pública, está implícito o seu 
poder de investigação. 
 
• A investigação criminal pelo MP não 
exclui as demais investigações. O 
problema no Brasil não é jurídico, é 
cultural. Noutros termos, a 
investigação não quer dizer 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
acusação, mas, na contramão disso, o 
simples fato de uma pessoa estar 
sendo investigada, faz com esta seja 
condenada pelos olhos da sociedade 
e da mídia. 
 
• Não há desequilíbrio no sistema 
acusatório, pois a defesa pode 
investigar também (investigação 
defensiva) e, na fase processual, o 
acusado terá o exercício do 
contraditório e da ampla defesa. 
 
Argumentos desfavoráveis 
 
• Não há previsão legal acerca da 
possibilidade da investigação 
criminal pelo MP, havendo somente 
uma Resolução do CNMP. Mas, será 
mesmo que, no Brasil, haveria uma 
lei autorizando a investigação pelo 
MP? Os políticos e grandes 
empresários do Brasil querem ser 
investigados pelo MP? 
 
• Ausência de previsão constitucional. 
 
• A investigação do inquérito policial é 
suficiente/satisfatória. Mas, às vezes 
não. E quando um membro da 
própria polícia está sendo 
investigado? E se a polícia não 
investigar (dilação reiterada de 
prazos)? Às vezes há necessidade da 
investigação criminal pelo MP. 
 
• Violação do sistema penal 
acusatório, porque geraria um 
desequilíbrio em relação à defesa. 
 
Na prática, em que pese haja discussão 
doutrinária, o tema está superado, sendo 
possível, assim, a realização de investigação 
criminal por parte do MP. 
 
 
AULA 05/02/2022 
 
REVISÃO (Inquérito Policial) 
 
O inquérito policial é um dos instrumentos 
investigativos que integram a fase pré-
processual. A fase pré-processual é 
integrada por vários outros instrumentos 
investigativos além dele, a exemplo da 
investigação criminal pelo MP, do inquérito 
policial militar (regulamentado no Código 
Penal Militar) e da Comissão Parlamentar 
de Inquérito (CPI). A CPI não é um 
procedimento de investigação criminal, 
mas, sim, de investigação de fato político. É 
o instrumento de investigação do 
parlamento. Ocorre que o fato político 
objeto da CPI, ao ser investigado, acaba 
redundando na investigação de prática de 
ato penal. Assim, reflexamente, a CPI acaba 
por investigar crime. 
 
o Quem instaura IP? Delegado de 
Polícia, porque o IP é o procedimento 
investigativo da polícia investigativa 
ou judiciária (Polícia Civil e Polícia 
Federal). 
 
o Qual é o conceito de IP? É um 
procedimento persecutório, 
administrativo, instaurado e 
presidido por delegado de polícia, 
consistente em um conjunto de 
diligências que tem por escopo 
produzir elementos comprovativos e 
identificar meios de provas, para 
formar o conhecimento do titular da 
iniciativa da ação penal, no sentido 
de propô-la em juízo ou não e 
subsidiar o Poder Judiciário no 
tocante à decretação ou não de 
medidas cautelares. 
 
o Destinatários do IP: (i) imediato: o 
titular da iniciativa da ação penal 
pública (Ministério Público), pois vai 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
formar o seu conhecimento no 
sentido de propor a ação penal ou 
não; (ii) secundário, indireto, 
mediato: Poder Judiciário, no tocante 
às medidas cautelares, as quais 
precisam de autorização judicial, 
mas podem ser requeridas no curso 
da investigação. Jamais é 
destinatário no tocante ao mérito 
penal (condenação ou absolvição). O 
convencimento do judiciário será 
formado na fase processual. 
 
o O Pacote Anticrime (Lei nº 
13.964/19) – art. 14-A (CPP), diz 
que: 
 
Art. 14-A, CPP. Nos casos em que 
servidores vinculados às instituições 
dispostas no art. 144 da Constituição 
Federal figurarem como investigados em 
inquéritos policiais, inquéritos policiais 
militares e demais procedimentos 
extrajudiciais, cujo objeto for a 
investigação de fatos relacionados ao uso 
da força letal praticados no exercício 
profissional, de forma consumadaou 
tentada, incluindo as situações dispostas 
no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de 
dezembro de 1940 (Código Penal), o 
indiciado poderá constituir defensor. 
§1º Para os casos previstos 
no caput deste artigo, o investigado 
deverá ser citado da instauração do 
procedimento investigatório, podendo 
constituir defensor no prazo de até 48 
(quarenta e oito) horas a contar do 
recebimento da citação. 
§2º Esgotado o prazo disposto no § 1º 
deste artigo com ausência de nomeação 
de defensor pelo investigado, a 
autoridade responsável pela 
investigação deverá intimar a instituição 
a que estava vinculado o investigado à 
época da ocorrência dos fatos, para que 
essa, no prazo de 48 (quarenta e oito) 
horas, indique defensor para a 
representação do investigado. 
 
A pessoa investigada deverá ser 
citada e terá o prazo de 48 (quarenta 
e oito) horas para constituir 
advogado. Se não constituir nesse 
prazo, a autoridade policial irá 
intimar a instituição a que o 
investigado pertencia no momento 
da conduta criminosa e a instituição 
deverá constituir o advogado. Existe 
contraditório e ampla defesa no IP? 
A instituição vai constituir advogado. 
Mas qual? Defensoria Pública (DP)? 
A DP atua em favor dos vulneráveis. 
Integrantes das forças públicas são 
vulneráveis? Procuradores do 
Estado? Procuradores federais? 
 
o Investigação pelo MP: Procedimento 
Investigativo Criminal (PIC). O PIC 
não está regulamentado no CPP, mas, 
sim, na resolução 181 no CNMP. Não 
obstante toda a polêmica 
teórica/doutrinária sobre o tema, na 
prática, trata-se de uma questão 
pacífica. 
 
 
Comissão Parlamentar de Inquérito 
(CPI) 
 
A CPI não é um procedimento de 
investigação criminal, mas, sim, de 
investigação de fato político. É o 
instrumento de investigação do parlamento. 
Ocorre que o fato político objeto da CPI, ao 
ser investigado, acaba redundando na 
investigação de prática de ato penal. Assim, 
obliquamente ou reflexamente, a CPI acaba 
por investigar crime. A CPI está disciplinada 
no art. 58, da CF/88. 
 
A CPI gozará das atribuições inerentes ao 
Poder Judiciário. A ideia é: tudo aquilo que o 
juiz puder fazer na investigação, a CPI 
também poderá fazer. Acontece que existem 
algumas matérias denominadas 
matérias/temas de reserva de jurisdição¸ 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
isto é, só o Poder Judiciário pode fazê-las. 
Ex.: decretação de prisão 
preventiva/temporária; autorização de 
interceptação telefônica; captação 
ambiental; autorização de busca e 
apreensão domiciliar. Logo, não obstante à 
CF mencionar que a CPI gozará dos mesmos 
poderes do Poder Judiciário, a CPI não pode 
desenvolver as matérias de reserva de 
jurisdição. A CPI, nesses casos, deverá fazer 
um requerimento ao Judiciário e este será o 
que vai decidir. 
 
IMPORTANTE! Delegado de Polícia 
não pode quebrar sigilo bancário. Caso a 
quebra seja necessária, o delegado fará uma 
representação ao juiz, solicitando a quebra 
de sigilo bancário. O MP também não pode 
quebrar o sigilo bancário, devendo requerer 
ao juiz. Exceção: contas bancárias públicas 
(ex.: conta bancária do município) não tem 
sigilo, podendo o MP requisitar diretamente 
à instituição financeira. 
 
O art. 6º, da Lei Complementar 105/2001, 
autoriza os agentes e as autoridades fiscais 
a terem acesso diretamente às 
movimentações bancárias de quem quer 
que seja. Este tema chegou ao STF, a fim de 
que fosse analisada a constitucionalidade 
do dispositivo. No âmbito da União, tem-se 
o Decreto 3724/2001, o qual regulamenta o 
art. 6º, da Lei Complementar 105/2001. O 
STF decidiu que é constitucional, sob o 
argumento de que não seria hipótese de 
quebra de sigilo, mas, de transferência de 
sigilo bancário. O STF decidiu, portanto, que 
os estados, o DF e os municípios terão que 
editar um decreto similar ao decreto 
federal. 
 
A CPI pode quebrar o sigilo bancário, sem 
que seja necessária autorização do Poder 
Judiciário. Pode, portanto, requisitar, 
diretamente, às instituições financeiras, as 
movimentações bancárias de determinada 
pessoa. 
 
CUIDADO! A CPI é o procedimento 
investigativo do Poder Legislativo. Podemos 
ter CPI estadual ou distrital e podemos ter 
CPI municipal. O ponto fundamental é: CPI 
municipal não pode quebrar sigilo bancário. 
O tema não é pacífico, mas esse é o 
entendimento do STF. O fundamento é: a 
CF/88 estabelece que a CPI gozará das 
atribuições investigativas do Poder 
Judiciário. O STF diz que não existe Poder 
Judiciário municipal, na medida em que o 
juiz integra o Poder Judiciário estadual e 
apenas atua no município. Assim, se não 
existe Poder Judiciário municipal, a CPI 
municipal não goza de poder algum. 
 
 
AÇÃO PENAL 
(artigos 24 a 62 do CPP) 
 
O que é ação? Temos a jurisdição que, em 
regra, é inerte. Em regra, para a atividade 
jurisdicional iniciar a sua atuação, deve ser 
provocada. O instituto processual para se 
provocar a jurisdição é a ação. A atividade 
jurisdicional, provocada pela ação, é 
prestada no processo. 
 
A ação, portanto, é o instituto constitucional 
processual, posto à disposição de todos para 
provocar a atividade jurisdicional estatal. O 
art. 5º, XXXV, CF/88 diz que “a lei não 
excluirá da apreciação do Poder Judiciário 
lesão ou ameaça de direito”. Trata-se do 
princípio da inafastabilidade da jurisdição 
(também previsto no art. 3º, do CPC). 
 
A ação é o instituto constitucional e 
processual, posto à disposição de todos, 
para se provocar a atividade jurisdicional 
estatal, para que o estado-juiz preste essa 
atividade e tutele um direito violado. A ação 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
é, pois, o instituto para se provocar a 
atividade jurisdicional, a qual é inerte. 
Existem várias teorias da ação: 
 
o Teoria Civilista ou Imanentista: o 
direito de ação não gozava de 
independência em relação ao direito 
material alegado na ação. O direito 
de ação era, pois, imanente ao direito 
material alegado na ação. Essa teoria 
está superada e a sua relevância é 
meramente histórica. 
 
o Teoria Concreta da Ação: é a partir 
da teoria concreta, que o direito de 
ação passa a gozar de independência 
em relação ao direito material 
alegado na ação. Essa teoria é 
representada pelo jurista Oscar Von 
Bullow (Teoria dos Pressupostos 
Processuais e Exceções Dilatórias). 
Esse marco histórico inaugura a 
independência do direito de ação em 
relação ao direito material alegado 
na ação. 
Ex.: uma criança propõe uma ação de 
investigação de paternidade. Existe o 
direito fundamental de ação (de 
propor a ação) e o direito material 
alegado (a paternidade). São direitos 
independentes. Na teoria concreta, o 
direito de ação gozaria de 
independência, mas não gozaria de 
autonomia. Assim, só haveria direito 
de ação se o pedido fosse julgado 
procedente. Se o pedido fosse 
julgado improcedente ou houvesse 
extinção do processo sem resolução 
do mérito, não haveria direito de 
ação. Parece que a teoria concreta é 
equivocada, razão pela qual ela 
também está superada. 
 
o Teoria Abstrata da Ação: para a 
teoria abstrata, o direito de ação 
gozaria de independência e de 
autonomia em relação ao direito 
material. Ou seja, não interessa se a 
decisão judicial foi sem ou com 
resolução do mérito ou se foi com 
procedência ou improcedência. Para 
essa teoria, o direito de ação é, pura 
e simplesmente, o direito de acesso à 
justiça. A teoria abstrata é relevante. 
Inclusive, muitos doutrinadores no 
Brasil defendem a teoria abstrata. 
 
o Teoria Mista ou Eclética da ação: 
quem trouxe esta teoria para o Brasil 
foi Enrico Tullio Liebman. O CPC/73 
adotava a teoria mista ou eclética da 
ação. A teoria mista ou eclética é uma 
teoria intermediária entre a teoria 
abstrata e a teoria concreta. Para a 
teoria mista ou eclética, somentehaveria direito de ação se houvesse 
julgamento de mérito 
(independentemente da 
procedência, se diferindo, neste 
ponto, da teoria concreta). Se 
houvesse julgamento de extinção do 
processo sem resolução do mérito, 
não teria havido direito de ação. 
Aparentemente, esta teoria se 
aproxima mais da teoria concreta. 
 
A doutrina majoritária no Brasil defende a 
teoria mista ou eclética. Por quê? O art. 485, 
do CPC, estabelece que, que ausente 
legitimidade ad causam e/ou interesse de 
agir (condições da ação), haverá extinção do 
processo sem resolução do mérito. Esta 
decisão, se fizer coisa julgada, fará coisa 
julgada meramente formal, sendo possível a 
repropositura da ação. Mas essa é uma 
análise estritamente processual, atrelada 
meramente à repropositura da ação ou não. 
O parâmetro seria: se é possível a 
repropositura da ação, é porque não houve 
o direito de ação. As condições da ação aqui, 
não seriam condições da ação, mas, sim, do 
mérito da ação. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Condições da ação CPC/2015 
• legitimidade ad causam; 
• interesse de agir/interesse 
processual. 
O CPC/2015 excluiu a possibilidade jurídica 
do pedido como condição da ação. 
 
Duas teorias sobre as condições da ação: 
 
• Teoria da Apresentação: para essa 
teoria, toda vez que o processo for 
extinto por ausência de condições de 
ação, haverá extinção do processo 
sem resolução do mérito, em 
qualquer fase do processo. Haverá, 
assim, somente coisa julgada formal, 
de modo que, corrigido o vício, será 
possível a repropositura da ação. 
Para essa teoria, não interessa se a 
ausência das condições da ação se dá 
antes ou depois da produção da 
prova. Do mesmo modo, não 
interessa se a ausência das condições 
da ação se deu em cognição sumária 
ou exauriente. Ou seja, se o Poder 
Judiciário extinguir o processo por 
ausência de condições da ação, 
sempre será sem resolução do 
mérito, sendo possível, pois, a 
repropositura da ação. 
 
