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PROVA DE PORTUGUES EEM WALDERI MACHADO Questão 1 As diferentes esferas sociais de uso da língua obrigam o falante a adaptá-la às variadas situações de comunicação. Uma das marcas linguísticas que configuram a linguagem oral informal usada entre avô e neto neste texto é a) a opção pelo emprego da forma verbal “era” em lugar de “foi”. b) a ausência de artigo antes da palavra “árvore”. c) o emprego da redução “tá” em lugar da forma verbal “está”. d) o uso da contração “desse” em lugar da expressão “de esse”. e) a utilização do pronome “que” em início de frase exclamativa. Gabarito: C Resolução: Um recurso típico da oralidade informal é a redução de palavras e expressões. A fala do avô utiliza "tá" no lugar de "está", o que é bastante comum na linguagem falada. Quanto às outras alternativas, apenas a E poderia dar margem para dúvida. Entretanto, ela só responderia à questão se tivesse sido transcrita a expressão "que barato", típica da linguagem coloquial. O uso do "que" em início de frases exclamativas é um recurso comum tanto na linguagem formal como na informal, o que exclui essa alternativa. Questão 2 No Brasil colonial, os portugueses procuravam ocupar e explorar territórios descobertos, nos quais viviam índios, que eles queriam cristianizar e usar como força de trabalho. Os missionários aprendiam os idiomas dos nativos para catequizá-los nas suas próprias línguas. Ao longo do tempo, as línguas se influenciaram. O resultado desse processo foi a formação de uma língua geral, desdobrada em duas variedades: o abanheenga, ao sul, e o nheengatu, ao norte. Quase todos se comunicavam na língua geral, sendo poucos aqueles que falavam apenas o português. De acordo com o texto, a língua geral formou-se e consolidou-se no contexto histórico do Brasil- Colônia. Portanto, a formação desse idioma e suas variedades foi condicionada A) pelo interesse dos indígenas em aprender a religião dos portugueses. B) pelo interesse dos portugueses em aprimorar o saber linguístico dos índios. C) pela percepção dos indígenas de que as suas línguas precisavam aperfeiçoar-se. D) pelo interesse unilateral dos indígenas em aprender uma nova língua com os portugueses. E) pela distribuição espacial das línguas indígenas, que era anterior à chegada dos portugueses. Gabarito: E Resolução: No início da colonização, os jesuítas aprenderam as línguas indígenas para catequizar os índios e expandir o domínio português. Ao longo do litoral brasileiro, predominava o dialeto tupinambá, base da língua geral (também denominada brasílica), estudada, registrada e difundida por Anchieta e outros jesuítas por grande parte do território brasileiro. Ocorre que, devido à grande extensão do território brasileiro e também ao grande número de tribos indígenas, essa língua geral dividiu-se em duas vertentes: uma de influência paulista (o abanheenga) e outra de influência amazônica (o nheengatu). Por isso, pode-se afirmar que a formação da língua geral e de suas duas variedades foi condicionada pela distribuição das línguas indígenas, fato anterior à chegada dos portugueses. Questão 3 Na modernidade, o corpo foi descoberto, despido e modelado pelos exercícios físicos da moda. Novos espaços e práticas esportivas e de ginástica passaram a convocar as pessoas a modelarem seus corpos. Multiplicaram-se as academias de ginástica, as salas de musculação e o número de pessoas correndo pelas ruas. Secretaria da Educação. Caderno do professor: Educação Física. São Paulo, 2008. Diante do exposto, é possível perceber que houve um aumento da procura por a) exercícios físicos aquáticos (natação/hidroginástica), que são exercícios de baixo impacto, evitando o atrito (não prejudicando as articulações), e que previnem o envelhecimento precoce e melhoram a qualidade de vida. b) mecanismos que permitem combinar alimentação e exercício físico, que permitem a aquisição e manutenção de níveis adequados de saúde, sem a preocupação com padrões de beleza instituídos socialmente. c) programas saudáveis de emagrecimento, que evitam os prejuízos causados na regulação metabólica, função imunológica, integridade óssea e manutenção da capacidade funcional ao longo do envelhecimento. d) exercícios de relaxamento, reeducação postural e alongamentos, que permitem um melhor funcionamento do organismo como um todo, bem como uma dieta alimentar e hábitos saudáveis com base em produtos naturais. e) dietas que preconizam a ingestão excessiva ou restrita de um ou mais macronutrientes (carboidratos, gorduras ou proteínas), bem como exercícios que permitem um aumento de massa muscular e/ou modelar o corpo. Gabarito: E Resolução: Embora o texto não faça referência direta a dietas, essa é a única alternativa que menciona a relação entre exercícios físicos e modelagem do corpo, sugerindo a relação entre atividade física e padrão estético exposta no texto base. As demais alternativas, ao contrário do texto, enfatizam a relação entre atividade física e hábitos saudáveis e/ou qualidade de vida. Questão 4 Não tem tradução [...] Lá no morro, se eu fizer uma falseta A Risoleta desiste logo do francês e do inglês A gíria que o nosso morro criou Bem cedo a cidade aceitou e usou [...] Essa gente hoje em dia que tem mania de exibição Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês Tudo aquilo que o malandro pronuncia Com voz macia é brasileiro, já passou de português Amor lá no morro é amor pra chuchu As rimas do samba não são I love you E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny Só pode ser conversa de telefone ROSA, N. In: SOBRAL, João J. V. A tradução dos bambas. Revista Língua Portuguesa, ano 4, n. 54. São Paulo: Segmento, abr. 2010 (fragmento). As canções de Noel Rosa, compositor brasileiro de Vila Isabel, apesar de revelarem uma aguçada preocupação do artista com seu tempo e com as mudanças político-culturais no Brasil, no início dos anos 1920, ainda são modernas. Nesse fragmento do samba "Não tem tradução", por meio do recurso da metalinguagem, o poeta propõe a) incorporar novos costumes de origem francesa e americana, juntamente com vocábulos estrangeiros. b) respeitar e preservar o português-padrão como forma de fortalecimento do idioma do Brasil. c) valorizar a fala popular brasileira como patrimônio linguístico e forma legítima de identidade nacional. d) mudar os valores sociais vigentes à época, com o advento do novo e quente ritmo da música popular brasileira. e) ironizar a malandragem carioca, aculturada pela invasão de valores étnicos de sociedades mais desenvolvidas. Gabarito: C Resolução: Nesse fragmento do samba "Não tem tradução", Noel Rosa emprega o recurso metalinguístico ao usar a canção para falar de sua própria linguagem, que, segundo o sambista, deve valorizar a fala popular e, consequentemente, a identidade nacional, em vez de utilizar palavras estrangeiras e incorporar costumes americanos ou franceses. O texto tampouco propõe a preservação do português- padrão, pois valoriza a linguagem do morro, do malandro carioca (ao contrário de criticá-lo e considerá-lo aculturado). Questão 5 Há certos usos consagrados na fala, e até mesmo na escrita, que, a depender do estrato social e do nível de escolaridade do falante, são, sem dúvida, previsíveis. Ocorrem até mesmo em falantes que dominam a variedade padrão, pois, na verdade, revelam tendências existentes na língua em seu processo de mudança que não podem ser bloqueadas em nome de um “ideal linguístico” que estaria representado pelas regras da gramática normativa. Usos como ter por haver em construções existenciais (tem muitos livros na estante), o do pronome objeto na posição de sujeito (para mim fazer o trabalho), a não concordância das passivas com se (aluga-se casas) são indícios da existência, não de uma norma única, mas de uma pluralidade de normas, entendida, mais uma vez, norma como conjunto de hábitos linguísticos, sem implicar juízo de valor. CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: descrição euso. São Paulo: Contexto, 2007 (fragmento). Considerando a reflexão trazida no texto a respeito da multiplicidade do discurso, verifica-se que a) estudantes que não conhecem as diferenças entre língua escrita e língua falada empregam, indistintamente, usos aceitos na conversa com amigos quando vão elaborar um texto escrito. b) falantes que dominam a variedade padrão do português do Brasil demonstram usos que confirmam a diferença entre a norma idealizada e a efetivamente praticada, mesmo por falantes mais escolarizados. c) moradores de diversas regiões do país que enfrentam dificuldades ao se expressarem na escrita revelam a constante modificação das regras de emprego de pronomes e os casos especiais de concordância. d) pessoas que se julgam no direito de contrariar a gramática ensinada na escola gostam de apresentar usos não aceitos socialmente para esconderem seu desconhecimento da norma padrão. e) usuários que desvendam os mistérios e sutilezas da língua portuguesa empregam formas do verbo ter quando, na verdade, deveriam usar formas