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1 SEMANA 6. APG Demência é um comprometimento generalizado, adquirido e geralmente progressivo da função cognitiva. Essa condição difere de outros distúrbios da função cognitiva, como o coma ou os estados confusionais, pelo fato de que o nível de consciência (vigília ou excitabilidade) está preservado na demência. A doença de Alzheimer (DA) é a principal causa de demência, sendo responsável por 50 a 70% do total de casos. Pode ser estimado um total de 1.200.000 brasileiros com a doença, com previsão de aumento acelerado decorrente do envelhecimento da população. A maior parte dos casos de DA tem início a partir dos 65 anos de idade, com crescimento exponencial até em torno dos 85 a 90 anos, quando a probabilidade de desenvolvimento da doença cai discretamente. Não são raros casos antes dos 65 anos, mas, em particular antes dos 60, existe maior chance de tratar-se da forma familiar da doença, que é bem mais rara que a forma esporádica, correspondendo a 5 a 8% do total de casos. Mulheres e homens são afetados com igual frequência, quando ajustados por idade. No entanto, como as mulheres vivem por mais tempo, elas representam cerca de dois terços dos pacientes com Alzheimer. Os fatores de risco mais conclusivamente associados a doença de Alzheimer são idade mais avançada, sexo feminino e genótipo APOE4. Outros fatores que podem estar ligados a doença: História familiar; Depressão; Baixa nível escolar; Tabagismo; Diabetes; Hipertensão; Dieta gordurosa; Outros genes além do APOE4, porém causam menos efeitos. Não existem evidências definitivas de que o risco de doença de Alzheimer pode ser reduzido por dieta, fármacos ou alterações no estilo de vida. No entanto, engajamento cognitivo, atividade física, uma dieta com baixo teor de gorduras e rica em vegetais, e uma ingestão leve a moderada de álcool são medidas apoiadas por alguns dados. A progressão da doença possui uma fase pré- sintomática de até cerca de 10 anos, caracterizada pela deposição de placas amiloides, seguida por uma fase sintomática de cerca de 10 anos, durante a qual ocorre a formação de emaranhados. Manifestações precoces: o termo leve comprometimento cognitivo (LCC), algumas vezes, é usado para descrever a fase precoce do declínio cognitivo, observado em pacientes que mais tarde recebem um diagnóstico de doença de Alzheimer. O comprometimento da memória recente, em geral, é o primeiro sinal de doença de Alzheimer pode somente ser notado por familiares. Com a progressão do distúrbio de memória por meses a vários anos, o paciente se torna desorientado no tempo e no espaço. Afasia, anomia e acalculia podem se desenvolver. A depressão aparente nos estágios iniciais do distúrbio pode dar lugar a um estado inquieto e agitado. Seguem-se apraxias1 e desorientação visuoespacial, levando o paciente a se perder com facilidade. Comumente se encontram reflexos primitivos. Um distúrbio de marcha do lobo frontal pode se tornar aparente, com passos curtos, lentos e arrastados, postura em flexão, com base larga e dificuldade para iniciar a marcha. Manifestações tardias: em estágios mais avançados, perde-se a desenvoltura social que previamente estava preservada, e sintomas psiquiátricos, incluindo psicose com paranoia, alucinações e delírios, podem ser evidentes. Convulsões ocorrem em alguns casos. Nesse estágio, o exame pode demonstrar rigidez e bradicinesia2. Características raras e geralmente tardias da doença incluem mioclonia3, incontinência, espasticidade, respostas plantares extensoras e hemiparesia. Mutismo, incontinência e um estado acamado são manifestações terminais. Problemas de alimentação, episódios febris, dispneia, pneumonia e dor são complicações frequentes nos meses finais da vida, e o óbito normalmente ocorre 5 a 10 anos após o início dos sintomas. A perda neuronal e a degeneração sináptica são os principais achados neuropatológicos na Doença de Alzheimer, junto com o acúmulo de duas lesões principais, sendo elas as placas neuríticas (ou amiloides) e os emaranhados neurofibrilares. Placas neuríticas (senis) são depósitos extracelulares que contêm beta-amiloide (Ab) e outras proteínas, incluindo presenilina 1, presenilina 2, alfa 1 1 SEMANA 6. APG antimicrotripsina, apolipo-proteína E, alfa 2- macroglobulina e ubiquitina. Emaranhados neurofibrilares são depósitos intracelulares contendo tau hiperfosforilado (uma proteína associada a microtúbulos) e ubiquitina. A doença é um distúrbio degenerativo progressivo, causado por um defeito genético em casos raros (ver adiante), mas costuma ser esporádica e de causa desconhecida. Metabolismo anormal, deposição ou depuração de duas proteínas – Ab e tau – parecem estar intimamente ligados à patogênese. 1. Genética: em cerca de 1% dos pacientes vai ser um distúrbio familiar que resulta de uma mutação em uma de três proteínas de membrana relacionadas funcionalmente: proteína precursora beta-amiloide (APP, de amyloid precursor protein), presenili-na 1 (PS1), ou presenilina 2 (PS2). O início da doença nesses pacientes costuma ocorrer entre os 30 e os 60 anos. Pacientes com síndrome de Down (trissomia 21) também desenvolvem doença de Alzheimer precocemente (média de início aos 50 anos), o que parece estar relacionado com uma cópia extra do gene APP localizado no cromossomo 21. O risco de doença de Alzheimer também é influenciado pelo padrão hereditário de isoformas do gene da apolipoproteína E (APOE) E2, E3 e E4. O risco aumenta em cerca de três vezes, com um alelo apolipoproteína E E4 (APOE4) e, em cerca de 12 vezes, com duas cópias de APOE4; cada cópia de APOE4 também reduz a idade de início em cerca de cinco anos. Diferente de APOE4, APOE2 parece conferir uma proteção relativa contra a doença de Alzheimer. O mecanismo pelo qual o genótipo APOE modifica a susceptibilidade à doença de Alzheimer é desconhecido, mas pode envolver a ligação da proteína APOE à ABeta. 