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G A S T R O E N T E R O L O G I A HEMORRAGIA DIGESTIVA P R O F . É L I O C A S T R O Hemorragia Digestiva PROF. ÉLIO CASTRO APRESENTAÇÃO: /estrategiamedt.me/estrategiamed Estratégia MED @profeliocastro @estrategiamed Olá, meu caro Revalidando. Tudo bem? Chegou a hora de estudar um assunto muito importante da Gastroenterologia, considerado indispensável em sua preparação para a prova do Revalida: a hemorragia digestiva. Veja no gráfico abaixo que esse é um dos temas mais cobrados dentro da Gastroenterologia, dividindo o pódio com pancreatite aguda e úlcera péptica. @estrategiamed https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://www.instagram.com/profeliocastro/ https://www.instagram.com/prof.alexandremelitto/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ Hemorragia Digestiva Tanto a hemorragia digestiva alta (sangramento acima do ângulo de Treitz) quanto a baixa são cobradas com a mesma proporção de questões no Revalida, diferente do que ocorre em outros concursos médicos, em que a HDA é mais privilegiada. Por isso, é importante que você não deixe de estudar nenhum tópico deste livro, pois ele foi escrito de forma a abranger todo o conteúdo essencial para sua prova! As questões sobre esse tema costumam ser longas e detalhadas, exigindo que o Revalidando conheça as principais etiologias, sistematize o atendimento inicial, indique os exames complementares e trate o paciente. Questões mais objetivas, perguntando apenas sobre a etiologia ou a aplicação de alguma classificação, são bem menos frequentes e improváveis. Por isso, as questões de provas anteriores serão dispostas ao final dos grandes temas, pois abrangem muitos conceitos em um mesmo enunciado e servirão como uma grande revisão dos assuntos previamente estudados. Então, sem perder mais tempo, vamos mergulhar de cabeça nesse tema tão importante, tanto para a prova quanto para sua prática profissional. Respire fundo, e vamos em frente! 0 2 4 6 8 10 12 14 16 Hemorragia digestiva Pancreatite aguda Úlcera péptica e H. pylori CA colorretal e pólipos Doença inflamatória intestinal DRGE Distúrbios disabsortivos CA estômago CA pâncreas CA esôfago Outras Prevalência dos temas de Gastroenterologia na prova do Revalida 4Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva SUMÁRIO 1.0 DEFINIÇÕES E ETIOLOGIAS 6 2.0 MANEJO CLÍNICO E TERAPÊUTICO 7 2.1 HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA NÃO VARICOSA 8 2.1.1 AVALIE VIA AÉREA E VOLEMIA 8 2.1.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA 8 2.1.2.1 DOENÇA ULCEROSA PÉPTICA (DUP) 9 2.1.2.2 SÍNDROME DE MALLORY-WEISS 11 2.1.2.3 LESÃO DE DIEULAFOY 12 2.1.2.4 ÚLCERAS DE ESTRESSE 12 2.1.2.5 CÂNCER GÁSTRICO E ESOFÁGICO 12 2.1.2.6 COMO DEFINIR A ETIOLOGIA? 12 2.1.3 AVALIE A NECESSIDADE DE HEMOTRANSFUSÃO 13 2.1.4 FAÇA A TERAPIA FARMACOLÓGICA 13 2.1.5 LOCALIZE E TRATE A FONTE DO SANGRAMENTO 14 2.1.6 INSTITUA UM TRATAMENTO DE RESGATE, SE NECESSÁRIO 14 2.1.7 FLUXOGRAMA DE ABORDAGEM DA HDA NÃO VARICOSA 15 2.2 HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA VARICOSA 21 2.2.1 AVALIE VIA AÉREA E VOLEMIA 21 2.2.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA 21 2.2.3 AVALIE A NECESSIDADE DE HEMOTRANSFUSÃO 22 2.2.4 FAÇA A TERAPIA FARMACOLÓGICA 23 2.2.5 LOCALIZE E TRATE A FONTE DO SANGRAMENTO 23 2.2.6 INSTITUA UM TRATAMENTO DE RESGATE, SE NECESSÁRIO 24 2.2.7 FLUXOGRAMA DE ABORDAGEM DA HDA VARICOSA 27 2.3 HEMORRAGIA DIGESTIVA BAIXA 32 2.3.1 AVALIE VIA AÉREA E VOLEMIA 32 5Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.3.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA 32 2.3.2.1 DIVERTICULOSE COLÔNICA 33 2.3.2.2 ANGIODISPLASIAS 33 2.3.2.3 DOENÇAS ORIFICIAIS 33 2.3.2.4 PÓLIPOS E CÂNCER COLORRETAL 34 2.3.2.5 DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL 35 2.3.2.6 COLITE ISQUÊMICA 35 2.3.2.7 PROCTITE ACTÍNICA 35 2.3.2.8 HDB NA POPULAÇÃO PEDIÁTRICA 35 2.3.2.9 COMO DEFINIR A ETIOLOGIA? 36 2.3.3 AVALIE A NECESSIDADE DE HEMOTRANSFUSÃO 36 2.3.4 FAÇA A TERAPIA FARMACOLÓGICA 37 2.3.5 LOCALIZE E TRATE A FONTE DO SANGRAMENTO 37 2.3.6 INSTITUA UM TRATAMENTO DE RESGATE, SE NECESSÁRIO 39 2.3.7 FLUXOGRAMA DE ABORDAGEM DA HDB 39 3.0 RESUMO: CONCEITOS-CHAVE DA HEMORRAGIA DIGESTIVA 43 4.0 LISTA DE QUESTÕES 47 5.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 48 6.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 49 6Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva CAPÍTULO 1.0 DEFINIÇÕES E ETIOLOGIAS O marco anatômico para classificar a hemorragia digestiva é o ângulo de Treitz, local de transição entre o duodeno e o jejuno. Todo sangramento acima desse ângulo configura hemorragia digestiva alta (HDA); abaixo dele, configura hemorragia digestiva baixa (HDB). A figura ao lado mostra o ângulo de Treitz. HDA é bem mais comum, representando 70 a 80% dos casos, manifestando-se como melena (fezes enegrecidas e com odor fétido) ou hematêmese (vômitos com sangue vermelho-vivo ou em “borra de café”). Os principais sintomas da HDB são hematoquezia (eliminação de sangue com ou sem fezes pelo reto) e enterorragia (grande volume de sangue ou coágulos pelo reto), também podendo ocorrer de forma oculta. A HDA é subdividida em 2 grupos: não varicosa (80-85% dos casos) e varicosa (até 15%). A principal A tabela abaixo reúne as principais etiologias da hemorragia digestiva alta e sua incidência: Principais etiologias da hemorragia digestiva alta (HDA) HDA VARICOSA 15% Sangramento de varizes esofágicas ou gástricas HDA NÃO VARICOSA 85% Doença ulcerosa péptica (75%) Síndrome de Mallory-Weiss (7%) Esofagites (4%); gastrites e duodenites (4%) Vasculares – lesão de Dieulafoy, malformações arteriovenosas (6-7%) Câncer (3%) causa da HDA não varicosa é a úlcera péptica, enquanto a varicosa é provocada pela ruptura de varizes de esôfago ou de estômago em pacientes com hipertensão portal secundária à cirrose hepática, alcançando uma mortalidade que pode chegar a 30% por episódio. Já a HDB predomina em idosos e tem como causa principal a diverticulose colônica, seguida das angiodisplasias. 7Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva As principais causas de HDB podem mudar se dividirmos os grupos de pacientes por faixas etárias, ganhando importância a doença inflamatória intestinal em adultos jovens e o sangramento por divertículo de Meckel nas crianças, como você pode ver na tabela abaixo: Principais etiologias da hemorragia digestiva baixa (HDB) por faixa etária IDOSO (> 60 anos) ADULTO JOVEM (possível local de sangramento no cólon esquerdo. Resultados dos exames laboratoriais: hemoglobina = 8,5 g/dL (valor normal = 11,5 a 15 g/dL), hematócrito = 25% (Valor normal = 35 a 45%), plaquetas = 125.000 mm³ (valores normais entre 100.000 e 400.000 mm³) e tempo de protrombina/INR= 1,1 (valor normal até 1,3). Nesse momento em que se encontra a paciente, a conduta correta é: A) cirúrgica com ressecção de todo o cólon e a dosagem da hemoglobina indica a necessidade de transfusão sanguínea. B) conservadora (expectante), mas a dosagem da hemoglobina indica a necessidade de transfusão sanguínea. C) conservadora (expectante) e não há necessidade de transfusão sanguínea por causa da dosagem da hemoglobina. D) cirúrgica com ressecção do cólon esquerdo, mas não há necessidade de transfusão sanguínea por causa da dosagem da hemoglobina. COMENTÁRIO Ao contrário da anterior, aqui temos um exemplo de questão melhor formulada. A idosa apresentou vários episódios de enterorragia, ao ponto de sentir fraqueza e escurecimento visual, o que podemos considerar como lipotimia. É importante você considerar que esse sintoma já indica uma hipovolemia importante, mesmo que a PA sistólica esteja acima de 100 mmHg e a FC esteja abaixo de 100 bpm. Por isso é que se justifica a reposição volêmica com 1,5 de solução cristaloide. Poderíamos ter iniciado a investigação pela endoscopia digestiva alta para afastar HDA, mas a banca preferiu partir diretamente para a colonoscopia, confirmando a doença diverticular como causa da HDB, que é a causa mais comum. Como a paciente está agora? Mantém-se estável, com exame laboratorial revelando hemoglobina 8,5 g/dL. Lembra-se da regra A-B-C para hemotransfusão? Diante da presença de cardiopatia, devemos transfundir com hemoglobina abaixo de 9,0 g/dL, mas não há qualquer menção a isso no enunciado. Para pessoas sem cardiopatia, a transfusão só está indicada com nível de hemoglobina abaixo de 8,0 g/dL. Perceba que nossa paciente tem Hb 8,5 g/dL, ou seja, não tem indicação para receber sangue. Vamos então escolher a alternativa correta? 42Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Incorreta a alternativa A. A cirurgia só está indicada para sangramento maciço com instabilidade refratária, o que não é o caso dessa questão. Incorreta a alternativa B. Não há indicação para hemotransfusão, já que a paciente não é cardiopata, e sua hemoglobina está acima de 8,0 g/dL. Uma vez que a paciente permanece estável e já foi submetida à colonoscopia, não há indicação de qualquer outra intervenção, nem mesmo hemotransfusão, ou seja, a conduta é conservadora (expectante). Incorreta a alternativa D. Como já foi comentado, não há indicação cirúrgica nesse momento. Porém, se o sangramento recidivasse de forma maciça, com instabilidade refratária, o procedimento mais adequado seria a colectomia total, não apenas a colectomia esquerda. Gabarito: alternativa C. REVALIDA INEP 2013 | Mulher com 57 anos de idade deu entrada na Emergência apresentando, há um dia, cinco episódios de evacuações com sangue vermelho-vivo e em grande quantidade. Na admissão apresenta pressão arterial = 70 x 50 mmHg, frequência cardíaca = 164 bpm, sudorese profusa e intensa palidez cutaneomucosa. O exame do abdome é normal e no exame proctológico são vistas hemorroidas Grau II. Foi administrado O2 nasal, hidratação com 2 litros de Ringer Lactato em acesso venoso periférico e a paciente encontra-se estável hemodinamicamente após seis horas da admissão. Com base no quadro clínico descrito, entre as opções abaixo, a próxima conduta diagnóstica e/ou terapêutica é: A) angiografia e possível embolização para diagnóstico e terapêutica. B) vasopressina EV para diminuir o sangramento e sua recorrência. C) enema opaco para diagnóstico e hemostasia. D) tomografia com contraste para diagnóstico. E) colonoscopia após preparo intestinal. COMENTÁRIO Nessa questão, temos uma paciente que ainda não é idosa, apresentando um sangramento retal de grande volume com instabilidade hemodinâmica grave. Perceba que a PA sistólica está em 70 mmHg e a FC é de 164 bpm!!! A presença de hemorroidas ao exame proctológico não justifica esse quadro, pois o sangramento hemorroidário costuma ser de pequena monta, raramente provocando sinais de hipovolemia tão acentuada. De qualquer forma, a conduta inicial foi tomada corretamente, ou seja, reposição volêmica vigorosa com soluções cristaloides (soro fisiológico ou Ringer), tanto é que foi possível alcançar a estabilidade hemodinâmica. Agora, podemos partir para a investigação diagnóstica e tratar a fonte do sangramento. Você, que é aluno do Estratégia, já sabe que, idealmente, deveríamos começar pela endoscopia digestiva alta para afastar sangramento alto, o que seria uma hipótese diagnóstica plausível para essa paciente. Porém, você já percebeu que a prova do Revalida costuma ignorar essa recomendação formal e Correta a alternativa “C”. 43Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva parte diretamente para a investigação colônica. Vamos avaliar as alternativas e escolher a mais adequada: Incorreta a alternativa A. A paciente atingiu a estabilidade hemodinâmica, então vamos dar preferências aos métodos endoscópicos. A angiografia é uma boa opção nos pacientes que se mantêm com sangramento ativo e instabilidade hemodinâmica, evitando, muitas vezes, que seja necessária a cirurgia. Incorreta a alternativa B. A vasopressina endovenosa (EV) tem ação sistêmica, podendo ser usada no choque refratário, mas não diminui o sangramento colônico ou previne sua recorrência. Essa droga pode ser usada durante a angiografia, sendo administrada diretamente no vaso sangrante (vasoconstrição seletiva do vaso). Incorreta a alternativa C. Enema opaco é um exame radiológico do cólon (uma radiografia de abdome após duplo contraste retal). Não há qualquer utilidade nesse método para o tratamento da hemorragia digestiva baixa. No máximo, ele poderia confirmar a presença da doença diverticular. Incorreta a alternativa D. A tomografia com contraste pode ser útil para investigar sangramento suspeito do intestino delgado, quando os outros métodos diagnósticos falham em localizar a fonte da hemorragia. Não é o caso dessa questão. O melhor exame para localizar a fonte do sangramento no cólon é a colonoscopia, permitindo também tratar a lesão sangrante no mesmo procedimento. Gabarito: alternativa E. CAPÍTULO 3.0 RESUMO: CONCEITOS-CHAVE DA HEMORRAGIA DIGESTIVA Agora, vamos fazer uma revisão final, na forma de perguntas e respostas, apenas com os conceitos mais cobrados. Você precisa decorar todos! Correta a alternativa “E”. 44Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva RESUMO DO RESUMO DA HDA NÃO VARICOSA Quais são as questões clássicas das provas? Qual a etiologia mais comum? Úlcera péptica Que paciente tem mais risco? Idoso com comorbidades que fez uso de AAS/AINEs Onde sangra com + volume? Parede posterior do bulbo duodenal Qual vaso sangra mais? Artéria gastroduodenal Qual é a conduta inicial? Reposição volêmica com cristaloides Qual é o tratamento farmacológico? IBP para todo mundo! Melhor parâmetro para hopovolemia? PAs 100 HB e HT podem estar nomais pela hemocontração! Quando transfundi? HbSinais de hipertensão portal -> Esplenomegalia, paquetopenia. Cirrose avançada -> Ascite, icterícia, ginecomastia, telangiectasias, Hipoalbuminemia, hiponatremia, hiperbilirrubinemia, INR alargado. Que paciente tem mais risco de sangramento? Varizes de grosso calibre, sinais da cor vermelha, Child B e C. Causas de sangramento varicoso com função hepática normal? Esquistossomose -> Fibrose pré-sinusoidal. Hipertensão portal esquerda (ou sinistra) -> Pancratites e CA de pâncreas. 1ª conduta? Resposição volêmica -> Manter PAs 90 e 100 mmHg e FC CIANOACRILATO! Balão de Sengstaken-Blakemore? Sangramento ativo maciço com instabiliade refratária -> Máximo 24 horas até conduta definitiva. TIPS? Shunt portossistêmico intra-hepático (falha endoscópica ou sangramento recidivante) -> Pode fazer na cirrose avançada, pois faz pouca encefalopatia. Derivação cirúrgica? "Shunt" esplenorrenal distal ou desconexão ázigo-portal com esplenectomia -> Evitar na cirrose avançada, faz encefalopatia e tem alta morbimortabilidade! Boa opção na esquistossomose (função hepática normal). 46Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva RESUMO DO RESUMO DA HEMORRAGIA DIGESTIVA BAIXA Quais são as questões clássicas das provas? Qual é a etiologia mais comum? Diverticulose colônica E a segunda causa? Angiodisplasias (cólon direito) Quais são as causas em adultos jovens ( 50 anos, emagrecimento Qual é a conduta inicial? Reposição volêmica com cristaloides Quando transfundir? Hb Cintilo com Hc marcadas Qual é o fluxo de sangramento mínimo para cada método radiológico? Arteriografia (localiza e trata) -> 0,1 a 0,5 mL/min Cintilo (só localiza) -> 0,1 a 0,4 mL/min Angio-TC (só localiza) -> 0,3 a 0,5 mL/min Anemia crônica ou sangramento ativo com EDA e colonoscopia normais? Suspeitar de sangramento no intestino delgado, conduta: Estável, sem sangramento ativo -> Cápsula endoscópica Sangramento ativo estável -> Cintilo, angio-TC ou cápsula Sangramento ativo instável -> Cirurgia (enteroscopia peroperatória) 47Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app 4.0 LISTA DE QUESTÕES https://estr.at/UDz6 https://estr.at/UDz6 48Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 5.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO 1. American College of Surgeons. Advanced trauma life support. 10th edition. Chicago: American College of Surgeons, Committee on Trauma; 2018. 2. ASGE Standards of Practice Committee, Pasha SF, Cash BD, et al. The role of endoscopy in the patient with lower GI bleeding. Gastrointest Endosc. 2014 Jun;79(6):875-85. doi: 10.1016/j.gie.2013.10.039. Epub 2014 Apr 2. PMID: 24703084. 3. BITTENCOURT, Paulo Lisboa; STRAUSS, Edna; FARIAS, Alberto Queiroz; MATTOS, Angelo Alves de; LOPES, Edmundo Pessoa. Variceal Bleeding: update of recommendations from the brazilian association of hepatology. Arq. Gastroenterol. [Internet]. 2017 Dec [cited 2021 Jan 27]; 54(4): 349-355. Disponível em: . Acesso em: 27 jan. 2021. 4. DE FRANCHIS, R. Expanding consensus in portal hypertension. Report of the Baveno VI Consensus Workshop: Stratifying risk and individualizing care for portal hypertension. Journal of Hepatology, v. 63, n. 3, p. 743-752, 2015. ISSN 0168-8278. Disponível em: . Acesso em: 17 jan. 2021. 5. Gastroenterologia essencial, Renato Dani, 4. ed, 2011. 6. Gralnek IM, Hassan C, et al. Diagnosis and management of nonvariceal upper gastrointestinal hemorrhage: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline. Endoscopy. 2015 Oct;47(10):a1-46. doi: 10.1055/ s-0034-1393172. Epub 2015 Sep 29. PMID: 26417980. 7. Harrison - Medicina Interna, Mc Graw Hill, 20ª ed, 2020. 8. Laine, Loren; Jensen, Dennis. Management of Patients With Ulcer Bleeding, American Journal of Gastroenterology: March 2012 - Volume 107 - Issue 3 - p 345-360. doi: 10.1038/ajg.2011.480. 9. Oakland K, Chadwick G, East JE, et al. Diagnosis and management of acute lower gastrointestinal bleeding: guidelines from the British Society of Gastroenterology. Gut 2019;68:776-789. 10. Sabiston Textbook of Surgery, Towsend and Beauchamp, Elsevier, 20ª ed, 2019. 11. Sleisenger & Fordtran. Tratado Gastrointestinal e Doenças do Fígado. Feldman M, Friedman LS, Brandt LJ.Tradução da 9 ed. Editora Elsevier, 2017. 12. Strate Lisa L, Gralnek Ian. ACG Clinical Guideline: Management of Patients With Acute Lower Gastrointestinal Bleeding, American Journal of Gastroenterology: April 2016 - Volume 111 - Issue 4 - p 459-474. doi: 10.1038/ ajg.2016.41. 49Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva CAPÍTULO 6.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora não seja um tema tão presente na rotina da atenção básica, hemorragia digestiva é uma realidade nas emergências do país, exigindo do plantonista o domínio sobre suas principais etiologias e manejo clínico. Por isso, é um dos temas mais lembrados dentro da Gastroenterologia. Este livro reuniu os conceitos mais importantes sobre o tema, além de mostrar a forma como foi abordado em questões anteriores do Revalida. Volte às tabelas e aos esquemas, reveja as imagens, decore a classificação de Forrest, as indicações dos métodos complementares na HDB e o manejo inicial da hemorragia varicosa e treine com as questões! Se persistir alguma dúvida, entre em contato conosco por meio do Fórum de Dúvidas. Nossa missão é facilitar seu aprendizado e garantir que você domine o conteúdo para não sentir dificuldade em nenhum tipo de questão. Conte comigo em seu caminho até a Revalidação e siga firme nos estudos. Em breve, seremos colegas aqui no Brasil. Um forte abraço! Élio Castro. 