• Teoria da Asserção/Teoria da 
Prospectação/Teoria da Verificação 
em status asserciones: se a extinção 
do processo por ausência de 
condições de ação se der antes da 
produção da prova em juízo 
(cognição sumária), haverá extinção 
do processo sem resolução do 
mérito. Após a produção da prova 
(cognição exauriente) haverá 
extinção do processo com resolução 
do mérito. 
 
A teoria adotada no Processo Civil, é a teoria 
da apresentação, em razão do art. 485 do 
CPC/2015. Mas, no Poder Judiciário, 
notadamente no STJ, a teoria adotada é a da 
asserção. Se a decisão se der em cognição 
exauriente, com a produção da prova, não é 
possível a repropositura da ação, porque as 
condições da ação se confundem com o 
mérito. Mas se a decisão se der antes da 
produção de prova, não pode ensejar coisa 
julgada material. 
 
Ex.: a criança propõe uma ação de 
reconhecimento de paternidade. Uma das 
condições da ação é a legitimidade ad 
causam. O réu é parte legítima? Ora, se o 
Judiciário reconhece, depois da prova 
produzida (cognição exauriente), que o réu 
não é o pai, o réu é parte ilegítima. Mas isso 
é o mérito (julgamento de improcedência). 
 
Se for feita alguma pergunta sobre esse 
tema na prova, deve-se lembrar que a teoria 
adotada pelo CPC é da apresentação, 
enquanto a adotada pelo Poder Judiciário, 
notadamente pelo STJ, é a da asserção. 
 
 
AÇÃO PENAL 
 
Vamos estudar a ação penal condenatória, 
em que pese exista outras (ex.: Habeas 
Corpus). A ação penal se subdivide em dois 
grandes grupos: o grupo da ação penal 
pública e o grupo da ação penal privada. 
 
O MP é o titular privativo da iniciativa da 
ação penal pública (art. 129, I, CF). A regra é 
que os crimes sejam de ação penal pública. 
Todas as contravenções penais são de ação 
penal pública incondicionada. 
 
O grupo da ação penal pública se subdivide 
em: 
 
(i) ação penal pública incondicionada; 
 
(ii) ação penal pública condicionada: 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
- ação penal pública condicionada à 
representação do ofendido ou de seu 
representante legal; 
 
- ação penal pública condicionada à 
requisição do Ministro da Justiça. 
 
O grupo da ação penal privada (ou de 
iniciativa privada) se subdivide em: 
 
(i) ação penal privada personalíssima; 
 
(ii) ação penal privada exclusiva; 
 
(iii) ação penal privada subsidiária da 
pública. 
 
 
PRINCÍPIOS DA AÇÃO PENAL 
 
Princípios da ação penal pública 
 
o Obrigatoriedade mitigada: havendo 
justa causa, o MP é obrigado a propor 
a ação penal. A obrigatoriedade é 
mitigada, porque há vários institutos 
que mitigam essa obrigatoriedade 
(transação penal, ANPP, composição 
civil dos danos no JECCRIM, delação 
premiada). 
 
o Indisponibilidade: neste ponto, a 
ação já foi proposta. O MP não pode 
desistir/dispor da ação. Acaso 
pudesse, violaria, reflexamente, a 
obrigatoriedade. 
 
o Indivisibilidade ou divisibilidade 
(tema polêmico): parcela da 
doutrina faz referência ao princípio 
da divisibilidade, enquanto outros 
mencionam indivisibilidade. A 
indivisibilidade parece ser corolário 
da obrigatoriedade: se existe 
elemento probatório com relação 
aos sujeitos “A”, “B” e “C”, o MP deve 
propor a ação contra todos. Mas, 
aqueles que defendem a 
divisibilidade, dizem que, se só há 
justa causa em relação a “A”, o MP vai 
acusar apenas “A”, demonstrando a 
divisibilidade. Ocorre que, a análise 
da indivisibilidade deve ser feita com 
a presença da justa causa. Havendo 
justa causa com relação a todos os 
sujeitos investigados, o MP deverá, 
logicamente, processar todos. 
 
Art. 48, CPP. A queixa contra 
qualquer dos autores do crime 
obrigará ao processo de todos, e o 
Ministério Público velará pela sua 
indivisibilidade. 
 
Art. 49, CPP. A renúncia ao exercício 
do direito de queixa, em relação a um 
dos autores do crime, a todos se 
estenderá. 
 
 
Princípios da ação penal de iniciativa 
privada 
 
o Facultatividade ou oportunidade: 
ainda que presentes os elementos 
mínimos necessários para a 
propositura da ação penal em juízo, a 
vítima (o ofendido) escolhe propor a 
ação penal ou não, a partir de um 
juízo de oportunidade. 
 
o Disponibilidade: a vítima (o 
ofendido) pode desistir da ação. 
 
o Indivisibilidade (nunca houve 
polêmica). O querelante tem a 
faculdade de propor a ação penal ou 
não. Mas, caso opte pela propositura 
da ação penal e havendo justa causa 
em relação a todos os investigados, 
deve-se processar todos. Não é 
possível “escolher”. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Toda ação é pública e isso se confunde com 
o acesso à justiça. Se toda ação é pública, 
como falar em ação penal privada? Essa 
classificação em pública e privada não é 
uma classificação da ação, mas, sim, quanto 
à iniciativa da ação. 
 
Mas como vou saber qual é a ação penal de 
determinado crime? Há dois critérios: 
 
(i) o artigo de lei que define o crime, 
tecnicamente é chamado de tipo penal 
incriminador. Se o tipo penal não disser 
nada sobre a ação penal, aquele crime será 
de ação penal pública incondicionada. Para 
que o crime seja de ação penal pública 
condicionada, o tipo penal incriminador 
tem que mencionar especificamente. A 
mesma regra vale para a ação penal pública 
condicionada à requisição do Ministro da 
Justiça. Para que o crime seja de ação penal 
de iniciativa privada, o tipo penal 
incriminador também precisa mencionar 
que a ação penal “se procede mediante 
queixa-crime”. A queixa-crime é a inicial 
acusatória da ação penal de iniciativa 
privada; 
 
(ii) pode acontecer de o tipo penal 
incriminador não falar nada sobre a ação 
penal. Mas, pode haver um artigo ao final do 
Capítulo que estabeleça que a ação penal 
para os crimes definidos no Capítulo 
dependerá de representação. 
 
Todas as contravenções penais são de 
ação penal pública incondicionada.essa 
pessoa é culpada. Se inocente fosse, o 
Estado não a estaria acusando; 
(ii) O acusado era um mero objeto do 
processo. Não era um sujeito titular de 
direitos fundamentais; 
(iii) O processo era meramente formal, 
porque o acusado já era considerado 
culpado, não era titular de direitos e o 
processo seria apenas um procedimento 
formal para aplicar a pena. 
 
 
A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE 
1988 
 
A CF/88 caminhou em sentido 
diametralmente oposto às características 
originárias do CPP. Portanto, se na origem 
do CPP a presunção era de culpabilidade, na 
CF/88, não há nem previsão de presunção 
inocência, mas, sim, um plus: um estado 
(situação) constitucional de inocência, 
também chamado de estado constitucional 
de não culpabilidade. 
 
Na origem do CPP, como dito, o acusado era 
mero objeto do processo e não era sujeito de 
direitos e garantias fundamentais. Ao revés, 
com a CF/88, o acusado é sujeito de direitos 
e garantias fundamentais. 
 
No CPP na sua origem, o processo era mero 
instrumento de aplicação de pena. Com a 
CF/88, o processo passou a ser um potente 
método de efetivação de direitos e garantias 
fundamentais e também instrumento de 
limitação do exercício do poder. 
 
Exemplos (que já não mais existem): 
(i) Na origem do CPP, uma pessoa estava 
presa. Essa pessoa impetrava Habeas 
Corpus (HC). Na primeira instância, a justiça 
criminal concedia a ordem de HC, 
determinando que a pessoa presa fosse 
colocada em liberdade. Só que essa decisão 
de primeira instância não produzia efeitos e 
a pessoa continuava presa. Para que a 
decisão produzisse seus efeitos, o Tribunal 
de Justiça (segunda instância) precisava 
confirmar a decisão (reexame necessário). 
Somente se a segunda instância, ao 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
reanalisar o HC, confirmasse a decisão de 
primeira instância, colocando o preso em 
liberdade (o que era muito raro), é que o 
sujeito seria colocado em liberdade. Ora, a 
presunção era de culpabilidade. A ideia era 
a de que o juiz de primeira instância que 
concedeu a ordem de HC teria se 
equivocado ao colocar o preso em liberdade. 
Em regra, o tribunal não confirmava a 
ordem de HC concedida na primeira 
instância. Então, mesmo com uma ordem 
concessiva de HC, a pessoa continuava presa 
por um longo período, até que o Tribunal 
revisasse a decisão. 
(ii) O acusado era condenado 
criminalmente na primeira instância. Para 
interpor recurso (apelação), o acusado 
condenado, obrigatoriamente, teria que se 
apresentar/recolher à prisão. Não era 
possível recorrer em liberdade. 
(iii) Em alguns crimes punidos com pena 
privativa de liberdade de reclusão, o 
simples processo, obrigatoriamente 
ensejava a prisão preventiva, pela simples 
existência da ação penal. Havia uma prisão 
preventiva obrigatória (efeito automático 
da ação penal). 
 
Tais exemplos não existem mais dessas 
formas, mas existem resquícios com uma 
outra roupagem/outra narrativa. 
Ex.: execução provisória da pena (a pessoa 
fica presa enquanto o recurso ainda não foi 
julgado; ou seja, a pessoa é presa antes do 
trânsito em julgado). 
 
A mentalidade inquisitória ainda está 
presente em todos nós e, por isso, 
precisamos nos policiar para romper com 
essa mentalidade. A sociedade brasileira 
entende que a única decisão justa é a 
condenação. Se alguém é julgado e 
absolvido, a comunicação que é gerada na 
sociedade é de impunidade. E, mais do que 
isso, a sociedade entende que não basta a 
condenação, é necessário haver a pena 
privativa de liberdade. 
Qual é o principal papel do processo, 
notadamente no processo penal? Limitar o 
exercício do poder. O processo penal possui 
como escopo principal proteger o acusado 
em relação ao Estado, porque a tendência de 
quem exerce poder é o abuso. Ao limitar o 
exercício do poder, o processo também 
legitima o exercício desse mesmo poder, 
desde que o devido processo seja 
observado. 
 
Estado de não culpabilidade e estado de 
inocência 
 
Falar em “presunção” de inocência significa 
relativizar/minimizar a importância da 
garantia fundamental. Por isso, o que há é o 
estado constitucional de inocência ou de 
não culpabilidade. 
 
Em algum momento da história, tivemos a 
presunção de inocência/não culpabilidade. 
Mas essa garantia se tornou mais robusta, 
chegando-se ao estado constitucional de 
não culpabilidade. 
 
Conforme o art. 5º, LVII, CF: “ninguém será 
considerado culpado até o trânsito em 
julgado de sentença penal condenatória.” 
 
Não há presunção. Mas, na praxe forense, 
fala-se em “presunção”. 
 
Diferença: Américo é atleticano e não é 
presumidamente atleticano. É uma situação 
posta. Presunção de inocência é menos 
garantia do que estado constitucional de 
inocência/não culpabilidade. 
 
Conclusão: Significa, portanto, que temos 
que estudar o processo penal à luz da CF/88, 
porque vários dispositivos do CPP 
contrariam a CF/88. Por isso, é necessário 
realizar a filtragem/releitura constitucional 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
do processo. Um artigo de qualquer lei 
processual penal anterior à CF que a 
contrarie estaria envolto pelo fenômeno da 
não recepção. Mas, se for posterior, 
estaremos diante do fenômeno da 
inconstitucionalidade. 
 
Controle de constitucionalidade: Todos 
os poderes realizam o controle de 
constitucionalidade, mas o Poder Judiciário 
é o que detém o protagonismo. Pode ocorrer 
de um artigo do CPP ser posterior à CF/88. 
Mas a CF/88 foi alterada por uma emenda 
constitucional. 
 
Ex.: o CPP foi alterado em 2011, mas em 
2014 surgiu uma emenda constitucional, 
alterando o texto da CF/88 (modificação 
formal). Com a alteração da CF/88, o artigo 
do CPP alterado em 2011 passa a contrariar 
a CF/88. Mas, esse artigo não será 
inconstitucional. Também haverá o 
fenômeno da não recepção, porque o 
parâmetro para essa análise é a norma 
constitucional de 2014, de modo que o 
dispositivo do CPP é anterior. 
 
 
LEI PROCESSUAL PENAL NO TEMPO 
 
Muito cuidado para não confundir o 
tratamento jurídico da lei processual penal 
no tempo e no espaço com o tratamento 
jurídico da lei penal no tempo e no espaço. 
São temas completamente diferentes. 
 
Todos sabemos que a lei penal benéfica à 
defesa goza de retroatividade. A regra é que 
a lei seja aplicada aos fatos ocorridos após o 
início da sua vigência, mas a lei pode 
retroagir para ser aplicada a fatos 
praticados antes do início da sua vigência. 
 
Mas a regra da retroatividade é uma regra 
da lei penal no tempo (art. 5º, XL da CF e art. 
2º, do Código Penal). A Lei Processual Penal 
no tempo nunca retroage para alcançar os 
atos já praticados, ainda que benéfica à 
defesa (art. 2º, do Código de Processo 
Penal). 
Art. 2o A lei processual penal aplicar-se-á 
desde logo [princípio da imediatidade], sem 
prejuízo da validade dos atos realizados sob 
a vigência da lei anterior. 
 
Os atos realizados anteriormente são 
válidos e não serão refeitos com base na lei 
nova, porque a lei processual penal nova, 
ainda que benéfica à defesa, não retroage 
(princípio tempus regit actum — o ato 
processual penal será regido pela lei do seu 
tempo). 
 
Princípio da imediatidade: o ato 
processual penal será regido pela lei 
processual penal vigente no momento de 
sua prática. A lei processual penal nova, 
ainda que benéfica à defesa, não retroage. 
Ato jurídico perfeito — princípio tempus 
regit actum. 
 
