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CONSUMISMO E INTERAÇÕES HUMANAS NA CONTEMPORANEIDADE I Marcos Mendes Uma sociedade tomada pelo consumismo perde, gradativamente, o senso de valores relevantes à preservação da paz, da solidariedade e do bem-comum. O “ter” e o “estar in” passam a nortear a conduta das pessoas, em lugar do “ser”, isto é, passamos a ser medidos por aquilo que possuímos ou a posição que desfrutamos em uma escala social. E nesse “escalonamento social” o caráter e a habilidade para o convívio harmônico e compassivo com o próximo, cedem lugar para a capacidade de gerar e obter lucros, não só nas relações materiais, todavia, nos relacionamentos que mantemos com o outro. Esse artigo é o primeiro de uma série de três, nos quais propomos uma reflexão sobre o mercantilismo marcante que grassa as relações humanas e as consequências que podem ser classificadas como as mais evidentes e nocivas desse fenômeno, tomando por base, sobretudo, as proposições de Zygmunt Bauman, célebre sociólogo e filósofo judeu polonês. CONSUMISMO X CONSUMO O consumo é uma realidade na vida das pessoas, mostrando-se como uma necessidade humana, afinal, ingerimos alimentos e bebidas – ainda que, para muitos, em quantidade insuficiente para sua sobrevivência – usamos coisas, e consequentemente gastamos, exaurimos, enfim, é um fator comum à nossa sobrevivência. Todavia, quando contrapomos ao consumo o termo consumismo, entramos em um novo paradigma de reflexão, considerando a afirmação de Bauman de que o consumismo “é a tendência a situar a preocupação como o consumo no centro de todos os demais focos de interesse e quase sempre como aquilo que distingue o foco último desses interesses”[endnoteRef:1]. [1: BAUMAN, 2011a, p. 83.] Enquanto o consumo é uma necessidade humana, uma questão de sobrevivência, o consumismo se apresenta como uma criação, um produto social, uma condição na qual consumir passa a ser um padrão para as ações das pessoas, um foco a ser perseguido e vivenciado cotidianamente, como paradigma de inclusão capaz de estabelecer méritos e status quo, ao mesmo tempo que funciona como um processo de “automatização” das massas. E nesse sentido, torna-se necessário analisar alguns pontos relativos ao consumismo: o primeiro refere-se ao estabelecimento de um novo padrão ético-moral que orienta e classifica os indivíduos; o segundo, trata dos relacionamentos que esses mesmos indivíduos mantêm com aspectos essenciais de suas existências; e, o terceiro, aborda a questão do capital político e do exercício do poder, cada um deles alvo de um artigo em particular, conforme esclarecemos no início deste texto. A sociedade de consumo e um novo padrão ético-moral A pérfida relação entre a sociedade de consumo – e por que não dizer consumista? – e os indivíduos, assemelha-se a um casamento no qual, um dos cônjuges, mantém o relacionamento com base em promessas de felicidade e fidelidade eternas, que são cumpridas de forma efêmera, enquanto o outro cônjuge, busca por um deslumbre momentâneo, uma fugaz fascinação de possuir aquele ilusório amor e vicia-se na sensação de contentamento pela busca e posse de algo, ainda que por um mero instante. E a dita “perfídia” reside essencialmente no fato de, por um lado, produzir-se a ilusão que a posse, ainda que momentânea, de determinado produto ou a aquisição do uso de certa marca, tem o poder de nos conduzir ao “eterno gozo” da inclusão e, por conseguinte, do não descartamento, o desfrute de um status quo, quando na verdade, isso dura um tempo cada vez menor, até que novas necessidades surjam. Mas, por que essa relação fundada numa relação que se desenha enganosa e escravizadora permanece, ao que tudo indica, intocada, aceita e cada vez mais intensa? Há um conjunto de fatores históricos, sociológicos e filosóficos que constituem um farto rol de explicações plausíveis, todavia, vou me permitir uma resposta radicalmente curta e limitada em sua análise: o avanço desenfreado