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1 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa 2 3 Sumário Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Panorama histórico do ensino de Língua Portuguesa Transformações na metodologia de ensino de Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Texto como unidade de ensino: como utilizá-lo? Objetivos - conteúdos e orientações para a docência do português Educação infantil - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Ensino fundamental - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Tratamento didático dos conteúdos pelo professor de Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Panorama histórico da avaliação O que significa avaliar? O processo avaliativo na educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental Avaliação e os tipos de função Referências CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO 5 7 9 10 13 16 17 21 24 27 28 31 35 38 43 4 Objetivos Definição Explicando Melhor Você Sabia? Acesse Resumindo Nota Importante Saiba Mais Reflita Atividades Testando Para o início do desenvolvimento de uma nova competência; Se houver necessidade de se apresentar um novo conceito; Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; Curiosidades indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forma necessárias; Se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; Quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; Quando forem necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; As observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; Quando o desenvolvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas. 5 @faculdadelibano_ 1 Fundamentos 6 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Capitulo 1 Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Bentes e Mussalim (1997) denominam essas práticas que privilegiam a gramática de visão formalista da língua, aquela que se atém aos aspectos normativos e a como eles se relacionam. Essa priorização da gramática pode ser como uma tradição histórica, que está embasada em uma concepção de caráter clássico da língua, que muitas vezes desconsidera as interações comunicativas e a diversidade linguística que possuímos em nosso país. Essa concepção de que saber português se dá pelo domínio da gramática tem seu cerne estabelecido com a chegada dos jesuítas no Brasil. A priorização da gramática no ensino brasileiro teve sua base fundamentada com a chegada dos jesuítas, que propuseram em seu ensino o aperfeiçoamento do português que encontraram entre os indígenas que habitavam nossas terras. Assim, permitiam que professores que tivessem aprendido e tivessem completo domínio da gramática normativa apenas ensinassem gramática, completando, assim, uma tradição normativa com poucas perspectivas de mudanças. Objetivos Ao término deste capítulo você será capaz de perceber que no Brasil é priorizado o ensino da língua materna a partir da gramática tradicional, ou seja, da norma culta. Não é raro ouvirmos afirmações de que saber a gramática é dominar completamente a Língua Portuguesa, isto é, comunicar-se efetivamente nas mais diversas esferas comunicativas. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! 7 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Capitulo 1 Panorama histórico do ensino de Língua Portuguesa FIGURA 1 Sala de aula tradicional FONTE Pixabay A exaltação da gramática no ensino brasileiro foi sendo reforçada por algumas normas legislativas no decorrer dos tempos. Lima (1985) cita que, por exemplo, em 1959, tivemos a Portaria nº 36, do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que, em suma, disciplinava a adoção da nomenclatura gramatical brasileira, bem como recomendava que esta fosse usada em um ensino de caráter programático, além de prever exercícios constantes de verificação da aprendizagem. Ainda segundo esse estudioso, a Portaria nº 36 concebia grande relevância à revisão da doutrina gramatical com, por exemplo, exercícios de repetição, e também à realização de pesquisas constantes, para verificar os equívocos mais recorrentes em relação ao uso da gramática realizado pelos discentes. Nesse sentido, podemos perceber que não havia espaço para variação e diversidade linguística, sendo considerado plausível aquele aluno que meramente fizesse bom uso das regras e normas gramaticais, práticas essas bastante comuns no ensino tradicional. 8 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Capitulo 1 Essa portaria reforça, portanto, a importância da gramática em detrimento de outras práticas pedagógicos que considerassem o aluno em sua totalidade linguística. Já a Lei nº 5.692/1971, apesar de ter apresentado uma pequena evolução no quadro da legislação, também reproduzia uma situação bastante paradoxal do ensino da Língua Portuguesa. Em síntese, segundo Lima (1985, p. 2), “a legislação assume a posição de distinguir um ensino centrado no uso da língua de um ensino a respeito da língua”. Isso fica muito evidente na leitura do Parecer nº 853/1971. Vejamos o que Lima (1985, p. 2) nos afirma: O artigo 5º desse Parecer afirma que nas séries iniciais, sem ultrapassar a quinta, a língua será desenvolvida sob a forma de Comunicação e Expressão, tratada predominantemente como atividade; em seguida, até o fim desse grau, sob a forma de Comunicação em Língua Portuguesa, tratada predominantemente como área de estudo; no ensino do 2º grau, sob a forma de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, tratada predominantemente como disciplina. (LIMA, 1985, p. 2) O estudioso também cita o artigo 4º, que definia que as atividades deveriam propor que os discentes atingissem a sistematização do conteúdo e também definia que, nas disciplinas, a aprendizagem seria desenvolvida, de forma predominante, sobre conhecimentos sistemáticos. Explicando Melhor Esses fatores, como podemos perceber, dificultavam os avanços na metodologia do ensino da Língua Portuguesa, devido, principalmente, à exclusividade da gramática em detrimento de outras práticas pedagógicas. 9 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Capitulo 1 Uma característica bastante marcante dessa época, impulsionada pelo processo de industrialização, era a apresentação de alunos prontos para o mercado de trabalho, com bastante foco na memorização de informações e conteúdos em vez de saber empregá-los de forma correta e agir em relação a eles. Era característica dessa época a apresentação de produtos feitos e acabados, assim como a memorização. Surgiram, então, as transformações sociais decorrentes da industrialização. Seus valores começaram a passar pelo crivo de uma forte e contínua crítica e muita rejeição. Transformações na metodologia de ensino de Língua Portuguesa Com as transformações sociais no decorrer dos tempos, devido aos processos que decorreram da industrialização, começaram, então, a emergir fortes críticas e rejeição a esse modelo focado puramente no ensino da gramática. Nesse novo modelo, o professor teria a tarefa de mediador de conhecimentos, levando a criança a saber questionar, criticar, pensar e criar novos modelos, partilhando conhecimento de uma forma constante e aberta, aceitando opiniões e diversas formas de pensar e falar. Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certezade que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido os fundamentos epistemológicos, históricos e metodológicos, além do panorama histórico do ensino da língua portuguesa e as transformações na metodologia de ensino em português. 10 @faculdadelibano_ 2 Aprender e ensinar na escola 11 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Capitulo 2 Aprender e ensinar na escola Como podemos notar, o ensino-aprendizagem não deve se prender somente ao ensino da gramática tradicional ou memorização de conteúdos. O professor de Língua Portuguesa deve compreender que o ensino não deve ser somente pautado na gramática normativa e que o seu domínio não é o bastante para determinar se um aluno tem conhecimentos suficientes para o domínio da Língua Portuguesa e de seus usos nas mais diversas esferas comunicativas. Assim, segundo Lima (1985), o ensino de Língua Portuguesa deve estar pautado em dois principais aspectos. Vejamos a seguir: Objetivos Ao término deste capítulo você será capaz de entender o que é aprender e ensinar na escola, bem como vai conhecer o texto como unidade de ensino e como utilizá-lo. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! 12 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Capitulo 2 Exemplo: Um exemplo bastante claro que o professor de Língua Portuguesa pode utilizar é o uso das habilidades linguísticas em uma entrevista de emprego, na qual há necessidade de ser mais formal, normalmente, com um vocabulário mais rebuscado e o emprego adequado da norma culta. Por outro lado, em uma conversa com amigos, há espaço para informalidades, dialetos e gírias, já que esse é um contexto comunicativo em que existe maior proximidade com o receptor. FIGURA 3 Organograma típico envolvendo o ensino da Língua Portuguesa FONTE Elaborado pelas autoras (2021). 13 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Capitulo 2 Texto como unidade de ensino: como utilizá-lo? FIGURA 4 O texto deve ser o foco no ensino da Língua Portuguesa FONTE Pixabay Os Parâmetros Nacionais Curriculares – PCNs – (1997) afirmam que o ensino da Língua Portuguesa tem sido marcado, sobretudo, por uma sequência de conteúdos que buscam fazer com que o aluno saiba juntar letras ou sílabas para formar palavras e, por sua vez, juntar palavras para formar sentenças. Por fim, devem agrupar as sentenças para formar um texto. Essa abordagem meramente sistemática levou à concepção do texto apenas como um pretexto para se ensinar, no entanto sem que o aluno tenha compreensão e aprofundamento significativo no que está lendo ou escrevendo. Assim, caso o professor de Língua Portuguesa tenha como objetivo promover a interpretação de texto, não deve tomar como unidade básica de ensino a letra, sílaba, palavra ou frase, pois estas, sem serem empregadas em um contexto de ensino, não se atêm à competência discursiva, que aqui é a peça principal. O professor não deve focalizar a leitura do texto em palavras ou situações didáticas que possam emergir, mas considerar a leitura como unidade de ensino a ser trabalhada em 14 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Capitulo 2 sua totalidade, sendo complementar à escrita, como podemos ver neste excerto dos PCNs (1997): Apesar de apresentadas como dois sub-blocos, é necessário que se compreenda que leitura e escrita são práticas complementares, fortemente relacionadas, que se modificam mutuamente no processo de letramento — a escrita transforma a fala (a constituição da “fala letrada”) e a fala influencia a escrita (o aparecimento de “traços da oralidade” nos textos escritos). São práticas que permitem ao aluno construir seu conhecimento sobre os diferentes gêneros, sobre os procedimentos mais adequados para lê-los e escrevê-los e sobre as circunstâncias de uso da escrita. (BRASIL, 1997, p. 41) Precisamos também ressaltar que, muitas vezes, os professores tendem a facilitar demais os textos, com sentenças curtas e poucos parágrafos, desconsiderando as habilidades de seus alunos. Logo, os PCNs (1997) mostram que é um grande equívoco por parte dos docentes de Língua Portuguesa tentar simplificar os textos para os alunos, pois acabam por negar as suas capacidades. Ao contrário, deve-se aproximar esses discentes dos textos de qualidade, já que não é possível formar leitores assíduos – aqueles que leem fora do ambiente escolar – somente oferecendo textos simplificados ou empobrecidos, que não possuem a qualidade e a capacidade de instigar a formação de leitores. FIGURA 5 Os textos trabalhados em aula devem ser de interesse dos alunos FONTE Pixabay 15 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Capitulo 2 Muitas vezes, os professores insistem em textos pouco interessantes, que se tornam cansativos e diminuem a experiência de leitura satisfatória dos discentes, fazendo com que eles vejam a leitura como uma obrigação, e não como uma atividade prazerosa, lúdica e relaxante. Assim, é importante investir e atentar-se à iniciação da criança no mundo da leitura e da escrita, já que será nessa fase que ela construirá seus gostos e suas preferências. Nesse sentido, o professor de Língua Portuguesa que traz aos seus alunos textos interessantes tem maior probabilidade de formar leitores críticos e assíduos. O trabalho com o texto literário permite que sejam construídas capacidades de crítica e de reflexão, devendo ser incorporado às práticas cotidianas da sala de aula, e não somente como um pretexto para ensinar. Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir algo do que vimos. Você deve ter compreendido o que é aprender e ensinar na escola, bem como vai conhecer o texto como unidade de ensino e como utilizá-lo. 16 @faculdadelibano_ 3 Objetivos - conteúdos e orientações para a docência do português 17 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Capitulo 3 Objetivos - conteúdos e orientações para a docência do português Educação infantil - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Para iniciarmos os nossos estudos, é de suma importância destacar que, segundo os Parâmetros de Qualidade para Educação Infantil (2006), existem alguns aspectos a que os professores de Língua Portuguesa devem se atentar em relação às crianças na educação infantil. Vamos conferir cada um deles? Objetivos Ao término deste capítulo você será capaz de entender que tanto na educação infantil quanto nos anos iniciais do ensino fundamental, a participação dos professores em atuação contínua com outros profissionais e instituições, bem como com a participação da sociedade, são fundamentais para que os objetivos sejam atingidos, para que os conteúdos sejam transmitidos de forma assertiva e significativa para o processo de ensino-aprendizagem e para que as orientações didáticas estejam em consonância com os objetivos gerais e específicos propostos. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver essa competência? Então vamos lá. Avante! 18 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Bentes e Mussalim (1997) afirmam que estudos em relação ao modo como as crianças aprendem e adquirem a linguagem apenas se deram recentemente. Denominam, assim, a aquisição da linguagem como uma área “híbrida, heterogênea ou multidisciplinar” (BENTES; MUSSALIM, 1997, p. 205). Ainda antes de se expressarem por meio da linguagem verbal, as crianças já são capazes de interagir por outros meios, utilizando gestos, músicas, expressão do corpo e brincadeiras, por exemplo, desde que assistidas por parceiros mais experientes.Nesse sentido, a linguagem configura-se como uma forma de comunicação que vai muito além do campo verbal, um vez que compreende a comunicação por sinais, a comunicação por movimentos corporais e gestos. De acordo os Parâmetros de Qualidade para Educação Infantil (2006), existem algumas formas com as quais os professores podem contribuir de maneira bastante significativa para a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças. Vamos conhecer cada uma delas? • Organização em pequenos grupos: as crianças, quando estão em parceria com outras, atuam de maneira mais assertiva, aumentando a autoestima, motivação e FIGURA 6 Organograma típico envolvendo a criança FONTE Adaptado de Parâmetros de Qualidade para Educação Infantil (2006). 19 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 autonomia. Pertencer a um grupo também é importante para a educação infantil. • Incentivar a brincadeira: jogos, atividades e brincadeiras podem contribuir bastante para o processo de ensino-aprendizagem da criança, pois possibilita um elo entre o brincar, o aprender e o ensinar. • Estimular a troca entre os parceiros: em atividades em grupos, é importante que o professor sempre possibilite e permita o compartilhamento de ideias. Nesse estágio, a troca é um elemento essencial, que leva as crianças a se identificarem com as atividades e situações propostas pelo professor. • Estipular tempo para o desenvolvimento das atividades: é importante que o professor estabeleça previamente um tempo máximo para a realização de determinada tarefa. Assim, é possível desenvolver nas crianças senso de gestão de tempo e de responsabilidade, que utilizarão não somente na escola, mas também em seu cotidiano fora dela. • Oferecer diferentes tipos de materiais em função dos objetivos que se deseja alcançar: as crianças tendem a se entediar e perder o foco constantemente, por isso é importante que o professor ofereça diferentes tipos de materiais para incentivá-las e evitar que a aula seja desestimulante ou cansativa. Essas simples estratégias permitem que a criança comece a respeitar e a levar em consideração a opinião do outro, aprendendo a ouvir e a aceitar diferentes pontos de vista. Assim, permite-se uma maior circulação de ideias e minimiza-se a resistência às iniciativas e opiniões de outros colegas. A oposição, quando bem gerida pelo professor, é bastante saudável e enriquecedora, pois instiga a capacidade argumentativa, desenvolve a organização de ideias e pensamentos e incita o recuo reflexivo das crianças. É importante também destacar que a educação infantil, que atende crianças de 0 a 5 anos, é a primeira etapa da educação básica, tendo todos os direitos, bem como as diretrizes que são voltadas para a educação de uma forma geral. 20 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Há seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento que asseguram a aprendizagem das crianças para que elas possam agir ativamente em sociedade. Vamos conhecê-los melhor? Você Sabia? Até a década de 1980, era utilizada no Brasil a expressão “pré-escolar”, no entanto, esse termo levava ao entendimento de que a educação infantil era uma etapa anterior, isto é, uma etapa que estava fora do eixo da educação formal. No entanto, somente em 1996, com a promulgação da LDB, a educação infantil passou a ser finalmente considerada como parte da educação básica, assim como o ensino fundamental e o ensino médio. FIGURA 7 Organograma típico envolvendo a criança FONTE Adaptado de Brasil (2018). 21 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Ensino fundamental - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Primeiramente, é importante observar que o ensino fundamental tem nove anos de duração – sendo essa a etapa mais longa da educação básica – e compreende os discentes entre 6 e 14 anos. Nesse estágio, percebemos que os alunos passam por mudanças – referentes a aspectos físicos, cognitivos, afetivos, sociais e emocionais – que são bastante perceptíveis e acentuadas, por isso é uma etapa que demanda grande atenção e suporte do professor de Língua Portuguesa. A BNCC dos anos iniciais do ensino fundamental valoriza situações lúdicas para o desenvolvimento do aluno, apontando para uma necessidade de articulação com as experiências vividas pelo discente na educação infantil. Essa articulação, portanto, precisa ter uma progressiva sistematização das experiências e do desenvolvimento do aluno dos anos iniciais do ensino fundamental. FIGURA 8 O desenvolvimento dos alunos deve se dar a partir da articulação com as experiências por eles vividas FONTE Pixabay É necessário que o professor de Língua Portuguesa proporcione ao aluno novas formas de relação com o mundo, novas possibilidades de ler e de formular respostas, testá-las, refutá-las, agir sobre elas, elaborar suas próprias conclusões, agindo ativamente para construção e reconstrução constante de seu conhecimento. 