Ex.: o processo penal está tramitando. Já 
houve oferecimento da denúncia, o 
recebimento, a citação, a resposta à 
acusação e está há poucos dias da audiência 
de instrução e julgamento. Ontem, entrou 
em vigor uma legislação que altera o 
procedimento para oitiva de testemunhas. A 
oitiva das testemunhas do processo penal 
que está tramitando já observará a lei nova? 
Sim, em razão da teoria adotada pelo Brasil,AÇÃO PENAL PÚBLICA 
INCONDICIONADA 
 
O Ministério Público, que é o titular da ação 
penal pública, não precisa de condição 
alguma para exercer o direito de ação de 
modo regular. 
Ex.: art. 171, do Código Penal (crime de 
estelionato). No crime de estelionato, a ação 
penal, antes de 2020, era pública 
incondicionada, isto é, o MP não precisava 
da concordância da vítima para a 
propositura da ação penal. Presente a justa 
causa — lastro probatório mínimo a 
legitimar a propositura da ação penal em 
juízo — seria irrelevante a concordância ou 
não da vítima. Com o Pacote Anticrime, a 
natureza da ação do crime de estelionato foi 
alterada, passando a ser, como regra, ação 
penal pública condicionada à representação 
do ofendido ou de seu representante legal. 
Significa que o MP, para exercer 
regularmente o direito de ação, precisa da 
representação (autorização/manifestação 
de vontade da vítima). Portanto, 
atualmente, a regra é que o crime de 
estelionato é de ação penal pública 
condicionada à representação. 
Excepcionalmente, será incondicionada 
(quando a vítima for criança, adolescente, 
idoso etc.). 
 
 
AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À 
REPRESENTAÇÃO 
 
A representação é uma mera 
autorização/concordância, para que o 
Estado exerça a persecução penal. Não há 
formalidade alguma. Quem realiza a 
representação é a vítima ou o seu 
representante legal (nos casos em que a 
vítima não tenha capacidade postulatória). 
A representação deve se dar em até 06 
(seis) meses a contar da identificação da 
autoria do crime. Esse prazo é decadencial. 
 
Ex.: uma pessoa é vítima de um crime de 
ação penal condicionada à representação no 
dia 12/02/2022. Não se sabe quem é o autor 
do crime. Para que se proponha a ação 
penal, faz-se imprescindível a 
representação. Se não se sabe a autoria do 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
crime, o prazo de 06 (seis) meses não é 
iniciado. Já se passaram dois anos da data do 
crime. Será possível a representação? Sim, 
porque o prazo de 06 (seis) meses não foi 
iniciado, uma vez que este inicia-se a partir 
da identificação da autoria do crime. 
Contudo, é necessário analisar se já não 
houve a extinção da punibilidade pela 
prescrição da pretensão punitiva estatal. 
 
Ex.: um adolescente de 17 anos é vítima de 
um crime de lesão corporal leve (ação penal 
pública condicionada à representação). A 
autoria do crime é verificada de imediato e 
quem praticou a lesão corporal foi um 
vizinho. A vítima é relativamente incapaz e 
não pode representar. Os seus responsáveis 
resolvem não representar e o prazo 
decadencial de 06 (seis) meses é exaurido. A 
vítima completa 18 anos e adquire 
capacidade postulatória. Ao se tornar 
absolutamente capaz, a vítima terá o prazo 
decadencial de 06 (seis) meses para 
representar? O tema é polêmico! No Poder 
Judiciário, o entendimento que prevalece é 
o de que o adolescente pode representar. 
Mas, para vários doutrinadores, o prazo é 
único e não haveria um novo prazo a partir 
do momento em que a vítima se tornasse 
capaz. 
 
Qual a natureza jurídica da 
representação? 
 
A natureza jurídica é de condição específica 
da ação penal, uma vez que só é exigida se a 
ação penal for pública condicionada à 
representação. 
 
As condições da ação se desdobram em 
genéricas e específicas: 
 
(i) condições genéricas (aplicadas a todas as 
ações penais): legitimidade ad causam, 
interesse de agir, possibilidade jurídica do 
pedido e justa causa. 
(ii) condições específicas ou de 
procedibilidade: representação. 
 
A natureza da representação pode ser 
alterada de acordo com o momento da 
persecução penal. No momento da 
propositura da ação, trata-se de condição 
específica (de procedibilidade); no 
momento da instauração da investigação, 
trata-se de condição de persequibilidade; se 
no curso da ação a natureza dessa ação for 
alterada, dever-se-á indagar a vítima sobre 
o seu interesse de prosseguir ou não com o 
processo, ou seja, a representação será uma 
condição de prosseguibilidade. 
 
 
Em resumo: 
 
- condição específica (de procedibilidade): 
propositura da ação; 
 
- condição de persequibilidade: instauração 
da investigação; 
 
- condição de prosseguibilidade: 
prosseguimento da investigação, nos casos 
em que, no curso da ação, a natureza desta 
for alterada. 
 
A PERGUNTA É: crime de estelionato. 
Suponha que, quando o crime foi praticado, 
a ação era pública incondicionada. Depois, 
passou a ação penal passou a ser 
condicionada. Ex.: em dezembro de 2018, 
alguém cometeu estelionato. O MP, em 
agosto de 2019, propôs ação penal em juízo. 
Em janeiro de 2020, ocorreu alteração na 
natureza da ação penal, passando esta a ser 
pública condicionada à representação. 
Dever-se-á indagar a vítima sobre o seu 
interesse de prosseguir ou não 
(prosseguibilidade). Mas, não estaria 
havendo a retroatividade desta lei? 
Sabemos que a lei processual penal não goza 
de retroatividade, ainda que benéfica à 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
defesa. Então, porque essa lei de 2020 irá 
retroagir e ser aplicada ao crime praticado 
em 2018? Bom, a despeito do princípio 
tempus regit actum, tem-se uma hipótese de 
lei processual penal mista ou híbrida, já que, 
apesar de ser processual, interfere 
diretamente no ius puniendi estatal, 
produzindo efeitos materiais (penais). Por 
isso, a lei processual penal mista ou híbrida, 
observa o tratamento da lei penal no tempo, 
a qual, se benéfica à defesa, goza de 
retroatividade (art. 5º, XL, CF/88). Assim, a 
alteração da ação penal do crime de 
estelionato que ocorreu no ano de 2020, 
retroagirá, devendo ser aplicada, também, 
aos crimes cometidos antes da sua vigência. 
É um tema muito polêmico na 5ª e 6ª 
Turmas do STJ, as quais tinham decisões 
contraditórias. O STF decidiu que retroage. 
 
A representação é retratável ou 
irretratável? 
 
Art. 25, CPP. A representação será 
irretratável, depois de oferecida a denúncia. 
 
Art. 102, CP. A representação será 
irretratável depois de oferecida a denúncia. 
 
A representação é retratável, até o 
oferecimento da denúncia e a retratação 
pode ocorrer em qualquer âmbito 
(Promotoria de Justiça, Delegacia de Polícia 
etc.). Oferecida a denúncia, a representação 
é irretratável. 
 
CUIDADO! Tratando-se de crime 
contra a mulher no contexto da violência 
doméstica e familiar, é diferente. Nesse 
caso, a retratação só é possível ser realizada 
em uma audiência específica para este fim. 
Isso é para que o juiz/promotor verifique 
que a mulher queira, realmente, se retratar. 
 
Art. 16, Lei nº 11.343/06 (Lei Maria da 
Penha). Nas ações penais públicas 
condicionadas à representação da ofendida 
de que trata esta Lei, só será admitida a 
renúncia à representação perante o juiz, em 
audiência especialmente designada com tal 
finalidade, antes do recebimento da denúncia 
e ouvido o Ministério Público. 
 
 
AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À 
REQUISIÇÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA 
 
A requisição do Ministro da Justiça também 
é uma condição de persequibilidade e de 
procedimentalidade. Mas a requisição do 
Ministro da Justiça é um ato político. 
 
Ex.: crime contra a honra do Presidente da 
República ou de Chefe de Governo 
estrangeiro. Sem a requisição do Ministro 
da Justiça, o MP não pode propor, 
regularmente, a ação penal. Ou seja, se o 
Ministro da Justiça realiza a requisição, o 
MP não está obrigado a propor a ação penal. 
Lado outro, o MP não pode propor a ação 
penal sem a requisição do Ministro da 
Justiça, o qual, frise-se, é nomeado pelo 
Presidente da República. 
 
Diferenças entre representação e 
requisição do Ministro da Justiça 
 
A requisição do Ministro da Justiça não é 
retratável porque, reprise-se, é um ato 
político. 
 
Na representação, falou-se que, identificada 
a autoria, há o prazo decadencialde 06 
(seis) meses para realizar a representação. 
No caso da requisição do Ministro da Justiça 
não há prazo decadencial. Não é ad eternum, 
em razão da prescrição da pretensão 
punitiva estatal. 
 
 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
AÇÃO PENAL DE INICIATIVA PRIVADA 
 
Ação penal de iniciativa privada 
personalíssima 
 
Só existe um crime no Brasil de ação penal 
privada personalíssima (art. 236, CP). 
Todos os demais são de ação penal privada 
exclusiva. Se o querelante propõe a ação 
penal privada e no curso do processo vier a 
falecer ou a se tornar incapaz, o processo 
será extinto. NINGUÉM poderá sucedê-lo ou 
substituí-lo no processo. 
 
Art. 236, CP. Contrair casamento, induzindo 
em erro essencial o outro contraente, ou 
ocultando-lhe impedimento que não seja 
casamento anterior: 
Pena - detenção, de seis meses a dois anos. 
Parágrafo único - A ação penal depende de 
queixa do contraente enganado e não pode 
ser intentada senão depois de transitar em 
julgado a sentença que, por motivo de erro ou 
impedimento, anule o casamento. 
 
Ação penal de iniciativa privada 
exclusiva 
 
É possível a sucessão do querelante (no caso 
de morte) ou a substituição (no caso de 
incapacidade). 
 
Quais pessoas podem substituir ou suceder? 
Lembre-se do minemônico CADI. 
 
C – cônjuge 
A – ascendente 
D – descendente 
I – irmão 
 
Deve ser obedecida a ordem de preferência, 
a qual se dá a partir da observância das 
letras do próprio minemônico. 
 
E o companheiro na união estável? Este é 
um tema muito delicado. Isso porque, no 
Direito Penal, não se admite a analogia in 
malan partem. Se o processo prosseguir 
com a sucessão ou representação pelo 
companheiro, poderá haver julgamento e o 
réu poderá ser condenado. Então, admitir a 
sucessão ou substituição por parte do 
companheiro é prejudicial à defesa. 
 
O que se discute é: trata-se de uma hipótese 
de analogia in malan partem? O tema é 
polêmico, mas prevalece o entendimento de 
que não é analogia, mas, sim, uma 
interpretação evolutiva. O CPP é de 1941, 
época em que o único arranjo familiar 
reconhecido era o casamento, uma vez que 
o reconhecimento da união estável 
enquanto entidade familiar ocorreu 
recentemente. 
 
CUIDADO! Jamais escreva em uma 
resposta que se admite a sucessão ou 
substituição pelo companheiro por 
analogia, até porque, se fosse analogia, 
indubitável que seria in malan partem, a 
qual é inadmitida!!! 
 
 
Ação penal privada subsidiária da 
pública 
 
ART. 5º (...), LIX, CF/88. Será admitida ação 
privada nos crimes de ação pública, se esta 
não for intentada no prazo legal. 
 
Art. 29, CPP. Será admitida ação privada 
nos crimes de ação pública, se esta não for 
intentada no prazo legal, cabendo ao 
Ministério Público aditar a queixa, repudiá-
la e oferecer denúncia substitutiva, intervir 
em todos os termos do processo, fornecer 
elementos de prova, interpor recurso e, a 
todo tempo, no caso de negligência do 
querelante, retomar a ação como parte 
principal. 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
A ação penal privada subsidiária da pública 
é uma ação peculiar. Os crimes de ação 
penal pública, dos quais o MP é o titular 
privativo, preveem um prazo para que o MP 
tome algumas providências: arquivar os 
autos de investigação, devolver os autos à 
delegacia de polícia para novas diligências 
ou oferecer a ação. Se o MP permanecer 
inerte, surge a possibilidade de ação penal 
privada subsidiária da pública. Portanto, 
todos os crimes de ação penal pública 
podem se tornar crimes de ação penal 
privada subsidiária da pública, a qual é uma 
válvula de escape do sistema para evitar a 
impunidade. 
 
Ex.: um caso envolvendo homicídio 
duplamente qualificado: trata-se de crime 
de ação penal pública incondicionada. Nesse 
caso, o processo penal poderá ser iniciado 
mediante ação penal privada? Sim, na 
hipótese de ação penal privada subsidiária 
da pública. Todos os crimes de ação penal 
pública, eventualmente, poderão ser 
modificados para ação penal privada 
subsidiária da publica em caso de inércia 
do MP. 
 
Obs.: o art. 5º, LIX, CF/88 e o art. 29, do CPP 
trazem a seguinte redação: “não sendo 
proposta a ação penal no prazo legal, será 
cabível ação penal privada subsidiária da 
pública.” De acordo com a interpretação 
literal, se o MP arquivasse os autos ou os 
devolvesse para a DEPOL para novas 
diligências, caberia a ação privada 
subsidiária da pública. Mas a interpretação 
adequada não é essa. Não obstante à 
literalidade, somente será cabível ação 
penal privada subsidiária da pública se o 
Ministério Público for inerte. 
 
 
 
 
Causas extintivas da punibilidade na 
ação penal de iniciativa privada 
 
Art. 107, CP. Extingue-se a punibilidade: 
I - pela morte do agente; 
II - pela anistia, graça ou indulto; 
III - pela retroatividade de lei que não mais 
considera o fato como criminoso; 
IV - pela prescrição, decadência ou 
perempção; 
V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo 
perdão aceito, nos crimes de ação privada; 
VI - pela retratação do agente, nos casos em 
que a lei a admite; 
VII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) 
VIII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) 
IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos 
em lei. 
 
Algumas delas são aplicáveis apenas à ação 
penal de iniciativa privada: 
 
- renúncia: a renúncia é um ato unilateral, 
dispensando a concordância do suposto 
autor do crime; 
 
- perdão (parte final do inciso V do 
dispositivo acima – não é o perdão do inciso 
IX, eis que este somente é concedido pelo 
juiz): o perdão é um ato bilateral. Para que o 
perdão produza efeitos, faz-se necessária a 
aquiescência do acusado. 
 
