Prévia do material em texto
Título original Carlos Skliar Y si el otro no estuviera Notas para una pedagogía (improbable) de la diferencia Pedagogia (improvável) da diferença E se o outro não estivesse Carlos Skliar Tradução Pedagogia da diferença Giane Lessa E se outro não estivesse Revisão de provas Daniel Seidl Projeto gráfico e diagramação Carolina Falcão Gerência de produção Maria Gabriela Delgado Capa Yomar Augusto Tradução: Giane Lessa CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse / Carlos Skliar; Giane Lessa]. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. Tradução de Y si el otro no estuviera Notas para una pedagogía (improbable) de la diferencia. 224p., 14 21 cm Inclui bibliografia ISBN 85-7490-257-8 DP&A Pedagogia. 2. Alteridade I. editora150 Pedagogia (improvavel) da diferença termina com sua própria essência, se retorce no nada e, como bem diz Mèlich (1998, p. 155), "acaba reduzindo-se a cinzas". CAPÍTULO IV E é aqui onde a política, a filosofia e a poética da diferença se reúnem, ainda que dispersas, ainda que dissímeis: a única aceitação possível que cabe é a de aceitar o outro na soberania de sua diferença, Sobre a anormalidade e anormal notas para no insondável de seu mistério, em sua distância, em seu ser-sempre um julgamento (voraz) da normalidade irredutível. E talvez seja aqui o caso de abandonar de uma vez e para sempre a idéia de que o outro é, possa ser, deva ser, um outro concreto, um É uma banalidade dizer que jamais existimos no outro específico, um outro sempre o mesmo. Daí que Deleuze utilize singular. Estamos rodeados de seres e de coisas com a expressão outrem e já não outro para dizer uma outra coisa bem os quais mantemos relações. Por meio da visão, por diferente, para se afastar desse outro que acaba sendo o outro maléfico, meio do tato, por meio da simpatia, por meio do a nossa invenção maléfica e/ou o nosso desesperado chamado à relação trabalho em comum, estamos com os outros. Todas com o outro. o outrem não nos sugere ninguém especificamente essas relações são transitivas. Toco um objeto, vejo o falando, ou seja: outro; mas eu não sou o Emmanuel Lévinas Que o Outrem, propriamente falando, não seja ninguém, nem você, nem eu, significa que ele é uma estrutura que se encontra efetuada somente por termos variáveis nos diferentes mundos de percepção E mesmo que seja possível que cada um de nós ou eu para você no seu, você para mim no meu. Nem mesmo basta ver cada uma de nós ao menos produzamos sempre em outrem uma estrutura particular ou específica do mundo perceptivo com nossa presença alguma perturbação que altera a em geral; de fato, é uma estrutura que funda e assegura todo o serenidade ou a dos demais, nada há funcionamento deste mundo em seu conjunto. É que as noções de tão perturbador como aquilo que a cada um necessárias à descrição deste mundo [...] permaneceriam vazias e lembra seus próprios defeitos, suas próprias inaplicáveis se Outrem não estivesse aí, exprimindo mundos possíveis limitações, suas próprias mortes; é por isso que as (DELEUZE, 1988, p. 327). crianças e os jovens perturbam os adultos; as mulheres, os homens; os fracos, os fortes; os pobres, os ricos; os deficientes, os eficientes; os loucos, os cordatos; os estranhos, os nativos [...] Nuria Pérez de Lara I E se o anormal fosse realmente anormal, não existiria. E ainda que seja uma contradição com o que acabo de expressar no final do capítulo anterior, em relação ao outrem, gostaria aqui de me referir a uma invenção de alteridade específica, pontual. DP&A editora152 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 153 Pois há um outro, em meio a nossas temporalidades e a nossas sexualidade tão única e determinada quanto constante, uma espacialidades, que foi e ainda é inventado, produzido, fabricado, aprendizagem veloz, curricular e consciente ainda que não em re)conhecido, olhado, representado e institucionalmente governado demasia uma língua capaz de ser só monolíngüe, e de dizer aquilo em termos daquilo que se poderia chamar um outro deficiente, uma que todos querem ouvir. alteridade deficiente, ou então, ainda que não seja o mesmo, um outro Esse outro corporifica a (idéia de uma) estilização incomensurável anormal, uma alteridade da mesmidade. Existe um outro que antes, durante e depois de tantas guerras, E tudo isso pensado como um movimento cênico que representa prisões, exércitos, escolas comuns e especiais, hospitais, religiões, o Paraíso. Paraíso da normalidade. A normalidade da mesmidade. fábricas, manicômios etc. foi e ainda é pensado, percebido e sentido E quanto mais a mesmidade olha cegamente somente para si mesma, como uma espécie de corpo amorfo e incontrolável, uma espécie de mais se torna hostil contra esse outro até deixá-lo mente obscura e selvagem, um movimento desigual e perigoso, uma E quanto mais a mesmidade escuta surdamente somente a si atenção para outro lugar, um comportamento que espreita, um tipo mesma, mais se torna cruel com esse outro até deixá-lo inerte. de linguagem de ausências, arritmias e sem-sentidos. E quanto mais a mesmidade se move ritmicamente em torno de Um outro cujo corpo, mente, comportamento, aprendizagem, si mesma, mais se faz hospitaleira com esse outro até fazê-lo atenção, mobilidade, sensação, percepção, sexualidade, pensamento, unicamente um hóspede; um hóspede imóvel; um hóspede hostilizado ouvidos, memória, olhos, pernas, sonhos, moral etc. parecem encarnar, pela norma. sobretudo e diante de tudo, nosso mais absoluto temor à incompletude, à incongruência, à ambivalência, à desordem, à imperfeição, ao A mesmidade que cria com placidez seus monstros e que, ao mesmo tempo, produz os antídotos necessários para matá-los, para inominável, ao dantesco. não vê-los, para ocultá-los. Um outro cujo todo e cada uma de suas partes se tornaram objeto de uma obscena e caridosa curiosidade, de uma inesgotável A mesmidade que foge despavorida diante da atribuição de suas morbosidade, de uma pérfida etnografia do mesmo, de um sonho ou próprias designações, de seus próprios nomes. ideal de completamento do outro, de perfectibilidade do outro, de A mesmidade que volta a instalar o controle nas fronteiras do correção do outro, de normalização do outro. corpo e da mente; que regressa, soberba, para tomar suas saudáveis e belas decisões sobre os espaços e sobre os tempos da alteridade. Um outro sobre o qual se teve de colocar um microscópio em parte igual e em parte diferente de todos os outros microscópios Normalidade que inventa a si mesma para, logo, massacrar, encarcerar e domesticar todo o outro. apoiados sobre o corpo da alteridade. Um microscópio mais medicalizado do que o habitual, mais salvífico que o habitual, mais A alteridade deficiente, anormal, resulta assim numa invenção antropocêntrico e, sobretudo, mais do que o habitual. que parece referir-se a um outro concreto, mas que hoje só tem sentido Trata-se de um outro que exacerba a secular imaginação da se se afasta desse outro concreto é que ele existe se volta furiosa mesmidade tão improvável quanto impossível em relação a um para a mesmidade. corpo perfeito, a uma inteligência compacta, rítmica e erudita, uma Pois sobram os catálogos, as prescrições, os médicos, as anamneses. Porque estão demais os manuais, as classificações, os escalpelos, as 35 Entre as figuras de anormalidade que Foucault descreveu em Os anormais (2002) avaliações. Pois há um excesso ortopédico de instituições, ateneus, está a do indivíduo a corrigir, o qual pode corresponder à imagem do outro seminários, tertúlias, congressos e especialistas. Porque já existem deficiente, da alteridade deficiente.154 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 155 demasiadas hiperatividades, agramatismos, dislexias, psicoses, a olhar bem no sentido de perceber, com perplexidade, como esse problemas de aprendizagem, ritmos de aprendizagem, deficiências outro foi produzido, governado, inventado e de aprendizagem, gagueiras, autismos, superdotados, paralisias, Porque já não há espaços nem tempos para uma descrição hemiplegias, retardos, atrasos, idiotismos, esquizofrenias, surdezes e ontológica que pretenda narrar o que significa ser deficiente. Já não há cegueiras, síndromes, sintomas, quadros clínicos etc. espaços nem tempos para esgotar a (suposta) descrição existencial do A alteridade deficiente, anormal, como significado que parece outro deficiente. referir-se a um outro, só tem sentido se foge e refoge desse outro e se Já não há essa alteridade deficiente. confronta a normalidade; se fere de morte a normalidade; se Voltar a olhar bem e, quem sabe, pulverizar de uma vez a transfigura a normalidade. que faz falta é perder-se e perder-nos de normalidade e os monstros que ela criou. vista, toda vez que o único que parecemos ver, toda vez que o único E, para voltar a olhar bem, talvez sejam necessários outros olhares, que é visto é a egocêntrica normalidade. Egocêntrica normalidade outras palavras, um novo território de espacialidades e temporalidades. cuja infame tentação é a invenção do anormal. E porque esse outro não está onde pretendemos, onde o obrigamos, Os valores e as normas praticadas sobre as deficiências formam parte de um discurso historicamente construído, onde a deficiência não é onde o fixamos, onde o deixamos, onde o supomos, onde o escrevemos simplesmente um objeto, um fato natural, uma fatalidade [...] Esse e inscrevemos. discurso, assim construído, não afeta somente as pessoas com E porque não há descrição, senão teleológica e tautológica, da deficiência: regula também as vidas das pessoas consideradas normais. alteridade deficiente. Incapacitação e normalidade pertencem, assim, a uma mesma matriz de poder (SILVA, 1997, p. 5-6). E porque não há explicação, senão verborrágica e homo- hegemônica, da alteridade deficiente. É evidente, é claro, que voltar a olhar bem o outro deficiente não E porque não existe alteridade deficiente, senão uma banal e significa sugerir um novo microscópio especial. Pois não há nenhum normalidade. novo vade-mécum de prescrições, axiomas, classificações e de outras E porque o outro da alteridade deficiente continua com sua experiência irredutível, intraduzível e misteriosa. 36 Talvez, então, para voltar a olhar bem, poderíamos recorrer àquilo que em língua inglesa foi denominado Disability Studies. É evidente que Disability Studies não Repete, sim. Mas em outro lugar. pode nem deve ser traduzido como Estudo sobre as Deficiências ou Estudo dos Cópia, é verdade. Mas não o que queremos. Deficientes. Os Disability Sudies (DS, daqui em diante) constituem um campo necessariamente irregular de estudos literários, políticos, culturais etc. Seu corpo se amolda, parece. Mas não como acreditamos. que se propõe inicialmente descolonizar e desconstruir o aparato de poder e de Diz, é certo. Mas em outra língua. E maldiz. E bendiz. E diz coisas saber que gira em torno daquilo que naturalizamos como o outro deficiente. que nunca escutamos. Que nunca escutaremos. Que não são ditas A origem dos DS está intimamente relacionada ao surgimento dos Estudos Culturais (que, continuando com a lógica do esclarecimento anterior, não se trata de Estudos para nossa mesmidade. sobre a Cultura); ou com os Estudos de Gênero (que não são Estudos sobre a E repito: a alteridade deficiente, como significado que parece Mulher); ou com os Estudos Negros (que não são Estudos sobre os Negros); ou referir-se a um outro concreto, só tem sentido se foge e refoge desse com os Estudos Surdos (que não são Estudos sobre os Surdos) etc. E é preciso esclarecer rapidamente que não há aqui um DS, mas vários DS, assim como não há outro concreto e se confronta a normalidade; se fere de morte a um Estudos Culturais, mas diferentes tradições, muitas delas inclusive contrastantes, normalidade; se transfigura a normalidade. Precisamos voltar a olhar como aquela de tradição ou aquela de inspiração pós-estruturalista etc. bem aquilo que nos representamos como alteridade deficiente. Voltar para esta última questão, ver, entre outros: Alfredo Veiga-Neto e Maria Lúcia Wortman (2001), Marisa Costa (2000) e Tomaz Tadeu da Silva (2000).156 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e anormal 157 invenções típicas que geralmente determinam e governam a educação o funcionamento das políticas de significação [...] o podemos ver na especial esse campo disciplinar (digamos) colonial e colonizado educação especial, onde uma grande proporção de estudantes negros e latinos são considerados apresentando problemas de comportamento, por dentro e por fora de suas metáforas e de suas tradições enquanto à maioria dos estudantes brancos de classe média é epistemológicas e disciplinares. proporcionada a cômoda etiqueta de ter problemas de aprendizagem. Porque: existe acaso outra educação especial? Como sair dessa prisão, dessa armadilha, dessa tortura que nos impõem ao se falar É certo que a história da educação especial não pôde desvincular- sempre de educabilidade/ineducabilidade, de exclusão/inclusão, se nunca de sua relação com os saberes médicos e psiquiátricos DE oralidade/gestualidade e todo esse repertório inesgotável de binarismos LARA, 1998, p. 24); é certo que ela é herdeira daquilo que Foucault sem sujeitos? DE LARA, 1998). chamou de grande clausura e que produziu ela mesma pequenas grandes Se as questões de espacialidade e temporalidade, de identidade e de clausuras ou internações por categorias; é certo que foi governada por diferença política e poética do outro, enfim, da produção da alteridade ingerências médicas, religiosas, benéficas; é certo que foi cimentada deficiente estiveram praticamente ausentes e foram taxativamente em uma suposta ordem natural de significados que localizam a ignoradas na educação especial, o fato de elas serem centrais para este alteridade deficiente em uma férrea continuidade discursiva: novo território de debate: produz então uma explosão ou uma implosão indivíduos deficientes outros indivíduos deficientes anormalização/ ou outra disciplina, outro campo de estudos, outro olhar? medicalização / institucionalização exclusão / correção Acredito que, como já propus em outros escritos (SKLIAR, 1997, normalização / inclusão etc.; é certo que foi fundamentada em uma 1998, 2000), e apesar de possíveis e rápidos parentescos entre alteridade lógica particular de oposições binárias, tais como normalidade/ deficiente e educação especial a aproximação ao tema que aqui me anormalidade, educação/reeducação, saúde/doença, eficiência/ proponho abordar está determinada por outro tipo de pensamento deficiência, inclusão/exclusão, maioria/minoria, oralidade/gestualidade epistemológico, isto é, por outra forma de entender as relações entre etc.; certo que produziu ou conformações grupais obrigatórias entre saber e poder. Uma epistemologia sobretudo do corpo que faz sujeitos com experiências ou fragmentações forçadas em referência talvez a outros problemas ou que os inverte, que fala de grupos de sujeitos com experiências semelhantes. outras fronteiras, outros sujeitos, outras imagens da alteridade, outros Mas acredito que o que deve ser sublinhado aqui é o possível discursos, outras práticas e, talvez, outro conjunto de experiências entendimento da educação especial como uma espacialidade colonial vividas e pensadas em relação com essa alteridade. que não supõe, é claro, que a alteridade deficiente seja tão-somente Por outro lado, aquilo a que foi dado chamar de educação especial uma alteridade colonizada: o lugar no mundo desses