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Cirurgia Geral Trauma Abdominal Cirurgia Geral CIRURGIA GERAL TRAUMA ABDOMINAL CIR Cirurgia Geral Trauma Abdominal ÍNDICE 4 4 8 9 13 14 14 16 17 28 31 33 38 44 INTRODUÇÃO ANATOMIA E DIVISÃO DO ABDOME MECANISMOS DE TRAUMA - PENETRANTE - CONTUSO LESÕES CLÁSSICAS POR MECANISMO (AS PROVAS ADORAM!) - FRATURA DE CHANCE - LESÃO DO TANQUE AVALIAÇÃO INICIAL AVALIAÇÃO SECUNDÁRIA MANEJO DO TRAUMA ABDOMINAL - TRAUMA ABDOMINAL CONTUSO - TRAUMA ABDOMINAL PENETRANTE - LOCALIZAÇÕES ESPECIAIS CIR 2 Cirurgia Geral Trauma Abdominal 52 55 64 75 80 91 99 102 104 - LAPAROTOMIA X LAPAROSCOPIA LESÕES ÓRGÃO-ESPECÍFICAS CONTROLE DE DANOS ABDOMINAL SÍNDROME COMPARTIMENTAL TRAUMA PÉLVICO - LESÕES ASSOCIADAS - TRAUMA PERINEAL COMPLEXO CONCLUSÃO Bibliografia CIR 3 Cirurgia Geral Trauma Abdominal INTRODUÇÃO Pessoal, vamos dar início ao tema mais denso dentro da cirurgia do trauma. Neste capítulo, veremos alguns conceitos cruciais para todo tipo de trauma no abdome. Temos muitos tipos de mecanismo e lesões diferentes. Nossas decisões devem ser tomadas com base neles, mas também levando em conta o estado hemodinâmico do paciente, que é o que faz toda a diferença. Portanto, a dica para resolver questões de prova ou para conduzir casos na vida real é atentar para o estado hemodinâmico do paciente. Para atender bem nossos pacientes e também para resolver as questões da prova, temos que compartimentalizar o atendimento em alguns itens: Trauma penetrante x contuso. Localização do trauma (locais específicos têm condutas específicas - ex. transição toracoabdominal). E, como foi dito acima, paciente estável x instável. Então, partiu! ANATOMIA E DIVISÃO DO ABDOME • • • CIR 4 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Anatomia e divisão do abdome. Fonte: ATLS 10ª ed. Transição Toracoabdominal: vai da linha mamilar (anterior) e linha escapular (posterior) até o rebordo costal em toda a circunferência do tronco. Engloba o diafragma, fígado, baço e parte do estômago. O diafragma pode se elevar até o 4º espaço intercostal durante a expiração, então atenção para fraturas de costelas altas que podem ter lesões intra- abdominais associadas. A transição toracoabdominal também é importante no contexto de lesões diafragmáticas (veremos adiante). Legenda: Transição toracoabdominal. Fonte: From Legome & Shockley, 2011. CIR 5 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Flancos direito e esquerdo: espaço entre as linhas axilares anterior e posterior. Vai do 6º espaço intercostal até a crista ilíaca. Dorso: Delimitação lateral são as linhas axilares posteriores. Delimitação superior é a ponta da escápula, e o limite inferior é a crista ilíaca. Atenção: o dorso inclui a porção posterior da transição toracoabdominal. Pelve: Delimitada pelos ossos da bacia e sacro. Abdome anterior: é o que sobra! Delimitado pelos arcos costais superiormente, pelas linhas axilares anteriores lateralmente e pelve inferiormente. O dorso, flanco e pelve contém as estruturas do retroperitônio, que são: Aorta e cava. 3ª e 4ª porções duodenais. Pâncreas. Rins e ureteres. Porção posterior dos cólons ascendente e descendente. Estruturas pélvicas retroperitoneais: reto médio e baixo, bexiga, vagina, vasos ilíacos. Retroperitônio - divisão em zonas Zona I - região central: grandes vasos, duodeno, pâncreas. • • • • • • CIR 6 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Zona II - regiões laterais: rins e hilos renais. Zona III - pelve. Legenda: Zonas do retroperitônio. Fonte: Trauma Vascular: o que todo cirurgião deve saber. CIR 7 Cirurgia Geral Trauma Abdominal MECANISMOS DE TRAUMA Primeiramente, devemos entender os mecanismos de traumas possíveis: se são PENETRANTES, como FAB’s (Ferimentos por Arma Branca - faca, peixeira, espadas) e FAF’s (Ferimentos por Arma de Fogo - tiro com qualquer arma de fogo possível), ou se são CONTUSOS, como acidente automobilístico com trauma direto abdominal, queda de vigas/muros em cima do paciente ou quedas de altura com trauma abdominal direto. No geral, em países desenvolvidos, o trauma CONTUSO (ou fechado) é mais prevalente. No Brasil, esse dado depende da região; em geral, devido ao grande número de acidentes automobilísticos, faz-se mais prevalente os traumas fechados. CIR 8 Cirurgia Geral Trauma Abdominal PENETRANTE ARMA BRANCA Estatisticamente, algumas estruturas são mais lesadas nesse tipo de trauma, mas lógico que isso vai depender da localização do ferimento. • CIR 9 Cirurgia Geral Trauma Abdominal É importante lembrar que temos que pensar em um CONE de lesão possível. Legenda: Cone de lesão ferimento por arma branca. Fonte: PHTLS 9ª ed. ARMA DE FOGO • CIR 10 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Estatisticamente, o órgão mais lesado é o intestino delgado, mas, novamente, depende da localização do ferimento. O ferimento por arma de fogo tem energia muito maior do que o por arma branca. Além disso, existem armas com graus diferentes de energia: quanto maior a energia da arma, maior seu potencial de destruição de tecidos. A lesão da arma de fogo não é somente pelo trajeto do projétil, a energia e o calor da bala produzem uma cavidade temporária e uma cavidade permanente. Isso significa que estruturas adjacentes também serão lesadas. Projéteis de alta energia tendem a se fragmentar e causar “explosão” e ferimentos de saída catastróficos (exemplo em foto abaixo). CIR 11 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Lesão por projétil de arma de fogo: não apenas o trajeto é lesado, mas a onda de calor forma cavidades temporárias e permanentes. Fonte: PHTLS 9ª ed. Legenda: Projéteis com alta energia causam “explosão” dos tecidos conforme avançam. Ferimento de saída pode ser catastrófico. Fonte PHTLS 9ª ed CIR 12 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Ferimento por projétil de alta energia. Entrada na porção anterior do braço, nota-se explosão do ombro. Fonte: War Surgery Volume I - International Committee of the Red Cross CONTUSO Energia transmitida ao corpo de forma contundente, por meio de forças de cisalhamento e/ou esmagamento. Os mais comuns são os eventos com veículos automotivos (colisões, atropelamentos etc). Outros mecanismos: quedas, esmagamentos, agressões. Importante para poder estimar a energia do trauma. CIR 13 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Velocidade do veículo; Cinética do trauma (colisão frontal, lateral, traseira, capotamento, ejeção…); Se houve morte no local (indica que colisão foi grave); Se houve acionamento de airbag; Uso de cinto de segurança. LESÕES CLÁSSICAS POR MECANISMO (AS PROVAS ADORAM!) FRATURA DE CHANCE Fratura do aspecto anterior do corpo vertebral em região lombar. Associada ao uso de cinto de segurança (principalmente o de 2 pontos), ocorre hiperflexão da coluna lombar. • • • • • • • CIR 14 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Associada a lesões intra-abdominais, principalmente alças de delgado e mesentério. Legenda: Mecanismo de trauma relacionado ao cinto de segurança. • CIR 15 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Fratura de Chance. Fonte: Koay J, Davis DD, Hogg JP. Chance Fractures. LESÃO DO TANQUE Lesão clássica em crianças, quando existiam tanques não presos à parede, como na foto abaixo. A criança tentava subir, e o tanque caía em cima dela, bem no andar superior do abdome, causando lesões de CIR 16 Cirurgia Geral Trauma Abdominal pâncreas, principalmente, mas também de qualquer outra estrutura do andar superior do abdome. Legenda: Modelo de tanque comumente associado a trauma abdominal em crianças. Fonte: Pin em Cosas antiguas, juguetes y juegos. (pinterest.com) Atualmente, é muito mais raro ter tanques como esse em casa,https://doi.org/10.1590/0100-6991e-20181709 Sobre a Medway O único preparatório 100% focado em São Paulo A Medway é o único curso preparatório para a residência médica 100% focado nas instituições de São Paulo. Preparamos nosso material com didática padrão-ouro vinda de nossos professores especialistas que já foram residentes onde você quer passar. Nosso maior objetivo é ajudar nossos alunos a conquistarem a residência dos sonhos. E para isso, nos certificamos de estarmos juntos até o final. juntos até o final! Você em 1º lugar na residência dos seus sonhos! A sua aprovação pode ser a próxima a aparecer aqui! Seu nome na lista de aprovados Henrique Bosso 2º lugar na