do verbo haver, contrariando as regras gramaticais. Gabarito: B Resolução: O texto afirma que o fato de pessoas usarem variantes não padrão da língua portuguesa não revela, necessariamente, desconhecimento da gramática normativa, pois falantes escolarizados e com conhecimento desta também utilizam formas "condenadas" pela gramática – revelando a diferença entre a "língua ideal" apresentada pela gramática normativa e a real, praticada pelos falantes. O uso de variantes não padrão é generalizado, ocorre entre pessoas de muita ou pouca escolaridade, e não apenas entre "usuários que desvendam os mistérios e sutilezas da língua". Questão 6 Mandioca – mais um presente da Amazônia Aipim, castelinha, macaxeira, maniva, maniveira. As designações da Manihot utilissima podem variar de região, no Brasil, mas uma delas deve ser levada em conta em todo o território nacional: pão-d- -pobre – e por motivos óbvios. Rica em fécula, a mandioca – uma planta rústica e nativa da Amazônia disseminada no mundo inteiro, especialmente pelos colonizadores portugueses – é a base de sustento de muitos brasileiros e o único alimento disponível para mais de 600 milhões de pessoas em vários pontos do planeta, e em particular em algumas regiões da África. O melhor do Globo Rural, fev. 2005 (fragmento). De acordo com o texto, há no Brasil uma variedade de nomes para a Manihot utilissima, nome científico da mandioca. Esse fenômeno revela que a) existem variedades regionais para nomear uma mesma espécie de planta. b) mandioca é nome específico para a espécie existente na região amazônica. c) “pão-de-pobre” é designação específica para a planta da região amazônica. d) os nomes designam espécies diferentes da planta, conforme a região. e) a planta é nomeada conforme as particularidades que apresenta. Gabarito: A Resolução: De acordo com o texto, há uma diversidade de nomes para designar a Manihot utilissima, a mandioca, pelo fato de existirem variedades linguísticas regionais – assim sendo, cada região dá um nome diferente à mesma espécie de planta. Mandioca, dessa forma, não seria o nome específico da espécie amazônica, e sim o nome utilizado em alguns lugares do Brasil para a mesma planta, e "pão- de-pobre" seria um termo conotativo, que revela que a planta é utilizada, entre as populações pobres, como única fonte de alimento e sobrevivência. Questão 7 Motivadas ou não historicamente, normas prestigiadas ou estigmatizadas pela comunidade sobrepõem-se ao longo do território, seja numa relação de oposição, seja de complementaridade, sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu. Ao focalizar essa questão, que opõe não só as normas do português de Portugal às normas do português brasileiro, mas também as chamadas normas cultas locais às populares ou vernáculas, deve-se insistir na ideia de que essas normas se consolidaram em diferentes momentos da nossa história e que só a partir do século XVIII se pode começar a pensar na bifurcação das variantes continentais, ora em consequência de mudanças ocorridas no Brasil, ora em Portugal, ora, ainda, em ambos os territórios. CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S.R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (adaptado). O português do Brasil não é uma língua uniforme. A variação linguística é um fenômeno natural, ao qual todas as línguas estão sujeitas. Ao considerar as variedades linguísticas, o texto mostra que as normas podem ser aprovadas ou condenadas socialmente, chamando a atenção do leitor para a a) desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta. b) difusão do português de Portugal em todas as regiões do Brasil só a partir do século XVIII. c) existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da de Portugal. d) inexistência de normas cultas locais e populares ou vernáculas em um determinado país. e) necessidade de se rejeitar a ideia de que os usos frequentes de uma língua devem ser aceitos. Gabarito: C Resolução: O texto aborda as variedades linguísticas chamando a atenção do leitor para as diferenças intercontinentais da língua portuguesa, ou seja, para a existência de normas nacionais que caracterizam o português brasileiro, distinto do português europeu (que se difundiu no Brasil a partir do século XVI). O texto afirma a existência de normas populares, locais e cultas em qualquer país e em qualquer língua, bem como a adesão à norma de termos frequentemente usados na fala popular, com o passar do tempo. Questão 8 VERÍSSIMO, L. F. As cobras em: Se Deus existe que eu seja atingido