outros deficientes com suas velhas e com suas novas maquiagens não tem por que tem sido permanentemente relacionado e confundido com seu lugar ser o locus privilegiado ou obrigatoriamente único lugar para onde se institucional, e o lugar institucional foi frequentemente profanado voltar a olhar bem a questão da alteridade deficiente. pela perversidade de pensar tudo em termos de inclusão e Nesse sentido, deixo explícita a idéia de que a educação especial é, Entretanto, a educação especial e a alteridade deficiente não se antes de mais nada, a fabricação de um conjunto de dispositivos, constituem necessariamente como reciprocidade, domínio e/ou tecnologias e técnicas que se orientam para uma normalização simetria, mas compartilham um mesmo problema: ambas foram e inventada, de um outro, também inventado como outro deficiente. ainda são tratadas como tópicos basicamente subteóricos. E isso Por essa razão, McLaren (1997b, p. 168) nos recorda o tipo de ocorre, curiosamente, numa época em que os acontecimentos mais interpretação dominante, isto os significados culturais que regulam triviais e supérfluos, como dormir, fazer dieta, usar brincos, olhar o o discurso da deficiência e da educação especial, afirmando que vazio ou comprar objetos sem utilidades, estão sendo hiperteorizados.158 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e anormal 159 Em virtude dessa subteorização, consequência de uma tradição representações sobre aquilo que está faltando em seus corpos, em histórica de controle do sujeito deficiente por experts e especialistas, suas mentes, em sua linguagem etc. é que a população geral não vislumbra a conexão possível entre a Desse modo, um certo tipo de colonialismo e neocolonialismo se alteridade deficiente e seu status quo, da mesma maneira que muitos faz vigente e presente por dentro e por fora da educação especial, por estão compreendendo hoje, por exemplo, as estruturas contemporâneas meio de discursos e de práticas normativas que se referem, por de poder e conhecimento. exemplo, aos sujeitos caracterizados pela ausência de linguagem, A presunção de que a deficiência é, simplesmente, um fato inteligência primitiva, imaturidade afetiva e cognitiva, com biológico e que apresenta características universais deveria ser, mais comportamentos agressivos e perigosos, possuidores de ritmos lentos uma vez, problematizada epistemologicamente: compreender o de aprendizagem, labilidade emocional, de dificuldades no discurso da deficiência, para logo depois revelar que o objeto desse estabelecimento de relações interpessoais etc. discurso não é a pessoa que está em uma cadeira de rodas ou aquela Poderá o leitor discernir, além dos títulos e das aparências, entre que usa uma prótese auditiva, ou aquela que não aprende segundo o os textos dos colonialistas europeus que se referem à natureza dos ritmo e a forma como a norma espera, senão os processos históricos, africanos ou das tribos indígenas ou dos hispânicos e aqueles tratados culturais, sociais e econômicos que regulam e controlam a maneira que pretendem uma psicologia da surdez ou que versam sobre a pela qual são pensados e inventados os corpos, as mentes, a linguagem, inteligência dos deficientes mentais ou sobre a incomunicabilidade a sexualidade dos outros. Para expressá-lo de forma ainda mais dos autistas? Ou acaso esse paternalismo forma parte e é indissociável contundente: a deficiência não é uma questão biológica, mas uma de um discurso e de uma prática colonial comum? (LANE, 1992). retórica cultural. A deficiência não é um problema dos deficientes Foucault (2002, p. 20) observou detida e detalhadamente esse e/ou de suas famílias e/ou dos especialistas. A deficiência está relacionada processo, analisando o discurso dos textos das perícias judiciais no à idéia mesma da normalidade e à sua historicidade. transcurso da segunda metade do século XX: Até há relativamente pouco tempo os sujeitos da educação especial foram narrados, julgados, pensados e produzidos pelos profissionais São as noções que encontramos perpetuamente em toda essa série de que trabalham com eles como objetos de estudo em um discurso de textos: imaturidade psicológica, pessoalidade pouco estruturada, má controle (FOUCAULT, 1966). Essa prática, ferreamente medicalizada e apreciação do real... profundo desequilíbrio afetivo, sérios distúrbios emocionais. Ou ainda: compensação, produção imaginária, manifestação orientada para o cuidado e o tratamento dos corpos e das mentes de um orgulho perverso, jogo perverso, erostratismo, alcebiadismo, dom- ineficientes, serviu ao seu propósito institucional de fronteira de juanismo, bovarismo etc. inclusão/exclusão, educabilidade/ineducabilidade e normalidade/ anormalidade, mas fracassou na compreensão e justificação de sua Não se trata de reproduzir à exaustão a inventiva dos peritos, ou própria história, de seus saberes, mediações e mecanismos de poder. dos colonialistas europeus ou dos psicólogos da surdez etc., senão de A educação especial conserva para si um olhar iluminista sobre se perguntar (como de fato o faz o próprio Foucault): qual é sua função? a identidade da alteridade deficiente, isto é, vale-se das oposições e para que servem? de normalidade/anormalidade, de racionalidade/irracionalidade e de Primeiro, repetir tautologicamente a infração para inscrevê-la e completude/incompletude como elementos centrais na produção constituí-la como traço individual. exame permite passar do ato à de discursos e práticas pedagógicas. Os sujeitos são homogeneizados, conduta, do delito à maneira de ser, e de fazer a maneira de se mostrar infantilizados e, ao mesmo tempo, naturalizados, valendo-se de como não sendo outra coisa que o próprio delito... Em segundo lugar, essas séries de noções têm por função deslocar o nível de realidade da160 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e anormal 161 infração, pois o que essas condutas infringem não é a lei, porque na maioria das vezes, de um mesmo caminho, de uma mesma lógica, nenhuma lei impede ninguém de ter distúrbios emocionais, nenhuma de um mesmo território representacional, de um olhar lei impede ninguém de ter um orgulho pervertido, e não há medidas Pois a medicalização não é, em princípio, uma prática e um legais contra o erostratismo [...] São qualificações morais [...] São também regras éticas (id., ib.). discurso que derivam diretamente da medicina e que se relacionam com o progresso inevitável de sua ciência. Ela se infiltrou de uma Embora seja certo que na atualidade a epistemologia tradicional forma muito grosseira, mas também muito sutil, em outras disciplinas da educação especial cedeu espaço a algumas representações sociais do conhecimento, governando-as, debilitando-as, descaracterizando- das identidades da alteridade deficiente, ela continua sendo percebida, as até produzir sua autojustificação. em termos de totalidade, como um conjunto de sujeitos homogêneos, E nessa infiltração há uma aliança a ser desvelada: a da pedagogia centrados, estáveis, localizados no mesmo contínuo discursivo. Assim, corretiva com a medicalização ou, se preferível, a da hegemonia do o ser deficiente auditivo, o ser deficiente visual, o ser deficiente mental modelo da deficiência na educação especial. A partir dessa aliança, os constituem ainda a matriz representacional, a raiz do significado esforços pedagógicos devem submeter-se, subordinar-se permanentemente, identitário, a fonte única de caracterização biológica desses outros. a uma potencial e quimérica cura das deficiências. questionamento Os estudos denominados etnográficos em educação especial, que implícito nessa concepção é o seguinte: as diferenças se apagam tentam quebrar o olhar microscópico focalizado sobre os indivíduos quando acabam as deficiências. Dessa maneira, o Homem seria deficientes, para interpretar os cenários familiares e educativos onde Homem se não fosse surdo, cego, negro, homossexual, indígena etc. Entretanto, esse tipo de ontologia da medicalização pode ser facilmente estão localizados, continuam reproduzindo a suspeita de que há algo contestado a partir de uma antiga, porém ainda vigente, explicação de de errado com eles, algo de errado que merece e deve ser investigado: Bernard Mottez (1977): não existe nenhuma relação entre a deficiência sua sexualidade, sua linguagem, seus hábitos alimentícios, seus jogos, e as consequências sociais, pois estas dependem dos significados suas estratégias de pensar, de raciocinar, suas formas de sentir, de políticos em torno das diferenças que circulam na cultura. Mais ainda: querer, de desejar etc. Diz Owen Wrigley (1997, p. 72): quanto maior é a obstinação contra as deficiências, mais se inventa, A visão clássica da etnografia pressupõe um explorador que entra em perturba e anormaliza a alteridade deficiente. uma cultura ou num espaço estranho e que retorna com narrativas É evidente que existe uma prática de medicalização diretamente autênticas, as quais dão autenticidade à autoridade de quem conta e às orientada para o corpo (do) deficiente, mas existe, sobretudo, uma posições do nós original o império, a comunidade, ou a academia, medicalização de sua vida cotidiana, da pedagogia, da escolarização, que são o público para dar validez às verdades empíricas. A economia de sua sexualidade, da vida e da morte do outro deficiente. Álvarez- é uma das identificações das narrativas contadas como evidência de verdade, uma autenticidade auto-referencial. Para completar este Uría (1997, p. 105) assinala: quadro eufórico: esta história tem mais a ver com um retorno do Na definição da normalidade, os exames de perícia sobre as denominadas explorador com histórias para dizer como o nós original fala sobre crianças anormais e, correlativamente, as instituições de educação aqueles que presumimos disponíveis para ser explorados. É uma especial tiveram um importante papel de Historicamente, etnografia da investigação dominante [...]. a infância anormal aparece como o elo perdido entre as grandes Por isso, o caminho que vai desde a normatividade da medicina patologias do século XIX e a extensão atual do psicocontrole. Ainda mais [...] a educação especial, que começou ocupando num primeiro até a curiosidade etnográfica em educação especial não conduz momento uma posição secundária e marginal em relação à pedagogia necessariamente a uma ruptura da hegemonia do normal do normal, da infância, terminou por triunfar e por transformar todo o âmbito do saudável, do branco, do masculino, do alfabetizado etc. Trata-se, da pedagogia escolar.162 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e anormal 163 Como ideologia dominante, a medicalização criou um sentido A Educação Especial [...] aceitava a partição desse sujeito humano, comum e cumplicidades dentro e fora de seu âmbito específico. Uma categorizando seus sujeitos segundo as deficiências de que eram dessas estratégias foi a de encapsular a pedagogia, levando-a à obsessão portadores deficientes psíquicos que seus limites diante da com a correção e, particularmente nestas últimas décadas, razão que define o sujeito humano moderno; deficientes sensoriais, os surdos, que seus limites diante da palavra, linguagem aventurando, prometendo e experimentando a solução final das fundamental que libera esse sujeito humano comunicando-o com o deficiências. outro e com o pensamento racional ou os cegos, que propõem seus A aliança da medicalização com a caridade e com a beneficência limites diante da distância que o olhar permite nessa comunicação; também constitui um processo complexo e Trata-se deficientes físicos que evidenciam seus limites para o domínio do espaço da legitimidade moral com que a atividade missionária e o auxílio e do tempo necessários em sua atividade produtiva [...] e, ao mesmo tempo, aceitava todos eles como humanos, já que sempre era possível caritativo são aceitos como respostas válidas em educação especial, desenvolver o resto, de razão, de palavra ou de olhar que sobrasse em com o objetivo de humanizar, naturalizar e normalizar a alteridade cada um. deficiente. As normas e os valores sobre corpos e mentes completos, auto- Na introdução de The Disability Studies reader (1997), Lennard suficientes, disciplinados e belos constituem o ponto de partida dos Davis inaugura novos sentidos sobre a temática da alteridade discursos, das práticas e da organização das instituições de educação deficiente; não porque antes nada tivesse sido escrito sobre essa especial. De maneira geral, a norma tende a ser implícita, quase mas porque, no meu entender, trata-se de uma original invisível e é esse caráter de invisibilidade o que a faz inquestionável. aproximação política e cultural, realizada mediante uma o exemplo dos surdos é, nesse sentido, particularmente ilustrativo: complexidade teórica talvez semelhante àquela com que se têm para a maioria dos ouvintes a surdez representa uma perda da desenvolvido, particularmente nas últimas duas décadas, os estudos comunicação, um protótipo de auto-exclusão, de solidão, de silêncio, de gênero, raça, sexualidade, idade, etnia etc. obscuridade e Em nome dessas representações, A primeira questão que Davis aborda é, justamente, a da inversão construídas quase sempre a partir da religiosidade, foram e continuam epistemológica do problema da deficiência. E o faz por meio de uma sendo praticadas as mais inconcebíveis formas de controle: a violenta tripla operação. Em primeiro lugar, sugerindo que a alteridade obsessão por fazê-los falar; a localização na oralidade do eixo único e deficiente foi isolada, oprimida, encarcerada, observada etc.; que se essencial do projeto pedagógico; a tendência a preparar os surdos jovens escreveu sobre ela, que foi feita nela uma intervenção cirúrgica, que e adultos como mão-de-obra barata; a formação paramédica e religiosa foi instruída, que lhe implantaram chips, que a regularam, dos professores; a proibição de utilizar a língua de sinais e sua institucionalizaram, reprimiram e controlaram até tal ponto que a perseguição e vigilância em todos os lugares de boa parte das experiência resultante pode ser comparada mas nunca igualada instituições especiais; a ausência da língua de sinais na escolaridade à de outros grupos também representados, isto é, olhados, como sendo comum; o desmembramento, a dissociação, a separação, a fratura minoritários. Mas aqui cabe um esclarecimento, pois não se trata de comunitária entre crianças e adultos surdos etc. 37 Davis assinala, nesse sentido, a existência de inumeráveis trabalhos orientados Contudo, e como afirma Pérez de Lara (1998, há uma para a questão do corpo e do poder, que podem constituir a base da própria cisão entre a racionalidade técnica da educação especial e o história dos Disability Studies, como, entre outros autores, os de Ervin Goffman (em relação à instituição do e ao processo de estigmatização); Susan conhecimento derivado da experiência subjetiva. E é ali onde devemos Sontag (sobre as da doença); Michel Foucault (sobre a loucura, a voltar a olhar bem: sexualidade, a anormalidade etc.); Jacques Derrida (em torno da cegueira); Mikhail Bakhtin (sobre a questão do grotesco).164 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 165 se conformar com a compreensão de que a alteridade deficiente neocoloniais. Para Carbonell i Cortés (1999) é necessária uma revisão também é uma minoria. A questão está localizada em outro lado, da história, da literatura e da filosofia a partir de perspectivas numa outra dimensão de análise: o fato de