de um capitalismo selvagem, no qual o liberalismo econômico agiganta-se, tomando uma forma monstruosa e, promove a sobreposição do Estado pelo mercado. Como consequência aquilo que poderia ser classificado como bem-comum, os interesses coletivos e que seria considerado essencial, são sobrepujados por uma nova classificação de valores, em que o “necessário” não é exatamente aquilo que precisamos para viver, entretanto, o fruto de uma elaboração social promovida por grupos e conglomerados econômicos, inclusive com o consentimento do próprio Estado e as forças políticas que nele estão inseridas. A questão é profunda e alcança conceitos como, por exemplo, as ideias de individualidade e liberdade. Deixamos de ser indivíduos pensantes, reflexivos, construtores e detentores de crenças, ideias e comportamentos, formadores de uma cultura, para nos tornarmos seres autômatos, que seguem tendências, modismos e que vivem dentro de um regime de obsolescência programada[endnoteRef:2], sendo constrangidos a um upgrade[endnoteRef:3], de tempos em tempos, para não sermos condenados à exclusão ou perda de nosso status quo. Assim, nossa individualidade e condição de pertencimento a este ou aquele grupo, passa a ser determinada de acordo com regras e modelos estabelecidos pelo mercado, segundo suas necessidades e ao seu bel-prazer. [2: Conceito oriundo da economia que surgiu como uma estratégia na qual as empresas programam o tempo de vida útil dos produtos com o propósito que seja mais curta do que a tecnologia permite, levando esses mesmos produtos a se tornarem ultrapassados em pouco tempo e motivando os clientes a comprar novamente.] [3: Termo na língua inglesa que significa “atualização” ou “melhoria”, normalmente utilizado para atualizar uma versão antiga para uma mais recente de um determinado produto.] Não é difícil de entender essa relação, se houver a compreensão que o mercado, em um ambiente capitalista voraz, como se pode observar nas últimas décadas, sobrevive às custas do estabelecimento de uma espécie de cultura de massa, na qual as pessoas são conduzidas a absorção de ideologias e à adoção de perspectivas, atitudes e outros elementos, que transformam, por exemplo, produtos e marcas, quase sempre, irrelevantes para nossa sobrevivência e construção social, artigos de primeira necessidade. Isso gera, não o consumo, que acontece, via de regra, de forma consciente, contudo, o consumismo, que acumula bens e riquezas e traz sobrevida para o mercado e seus integrantes. Além disso, as pessoas passam a ser alvo de tentativas – quase sempre exitosas, de “envelopamentos culturais”, segundo as diversas comunidades nas quais estão inseridas. Nominei “envelopamentos culturais” às manifestações discursivas, midiáticas e comportamentais, nem sempre, alvos de adequada e verdadeira fundamentação, em que se tenta preservar os muros da comunidade e seus membros, de perspectivas que lhes despojem daquilo que se pode chamar de “sagrado do grupo”. E para aclarar essa expressão, é interessante observar o que nos assevera Guimarães, referindo-se às proposições teóricas de Castoriadis: Cada sociedade elabora uma imagem do mundo fazendo um conjunto significante, onde encontram o que importa para a vida da coletividade, a própria coletividade e uma certa “ordem do mundo”. Esta imagem utiliza as “nervuras racionais do dado”, mas as subordina a significações que não dependem do racional, mas do imaginário.