por um raio. Porto Alegre: L&PM, 1997. O humor da tira decorre da reação de uma das cobras com relação ao uso de pronome pessoal reto, em vez de pronome oblíquo. De acordo com a norma padrão da língua, esse uso é inadequado, pois a) contraria o uso previsto para o registro oral da língua. b) contraria a marcação das funções sintáticas de sujeito e objeto. c) gera inadequação na concordância com o verbo. d) gera ambiguidade na leitura do texto. e) apresenta dupla marcação de sujeito. Gabarito: B Resolução: De acordo com a gramática normativa, o uso do pronome reto "eles" em vez do oblíquo "los", no segundo quadrinho, é equivocado porque contraria a marcação das funções sintáticas de sujeito e objeto, pois pronomes retos exercem função de sujeito e oblíquos, de objeto. Entretanto, o uso do pronome reto na função de objeto é previsto na oralidade. Não há, neste caso, inadequação na concordância verbal, ou dupla marcação de sujeito, nem ambiguidade (duplo sentido). Questão 9 Essa pequena Meu tempo é curto, o tempo dela sobra Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora Temo que não dure muito a nossa novela, mas Eu sou tão feliz com ela Meu dia voa e ela não acorda Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas Não canso de contemplá-la Feito avarento, conto os meus minutos Cada segundo que se esvai Cuidando dela, que anda noutro mundo Ela que esbanja suas horas ao vento, ai Às vezes ela pinta a boca e sai Fique à vontade, eu digo, take your time Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas O blues já valeu a pena CHICO BUARQUE. Disponível em: www.chicobuarque.com.br. Acesso em: 31 jun. 2012. O texto Essa pequena registra a expressão subjetiva do enunciador, trabalhada em uma linguagem informal, comum na música popular. Observa-se, como marca da variedade coloquial da linguagem presente no texto, o uso de a) palavras emprestadas de língua estrangeira, de uso inusitado no português. b) expressões populares, que reforçam a proximidade entre o autor e o leitor. c) palavras polissêmicas, que geram ambiguidade. d) formas pronominais em primeira pessoa. e) repetições sonoras no final dos versos. Gabarito: B Resolução: a) Incorreta. As expressões em inglês presentes na cançãoconfiguram empréstimos linguísticos e não podem ser considerados marcas de variedade coloquial da linguagem. b) Correta. Podem ser consideradas expressões populares “nossa novela”, “meu dia voa”, “feito avarento”, “conto meus minutos”, “pinta a boca”, “vou penar” e “valeu a pena”. c) Incorreta. O texto não apresenta expressões polissêmicas que gerem ambiguidade. d) Incorreta. As formas pronominais em primeira pessoa não podem ser consideradas marcas exclusivas de informalidade e coloquialidade. e) Incorreta. As repetições sonoras ao final dos versos tampouco configuram marcas de informalidade. Questão 10 — Não, mãe. Perde a graça. Este ano, a senhora vai ver. Compro um barato. — Barato? Admito que você compre uma lembrancinha barata, mas não diga isso a sua mãe. É fazer pouco-caso de mim. — Ih, mãe, a senhora está por fora mil anos. Não sabe que barato é o melhor que tem, é um barato! — Deixe eu escolher, deixe... — Mãe é ruim de escolha. Olha aquele blazer furado que a senhora me deu no Natal! — Seu porcaria, tem coragem de dizer que sua mãe lhe deu um blazer furado? — Viu? Não sabe nem o que é furado? Aquela cor já era, mãe, já era! ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. O modo como o filho qualifica os presentes é incompreendido pela mãe, e essas escolhas lexicais revelam diferenças entre os interlocutores, que estão relacionadas a) à linguagem infantilizada. b) ao grau de escolaridade. c) à dicotomia de gêneros. d) às especificidades de cada faixa etária. e) à quebra de regras da hierarquia familiar. Gabarito: D Resolução: No trecho de autoria de Carlos Drummond de Andrade, o modo como o filho qualifica os presentes é incompreendido pela mãe, e essas escolhas lexicais revelam diferenças entre os interlocutores, que estão relacionadas às especificidades de cada faixa etária. As palavras "barato" e "furado" são empregadas pelo filho como gírias, tipo de linguagem de determinado grupo social, no caso usadas para caracterizar a linguagem jovem do rapaz, que não é compreendido pela mãe, a qual toma tais palavras em seu sentido vernáculo. Questão 11 Famigerado Com arranco, [o sertanejo] calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar. O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá: – Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...? ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. A linguagem peculiar é um dos aspectos que conferem a Guimarães Rosa um lugar de destaque na literatura brasileira. No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque a) o narrador se cala, pensa e monologa, tentando assim evitar a perigosa pergunta de seu interlocutor. b) o sertanejo emprega um discurso cifrado, com enigmas, como se vê em "a conversa era para teias de aranha". c) entre os dois homens cria-se uma comunicação impossível, decorrente de suas diferenças socioculturais. d) a fala do sertanejo é interrompida pelo gesto de impaciência do narrador, decidido a mudar o assunto da conversa. e) a palavra desconhecida adquire o poder de gerar conflito e separar as personagens em planos incomunicáveis. Gabarito: E Resolução: No fragmento lido, a tensão entre a personagem e o narrador se estabelece porque a palavra desconhecida, no caso "famigerado", adquire o poder de gerar conflito e separar as personagens em planos incomunicáveis, posto que, até ocorrer o questionamento do sertanejo ao narrador sobre o significado da palavra, tem-se um trecho marcado pela angústia de uma comunicação truncada, difícil, uma "conversa [...] para teias de aranha". Questão 12 Da corrida de submarino à festa de aniversário no trem Leitores fazem sugestões para o Museu das Invenções Cariocas “Falar ‘caraca!’ a cada surpresa ou acontecimento que vemos, bons ou ruins, é invenção do carioca, como também o ‘vacilão’.” “Cariocas inventam um vocabulário próprio.” “Dizer ‘merrmão’ e ‘é merrmo’ para um amigo pode até doer um pouco no ouvido, mas é tipicamente carioca.” “Pedir um ‘choro’ ao garçom é invenção carioca.” “Chamar um quase desconhecido de ‘querido’ é um carinho inventado pelo carioca para tratar bem quem ainda não se conhece direito.” “O ‘ele é um querido’ é uma forma mais feminina de elogiar quem já é conhecido.” SANTOS, J. F. Disponível em: . Acesso em: 6 mar. 2013. Adaptado. Entre as sugestões apresentadas para o Museu das Invenções Cariocas, destaca-se o variado repertório linguístico empregado pelos falantes cariocas nas diferentes situações específicas de uso social. A respeito desse repertório, atesta-se o(a) a) desobediência à norma-padrão, requerida em ambientes urbanos. b) inadequação linguística das expressões cariocas às situações sociais apresentadas. c) reconhecimento da variação linguística, segundo o grau de escolaridade dos falantes. d) identificação de usos linguísticos próprios da tradição cultural carioca. e) variabilidade no linguajar carioca em razão da faixa etária dos falantes. Gabarito: D Resolução: A respeito das sugestões apresentadas por leitores para o Museu das Invenções Cariocas atesta-se a identificação de usos linguísticos próprios da tradição cultural carioca, trazendo expressões populares usadas pelos cariocas e que comporiam o inventário do Museu. Questão 13 A língua tupi no Brasil Há 300 anos, morar na vila de São Paulo de Piratininga (peixe seco, em tupi) era quase sinônimo de falar lingua de índio. Em cada cinco habitantes da cidade, só dois conheciam o português. Por isso, em 1698, o governador da província, Artur de Sá e Meneses, implorou a Portugal que só mandasse padres que soubessem “a língua geral dos índios”, pois “aquela gente não se explica em outro idioma”. Derivado do dialeto de São Vicente, o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVII, graças ao isolamento geográfico da cidade e à atividade pouco cristã dos mamelucos paulistas: as bandeiras, expedições ao sertão em busca de escravos índios. Muitos bandeirantes nem sequer falavam o português ou se expressavam mal. Domingos Jorge Velho, o paulista que destruiu o Quilombo dos Palmares em 1694, foi descrito pelo bispo de Pernambuco como “um bárbaro que nem falar sabe”. Em suas andanças, essa gente batizou lugares como Avanhandava (lugar onde o índio corre), Pindamonhangaba (lugar de fazer anzol) e Itu (cachoeira). E acabou inventando uma nova língua. “Os escravos dos bandeirantes vinham de mais de 100 tribos diferentes”, conta o historiador e antropólogo John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas. “Isso mudou o tupi paulista, que, além da influência do português, ainda recebia palavras de outros idiomas.” O resultado da mistura ficou conhecido como língua geral do sul, uma espécie de tupi facilitado. ANGELO, C. Disponível em: . Acesso em: 8 ago. 2012. Adaptado. O texto trata de aspectos sócio-históricos da formação linguística nacional. Quanto ao