22 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 A BNCC dos anos iniciais do ensino fundamental aponta que, nesse momento, é crucial a atenção do professor de Língua Portuguesa, pois os alunos estão passando por mudanças importantes em seu processo de desenvolvimento. Essas mudanças, por sua vez, refletem-se na relação consigo mesmos e com a sociedade. Segundo o documento, há também alguns desafios para esse docente, como podemos ler a seguir: Ampliam-se também as experiências para o desenvolvimento da oralidade e dos processos de percepção, compreensão e representação, elementos importantes para a apropriação do sistema de escrita alfabética e de outros sistemas de representação, como os signos matemáticos, os registros artísticos, midiáticos e científicos e as formas de representação do tempo e do espaço. Os alunos se deparam com uma variedade de situações que envolvem conceitos e fazeres científicos, desenvolvendo observações, análises, argumentações e potencializando descobertas. (BRASIL, p. 2, 2018) É importante também frisarmos que, nos primeiros dois anos do ensino fundamental, a ação pedagógica deve focar a alfabetização, a fim de proporcionar oportunidades para que os alunos consigam realizar a apropriação do sistema de escrita alfabética em harmonia com o desenvolvimento de outras habilidades, tais como a leitura e a escrita. Isso proporcionará também o envolvimento em práticas diversificadas de letramento importantes para essa etapa da aprendizagem. Os PCNs (1997) dissertam sobre a importância do diagnóstico para o ensino- aprendizagem da criança dos anos iniciais do ensino fundamental, detectando aquilo que o aluno já sabe: Os conhecimentos linguísticos construídos por uma criança que inicia o primeiro ciclo serão tanto mais aprofundados e amplos quanto o permitirem as práticas sociais mediadas pela linguagem das quais tenha participado até então. É pela mediação da linguagem que a criança aprende os sentidos atribuídos pela cultura às coisas, ao mundo e às pessoas; é usando a linguagem que constrói sentidos sobre a vida, sobre si mesma, sobre a própria linguagem. Essas são as 23 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 principais razões para, da perspectiva didática, tomar como ponto de partida os usos que o aluno já faz da língua ao chegar à escola, para ensinar-lhe aqueles que ainda não conhece. (BRASIL, 1997, p. 67) Assim, podemos dizer que, nessa fase de aprendizagem, são objetivos da instituição escolar ao aluno: • Estimular a reflexão e a análise de forma profunda e que contribua para o estudante atingir uma visão crítica da sociedade que o cerca. • Compreender e estimular as novas linguagense como elas funcionam. • Educar para o uso das tecnologias para uma participação consciente e ativa em meios digitais. • Propiciar a formação integral do aluno, conforme os princípios dos direitos humanos e princípios democráticos. A respeito das habilidades que se espera que o aluno atinja ao longo de sua passagem pelo ensino fundamental, temos como objetivos do professor de Língua Portuguesa os seguintes aspectos: • Expandir o uso da linguagem. • Usar diferentes registros, sabendo adequá-los a situações distintas. • Conhecer e respeitar as variações linguísticas. • Ser capaz de realizar interpretação e inferência. • Valorizar a leitura como fonte de informação e conhecimento. • Utilizar a linguagem como instrumento de aprendizagem, sabendo como buscar, discernir e agir sobre as informações a que se tem acesso. • Conhecer as possibilidades de uso da linguagem, bem como a capacidade de análise crítica daquilo a que se tem acesso. • Fazer uso da linguagem para melhorar as suas relações pessoais. • Ser capaz de refletir e analisar criticamente os usos da língua como veículo de valores e preconceitos de classe, credo, gênero ou etnia. É essencial que essas habilidades sejam utilizadas de forma articulada, então o currículo deve ser organizado de maneira que favoreça a aprendizagem e de forma que esta seja ainda mais aprimorada e significativa para o aluno. 24 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Tratamento didático dos conteúdos pelo professor de Língua Portuguesa A respeito do tratamento didático que se dá ao conteúdo, é importante deixar claro que, quando se pretende que o aluno construa um conhecimento, a principal questão que surge para o professor de Língua Portuguesa é qual tratamento deve ser dado à informação que se deseja oferecer. Muitos professores, ao contrário, gastam muito tempo refletindo sobre qual informação apresentar aos discentes, esquecendo-se de que o mais importante nesses casos é como essa informação será levada à turma. Por isso, o docente deve pensar sobre as seguintes questões: • O que os alunos sabem sobre isso? Quais são seus conhecimentos de mundo? • Essa informação é relevante para a turma? • Quais são objetivos que almejo alcançar com essa informação? • Esse conteúdo faz parte do contexto sociocultural dos alunos? • Qual é a forma mais relevante de oferecer essa informação? Pensando nesses questionamentos e procurando respondê-los, o professor de Língua Portuguesa terá como foco a aprendizagem do aluno, tornando essa experiência mais significativa e satisfatória. O docente de Língua Portuguesa também deve buscar ser modelo para seus discentes. Além de ser aquele que ensina e gera os conteúdos, é papel do professor ensinar o valor que a língua tem. Muitas vezes, especialmente em comunidades pouco letradas, o hábito de leitura é realmente bastante escasso. Logo, é possível que o professor seja o único modelo de leitor que o aluno terá durante o seu processo de formação. Assim, o professor atua como exemplo para os seus alunos, motivando-os e instigando- os em suas práticas. 25 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Exemplo: Se o professor é apaixonado por uma série policial de literatura, é importante que esse docente compartilhe com a sala o seu gosto. Para isso, pode apresentar a sua coleção à turma, comentar constantemente sobre suas leituras, demonstrar como é interessante o hábito de ler. Dessa forma, os alunos verão esse professor como um modelo de leitor a seguir, inspirando-se nele pela representatividade que possui. Vamos, então, aprofundar-nos em relação ao conceito de leitura? A leitura é um processo ativo de construção de um texto, por meio da construção de significados, que se dá a partir do conhecimento do leitor, de aspectos como o conhecimento do gênero, do autor, da obra e de suas referências, do sistema de escrita, entre outros. O processo de leitura não se trata de meramente extrair uma informação, decodificando letra por letra. Ao contrário, o processo de leitura envolve uma construção de significados constantes. Nesse processo, o leitor age ativamente em relação ao que está sendo lido, sendo um equívoco acreditar que o que se lê está pronto e acabado, ou seja, uma verdade imutável. Dessa forma, podemos dizer que o processo de leitura começa muito antes de o texto começar a ser lido. Assim, é importante destacar que a leitura envolve uma série de outras estratégias, tais como: • Seleção. • Antecipação. • Inferência. • Verificação. Com esses procedimentos, o leitor conseguirá controlar aquilo que está sendo lido e agir ativamente sobre o texto, procurando tomar decisões em relação à compreensão de trechos difíceis, arriscar-se diante de um termo que se desconhece, buscar no texto a comprovação – ou não – de suas inferências. 