1.0 DEFINIÇÕES E ETIOLOGIAS 2.0 MANEJO CLÍNICO E TERAPÊUTICO 2.1 HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA NÃO VARICOSA 2.1.1 Avalie via aérea e volemia 2.1.2 Defina a provável etiologia 2.1.2.1 Doença ulcerosa péptica (DUP) 2.1.2.2 Síndrome de Mallory-Weiss 2.1.2.3 Lesão de Dieulafoy 2.1.2.4 Úlceras de estresse 2.1.2.5 Câncer gástrico e esofágico 2.1.2.6 Como definir a etiologia? 2.1.3 Avalie a necessidade de hemotransfusão 2.1.4 Faça a terapia farmacológica 2.1.5 Localize e trate a fonte do sangramento2.1.6 Institua um tratamento de resgate, se necessário 2.1.7 Fluxograma de abordagem da HDA não varicosa 2.2 HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA VARICOSA 2.2.1 Avalie via aérea e volemia 2.2.2 Defina a provável etiologia 2.2.3 Avalie a necessidade de hemotransfusão 2.2.4 Faça a terapia farmacológica 2.2.5 Localize e trate a fonte do sangramento 2.2.6 Institua um tratamento de resgate, se necessário 2.2.7 Fluxograma de abordagem da HDA varicosa 2.3 HEMORRAGIA DIGESTIVA BAIXA 2.3.1 Avalie via aérea e volemia 2.3.2 Defina a provável etiologia 2.3.2.1 Diverticulose colônica 2.3.2.2 Angiodisplasias 2.3.2.3 Doenças orificiais 2.3.2.4 Pólipos e câncer colorretal 2.3.2.5 Doença inflamatória intestinal 2.3.2.6 Colite isquêmica 2.3.2.7 Proctite actínica 2.3.2.8 HDB na população pediátrica 2.3.2.9 Como definir a etiologia? 2.3.3 Avalie a necessidade de hemotransfusão 2.3.4 Faça a terapia farmacológica 2.3.5 Localize e trate a fonte do sangramento 2.3.6 Institua um tratamento de resgate, se necessário 2.3.7 Fluxograma de abordagem da HDB 3.0 RESUMO: CONCEITOS-CHAVE DA HEMORRAGIA DIGESTIVA 4.0 Lista de questões 5.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 6.0 CONSIDERAÇÕES FINAISavaliação são os seguintes: 1. Taquicardia: frequência cardíaca acima de 100 bpm geralmente é o primeiro sinal de hipovolemia, já sinalizando risco de instabilidade hemodinâmica grave. 2. Hipotensão: PA sistólica abaixo de 100 mmHg caracteriza hipovolemia grave, assim como a hipotensão postural, que é a queda da PA sistólica em pelo menos 20 mmHg quando o paciente é colocado na posição ortostática, configurando sinal de instabilidade hemodinâmica. 3. Nível de consciência: história de síncope ou lipotimia já configura rebaixamento do nível de consciência e possível hipovolemia grave com hipoperfusão cerebral. Considere intubação orotraqueal para proteger a via aérea, especialmente pelo risco de broncoaspiração de coágulos. A estabilização volêmica deve começar na sala de emergência, visando reduzir a frequência cardíaca e manter a PA sistólica acima de 100 mmHg, a não ser no cirrótico, em que nosso alvo de PAs é entre 90 e 100 mmHg, para evitar elevação de pressão portal. Qualquer paciente que tenha apresentado instabilidade hemodinâmica deverá permanecer internado por, no mínimo, 72 horas. 2.1.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA Após as medidas iniciais, ainda na beira do leito, o médico deve revisar os dados clínicos e os sinais ao exame físico que sugiram uma etiologia mais provável do sangramento. Você precisa afastar a possibilidade de hemorragia varicosa, pois essa etiologia tem um manejo diferenciado, como veremos mais à frente. Por isso, fique atento às causas de cirrose hepática, como etilismo, hepatite C e esteato-hepatite. Procure por sinais clínicos de cirrose avançada ou hipertensão portal, como icterícia, ascite, esplenomegalia, ginecomastia, encefalopatia ou plaquetopenia. Se não houver evidências de cirrose, a causa mais provável é a úlcera péptica. Vamos discutir alguns aspectos sobre as principais etiologias de HDA não varicosa. 9Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.1.2.1 DOENÇA ULCEROSA PÉPTICA (DUP) A principal causa de HDA não varicosa é a doença ulcerosa péptica, que é provocada principalmente pela bactéria Helicobacter pylori e pelo uso dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). Classicamente, úlceras por Helicobacter pylori predominam no duodeno, em homens entre 35 e 50 anos, enquanto úlceras por AINEs predominam no estômago de pacientes mais idosos. Memorize: Os pacientes de maior risco para sangramento com instabilidade são os idosos, com múltiplas comorbidades (especialmente HAS, DM e insuficiência renal), usuários de AINEs em combinação com antiagregantes, anticoagulantes ou corticoides. No caso dos adultos jovens, os sangramentos de maior volume são provocados por úlcera duodenal secundária à infecção pelo H. pylori. Helicobater pylori Úlceras no duodeno Homes entre 35 e 50 anos AINEs Úlceras no estômago Idosos O local mais comum de sangramento volumoso por úlcera péptica é a PAREDE POSTERIOR DO BULBO DUODENAL, onde passa a calibrosa artéria gastroduodenal, fazendo com que o paciente possa apresentar hematoquezia/enterorragia e instabilidade hemodinâmica. Por isso, toda hemorragia digestiva baixa com instabilidade hemodinâmica deve ser investigada inicialmente com EDA para descartar o sangramento alto, o que pode acontecer em até 15% dos casos. A úlcera hemorrágica deve ser avaliada pela classificação de Forrest, que definirá o risco de ressangramento de acordo com o aspecto endoscópico da úlcera (estigma de risco). Você precisa memorizar essa classificação. Veja: 10Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Agora veja a probabilidade de ressangramento da úlcera conforme sua classificação de Forrest: 11Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Classificação endoscópica de Forrest para HDA por úlcera péptica Classe Estigma Risco de ressangrar Hemostasia endoscópica necessária? FORREST I Ia PULSÁTIL Até 90% Sim Ib BABAÇÃO (LENÇOL) 20 a 25% Sim FORREST II IIa VASO VISÍVEL 43 a 50% Sim IIb COÁGULO 20 a 30% Quase sempre IIc HEMATINAperda de sangue, pois o paciente está hipovolêmico e hemoconcentrado. Por isso, em um paciente com choque hipovolêmico refratário à reposição de cristaloides, considere transfundir 1 concentrado de hemácias, mesmo com exames iniciais pouco alterados. 2.1.4 FAÇA A TERAPIA FARMACOLÓGICA Particularmente na HDA, ainda no início do atendimento, deve-se administrar drogas que reduzem o risco de ressangramento e diminuem a morbimortalidade. A droga essencial é o inibidor da bomba de prótons (IBP) intravenoso, que tem maior benefício na úlcera péptica. Porém, como só teremos certeza da etiologia depois da endoscopia, devemos fazer o IBP em todo paciente com HDA. Se o paciente tiver sinais de cirrose hepática, existem outras medicações indispensáveis. Falaremos sobre isso no tópico sobre HDA varicosa, logo mais à frente. A. ALTO RISCO CARDIOVASCULAR Transfusão se hemoglobina Reposição de CRISTALOIDES Tratamento farmacológico -> Inibidor da bomba de prótons AVALIE OS FATORES PROGNÓSTICOS ENDOSCOPIA até 24 horas RESGATE: Arteriografia Cirurgia HEMOTRANSFUSÃO: A. Alto risco cardiovascular: Hb Considerar DUP, a não ser que: * Estigma de cirrose ou hipertensão portal? Varizes * Hematêmese após vômito? Mallory-Weiss * Sangramento na pequena curvatura do corpo? Dieulafoy * Manipulação da via biliar + tríade de Sandblom? Hemobilia 16Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva CAI NA PROVA (REVALIDA INEP 2023) Um homem com 45 anos, em uso de anti-inflamatório não hormonal há 20 dias devido a tendinite de ombro esquerdo, chega ao pronto-socorro com quadro de melena há 24 horas, de moderado volume, associado a epigastralgia intensa e mal-estar. Nega doenças preexistentes. Ao exame físico, apresenta-se em bom estado geral, consciente, orientado, com mucosas anictéricas, hidratadas e hipocoradas (+1/+4), fácies atípica, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, frequência cardíaca de 90 batimentos por minuto, pressão arterial de 120 × 80 mmHg, abdome flácido, com ruídos hidroaéreos aumentados, dor à palpação de epigástrio. Os resultados de seus exames complementares apresentaram: hemácias: 4.500.000; hemoglobina: 13%; hematócrito: 39%; leucócitos: 4.400; plaquetas: 220.000; INR: 1,2 (valor de referência [VR]: 1-1,4); ureia: 45 mg/dl (VR: 16-40), creatina: 1,2 mg/dL (VR: 0,7-1,3); Potássio: 5,4 mEq/L (VR: 3,5-5,5); tipagem sanguínea: A+, endoscopia digestiva alta com erosões agudas de mucosa gástrica em região de antro e bulbo. A conduta inicial mais adequada ao caso seria dieta zero e A) transfusão de plaquetas e de plasma fresco congelado. B) transfusão de concentrado de hemácias em até duas horas. C) reposição volêmica com cristaloides e uso de inibidores da bomba protônica (IBP). D) reposição volêmica com cristaloides e transfusão de concentrado de hemácias e plaquetas. COMENTÁRIO: Pelo longo enunciado, poderíamos pensar que se trata de uma lesão bastante complexa, mas não é. Veja, trata-se de um homem relativamente jovem, que chega ao pronto-socorro com história de hemorragia digestiva alta (melena há 24 horas). Pelo exame físico, ele está estável hemodinamicamente e tem exames laboratoriais praticamente normais, sem sinais de anemia e revelando apenas um discreto aumento da ureia, o que pode sinalizar uma