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O que é CNV
Na Comunicação Não Violenta somos encorajados a nos conectar com nossas necessidades, das outras pessoas e expressar nossos sentimentos de forma clara e direta, sem recorrer a julgamentos ou críticas. Basicamente:
Usando formas de falar que não machucam, mas também formas de ouvir que não nos ofendem.
E consiste em quatro componentes principais: observação, sentimentos, necessidades e pedidos.
Vamos explorar a fundo cada pilar, mas antes, precisamos entender por que agimos da forma como agimos.
A natureza humana
Falar de forma não violenta é (ou pelo menos deveria ser) fácil, pois todos compartilhamos necessidades humanas universais e gostamos de dar e receber de forma compassiva… Com compaixão.
Mas por que a gente não faz isso? O que acontece que nos desliga dessa natureza e nos faz ter comportamentos violentos e exploram outras pessoas?
“Podemos ter evoluído, mas no fundo ainda somos animais” — frase do filme Zootopia, onde os animais evoluídos e sociais retomam a seus extintos primarios e selvagens.
Bom, segundo Marshall B. Rosenberg — psicólogo responsável por estruturar a CNV — é a falta de conexão com nossas próprias necessidades e sentimentos, bem como a falta de compreensão em relação aos outros, que nos move a fazer exigências, exageros e julgamentos na hora de nos comunicar.
A gente não aprende a falar sobre nossos sentimentos: não tem repertório (vocabulário) para vocalizar o que tá sentindo, muito menos para fazer um pedido claro do que a gente gostaria que a outra pessoa fizesse de diferente.
Além disso, somos moldados para acreditar que nossas necessidades são menos importantes e que (de forma inconsciente ou não) a única maneira de obter o que queremos é através da manipulação, da culpa, da vergonha ou da coerção.
Comunicação Alienante
Todo esse contexto nos move a agir de forma contrária à nossa natureza: fazemos julgamentos moralizantes, comparações, transferência de responsabilidade e exigências e exageros, em vez de pedidos.
Julgamentos moralizantes
Imagine que te prepararam um jantar especial. Você nem toca na comida e ao ser questionado, diz simplesmente: “Não gosto”. Extremamente magoada, a pessoa que preparou a refeição diz:
O teu problema é que vocé é egoísta demais.
Como bate essa história para você?
Pense.
Pensou? Bom, vamos dar mais contexto para a situação: a pessoa que preparou a refeição foi criada numa família que adoravam cozinhar, apresentavam muitos alimentos diferentes na infância. Já você, cresceu num lar onde comiam sempre as mesmas coisas e não tinha tempo para fazer coisas diferentes. Na vida adulta, tem dificuldade em experimentar coisas novas.
Depois de analisar o contexto, você talvez tenha mudado sua opinião sobre a situação. Mas o ponto aqui é que quando conversamos, a gente utiliza nossa trajetória de vida: cada um tem suas regras e valores e isso é construído diariamente através de experiências e vivências.
Mas infelizmente, a gente não consegue ver a bagagem de todos que nos relacionamos. Pra falar a verdade, raramente temos esse contexto, né?
Cena do episódio “A Noiva” de How I Met Your Mother. Na cena, Ted imagina a bagagem emocional de sua namorada.
Então, quando digo “o teu problema é que você é egoísta demais”, estou generalizando e fazendo um julgamento moral sem considerar a singularidade, as nuances e a complexidade da pessoa envolvida. Isso é Comunicação alienante.
Quando nos comunicamos dessa forma, estamos focando a atenção em procurar e determinar níveis de erros no próximo, em vez de focar no que é importante: o que a gente precisa e não tem.
Alguns exemplos de generalização:
· Bom e mau
· Certo e errado
· Normal ou anormal
· Responsável e irresponsável
· Sempre e nunca
· Todo mundo
· Demais
O que a gente precisa ter em mente é que cada pessoa tem um repertório diferente do outro.
Sempre.
Comparações
Quando comparamos bloqueamos nossa compaixão. Quer ver?
Mentalize a pessoa que mora na casa ao lado:
· Você é mais bonita?
· Suas roupas são melhores?
· Seu carro é melhor?
· Você se acha mais bem sucedida?
· Seu estilo de vida é melhor ou mais adequado?
Agora pense em uma celebridade que você admira fisicamente e se compare com ela.
Como está se sentindo agora?
Quando fazemos comparações, criamos sentimentos de inferioridade ou superioridade.
Zac Efron e Seth Rogen interpretam uma vizinhança em pé de guerra no filme Vizinhos.
Transferência de responsabilidade
No nosso dia a dia é comum usarmos expressões que tiram a nossa responsabilidade e transferem a um terceiro. Exemplos:
Eu atrasei porque o recepcionista nao parava de falar.
Comecei a beber cedo porque todos meus colegas bebiam.
Fui tomado por uma necessidade de comer coxinha.
Na CNV a gente deixa claro nossa responsabilidade e escolhas, com frases afirmativas:
“Me atrasei porque a recepcionista precisava de mais informações e eu não tinha os documentos suficientes.”
“Comecei a beber cedo porque queria me enturmar e fazer parte daquela galera.”
“Eu quero comer coxinha.”
Exigências e exageros
Vamos analisar a seguinte frase:
Você precisa terminar essa tarefa agora!
Uma frase como essa pode gerar resistência e um conflito desnecessário, pois a outra pessoa pode se sentir pressionada ou desrespeitada e provoca sentimentos de medo, de defesa e/ou culpa. Além disso, não considera as necessidades dela, como sua carga de trabalho, seu tempo ou seus próprios objetivos.
O exagero pode levar a uma comunicação pouco autêntica, afastar as pessoas e fazer com que sintam desrespeitadas ou minimizadas, especialmente se têm uma perspectiva diferente da nossa.
Por sorte — e para o bem das relações humanas — esses comportamentos podem ser desaprendidos e temos possibilidade de voltar à nossa natureza de dar e receber com compaixão. É aí que entra a CNV e seus 4 componentes.
Observação
Foca na situação em que estamos vivenciando e que nos afeta. Refere-se a descrição objetiva do que está acontecendo, sem julgamentos ou interpretações.
Vamos estudar alguns exemplos:
Matheus é violento.
Meu marido trabalha demais.
Renan estava bravo sem nenhum motivo na reunião.
Marcia sempre chega atrasada.
· “Violento” é um baita de um julgamento moral.
· “Demais” é uma avaliação generalizada e não considera as nuances.
· Ninguém fica “bravo” sem motivos. E a não ser que você pergunte (e a pessoa fale o que aconteceu), não dar pra saber os motivos.
· E será que Marcia “sempre” chega atrasada? É injusto falar isso.
Agora vamos refazer essas frases com CNV:
Matheus me beliscou quando gritei com ele.
Meu marido fez hora extra três dias essa semana.
Vi Renan bater com o dedinho na quina da mesa quando entrou na sala.
Marcia chegou 30 minutos depois do horário combinado pra dinâmica.
Fazer observações da situação sem julgamentos, generalizações e avaliações injustas é trabalhoso.
Mas vale a pena o esforço.
Sentimentos
O segundo componente da CNV é saber identificar e expressar nossos sentimentos. Mas, como já vimos, somos condicionados a não demonstrar, quanto mais falar sobre.
No mundo corporativo quando mostramos sentimentos, estamos sendo fracos ou vulneráveis. Mas isso pode ser uma coisa muito boa, pois facilita a conexão resolução de conflitos.
Vamos estudar mais exemplos:
Sinto que não consegui um acordo justo.
Sinto como se estivesse sendo manipulado.
Sinto que sou uma péssima amiga.
Sinto-me injustiçado.
· Dizer “eu sinto” acompanhado de “que”, “como” e “como se” não expressa sentimento algum.
· “Manipulado” não é um sentimento.
· Dizer que é uma “péssima amiga” não fica claro o sentimento, mas um comportamento esperado e pode ser usado para manipular as pessoas.
· “Injustiçado” descreve apenas como EU ACHO que as pessoas me avaliam.
Com CNV pode ficar assim:
Acho que não fiz um acordo justo. Fiquei muito arrependida.
Fiquei muito frustrado depois de fazer toda a pesquisa e preparar o material e o Renan apresentar no meu lugar.
Fiquei muito chateada por não ter ido a sua festa, mas tive um problema familiar que me impossibilitou de ir.
Sinto-me triste / rejeitada / ansiosa / aborrecida.
Para expressarforma simples e neutra, evitando interpretações ou julgamentos. Por exemplo, “Você não participou das três últimas reuniões do projeto” em vez de “Você não se importa com esse projeto”.
2. Identificação de sentimentos: Diga as emoções que a situação desencadeia em você. Diga “Sinto-me ansioso e frustrado” em vez de “Sinto que você não se importa”. Assuma a responsabilidade por suas emoções sem culpar os outros.
3. Compreensão das necessidades: Conecte seus sentimentos às necessidades subjacentes que os motivam. Talvez você se sinta ansioso porque precisa de segurança e colaboração. Identifique essas motivações fundamentais.
4. Fazer solicitações claras e positivas: Diga especificamente o que está solicitando da outra parte para atender às suas necessidades. Por exemplo, “Você poderia confirmar o horário da próxima reunião e me enviar por e-mail a sua seção do relatório até terça-feira?” Isso facilita para que as pessoas respondam com compaixão.
Conflitos comuns no local de trabalho e soluções da CNV
Vamos dar uma olhada em como aplicar a CNV para lidar habilmente com alguns conflitos típicos do local de trabalho:
Desentendimentos com colegas de trabalho:
Observar - “Percebi que você usou um formato diferente do que combinamos para o relatório”.
Sentir - “Fiquei preocupado quando vi isso”.
Necessidade - “Preciso de clareza sobre os requisitos para que eu possa fazer meu trabalho com eficiência.”
Solicitação - “Você poderia explicar sua decisão para que eu possa entendê-la no futuro?”
Problemas com gerentes:
Observar - “Percebi que minha solicitação de treinamento foi negada.”
Sentir - “Sinto-me desapontado porque...”
Necessidade - “Tenho necessidade de crescer e desenvolver novas habilidades.”
Solicitação - “Haveria uma maneira de eu fazer esse treinamento eventualmente, se o orçamento permitir?”
Problemas com as políticas da empresa:
Observar - “A nova política de férias reduz o tempo de licença em uma semana.”
Sentir - “Estou preocupado com essa mudança...”
Necessidade - “Porque eu realmente valorizo o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.”
Solicitação - “Haveria alguma flexibilidade na política para funcionários como eu, que têm filhos?”
