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METODOLOGIA E PRÁTICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA PROF.A MÁRCIA CRISTINA DE AQUINO DE PAULA Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-reitor: Prof. Me. Ney Stival Gestão Educacional: Prof.a Ma. Daniela Ferreira Correa PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Gabriela de Castro Pereira Letícia Toniete Izeppe Bisconcim Luana Ramos Rocha Produção Audiovisual: Heber Acuña Berger Leonardo Mateus Gusmão Lopes Márcio Alexandre Júnior Lara Gestão de Produção: Kamila Ayumi Costa Yoshimura Fotos: Shutterstock © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Sócrates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande responsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a sociedade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conhecimento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivência no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de qualidade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mercado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................. 4 1 - DIÁLOGO ENTRE PROFESSORES ........................................................................................................................ 5 1.1 FORMAÇÃO DO PROFESSOR DO ENSINO FUNDAMENTAL .............................................................................. 5 1.1.1 CONSTRUÇÃO CURRICULAR DA DISCIPLINA DE LÍNGUA PORTUGUESA ................................................... 7 1.1.2 CONCEPÇÕES DE ENSINO, LINGUAGEM, GRAMÁTICA E DE LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDA- MENTAL ...................................................................................................................................................................... 9 1.1.3 PROFESSOR REFLEXIVO ................................................................................................................................. 12 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................................................. 17 FORMAÇÃO DO PROFESSOR E OS DIFERENTES SABERES QUE NORTEIAM O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NAS SÉRIES INICIAIS PROF.A MÁRCIA CRISTINA DE AQUINO DE PAULA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: METODOLOGIA E PRÁTICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA 4WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Ao nos depararmos com questões que abrangem o ensino de língua portuguesa é preciso considerarmos também o percurso histórico que envolve a disciplina, pensar as práticas pedagógicas e a teoria que sustentou o ensino da língua materna. É obvio que não esgotaremos o assunto, nosso objetivo é refletir um pouco sobre as práticas e as mudanças que ocorreram durante o processo histórico. Além disso, abordaremos questões sobre a formação docente, uma importante e preciosa prática que devemos realizar antes de assumimos o território denominado “Sala de aula”. Pois é a partir dessa reflexão que constituiremos nossa posição e futuras ações enquanto profissionais. Ações essas que tanto interferem na construção de nossos educandos, porque não fazemos parte apenas do processo de desenvolvimento da linguagem. Fazemos parte, também, do processo de construção de seres humanos sensíveis, que estão inseridos em diferentes contextos situacionais. Isso não deve, jamais, ser desconsiderado, porque são exatamente essas diferenças que nos constituem e porque somos seres construídos a partir das relações uns com os outros durante a nossa vida, como considera Mikhail Bakhtin, um dos principais filósofos da linguagem e do discurso. Além dessa reflexão, muitas outras inquietações surgirão durante o trajeto, pois é preciso considerar que o cotidiano da sala de aula, e do espaço escolar, é extremamente dinâmico e existem inúmeros anseios e pressões externas que precisam ser superadas. Ainda mais que, infelizmente, o profissional da educação sofre por conta de uma desvalorização de parte da sociedade, que o vê apenas como um mero transmissor de conteúdo. Associado ao educador está também o fracasso escolar, que reproduz a desigualdade social que ocorre nas mediações escolares, decorrentes de políticas públicas, curriculares e do sistema de ensino. 5WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - DIÁLOGO ENTRE PROFESSORES Procuraremos, nesta unidade, apresentar dados bibliográficos pertinentes ao processo de ensino-aprendizagem de língua portuguesa no contexto escolar nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Além das concepções teóricas, também levantaremos algumas sugestões a fim de contribuirmos para a prática docente nesta área do ensino. Pois acreditamos que durante esse processo de interação entre teoria, reflexão e as trocas de experiências enriquecem o nosso trabalho docente, nos fazendo evoluir e transformar nosso cotidiano a partir da avaliação de nossas ações. E, como evoluímos, a língua também evolui, bem como a prática docente deve evoluir. Desse modo, transformar a qualidade do ensino, abandonando qualquer forma de discriminação, tendo consciência de que somos sujeitos em processo de (re)construção e de que as mudanças são possíveis e necessárias. Por isso, a importância de uma prática reflexiva e que a formação seja vista como um processo contínuo, porque cabe a nós, profissionais da educação, desenvolvermos nossa prática de forma consciente, planejada, considerando a pluralidade da sociedade, no sentido de desigualdades sociais e políticas. A educação e atuação docente deve ter o sentido emancipatório para a diminuição das desigualdades e isso se dá através da escolarização e esta não deve ser banalizada, bem como a necessidade de desenvolvimento e sensibilização do ser humano. 1.1 Formação do Professor do Ensino Fundamental O tema “Formação de Professores” é discutido desde os anos 1960, por Aparecida Joly Gouveia e outros autores da área de Sociologia da Educação na USP, dentre eles o professor Luiz Pereira. Durante a pesquisa foi revelado que a principal característica do ensino do Magistério primário era a presença exclusivamente da figura feminina. Apontando como um fator da desvalorização relativa da profissionalização docente, a mulher era desde aquele momento desvalorizada profissionalmente. Vejam que é um fenômeno complexo, histórico, portanto mais uma questão desafiadora que envolve a constituição da sociedade e seus valores. Pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Pedagógicas (INEP) revelaram que a formação dos professores em Escolas Normais de Ensino Médio era inapropriada perante as necessidades apontadas pelas escolas básicas. Os alunos que passaram a frequentar a escola eram crianças excluídas, até o momento e, além de faltar professores, esses recebiam uma formação “improvisada” ou até mesmo não recebiam formação alguma (CENSO ESCOLAR DO BRASIL,suma importância no processo de ensino-aprendizagem da leitura. Por exemplo, leitura de textos autênticos, reais, que haja interação, sendo o texto um lugar de encontro entre o autor e leitor. 30WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Que a leitura seja motivada, justificada, em que o estudante seja capaz de identificar o tema, finalidade, orientação ideológica, diversificada e que ela não fique presa às palavras expressas no texto, mas que perceba sua totalidade de sentido, que transcenda a materialidade textual, ultrapasse, portanto, o explicito. E, finalmente, mas não de forma conclusiva, Bagno apud Antunes (2003, p. 80), reforça a ideia de que: Qualquer atividade de escrita deveria, pois, ser convertida em entidade de leitura, para que os alunos pudessem vivenciar essa dimensão de interdependência existente, de fato, entre a atividade de escrever e a atividade de ler e compreender. Desta forma, fica explicita que a exposição à leitura de bons textos é fator essencial para o desenvolvimento de nossa competência discursiva em língua escrita. É de responsabilidade do professor e da escola oferecer as mais variadas obras aos seus estudantes para que, assim, possamos cumprir nossa função enquanto formadores de leitores. Professor(a), recomendamos a leitura da obra Portos de Passagem, de João Wanderley Geraldi. A obra aborda questões de extrema importância para construção de um ensino pensado de forma interacional. O autor aborda ações que se fazem com a linguagem, sobre a linguagem e as ações da linguagem na constituição do sujeito enquanto produtor do próprio conhecimento em relação ao ensino de escrita, leitura e da gramática no espaço escolar. Figura 4 - Obra Portos de Passagem, de João Wanderley Geraldi. Fonte: Paula (2016). 31WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 5 - Mafalda e a crítica ao que é ensinado na escola. Fonte: Professor Fabiano Queiroz Blogspot (2012). “Aula de Português”, Irandé Antunes Um livro fundamental, elaborado para e com os professores de língua portuguesa do Ensino Fundamental e Médio que desejam que o ensino da linguagem realmente aconteça. A autora aborda uma discussão crítica sobre algumas práticas escolares tradicionais que ainda ocorrem nas escolas. Além disso, apresenta uma série de princípios que possibilitam uma nova prática pedagógica voltada ao trabalho interacionista, funcional e discursivo da língua. Também apresenta propostas concretas de leitura e escrita, que contribuem grandemente para a ampliação da competência nas modalidades da oralidade e da escrita nas aulas de língua portuguesa. Figura 6 - Capa do livro “Aula de Português”, Irandé Antunes. Fonte: ANTUNES. I. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola editorial, 2003 32WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA “A menina que odiava ler” A animação relata a história de uma menina que, mesmo estando em um ambiente repleto de livros, não gostava de ler. No entanto, algo inusitado acontece e ela se vê obrigada a descobrir o universo vivo e fascinante que é o mundo dos livros. E, assim, a personagem transforma seu olhar em relação a eles. O vídeo pode ser utilizado para qualquer turma do Ensino Fundamental, o que vai mudar são os objetivos e atividades que envolvam a oralidade e a escrita. O recomendamos enquanto caráter motivacional, serve como ponto de partida para as aulas de leitura bem como incentivo e também para discussões sobre a importância do ato de ler. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=geQl2cZxR7Q 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Nossas reflexões sobre a prática da leitura no Ensino Fundamental pretenderam mostrar que a formação do leitor só será possível quando este viver a experiência da leitura e da escrita, e que o professor é, além de alguém que ensina, um transmissor dos valores que a língua possui. Por consequência disso, esperamos ter rompido com algumas concepções de ensino tradicional relacionada a prática de leitura. Esperamos que a leitura deste livro sirva de inspiração para que você avance para outras leituras. Além das considerações que foram realizadas ao longo desta unidade, fique claro, estudante e professor, que a leitura deve ser uma constante em sala de aula. Este momento deve ser singular aos seus educandos, que ela se efetive enquanto uma prática social, que seus educandos possam apropriar-se de novos conhecimentos e que estes expandam a capacidade de interação com diferentes textos em diferentes situações. 3333WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 34 1 - AQUISIÇÃO DA ESCRITA – UM PROCESSO DE INTRODUÇÃO A UMA INVENÇÃO CULTURAL ................... 35 1.1. OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E AS DETERMINAÇÕES ACERCA DO TRABALHO COM OS GÊNEROS DISCURSIVOS/TEXTUAIS NO ENSINO FUNDAMENTAL ................................................................... 37 1.2 A CONCEPÇÃO DIALÓGICA DA LINGUAGEM E SUAS IMPLICAÇÕES PARA/ NO ENSINO DOS GÊNEROS DISCURSIVOS/TEXTUAIS ...................................................................................................................................... 39 1.3 EXPLORANDO A ESCRITA DOS GÊNEROS ENQUANTO ATIVIDADE INTERATIVA ....................................... 41 2 - CONSIDERAÇÕES .............................................................................................................................................. 45 A PRÁTICA DA ESCRITA DURANTE AS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL PROF.A MÁRCIA CRISTINA DE AQUINO DE PAULA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: METODOLOGIA E PRÁTICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA 34WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO O processo de escrita no espaço escolar serve para incontáveis pesquisas, no entanto, mesmo com inúmeras contribuições e avanços, ainda temos muito a discutir, muito a aprender e muito mais para fazer para que possamos entender e transformar a prática docente em relação à escrita. Estudante, nesta unidade tomaremos como ponto de partida o que preconiza Os Parâmetros Curriculares Nacionais sobre o processo da escrita, além de refletir sobre as concepções teórico-metodológicas que norteiam o processo de ensino e aprendizagem da prática escrita. Logo, retomaremos alguns conceitos teóricos acerca dos elementos das condições de produção textual e em relação aos procedimentos metodologicos e práticos, implicando em uma prática docente e o desenvolvimento da escrita dos estudantes. Assim, os estudantes podem atuar de forma eficaz em diferentes situações socio-históricas e comunicativas em que estejam inseridos. 35WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - AQUISIÇÃO DA ESCRITA – UM PROCESSO DE INTRODUÇÃO A UMA INVENÇÃO CULTURAL Figura 1 - Eduardo de Paula em processo de aquisição da escrita. Fonte: Paula (2007). Magda Soares (2018), em seu livro Alfabetização: a questão dos métodos, discorre sobre sua prática docente e aborda algumas questões relacionadas à escrita, sua história e sua importância. Segundo Soares (2018), até os anos 1980 tínhamos uma bibliografia que se referia predominantemente ao ensino da leitura e esta era privilegiada. Aqui no Brasil, foi somente a partir de meados dos anos 1980 que, em virtude do surgimento do construtivismo, a escrita passou a receber outros tratamentos. Por exemplo, deixou de ser vinculada à prática da cópia e passou a fazer parte da prática de produçãotextual. Ao contrário dos métodos sintáticos e analíticos, que rejeitavam a escrita não controlada – a criança só deveria escrever palavras que já houvesse aprendido a ler –, o construtivismo enfatizou o papel da escrita, sobretudo de uma escrita, “espontânea” ou “inventada”, considerada como processo por meio do qual a criança se apropriaria do sistema alfabético e das convenções da escrita, tornando desnecessário o ensino explícito e sistemático desse sistema e dessas convenções; também ao contrário dos métodos sintéticos e analíticos, que adiavam o convívio da criança com os usos e funções da língua escrita, propôs, ao longo mesmo do processo de aprendizagem inicial da língua escrita, a escrita de textos de diferentes gêneros (SOARES, 2018, p. 26). 36WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Além disso, a concepção de alfabetização, leitura e escrita ampliou-se, também, nesse mesmo período em decorrência do surgimento do conceito de letramento. E isso exigiu, segundo Magda Soares (2018), uma reformulação dos objetivos e de novas práticas no processo de ensino-aprendizagem da língua escrita. Evidentemente que as práticas passaram a valorizar o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita e o trabalho com os mais variados gêneros textuais. [...] termo letramento, que se associa ao termo alfabetização para designar uma aprendizagem inicial da língua escrita entendida não apenas como a aprendizagem da tecnologia da escrita – do sistema alfabético e suas convenções – mas, também como, de forma abrangente, a introdução da criança às práticas sociais da língua escrita. (SOARES, 2018, p. 27, Grifos no original.) Desta forma, Soares (2018) alerta que, de acordo com os métodos e propostas utilizadas na inserção da criança no mundo da escrita, diferenciam-se também os objetivos e competências atribuídas durante esse processo. E, assim, nasce a primeira concepção com o foco na faceta linguística, em que, este método prima pela aprendizagem inicial da escrita, a partir do sistema alfabético-ortográfico, e tem como competência a codificação e decodificação da escrita. O segundo conceito é o da faceta interativa, esta concepção defende que: [...] o objeto são as habilidades de compreensão e produção de textos, objeto que requer outros e diferentes processos cognitivos e linguísticos e outras e diferentes estratégias de aprendizagem e de ensino (SOARES, 2018, p. 29). A autora evidencia que esta concepção é predominante no construtivismo. No entanto, ela não é tida enquanto objeto da aprendizagem. “As competências a ela vinculadas são consideradas decorrência da inserção da criança no mundo da cultura do escrito, ou seja, decorrência do desenvolvimento das facetas interativa e sociocultural” (SOARES, 2018, p. 29). E, por último, evidencia-se o foco na faceta sociocultural, nela o objeto são os eventos sociais e culturais que envolvem a escrita, objeto que implica conhecimentos, habilidades e atitudes específicos que comprovam inserção adequada nesse evento, isto é, em diferentes situações e contextos de uso da escrita (SOARES, 2018, p. 29). Dessa forma, podemos compreender que o processo de aprendizagem da escrita é algo profundamente complexo e que associado à escrita está a leitura, pois é preciso estabelecer e construir uma “visualização dos sons da fala” (SOARES, 2018, p. 36). Cada concepção que fora apontada, mesmo que se distinguindo uma da outra, acaba, de certo modo, completando-se, como evidencia Soares (2018), pois, ambas estudam o mesmo objeto. Logo, Magda Soares (2018, p. 36, grifos no original) defende que: [...] a faceta linguística é alicerce das duas outras facetas porque, embora a aprendizagem inicial da língua escrita deva incluir habilidades de compreensão e de produção de texto escrito, e ainda de uso da língua escrita nas práticas sociais que ocorrem em diferentes contextos de sociedades letradas, estas habilidades, que constituem as facetas interativa e sociocultural, dependem fundamentalmente do reconhecimento (na leitura) e da produção (na escrita) corretos e fluentes de palavras. 37WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Diferentemente de Magda Soares, Frank Smith (1989) defende que a criança aprenderia a escrever como um processo parecido com o da aquisição da fala, tendo o contexto como motivo para a leitura e escrita. Assim, O que crianças precisam para dominar a linguagem falada, tanto para produzir por si mesmas quanto, mais fundamentalmente, para compreenderem sua utilização pelos outros, é ter a experiência de usar a linguagem em um ambiente significativo. As crianças aprendem facilmente sobre a linguagem falada, quando estão envolvidas em sua utilização, quando esta lhe faz sentido. E, da mesma forma, tentarão compreender a linguagem escrita se estiveram envolvidas em sua utilização, em situações onde esta lhe faz sentido e onde podem gerar e testar hipóteses (SMITH, 1989, p. 237). Segundo Soares (2018), em Alfabetização: A questão dos métodos, por não ser a escrita um processo nato, é preciso ser ensinada e a ela estão associados inúmeros fatores, entre eles, os fatores sociais, culturais, econômicos, políticos, a interação entre alfabetizador(a) e alfabetizandos, o contexto escolar e na inter-relação entre os participantes. Desse modo, a pesquisadora evidencia a importância do conceito métodos de alfabetização: [...] métodos de alfabetização são conjuntos de procedimentos fundamentados em teorias e princípios linguísticos e psicológicos, mas suficientemente flexíveis para que, na prática pedagógica, possam superar as dificuldades interpostas por fatores externos que interferem na aprendizagem dos alfabetizandos (SOARES, 2018, p. 53). Assim sendo, acreditamos que esse primeiro recorte sobre a aprendizagem inicial da escrita e da introdução da criança à cultura letrada possa servir de incentivo para outros estudos, bem como para reflexões sobre as práticas pedagógicas associados ao desenvolvimento e a aprendizagem da escrita. 1.1. Os Parâmetros Curriculares Nacionais e as Determinações acerca do Trabalho com os Gêneros Discursivos/Textuais no Ensino Fundamental Antes de retomarmos as questões documentais e teóricas é preciso considerarmos que durante décadas o texto foi utilizado nas escolas apenas como objeto de leitura, de produção/ reprodução (como objeto de estimulo para se escrever e não como objeto de ensino), também como suporte para o desenvolvimento de estratégias (técnico) e não de conceitos. E por consequência a estrutura do gênero escolar (a narração, descrição e a dissertação) começa a ser enfocada por meio da linguística textual e os tipos de textos – super, macro e microestrutura – são ensinados de forma global. No entanto, essas práticas com textos não consideravam as circunstâncias de produção, privilegiava-se as formas e ao conteúdo sem se preocupar com o contexto e com as finalidades do texto. Os Parâmetros Curriculares Nacionais defendem que os estudantes recebam condições para que possa desenvolver sua competência discursiva. Ou seja, que eles tenham capacidade de utilizar a língua de modo variado, para produzir diferentes efeitos de sentido e adequar o texto a diferentes situações de interlocução oral e escrita. Segundo os PCN (1997, p. 68), 38WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Formar escritores competentes, supõe, portanto, uma prática continuada de produção de textos na sala de aula, situações de produção de uma grande variedade de textos de fato e uma aproximação das condições de produção às circunstâncias nas quais se produzem esses textos. Diferentes objetivos exigem diferentes gêneros e estes, por sua vez, têm suas formas características queprecisam ser apreendidas. Nesse sentido, os PCN sugerem alguns procedimentos didáticos que podem ser implementados na prática docente, em se tratando da produção escrita enquanto uma prática continua. oferecer textos escritos impressos de boa qualidade, por meio da leitura (quando os alunos ainda não lêem com independência, isso se torna possível mediante leituras de textos realizadas pelo professor, o que precisa, também, ser uma prática continuada e frequente). São esses textos que podem se converter em referências de escrita para os alunos; [...] solicitar aos alunos que produzam textos muito antes de saberem grafá-los. Ditar para o professor, para um colega que já saiba escrever ou para ser gravado em fita cassete é uma forma de viabilizar isso. Quando ainda não se sabe escrever, ouvir alguém lendo o texto que produziu é uma experiência importante; [...] propor situações de produção de textos, em pequenos grupos, nas quais os alunos compartilhem as atividades, embora realizando diferentes tarefas: produzir propriamente, grafar e revisar. Essa é uma estratégia didática bastante produtiva porque permite que as dificuldades inerentes à exigência de coordenar muitos aspectos ao mesmo tempo sejam divididas entre os alunos. Eles podem, momentaneamente, dedicar-se a uma tarefa mais específica enquanto os outros cuidam das demais. São situações em que um aluno produz e dita a outro, que escreve, enquanto um terceiro revisa, por exemplo. Experimentando esses diferentes papéis enunciativos, envolvendo-se com cada um, a cada vez, numa atividade colaborativa, podem ir construindo sua competência para posteriormente realizarem sozinhos todos os procedimentos envolvidos numa produção de textos. Nessas situações, o professor tem um papel decisivo tanto para definir os agrupamentos como para explicitar claramente qual a tarefa de cada aluno, além de oferecer a ajuda que se fizer necessária durante a atividade; [...] a conversa entre professor e alunos é, também, uma importante estratégia didática em se tratando da prática de produção de textos: ela permite, por exemplo, a explicitação das dificuldades e a discussão de certas fantasias criadas pelas aparências. Uma delas é a da facilidade que os bons escritores (de livros) teriam para redigir. Quando está acabado, o texto praticamente não deixa traços de sua produção. Este, muito mais que mostra, esconde o processo pelo qual foi produzido. Sendo assim, é fundamental que os alunos saibam que escrever, ainda que gratificante para muitos, não é fácil para ninguém (PCN, 1997, p. 69). Assim, podemos conceber que a prática escrita, mesmo que sendo um processo complexo, deve ser desenvolvida no espaço escolar e que a ela sejam atribuídas suas funções. Bem como devem estar inseridas em um contexto de produção para que sua produção faça sentido aos estudantes, para que eles possam compreender, de fato, qual o seu objetivo. Portanto, deve ser uma prática elaborada, e este é um fator relevante para o melhor desempenho dos estudantes. Ou seja, o planejamento e a situação da produção textual dentro de um contexto sócio-histórico determinado, com leituras e discussões prévias sobre o tema e o gênero em questão. 39WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Então, as condições de produção favorecerão de modo crescente as relações entre o estudo das formas linguísticas, entre o contexto de uso e o processo mental de todos esses elementos utilizados pelos educandos/sujeitos. Desse modo, o trabalho com gêneros textuais de maneira contextualizada oferece aos educandos as capacidades reais de refletir e praticar uma produção num processo realmente comunicativo. 1.2 A Concepção Dialógica da Linguagem e suas Implicações Para/ No Ensino Dos Gêneros Discursivos/Textuais Nos textos dos PCNs, podemos identificar claramente a referência aos gêneros discursivos para o ensino de língua portuguesa. Dessa forma, é essencial que apresentemos neste texto, a você, estudante, uma breve retomada do que preconiza os conceitos Bakhtinianos. Assim, você poderá aplicar em sua prática docente um trabalho consciente que busque desenvolver a escrita enquanto uma atividade de interação verbal que envolva indivíduo, história, cultura e sociedade, em uma relação entre produção, circulação e recepção textual, como defende Rojo (2008), em A Prática de Linguagem em Sala de Aula. Desse modo, consideramos a linguagem e sua natureza como sendo fundamentais no processo de sustentação de nosso trabalho com o ensino da língua. Pois é a concepção de língua e de linguagem que alteram e estruturam o trabalho docente, além disso, o ensino da escrita se efetiva no contexto dos usos reais da língua, ultrapassando o aspecto formal, mas sem o ignorá-lo, como ressalta Bazerman (2005, p. 9). Assim, tomaremos a escrita em cunho filosófico, concebida por Bakhtin e o Círculo, que se propunham a estudar o agir humano em um mundo concreto, social e histórico em situações específicas, como aponta Travaglia (2006). Bakhtin e o Círculo tratam da questão dos gêneros do discurso como “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2011, p. 262). Com base nessa premissa, Bakhtin (2011, p. 262) considera o dinamismo e a grande heterogeneidade dos gêneros discursivos e que não há a possibilidade de termos um plano “único para o seu estudo”. A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo (BAKHTIN, 2011, p. 262). Segundo os postulados de Bakhtin (2011), os gêneros do discurso apresentam três dimensões indissociáveis. Entre elas estão: a) conteúdo temático, único, individual e não reiterável, apresenta-se como a expressão de uma situação histórica concreta que deu origem à enunciação, determinado pelas formas linguísticas, por elementos não verbais da situação, além da significação, que é inseparável da situação concreta em que se realiza; b) estilo da linguagem, também ligado ao enunciado, nele se reflete a seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua; c) a construção composicional, esta, refere-se à organização do texto, como é reconhecido socialmente. E todas essas são determinadas pela especificidade de um determinado campo da comunicação e pela apreciação valorativa do locutor a respeito do tema e de seu interlocutor. 40WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Roxane Rojo nos apresenta um quadro ilustrativo destas dimensões: Figura 2 - Dimensões dos Gêneros do Discurso. Fonte: Gêneros do Discurso e Gêneros textuais: Questões teóricas e aplicadas (2005). Para Bakhtin/Voloshinov (1997, p. 112), “qualquer que seja o aspecto da expressão- enunciação considerado, ele será determinado pelas condições reais da enunciação em questão”. E indissoluvelmente associadas a essas dimensões, não podemos ignorar o que o Círculo chama de “essencial diferença” Bakhtin apud Voloshinov (1997, p. 112), entre os gêneros discursivos primários e secundários. Estabelecem relações com certas modalidades de linguagem, aproximando os gêneros primários da modalidade oral e das esferas do cotidiano (os simples- imediata), como “réplicas do diálogo cotidiano” Bakhtin apud Voloshinov (1997, p. 112). Relaciona os gêneros secundários do discurso às esferas mais complexas, que são constituídos em situações sociais ideológicas e evoluídas, relacionados à modalidade escrita da linguagem. Marcuschi (2010, p. 19) define ainda os gêneros como “eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos”. Recorremos, portanto, aos estudos bakhtinianos, mesmo que ele não tenha formulado uma teoriapensando no ensino, mas seus conceitos nos servem como principal referência acerca das relações dialógicas e do caráter interativo da linguagem em produções escritas na esfera escolar. Pois nossos alunos devem “ter acesso letrado a textos (de opinião, literários, científicos, jornalísticos, informativos etc.) e de poderem fazer uma leitura crítica e cidadã desses textos” (ROJO, 2005, p. 207). Rojo (2005, p. 207) defende que o trabalho didático aconteça da seguinte forma: Assim, parece-nos ser mais útil e necessário explorar com eles as características das situações de enunciação – relacionadas às marcas linguísticas que deixam como traços nos textos – que fazermos análises completas e exaustivas dos textos, introduzindo uma nova metalinguagem. A escola deve levar os alunos a produzirem ou analisarem eventos linguísticos os mais diversos, tanto escritos como orais e identificarem as características de cada gênero. “O trabalho com gêneros textuais é uma extraordinária oportunidade de lidar com a língua em seus mais diversos usos autênticos no dia a dia” (MARCUSCHI 2005, p. 37). 41WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 1.3 Explorando a Escrita dos Gêneros enquanto Atividade Interativa Quando pensamos na escrita enquanto um processo de interação é preciso levar em conta que: A atividade da escrita é, então uma atividade interativa de expressão, (ex-, “para fora”), de manifestação verbal das idéias, informações, intenções, crenças ou dos sentimentos que queremos partilhar com alguém, para, de algum modo, interagir com ele. Ter o que dizer é, portanto, uma condição prévia para o êxito da atividade de escrever (ANTUNES, 2003, p. 44, grifos no original.). Portanto, a visão interacionista da escrita defende que a produção escrita aconteça de modo que os estudantes percebam que os textos sejam como uma ponte entre os interlocutores. Logo, o professor não deve desenvolver uma prática de escrita escolar sem leitor, sem destinatário. Pelo contrário, deve planejar sua prática docente para que o trabalho em sala de aula com gêneros sirva como oportunidade de lidar com a língua em seus diversos usos no dia a dia. Que este seja um trabalho sistemático, para que os alunos não produzam enunciados soltos, mas sim, textos, como sugere Marchuschi (2010, p. 37). Pensando na sua prática docente, professor(a), apresentamos a seguir um esquema que demonstra as etapas de produção escrita: 1. PLANEJAR 2. ESCREVER 3. REESCREVER É a etapa para o sujeito: É a etapa para o sujeito: É a etapa para o sujeito: ampliar seu repertório; pôr no papel o que foi planejado; rever o que foi escrito; delimitar o tema e escolher o ponto de vista a ser tratado; realizar a tarefa motora de escrever; confirmar se os objetivos foram cumpridos; eleger o objetivo, a finalidade com que vai escrever; cuidar para que os itens planejados sejam todos cumpridos. avaliar a continuidade temática; escolher os critérios de ordenação das ideias, das informações; observar a concatenação entre os períodos, entre os parágrafos ou entre os blocos superparagráficos; prever as condições dos possíveis leitores; avaliar a clareza do que foi comunicado; avaliar a adequação do texto às condições da situação; considerar a situação em que o texto vai circular; enfim, essa é uma etapa intermediária, que prevê a atividade anterior de planejar e a outra posterior de rever o que foi escrito. rever a fidelidade de sua formulação linguística às normas da sintaxe e da semântica, conforme prevê a gramática da estrutura da língua; 42WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA decidir quanto às estratégias textuais que podem deixar o texto adequado à situação; rever aspectos da superfície do texto, tais como a pontuação, a ortografia e a divisão do texto em parágrafos. estar seguro quanto ao que pretende dizer a seu parceiro; enfim, estar seguro quanto ao núcleo de suas idéias e de suas intenções. normalmente, a escola tem concentrado sua atenção na etapa de escrever e tem enfocado apenas a escrita gramaticalmente correta. Quadro 1 - Etapas distintas e intercomplementares implicadas na atividade da escrita. Fonte: Antunes (2003). A autora ainda reforça a ideia de que para que as produções de nossos estudantes tenham mais qualidade é preciso dar tempo a eles. É necessário dar mais oportunidade para que eles possam planejar e rever as próprias produções, que elas tenham objetivos pré-determinados. Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz (2004) alertam que a escrita dos gêneros deve ser utilizada como meio de articulação entre as práticas sociais e os objetos escolares, para o desenvolvimento da linguagem, e que isso implica em um trabalho lento, longo e complexo de ser avaliado. Além disso, para o trabalho com os gêneros no espaço escolar, os autores sugerem o planejamento das sequências didáticas como elemento chave de possibilidade para o ensino da escrita. Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz (2004, p. 82) fazem a seguinte definição: “uma sequência didática é um conjunto de atividades escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito”. Os módulos são organizados a partir de uma apresentação da situação, na qual é descrita de maneira detalhada a tarefa de expressão oral ou escrita que será realizada, correspondendo a um gênero determinado. Nesse momento acontece a produção inicial. Será a partir dessa produção que o professor avaliará o seu aluno e definirá quais objetivos pretende alcançar com o trabalho, quais capacidades deverá desenvolver no decorrer do processo. Portanto, nos módulos é que serão desenvolvidas atividades sistematicamente planejadas, para que possam solucionar os problemas apresentados na primeira produção. Dessa forma, na produção final o aluno deverá pôr em prática os conhecimentos adquiridos e, segundo Schneuwly e Dolz (2004), o professor deverá medir os progressos alcançados. Da mesma forma, a produção final servirá como processo avaliativo sobre os aspectos trabalhados durante a sequência. Schneuwly e Dolz (2004) enfatizam a ideia de que a aprendizagem deve ocorrer a partir do uso de gêneros variados e que cada gênero necessita de um ensino adaptado. Nesse mesmo sentido, de nos orientar, sugerem que os gêneros sejam agrupados em razão de suas regularidades linguísticas e de transferências. Também definem uma progressão para o trabalho e desenvolvimento das capacidades de linguagem que deve ser considerada de acordo com a situação escolar e o currículo seguido. Além disso, propõem que a progressão seja organizada em torno dos gêneros, que seja espiral em se tratando dos níveis de complexidade, e que sejam tratados de acordo com os ciclos/séries. A aprendizagem deve assegurar o domínio do gênero ao longo do tempo e que se evite a repetição tomando, portanto, novos objetivos. Apresentamos a seguir um quadro com uma possível forma de desenvolver a organização dos gêneros considerando os conceitos apresentados. 43WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Quadro 2 - Organização dos gêneros. Fonte: Schneuwly; Dolz (2004, p. 106) Obs.: Os asteriscos indicam as sequências de expressão oral Estas propostas apresentadas são apenas sugestões de trabalho para que o professor possa atuar de forma planejada a partir dos conhecimentos prévios dos estudantes visando objetivos de aprendizagem relacionados com as capacidades e necessidades reais de cada classe, considerando que tal proposta pode ser posta em prática de forma progressiva. Em relação às correções das produções escritas, buscamos respaldo ao que preconiza os trabalhos de Ruiz (2010), que defende que a correção funcione como uma “correção textual- interativa”.Que sejam realizadas de forma escrita e não simbólica, em sequência ao texto do aluno, chamado pela autora de “pós-texto”, que sejam escritos bilhetes, e esses bilhetinhos interativos devam tratar da ação do aluno de revisar sua escrita ou da própria correção do professor. Desta forma, o professor posiciona-se enquanto primeiro interlocutor do estudante e deve incentivar a reescrita com elogios, servindo de reforços e não com formas tradicionais rabiscando a escrita do aluno. Assim, o(a) professor(a) deve orientar seu(sua) aluno(a) sem interferir diretamente em seu dizer, procurando chamar a atenção em relação à proposta de produção, para que o estudante a retome e reorganizasse a partir disso, tornando-se outro em seu dizer. Para que possa, de fato, refletir e cumprir com a função de produtor, enquanto autor de acordo com a exigência própria do gênero e do comando de produção. 44WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA “Gêneros Orais e Escritos na Escola” é uma obra produzida com a finalidade de auxiliar os professores em como pensar o ensino dos gêneros escritos e orais, bem como encaminhá- los de modo que possa efetivar o ensino a partir de novos objetivos para o processo de ensino- aprendizagem. O livro aborda questões sobre os motivos para trabalharmos com os gêneros, sobre sua organização no currículo e sobre suas progressões curriculares. Figura 3 - Capa do livro Gêneros orais e escritos na escola.Fonte: Schneuwly; Dolz (2010). Durante nossa existência escrevemos movidos por diferentes objetivos. dessa forma, escolhemos os gêneros que utilizaremos de acordo com esses objetivos e suas funções para cada momento e isso é o que faz com que nossa escrita seja significativa. Do mesmo modo deve ser a produção escrita em sala de aula. Figura 4 - Calvin e Haroldo. Fonte: Nova Escola (2009). 45WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Jean-Paul Bronkart, Atividade de linguagem, textos e discursos - Por um interacionismo sociodiscursivo/ 2ª edição São Paulo: EDUC, 2009. Uma obra importantíssima para os estudos que envolvem a psicologia da linguagem, orientada pelos princípios epistemológicos do interacionismo social. Bronckart apresenta um quadro teórico que envolve reflexões sobre as condições de produção escrita, das classificações e das operações em que se baseia seu funcionamento. Seminário Internacional Escrevendo o Futuro, realizado em São Paulo nos dias 22 e 23 de junho de 2015. Joaquim Dolz, professor e pesquisador em Didática do Francês/Língua Materna, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FAPSE) da Universidade de Genebra (UNIGE), Suíça, e membro do Grupo Grafe. Fonte: CENPEC (2015) Acesse: https://youtu.be/K68WLhIcSrc 2 - CONSIDERAÇÕES Pudemos perceber que as indicações dos PCNs são, de certo modo, uma base para o trabalho com a produção escrita em sala de aula. No entanto, é preciso estar atento para que o trabalho com os gêneros não se distancie dos textos reais que circulam na sociedade. Assim, nossos estudantes terão uma maior consciência da função social desses textos. Portanto, é preciso considerar a grandiosa importância de se desenvolver um trabalho planejado, que permita ao estudante vivenciar situações diferenciadas e estimulantes em se tratando da produção escrita. Desta forma, encerramos esta unidade reforçando a ideia de que a escola não deve, de maneira alguma, excluir a palavra escrita dentro de seu espaço, muito menos sua funcionalidade fora dele. 4646WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 47 1 - REFLETINDO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ORALIDADE NO PROCESSO EDUCACIONAL ........................... 48 1.1. O ENSINO DA ORALIDADE VOLTADA AOS GÊNEROS ...................................................................................... 51 1.2. SEQUÊNCIA DIDÁTICA PARA O ENSINO DA ORALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL ........................... 54 1.3 PRECONCEITO LINGUÍSTICO E AS DIFERENTES LÍNGUAS ......................................................................... 58 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................................................. 61 ORALIDADE: UMA PRÁTICA URGENTE NO ENSINO FUNDAMENTAL PROF.A MÁRCIA CRISTINA DE AQUINO DE PAULA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: METODOLOGIA E PRÁTICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA 47WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO A oralidade no Ensino Fundamental é uma temática pouco abordada nas escolas, bem como sua prática. No entanto, é discutida por inúmeros pesquisadores da area da linguagem. Além disso, faz-se presente em documentos, como nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, isso devido a sua grandiosa relevância para o desenvolvimento da competência linguística de nossos estudantes. Além disso, é preciso considerar que a fala é indispensável e que, inúmeras vezes tornou- se objeto de discriminação social, já que esta é adquirida em diferentes contextos, que não sejam especificamente a escola. Por isso, nossa necessidade de refletir sobre a importância da escola desenvolver essa habilidade, pois desde nosso nascimento nos manifestamos através da oralidade. Nesta unidade, falaremos sobre alguns conceitos básicos sobre oralidade e letramento, além de abordarmos suas relações para que possamos transformar a visão de erro que muitos possuem sobre a fala. Devemos considerar as variedades linguísticas que caracterizam a língua como um fenômeno interativo e dinâmico, como defende Marcuschi (2003), em Da fala para a escrita. Precisamos nos conscientizar de que a língua reflete a sociedade e sua cultura e que a fala estará sempre presente, nem mesmo a tecnologia a substituirá, pois somos especiais por sermos capazes de desenvolver nossa oralidade, diferentemente de outros animais. Além disso, é preciso considerar os estudos sobre letramento, pois é preciso valorizar os saberes dos estudantes para que estes possam se sentir estimulados a participarem das aulas. Desta forma, refletiremos sobre os gêneros do discurso oral e sobre o ensino de língua portuguesa com base no letramento para o trabalho com os gêneros apresentação de seminário e relato pessoal em sala de aula. 48WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - REFLETINDO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ORALIDADE NO PROCESSO EDUCACIONAL Figura 1 - Atividade de oralidade e sala de aula - Estudantes em contação de histórias. Fonte: Paula (2016). Você já parou para pensar sobre a importância em dedicarmos nossa atenção à prática da oralidade no espaço escolar? Certamente já refletiu sobre a relevância da mesma para nossa vida, pois é também com ela que interagimos com diferentes pessoas em diferentes situações. É certo que na maioria das aulas de língua portuguesa a preocupação maior dos docentes ocorre em relação a escrita, ao ensino da gramática e da leitura, no entanto é preciso ampliar nossos olhares para o estudo e ensino dos gêneros orais, claro que considerando a idade e série. Além disso, colaboraremos com o desenvolvimento da participação de nossos estudantes enquanto um sujeito inserido em uma sociedade e que a qualquer momento fará uso dessa modalidade. Portanto, faz-se mais que necessário refletirmos que tipo de valorização a escola dá em relação à oralidade. Luiz Antônio Marcuschi, em Da fala para a escrita (2003, p. 17, grifos no original) nos alerta nesse sentido: 49WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA LÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Oralidade e escrita são práticas e usos da língua com características próprias, mas não suficientemente opostas para caracterizar dois sistemas linguísticos nem uma dicotomia. Ambas permitem a construção de textos coesos e coerentes, ambas permitem a elaboração de raciocínios abstratos e exposições formais e informais, variações estilísticas, sociais, dialetais e assim por diante. As limitações e os alcances de cada uma estão dados pelo potencial do meio básico de sua realização: som de um lado e grafia de outro, embora elas não se limitem a som e grafia, como acabamos de ver. Em suma, eficácia comunicativa e potencial cognitivo não são vetores relevantes para distinguir oralidade e escrita, de modo que a tese da grande virada cognitiva que a escrita, de modo especial a escrita alfabética, representaria com seu surgimento na humanidade, não passa de um mito já superado. Pensando assim, Marcuschi (2003, p. 25) define a oralidade como: [...] uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso. Nesse sentido, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1998, p. 25) defendem que: Cabe à escola ensinar o aluno a utilizar a linguagem oral no planejamento e realização de apresentações públicas: realização de entrevistas, debates, seminários, apresentações teatrais etc. Trata-se de propor situações didáticas nas quais essas atividades façam sentido de fato, pois é descabido treinar um nível mais formal da fala, tomado como mais apropriado para todas as situações. Desse modo, compreendemos que somente a fala desenvolvida em situações informais do cotidiano não é o suficiente para que nossos estudantes possam desenvolver sua oralidade em uma situação mais formal. Portanto, cabe à escola propiciar atividade que desenvolvam não apenas os gêneros da modalidade escrita, mas também a da oralidade. Para tanto, os PCNs sugerem como gêneros adequados para o trabalho com a linguagem oral: • contos (de fadas, de assombração, etc.) mitos e lendas populares; • poemas, canções, quadrinhas, parlendas, adivinhas, trava-línguas, piadas; • saudações, instruções, relatos; • entrevistas, notícias, anúncios (via rádio e televisão); • seminários, palestras. (PCNs, 1998, p. 111) Além dos gêneros, os PCNS consideram algumas ações em sala de aula como imprescindíveis para desenvolvermos uma prática voltada à oralidade. • Participações em situações de intercâmbio oral que requeiram: ouvir com atenção, intervir sem sair do assunto tratado, formular e responder perguntas, explicar e ouvir explicações, manifestar e acolher opiniões, adequar as colocações às intervenções precedentes, propor temas. • Manifestação de experiências, sentimentos, ideias e opiniões de forma clara e ordenada. • Narração de fatos considerando a temporalidade e a causalidade. • Narração de histórias conhecidas, buscando aproximação às características discursivas do texto-fonte. • Descrição (dentro de uma narração ou de uma exposição) de personagens, cenários e objetos. • Exposição oral com ajuda do professor, usando suporte escrito, quando for o caso. 50WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA • Adequação do discurso ao nível de conhecimento prévio de quem ouve (com ajuda). • Adequação da linguagem às situações comunicativas mais formais que acontecem na escola (com ajuda) (PCNs, 1998, p. 113). Antunes (2003) defende que a oralidade seja explorada em sala de aula enquanto sua dimensão interacional e reforça a ideia de um trabalho com diferentes gêneros textuais; e que aconteça na sua diversidade dialetal e de registro que qualquer uso da linguagem implica. Além disso, a autora reforça a ideia de que a oralidade não deve ser pensada apenas como um lugar de espontaneidade e de descuido às normas da língua-padrão, nem tão pouco desconsiderar sua variação, pois seus usos dependem de seus contextos. Antunes (2003) estabelece algumas considerações que servem para nortearmos nosso trabalho com a oralidade durante nossa prática didática. Para ela, a prática da oralidade deve ser orientada com atividades em que os estudantes reconheçam a unidade temática de um texto, bem como sua finalidade. Também deve ser orientada de forma que os estudantes percebam a articulação entre os diversos tópicos e subtópicos da interação, pois, como na escrita, esses elementos também estão presentes na oralidade e que esta também está sujeita aos princípios da textualidade. Além disso, Antunes (2003) ressalta que as modalidades oral e escrita da língua possuem similaridades e diferenças e essas especificidades devem ser ressaltadas, bem como as relações formais, informais e funcionais que se manifestam em cada uma delas. Nesse sentido, Marcuschi (2001) sugere como atividade o exercício de “retextualização”, ou seja, o ato de passar o texto oral para o escrito, dessa forma, o estudante compreenderá tais especificidades. Antunes (2003) refere-se a uma prática com a oralidade que seja efetivada a partir de orientações do(a) educador(a) para que os estudantes desenvolvam o hábito do planejamento de sua atuação verbal, para que os alunos saibam como adequar-se às diferentes condições de produção e dos diferentes eventos. Pois são exatamente as condições de cada situação que nos levam a tomar as decisões no decorrer do processo de interação. E lembrar que devemos o cuidado de rejeitar qualquer atitude discriminatória em relação às falas desprestigiadas. Além dessas implicações, Irandé Antunes relembra da importante função da oralidade orientada para facilitar o convívio social, pois nossa fala indica atitudes de polidez e dos papéis dos interlocutores durante o processo de interação e defende que “A escola não pode deixar de dar orientações nem de explorar as expressões próprias de um comportamento linguístico polido se pretende desenvolver a competência comunicativa dos alunos” (ANTUNES, 2003, p. 104). Ainda considera que devemos desenvolver a prática da oralidade orientada para se reconhecer o papel da entonação, das pausas e de outros recursos supra-segmentais na construção do sentido texto, bem como a função das expressões fisionômicas, dos gestos e outros recursos que constituem o processo da interação verbal. A autora sugere que as atividades de oralidade incluam também atividades de apreciação estéticas próprias da literatura improvisada, dos cantadores, de repentistas. No entanto, adverte para que não sejam utilizadas “apenas como pretexto para que sejam convertidas na norma padrão da língua”, pois, dessa forma, “perde-se o valor como forma de expressão oral dos valore culturais de uma comunidade, além de se passar sutilmente a ideia de que seu padrão linguístico deve ser evitado”. (ANTUNES, 2003, p. 105). E ressalta a importância de desenvolvermos em nossos estudantes a habilidade da escuta com atenção e respeito não importando quem quer que seja nosso interlocutor. 51WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.1. O Ensino da Oralidade Voltada aos Gêneros Consideramos que é função da escola desenvolver o uso da língua, tendo como ponto de partida as situações reais de uso em seus mais diferentes gêneros, tanto os formais quanto os informais. Os gêneros da oralidade também devem ser tratados de forma a desenvolver em nossos estudantes a criticidade e a reflexão para que possam produzir, sim, textos orais de modo seguro, garantindo a eles a participação em sociedade. No entanto, para que nosso trabalho seja eficiente e alcancemos nossos objetivos é preciso que apresentemos situações e assuntos de interesse dos alunos para que eles possam participar ativamentede todas as atividades propostas, para que possam aprofundar os conhecimentos e defender seu ponto de vista. Bernard Schneuwly (2004) defende que o trabalho com a oralidade seja desenvolvido sob a “intervenção didática”, ou seja, À medida que postulamos que a aprendizagem deve se dar sobre atividades complexas, nas quais possa intervir um certo controle do sujeito, o ângulo escolhido deve, consequentemente, ir ao encontro das representações de linguagem dos aprendizes e corresponder a modos sociais e socialmente reconhecidos de apreensão dos fenômenos de linguagem, que não sejam tão abstratos a ponto de se tornarem inacessíveis à atividade consciente. A partir disso, a entrada que privilegiamos é a dos gêneros textuais, pois estes respondem perfeitamente às exigências definidas por nossa concepção do desenvolvimento: são, a um só tempo, complexos e heterogêneos (mas fundados de cera maneira sobre uma heterogeneidade “integrada”), produtos sócio- históricos, definíveis, empiricamente, além de serem instrumentos semióticos para a ação de linguagem. Como exemplos, podemos mencionar o debate, a entrevista radiofônica, a exposição escolar, mas também a conversa familiar, a “pechincha” no mercado ou o discurso amoroso (SCHNEUWLY, 2004, p. 115, grifos no original). Assim, Bernard Schneuwly (2004) reforça a ideia defendida pelo Círculo de Bakhtin de que é de acordo com a esfera comunicativa, de nossas necessidades temáticas, de nossos interlocutores e de nossa vontade que escolhemos o gênero. Logo, é fundamental que nossos estudantes dominem os gêneros que emergiram historicamente, dos mais simples aos mais complexos. Portanto, o objeto a ser desenvolvido deve ser “múltiplo, heterogêneo e, sobretudo, complexo” (SCHNEUWLY, 2004, p. 120). Schneuwly (2004, p. 122) defende que Toda atividade de linguagem complexa supõe uma ficcionalização, uma representação puramente interna, cognitiva, da situação de interação social. É necessário que se faça uma representação abstrata, que se ficionalize a situação. A modelização dessa representação isola quatro parâmetros da produção: enunciador, destinatário, finalidade ou objetivo, lugar social. A construção dessa representação é uma atividade produtiva, um tipo de “polioperação” no sentido piagetiano (diz Bernié), cujos efeitos refletem-se na produção, manifestados pelo tratamento inerente à língua. A ficcionalização revela-se, então, como uma operação geradora da “forma do conteúdo” do texto: ela é o motor da construção da base de orientação da produção, colocando, particularmente, certas restrições sobre a escolha de um gênero discursivo. 52WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Desse modo, Schneuwly (2004), apresenta a entrevista e o debate enquanto gêneros complexos que devem ser trabalhados em sala de aula. Ambos apresentam particularidades da oralidade e finalidades relacionadas ao enunciador, ao entrevistado e aos ouvintes, o lugar social, o que se quer saber, o transmitir o saber ao outro, o papel do entrevistador que tem como função ser o mediador entre o entrevistado e o auditório. E, no caso do debate, o destinatário, o enunciador, a finalidade e o lugar social são todos duplos. A isto é necessário um trabalho docente de intervenção, pois exige técnicas diversas. Figura 2 - Atividade de oralidade e sala de aula - Estudantes em entrevista realizada com a cantora Andréia Sales. Fonte: Paula (2015). Segundo o professor e pesquisador Schneuwly (2004), durante a comunicação oral somos tomados por emoções que fogem ao nosso controle, como, por exemplo, nossos batimentos cardíacos alteram-se, há rigidez muscular, nosso rosto ruboriza-se e o estrangulamento de nossa voz. O pesquisador defende que isso seja trabalhado pelo professor, necessariamente, a partir de um treinamento para que se possa trabalhar a ansiedade dos alunos, mesmo que de forma indireta para que os estudantes possam vencer o medo. Além disso, também deve ser trabalhado a colocação da voz, a posição do corpo, a respiração e atitudes corporais. Além disso, Schneuwly apud Leon (1993, p. 121) expõe sobre os recursos que utilizamos para nos comunicarmos. [...] a comunicação oral não se esgota somente na utilização de meios linguísticos ou prosódicos; vai utilizar também signos de sistemas semióticos não linguísticos, desde que codificados, isto é, convencionalmente reconhecidos como significantes ou sinais de uma atitude. É assim que mímicas faciais, posturas, olhares, a gestualidade do corpo ao longo da interação comunicativa vem confirmar ou invalidar a codificação linguística e/ou prosódica e mesmo, às vezes, substituí-la. Essa comunicação não verbal pode também trair o falante, quando este deixa escapar índices involuntário de uma emoção, seja ela perceptível ou não, linguística e prosodicamente. Sabemos bem o quanto pode ser constrangedor um ator que desempenha “mal” seu papel, dissociando os parâmetros, em princípio congruentes, da melodia, da acentuação e da gestualidade. E como forma de evidenciar os recursos utilizados para e durante a atividade oral, Schneuwly apresenta o seguinte quadro: 53WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA MEIOS PARA- LINGUÍSTICOS MEIOS CINÉSICOS POSIÇÃO DOS LOCUTORES ASPECTO EXTERIOR DISPOSIÇÃO DOS LUGARES Qualidade da voz Melodia Elocução e pausas Respiração Risos Suspiros Atitudes corporais Movimentos Gestos Troca de olhares Mímicas faciais Ocupação de lugares Espaço pessoal Distâncias Contato físico Roupas Disfarces Penteado Óculos Limpeza Lugares Disposição Iluminação Disposição das cadeiras Ordem Ventilação decoração Tabela 1 - Meios Não-linguísticos da comunicação oral. Fonte: Schneuwly (2004). Schneuwly (2004) nos alerta sobre a importância de conhecermos as características dos gêneros para que possamos articular suas finalidades e, da mesma forma, possamos aprender a nos comunicar utilizando os meios linguísticos de acordo com às situações. Pois “o papel da escola é levar os alunos a ultrapassar as formas de produção oral cotidianas para as confrontar com outras formas mais institucionais, mediadas, parcialmente reguladas por restrições exteriores” (SCHNEUWLY, 2004, p. 146). Portanto, ao considerar a integração e variedade de gêneros, Schneuwly (2004) sugere, como objeto de ensino, que a escola aborde os gêneros da comunicação pública formal. Entre eles estão: exposição, relatório de experiência, entrevista, discussão em grupo, debate, negociação, testemunho diante de uma instância oficial, teatro e outros que o professor e a escola julgarem pertinentes a depender de todo o contexto. Os gêneros formais públicos constituem as formas de linguagem que apresentam restrições impostas do exterior e implicam, paradoxalmente, um controle mais consciente e voluntário do próprio comportamento para dominá-las. São, em grande parte, predefinidos, “pré-codificados” por convenções que os regulam e que definem seu sentido institucional. (SCHNEUWLY, 2004, p. 147). Desta forma, para que o docente possa desenvolver atividades que envolva a oralidade, faz-se necessário todo um trabalho que permita aos estudantes conhecer as características do gênero que será abordado. Pois, isso é o que permitirá articular sua finalidade aos meios linguísticos próprios às situações que tornam a comunicação possível, como nos orienta Bernard Schneuwly (2004). Logo, é importante saber sobre os lugares de produção; a finalidade da situação de comunicação; a organização textual; o vocabulário e as formas linguísticas, bem como a dicção. No entanto, o professor Schneuwly (2004), reforça a ideia de que é preciso fazer uma coleta de informações para que o professor possa definir o objeto de ensino, suas dimensões ensináveis, visando sempre as capacidades de linguagem que sedeseja construir com os educandos durante todo o processo de ensino-aprendizagem. 54WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.2. Sequência Didática para o Ensino da Oralidade no Ensino Fundamental Schneuwly (2004) define a exposição oral como um gênero público, formal e específico em que o especialista se dirige a um auditório, de forma estruturada para transmitir informações, descrever ou explicar algo. Quando se pensa na esfera educacional, para se construir um objeto ensinável, o autor defende que nós professores precisamos definir objetivos e elaborar modalidades para que nosso educando tome consciência de seu comportamento e sobre a organização e a transmissão do conhecimento. Portanto, o pesquisador defende que a exposição oral se inscreva num quadro interacionista, logo, o planejamento é fundamental. O planejamento de uma exposição exige, primeiramente, que se proceda a uma triagem das informações disponíveis, à reorganização dos elementos retidos e, por fim, à sua hierarquização, distinguindo ideias principais de secundárias, com a finalidade de garantir uma progressão temática clara e coerente em função da conclusão visada. Essas primeiras operações, que precedem o planejamento textual propriamente dito, devem ser objeto de um trabalho em sala de aula, para que as exposições dos alunos não se reduzam a uma sequência de fragmentos temáticos sem ligação entre si. Operações tais como a pesquisa de elementos pertinentes num texto-fonte, sua hierarquização e sua organização podem ser objeto de atividades individuais ou em grupo, com correção coletiva para toda a classe. E seguida, a exposição deverá ser ordenada em partes e subpartes, que permitam distinguir as fases sucessivas de sua construção interna (SCHNEUWLY, 2004, p. 187). Schneuwly (2004) sugere, em perspectiva de ensino, que a exposição aconteça observando as seguintes partes: a) abertura, fase de extrema importância, pois define a situação, os papeis e a finalidade da exposição; b) introdução ao tema, o apresentador deve delimitar o assunto, legitimar as razões de suas escolhas, o ponto de vista adotado e motivações, esse momento deve despertar a atenção dos ouvintes; c) a apresentação do plano de exposição, muito mais que uma enumeração das ideias, esta fase esclarece sobre o que falará, enquanto um texto planejado; d) o desenvolvimento e o encadeamento dos temas, aqui, o número deve corresponder ao que fora anunciado no plano; e) recapitulação e síntese, fase que permite a retomada dos principais pontos apresentados, além disso, é a transição entre a exposição e a conclusão; f) a conclusão, ela transmite a mensagem final e pode levar os ouvintes a um novo problema que fora apresentado durante a exposição, ou ainda, iniciar um novo debate; g) o encerramento, momento este que deve seguir, de certa forma, os mesmos padrões da abertura, observando o comportamento, agradecimentos ao auditório, logo, esta possui uma configuração interacional da linguagem. Além desses elementos, é importantíssimo considerarmos que durante a exposição de um trabalho oral nossos estudantes constroem e desenvolvem operações linguísticas específicas ao gênero. Entre elas estão: a coesão temática, a sinalização do texto, que distingue as ideias principais das ideias secundárias, as explicações das descrições, o desenvolvimento das conclusões resumidas e das sínteses. Ademais, Schnewly (2004) alerta que o domínio dessas operações depende do uso de operadores argumentativos, organizadores temporais, tempos verbais, uso de exemplos explicativos ou ilustrativos e reformulações para que possam esclarecer termos citados. Haja vista esses elementos, justificamos a relevância do trabalho com a oralidade no ensino, bem como a participação e elaboração de um modelo didático, para que o(a) educador(a) possa auxiliar de forma efetiva e refletida seus educandos. Isso deve ser construído a partir da observação das práticas sociais de referência e do conhecimento dos próprios alunos. 55WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Goffman (1987, p. 178) aborda a questão referente a conferência e sugere formas de treinar a apresentação, são: a memorização, a leitura em voz em alta e a fala espontânea, mas para que a fala espontânea aconteça é preciso considerar o número de apresentações. Além disso, considera que devamos criar oportunidades diferentes para que os estudantes possam desenvolver a oralidade e sugere a apresentação de peças teatrais e a poesia como recursos que privilegiam a memorização. É necessário, portanto, que: Consequentemente, pensamos que seria didaticamente razoável levarmos os alunos a construir exposições não para serem lidas, mas que se apoiem bastante em suportes escritos diversificados: anotações, gráficos, citações etc., assim como em esquemas baseados em palavras-chave, alguns marcadores de estruturação que permitam ao orador lembrar-se explicitamente do estatuto que atribui a essas palavras-chave em seu planejamento. No entanto, algumas passagens particularmente importantes em termos de conteúdo (enunciado de uma tese etc.) ou de estrutura (enunciados-chave como a abertura, a introdução da conclusão etc.) poderiam ser redigidas e lidas (SCHNEUWLY, 2004, p. 191). Também é preciso considerar que durante o trabalho em sala de aula sejam observadas algumas características desse gênero, que devem ser integradas ao modelo didático. Ente eles: que o texto seja compreendido, por isso deve ser falado alto, de forma moderada, nem rápido, nem lento, que hajam pausas, logo, a importância da tomada de consciência da voz, do olhar, enfim, da atitude corporal. Apresentaremos a seguir uma proposta elaborada por Schneuwly (2004), para que possamos desenvolver e aplicar, a partir dela, uma sequência didática para o trabalho com a exposição oral no Ensino Fundamental, especificamente para o 1º e 2º ano. OFICINAS OBJETIVOS ATIVIDADES MATERIAL DURAÇÃO Apresentação da situação Sensibilização a um gênero textual. • Dar sentido ao conjunto de atividades. • Colocar questões sobre uma exposição. 1. Escuta de uma conferência. 2. Discussão sobre a apresentação. • Gravação de uma conferência sobre o escorpião. 1h OFICINA 1: Escutar uma conferência de um adulto. • Familiarizar-se com uma exposição oral de adulto. • Ter uma apreciação global de uma exposição. • Escutar atentamente para completar um guia de escuta. 1. Aquisição de conhecimentos sobre o castor (tema da conferência). 2. Escuta da exposição “O castor” e tomada de notas. • Gravação da exposição “O castor”. • Duas fichas para tomada de notas. 1h 56WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA OFICINA 2: Tomar notas para preparar a exposição. • Selecionar informações a partir de um texto escrito. • Elaborar anotações a fim de facilitar a exposição. • Exercitar-se na utilização de notas para a exposição oral. 1. Leitura do texto sobre o lobo. 2. Escolha de palavras- chave. 3. Tomadas de nota. 4. Treinamento para a exposição a partir de notas. • Texto sobre o lobo. • Uma ficha para tomadas de notas. • Um gravador portátil. 1h OFICINA 3: Construir uma exposição. • Escolher um tema para a exposição. • Coletar documentos de referência. • Documentar-se. • Preparar notas para a exposição. 1. Escolha de um tema. 2. Anotações escrita dos conhecimentos sobre o tema. 3. Visita a um centro de documentação. 4. Pesquisa de documentos. 5. Leitura de documentos. 6. Anotações. 7.Balanço de conhecimento. • Uma ficha para pesquisa de documento. • Obras diversas. 4h OFICINA 4: Aprender a reformular. • Reformular palavras difíceis. • Utilizar diferentes maneiras de introduzir uma reformulação.1. Escolha das palavras a reformular. 2. Encontrar as reformulações. 3. Encontrar os introdutores de reformulação. 4. Jogo de reformulação. 5. Pesquisa de reformulações. • Duas fichas de atividades. • Um jogo por grupo de reformulações. 2h 57WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA OFICINA 5: Organizar o seminário • Planejar o seminário ou a exposição. • Articular as diferentes partes da exposição. 1. Escuta de uma introdução. 2. Preparação do conteúdo de uma introdução. 3. Escuta de um resumo. 4. Comparação de resumos. 5. Observação das diferentes partes. 6. Comparação de introdutores de uma outra exposição. 7. Observação dos encerramentos. 8. Preparação de uma conclusão. • Gravação de introduções e de resumos. • Trechos de conferência. • Quatro fichas de atividades. 2h PRODUÇÃO FINAL • Tomar palavra diante da classe. 1. Coordenação da distribuição da palavra entre os alunos. 2. Treinamento para a exposição. 3. Apresentação sucessiva dos grupos. • Um gravador portátil. • Duas folhas contendo as oito regras para um seminário. 1h + apresentações Quadro 1 - Exemplo de sequência didática para o trabalho com a oralidade no Ensino Fundamental. Fonte: Schneuwly (2004). Obviamente, esta proposta não é a única possibilidade a ser aplicada. Cabe ao professor(a) conhecer seus estudantes, suas características, necessidades e objetivos para desenvolver e criar a sua própria sequência didática, o que defendemos é que tenha objetivos devidamente estabelecidos. Também é importante frisar que a produção final pode, eventualmente, servir enquanto uma avaliação, desde que esta verifique os critérios elaborados e devidamente trabalhados no decorrer do processo. Também é preciso consideramos a possibilidade de uma avalição individual, examinando a contribuição de cada estudante. Segundo Bernard Schneuwly (2004), além disso, é preciso analisar os objetivos mínimos relativos ao domínio dos conhecimentos práticos de linguagem específicos ao gênero trabalhado. 58WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1.3 Preconceito Linguístico e as Diferentes Línguas Ensinar a Língua Portuguesa nos faz necessariamente recorrer aos estudos da área da Sociolinguística e esta, tem muito a contribuir para com o processo do ensino-aprendizagem nos últimos anos. Ela tem como principal objetivo estudar relações entre a heterogeneidade linguística e a heterogeneidade social, pois ambas estão indissoluvelmente relacionadas. Logo, não é possível estudar a sociedade sem considerar as relações que os indivíduos e os grupos estabelecem entre si através da linguagem. Dessa forma, temos realidades linguísticas diferentes, compostas por dois polos. Segundo Bagno (2007, p. 38-39), a variação linguística, definida enquanto “língua em seu estado permanente de transformação, de fluidez, de instabilidade”, logo, “os muitos modos de falar” e “a norma-padrão, produto cultural, modelo artificial de língua criados justamente para tentar ‘neutralizar’ os efeitos da variação, para servir de padrão para os comportamentos linguísticos considerados adequados, corretos e convenientes”. Por estas razões a variação linguística é um fenômeno complexo e fascinante, e, assim sendo, recebe a merecida atenção, pois nunca está pronta, o tempo todo se renova, se recompõe e se reestrutura, mas não perde os elementos que favorecem a interação social e cultural. E pensando para que essa fantástica heterogeneidade não seja reduza ao “certo” e “errado” no espaço escolar é que recebemos as orientações documentadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais e estes, nos propõem, em Língua Portuguesa, que respeitemos as diferentes variedades dialetais existentes em nosso país. Justifica-se, então, que o ensino deve respeitar tanto as diversidades linguísticas quanto o falante. A Língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas variedades dialetais. Identificam- se geográfica e socialmente as pessoas pela forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se considerarem as variedades linguísticas de menor prestígio como inferiores ou erradas. (PCN,1997, p. 31) Pois existe ainda, no Brasil, muitos casos de preconceitos decorrentes de valores sociais que são atribuídos pela forma de falar. Diante disto, é obrigação da escola enfrentar de modo científico esses posicionamentos, criando uma consciência diferente em nossos educandos para que estes compreendam que a diversidade linguística está presente em todas as modalidades. E vemos [...] esse preconceito ser alimentado diariamente em programas de televisão e de rádio, em colunas de jornal e revista, em livros e manuais que pretendem ensinar o que é “certo” e o que é “errado”, sem falar, é claro, nos instrumentos tradicionais de ensino da língua: as gramáticas normativas e boa parte dos livros didáticos disponíveis no mercado. O preconceito linguístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais que se dedicam a estuda-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito linguístico, que dirá a sua gravidade como um sério problema social. E quando não se reconhece sequer a existência de um problema, nada se faz para resolvê-lo (BAGNO, 2009, p. 23-24). 59WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Desse modo, cabe a escola, segundo Stella Maris Bortoni-Ricardo (2004), conhecer e reconhecer a realidade sociolinguística de seus estudantes, para que possa ampliar o repertório linguístico e a competência comunicativa desses estudantes. Portanto, é obrigação do professor entender alguns fatores extralinguísticos básicos que compreendem a variação linguística. Bagno (2009, p. 43-44) assim os apresenta: ORIGEM GEOGRÁFICA: a língua varia de um lugar para o outro, assim, podemos investigar, por exemplo, a fala característica das diferentes regiões brasileiras, dos diferentes estados, de diferentes áreas geográficas dentro de um mesmo estado etc.; outro fator importante também é a origem rural ou urbana da pessoa; STATUS SOCIECONÔMICO: as pessoas que têm um nível de renda muito baixo não falam do mesmo modo que as que têm um nível de renda médio ou muito alto, e vice-versa; GRAU DE ESCOLARIZAÇÃO: o acesso maior ou menor à educação formal e, com ele, à cultura letrada, à prática da leitura e aos usos da escrita, é um fator muito importante na configuração dos usos linguísticos dos diferentes indivíduos; IDADE: os adolescentes não falam do mesmo modo como seus pais, nem estes pais falam do mesmo modo como as pessoas das gerações anteriores. SEXO: homens e mulheres fazem usos diferenciados dos recursos que a língua oferece; MERCADO DE TRABALHO: o vínculo da pessoa com determinadas profissões e ofícios incide na sua atividade linguística: uma advogada não usa os mesmos recursos linguísticos de um encanador, nem este os mesmos de um cortador de cana; REDES SOCIAIS: cada pessoa adota comportamentos semelhantes aos das pessoas com quem convive em sua rede social; entre esses comportamentos está também o comportamento linguístico. Portanto, acreditamos que a partir do conhecimento desses fatores faz-se possível compreender melhor o fenômeno da variação linguística e de seu revelar-se enquanto resultado de nossas atividades sociais. Bagno (2007), em Nada na Língua é por acaso, enfatiza que não existe falante de estilo único, pois todos nós variamos nossa maneira de falar, monitoramos mais ou menos nosso comportamento verbal, independentemente do grau de instrução, classe social, etc. Trata-se,portanto, de comportamentos que fazem parte do convívio social, de normas que são aprendidas por observação e imitação, além, é claro das ensinadas às crianças. O professor e pesquisador Bagno (2007) também reforça a ideia de que é empregado na Sociolinguística os termos estilo ou registro para se referir à variação existente na fala dos indivíduos de acordo com situação em que se encontra. Devemos utilizar os termos mais monitorado, menos monitorado do que “estilo coloquial”, “registro culto”. E em relação à escrita, Bagno (2007) nos alerta sobre o grau de letramento de cada um, isto é, o grau de sua inserção na cultura da leitura e escrita, pois estes, são fatores determinantes para o desempenho no domínio da escrita dos diferentes gêneros textuais e no uso vocabulário mais amplo. 60WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA É importante considerar as diferentes classificações da variação sociolinguística. Entre elas estão a variação diatópica, que se verifica pela diferença dos falares de lugares diferentes; variação diastrática, que ocorre justamente pelos modos de falar das diferentes classes sociais; variação diamésica, que se verifica na comparação entre a oralidade e a escrita; a diafásica aplica-se ao modo de falar, ao grau de monitoramento à oralidade e a variação diacrônica estuda as mudanças que ocorrem com a língua em diferentes momentos históricos. Tendo essas considerações em mente, cabe a nós, educadores, tratarmos a variação linguística em sala de aula enquanto um fato social e cultural, como reveladora do dinamismo da língua, como determina Bagno (2007). Desse modo, desenvolver atividades com textos autênticos da nossa realidade brasileira, mas que, de forma alguma as veja como objeto a ser corrigido. Também devemos mostrar aos estudantes que o “culto” varia e não corresponde ao que está prescrito na gramática normativa. Despertar neles a necessidade de abandonar as posições extremadas e autoritárias a respeito das relações na sociedade, pois a língua tem um importantíssimo papel na constituição das identidades individuais e sociais. Portanto, devemos ter uma prática docente que não pregue o preconceito, mas, sim, que mostre aos educandos que ambas as variações constituem a natureza de nossa língua enquanto um fenômeno que merece respeito e deve ser estudado de modo que uma não substitua a outra. “Preconceito linguístico” foi publicado em 1999 e tornou-se referência obrigatória em se tratando dos estudos e discussões das ciências da linguagem e da educação. Uma obra que combate o preconceito linguístico na escola e nos faz refletir sobre a necessidade de garantirmos aos estudantes “o acesso a múltiplas formas de falar e de escrever, desde as manifestações mais espontâneas e autenticas da cultura popular até o cânone literário e a cultura erudita” O livro Letramentos Múltiplos, escola e inclusão social, direcionado a educadores(as), que possibilita refletir sobre os diferentes conceitos de alfabetização, alfabetismo, alfabetismo funcional. É também um livro teórico que oferece diferentes referências para que possamos desenvolver e elaborar propostas de atividades de letramento para que os estudantes sejam capazes de participar de diferentes práticas sociais que possibilitem os diferentes letramentos. Figura 4 - Capa do livro “Letramentos Múltiplos, escola e inclusão Social”. Fonte: Rojo (2009). Figura 3 - Capa do livro “Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno. Fonte: Bagno (2009). 61WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Longa-metragem, dirigido por Eliane Caffé, que retrata a história do povo de Javé que ao se ver ameaçado é obrigado a documentar os fatos heroicos que marcaram a história da cidade. Logo, a população decide escrever um documento para que possam escapar da destruição e, para isso, precisam encontrar alguém que escreva tais acontecimentos. No entanto, a construção da escrita torna-se comprometida porque diferentes versões eram apresentadas. Dessa forma, o filme justifica-se pela necessidade de refletirmos sobre a relação entre a escrita e a oralidade, bem como a sua relação com a constituição de nossas histórias. Figura 5 - Filme: Narradores de Javé. Fonte: Eliane Caffé (2018). 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Apresentamos nesta unidade alguns conceitos teóricos e reflexões sobre o trabalho com a oralidade no ensino. A necessidade de adotar-se práticas relacionadas à oralidade nas aulas de língua portuguesa é urgente. Pois o ensino de oralidade é também uma obrigação, ainda mais que está na legislação do país. É urgente. Além disso, é nossa obrigação, enquanto professores, prepararmos nossos estudantes através de atividades linguísticas significativas. Desse modo, precisamos pensar e discutir sobre nossas ações, sobre tudo o que precisamos fazer para que possamos desenvolver uma prática eficaz para o ensino da oralidade. Bem como nossas ações falhas, que interferem nesse processo, pois, o(a) educador(a) é quem deve atuar com olhos críticos de analistas da própria prática, redefinindo metodologias de modo consciente e devidamente planejado para que possa, a cada dia, desenvolver uma prática reflexiva. Ademais, confiamos a você, que dê continuidade aos seus estudos, à sua formação, pois este é um processo contínuo e você possui uma importância imensurável nesse processo. E isso é facilmente constatado, pois temos inúmeros exemplos de profissionais que transformaram a vida dos estudantes, despertando neles o gosto pelo aprendizado. Esses profissionais são modelos de que é possível, sim, transformarmos o cenário educacional com práticas bem planejadas e com objetivos definidos, com metas a se cumprir. Portanto, acreditamos em sua função, acreditamos e confiamos em você, pois você é uma pessoa determinada e que busca desenvolver-se. Seu desenvolvimento certamente contribuirá grandemente para o desenvolvimento daqueles que o cercam. 62WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS A INFLUÊNCIA DAS TECNOLOGIAS SOB OS ESTUDANTES. Disponível em: . Acesso em: 01 nov. 2018. ANTUNES. I. Aula de português: encontro & interação. São Paulo: Parábola editorial, 2003. ANTUNES. I. Língua, texto e ensino: outra escola possível/ Irandé Antunes. – São Paulo: Parábola Editorial, 2009. BAGNO. M. Nada na língua é por acaso – Por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2007. BAGNO. M. Preconceito linguístico o que é, como se faz. 51ª ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2009. BAKHTIN. M. Estética da Criação Verbal. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. BAKTHIN. M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Huicitec,1929. BAKTHIN. M. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2015. BAZERMAN. C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005. BENTES. A. 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Como a educação que recebiam era distanciada dos desafios, as professoras não estavam preparadas para aquela realidade, pois a formação não ultrapassava a segunda série primária. O distanciamento entre os cursos de formação e a realidade da escola primária foi assim diagnosticado na pesquisa de Pinheiro (1967: 160): “[...] embora os alunos estudem Psicologia e Sociologia, não adquirem atitude psicológica e sociológica adequadas para enfrentar, no futuro, problemas concretos [...] Ao aluno não é dada a oportunidade de refletir sobre os problemas relacionados com a escola primária e que estão a exigir soluções (GARRIDO, 2002, p. 31). A profissionalização no Ensino Médio só passou a ser obrigatória com a modificação da Lei 5692/71, o que gerou importantes mudanças no currículo, com redução de sua carga horária específica e a 6WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Habilitação Magistério (HEM) assumiu, assim, um caráter difuso no Ensino Médio, perdendo, contraditoriamente, quase totalmente sua dimensão profissionalizante e distanciando-se da realidade das escolas primárias. As práticas decorrentes dessa medida legal caminharam, pois, na contramão do que apontavam as pesquisas realizadas pelo Inep (Cf. PIMENTA, 1994). Nos anos 80, ao passo que as discussões e pesquisas foram avançando em Conferências Brasileiras de Educação (CBEs), percebeu-se a necessidade de haver mais mudanças e avanços na formação dos professores. Passou-se a exigir o ensino superior, bem como as discussões sobre os cursos de pedagogia e as funções dos pedagogos como docentes de formação de professores em nível de segundo grau e sobre a possibilidade de formar professores para o magistério nessas mesmas séries. Logo, esses cursos começaram a ser oferecidos por diferentes universidades em convênios com sistemas públicos. Além dos cursos, também eram realizadas pesquisas como parte do processo. Desta forma, os professores que já atuavam sem a formação em nível superior passaram a recebê-la como formação inicial e contínua. E, posteriormente, mais preocupada com os reais problemas existentes nas escolas. É preciso considerar que essa mudança foi possível por questões políticas e devido a retomada das eleições diretas, pois com a redemocratização política, muitos governos incorporaram em seus programas as contribuições construídas pelas CBEs. Entendia-se que era necessário que os professores tivessem sólida formação teórica para que pudessem ler, problematizar, analisar, interpretar e propor alternativas aos problemas que o ensino, enquanto prática social, apresentava nas escolas. (cf. PIMENTA, 1994; ANDRÉ & FAZENDA, 1991; FUSARI & PIMENTA, 1989). Portanto, as pesquisas em território acadêmico contribuíram de modo significativo para a análise do espaço escolar e para o processo de formação docente, pois evidenciava as práticas na escola, sendo possível, então, estabelecer relação entre a formação inicial e a continuada. Mais tarde, o resultado dessas pesquisas fez parte da construção da LDBEN/96, no entanto, mesmo tendo sido provado a necessidade de uma formação de nível superior para os professores das séries iniciais, ela foi mantida no nível médio por mais dez anos. Após encontros regionais, foi consolidado o Plano Decenal de Educação para Todos (1993 - 2003) que determinava, a partir de investimentos constitucionais do Banco Mundial e de acordos negociados entre os sindicatos e governantes estaduais e municipais, uma definição mínima para o piso salarial. O que já vinha sendo discutido desde os anos 1980, com a participação dos intelectuais das universidades e sindicatos. Assim, foram permitidas algumas conquistas nas condições de trabalho, melhoria nas estruturas das escolas bem como o desenvolvimento profissional dos docentes. No entanto, todos esses acordos foram negligenciados e o que passou a normatizar exaustivamente a formação inicial de professores foi o amplo financiamento de programas de formação continuada em faculdades isoladas e particulares. Apresentamos a seguir o resultado das pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em articulação com as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, divulgado em janeiro de 2018, que apresenta dados do Censo Escolar da Educação Básica referente ao ano de 2017. É a partir desses dados que o Ministério da Educação formula, monitora e avalia as políticas públicas para que possam definir programas juntamente às escolas, estados e municípios. 7WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 - Censo Escolar 2017 Notas Estatísticas Brasília-DF | Janeiro 2018. Fonte: Inep (2018). O gráfico nos revela a “Evolução da distribuição dos docentes que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental por nível de escolaridade - Brasil 2013-2017” (inep.gov.br, p. 18) e, também, sobre a necessidade de avançarmos muito mais em se tratando de formação dos professores. 1.1.1 Construção curricular da disciplina de língua portuguesa As considerações que faremos acerca do processo da constituição curricular da disciplina de língua portuguesa terão como base a historiografia da educação, meditando sobre os princípios que compõem a constituição, os conteúdos, as ações escolares e as formas que se constituem. Para tanto, é preciso considerar que o tempo e contexto escolar são complexos e que a disciplina também se desenvolve. Segundo Magda Soares (2002), a disciplina de Língua Portuguesa teve uma inclusão tardia no currículo escolar brasileiro, apenas nas últimas décadas do século XIX. No período colonial conviviam o português (língua falada) provinda do tupi e o latim. Então, o português era ensinado nas escolas enquanto um instrumento de alfabetização e não como como base curricular. Os estudos eram embasados no estudo da gramática latina e da retórica (fundamentado em autores latinos e em Aristóteles). Com as reformas pombalinas na segunda metade do século XVIII, que tinham como objetivo garantir o poder sobre as colônias, a língua portuguesa tornou-se obrigatória e constituiu- se enquanto disciplina. Proibiu-se desde então o uso de outras línguas. No entanto, o objetivo da disciplina era de “saber ler e escrever em português, bem como conhecer sua gramática” (PIETRI, 2010, p. 73). A gramática e retórica prevaleceram, segundo Soares (2002), do século XVI ao século XIX na área de estudos da língua. Porém, com a valorização do ensino da gramática do português, o latim foi perdendo aos poucos sua autonomia. Bem como, a retórica, que tinha como o objetivo de falar bem, foi substituída pelo escrever bem. 8WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Nos anos 1950, com as possibilidades de acesso à escola e com as transformações sociais e culturais, os conteúdos de língua portuguesa sofreram transformações concretas. Além disso, com o acréscimo e as modificações das características dos alunos exigia-se um aumento no número de professores, o que ocasionou uma contratação menos seletiva, tão logo surgiu a diminuição na qualidade do ensino. Se tratando do ensino, gramática e texto, estudo sobre a língua e estudo da língua constituíram os conteúdos da disciplina, afirma Soares (2002). E ao ser consolidada na década de 60, os exercícios de vocabulário, interpretação, redação e gramática eram produzidos e preparados pelos autores de livros didáticos, não sendo mais a tarefa do professor pensar nem planejar a própria aula. Considerando as alterações e propostas na lei federal nº 5.692/1971 e com as mudanças curriculares, passou a ser obrigatório o ensino e a escolarização de oito anos. Então, o ensino passou a ter um caráter pragmático e utilitarista, com objetivoestrangeira. 