leve desidratação. A endoscopia digestiva alta revela apenas gastrite (erosões no antro gástrico) e bulbite (erosões no antro), que devem ser secundárias ao uso de anti-inflamatório não esteroide (AINE). É possível que essas lesões tenham apresentando discreto sangramento superficial, o que foi suficiente para provocar melena, mas não suficiente para levar à queda do hematócrito ou instabilidade hemodinâmica. O que devemos fazer então? Qual a conduta? Incorreta a alternativa A. A transfusão de plasma e plaquetas não deve ser feita nem mesmo num sangramento vultuoso e com instabilidade hemodinâmica, tampouco num caso como esse, em que nem sequer temos anemia ou instabilidade hemodinâmica. Incorreta a alternativa B. Nem sequer temos queda de hemoglobina ou hematócrito, porque faríamos transfusão de concentrado de hemácias?! Lembre-se das indicações de transfusão na hemorragia digestiva: A. Em pacientes com alto risco cardiovascular, transfusão indicada com hemoglobina abaixo de 9 g/dL. B. Em pacientes com baixo risco cardiovascular, transfusão indicada apenas com hemoglobina abaixo de 8 g/dL. C. Em pacientes cirróticos, transfusão indicada apenas com hemoglobina abaixo de 7 g/dL. 17Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Correta a alternativa C. Nesse caso, poderíamos correr 500 mL de solução cristalóide, fazer a primeira dose de IBP venoso ainda na emergência, depois dar alta para o paciente seguir o tratamento ambulatorial com IBP por via oral, pois ele não tem qualquer indicação para permanecer internado no hospital. Incorreta a alternativa D. Conforme já foi dito anteriormente,não há qualquer indicação para transfusão de sangue, plasma ou plaquetas. Gabarito: alternativa C. (REVALIDA INEP 2022) Um homem com 33 anos de idade chega para atendimento no Pronto-Socorro de hospital de nível secundário. Relata vômitos com sangue assim como fezes escurecidas e fétidas há 1 dia. Ao exame físico, encontra-se descorado, taquicárdico, hipotenso. Realizou endoscopia digestiva alta que evidenciou úlcera péptica pré-pilórica (tipo III de Johnson), com sangramento em jato proveniente da lesão (Classificação la de Forrest), sendo realizada hemostasia da ulceração com solução de adrenalina. Doze horas após a terapêutica endoscópica, apresentou novamente vômitos com sangue em grande quantidade, frequência cardíaca de 110 batimentos por minuto e pressão arterial de 80 x 40 mmHg. Com base na história clínica do paciente e nos dados do exame físico, o tratamento adequado deve ser A) reposição volêmica e nova endoscopia para terapêutica endoscópica. B) terapia intensiva, inibidor de bomba de prótons e tratamento operatório. C) transferência para angiografia terapêutica e embolização em hospital terciário. D) terapia intensiva e dobrar a dose de inibidor de bomba de prótons endovenoso. COMENTÁRIO: Temos uma boa questão sobre hemorragia digestiva alta, mas atenção, pois essa questão é uma pegadinha! Veja bem, estrategista, durante a endoscopia digestiva alta (EDA), à úlcera péptica é classificada quanto ao seu risco de ressangramento pela classificação de FORREST. São consideradas de alto risco os tipos IA, IB, IIA e IIB. Nesses casos, é obrigatório realizar o tratamento endoscópico (hemostasia endoscópica) durante o procedimento. Isso deve ser feito, obrigatoriamente, através de uma terapia COMBINADA, ou seja, pela associação de 2 métodos hemostáticos (hemoclipe, esclerose com adrenalina e/ou cauterização). De acordo com o enunciado, ISSO NÃO FOI FEITO! Foi realizada apenas a injeção de adrenalina na úlcera, ou seja, somente a esclerose em monoterapia, o que aumetaria o risco de um novo episódio de sangramento, que foi justamente o que aconteceu. Nesse caso, não podemos considerar como refratariedade ao tratamento endoscópico, já que esse não foi feito corretamente. Vamos procurar então a melhor conduta nessa situação: CORRETA: A reposição volêmica é sempre uma etapa fundamental quando o paciente apresenta sangramento, tendo como objetivo manter a estabilidade hemodinâmica. Além disso, deve-se repetir a endoscopia digestiva alta (EDA) para realizar hemostasia combinada (associação de pelo menos 2 métodos hemostáticos). 18Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva INCORRETA: Se o paciente persistir com sangramento ativo, mesmo depois do tratamento endoscópico adequado, aí sim teria indicação cirúrgica. Antes disso, não. INCORRETA: A angiografia (ou arteriografia) com embolização arterial do vaso sangrante é uma ótima opção de tratamento de resgate, nos casos de sangramento refratário ao tratamento endoscópico. Em hospitais que dispõem de centro de radiologia intervencionista, essa técnica é capaz de evitar o tratamento cirúrgico em muitos casos. Mas, no caso do paciente em questão, antes de se pensar na angiografia, deve-se repetir a endoscopia digestiva para proceder a hemostasia endoscópica adequada, como já foi falado. INCORRETA: Diante do ressangramento de uma úlcera de alto risco, não adianta apenas insistir no tratamento medicamentoso. É necessário realizar a hemostasia endoscópica da úlcera. Gabarito: alternativa A. (REVALIDA INEP 2021) Um paciente com 32 anos de idade, tabagista, com histórico de epigastralgia, apresentou, há cerca de 4 horas, quadro de hematêmese e melena. Ao chegar a um pronto-socorro hospitalar, encontrava-se com PA = 90 x 50 mmHg e FC = 112 bpm. No local, foram realizadas reposição volêmica com normalização dos parâmetros hemodinâmicos bem como endoscopia digestiva alta, que evidenciou úlcera péptica localizada na incisura angularis do estômago, com vaso visível, porém sem sangramento ativo. Realizou-se, então, terapia combinada de hemostasia da úlcera. Nesse caso, a conduta imediata adequada para o paciente é indicar A) internação hospitalar e preparação para a cirurgia de emergência. B) internação hospitalar, octreotide endovenoso e repetição da endoscopia em 48 horas. C) internação hospitalar, inibidor de bomba de prótons endovenoso e monitorização hemodinâmica não invasiva. D) alta hospitalar, inibidor de bomba de prótons por via oral por 30 dias e repetição de endoscopia digestiva alta em 3 meses. COMENTÁRIO Paciente jovem com hematêmese e melena, apresentando sinais de instabilidade hemodinâmica (PA sistólica 100 bpm). A principal conduta inicial foi tomada corretamente, ou seja, estabilização volêmica com reposição de cristaloides (etapa 1), ao passo que o paciente conseguiu ser estabilizado. Há alguma evidência de etiologia específica? Não, então devemos considerar a úlcera péptica como a etiologia mais provável (etapa 2). Por isso, a infusão de omeprazol intravenoso deveria ter sido feita no atendimento inicial (etapa 3), antes mesmo da endoscopia, mas isso acabou não sendo feito. A EDA confirmou a presença de uma úlcera péptica com vaso visível (Forrest IIA), uma lesão com alto risco de ressangramento, por isso foi tratada endoscopicamente com terapia combinada (associação de 2 métodos – etapa 5). Nesse momento, a questão pergunta qual é a conduta imediata a ser feita a seguir. Ou seja, até esse momento, nenhuma terapia farmacológica sequer foi instituída no paciente, o que é inaceitável, pois não podemos esperar a realização da EDA para definir qual é a droga que deve ser feita no paciente. 19Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Além disso, ele apresentou-se com instabilidade hemodinâmica e teve uma lesão com alto risco de sangramento na EDA. Mesmo que agora esteja estável e com sua lesão adequadamente tratada, deverá ser mantido em internação hospitalar durante, pelo menos, 72 horas. Como é um paciente jovem, não precisa de monitorização hemodinâmica invasiva. Vamos avaliar as alternativas? Incorreta a alternativa A. Não há qualquer indicação de cirurgia nesse momento, já que o controle endoscópico foi bem-sucedido. Incorreta a alternativa B. A única droga que precisamos fazer na HDA não varicosa é o inibidor da bomba de prótons (IBP), não havendo indicação para repetir a EDA em 48 horas, já que a hemostasia foi satisfatória. Correta a alternativa “C”. Pelo quadro inicial de instabilidade, justifica-se internação por 72 horas (no mínimo), além da administração de IBP (que deveria ter sido feita antes da EDA). Incorreta a alternativa D. Sob nenhuma hipótese esse paciente poderia receber alta hospitalar. Gabarito: alternativa C. (REVALIDA INEP 2016) Um homem de 33 anos de idade foi trazido ao pronto-socorro hospitalar pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) com quadro de hematêmese e síncope. A equipe do SAMU encontrou o paciente já acordado, deitado sobre uma poça de sangue vermelho vivo. O paciente relatou uso de anti-inflamatório por 15 dias devido a uma fratura muscular na perna direita. Ao exame físico, encontra-se consciente, pálido, com extremidades frias; pressão arterial = 90 x 50 mmHg; frequência cardíaca = 130 bpm; frequência respiratória = 26 irpm. Foi realizada reposição volêmica com 2.000 mL de Ringer lactato endovenoso aquecido, com estabilização do quadro hemodinâmico. Logo após esse procedimento, o paciente foi submetido à endoscopia digestiva alta, que evidenciou úlcera gástrica pré-pilórica com vaso visível. Nessa situação, a conduta adequada é: A) Adotar conduta conservadora, já que o risco de ressangramento é médio. B) Realizar hemostasia com adrenalina, já que o risco de ressangramento é médio. C) Encaminhar o paciente para a cirurgia imediatamente, já