[endnoteRef:4] [4: GUIMARÃES, 2005, p. 2.] O apelo à essa “ordem do mundo” é uma tentativa de resgatar e salvaguardar a cultura comunitária enquanto mecanismo de controle[endnoteRef:5], conduzindo o indivíduo ao processo de socialização, estabelecendo “planos, receitas, regras, instruções [...] – para governar o comportamento”[endnoteRef:6]. Porém, esse resgate tem-se mostrado, em larga escala, ser insuficiente para confrontar a cultura consumista, pois os indivíduos estão inseridos no contexto da sociedade. De qualquer forma, somos conduzidos a uma espécie de “produção em série” de um mesmo produto, no qual temos que obedecer a um padrão preestabelecido, quer pelomercado, quer pela cultura comunitária. [5: GEERTZ, 1989.] [6: Ibidem, p. 56.] Bauman, fundando-se nas elaborações de Emmanuel Levinas, considerado o maior filósofo da ética nos últimos anos, assevera que a relação entre o mercado de consumo e a moral é inconciliável, todavia, ao mesmo tempo, algo no qual ambos os elementos dessa equação se mostram inseparáveis. Com base no pensamento hobbesiano, Levinas (conforme a explanação de Bauman) entendeu que a sociedade deve ser compreendida como “um dispositivo que salva os homens das consequências de suas próprias inclinações mórbidas”[endnoteRef:7], e defende que essa mesma sociedade tem um papel diferente a ser desempenhado. Esse papel reside em apresentar à humanidade uma saída para o dilema entre aquilo que chamou de “responsabilidade incondicional pelo Outro” – que funciona como base para toda moral (algo que, segundo Levinas, é voltado para os santos e não para a maioria de nós, indivíduos comuns), e nossa elevada incapacidade para a autoimolação, com o abandono de nossos interesses próprios de forma incondicional. [7: BAUMAN, 2013, p. 95.] Na perspectiva de Bauman: Uma sociedade viável composta apenas de santos, para todos os fins práticos, é inconcebível, pela simples razão de que uma responsabilidade completa e incondicional não pode ser exercida por duas pessoas ao mesmo tempo quando (como pode acontecer) seus interesses são conflitantes. Sempre que ocorre um choque como esse, não há como deixar de pesar as qualificações relativas das partes querelantes e dar preferência aos interesses de uma em relação aos da outra. Em outras palavras, a responsabilidade é forçada a se deter diante da incondicionalidade.[endnoteRef:8] [8: Ibidem, p. 95-96.] Daí, a necessidade da sociedade como algo essencial à solução do dilema ao qual fizemos referência, limitando esse suposto caráter incondicional da responsabilidade e estabelecendo um conjunto de normas éticas e regras de procedimento que substituam os impulsos morais dos indivíduos. Em outras palavras, a sociedade busca solucionar esse permanente desafio cotidiano de sermos entes morais e atender aos interesses e necessidades individuais. É um desafio que Bauman classifica como “perturbador e angustiante, desprovido de soluções e remédios satisfatórios e/ou definitivos.”[endnoteRef:9] [9: Ibidem, p. 96.] Assim, nessa tentativa de encontrar a “saída do labirinto” a sociedade constrói um conjunto finito de regras que possibilita a vida em comum, sem, contudo, dar solução aos conflitos. A infinita ramificação das responsabilidades decorrentes das interações humanas e do cuidado com o Outro é substituída por um código ético no qual alguns “outros” são excluídos e certos elementos da “alteridade” são postos de lado, de forma conveniente a não provocar, o que Bauman chamou de dores de consciência[endnoteRef:10]. Como resultado do estabelecimento desse código, encontra-se a construção de afirmações éticas, as quais formatam discursos que servem de base para avaliações quanto ao que as pessoas consideram aprovável ou reprovável, no que se refere ao comportamento moral, ou seja, aquilo que é certo ou errado. Não se trata de algo universal, todavia, essa construção é restrita a determinados contextos com suas respectivas cosmovisões, compondo a que se pode chamar de “étnoética” que oferece, como visto, uma descrição do correto e do incorreto alimentada por quem é descrito, entretanto, não compartilhado, necessariamente, por aqueles que as descrevem, à semelhança de um estudo etnográfico acerca de certa cultura[endnoteRef:11]. Como descreve Bauman: [10: Ibidem, p. 97] [11: BAUMAN, 2011b, p. 21.] O termo “etnoética” diz-nos o que alguns povos (“etnos”) acreditam ser correto ou incorreto, sem nos dizer se essas crenças, em si, são corretas ou incorretas. Mas os filósofos, educadores e