26 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Objetivos-conteúdos e orientações para a docência do português Capitulo 3 Com o tratamento adequado dos conteúdos, é possível que o professor forme um leitor competente, que será capaz de ler nas entrelinhas, compreender suas inferências, criticar o que está sendo lido, construir novos sentidos, estabelecer relações entre o texto que está sendo lido e aquele que já se leu, localizar e analisar elementos discursos, entre outras habilidades. Importante Um leitor competente, portanto, será aquele que possui autonomia para ter iniciativa própria. Esse indivíduo será capaz de usar estratégias de leituras adequadas e buscar textos que se adequem às suas necessidades – entre tantos que circulam socialmente. Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir algo do que vimos. Você deve ter compreendido os objetivos, conteúdos e orientações para a docência do português. Estudou os objetivos, conteúdos e orientações didáticas da educação infantil, do ensino fundamental e o tratamento didático dos conteúdos pelo professor de português. 27 @faculdadelibano_ 4 Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental 28 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Capitulo 4 Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de entender em que consiste a ciência do Direito e como ela está relacionada com a moral e com a justiça. Certamente isto será fundamental para a compreensão dos capítulos a seguir. Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! Muitas vezes, percebemos que a avaliação é vista somente como uma forma de classificar ou selecionar as crianças com base naquilo que foi aprendido, por isso, em geral, esse momento é visto pelos alunos como uma etapa em que serão criticados e julgados. O professor de Língua Portuguesa deve transparecer em sala de aula que o processo avaliativo não deve ser visto como um monstro de sete cabeças e que as críticas, quando construtivas e bem empregadas, fazem parte do processo de formação, tanto do aluno como do professor. Panorama histórico da avaliação Vamos discutir um pouco sobre a história da avaliação no decorrer dos séculos? A avaliação da aprendizagem tem o seu cerne na Psicologia e, nesse sentido, nas primeiras 29 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 décadas do século XX, foram desenvolvidos testes padronizados que buscavam a melhora das habilidades e aptidões. Podemos considerar a avaliação uma disciplina ainda nova e que se encontra em desenvolvimento contínuo. Cada vez mais estudiosos das mais diversas áreas têm dedicado seus estudos a essa área. No primeiro período, entre os últimosanos do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a avaliação era tida somente como uma forma de quantificar os conhecimentos dos alunos. Naquela época, não havia a preocupação com a formação de um currículo ou com o estabelecimento de objetivos que mensurassem o que deveria ser aprendido pelos alunos. Assim, nessa fase, podemos dizer que a avaliação não tinha objetivos claros e palpáveis, sendo praticada sem intencionalidades. Dessa forma, a avaliação era feita por meio de aplicação de testes que buscavam meramente verificar e quantificar a aprendizagem, sobretudo por meio de números e outras classificações similares. Vamos à segunda geração? A segunda geração compreende as décadas de 1934 a 1945 e, nessa fase, a avaliação tinha como foco os objetivos educacionais que eram formulados com antecedência. O estudioso Tyle é tido como o grande precursor da avaliação educacional, pois proporcionou maior visibilidade para avaliação no campo educacional. Na concepção desse teórico, objetivos educacionais e processo avaliativo deveriam caminhar juntos para que a aprendizagem do aluno fosse significativa. Saiba Mais Ralph W. Tyler (1902-1994) foi um educador norte-americano essencial no campo da avaliação. Tyler participou do aconselhamento de diversos órgãos e ministérios que auxiliaram a definir diretrizes para o gasto com fundos federais. Ele também teve grande influência na política subjacente da Lei do Ensino Fundamental e Secundário no ano de 1965. 30 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Ainda na segunda geração, houve um grande aumento da tecnologia em relação à produção de testes. Estudiosos e teóricos dessa fase acreditavam que os testes eram a única forma de definir com êxito as habilidades e o que os alunos tinham aprendido ou não. Já conhecemos o primeiro e o segundo período e vimos como a avaliação começou a mudar. Vamos, agora, aprender um pouco sobre o terceiro período? De 1946 a 1957, décadas que compreendem o terceiro período, os procedimentos avaliativos perderam a sua importância de forma gradativa. A relevância que foi dada para a avaliação nas épocas anteriores não permaneceu nesse período. No entanto, no quarto período (1958-1972), a importância da avaliação cresce de uma forma surpreendente e passa a ser considerada uma das práticas mandatórias no currículo escolar. Essa mudança teve como precursor Robert Kennedy, ex-senador dos Estados Unidos. Vamos conferir o que muda nesse quarto período da história da avaliação? • Houve a necessidade de se avaliar a escola como um todo, incluindo, professores, metodologias, gestão, alunos etc. • O enfoque quantitativo perde espaço e dá lugar ao caráter qualitativo. No quinto período (1973), denominado período da profissionalização da avaliação, tivemos teorias mais consistentes em relação a essa área de estudo. Nessa época, foram criados novos modelos de avaliação, buscando uma consolidação também da produção científica nesse ramo. Também no quinto período, podemos dizer que houve maior enfoque para o desenvolvimento dos avaliadores, que passaram a ser qualificados, o que foi inédito na história da avaliação até então. A avaliação, dessa forma, começa a ter uma abordagem formativa, buscando acompanhar o processo de ensino-aprendizagem do aluno, realizando intervenções para que ele alcance os objetivos propostos. 