3ª Ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2010. 63WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS DIONISIO. A. P.; MACHADO. A. R.; BEZERRA. M. A. Gêneros textuais e ensino. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, p. 19-36, 2003. DOLZ. J.; SCHNEUWLY. B.; HALLER. S. O oral como texto: como construir um objeto de ensino. In: SCHNEUWLY. B.; DOLZ. J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado de Letras, 3ª ed. 2004. DUARTE. N. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões? quatro ensaios crítico- dialéticos em filosofia da educação/Newton Duarte. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. FIORIN. J. L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2016. FREIRE. P. A Importância do ato de ler. 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Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed: 1998. TRAVAGLIA. L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. 11ª ed. São Paulo: Cortez, 2006.do desenvolvimento do uso da língua, logo, fundamentado em elementos da teoria da comunicação, e o aluno como emissor-receptor de códigos verbais e não verbais. A lei garantia ao professor a liberdade para o planejamento de suas aulas e função das características de acordo com os diferentes contextos socioculturais em que se encontrassem a escola e os alunos. No período de 1990, consolidou-se a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN) nº 9.394/1996, complementada pela lei nº 11.274/2006, que regulamenta o Ensino Fundamental de nove anos. Nela, o ensino de língua portuguesa procura associar a teoria e a prática, em que o sujeito é agente transformador e construtor da própria história, valorizando as experiências e as diferentes concepções de mundo. De acordo com essa concepção, a língua materna preconizava o processo de ensino/ aprendizagem a partir do estudo com os textos, ou seja, a partir dos gêneros. Seria, portanto, segundo Antunes, o objeto central para o programa de estudo de língua portuguesa, implicando nas atividades da oralidade, escrita, leitura e análise linguística. A metodologia era pensada de forma que integrasse a construção do conhecimento enquanto um processo contínuo, trabalhando de acordo com cada realidade, associando o conhecimento dos alunos às suas necessidades. O professor tinha como papel possibilitar aos alunos condições para que pudessem significar a aprendizagem, aproximando a modalidade padrão-culta com a que eles já dominavam. Dessa forma, priva o trabalho de interação pela linguagem e a escola deve ser o local apropriado para desenvolver o processo de interação entre diferentes interlocutores, entre teoria e prática – prática e teoria. Percebemos, até o momento, que o ensino de língua portuguesa é orientado de acordo com o momento histórico-político e pelas Leis de Diretrizes e Bases da Educação e, desse modo, o professor apropria-se de uma abordagem metodológica em sala de aula. 9WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 2 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Fonte: L9394 – Planalto (1996). 1.1.2 Concepções de ensino, linguagem, gramática e de língua portuguesa no ensino fundamental Segundo Holiday, Macintosh Stevens (1974), o ato de ensinar uma língua pode ser caracterizado em três tipos: o prescritivo, descritivo e o produtivo. O ensino de língua materna teve, nos anos 1970, como preocupação a difusão da instrução dos conhecimentos acumulados pela humanidade, o professor era tido como o transmissor do conhecimento ao aluno. O ensino prescritivo fora criticado, justamente, pelo fato de que ensinar não estabelecia nenhuma relação com o aluno e este não entendia os motivos de aprender, muito menos de como utilizaria os conteúdos dados. Essa concepção de ensino considerava os padrões e conhecimentos linguísticos dos alunos como inaceitáveis e trabalhava, em sala de aula, a variedade escrita denominada culta. Para essa perspectiva, aprender a língua portuguesa era aprender a gramática normativa, da mesma forma, a concepção de linguagem que se manifesta, então, é a linguagem como expressão de pensamento, como explica Luiz Carlos Travaglia, (2006). O ensino prescritivo tinha como objetivo, segundo Travaglia (2006, p. 38), “levar o aluno a dominar a norma culta ou língua padrão e ensinar a variedade escrita da língua”. Segundo essa concepção, a linguagem é um “ato individual”, pois as pessoas não possuem capacidade de expressar-se bem porque não pensam. Para eles, é na mente que se constrói o pensar e, deste modo, nem as circunstâncias interferem o ato enunciativo. Nesse sentido, a linguagem tinha uma concepção de expressão de pensamento. O sujeito organiza o pensamento e exterioriza por meio de uma linguagem articulada e organizada, assim sendo, só fala e escreve bem aquele que conhece as normas gramaticais. 10WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Com o ensino da Gramática Normativa, em estudos tradicionais, o falante não considera seu interlocutor, nem as diferentes situações que estão inseridos durante o momento da fala e, também, se ignora o como falar. Durante esse ensino de língua portuguesa são “dados” exemplos e regras como sendo corretas. Não há presença de produção escrita e quando há, não existe um contexto de produção que oriente o educando em como dizer o que tem a dizer. Além da ausência de atividades de compreensão de texto, o que acontece são exercícios de repetição, identificação e classificação de categorias, além de exercícios de relações e funções dos elementos linguísticos. Figura 3 - Exemplo de Atividade usada segundo a Gramática Normativa. Fonte: Paula (2008). Em síntese, o aluno era tido como um ser passivo, não se via como um sujeito histórico. O processo de leitura era de identificar apenas o sentido da palavra através da pronúncia para se chegar a uma compreensão do sentido do texto. Era uma leitura mecanicista que se aprendia através da fonologia, ou seja, da decodificação. O processo de avaliação era apenas composto por provas formais e individuais. Essa concepção de ensino era reforçada pela lei 4024/61. No entanto, com o desenvolvimento dos estudos e avanços, surge a segunda concepção. Esta compreende a linguagem como instrumento de comunicação, como meio objetivo para a comunicação. Nessa teoria, segundo Travaglia (2006), a língua é vista como um código, um conjunto de regras e de signos que se combinam e transmite uma mensagem, dependendo de um emissor e de um receptor. A língua é tida como um ato social e deve ser utilizada de forma convencional para que a comunicação ocorra. Essa concepção parte de um estudo Saussureano em que a língua é compreendida enquanto um código virtual, pois não considera os interlocutores, afasta-se do processo histórico e social em que os sujeitos envolvidos estão inseridos. Portanto, essa concepção entende a língua a partir de uma perspectiva formalista da língua e a estuda apenas em seu funcionamento interno. Nesse sentido, o falante transmite uma mensagem em códigos através de um canal, que são as ondas sonoras, e o outro a recebe e transforma em mensagens. Dessa forma concebe-se a língua enquanto instrumento de comunicação em um processo de decodificação, ou seja, um sistema estrutural. 11WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Nesse sentido, a concepção de gramática é chamada de gramática descritiva, porque, segundo Travaglia (2006, p. 27), ela faz “uma descrição da estrutura e funcionamento da língua, de sua forma e função”. A gramática seria então, “um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada teoria e método”. Segundo essa concepção de gramática, saber gramática é compreender e associar as regras de funcionamento da língua em suas variedades, categorias, funções e relações entre os elementos que constroem a língua, estabelecendo suas funções e funcionamento. O professor também é tido como o detentor do saber, aquele que facilita a aprendizagem, como se fosse um técnico, e o aluno é o que produz, assujeitado e passivo. Em se tratando do trabalho com o texto, é o leitor que realiza e constrói estratégias para que pudesse, pelo texto, construir sentidos para o que fora lido. De forma linear, as produções acontecem de modo não contextualizado, apenas com base em modelos de acordo com o gênero discursivo. A aprendizagem se efetiva através de exercícios de repetição, de ligar e de preenchimento de lacunas, por exemplo. Portanto, o objetivo do ensino da língua materna era para reconhecer a estruturas da língua. O processo avaliativo já apresentava algumas evoluções, como, por exemplo, o uso de auto avaliação, e buscava, de certa forma, considerar o conhecimento doaluno. A terceira concepção de linguagem a considera enquanto processo de interação humana e não a limita à exterioridade do pensar nem mesmo enquanto transmissão de pensamentos. Amparada no que preconiza o Círculo de Mikhail Bakhtin apud Volochínov (2011), essa concepção compreende a linguagem enquanto processo de interação humana, que produz sentidos entre seus interlocutores. Estes são tidos enquanto interlocutores inseridos em uma determinada posição sócio-histórica. Nesse sentido, a linguagem é priorizada como um local das relações sociais, em que os falantes atuam como sujeitos e o diálogo é o um dos elementos construtores da linguagem. Ambos alteram seus enunciados em diferentes posicionamentos, inseridos em um processo complexo e amplamente ativo. Em se tratando das atividades desenvolvidas em sala de aula, o professor deve, em suas práticas pedagógicas, privilegiar o diálogo entre o autor e leitor do texto, de modo que os alunos produzam sentidos para o que estão lendo, considerando o contexto sócio-histórico. Desse modo, o ensino de língua objetiva, segundo Travaglia (2006), desenvolver habilidades linguísticas para que possa ampliar seus recursos em diferentes situações, assim se caracteriza o ensino de gramática descritiva. Logo, não exclui as diferentes variedades, pelo contrário, busca desenvolver atividades de acordo com a realidade linguística que expliquem o funcionamento e reflexão da língua. O aluno é considerado um sujeito ativo, sócio historicamente e ideologicamente constituído e organizado. Portanto, o processo de ensino e aprendizagem é formador e transformador da sociedade, através de práticas de leitura, produção oral, escrita e de atividades de análise linguística. De acordo com essa concepção o processo avaliativo é constituído a partir de avalição diagnóstica, tendo como objetivo intervir no processo ensino-aprendizagem, pode ser subjetiva (análise de dados) e contínua. 12WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1.1.3 Professor reflexivo Figura 4 - Atividade reflexiva do educador(a) - momento de refletir a prática docente. Fonte: Paula (2012). Associado a concepções de ensino e a formação docente está a apropriação de conceito “professor reflexivo”, que foi adotado no Brasil nos anos de 1990. Termo estudado pelo professor Donald Schõn, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA, até 1998, em que ele, a partir dos estudos na área de filosofia, pesquisava a formação dos profissionais. Na pesquisa, notou-se que estes não conseguiam responder aos problemas que surgiam durante o cotidiano profissional, pois tais problemas iam além do que fora estudado e as respostas que davam ainda não tinham sido formuladas. Desse modo, assim como Dewey valorizava a experiência e a reflexão na experiência, Luria e Polanyu também o faziam. Schõn apud Garrido (2002), propôs uma formação profissional baseada num repertório de experiências, de análises de situações do cotidiano que possibilitassem responder aos diferentes questionamentos. Desse modo, os currículos de formação docente deveriam desenvolver a capacidade de refletir, tomando como base a prática de outros profissionais e, também, a crítica ao modelo de formação que tenha essa prática apenas no final dos estágios. Temos, então, a formulação de Schõn apud Garrido (2002) para a formação docente e para uma prática reflexiva. Portanto, o educador possuirá conhecimento adquirido na prática e o utilizará para solucionar diferentes situações. Garrido (2002) explica que foi nesse momento que se estabeleceu, então, o conceito de competência, que é diferente de ter conhecimento e informação sobre o trabalho. Competência passa a significar uma ação imediata. 13WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Para o professor Libâneo, em “Professor reflexivo no Brasil” (2002), o termo reflexivo não pode ser reduzido a uma nova teoria do ensino ou da aprendizagem baseada na reflexão ou como uma solução para a formação de professores. Seja porque a noção de reflexividade, de alguma forma, é nova, porque os aportes teóricos são insuficientes para constituir-se numa teoria de ensino, e isso necessita de um conteúdo que abranja toda a complexidade das relações entre ensino e aprendizagem. A reflexividade é um dos elementos de formação profissional e pode ser compreendida como um processo articulado de ação-reflexão-ação, que carrega consigo a teoria na prática. Busca-se, pois, práticas de formação que considerem a cultura científica crítica como suporte teórico, conteúdos que assegurem o saber-fazer; uma estrutura de organização e gestão de escola que propicie espaços de aprendizagem e de desenvolvimento profissional. Que tenha uma base de convicções ético-políticas, que permita a inserção do trabalho docente num conjunto de condicionamentos políticos e socioculturais. De acordo com Libâneo (2002), a teoria sócio- histórica da atividade com a contribuição dos recentes estudos sobre teorias da ação e da cultura permitem juntar esses componentes que foram formulados por Vigotsky e desenvolvidos por Leontiev e Luria. Vigotsky apud Leontiev (2004) defende que a transformação do conhecimento em um pensamento consciente depende do meio social em que se organizou, através de atividades e das produções verbais e do social que fez com se desenvolvesse, também, o biológico e, por consequência, o pensamento consciente, como produto da ação e da linguagem. Portanto, a educação é um processo de apropriação de signos culturais que ajudam os indivíduos a organizarem o comportamento e ações através do processo de internalização de conhecimentos. A escola deve ser esse território que propicie a autonomia, ou seja, a condição de luta pela emancipação intelectual e social. Tanto em relação ao professor crítico reflexivo, ao prático reflexivo ou ao intelectual crítico. Libâneo (2002) não acredita que chegaremos a algum lugar sem desenvolvermos as capacidades e competências do pensar, do raciocínio e da análise e que, se queremos um aluno crítico reflexivo, devemos ser um professor crítico reflexivo. Para Libâneo (2002), em Professor reflexivo no Brasil, o trabalho docente é um trabalho prático, repleto de sentidos, de ações orientadas, preparadas, com fins específicos, que envolvem reflexão, além de ser uma atividade instrumental que deve se adequar às diferentes situações. Portanto, para que haja aprendizagem devem ser articuladas práticas em que o estudante se aproprie dos instrumentos e de discursos desenvolvidos historicamente e, a partir disso, desenvolva suas capacidades e o seu psicológico. No entanto, o professor Libâneo (2002) nos alerta que é preciso: estratégias, procedimentos que ajudem a realizar de modo eficaz o trabalho e melhorar a capacidade reflexiva sobre o que e como mudar. Além disso, é necessário ter em mente que o trabalho do educador está inserido em um contexto político e sociocultural. Portanto, o desenvolvimento de capacidades e competências implicam em um trabalho complexo, articulado à gestão e organização, com ações de formação continuada, projeto pedagógico curricular, avaliação, associando, na formação continuada, práticas formativas e situações reais e trabalhos que constituem a cultura organizacional. Ou seja, além da reflexividade cognitiva, é preciso a reflexividade comunitária, compartilhada em uma convivência construída de significados e entendimentos compartilhados a partir das diferenças e da busca de valores universais. 14WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Sacristãn (2002), em Professor reflexivo no Brasil: Gênese e crítica de um conceito, aborda algumas questões de suma importância sobre a formação docente, nos alertando que ela deve servir paraque o professor pense sobre a ciência que recebe para que esta sirva, mais tarde, para ser ensinada com profundidade. Nesse sentido, Sacristãn considera o que Bourdier discute sobre o habitus e a forma de integração entre o mundo das instituições e o mundo das pessoas, somos formados pela cultura, costumes e, de acordo com esta, produzimos diferentes práticas. Freire (1996), Pedagogia da Autonomia defende a reflexão crítica sobre a prática do professor como uma exigência fundamental na formação docente e defende que o saber que não é apenas um produtor do saber. “Se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p. 22, grifos no original). Para Freire (1996), só é possível à docência quando há a discência, porque uma depende da outra, um sujeito depende do outro. O docente aprende para e ao ensinar e quem aprende “ensina ao aprender”. Paulo Freire concebe esse processo como histórico, porque aprendemos socialmente através das diferentes experiências, e que o educador precisa usar de diferentes métodos para o ato de ensinar e ressalta ainda que Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade (FREIRE, 1996, p. 24). Dessa forma, o educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire nos convida a reflexão sobre a prática docente e estabelece uma relação de comparação entre o educador democrático do educador do ensino “bancário”. O educador democrático é aquele problematizador, que aguça a curiosidade dos educandos, que reforça a “capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão” (FREIRE, 1996, p. 26). Diferentemente do que a educação “bancária”, autoritária e condicionante preconizava. Além desses saberes sobre a formação docente e a reflexão sobre a prática educativo- progressiva, Paulo Freire constrói sua teoria de que não há ensino sem pesquisa, pois a pesquisa é uma exigência na busca de respostas daquilo que não se conhece; alerta sobre o ensino e o respeito aos saberes dos educandos, sobre a necessidade de rejeitar qualquer forma de discriminação. Segundo Freire (1996), é fundamental que na prática da formação docente já se desenvolva a reflexão sobre a prática, para melhorar a próxima. A reflexão deve ser capaz de transformar tanto a prática quanto o próprio docente, promovendo-o do “estado de curiosidade ingênua para o de curiosidade epistemológica” (FREIRE, 1996, p.45). No entanto, isso só se efetiva quando essa mudança é tida como algo possível pelo próprio sujeito, e que este seja capaz de reconhecer o valor das emoções e da sensibilidade no cotidiano escolar. O que prevalece [...] na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança ser superada pela segurança, do medo que, ao ser “educado”, vai gerando a coragem (FREIRE,1996, p. 26). 15WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Leia Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, documento elaborado pelo Ministério da Educação e do Desporto (1997). O documento tem como objetivo estabelecer metas de qualidade que ajudem o aluno a enfrentar o mundo atual como cidadão participativo, reflexivo e autônomo. Além disso, tem como objetivo orientar os professores sobre as possíveis ações e recursos que podem ser usados durante a prática docente para alcançar os objetivos propostos pelo documento. Figura 5 - Parâmetros Curriculares Nacionais. Fonte: Portal do MEC (1997). Além da sala de aula Um filme envolvente que aborda questões importantíssimas e desafiadoras relacionadas ao papel do professor. A protagonista dessa narrativa nos revela a importância do entusiasmo do profissional da educação na superação de alguns dos desafios enfrentados no cotidiano escolar. Também nos faz pensar sobre as diferentes condições sócio- históricas de nossos estudantes e o contexto em que estão inseridos. Com o filme podemos refletir sobre a importância de um trabalho diferenciado e planejado para que haja aprendizagem. Além disso, podemos perceber que o fator que a move é exatamente a concepção de ensino que ela tem e como ela emprega a linguagem em sua prática escolar. Após assistir essa belíssima história você compreenderá a necessidade de uma prática reflexiva e social, que as ações coletivas transformam a escola em um lugar de real aprendizagem e que a interação entre professor(a) comunidade e os enfrentamentos políticos e sociais são necessários para criar condições de aprendizado que transformam o espaço e a sociedade. Figura 7 - Capa do filme Além da sala de aula. Fonte: Bleckner (2011). 16WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 6 - A influência das tecnologias sob nossos estudantes. Fonte: Tiras Armandinho (2017). Como os professores do Ensino Fundamental podem lidar com o excesso de informação que tanto influenciam as culturas juvenis (hábitos, comportamentos e sexualidade) já presentes no espaço escolar? Para respondermos este delicado questionamento, podemos partir das considerações do professor e pesquisador José Carlos Libâneo, que defende que nesse mundo de mudanças a educação deve ser científica e tecnológica. E nele o educador deve buscar o equilíbrio entre essas informações e seus usos, tendo como objetivo ampliar a capacidade de reflexividade dos educandos. Desta forma, o professor deve ter o conhecimento científico da disciplina, saber como o aluno aprende e como opera mentalmente tais conteúdos. Além disso, faz-se necessário conhecer algumas características do estudante, entre elas, as razões para que ele queira aprender, a formação enquanto sujeito, a consciência política e social dos estudantes, do espaço em que estão inseridos, a formação do contexto social e institucional a que o aluno faz parte. Desta forma o educador terá um ponto inicial para desenvolver a sua prática a fim de que esta seja interessante e significativa a seus estudantes. É preciso considerar que as mudanças em relação ao ensino são efeitos de processos históricos em decorrências de pesquisas e que cada uma contribuiu para o desenvolvimento da educação, do processo de ensino-aprendizagem por pessoas que acreditavam, e que ainda acreditam, na possibilidade de transformarmos a educação. Logo, essas experiências nos servem hoje para transformarmos também nossa prática, para termos consciências de nossas ações e como elas interferem nesse processo de ensino da língua materna. 17WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Após este breve estudo, é preciso considerar o ensino de língua materna de modo que possamos estabelecer relações entre os objetivos, as concepções de linguagem, os tipos de gramática, os tipos de língua e as atividades de ensino. Para que possamos desenvolver a consciência sobre para que cada atividade serve e pode desenvolver em se tratando de competência linguística. Faz-se necessário compreender o conhecimento, a capacidade e competência próprios de cada sujeito, como componentes que se somam e que convergem para a construção do saber e da evolução de cada um. Isso se dá pelo processo de interação entre professor e alunos. Logo, cabe ao professor a responsabilidade de reconhecer as diferentes situações e definir seus objetivos para o que irá ensinar. Buscando, em uma teoria consistente, suporte para uma prática orientada e planejada para que possa optar por metodologias capazes de contribuir para a formaçãohumana de alunos leitores e escritores proficientes. Também pudemos refletir sobre as relações entre o momento histórico-político e as orientações regidas pelas Leis de Diretrizes e Bases da Educação, como as concepções de linguagem orientam as ações do docente. 1818WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................ 19 1 - PENSANDO SOBRE O ATO DE LER ................................................................................................................... 20 1.1 NOÇÃO DE LEITURA ........................................................................................................................................... 20 1.1.2 PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E O ENSINO-APRENDIZAGEM DE LEITURA NO ENSINO FUNDAMENTAL ........................................................................................................................................................ 22 1.1.3 CONCEPÇÕES DE LEITURA E A PRÁTICA DOCENTE ................................................................................... 24 1.1.3.1. EXEMPLO DE ATIVIDADE ............................................................................................................................. 26 2 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................................. 32 ENSINO-APRENDIZAGEM DE LEITURA NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA PROF.A MÁRCIA CRISTINA DE AQUINO DE PAULA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: METODOLOGIA E PRÁTICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA 19WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Esta unidade tem como objetivo principal colaborar com sua formação, abordando conceitos teóricos, claro que sem a pretensão da exaustão. Para construir juntamente com você, professor, reflexões e possibilidades de práticas docente para o ensino-aprendizagem de leitura nos anos iniciais. O ato de ler durante as aulas é, desde os primeiros anos escolares, uma responsabilidade incomensurável do professor. Mas a partir de uma prática consciente, elaborada com objetivos bem definidos, traz uma enorme satisfação ao educador. Uma vez que ele, digo, você, educador, será o grande responsável pelo desenvolvimento da vida escolar/acadêmica de seu educando, além, é claro, de outros contextos de sua caminhada. Também precisamos considerar que a prática docente em torno do processo de leitura está relacionada a formação de professores, pois os conceitos são distintos e as práticas são certamente norteadas pelos conceitos a que acreditamos serem os mais apropriados para que o estudante possa ter sucesso enquanto leitor. 20WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - PENSANDO SOBRE O ATO DE LER O ato de ler não é apenas decodificar letras, decifrar palavras. E é obvio que não se restringe a isso, o processo de leitura vai muito mais além de um ato mecânico. Para Paulo Freire (1982), primeiro lemos o mundo, depois lemos a palavra. Lemos o abraço que nos envolve, os diferentes cheiros, tudo o que nos irrita e o que nos agrada. Assim damos sentidos a tudo o que nos envolve desde quando somos bebês. Esses já são pressupostos para a construção de nossa leitura. No entanto, precisamos considerar, é claro, que o processo de aprendizagem da leitura depende de certas condições, de instruções de outras pessoas e de outras áreas de conhecimento para que possamos ler o texto escrito. Logo, aprendemos a ler lendo e associado a esse processo está todo o contexto que nos cerca. Figura 1 - Laura de Paula descobrindo a leitura. Fonte: Paula (2011). 1.1 Noção de Leitura Caro estudante, antes de falarmos sobre a prática em sala de aula especificamente em se tratando da leitura, é preciso lembrá-los, também, que ela, bem como outras modalidades, percorreu todo um processo histórico até a atualidade. Isso deve ser considerado para que a possamos entender enquanto uma modalidade que também evolui e, por isso, terá diferentes objetivos, concepções e práticas pedagógicas na contemporaneidade. 21WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Saber ler, entre os gregos e romanos, segundo Maria Helena Martins, “significava possuir as bases de uma educação adequada para a vida” (1994, p. 22). Associada a esta educação estavam as capacidades intelectuais e espirituais, além de envolver aptidões físicas, o que garantia a integração efetiva à sociedade, ou seja, à classe dos senhores. O aprendizado baseava-se no método analítico, decorando primeiramente o alfabeto, soletrando sílabas, decodificando-se palavras isoladas, frases e por último os textos. O aprendizado da leitura não possibilitava compreender a sua função na vida do aluno ou para a sociedade. A leitura era realizada apenas com fins pragmáticos, mas sem a consciência de que era uma forma de inteirar-se do universo e de conquistar a autonomia, de ser capaz de ler o mundo pelos próprios olhos e, assim, oferecer a formação integral do indivíduo. No entanto, é preciso considerar que, para muitos, a escola é o principal espaço em que se ensina a ler e a escrever e que muitos têm contato com livros apenas na escola. E compreenderemos, então, a precariedade de condições socioeconômicas que tornam complexo o processo de ensino- aprendizagem da leitura e consequentemente da escrita. Portanto, é preciso evidenciar o papel do professor enquanto um mediador de leituras. Que esse processo depende do educador e ele deve criar condições para que o educando realize a aprendizagem conforme interesses, necessidades e exigências que a própria realidade lhe apresenta. Ou seja, o professor deve dar sentido a aquisição de leitura, mas não apenas da leitura da palavra, e sim de imagens, coisas, ideias, paisagens, sons e diferentes situações reais e imaginárias, como defende Maria Helena Martins (1994). Assim, o educando passará a entender a leitura como um instrumento libertador. Ainda sobre o papel do educador, este não deve, jamais, estar vinculado a uma formação escolástica que orientou os Jesuítas, pois devemos ampliar a noção de leitura, ir além do texto escrito, e permitir que o processo de leitura ocorra também em momentos de lazer. É preciso compreender a leitura como um processo “de compreensão de expressões formais e simbólicas, não importando por meio de qual linguagem” (MARTINS, 1994, p. 30). O que caracteriza a leitura enquanto um processo histórico entre o leitor e texto lido. Dessa forma, compreendemos a leitura em um sentido mais amplo, que envolve componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, fisiológicos, neurológicos, culturais, econômicos e políticos, em uma concepção cognitivo-sociológica. Portanto, trata-se de uma relação individual para o social. Desse modo, não é possível restringir a leitura apenas em uma relação entre leitor e texto. Maria Helena Martins, em “O que é Leitura” (1994), propõe que a leitura se configura em nível sensorial, emocional e racional. E por estarem inter-relacionados, acontecem de forma simultânea, segundo os interesses, expectativas, necessidades e interesses do leitor, além, é claro, das condições em que o estudante/leitor está inserido. Quando a criança inicia suas relações com o mundo através da visão, do tato, da audição, do olfato e do paladar, ela começa suas descobertas do universo da leitura sensorial. Assim, descobre o mundo em que vive e a acompanhará por toda a vida. Ainda em aspecto lúdico, com jogos, imagens e cores, ela seleciona o que lhe é agradável ou não. Essa leitura antecede a leitura do livro, pois já é capaz de expressar curiosidade, para quandoreceber um livro. Suas cores também o atrairão, verá em suas páginas figuras, formas, texturas, volume, cheiro e ouvirá o som de suas páginas. Portanto, está vivenciando a leitura através da observação, dos sentidos e, assim, desenvolve sua capacidade de comunicação com o mundo. Dessa forma, o contato com os primeiros livros será diferente de outros brinquedos, como algo especial. E, nesse momento, inicia-se o processo de alfabetização, de leitura, para saciar a curiosidade pelo desconhecido e estimular a fantasia. Então, segundo Martins (1994), deixamos de ler com os sentidos e avançamos ao nível de leitura emocional. 22WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A leitura pode ficar gravada em nossa mente e tornar-se referência em nossas vidas e, assim, explica a leitura emocional: Na leitura emocional emerge a empatia, tendência de sentir o que se sentiria caso estivéssemos na situação e circunstâncias experimentadas por outro, isto é, na pele de outra pessoa, ou mesmo de um animal, de um objeto, de uma personagem de ficção. Caracteriza-se, pois, um processo de participação afetiva numa realidade alheia, fora de nós. Implica necessariamente disponibilidade, ou seja, predisposição para aceitar o que vem do mundo exterior, mesmo se depois venhamos a rechaçá-lo (MARTINS, 1994, p. 52). No entanto, é preciso ressaltar que a autora nos chama a atenção para a espontaneidade da criança para tudo o que lhe é novo e desconhecido. Desse modo, a criança busca conhecer ainda mais para aprender a conviver com o mundo e nisso nos diferenciamos, pois, com o tempo, vamos perdendo nossa receptividade e nossas manifestações de empatia. “Agimos assim porque temos motivos ditos intelectuais para isso. Estamos, nesse caso, penetrando – ainda que pela porta dos fundos – em outro nível de leitura – o racional” (MARTINS, 1994, p. 62). A leitura a esse nível intelectual enfatiza, pois, o intelectualismo, doutrina que afirma a preeminência e anterioridade dos fenômenos intelectuais sobre os sentimentos e a vontade. Tende a ser unívoca; o leitor se debruça sobre o texto, pretende vê-lo isolado do contexto e sem envolvimento pessoal, orientando- se por certas normas preestabelecidas. Isto é: ele endossa um modo de ler preexistente, condicionado por uma ideologia. Tal postura dirige a leitura de modo a se perceber no objeto lido apenas o que interessa ao sistema de ideias ao qual o leitor se liga (MARTINS, 1994. p. 64). Assim, buscamos o texto apenas como um pretexto para avaliá-lo e provar nossas concepções em relação ao outro. Adotamos um comportamento estereotipado, além de limitarmos a leitura ao texto escrito, o que pressupõe a educação formal, o grau de leitura/cultura e erudição do leitor. No entanto, é preciso considerar que a leitura se constitui da capacidade de produzir e compreender diferentes linguagens. E está ligada as condições de leitura ao dar sentido a expressões formais e simbólicas, e que estão relacionadas com a aptidão para ler a realidade individual e social em que está inserida. Vale, portando, ressaltarmos que os níveis de leitura estão inter-relacionados, que uma precede a outra enquanto um processo de amadurecimento. Pois é próprio da condição humana inter-relacionar suas sensações, emoções e razões para expressar-se e para encontrar sentido em si e no mundo. 1.1.2 Parâmetros curriculares nacionais e o ensino-aprendizagem de leitura no ensino fundamental Durante décadas o texto foi utilizado nas escolas apenas com o objeto de leitura, de produção/reprodução (como objeto de estimulo para se escrever) e não como objeto de ensino, também como suporte para o desenvolvimento de estratégias (técnico) e não de conceitos. Por consequência, a estrutura do gênero escolar (a narração, descrição e a dissertação) começa a ser enfocada por meio da linguística textual e os tipos de textos: super, macro e microestrutura são ensinados de forma global. No entanto, essas práticas com textos não consideravam as circunstâncias de produção. Privilegiava-se as formas e o conteúdo, sem se preocupar com o contexto e com as finalidades do texto. 23WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA No ano 1998, as escolas brasileiras têm acesso aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que se configuram como um guia na elaboração dos projetos pedagógicos das escolas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa defendem que os gêneros textuais sirvam de objeto de ensino para a prática de leitura e produção; sugerem o texto oral e escrito como a concretização de um gênero, propõem ser os gêneros fortes aliados no processo de ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Mas foi a partir dos anos 1980, com o texto de Geraldi, O texto na sala de aula, que o ensino de textos, bem como aspectos de leitura e compreensão e em produção textual, passou a ser enfocado em torno do seu funcionamento evidenciando suas significações. Isso ficou bem marcado nas propostas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, ou seja, destacam o desenvolvimento de habilidades linguísticas básicas, como falar, escutar, ler e escrever. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, todo texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, as quais geram usos sociais que os determinam. Os gêneros são, portanto, determinados historicamente, constituindo formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura. São caracterizados por três elementos: conteúdo temático – o que é ou pode tornar-se dizível por meio do gênero; Construção composicional – estrutura particular dos textos pertencentes ao gênero; Estilo – configurações específicas das unidades de linguagem derivadas, sobretudo, da posição enunciativa do locutor; conjuntos particulares de sequências que compõem o texto etc. Os Parâmetros Curriculares Nacionais preconizam a ideia de que os estudantes devem receber condições para que possam desenvolver sua competência discursiva. Ou seja, que eles tenham capacidade de utilizar a língua de modo variado, para produzir diferentes efeitos de sentido e adequar o texto a diferentes situações de interlocução oral e escrita. Os Parâmetros Curriculares Nacionais defendem, ainda, a importância do contexto situacional no momento da interlocução para a construção de significados durante o processo ensino-aprendizagem de leitura. Preconizando, portanto, que durante o ato da leitura aconteça a articulação entre conhecimentos prévios e informações textuais inclusive as que dependem de pressuposições e inferências (semânticas, pragmáticas) autorizadas pelo texto, para dar conta das ambiguidades, ironias e expressões figuradas, opiniões e valores implícitos, bem como das intenções do autor (PCNs,1998, p. 56). 24WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Os PCNs determinam algumas condições que devem ser consideradas para a prática de leitura em sala de aula, entre elas estão: dispor de uma boa biblioteca na escola [...] dispor, nos ciclos iniciais, de um acervo de classe com livros e outros materiais de leitura [...] organizar momentos de leitura livre em que o professor também leia. Para os alunos não acostumados com a participação em atos de leitura, que não conhecem o valor que possui, é fundamental ver seu professor envolvido com a leitura e com o que conquista por meio dela. Ver alguém seduzido pelo que faz pode despertar o desejo de fazer também; [...] planejar as atividades diárias garantindo que as de leitura tenham a mesma importância que as demais; [...] possibilitar aos alunos a escolha de suas leituras. Fora da escola, o autor, a obra ou o gênero são decisões do leitor. Tanto quanto forpossível, é necessário que isso se preserve na escola; [...] garantir que os alunos não sejam importunados durante os momentos de leitura com perguntas sobre o que estão achando, se estão entendendo e outras questões; [...] possibilitar aos alunos o empréstimo de livros na escola. Bons textos podem ter o poder de provocar momentos de leitura junto com outras pessoas da casa – principalmente quando se trata de histórias tradicionais já conhecidas; [...] quando houver oportunidade de sugerir títulos para serem adquiridos pelos alunos, optar sempre pela variedade: é infinitamente mais interessante haja na classe, por exemplo, 35 diferentes livros – o que já compõe uma biblioteca de classe – do que 35 livros iguais. No primeiro caso, o aluno tem oportunidade de ler 35 títulos, no segundo apenas um; [...] construir na escola uma política de formação de leitores na qual todos possam contribuir com sugestões para desenvolver uma prática constante de leitura que envolva o conjunto da unidade escolar (PCNs, 1998. p. 58-59). Além dessas possibilidades, o documento também salienta que sejam realizadas, em sala de aula, atividades que desenvolvam a formação de leitores e que esse trabalho deve ser diário. 1.1.3 Concepções de leitura e a prática docente Pensar em ensino-aprendizagem de leitura implica-nos, automaticamente, a reflexão sobre concepções teóricas e nossas posturas reveladas em sala de aula, mesmo que em nível consciente ou inconsciente. Por isso, devemos estar atentos para que não percamos nossos objetivos durante o ato de ensinar. É preciso, também, provocar efeitos de sentido no aluno-leitor, para que ele não apenas reconheça as unidades e estruturas linguísticas, mas que seja capaz de ir além da decodificação. Kato apud Coracini (2010), em Leitura: Decodificação, processo discursivo?, explica as diferentes concepções de leitura. Então, poderemos, a partir dessas concepções tecermos nossas considerações a respeito de nossas práticas. Kato (1985), entendendo leitura como processo de decodificação, identifica, a partir de estudiosos das áreas de ciências da cognição e da inteligência artificial, duas posições teóricas opostas que corresponderiam aos dois tipos básicos de processamento de informação: a hipótese top-down ou descendente e a hipótese bottom-up ou ascendente. A autora identifica a segunda como sendo dependente do texto e a primeira, como dependente do leitor (op. Cit.:52), isto é, a hipótese ascendente enfatizaria o texto e os dados nele contidos como ponto de partida para a compreensão e a segunda, no extremo oposto, veria no leitor a fonte única do sentido, de forma que o texto serviria apenas como confirmador de hipóteses. (CORACINI, 2010, p. 13, grifos no original). 25WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Assim sendo, para a autora, a hipótese ascendente defende o texto como fonte do sentido e provém de uma visão estruturalista e mecanicista da linguagem. Portanto, as atividades didáticas possuem uma dependência direta com sentidos de palavras e frases, cabendo ao leitor apenas o ato de decodificação. O leitor constrói sentindo o texto, unindo unidade por unidade. Tal concepção de leitura pode ser exemplificada em atividades que priorizam o conhecimento do vocabulário que antecede o trabalho da interpretação, de atividades de preenchimento de lacunas e de mero reconhecimento de situações do texto. Um exemplo de atividade que se refere a essa visão de leitura enquanto um processo de unidades menores é o representado na imagem a seguir: Figura 2 – Exemplo de atividade de leitura enquanto processo de decodificação. Fonte: Paula (2008). Assim, notamos que esta atividade desenvolvida pela professora do jardim III ancora-se em uma concepção de leitura como reconhecimento de sílabas. Pelo o que é demonstrado no exercício de decodificação, neste caso dos vocábulos “M” e “N”, ainda podemos considerar que a atividade é composta por uma lista de palavras descontextualizadas que reforçam a visão de que ler é apenas reconhecimento das estruturas e, assim, chegar ao sentido das palavras. Vale ressaltar que atividades sobre o texto em que basta uma leitura superficial para encontrar respostas, em que as palavras estejam na pergunta, também refletem um caráter mecânico da língua. 26WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Em uma perspectiva oposta à concepção anterior, passaremos a refletir acerca da top- down, ou seja, o modelo cognitivo em que o leitor lê o texto de cima para baixo. É o leitor quem assume a responsabilidade de atribuição de sentidos ao texto, tudo a partir de seus conhecimentos, de experiências de vida, de conhecimento de mundo, de outras leituras. Nesse sentido, diferentes leitores compreendem o mesmo texto de diferentes formas, pois cada um possui diferentes conhecimentos, diferentes memórias. Por exemplo, o poema Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, lido por uma criança do quinto ano do ensino fundamental e nós, adultos que já vivenciamos tantas experiências, teremos, é óbvio, diferentes leituras, escolheremos dados que são relevantes para nós, desprezaremos outros tão importantes para uma criança. O mesmo ocorrerá com crianças da mesma idade e série, estes acionarão conhecimentos conceptuais e linguísticos diferentes, o que resultará em diferentes sentidos. Além disso, é preciso considerar os conhecimentos prévios de aspectos do texto, como, por exemplo, título, subtítulo e ilustrações que são elementos que auxiliam o leitor na produção de inferências sobre o texto, para que ele possa selecionar e antecipar, para mais tarde confirmar ou não o que antecipara sobre o texto. É preciso considerar que essas estratégias de leitura são importantes para que o leitor possa avançar em seu processo de leitura e possa repensar suas inferências e hipóteses levantadas. E de forma ativa construir sentidos em cada texto que lê e na medida que desenvolve essas inferências maior será a compreensão do texto lido. 1.1.3.1. Exemplo de atividade Antes da leitura do poema, suscite com os estudantes uma reflexão sobre os momentos que lemos poemas. Investigue quem lê poemas em casa com a família e também os questione sobre quem gosta de ler poemas, se algum deles gostaria de falar sobre algum poema que já tenha lido (atividade de antecipação das informações trazidas pelos alunos). Projete apenas a parte não verbal do poema, cobrindo o texto verbal. Peça aos estudantes que façam algumas deduções sobre o que eles pensam que tratará o poema. Depois de ler o texto, faça uma verificação das hipóteses que foram levantadas antes, observando se a temática fora confirmada (cabe ao leitor, enquanto um sujeito ativo, o controle do processo de leitura). Questione-os sobre o tema e o título. De que forma o título Ou isto ou aquilo dialoga com o texto não verbal? 27WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 3 - Poema para atividade de leitura e levantamento de hipóteses. Fonte: Meireles (1990). Atividades como as demonstradas anteriormente revelam uma concepção que defende que o bom leitor é aquele capaz de acionar seus conhecimentos sobre as diferentes escolhas e consequências que corremos em diferentes situações e, assim, ter meios de confirmar suas hipóteses, relacionando os dados oferecidos pelo texto. Kato (1985) defende uma terceira concepção de leitura. A autora acredita que a prática docente deva ocorrer de acordo com os pressupostos da concepção denominada interacionista. Esta acredita que a leitura acontece durante o processo de interação entre texto-leitor ou, também, autor-texto-leitor. O leitor é portador de esquemas (mentais) socialmente adquiridos, os quais acionam os conhecimentos prévios e logo os confrontacom os oferecidos no texto. Desta forma constroem-se os sentidos. Desse modo, tanto o texto, quanto leitor são igualmente importantes. Não há, portanto, hierarquia entre ambos. Da mesma forma, Koch e Elias (2006, p. 10-11) definem a leitura enquanto processo de interação entre texto-autor-leitor. Diferentemente das concepções anteriores, na concepção interacional (dialógica) da língua, os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, sujeitos ativos que – dialogicamente – se constroem e são construídos no texto, considerando o próprio lugar da interação e da constituição dos interlocutores. 28WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Segundo Solé (1998), para que a compreensão ocorra de fato durante o processo de leitura, o leitor aciona os conhecimentos, faz suas estratégias de previsão e inferências, apoia-se nas informações textuais e nos próprios conhecimentos. Essa concepção defende que, “o bom leitor é aquele que é capaz de percorrer as marcas deixadas pelo autor para chegar à formulação de suas ideias e intenções” (CORACINI, 2010, p. 14, grifos no original). É importante compreendermos que a leitura não é um processo que extrai por completo o sentido do texto. Para Kleiman (2002, p. 9), compreender um texto não é fácil, principalmente por existir uma “multiplicidade de processos cognitivos que constituem a atividade em que o leitor se engaja para construir o sentido de um texto escrito”. Contribuindo também, enquanto fatores para a compreensão do texto, o conhecimento prévio sobre a temática abordada, a memória, objetivos que norteiam a leitura. A partir dessa abordagem, em um processo interativo entre leitor texto, o leitor deve reconstituir a intenção do autor e esta é marcada pelas escolhas lexicais. Isso faz com o que o leitor mobilize seus conhecimentos e infira sobre tais intenções para que possa construir sentidos ao que lê. Nesse sentido, o leitor realiza sua leitura de forma ativa de compreensão e interpretação do texto. Portanto, na perspectiva interacionista, o ato de ler é compreendido como um processo que integra as informações impressas, um processo que envolve a percepção do aluno e as informações que o leitor traz de seus conhecimentos – um processo cognitivo. Logo, o sentido não está apenas no leitor, nem tão pouco no texto, mas sim no processo de interação entre leitor e texto. Também é preciso considerar a necessidade de se conhecer as circunstâncias e o momento em que o texto fora criado, por quem e para quem foram escritos. Desse modo, o leitor terá melhores condições de apropriar-se das diferentes funções do texto e de construir sentidos para ele. Portanto, na perspectiva interacionista A leitura acontece ao desencadear-se o processo criativo em que sujeito e linguagem interagem permanentemente, uma vez que o texto nunca está acabado, não é produto, antes, dispositivo de produção. [...]. A leitura produto é pessoal, individual, determinada pelas condições sociais, culturais, históricas, afetivas e ideológicas do leitor, portanto, é variável, porque o texto apresenta lacunas que convidam o leitor a preenchê-las. Nesse processo ativo, os espaços textuais serão ocupados pelo eu/sujeito/leitor/ser do mundo a seu modo: ele pode produzir do mesmo texto diferentes leituras, passíveis de variação de momento para momento, pois a relação leitor/mundo/contexto também é passível de mudanças (as novas experiências pessoais interferem nas impressões que se têm sobre a realidade, sobre o modo de ver, de estar e viver no mundo) (DELL’ISOLA, 1996, p. 73). Desse modo, o texto é um produto inacabado, pois depende de seu leitor para que determine esse acabamento, que será dado, ou não, a depender dos conhecimentos e experiências particulares. Logo, a leitura passa a ser algo muito pessoal, em que o autor e o leitor são elementos que constituem juntos sua totalidade. E, assim, um responde ao outro ao passo que a compreensão acontece. Esse processo funciona como uma dependência em que um influencia o outro. Na concepção interacionista, o leitor passa a agir de forma crítica e transforma sua realidade e é, portanto, capaz de transformar-se e transformar o olhar do outro a partir de sua leitura. Assim, o processo de interação e de compreensão são definidos por Bakhtin (2011, p. 271): 29WWW.UNINGA.BR M ET OD OL OG IA E P RÁ TI CA S DA L ÍN GU A PO RT UG UE SA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA [...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. Toda compreensão da fala viva, do enunciado vivo é de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. Nessa relação de alternâncias de vozes, consideramos o caráter dialógico da linguagem e sua relação de interação verbal e social entre os locutores em seu sentido amplo em toda comunicação verbal ativa, “[...] concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes” (BAKHTIN apud VOLOCHÍNOV, 2012. p. 128), mas também “acompanhada por atos sociais e de caráter não verbal” (BAKHTIN apud VOLOCHÍNOV, 2012, p. 128), que evolui historicamente e estão intrinsicamente associados às condições concretas em que se realiza, as diferentes formas de enunciações que permitem que os falantes assumam diferentes posições responsivas, ou “as réplicas” denominadas por Bakhtin (2012). De acordo com o Círculo (2011, p. 298), o enunciado é pleno de tonalidades dialógicas, e sem levá-las em conta é impossível entender até o fim o estilo de um enunciado. Porque a nossa própria ideia – seja filosófica, científica, artística – nasce e se forma no processo de interação e luta com os pensamentos dos outros. Esse acabamento que assegura a possibilidade da resposta é determinado, segundo Bakhtin (2011, p. 281), por três elementos: “1) exauribilidade do objeto e do sentido; 2) projeto de discurso ou vontade de discurso do falante; 3) formas composicionais e de gênero do acabamento”. Portanto, para o Círculo, o sentido seria as múltiplas relações estabelecidas na e por meio da interação que é fundada no diálogo e que dele não se separa. Desse modo, a interação é parte que constitui o sentido, sendo que só se constrói sentido em resposta a alguma pergunta quando inseridos em uma situação concreta para que possamos produzir enunciados que estabeleçam relação entre os sujeitos. Assim, o falante passa da real compreensão ativa responsiva para a resposta real em relação ao que foi dito a partir de sua compreensão e de sua avaliação em relação a si e ao outro. Marcos Bagno apud Antunes (2003, p. 70) defende o princípio de que “a leitura é uma atividade de acesso ao conhecimento produzido, ao prazer estético e, ainda, uma atividade de acesso às especificidades da escrita”. Segundo Bagno (2009), em Preconceito linguístico o que é, como se faz, a atividade de leitura beneficia o desenvolvimento dos repertórios de informação do leitor, possibilita a experiência gratuita do prazer estético pelo simples prazer de ler. O linguista também reforça a ideia de que é na exposição à leitura que ampliamos nossa competência discursiva em língua escrita. E propõe que a leitura seja uma constante na diária dos estudantes, que sejam, a princípio, interessantes, ricos de ideias ou imagens, literários ou não. Salienta, ainda, que o professor deve promover algumas implicações pedagógicas de