que o risco de ressangramento é iminente. D) Realizar hemostasia com terapia combinada(2 métodos associados), já que o risco de ressangramento é alto. COMENTÁRIO Mais uma vez, temos um paciente jovem com hemorragia digestiva de grande volume, dessa vez com instabilidade hemodinâmica ainda mais grave, já que houve perda temporária da consciência (síncope). O uso de AINE é a segunda principal causa de úlcera péptica; a primeira é a infecção crônica pela bactéria Helicobacter pylori. Perceba que, além da perda da consciência, sua PA sistólica está abaixo de 100 mmHg e sua FC está bem acima de 100 bpm, por isso a conduta inicial de repor 2 litros de Ringer-lactato foi corretíssima, sendo possível estabilizar o paciente. Mais uma vez, o enunciado indica que houve o deslize de não fazer inibidor da bomba de prótons (IBP) antes da endoscopia digestiva, 20Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva o que certamente diminuiria o risco de ressangramento. A EDA identificou uma úlcera pré-pilórica com vaso visível (novamente Forrest IIA), revelando um risco alto de o paciente voltar a sangrar, exibindo o tratamento endoscópico com associação de 2 métodos hemostáticos. Vamos avaliar as alternativas e procurar a que esteja mais adequada: Incorreta a alternativa A. Se adotarmos conduta conservadora, o paciente tem risco de 50% de voltar a sangrar (considerado alto), especialmente porque nem sequer foi feito IBP. Incorreta a alternativa B. Adrenalina em monoterapia tem eficácia apenas regular, sendo o ideal a combinação de 2 métodos hemostáticos. Incorreta a alternativa C. Não há indicação de tratamento cirúrgico, já que nem sequer a hemostasia endoscópica foi feita ainda. Correta a alternativa “D”. Precisamos combinar 2 métodos hemostáticos para aumentar a eficácia do tratamento endoscópico, pois o risco de ressangramento no Forrest IIA é alto. Gabarito: alternativa D. 21Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.2 HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA VARICOSA Varizes são a segunda causa geral de HDA (15% dos casos), sendo a etiologia de maior mortalidade por episódio, podendo alcançar até 30%. Você deve ser capaz de suspeitar dessa etiologia logo no primeiro contato com o paciente, a fim de adotar as medidas específicas para controlar a hemorragia e prevenir as temidas complicações. O que muda na conduta do sangramento varicoso? Assim como foi na HDA não varicosa, vamos sistematizar o atendimento da HDA varicosa usando aquele mesmo roteiro de 6 etapas. 2.2.1 AVALIE VIA AÉREA E VOLEMIA A conduta inicial é a mesma: garantir vias aéreas pérvias e restaurar a volemia. Mas lembre-se de que reposição volêmica deve ser cautelosa no paciente cirrótico, pois o excesso de volume pode piorar a hipertensão portal e recidivar o sangramento. Por isso, se houver suspeita de sangramento por varizes, o alvo da PA sistólica deve ficar entre 90 e 100 mmHg! 2.2.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA Considere a possibilidade de sangramento varicoso em pacientes com hematêmese e sinais clínicos de cirrose avançada ou de hipertensão portal. Os principais sinais estão ilustrados na figura abaixo: Alguns exames laboratoriais alterados também podem sugerir cirrose avançada e hipertensão portal. São eles: - Plaquetopenia - Hiperbilirrubinemia - Hipoalbuminemia - TAP ou INR alterados 22Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva O sangramento por varizes também pode ocorrer em pacientes com hipertensão portal isolada, ou seja, sem cirrose hepática, como é o caso da esquistossomose hepatoesplênica, dos quadros de pancreatite aguda e tumores pancreáticos, além das tromboses segmentares do sistema porta. 2.2.3 AVALIE A NECESSIDADE DE HEMOTRANSFUSÃO No cirrótico, a hemotransfusão só é feita com níveis de hemoglobina abaixo de 7 g/dL, pois a transfusão também pode aumentar a pressão portal e precipitar recidiva do sangramento. A transfusão de plasma fresco, plaquetas ou fatores de coagulação não está indicada rotineiramente em todo sangramento varicoso. TAP e INR são bons indicadores de perda da função hepática, mas não refletem o tipo de distúrbio de coagulação que o cirrótico apresenta. Esses pacientes também têm redução de fatores anticoagulantes (como as proteínas C, S e antitrombina III) e podem, inclusive, estar mais propensos a eventos trombóticos. Nessa condição, 23Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.2.4 FAÇA A TERAPIA FARMACOLÓGICA Na suspeita de sangramento varicoso, há 2 medicações essenciais: um vasoconstritor esplênico e um antibiótico profilático. Vou explicar melhor a seguir. • Vasoconstritor esplênico: ao que reduz o fluxo sanguíneo esplênico, essa droga reduz a pressão portal, controlando o sangramento e reduzindo sua recidiva. As 3 medicações recomendadas com essa finalidade são a terlipressina (um análogo da vasopressina), a somatostatina e seu análogo, o octreotide. • Antibiótico profilático: todo cirrótico com hemorragia digestiva deve receber profilaxia antibiótica para evitar peritonite bacteriana espontânea (PBE). As drogas de escolha são a ceftriaxona intravenosa (em pacientes com função hepática pior) ou a norfloxacina oral (nos pacientes mais estáveis). Atualmente, a profilaxia está indicada mesmo em cirróticos sem ascite, porém não há benefício comprovado na hipertensão portal sem cirrose. O propranolol NÃO DEVE ser feito na fase aguda do sangramento. Essa droga é utilizada como profilaxia (para evitar o sangramento), podendo ser retornada após o 6º dia do sangramento agudo. 2.2.5 LOCALIZE E TRATE A FONTE DO SANGRAMENTO No sangramento varicoso, existem 3 tipos de tratamento endoscópico, a depender de onde as varizes estão localizadas: ligadura elástica, escleroterapia ou injeção de cianoacrilato. A ligadura elástica consiste na aspiração e no garroteamento dos cordões varicosos, usando o próprio aparelho de endoscopia, como ilustrado na figura ao lado. Atualmente, essa é a técnica preferencial, pois tem menos eventos adversos do que a escleroterapia. A escleroterapia (ou esclerose) consiste na injeção de etanolamina a 3% diretamente na variz sangrante. Embora seja tão eficaz quanto a ligadura, é menos usada em razão de seus eventos adversos, como perfuração do esôfago, mediastinite, dor e sangramento. A última técnica é a injeção de cianoacrilato, que é uma cola biológica usada exclusivamente no tratamento das varizes de fundo gástrico. a transfusão de plasma ou fatores de coagulação seria catastrófica! Por isso, a reposição desses hemocomponentes deveria idealmente ser guiada pelo tromboelastograma. 24Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.2.6 INSTITUA UM TRATAMENTO DE RESGATE, SE NECESSÁRIO Imagine, agora, duas situações totalmente caóticas: - Situação 1: o paciente apresenta-se com vários episódios de hematêmese volumosa, instável hemodinamicamente, e você precisa de uma opção imediata para interromper o sangramento. - Situação 2: o paciente já está sendo submetido à endoscopia digestiva, mas o fluxo do sangramento é muito acentuado, e o exame não é capaz de controlar o sangramento. O sangramento varicoso intenso ou refratário requer intervenção imediata, já que a mortalidade é altíssima! Nessas situações, o método mais rápido é a passagem do balão de Sengstaken-Blakemore. Esse dispositivo é uma calibrosa sonda de látex que traz dois balões insufláveis, um na extremidade distal, que deve ser insuflado dentro do estômago, e o outro no corpo da sonda, que deve ser insuflado no esôfago. Após a insuflação, o balão é fixado externamente e deve ser mantido sob tração, fazendo o tamponamento mecânico das varizes e interrompendo o sangramento em 70 a 90% dos casos. MAS ATENÇÃO: o balão de Sengstaken-Blakemore não é um tratamento definitivo e só pode permanecer insuflado, no máximo, por 24 horas. Se ficar mais tempo, pode provocar necrose e perfuração do esôfago. O ideal é que antes desse período outro método de resgate seja instituído. Veja uma ilustração decomo o balão deve ser insuflado e posicionado no paciente: . Balão de Sengstaken-Blakemore posicionado no paciente. 25Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva A melhor opção para sangramento refratário é o TIPS (transjugular intrahepatic portosystemic shunt), que é um desvio (uma derivação) entre a circulação portal e a circulação sistêmica feita por meio da colocação de uma prótese, por dentro do fígado, ligando a veia porta à veia hepática. Com o TIPS, há uma redução importante da hipertensão portal, diminuindo o risco de novos episódios de sangramento. A vantagem dessa técnica é ser menos invasiva e não deflagrar tanta encefalopatia hepática quanto as derivações cirúrgicas, podendo ser feita nos cirróticos avançados, com perda de função hepática. Apesar disso, o TIPS tem risco de encefalopatia de 50% dentro do primeiro ano após sua realização, e pode acontecer a trombose do “stent” em até 30% dos casos. As contraindicações incluem: insuficiência cardíaca direita, hipertensão pulmonar grave, encefalopatia refratária, fígado policístico, dilatação das vias biliares e neoplasias hepáticas muito vascularizadas. Veja uma ilustração abaixo: E as derivações cirúrgicas? Cada vez menos cobradas nas provas, as derivações cirúrgicas vêm sendo evitadas no cirrótico, pois são cirurgias de grande porte, com potencial para precipitar encefalopatia e piorar a função hepática em razão do grande desvio do fluxo venoso (hipoperfusão parenquimatosa). Ainda são indicadas nos cirróticos com sangramento refratário a todos os outros métodos ou quando o TIPS não está disponível (ou não conseguiu controlar o sangramento). Vale lembrar que os pacientes com esquistossomose hepatoesplênica têm hipertensão portal pré-sinusoidal e não são cirróticos. Isso significa que, em grande parte das vezes, há preservação da função hepática, e o tratamento cirúrgico pode ser uma boa opção para eles. Embora estejam caindo muito pouco nas provas, vou descrever as técnicas para que você faça uma breve leitura. Se estiver em reta final de estudo, o quadro abaixo pode ser “pulado”. 26Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva TRATAMENTO CIRÚRGICO DA HIPERTENSÃO PORTAL O tratamento cirúrgico da hipertensão portal divide-se em dois tipos de procedimento: as derivações portossistêmicas (seletivas e não seletivas) e a esplenectomia associada à desvascularização esofagogástrica. Derivações portossistêmicas são comunicações diretas entre o sistema porta e a circulação central sem passar pelo fígado. Podem ser divididas, ainda, em não seletivas e seletivas: • Não seletivas são as derivações que comunicam diretamente a veia porta à circulação sistêmica, como derivação porto- caval total (anastomose direta entre a veia porta e a veia cava), que é o procedimento que mais diminui a pressão, mas com maior taxa de complicações, como encefalopatia e piora da função hepática por hipoperfusão. Veja essa cirurgia na ilustração ao lado: A derivação esplenorrenal convencional ou proximal consiste em fazer uma anastomose entre a porção distal da veia esplênica e a veia renal esquerda, associada a uma esplenectomia. Dessa forma, a veia porta não se comunica diretamente com a cava, e sim com a veia renal. • Seletivas são as derivações que comunicam apenas uma parte da circulação portal para a circulação sistêmica, visando diminuir a pressão apenas em um segmento que tem maior risco de sangramento. Nesse caso, a técnica visa desviar o fluxo das veias esofágicas e gástricas da circulação portal, fazendo uma anastomose entre a porção distal da veia esplênica à veia renal esquerda. Perceba que, assim, o sangue que vem do esôfago e do estômago ganha a circulação sistêmica sem passar pela veia porta. Veja, ao lado, uma ilustração dessa cirurgia: 27Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva • Esplenectomia com desvascularização esofagogástrica Esse procedimento tem como objetivo desconectar o fluxo sanguíneo esofagogástrico da circulação portal, por meio da esplenectomia com fechamento da veia esplênica, além da desconexão dos vasos periesofágicos e perigástricos. Por não afetar a circulação hepática, não altera a pressão portal. ATENÇÃO: esse é o procedimento de escolha no tratamento das varizes em pacientes com esquistossomose. Veja uma ilustração dessa técnica na figura ao lado: 2.2.7 FLUXOGRAMA DE ABORDAGEM DA HDA VARICOSA O fluxograma a seguir resume todos os pontos essenciais do atendimento da hemorragia digestiva alta varicosa: 28Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Vamos dar uma olhada nas questões do Revalida sobre HDA varicosa ORGANOGRAMA DA HDA VARICOSA Repor cristaloides e avaliar intubação se sensório rebaixado Alvos: PA sistólica entre 90 e 100 mmHg e FC 9g/dL (Ht > 30%) Sangramento maciço com instabilidade refratária Balão de Sengstaken- Blackemore por 24h 29Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva CAI NA PROVA REVALIDA INEP 2014 | Um homem com 36 anos de idade é admitido na emergência apresentando vômitos com sangue vivo em grande quantidade e informando ter apresentado três episódios semelhantes nas últimas duas horas. Ao exame, encontra-se em mau estado geral; com palidez cutâneo-mucosa; taquicárdico; pressão arterial = 80 x 50 mmHg; fígado não palpável; baço palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo. Tem antecedentes de etilismo, ingerindo um litro de bebida destilada por dia, nos últimos oito anos. A causa da hemorragia digestiva e o manejo inicial CORRETO desse paciente são: A) Gastrite erosiva, devendo-se primeiramente realizar a endoscopia digestiva para caracterizar e interromper os pontos de sangramento. B) Esofagite, sendo fundamental a reposição volêmica imediata com sangue total e plasma fresco, com vistas a manter a hemoglobina acima de 11 g/dL. C) Hipertensão portal, recomendando-se a reposição volêmica, inicialmente com cristaloides e endoscopia digestiva alta entre 2 e 24 horas do atendimento. D) Síndrome de Mallory-Weiss, devendo-se fazer a reposição volêmica imediata com coloide, sendo a endoscopia digestiva alta contraindicada nessa fase. COMENTÁRIO Fique atento, meu caro Revalidando, pois o enunciado dessa questão já lhe dá evidências suficientes para pensar na etiologia varicosa. Veja: o paciente tem história de etilismo, esplenomegalia e evolui com vários episódios de hematêmese, chegando à emergência com sinais de instabilidade (PA sistólica abaixo de 100 mmHg e taquicardia). Precisamos seguir as 6 etapas do manejo da hemorragia digestiva, considerando bastante provável a hipótese de cirrose/hipertensão portal. Repare que nem todas as bancas seguirão as orientações que padronizamos nas 6 etapas “ao pé da letra”, mas vamos sempre procurar a alternativa que mais se aproxime daquilo que consideramos adequado. Chegou a hora de avaliar as alternativas: Incorreta a alternativa B. Assim como na gastrite, na esofagite também não se espera sangramento clinicamente significativo, muito menos com repercussão hemodinâmica, como é o caso da questão. Essa é a única alternativa que considera a cirrose ou a hipertensão portal entre as hipóteses etiológicas. De fato, a primeira conduta é a reposição volêmica, porém a alternativa desliza em não sugerir o tratamento farmacológico, que teria comoopções terlipressina, somatostatina ou octreotide. Além disso, os consensos consideram que a endoscopia digestiva alta deve ser feita em até 12 horas do sangramento varicoso, portanto não se admitiria 24 horas de espera nessa etiologia. Apesar disso, essa é a única alternativa que se aproxima da conduta correta. Incorreta a alternativa D. Síndrome de Mallory-Weiss Incorreta a alternativa A. Gastrite erosiva nem chega a ser uma causa importante de hemorragia digestiva, especialmente de grande volume, como encontramos na questão. Correta a alternativa “C”. 30Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva é o sangramento esofágico precipitado por crises de vômitos incoercíveis. Perceba que não foi esse o caso aqui, já que, desde o início, refere que os vômitos foram sanguinolentos, além de história e exame físico sugestivos de hipertensão portal. Outro erro é sugerir reposição volêmica com coloide, já que sempre usamos cristaloides. Gabarito: alternativa C. REVALIDA INEP 2012 | Um homem de 46 anos de idade comparece à Unidade Básica de Saúde (UBS) queixando-se de episódio de vômito em grande quantidade, com sangue vivo, há um dia, após libação alcoólica. Nega episódio similar anterior, mas já foi internado para "tratar doença no fígado" (sic). Hoje apresentou fezes diarreicas em grande volume, fétidas e enegrecidas. Sente-se fraco e a "vista escurece" sempre que se levanta. Ainda não urinou hoje. Ao exame físico: regular estado geral, emagrecido, palidez cutâneo-mucosa (++/4+), desidratado (+++/4+), anictérico, descamação superficial da pele em extremidades, PA = 90 x 60 mmHg, pulso = 110 bpm, abdome globoso, presença de ascite, aranhas vasculares e circulação colateral periumbilical. O paciente foi transferido para uma Unidade de Emergência, onde se firmou o seu diagnóstico e foram tomadas as medidas emergenciais adequadas ao caso. Qual o diagnóstico mais provável e que medidas emergenciais devem ter sido adotadas? A) Trata-se da síndrome de Mallory Weiss. As medidas emergenciais incluem lavagem gástrica com solução salina gelada, reposição volêmica e inibidores de bomba de prótons. B) Trata-se da síndrome de Mallory Weiss. As medidas emergenciais incluem reposição volêmica e endoscopia para cauterização dos pontos de sangramento. C) Trata-se da síndrome de Mallory Weiss. As medidas emergenciais incluem lavagem gástrica com solução salina gelada, cauterização dos pontos de sangramento e inibidores de bomba de prótons. D) Trata-se de rotura de varizes esofágicas. As medidas emergenciais incluem reposição volêmica e endoscopia para ligadura endoscópica das varizes esofágicas. E) Trata-se de rotura de varizes esofágicas. As medidas emergenciais incluem reposição volêmica e passagem de balão de Sengstaken-Blakemore. COMENTÁRIO: Analisando o longo enunciado, observamos que é um homem relativamente jovem com história de etilismo, apresentando vários estigmas de doença hepática avançada, como ascite, aranhas vasculares (telangiectasias) e circulação colateral periumbilical, ou seja, as chances de já ter varizes esofágicas de grosso calibre são enormes. Esse paciente chega com história de hematêmese e evolui com melena (fezes enegrecidas e fétidas). Sua FC está acima de 100 bpm, a PA sistólica está abaixo de 100 mmHg e, além disso, refere tontura ao levantar-se, sugerindo hipotensão postural. Temos, portanto, um caso de provável HDA varicosa com sinais de instabilidade hemodinâmica, uma condição com risco de mortalidade próximo de 30%! Vamos avaliar as alternativas e buscar a correta: Incorreta a alternativa A. Síndrome de Mallory-Weiss