31 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Nesse período, ainda que a avaliação ganhe um novo enfoque, percebemos que ainda consideravam a aplicação de testes como a única forma de controle e fiscalização dos discentes. A partir de 1980, a avaliação passou a ser vista como uma forma bastante importante de se contribuir para a formação, tanto do aluno quanto do professor. A instituição escolar começou a perceber que avaliação não é somente classificar, medir e apurar dados e que ela não acontece somente no final do semestre por meio de uma prova com dezenas de questões. O que significa avaliar? É importante que os professores de Língua Portuguesa reflitam sobre os seus processos avaliativos, de forma que estes sejam menos frustrantes e tensos para o aluno. Primeiramente, o que é avaliar? O ato de avaliar significar apreciar, reconhecer e atribuir valor. Assim, avaliar não é meramente descrever e mensurar a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem, mas diz respeito, sobretudo, aos mecanismos de gestão de formação de professores. Outro ponto importante sobre a avaliação é que o ato de avaliar é, sobretudo, acolher o aluno. Luckesi (2000) aponta que, antes de mais nada, avaliar implica acolher. O estudioso afirma que é preciso acolher o educando, conhecê-lo e, a partir disso, decidir o que fazer. 32 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 A habilidade de acolher deve estar no avaliador, isto é, nos professores. O estudioso explica que não é possível avaliar de forma satisfatória uma pessoa ou ação caso ela seja recusada desde o início ou julgada previamente. Para isso, Luckesi (2000) utiliza exemplos cotidianos de como acolher é um ato importante. Vejamos: Imaginemos um médico que não tenha a disposição para acolher o seu cliente, no estado em que está; um empresário que não tenha a disposição para acolher a sua empresa na situação em que está; um pai ou uma mãe que não tenha a disposição para acolher um filho ou uma filha em alguma situação embaraçosa em que se encontra. Ou imaginemos cada um de nós, sem disposição para nos acolhermos a nós mesmos no estado em que estamos. (LUCKESI, 2000, p. 1) Antes de avaliar um aluno, é necessário acolhê-lo. Isso vale para qualquer prática avaliativa. Assim, professores de Língua Portuguesa não devem julgar os seus alunos previamente, antes de conhecê-los, pois essa prática exclui e afasta, sendo completamente aposta à ideia de acolhimento à qual devem se ater em suas práticas educativas. A habilidade de acolher – como qualquer outra habilidade – pode ser desenvolvida com o tempo, já que os professores não nascem com ela, mas a desenvolvem no decorrer FIGURA 9 É fundamental refletir sobre o processo avaliativo FONTE Pixabay 33 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 de sua prática docente. No entanto, para ocorrer essa mudança, é importante que o professor reflita sobre as suas práticas, a fim de perceber se está ou não acolhendo o seu aluno. Pense em suas práticas enquanto indivíduo – não somente enquanto profissional – e tente perceber se, em seu cotidiano, você costuma julgar de forma positiva ou negativa automaticamente algo que você escuta ou vê. Caso você possua esses hábitos, ainda não é capaz de acolher, pois a prática do acolhimento se afasta de quaisquer pré- julgamentos. Luckesi (2000) ainda aponta que o ato de avaliar implica diagnosticar e, sobretudo, decidir. Vamos explicar melhor! Para se avaliar, além da habilidade acolhedora do educador, é preciso de meios eficazes para diagnosticar as principais dificuldades do aluno e aquilo que ele já sabe. No entanto, o que o professor deve fazer com os resultados obtidos? Apenas usá-los para classificar os discentes com média 5,0 ou com nota 10,0? A avaliação vai muito além disso. Vamos entender o porquê! A prática avaliativa presume muito mais do que usar as notas em uma reunião de pais ou mostrar aos alunos o quanto eles são bons ou medíocres a partir de uma numeração. Assim, quando se qualifica algo – um objeto, uma ação ou um aluno – deve-se tomar uma decisão sobre os resultados que se obteve. Por isso, é importante dizer que a avaliação não acaba no momento em que os alunos entregam asprovas e o professor soma as notas e decide qual é a que atribuirá àquele aluno. A avaliação é um instrumento fundamental para que o professor avalie as suas práticas e decida o que pode mudar, o que funciona melhor para aquele aluno, como melhorar as suas ações em sala de aula, para quais conteúdos deve conceber maior atenção etc. É um processo de tomada de decisões que se dá a partir de critérios e objetivos estabelecidos que buscam prioritariamente uma melhor experiência de ensino- aprendizagem. 34 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 O principal objetivo da avaliação, ao contrário do que se pensa, é desenvolver o processo educacional como um todo, isto é, em todos os seus aspectos. Também é um equívoco afirmar que, se o aluno não aprendeu, a culpa é do professor por não ter ensinado direito. A avaliação não é uma forma de constatação, que atribui uma nota positiva ou negativa àquele que está sendo avaliado. Quando a avaliação é somente aplicada no final do processo, de forma descontextualizada, não existe uma contribuição significativa para a formação do aluno. Logo, precisamos ter nas escolas um modelo de avaliação contínua, que leve em conta o desenvolvimento das competências do aluno. Exemplo: Se o professor consegue perceber, durante o processo de ensino, que os alunos não conseguiram atingir alguns dos objetivos propostos, esse é o momento de analisar as suas práticas e redirecionar as suas ações para que os objetivos sejam alcançados de forma satisfatória. Podemos notar que o professor possui papel fundamental no processo de avaliação dos alunos, pois é ele quem está mais próximo, acompanhando e analisando o seu desenvolvimento em sala de aula. É imprescindível que o docente faça registros regulares. Vejamos a seguir alguns dos fatores que devem ser periodicamente observados: • As particularidades de cada aluno. • Sua participação em jogos, brincadeiras e atividades. • Seu empenho e grau de autonomia. • Seus potenciais e suas dificuldades. • Seu comportamento em grupo. • Sua relação com outros colegas e professores. • Sua forma de reagir diante de conquistas e adversidades. • Sua reação a conflitos. • Seu desenvolvimento em sala de aula. 35 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Geralmente, quando chega a etapa de testes, os alunos começam a ficar nervosos, sendo gerado na sala de aula um enorme clima de insatisfação que pode comprometer diretamente o ensino-aprendizagem. Isso acontece porque, na maioria das vezes, o aluno só é avaliado no fim do semestre, ou seja, a avaliação não tem o caráter formativo que