Unifesp em Oftalmologia Beatriz Aveiro 1º lugar no HIAE em Medicina Intensiva Raphaela Bastos 3º lugar na USP-RP em Dermatologia Espaço Hepatorrenal Espaço esplenorrenal: Pelve Janela Subxifóide a. TRAUMA HEPÁTICO b. TRAUMA ESPLÊNICO c. TRAUMA DE INTESTINO DELGADOainda bem! Outro mecanismo que causa lesão semelhante é o impacto do guidão de moto ou bicicleta no abdome. AVALIAÇÃO INICIAL CIR 17 https://br.pinterest.com/pin/489485053241008440/ https://br.pinterest.com/pin/489485053241008440/ https://br.pinterest.com/pin/489485053241008440/ Cirurgia Geral Trauma Abdominal Como já foi dito várias vezes, durante a avaliação primária, procuramos o que está matando o paciente. Pensando em abdome e pelve, o que pode estar matando o paciente é um foco de sangramento localizado no abdome, pelve e retroperitônio. Vamos relembrar os focos? Externo + RAPTO (Retroperitônio, Abdome, Pelve, tórax e ossos longos) Como faremos para identificar esses focos na avaliação primária? No C!! Palpação da pelve; RX na sala de trauma (pelve); E-fast; Lavado Peritoneal Diagnóstico; Passagem de Sonda Orogástrica (presença de sangue indica lesão intra-abdominal, possivelmente gástrica); Passagem de Sonda Vesical de Demora (presença de sangue pode indicar lesão de sistema urinário). Lembrar das contraindicações para SVD: hematúria, hematomas em períneo, lesão de uretra. Para o retroperitônio, não há nada na avaliação primária que possa identificar sangramento; o paciente tem que sobreviver até a avaliação secundária para realização de tomografia. Palpação da pelve • • • • • • CIR 18 Cirurgia Geral Trauma Abdominal O exame físico da pelve deve ser feito somente uma vez. Começamos palpando a sínfise púbica para avaliar se há disjunção, depois fazemos movimento de fechar a pelve e, somente depois, se o paciente não tiver dor, forçamos a abertura da pelve. Se estiver instável, colocaremos os dispositivos de fixação externa temporária (cinta, lençol), sempre ao nível dos trocânteres maiores. Legenda: A: cinta pélvica (dispositivo comercial). B: Lençol. Colocar ao nível do trocanter maior. Fonte: ATLS, 10ª edição. RX de Pelve - sala de trauma Não custa lembrar que o RX só é feito na avaliação primária se o paciente não tiver que sair da sala de trauma e o fato de fazer o RX não for “enrolar” o atendimento do paciente (isso acontece no mundo ideal do ATLS e das questões de prova). CIR 19 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Rx com disjunção de sínfise à esquerda. Mesmo paciente após fixação externa temporária com lençol. Fonte: ATLS 10ª ed. E-FAST (Extended Focused Assessment with Sonography for Trauma) O ultrassom (USG) FAST estendido contempla 4 janelas abdominais (perihepática, periesplênica, pericárdica e pélvica) e 4 janelas pulmonares (bases e ápices bilaterais). Com o crescimento da ultrassonografia point of care, o USG é cada vez mais usado como extensão do exame físico na avaliação do doente crítico (traumatizado ou não). A indicação clássica da realização do FAST abdominal é no paciente instável, porque precisamos achar o foco de sangramento rápido, e o paciente não aguenta uma tomografia. No entanto, o USG é um exame barato, não invasivo e, como falado acima, tem ganhado cada vez mais espaço, então não é errado (inclusive, vários hospitais têm como protocolo) fazer em todos os pacientes, mesmo que eles estejam estáveis. Com o uso do USG na avaliação primária, temos recursos para excluir lesões que matam rápido: no B, o USG pulmonar já nos ajuda a excluir CIR 20 Cirurgia Geral Trauma Abdominal hemotórax e pneumotórax. No abdome, ele nos ajuda a excluir tamponamento cardíaco e pesquisar líquido livre no abdome, que pode ser sangue, urina, líquido entérico… mas é sangue até que se prove o contrário! Janelas abdominais: Legenda: Janelas do FAST. Fonte: Adaptado de ATLS 10 edição. Espaço Hepatorrenal CIR 21 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: L = Liver (Fígado); K = Kidney (Rim). À esquerda, exame normal. À direita, exame positivo (alterado). A seta mostra o sangue (preto). Fonte: Can J Anesth/J Can Anesth (2018) 65:360–370. Espaço esplenorrenal: CIR 22 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: S = Baço (Spleen); K = Kidney (Rim); FAST negativo. Fonte: Adaptação Prova de Residência Médica - UNICAMP - Acesso Direto 2021. CIR 23 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: S = Baço (Spleen); K = Kidney (Rim); FAST positivo (as setas apontam o líquido). Fonte: Can J Anesth/J Can Anesth (2018) 65:360–370. Pelve CIR 24 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: B = Bexiga; FAST negativo. Fonte: Rev Bras Ter Intensiva. 2010; 22(3):291-299. CIR 25 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: B = Bexiga; U = Útero; FAST positivo em paciente feminina; a seta aponta a presença de líquido. Fonte: Can J Anesth/J Can Anesth (2018) 65:360–370. Janela Subxifóide Legenda: Janela subxifóide. Fonte: https://www.philips.com.br/c-dam/b2bhc/br/ marketing/ultrasound/philips-guia-rapido-fast.pdf Lavado Peritoneal Diagnóstico (LPD) O lavado é uma “mini” laparotomia realizada na sala de trauma, infraumbilical (ou supraumbilical, em gestantes e na suspeita de fratura pélvica). Antes de fazer o lavado, é preciso realizar a descompressão gástrica e da bexiga por meio de sondagem, para diminuir o risco de lesões iatrogênicas. Por meio de uma pequena abertura, é introduzida uma sonda na cavidade abdominal. O lavado será positivo se houver aspiração de > 10 ml de sangue ou líquido entérico. Se não houver retorno, deve ser feita CIR 26 https://www.philips.com.br/c-dam/b2bhc/br/marketing/ultrasound/philips-guia-rapido-fast.pdf https://www.philips.com.br/c-dam/b2bhc/br/marketing/ultrasound/philips-guia-rapido-fast.pdf Cirurgia Geral Trauma Abdominal infusão de 1000 ml de soro fisiológico aquecido; este líquido é, então, aspirado e enviado para análise e será positivo se: Legenda: Lavado Peritoneal Diagnóstico. Fonte: ATLS 10ª ed. O lavado é muito sensível, mas é um procedimento invasivo e que requer expertise cirúrgica. Logo, em comparação com o USG (barato, não invasivo, simples e pode ser repetido várias vezes), ele não tem vantagens CIR 27 Cirurgia Geral Trauma Abdominal e está caindo em desuso. Sua indicação é em pacientes instáveis em locais sem recurso de USG. AVALIAÇÃO SECUNDÁRIA Chegaremos na avaliação secundária se o paciente estiver estável. Nesse momento, faremos o exame físico completo do abdome (incluindo toque retal e vaginal, quando necessário) e exames complementares indicados. O melhor exame para o trauma abdominal é a tomografia com contraste endovenoso. Ela tem alta sensibilidade para a maioria das lesões intra- abdominais (incluindo o retroperitônio), mas não é muito sensível para lesões de vísceras ocas e diafragma. É realizada nas fases arterial, portal e tardia/excretora. A depender do tipo de suspeita, também pode ser realizado contraste via oral ou via retal. A fase arterial é crucial para identificação de blush de contraste (que significa sangramento ativo). A fase excretora identifica lesões de bexiga e sistema coletor. CIR 28 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Para trauma contuso: A tomografia será feita para pacientes com queixas específicas abdominais e/ou alterações no exame físico: dor, hematomas, marcas do cinto de segurança, fraturas de arcos costais ou lombar (podem estar relacionadas a lesões de baço e fígado, por exemplo). Além disso, mesmo que o exame físico esteja normal, também devemos realizar tomografia para pacientes cujo mecanismo de trauma foi importante ou cujo exame físico não for confiável (paciente intubado, sob efeito de drogas, ou o paciente ficará anestesiado por várias horas para abordagem ortopédica, por exemplo). Nestes casos, faremos a tomografia computadorizada de corpo inteiro (TCCI), que consiste em crânio, coluna cervical, tórax e abdome. CIR 29 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Vejam abaixoas indicações de TCCI para trauma contuso com base no mecanismo: Vale lembrar que faremos tomografia independente de a paciente do sexo feminino ser gestante ou não, já que sabemos que a melhor forma de cuidar do feto é fazer o atendimento ideal da mãe! Além da tomografia, poderemos solicitar outros exames com base nas nossas suspeitas de lesões: ressonância, endoscopia, cistografia retrógrada, etc. CIR 30 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Para