2. ABeta e placas neuríticas: a ABeta é o principal constituinte das placas neuríticas e também está depositada nos vasos sanguíneos cerebrais e meníngeos na doença de Alzheimer. A Abeta é um peptídeo de 38 a 43 aminoácidos, produzido por clivagem proteolítica da proteína transmembrana APP. O processamento normal de APP (proteína responsável por estimular o neurônio a crescer e se reparar em caso de lesão) envolve sua clivagem pela enzima alfa-secretase, que não produz Abeta, e pela beta-secretase (BACE; local beta da enzima de clivagem APP) e gama-secretase, resultando principalmente em um fragmento de 40 aminoácidos (Ab40), que é secretado e depurado pelo cérebro. Na doença de Alzheimer, é produzida uma quantidade desproporcional de Abeta42, uma forma mais longa da molécula, com um aumento da tendência de agregação. As presenilinas 1 e 2 contribuem com a atividade da gama-secretase. Evidências para um papel causal da Abeta na doença de Alzheimer incluem o envolvimento de mutações de APP em alguns casos familiares e a neurotoxicidade de Abeta em algumas circunstâncias. No entanto, existe pouca correlação entre a extensão da deposição de placas amiloides no cérebro e a gravidade da demência na doença de Alzheimer. Uma explicação para essa disparidade é que os oligômeros solúveis Abeta, mais do que as placas insolúveis, podem ser o agente tóxico. Outra possibilidade é que a agregação Abeta produz doença de Alzheimer indiretamente, por meio da promoção da formação de emaranhados neurofibrilares contendo tau. 3. Tau e emaranhados neurofibrilares: Tau é uma proteína citoplasmática que liga a tubulina e estabiliza os microtúbulos, estruturas citoesqueléticas que ajudam a manter a estrutura celular e facilitam o transporteintracelular. Na doença de Alzheimer e em outras tauopatias, a tau se torna hiperfosforilada e se dissocia dos microtúbulos; os microtúbulos desmontam, e agregados de tau hiperfosforilada se unem para formar os emaranhados neurofibrilares. Um papel causal para a patologia da tau na doença de Alzheimer é apoiado pelas observações de que a abundância de Resumindo: fisiologicamente, a APP é clivada pela enzima alfa-secretase, sendo então transformada em fragmentos menores sem ação tóxica. Na DA, a liberação do peptídeo beta-amilóide ocorre a partir da atividade das enzimas beta-secretase e gama- secretase, resultando na agregação e deposição desse peptídeo no córtex cerebral podendo, dessa forma, interferir nas sinapses. 1 SEMANA 6. APG emaranhados neurofibrilares se correlaciona bem com a gravidade da doença e de outras tauopatias (p. ex., demência frontotemporal), nas quais o processamento de Abeta é normal, mas também pode produzir demência. 4. Disfunção sináptica: A doença de Alzheimer é acompanhada por disfunção precoce e perda de sinapses, afetando principalmente a transmissão excitatória no hipocampo e no córtex cerebral. Essas alterações podem contribuir com a perda da memória. 5. Perda neuronal e atrofia cerebral: Certas populações neuronais são preferencialmente perdidas na doença de Alzheimer, incluindo os neurônios glutamatérgicos no córtex entorrinal e o setor CA1 do hipocampo, assim como os neurônios colinérgicos no prosencéfalo. Nas áreas afetadas, observa-se atrofia cerebral focal. 6. Envolvimento vascular: A extensão com a qual a patologia vascular pode contribuir com a doença de Alzheimer é controversa. Evidências dessa conexão incluem a sobreposição entre os fatores de risco para doença vascular e doença de Alzheimer (incluindo genótipo APOE) e o envolvimento de vasos sanguíneos na angiopatia amiloide. A DA pode ser abordada como uma síndrome, isto é, um conjunto de alterações cognitivas, comportamentais e funcionais, ou como uma doença, isto é, com um padrão de alterações de marcadores biológicos que indicam a fisiopatologia subjacente, e síndrome e doença nem sempre se superpõem. Os novos critérios sugeridos para a DA1 classificam a doença a partir de alteração nos marcadores liquóricos e por neuroimagem, focalizando a doença. Isto significa que estes critérios não estadiam a doença e, portanto, não deveriam, como claramente indicado na publicação, ser usados na clínica, já que seu objetivo é o uso em pesquisa. O estágio inicial tem uma apresentação típica de progressivos lapsos de memória. O início dos sintomas pode ser difícil de precisar, porque pode haver uma passagem de lapsos do envelhecimento normal para a DA. Algumas vezes, a consulta médica ocorre por dificuldade de memória “a partir” de um evento, como perda de cônjuge, mudança de casa ou intercorrência clínica, mas uma investigação mais cuidadosa mostra que lapsos já precediam o evento por um período variável. Já na coleta da história, alguns sinais podem ajudar a suspeitar de DA, como alterações na memória, na personalidade e nas habilidades visuais e espaciais. Nesse momento, é importante determinar se há ou não comprometimento funcional, essencial para o diagnóstico de demência da DA. O comprometimento funcional aparece primeiro em duas situações: atividades mais complexas, como controle das finanças e uso de novos equipamentos domésticos, e adaptação a situações novas, como viagens ou mudança de casa. Em situações mais cotidianas, pode haver dificuldade com medicação e enganos ou falhas com compras. Uma vez coletada a história, deve ser realizado o exame neurológico, que, nas fases iniciais da DA, é normal. Na realidade, a presença de sinais focais, parkinsonismo ou reflexos primitivos deveria sugerir outros diagnósticos. A etapa seguinte é a do exame do estado mental, que pode começar com um teste de rastreamento, como o miniexame do estado mental, sempre lembrando que este tipo de teste pode ser insuficiente para pessoas altamente intelectualizadas e tem um viés educacional, isto é, pode levar a resultado falso-positivo em pessoas com baixa escolaridade e a falso-negativo em pessoas com alta escolaridade. A avaliação pode ainda ser complementada com o teste do desenho do relógio e fluência verbal. Esta avaliação pode ser insuficiente e, neste caso, deveria ser realizada uma avaliação neuropsicológica mais completa, que costuma ser necessária na demência inicial e em pessoas altamente intelectualizadas. Em geral, a memória é afetada primeiro e de modo mais intenso, mas precocemente podem ser afetadas a função executiva e a linguagem, por exemplo, como dificuldade para encontrar palavras. A etapa seguinte é a moderada, na qual acontecimentos mais triviais podem ser esquecidos no mesmo dia e algumas atividades, como o controle das finanças, têm que ser totalmente abandonadas. No final desta fase, isto é, na fase moderadamente grave, começa a dependência para atividades básicas, com necessidade de supervisão para o banho e a troca de roupa. Quando a dependência para as atividades básicas é completa, trata-se de fase grave, momento em que tanto as pessoas como o ambiente podem não ser reconhecidos e ocorre perda do controle dos esfíncteres. 