papel do tupi na formação do português brasileiro, depreende-se que essa língua indígena a) contribuiu efetivamente para o léxico, com nomes relativos aos traços característicos dos lugares designados. b) originou o português falado em São Paulo no século XVII, em cuja base gramatical também está a fala de variadas etnias indígenas. c) desenvolveu-se sob influência dos trabalhos de catequese dos padres portugueses vindos de Lisboa. d) misturou-se aos falaresafricanos, em razão das interações entre portugueses e negros nas investidas contra o Quilombo dos Palmares. e) expandiu-se paralelamente ao português falado pelo colonizador, e juntos originaram a língua dos bandeirantes paulistas. Gabarito: A Resolução: De acordo com o texto, essa língua indígena contribuiu para o léxico do português brasileiro, especialmente na designação de lugares de acordo com seus traços característicos, ou seja, pelos topônimos que designam ruas, bairros e cidades, como nos nomes Avanhandava (lugar onde o índio corre), Pindamonhangaba (lugar de fazer anzol) e Itu (cachoeira). Questão 14 Nuances Euforia: alegria barulhenta. Felicidade: alegria silenciosa. Gravar: quando o ator é de televisão. Filmar: quando ele quer deixar claro que não é de televisão. Grávida: em qualquer ocasião. Gestante: em filas e assentos preferenciais. Guardar: na gaveta. Salvar: no computador. Salvaguardar: no Exército. Menta: no sorvete, na bala ou no xarope. Hortelã: na horta ou no suco de abacaxi. Peça: quando você vai assistir. Espetáculo: quando você está em cartaz com ele. DUVIVIER, G. Folha de S. Paulo, 24 mar. 2014. Adaptado. O texto trata da diferença de sentido entre vocábulos muito próximos. Essa diferença é apresentada considerando-se a(s) a) alternâncias na sonoridade. b) adequação às situações de uso. c) marcação flexional das palavras. d) grafia na norma-padrão da língua. e) categorias gramaticais das palavras. Gabarito: B Resolução: O texto do autor e humorista Gregório Duvivier trata de forma divertida da diferença de sentido entre vocábulos muito próximos, definindo-as conforme seu emprego em situações variadas de uso do dia a dia. Questão 15 Ó pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve! Brasil, de amor eterno seja símbolo O lábaro que ostentas estrelado, E diga o verde-louro dessa flâmula – “Paz no futuro e glória no passado.” Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! Hino Nacional do Brasil. Letra: Joaquim Osório Duque Estrada. Música: Francisco Manuel da Silva (fragmento). O uso da norma-padrão na letra do Hino Nacional do Brasil é justificado por tratar-se de um(a) a) reverência de um povo a seu país. b) gênero solene de característica protocolar. c) canção concebida sem interferência da oralidade. d) escrita de uma fase mais antiga da língua portuguesa. e) artefato cultural respeitado por todo o povo brasileiro. Gabarito: B Resolução: O uso da norma-padrão na letra do Hino Nacional do Brasil justifica-se pela exigência solene do gênero, associado oficialmente a práticas cívicas protocolares deste estado nacional. Questão 16 A fotografia exibe a fachada de um supermercado em Foz do Iguaçu, cuja localização transfronteiriça é marcada tanto pelo limite com Argentina e Paraguai quanto pela presença de outros povos. Essa fachada revela o(a) a) apagamento da identidade linguística. b) planejamento linguístico no espaço urbano. c) presença marcante da tradição oral na cidade. d) disputa de comunidades linguísticas diferentes. e) poluição visual promovida pelo multilinguismo. Gabarito: B Resolução: A fachada registrada na fotografia, de um supermercado em Foz do Iguaçu, cuja localização transfronteiriça é marcada tanto pelo limite com Argentina e Paraguai como pela circulação de pessoas de variadas origens, revela o planejamento linguístico no espaço urbano, pois exibe a palavra "supermercado" em diversas línguas (português, inglês, alemão, espanhol, chinês e árabe), que podem ser a de cada um daqueles que transitam pelo espaço. Questão 17 – Famigerado? [...] – Famigerado é “inóxio”, é célebre”, “notório”, “notável”... – Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: É desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa? – Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos... – Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de semana? – Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito... ROSA, G. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. Nesse texto, a associação de vocábulos da língua portuguesa a determinados dias da semana remete ao a) local de origem dos interlocutores. b) estado emocional dos interlocutores. c) grau de coloquialidade da comunicação. d) nível de intimidade entre os interlocutores. e) conhecimento compartilhado na comunicação. Gabarito: C Resolução: No trecho do conto "Famigerado", a associação de vocábulos da língua portuguesa a determinados dias da semana, a "linguagem de em dia de semana" remete ao grau de coloquialidade da comunicação comum ao dia a dia de pessoas pobres, sem o refinamento do vocábulo "famigerado". Questão 18 A draga A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna. — E que fosse uma casa de peixes? Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens. Dos viventes da draga era um o meu amigo Máriopegasapo. [...] Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captur- -Sapo! Ai que dor! Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial. Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele... Da velha draga Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Hollanda Para que as registre em seus léxicos Pois que o povo já as registrou. BARROS, M. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1990 (fragmento). Ao criticar o preciosismo linguístico do literato e ao sugerir a dicionarização de expressões locais, o poeta expressa uma concepção de língua que a) contrapõe características da escrita e da fala. b) ironiza a comunicação fora da norma-padrão. c) substitui regionalismos por registros formais. d) valoriza o uso de variedades populares. e) defende novas regras gramaticais. Gabarito: D Resolução: A ridicularização da decisão do necrológo em alterar o nome de Mário-Pega-Sapo para Mário-Captur- -Sapo por defender a norma culta é um fato que explicita a crítica ao preciosismo linguístico, deixando à mostra uma concepção de língua, por parte do poeta, que valoriza o uso de variedades populares. Questão 19 Futebol: "A rebeldia é que muda o mundo" Conheça a história de Afonsinho, o primeiro jogador do futebol brasileiro a derrotar a cartolagem e a conquistar o Passe Livre, há exatos 40 anos Pelé estava se aposentando pra valer pela primeira vez, então com a camisa do Santos (porque depois voltaria a atuar pelo New York Cosmos, dos Estados Unidos), em 1972, quando foi questionado se, finalmente, sentia-se um homem livre. O Rei respondeu sem titubear: – Homem livre no futebol só conheço um: o Afonsinho. Este sim pode dizer, usando as suas palavras, que deu o grito de independência ou morte. Ninguém mais. O resto é conversa. Apesar de suas declarações serem motivo de chacota por parte da mídia futebolística e até dos torcedores brasileiros, o Atleta do Século acertou. E provavelmente acertaria novamente hoje. Pela admiração por um de seus colegas de clube daquele ano. Pelo reconhecimento do caráter e da personalidade de um dos jogadores mais contestadores do futebol nacional. E principalmente em razão da história de luta – e vitória – de Afonsinho sobre os cartolas. ANDREUCCI, R. Disponível em: . Acesso em: 19 ago. 2011. O autor utiliza marcas linguísticas que dão ao texto um caráter informal. Uma dessas marcas é identificada em: a) "[...] o Atleta do Século acertou". b) "O Rei respondeu sem titubear [...]". c) "E provavelmente acertaria novamente hoje". d) "Pelé estava se aposentando pra valer pela primeira vez [...]". e) "Pela admiraçãopor um de seus colegas de clube daquele ano". Gabarito: D Resolução: Das marcas linguísticas que dão ao texto um caráter informal, é exemplo a expressão "pra valer", sendo "pra" um registro coloquial da forma "para" da norma-padrão. Questão 20 Dúvida Dois compadres viajavam de carro por uma estrada de fazenda quando um bicho cruzou a frente do carro. Um dos compadres falou: – Passou um largato ali! O outro perguntou: – Lagarto ou largato? O primeiro respondeu: – Num sei não, o bicho passou muito rápido. Piadas coloridas. Rio de Janeiro: Gênero, 2006. Na piada, a quebra de expectativa contribui para produzir o efeito de humor. Esse efeito ocorre porque uma das personagens a) reconhece a espécie do animal avistado. b) tem dúvida sobre a pronúncia do nome do réptil. c) desconsidera o conteúdo linguístico da pergunta. d) constata o fato de um bicho cruzar a frente do carro. e) apresenta duas possibilidades de sentido para a mesma palavra. Gabarito: C Resolução: O efeito de humor no diálogo da piada se deve à quebra de expectativa relativa à pergunta "Lagarto ou largato?", focada no conteúdo linguístico normativo, conteúdo que é ignorado por uma das personagens.