pregadores insistirão que, para produzir uma declaração ética, não é suficiente afirmar que algumas pessoas acreditam que algo é correto, ou bom, ou justo. [...] A ética, portanto, é algo mais que a mera descrição do que as pessoas fazem. Mais até que uma descrição do que elas acreditam que deveriam estar fazendo a fim de ser dignas, justas, boas – ou, mais genericamente, “do lado certo”. Declarações éticas adequadas são tais que não dependem de sua veracidade com base no que as pessoas fazem ou acreditam estão em contradição, acredita-se que isso quer dizer, sem necessidade de outras provas, que as pessoas estão erradas. Somente a ética pode dizer o que realmente deveria ser feito para que o bem seja atendido.[endnoteRef:12] [12: Ibidem, p. 21-22.] Para Bauman, a ética, de forma ideal, “é um código de leis que prescreve o comportamento ‘universalmente’ correto, isto é, para todas as pessoas em todos os momentos”[endnoteRef:13]. Contudo, em um mundo fragmentado, onde pululam grupos e movimentos, com seus discursos e caracteres próprios, sob a forma de comunidades locais ou com dimensões mais amplas – o que leva a um pujante relativismo – , como se pode entender possível a construção desse “código universal”, com uma leitura e interpretação unificada? [13: Ibidem, p. 22.] Parece fácil, por demais simples, responder a essa questão com a chamada para amar ao próximo como a nós mesmos, classificada por Sigmund Freud como “uma das exigências ideais da sociedade civilizada”[endnoteRef:14]. Entretanto, na análise de Freud, se atentarmos para ela com certa dose de ingenuidade, como se a ouvíssemos pela primeira vez, seríamos tomados por um sentimento de estranheza e surpresa, motivando-nos a questionar a razão pela qual deveríamos amar o Outro dessa forma, sem que isso nos traga qualquer benefício, sem saber se seremos correspondidos e como seria possível fazê-lo. Conforme a reflexão de Freud: [14: FREUD, 2016, p. 73.] Meu amor é algo precioso para mim, algo que não posso despender irresponsavelmente. Ele me impõe deveres, os quais tenho que me dispor a cumprir com sacrifícios. Quando amo a outrem, este deve merecê-lo de algum modo. [...] Ele o merece, se em importantes aspectos semelha tanto a mim que posso amar a mim mesmo nele; ele o merece, se é tão mais perfeito do que eu que posso amar nele o meu ideal de mim (...)[endnoteRef:15] [15: Ibidem, p. 73-74 (grifo nosso)] Grifamos a expressão sobre o amor nos impor deveres e requerer sacrifícios, lembrando nossa incapacidade quase que natural para a autoimolação, sobre a qual já discorremos. Como acréscimo a essa condição, é interessante observar as proposições de Freud quando afirma que: (...) é bem provável que o próximo, quando solicitado a me amar tanto quanto a si mesmo, responda exatamente como eu e me repudie pelos mesmos motivos. Espero que não com a mesma razão objetiva, mas isso ele também pensará. Há diferenças na conduta humana que a ética classifica de “boas” ou “más”, não considerando que foram produzidas por condições determinadas. Enquanto essas inegáveis diferenças não forem suprimidas, obedecer às elevadas exigências éticas implicará danos aos propósitos da cultura, por estabelecer prêmios para a maldade.[endnoteRef:16] [16: Ibidem, p. 76.] Daí, voltamos ao dilema entre o cuidado com o Outro e nossa incapacidade de auto sacrifício. E defendemos que esse é, em larga escala, a matriz das desigualdades sociais, injustiças e violências que permeiam as sociedades, sem falar nos sérios danos provocados ao meio-ambiente, por não atentarmos ao fato que vivemos todos no mesmo mundo. Aliás essa é uma questão que nos iguala enquanto humanos: as consequências de uma conduta irresponsável para com o planeta e agressiva à natureza, não afetam unicamente ao Outro, contudo, a nós mesmos. Então, face ao reconhecimento quanto à necessidade irrevogável de amar e cuidar do Outro como a nós mesmos, sob pena de nos fragmentarmos de tal maneira a instituir a barbárie