1 SEMANA 6. APG A fase seguinte é a da doença muito grave ou terminal, na qual o paciente não consegue manter-se sentado e fica restrito ao leito, sem contato com o ambiente, em dependência total e emitindo sons inarticulados. Considerações gerais e diagnóstico diferencial, a investigação geral (hemograma, bioquímica, hormônios) pode identificar comorbidades, mas não faz diagnóstico de demência, e menos ainda seu diagnóstico diferencial. Para a investigação da DA e o diagnóstico diferencial com outras demências, são importantes o diagnóstico por imagem e marcadores específicos, sempre lembrando que estes exames não têm muito significado sem a correlação com os achados clínicos. O melhor exame é a ressonância magnética de crânio, pode-se observar atrofia nos hipocampos e córtex entorrinal, ainda na fase anterior à demência propriamente dita. Com a evolução da doença, a atrofia passa a acometer a porção basal dos lobos temporais, giro do cíngulo e pré-cúneo. Pode ser feita avaliação volumétrica dos hipocampos, com resultados mais acurados, mas este método requer programas especiais e maior consumo de tempo. Uma avaliação semiquantitativa pode ser feita a partir dos cortes coronais, usando a escala de atrofia temporal mesial. A tomografia por emissão de fóton único (SPECT) mostra redução na perfusão, e a tomografia por emissão de pósitrons marcada por 18- fluorodeoxiglicose (FDG-PET) mostra alteração no metabolismo da glicose. Com ambos os métodos, observa-se redução nas regiões temporoparietais, e alterações nos lóbulos parietais inferiores e pré-cúneo são particularmente indicativas da doença. Ambos os métodos estão disponíveis em muitos lugares. Mais recentemente, mas com acesso muito restrito, está disponível o estudo de deposição de amiloide (PET- amiloide), para o qual existem diferentes marcadores, mas deve-se ter em conta que aumento de carga amiloide não é exclusividade da DA e pode ser observado em outras condições, como na demência com corpos de Lewy e angiopatia amiloide. O tratamento vai ser medicamentoso específico, tratamento não medicamentoso e tratamento das alterações do comportamento. O tratamento implica um plano terapêutico individualizado e seu efeito deveria ser avaliado sobre a cognição, a funcionalidade e o comportamento. O tratamento específico baseia-se em duas alterações de neurotransmissores demonstrada na DA: o déficit de atividade colinérgica e a hiperatividadeglutamatérgica. Para o déficit colinérgico, foram introduzidos os inibidores das colinesterases, dos quais estão disponíveis donepezila, galantamina e rivastigmina. Embora compartilhem o mesmo efeito, há diferenças significativas entre estas drogas. Ao iniciar o tratamento, é importante deixar claro qual o efeito esperado, que pode ser de melhora muito discreta, mas mais provavelmente estabilização dos sintomas por um período variável de paciente a paciente. Considerando o risco de bradiarritmia, é recomendável realizar eletrocardiografia (ECG) antes da primeira administração, iniciar sempre com dose mínima e aumentar a intervalos de 2 ou preferencialmente 4 semanas. Em caso de efeito colateral significativo, retornar à dose anterior, se necessário acrescentando sintomático (p. ex., antiemético) e tentar aumentar novamente a dose, após o desaparecimento do efeito colateral. Esperar um intervalo de 8 a 12 semanas para avaliar a resposta e considerar que não houve resposta apenas após dose e intervalo adequados e, neste caso, tentar outro inibidor. Caso haja substituição, atentar à possibilidade de piora. Um declínio rápido pode indicar que havia uma resposta e que esta está sendo perdida e não há resposta ao novo inibidor. Neste caso, é recomendável o retorno imediato à medicação anterior. Estas drogas são indicadas para fase leve a moderada da DA (todos) e moderadamente grave (donepezila). Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos, desconforto epigástrico, tontura e cefaleia. É mais grave a possibilidade de bradiarritmia. Não existe contraindicação formal, mas atenção deve ser dada às seguintes comorbidades, pelo potencial de piora: hipertensão, hipotensão, história prévia de sangramento gástrico, asma e incontinência urinária. Outra alteração na DA é a manutenção dos canais de íons dos receptores NMDA semiabertos, com atividade glutamatérgica contínua, o que leva a um influxo constante de cálcio suficiente para prejudicar a detecção de sinal na sinapse, interferindo com os 1 SEMANA 6. APG processos de aprendizado e memória. Adicionalmente, o aumento da concentração intracelular de cálcio desencadeia uma série de reações que levam a morte neuronal. A memantina é um antagonista glutamatérgico de baixa afinidade, suficiente para inibir a ação da liberação em baixo nível de glutamato, mas não o sinal, ou seja, são criadas condições mais próximas à fisiológica. Foi demonstrado efeito da memantina em estágios moderado a grave da DA. Não há evidência de que a droga funcione na fase leve. A memantina pode ser associada a inibidores quando a resposta a estes declina e tal associação tem um efeito sinérgico. A droga é bem tolerada e, na realidade, houve mais eventos adversos nos grupos placebo que nos tratados nos estudos que levaram a sua aprovação, mas sem diferença estatística quanto a este ponto, sendo mais comuns confusão e cefaleia. A droga pode ser iniciada em 10 mg/dia, aumentando para 20 mg/dia em dose única ou fracionada em 2 vezes. Nomes técnicos: 1. Apraxia: incapacidade para realizar tarefas que exijam recordar padrões ou sequências de movimento. 2. Bradicinesia: dificuldade em realizar movimentos voluntários e promove a lentificação de reflexos e movimentos do corpo. 3. Mioclonia: contração muscular breve, semelhante a um choque, que pode variar em termos da gravidade e distribuição É a capacidade de registrar, armazenar e reter informação, podendo estar prejudicada por doença cortical difusa ou doença bilateral do lobo temporal. Do ponto de vista clínico, a memória é avaliada por meio do teste da memória imediata, da memória recente e da memória remota. Didaticamente, a atividade da memória é dividida em três fases: Fixação: refere-se à aquisição de novas informações. Fixam-se mais facilmente as informações que despertam o nosso interesse e possuem maior conotação emocional, as que têm um caráter de novidade, as que podem ser associadas às informações anteriormente adquiridas e as que envolvem ao mesmo tempo mais de um canal sensorial. Conservação: manutenção, em estado de latência, das informações que foram fixadas. As informações conservadas vão, ao longo do tempo, sofrendo um processo lento de desintegração, que segue a lei de regressão mnêmica de Ribot. De acordo com esta, a perda das informações armazenadas se faz das mais recentes para as mais antigas, das mais complexas para as mais simples e das menos organizadas para as mais organizadas Evocação: corresponde ao retorno, espontâneo ou voluntário, à consciência das informações armazenadas. Assim como a percepção não é uma cópia fiel do mundo externo, a evocação também nunca é idêntica à imagem perceptiva fixada: cada vez que evocamos estamos reconstruindo, sempre