Conflitos de personalidade:
Observar - “Nós realmente parecemos ter estilos diferentes de trabalho.”
Sentir - “Muitas vezes me sinto frustrado e impaciente quando colaboramos.”
Necessidade - “Preciso de um fluxo de trabalho eficiente”.
Solicitação - “Eu gostaria que pudéssemos delinear nossas diferentes abordagens para encontrar maneiras de trabalharmos juntos de forma mais tranquila.”
Diferenças culturais:
Observar - “Percebi que você parece muito desconfortável com a maneira como dou feedback direto.”
Sentir - “Estou preocupado que eu possa estar parecendo rude...”
Necessidade - “Porque quero ser atencioso e culturalmente apropriado”.
Solicitação - “Você estaria disposto a explicar qual estilo de feedback seria mais respeitoso para você?”
Expectativas pouco claras:
Observar - “As instruções para esta tarefa parecem pouco claras para mim.”
Sentir - “Sinto-me um pouco confuso e ansioso sobre como proceder”.
Necessidade - “Eu realmente preciso de expectativas claras para fazer meu melhor trabalho.”
Solicitação - “Poderíamos nos reunir novamente para esclarecer os requisitos exatos e as métricas para o sucesso?”
Comunicação ruim:
Observar - “Não temos tido reuniões de equipe regulares ultimamente.”
Sentir - “Sinto-me desconectado daquilo em que todos estão trabalhando.”
Necessidade - “Tenho necessidade de colaboração e coesão do grupo”.
Solicitação - “Poderíamos restabelecer os check-ins semanais para melhorar a forma como nos comunicamos e coordenamos?”
Competição por recursos:
Observar - “Nós dois solicitamos financiamento para nossos projetos.”
Sentir - “Estou preocupado com o fato de que apenas um será aprovado.”
Necessidade - “Preciso de recursos adequados para realizar bem esse projeto.”
Solicitação - “Talvez possamos nos reunir para ver se há maneiras de adaptar nossos orçamentos e chegar a um acordo justo.”
Comportamentos de bullying:
Observar - “Percebi que você costuma gritar, criticar e zombar do meu trabalho.”
Sentir - “Sinto-me magoado, inquieto e ansioso ao vir para o trabalho.”
Necessidade - “Preciso me sentir respeitado e psicologicamente seguro.”
Solicitação - “Eu gostaria que pudéssemos estabelecer algumas regras básicas para que todos nós interagíssemos civilizadamente como colegas.”
Como esses exemplos demonstram, a CNV fornece uma estrutura para comunicar sua perspectiva de forma clara e neutra e, ao mesmo tempo, convidar a outra pessoa a compartilhar a dela. A conexão com as necessidades mútuas gera entendimento que transforma o conflito em cooperação.
Cultivo das habilidades de CNV nas organizações
Embora a CNV exija prática, as habilidades podem ser cultivadas tanto individualmente quanto sistematicamente em uma organização. Aqui estão algumas maneiras de implementar a CNV como uma ferramenta para a resolução construtiva de conflitos:
Programas de treinamento em CNV
- Ofereça workshops sobre os princípios da CNV e habilidades de comunicação para gerentes e funcionários de todos os níveis. A dramatização de conflitos reais no local de trabalho ajuda a desenvolver a competência de responder com compaixão.
- Disponibilize cursos e tutoriais on-line sobre a CNV para desenvolvimento contínuo. Vídeos, webinars e módulos de e-learning permitem opções flexíveis.
- Traga treinadores ou mediadores de CNV para trabalhar em conflitos complexos de equipe ou de liderança. Um facilitador especializado pode modelar as habilidades e orientar as conversas com habilidade.
Desenvolvimento e treinamento de liderança
- Incorpore a filosofia e as habilidades da CNV nos programas de treinamento de liderança. Isso garante que a gerência compreenda a mentalidade e as ferramentas.
- Incentive os gerentes a adotar uma abordagem de coaching em reuniões individuais e ofereça orientação de CNV quando os funcionários os procurarem com conflitos.
- Ofereça treinamento em CNV para o RH a fim de ajudá-los a mediar disputas e abordar questões comportamentais com compaixão para promover o crescimento.
Sistemas e políticas organizacionais
- Desenvolva valores organizacionais, códigos de conduta e avaliações de desempenho baseados nos princípios da CNV de empatia, abertura e não julgamento.
- Institua canais de feedback anônimos para que os problemas venham à tona antes que se transformem em conflitos arraigados.
- Formalizar processos construtivos de resolução de conflitos com base na CNV, como círculos restaurativos para fazer reparações após disputas.
- Recompense comportamentos colaborativos e compassivos de solução de problemas entre funcionários e equipes.
Ao tornar a CNV uma parte integrante da cultura da empresa, a mentalidade muda do confronto para a cooperação. A comunicação saudável e a compreensão tornam-se a norma. Os funcionários se sentem ouvidos, respeitados e capacitados para resolver diferenças por meio do diálogo, e não da discórdia. A organização se torna mais unida, resiliente e eficaz para atingir metas compartilhadas.
A sabedoria da CNV se aplica muito além do local de trabalho. Essas habilidades enriquecem todos os relacionamentos humanos. Quando aplicada com sinceridade, a CNV pode curar fendas entre colegas, amigos, familiares e comunidades. Um mundo fluente na linguagem da comunicação compassiva é um mundo pacífico em que as necessidades de todos são atendidas.
Comunicação Não-Violenta (CNV): melhore seus relacionamentos pessoais e profissionais
Muitas vezes a comunicação que usamos ou recebemos contém termos agressivos, julgadores e parciais. Nesses momentos nós e nossos interlocutores naturalmente nos colocamos em posição de defesa, mesmo que de forma inconsciente, e a possibilidade de se gerar um encaminhamento positivo para o tema discutido reduz-se drasticamente.
Quando usar a CNV
A técnica da CNV nos prepara para lidar com estas situações, seja como ouvinte ou comunicador. Sou imensamentegrato pelos inúmeros conflitos familiares e profissionais que pude lidar de forma construtiva a partir da sua aplicação.
Foto por Volodymyr Hryshchenko via Unsplash
Antes de usar a CNV eu já conhecia a importância de se desenvolver a escuta empática e a capacidade de expor meus pontos de vista, a fim de me fazer entendido, e de indagar meu interlocutor de forma genuinamente curiosa, para compreender suas perspectivas. Esta abordagem sem dúvida me ajudou muito na construção de bons diálogos.
No entanto, quando há emoções calorosas presentes, o simples expor e indagar, ainda que trazidos de forma empática, não se mostra suficiente para lidar com a situação. Nestes casos a CNV é especialmente efetiva e poderosa.
CNV: um método simples, mas que demanda um mergulho em nós mesmos
A técnica da CNV é descrita em 4 etapas. Imagine que você está diante de seu interlocutor e que vai iniciar uma conversa potencialmente difícil pois há muita emoção presente devido a uma situação que gerou desconforto. Neste cenário, a CNV indica que você deve:
1. Relatar o ocorrido da forma mais factual e neutra possível;
2. Revelar como você se sentiu diante do ocorrido;
3. Explicar qual é ou são suas necessidades subjacentes ao sentimento desperto;
4. Efetuar um pedido (ao invés de uma exigência) que pode gerar um novo encaminhamento àquela situação.
Quando menciono a técnica a clientes, revelo que a mais desafiadora para mim é a etapa zero. Nesta “pré-etapa” precisamos identificar o que realmente estamos sentindo, porque a situação está “pegando” para nós e qual é a necessidade não atendida que está fomentando aquele sentimento. E isso pode não ser tão simples pois nossos sentimentos se misturam muitas vezes.
Lembro de uma situação com minhas filhas adolescentes que, ao viajar para a casa de familiares, com frequência esqueciam de me avisar quando chegavam. Numa noite adormeci mais cedo e quando acordei já era de madrugada, o que me gerou um dilema. Se eu ligasse para checar se haviam chegado bem poderia acordar pessoas da casa.
Se, simplesmente acreditasse que tinham chegado bem e que não se lembraram de me enviar uma mensagem, dormiria com preocupação. Dormi sem ligar e acordei muito irritado com elas na manhã seguinte. Mas decidi me aprofundar naquele sentimento e verifiquei que por baixo da irritação e raiva havia uma tristeza.
A tristeza infantil de não me sentir tão importante para elas. Uso infantil aqui pois não tenho dúvidas de elas me amam e sou importante para elas, mas havia um lado meu que sentiu aquela tristeza.
Ao ligar para elas pela manhã, usei a CNV revelando minha tristeza e minha necessidade de me sentir relevante para elas. Foi a conversa mais impactante que poderia ter conduzido e, a partir daquela data, elas se tornaram muito mais cuidadosas com este tipo de situação.
Meus principais aprendizados com a CNV
O primeiro grande insight que tive com a CNV foi o poder da frase “Eu me senti…”. E já usei na sequência da frase palavras como excluído, enganado, desrespeitado entre tantas outras. Mas ao usar o sentir-se na 1ª pessoa, ao invés de “Você me…” excluiu, enganou, desrespeitou etc. manifesto algo que é incontestável e que não entra no mérito da intenção do outro.
Simplesmente trago para a consciência do outro qual foi o impacto de determinada situação, sem qualquer acusação. Neste caso o interlocutor não tem como dizer “Não, você não se sentiu…”
E ao ficar mais consciente da importância de descobrir e revelar meus sentimentos e necessidades subjacentes, tornei-me muito mais curioso e hábil para ajudar meus interlocutores e identificarem e revelarem seus sentimentos e necessidades. Pesquisas na neurociência têm nos ajudado a entender inclusive o que acontece com nossa fisiologia e bioquímica.
Ao nominar e explicitar o sentimento, permitimos que haja um deslocamento da atividade na nossa amígdala, estrutura cerebral responsável pela gestão do lutar ou correr, para a parte frontal do cérebro, que trabalha com decisões mais planejadas e equilibradas.
Vídeo: O poder da vulnerabilidade — Brené Brown
A CNV ensinou-me o poder da vulnerabilidade (vídeo) e da coragem de revelar algo valioso sem ter a garantia de como será recebido pelo interlocutor, mas que invariavelmente cria conexões humanas genuínas e espaços para diálogos profundos e transformadores.
Em tempos de pandemia passamos a ter muitas interações no campo digital, inúmeras reuniões onde dois ou mais participantes precisaram lidar com situações por vezes difíceis e onde há muitas emoções em jogo. Que tal usar a CNV neste campo de interações digitais à distância? Garanto que os resultados vão surpreender.