que a alteridade deficiente provavelmente não-dominantes. seja uma minoria pode acarretar uma rápida justificativa em torno de Fazer do espaço colonial, em relação à alteridade deficiente, o sua opressão, de sua marginalização, de sua exclusão e, portanto, de foco de nossa discussão significa colocar em suspenso, duvidar das sua o que está em jogo aqui é que o outro deficiente é estratégias e das representações de normatização e normalização, isto produto de uma fabricação da normalidade, isto é, produto de um é, da criação do normal ouvinte, do normal inteligente, do normal processo histórico de alterização que acaba por confundir o outro corporal, do normal etc. e do processo de atração/pressão com a invenção que de esse outro foi feito. Em todo caso, a descrição em direção da norma desconfiar da subtração das vozes da alteridade de que existe um ser outro deficiente subjugado, oprimido, violentado deficiente por parte dos especialistas; significa, em síntese, inverter etc. é apenas uma parte do problema, e não estou tão seguro de que aquilo sempre foi considerado o(s) problema(s) o(s) problema(s) seja a parte mais importante. dos surdos, o(s) problema(s) dos deficientes mentais, o(s) problema(s) Em segundo lugar, Davis aponta para outro elemento também dos cegos etc.; enfim, é preciso fazer uma análise que questione aquilo significativo: o isolamento que este tipo de estudo sofre, desde sua que é e foi julgado o habitual, o óbvio em um momento e um espaço própria origem, até em relação a outros estudos que determinado. considerar similares. E pode parecer óbvio que a causa desse Parece-me interessante esclarecer e insistir nesse ponto específico. isolamento é a mesma que determina o isolamento da alteridade Para a educação especial, por exemplo, a língua de sinais dos surdos é deficiente e de suas instituições: o discurso e a prática e e foi um problema, quando na verdade o que é problemático deve ser dominante da normalidade, do normal. De fato existem o discurso hegemônico que circula em torno da oralidade, da língua pouquíssimos discursos e práticas que incluem a questão da deficiência oral. Pergunta-se: por que essa modalidade foi supervalorizada? quais em um contexto cultural, político e de subjetividade mais amplo, processos sociais, históricos, políticos e culturais fizeram dela o como também é mínimo o número dos que se conseguem objetivo excludente na educação dos surdos? E o mesmo poderia ser representar a alteridade deficiente além de um corpo, ou de uma dito em relação a todas as questões centradas nos problemas das parte do corpo, danificada, ineficiente, deteriorada, esvaziada, inerme identidades deficientes, das comunidades marginais etc. o que deve e inerte; em outras palavras: trata-se geralmente de um corpo sem ser problematizado é a suposição da existência de uma identidade sujeito e, também, de um corpo sem sexualidade, sem sem homogênea, de uma comunidade hermética. Inclusive, para idade, sem classe social, sem religião, sem cidadania, sem idade, sem generalizar esses exemplos para outros campos da educação especial, geração etc. pensemos em como foi problematizada a questão da inteligência limitada dos deficientes mentais, ou de sua sexualidade, ou de sua É preciso voltar a olhar bem e problematizar aquilo que não foi memória, ou de sua pessoalidade, ou de seu corpo: por que todos esses suficientemente problematizado nessa área: a produção de um espaço aspectos foram discutidos, institucionalizados, controlados, colonial, inclusive hoje multicultural, em relação aos indivíduos, condenados, vigiados, medicalizados etc.? sujeitos e comunidades representados como parte da alteridade Mas, se problematizássemos ou invertêssemos esta lógica habitual, deficiente. Pois a tentativa de construir um espaço poderíamos dizer que aquilo considerado negativo a anormalidade, que anule os efeitos do colonialismo, não é uma tarefa simples, em o anormal, nesse caso não está em um sujeito que é entendido virtude da onipresença do discurso ou funções textuais coloniais, ou como portador de um atributo essencialista: o negativo é aquilo que166 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e anormal 167 irrompe para deslocar e desestabilizar a aparente normalidade de misericórdia tanto em relação à alteridade como em relação aos (DUSCHATZKY e SKLIAR, 2000). profissionais da alteridade sentidos faltantes, certa simpatia e ao E, por último, não há aqui nada que suponha a existência de um mesmo tempo pena, aflição, misericórdia? Ou então, como Davis se outro deficiente em si mesmo, transparente, interroga (1997, 2), "como é que pode existir complexidade, Trata-se, isso sim, de como essa alteridade foi e é inventada, produzida, interesse intelectual, relevância política, significados culturais, em traduzida, governada; em síntese, estão sendo mencionados o relação a um sentido faltante ou uma deficiência crônica?". colonialismo e a colonização no processo de produção de uma Se cabalmente esse conjunto de perguntas, alteridade específica. Fala-se da invenção do sujeito, e não do sujeito. ficaria claro que os DS não são, não podem ser, uma coleção sobre Fala-se da fabricação de um corpo, e não do corpo. como as pessoas percebem e (se) sentem em relação à deficiência; não E é justamente nas questões de representações do corpo que são, não podem ser uma narrativa, uma confissão de cargo e culpa, encontramos, de maneira ostensiva, uma das justificativas, a meu ver por acaso sensitiva e visceral, sobre como os deficientes foram a mais importante, pelas quais os DS se tornam significativos e que representados pelos profissionais administradores da normalidade, nem, podemos sintetizar nas seguintes perguntas: o que é mais muito menos, de uma leitura ou épica, ou elegíaca sobre suas representativo da condição humana que o(s) corpo(s), suas vidas e a de suas famílias e também, por curioso acréscimo, sobre as temporalidades e espacialidades? por que o corpo, por que os corpos- vidas dos especialistas e de suas famílias. em suas diferentes versões e construções não se podem transformar Para Davis, os DS são, ao mesmo tempo, um campo de e ser, então, uma questão central na compreensão dessa condição? conhecimento e de investigação e uma área de atividade política e por que não pode ser crucial indagar as formas sobre como os corpos, cultural, que inclui as perspectivas e as vozes da própria alteridade em suas variações, foram e são normalizados, anormalizados, deficiente. Mas essas vozes e essas perspectivas não são nem deveriam metaforizados, formados e deformados, tratados e maltratados, ser vistas como as histórias reprimidas dos excluídos, nem como vigiados, silenciados, aprisionados, excluídos e incluídos etc.? verdades essenciais salvas de todo processo colonial. o ato de encaixar Essas perguntas tendem a desestabilizar uma antiga crença o corpo de conhecimento próprio da alteridade deficiente como oposta arraigada não só nas pessoas que, em aparência, nada têm a ver com o escrita pela comunidade normal é parte de um processo tema em questão, como também em muitos daqueles que trabalham crescente que inclui ações políticas, educativas, laborais, legislativas, com a alteridade deficiente, e que pode ser formulada da seguinte dos meios de comunicação etc. Essa duplicidade redundaria, no meu forma: a questão da deficiência é uma questão subentendida, simples, entender, em uma questão crucial: o esforço de construção de uma uma experiência regular e de algum modo natural. Mas por que a nova e diferente localização da espacialidade e da temporalidade da alteridade deficiente e a deficiência é algo tão simples de entender? alteridade deficiente em contextos culturais, políticos, sociais, Por que, a partir da normalidade, fala-se quase exclusivamente de filosóficos e poéticos mais amplos. soluções voluntárias, anedotas pessoais, imagens de filmes,38 atitudes Ao mesmo tempo, e ainda que pareça menos evidente, deveria supor também uma tentativa de desconstruir essa espacialidade e essa Em relação aos filmes que tratam acerca/sobre/pela alteridade deficiente, digamos que parecem ser necessários para que algum(a) ator(atriz) importante seja oscarizável temporalidade, tão natural quanto naturalizada, que se instala em (Richard Gere em Mister Jones, Dustin Hoffman em Rain man, Harrison Ford em contextos rígidos de medicalização, correção, caridade e beneficência, A propósito de Henry, Robert de Niro em Despertares, Jodie Foster em Mentes que brilham, nos quais a alteridade deficiente é habitualmente posicionada, Daniel Day-Lewis em Meu pé esquerdo, William Hurt em Filhos do silêncio etc. e, mais recentemente, Sean Penn em Eu sou Sam e Russell Crowe em Uma mente brilhante). desposicionada e reposicionada em termos de corpo dócil, treinável-168 Pedagogia da diferença Sobre 169 e não menciono aqui, por razões mais do que evidentes, a expressão que, em geral, omitimos, ignoramos, desentendemos ou então fazemos corpos dela um simples jogo de ficção de papéis, uma simulação do outro. Entretanto, devo destacar que essa proposta de estudo, como Porque o fato de falar infinitamente sobre a existência natural das apenas esbocei anteriormente, não pode ser compreendida como uma pedagógicas, psicopedagógicas, alternativa de aplicabilidade ou em um modelo conceitual em institucionais etc. e de repeti-la ainda mais, não nos permitiu oposição ao chamado modelo da deficiência. Não existe, nesse sentido, entender absolutamente nada sobre o corpo deficiente. Ou o que é algo assim como um modelo biológico e um modelo cultural da ainda pior: de tanto nos concentrar nas normas, não pudemos nem deficiência; mais ainda, toda compreensão que tomar esse rumo mesmo ver ali um corpo, nem suas sexualidades, gêneros, raças, cometerá pelo menos dois erros: primeiro, o de homologar a idéia de idades, gerações, religiões, classes sociais etc. modelo em vez da idéia de representações ou de olhares; segundo, e Capturamos um corpo sem corpo. ainda mais importante, o de continuar reproduzindo a disputa de Objetificamos o corpo do outro, aprisionamos o objeto. formas teóricas oposicionais, de binarismos em que o outro fica E o sujeito tornou-se escorregadio, serpenteante. sujeito, aprisionado, dependente do vaivém conceitual da mesmidade E cada vez que tentamos novamente capturá-lo, mais antagônico normal e normalizadora. se torna seu corpo. Portanto, não existe algo assim como o deficiente ou a E acontecer porque, ao falar das normas e da alteridade Existe, sim, o poder e o saber da invenção de uma norma. deficiente, anormal, não estamos sequer mencionando aquilo que Existe, sim, a fabricação da deveria ser colocado sob suspeita em primeiro lugar: a questão do E existe um outro antagônico e diferente, cujo corpo, cuja mente, corpo normal. língua não só refoge da norma, como bem quer, mas que ao fazê- É certo que muito tem sido escrito e reproduzido sobre a lo deixa de referir-se à norma, não fala dela, não pensa nela, não deficiência e muito pouco sobre a alteridade deficiente. Muito tem sonha ela, não se move por ela, não vive nem desvive por ela. sido narrado acerca de, sobre, a partir de, para etc. a alteridade deficiente Um outro irredutível que se afasta da norma e que deixa como e nunca com ela. Porque o objeto de estudo e nunca foi tão bem testamento um julgamento voraz em relação à normalidade. utilizada essa triste expressão tem sido focalizado, obsessivamente, sobre o que pensamos que é o sujeito deficiente (a deficiência é o II deficiente, e o deficiente é sua deficiência). É verdade que falar de raça parece ou parecia supor, por o outro deficiente foi inventado em termos de uma alteridade antonomásia, referir-se aos negros. E que falar da deficiência quer maléfica, de uma negativização de seu corpo, de uma robotização de dizer, ex nihilo, enunciar de uma vez os deficientes. Mas assim como sua mente. Mas não vamos falar, outra vez, sobre o malefício de seu há muito tempo falar de raça resulta mais significativo referir-se à corpo, e sim sobre essa maléfica invenção: a construção da branquidade, também chegou a hora de referir-se, ostensivamente, à normalidade. construção mesma da normalidade, e não à explicação tautológica da Embora pareça verdade que vivemos em um mundo de normas e vida dos deficientes. que não há nada que possamos fazer a respeito, devemos entender que Normalidade e corpo normal, esse é o problema. as normas são produto de uma longa história de invenções, produções Norma: significado latino que demarca uma arte de seguir traduções do outro deficiente, do outro anormal etc. Uma longa história preceitos e de corrigir erros SOUZA e SKLIAR, 2000, p. 267).170 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 171 E o problema é que a normalidade e o corpo normal foram A palavra normal como construção, conformação do não-desviante construídos para, ao mesmo tempo, criar o problema do outro ou da forma diferente; ou tipo comum ou padrão, regular, usual só aparece em língua inglesa por volta de 1840. A palavra norma, em seu sentido E existe uma concepção liberal que nos obriga a olhar a norma mais moderno, de ordem e de consciência de ordem, foi utilizada como algo que sempre esteve ali. Sempre no sentido de que a mais recentemente, a partir de 1855, e normalidade e normalização mesmidade parecesse ser dona de um desejo tão natural quanto aparecem em 1849 e 1857, respectivamente (DAVIS, 1997). milenário de ser comparado, de ser cotejado, de ser medido, A partir dessa perspectiva, a palavra normal é, indubitavelmente, Sempre, porque a mesmidade não deseja outros espelhos a não ser os uma invenção da modernidade: "Uma classe normativa conquistou o próprios. Sempre, porque a mesmidade quebra os espelhos que não poder de identificar a função das normas sociais com o uso que ela lhe são próprios. própria fazia das normas cujo conteúdo determinava" (CANGUILHEM, Mas aqui se encontra o primeiro ou, pelo menos, um 2000, p. 218). primeiro sinal de alerta para não nos deixarmos convencer pela idéia E não pode ser nada casual que a primeira descrição que podemos de que a norma sempre esteve, efetiva e inevitavelmente, ali. Porque: encontrar na literatura sobre a norma em relação a um indivíduo de o que é aquilo ali, senão uma espacialidade governada pelo mesmo? uma determinada população tenha se desenvolvido em 1850 durante que é o ali, senão a própria estilização do eu que produz monstros a disseminação da idéia de corpo normal. Em Madame Bovary, de e inventa a necessidade de contê-los, executá-los, excluí-los, incluí- Flaubert, é mencionada a operação de uma perna do los, estimulá-los, abandoná-los, medicá-los, embelezá-los, virtualizá- personagem encarnado por Hippolyte; uma operação corretiva vista los, profaná-los, ironizá-los? E sem sair dali mesmo: acaso a constelação como uma novidade e explicitada ainda como um verdadeiro progresso: de palavras que nos parece tão universal e eterna norma, normal, "Pensa" diz-lhe um dos personagens do romance "que pode normalidade, normalização, anormalidade, anormal etc. esteve acontecer se és chamado para o exército, e tens de lutar sob a bandeira sempre ali, disponível nas gramáticas e nos dicionários de todas as nacional". Os interesses nacionais e sua vinculação com a línguas, em cada língua, pronunciada por todos os lábios e todas as produtividade são, então, enfatizados, sublinhados, ressaltados. A figura bocas de todos os falantes? da operação cirúrgica é entendida como uma forma de devolver Revisemos