com alterações, a imagem armazenada As memórias são classificadas: 1. De acordo com sua função; 2. De acordo com o tempo que duram; 3. De acordo com seu conteúdo. Há basicamente dois tipos de memória de acordo com sua função. Memória de trabalho: também pode ser chamada de memória operacional, ela é muito breve e fugaz, serve para “gerenciar a realidade” e determinar o contexto em que os diversos fatos, acontecimentos ou outro 1 SEMANA 6. APG tipo de informação ocorrem, se vale a pena ou não fazer uma nova memória disso ou se esse tipo de informação já consta dos arquivos. Mantém, durante a aquisição e durante mais alguns segundos, no máximo poucos minutos, a informação que está sendo processada no momento. Ajuda a saber onde estamos ou o que estamos fazendo a cada momento, e o que fizemos ou onde estávamos no momento anterior. Dá continuidade, assim, a nossos atos. A memória de trabalho depende, simplesmente, da atividade elétrica dos neurônios dessas regiões: há neurônios que “disparam” seus potenciais de ação no início; outros, no meio; e outros, no fim dos acontecimentos, sejam estes quais forem. As células que detectam o início e o fim dos acontecimentos denominam-se neurônios on e neurônios off, encontrados não só no córtex pré-frontal, mas também em todas as vias sensoriais. As regiões corticais pré-frontais são importantes para a integridade da memória de trabalho. Nas tarefas verbais, há maior envolvimento das áreas pré-frontais esquerdas, assim como das áreas de Broca (frontal esquerda inferior) e de Wernicke (temporal esquerda superior). Nas tarefas visuoespaciais (seguir mapas mentalmente, sair de labirintos gráficos e montar quebra-cabeças), há maior implicação das áreas pré- frontais direitas, assim como de zonas visuais de associação do carrefour temporoparietoccipital direito. Quando o córtex temporal é lesado, há prejuízo da memória de trabalho visual (mas a memória de trabalho espacial é preservada); quando há lesão dos lobos parietais, ocorre o oposto. Pacientes com lesões nas áreas cerebrais associadas aos conhecimentos semânticos (sentido das palavras), como o córtex dos lobos temporais laterais e temporoparietais, têm prejuízos nos desempenhos da memória de trabalho verbal. Memória declarativa: memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento, porque nós, os humanos, podemos “declarar” que existem e descrever como as adquirimos. Ela pode ser separada em semântica e episódica. Semântica: quase sempre, as memórias semânticas (por exemplo, o inglês) são adquiridas por meio de memórias episódicas. Se refere ao aprendizado, à conservação e à utilização do arquivo geral de conceitos e conhecimentos do indivíduo (os chamados conhecimentos gerais sobre o mundo). Também, cabe assinalar, a memória semântica diz respeito ao registro e à retenção de conteúdos em função do significado que têm. Ela é um componente da memória delongo prazo que inclui os conhecimentos de objetos, fatos, operações matemáticas, assim como das palavras e seu uso. Corresponde às capacidades de nomeação e categorização. Depende, de forma estreita, das regiões inferiores e laterais dos lobos temporais, sobretudo no hemisfério esquerdo (diferentemente da memória episódica, que depende das regiões mediais desses lobos, sobretudo dos hipocampos). Episódica: as memórias episódicas são todas autobiográficas. Existem uma vez que sabemos pessoalmente sua origem. Trata-se de memória explícita, de médio e longo prazos, relacionada a eventos específicos da experiência pessoal do indivíduo, ocorridos em determinado contexto e local. A perda de memória episódica obedece à lei de Ribot (perdem-se primeiro os elementos recentemente adquiridos e, depois, os mais antigos). Esse tipo de memória depende, em essência, de mecanismos relacionados às regiões da face medial dos lobos temporais, particularmente o hipocampo e os córtices entorrinal e perirrinal. Quando tais áreas se deterioram, por exemplo, com o avançar da demência de Alzheimer, o paciente perde totalmente a capacidade de fixar e lembrar eventos ocorridos há poucos minutos ou horas, inclusive situações marcantes e significativas para ele. Os pacientes com síndrome de Wernicke-Korsakoff têm déficits graves na memória episódica, uma condição relacionada a danos no diencéfalo, primariamente nos corpos mamilares, no trato mamilo-talâmico e no tálamo anterior. Memória procedural: memórias de capacidades ou habilidades motoras e/ou sensoriais e o que comumente chamamos de “hábitos”. Exemplos típicos são as memórias de como andar de bicicleta, nadar, saltar, soletrar, tocar em um teclado, etc. É difícil “declarar” que possuímos tais memórias; para demonstrar que as temos, devemos executá-las. A localização da memória de procedimentos está relacionada com o sistema motor e/ou sensorial específico envolvido na tarefa. As principais áreas envolvidas são a área motora suplementar (lobos frontais), os núcleos da base (sobretudo o striatum) e o cerebelo. De acordo com estudos recentes, essa memória pode ser dividida em dois tipos: Implícita: mais ou menos automática, e sem que o sujeito perceba de forma clara que as está aprendendo: mostra-se difícil, senão impossível, descrever de forma coerente (e, portanto, tornar explícito) cada passo da aquisição da capacidade de andar de bicicleta. (geralmente dura a vida toda); Explícita: adquiridas com plena intervenção da consciência. 1 SEMANA 6. APG A memória de curta duração (dura até seis horas) e a memória de longa duração, memória principal ou primária (dura mais de seis horas ou mais depois de adquirida). Memória sensorial Dura menos de um segundo. Permanece ativa apenas o tempo necessário para se dar a percepção. É muito frágil e possui uma capacidade muitíssimo limitada. É mais propriamente uma função da atenção do que da memória. Memória de longa duração Levam tempo para serem consolidadas. Nas primeiras horas após sua aquisição, são lábeis e suscetíveis à interferência por numerosos fatores, desde traumatismos cranianos ou eletrochoques convulsivos até uma variedade enorme de substâncias ou, mesmo, à ocorrência de outras memórias. A exposição a um ambiente novo dentro da primeira hora após a aquisição, por exemplo, pode deturpar seriamente, ou até cancelar, a formação definitiva de uma memória de longa duração. Uma liberação moderada de hormônios do estresse (adrenalina, corticoides) nos minutos seguintes à aquisição pode melhorar a consolidação da memória de longa duração; uma liberação excessiva ou a administração desses hormônios em doses elevadas podem resultar em amnésia. A administração de vários inibidores de enzimas importantes no hipocampo pode impedir a fixação