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image4.pngnossos sentimentos da melhor forma, precisamos ser específicos.
Abaixo uma lista de sentimentos para aumentar o repertório:
Referência: curso (gratuito!) de Comunicação Não Violenta — How Education
Algumas dicas:
· Seja específico: em vez de dizer “me sinto mal”, pare e reflita sobre qual sentimento está experimentando naquele momento. É tristeza? Irritação? Raiva? Medo?;
· Expresse os sentimentos em primeira pessoa: é importante para evitar julgamentos ou avaliações. Em vez de dizer “você me faz sentir triste”, podemos dizer “eu me sinto triste quando isso acontece”;
· Não minimize ou negue seus sentimentos: já que isso pode levar a uma comunicação pouco autêntica e gerar mal-entendidos;
· Não assuma que sabem como você está se sentindo!
Necessidades
Refere-se a nossos desejos e necessidades universais que motivam nossos comportamentos e emoções.
As necessidades são comuns a todos os seres humanos e incluem coisas como: segurança, amor, conexão, autonomia, compreensão, respeito e diversão.
Para expressar nossas necessidades na CNV, precisamos:
· Identificar a necessidade específica por trás dos sentimentos: muitas vezes, nossos sentimentos estão relacionados a necessidades não atendidas.
· Expressar as necessidades em termos positivos: para evitar a impressão de que estamos impondo ou exigindo algo. Em vez de dizer “Não quero que você faça isso”, podemos dizer “Eu gostaria que você fizesse isso”.
· Ser específico e concreto: para evitar mal-entendidos e confusões. Em vez de dizer “Eu preciso de mais atenção”, podemos dizer “Eu gostaria de passar mais tempo com você”.
Pedidos
Refere-se a fazer pedidos claros e específicos para atender às nossas necessidades e, ao mesmo tempo, respeitar as necessidades e limites da outra pessoa.
Os pedidos devem ser expressos de forma positiva, clara e específica, evitando termos vagos ou ambíguos que possam levar a mal-entendidos.
É importante que os pedidos sejam feitos de forma respeitosa e não impositiva, de modo que a outra pessoa sinta-se livre para aceitar, negociar ou recusar o pedido.
Algumas dicas para fazer pedidos:
· Use frases que expressem claramente o que deseja: em vez de falar de forma vaga, podemos usar frases específicas que descrevam o que desejamos.
· Utilize o verbo no presente: indicamos que o pedido é para algo que deseja agora.
Pessoas com essas características tendem a adotar o estilo colaborador quando estão diante de uma negociação. Eles são mais passivos no diálogo, ou seja, ouvem os outros muito mais do que falam. E quando querem falar, constroem argumentos baseados nas emoções do momento, sempre tentando encontrar um meio termo com benefícios para todos os envolvidos. Como você deve imaginar, usar as características desse estilo funciona muito bem nas situações em que é preciso chegar a um consenso.
Seja esse seu estilo dominante ou não, ser empático e se comunicar de forma não violenta são habilidades que todas as pessoas podem desenvolver para negociar melhor e ter relações mais saudáveis com as outras pessoas.
Mas, afinal de contas, o que é se comunicar de forma não violenta?
O termo Comunicação Não-Violenta (CNV) foi criado pelo psicólogo Marchall B. Rosenberg, autor do livro “Comunicação Não-Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”. De acordo com o pesquisador:
“A CNV nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros. Nossas palavras, em vez de serem reações repetitivas e automáticas, tornam-se respostas conscientes, firmemente baseadas na consciência do que estamos percebendo, sentindo e desejando. Somos levados a nos expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa e empática.”
Basicamente, a CNV é um processo de comunicação que tem como base uma linguagem de compaixão. A ideia não é vencer a qualquer custo uma argumentação ou ferir o outro, mas se conectar com ele, entender os sentimentos e necessidades dele e as suas também para que assim as relações tornem-se mais saudáveis e positivas.
Podemos, e devemos, utilizar uma comunicação não violenta em nossas relações íntimas, na família, nas escolas, em organizações e instituições, em negociações problemáticas e comerciais e em disputas e conflitos de qualquer natureza. Agora, antes de falarmos propriamente dos passos a serem seguidos para termos uma CNV, veja só alguns pontos que podem estar te impedindo de chegar a ela:
1. Julgamentos moralizadores
Esses julgamentos surgem quando temos uma crença de que o outro é um ser maligno e detentor de características que inevitavelmente o farão se comportar de uma maneira nociva. Quando nos comunicamos dessa forma, costumamos utilizar adjetivos para rotular a pessoa que queremos nos referir, como “preguiçoso”, “mentiroso”, “egoísta” e etc.
2. Fazendo comparações
Viver a própria vida se colocando em comparação com o outro é um caminho que te afasta de uma CNV. Imagine que você começou agora um projeto de exercícios físicos visando uma melhora na saúde. Se você ficar o dia todo acompanhando perfis de pessoas em redes sociais que estão inseridas no contexto fitness há muitos anos e se comparando com elas, é provável que sua autoestima fique abalada e a sua forma de se comunicar com os outros seja mais reativa, defensiva, prejudicando assim suas relações. Lembre-se que cada um tem o seu próprio processo e você pode até se inspirar em pessoas que você admira, mas deve ser gentil com você mesmo e não fazer autocobranças rígidas e impossíveis de serem alcançadas a curto prazo.
3. Negação de responsabilidades:
Para nos comunicarmos de uma forma não violenta, não podemos viver sem assumir responsabilidade pelos nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Dessa forma, afirmações vagas como “nada dá certo pra mim” devem ser evitadas. Há ainda pessoas que se definem por um diagnóstico de alguma doença que possuem, ou justificam tudo que acontece em suas próprias vidas pela ação do outro, das autoridades, pela idade ou por impulsos que dizem ser incontroláveis.
Muito bem, agora que vimos alguns pontos que te impedem de desenvolver uma comunicação não violenta, vamos aos passos que o autor Marshall B. Rosenberg aponta para desenvolvermos essa habilidade tão fundamental em nossas vidas.
4 passos para usar a CNV na sua vida
1. Observe a situação
Sempre que estiver diante de um impasse com outra pessoa, procure observar atentamente a situação. Lembre-se que há uma diferença muito grande entre observar e avaliar. Temos uma tendência a julgar o comportamento dos outros o tempo todo, isso acontece de uma maneira automática, com pouca reflexão. O primeiro passo para conseguirmos uma CNV é olhar para os fatos como eles são e não misturarmos interpretações, muitas vezes distorcidas.
Na frase “Minha namorada reclama sempre que fica cansada”, a utilização do verbo “reclamar” é uma forma de fazer uma avaliação do comportamento da namorada e foge da ideia da observação. A expressão poderia ser substituída por algo do tipo “Minha namorada me ligou todos os dias dessa semana e me contou uma série de tarefas extras que teve no trabalho e como isso a fez se sentir com cansada”.
2. Identifique e expresse seus sentimentos
As pessoas costumam ter mais vocabulário para julgar e rotular os outros do que para expressar os próprios sentimentos. Muitas vezes confundimos nossos pensamentos com os nossos sentimentos, inclusive. Por exemplo, um homem diz a seguinte frase: “meu vizinho é muito barulhento e sem educação, por isso não consigo dormir”, quando questionado qual o sentimento que tem com relação a esse fato ele diz “sinto que é uma falta de educação fazer barulho depois das 22h em um prédio”. Observe que ele não relatou nenhum sentimento, mas uma ideia sobre a situação.
É fundamental construirmos um vocabulário para os nossos sentimentos. Um exemplo disso é uma esposa que diz “sinto que vivo com uma parede”, se referindo ao seu marido. Observe que ela utilizou palavras para rotular o seu parceiro, mas em nenhum momento expressou de fato um sentimento.A frase poderia ser substituída por “eu me sinto muito solitária nessa casa”.
3. Reconheça qual é a sua necessidade
O que o outro nos diz ou faz pode ser no máximo o estímulo para os nossos sentimentos, mas não a causa. Os nossos sentimentos vêm da forma de como nós interpretamos o fato. Por exemplo, substitua frases como “você me frustrou porque você não apareceu ontem à noite” por “fiquei frustrado ontem à noite porque eu estava te esperando para conversar sobre duas questões em nossa relação que estão me incomodando profundamente”, veja que na segunda frase não foi somente a falta do outro que frustrou a pessoa, mas o que essa falta significou, qual foi o desencadeamento da situação.
Procure ligar o seu sentimento a alguma necessidade. Sempre que conseguimos expressar as nossas necessidades temos mais chances de sairmos satisfeitos de uma conversa.
Alguns exemplos de necessidades humanas são autonomia, celebração, aceitação, amor, apoio, compreensão, confiança, consideração, respeito, diversão, paz e as necessidades físicas como água, comida e descanso.
4. Faça seu pedido
Após expressarmos o que observamos, sentimos e precisamos é importante que façamos um pedido por ações que satisfaçam as nossas necessidades. Mas como fazer isso?
Utilize uma linguagem com ações positivas. Marchall B. Rosenberg conta que uma mulher constantemente dizia “meu marido passa muito tempo no trabalho”, após algum tempo ouvindo esta afirmação, o marido se matriculou em um campo de golfe para jogar algumas vezes na semana. Isso aconteceu porque a fala dela não foi com uma ação positiva, foi totalmente focada em algo que a desagradava, mas em nenhum momento foi dito o que a agradaria. Ela poderia ter substituído por “estou me sentindo solitária nessa casa, eu gostaria que pelo menos duas ou três vezes na semana você saísse mais cedo do trabalho para que pudéssemos ficar mais tempo juntos”.
Para desenvolver uma comunicação não violenta, é fundamental utilizarmos uma linguagem clara, positiva e que no final peça por uma ação concreta.
Num mundo em que a tecnologia absorve e automatiza cada vez mais tarefas repetitivas, mais simples e de pouco esforço intelectual, sai na frente o profissional que investe em competências comportamentais. Assim, as soft skills já são vistas no mercado de trabalho do futuro, entre leas, resiliência, adaptabilidade, criatividade, inovação, empreendedorismo e, é claro, a comunicação.
E para aqueles que exercem um papel de liderança, ter a habilidade de comunicar-se de modo inteligente é crucial. Isto, para a obtenção de times mais engajados, além de propósitos e objetivos organizacionais melhor alinhados e excelência no exercício dessa liderança. Lembrando que liderança não tem a ver com nível hierárquico, mas sim com um talento que pode, e deve, ser aprendido e que precisa ser incrementado com uma boa comunicação.