Ex.: a vítima de um crime de ação penal de 
iniciativa privada propõe ação penal contra 
Américo, mas, no curso da ação penal, 
percebe que Américo pode ser inocente. 
Então, a vítima pode propor o perdão, sendo 
que, por outro lado, para que surta efeitos, 
Américo deve aceitar. Mas, qual é a 
relevância do aceite do réu? O perdão 
extingue o processo sem julgamento do 
mérito (não há sentença condenatória e 
nem absolutória). Por outro lado, uma vez 
demonstrada a inocência do réu e sendo 
proferida uma sentença absolutória, o réu 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
pode processar a suposta vítima na seara 
cível, para além de uma questão social e 
cultural. 
 
O perdão pode ser expresso ou tácito. Feita 
a proposta de perdão, o réu tem o prazo de 
03 (três) dias para aceitar ou não o perdão. 
Caso o réu não se manifeste no prazo de 03 
(três) dias, o CPP prevê que o silêncio 
importará na aceitação do perdão. Em regra, 
o silêncio não significa nada, mas o 
ordenamento jurídico pode atribuir efeitos 
a ele, como ocorre no caso do perdão. 
 
- perempção: art. 60, do CPP. 
 
Art. 60, CPP. Nos casos em que somente se 
procede mediante queixa, considerar-se-á 
perempta a ação penal: 
I - quando, iniciada esta, o querelante deixar 
de promover o andamento do processo 
durante 30 dias seguidos; 
II - quando, falecendo o querelante, ou 
sobrevindo sua incapacidade, não 
comparecer em juízo, para prosseguir no 
processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) 
dias, qualquer das pessoas a quem couber 
fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36; 
III - quando o querelante deixar de 
comparecer, sem motivo justificado, a 
qualquer ato do processo a que deva estar 
presente, ou deixar de formular o pedido de 
condenação nas alegações finais; 
IV - quando, sendo o querelante pessoa 
jurídica, esta se extinguir sem deixar 
sucessor. 
 
 
 
 
 
 
 
AULA 05/03/2022 
 
AÇÃO CIVIL EX DELICTO 
(artigos 63 a 68 do CPP) 
 
Art. 63, CPP. Transitada em julgado a 
sentença condenatória, poderão promover-
lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da 
reparação do dano, o ofendido, seu 
representantelegal ou seus herdeiros. 
Parágrafo único. Transitada em julgado a 
sentença condenatória, a execução poderá 
ser efetuada pelo valor fixado nos termos do 
inciso iv do caput do art. 387 deste Código 
sem prejuízo da liquidação para a apuração 
do dano efetivamente sofrido. (Incluído 
pela Lei nº 11.719, de 2008). 
 
Art. 64, CPP. Sem prejuízo do disposto no 
artigo anterior, a ação para ressarcimento 
do dano poderá ser proposta no juízo cível, 
contra o autor do crime e, se for caso, contra 
o responsável civil. (Vide Lei nº 5.970, 
de 1973) 
Parágrafo único. Intentada a ação penal, o 
juiz da ação civil poderá suspender o curso 
desta, até o julgamento definitivo daquela. 
 
Art. 65, CPP. Faz coisa julgada no cível a 
sentença penal que reconhecer ter sido o ato 
praticado em estado de necessidade, em 
legítima defesa, em estrito cumprimento de 
dever legal ou no exercício regular de direito. 
 
Art. 66, CPP. Não obstante a sentença 
absolutória no juízo criminal, a ação civil 
poderá ser proposta quando não tiver sido, 
categoricamente, reconhecida a inexistência 
material do fato. 
 
Art. 67, CPP. Não impedirão igualmente a 
propositura da ação civil: 
I - o despacho de arquivamento do inquérito 
ou das peças de informação; 
II - a decisão que julgar extinta a 
punibilidade; 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
III - a sentença absolutória que decidir que o 
fato imputado não constitui crime. 
 
Art. 68, CPP. Quando o titular do direito à 
reparação do dano for pobre (art. 32, §§ 1o e 
2o), a execução da sentença condenatória 
(art. 63) ou a ação civil (art. 64) será 
promovida, a seu requerimento, pelo 
Ministério Público. 
 
De acordo com o art. 68, do CPP, se a vítima 
for pobre na acepção legal, o MP poderá 
propor a ação civil ex delicto para ela. De 
acordo com a CF/88, quando é pessoa é 
financeiramente vulnerável, a instituição 
que propõe a ação é a Defensoria Pública. 
Essa questão foi levada ao STF há alguns 
anos, o qual decidiu que deveria ser a DP, 
mas, no local em que não houver DP, o MP 
pode propor a ação civil ex delicto. Para esse 
fenômeno, o STF deu o nome de 
inconstitucionalidade progressiva (mas o 
termo adequado seria de não recepção 
progressiva, porque o art. 68 do CPP é 
anterior à CF/88). 
 
Obs.: o arquivamento da investigação 
criminal não impede a propositura da ação 
civil ex delicto. 
 
Obs.: até o ano de 2008, o juízo criminal, na 
sentença criminal, não podia condenar o 
acusado à reparação de danos 
experimentados pela vítima. Mas, desde 
2008, se houver prova, o juiz poderá, na 
decisão penal condenatória, condenar o réu, 
também, à reparação dos danos, conforme 
art. 387, IV, do CPP. Contudo, para haver 
condenação à reparação dos danos, tem que 
haver pedido. Não cabe a condenação de 
ofício. 
 
Art. 387, CPP. O juiz, ao proferir sentença 
condenatória: 
IV - fixará valor mínimo para reparação dos 
danos causados pela infração, considerando 
os prejuízos sofridos pelo ofendido. 
Obs.: se na decisão penal condenatória já é 
possível a condenação à reparação dos 
danos, para que serve a ação civil ex delicto? 
Porque na reparação dos danos na ação 
penal, o valor é mínimo, e pode ser ampliado 
na ação civil ex delicto. Ainda, pode 
acontecer que, depois da sentença criminal, 
a vítima experimente outros danos, 
inexistentes à época da sentença. Assim, 
será possível pleitear o aumento do valor, 
por meio da ação civil ex delicto. 
 
 
COMPETÊNCIA 
(artigos 69 a 91 do CPP) 
 
Como se deve estudar o tema competência 
no CPP? O art. 69 nos apresenta os critérios 
definidores da competência e os artigos 
seguintes explicam cada um desses 
critérios. 
 
Art. 69, CPP. Determinará a competência 
jurisdicional: 
I - o lugar da infração: 
II - o domicílio ou residência do réu; 
III - a natureza da infração; 
IV - a distribuição; 
V - a conexão ou continência; 
VI - a prevenção; 
VII - a prerrogativa de função. 
 
Os artigos 70 e 71 explicam o lugar da 
infração; os artigos 72 e 73 explicam o 
critério domicílio do réu; o artigo 74 explica 
o critério natureza da infração penal; o 
artigo 75 explica a distribuição; os artigos 
76 a 82 explicam conexão e continência; o 
artigo 83 explica a prevenção; os artigos 84 
a 87 explicam a prerrogativa de função. 
 
Um grande tema dentro da competência é o 
crime de estelionato (art. 171, do CP). O 
crime de estelionato se consuma com a 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
obtenção da vantagem indevida. Verbo 
reitor: obter. 
 
Pelo critério lugar da infração penal, se o 
crime é consumado, em regra, a 
competência será o juízo do local em que o 
crime se consumou. Se o crime é tentado, em 
regra, a competência será do juízo criminal 
do local em que se executou o último ato 
executório. Se houver mais de uma vara, 
incidirá o critério distribuição. 
 
Ex.: Américo vai a Curvelo e compra uma TV 
e a paga com um cheque, sabendo que não 
há fundos (dolo!!!). Américo traz a TV para 
Diamantina e a sua agência bancária é de 
Diamantina. Quando o cheque é 
apresentado ao sacado (banco), este não 
paga, porque não tem fundos. Neste 
exemplo, a obtenção da vantagem indevida 
ocorre na agência bancária, porque esta 
recusará o pagamento, momento em que se 
consumará o crime de estelionato. 
 
Em relação ao crime de estelionato, a 
definição da competência sempre se deu 
assim. Mas, desde 2021, passou a ser 
diferente. A Lei nº 14.155/2021 incluiu o 
§4º ao art. 70, do CPP. Agora, há o critério 
residência da vítima (que só vale para o 
crime de estelionato). Se forem várias 
vítimas, adota-se o critério da prevenção. 
 
Art. 70 (...). §4º. Nos crimes previstos no art. 
171 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de 
dezembro de 1940 (Código Penal), quando 
praticados mediante depósito, mediante 
emissão de cheques sem suficiente provisão 
de fundos em poder do sacado ou com o 
pagamento frustrado ou mediante 
transferência de valores, a competência será 
definida pelo local do domicílio da vítima, e, 
em caso de pluralidade de vítimas, a 
competência firmar-se-á pela prevenção. 
 
A disposição acima vale para o estelionato 
praticado: (i) com cheque sem provisão de 
fundos; (ii) mediante frustração no 
pagamento; (iii) por meio de depósito 
bancário; e (vi) por meio de transferência 
bancária. 
 
Mas, cuidado! Estelionato praticado 
mediante cheque falso (fraude) é 
diferente!!! Cheque falso não é cheque, 
razão pela qual o §4º do art. 70 deve ser 
esquecido no caso de cheque falso. Nesse 
caso, a competência continua sendo do local 
da consumação do crime. 
 
Súmula 521, STF. (está superada) O foro 
competente para o processo e julgamento dos 
crimes de estelionato, sob a modalidade da 
emissão dolosa de cheque sem provisão de 
fundos, é o do local onde se deu a recusa do 
pagamento pelo sacado. 
 
Súmula 48, STJ. (ainda é válida) Compete 
ao juízo do local da obtenção da vantagem 
ilícita processar e julgar crime de estelionato 
cometido mediante falsificação de cheque. 
 
 
Critério da prerrogativa de função 
 
Tecnicamente, é errado falar em privilégio 
(foro privilegiado), porque privilégio é 
pessoal. A prerrogativa, por sua vez, não é 
da pessoa, mas, sim, da função. Por isso, a 
prerrogativa da função é irrenunciável. 
 
Na ação penal nº 937/2018, na questão de 
ordem, o STF alterou drasticamente o seu 
entendimento. Desde sempre, o 
entendimento do STF foi no sentido de que 
sempre haveria prerrogativa de função, não 
interessando se o crime foi praticado antes 
do mandato ou durante o mandato ou se 
tinha ou não pertinência com as funções 
exercidas. Ocorre que, atualmente, com a 
ação penal nº 937/2018, só haverá a 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
prerrogativa de função, com relação a 
deputados e senadores, se: (i) o crime tiversido praticado após a diplomação; e (ii) o 
crime tiver pertinência/relação com as 
funções exercidas. 
Ex.: Américo não é Deputado Federal e 
pratica um crime hoje. Américo é eleito 
Deputado Federal daqui uma semana. 
Assim, mesmo sendo Deputado Federal, não 
gozará de prerrogativa de função em 
relação ao crime cometido anteriormente à 
diplomação. 
 
O mesmo ocorre nos casos em que, mesmo 
já tendo sido diplomado, o sujeito comete 
crime que não tenha aderência com a função 
exercida. 
 
Desembargador tem prerrogativa de função 
no STJ. O entendimento do STJ, 
excepcionando o entendimento do STF, foi o 
de que, em relação a desembargador, 
haverá prerrogativa de função, mesmo que 
o crime praticado não tenha aderência com 
à função, sob pena de mitigar a 
imparcialidade do juiz de primeira 
instância. 
 
Promotor de Justiça também tem 
prerrogativa de função no TJ. A decisão do 
STF, na ação penal 937/2018, foi uma 
decisão sobre deputados e senadores. Por 
uma questão de coerência, o entendimento 
HOJE é o de que Promotor de Justiça 
continua tendo prerrogativa de função, 
mesmo que o crime praticado não tenha 
relação com a função exercida. O tema ainda 
não é pacífico, porque o STF ainda decidirá 
se a decisão proferida na ação penal 
937/2018 é aplicável a todas as 
prerrogativas de função, para além de 
deputados e senadores. 
 
Análise histórica: até a EC 35/2001, a 
dinâmica da prerrogativa de função era a de 
que deputado federal e senador tinham 
prerrogativa no STF. Para que o STF 
pudesse receber a inicial acusatória, era 
necessária a autorização da Casa Legislativa 
respectiva. O problema é que, geralmente, 
não havia essa autorização, havendo uma 
impunidade. Mas, desde 2001, houve uma 
inversão na dinâmica e não precisa mais 
dessa autorização. Se o STF recebe a inicial 
acusatória, deve comunicar a Casa 
Legislativa sobre o recebimento, a qual 
PODE votar para que haja a suspensão do 
processo. 
 
Ocorre que o STF começou a condenar, de 
modo que a prerrogativa de função que era 
um escudo de proteção, ensejador de 
impunidade, começou a ser algo ruim. Isso 
porque, não cabe recurso contra 
condenação do STF. Com isso, deputados e 
senadores, dias antes do julgamento, 
renunciavam ao mandato para fugir do 
julgamento do STF, uma vez que, com a 
renúncia do mandato, não há mais 
prerrogativa de função. O STF, na mesma 
ação penal, decidiu que pode haver a 
renúncia. Mas, após a publicação para 
oferecimento de alegações finais (após o 
encerramento da instrução processual), 
pode haver a renúncia, contudo, não haverá 
alteração da competência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
AULA 12/03/2022 
 
PRISÃO TEMPORÁRIA 
 
Decisões STF 
 
ADI 3360: 
https://portal.stf.jus.br/processos/downlo
adPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf 
 
ADI 4109: 
https://portal.stf.jus.br/processos/downlo
adPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdf 
 
 
PESQUISAR 
 
O que é ação de prevenção penal, ação penal 
indireta, ação penal secundária e ação penal 
pública subsidiária da pública? 
 
 
https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf
https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350954462&ext=.pdf
https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdf
https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15350757218&ext=.pdfde observância da lei vigente na prática do 
ato. 
 
Teorias: 
- Existe uma teoria que entende o processo 
como um todo. Então, se o processo já 
iniciou, será observada a lei anterior, que 
estava sendo aplicada no início do processo. 
- Existem teorias que dizem que vai 
depender da fase do processo (fase 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
postulatória, fase instrutória e fase 
decisória). 
- Há outra teoria que isola os atos (não é 
análise do processo como um todo e nem 
análise de fases do processo). 
 