e, assim, inviabilizar a cultura e a vida em sociedade, e o desespero por nossa evidente dificuldade (e por que não dizer, incapacidade?) para o sacrifício de nossas vontades em favor do diálogo,da mutualidade e do entendimento, caímos em uma situação que nos coloca entre dois caminhos: seguir a proposição ético-moral que a sociedade nos apresenta ou alinhar-se a uma proposta alternativa, defendida por algum dos grupos nos quais estamos inseridos. Entretanto, não podemos nos iludir que estaremos totalmente imunes àquilo que a sociedade estabelece como “regra para o viver”, pois somos seres gregários. Ainda que busquemos viver uma condição de ascetismo socio espiritual, em um mundo globalizado, extremamente conectado em suas realidades e com uma profunda relação com a virtualização, isso praticamente fica inviabilizado. A mediação, ou melhor, a intervenção da sociedade na formatação de um padrão ético e de um regramento moral, como vimos anteriormente, além de necessária, pode ser considerada histórica e natural a partir da análise do contratualismo, especialmente, na perspectiva hobbesiana. Porém, quando nos voltamos para a contemporaneidade, com a vigência da sociedade de consumo, cuja premissa fundamental é “satisfazer os desejos humanos de uma forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar”[endnoteRef:17], caímos em algo que chamaremos de “abismo ético”, em que nos deparamos com um terrível paradoxo, entre a tentativa de conciliação social e o individualismo desagregador. [17: BAUMAN, 2007, p. 106.] Parece-nos que esse conflito deságua naquilo que Byung-Chul Han chamou de “terror do igual”, afirmando que a existência do outro é passado e que a negatividade própria do Outro, cedeu lugar à “positividade do igual”[endnoteRef:18]. Todavia, como propõe, esse fenômeno gera aquilo que nominou de dialética da violência, que afirma que “um sistema que recusa a negatividade do outro desenvolve traços autodestrutivos”[endnoteRef:19] e acrescenta: [18: HAN, 2022, p. 7.] [19: Ibidem, p. 8.] A violência do igual é, por causa de sua positividade, invisível. A proliferação do igual se apresenta como crescimento. A partir de um determinado ponto, porém, a produção não é mais produtiva, mas destrutiva; a informação não é mais informativa, mas deformadora; a comunicação não é mais comunicativa, mas meramente cumulativa.[endnoteRef:20] [20: Ídem, ibidem.] Assim, compreendemos que é natural concluir que o Outro oferece um salutar contraponto ao igual, funcionando como a antítese numa relação dialética em que surge uma síntese, a princípio, conciliatória. Poder-se-ia, então, entender a Ética como elemento dessa síntese? Acreditamos que, de certa forma e em seu aspecto geral, como um conjunto permanente de princípios universais, sim. Nossa percepção, portanto, é que precisamos do Outro, muito mais do que imaginamos. Em um mundo de friends e followers, onde a igualdade se constrói e se fortalece, a diferença, e porque não dizer, o desvio e a oposição do outro, levam-nos a ter experiências e provocam reflexão e a construção de novos saberes, que podem conduzir a um aprimoramento de nossa humanidade. É interessante ressaltar que a pluralidade não representa necessariamente diferença. O consumismo contemporâneo disponibiliza uma variedade indescritível de produtos às pessoas, entretanto, coloca todas sob o mesmo status de consumidores, empregando a mesma política de esvaziamento da individualidade e da ameaça da descartabilidade. É óbvio que esses produtos são destinados a públicos diversos, classificados segundo sua capacidade de adquiri-los. Contudo, mesmo que esteja implícito que determinadas pessoas não alcançarão o patamar necessário para consumir aquilo que está sendo ofertado, a propaganda consumista coloca esses produtos como a porta de entrada para um sonho mítico de poder e bem-aventurança, um “El Dorado”[endnoteRef:21] social, no qual as pessoas passarão a desfrutar os sentimentos, os prazeres, enfim, a