de memórias nas primeiras seis ou mais horas depois da aquisição. As memórias de longa duração não ficam estabelecidas em sua forma estável ou permanente imediatamente depois de sua aquisição. O processo que leva a sua fixação definitiva de maneira que mais tarde poderão ser evocadas nos dias ou nos anos seguintes denomina-se consolidação. Memória de curta duração Aquela que dura entre 1 e 6 horas, justamente o tempo necessário para que as memórias de longa duração se consolidem. Possui uma capacidade de armazenamento limitada e dura de segundos a minutos. A memória de trabalho (ou operacional) corresponde à memória de curto prazo. Refere-se ao armazenamento temporário de informações para a realização de tarefas cognitivas. A memória de curta duração requer as mesmas estruturas nervosas que a de longa duração, mas envolve mecanismos próprios e distintos. É bastante resistente a muitos dos agentes que afetam os mecanismos da consolidação da memória de longa duração. Memória remota Memórias de longa duração que duram muitos meses ou anos. Um ser humano de 70 anos é capaz de lembrar, até com detalhes, episódios importantes de sua infância. Memória psicológica (cognitiva ou neuropsicológica): é uma atividade altamente diferenciada do sistema nervoso, que permite ao indivíduo codificar, conservar e evocar, a qualquer momento, os dados aprendidos da experiência. Memória genética e epigenética: abrange conteúdos de informações biológicas adquiridos ao longo da história filogenética da espécie e ao longo das vivências do indivíduo e de seus ancestrais, contidos no material biológico. Depois de passar pela memória de trabalho (MT), a informação se armazena formando memórias de curta duração (MCD) e/ou de longa duração (MLD). Em princípio, a primeira poderia corresponder a uma fase inicial da segunda. Porém, por meio de vários tratamentos, pode-se suprimir a MCD sem alterar a MLD. Em consequência, a MCD obedece a um sistema separado e paralelo ao da MLD; seu papel é manter a memória “viva” enquanto a MLD está sendo formada. Os retângulos que representam a MT, a MCD e a MLD não estão desenhados em escalas proporcionais à sua duração, que é de segundos ou poucos minutos para a MT, de 1 a 6 horas para a MCD, e de muitas horas, dias ou até anos para a MLD. Doze horas após a aquisição, inicia-se a intervenção do(s) mecanismo(s) que regula(m) a persistência da memória. Há pelo menos dois mecanismos desse tipo: um que age 12 horas depois da aquisição; outro que age reiteradamente a cada 24 horas depois da aquisição. Ambos são diferentes do ponto de vista bioquímico e agem independentemente do sono. 1 SEMANA 6. APG Memória imunológica: esse tipo de memória reúne informações registradas e potencialmente recuperáveis pelo sistema imune de um ser vivo. Memória coletiva, social ou cultural: envolve conhecimentos e práticas sociais e culturais (costumes, valores, práticas, linguagem, habilidades artísticas, conceitos e preconceitos, ideologias, estilos de vida, rituais, gesticulações, etc.) produzidos, acumulados e mantidos por um grupo social. Para a formação das unidades de memória, as estruturas límbicas temporomediais, principalmente relacionadas ao hipocampo, à amígdala e ao córtex entorrinal, são fundamentais. Elas atuam, em especial, na consolidação dos registros e na transferência das unidades de memória de curto e médio prazos (intermediária) para a de longo prazo (estocagem da memória remota). O substrato neural da memória de longo prazo (registros bem consolidados) repousa basicamente no córtex cerebral, ou seja, nas áreas de associação neocorticais, principalmente frontais e temporoparietoccipitais. Nas memórias recentes, há mudanças e consolidações de sinapses neuronais relacionadas a complexas cascatas de eventos moleculares e celulares necessárias para a primeiraestabilização de informações recentemente adquiridas, nas redes neuronais coordenadas pelo hipocampo. Em contraste, nas memorizações lentas e de longo prazo, a consolidação das memórias se baseia em processos de nível sistêmico (redes neuronais), lentos, tempo-dependentes, que convertem os traços lábeis de memória recente em formas mais permanentes, estáveis e ampliadas, baseadas na reorganização de redes neurais de suporte à memória, também coordenadas pelos hipocampos. A interrupção bilateral do circuito hipocampo- mamilo-tálamo-cíngulo pode determinar a incapacidade de fixação de novos elementos mnêmicos, produzindo, assim, a síndrome amnéstica, de maior ou menor intensidade. As estruturas mais importantes para a memória são, certamente, os hipocampos. 1.Excitação repetida das células hipocampais por meio da estimulação de receptores glutamatérgicos do tipo AMPA, assim chamados porque respondem tanto ao glutamato como a uma substância denominada ácido alfa-amino-3-hidroxi-metil-5-4- isoxazolpropiônico. Os receptores GABAérgicos do tipo A inibem a indução de potenciação de longa duração. 2.Essa excitação leva a uma despolarização persistente da célula; esta obedece ao ingresso de sódio à célula por meio do próprio receptor AMPA. 3.Como consequência da despolarização, a célula expulsa o íon magnésio que normalmente obtura o receptor glutamatérgico de tipo NMDA, assim chamado porque é capaz de responder tanto ao glutamato quanto a seu análogo, o ácido N-metil-D- aspartato. Uma vez “desentupido”, o receptor NMDA passa a ser “funcional” e a permitir o ingresso de cálcio à célula através dele. 4.Em algumas áreas cerebrais, ativam-se também receptores glutamatérgicos metabotrópicos que, por meio de processos metabólicos, aumentam a concentração do cálcio intracelular. 5.O aumento de cálcio intracelular estimula direta ou indiretamente uma série de enzimas chamadas proteinoquinases, das quais há vários tipos: as proteinoquinases cálcio/calmodulina-dependentes (CaMKII, III e IV), as proteinoquinases cálcio- dependentes (PKC), as proteinoquinases dependentes do GMPc (PKG), as proteinoquinases dependentes do AMPc (PKA) e as proteinoquinases ativáveis extracelularmente (ERKs), que, até pouco tempo atrás, acreditava-se serem ativáveis apenas por agentes mitógenos. As proteinoquinases são enzimas (i.e., catalisadores biológicos de natureza proteica) que regulam a transferência de íons fosfato desde o trifosfato de adenosina (ATP) a sítios específicos em diversas proteínas. A fosforilação das proteínas geralmente incrementa sua função. (A calmodulina é uma substância endógena presente nas células. O guanililfosfato cíclico [GMPc], o adenosilfosfato cíclico [AMPc] e o ATP são nucleosídeos, parentes próximos dos nucleotídeos que formam parte da sequência do ácido desoxirribonucleico [DNA] e dos diversos tipos de ácido ribonucleico [RNA]). 