é o sangramento precipitado por vômitos incoercíveis, ou seja, o paciente primeiro apresenta vômitos e só depois evolui com hematêmese. Embora seja comum em etilistas, é um quadro autolimitado que não costuma evoluir com instabilidade hemodinâmica ou 31Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva persistência do sangramento. Em um paciente como esse, o mais provável é o sangramento por varizes. Incorreta a alternativa B. A única coisa certa nessa alternativa é a sugestão de reposição volêmica nesse paciente. Incorreta a alternativa C. Lavagem gástrica com soro gelado não é mais uma prática utilizada, já que não mostrou qualquer benefício em reduzir o sangramento, além de levar à hipotermia, que compromete a hemostasia do paciente. Sangramento varicoso é a hipótese mais provável, devendo-se restaurar a volemia cautelosamente e administrar as drogas que reduzem o fluxo venoso portal (terlipressina, octreotide ou somatostatina). Só depois é que se deve programar a EDA com ligadura, que tem até 12 horas para ser feita após a admissão. Incorreta a alternativa E. O balão de Sengstaken- Blakemore é uma medida de resgate em casos refratários ao tratamento endoscópico ou diante de sangramento tão profuso que não há tempo para esperar a EDA. Não estamos diante de nenhum desses cenários. Gabarito: alternativa D. REVALIDA INEP 2011 | Homem, com 55 anos de idade, alcoólatra, em acompanhamento ambulatorial devido a cirrose hepática, comparece ao Pronto-Socorro com hematêmese. Clinicamente se apresenta taquipneico, descorado, pulso fino, pressão arterial de 90 x 60 mmHg. Foi submetido a endoscopia digestiva alta que mostrou varizes esofágicas, com sangramento ativo. A próxima conduta para esse paciente deve ser A) iniciar antibioticoterapia profilática. B) iniciar somatostatina. C) iniciar reposição volêmica. D) passar balão de Sengstaken-Blakemore. E) realizar escleroterapia endoscópica. COMENTÁRIO: Essa questão foi colocada aqui para que você se depare com todo tipo de questão que pode aparecer no Revalida, mas ela tem um grande defeito: não possui uma opção correta, por isso teve de ser anulada. Veja: o caso apresentado foi muito malconduzido, e a pergunta feita com base no caso é pior ainda. Preste atenção, meu caro Revalidando: temos um paciente com cirrose alcoólica que se apresenta com hematêmese, já chegando à emergência hipotenso, com pulsos finos e taquipneico. O que acontece a seguir? Todas as etapas foram puladas e fomos direto para a endoscopia digestiva alta! Não recebeu reposição volêmica nem qualquer tipo de tratamento farmacológico – nem mesmo foi avaliado quanto à necessidade de hemotransfusão. Após a EDA, descobrimos que ele tem varizes de esôfago com sangramento ativo!!! E agora, o que fazer?! No mínimo, tudo o que já deveria ter sido feito antes: alternativas A, B e C corretas, além do tratamento endoscópico imediato, que pode ser feito pela escleroterapia (alternativa E) ou ligadura elástica. Já o balão de Sengstaken-Blakemore só seria uma opção no caso de falência do tratamento endoscópico. Questão anulada. Correta a alternativa “D”. 32Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.3 HEMORRAGIA DIGESTIVA BAIXA Frequentemente, a hemorragia digestiva baixa pode cursar apenas com anemia ferropriva crônica, sem qualquer exteriorização de sangramento visível, apenas com sangue oculto nas fezes positivo. Nesses casos, a investigação deve ser ambulatorial, começando com um toque retal para avaliar doença hemorroidária ou neoplasia colorretal, seguindo-se com os exames endoscópicos colonoscopia e endoscopia digestiva alta; se ambos forem normais, indica-se a enteroscopia por cápsula endoscópica para investigar o intestino delgado. Neste tópico, entraremos em detalhes apenas na abordagem da hemorragia digestiva baixa aguda, que normalmente se manifesta com hematoquezia ou enterorragia, eventualmente de grande volume e com instabilidade hemodinâmica. O manejo clínico dessa condição também deve seguir o roteiro das 6 etapas que já conhecemos bem. 2.3.1 AVALIE VIA AÉREA E VOLEMIA O comprometimento das vias aéreas é bem menos frequente na HDB, já que aqui não há hematêmese, porém alguns pacientes com sangramento acentuado podem ter rebaixamento do nível de consciênciapor hipovolemia, o que pode requerer intubação orotraqueal. Os parâmetros para considerar instabilidade hemodinâmica são os mesmos, ou seja, PAs 100 bpm, de forma que a reposição volêmica deve ser prontamente instituída. 2.3.2 DEFINA A PROVÁVEL ETIOLOGIA Estrategista, aqui é preciso reforçar um conceito muito importante! Nos pacientes com enterorragia ou hematoquezia de grande volume, em até 10 a 15% dos casos, esse sangramento é provocado por uma lesão acima do ângulo de Treitz, ou seja, pode ser uma hemorragia digestiva alta! O sangramento volumoso pode acelerar o trânsito intestinal, sendo eliminado pelo reto na forma de sangue ou coágulos, em vez de melena. É por essa razão que, no momento oportuno em que formos localizar e tratar a lesão (etapa 5), começaremos a investigação pela endoscopia digestiva alta, a fim de descartar a HDA como causa do sangramento. 33Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Porém, na grande maioria dos casos, a HDB ocorre em idosos, tendo o cólon como origem do sangramento e a doença diverticular como principal etiologia. A seguir, vamos discutir brevemente os principais aspectos dessa e de outras etiologias. 2.3.2.1 DIVERTICULOSE COLÔNICA Divertículos são formações saculares que ocorrem na parede do cólon, comuns no processo de envelhecimento. Estima-se que 15 a 40% dos idosos com diverticulose podem apresentar sangramento ao longo da vida. O uso cada vez maior de antiagregantes plaquetários e anticoagulantes tem aumentado a frequência e a gravidade do sangramento diverticular. 2.3.2.2 ANGIODISPLASIAS Angiodisplasias representam a segunda causa mais comum de sangramento em idosos. São pequenos vasos superficiais que se tornam dilatados, tortuosos e frágeis com o envelhecimento, sangrando com facilidade. Quanto mais velho for o paciente, maior a probabilidade de haver angiodisplasias com tendência hemorrágica. Podem apresentar- se com sangramento agudo e volumoso, causando enterorragia e hematoquezia, mas também podem sangrar de forma insidiosa e crônica, provocando anemia crônica sem exteriorização visível ou mesmo melena. 2.3.2.3 DOENÇAS ORIFICIAIS Doenças orificiais (ou perianais) são as hemorroidas, fissuras e fístulas. Embora possam ocorrer em qualquer faixa etária, seu sangramento predomina em pessoas abaixo dos 50 anos. Os principais fatores de risco são constipação intestinal, obesidade, esforço evacuatório e gestações múltiplas. Apresenta-se com hematoquezia de pequena monta ou gotejamento de sangue vivo, associando-se a queixas como coceira, ardência e dor em pontada na região perianal. Deve-se sempre examinar a região perianal e realizar o toque retal, permitindo afastar tumores retais. Esse tipo de sangramento não exige internação hospitalar e será abordado em maiores detalhes no material da cirurgia. 34Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.3.2.4 PÓLIPOS E CÂNCER COLORRETAL Pólipos são lesões benignas, muitas vezes pré-neoplásicas, que só sangram quando atingem grandes tamanhos e sofrem ulceração, o que não é frequente. A neoplasia colorretal varia entre o terceiro e o quarto lugar entre as causas de HDB, devendo ser suspeitada em idosos com perda ponderal, alteração do ritmo intestinal ou massa abdominal palpável. Sobre essa etiologia, memorizar o seguinte: Os tumores do cólon direito costumam ser oligo ou assintomáticos, dificilmente provocando sangramento expressivo. Cursam com anemia crônica, fadiga, cansaço, massa abdominal palpável ou melena. Já os tumores do cólon esquerdo são mais sintomáticos, provocando alteração do ritmo intestinal ou suboclusão, associados à eliminação de muco com sangue vivo. 35Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.3.2.5 DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL Pacientes jovens, abaixo dos 50 anos de idade, com história de dor abdominal, diarreia crônica inflamatória (com sangue, muco ou pus), anemia e com marcadores inflamatórios elevados (VHS e PCR) devem fazer você suspeitar de doença inflamatória: doença de Crohn (DC) ou retocolite ulcerativa (RCU). Esse tema será profundamente discutido em um livro próprio. 2.3.2.6 COLITE ISQUÊMICA Pacientes com fatores de risco para doenças vasculares, como hipertensão, diabetes, dislipidemia, além daqueles que já têm vasculopatia ou arritmias cardíacas, são susceptíveis a desenvolver oclusão aguda dos vasos mesentéricos, provocando colite isquêmica e sofrimento da mucosa colônica. Fique atento se o enunciado da questão apresentar alguma dessas comorbidades, além de história de tabagismo. O quadro é mais comum em idosos e apresenta-se com dor abdominal, diarreia e enterorragia. A abordagem mais detalhada dessa etiologia será discutida no material da cirurgia. 2.3.2.7 PROCTITE ACTÍNICA Fique atento à história prévia de radioterapia na região pélvica por câncer de próstata, bexiga ou cólon de útero, por exemplo. A radiação afeta a mucosa retal, gerando estímulo inflamatório crônico e angiogênese. O sangramento pode ser intermitente, ocorrendo meses ou anos após a radioterapia. O tratamento endoscópico, por meio da cauterização das lesões, tem bons resultados. A figura ao lado mostra essa condição antes e depois do tratamento endoscópico. 