deveria ter. O professor de Língua Portuguesa da educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental deve ter em mente que registros são necessários ao longo de todo o Outras situações que o professor deve considerar pertinentes podem ser registradas e anotadas para que sejam utilizadas no processo de avaliação. Com essas práticas implementadas no processo de avaliação, o docente será capaz de conhecer melhor o seu aluno e, a partir disso, definir estratégias e novos caminhos para que os discentes se sintam mais motivados e para que seus objetivos sejam alcançados com êxito. O processo avaliativo na educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental FIGURA 10 A avaliação muitas vezes não é um momento tranquilo para os alunos FONTE Pixabay 36 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 semestre. Assim, jogos, atividades e brincadeiras devem ser registrados de forma contínua para que o professor tenha subsídios suficientes para avaliar com propriedade as competências de determinado aluno. A avaliação é dominada meramente pelo uso de instrumentos normativos que são direcionados para a identificação das deficiências das crianças, não se atentando aos aspectos que mais importam nessas fases: os componentes sociais, culturais e interativos do processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, percebemos que os professores precisam abandonar práticas avaliativas descontextualizadas e que ignoram o fato de que cada criança possui sua individualidade. Assim, a instituição escolar deve buscar incluir em seu currículo práticas mais saudáveis e menos traumatizantes de se avaliar, considerando a unicidade e autenticidade de cada aluno e o seu desenvolvimento. Os indivíduos não aprendem da mesma forma ou no mesmo ritmo. Os estímulos e fatores motivacionais também são totalmente distintos, por isso existem diversos aspectos que precisam ser considerados no processo avaliativo. A utilização de instrumentos de avaliação que não levam em conta as particularidades do ser humano não cumpre com êxito o principal objetivo da avaliação, que é o de desenvolver competências. O caráter classificatório que, às vezes, as avaliações também têm pode desmotivar os alunos, pois acaba negando outros avanços que eles podem ter obtido. Dessa forma, as crianças que estão sempre em contextos de provas podem não se sentir integradas à escola, devido à tensão gerada no ambiente e também por conta da sensação de fracasso predominante. O ideal é que a gestão escolar se atente à construção de um modelo avaliativo que considere o processo educacional como um todo, e não como uma prática isolada que ocorre somente no final do semestre. Esse modelo avaliativo deve ter como base principal a coleta de informações registradas por meio de atividades que levem em consideração aquilo que os discentes sabem, e não puramente o que ainda não dominam. 37 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 O Projeto Político-Pedagógico (PPP) da instituição de educação infantil e ensino fundamental nos anos iniciais deve pensar em formas de promover situações que motivem e desafiem os seus alunos, possibilitando que eles se apropriem de linguagens e saberes distintos, valorizando tanto produções e atividades individuais quanto coletivas. O processo avaliativo deve, portanto, contemplar a avaliação e, por meio dela, promover uma recepção constante em relação aos resultados alcançados, visando analisar se eles foram realmente satisfatórios e, caso não, o que se deve mudar ou alterar. Para que a ação pedagógica favoreça os alunos no processo avaliativo, ela deve: • Ser planejada. • Ser aplicada na prática. • Ser avaliada. • Ser replanejada. É importante conversar com os alunos sempre que houver uma avaliação, explicar o que será feito, os critérios a serem analisados e garantir que esse seja um momento saudável para que eles se desenvolvam da melhor forma possível e para que o professor avalie as suas práticas. Assim, contribui-se para práticas que não tentem encontrar culpados e julgar os erros, e a avaliação torna-se um momento de transformação e melhoria do trabalho do docente. A avaliação na visão tradicional acaba assustando os discentes e, muitas vezes, não consegue avaliar de forma significativa o que foi aprendido, pois, em situações de apreensão e tensão, diversos alunos acabam esquecendo conceitos devido à pressão psicológica. Para ser adequada, a avaliação deve suscitar a autonomia do aluno, levando à reflexão de suas práticas, e ser um caminho para que reveja os seus pontos de dificuldades e para que potencialize os seus pontos fortes. 38 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Avaliação e os tipos de função Antes de avaliar os alunos, é extremamente importante que o professor defina de forma adequada os objetivos que se deseja atingir. O ato de avaliar é algo permanente em nossas vidas e, desde os primórdios,as formas de avaliar já existiam em nossa sociedade. Caso os objetivos não sejam atingidos, devem ser retomados e propostos novos caminhos para que o ensino-aprendizagem seja significativo, por isso podemos dizer que a avaliação é também uma maneira de o professor repensar as suas práticas. FIGURA 11 Organograma típico envolvendo a avaliação FONTE Elaborado pelas autoras (2021). Vejamos, a seguir, um quadro que mostra as principais diferenças entre as características de uma avaliação que causa medo e nervosismo e uma avaliação que leva em conta as especificidades do aluno, sendo um processo natural do aprendizado. 39 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Para o professor, a avaliação é o seu ponto de parada, é um modo de refletir sobre suas ações, suscitando questões como: • Quais são os meus objetivos e o que estou fazendo para que eles sejam alcançados? • Quais são as crianças que precisam mais de minha atenção? • Como posso cativar mais meus alunos? • Quais são as estratégias que posso utilizar? Assim, segundo Bloom (1993), o processo avaliativo tem três funções imprescindíveis para o processo de ensino-aprendizagem: diagnosticar, controlar e classificar. O estudioso divide o processo avaliativo em: • Função diagnóstica (analítica). • Função formativa (controladora). • Função somativa (classificatória). A função diagnóstica tem como principais objetivos identificar e analisar as causas das dificuldades recorrentes entre os discentes. Assim, busca orientar o aluno em suas práticas, diagnosticando quais aspectos podem ser mais dificultosos para determinado aluno. Exemplo: Na medicina, por exemplo, médicos e pacientes se reúnem para realizar um diagnóstico de uma possível doença e/ou complicação. Essa prática é realizada para que problemas futuros com a saúde do paciente sejam minimizados e para que ele possua um tratamento mais eficaz. Na sala de aula não é diferente. Os professores de Língua Portuguesa precisam diagnosticar as maiores dificuldades dos alunos para que estas não se tornem um empecilho para o ensino-aprendizagem. A avaliação diagnóstica deve sempre ocorrer antes de qualquer processo educativo, com objetivo de reconhecer se a metodologia a ser utilizada é a mais adequada para o aprendizado do discente. 