6.As proteinoquinases CaMKII e PKC favorecem a fosforilação dos diversos tipos de receptores ao glutamato; ao fazê-lo, os ativam. A fosforilação do receptor glutamatérgico de tipo AMPA, por exemplo, por intervenção da CaMKII, dura várias horas após a indução de potenciação de longa duração. 7.O papel das proteinoquinases varia conforme a enzima e sua localização: pré-sináptica (nas terminações axônicas estimuladas) ou pós-sináptica (na célula inervada por esses axônios). A PKG é necessária nos primeiros minutos após a indução de potenciação de longa duração, participa na liberação de óxido nítrico (NO) e outras substâncias pequenas que estimulam a transmissão glutamatérgica. A PKC pré-sináptica fosforila uma proteína chamada GAP- 43, que também regula a liberação de glutamato. Posteriormente, e durante 30 a 60 minutos, outras isoformas de PKC diferentes das que se encontram nas terminações pré-sinápticas participam em diversos processos pós-sinápticos, que incluem a fosforilação dos próprios receptores glutamatérgicos. Com a PKC pré-sináptica, o NO e o monóxido de carbono (CO), sintetizados pós-sinapticamente em 1 SEMANA 6. APG conjunção com a ação da enzima proteinoquinase G (dependentes do GMP cíclico), difundem para a terminal pré-sináptica e promovem também a liberação de glutamato. 8.As ERKs e as PKA também fosforilam receptores glutamatérgicos; mas seu papel crucial consiste na fosforilação de fatores de transcrição de DNA presentes no núcleo das células, de 2 a 6 horas após a indução da potenciação de longa duração. 9.O principal fator de transcrição estimulado por essas duas enzimas denomina-se CREB (do inglês cAMP responsive-element binding protein). A ativação do CREB, 2 a 6 horas depois de iniciada a potenciação de longa duração, leva o núcleo das células pós-sinápticas a produzir RNAs mensageiros (mRNAs) que “ordenam” a síntese de numerosas proteínas nos ribossomos. Algumas dessas proteínas são outros fatores de transcrição, que voltam para o núcleo (c-Fos, zif-268) ou se transladam a outros lugares da célula. Outras são proteínas de adesão celular, que são transportadas às sinapses dessas células, alterando sua superfície e, portanto, aumentando ou diminuindo sua função. 10.Em muitos dendritos, há um aparelho de síntese proteica que prescinde da síntese de mRNAs pelo núcleo e atua formando-as a partir do uso de mRNAs preexistentes. Trata-se de um sistema que originalmente foi descrito em células tumorais e que, nos dendritos apicais de CA1, é imprescindível para a síntese de GluR1 – uma das proteínas que compõem o receptor glutamatérgico AMPA – e outras proteínas também essenciais para a transmissão sináptica e a memória. Esse sistema extrarribossomal de síntese proteica denomina-se mTOR, sigla da expressão inglesa “mammalian target of rapamycin” (alvo para a rapamicina nos mamíferos), e é justamente inibido pelo antibiótico rapamicina. O sistema mTOR depende do fosfoinositol-3-fosfato, da PKA e do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) para ser ativado. Atualmente, os estudos psicológicos e neurocientíficos sobre a memória psicológica indicam que o processo de memorização (codificação, armazenamento e futura evocação) de novos elementos da memória depende de: Nível de consciência e estado geral do organismo: o indivíduo deve estar desperto, não muito cansado, calmo, em bom estado geral, para que a memorização ocorra da melhor maneira possível. Atenção focal: diz respeito à capacidade de manutenção de atenção concentrada sobre o conteúdo novo a ser fixado. Organização e distribuição temporal: diz respeito a distribuir, no processo de aprendizado de novas informações, as tentativas de aprendizado ao longo de um período de tempo mais longo e cadenciado; é melhor praticar “pouco e sempre” do que tentar memorizar e aprender tudo apressadamente, em um único dia (p. ex., no dia antes da prova). Interesse e colorido emocional: relaciona-se às informações a serem fixadas, assim como ao empenho do indivíduo em aprender (vontade e afetividade). Conhecimento anterior: elementos já conhecidos ajudam a adquirir elementos novos, principalmente quando se articulam os novos conhecimentos a informações, classificações e esquemas cognitivos já bem assentados, formando uma cadeia de elementos mnêmicos. Capacidade de compreensão do significado da informação: buscar entender o significado da informação ou conhecimento que se está tentando aprender é de fundamental ajuda para a memorização. Estabelecimento de um contexto rico e elaborado: o contexto e as circunstâncias associadas à informação que se quer memorizar têm papel central na eficácia da memorização. Codificação da informação nova em mais de uma via: para o armazenamento mais eficaz de uma informação nova, quanto maior for o número de canais sensoriaise dimensões cognitivas distintas, mais eficaz será a fixação. Os termos amnésia, hipomnésia e hipermnésia significam abolição, diminuição e aumento da capacidade mnêmica, respectivamente. As alterações quantitativas da memória podem ser classificadas de duas formas: Quanto ao tempo em que pertencem as lembranças: em anterógradas, retrógradas e retroanterógradas; Quanto à extensão e ao conteúdo das recordações: em generalizadas, lacunares e seletivas. Amnésia anteroretrógrada: a amnésia (hipomnésia) anterógrada também é denominada amnésia (hipomnésia) de fixação. Consiste na impossibilidade (ou dificuldade) de formar novas lembranças de longo prazo – de adquirir novas informações – a partir do momento em que o agente patogênico atuou como tal. Primariamente ocorre no transtorno amnésico e nos quadros demenciais. Ocorre ainda nos quadros de delirium e estados crepusculares, em função de estarem prejudicadas a atenção e a apreensão da realidade (apercepção); nos estados de ansiedade e de agitação psicomotora (incluindo a mania), na maioria dos pacientes com retardo mental grave, em virtude 1 SEMANA 6. APG de uma lesão cerebral, que em geral está presente, e de uma dificuldade de apercepção; e na depressão, graças ao prejuízo na atenção provocado pelo desinteresse. Nos blackouts, que são lacunas de memória referentes a episódios de embriaguez alcoólica, o distúrbio se dá na fixação. Indivíduos com hipomnésia anterógrada frequentemente perdem objetos, pois não sabem onde os colocaram; não conseguem guardar recados que deveriam transmitir; esquecem-se dos nomes e das faces de pessoas que acabaram de conhecer; perdem- se na rua, pois não se lembram por onde passaram antes de chegar ali; e têm dificuldade em registrar a data corrente. Amnésia retrógrada: a amnésia (hipomnésia) retrógrada também é conhecida como amnésia (hipomnésia) de