A teoria adotada no processo penal 
brasileiro é encontrada no art. 2º, do CPP. A 
adotada pelo Brasil é a última (ato a ato). 
“[...]sem prejuízo dos atos realizados sob a 
vigência de lei anterior”. 
 
 
LEI PROCESSUAL PENAL NO ESPAÇO 
 
Não confundir com a lei penal no espaço! 
 
Art. 1o O processo penal reger-se-á, em todo 
o território brasileiro, por este Código, 
ressalvados: 
I - os tratados, as convenções e regras de 
direito internacional; 
II - as prerrogativas constitucionais do 
Presidente da República, dos ministros de 
Estado, nos crimes conexos com os do 
Presidente da República, e dos ministros do 
Supremo Tribunal Federal, nos crimes de 
responsabilidade; 
III - os processos da competência da Justiça 
Militar; 
IV - os processos da competência do tribunal 
especial; 
V - os processos por crimes de imprensa. 
 
Princípio da territorialidade: o processo 
penal brasileiro será aplicado às infrações 
cometidas em território brasileiro. Mas o 
princípio da territorialidade é corolário da 
soberania, a qual é um dos fundamentos da 
República Federativa do Brasil, conforme se 
extrai da redação do art. 1º da CF/88. O 
princípio da territorialidade é, pois, 
materialização da soberania. No Brasil, 
aplica-se as leis brasileiras. 
 
Lei penal no espaço: também há o 
princípio da territorialidade no que se 
refere à lei penal, pelo mesmo motivo de 
que este é corolário do fundamento 
soberania. No entanto, a lei penal pode 
gozar de extraterritorialidade, isto é, 
aplicação da lei penal brasileira a um crime 
cometido fora do território brasileiro. A 
extraterritorialidade da lei penal brasileira 
está prevista no art. 7º, do CP. Há três 
espécies de extraterritorialidade da lei 
penal: (i) extraterritorialidade 
incondicionada; (ii) extraterritorialidade 
condicionada; (iii) extraterritorialidade 
hipercondicionada. 
 
O tema é importante para o tema lei 
processual penal no espaço, porque a lei 
processual penal brasileira será aplicada 
aos crimes praticados no território 
brasileiro (territorialidade). Mas há a 
extraterritorialidade da lei penal. 
 
Ex.: um crime foi praticado na Itália. O crime 
se adequa a uma das hipóteses de 
extraterritorialidade incondicionada (ex.: 
crime contra a vida do Presidente da 
República). Significa que o autor desse 
crime será processado e julgado no Brasil, 
mas também poderá ser processado e 
julgado na Itália. Veja que o crime foi 
praticado fora do território brasileiro, mas 
será aplicada a lei penal brasileira e o 
processo tramitará no Brasil, em que pese o 
crime tenha sido praticado fora do Brasil. 
 
É necessário fazer um acréscimo ao tema lei 
processual penal no espaço: nas hipóteses 
de extraterritorialidade da lei penal, será 
aplicada a lei processual penal brasileira aos 
crimes que forem processados no Brasil. 
 
Ou seja, a infração penal não foi praticada 
em território brasileiro, mas será aplicada a 
lei processual penal brasileira. A definição 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
do art. 1º, do CPP, não abrange a 
extraterritorialidade da lei penal. 
 
Por isso, a melhor conclusão é a de que a lei 
processual penal brasileira será aplicada 
aos processos penais com tramitação no 
Brasil. Porque se concluirmos que a lei 
processual penal brasileira será aplicada 
aos processos penais com tramitação no 
Brasil, estaremos abarcando as infrações 
penais cometidas no Brasil e os crimes 
cometidos fora do Brasil que se adequem à 
extraterritorialidade da lei penal, porque 
em ambas as hipóteses o processo será 
desenvolvido em território brasileiro. 
Então, a conclusão seria: lei processual no 
espaço tem aplicação aos processos penais 
que tramitem no território brasileiro, ainda 
que o crime tenha sido praticado fora do 
território brasileiro, desde que seja uma 
hipótese de extraterritorialidade da lei 
penal. 
 
É possível que uma lei processual penal 
também seja penal, isto é, híbrida/mista. Ou 
seja, a lei processual penal também pode ter 
conteúdo de direito penal: lei processual 
penal de efeitos penais. Em regra, essa 
identificação é polêmica. Mas se a 
prova/alguém perguntar qual o tratamento 
jurídico à lei processual mista ou híbrida no 
tempo ou no espaço, será observado o 
tratamento jurídico da lei penal no tempo e 
no espaço. 
 
Logo, uma lei processual penal mista ou 
híbrida benéfica à defesa retroage, porque 
segue o tratamento jurídico da lei penal, 
assim como uma lei processual penal mista 
ou híbrida no espaço pode ter 
extraterritorialidade, porque segue o 
tratamento jurídico da lei penal. A lei 
processual penal de efeitos penais (mista ou 
híbrida) segue o tratamento penal do tempo 
e do espaço. 
 
Essa lei processual penal mista ou híbrida 
significa que ela interfere diretamente na 
persecução penal. Então, se perguntarem 
qual o conceito de lei processual mista ou 
híbrida, a resposta será: a lei processual 
penal mista ou híbrida é a lei processual 
penal que interfere diretamente na 
persecução penal, no ius puniendi estatal. 
 
Ex.: até o ano de 1995, os crimes de lesão 
corporal leve e de lesão corporal culposa, 
eram crimes de ação penal pública 
incondicionada. Em 1995, o art. 88, da Lei 
9.099/95 (Lei que instituiu o JECRIM no 
âmbito da justiça estadual) alterou a 
natureza jurídica da ação penal nos crimes 
de lesão corporal leve e lesão corporal 
culposa. A ação penal que era pública 
incondicionada, passou a ser pública 
condicionada à representação. Então, para 
que o MP proponha a ação penal em juízo, 
passou a ser imprescindível a autorização 
da vítima do crime (o que chamamos de 
representação). Ação é um tema de direito 
processual, mas a ação penal era pública 
incondicionada, de modo que o MP não 
precisava da “autorização” (representação) 
da vítima. Com a alteração, sem a 
representação, o MP não pode propor a ação 
penal em juízo de modo regular. Então, essa 
alteração interfere diretamente na 
persecução penal e no ius puniendi estatal. 
Por isso, o art. 88, da Lei 9.099/95 é uma lei 
processual penal mista ou híbrida, isto é, 
tem tratamento de direito penal. Essa nova 
lei é benéfica à defesa, pois sem a 
representação, o MP não pode oferecer a 
denúncia. E as pessoas que estavam sendo 
processadas pelos crimes em análise antes 
da referida lei? Os processos que já estavam 
tramitando foram paralisados e as vítimas 
foram perguntadas acerca do interesse ou 
não pela representação (art. 91, da Lei nº 
9.099/95). Se a vítima manifestasse 
interesse em representar, o processo 
prosseguiria. Caso contrário, se extinguiria 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
o processo. Portanto, houve retroatividade 
da lei processual penal benéfica à defesa. 
 
Ex.: com o Pacote Anticrime, houve 
alteração da natureza jurídica da ação penal 
no crime de estelionato. O crime de 
estelionato, em regra, era um crime de ação 
penal pública incondicionada. A ação penal 
do crime de estelionato passou a ser pública 
condicionada à representação. Existem 
exceções, em que a ação penal continua a ser 
incondicionada: crime contra 
administração pública direta; crime contra 
criança ou adolescente; contra pessoa com 
deficiência; contra maior de 70 anos. É 
necessário questionar se essa lei que altera 
a natureza jurídica do crime de estelionato 
é mista/híbridaou não. Se for, deverá 
retroagir. Trata-se de tema polêmico na 
jurisprudência. 
 
Ex.: art. 366, do CPP (dispositivo sem 
prestígio, mas muito importante) 
Art. 366. Se o acusado, citado por edital, que 
não comparecer e não constituir advogado, 
ficarão suspensos o processo e o curso do 
prazo prescricional. Prescrição é direito 
penal (direito material). 
 
O fundamental é saber que a lei 
processual penal mista ou híbrida segue 
o tratamento jurídico no tempo e no 
espaço da lei penal. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AULA 16/10/2021 
 
SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS 
Sistema processual penal acusatório 
(Brasil) 
 
A base do sistema acusatório é o art. 129, I, 
da CF/88. Tal dispositivo estabelece que o 
Ministério Público é o titular privativo da 
ação penal pública, significando que quem 
deflagra a ação penal pública em juízo é o 
Ministério Público. Isso significa que todas 
as atribuições da acusação são realizadas 
pelo Ministério Público. 
 
Isso significa um obstáculo intransponível 
para que o Judiciário exerça atribuição da 
acusação, sob pena de flagrante violação ao 
sistema processual penal acusatório, o qual, 
inclusive, é constitucional. O Pacote 
Anticrime instituiu o art. 3º-A ao CPP, de 
modo a clarificar a adoção do sistema 
processual penal acusatório pelo Brasil. 
Contudo, tal dispositivo está suspenso por 
decisão do Ministro Luiz Fux. 
 
É muito importante ter uma visão 
panorâmica da disciplina. Já estudamos o 
CPP na sua origem, a CF/88 e a 
filtragem/releitura constitucional do 
processo. Posteriormente, estudamos lei 
processual penal no tempo e no espaço (o 
ideal é sempre fazer um paralelo com a lei 
penal no tempo e no espaço). Também 
estudamos a lei processual penal híbrida 
(possui efeitos penais no tocante ao tempo 
e ao espaço, de modo que, sendo benéfica à 
defesa, gozará de retroatividade, nos 
termos do art. 5º, XL, da CF e art. 2º, do CP). 
 
O sistema processual penal brasileiro é o 
acusatório (art. 129, I, CF/88 e art. 3º-A, 
CPP). No art. 3º-A, do CPP, vamos verificar 
expressamente que o sistema processual 
penal tem estrutura acusatória. Já na CF/88, 
vamos encontrar que o MP é o titular 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
privativo da iniciativa da ação penal pública 
(base material do sistema penal acusatório). 
 
Ao se atribuir ao MP a titularidade privativa 
da iniciativa da ação penal pública, a CF/88 
atribui ao MP o exercício de todas as 
atribuições da acusação. Assim, por 
corolário, há um obstáculo constitucional 
para que o Judiciário exerça qualquer 
atribuição da acusação. 
 
Essa é a base do sistema processual penal 
acusatório. O Poder Judiciário não pode 
exercer, em hipótese alguma, qualquer 
atividade que tenha conteúdo de acusação, 
pelo motivo óbvio de que o Judiciário vai 
julgar. Ao exercer a acusação, viola 
flagrantemente o sistema penal acusatório. 
 
O sistema processual penal acusatório é 
constitucional desde 1988. Ocorre que o 
CPP e várias leis extravagantes (normas 
infraconstitucionais) autorizam o Poder 
Judiciário a exercer atribuição da acusação. 
Por isso, vários doutrinadores defendiam 
que o sistema processual penal brasileiro 
não seria acusatório, mas, sim, misto 
(acusatório e inquisitório). 
 
Mas esses doutrinadores estavam 
equivocados, uma vez que o sistema 
processual penal acusatório é 
constitucional (art. 129, I, CF/88). Logo, 
todos os dispositivos do CPP e de leis 
extravagantes que autorizam ao Poder 
Judiciário exercer atribuição da acusação, 
violam a CF. Portanto, se anteriores a 1988, 
tais normas não teriam sido recepcionadas 
pela CF. Se posteriores a 1988, tais normas 
seriam inconstitucionais. 
 
Agora, temos o art. 3º-A, do CPP, que 
expressamente versa que o processo penal 
brasileiro tem estrutura acusatória. Por 
isso, hoje não há como defendermos outro 
sistema que não seja o acusatório. 
O sistema processual penal acusatório 
possui outras características: contraditório, 
ampla defesa, paridade de armas, 
transparência, vedação de provas obtidas 
por meios ilícitos, publicidade etc. 
 
Mas o que caracteriza um sistema 
processual penal como sendo acusatório é a 
clara divisão de atribuições: um órgão 
acusa, outro órgão defende, outro órgão, 
independente desses dois, julga. Ou seja, as 
atribuições na persecução penal estão 
muito bem delineadas, de modo que o Poder 
Judiciário não pode, em hipótese alguma, 
realizar atribuição da acusação, sob pena de 
flagrante violação ao sistema processual 
penal acusatório. 
 
Exemplos práticos: 
Ex. 1: A Lei 13.964/2019 (Pacote 
Anticrime) alterou várias leis (CP, CPP, LEP, 
Lei de Interceptação Telefônica, Lei de 
Improbidade Administrativa, Lei dos 
Crimes Hediondos etc.). Antes da Lei 
13.964/2019, o art. 5º, do CPP, autorizava 
ao juiz a requisitar a instauração de 
inquérito policial. O problema é que o juiz 
seria também o responsável por conduzir o 
eventual processo e por proferir sentença. 
Se o juiz requisita a instauração de 
inquérito, é porque vislumbra elementos 
mínimos de que tenha havido um crime. Ou 
seja, em alguma medida o juiz já estaria 
psicologicamente vinculado à acusação. 
 
Ex. 2: A prisão preventiva está disciplinada 
nos arts. 311 a 316, do CPP. Até o ano de 
2011 (Lei 12.403/2011), o CPP (Lei 
infraconstitucional) autorizava que o juiz 
decretasse prisão preventiva de oficio, na 
fase pré-processual e também na fase 
processual, violando flagrantemente o 
sistema penal acusatório. Ou seja, nem MP 
nem delegado requeriam a prisão 
preventiva, mas o juiz a decretava (o mesmo 
juiz que futuramente iria conduzir o 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
processo e proferir sentença). Em 2011, 
houve uma mudança infraconstitucional, 
proibindo o juiz de decretar prisão 
preventiva, de ofício, na fase pré-
processual, mas continuou a permitir a 
decretação na fase processual. O pedido do 
MP, tecnicamente, recebe o nome de 
requerimento. O pedido do delegado recebe 
o nome de representação. Assim, de 2011 
até a Lei Anticrime, o CPP autorizava a 
decretação de prisão preventiva por parte 
do juiz durante o processo, violando a CF e 
o sistema processual penal acusatório. 
Agora, com a Lei Anticrime, o juiz não pode 
decretar prisão preventiva de ofício em 
momento algum. 
 