vida que os personagens dos anúncios veiculados, demonstram aos “futuros clientes”. Esse fato, estabelece, por assim dizer, um alvo plenamente possível de ser alcançado para uns, todavia, completamente inatingível para outros, reforçando uma condição de desigualdade entre categorias, classes e/ou grupos sociais. Consideramos que o reforço dessa diferença – em especial, nas sociedades cujo índice de Gini[endnoteRef:22] é elevado (próximo de 1), poderá concorrer para uma degeneração ética e moral, gerando fenômenos violentos e criminais, além de outros males sociais, a exemplo de alguns países no continente africano, na América Latina e, em nosso país, em comunidades entremeadas com áreas urbanas de elevado IDH. [21: Mítica cidade a qual se acreditava ser repleta de ouro e cujo príncipe teria, inclusive, seu corpo coberto de ouro. Essa lenda foi ouvida pelos conquistadores espanhóis pioneiros, que se fixaram, ao longo dos séculos XV e XVI, sobretudo na região costeira da atual Venezuela e Colômbia.] [22: Instrumento criado pelo matemático italiano Conrado Gini, empregado para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo, aferindo a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. O índice varia de 0 (igualdade perfeita) a 1 (extrema desigualdade).] É preciso considerar, ainda, que consumir não é mais mera necessidade, contudo, um instituto compulsório que impõe ilusória e forte carga de narcisismo, enquanto, ao mesmo tempo, aprisiona o indivíduo, por meio de mecanismos de marketing, em uma cela comum com outros indivíduos (a infosfera[endnoteRef:23]) por meio de um sentimento de inclusão, de igualdade. Logo, o diferente, ou seja, aquele que por algum motivo, não compartilha do mesmo objeto de consumo, é visto como alguém que está out, que não tem o que oferecer, desinteressante, possivelmente um risco a ser eliminado e, daí, deve ser repudiado, descartado, lançado no inferno dos despossuídos. [23: Infosfera é um neologismo cuja criação é atribuída a Luciano Floridi, filósofo italiano, pioneiro no campo da Filosofia da Informação e da Ética da Informação. O termo faz alusão ao complexo ambiente informacional, composto por todas as entidades de informação, com suas propriedades, processos, interações e demais relações.] CONSIDERAÇÕES FINAIS A somatória desses elementos teóricos que discutimos ao longo deste artigo, traz como consequência o surgimento – e/ou preservação, de um padrão ético-moral marcado por elementos como medo, ressentimentos, radicalismos, violência, egoísmo e egocentrismo extremos, fomentando um ambiente relacional de incertezas, desconfiança, individualismo exacerbado e fragmentação. Logo, coisas como gênero, relações interpessoais – o casamento, por exemplo, paternidade/maternidade, amizade, espiritualidade, relações intergeracionais, entre outras, apresentam-se um tanto fluidas, para não dizer efêmeras em suas formas e conceitos. Entretanto, essas relações de caráter interpessoal e com aspectos outros do cotidiano das pessoas, serão alvo de nossa reflexão, ainda que de forma sumária, no segundo artigo dessa série. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. ______. Consumismo é mais que consumo. In: ______. 44 cartas do mundo líquido moderno. Tradução Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 2011a. p. 83-87. ______. Vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. Tradução Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011b. ______. Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução Paulo César de Souza. 4. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. v.18. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1989. (Coleção Antropologia Social). GUIMARÃES, Áurea Maria. O cinema e a escola: formas imagéticas da violência. In: Cadernos CEDES, Dez. 1998, vol. 19, n 47, p. 104-115. HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação de hoje. Tradução Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022. NOTAS