Assim, a Comunicação Não Violenta (CNV) é uma abordagem de comunicação inteligente que vem sendo amplamente difundida. Isto, não só para ambientes corporativos, mas também no meio acadêmico, político, diplomático, bem como no âmbito pessoal (relacionamentos afetivos, entre amigos e familiares). Essa abordagem também é conhecida como Comunicação Empática, por ser capaz de estimular a empatia.
A seguir, entenda como a CVN surgiu e como aplicá-la na prática para exercer a liderança e alcançar a excelência nas organizações.
O que é e como surgiu a Comunicação Não Violenta (CNV)
O nome “Não Violenta” vem da ideia de que é uma linguagem do coração, de se ter uma nova visão de mundo, livre de rótulos e mais humana. Ainda, foi bastante inspirada na maneira de se comunicar do grande líder Gandhi. Surgiu a partir dos estudos do psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, no início dos anos 60, no auge dos conflitos de segregação racial nos EUA, quando atuava como orientador educacional em instituições de ensino.
O psicólogo começou a perceber que muitos conflitos entre as pessoas eram gerados pela forma como suas ideias eram expostas. Muitas vezes, desconsiderando para quem a mensagem era dirigida e os efeitos que ela criava. Marshall apenas ressignificou o processo de comunicação, cujos conceitos já foram analisados há bastante tempo. Ainda segundo Marshall, a CNV compreende as habilidades de ouvir e falar, levando os indivíduos a se entregarem de coração. Dessa forma, permitindo maior conexão consigo e com os outros e desenvolvendo a compaixão entre todos.
Portanto, a Comunicação Não Violenta tem reais chances de florescer em ambientes acolhedores e cooperativos, em que a cultura estimule o respeito e a generosidade. Trazendo a reflexão ao mundo corporativo, quanto mais as lideranças interagem numa cultura que promove a competitividade, forte hierarquia, controle excessivo e busca por culpados, menos elas serão motivadas a praticarem a CNV e serem agentes de mudança em seus meios e com os times.
Dessa forma, o desafio da mudança se torna ainda maior. A CNV tem como base reformular a maneira como cada um se expressa e ouve os demais. É uma via de mão dupla, na qual expressamos honestamente (fala), tendo consciência do que é pensado, sentido e desejado e também recebemos com empatia (escuta ativa), dando atenção respeitosa ao outro. Sendo assim, a CNV coloca as necessidades suas e do outro no centro de toda a comunicação, mudando o enfoque nos relacionamentos pessoais e profissionais.
Principais componentes da CVN e como aplicá-la na prática
A Comunicação Não Violenta é formada por quatro componentes principais. Abaixo, confira cada um deles e como se aplicam na prática.
Observação (não é juízo de valor)
Observe de maneira descritiva o que realmente está acontecendo em determinada situação. O objetivo aqui é apenas compreender o que se gosta ou não diante do que aconteceu e no que o outro fez, sem julgamentos ou juízos de valor. Isso evita reações defensivas e cheias de culpa. Ainda, Marshall comenta que observação com avaliação é entendida como crítica.
CNV na prática
“Você é um mentiroso!” (forma inadequada)
“Você disse que me ajudaria com o relatório e não fez.” (prática da observação com uso da CNV).
Sentimento (não é opinião)
Como nos sentimos em relação ao que foi observado? Identifique esse sentimento e o nomeie (o que você sentiu? raiva? alegria? frustração? ficou chateado? — expresse-se). É preciso se permitir ser vulnerável para resolver conflitos e saber a diferença entre o que se sente e o que se interpreta ou pensa. Ainda, existe uma cultura geral de se achar que expressar sentimento é sinônimo de fraqueza. Porém, é justamente quando abordamos os sentimentos que a comunicação se aproxima e se humaniza de verdade.
CNV na prática
“Você nunca aparece nas happy hours. Você é muito antissocial!” (forma inadequada)
“Você só foi a 2 happy hours da equipe. Sinto falta da sua presença lá!” (o enunciado fala de como você se sente usando CNV).
Necessidade (diferente de estratégia)
Quais valores e desejos geraram esses sentimentos? Saiba identificar quais são as necessidades reais que estão ligadas ao que sentimos. Isto porque é preciso entender que ver nossos desejos serem atendidos é mais fácil quando expressamos nossos valores e necessidades, ao invés de estratégias de comunicação, muitas vezes cheias de julgamentos. Estas, servem apenas para classificar pessoas e comportamentos sob nossa própria ótica do que é melhor, sem respeitar a ótica do outro.
É mais fácil um líder engajar uma equipe num propósito quando ele e o time estão inseridos num ambiente que prega o respeito às necessidades humanas em suas comunicações, do que num ambiente em que se consegue o que se pede por meio de classificações entre certo e errado, mérito e punição, e em que prevalecem rótulos, críticas e coerções no processo de comunicação.
Quando se faz uma crítica ao outro, na verdade estamos fazendo uma alusão a uma necessidade nossa que ainda não foi atendida. Por isso que os conflitos aparecem. Portanto, ainda que o ambiente corporativo não esteja estimulando a Comunicação Não Violenta a acontecer, cabe a cadaum de nós ser responsável por aquilo que sentimos. Se quisermos ser um agente de mudança, será necessário fazermos um exercício diário para nos transformarmos e contribuirmos para melhorias nos relacionamentos profissionais e pessoais.
CNV na prática
“Aquela atividade lá tá pronta? Isso tá demorando muito, não pode passar de amanhã!” (forma inadequada)
“Aquela atividade lá tá pronta? O cliente ligou e decidimos adiantar a entrega para amanhã.” (exposição da necessidade usando a CNV)
Pedido (diferente de exigência)
Peça o que se deseja de forma clara, concreta, específica e que de fato atenda à sua necessidade. A dica é afirmar o que se quer e não o que você não quer. Portanto, não se pode esperar que o outro adivinhe o que você quer, muito menos exigir de modo ameaçador o que se precisa. Isso afasta qualquer conexão genuína entre as pessoas.
CNV na prática
“Você sempre atrasa tudo. Pode parar de mandar os relatórios sempre atrasados?” (forma inadequada)
“Posso contar com envio dos relatórios deste mês na data combinada?” (enunciado vai direto ao que se quer pura e simples sem tom irônico e acusatório por meio da CNV).
Vale ressaltar que a prática da Comunicação Não Violenta estimula, antes de mais nada, a comunicação com nós mesmos e a autocompaixão. Dessa forma, ensina a possibilidade de saber receber a mensagem do outro com empatia e humildade, importante ao escutar feedbacks. Ainda, ensina a perdoar e aceitar que não somos perfeitos e erramos, permitindo-nos uma autoavaliação sem autoacusação e autossabotagem, conhecida como “síndrome do impostor. Por fim, a CNV faz com que entendamos que podemos escolher o que fazer por termos responsabilidades ao falar e agir.
CVN no dia a dia das lideranças
Aplicar a CVN na prática não é tão fácil quanto parece e requer treino no dia a dia para que saibamos ter inteligência emocional diante das adversidades. Da mesma forma, para que saibamos controlar a raiva, respirar fundo, identificar os pensamentos julgadores e pensar com clareza no que está por trás dos sentimentos que nos deixam desconfortáveis. Quais foram as necessidades não atendidas que criaram o conflito ou um ruído na comunicação com outras pessoas?
A Comunicação Não Violenta é uma forte aliada para a obtenção da excelência na liderança, uma vez que proporciona ao líder conhecer melhor a si mesmo e a seus liderados, além de ajudar a alinhar expectativas e desejos entre todos com maestria. Também, auxilia no processo de dar e receber feedbacks melhores e que contribuirão para o real desenvolvimento individual, além de promover transparência, compreensão, engajamento e motivação.
A CNV também ajuda a intermediar negociações, resolver disputas e conflitos que acontecem dentro dos times, com os clientes e demais stakeholders. Portanto, contribui enormemente para um bom clima organizacional, permeado por relações mais profundas, afetivas e eficazes.
Resolução de conflitos: como e por quê levar a Comunicação Não-Violenta para sua empresa?
Com empatia e compreensão, é possível evitar e resolver atritos entre membros de uma empresa. Confira 4 dicas para aplicar a CNV no ambiente de trabalho
Você já ouviu falar em Comunicação-Não Violenta (CNV)?
O nome pode parecer autoexplicativo, mas colocar o método desenvolvido pelo psicólogo Marshall Rosenberg em prática exige conhecimento e dedicação. A filosofia, que é utilizada até na resolução de conflitos armados, pode ser o caminho para melhorar relacionamentos profissionais e resolver atritos que atrapalham a produtividade de uma empresa.
Para te inspirar a melhorar o clima no ambiente corporativo, listamos abaixo os 4 pilares da Comunicação Não-Violenta.
Não confunda observações com julgamentos
Deixar os julgamentos de lado e observar as situações com neutralidade é uma tarefa árdua, mas necessária. Um dos pontos-chave para solucionar conflitos é evitar o uso de rótulos e generalizações. Ao invés de dizer “Você sempre perde a hora”, diga “Você se atrasou três vezes na semana passada”.
Expresse sentimentos ao invés de opiniões
É muito mais difícil falar dos nossos sentimentos do que das atitudes de outras pessoas, não é? Dar nome ao que você sente no lugar de criticar alguém pode mudar o rumo de uma conversa, levando empatia e compreensão a diálogos que normalmente são acusatórios. Experimente dizer “Eu me sinto menosprezado quando você não ouve minhas sugestões” ao invés de “Você nunca ouve minhas sugestões”.
Identifique suas necessidades
Segundo Marshall Rosenberg, nossas emoções mais desafiadoras são causadas por necessidades não atendidas. Entender o que você espera das outras pessoas e conseguir falar abertamente sobre isso é um caminho para tornar a comunicação mais efetiva — afinal, a outra parte pode não saber do que você precisa. Aqui vai uma dica: opte por frases como “Eu me sinto humilhado quando você grita, e gostaria de ser tratado com mais respeito”.
Diferencie pedidos de ordens
A maneira com que expomos o que queremos pode ter mais impacto do que o pedido em si, por isso é fundamental escolher bem as palavras. Troque exigências como “Pare de usar o celular durante as reuniões” por frases mais positivas, como “Eu gostaria que você usasse menos o celular nas reuniões”. A mudança pode parecer pouco significativa, mas o interlocutor com certeza vai receber o pedido de outra forma.
Viu como atritos podem ser evitados com um simples reajuste nas palavras que usamos? Se aplicada com seriedade e dedicação, a Comunicação Não-Violenta pode levar à criação de um ambiente harmonioso e frutífero, em que todos possam expressar seus incômodos sem ofender os colegas de trabalho.