evocação. Refere-se à impossibilidade (ou dificuldade) de recordar eventos anteriores à atuação do fator causal do distúrbio mnêmico; não se consegue recuperar memórias de longo prazo, as quais tinham sido adequadamente fixadas. A amnésia retrógrada afeta mais a recordação de eventos recentes do que de remotos. Uma forma pura de amnésia retrógrada, isto é, não associada à amnésia anterógrada, é rara. Ocorre principalmente em quadros dissociativos histéricos, sendo encontrada ainda em traumatismos cranioencefálicos, na intoxicação por monóxido de carbono e em lesões talâmicas. Amnésia retroanteroretrógrada: a amnésia (hipomnésia) retroanterógrada também é denominada mista ou de fixaçãoevocação. É a forma mais comum. É característica dos quadros demenciais e do delirium, podendo ocorrer, ainda, após um traumatismo cranioencefálico ou uma aplicação de eletroconvulsoterapia. Amnésia (hipomnésia) generalizada: na amnésia (hipomnésia) generalizada estão afetadas todas as recordações de grande parte do passado, compreendendo os últimos meses ou anos, ou mesmo a vida inteira. Trata-se de um tipo pouco frequente de distúrbio mnêmico. A amnésia (hipomnésia) generalizada pode ocorrer em seguida a um grave traumatismo cranioencefálico, em fase terminal de demência e em transtornos dissociativos histéricos (como a fuga psicogênica). Amnésia (hipomnésia) lacunar: também é chamada localizada. Aqui a falha de memória abrange especificamente determinado espaço de tempo, de limites relativamente precisos, durante o qual houve um prejuízo na capacidade de fixação. Todos os eventos anteriores e posteriores a esse período foram normalmente fixados e são normalmente evocados. Ocorre posteriormente a um estado de coma (como nas crises convulsivas do tipo grande mal) ou de delirium, a estados crepusculares epilépticos e histéricos, graves agitações maníacas ou psicóticas, um ataque de pânico ou um evento psicológico traumático. Amnésia (hipomnésia) seletiva: também chamada de sistemática. Aqui o que as lembranças têm em comum é o seu conteúdo e significado afetivo. É observada em quadros dissociativos histéricos (como a amnésia psicogênica). Um exemplo de amnésia seletiva, que também serve para caracterizar a amnésia retrógrada pura, seria o seguinte: uma moça briga com o namorado e, depois disso, quando o reencontra, não é mais capaz de reconhecê-lo. Além disso, não consegue se lembrar de nenhum evento em que os dois estiveram juntos. Hipermnésia anterógrada: também é chamada de hipertrofia de memória. Consiste em capacidade exagerada de armazenamento de novas informações. Geralmente está restrita a uma habilidade específica: memorizar uma grande quantidade de números ou nomes; reproduzir na íntegra uma música ou um texto extenso após terem sido ouvidos uma única vez; ou efetuar cálculos matemáticos muito complexos. Pode ocorrer em pessoas normais, porém é mais frequente em indivíduos com retardo mental e, mais ainda, em autistas – entre os quais a maioria apresenta também retardo mental. Hipermnésia retrógrada: pode ser observada na síndrome maníaca (primária ou secundária). Ocorre um excesso de recordações em breve espaço de tempo. Embora mais numerosas, as lembranças em geral são pouco claras e precisas, não havendo controle voluntário sobre elas. Além disso, há ao mesmo tempo hipomnésia de fixação. Outra forma de hipermnésia de evocação é a memória panorâmica – ou ecmnésia, como querem alguns autores –, observada em pessoas que estão na iminência de morrer. Durante segundos ou poucos minutos passam pela mente do indivíduo sua vida inteira ou os acontecimentos mais importantes, como se fosse um filme projetado com enorme velocidade. Uma terceira forma de hipermnésia de evocação pode ser encontrada em estados crepusculares epilépticos e histéricos, no transe hipnótico, no sonho, no delirium e na intoxicação por alucinógenos. Consiste em um súbito ressurgimento de recordações que estavam aparentemente esquecidas ou em uma alteração transitória em que certos eventos autobiográficos são recordados de forma mais vívida, detalhada e exata do que o habitual. Leme Lopes (1980) usou o termo acromnésia para designar esse fenômeno. Hipermnésia lacunar: é observada em pacientes com transtorno de pânico, especialmente em relação à rememoração do primeiro ataque; e no transtorno de estresse pós-traumático, em relação ao evento traumático. Hipermnésia seletiva A hipermnésia seletiva ocorre na depressão, quanto a fatos dolorosos ou que despertem o sentimento de culpa; na mania, quanto a sucessos e realizações pessoais; e nos quadros delirantes, quanto a fatos que pareçam confirmar o seu juízo patológico. 1 SEMANA 6. APG A alomnésia também é conhecida como ilusão de memória, por se tratar de uma alteração análoga à que ocorre na sensopercepção. Aqui as recordações de um evento real são deturpadas, distorcidas pelo indivíduo de forma involuntária. Ocorre em pessoas normais e em situações patológicas: no delirium, na demência, no transtorno amnésico e nos estados crepusculares, associada a alterações quantitativas da memória; na mania e na melancolia, por influência do afeto dominante; e, ainda, na esquizofrenia e no transtorno delirante, como expressão do conteúdo dos delírios. A paramnésia também é conhecida como alucinação de memória, por se tratar de uma alteração análoga à que ocorre na sensopercepção. Trata-se da recordação de algo que de fato não ocorreu, de uma falsa lembrança, embora para o paciente ela seja verdadeira. A fabulação (ou confabulação) seria um tipo especial de paramnésia. Fabulação é um termo em geral utilizado para designar as alucinações de memória que ocorrem em quadros amnésicos de origem orgânica como no transtorno amnésico, na demência e no delirium. As alterações anatômicas relacionadas às confabulações compreendemlesões nos corpos mamilares, no núcleo dorsomedial do tálamo, assim como no córtex orbitofrontal. Entretanto, cerca de outras 20 áreas lesadas já foram associadas às confabulações, indicando a complexidade de sua fisiopatologia. No déjà vu (já visto), o indivíduo tem uma sensação de familiaridade diante de uma situação (ou objeto) inteiramente nova, como se ele já a houvesse vivenciado anteriormente. É muito comum, quando vamos a um lugar pela primeira vez, a sensação de que estivemos lá antes. No jamais vu (nunca visto) ocorre o oposto: há uma ausência da sensação de familiaridade diante de uma situação já vivenciada uma ou mais vezes no passado. O déjà vu e o jamais vu podem ocorrer na epilepsia do lobo temporal, na esquizofrenia, em síndromes de ansiedade e em pessoas normais. A criptomnésia, termo criado por S. Freud, consiste na falha relativa