Ex. 3: art. 385, CPP. Esse dispositivo 
estabelece que no processo, ainda que o MP 
se manifeste pela absolvição do acusado, o 
juiz poderá condená-lo. Mas o MP é o titular 
privativo da iniciativa da ação penal pública. 
O Promotor de Justiça oferece a denúncia 
(inicial acusatória), deflagrando a ação 
penal. O juiz recebe a denúncia, iniciando o 
rito processual. No momento das alegações 
finais, o MP, que é o órgão da acusação, 
entende que não há prova suficiente a 
demonstrar, de modo cabal, a culpabilidade 
do acusado. O MP, portanto, requer a 
absolvição do réu. O art. 385, do CPP, diz que 
o juiz pode condenar o réu. Mas, se o juiz 
condena, está, ao mesmo tempo, acusando e 
julgando. Se quem julga é o Judiciário, ele 
pode condenar. Aparentemente é um 
raciocínio correto, mas, tecnicamente, é 
errado. É errado porque o Poder Judiciário 
não tem compromisso com o combate à 
criminalidade. Quem tem esse 
compromisso são as instituições policiais. O 
Poder Judiciário tem compromisso com a 
CF, com os direitos e garantias 
fundamentais. A absolvição ou a 
condenação são questões 
secundárias/oblíquas/ reflexas. O papel do 
Poder Judiciário no processo penal não é 
proferir muitas condenações, mas, sim, 
prezar pelo devido processo constitucional, 
zelando pelos direitos e garantias do 
acusado. Repita-se, no sistema acusatório, 
cada órgão exerce determinadas 
atribuições. 
 
Art. 385. Nos crimes de ação pública, o juiz 
poderá proferir sentença condenatória, 
ainda que o Ministério Público tenha opinado 
pela absolvição,bem como reconhecer 
agravantes, embora nenhuma tenha sido 
alegada. 
 
Ex. 4: a Lei de Interceptação Telefônica é a 
Lei nº 9296/96 (estudar essa lei). O art. 5º, 
XII, da CF/88 traz o sigilo das conversas 
telefônicas, ao mencionar que, nos termos 
da Lei, pode haver interceptação das 
conversas telefônicas. A Lei nº 9296/96 
autoriza ao juiz a decretar a interceptação 
telefônica de oficio. Mas isso está 
equivocado. É um exemplo atual porque a 
Lei Anticrime introduziu na Lei nº 9296/96 
o que se chama “escuta ambiental”. Não é 
interceptação das ligações telefônicas, mas, 
sim, a gravação de conversa em um 
ambiente (algumas pessoas estão 
conversando em um bar, vem uma outra 
pessoa e grava essa conversa). Ocorre que, 
na escuta ambiental, não há previsão da 
decretação de oficio por parte do juiz. O 
problema é que continua havendo a 
previsão da decretação de oficio da 
interceptação das ligações telefônicas. Ou 
seja, é algo, no mínimo, incoerente. Na 
verdade, nunca pode haver a decretação de 
ofício, com base na filtragem/releitura 
constitucional do processo. Ou seja, como a 
autorização de decretação de interceptação 
telefônica de ofício é posterior a 1988, é 
uma previsão inconstitucional. O mesmo 
raciocínio vale para os demais exemplos. 
 
Após a Lei nº 13.964/2019: essa lei, ao 
alterar o CPP, prevê, expressamente, que o 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
juiz não pode exercer atribuição de 
investigação criminal. Todos os exemplos 
citados (exceto o art. 385, do CPP), já não 
são mais polêmicos, porque após a Lei nº 
13.964/19, não há, por parte do Poder 
Judiciário, requisição de instauração de 
inquérito, decretação de prisão preventiva, 
prova para acusação ou defesa. Sobre a 
interceptação telefônica, o tema ainda não 
está pacificado. Mas o entendimento que 
deve prevalecer é o de que, tendo em vista o 
sistema acusatório e a escuta ambiental, 
essa modificação/interpretação deve se 
estender à interceptação telefônica, como 
uma espécie de reforço hermenêutico (uma 
vez que o art. 129, da CF/88, já prevê o 
sistema acusatório). 
 
O fundamental é entender que o sistema 
processual penal acusatório é 
constitucional. Qualquer norma 
infraconstitucional que permita ao Poder 
Judiciário o exercício de atribuição de 
acusação viola a CF/88. Se anterior à 
CF/88, a norma não será recepcionada. Se 
posterior à CF/88, será inconstitucional. 
 
 
Breves palavras sobre a defesa no 
sistema acusatório 
 
O juiz pode exercer atribuição em benefício 
da defesa? Não. Por que? É uma observação 
estrutural do sistema acusatório. O CPP 
prevê no art. 386, VII: 
 
Art. 386. O juiz absolverá o réu, 
mencionando a causa na parte dispositiva, 
desde que reconheça: 
VII – não existir prova suficiente para a 
condenação. 
 
Essa é uma previsão estrutural do sistema 
acusatório, no sentido de que o juiz não 
precisa se preocupar em produzir prova 
para beneficiar a defesa. No processo penal, 
há o princípio do estado de não 
culpabilidade (presunção de inocência). 
Quando estudamos esse princípio, 
estudamos o ônus da prova no processo 
penal, concluindo que o ônus da prova é 
todo da acusação. 
 
Significa que a defesa não tem ônus de 
provar que o acusado é inocente. Quem tem 
que provar que o acusado praticou o crime 
que lhe está sendo imputado é quem acusa 
(Ministério Público ou querelante). A defesa 
não tem ônus algum e o juiz não tem que se 
preocupar com isso. 
 
Ônus significa que se a pessoa não fizer, 
sofrerá um prejuízo, o que não ocorre com a 
defesa que, ao contrário da acusação, tem a 
mera faculdade de provar. Em síntese, quem 
tem que produzir a prova é a acusação, de 
modo que se não provar de modo 
irrefutável que o acusado é culpado, não 
precisa ter prova da defesa, devendo o 
Judiciário absolver o réu por insuficiência 
de provas, nos termos do art. 386, VII do 
CPP. 
 
Ou seja, o Judiciário também não pode 
produzir provas para a defesa, sob pena de 
violar o sistema acusatório. Mesmo se a 
defesa não produz nenhuma prova e o juiz 
entende que a acusação não produziu 
provas suficientes para provar de modo 
cabal que o acusado é culpado, o acusado 
deve ser absolvido. Mas, se a acusação 
prova, de modo irrefutável, afasta as provas 
(ainda que ausentes) da defesa. 
 
 
Sistema inquisitivo/inquisitório 
 
Principal característica: o órgão julgador 
(Poder Judiciário), além de exercer 
atribuição de julgar, também exerce 
atribuição de acusar, sendo que ambas se 
confundem. Decreta prisão de ofício, 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
requisita instauração de inquérito, condena 
o acusado ainda que o MP requeira 
absolvição, produz prova de oficio, 
determina interceptação telefônica etc. 
 
E o sistema misto? 
 
Possui características do sistema acusatório 
e possui características do sistema 
inquisitivo. Vários doutrinadores no Brasil 
já defenderam a existência do sistema 
processual penal misto, à luz de dois 
fundamentos: 
 
(i) Fundamento fraco: a persecução penal se 
subdivide em: fase pré-processual 
(investigação) e fase processual (ação 
penal). Na fase pré-processual, há uma 
temática interessante e polêmica, que é a 
indagação se na fase pré-processual os 
princípios constitucionais (contraditório e 
ampla defesa) estariam presentes. Esses 
princípios são garantias fundamentais 
individuais. O art. 5º, LV, CF/88, traz essas 
garantias, estabelecendo que, onde houver 
acusação, deve haver contraditório e ampla 
defesa. A fase pré-processual é de 
investigação e não de acusação, 
prevalecendo o entendimento de que nessa 
fase não haveria contraditório/ampla 
defesa, sendo, portanto, 
inquisitiva/inquisitória. Já na fase 
processual, há acusação, de modo que o 
contraditório e a ampla defesa são 
imprescindíveis. É um fundamento fraco 
porque, em que pese seja verdade o 
prevalecimento do entendimento de que a 
fase pré-processual é inquisitiva, também é 
verdade que essa fase, como a própria 
semântica indica, não é processo, porque é 
anterior (pré) ao processo. 
 
(ii) Fundamento forte (equivocado): vários 
artigos do CPP e de leis processuais penais 
extravagantes, autorizavam o juiz a exercer 
atribuições da acusação, sendo verdade que, 
com base nesses dispositivos 
infraconstitucionais, o sistema processual 
penal brasileiro seria misto. Mas todos esses 
dispositivos violam a CF/88 (ou não foram 
recepcionados ou são inconstitucionais). 
Esses doutrinadores diziam, com uma certa 
razão, que a teoria da não recepção ou 
inconstitucionalidade é correta. Mas na 
prática, o Judiciário viola, até hoje, o sistema 
processual penal acusatório. 
 
Com base na alteração do CPP pela Lei nº 
13.964/2019, parece não caber mais o 
entendimento de que o sistema processual 
penal brasileiro seja o misto, porque agora, 
de modo expresso, o CPP, no art. 3º-A, diz 
que o processo penal brasileiro tem 
estrutura acusatória. 
 
 
JUIZ DAS GARANTIAS 
 
O Juiz das Garantias é condição de 
possibilidade para o devido processo 
constitucional. Ou seja, sem juiz das 
garantias, nenhum processo penal é devido. 
Hoje, ainda não temos o juiz das garantias. 
 
A Lei nº 13.964/2019 alterou o CPP e previu 
o juiz das garantias. Ocorre, que o Ministro 
Luiz Fux, do STF, concedeu medida cautelar 
em algumas ações diretas de 
inconstitucionalidade (ADI 6298, 6296, 
62300 e 62305), suspendendo a eficácia dos 
artigos do CPP sobre juiz das garantias. 
 
Por que o juiz das garantias é condição de 
possibilidade para o devido processo 
constitucional? A persecução penal se 
subdivide em fase pré-processual e fase 
processual. Com o juiz das garantias, 
teremos um juiz atuante apenas na fase pré-
processual e um outro juiz que irá atuar na 
fase processual. Este último, não pode ter 
contato algum com o material produzido na 
fase pré-processual.Durante a fase pré-
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
processual, medidas cautelares podem ser 
requeridas pelo MP ou pode haver 
representação pelo Delegado de Polícia, 
para que medidas cautelares sejam 
deferidas. 
 
Ex.: representação ou requerimento da 
prisão temporária do investigado, ou da 
busca e apreensão etc. Quem vai decidir é o 
juiz (da fase pré-processual), o qual vai 
atuar para preservar a legalidade da 
investigação. O problema, desde sempre, é 
que o mesmo juiz que atua na fase pré- 
processual, atua na fase processual. 
 
Ex.: há um inquérito policial (IP) 
investigando crime de estupro. O delegado 
representa pela interceptação de ligações 
telefônicas em determinado número. O juiz 
Roberto, da 1ª Vara Criminal, autoriza a 
interceptação. O inquérito é encerrado e o 
promotor de justiça oferece a denúncia. 
Quem vai analisar se recebe ou não a 
denúncia é o mesmo juiz. O juiz Roberto 
teve contato com todo material produzido 
na fase de investigação e está, pois, 
contaminado pelo material produzido na 
fase pré-processual. Ele levará essa 
contaminação para a fase processual. Uma 
das bases do sistema penal acusatório é que 
o juiz que atua na fase processual, não pode 
ter tido contato com a fase pré-processual. 
 
Mas, até hoje, uma vez que não temos o juiz 
das garantias na prática, é o mesmo juiz que 
atua em ambas as fases. O ponto 
fundamental é que o IP não é o único 
instrumento investigativo, apesar de ser o 
mais estudado. A conceituação de IP é um 
procedimento investigativo administrativo, 
persecutório, instaurado e presidido por 
delegado de polícia consistente em um 
comando de diligências para se identificar 
meios de prova, produzir elementos 
informativos, formar o conhecimento do 
titular da iniciativa da persecução penal, no 
sentido de deflagrar em juízo ou não e 
subsidiar o Poder Judiciário no tocante a 
eventuais medidas cautelares. Com base 
nesse conceito, extrai-se os destinatários do 
material produzido no IP: 
 
a) Destinatário imediato (direto): o 
titular da iniciativa da ação penal vai 
formar o seu conhecimento para 
verificar se os materiais necessários 
para instaurar estão presentes ou 
não, com base nos materiais 
produzidos; 
 
b) Destinatário mediato (indireto): o 
Poder Judiciário, no tocante à 
decretação ou não de eventuais 
medidas cautelares, que podem ser 
requeridas ou representadas no 
curso da investigação criminal. A 
decisão pela decretação ou não, será 
feita com base no que foi produzido 
na fase pré-processual. Mas o Poder 
Judiciário não é destinatário em 
relação ao mérito da ação penal 
(acusação ou absolvição). Significa, 
portanto, que o juiz que for decidir o 
mérito, não pode decidi-lo com base 
no material produzido na fase pré-
processual, mas, sim, na fase 
processual. Por isso, o juiz das 
garantias é condição de 
possibilidade para o devido processo 
constitucional, porque o juiz que for 
decidir o mérito não pode ter contato 
algum com a fase pré-processual. Por 
mais que na sentença o juiz não 
mencione expressamente material 
produzido na fase pré-processual, 
psicologicamente, por ter tido 
contato, esse material estará 
introjetado na sua mente, 
contribuindo, em alguma medida, 
para a interpretação do material 
produzido no processo. 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
AULA 23/10/2021 
 
PRINCÍPIOS DO DIREITO PROCESSUAL 
PENAL 
 
O que é princípio e qual a sua 
relevância? 
 
Não há dúvidas de que princípio é um tema 
extremamente relevante. Em algum 
momento, estudamos o positivismo, o qual 
possui várias vertentes. Um ponto 
fundamental no positivismo é o seu 
contraponto com as teorias jusnaturalistas. 
 