Comunicação Não-Violenta (CNV): um caminho para lidar de maneira saudável com conflitos
Marshall Rosenberg, o autor que sistematizou a CNV, afirma que ela “se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições adversas”. Ao organizar um conjunto de princípios e técnicas ligadas à comunicação compassiva, Marshall desenvolveu uma poderosa ferramenta para ajudar pessoas na prática da confrontação atenciosa descrita acima.
O processo da CNV é apenas um dos caminhos que o facilitador dispõe para abordar potenciais conflitos em grupos. Por ser facilmente compreendido e bastante versátil, faz sentido detalhá-lo. Embora a CNV se manifeste de diferentes formas e seja aplicada com nuances distintas por cada pessoa, ela pode ser compreendida a partir de quatro passos básicos:
As ações concretas que estamos observando e que afetam nosso bem-estar;
Como nos sentimos em relação ao que estamos observando;
As necessidades, valores, desejos etc. que estão gerando nossos sentimentos;
As ações concretas que pedimos para enriquecer nossa vida.
Assim, a CNV estrutura-se em quatro componentes: observações, sentimentos, necessidades e pedidos. Podemos utilizá-los tanto para nos expressar autenticamente quanto para receber empaticamente tais informações dos outros.
Observações
As observações consistem em uma busca pelo real, isto é, elas nos desafiam a descrever a situação (o que o outro está nos dizendo ou o momento que um grupo está vivenciando) de forma precisa, sem misturar a descrição com nossas próprias interpretações ou avaliações. Segundo Rosenberg,
as observações devem ser feitas de modo específico, para um tempo e um contexto determinado. Por exemplo, “Zequinha não marcou nenhum gol em vinte partidas”, em vez de “Zequinha é péssimo jogador de futebol”.
Observar atentamente e devolver uma descrição do ocorrido para a outra pessoa demonstra que estamos nos esforçando para estarmos realmente presentes na situação. É possível também dizer o que pensamos a respeito, mas procurando sempre exercitar a primeira pessoa. Por exemplo: “quando vejo você dar para os outros todo o dinheiro do almoço, acho que está sendo generoso demais”.
Sentimentos
É muito difícil em nossa sociedade demonstrar sentimentos. Muitos de nós fomos desestimulados a fazer isso durante toda a vida. Entretanto, como Marshall Rosenberg afirma, “expressar nossa vulnerabilidadepode ajudar a resolver conflitos”. Estar vulnerável, algo que remete muito mais à força e coragem do que à fraqueza e covardia, tem tudo a ver com desvendar nosso sentimentos e explicitá-los aos outros. Ao fazermos isso, evidenciamos nossa humanidade e as outras pessoas são capazes de se conectarem mais intimamente conosco.
Uma confusão comum é dizer “sinto que…” e achar que isso é demonstrar um sentimento. Geralmente, tais frases dizem respeito ao que pensamos sobre nós, o outro ou alguma situação, e não ao que sentimos. Por exemplo: “sinto que você está sendo ríspido comigo”. Em vez disso, você poderia dizer: “me sinto irritado quando você aumenta o tom de voz assim”.
No livro sobre CNV de Rosenberg, o autor disponibilizou duas listas de sentimentos que podem nos ajudar a identificar o que está se passando em nós diante de determinada situação:
Necessidades
Uma das premissas mais desafiadoras da CNV talvez seja a de que nós somos responsáveis pelos nossos sentimentos. O que o outro fala ou faz pode ser um estímulo, mas nunca a causa de como nos sentimos. Simultaneamente, não podemos nos enxergar como responsáveis pelos sentimentos dos outros.
Da mesma forma, também somos responsáveis pela satisfação de nossas necessidades básicas como seres humanos, ainda que isso ocorra na interação com outras pessoas. Na CNV, é importante ligar as emoções que sentimos em certa situação às nossas necessidades atendidas ou não atendidas naquele momento. Uma tática para fazer isso é usar a frase “sinto-me assim porque eu…”. Muitas vezes, quando não conseguimos expressar nossas necessidades de maneira clara, acabamos por fazer uso de interpretações, avaliações e críticas que soam como ataques para as outras pessoas. Marshall Rosenberg afirma que, frequentemente, somos mais habilidosos para analisar e criticar os comportamentos alheios do que para descobrir e expressar nossas próprias necessidades. Porém, quando os membros de um grupo conseguem chegar ao estágio de falar abertamente sobre suas necessidades, o ambiente tende a se transformar radicalmente.
Em minha experiência, repetidas vezes pude ver que a partir do momento em que as pessoas começam a conversar sobre o que precisam, em vez de falarem do que está errado com as outras, a possibilidade de encontrar maneiras de atender às necessidades de todos aumenta enormemente.
O “cardápio” de necessidades humanas universais que Rosenberg sistematizou é o seguinte:
Não é estritamente necessário usar as mesmas palavras apresentadas acima ao falar de nossas necessidades. O essencial é expressarmos o que é realmente importante para nós.
Pedidos
O quarto componente da CNV consiste em, a partir das necessidades manifestadas, fazer pedidos às pessoas nas situações em que não estivermos satisfeitos. Os pedidos devem ser:
· Elaborados em linguagem positiva: devemos dizer o que gostaríamos que o outro faça, e não o que não queremos que ele faça.
· Específicos: pedidos vagos como “gostaria que você me deixasse ser eu mesmo” costumam ser pouco efetivos.
· Concretos: quanto mais conseguirmos formular os pedidos a partir de elementos tangíveis e práticos, melhor. Exemplo: “você estaria disposto a tirar o lixo às segundas e sextas-feiras?”
Ao fazer pedidos, precisamos tomar cuidado para não soar como se estivéssemos fazendo uma exigência. Um pedido sempre poderá ser não atendido.
Como um facilitador pode utilizar a CNV diante de um conflito em um grupo
Compreender e saber como aplicar os quatro componentes da CNV pode ser bastante útil no trabalho de um facilitador. Algumas situações comuns e potencialmente conflituosas em que ela pode ser utilizada são:
· Para que o grupo possa se escutar em relação ao que cada um pensa e sente: diante de um assunto espinhoso, o facilitador pode propor uma rodada de diálogo ao grupo a fim de gerar uma compreensão mais aprofundada sobre determinada questão. Os dois primeiros componentes da CNV (observações e sentimentos) são acionados nesse caso.
· Para clarear necessidades não atendidas dos membros: quando uma conversa parece improdutiva, o facilitador pode perguntar ao grupo “esta conversa está atendendo às necessidades de vocês neste momento?” Em caso negativo, ele pode continuar perguntando “do que cada um de vocês precisa para que a reunião seja bem-sucedida?”
· Para que os membros sejam capazes de formular pedidos claros: se uma pessoa está descontente com os rumos que a reunião está tomando, o facilitador, além de encorajá-la a demonstrar suas observações, sentimentos e necessidades não atendidas naquele momento, pode também convidá-la a exprimir um pedido para o grupo.
Muitas outras situações semelhantes poderiam ser descritas. Ao compreendermos que, como Marshall Rosenberg diz, “toda violência é a expressão trágica de uma necessidade não atendida”, percebemos que o trabalho de facilitação é, também, ajudar os membros de um grupo a perceberem e vocalizarem suas necessidades de maneira clara e produtiva.
Manifestações nas ruas e a Comunicação Não Violenta
Após longos anos de ditadura, onde a opinião política era praticamente um crime que merecia severo castigo, nosso país se viu às voltas com as manifestações a favor das eleições diretas (década de 80) e daquelas a favor do impeachment do ex-presidente Collor (década de 90).
Tivemos então um período de relativa “tranquilidade”, mas já faz alguns anos que as ruas de grandes centros de nosso país estão sendo palco de manifestações das mais variadas. Podemos citar as de 2013, que tiveram objetivos como contestar o aumento das tarifas no transporte público e os gastos para a Copa.
De forma marcante, tivemos aquelas que culminaram no impeachment da ex-presidente Dilma (havendo sempre as de ambos os lados) e mais presentemente as que contestam o governo do presidente Temer, incluindo-se aí as que contestam as reformas e mudanças que o governo atual pretende.
O mais interessante é que para todas, sem exceção, é possível encontrar argumentos pró e contra cada uma delas. Há sempre aqueles que as defendem e aqueles que são contra.
Particularmente acredito que todos devemos exercer o direito de buscar mudanças e melhorias para nossa sociedade, mas mais do que isso, acredito que devemos exercer esse direito de formas cada vez mais civilizadas, inteligentes e efetivas; à altura de um grupo de seres que já estão se arvorando na conquista das estrelas e do espaço sideral, mas que ainda possuem problemas tão graves como recém nascidos morrendo às centenas em todo o mundo por diarreia.
Antes que venham me chamar de coxinha ou mortadela (aprecio as duas iguarias), digo que exerço esse papel de forma muito peculiar e distante das grandes notícias e, sim, estou também buscando construir um mundo melhor. Eu tenho um filho e um desejo muito ardente de que ele possa usufruir e também construir uma sociedade cada vez melhor.
Exatamente por escolher caminhos não tão convencionais é que me propus a escrever o texto de hoje, pois noto que independentemente do tipo e do momento histórico dessas manifestações como um todo, volta e meia estamos diante dos mesmos problemas, das mesmas reivindicações e dos mesmos abusos. Todas as revoluções, manifestações e levantes ao longo da história humana contam basicamente com os mesmos enredos.
Posto isso, onde é que pode estar o erro?
Indo por caminhos sempre não convencionais, gostaria de propor uma reflexão a respeito da efetividade de nossa comunicação.
Quando avaliamos o ser humano a partir de suas dores e triunfos ao longo de sua história, podemos ver que ambas foram sempre dependentes da capacidade de as pessoas se comunicarem.
Presentemente, o quadro é o mesmo, mas em tempos de realidades tão líquidas chama-me a atenção o quanto de sofrimento as pessoas cultivam em suas vidas por conta de terem uma dificuldade imensa em se comunicar, seja com outros, seja consigo mesmas.
Acredito que tal estado de coisas se deve ao fato de que ao longo da evolução humana, o desenvolvimento da inteligência e do seu lado racional fez com que o ser se desconectasse de sua realidade emocional.Relacionamo-nos uns com os outros através de uma linguagem, ferramentas e realidade racionais sendo que somos seres eminentemente emocionais em nossa realidade mais íntima.
Para escrever esse texto, baseei-me intensamente na obra Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg, PhD em psicologia e especialista em psicologia social que usou seu trabalho em inúmeras situações de conflito, trabalhando inclusive para a ONU, evitando a morte de centenas de pessoas.