trauma penetrante: Se o paciente estiver instável, a abordagem cirúrgica já está indicada. Se o paciente estiver estável, mesmo que haja indicação de cirurgia, não está errado tomografar antes de ir para o centro cirúrgico, pois ajuda a direcionar o procedimento cirúrgico, já tendo ideia do que está lesado. No caso de trauma penetrante, a tomografia é SEMPRE com contraste (no mínimo, EV; oral/retal para casos selecionados), independente da localização. Pronto, agora que já vimos os principais elementos do atendimento, vamos às condutas para cada situação. MANEJO DO TRAUMA ABDOMINAL Vamos repassar as principais situações para as quais temos que estar preparados, na vida e na prova! Começaremos com o conceito de controle de danos. Lembrem-se o que estabelecemos no início do capítulo: a grande informação para tomarmos a conduta correta é o estado hemodinâmico do paciente. CIR 31 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Com o paciente mostrando sinais de choque, acidose, hipotermia com foco de sangramento não controlado, adotaremos a abordagem de REANIMAÇÃO HEMOSTÁTICA OU ESTRATÉGIA DE CONTROLE DE DANOS (hipotensão permissiva + transfusão de sangue + cirurgia de controle de danos). Veremos esta estratégia mais à frente neste capítulo. Confiram as indicações clássicas de laparotomia imediata, ou seja, já identificadas na avaliação primária (inclui a instabilidade hemodinâmica que falamos acima): Outras indicações claras de abordagem cirúrgica (geralmente identificadas após exames de imagem): CIR 32 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Pneumorretroperitônio e pneumoperitônio (alguma víscera com ar está lesada, e não há tratamento conservador possível); Ruptura de diafragma. Legenda: Exemplo de Evisceração. Fonte: Prova de Residência FMUSP - Especialidades Cirúrgicas. Veremos como essas indicações se aplicam em cada caso. TRAUMA ABDOMINAL CONTUSO • • CIR 33 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Diferentemente das lesões penetrantes, o trauma abdominal contuso pode ser mais desafiador pelo simples fato de: não há uma faca enfiada ali na barriga ou um tiro visível no abdome que já permitam inferir possíveis órgãos acometidos. As lesões podem ser ocultas e tendem a ser silenciosas, com o diagnóstico através de exames de imagem. O órgão mais acometido, DISPARADO, é o BAÇO - principalmente naqueles pacientes que possuem fraturas de arcos costais à esquerda. Mais adiante veremos as lesões específicas, porém não se esqueçam de qual órgão é mais acometido dependendo do mecanismo de trauma. Não querendo, mas já sendo repetitivos, a primeira coisa que vamos nos preocupar é com o estado hemodinâmico do paciente: paciente instável com foco abdominal irá para cirurgia. Caso esteja estável ou mesmo chegue instável, mas alcance a estabilidade após reanimação volêmica, poderemos tomografar o paciente e considerar o tratamento não operatório. No final das contas, o que acontece na maioria das vezes nos grandes centros, é que o trauma contuso ou chega muito grave e precisa ir para controle de danos, ou fica estável o suficiente para tomografia e tratamento não operatório. CIR 34 Cirurgia Geral Trauma Abdominal CIR 35 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Protocolos variam de instituição para instituição, mas, em linhas gerais, o tratamento não operatório consiste em: Repouso absoluto nas primeiras 24-48h; Dosagem de hemoglobina seriada; Exame físico seriado; Monitorização em leito intensivo no mínimo nas primeiras 24-48h; Imagem de controle: em geral repete-se a tomografia com contraste após 72h do trauma em lesões de alto grau (não é consenso: nem repetir, nem o “timing”); Alta hospitalar com observação mínima de 5-7 dias; • • • • • • CIR 36 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Manter acompanhamento ambulatorial com imagem de controle tardia; Recomendação de evitar esforço e atividades de impacto por 6 semanas após o trauma. Caso haja queda de hemoglobina (Hb), o paciente pode receber transfusão sem que seja declarada falha do tratamento não operatório. No entanto, se a queda for persistente mesmo após transfusões iniciais e o paciente continuar precisando de sangue, aí sim o tratamento não operatório está falhando, e o paciente deve ser operado. A depender do grau de lesão, pode haver preocupações adicionais: fístulas biliares, lesão de sistema coletor no caso de lesão renal, etc... Atenção para lesões de vísceras ocas!!! Lembram que a tomografia não é boa para ver lesões de vísceras ocas? Então, geralmente o que vemos na tomografia de um paciente com lesão de delgado, cólon ou estômago é uma pequena quantidade de líquido livre. Raramente, aparece a lesão ou pneumoperitônio na tomografia inicial. Por isso, em pacientes com líquido livre sem lesão de víscera maciça que justifique o líquido, é obrigatório internar o paciente, fazer exame físico e hemograma seriados e repetir a tomografia após 12-24h. Caso haja lesão de víscera oca, o paciente evoluirá com peritonite, piora do leucograma e aumento da quantidade de líquido e/ou surgimento de pneumoperitônio. Uma vez identificada lesão de víscera oca, não existe tratamento não operatório: é obrigatória a exploração cirúrgica, senão o paciente morre de sepse. • • CIR 37 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Cuidado com lesões de vísceras ocas que podem passar despercebidas! No caso de um paciente com líquido livre sem lesão de víscera sólida, a principal suspeita é lesão de víscera oca: devemos ficar de olho e repetir a tomografia (positiva para lesão de víscera oca se aumentar o líquido e/ou aparecer pneumoperitônio). Em pacientes com lesão de víscera sólida (têm líquido livre “explicado” pela lesão do órgão), que vão ser conduzidos com tratamento não operatório, nada garante que o paciente não tenha TAMBÉM uma lesão de alça ali no meio daquele líquido da tomografia. Por isso, o exame físico e o leucograma seriados são importantes no tratamento não operatório, porque se estiverem em piora indicarão que pode haver alguma lesão de alça e é melhor abrir esse abdome. O tratamento não operatório falha por DOIS principais motivos: SANGRAMENTO: órgão voltou a sangrar INFECÇÃO: houve outra lesão - em geral de víscera oca - que passou despercebida. TRAUMA ABDOMINAL PENETRANTE Para começar, vamos pontuar uma coisa muito importante: os únicos ferimentos penetrantes que exploraremos digitalmente são os da parede anterior do abdome. • • CIR 38 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Relembrando: Mas por quê? porque na região anterior do abdome, por meio da exploração (sob anestesia local e com técnica estéril) conseguimos identificar se houve penetração da cavidade peritoneal ou não, logo, a exploração pode mudar a conduta. nas outras regiões (flanco, cervical, membros, ou seja, QUALQUER OUTRO LUGAR), a exploração não muda a conduta (a gente não consegue sentir as estruturas anatômicas direito e corre o risco de destamponar algum coágulo, causando ainda mais sangramento) Vale ressaltar que isso se aplica à situação em que o ferimento não está sangrando ativamente! Exploração é diferente de controle de sangramento. Como já vimos na aula de avaliação inicial, se um ferimento em qualquer localização estiversangrando ativamente, vamos enfiar o dedo, compressas, sonda Folley, o que estiver à mão para controlar esse sangramento. Então, se um ferimento penetrante em parede anterior do abdome não penetrou a cavidade, o paciente pode ser suturado e liberado com cuidados com ferida (profilaxia antitetânica, antibiótico, analgesia). • • CIR 39 Cirurgia Geral Trauma Abdominal FAB ABDOMINAL• CIR 40 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Caso o paciente não possua nenhuma indicação acima de laparotomia imediata, as coisas mudam um pouquinho de acordo com a localização do trauma: ABDOME ANTERIOR: Exploração local Não violou cavidade = sutura Violou cavidade = laparotomia ou laparoscopia (preferível) ** pode ser realizada TC ou exames físico e laboratoriais seriados para monitoramento; FLANCO/DORSO: Realizar TC com TRIPLO contraste! (endovenoso, oral e retal) Por quê? Pois são regiões mais protegidas por musculatura, e estruturas RETROPERITONEAIS (rins, grandes vasos, duodeno, pâncreas e cólon) são os órgãos mais acometidos. NÃO exploramos digitalmente ferimentos em dorso - provável lesão retroperitoneal (40% de