algumas imagens da construção da normalidade, do Hippolyte ao mundo dos humanos e de subtraí-lo do mundo dos normal, da norma, a partir de um passado que retorna, incessantemente, como sugere a primeira sílaba em francês de seu nome. ao presente. Dessa forma, ter uma deficiência é ser um animal, é ser parte dos outros não-humanos. Um artigo de jornal aparece depois da operação Sabemos ou intuímos e aqui não interessa tanto a diferença entre enaltecendo o espírito do progresso e, ainda, evidenciando: "Não é uma e outra palavra que o processo de alterização da deficiência foi hora de proclamar que o cego possa ver, o surdo ouvir, o impedido construído e inventado com a industrialização e com um conjunto de caminhar?". De qualquer maneira, com um toque irônico de Flaubert, práticas e discursos indissoluvelmente vinculados a noções tais como nacionalidade, raça, gênero, criminalidade, orientação sexual etc. do a perna de Hippolyte se torna gangrenosa e tem de ser amputada. Como o trabalho de Flaubert ilustra alguns dos pontos final do século XVIII e início do século XIX (FOUCAULT, 1997, 2001). mencionados anteriormente, é importante não pensar o romance E que foi só então que essa turbulência de palavras começou a como mero exemplo de como um desenvolvimento histórico se funcionar, disseminando-se, dispersando-se. materializa em um texto particular. Mais do que isso, dever-se-ia172 Pedagogia da Sobre anormalidade e o 173 pensar que há uma profícua relação a ser entre os romances mesmo podemos dizer da criação da figura ideal de Afrodite nas e as através dos que retomarei ao final deste capítulo. pinturas dos artistas gregos (DAVIS, 1997, p. 17): alguma mulher de carne Mas claro que, com a modernidade, inaugura-se não só um tempo e oferecia seu rosto ou parte de seu rosto; outra oferendava seus seios; de fabricação da alteridade deficiente, como também a era da produção outra, seus braços etc. humano como construção da beleza; fragmentos do Outro em geral. Assim o explica Baudrillard (2000, p. 113): e retalhos de humanos que compunham assim o ideal. Já não se trata de matá-lo, devorá-lo ou seduzi-lo, nem de enfrentá-lo Dessa maneira, quando em uma determinada cultura sugere-se ou rivalizar com ele, também não se trata de amá-lo ou agora, uma forma ideal de corpo de corpo divino todos os sujeitos, trata-se primeiro de produzi-lo. o Outro deixou de ser um objeto de absolutamente todos, sem permanecem ao redor desse ideal. paixão para converter-se em um objeto de produção. Poderia ser que Nem por cima, nem por baixo, nem no meio: ao redor. Porque o ideal, o Outro, em sua alteridade radical ou em sua singularidade irredutível, reitero, não é humano nem corresponde a este mundo. Ninguém tem tenha se tornado perigoso ou insuportável e por isso seja necessário exorcizar sua sedução? Ou será simplesmente que a alteridade e a o corpo ideal, ninguém procura o corpo ideal; mas ninguém aprisiona, relação dual desaparecem progressivamente com o aumento potencial sujeita, pressiona ou governa o corpo anormal, pois este, simplesmente, dos valores individuais e com a destruição dos valores simbólicos? não existe. Acaso então o contrário do ideal era o anormal, o deficiente, o Outro generalizado ao mesmo tempo que produzido. fim da relação dual, do outro irredutível e singularmente radical. Já não é amado insuficiente, o patológico etc.? Existiria em outro lugar, em outra nem odiado: simplesmente é produzido em seus mínimos detalhes. espacialidade, algo que não fosse o ideal? Davis assinala que o contraste com o ideal provinha de outra Então: o que era esse outro deficiente, essa alteridade, antes de representação, de outro olhar, de outro termo: o significado do grotesco. sua invenção, antes de sua produção? Acaso podemos supor que até então aquilo que as pessoas diziam, representavam e olhavam era o grotesco é, antes de mais nada, uma forma visual que supõe que todos os corpos humanos sejam, de algum modo, não-ideais, não- por meio de significados semelhantes aos que circulam hoje ou divinos, não-belos; um significado que se relacionava então com o com a mesma intencionalidade de descrição/delegação e de visibilidade/ invisibilidade? cotidiano, com as gentes, com a vida em comum, com o sujeito de carne e osso, e não com as deficiências e/ou com os deficientes, não Pensemos, por exemplo, em um antecedente longínquo e com as anormalidades e/ou com os anormais: insondável em suas significações atuais: a noção do ideal, da coisa ideal, do corpo ideal. E recordemos, então, a tradição da nua, De qualquer maneira, o grotesco não era equivalente ao deficiente, isto é, a de um mito poético que deifica um corpo e o oferece para o porque é impossível pensar, por exemplo, sobre as pessoas com olhar de todos, para o prazer de todos. Um corpo Um corpo deficiência sendo utilizadas agora como decorações arquitetônicas como o grotesco foi utilizado nas molduras das catedrais na Europa. o grotesco ideal. Um corpo artístico. Um corpo construído a partir de modelos permeava a cultura e tinha como significado o da humanidade comum, humanos, concretos, vivos; mas de modelos que nunca encarnam o enquanto o corpo deficiente, um conceito mais tardio, foi formulado ideal, pois o ideal não representa algo deste mundo, não está neste como uma definição excludente da cultura, da sociedade, da norma mundo, não é deste mundo. Representa, está e é do mundo da mitologia (id., ib., p. 21). e, mais ainda, geralmente, de uma mitologia divina. Da norma, da normalidade: disso se trata. Disso se tratava nas A questão da relação entre norma e literatura está muito bem documentada, como línguas européias do século XIX. Do impacto que se produziu nelas e se vê em Alan Gartner e Tom Joe (1987) e em Michelle Fine e Adrianne Asch (1988). que se disseminou como um a partir do desenvolvimento de174 Pedagogia da diferença Sobre 175 um certo tipo de conhecimento o conhecimento estatístico, a é o fato de que sua existência e sua forma violentam não só as leis da estatística mas, bastante antes, a partir de certas novas estratégias de sociedade, como também as leis da natureza. o surgimento do monstro poder: o biopoder e o poder disciplinar (FOUCAULT, 1997, p. 30s). constitui um domínio que pode ser denominado jurídico-biológico: A idéia de biopoder torna explícita a representação de que para é um caso extremo, estranho, raro; é aquilo que "combina o impossível administrar a vida dos indivíduos é necessário atuar sobre as com o proibido" (id., ib., .61). De fato, contradiz a lei, mas em vez de populações. Esse poder sobre a vida, sobre o vivo, parece desenvolver- receber como resposta possível outra lei será a violência, a vontade de se em duas direções complementárias a partir do século XVII: por um suprimi-lo ou, por outro lado, serão os cuidados médicos ou a argúcia lado, a do corpo-máquina; por outro, a do corpo-espécie. da piedade as que responderão por ela. corpo-máquina é treinado, reforçado, integrado em sistemas o monstro é, na descrição de Foucault, a forma natural da de controle; sistemas que criam e legitimam a institucionalização contranatureza, o grande modelo das pequenas diferenças, o princípio daquelas disciplinas cuja razão de ser é a obtenção, como produto, de de inteligibilidade de todas as formas da anomalia. E ao longo de todo corpos tanto úteis como dóceis 1997; o século XIX vai ser formulado o problema sobre o que é que existe 2000). o corpo-espécie é a regulação dos processos biológicos em por detrás do monstro humano: o monstruoso que está por detrás de escala populacional. Um poder que começa a ser utilizado transversal cada uma das pequenas anomalias, detrás de cada uma das e verticalmente por diferentes instituições família, exército, polícia, irregularidades e de cada um dos desvios. E surgem assim as mais medicina, escola etc. variadas técnicas judiciais e médicas. Nos termos de Gil (2000, p. 173): Foucault, em Os anormais aula do dia 22 de janeiro de 1975 "É por isso que as diferentes formas do Outro tendem para a propõe realizar uma arqueologia da anormalidade e sugere que o monstruosidade: contrariamente ao animal e aos deuses, o monstro anormal do século XIX é o descendente direto de três indivíduos assinala o limite interno da humanidade do homem". particulares: o monstro, o incorrigível e o masturbador. Um anormal Foucault relaciona esta figura a anormalidade típica do século que vai continuar marcado por esse tipo de monstruosidade cada vez XIX e princípios do século XX ao princípio de inteligibilidade, e mais difusa e diáfana, por essa incorrigibilidade retificável e cada vez sugere que o que se encontra no fundo das análises da anomalia do mais cercada por certos aparelhos de retificação. monstro humano é, justamente, a inteligibilidade tautológica, isto é, Essas três figuras se mantêm de alguma maneira separadas até o "esse princípio de explicação que só remete a si mesmo" (2001, p. 71). final do século XVIII e princípio do XIX; ali parece produzir-se a E são diferentes as concepções do monstro humano através do emergência de uma tecnologia da anomalia humana, uma tecnologia tempo: da Idade Média até o século XVIII foi posto em evidência o diretamente orientada para os indivíduos anormais, e que reconhece homem bestial, aquele que resulta da mistura dos reinos animal e como antecedente imediato e necessário o estabelecimento de uma humano, a mistura de duas espécies, a mistura de dois indivíduos, rede de saberes e poderes que possibilita a confluência das três figuras a mistura de dois sexos, a mistura da vida e da morte, a mistura de recém-mencionadas em um único sistema de regularidades. formas. É uma transgressão às definições e classificações, à lei civil, Antes disso, as três figuras se mantêm por separado, na medida religiosa ou divina: "Só há monstruosidade onde a desordem da lei em que os sistemas de poder e de saber aos que fazem referência natural vem tocar, abalar, inquietar o direito, seja o direito civil, o estavam distanciados uns dos outros. o monstro humano, a primeira direito canônico ou o direito religioso" (id., ib., p. 79). Pois indaga das figuras da anomalia, tem como marco de referência a lei; a própria Foucault: se nasce um monstro, devemos considerar que nasceu ou noção de monstro é uma noção jurídica, porque aquilo que o define que não nasceu? E também: é ou não é humano?176 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e anormal 177 No Renascimento foi privilegiada uma forma de monstruosidade Diz Foucault (ib., p. 77): "O incorrigível, por sua vez, se refere a em particular, tanto na literatura como nos livros de medicina, de um tipo de saber que está se constituindo lentamente no século XVIII: direito e nos textos religiosos: trata-se dos irmãos siameses, isto é, da é o saber que nasce das técnicas pedagógicas, das técnicas de educação representação de uma figura ambígua, de um que na verdade é dois, coletiva, de formação de de dois que na verdade são um. Na idade clássica, parece que se É por isso que as instituições corretivas que se desenvolveram nos evidenciou um terceiro tipo de monstro humano: o hermafrodita. séculos XVI e XVII e que tinham o propósito de imobilizar, isolar e o indivíduo a ser corrigido é um personagem que aparece nitidamente transformar os pobres e os vagabundos transformaram-se em no século XVIII, mais recentemente que o monstro, e é no final das instituições que responderam melhor a um ideal de ordem contas um indivíduo específico dos séculos XVII e XVIII. racionalizada: tanto as prisões quanto os manicômios cumpriram Diferentemente do monstro humano, que se cerca por um marco um papel crucial para a manutenção da ordem social e para a fabricação de referência da natureza e da sociedade, o indivíduo a ser corrigido de sujeitos normais. (1997, p. 95) sustenta que se criaram encontra um marco apropriado na família, no exercício de seu poder assim dois tipos de narrativas de ficção indispensáveis para apoiar e interno, ou melhor, na família em sua relação com as instituições que reproduzir a invenção de uma certa ordem estabelecida: a ficção da a rodeiam e determinam. indivíduo a ser corrigido surge desse jogo, liberdade e por conseguinte a prisão a ficção da racionalidade desse conflito, desse sistema intrincado de apoios que existem entre a e então o manicômio. família e a escola, a rua, o bairro, a igreja, a polícia etc. A intensa homologia institucional entre o manicômio, o hospital, Seu índice de frequência é muito maior que o do monstro e, por isso, é um fenômeno mais corrente: é regular em sua irregularidade. E isso o quartel, os orfanatos, reformatórios, escolas especiais, prisões etc. foi bem sintetizada por Goffman com o termo total institutions, isto é, acontece porque se encontra muito próximo da regra, é uma evidência familiar, não é preciso provar nada. incorrigível tem esse caráter, pois instituições totais ou, na tradução de Robert Castel (1970, ap. ÁLVAREZ- todas as técnicas familiares de domesticação, por meio das quais poderia 1997), instituições totalitárias também em ter sido corrigido, fracassaram. Justamente por isso, o indivíduo a ser numa interpretação mais metafórica, arquipélagos de absolutismo. corrigido é o indivíduo incorrigível, e na medida em que é incorrigível que são essas instituições totais, totalitárias, arquipélagos de supõe intervenções específicas, uma tecnologia da correção, da absolutismo? Goffman (ap. ib., p. 120) afirma: recuperação e, em síntese, da normalização. o incorrigível expressa uma Uma instituição total pode ser definida como um lugar de reincidência espécie de tensão entre a incorrigibilidade e a corrigibilidade. E é essa e trabalho, onde um grande número de indivíduos em igual situação, tensão a que serve de suporte para todas as instituições específicas para isolados da sociedade por um período de tempo apreciável, anormais que se desenvolvem no século XIX. compartilha em sua reclusão uma rotina diária, administrada o outro como anormal. Seu corpo, seus gestos e seus movimentos formalmente. como anomalias. o outro, anormal, encerrado, encurralado, agrupado sem grupo, o outro como um incorrigível a ser corrigido, retificado, isolado no tempo e no espaço; o outro rotineiro, que deve repetir desmontado, recuperado. Trata-se, então, de um outro que se sempre mesmo, administrado, confinado num espaço fechado, desvanece entre as normas jurídicas e biológicas? De um outro de psiquiatrizado: uma família que lhe nega sua familiaridade? De uma rua, de um bairro, de algumas instituições que o observam, permanentemente, A psiquiatria, no trânsito do século XVIII ao XIX, adquiriu sua sem mesmo pestanejar, sem deixá-lo pestanejar? autonomia e se revestiu de tanto prestígio porque pôde inscrever-se178 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 179 no limite de uma medicina concebida como reação aos perigos de informações sobre o Estado; e dali parece haver migrado para o inerentes ao corpo social [...] Puderam discutir infinitamente sobre a corpo quando Bisset Hawkins definiu a estatística médica em 1829 origem orgânica ou das doenças mentais [...], propor como "a aplicação de números para ilustrar a história natural da saúde terapêuticas ou psicológicas [...]