2.3.2.8 HDB NA POPULAÇÃO PEDIÁTRICA O divertículo de Meckel é a malformação congênita mais comum do tubo digestivo, podendo afetar até 3% da população mundial. Localiza-se no íleo terminal, entre 40 a 90 cm da válvula ileocecal, sendo revestido por tecido ectópico pancreático ou gástrico, o que eventualmente pode ulcerar e provocar sangramentos vultuosos, por vezes com instabilidade hemodinâmica, especialmente em crianças abaixo dos 5 anos. Portanto, a maioria dos sangramentos de grande 36Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva volume nessa faixa etária é causada pelo divertículo de Meckel. Já a intussuscepção é a causa mais comum de obstrução intestinal em crianças, desde lactentes até cerca de 3 anos de idade. A tríade sintomática desse quadro é dor abdominal, massa palpável e fezes em "geleia de framboesa", que não são nada mais do que uma hematoquezia de pequeno volume misturada com muco, em consequência do sofrimento da mucosa intestinal. O sangramento, portanto, é de pequena monta e sem repercussão hemodinâmica. 2.3.2.9 COMO DEFINIR A ETIOLOGIA? Em qualquer questão envolvendo HDB em idosos, considere a diverticulose colônica a causa mais provável. Se a questão quiser que você considere outra causa, fornecerá evidências sobre isso. Siga o seguinte raciocínio apresentado na tabela abaixo: Diagnóstico diferencial da hemorragia digestiva baixa Quadro clínico Causa principal Considerar Menos comum Sangramento > 50 anos Diverticulose colônica Angiodisplasias Neoplasia maligna Sangramentoà parte” dentro da HDB. Basicamente, há 2 categorias de métodos complementares, os endoscópicos e os radiológicos. Assim como na HDA, aqui também os métodos endoscópicos são considerados os melhores para localizar a fonte do sangramento, pois conseguem “olhar o tubo digestivo por dentro”. Se o paciente chegar com sinais de instabilidade, mas tiver boa resposta à reposição volêmica e o sangramento não se mantiver tão intenso, deverá ser investigado inicialmente com endoscopia digestiva alta (EDA) para descartar HDA (15% dos casos). Se a EDA for normal e o paciente se mantiver estável, inicia-se o preparo de cólon para realizar a colonoscopia. Já os métodos radiológicos têm a desvantagem de depender de um fluxo mínimo de sangramento para identificar a lesão, ou seja, precisa haver sangramento ativo. Uma questão de prova pode apresentar um paciente com sangramento ativo persistente e instabilidade hemodinâmica refratária, situação em que não é possível realizar a colonoscopia, querendo que você indique a arteriografia com embolização vascular, por exemplo. Leia com muita atenção o quadro abaixo com a descrição detalhada de cada um desses métodos. É importante você memorizar: 38Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Métodos complementares utilizados na hemorragia digestiva baixa MÉTODOS ENDOSCÓPICOS INDICAÇÃO ENDOSCOPIA DIGESTIVA ALTA Indicada para descartar HDA como causa de enterorragia. Em até 15% dos casos, a causa do sangramento vem do tubo digestivo alto, como a úlcera duodenal. COLONOSCOPIA Considerado método ideal no manejo da HDB, pois a maioria das lesões sangrantes está no cólon, sendo capaz de identificá-las durante o sangramento ou fora dele, além de realizar a hemostasia. Se a EDA for normal, a colonoscopia já deve ser feita a seguir. Porém, em sangramentos leves, intermitentes ou tardios, pode-se começar a investigação pela colonoscopia, sem necessidade de EDA prévia. CÁPSULA ENDOSCÓPICA Investiga sangramento suspeito do intestino delgado. Apenas localiza, não trata. Em pacientes com anemia ferropriva, sangue oculto positivo ou sangramento visível, mas com EDA e colono normais, deve-se suspeitar de sangramento de delgado. ENTEROSCOPIA Indicada para biopsiar ou tratar as lesões do intestino delgado que foram identificadas por outros métodos, como a cápsula endoscópica. É realizada com endoscópios especiais, capazes de alcançar toda a extensão do intestino delgado. Exige equipamentos de alta tecnologia e expertise técnica, sendo pouco realizado na prática. MÉTODOS RADIOLÓGICOS INDICAÇÃO ARTERIOGRAFIA SELETIVA Indicada na HDB com sangramento ativo de grande volume (quando não é possível realizar a colonoscopia) ou após falha terapêutica do procedimento endoscópico. Exige fluxo mínimo de sangramento acima de 0,5 a 1 mL/minuto. É capaz de localizar e tratar a lesão hemorrágica por meio da cateterização seletiva do território vascular, injetando vasoconstrictores ou realizando a embolização. 39Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva 2.3.6 INSTITUA UM TRATAMENTO DE RESGATE, SE NECESSÁRIO Caso o sangramento seja de grande volume, com instabilidade hemodinâmica refratária, deve-se optar pelo método radiológico – a arteriografia com embolização seletiva – ou pela intervenção cirúrgica – a colectomia total. CINTILOGRAFIA C/ HEMÁCIAS MARCADAS Indicada quando há suspeita de sangramento do intestino delgado (sangramento ativo ou intermitente, com EDA e colonoscopia normais). Também é o exame mais indicado para HDB em crianças. Apenas localiza a lesão, não é capaz de tratar. Requer sangramento de baixo fluxo: 0,1 a 0,4 mL/minuto, sendo considerado o exame radiológico de sensibilidade mais alta, capaz de localizar até sangramentos intermitentes. ANGIO-TC Indicada em pacientes com sangramento ativo de grande volume, sem condições de colonoscopia. Quase sempre é usada para localizar a topografia do sangramento previamente à arteriografia, orientando para o território vascular mais provável. Apenas localiza o sítio, não possibilita hemostasia. Requer sangramento de baixo fluxo: 0,3 a 0,5 mL/min. Há 2 conceitos preciosos sobre o paciente com instabilidade e sangramento volumoso: • JÁ DEVEM SER INDICADOS DIRETAMENTE PARA A CIRURGIA: pacientes com sangramento ativo maciço e instabilidade hemodinâmica refratária às tentativas de restauração volêmica! • Diante da indicação cirúrgica em pacientes idosos com sangramento volumoso, a cirurgia indicada é a colectomia total, para garantir que a fonte do sangramento tenha sido efetivamente removida. 2.3.7 FLUXOGRAMA DE ABORDAGEM DA HDB O fluxograma a seguir resume os pontos essenciais do atendimento da hemorragia digestiva baixa maciça com instabilidade hemodinâmica: 40Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva Sangramento INTENSO e INSTABILIDADE refratária Sangramento maciço com instabilidade hemodinâmica RESTAURAÇÃO VOLÊMICA Avaliar transfusão Cintilografia ou angio-TC ARTERIOGRAFIA OU CIRURGIA ARTERIOGRAFIA CIRURGIA EDA COLONOSCOPIA Paciente ESTABILIZADO, mas Sangramento ativo PERSISTENTE E INTENSO Estabilizou? NORMAL Paciente ESTABILIZADO Sangramento leve a moderado ou intermitente Localizou? Falha terapêutica Inconclusiva ou falha terapêutica Localizou e tratou Normal Suspeitar de sangramento de delgado Vamos praticar com algumas questões do Revalida? CAI NA PROVA REVALIDA INEP 2016 | Um homem com 65 anos de idade portador de diverticulose no sigmoide, foi internado em hospital terciário com episódio recorrente de sangramento retal importante. O paciente apresentou melhora significativa após hemotransfusão e hidratação compensatórias. Qual deve ser a conduta imediata nesse caso? A) Colonoscopia de controle. B) Antibioticoterapia por período prolongado. C) Sigmoidectomia com sepultamento do reto. D) Tomografia computadorizada e ultrassonografia. COMENTÁRIO Antes de mais nada, é preciso você saber que não concordamos com o gabarito dessa questão e insistimos que você também não deve concordar, mas é importante discutirmos esse tipo de questão para aprofundar o entendimento sobre o assunto. Veja bem: o enunciado já nos diz que é um homem idoso com diagnóstico conhecido de diverticulose colônica, e essa deve ser a causa do sangramento de grande volume. Após reposição volêmica e hemotransfusão, o paciente foi estabilizado, o que nos permite iniciar a investigação pelos métodos endoscópicos. Como já sabemos que é portador de diverticulose colônica, podemos partir diretamente para a colonoscopia, sem necessidade 41Prof. Élio Castro | Gastroenterologia Hemorragia Digestiva de fazer EDA primeiro. Perceba que não há qualquer evidência no enunciado para pensarmos em diverticulite (inflamação aguda do divertículo), como dor abdominal ou febre, não havendo qualquer necessidade de realizar tomografia computadorizada, muito menos uma ultrassonografia. Porém, para nossa surpresa, o gabarito oficial foi a alternativa C! Discordamos totalmente e reforçamos que a resposta mais adequada seria a alternativa A. Certamente caberia recurso. Gabarito oficial: alternativa D. Gabarito sugerido pelo Estratégia MED: alternativa A. (REVALIDA INEP 2015) Uma paciente de 70 anos, previamente hígida, apresentou dois episódios de enterorragia nas últimas 24 horas, sendo que, após o segundo, sentiu fraqueza e escurecimento da visão. Procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e foi encaminhada ao Pronto Socorro hospitalar, onde referiu nova eliminação, por via retal, há 2 horas, de coágulos e sangue vivo em grande quantidade. Ao exame físico, encontra-se descorada (+2/+4), pressão arterial = 125 x 70 mmHg, frequência cardíaca = 98 bpm e frequência respiratória = 20 ipm. Após reposição volêmica com 1,5 litro de solução cristaloide aquecida e coleta de exames laboratoriais, foi submetida a colonoscopia que identificou doença diverticular sem sangramento ativo, com