chance, para ser mais preciso). TRANSIÇÃO TÓRACO-ABDOMINAL: Já discutido no capítulo de trauma torácico! É EXTREMAMENTE importante, então caso tenham alguma dúvida, retornem ao capítulo para revisar os conceitos chave! • ◦ ◦ • ◦ • CIR 41 Cirurgia Geral Trauma Abdominal FAF ABDOMINAL Apesar de ser parecida à abordagem e avaliação inicial de pacientes com FAB, pelo fato de ser lesão penetrante, os ferimentos por arma de fogo possuem algumas peculiaridades. Devemos lembrar, em primeiro lugar, que o órgão mais comumente lesado é o intestino delgado. Como já vimos no início do capítulo, os ferimentos por arma de fogo geralmente têm alta energia, causando não só lesão no trajeto do projétil, mas também em estruturas adjacentes, como lesões térmicas por contiguidade. Portanto, a conduta é cirúrgica na imensa maioria dos casos. Se o paciente estiver estável, não há problema em fazer exame de imagem (geralmente tomografia com contraste EV) antes de ir para o centro cirúrgico para melhor programação de cirurgia. • CIR 42 Cirurgia Geral Trauma Abdominal O tratamento não operatório para pacientes com ferimento por arma de fogo é raro e aplicável a poucos pacientes: Paciente SEMPRE estável. Evidência de imagem que não houve penetração da cavidade. Alguns casos de lesão hepática de baixo grau ou lesão renal única, sem lesão do sistema coletor. Importante: sem qualquer suspeita de lesão de víscera oca (se passar despercebida, o paciente morre de sepse). Agora, caso o paciente não se encaixe em nenhum item da tabela acima, podemos realizar TC com contraste a fim de avaliar o trajeto do projétil e melhor planejamento cirúrgico. E, é claro: caso o paciente se encontre • • • • CIR 43 Cirurgia Geral Trauma Abdominal ESTÁVEL hemodinamicamente, podemos optar por inicialmente uma laparoscopia em vez de uma laparotomia exploradora de cara. LOCALIZAÇÕES ESPECIAIS RETROPERITÔNIO Pacientes com trauma e hematoma em retroperitônio possuem difícil diagnóstico. Geralmente devemos suspeitar nos pacientes que possuem trauma contuso em região de zona II. Seu diagnóstico clínico é extremamente difícil, porém é uma causa importante de instabilidade hemodinâmica sem causa aparente. O FAST pode não trazer informações adicionais, sendo negativo em até um terço dos casos - por isso, a TC deve ser realizada. • CIR 44 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Sua abordagem e tratamento dependem principalmente da região acometida e se o trauma é de caráter penetrante ou contuso. Legenda: Zonas de lesões retroperitoneais. E como que faz para acessar esse retroperitônio? Bem, sabemos que é um assunto mais específico para R3, porém o básico (nome de manobras e o qual lado você quer acessar), já caiu em algumas provas. Vamos tentar ser bem sucintos e demonstrar mais com imagens do que com palavras. ZONAS I e II - QUERO ACESSAR O LADO ESQUERDO DO ABDOME - REALIZAR MANOBRA DE MATTOX • CIR 45 Cirurgia Geral Trauma Abdominal A manobra de Mattox é indicada quando queremos acessar a parte esquerda do abdome, então devemos rebater os órgãos para a direita. Realiza-se uma rotação medial do cólon esquerdo, luxação esplênica e da cauda do pâncreas (até luxação renal, se necessário, para visualizar os vasos renais). Deve ser visualizada toda a aorta, desde o diafragma até sua bifurcação. Legenda: Manobra de MATTOX - acesso pela esquerda para rebater os órgãos para a direita. Fonte: Feliciano, 1999 ZONA II À DIREITA - QUERO ACESSAR O LADO DIREITO DO ABDOME - MANOBRA DE CATTEL - BRAASCH A manobra de Cattel é indicada quando queremos visualizar a região retroperitoneal à direita do abdome. Realiza-se, então, uma rotação do cólon ascendente para a esquerda, associada à manobra de KOCHER (rotação medial do duodeno). Também pode ser realizada luxação renal, caso necessário, para visualização dos vasos renais. Para uma manobra completa, devem ser visualizados a veia cava e os vasos mesentéricos. • CIR 46 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Manobra de Cattell-Braasch Fonte: Journal of Gastrointestinal Surgery volume 19, pages2264–2268 (2015) CIR 47 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Manobra de Kocher; A - dissecção da porção lateral do peritônio aderida ao duodeno. B - exposição da primeira, segunda e depois terceira porção do duodeno, além da cabeça do pâncreas. Fonte: https://www.uptodate.com/contents/management-of- duodenal-trauma-in-adults? sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 CIR 48 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 https://www.uptodate.com/contents/management-of-duodenal-trauma-in-adults?sectionName=DUODENAL%20INJURY%20GRADING&search=hematoma%20retroperitoneal&topicRef=15588&anchor=H909579191&source=see_link#H909579191 Cirurgia Geral Trauma Abdominal TRANSIÇÃO TORACOABDOMINAL No trauma contuso, quando o paciente tem lesão de diafragma, a lesão é geralmente extensa, e o paciente apresenta hérnia diafragmática aguda (muitas vezes com repercussão ventilatória). • CIR 49 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Setas mostram hérnia diafragmática: estruturas abdominais dentro do tórax. Fonte: UptoDate Recognition and management of diaphragmatic injury in adults (graphic 71982 Version 2.0). Isso não ocorre no trauma penetrante: as lesões são puntiformes e não serão vistas no RX. Mesmo a tomografia é pouco sensível para esse tipo de lesão, que pode facilmente passar despercebida. Se a lesão passar batido, o paciente pode evoluir com hérnia diafragmática tardia e complicações decorrentesdela (comprometimento respiratório, conteúdo herniário pode encarcerar ou estrangular dentro do tórax). Nesses casos, a mortalidade é maior. Não tem como saber se uma lesão pequena vai virar uma hérnia diafragmática tardiamente, e isso pode acontecer a qualquer momento na vida do paciente, inclusive muitos anos após o trauma. Os ferimentos do lado direito têm menos chance de virarem hérnia, porque o fígado pode “tampar” o buraco, mas mesmo assim a chance não é desprezível. CIR 50 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Transição toracoabdominal. Fonte: ATOM (Advanced Trauma Operative Management) 2 ed. Por isso, diante de um ferimento penetrante na transição toracoabdominal (localização com maior chance de ter lesão de diafragma): Se o paciente já tiver que ser abordado por algum outro motivo: obrigatório inspecionar também o diafragma (independente da via escolhida: se o paciente precisou de toracotomia pela lesão penetrante, aproveite o acesso para inspecionar o diafragma; se for laparotomia, mesma coisa). Se o paciente for candidato a tratamento não operatório ou não tiver nenhuma lesão intra-abdominal pela tomografia, mesmo assim é recomendada a inspeção cirúrgica do diafragma (em geral, por videolaparoscopia; pode ser por videotoracoscopia se o paciente tiver hemotórax associado). Nesses casos, o vídeo é uma boa opção por ser menos invasivo, mas é claro que devemos lembrar das contraindicações. Não está errado investigar por laparotomia, mas é uma conduta mais agressiva em situação com risco considerável de não haver lesão. Se houver lesão, suturar com fio inabsorvível. • • CIR 51 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Lesão de diafragma suturada. Fonte: ATOM (Advanced Trauma Operative Management) 2a edição. Enfim, não podemos esquecer do diafragma!! LAPAROTOMIA X LAPAROSCOPIA Por muito tempo acreditou-se que a laparoscopia não tinha espaço no trauma, mas esse conceito já mudou bastante. A laparoscopia tem vantagem de ser menos invasiva e, portanto, menos mórbida para o paciente. CIR 52 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Algumas indicações bem consolidadas para laparoscopia no trauma: Pesquisa de lesão diafragmática (pode entrar com vídeo pelo tórax ou pelo abdome). Ferimento penetrante no abdome em paciente estável. Inclusive no caso de empalamentos (corpo estranho ou facas ainda no paciente), podemos fazer a retirada sob visão por laparoscopia. Ferimento contuso com líquido livre (suspeita de lesão de víscera oca). • • • CIR 53 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Ferimento por arma branca na parede anterior do abdome. Fonte: Ozkan, O.V., Justin, V., Fingerhut, A. et al. Laparoscopy in Abdominal Trauma. Curr Trauma Rep 2, 238– 246 (2016). CIR 54 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Confirmação da penetração na cavidade peritoneal. 2. Laceração hepática. 