ao reconhecimento como pretérito. Recordações voltam à mente do indivíduo, mas não são reconhecidas como tais, parecendo a ele ideias novas, criações originais suas. É o mecanismo dos casos de plágio involuntário. O próprio Freud reconheceu que havia, inconscientemente, tomado para si a autoria de uma hipótese psicanalítica, relativa à bissexualidade humana, que seu então amigo Fliess lhe comunicara algum tempo antes. Representa também um distúrbio quanto ao reconhecimento como pretérito. Trata-se de uma presentificação do passado: a recordação é tão intensa, quase alucinatória, que o paciente se comporta como se o evento pretérito estivesse ocorrendo naquele momento, como se ele estivesse vivendo em uma época anterior de sua vida. Ocorre em estados crepusculares histéricos e epilépticos, em estados de obnubilação oniroide (como no delirium ocupacional), na intoxicação por alucinógenos e na demência. Um exemplo de ecmnésia, de natureza dissociativa, foi o de uma senhora de mais de 60 anos que, após a morte súbita do marido, passou a agir como criança, brincava o dia inteiro e ficava chamando pelos pais, falecidos havia muito tempo. Em um simples diálogo com o paciente e na coleta dos dados da anamnese, já é possível ter uma estimativa razoável sobre a sua memória, especialmente quanto a sua capacidade de evocação. Observa-se se ele é capaz de precisar os detalhes dos fatos narrados e ordená-los cronologicamente. Memória de trabalho: observa-se inicialmente o grau de habilidade do paciente de prestar atenção e se concentrar. Particularmente importante é a dificuldade em realizar novas tarefas que incluam a execução de várias etapas distintas em uma sequência após instrução. Um teste simples é aquele incluído no Teste Minimental, quando se solicita ao paciente que realize a tarefa: “Veja esta folha de papel em minha mão; quero que pegue este papel com sua mão direita, que o dobre no meio e, depois, o coloque no chão”. Também são formas de testar a memória de trabalho solicitar que uma pessoa repita números em sequência direta (a pessoa sem alterações repete de 5 a 8 dígitos; 4 é resultado limítrofe; e 3 ou menos dígitos, resultado alterado) e sequência inversa (normal de 4 a 5 dígitos; 3, resultado limítrofe; e 2 ou menos dígitos, alterado). Podese igualmente testar a memória de trabalho de natureza visuoespacial, utilizando-se labirintos gráficos e quebracabeças. De modo geral, todas as condições que afetam as regiões pré-frontais causam alteração da memória de trabalho. Elas ocorrem em distintas condições clínicas, mas sobretudo nas demências, como: Demência frontotemporal (DFT), sobretudo na variante frontal da DFT. Demência de Alzheimer (sobretudo na variante frontal desta demência). Demências vasculares e demência com corpos de Lewy. A memória de trabalho pode também estar comprometida na esclerose múltipla e no traumatismo craniano. Na demência de Alzheimer, o componente “sistema executivo” parece ser o que mais está prejudicando na memória de trabalho. Em quadros psicopatológicos como esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e transtorno obsessivo-compulsivo, também se verificam alterações da memória de trabalho. No envelhecimento normal, ocorrem frequentemente 1 SEMANA 6. APG dificuldades, de leves a moderadas, na memória de trabalho. Memoria episódica: suspeita-se de alteração da memória episódica quando se nota que o sujeito vai se tornando incapaz de reter e lembrar informações e experiências recentes de maneira correta e acurada. Um modo simples de fazer um primeiro rastreamento sobre a memória episódica de uma pessoa é contar uma pequena história para ela e, alguns minutos depois, pedir que a reconte. É importante, para avaliar o significado da alteração da memória episódica, que sejam investigadas outras áreas cognitivas além da memória (como linguagem, atenção, habilidades visuoespaciais e funções executivas). Por fim, devem ser examinados sinais neurológicos focais e alterações de possíveis doenças físicas sistêmicas. As perdas de memória episódica ocorrem principalmente nos transtornos neurocognitivos, sobretudo na demência de Alzheimer. Nesses casos, os déficits de memória instalam-se de forma lenta e progressiva. Também nos transtornos neurocognitivos especificamente associados à memória, como na síndrome de WernickeKorsakoff, ocorre prejuízo marcante da memória episódica. Memória semântica: pesquisam-se alterações de memória semântica verificando-se a dificuldade do paciente em tarefas como nomear itens cujos nomes ele previamente sabia (mostrar um relógio, uma caneta e uma régua e pedir que o indivíduo os nomeie). Deve-se diferenciar as dificuldades leves e benignas, como lembrar o nome de pessoas ou outros nomes próprios (muito comuns em adultos de meia- idade e idosos), da verdadeira perda da capacidade de lidar com informação semântica. Na demência de Alzheimer, há alterações pronunciadas da memória semântica. Isso ocorre devido à deterioração das regiões mediais e ventrais dos lobos temporais e de regiões temporoparietais do hemisfério esquerdo. Na demência frontotemporal (DFT), na variante que afeta mais os lobos temporais (variante semântica da DFT), ocorre significativa perda da memória semântica, o que leva a dificuldades nas tarefas de nomeação e compreensão de palavras isoladas, além de empobrecimento dos conhecimentos gerais (condição descrita por alguns autores como demência semântica). Na variante comportamental da DFT (que afeta mais os lobos frontais), a memória semântica pode estar menos comprometida. Também na demência com corpos de Lewy, embora se verifiquem déficits significativos nas funções executivas frontais, há relativa preservação da memória semântica. Memória de procedimentos: suspeita-se da presença de alterações da memória de procedimentos quando o indivíduo apresenta ou perda de habilidades motoras ou visuoespaciais previamente aprendidas, ou grande dificuldade em aprender novas habilidades. Por exemplo, o paciente pode perder a habilidade de escrever à mão ou de digitar em um teclado, de tocar um instrumento musical, de pregar um botão ou de chutar uma bola. A doença de Parkinson (assim como a síndrome de Parkinson por causas vasculares, tumorais, etc.) é a condição mais frequente em que se observa perda da memória de procedimentos. Outras doenças que comprometem a memória de procedimentos são doença de Huntington, paralisia supranuclear progressiva e degeneração olivopontocerebelar. Também tumores, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hemorragias, degenerações e outras lesões nos núcleos da base ou no cerebelo (degeneração cerebelar) podem prejudicar a memória de procedimentos.