Tio Marshall e uma de suas frases que eu mais gosto. “A violência, qualquer que seja a sua forma, é uma expressão trágica de nossas necessidades não satisfeitas”
Marshall nos diz que a comunicação entre as pessoas se dá basicamente em duas instâncias: a de solicitação e a de retribuição. O que é interessante notar é que essa solicitação está sempre ligada ao suprimento de uma necessidade do indivíduo. Aliás, ele diz em seus seminários algo realmente transformador:
“Quando você entende que toda comunicação se resume a estas duas instâncias, não existe mais espaço para que você se ofenda, pois percebe que as pessoas estão apenas solicitando algo de você ou retribuindo, mas com o uso de estratégias altamente ineficazes.”
Por exemplo, se alguém diz “Você nunca me compreende”, está na verdade nos dizendo que sua necessidade de ser compreendido não está sendo satisfeita, mas diz isso usando uma estratégia que dificilmente levará quem expressa a necessidade a ter a mesma suprida, pois essa expressão soa muito mais como acusação do que como um pedido.
Quantas brigas, desavenças, discussões, sentimento de culpa, raiva e de baixa autoestima poderiam ser evitados se as pessoas pudessem entender essa frase como uma solicitação de suprimento de uma necessidade ou se apenas formulassem a mesma como um efetivo pedido?
A CNV é um processo muito, muito simples em teoria, mas bastante complexo de ser colocado em prática, pois requer que saiamos da posição de animais feridos que rosnam e atacam por qualquer contrariedade e nos coloquemos realmente presentes, conscientes, responsáveis e interessados em estabelecer um vínculo com quem nos comunicamos.
Considero ser do interesse de todos nós a construção desses vínculos dado o que foi dito acima, de que o sucesso e a felicidade humanas dependem de uma comunicação mais efetiva e intimamente, todos nós sabemos disso.
Observar sem julgar
“Observar sem avaliar é a forma mais elevada de inteligência humana” — J. Krishnamurti.
O primeiro passo da CNV é o da observação. Conseguir apenas observar é algo realmente raro. Já no primeiro passo a maioria das pessoas consegue transformar a comunicação em algo violento.
Isso acontece porque raramente observa-se sem julgar, sem emitir de imediato um julgamento moralizador, sem se colocar na defensiva ou sem acreditar que sendo eu “certo”, o outro está “errado”.
É fácil observar que essa é a tônica da maioria das abordagens a respeito das várias manifestações que vem ocorrendo em nosso país. Percebe-se o quanto os rótulos reduzem as pessoas a coisas. Não há abertura para diálogo quando parte-se do princípio que o outro lado representa um mal, que está errado, que é limitado. Este é o primeiro passo para violências mais abrangentes, pois o conceito maniqueísta (bem e mal) de realidade faz com que as pessoas desumanizem o outro lado a tal ponto que torne-se permitido e até mesmo desejável fazer esse outro lado sofrer.
Identificando e expressando sentimentos
Tendo efetuado uma observação sem julgamentos, podemos passar para o segundo passo da CNV que é o da identificação dos sentimentos envolvidos, nossos e do outro.
Mais uma vez percebe-se o quanto é fácil criar confusão também nesse passo, uma vez que as pessoas tem grande dificuldade em identificar os sentimentos envolvidos naquilo que estão expressando. Nas palavras de Marshall:
“Nosso repertório de palavras para rotular os outros costuma ser maior do que o vocabulário para descrever claramente nossos estados emocionais.”
É mais comum expressar pensamentos e julgamentos como se fossem sentimentos do que os sentimentos em si.
Um exemplo comum nesses tempos de manifestação: “Sinto-me desrespeitado pela corrupção, pelo golpe, pela greve, pela polícia, etc.” Em qualquer das situações não há a expressão de um sentimento e sim de um pensamento ou julgamento, o que impede uma conexão mais profunda com necessidade real da pessoa e coloca no outro o peso de fazê-la “sentir” dessa forma.
A figura abaixo eu usei em outro artigo (link aqui), mas serve de guia para que possamos melhorar nosso repertório de sentimentos e emoções.
As necessidades na raiz dos sentimentos
O terceiro passo da CNV é a identificação das necessidades por trás dos sentimentos.
Marshal diz que julgamentos, críticas, diagnósticos e interpretações dos outros são todas expressões alienadas de nossas necessidades. E toda vez que nos expressamos dessa forma, é muito mais provável que a outra parte entenda isso como crítica ou acusação, encerrando a possibilidade de entendimento.
Exemplo: “Os manifestantes nunca respeitam o patrimônio público, são todos vândalos”. Essa expressão, tão comumente usada pelos dois lados da atual polarização, pode estar expressando a necessidade de respeito, de segurança, de abertura ou mesmo de confiança por parte de quem diz, mas a estratégia utilizada claramente não permite esse entendimento.
Como foi dito anteriormente, toda comunicação traz em si um pedido de suprimento a uma necessidade que não está sendo atendida e quando avaliamos as necessidades humanas, elas são praticamente as mesmas, variando o momento e condições em que são demandadas. É justamente o entendimento das necessidades que poderia nos ajudar a encontrar caminhos de colaboração, de entendimento e de busca pelo bem comum, mesmo havendo divergências de posição.
Efetuando um pedido
Tendo identificado os sentimentos envolvidos e as necessidades a serem atendidas, fica mais fácil pedir aquilo atenderá a estas necessidades.
O pedido deve ser algo concreto, uma ação clara que se executada, trará a mudança dos sentimentos e consequentemente o preenchimento das necessidades.
Não adianta dizermos que não queremos mais corrupção. Esse é um pedido muito amplo. Não é uma ação específica e ainda define apenas o que não se quer e não o que se quer.
Pode parecer bobo, mas é algo que pode transformar as suas relações se você passar a se comunicar de forma clara a esse respeito. Mais, isso pode trazer a você um sentimento de realização realmente enorme, pois poderá trabalhar explicitamente aquilo que terá um efeito específico sobre as suas necessidades.
É realmente mais complexo formular pedidos que atendam às necessidades de uma população ou grupo de pessoas e eu não tenho a menor inocência de acreditar que seria possível harmonizar todos os pedidos, mas eu tenho a certeza de que com a forma como as coisas estão caminhando, não há absolutamente nenhuma clareza quanto ao que realmente se quer e de que forma isso poderia atender às necessidades de quem pede.
Qual o caminho a seguir?
Se você chegou até esse ponto do texto, em primeiro lugar eu agradeço pela sua paciência e em segundo lugar, acredito que você esteja esperando que eu possa dizer então como poderemos resolver todos esses impasses que vem agitando o nosso país.
Pois é, eu não tenho e desconfio de quem possa dizer que tem uma resposta pronta e universal para isso. O que eu realmente acredito é que já são anos, séculos, milênios de agitações, tanto no campo pessoal como no social e parece que as necessidades são sempre as mesmas. Parece que se não encontrarmos uma forma melhor de nos expressarmos e buscarmos o bem comum, continuaremos repetindo esses mesmos padrões.
As experiências de Marshall tanto em comunidades devastadas pelo racismo, segregação e concentração de renda quanto em sociedades e países em guerra, onde o ódio e a vingança eram a regra geral mostram que a única forma de evitarmos mais sofrimento dentro dos relacionamentos, sejam eles pessoais ou sociais, é buscarmos estabelecer uma conexão empática com as necessidadesque nos unem.
17 coisas que aprendi com a Comunicação Não-Violenta no curso do Dominic Barter
Há aproximadamente dois anos, tive meu primeiro contato com a comunicação não violenta em um pequeno evento proposto pelo Estaleiro Liberdade. Nos últimos três dias, tive a oportunidade de atualizar meu conhecimento por meio de uma apresentação e um curso introdutório, ambos conduzidos por Dominic Barter. O que vou escrever aqui descreve um pouco do que aprendi, ou um pouco do que consigo expressar do que aprendi.
Para começar, compartilho um vídeo em que Dominic apresenta o que significa comunicação não-violenta (CNV).
O primeiro ponto que é sempre necessário esclarecer sobre comunicação não-violenta é que não se trata de falar mansinho, baixar a cabeça e evitar conflitos. É exatamente o contrário: reconhecer o que faz sentido para nós e lutar para que haja mais vida. Comunicação trata de um processo de conexão e de construção colaborativa de sentido, algo que se faz quando reconhecemos que somos um coletivo. Não-violenta é uma proposta de futuro cujo conceito é insuficiente e, por isso mesmo, provocador e transformador.
Nada do que está escrito aqui é regra ou transcrição direta do que foi dito. Minhas anotações estão mais para isso mesmo: notas da minha experiência sobre um evento profundo, intenso e difícil de processar. Como de costume, a experiência vivida é muito mais poderosa do que o texto jamais conseguirá ser.
Isso esclarecido, vamos aos aprendizados.
1) A Comunicação Não-Violenta opera em três níveis
Existem três níveis interdependentes que se cruzam, informam e influenciam quando tratamos de comunicação não-violenta. De modo didático, eles podem ser entendidos separadamente, mas na prática da vida a tendência é que eles não se esgotem em si mesmos.
O primeiro nível é o intrapessoal e diz respeito à nossa relação com nós mesmos. É aqui que entram nossas expectativas e também a maneira como nosso corpo, nossos pensamentos e nossos sentimentos se articulam.
O segundo nível é o interpessoal, aquele que se refere à minha relação com o outro. Até uns dias atrás, eu achava que esse era o único campo de atuação da CNV, porque é o mais evidente, é onde o diálogo se mostra possível.
O terceiro nível é o sistêmico, correspondendo aos sistemas coletivos de acordos implícitos que utilizamos para arquitetar as relações humanas. Salas de aula, tribunais, famílias, ônibus, hospitais, todos esses espaços são regulados por sistemas de educação, justiça, família, coletividade, saúde etc. É importante dizer que, ainda que não tenhamos inventado a maior parte dos sistemas dos quais fazemos parte, nós somos responsáveis pela nossa participação neles.
Nós sofremos de cegueira sistêmica, ou seja, da incapacidade de perceber as normas dos sistemas que regularmente organizam nosso comportamento. Algumas atitudes convencionais parecem naturais, são ficções nas quais acreditamos com tanta força que muitas vezes sequer percebemos que há, sim, uma escolha em cada ação nossa.