3. Rafia da lesão hepática. Fonte: Ozkan, O.V., Justin, V., Fingerhut, A. et al. Laparoscopy in Abdominal Trauma. Curr Trauma Rep 2, 238–246 (2016). Neste caso, a laparoscopia nos permitiu identificar e tratar as lesões, com menor morbimortalidade para o paciente. LESÕES ÓRGÃO-ESPECÍFICAS Pessoal, nos últimos anos está sendo cada vez mais cobrado assuntos específicos nas provas de acesso direto. É chato quem quer uma coisa nada a ver com cirurgia ter que estudar graus de lesões órgão- específicas? Sim, principalmente se você for ficar decorando e não perceber sentido em cada tipo de lesão. Nos tópicos abaixo, vamos falar a respeito de apenas três lesões específicas, pois são as mais frequentes em CIR 55 Cirurgia Geral Trauma Abdominal prova de residência. NÃO precisa ficar decorando graus, vamos tentar usar a lógica e entender certinho cada situação, combinado? Temos certeza que, assim, vocês vão gabaritar todas as questões! a. TRAUMA HEPÁTICO É o segundo órgão mais acometido em traumas contusos (atrás apenas do nosso querido baço), e a maioria das lesões hepáticas são em graus mais leves. Possui o total de seis graus, sendo que até o quarto pode ser realizado tratamento conservador - nesses casos, o paciente deve permanecer em observação e com exames seriados a cada 6h, caso esteja estável hemodinamicamente. Seu diagnóstico é feito através de tomografia computadorizada. CIR 56 Cirurgia Geral Trauma Abdominal CIR 57 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Fonte imagens: American Association for the Surgery of Trauma Organ Injury Scale I: spleen, liver, and kidney, validation based on the National Trauma Data Bank. Tinkoff G, Esposito TJ, Reed J, Kilgo P, Fildes J, Pasquale M, Meredith JW J Am Coll Surg. 2008;207(5): 646. Nos casos de tratamento não operatório, há algumas complicações: Aumento de lesões; Sangramento, hematoma, necroses, abscessos; Bilioma, fístula biliar, hemobilia; IRA, infecções, coagulopatia. • • • • CIR 58 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Lembrando que, a qualquer sinal de instabilidade, o paciente deve ser levado ao centro cirúrgico para laparotomia exploradora. Um conceito importante na abordagem cirúrgica do trauma hepático é a MANOBRA DE PRINGLE, que consiste no clampeamento do pedículo hepático, permitindo controlar o sangramento e identificar sua origem: Legenda: Manobra de Pringle. Fonte: https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/ ressec%C3%A7%C3%A3o-hep%C3%A1tica CIR 59 https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/ressec%C3%A7%C3%A3o-hep%C3%A1tica https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/ressec%C3%A7%C3%A3o-hep%C3%A1tica https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/ressec%C3%A7%C3%A3o-hep%C3%A1tica https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/ressec%C3%A7%C3%A3o-hep%C3%A1tica Cirurgia Geral Trauma Abdominal Clampeou, e o sangramento não parou → sangramento vem da veia cava retrohepática. Altíssimo índice de mortalidade (> 95%); Clampeou, e parou de sangrar → sangramento da artéria hepática e de seus ramos - realizar ligaduras. ** No intraoperatório, pode também ser realizada hemostasia do fígado através do eletrocautério, surgcell, sutura hepática e gelfoam. ** Caso o paciente se encontre em extrema instabilidade hemodinâmica, opta-se por tamponamento com compressas e cirurgia de damage control. b. TRAUMA ESPLÊNICO Já no que diz respeito ao trauma de baço, o mais acometido (50%) em traumas abdominais contusos, não somos tão tolerantes ao tratamento conservador - a não ser em graus mais leves. Já que o baço não é um órgão essencial para viver, na maioria das vezes o tratamento é na faca mesmo. E quando é que suspeitamos de lesão esplênica? Devemos sempre ficar mais atentos àqueles pacientes que possuem fraturas de arcos costais à esquerda, paciente que começa a evoluir com dor abdominal em hipocôndrio esquerdo, mesmo que mais tardiamente a algum trauma direto. • ◦ • CIR 60 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Naqueles pacientes estáveis hemodinamicamente, realizaremos a famosa TC contrastada, que vai nos determinar os respectivos graus das lesões: CIR 61 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Perceberam que, pelo menos nos graus iniciais, os parâmetros de tamanho e porcentagem das lesões esplênicas são os mesmos que as do fígado? Geralmente, quando cai em prova, é de algum extremo - o que ajuda bastante para acertar a questão caso vocês já tenham visto alguma vez as classificações com imagens. CIR 62 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Importante lembrar que, nos pacientes que são submetidos a esplenectomia, deve ser realizado segmento com vacinação após 14 dias contra: Haemophilus; Streptococcus; Neisseria. Isso se deve devido a função do baço em relação a proteção contra bactérias encapsuladas. c. TRAUMA DE INTESTINO DELGADO Pessoal, sempre que vocês ouvirem falar de trauma de duodeno, meso ou intestinodelgado, deve vir esta imagem na cabeça de vocês: • • • CIR 63 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Trauma contuso em tronco, paciente vítima de acidente automobilístico. Fonte: ATLS 10ª edição. Esse é o tão famoso ‘’sinal do cinto de segurança’’. Está diretamente relacionado com lesões de intestino delgado. Devemos suspeitar também quando o mecanismo está relacionado a trauma com guidão de bicicleta, queda de tanque em região de tronco, presença de líquido livre em TC sem sinal de lesão em víscera parenquimatosa. No intraoperatório, podemos visualizar hematoma em meso e alterações em parede de alça intestinal. Na dúvida, podemos realizar o ‘’teste do borracheiro’’: colocamos soro na cavidade abdominal e, caso haja borbulhamento na cavidade abdominal ao injetar ar em sonda nasogástrica, há alguma lesão oculta, deve ser realizada inspeção completa das alças intestinais, para identificação e reparo da lesão. CONTROLE DE DANOS ABDOMINAL CIR 64 Cirurgia Geral Trauma Abdominal O conceito de cirurgia de controle de danos nasceu a partir da observação de que o paciente traumatizado grave, instável, não aguenta uma cirurgia prolongada com reparo anatômico de lesões. Não adianta fazer uma cirurgia de Whipple perfeita em um paciente com trauma de pâncreas grau V e, após 6 horas de cirurgia, o paciente morrer porque não tem mais reserva fisiológica. Logo, a cirurgia de controle de danos tem o princípio de restaurar a FISIOLOGIA do paciente, e não sua anatomia. O objetivo é RESOLVER O QUE ESTÁ MATANDO, resolver a hemorragia e a contaminação, manter o paciente vivo com reanimação adequada em UTI e resolver definitivamente os problemas em um segundo momento, quando o paciente estiver sem acidose, sem coagulopatia, sem hipotermia e sem hipocalcemia. A estratégia de controle de danos consiste em 5 passos: Seleção do paciente; Controle de hemorragia e contaminação com fechamento temporário do abdome; Restauração da hemodinâmica; Reparo definitivo; Fechamento da cavidade. Veremos esses passos em detalhe: SELEÇÃO DO PACIENTE 1. 2. 3. 4. 5. CIR 65 Cirurgia Geral Trauma Abdominal De preferência, já devemos ir para o centro cirúrgico com a ideia de fazer controle de danos, e não tentar consertar uma lesão grave, tentar, tentar, tentar e após 5h de esgotamento hemodinâmico do paciente, decidir fazer o controle de danos. As indicações para o controle de danos são: Hemodinâmica: PAS 5 mmol/L. Coagulopatia: ttpa > 60 segundos / TP > 16 segundos / TEG e Rotem alterados. Fatores anatômicos na cirurgia: lesão grave inacessível, lesão que você antecipa que será muito trabalhosa e paciente não está estável. Presença de outras lesões graves em segmento que ainda tem que ser abordada (ex: lesão de pelve grave associada a lesão abdominal), tempo cirúrgico estimado > 60 minutos. Pacientes que precisaram de transfusão maciça. Logística ou múltiplas vítimas: não ter equipe suficiente para atender múltiplas vítimas ou não ter materiais adequados. CIRURGIA DE CONTROLE DE DANOS - DEVE DURAR NO MÁXIMO 1H!!! Ideal ter pelo menos 2 cirurgiões experientes presentes. Preparar todo o tronco do paciente, promovendo uma abertura ampla da cavidade. • • • • • • CIR 66 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Preparar todo o tronco do paciente, do pescoço à raiz das coxas. A incisão abdominal deve ser ampla (xifo-púbica), pode ser necessário ampliar para o tórax. Fonte: ATOM (Advanced Trauma Operative Management) 2ª edição. Rápido controle da hemorragia: eviscerar, colocar compressas em toda a cavidade, ir procurando foco de sangramento retirando compressas e inspecionando em busca de lesões, um quadrante de cada vez. Manobras importantes serão realizadas (Mattox, Cattel- braasch, Kocher) para exposição e inspeção de estruturas. • CIR 67 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Eviscerar o paciente = retirar delgado da frente, evacuar coágulos e começar o empacotamento da cavidade. Fonte: Top Knife: the art and craft of trauma surgery CIR 68 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Empacotamento do fígado. Fonte: ATOM (Advanced Trauma Operative Management) 2a edição Sangramentos arteriais não param com empacotamento. Temos 3 opções: Ligadura: poucos vasos no corpo não podem ser ligados (incompatível com a vida): artéria mesentérica superior proximal, veia cava inferior suprarrenal, aorta. Veia porta pode ser ligada se a artéria hepática estiver pérvia, mas só fazer isso em último caso (alta mortalidade e morbidade para o resto da vida). Shunt temporário: dura 24-48h, o suficiente para o paciente viver, e a cirurgia vascular entrar em ação. Podemos usar como shunt qualquer estrutura tubular que se aproxime do tamanho do vaso (drenos, sondas gástricas etc). Reparo primário. Não faremos em situação de controle de danos, a não ser que seja MUITO fácil e rápido (ex: dar pontos simples em uma laceração pequena de artéria importante). O paciente não aguenta uma cirurgia prolongada. Controle de contaminação: amarrar alças, usar grampeadores se tiver disponível. O paciente não precisa ter trânsito intestinal nesse momento, podemos fazer ressecção em alça fechada, depois isso é resolvido na abordagem definitiva, quando o paciente estiver estável. Também NÃO vamos perder tempo fazendo ostomias! a. b. c. • CIR 69 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Controle da contaminação usando grampeador linear. Fonte: ATOM 2ª edição. Lavagem abundante com soro fisiológico aquecido Fechamento temporário do abdome Legenda: Curativo à vácuo, técnica de Barker. Fonte: Vídeo: Técnica de Barker para peritoneostomia • • CIR 70 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Curativos à vácuo melhoram a drenagem de secreção e citocinas inflamatórias da ferida, estimulam o tecido de granulação e melhoram a aproximação dos tecidos, aumentando a chance de conseguir fechar esse abdome. Técnicas mais primitivas de fechamento temporário do abdome, como bolsa de Bogotá e o uso de Backaus (fotos abaixo), não têm esses benefícios do vácuo e estão mais associadas ao desenvolvimento de síndrome compartimental, então não são primeira escolha. Legenda: Fechamento com backaus à esquerda, Bolsa de Bogotá à direita (tela emborrachada ou pacote de soro fisiológico suturados na pele). Fonte: ATOM 2ª edição RESTAURAÇÃO DA HEMODINÂMICA É importante ressaltar que esses pacientes fazem SIRS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica) MUITO intensa, que dura de 48-72h, em geral. São esperados febre, leucocitose reacional, instabilidade CIR 71 Cirurgia Geral Trauma Abdominal hemodinâmica, necessidade de altas doses de DVA. Na maioria das vezes, a instabilidade não significa que o sangramento não foi controlado, mas aí é importante se garantir na técnicas cirúrgicas e observar o curativo à vácuo (se tiver sangramento ativo, o curativo vai drenar sangue). Nossos alvos nessa fase são: Correção da hipotermia. Correção da coagulopatia: TEG ou ROTEM normais, coagulograma e plaquetas normais. Correção de acidose: pH > 7,3. Correção de outros parâmetros: Hb > 8-10, lactatoNessa abordagem, vamos remover compressas, lavar a cavidade, ver se os focos de sangramento estão totalmente controlados e restabelecer o trânsito intestinal se o paciente tiver ficado com alça fechada. Talvez já seja possível “consertar” tudo nessa segunda abordagem e já fechar o • • • • • CIR 72 Cirurgia Geral Trauma Abdominal abdome, mas a depender do estado hemodinâmico do paciente ou da gravidade das lesões, novas abordagens podem ser necessárias. FECHAMENTO DA PAREDE ABDOMINAL O cenário ideal é o fechamento na primeira reabordagem. Aí poderemos fechar a aponeurose, o subcutâneo e a pele como em uma cirurgia “normal”. No entanto, várias vezes isso não é possível, devido ao edema de alças ou à necessidade de procedimentos subsequentes. O paciente deve então continuar com o vácuo, com revisões em centro cirúrgico a cada 2 ou 3 dias até ser possível fechar. Fechamento precoce é quando conseguimos fechar em até 7 dias da primeira cirurgia e tardio, após 7 dias. Muitas vezes simplesmente não será possível o fechamento da parede, então teremos algumas opções: Fechar somente a pele e deixar uma hérnia incisional “planejada”. Manter o curativo à vácuo até criar uma “capa” de tecido de granulação sobre as alças, com fechamento por segunda intenção. Uso de telas biológicas. • • • CIR 73 Cirurgia Geral Trauma Abdominal CIR 74 Cirurgia Geral Trauma Abdominal SÍNDROME COMPARTIMENTAL A pressão intra-abdominal normal é próxima de zero. Ocorrem picos rápidos e isolados de aumento da pressão quando ocorre manobra de valsalva (tosse, esforço físico, riso…), e isso é normal. O aumento da pressão intra-abdominal se torna patológico quando é mantido e constante: a hipertensão abdominal é definida como CIR 75 Cirurgia Geral Trauma Abdominal pressão ≥ 12 mmHg. Tem 4 graus e sua complicação é a síndrome compartimental. O conceito da síndrome é relativamente novo (primeiro consenso ocorreu em 2004) e para ocorrer a síndrome, precisa haver hipertensão no mínimo grau III associada a disfunção de órgãos. É muito frequente em doentes críticos, inclusive nos pacientes traumatizados. Os seguintes pacientes estão sob risco aumentado de desenvolver a síndrome compartimental: Traumatizados: recebem ressuscitação volêmica agressiva, muitas vezes com excesso de fluidos. Sangramento intra-abdominal volumoso. Queimados: recebem grande quantidade de fluidos EV, choque distributivo, edema de alças e terceiro espaço. Íleo paralítico. Pós operatório de cirurgias abdominais Sepse: choque distributivo, geralmente também recebem ressuscitação volêmica agressiva, também têm edema de terceiro • • • • CIR 76 Cirurgia Geral Trauma Abdominal espaço, íleo adinâmico… Afecções retroperitoneais: pancreatite, lesão traumática no retroperitônio Deu pra ver como a ressuscitação volêmica é importante na fisiopatologia da síndrome compartimental abdominal, né? Mais um motivo para evitarmos o excesso de cristaloides. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Renal: diminuição da perfusão renal e da taxa de filtração glomerular Cardiovascular: aumento da resistência vascular periférica, diminuição do débito cardíaco Respiratório: aumenta a pressão abdominal, o diafragma se eleva, diminui a expansibilidade de complacência pulmonar. Pode ocorrer hipercarbia. Perfusão visceral: assim como os rins, os demais órgãos abdominais estão sob risco de diminuição da perfusão. Lembrando que a pressão de perfusão de qualquer órgão = pressão arterial média - pressão do compartimento (crânio para TCE, abdome para síndrome compartimental abdominal, etc) Sistema Nervoso Central: como ocorre hipercarbia devido à restrição pulmonar, pode haver piora do edema cerebral. Também piora o edema cerebral a diminuição do retorno venoso associada à hipertensão abdominal (mesmo raciocínio de laparoscopia no TCE). COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO? • • • • • • CIR 77 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Para começar, temos que ter esses pacientes com risco na mente para suspeitar! Com a suspeita, vamos aferir a pressão por meio de cateter urinário. Aferição da Pressão Intra-abdominal (PIA) A PIA é medida indiretamente pela pressão intravesical após infusão de 25 ml de soro fisiológico dentro da bexiga. Vejam no desenho abaixo uma forma “chique” de aferição, usando um monitor, semelhante ao monitor de pressão arterial invasiva. CIR 78 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Aferição da PIA por meio de monitor. Fonte: Traduzido de UptoDate Abdominal compartment syndrome in adults. Caso não tenhamos esses dispositivos, podemos usar uma sonda vesical de demora (SVD) de 3 vias. Com o paciente em decúbito dorsal, SEM a cabeceira elevada e com a via que vai para o coletor