Algumas características das teorias 
positivistas são: 
 
(i) o distanciamento entre o direito e a 
moral (secularização do Direito); 
(ii) grande preocupação com o ativismo do 
órgão decisório (ativismo judicial). As 
teorias positivistas buscavam limitar o 
espaço de criação do órgão julgador, porque 
em algum momento da história, o Estado 
criava as leis e o mesmo órgão as 
interpretava, o que ensejava muitas 
arbitrariedades (para Kelsen: decisionismo; 
para Dworkin: discricionariedade em 
sentido forte e combate à filosofia da 
consciência). Então, o órgão julgador 
simplesmente verificaria a previsão 
positiva para determinado caso concreto e a 
aplicaria ao caso, sem fazer qualquer 
interpretação (“juiz boca da lei”). Ocorre 
que a Lei não consegue prever todas as 
hipóteses possíveis da vida. Então, sempre 
ocorria uma hipótese concreta que não 
guardava paralelo à lei. Como decidir nessas 
hipóteses? Sabemos que no Direito há algo 
chamado non liquid — significa que o órgão 
decisório não pode deixar de decidir sob o 
fundamento de que não há previsão legal 
para aquela hipótese. Algumas teorias 
jurídicas caem nessa armadilha. Para essas 
teorias, se o caso em concreto não possui 
previsão no ordenamento jurídico, o juiz 
decide como quiser. Assim, essas teorias 
legitimam e escancaram a 
discricionariedade e a arbitrariedade. 
Decidir fora do ordenamento não é algo 
democrático e fragiliza o Estado 
Democrático e a autonomia do Direito, a 
separação de poderes (art. 60, §4º, CF/88). 
Isso, pois, a lei é elaborada pelo povo e 
contempla a vontade da coletividade. 
Quando um juiz decide fora do 
ordenamento jurídico, está sobrepujando a 
vontade da coletividade, do povo. 
 
“Quando a lei (o ordenamento jurídico) for 
omissa, o juiz decidirá de acordo com a 
analogia, os costumes e os princípios gerais 
do Direito.” 
 
Essa frase é típica do paradigma teórico das 
teorias positivistas. Princípio geral do 
Direito não seria, pois, norma jurídica, mas 
seria algo não pertencente ao ordenamento 
jurídico, porque, se fosse, o ordenamento 
não seria omisso. 
 
O que é princípio geral do Direito e o 
que é princípio? 
 
Atualmente, alguns doutrinadores os 
diferenciam e outros não. Com base nos 
ensinamentos do Prof. Lênio Streck, a frase 
em análise é um mecanismo de fechamento 
de várias teorias positivistas, porque a 
regra, em várias teorias positivistas, é o juiz 
boca da lei. E se o caso não guarda previsão 
no ordenamento, o positivismo é fechado 
com essa frase. Por isso, essa frase não deve 
mais ser utilizada, porque, segundo ela, 
princípio geral do Direito não é norma; se 
fosse, o ordenamento jurídico não seria 
omisso. 
 
Princípio ganha uma enorme relevância 
após a 2ª Guerra Mundial, porque as 
atrocidades ocorridas na 2ª Guerra Mundial 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
fizeram com que os países repensassem o 
Direito, uma vez que o nazismo possuía 
adequação com o ordenamento jurídico da 
Alemanha. Surge, então, um movimento na 
Europa chamado neoconstitucionalismo, 
desencadeando um novo olhar sobre o 
constitucionalismo. 
 
O que é um princípio? 
 
Já há algum tempo, princípio é norma 
jurídica, assim como a regra também o é. 
Então, princípio é algo cogente, de 
observância obrigatória. Quando dizemos 
“a lei tem que ser cumprida”, está-se 
dizendo que os princípios, assim como as 
regras, têm que ser cumpridos. 
 
Quais as diferenças entre princípios e 
regras? Há uma discussão teórica intensa 
sobre esse tema. Uma mesma previsão legal 
pode ser uma regra. Toda regra existe para 
concretizar/densificar um ou mais 
princípios. Os princípios é que conferem 
sentido/legitimidade às regras. A regra não 
está isolada/independente dos princípios. 
 
Ex.: no DPP, o prazo para apresentação de 
resposta à acusação é de 10 dias (regra – 
aquilo que normalmente acontece, que é 
ordinário). Essa regra concretiza princípios 
constitucionais: contraditório e ampla 
defesa. O prazo de 10 dias é suficiente para 
a concretização dos princípios do 
contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LV, 
CF)? Em regra, o prazo de 10 dias ésuficiente. Mas, em um determinado 
processo, a acusação oferece a denúncia 
(inicial acusatória da ação penal pública) e 
junta aos autos 20 mil páginas de 
documentos. Neste caso, a regra do prazo de 
10 dias será suficiente para a resposta à 
acusação? Não. Neste caso extraordinário, o 
juiz afastará o prazo de 10 dias para 
apresentação de resposta à acusação e 
estabelecerá um novo prazo. 
O princípio corrige a regra para adaptá-la às 
peculiaridades do caso concreto. 
 
A regra prevista no ordenamento jurídico é 
concreta, com baixo grau de abstração e alto 
grau de concretude. 
 
O princípio, por sua vez, é uma norma 
jurídica fluida, de conteúdo indeterminado. 
Por isso, o princípio é plástico e pode se 
amoldar às peculiaridades daquele caso. 
 
Para Lênio Streck, o princípio é que vai 
colorir o ordenamento jurídico, trazendo a 
riqueza da vida concreta. 
 
Princípio, então, possui alto grau de 
abstração, para alguns doutrinadores, 
princípios possuem a dimensão do peso 
(calibragem). 
 
A doutrina diz, ainda, que, havendo conflito 
entre regras, a resposta se daria no plano da 
validade, porque a regra não teria o plano 
do peso. “Tudo ou nada” = ou é válida e 
cumprimos a regra ou é inválida e não 
cumprimos, salvo se houver uma cláusula 
de exceção que possibilite a convivência 
harmônica entre regras conflituosas. 
 
Já os princípios, não. Pela sua maleabilidade, 
é possível a calibragem dos princípios ao 
caso concreto. Alexy (procedimento da 
ponderação) e Dworkin (direito como 
integridade e coerência) buscam resolver a 
colisão de princípios. A calibragem de 
princípios não pode ser 
discricionária/decisionista. Essa 
calibragem é de acordo com o ordenamento 
jurídico. A CF/88 estabelece 
vetores/balizas para orientar a calibragem. 
Por isso mesmo, há a fundamentação da 
decisão, a fim de que haja um controle, 
inclusive pela própria sociedade. 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
PRINCÍPIOS 
 
Devido processo constitucional/legal 
(art. 5º, LIV, CF/88) 
 
Art. 5º (...), LIV, CF/88. Ninguém será 
privado da liberdade ou de seus bens sem o 
devido processo legal. 
 
Todos os demais princípios decorrem deste. 
Havendo violação a qualquer um deles, o 
processo não será devido e também estará 
havendo violação ao devido processo 
constitucional. Em algum momento da 
história, existia apenas esse princípio de 
modo expresso. Os demais, eram implícitos. 
Mas, no decorrer da história, foram 
ganhando vida/luz própria. Mas ainda há 
princípios constitucionais implícitos, por 
exemplo, proporcionalidade e efetividade 
do processo. 
 
O princípio da duração razoável do 
processo, por exemplo, sempre existiu. 
Contudo, até o ano de 2004 (EC 45/2004), a 
duração razoável do processo era um 
princípio implícito. Hoje, desde a EC 
45/2004, tem previsão explicita no art. 5º, 
LXXVIII, CF/88. 
 
Os princípios do processo são direitos 
fundamentais. O direito fundamental de 
conteúdo processual pode ser denominado 
de garantia fundamental. Por isso, vários 
doutrinadores fazem referência apenas a 
direitos fundamentais, porque abarca as 
garantias. Portanto, o conjunto de 
direitos/garantias fundamentais é que 
constituem o devido processo 
constitucional e limitam o exercício do 
poder. 
 
Cada vez mais, o ordenamento jurídico 
brasileiro mitiga/relativiza o devido 
processo constitucional. Em direito penal, 
há um doutrinador espanhol, Silva Sanchez, 
que desenvolveu uma ideia de direito penal 
em velocidades (1ª, 2ª e 3ª velocidades). O 
que nos interessa aqui é a 2ª velocidade. Vai 
cair na prova. 
(i) A primeira velocidade, seria o direito 
penal clássico, tradicional, que abarca os 
crimes mais graves (homicídio, estupro, 
roubo, tráfico). nesses crimes, o direito 
penal lidaria com a pena privativa de 
liberdade. Portanto, o devido processo 
deveria ser observado de modo estrito. 
 
(ii) Na segunda velocidade, o direito penal 
não lidaria com a pena privativa de 
liberdade. Por isso, se admitiria a 
mitigação/relativização de garantias 
fundamentais, a exemplo do devido 
processo constitucional. Isso, pois, não 
haveria prisão. Ex.: transação penal no 
Juizado Especial Criminal (art. 76 da Lei nº 
9.099/95). Na transação penal, não há 
processo. O MP oferece um acordo, para que 
o réu cumpra pena(s) restritiva(s) de 
direitos ou pena(s) pecuniária(s), para que 
não seja preso em caso de condenação. E o 
devido processo constitucional? Portanto, o 
Direito Penal de segunda velocidade 
relativiza esse princípio constitucional. 
 
(iii) Na terceira velocidade, o direito penal 
lidaria com a pena privativa de liberdade e, 
mesmo assim, se admitiria a mitigação de 
garantias fundamentais. Não é sinônimo, 
embora sejam similares, ao Direito Penal do 
Inimigo de Gunther Jakobs. Ex.: regime 
disciplinar diferenciado. 
 
 
Juiz(ízo) natural 
(art. 5º, XXXVII e LIII, CF/88) 
 
O inc. LIII complementa a garantia contida 
no inc. XXXVII. 
Art. 5º (...), LIII, CF/88. Ninguém será 
processado nem sentenciado senão pela 
autoridade competente. 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
Art. 5º (...), XXXVII, CF/88. Não haverá juízo 
ou tribunal de exceção. 
 
O segundo veda tribunal de exceção, 
enquanto o primeiro estabelece a 
competência desse tribunal. Ou seja, o inc. 
XXXVII se refere à existência do 
juízo/tribunal, enquanto o LIII, em 
complemento, faz referência à competência. 
 
Juízo ou tribunal de exceção significa a 
criação de um tribunal para julgar um caso 
ou alguns casos específicos (ad hoc). 
 
Ex.: Américo comete um crime e o 
presidente do STF é amigo de Américo. 
Américo deveria ser processado 
(competência) e julgado (órgão) na Vara 
Criminal de Diamantina. Américo vai até o 
presidente do STF e pede ajuda. Este 
determina a criação de uma nova Vara 
Criminal em Diamantina (observe, após o 
cometimento da conduta) e designa um juiz 
que é amigo de infância de Américo. 
 
Uma das características da vedação de juízo 
ou tribunal de exceção é que este deve 
existir antes/a priori do cometimento da 
conduta em tese delituosa. Porque se o 
tribunal é criado após o cometimento da 
conduta, pode ter sido criado para 
beneficiar ou prejudicar o suposto autor do 
crime. Busca-se preservar a imparcialidade 
do julgador que irá conduzir o processo e 
decidir, uma vez que a imparcialidade é um 
requisito de validade do processo. 
 
O inc. LIII, por sua vez, complementa o inc. 
XXXVII. Neste caso, o juízo já existe. Se fosse 
possível, após o cometimento da conduta 
em tese delituosa, a alteração da 
competência desse juízo, também violaria o 
juízo natural. 
 
Ex.: se Américo comete um crime em 
Diamantina, deverá ser processado e 
julgado pela Vara Criminal de Diamantina e 
não de Curvelo. 
 
O inc. LIII traz um equívoco técnico: a 
competência não é do juiz (da autoridade/ 
da pessoa), mas, sim, do órgão jurisdicional 
(limite da jurisdição). Juiz pode ser 
impedido ou suspeito, mas jamais 
competente ou incompetente. É algo similar 
com o Ministério Público: “representante do 
Ministério Público” para fazer referência ao 
promotor, por exemplo. Mas, tecnicamente, 
isso está errado. Tecnicamente, o correto é 
“presentante”. Isso, pois, o promotor não 
REPRESENTA o Ministério Público, mas, 
sim, É o Ministério Público. 
 
 
Ampla defesa 
(art. 5º, LV, CF/88) 
 
Art. 5º (...), LV, CF/88. Aos litigantes, em 
processo judicial ou administrativo, e aos 
acusados em geral são assegurados o 
contraditório e ampla defesa, com os meios e 
recursos a ela inerentes. 
 
Hoje, esse princípio é corriqueiramente 
violado no âmbito da Administração 
Pública, em processos administrativos 
disciplinares, à margem do Poder Judiciário. 
O art. 5º, LV, CF/88, estabelece que sempre 
que houver uma acusação (não 
necessariamente criminal) os princípiosdo 
contraditório e da ampla defesa devem ser 
observados. 
 
O princípio da ampla defesa 
abrange/abarca o princípio do 
contraditório, ou seja, o princípio do 
contraditório está contido na ampla defesa. 
Ou seja, havendo violação ao princípio do 
contraditório, inexoravelmente haverá 
violação do princípio da ampla defesa. 
Significa que a recíproca não é verdadeira. 
Poderá haver lesão à ampla defesa e não 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
haver violação ao princípio do 
contraditório. O princípio do contraditório é 
mais restrito. 
 
NÃO CONFUNDIR AMPLA DEFESA COM 
PLENITUDE DE DEFESA!!! A plenitude de 
defesa está prevista no art. 5º, XXXVIII, 
CF/88. A plenitude de defesa só está 
presente no julgamento pelo Conselho de 
Sentença, na sessão plenária perante o 
Tribunal do Júri. Não sendo julgamento no 
Tribunal do Júri, a defesa é ampla e não 
plena. 
 
Na ampla defesa, a defesa poderá se valer de 
todos os argumentos lícitos, jurídicos, 
admitidos no ordenamento jurídico ou não 
proibidos no ordenamento jurídico. Isso, 
pois, o juiz que vai julgar é vinculado ao 
ordenamento jurídico e deve fundamentar a 
sua decisão com base neste, uma vez que 
argumentos metajurídicos não podem ser 
levados em consideração pelo juiz togado. 
 