. Todos estavam conscientes de tratar um perigo social, já que a loucura estava ligada, de acordo com e da doença" (ap. PORTER, 1986, 24). seu julgamento, a condições malsãs de existência [...] ou era percebida Foi o estatístico Adolphe Quetelet que contribuiu como fonte de perigos (FOUCAULT, 1990, p. 242). definitivamente para uma noção generalizada e imperativa da norma e do normal. Quetelet formulou o conceito de l'homme As instituições totalitárias vão marcar o ritmo e as pautas das transformações que se operaram em boa parte dos países industrializados médio afirmando que este homem abstrato era o resultado de uma ao final do século XIX, com o objetivo de integrar não somente os média ou de um promédio average de todos os atributos humanos socialmente perigosos, como também, na realidade, a totalidade em um determinado país. Em relação a esta representação de homem- populacional. E a escola pública que surge nas últimas décadas do médio, Quetelet escreveu em 1835 (ap. PORTER, ib., 53): "Todas as século XIX se converte numa espacialidade bem determinada e específica coisas vão acontecer ou ocorrer em conformidade com os resultados onde vão confluir os criminais, os dementes e as crianças aqueles médios obtidos de uma sociedade. Se queremos estabelecer, de alguma eram vistos como indivíduos próximos ao mundo do animal, maneira, as bases de uma física social, é ele o homem médio a quem filogeneticamente falando 1997, p. 122). devemos considerar". Desse modo, a infância passa a ser objeto das tecnologias e dos Considerar o homem-médio, a mediocridade do que acontece dispositivos de normalização. Uma normalização centrada na infância. indefectivelmente, por obra e graça de uma nova física social. E uma infância que, talvez justamente por sua própria Mas esta idéia de Quetelet sobre o homem-médio não está institucionalização, começa a desajustar-se, a anormalizar-se, a construída, como tão naturalmente costumamos aceitar, a partir de criminalizar-se etc. Para os anormais e os foram criados um substrato somente material, físico e objetivo, mas sim de uma novos arquipélagos de absolutismo: o correcional e os institutos combinação ainda mais letal entre o homme moyen physique e o homme psicopedagógicos; foi ali então que se produziu o deslocamento do moyen moral, isto é, uma mistura matemática de construções tanto binômio autoridade-coerção para o de físicas quanto morais. o outro foi persuadido para deixar de ser outro. As implicações sociais dessa idéia são cruciais: ao formular a idéia Manipulado em cada um de seus detalhes para ir atrás da do homme moyen, Quetelet também forneceu uma justificativa para a mesmidade. existência das classes moyennes. o homem-médio, o corpo de um o outro foi naturalizado como anormal. homem em meio à mediocridade, se torna o exemplar prototípico de E a normalização foi naturalizada. uma forma média de vida social. Talvez, como sugere Davis, Quetelet tenha sido influenciado pelo filósofo Victor Cousin ao desenvolver III uma analogia entre a noção de homem-médio e aquela de juste milieu, isto é, a medida justa. E este termo, por sua vez, estava aparentado com Tudo vai sendo igualado. E é assim como tudo se acaba: tudo se igualando. a monarquia de Felipe, uma monarquia que costumava celebrar fastuosamente a moderação e a medianidade. De acordo com Davis, a palavra estatística foi utilizada pela primeira Homme moyen resulta um significado útil e necessário para vez em 1749 por Gottfried Achenwall, no contexto de uma compilação desenvolver um tipo de ciência que justifique, então, a própria noção180 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e 181 de norma e de normal: o homem-average se transformou numa espécie não quer ser despertada de seu sonho de grandeza, nem removida de de super-homem, numa tendência ideal, anelada, desejada, implorada. sua ilusão de transcendência normalizadora. Mas, sobretudo, estabeleceu um tipo de utopia da norma associada ao Se o ideal determinava mundos e pessoas não-ideais senão progresso: grotescas isto é: humanas a norma traduz com rapidez o grotesco Um dos principais atos da civilização é compreender mais e mais os em deficiência, corpos humanos em deficientes, o mundo em limites através dos quais os elementos diferentes referidos ao homem anomalia, em uma espacialidade e uma temporalidade somente oscilam [...] A perfectibilidade da espécie humana se deriva como desviante. necessária de todas as nossas investigações. Defeitos e o uso da estatística se transformou num movimento ideológico monstruosidades desaparecem cada vez mais do corpo (PORTER, 1986, p. 57). importante em outros países europeus e em especial na Inglaterra, onde a maioria dos primeiros profissionais da estatística eram também A perfectibilidade da qual fala Quetelet resulta, como sugere Dal oh! curiosidade profissionais da eugenesia, e, entre eles, o mais Lago, de uma notável afinidade entre criminologia e estatística médica. renomado: Francis Galton. Se acaso esta coincidência é demasiado Não pode ser estranho ou casual o fato de que Quetelet propusesse óbvia para ser verdadeira, recordemos, como o faz Davis, que há aqui então uma ação social cientificamente centrada na educação, na uma vinculação mais do que estreita entre o traçado da medida assistência aos pobres, na melhoria das condições de vida isto é, na estatística humana e o desejo de melhorar a humanidade ou parte aplicação de um tipo de estatística moral 2000, 61), e não dela, justamente para que os desvios da norma minorem, sejam tanto de uma repressão desaforada aos criminosos. reduzidos, diminuam e acabem por desaparecer. conceito de norma, diferente de ideal, implica que a maioria da A estatística nasceu com a porque seu insight mais população deve ou deveria de alguma forma ser parte dela, estar nela significativo radica na suspeita de que a população pode ser normal. E, se a contida de qualquer maneira. suspeita é certa, os próximos passos da construção estatístico-eugenésica Quetelet pode ser considerado assim o fundador daquilo que bem poderiam ser: (a) conceber a população como dividida entre normal conhecemos como biometria: estudando com sistematicidade as e não-normal e (b) criar/determinar um estado de norma nos não- variações da altura, o peso e outros traços físicos do homem, normais que é, claro, o objetivo da eugenesia; (c) estabelecer rápidos estabeleceu para uma característica determinada, medida nos mecanismos de cura, correção, normalização; (d) voltar a definir um status membros de uma população homogênea e representada graficamente, populacional do que é corrigível e daquele que é, então, incorrigível. a existência de um polígono de Essa curva, conhecida o movimento pela eugenia defendia uma diversificada cadeia de como curva de distribuição normal, função de densidade de Gauss ou atividades, inclusive de análises estatísticas avançadas quanto às raças mais simplesmente como curva de Bell, podia fixar de uma vez por humanas, como concursos de melhores bebês seguindo o modelo todas, por meio de um artifício matemático, as características normais conhecido das exposições e venda de gado a esterilização do homem. E, também, todas aquelas características que se desviam compulsória dos criminosos e retardados, e restrições étnicas seletivas da norma. Portanto, é com o conceito de norma que sobrevém a à imigração. noção de Por isso, norma e desvio não podem ocultar seu Tem razão MacKenzie (1981) quando afirma que a estatística de Galton não pode ser parentesco ou, melhor, sua herança em comum. considerada responsável pela criação da eugenesia, mas que precisou imperiosamente A curva se torna, por si mesma, em si mesma, um símbolo da dela. Em todo caso, existe uma relação simbiótica entre a ciência estatística e a eugenesia. Ambas oferecem à sociedade o conceito de norma, particularmente a tirania da norma, É uma curva que se encerra na mesmidade e que idéia do corpo normal, e criam, portanto, o conceito do corpo anormal.182 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e 183 Todos esses esforços foram considerados eugênicos por se Até as principais figuras da eugenia que limitavam a destinarem ao melhoramento da hereditariedade Porém, os hereditariedade à herança biológica definiam os seus movimentos significados da eugenia dependiam também de respostas a pelo menos como a busca de uma boa sucessão, não simplesmente bons genes. quatro perguntas separadas e distintas, mas relacionadas (PERNICK, físico de Nova Jersey Theodore Robie declarou no Terceiro Congresso 2000, p. 90): o que significa melhoramento? qual o significado de Internacional de Eugenia (Londres, 1932), que seria "condizente com hereditariedade? por quais métodos seria melhorada a hereditariedade? o melhoramento racial esterilizar até o débil mental que não pertença quem tem autoridade para responder a essas três perguntas? ao grupo hereditário", uma vez que "os deficientes mentais tendem a Toda a eugenia voltou-se, inclusive, a estudar o componente perpetuar os lares inferiores nos ambientes inferiores, e quase sempre estético das aptidões eugênicas, tendo nos meios de comunicação de instruem seus filhos de uma maneira inferior". Não importava se massas um perfeito aliado. Segundo Pernick, um dos grandes todos os traços produzidos pelos pais eram ou não rotulados como popularizadores da eugenia, Albert Wiggam, via a aparência atraente hereditários, todo e qualquer traço produzido pelos pais fazia parte da como o melhor indicador externo da aptidão hereditária geral. Ele eugenia. A identificação dos pais como a causa tornou-os moral e considerava a saúde, o intelecto, a moralidade e a beleza como fases medicinalmente responsáveis. diferentes das mesmas forças interiores: "As pessoas de boa aparência, Davis encontra uma interessante triangulação na conjunção dos em média, são melhores moralmente do que as pessoas feias [...] Se os interesses por um lado Francis Galton era homens e as mulheres escolhessem seus parceiros unicamente pela sobrinho de Charles Darwin, cuja noção de vantagem evolutiva das beleza, todas as demais qualidades da raça" (ap. espécies superiores ofereceu um conjunto de leis para a fundação da PERNICK, ib., p. 93). eugenesia e também para a idéia de corpo aperfeiçoável. Na versão mais extrema dessa visão, as preferências estéticas eram As idéias de Darwin serviram para localizar, distribuir e confinar as simplesmente o instinto natural de achar o parceiro mais apto, uma pessoas deficientes naquele fragmento evolutivo dos menos dotados, uma visão que Wiggam e outros eugenistas endossavam explicitamente. espacialidade provisória que devia ser superada inclusive exterminada Mas tanto os líderes quanto os popularizadores da eugenia eram pelos mais aptos na dinâmica inexorável da seleção natural. céticos em relação a o verdadeiro corpo sadio poder ser reconhecido Por isso, os eugenistas se tornaram obsessivos com a idéia e com pelo olho destreinado. Desde Darwin, os cientistas julgavam a prática da eliminação dos defectivos, uma categoria primeiramente problemática a beleza precisamente porque as preferências estéticas inventada, logo nominada e por último separada, na qual incluíram na escolha do parceiro com pareciam não favorecer outros os surdos, os cegos, os deficientes físicos etc. Recordemos também traços de adaptação. Assim, os eugenistas não apenas endossavam as que Galton criou o sistema moderno de impressão digital para as preferências culturais existentes, como se empenhavam ativamente identificações pessoais a idéia ou a suspeita de que o corpo humano em melhorar os padrões vigentes. Por exemplo, Fisher (ap. PERNICK, é padrão e que contém um número de série, que não pode ser apagado ib., p. 97) explicou que era necessária uma propaganda cuidadosa nem alterado por nenhum tipo de desejo, seja moral, artístico etc. para "modificar inconscientemente o gosto individual num sentido A identidade das pessoas se torna assim definível e nominável por favorável [...] na escolha do parceiro". Wiggam concordava: "Se os seus qualidades físicas que podem ser identificadas e medidas. E o desvio ideais de beleza humana forem devidamente treinados, os jovens da norma pode ser não só identificado, como criminalizado, inconscientemente rejeitarão o feio, encherão suas casas com belas particularmente no sentido de que as impressões digitais começam a esposas e belos maridos". ser associadas a certos desvios que obscurecem suas identidades.184 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre anormalidade e anormal 185 Assim, a impressão digital do corpo significa que as marcas da ideal. o novo ideal de ordem classificada hierarquicamente é diferença física se convertem num sinônimo indissociável, inevitável determinado pela imposição da norma, e é assim complementado e imperecível da identidade da pela noção de progresso, de perfectibilidade humana e pela eliminação Além disso, Galton é relacionado a uma das figuras de maior do desvio, para criar uma visão dominante e hegemônica sobre aquilo renome que possam ser vinculadas ao discurso da deficiência no século que o corpo humano deveria ser. XIX: Alexander Graham Bell. Em 1883, o mesmo ano em que o termo Essa disseminação do significado do normal acarretou uma eugenesia foi proposto por Galton, Bell ofereceu um discurso de mudança dramática em todas as pessoas cujos comportamentos exacerbado tom eugenésico Memoir upon the formation of a deaf podiam ser vistos como desviantes; em particular, modificou a vida e variety of the human race alertando o Congresso americano da a experiência das pessoas com deficiências: os eugenistas tendiam a espantosa e perigosa tendência dos surdos-mudos a se casarem entre si. agrupar todos os traços que consideravam indesejáveis. Assim, os Nesse discurso, sugeriu a proibição dos casamentos entre surdos, a criminosos, os pobres e os deficientes podiam ser mencionados em partir da intuição de que esse amor nefasto poderia acarretar a triste e um mesmo texto, com as mesmas palavras, sob o controle dos mesmos inadmissível da criação de uma raça específica de surdos argumentos. Consideremos um exemplo concreto. Karl Pearson, uma (SKLIAR, 1997). figura de liderança no movimento eugenésico do princípio do século Além disso, cabe assinalar que o trabalho de Galton conduziu XX, definia os indesejáveis da seguinte maneira: criminoso habitual, diretamente à noção atual de quociente intelectual (QI) e aos testes o profissional vigarista, o tuberculoso, o insano, o deficiente mental, de habilidades escolares. De fato, Galton revisou a curva de Bell, de o alcoólico, o doente de nascimento ou por excessos" (ap. KEVLES, Gauss, para tentar representar graficamente a superioridade de um traço desejado em particular por exemplo, o traço da inteligência Em 1911, Pearson liderou o Departamento de Estatística Aplicada alta e criou o que ele mesmo denominou ogiva, uma figura dividida na Universidade de Londres. Esse departamento obtinha informação em quatro partes com uma curva ascendente que expressa esse traço eugenésica sobre a herança de traços físicos e mentais incluindo desejado como maior, em relação a um desvio não-desejado. habilidade comercial e legal, mas também que significaram essas revisões de Galton e que dispersões e hemofilia, tuberculose, diabete, surdo-mudez, polidactilia ou disseminações produziram nas representações, nos discursos e nas braquidactilia, insanidade e deficiência práticas sobre o normal e sobre o anormal? Outra vez vemos aqui a estranha, porém útil, seleção e conjunção Em primeiro lugar, a tentativa de redefinir o conceito de ideal, de nomes e sujeitos. De sujeitos com nomes: todas esses desvios da traduzindo-o inexplicavelmente para normal em relação à população norma representavam parte importante do prolongado