40 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Assim, em síntese, podemos afirmar que a avaliação diagnóstica busca: • Organizar a aprendizagem. • Detectar os pontos fracos e os potenciais dos alunos. • Focalizar aquilo que os alunos conseguem produzir antes decomeçar qualquer tipo de formação. Já o caráter formativo da avaliação busca encontrar e apontar as principais deficiências, verificando se os instrumentos estão de acordo com os objetivos que o professor deseja alcançar. A avaliação formativa está sempre ligada à relação pedagógica com o aluno. Podemos dizer que acompanha todo o seu percurso, de forma contínua e constante, buscando encontrar métodos para que o aluno esteja sempre em progresso e melhore suas competências. Objetiva também que o discente tenha consciência de sua aprendizagem e de como atingir os objetivos propostos. A avaliação formativa tem como principal foco as atividades desenvolvidas, buscando sempre facilitar a aprendizagem por meio da adequação de estratégias. A respeito da função somativa, podemos citar o papel de problematizador do professor, que deve levantar questionamentos ao aluno para que ele construa o seu próprio conhecimento. Para isso, devemos buscar adequar o conteúdo que está sendo aprendido ao contexto social, histórico e cultural no qual o discente está inserido. Vamos conhecer um pouco mais a fundo as características da avaliação somativa? Você Sabia? A avaliação formativa tem um caráter regulador que busca reforçar, corrigir e adequar a jornada de aprendizagem do aluno, considerando que estes estarão sempre em um processo constante de evolução. 41 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 A avaliação é somativa porque apresenta a função de certificar, ou seja, verificar e qualificar aquilo que os alunos apreenderam. Tem uma certa similaridade com a avaliação diagnóstica, pois também se atém àquilo que os alunos são capazes de produzir. No entanto, a avaliação diagnóstica, como dissemos, está no começo do processo educativo; já a avaliação somativa localiza-se no final desse processo. Podemos dizer que a avaliação somativa classifica os discentes, colocando-os em posições distintas a depender do resultado obtido. Hoje em dia, ainda percebemos que muitas instituições escolares continuam buscando em sala de aula um modelo de avaliação cansativo que não motiva os alunos e que, ao contrário, acaba gerando frustações e ansiedade. Basta citar o termo “prova”, que muitos alunos já começam a “arrancar os cabelos”. É muito comum os professores de Língua Portuguesa buscarem que seus alunos decorem normas, classes gramaticais e infinitas regras de acentuação, entendendo que o sucesso deve ser totalmente baseado no domínio desses aspectos. Você acredita que a avaliação deve continuar focada em erros e acertos, e não naquilo que o aluno aprendeu durante todo o processo? Segundo Bloom (1993), essas três funções que citamos – diagnóstica, formativa e somativa – devem estar presentes no processo de avaliação para garantir a sua eficácia. É também importante lembrar que, em um processo avaliativo significativo, professores e alunos aprendem, trocam experiências e constroem conhecimento de forma mútua. Não devemos nos ater à concepção de que o docente é o detentor do saber. Saiba Mais Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta: Artigo: “O que é mesmo o ato de avaliar a aprendizagem?” de Cipriano Carlos Luckesi de Luckesi. Disponível aqui. https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/2511.pdf 42 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Capitulo 4 Resumindo Nesta unidade, procuramos compreender os fundamentos epistemológicos, históricos e metodológicos do ensino da Língua Portuguesa no Brasil. Também refletimos sobre o aprender e o ensinar na escola, analisando os objetivos, os conteúdos e as orientações didáticas em língua portuguesa para a educação infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental. Por fim, discutimos o processo de avaliação de aprendizagem para a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental no que se refere à Língua Portuguesa. 43 Fundamentos do Ensino da Língua Portuguesa Referências BENTES, A. C.; MUSSALIM, F. Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos. São Paulo, 2007. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: língua portuguesa. Brasília: Secretaria de Educação Fundamental. 144 p. Disponível em: https:// bit.ly/30wdQmV. Acesso em: 10 mar. 2019. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: educação infantil. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3j1BC0l. Acesso em: 10 mar. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Parâmetros de Qualidade para a educação infantil. Brasília: MEC, 2006. Disponível em: https://bit.ly/32IH3K9. Acesso em: 3 mar. 2019. LIMA, R. P. O ensino da língua portuguesa: aspectos metodológicos e linguísticos. Educar em Revista, Curitiba, n. 4, jan./dez. 1985. Disponível em: https://bit.ly/30tk6M7. Acesso em: 8 mar. 2019. LUCKESI, C. C. O que é mesmo o ato de avaliar a aprendizagem? Revista Pátio 12, Porto Alegre, v. 4, n. 12, p. 6-11, 2000. Disponível em: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/ biblioteca/imagem/2511.pdf. Acesso em: 8 mar. 2019. XAVIER, A. C.; CORTEZ, S. (Orgs.).Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. 44 Fundamentos epistemológicos: históricos e metodológicos Panorama histórico do ensino de Língua Portuguesa Transformações na metodologia de ensino de Língua Portuguesa Aprender e ensinar na escola Texto como unidade de ensino: como utilizá-lo? Objetivos - conteúdos e orientações para a docência do português Educação infantil - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Ensino fundamental - objetivos - conteúdos e orientações didáticas Tratamento didático dos conteúdos pelo professor de Língua Portuguesa Avaliação de aprendizagem na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental Panorama histórico da avaliação O que significa avaliar? O processo avaliativo na educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental Avaliação e os tipos de função Referências