Na plenitude de defesa, a defesa é plena, isto 
é, mais do que a ampla defesa. A ampla 
defesa está contida na defesa plena. Mas o 
que é esse plus na plenitude de defesa? 
Nesta, a defesa pode se valer de argumentos 
jurídicos, mas também pode se valer de 
argumentos metajurídicos, isto é, fora do 
ordenamento (políticos, sociais, 
criminológicos, raciais, sexuais, 
psicológicos, históricos etc.). Na plenitude 
de defesa, quem julga são os jurados e estes 
não fundamentam as suas decisões, apenas 
votam “sim” ou “não”, sem explicitar ou 
publicizar quais foram os fundamentos que 
o levaram a julgar naquele sentido. Há o 
sistema da íntima convicção, de modo que o 
jurado só tem compromisso com a sua 
própria consciência, sem ter que decidir de 
acordo com o ordenamento jurídico. 
Portanto, a defesa é plena, porque o jurado 
pode decidir “com base no que ele quiser”, 
sem que saibamos os seus fundamentos. Por 
isso, é necessário linkar a plenitude de 
defesa com o sistema da íntima decisão. 
Ex.: em clubes ou condomínio, em um jogo 
de futebol, dois associados discutem e um 
agride o outro. Na semana seguinte, um dos 
associados volta ao clube. Quando passa 
pela portaria do clube, a pessoa que 
trabalha na portaria o impede de ingressar 
no clube, em razão da briga na semana 
anterior. E o contraditório e a ampla defesa? 
Essa decisão do clube é nula, por mais grave 
que tenha sido a conduta, porque é 
necessário observar o devido processo. 
 
O que é importante destacar é que esses 
princípios não são aplicáveis apenas ao 
processo jurisdicional. Alguns, sim. Mas 
outros, transcendem e aplicam-se a 
qualquer processo. 
 
Eficácia horizontal dos direitos 
fundamentais: aplicação dos direitos 
fundamentais às relações privadas, nas 
quais não há a figura do Estado. 
 
É com base na garantia fundamental da 
ampla defesa (não é contraditório) que se 
admite, excepcionalmente, prova ilícita em 
benefício da defesa. Mas é algo muito 
excepcional, cujo cabimento será analisado 
casuisticamente. Em regra, não se admite 
prova ilícita. Em benefício da acusação 
jamais será admitida prova ilícita (não há 
exceção). 
 
Um dos temas mais árduos do processo 
penal é se na investigação criminal, na fase 
pré-processual, os princípios do 
contraditório e da ampla defesa devem ser 
observados ou não. 
 
O entendimento majoritário é o de que a 
fase preliminar é uma investigação e não 
uma acusação e, por isso, não haverá a 
obrigatoriedade de se observar o 
contraditório e ampla defesa. A pergunta 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
seria: contraditar e defender o que, se não 
há acusação? Mas observe que não há 
acusação formalizada, tendo em vista que a 
formalização ocorre com o oferecimento da 
inicial acusatória (petição inicial da ação 
penal). Se a ação penal é pública, a inicial 
acusatória é a denúncia. Se é privada, a 
inicial acusatória é a queixa-crime. O 
Ministério Público é o titular privativo da 
ação penal pública (art. 129, I, CF/88). A 
queixa-crime é oferecida pelo querelante 
(vítima do crime ou o seu representante 
legal na hipótese de incapacidade). 
 
Fato é que na investigação criminal (fase 
pré-processual), não há uma acusação 
formal. Entretanto, há uma acusação em 
potencial (não é concreta/efetiva), mas é 
claro que há uma carga de acusação. Se é 
instaurado um inquérito policial para 
investigar alguém pela suposta prática de 
crime de furto, em que pese seja apenas uma 
investigação, há a potencialidade de uma 
acusação. Por isso, alguns doutrinadores 
entendem, de forma minoritária, que na 
fase pré-processual poderá haver uma 
acusação em potencial e, portanto, exigiria 
contraditório e ampla defesa. Mas é claro 
que o contraditório e a ampla defesa 
presentes na investigação criminal teriam 
um conteúdo diferente do contraditório e da 
ampla defesa na fase processual. 
 
Para corroborar esse entendimento 
minoritário, o Estatuto da OAB, no art. 7º, 
prevê expressamente a atuação do 
advogado na investigação criminal. Ora, se 
pode haver atuação de advogado durante a 
investigação criminal, não seria óbvio que o 
seu papel, em alguma medida, seria para 
defender o investigado? Assim, em alguma 
medida, há acusação. Essa “em alguma 
medida” é a acusação em potencial, 
demonstrando a existência de contraditório 
e ampla defesa na investigação. 
 
O Pacote Anticrime alterou o CPP para 
prever no art. 14-A que instaurada 
investigação criminal para se investigar 
agente público integrante da segurança 
pública ou das forças armadas (art. 144, CF), 
em decorrência do uso de força letal, 
necessariamente a autoridade que 
instaurou a investigação criminal, deverá 
“citar” (o adequado seria intimar) o agente 
público investigado para que este, no prazo 
de 48 horas constitua advogado. 
 
E o art. 14 ainda diz em um de seus 
parágrafos que se a pessoa citada não 
constituir advogado em 48 horas, haverá a 
intimação da instituição que o agente 
público integrava no momento do suposto 
crime, para que a instituição designe 
advogado para atuar na investigação 
criminal. 
 
- Inquérito policial: instrumento 
investigatório das polícias investigativas 
(polícia federal e polícia civil). 
- Procedimento de Investigação Criminal 
(PIC): Ministério Público. 
- Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI): 
procedimento investigativo do poder 
legislativo. 
- Inquérito policial militar: instrumento 
investigativo da polícia militar. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
AULA 13/11/2021 e AULA 20/11/2021 
 
Contraditório 
 
A ampla defesa e o contraditório são 
umbilicalmente ligados e, em alguma 
medida, se confundem, mas em outra 
medida, não. O contraditório perfaz o 
direito de informação e reação. Essa 
dinâmica, contudo, é o conteúdo do 
contraditório em uma acepção clássica. 
Modernamente, o conteúdo do 
contraditório foi enriquecido e é o que se 
chama acepção moderna do contraditório. A 
acepção moderna nada mais é do que a 
acepção clássica/tradicional cotejada pelo 
princípio da proporcionalidade. 
 
Modernamente, é possível conceituar o 
contraditório como direito à informação e 
oportunidade de reação de modo 
proporcional à informação. Portanto, a 
acepção moderna de contraditório é: 
 
-> Direito de informação; 
 
-> Oportunidade de reação na 
mesma extensão e na mesma 
profundidade da acusação (paridade 
de armas/proporcionalidade). 
 
Não podemos nos esquecer que princípios 
do processo (qualquer processo) são 
direitos fundamentais de conteúdo 
processual (garantiasprocessuais/cláusulas pétreas). 
 
Direitos e garantias fundamentais 
individuais são cláusulas pétreas, nos 
termos do art. 60, §4º, da CF/88. Mas o STF 
e a doutrina entendem, pacificamente, que 
qualquer direito ou garantia fundamental é 
cláusula pétrea. 
 
É importante destacar que todos os 
princípios são garantias 
fundamentais/cláusulas pétreas e 
contraditório e ampla defesa são garantias 
fundamentais muito importantes. Um 
processo penal que os viole não é um 
processo devido. 
 
É necessário entender que no processo 
penal a forma é garantia. A finalidade do 
processo penal é limitar o exercício do ius 
puniendi. As garantias fundamentais que 
forjam o devido processo penal limitam o 
poder estatal. Ao final do processo penal, 
com uma decisão condenatória, para que 
esta seja legitimamente executada, todas as 
garantias fundamentais do acusado devem 
ter sido observadas. Ou seja, o Estado só 
terá legitimidade para executar a decisão se 
todas as garantias fundamentais do acusado 
tiverem sido observadas. 
 
Mas a observância das garantias 
fundamentais faz com que o processo seja 
um pouco mais moroso. Por isso, a 
Constituição da República não prevê o 
princípio da “celeridade”, mas, sim, da 
duração razoável do processo. Processo 
“rápido” significa violação das garantias 
fundamentais. Então, tem que haver um 
equilíbrio. As garantias fundamentais não 
podem ser exacerbadas com o escopo 
protelatório de postergar a prestação 
jurisdicional. 
 
Estado de não culpabilidade – 
presunção de inocência 
(art. 5º, LVII, CF) 
 
Art. 5º (...), LVII, CF/88. Ninguém será 
considerado culpado até o trânsito em 
julgado de sentença penal condenatória. 
 
Nomenclatura adequada: essa discussão 
tem relevância apenas teórica, porque, na 
prática, ela é inócua/estéril. De acordo com 
o entendimento do STF, a nomenclatura 
adequada é princípio do estado de não 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
culpabilidade. Mas, de acordo com a 
doutrina, a nomenclatura adequada seria 
presunção de inocência. 
 
“Ninguém será considerado culpado até o 
trânsito julgado da sentença penal 
condenatória.” 
 
Nessa redação, há alguma presunção ou há 
o estabelecimento de um estado 
constitucional? Por isso, acertadamente, 
Pacelli diz que falar em presunção já 
significa uma mitigação indevida dessa 
garantia. Não há presunção alguma. O que 
há é um estado constitucional (uma situação 
constitucional). Não faz referência a 
inocente, mas, sim, a não culpado. 
 
A discussão teórica é o Pacto de São José da 
Costa Rica (Convenção Interamericana de 
Direitos Humanos), de 1976. O Pacto só foi 
aderido pelo Brasil em 1992. No Pacto, o 
princípio é o da presunção de inocência. A 
Constituição Federal é de 1988. Então, 
discute-se: essa previsão no Pacto alterou a 
previsão do art. 5º, LVII, da CF/88, já que a 
adesão ao Pacto é posterior à CF/88? 
 
Qual é o estado normativo do Pacto de São 
José da Costa Rica? Se tiver ingressado no 
ordenamento jurídico com o status de 
emenda constitucional, altera a CF. Se tiver 
ingressado com status diferente do 
constitucional, não alterou a CF. 
 
O STF entende que pactos/tratados 
internacionais de Direitos Humanos, ao 
ingressarem no direito brasileiro, se 
observarem o procedimento legislativo da 
emenda constitucional, ingressa no 
ordenamento jurídico brasileiro com status 
constitucional. Essa possibilidade surge no 
Brasil apenas em 2004 com a EC 45/2004. A 
EC 45/2004 insere no art. 5º, da CF/88 o 
parágrafo 3º, o qual admite a observância 
do procedimento legislativo da EC para ter 
status constitucional. 
O STF entende que pacto que não observa o 
procedimento legislativo teria status 
supralegal (abaixo hierarquicamente da CF, 
mas acima das demais leis). O Pacto de São 
José, tem status supralegal e, portanto, não 
altera a CF. 
 
Os principais doutrinadores (Flavia 
Piovesan, Cançado Trindade) e a doutrina 
amplamente majoritária discorda do STF, se 
valendo do §2º, do art. 5º, da CF/88 como 
fundamento. Para a maioria da doutrina, 
todo e qualquer tratado/pacto 
internacional de Direitos Humanos, ao 
ingressar no Direito Brasileiro, ingressaria 
com status normativo constitucional, sendo 
irrelevante a observância ou não do 
procedimento legislativo das emendas 
constitucionais. Então, para a doutrina, o 
Pacto de São José da Costa Rica tem status 
constitucional e, portanto, alterou o 
conteúdo do art. 5º, LVII, CF/88 e a 
nomenclatura correta seria presunção de 
inocência. 
 
Como dito, essa discussão é teórica e não 
tem nenhuma relevância prática. 
 
O princípio e seus desdobramentos: o 
princípio do estado de não culpabilidade se 
desdobra em três regras: 
 
(i) regra do tratamento: impõe a todos que, 
enquanto não transitar em julgado a 
sentença penal condenatória, a pessoa seja 
tratada como não culpada. Então, TODOS 
(polícia, poder judiciário, imprensa...) têm o 
dever constitucional de tratar a pessoa 
como não culpado até o trânsito em julgado 
da decisão penal. 
 
Ex.: vou prestar um concurso público para a 
magistratura de Minas Gerais e sou 
aprovada no concurso público. Entretanto, 
Laís Lopes de Sousa 
7º período – 2021/02 
estou respondendo a um processo criminal 
por um crime de homicídio. Já fui 
condenada pelo Tribunal do Júri a uma pena 
de 22 anos de reclusão. Entretanto, interpus 
apelação, de modo que ainda não houve o 
trânsito em julgado da decisão 
condenatória. Eu vou tomar posse nesse 
concurso? Sim, em razão da regra de 
tratamento. 
 
Ex.: fiz uma festa na república, os vizinhos 
chamaram a polícia e fui chamado a 
comparecer no Juizado Especial e aceitei 
uma proposta transação penal (art. 76, da 
Lei nº 9099/95). Agora, colei grau. Isso vai 
me prejudicar em eventual prestação de 
concurso público? Não. A transação penal 
ocorre antes mesmo do processo, de modo 
que não há decisão penal condenatória, 
muito menos transitada em julgado. O único 
prejuízo sofrido é que no lapso temporal de 
05 anos, não poderá ser realizada nova 
transação penal. Mas, apesar disso, alguns 
concursos desclassificam o candidato e o 
candidato deve impetrar um mandado de 
segurança. 
 
(ii) regra sobre a distribuição do ônus da 
prova: a regra sobre o ônus da prova 
estabelece de que modo o ônus da prova é 
distribuído no processo penal. É um 
desdobramento do estado de não 
culpabilidade. O ônus da prova no processo 
penal é todo da acusação. A defesa não 
possui ônus probatório algum. Isso se deve 
em razão do estado de não culpabilidade, 
isto é, o acusado é constitucionalmente não 
culpado até o trânsito em julgado da 
sentença penal condenatória. Em Direito 
Penal I, estudamos o conceito analítico-
dogmático de infração penal, conceito 
tripartido com 3 atributos ou substratos 
 
1 Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa 
na parte dispositiva, desde que reconheça: (...) VII – não 
existir prova suficiente para a condenação. 
(fato típico, ilicitude e culpabilidade). 
Significa que é a acusação que tem que 
provar que o fato praticado é típico, que o 
fato típico é ilícito e que o fato típico e ilícito 
é culpável. Mas, é claro que, se a defesa 
quiser provar, ela pode. Mas, se não provar, 
não sofre prejuízo algum. Trata-se, pois, de 
uma mera faculdade, diferente da acusação 
que tem ônus, sob pena do acusado ser 
absolvido por insuficiência de provas nos 
termos do art. 386, VII, do CPP1. O tema do 
ônus da prova está previsto no art. 156, do 
CPP. 
 
Art. 156, CPP. A prova da alegação 
incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, 
facultado ao juiz de ofício: 
I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação 
penal, a produção antecipada de provas 
consideradas urgentes e relevantes, 
observando a necessidade, adequação e 
proporcionalidade da medida; 
II – determinar, no curso da instrução,

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