caminho que geral. conduz e contribui para a doença de uma nação. É por isso que a Em segundo lugar, o fato de que a aplicação da idéia de norma ao ênfase na saúde nacional toma lugar na metáfora do corpo. Se alguns corpo humano criou por sua vez a idéia de desvio ou de corpo corpos individuais não estão sãos, então o corpo da nação também Em terceiro lugar, essa idéia de norma originou outra idéia não o estará. necessária: a de uma variação normal do corpo através de uma guia A relação que os eugenistas faziam entre variação individual e estrita da forma que o corpo deveria ser. identidade nacional se torna muito poderosa. É preciso notar que um Por último, a revisão da curva normal de distribuição em quartis, dos focos centrais de interesse da eugenesia de então foi aquilo chamado classificados em uma ordem de hierarquia, criou um novo tipo de de feeblemindedness, um termo que incluía a baixa inteligência, a doença186 Pedagogia da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 187 mental e, inclusive, a pauperização. Alguns grupos foram associados a nada nem ninguém possa reclamar outra imagem, outro reflexo e, essa idéia: um eugenista americano, Charles Davenport, pensou que o menos ainda, outros espelhos. influxo dos imigrantes europeus podia fazer da população americana E o anormal já não é uma diferença, pois a norma captura tudo, "escuros na pigmentação, baixos na estatura, mais propensos ao crime, nomeia tudo, se apropria de tudo, e o torna unicamente uma alteridade ao assalto, ao assassinato e à imoralidade sexual" (ap. DAVIS, 1997, p. 27). esvaziada de outridade: anormal não é de uma natureza diferente da do normal. A norma, IV espaço normativo, não conhece exterior. A norma integra tudo o Vimos, em algumas imagens do passado, como foi sendo que desejaria excedê-la nada, nem ninguém, seja qual for a diferença disseminado o significado da norma, do normal e como foi sendo que ostente, pode alguma vez pretender-se exterior, reivindicar uma alteridade tal que o torne um outro (EWALD, 1993, p. 87). constituído o de desvio, a anomalia, o anormal, a anormalidade etc. o outro foi alterizado e sua alteridade foi examinada sob a lupa de o normal não é, não pode ser, um conceito estático. Trata-se, pelo um processo estatístico e eugenésico, matemático e moral, físico e contrário, de um conceito difuso, arenoso, que qualifica social. negativamente aquilo que não cabe na totalidade voraz de sua outro foi alterizado e com ele grande parte de seu corpo ficou Uma norma que, ao expurgar tudo o que em sua referência não pode pulverizada, anatomizada, desumanizada. ser considerado normal, possibilita a inversão dos termos. Uma norma o outro foi o outro de uma norma da mesmidade. Norma que, que enquadra o outro, que o torna esquadra, isto é, "aquilo que não se por ser colonial, estabeleceu discursos e práticas, espacialidades e inclina nem para a esquerda nem para a direita, portanto o que se temporalidades, que determinaram a produção de um outro conserva no justo meio-termo" (CANGUILHEM, 2000, p. 95). deficiente, de um outro anormal. E onde está o outro que não se enquadra, que não é esquadra? A alteridade deficiente sequer teve a autorização de constituir-se Aquele outro que se distancia da pressão da norma ou que, inclusive, num outro. Foi alterizada, mas não permitida de ser outridade. ignora tal pressão e tal norma? Foi alterizada sem mesmo um resquício exterior. A cada passo, Assim, qualquer preferência de uma ordem possível é acompanhada em cada sílaba, em cada gesto, a alteridade foi condenada a assumir geralmente de maneira implícita pela aversão à ordem inversa possível como própria a auto-referência da mesmidade normal. [...] a norma lógica de prevalência do verdadeiro sobre o falso pode ser E a norma é um grupo que se atribui uma medida comum de invertida de modo a se transformar em norma de prevalência do falso acordo com sua própria mesmidade, com seu próprio olhar para si sobre o verdadeiro, assim como a norma ética de prevalência da sinceridade sobre a hipocrisia pode ser transformada em norma de prevalência da mesmo, com a rigorosidade e exatidão de quem se sabe normal. A norma hipocrisia sobre a sinceridade (id., ib., p. 212-213). é a permanência interna, sem deixar que nada nem ninguém se relacione com alguma exterioridade (FOUCAULT, 1997). Logo, se o normal é o preferível, o desejável, aquilo que está E o grupo erige e institucionaliza uma linguagem que produz revestido de valores positivos, seu contrário deverá ser inevitavelmente uma mesmidade que só entende a si mesma; uma linguagem comum, aquilo que é considerado detestável, aquilo que repele. A partir do que é A institucionalização de um espelho comum; de momento em que se supõe todo valor um desvalor, deveremos afirmar um espelho que só reflete o homem-médio; de um espelho que só que entre normalidade e anormalidade não existe exterioridade, mas sabe e pode refletir imagens normativas, integracionistas, sem que sim polaridade. Uma se reconhece e se afirma pela mediação da outra.188 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 189 A regulação social tende, portanto, para a regulação orgânica e a imita, E não há corpo deficiente, nem feminino nem masculino, nem mas nem por isso deixa de ser composta mecanicamente [...] Mas basta que um indivíduo questione as necessidades e as normas dessa velho nem jovem nem criança, nem pobre nem rico, nem católico sociedade e as conteste sinal de que essas necessidades e essas normas nem protestante nem judeu nem evangélico, nem nada. não são as de toda a sociedade para que se perceba até que ponto a A alteridade deficiente é um corpo que jaz, de um sujeito outro necessidade social não é imanente, até que ponto a norma social não é interna, até que ponto, afinal das contas, a sociedade, sede de que vive em outra temporalidade e em outra espacialidade. dissidências contidas ou antagonismos latentes, está longe de se colocar A alteridade deficiente é um corpo que morre, de um sujeito como um todo (id., ib., p. 228-229). outro cuja experiência se torna para nós intraduzível. Ali está o outro. Não é um outro que somente questiona as normas A alteridade deficiente é um corpo massacrado, de um sujeito e as necessidades sociais, mas um outro que se torna outro cujo corpo respira, ama, se move, habita e está sendo outra dual, irredutível à interioridade do normal. Mas não é exterioridade. identidade. É, sobretudo, a quebra da totalidade, da totalidade feita em pedaços, A alteridade deficiente é um corpo que parece se dessangrar, de a totalidade desvanecida. um sujeito outro cujo corpo tem, como diz Pérez de Lara (1998), Por isso, a norma insiste em atrair para si todas as identidades e a capacidade de dizer outras coisas e, entre essas outras coisas, a todas as diferenças. A norma quer ser o centro de gravidade. o eixo capacidade de dizer não, divino a partir do qual tudo se ordena e se organiza, tudo se cataloga e se classifica, tudo se nomeia e se define, tudo se ampara do dilúvio V provocado pela ambiguidade e pela ambivalência: Compreendo que as pessoas normais são pessoas normais, A normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se o que não compreendo é por que fujo das pessoas normais. manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger arbitrariamente uma identidade específica como o parâmetro Outra vez, torna-se interessante pensar na literatura em relação em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. às normas, à normalidade, isto é, como os textos podem ser eficazes, Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem produtivos, na fixação das representações sobre a alteridade deficiente, ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é natural, assim como de outras alteridades. desejável, única. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer As representações que procedem da literatura dos filmes e dos é vista como uma identidade, mas simplesmente como a identidade jornais e dos documentários etc., cada um com sua óbvia (SILVA, 2000a, p. 83). particularidade- têm a capacidade de apresentar a alteridade deficiente Eleger uma identidade específica. Torná-la desejável, única. em termos de um olhar pendular. Olhar pendular que, sistematicamente, Convertê-la em a oscila entre a periculosidade, o primitivismo, a obscuridade e a E é por isso que a norma é a supressão das identidades refratárias, ignorância, ou então seus opostos, isto é, o o emblema da inomináveis, irredutíveis, misteriosas. calma, a superação, a E é por isso que a alteridade deficiente acaba por ser identidade A literatura volta a traçar imagens do outro deficiente de uma deficiente, identidade faltante, patológica, negativa, maneira ambígua, dual, antagônica. As representações da alteridade E é por isso que não há diferença na deficiência, mas sim corpos flutuam nesse vertiginoso. Não podia ser de outro modo, incompletos, fragmentados, desumanos, absurdos. não devia ser de outro modo.190 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 191 que é crucial nas imagens antagônicas sobre a alteridade Vejamos: "se expressava só por onomatopéias e gestos e pelas cem deficiente não está em contemplar como elas se encaixam mais ou palavras de que dispunha"; "tinha frequentado vagamente a escola"; menos bem em modelos conceitualmente prescritos. As representações "voltava com resumos espantosos"; "riqueza de imaginação"; devem flutuar porque esse é o único movimento possível; porque "inteligência instintiva"; "obstinadamente silenciosos"; "algumas esse é o único olhar possível. Em vez de tentar estilizá-las para torná- luzes" etc. las noções estáveis, rígidas ou conceitos academicamente servis, Esse é um texto que perturba por sua fidelidade à literatura nos instalar, perturbadoramente, no meio delas, em seu pretensiosa da psicologia da surdez. Uma literatura que perturba por indômito vaivém. sua escassa imaginação, pela veemência de seu paternalismo e pela De um lado, a insistência do anormal, a verticalidade do anormal, ignorância da experiência do outro, do outro surdo. É uma literatura do anormal sem identidade, a não ser sua deficiência. E, de outro que traduz, de certo modo, uma vivência de um outro maléfico sem lado, a obsessão por uma deficiência que governa todo o corpo do mesmo recobrar os matizes e as argúcias de sua invenção. Produz um outro, que não lhe permite respirar, que é pura e exclusivamente outro previsível, que assume todas as características imagináveis e deficiente. E que faz do outro um outro sumamente transparente, inimagináveis de um corpo moldável, dócil, inútil e, finalmente, compreensível, comunicável, literal, quase vazio. Como exemplo, descartável. cito aqui uma passagem extraída de primeiro homem, de Albert Sobre esse corpo poderíamos acrescentar tudo aquilo que Camus quiséssemos: implantes cocleares, subclassificações, metodologias e mais metodologias de reeducação. [...] seu irmão Ernst [...] que vivia com eles, que era completamente surdo Fazer desse corpo tudo o que desejássemos: um falante mesquinho, e se expressava só por onomatopéias e gestos e pelas cem palavras de que dispunha. Mas Ernst, que não pudera trabalhar quando jovem, tinha ou verborrágico, ou excluído ou incluído, ou nada. frequentado vagamente a escola e aprendido a decifrar as letras. la às vezes Mas consciente, ou não, de que ali não está o corpo surdo Que ao cinema e voltava com resumos espantosos para os que já tinham visto esse corpo não é o corpo surdo. Que o corpo surdo, enquanto isso, está o filme, pois a riqueza de sua imaginação compensava sua ignorância. No em outro lugar: em uma temporalidade e em uma espacialidade pelo mais, esperto e ardiloso, uma espécie de inteligência instintiva permitia menos simultânea, como mínimo paradoxal, inclusive disjuntiva. que se movesse num mundo e no meio de seres que, no entanto, eram para ele obstinadamente silenciosos. A mesma inteligência lhe permitia E o outro vaivém do pêndulo, do outro lado, o fetiche do anormal, mergulhar todos os dias no jornal, onde decifrava as manchetes, o que lhe a freak fashion que irrompe para lastimar os olhares, para malferir a dava ao menos algumas luzes sobre os assuntos do misericórdia, para erodir a aparente firmeza da normalidade e Nessa passagem se resume quase toda a literatura especializada esquartejar seus inalteráveis preceitos. sobre a surdez, especificamente aquela que governou nossas Um livro em particular, Geek love (1990), da escritora Katherine representações e nossos olhares durante as décadas de 1960 e 1970, Dunn, pode servir como exemplo disso. Nessa novela, o habitual é o inclusive o início dos anos 1980, e que, desde já, continuam com seu anormal, a anormalidade. E tudo e todos os outros- os normais, como acionar devastador. são mencionados ali representam o vulgar, o mediocre e, inclusive, tudo aquilo que resulta incompreensível por sua previsibilidade, por 41 evidente que não estou culpando nem atribuindo uma falsa consciência a Albert sua obviedade, por sua pérfida repetição; o normal e os normais sendo Camus em sua descrição da surdez. Mal pudera ou quisera! menciono o incompreensíveis para os anormais por sua grosseira e reiterativa significado e a correspondência de sua emergência em relação às idéias mais dominantes, hegemônicas ou ouvintes sobre os surdos das últimas décadas. mesmidade.192 Pedagogia (improvavel) da diferença Sobre a anormalidade e o anormal 193 No contexto de uma feira circense de monstros, um casal planeja se representa ou se representa mal, não ou mal, não escreve ou a gestação de filhos-monstros para que sejam, cada vez mais escreve mal, não se inscreve em um corpo ou se inscreve mal. perfeitamente, cada vez mais monstruosamente, monstros úteis: "Meu A invenção maléfica do outro deficiente. A que criou o significado pai não economizou nenhum gasto com seus experimentos; tanto na e a norma do falar bem, aprender bem, atender bem, representar-se ovulação como durante a gravidez, minha mãe foi profusamente bem, ler e escrever bem, inscrever-se bem no corpo. tratada com cocaína, anfetaminas e arsênico". A relação colonial? multicultural? com a alteridade deficiente. Ao contrário do exemplo de Madame Bovary antes mencionado, aqui a produção da anormalidade não está representada como oposição Uma alteridade que parece estar obrigada à igualdade. Que parece ao humano, senão como algo inclusive desejado: "Que maior dom estar obrigada a rir, a chorar e a aprender ao mesmo tempo que todo poderias oferecer a teus filhos do que a capacidade inerente de ganhar mundo. Que parece estar obrigada a renunciar à sua experiência. a vida somente por ser como são?". Ou, também, quando um dos Obrigada a reduzir-se à mesmidade. Obrigada a abandonar suas filhos-monstros diz: "O nanismo, que se tornou totalmente evidente diferenças. até o meu terceiro aniversário, proporcionou uma agradável surpresa E pergunto: se a expulsão da alteridade deficiente consiste em um ao paciente casal e aumentou meu valor". desprezo muitas vezes assassino, será sua inclusão um fetiche do E abundam as descrições do anormal: "Suas mãos e seus pés anormal produzido pela normalidade? a volta de um outro que nunca estavam conformados como barbatanas que lhe brotavam diretamente foi embora? a volta a um lugar onde nunca esteve? do torso, sem interposição de braços nem pernas" referindo-se a um E o outro deficiente, que é irredutível. Pois já não existem dos filhos, chamado Aqua Boy ou então: "As meninas eram irmãs ontologias da mesmidade que sequer se aproximem da exterioridade siamesas com a parte superior do corpo perfeitamente formada, mas do outro. Pois voltam a sobrar avaliações, controles, manuais; ainda unidas pela cintura, de forma que compartilhavam um só jogo de que agora não digam deficiência, ainda que agora não nomeiem a quadris e pernas". palavra deficientes, e se refugiem sorridentes no termo diversidade. Além disso, há uma depressão manifesta nos pais quando um de E o outro deficiente, que continua em seu mistério. seus descendentes nasce sem nenhum traço de monstruosidade visível, Pois nos falta vibrar com o outro. quando horrorosamente parece que será normal: "Esse lamentável Pois sobra a metástase do mesmo. estado deprimiu tanto a meus empreendedores padres que de imediato se dispuseram a abandoná-lo em um posto de gasolina". Porque falta a metamorfose da mesmidade. Talvez a literatura nos ajude muito mais a deambular, flutuar e sentir os vaivéns das imagens do outro deficiente, ainda quando a educação nos entorpeça o caminho e insista, obsessiva, em resguardar para si só algumas poucas delas; ainda quando as pedagogias pensadas (como) para a alteridade insistam em submeter o outro ao jogo diabólico da alteridade maléfica e da invenção maléfica; ainda quando o outro seja, agora, convocado para uma relação comunicativa que tudo pode, que tudo engloba, que tudo inclua. A alteridade deficiente como o outro do mal. o que não fala ou fala mal, não aprende ou aprende mal, não atende ou atende mal, não196 Pedagogia (improvavel) da diferença E finalmente... 