fechada, injetamos os 25 ml de soro fisiológico e medimos a pressão com auxílio de uma coluna d’água conectada a uma das vias abertas da SVD (é importante que o ZERO da coluna esteja ao nível do paciente). Essa medida será em cmH2O, então para converter para mmHg, é só DIVIDIR por 1,36. TRATAMENTO Primeiramente, evitar ressuscitação agressiva com cristaloides é uma ótima forma de prevenção! Para tratarmos, precisamos primeiro identificar, então sempre medir a PIA em pacientes críticos sob risco. Medidas de suporte clínico Manter paciente bem perfundido para otimizar PAM e perfusão de órgãos. Corrigir distúrbios eletrolíticos para evitar íleo adinâmico. Diminuição do volume da luz dos órgãos SNG em drenagem. • • • CIR 79 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Lavagem intestinal. SVD Diminuição do volume intra-abdominal Punção de ascite. Drenagem de hematomas. Controle de hemorragias. Melhora da complacência abdominal Evitar cintas pós operatórias. Sedoanalgesia. Bloqueador neuromuscular. Descompressão cirúrgica Para graus III e IV de hipertensão, sem melhora com medidas clínicas. Deixar em peritoniostomia (curativo à vácuo). TRAUMA PÉLVICO • • • • • • • • • • CIR 80 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Pessoal, o trauma de pelve é extremamente importante e está associado ao trauma contuso de alta energia, com altos índices de mortalidade, devendo ser diagnosticado precocemente pela equipe de cirurgia do trauma. Lesões de pelve graves são catastróficas porque sangram muito. O paciente pode ter exsanguinação na nossa cara, pois cabe toda a volemia de um adulto na pelve humana. Geralmente, os sangramentos são venosos (~85%), oriundos do plexo venoso sacral. Para cessar sangramentos venosos, na maioria das vezes o fechamento da pelve já é suficiente, porque a própria diminuição do espaço tampona o hematoma. Às vezes, também pode ser necessário o empacotamento ou packing pré-peritoneal, que nada mais é que encher o espaço da pelve com compressas para tamponar sangramentos venosos. Legenda: fixação pélvica com lençol Fonte: https://www.uptodate.com/contents/pelvic- trauma-initial-evaluation-and-management? search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 CIR 81 https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 https://www.uptodate.com/contents/pelvic-trauma-initial-evaluation-and-management?search=trauma%20pelve&source=search_result&selectedTitle=1~150&usage_type=default&display_rank=1 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Sangramentos arteriais ocorrem mais raramente (15%) (ainda bem!), sendo originário das artérias pudenda interna, glútea superior e ilíaca interna. Esse sangramento não para com fixação externa da pelve nem com tamponamento pré peritoneal. Existem 3 mecanismos principais de lesão da pelve: Legenda: Mecanismo de lesão pélvica. Fonte: ATLS 10ª ed O mecanismo de trauma mais comum é o por compressão lateral da pelve, em geral associado a atropelamentos e traumas automobilísticos com impactos laterais. Nesse tipo de mecanismo, há uma compressão da pelve e, em geral, não há espaço para sangramentos tão significativos. O segundo mecanismo mais comum (e o mais temido) é o por compressão ântero-posterior. Essa é a famosa fratura em livro aberto. Aqui há uma disjunção da sínfise púbica e a pelve fica "aberta", e CIR 82 Cirurgia Geral Trauma Abdominal consequentemente os sangramentos são mais significativos, tanto pela lesão vascular (principalmente venosa) que ocorre, quanto pelo aumento da capacidade de volume da pelve. Legenda: Pelve em “livro aberto”. Fonte: Rev. Fac. Ciênc. Méd. Sorocaba, v. 15, n. 1, p. 214, 2013. CIR 83 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: pelve ‘’em livro aberto’’, sem lesão de bexiga aparente (ausência de extravasamento de contraste vesical). Fonte: Acervo Medway O mecanismo por cisalhamento vertical, em geral, está associado às quedas e a um consequente mecanismo de trauma vertical. Nesses casos, é sempre muito importante atentarmos para lesões de coluna, lesões de membros inferiores (em especial, fraturas de fêmur) e lesões renais (nesses casos, o hilo renal fica relativamente fixo, e o rim “balança” - consequentemente gerando lesões vasculares graves). É crucial a identificação da pelve como foco de choque na avaliação primária e a utilização de lençol amarrado na região transtrocantérica da cabeça do fêmur ou a utilização de cinta pélvica. As lesões de pelve são complexas porque geralmente são decorrentes de ALTA energia e têm grande chance de ter lesões associadas intra- abdominais. CIR 84 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Novamente, para decidirmos conduta, vamos dividir nosso pensamento em paciente estável x instável: NO PACIENTE ESTÁVEL Podemos submeter o paciente a tomografia (obrigatório o contraste EV, assim como todos os traumas, para identificar a presença de blush). O blush ou extravasamento de contraste significa sangramento arterial ativo e necessidade de arteriografia com embolização. CIR 85 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Arteriografia. Na imagem 1, vemos o blush apontado pela seta. Na imagem 2, após a embolização, vemos que o sangramento cessou. Fonte: Transcatheter Embolization for Trauma of the Pelvis; Concepts and techniques for a multidisciplinary treatment approach. BY LUKE R. WILKINS, MD; JAIME ALL, MD; AND J. FRITZ ANGLE, MD. Além de identificar presença de blush, a tomografia investiga as lesões intra-abdominais associadas (bexiga, reto, etc) e ajuda na programação cirúrgica da bacia pela ortopedia. A arteriografia é realizada em dois cenários: Em pacientes estáveis hemodinamicamente, com blush arterial em TC; Naqueles pacientes instáveis hemodinamicamente, que não possuem melhora após medidas clínicas e/ou que possuam algum tipo de piora, indicando sangramento de origem arterial - mas isso, apenas após medidas iniciais instaladas. 1. 2. CIR 86 Cirurgia Geral Trauma Abdominal NO PACIENTE INSTÁVEL Quando o paciente chega instável, além de colocar o lençol na pelve, é fundamental realizar o FAST. O FAST serve para identificar se o paciente tem também um foco abdominal de choque, que terá que ser resolvido. CIR 87 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: REBOA. Fonte: https://www.researchgate.net/figure/ER-REBOA-catheter- Design-features-include-low-profile-7-French-sheath-designed-for_fig1_307453881 CIR 88 https://www.researchgate.net/figure/ER-REBOA-catheter-Design-features-include-low-profile-7-French-sheath-designed-for_fig1_307453881 https://www.researchgate.net/figure/ER-REBOA-catheter-Design-features-include-low-profile-7-French-sheath-designed-for_fig1_307453881 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: REBOA inflado dentro da aorta descendente. Fonte: Ribeiro Jr MAF, Brenner M, Nguyen ATM, Feng CYD, De-Moura RR, Rodrigues VC, Prado RL. Oclusão ressuscitativa por meio de balão endovascular da aorta (REBOA) : revisão atualizada. Rev. Col. Bras. Cir. 45 (01), 2018.https://doi.org/10.1590/0100-6991e-20181709 No caso de FAST positivo: Manter o paciente com lençol ou cinta pélvica / REBOA, se disponível; Laparotomia exploradora: controlar sangramento intra-abdominal (contexto de controle de danos); Ortopedia realiza fixação externa da pelve; Empacotamento pré peritoneal; Arteriografia se continuar com instabilidade ou queda mantida de hemoglobina. No caso de FAST negativo: Manter lençol ou cinta pélvica até centro cirúrgico / REBOA, se disponível; Ortopedia realiza fixação externa da pelve; Empacotamento pré-peritoneal; Arteriografia se continuar com instabilidade ou queda mantida de hemoglobina. 1. 2. 3. 4. 5. 1. 2. 3. 