2) Algo intenso acontece quando paramos para ouvir
Por esses dias, meu celular estava sem internet. Eu saí de casa para comprar pão e deixei o telefone em casa, já que ele não me seria útil na rua. Entrei no elevador e havia uma moça. Nos vimos com algum susto. “Bom dia”, ela disse, “tudo bem?”. Eu menti qualquer coisa murmurada e perguntei a ela se estava tudo bem. Ela mentiu que sim.
Tudo bem? Tudo bem.
Ela não queria minha resposta sincera e eu também não. Nós estávamos ocupados demais em nossos mundinhos para aproveitar o minuto de elevador para compartilhar, conectar e ampliar um pouquinho de nossas realidades.
Durante o curso, fomos convidados a perguntar para outra pessoa “como vai?” e ouvir a resposta em silêncio. Ao longo de uns dois minutos, tínhamos à nossa disposição alguém para nos ouvir falar com tanta sinceridade quanto conseguíssemos evocar. Quando falei sobre como estava me sentindo, fui encontrando na escuta de alguém que nem sabia ainda meu nome a possibilidade de me conectar comigo mesmo.
Dizer a verdade para uma pessoa desconhecida me deixou tão próximo dela quanto de amigos de anos, ainda que só durante aqueles minutinhos em que nos retiramos do jogo dos fingimentos sociais.
3) Todos os rótulos são superficiais e insuficientes
Melhor amigo. Mãe. Burro. CDF. Brigão. Canceriano.
Rótulos são atalhos para acessarmos o mundo, funcionam como mapas que nos indicam caminhos para percorrer o território, mas sem demora corremos o risco de olhar o mapa e acharmos que vemos o território. Rapidinho, passamos a achar que o mapa é tudo o que há.
Acontece que somos desconhecidos, sempre, porque estamos em constante e inacabável mudança. Se hoje sou diferente de há dois anos, quando primeiro escrevi sobre comunicação não-violenta, por que muitas pessoas me tratam como se eu fosse a mesma pessoa? Por que eu trato as pessoas na minha vida como se fossem as mesmas, como se eu soubesse alguma coisa sobre as verdades delas? Essas verdades se atualizam com o tempo, para elas e para mim.
Somos mistérios complexos. Quando chegamos em alguém com uma ideia pronta sobre quem é essa outra pessoa, nós estamos nos relacionando com nossa expectativa, com nossa impressão, com nosso julgamento, com nosso mapa, não com o território que se revela à nossa frente.
4) Somos todos incompetentes e está tudo bem
Se não podemos saber de antemão quem são os outros e o que buscam, estaremos errando o tempo inteiro na tentativa de descobrir as respostas corretas. Somos, portanto, incompetentes, mas está tudo bem se entendermos que a comunicação não-violenta não é uma ferramenta precisa e sim uma investigação contínua.
A CNV é uma tática na qual, errando ou acertando, nós ganhamos, porque o objetivo é intensificar a conexão entre as pessoas. Se eu te pergunto sobre tuas necessidades e erro, tu me explica e nós dois ganhamos clareza. Se eu acerto, ganhamos clareza também. Assumir nossa incompetência frente ao mistério do outro é um passo necessário para entrarmos em contato.
5) Ideias se espalham feito vírus
Dominic compartilhou uma história sobre o dia em que foi conhecer uma moça. Seus amigos já o haviam alertado que ela era uma pessoa difícil, durona. Quando disseram isso, eles instalaram na cabeça de Dominc essa ideia de pessoa difícil, durona. Daí pra frente, não havia muito que ele pudesse fazer para se livrar da ideia. Uma vez transmitida, a ideia do outro passa a habitar nossa cabeça.
O segredo não é gastar energia tentando negar as ideias que habitam nossas cabeças. Pelo contrário, essas ideias são atalhos para pensar o mundo e podem ser úteis como sistema de alerta. Contudo, se somos incompetentes e aceitamos nossa incapacidade de ler o território só com o mapa, precisamos observar como ele se apresenta e verificar o que do nosso mapa é útil para o contato real.
Precisamos estar presentes o suficiente para criar um espaço entre nossas ideias (porque agora já não são mais dos outros, já viraram nossas) e a realidade. Nesse espacinho, exercemos a observação e a partir daí atualizamos nosso mapa.
6) Sentir raiva não é um problema
Qual foi a última vez em que algo irrelevante te tirou do sério? Provavelmente nunca, porque só nos irrita aquilo que, de alguma maneira, nos importa. A raiva é um indício de que nos importamos. O mesmo vale para a tristeza e para a alegria. Se estamos alheios ou indiferentes a algo, nós não sentimos nada.
Entretanto, somos ensinados que devemos controlar e suprimir nossas emoções. Raiva, tristeza? Nem pensar! Somos seres racionais e devemos ser lógicos, certeiros, frios, os sentimentos só servem para atrapalhar nosso julgamento! Quanto tempo perdido tentando ignorar algo que é parte de nós.
Nós somos o resultado de milênios de uma evolução precisa em que tudo o que persistiu conosco se provou mais útil para nossa sobrevivência. Como explicar os sentimentos, essas coisas avassaladoras que modificam nossa relação com o mundo de forma tão intensa? Uma proposta, corroborada pela neurociência, é a de que os sentimentos são um sistema de alertamuito fino para reconhecermos quando algo está fora de sintonia.
Para recuperar a sintonia, precisamos reconhecer nossa responsabilidade e para o que os sentimentos nos alertam.
7) Nossos sentimentos são nossa responsabilidade
A tristeza que sinto quando alguém querido me decepciona e a raiva que me consome quando alguém me agride são sentimentos que pertencem a mim. A agressão, ou o ato que serve como gatilho, pode vir de outra pessoa, mas o sentimento é um sistema interno meu para me avisar que tem algo errado. Meu, unicamente.
A responsabilidade pelo que eu sinto é minha, de mais ninguém.
Ninguém me deixa triste. Não há pessoa que me dê raiva. Essas frases são ficções que usamos para deslocar para longe de nós a responsabilidade por aquilo que sentimos. Quando sinto raiva, tristeza, alegria, cabe a mim lidar com esses sentimentos, reconhecer o que eles querem dizer e escolher o que fazer com eles.
Isso não significa que é fácil, mas algo que pode ajudar é compreender a razão por trás dos nossos sentimentos.
8) Tudo o que fazemos é para sanar nossas necessidades
Dominic propôs uma hipótese, a mesma lançada no curso de Compaixão que estou fazendo pelo The New York Center for Nonviolent Communication (TNYCNC) : e se tudo o que fazemos for para suprir uma necessidade?
Para compreender essa ideia, precisamos lembrar que necessidade é aquilo que não cessa. São nossos valores e princípios que informam aquilo que entendemos que não pode nos faltar na vida. Necessidade não é, por exemplo, querer comprar um carro. Isso é, no máximo, a forma como decidimos atender a alguma necessidade.
No curso do TNYCNC, recebemos uma lista de necessidades e valores, “coisas que todos nós queremos em nossas vidas”. Tenho refletido sobre minhas ações e outras que percebo ao meu redor e até agora parece fazer muito sentido o argumento de que tudo o que fazemos seja para sanar necessidades. Nesse caso, a comunicação não-violenta nos ajuda a perceber que necessidades são essas, compreendendo que os sentimentos são a fumaça do fogo daquilo que necessitamos.
O TNYCNC sugere seis necessidades que funcionam como valores-guarda-chuva para uma série incontável de necessidades. São elas: autonomia, conexão, sentido, paz, bem-estar físico e brincar.
Aqui está a lista completa e em inglês.
9) O que uma pessoa diz é diferente do que uma pessoa é
Estarmos sempre buscando sanar nossas necessidades não quer dizer que tenhamos consciência delas nem que saibamos comunicá-las. Pelo contrário, somos treinados culturalmente a mentir sobre como nos sentimos, inclusive para nós mesmos, ao ponto de perdermos contato com o que sentimos de verdade.
Quando minha mãe me diz para cuidar o que falo ou como me comporto na rua, eu posso me sentir ferido em termos da minha autonomia, da liberdade de ser quem sou, do sentido de lutar por visibilidade — e posso também não saber que tudo isso se atiça em mim e solta a fumaça do incômodo, às vezes até da irritação.
Quando minha mãe me diz para cuidar o que falo ou como me comporto na rua, ela estar sentindo medo e preocupação, fumaças produzidas pela necessidade de ordem, harmonia, amor e, em última instância, o próprio bem-estar físico porque o meu sofrimento a impacta porque meu bem-estar é importante para ela.
Mas se ela me diz para cuidar o que falo e faço, eu posso ouvir apenas isso e achar que ela quer me podar, me limitar, me controlar. Daí eu brigo, rompo, grito. Ou eu ouço e enxergo a pessoa que está por trás daquelas palavras e descubro, em meio à minha ignorância e incompetência, que há um mistério ali para ser investigado, o mistério de como uma pessoa tão diferente de mim é ao mesmo tempo tão parecida.
E eu me conecto.
10) Ninguém ignora, mas sim presta atenção em algo mais interessante
Um rapaz levantou a mão e fez uma pergunta ao Dominic: “Tem vezes que alguém vem me contar algo, mas daí eu perco o foco e fico viajando. A pessoa meio que percebe isso e acaba se incomodando, mas eu não consigo prestar atenção”.
Dominc riu e perguntou: “tu considerou que teus pensamentos eram mais interessantes naquele momento?”
“Sim.”
“Então por que tu ia querer prestar atenção em algo menos interessante?”
Nossa atenção se volta para aquilo que capta nosso interesse. Para nos mantermos concentrados em algo que não nos interessa, precisamos demandar muita energia — e nossa energia é limitada.
11) Para comunicar é necessário ter sinal
Não existe comunicação sem pelo menos duas pessoas conectadas. É como se fôssemos telefones celulares: precisamos de sinal para que a comunicação acontece. Se não há sinal, podemos falar tanto quanto quisermos e não conseguiremos que nossas mensagens cheguem à outra pessoa.
Em termos de comunicação não-violenta, ter sinal é estabelecer um elo com a outra pessoa. Esse elo não precisa ser uma promessa de amizade eterna — até porque isso é impossível. Um elo é uma base em comum sobre a qual as duas pessoas se encontram e se reconhecem como participantes de um mesmo movimento, pertencentes em um mesmo instante de cocriação de diálogo.
Um elo pode ser a identificação de que a tua necessidade é uma necessidade que eu também tenho, e daí temos um ponto em comum a partir do qual podemos trabalhar juntos.