197 E, ao fazê-lo assim, invade-nos a ilusão de mudança de alguma sobre nomes já pronunciados. Somente alguns poucos retalhos de coisa sobre a qual não nos interrogamos. Preferimos mudar a educação sua alma são autorizados, respeitados, aceitos e tolerados. e mudá-la sempre antes de perguntar-nos pela pergunta; o antigo e o novo. o antigo localizado a séculos-luz do novo. preferimos ocupar-nos mais do ideal, como normal, que do grotesco, o antigo desdesenhado, desperdiçado, desfeito. E o novo indecifrável. como humano. Preferimos fazer metástase educativa a cada momento. E o novo que parece ser exigido como único, como indispensável, Subjuga-nos transformar a transformação, esquecendo ou então como somente novo. negando todo ponto de partida; e a voragem de uma mudança que Como em um incessante mecanismo de produção de novidades, faça da educação algo parecido com um tão improvável quanto assistimos ao espetáculo das mudanças: da necessidade de mudanças, impossível. de sua imperiosidade, de sua suntuosidade, de sua perversidade, de Da mudança sem origem: disso se trata. E em questões de sua monotonia, de sua inconsciência. mudança, como diz Baudrillard (2002, 83), tudo é possível: "O que "O objeto não é mais o que era" (BAUDRILLARD, 2002, p. 28) e, é preciso é uma metamorfose e um devir". também, o objeto que nos pensa" 93). Tudo é possível com a mudança em educação: a insistência de E isso significa, inclusive, que as mudanças já não são o que eram uma única espacialidade e de uma única temporalidade, mas com e que são as mudanças que nos pensam. outros nomes; a reconversão de lugares em não-lugares para os outros; E as mudanças educativas nos pensam agora como uma reforma a infinita transposição do outro em temporalidades e espacialidades do mesmo, como uma reforma para nós mesmos. egocêntricas; a aparente magia de uma palavra que se instala pela As mudanças educativas nos olham agora com esse rosto que vai enésima vez, ainda que não (nos) diga nada; a pedagogia das supostas despedaçando-se de tanta maquiagem sobre maquiagem. diferenças em meio a um terrorismo da indiferença (indiferente); e a produção de uma diversidade que quase não se atende, quase não se Porque as mudanças nos olham, e ao olhar-nos encontram só a metástase de leis, de textos, de currículos, de didáticas e de dinâmicas. entende, quase não se sente. E sobre uma mudança sem origem, voltar à mudança, mudar a Mas nem uma palavra sobre as representações como olhares. cada segundo. Mas nem uma palavra sobre a metamorfose das identidades. Na espacialidade e na temporalidade da modernidade tardia, da Mas nem uma palavra sobre a vibração com o outro modernidade como risco (BERIAIN, 1996), instalou-se comodamente As mudanças têm sido, então, a burocratização do outro, sua a idéia das transformações, da imagem vertiginosa do mundo, daquilo inclusão curricular, seu dia no calendário, seu folclore, seu exotismo, que logo após ter sido nomeado deixa automaticamente de ser o que sua pura biodiversidade. se acreditava, dos múltiplos impactos nos corpos e nas identidades, E se em algum momento de nossa pergunta sobre a educação nos das novas configurações do sujeito derivadas das profundas e esquecemos do outro, agora detestamos sua lembrança, maldizemos dramáticas transformações na família, no trabalho, na religião, na a hora de sua existência, corremos desesperados para aumentar o sexualidade, na ciência e no conhecimento, nas gerações ou nas idades número de carteiras das salas de mudamos as capas dos livros do corpo, na democracia, na utilização da tecnologia etc. que publicamos já há muito tempo, reuniformizamos o outro sob a Afirmamos que estamos diante de um novo sujeito. Mas é preciso sombra de novas terminologias sem sujeitos. dizer: de um novo sujeito da mesmidade. Porque se multiplicam suas E voltamos a acreditar que este tempo e este espaço são o único identidades a partir de unidades já conhecidas, extremam-se os nomes tempo e o único espaço disponível. Voltamos a acreditar que o outro198 Pedagogia da diferença E finalmente... 199 é um outro maléfico e que nossa invenção não estava tão errada. Voltamos Modernidade e Escola, onde "duas coisas diferentes não podem a recriar um (velho) discurso técnico, racional, vazio, sem relação com estar no mesmo lugar ao mesmo tempo e onde uma mesma coisa não o outro. Voltamos a ignorar aquela ética do rosto da qual nos fala Lévinas pode estar em dois lugares ao mesmo tempo". (1993): temos uma responsabilidade com o outro, com sua expressão, E cabe aqui substituir outra vez coisas diferentes por com sua irredutibilidade, com seu mistério. E voltamos, por último, a refugiar-nos em nossa insossa hospitalidade (hostil). o mesmo e o outro não podem estar ao mesmo tempo nessa temporalidade, nessa escola. A mesmidade da escola proíbe a diferença II do outro. Confirma a mesma coisa, ao passo que nega a diferença do outro. o que pode significar educar em meio a e através dessa temporalidade excessivamente presente e dessa espacialidade do outro E é válido também substituir dois lugares por um lugar para a que se desloca e se move incessantemente até se distanciar com seu mesmidade, e outro lugar, bem diferente, para o outro. Um lugar mistério, até se tornar irredutível, até nos fazer do outro? É a estável, ordenado, linear, para a mesmidade. E outro lugar, bem diferente, mas de muito maior ordem, de muito maior controle, de educação, por acaso, o império da mesmidade e a desolação da muito maior governo; um lugar deliberadamente sem tempo e sem alteridade na sua volta ao mesmo? Um gesto ritualista sobre o regresso espaço para os outros. do outro? o outro em um único tempo, inscrito em um único mapa, Mas, do mesmo modo que o objetivo da ordem da modernidade em uma única fotografia, em um único dia de festa por ano, o outro acabou se tornando uma expressão de impossibilidade de um projeto condenado a uma única e última carteira escolar? Ou, talvez, uma igualmente impossível, também a ordem da escola foi se despedaçando, forma de irrupção naquilo que já somos e gostaríamos também de foi se fragmentando nas várias tonalidades do tempo presente. deixar de ser? Ser não só o que já fomos e aquilo que estamos sendo? E a oposição entre poiesis e práxis educativa tornou-se extrema. Não acrescentaria nada a esta discussão insistir sobre algo que já Tornou-se dona, ao mesmo tempo, de uma temporalidade foi muito a educação institucional, a instituição educativa, contínua e descontínua, de uma espacialidade homo-homogênea e a escola, é uma invenção e um produto do que denominamos heteróclita. modernidade. As conclusões, já conhecidas, sobre a relação entre Por um lado, a tarefa de educar se transformou num ato de fabricar modernidade, educação e escola são evidentes: o tempo da mesmidades e ali se deteve, satisfeita consigo mesma; estabeleceu modernidade e o tempo da escolarização costumam ser, como folhas uma ordem, uma hierarquia de somas e restos, de sujeitos e predicados, reproduzidas, como decalques, temporalidades que só desejam a de História e histórias, de exclusão e de inclusão, de anjos e réprobos. ordem, que ficam obsessivas por classificar, por produzir mesmidades Por outro lado, o ato de educar tomou outro rumo, seguiu outro homogêneas, textuais, sem fissuras, a salvo de toda caminho sobre o qual nunca se deteve, pois nunca o deu por cumprido, contaminação do outro; a espacialidade da modernidade e o espaço nunca o deu por acabado: escolar costumam ser, como irmãs de sangue, espacialidades que só procuram reduzir o outro longe de seu território, de sua língua, de Aqui já não há nenhum objeto a fabricar, nenhum objeto do qual se sua sexualidade, de seu gênero, de sua idade, de sua raça etc. tenha uma representação antecipada que permita sua elaboração e o encerre, de certo modo, dentro de seu resultado, senão um ato a realizar Modernidade e Escola, como uma temporalidade simétrica em em sua continuidade, um ato que nunca termina verdadeiramente que cada coisa deveria ter seu espaço e cada espaço deveria seguir o porque não comporta nenhuma finalidade externa ao mesmo, definida ritmo de um tempo monocórdio, insensível, inevitável. com antecedência 1998, p. 62).200 Pedagogia da diferença E 201 A educação como um ato que nunca termina e que nunca se ordena. forma contraditória: nega que o outro haja existido como outro e nega A educação como poiesis, isto é, como um tempo de criatividade e o tempo em que aquilo a própria negação colonial do outro possa de criação que não pode nem quer orientar-se para o mesmo, para a ter acontecido. mesmidade. A educação como a construção de um outro que repercuta Nega que o outro tenha existido, pois não existe mulher, não existe na mesmidade (MELICH, 1994). negro, não existem vagabundos, não existe sem-algo nem sem-tudo, Depois da ordem, nenhuma outra ordem, senão a perplexidade. não existem anormais, não existem imigrantes, não existem Desta vez, a perplexidade da educação, a perplexidade da escola. delinqüentes etc. Não existem porquês nem são enunciados, nem estão Poderíamos pensar, então, em uma pedagogia da perplexidade? aí para enunciar-se. Não existem senão somente através de um anúncio Uma pedagogia da perplexidade que seja um assombro forçado e forçoso, numa menção etérea cuja voz se apaga a cada vogal, permanente e cujos resplendores nos impeçam de capturar a a cada consoante. compreensão ordenada de tudo o que ocorre ao redor. E nega o tempo da negação do outro: é, por exemplo, a África, que Que permita desvanecer-nos para criar uma pedagogia outra. Uma nunca existiu ou que permanece sempre fixa entre o século XVIII e o pedagogia do acontecimento, isto é, voltando citação anterior XIX; é a mulher que nunca existiu ou que sempre está detida pouco de Chiara Zamboni: uma pedagogia descontínua que provoque o antes da década de 1960; é o anormal que nunca existiu ou que está pensamento, que retire do espaço e do tempo todo saber já disponível; exposto somente no circo; é o imigrante que nunca existiu ou que que obrigue a recomeçar do zero, que faça da mesmidade um sempre está condenado a seu ser-documentado/indocumentado, a pensamento insuficiente para dizer, sentir, compreender o que seu a seu ser-fora, a seu ser-maleficamente-nada. aconteceu; que emudeça a A pedagogia do outro que deve ser apagado é o nunca-outro e o E que desordene a ordem, a coerência, toda pretensão de significados. sempre-outro: outro permanente, como (queria) dizia Bauman (1996). Nunca existiu como outro de sua alteridade, como diferença. E que possibilite a indeterminação, a multiplicação e a babelização E sempre existiu como um outro do mesmo, como uma repetição de todas as palavras, a pluralidade de todo o outro. monótona da mesmidade. E que desminta o passado unicamente nostálgico, somente utópico, absurdamente elegíaco. E a pedagogia do outro que deve ser apagado está cimentada sobre dois princípios pedagógicos tão austeros quanto inexpugnáveis: (a) Que conduza a um futuro incerto. Uma pedagogia para um está mal ser aquilo que se é e/ou se está sendo; (b) está bem ser aquilo presente disjuntivo? que não se é, que não se está sendo e que nunca se poderá ou terá Uma pedagogia para um presente disjuntivo que pode ser, ao vontade de mesmo tempo, três maneiras possíveis de entender a educação: a pedagogia do outro que deve ser sempre apagado; a pedagogia do outro (a) Está mal ser aquilo que se é ou que se está sendo: a negação do como hóspede de nossa hospitalidade e, por último, a pedagogia do outro em suas próprias experiências de ser-outro, em seu devir, em outro que volta e reverbera permanentemente. suas próprias línguas, em suas próprias temporalidades e espacialidades, em seus próprios acontecimentos. III o bem e o mal do ser e do estar sendo não supõem aqui nenhuma conotação A pedagogia do outro que deve ser sempre apagado é a pedagogia moral ou moralizadora. É, sobretudo, uma expressão que se relaciona com a afirmação e/ou com a negação das identidades, mas especialmente com a afirmação de sempre; uma pedagogia que nega duas vezes e que o faz de uma e/ou a negação das intimidades de ser outro.202 Pedagogia da diferença E finalmente... 