4. CIR 89 https://doi.org/10.1590/0100-6991e-20181709 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Empacotamento ou packing pré-peritoneal, com colocação de compressas em região extraperitoneal - bilateralmente e em região retropúbica. Fonte: Revista Portuguesa de Cirurgia (2013) (26):21-30. Legenda: Fratura da bacia com fixadores externos de tipo anterior supra-acetabular; 2. Aspecto externo da fixação anterior da bacia com fixadores externos. Fonte: http:// www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182013000300004 CIR 90 http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182013000300004 http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182013000300004 http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182013000300004 http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182013000300004 Cirurgia Geral Trauma Abdominal LESÕES ASSOCIADAS Como dito acima, lesões de pelve estão associadas a alta energia e grande chance de ter lesões abdominais associadas: estruturas pélvicas (bexiga, uretra, reto) são mais predispostas, mas não são as únicas que podem acontecer. Lesão de Bexiga A grande maioria dos casos de lesão de bexiga se refere às lesões extraperitoneais, por conta de fragmentos ósseos que lesionam a bexiga. Durante a avaliação, vemos extravasamento de contraste na cistografia (em geral, em forma de orelha de Mickey) ou na cistotomografia (vejam as imagens abaixo): CIR 91 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Na seta vermelha, vemos uma espícula óssea, que lesionou a bexiga. Fonte: https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma CIR 92 https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Imagem mostrando o extravasamento de contraste na cistoTC. Fonte: https:// radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma CIR 93 https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma https://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-traumahttps://radiologyassistant.nl/abdomen/acute-abdomen/ct-in-trauma Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Sinal da orelha de Mickey - lesão extraperitoneal de bexiga. Fonte: https:// www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf Já as lesões intraperitoneais (mais raras no trauma pélvico) se apresentam com extravasamento de contraste intraperitoneal e o sinal da chama de vela: CIR 94 https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf Cirurgia Geral Trauma Abdominal Fonte: https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf O tratamento nos casos de lesões de bexiga extraperitoneal é a passagem de sonda vesical de demora por 14 dias. Já as lesões intraperitoneais precisam ser abordadas cirurgicamente para sutura (sempre em 2 planos e com uso de fios absorvíveis como vicryl, caprofyl ou catgut cromado). Lesão de Uretra A uretra membranosa é a mais comumente lesada nos traumas pélvicos por conta de o ponto de inserção do esfíncter pélvico coincidir com a CIR 95 https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf Cirurgia Geral Trauma Abdominal junção bulbomembranosa, seu ponto anatômico mais frágil. A origem do músculo do esfíncter é a parede da pelve e, quando há uma abertura do arcabouço pélvico na fratura em livro aberto, ocorre um esgarçamento da uretra membranosa juntamente com a avulsão do ligamento puboprostático. Os sinais clínicos de lesões de uretra incluem: uretrorragia, hematoma perineal e escrotal, próstata alta no toque retal (sinal que foi retirado do ATLS 10ª edição por conta da baixa sensibilidade) e abaulamento suprapúbico. Legenda: Hematoma perineal, sugestivo de lesão uretral. Fonte: https:// www.researchgate.net/figure/Perineal-hematoma_fig5_229435033 CIR 96 https://www.researchgate.net/figure/Perineal-hematoma_fig5_229435033 https://www.researchgate.net/figure/Perineal-hematoma_fig5_229435033 https://www.researchgate.net/figure/Perineal-hematoma_fig5_229435033 https://www.researchgate.net/figure/Perineal-hematoma_fig5_229435033 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Hematoma perineal. A conduta inicial, diante da suspeita de uma lesão de uretra, é a realização de uma uretrocistografia retrógrada. Caso haja progressão do contraste até a bexiga, podemos realizar uma tentativa de sondagem vesical de maneira cautelosa. Em caso de insucesso ou nos casos em que o CIR 97 Cirurgia Geral Trauma Abdominal contraste não chega até a bexiga, devemos proceder a realização de cistostomia. Legenda: Lesão de uretra posterior secundária à fratura de bacia. Fonte: https:// www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf / Rev Med (São Paulo). 2008 jul.-set.;87(3):184-94 CIR 98 https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1331414162Urologia_cap34.pdf Cirurgia Geral Trauma Abdominal TRAUMA PERINEAL COMPLEXO O trauma perineal é classificado como complexo, quando envolve lesão de múltiplas estruturas, como fraturas de pelve, lesão de partes moles perineais, reto e bexiga. Geralmente, são lesões extensas e com alto potencial de contaminação (pela contaminação do ambiente e também por lesão de reto/cólon). Por isso, além do atendimento habitual segundo o ABCDE e os fluxogramas que já vimos acima, temos que ter alguns cuidados extras. Dependendo do grau de lesão, pode até ser realizada uma derivação do trato gastrointestinal (colostomia) ou do trato urogenital (cistostomia) a fim de preservar os tecidos e evitar infecções maiores locais. Na imensa CIR 99 Cirurgia Geral Trauma Abdominal maioria das vezes, na abordagem inicial, não faremos um fechamento primário da lesão - deixando um curativo a vácuo, após limpeza e debridamento. CIR 100 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Legenda: Períneo lacerado com reto exposto. Fonte: Imagens retiradas de questão USP- SP CG 2016. Legenda: Fratura de pelve associada a trauma perineal. Fonte: Imagens retiradas de questão USP-SP CG 2016. CIR 101 Cirurgia Geral Trauma Abdominal O principal objetivo aqui é evitar contaminações grosseiras do períneo e evitar reconstruções no tempo inicial. Após cerca de 1-2 semanas, quando o paciente clinicamente estiver mais estável, com a contaminação perineal controlada, com um leito da ferida adequado, aí sim programamos uma reconstrução (em geral, com retalhos locais). CONCLUSÃO CIR 102 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Acabamos! Aprendemos mais sobre a anatomia, os principais órgãos atingidos de acordo com o tipo de trauma, exames secundários, indicações de laparotomia e principalmente determinar a conduta de acordo com a estabilidade ou não do paciente. CIR 103 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Bibliografia AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS COMMITTEE ON TRAUMA . Advanced Trauma Life Suport - ATLS. 10 ed, 2018. IATSIC (International Association for Trauma Surgery and Intensive Care). Manual of Definitive Surgical Trauma Care 4th ed. 2016 AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS COMMITTEE ON TRAUMA. Advanced Trauma Operative Management - ATOM. 2a edição TOP KNIFE: THE ART AND CRAFT OF TRAUMA SURGERY. Hirshberg & Mattox. 2006 TRAUMA VASCULAR: O QUE TODO CIRURGIÃO DEVE SABER. Organizadores: Rina Porta, Adenauer Goés Jr, Rossi Murilo. Editora Rubio, 1a edição, 2022. Abdominal compartment syndrome in adults. UptoDate - acesso em 27/03/2022, literatura revisada até fevereiro de 2022. Livro - Emergências Cirúrgicas Traumáticas e Não Traumáticas Condutas e Algoritmos - Assef PETRONE, Patrizio et al. Approach and Management of Traumatic Retroperitoneal Injuries. Cirugía Española, 2018. Elsevier BV. FLATO, Uri Adrian Prync et al. Utilização do FAST-Estendido em terapia intensiva. Rev Brasileira de Terapia Intensiva. 2010. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. CIR 104 Cirurgia Geral Trauma Abdominal Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: MEDICINA INTENSIVA: II. TÓPICOS SELECIONADOS 31: 563-567, out./dez. 1998 Ribeiro Jr MAF, Brenner M, Nguyen ATM, Feng CYD, De-Moura RR, Rodrigues VC, Prado RL. Oclusão ressuscitativa por meio de balão endovascular da aorta (REBOA) : revisão atualizada. Rev. Col. Bras. Cir. 45 (01), 2018. https://doi.org/10.1590/0100-6991e-20181709 Costantini TW, Coimbra R, Holcomb JB, et al. Current management of hemorrhage from severe pelvic fractures: Results of an American Association for the Surgery of Trauma multi-institutional trial. J Trauma Acute Care Surg 2016; 80:717. Sahu KK, Mishra AK, Lal A, et al. Clinical spectrum, risk factors, management and outcome of patients with retroperitoneal hematoma: a retrospective analysis of 3-year experience. Expert Rev Hematol 2020; 13:545. Richardson JD. Changes in the management of injuries to the liver and spleen. J Am Coll Surg 2005; 200:648. García Santos E, Soto Sánchez A, Verde JM, et al. Duodenal injuries due to trauma: Review of the literature. Cir Esp 2015; 93:68. Rostas J, Cason B, Simmons J, et al. The validity of abdominal examination in blunt trauma patients with distracting injuries. J Trauma Acute Care Surg 2015; 78:1095. MATTOX, Kenneth L. et al. Trauma. 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