12) O incômodo é a trilha sonora da mudança
Comunicação não-violenta, necessidades, elos. Lendo essas coisas, é até fácil pensar que a CNV se trata de baixar a cabeça na hora do conflito e evitar incomodar os outros. Afinal, é não-violência, certo? Errado. Estabelecer processos de comunicação não-violenta passa por compreender e assumir aquilo que é importante e imprescindível para a minha integridade neste momento. Quando tomamos posição em defesa daquilo que acreditamos, a tendência é que esbarremos em sistemas previamente instalados que não atendam às nossas necessidades.
O sistema legal e o sistema familiar, por exemplo, não contemplam minha necessidade de reconhecimento enquanto homem que ama e se relaciona com outro homem e que deseja os mesmos direitos que homens que amam e se relacionam com mulheres. Se o sistema que está em jogo não atende à minha necessidade, nós entraremos em conflito e eu farei um movimento para que ele mude e passe a me acomodar.
Isso vai doer porque vai mexer na vida de outras pessoas já acostumadas com os sistemas como eles eram. O incômodo faz parte porque a mudança é inevitável e constante.
13) Dinâmicas de poder se instituem imediatamente
Conforme caminhamos do intrapessoal, passamos pelo interpessoal e começamos a chegar no sistêmico, a desigualdade das relações vai se deixando evidente. Nossos sistemas posicionam pessoas diferentes em lugares diferentes, acionando expectativas e possibilidades diferentes. Dominic, como homem branco estrangeiro, consegue acionar uma posição de autoridade maior do que um homem negro brasileiro costuma conseguir nos mesmos ambientes.
Quando um professor entra na sala de aula e se ajeita na mesa em frente a todas as demais carteiras da sala, quem está na posição de aluno sabe que tem que ouvir e respeitar quem está na posição de professor. Com o doutrinamento certo, saberá inclusive que deve confiar, obedecer e seguir o professor.
Ao naturalizar sistemas que foram instalados para suprir determinadas necessidades, nós naturalizamos também as relações de poder rígidas que os acompanham.
14) A CNV busca aumentar conexão e qualidade de verdade das relações
A comunicação não-violenta é um movimento para criar conjuntamente o mundo em que queremos viver, um mundo com melhores possibilidades de existência para todos. O caminho para isso é aumentar a conexão, de modo que consigamos perceber que um é porque todos somos. Um mundo em que uns precisam perder para que eu ganhe não é um mundo melhor para todos, então aí reside o desafio.
Para lidar com o desafio, a CNV nos convida a aumentar a qualidade de verdade das relações. Ou seja, a acolher nossas necessidades e a agir em nome delas juntamente às necessidades dos demais, com as quais nos conectamos.
A comunicação não-violência não pode prescrever um conjunto de regras porque tratade um processo dinâmico, sempre em movimento, sempre conflitivo porque o encontro de diferenças será sempre marcado por discordâncias e impasses. Não-violência não é pacificação, é algo vivo, incontrolável, um processo de investigação contínuo.
15) Ninguém fala a verdade quando o ambiente é punitivo
Se a verdade é o objetivo, por que mentimos tanto? Por que fingimos que estamos bem quando não estamos, que está tudo certo quando algo nos incomoda? Fomos ensinados a nos calar ou a fingir quando achamos que seremos retaliados se expormos a nossa verdade.
A verdade precisa de um espaço seguro para florescer. Eu encontro esse espaço na escrita e foi nela que descrevi uma experiência no curso.
Hoje começou o curso de Comunicação Não-Violenta, amanhã ele termina. Lá, o Pedro me encontrou. Eu caminhava tentando encontrar onde colocar os pés, daí olhei para a frente e ele estava ali, pronto para me dar oi. Nos cumprimentamos e começamos a conversar. Imediatamente vieram imagens das vezes que conversamos, dos contextos, dos assuntos, dos lugares e pessoas em comum, enquanto no fundo da minha cabeça uma coisa gritava: “eu não lembro o nome dele, como eu pude esquecer o nome dele, eu sou uma péssima pessoa por esquecer o nome dele”. Quando ele me chamou pelo meu nome, essa sensação ficou ainda pior.
Em vez de assumir e lidar com a verdade, tentei evitar o desconforto (que supus que rolaria pra ele, porque o meu já estava instaurado). Acabei derramando sobre ele minhas frustrações e reflexões sobre a vida sem nem perguntar como ele estava. Em algum momento, ele contava uma história e lançou o próprio nome. Embora a raiz do problema estivesse resolvida, os efeitos dele continuaram, porque eu estava me perguntando se ele tinha percebido, se ele estaria magoado, se de alguma maneira eu havia cometido uma gafe imperdoável.
Durante nossa conversa, senti necessidade de assumir que estava agitado e o fiz. Expliquei que era porque eu estava acostumado a ouvir mais do que falar e, por isso, parecia ser a pessoa mais centrada e calma das conversas em que entro, mas isso era apenas parte da verdade. Enquanto eu falava, eu já perdia consciência de como a minha agitação havia nascido — no fluxo do diálogo, ela estava ali interferindo no meu comportamento a tal ponto que eu fiquei desconfortável com os silêncios que surgiram, querendo preenchê-los o mais rápido possível. Agitado, portanto.
Escrevo esse texto não para pedir desculpas, porque cada vez mais quero estar alinhado com uma perspectiva que entende que não há culpa. Escrevo esse texto essa história porque precisei dar sentido a como me senti e compartilho — inclusive com o Pedro — porque estou em um movimento para uma vida mais honesta comigo e com os outros. (E porque o Pedro é um querido e estou seguro de que vai entender, em vez de virar a cara na próxima vez que me enxergar HAHA ~riso nervoso~)
Escrevo, acima de tudo, para recuperar um pouco da raposa antropomórfica (quase antropológica) que eu sempre fui, estranhando meu comportamento e o comportamento de outros humanos.
Porque a curiosidade pelo milagre humano é algo que vale a pena investir energia.
Nós precisamos sentir segurança, senão mentimos ou fugimos, e sem verdade não há comunicação.
16) De volta àquela coisa intensa que acontece quando ouvimos
Se há algo que podemos chamar de técnica dentro da comunicação não-violenta, é a escuta empática. Como proposta, é algo simples: tu ouve o que a pessoa diz e mostra a ela o que tu escutou. Sem julgamentos, sem conselhos, sem apontamentos. Vira espelho do outro.
Algo parecido com isso aconteceu quando o Pedro me narrou (por escrito) como ele viveu o momento da minha gafe.
Olha que interessante. A gente já se encontrou hoje e, antes de eu ter lido por aqui tu já me contou tudo isso ou parte disso. E eu te contei que tenho também uma história com nomes, com não ser bom em lembrar nomes.
O que eu não te contei é que, quando eu te vi ainda na quinta à noite, eu repasso teu nome na minha cabeça para checar comigo como ele soava e ver se condizia com minha lembrança de ti, num exercício somente parcialmente efetivo de verificar se o nome que eu lembrava era mesmo o teu. E quando nos encontramos na sexta e conversamos, eu fiz o mesmo algumas vezes enquanto te ouvia. E eu só me senti 100% seguro se usar teu nome depois que tu mesmo o usou, contando sobre ti, em uma dinâmica muito parecida a que tu me viu fazer. E que eu só relaxei completamente a respeito do teu nome — mesmo que, como eu te disse ao vivo, com o passar dos anos eu fui criando um relaxamento em relação a nomes pessoais e a minha (in) capacidade de lembrá-los tanto quanto me são oferecidos — quando eu mesmo o verbalizei. E, depois disso tudo, e tendo te escutado usar teu próprio nome, e tendo imaginado que isso poderia ter sido um comportamento extremamente estratégico para cuidar de mim na minha possível incapacidade de lembrar de um nome, ou melhor, de me sentir seguro com a minha lembrança, foi que eu, muito conscientemente, usei meu próprio nome em uma história que te contava a meu respeito.
E o que eu acho fascinante ao compartilhar tudo isso contigo aqui, nesse fórum público, é celebrar o quanto a gente se comunica em uma infinidade de níveis para além das palavras. E o mistério da gente compartilhar tanto, assim, sem querer. Muito grato por isso.
17) Todo mundo precisa de um sistema de apoio
Existir dá muito trabalho, cansa, esgota. Existir como alguém que se arma de verdade num mundo acostumado a ilusões e falsidades é ainda mais exaustivo. Muito fácil nos sentirmos isolados, especialmente se não temos uma rede preparada para nos amparar.
Rede, por sorte quase todos nós temos.
Mas rede sozinha ainda requer energia e iniciativa para ser acionada e virar apoio nos momentos de necessidade, naquelas horas em que a gente está tão cansado que nem consegue pensar direito, quanto mais localizar alguém em quem possamos confiar e fazer uma rápida ligação.
Para isso existem os sistemas de apoio.
Um sistema de apoio é um conjunto de acordos prévios sobre condutas possíveis. Se eu me sentir mal, posso te ligar? Se eu precisar desabafar, posso contar contigo? Se eu quiser alguém que escute, tu me escuta? Um sistema de apoio nos permite viver com mais tranquilidade porque saberemos que a rede de proteção está montada e pronta para nos acolher.
Certa vez, uma amiga sofreu um acidente de moto. Ela me ligou e disse o que havia acontecido. Eu não sabia o que fazer e acabei não fazendo nada. Outra amiga foi lá e a acompanhou até o hospital. Era isso que ela precisava, companhia, mas eu não sabia como tratar da necessidade dela e acabei falhando nesse ponto. Daquele dia em diante, acionamos um sistema de apoio: se nenhum outro pedido fosse feito, no mínimo a presença estaria sendo requisitada. E eu irei, se e quando ela me ligar, porque faço parte do sistema de apoio dela.
Transforming Workplace Conflict with Nonviolent Communication (Transformando conflitos no local de trabalho com comunicação não violenta) O conflito é inevitável em qualquer local de trabalho. Quando personalidades, perspectivas e prioridades diversas se chocam, surgem tensões. Se não for resolvido, o conflito pode se transformar em ressentimento, sufocar a colaboração e até mesmo se transformar em bullying ou violência. Isso afeta a cultura organizacional, além da produtividade e da retenção.
A Comunicação Não Violenta (CNV) oferece uma abordagem compassiva para lidar com as diferenças e disputas no local de trabalho. Desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg, a CNV ajuda as pessoas a se conectarem com a humanidade comum e as necessidades não atendidas de cada um. Isso leva à compreensão mútua e à busca de soluções que funcionem para todas as partes. A aplicação dos princípios da CNV pode transformar os conflitos no local de trabalho em oportunidades de crescimento.
Entendendo os princípios básicos da CNV
A CNV baseia-se em quatro etapas principais:
1. Observar objetivamente sem avaliar: Descreva os fatos observáveis sobre a situação de

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