203 E mostrar ao outro que está mal ser aquilo que se é ou que se está lugar vácuo, escolarizá-lo cada vez mais para que, cada vez mais, possa sendo: corrigi-lo, normalizá-lo, expulsá-lo, medicalizá-lo, parecer-se ao mesmo e seja o mesmo. vociferá-lo, produzi-lo. É uma pedagogia que afirma duas vezes e que nega também duas E obrigar o outro a perceber de uma vez que está mal ser aquilo vezes: afirma o nós, mas nega o tempo (provavelmente) comum; afirma que se é ou que se está sendo. o outro, mas lhe nega seu tempo. Que seja o outro o que diga o quanto precisa da mesmidade; que É a pedagogia da diversidade. seja o outro o que diga o quanto precisa respirar de nosso ar; que seja Uma pedagogia da diversidade como pluralização do eu mesmo e o outro o que nos suplique que quer e que deve ser apagado. do mesmo; uma pedagogia que hospeda, que alberga, mas uma (b) Está bem ser aquilo que não se é ou não se está sendo e não se pedagogia à qual não importa quem é seu hóspede, mas que se poderá ou terá vontade de ser: a mesmidade como modelo, distante interessa pela própria estética do hospedar, do albergar. e etérea, de toda alteridade. A mediocridade de quem atravessa a média, Uma pedagogia que reúne, no mesmo tempo, a hospitalidade e a o monótono, o tedioso (BAQUERO, 2001). hostilidade para com o outro. Que anuncia sua generosidade e esconde E mostrar ao outro que está bem ser aquilo que não se é, que não se sua violência de ordem. está sendo e que não se poderá ou terá vontade de ser: disfarçá-lo de Uma pedagogia que não se preocupa com (e que se aborrece com) diversidade, tingi-lo de alteridade, fazê-lo divergir do mesmo, a identidade do outro mas que repete (até ficar farta) somente a medi-lo, avaliá-lo, ipseidade do eu. E obrigar o outro a perceber que está bem ser aquilo que não se é, A repetição até ficar farto de sempre a mesma coisa. que não se está sendo e que não se poderá ou terá vontade de ser. É uma pedagogia que se refere, obstinadamente, a um único e Que seja o outro o que tenha que ficar nu; que seja o outro o que bem delimitado espaço institucional, assim como a uma única e bem se distancie de si mesmo; que seja o outro o que negue sua alteridade; delimitada tipologia da diversidade. que seja o outro o que fale em nome da igualdade, do respeito, da É uma pedagogia que se torna obsessiva, de um lado, pela entrada e aceitação, do reconhecimento e da tolerância; que seja o outro. pela permanência - e por acaso também pela existência e/ou pela A pedagogia do outro que deve ser apagado: uma pedagogia para experiência? daqueles sujeitos comumente denominados deficientes na que a mesmidade possa ser, sempre, a única temporalidade e escola regular. E que hoje, por outro lado, estiliza sua mesmidade, atribuindo aos outros o caráter de diversidade, de diversos aqui estariam: espacialidade possível. os imigrantes, os sujeitos com problemas sociais, sujeitos de raças e etnias IV diferentes (a raça e a etnia brancas), aqueles com problemas de aprendizagem etc. numa relação cultural, política, e comunitária pelo A pedagogia do outro como hóspede de nosso presente é uma menos confusa, caótica, discriminatória, excludente, autoritária, muitas pedagogia cujo corpo é reformado e/ou se auto-reforma, fazendo vezes violenta e, se preferível, em síntese, de estrita tonalidade colonial. metástase sobre o mesmo e sobre o outro; é a ambição do texto da Colonial, quando pensamos na idéia de integrar o outro quer mesmidade que tenta alcançar o outro, capturar o outro, domesticar dizer: reunir em um mesmo lugar, juntar o que está solto, aproximar as o outro, dar-lhe para que diga sempre o mesmo, exigir sua inclusão, partes que estão separadas e de incluí-lo isto é: do latim includere, negar a própria produção de sua exclusão e sua expulsão, nomeá-lo, derivado da composição do prefixo n+clausere e que significa confeccioná-lo, dar-lhe um currículo colorido, oferecer-lhe um amplo enclausurar, fechar por dentro. Inclusão pode ser definida, então, como204 Pedagogia da diferença E finalmente... 205 "ter como membro, conter como elemento secundário ou menor" Em primeiro lugar, porque é preciso deslocar a aparente (GOES e SOUZA, 1999, p. 192). neutralidade e o olhar apaziguador que temos sobre a diversidade e De qualquer maneira, e além dos significados imediatos que considerá-la, ao contrário, uma categoria epistemológica, uma governam essas expressões, o que considero sobretudo problemático descrição que emerge a partir de uma etnografia displicente e auto- é, em todas elas e apesar de suas diferenças, o sentido em que o(s) suficiente, como simples dado ou fato da vida social. outro(s) aparece(m), é(são) anunciado(s) e produzido(s) dentro da É evidente que não se trata de acreditar ou não acreditar, de cena cultural e educativa. A questão poderia ser formulada assim: reconhecer ou não reconhecer, de determinar ou não determinar a quem são os outros dessas expressões e sentidos da educação? existência de uma pluralidade ou polifonia ou heteronomia de vozes, No caso da diversidade, ela se preocupa com um outro que é corpos, línguas, mentes, gêneros, raças, sexualidades, idades etc. na historicamente problemático para a educação; mantém a todo custo cultura e na educação. Não é esse, ao menos neste momento, o uma determinada mitologia da diversidade, segundo a qual esse outro problema. A questão radica no fato de que muitas vezes a diversidade específico acaba por ser a origem de todos ou de quase todos os é utilizada como um bálsamo tranquilizante, talvez com o objetivo problemas educativos; é uma diversidade tipicamente desviante ou, de anular ou atenuar os conflitos culturais e seus efeitos; um bálsamo talvez, uma diversidade anormal. Assim, parece ficar modulada uma que cria a falsa idéia de uma equivalência dentro da cultura e entre as alteridade escolar específica, uma confusão de sujeitos que reúne, de culturas. Como assegura Bhabha (1998, p. 64), a afirmação da maneira representativa, num continuum insuspeitado, não-isento de diversidade "supõe o reconhecimento de conteúdos e costumes exotismo e de folclore, ciganos com surdos, surdos com meninos e preestabelecidos isentos de mistura e de contaminação". meninas de rua, meninos e meninas de rua com pessoas que falam E um dos sentidos mais invocados da diversidade, pelo menos um pessoas que falam outra língua com menores delinqüentes, que me parece particularmente perigoso, é o que se refere com certa menores delinqüentes com cegos, cegos com testemunhas-de-jeová, naturalidade à idéia de biodiversidade: um certo olhar zoológico sobre com disléxicos etc., sem falar da complexidade o outro, impregnado de centrismos em que o outro, a alteridade, se e da perplexidade que pode resultar quando todos eles constituem, na organiza e se ordena geometricamente, em perfeito equilíbrio e sem verdade, fragmentos de identidades de um mesmo sujeito. nenhuma relação, sem nenhuma intertextualidade entre as Por isso, a pedagogia do outro como hóspede de nossa mesmidade multiplicidades que a compõem; em síntese, uma espécie de referência não é hoje uma metamorfose, mas sim uma reforma que se auto- à pluralidade que parece somente se desprender de um eu-mesmo, de uma mesmidade cultural, como se se tratasse, insisto, de uma tranquila Por isso, essa pedagogia deve ser colocada em suspenso e deve ser multiplicação e pluralização exercida e determinada desde o centro olhada com desconfiança. para a periferia. Em segundo também não podem deixar de ser considerados Parece-me importante assinalar, a esse respeito, aquilo que Nuria Pérez de Lara os usos da diversidade: políticos ou governamentais, empresariais, (1998) considera como o fato de ignorar o movimento social que em funcionamento uma determinada mudança educativa, substituindo sua energia culturais e pedagógicos. criadora por um aprisionamento de leis, decretos e textos em formato de manuais. Por usos políticos da diversidade, entendo uma forma de A autora se refere, no caso espanhol, a um movimento de propostas cooperativas e administração e referência às sociedades que se autoproclamam de antiautoritarismo que deu origem à Educação Especial Integradora, cujas raízes cito textualmente "atualmente parecem esquecidas ou reduzidas a um passado multiculturais, em que os outros, alguns outros, são utilizados para histórico, que, na linearidade do suposto progresso que nos arrasta, já foi superado". fixar uma imagem satisfatória completa e Nesse caso,206 Pedagogia da diferença E finalmente... 207 mantém-se uma lógica de relação de poder entre quem hospeda que A mitologia do outro, diferente em suas versões em cada cultura, é quem estabelece as leis de composição da diversidade, os fluxos de encontra traduções claro que não literais nos espaços migração, as relações comunitárias do trabalho etc. - e quem é educativos e escolares. A mitologia educativa e escolar do outro hospedado que, para tal efeito, deve na maioria dos casos desvestir- (também com suas variações) não só reproduz, como produz sua se de suas tradições, desculturalizar-se, descomunalizar-se, própria alteridade, seus próprios outros. A alteridade da educação e da descorporalizar-se, destituir-se como sujeito para ocupar o lugar da escola muda permanentemente, nunca é a mesma, se renova sempre, Por essa razão surgem, em relação à alteridade, discursos da mesma maneira que o outro da cultura também o faz. Esse é um e práticas de reconhecimento, aceitação, respeito, tolerância, que não só se transformam em qualidades ou virtudes por e em si mesmas isto jogo típico da diversidade, que consiste em ir mudando o lugar e o é: o que importa é, definitivamente, o reconhecimento, a aceitação, o nome do outro, o lugar de quem é o depositário dessa(s) mitologia(s), respeito, a tolerância, como atitudes geradas a partir do hóspede, e não para manter sempre bem conservado o lugar da alteridade e manter a seus conteúdos e efeitos políticos, linguísticos e culturais mas salvo o lugar da mesmidade. também convertem o outro, ao mesmo tempo, em um outro o o louco, o estrangeiro, o deficiente, os remarcável, censurável, em um outro permanente: o que sempre homossexuais etc. são, por sua vez, e por meio de práticas e discursos ocupa o lugar de ser, e quer ser, o tolerado, o reconhecido, o aceito, o mais ou menos determinados, forçados a ocupar esse lugar. E a questão respeitado etc. Independentemente do fato de essas atitudes terem não é resolvida, nem negada, simplesmente trazendo para dentro um valor intrínseco ou não, existirem ou não, serem ou não, o certo é aquilo que estava fora, isto é, incluindo o que estava que exercem, mais uma vez, uma representação de fixação, de Se consideramos, por exemplo, a versão do mito do outro engessamento, de coisificação, de dependência e imobilidade do outro. deficiente isto é, do outro naturalizado como sujeito perigoso, Por usos empresariais pode-se entender uma nova maquiagem da instável, que não aprende ou não fala, ou que o faz mal, ou que o faz lógica de mercado, que supõe algumas recategorizações e subdivisões em ritmos divergentes, o outro que é uma anomalia, que deve ser da alteridade, sobretudo em função da dinâmica do consumo e, em corrigido, que deve ser objeto de técnicas disciplinares e de vigilância menor medida, da produtividade. Alguns outros se aproximam cada etc. -, a localização que lhe é atribuída pode permanecer inalterada, vez mais, e alguns outros são cada vez mais afastados desse circuito. sem mediar uma análise sobre as relações de saberes e poderes Assim, recebe-se com a alteridade que consome e que, estabelecidas acerca do sujeito, sobre o sujeito, ao redor do sujeito, em menor medida, produz, ao mesmo tempo que se vigiam cada vez mas que não são, de modo algum, propriedades inerentes, mais os mendigos, os meninos e as meninas de rua, as prostitutas, os características naturais do sujeito. deficientes, os vagabundos etc.; eles são expulsos do território da diversidade e são confinados no território da alteridade permanente. Como é possível notar, parece haver uma clara dupla determinação entre diversidade e multiculturalismo, ao menos quando este último é Além desses usos, existe também uma certa mitologia do outro determinada a partir do próprio interior do discurso da diversidade entendido somente no sentido politicamente liberal, isto é, quando cultural, e à qual já me referi neste livro com certa ênfase: o mito da se esgota numa descrição hipoteticamente pura, pasteurizada, das alteridade como causa e de todos os males culturais, culturas e da localização da alteridade nas mesmas. Essa dupla políticos, econômicos e educativos; o outro como alguém que vive determinação gera, sem dúvida, muito específicas, mas sua alteridade de uma forma e o mito da tolerância como pouco analisadas no campo educativo. Como bem diz Tomaz Tadeu solução de todos os problemas. da Silva (2000a, p. 73):208 Pedagogia (improvavel) da diferença E finalmente.. 209 Parece difícil que uma perspectiva que se limita a proclamar a existência E a pedagogia do outro que volta e reverbera permanentemente é da diversidade possa servir de base para uma pedagogia que coloque a pedagogia de um tempo outro, de um outro tempo, de uma no seu centro a crítica política da identidade e da diferença [...] Em geral, a posição socialmente aceita e pedagogicamente recomendada é espacialidade outra, de uma outra espacialidade. Uma pedagogia que de respeito e de tolerância para com a diversidade e a diferença. Mas talvez não tenha existido nunca, e que talvez nunca vá existir. será que as questões de identidade e de diferença se esgotam nessa Uma pedagogia que não possa ocultar as barbáries e os gritos posição liberal? desumanos do mesmo, que não possa mascarar a repetição monocórdia, A pedagogia do outro como hóspede de nossa mesmidade hostil. e que também não possa ordenar, nomear, definir ou tornar congruentes os silêncios, os gestos, os olhares e as palavras do outro. Isto é, uma pedagogia em que: (a) a diversidade é apresentada como algo recente e sempre problemático; (b) a diversidade e a deficiência Uma pedagogia que pudesse instalar-se no presente, mas não se confundem-se em um mesmo espaço e tempo; (c) a diversidade e a acomodar, entre a memória e o porvir. heterogeneidade tornam-se sinônimos; (d) a diversidade é sempre Uma pedagogia que não seja só a fabricação do futuro e que se um outro, que assume diferentes rostos, nomes, cores, corpos, como abra ao porvir, esse tempo que, como sugere Larrosa (2001, p. 287), o imigrante, o que não domina a língua nacional, o deficiente etc.; (e) "nomeia a relação com o tempo de um sujeito receptivo, não tão a diversidade é tudo e nada ao mesmo tempo, já que tudo é diversidade passivo quanto paciente e passional de um sujeito que se constitui e/ou todos somos diversos; (f) ainda que se fale de uma pluralização desde a ignorância, a impotência e o abandono, desde um sujeito, a atenção à diversidade está individualizada nos sujeitos enfim, que assume a sua própria finitude, a sua própria mortalidade". considerados problemáticos; (g) reiteram-se até o esgotamento as Uma pedagogia que não arraste, que não tinja, que não albergue, questões de tolerância, diálogo, respeito, aceitação e reconhecimento que não pretenda revelar o mistério do outro. do outro; (h) estas questões tornam-se somente questões curriculares, Uma pedagogia para poder(mos) ser do outro? enquanto são abordadas como temáticas a serem desenvolvidas, Refens do outro, de seu olhar, de sua expressividade. observadas e avaliadas pontualmente a tolerância, por exemplo, é Porque, se o outro não estivesse ali, e aqui nossas pedagogias entendida como o resultado de um conjunto de técnicas de adaptação ficariam reduzidas a cinzas, envoltas em tempestades, dissolvidas em à comunicação ou, então, de uma consciência do ato comunicativo; pura mesmidade. (i) as expectativas tornam a centrar-se na melhoria do rendimento Porque, se o outro não estivesse ali, e aqui nossas pedagogias escolar, isto é, no progresso e no domínio do conhecimento não nos deixariam vibrar com o outro. Uma pedagogia que acabe de uma vez com aquilo dos princípios A pedagogia do outro como hóspede da mesmidade: uma reforma da pedagogia de sempre (está mal ser o que se está sendo; está bem ser que se auto-reforma, fazendo metástase em nós e na alteridade. que nunca se poderá ser) e que suponha outros dois princípios radicalmente outros: não está mal ser o que se é e não está mal ser além 44 As conclusões que exponho aqui sobre a pedagogia do outro como de nossa daquilo que já se é e/ou se está sendo, ser outras coisas. mesmidade são o resultado inicial e indireto de um projeto de pesquisa realizado E porque se o outro não estivesse aí, reitero: pois mais vale que entre outubro de 2001 e março de 2002, na Universidade de Barcelona, sobre Os sentidos implicados na Atenção à junto com Nuria Pérez de Lara, tantas reformas nos reformem a nós mesmos de uma vez e que tanta Caterina Lloret, Virginia Ferrer e José Contreras. Esses tópicos constituem um biodiversidade nos fustigue com seus monstros pela noite! reflexo parcial da análise que realizamos sobre os textos de Atenção à Diversidade que são utilizados para a formação de professores em tal universidade.