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existencial - ANÁLISE EXISTENCIAL - DASEINSANALYSE COMO A DASEINSANALYSE ENTROU NA PSIQUIATRIA no a entron na In. Rew termo "Daseinsanalyse" foi num primeiro momento traduzido pos de Daseinsanalyse. V. 2. SP. 997, P. "Analyse existentielle" em francês e "existencial analysis" em inglês, como o testemunham manuais e dicionários. Mas esta denominação não tardou a abranger as mais divergentes concepções da existência humana a toda uma gama de métodos terapêuticos que, se encontram em flagrante oposição. Esses conccitos adquiriram assim uma tal extensão que acabaram por perder quase todo significado. Tentando recuperá-lo, tor- nou-se hábito manter o termo alemão mesmo em língua es- trangeira. Esta medida de precaução não trouxe, entretanto, a clarcza ria. Um grande número de conceitos psicológicos e psiquiátricos assim como inúmeros métodos terapêuticos continuam se qualificando como daseinsanalíticos apesar de terem muito poucos pontos em comum com a designação original e de, algumas vezes, não se bascarem absolutamente na compreensão do homem que, originalmente, deu seu nome à daseinsanalysc. Para eliminar qualquer possibilidade de erro, é fazer aqui um rápido retrospecto histórico. As designações de "análise do Da-sein" e Daseinsanalyses pela primeira vez numa obra que marcou época SER ETEMPO, publicada 1927 pelo filósofo alemão Martin Heidegger. Esses dois termos tinham como único objetivo denominar a explicitação filosófica das "existenciálias", isto é, das carac- terísticas ontológicas constituintes do existir humano. Heidegger descreveu como "existenciálias" a abertura original ao mundo da "natureza humana", a temporalidade do homem, sua especialidade original, sua afinação ou scu tem- peramento, seu sua seu caráter Heidegger reuniu a análise de cada uma sob a denomina- ção de Esta foi e permanece sendo uma tentativa puramento filosófica, isto é, destinada a determinar a natureza fundamental do no (do Dasein) de um modo estritamente concernente a essa última. Além disso, o verdadeiro intuito de Heidegger não foi nunca o de esclarc- cer simplesmente a do homem. Visou na realidade, desde o início, esclarecer o do Ser enquanto tal.As explicitações do existir humano que aparecem em Ser e Tempo devem ser simplesmente consideradas como uma primeira etapa no caminho de seu pensamento. Ser nunca a pretensão de oferecer de imediato uma antropologia Mas negligenciando este fato, Ludwig Binswanger não tardou a descobrir e nisso foi o primeiro o quanto a concepção heideggeriana da essência Palavra criada para traduzir alemão Leibhaftigkeit, a essência específica do corpo do homem vivo (Leib) oposta àquela de um corpo inanimado (Korper). humanista 23do existir humano cra capital para a psiquiatria à qual serviria de nova base, e nela acreditava não era, na realidade, somente incapaz de imaginar que um como as características de ser do homem expostas em "Ser Tempo" reves- espírito humano assim concebido isto é, compreendendo uma tiam da maior importância para a medicina em seu conjunto e para a psiquia- existindo primordialmente em si pudesse se dar conta de que ao seu lado tria em particular. A conselho do psiquiatra suíço Jakob Wirsch, Ludwig existia uma coisa tal como o mundo exterior e, ainda menos, que um tal Binswanger utilizou em seguida o conceito de daseinsanalyse que era original- rito pudesse sair dele mesmo para descobrir a existência de tudo que com- mente de ordem puramente filosófica e ontológica, num sentido completa- esse mundo exterior e atingi-lo. Também Binswanger descjava suprimir mente diferente, ôntico. Em 1941, Binswanger considerou que a denominação essa divisão sujeito-objeto do domínio do pensamento Empc- "daseinsanalyse psiquiátrica" trazia um novo método de investigação que de- nhou-se nisto, fazendo uma descrição daseinsanalítica de numerosos casos de veria compreender e descrever, sob um ângulo fenomenológico, os sintomas e as síndromes concretos, distintos e diretamente esquizofrenia. Mas enganou-se na interpretação de um ponto capital do pensa- mento heideggeriano. Enganou-se ao sentir-se obrigado a acrescentar ao con- surgidos da psicopatologia. Desviava-se assim, expressamente, do método de ceito heideggeriano de de "amor" Essa preocupação indica, por si pensamento científico que prevalecia, até então, no domínio da psiquiatria e só, que termo "zelar", empregado por Heidegger num sentido estritamente da psicanálise. Essas duas disciplinas estabeleceram de fato como Freud ontológico, ou seja, para designar a constituição fundamental do homem, foi comprazia-se em dizer, de modo um tanto chocante em nome de todos os tomado cm seu significado puramente ôntico. Não compreendendo o sentido cientistas como princípio absoluto, o interesse menor pelos fenômenos dire- ontológico que Heidegger deu a esse conccito, Binswanger não compreendeu tamente do que pelas forças e tendências supostas e "escondi- que não se tratava absolutamente de um comportamento muito preciso, das" atrás desses ôntico, concreto ou, dito de outra forma, de uma relação "zelosa", preocupada Seguindo o pensamento de Heidegger, Binswanger dedicou-se a um com este ou aquele dado do mundo. Em Ser Tempo de Heidegger, como cm caminho fenomenológico: julgando não haver nada a procurar atrás dos fenô- todas suas obras posteriores, a palavra "zelar" é apenas uma primeira referên- menos, esforçou-se em esclarecer, de modo cada vez mais diferenciado, os signi- cia ao caráter fundamental (ontológico) do existir Isto ficados as relações que se mostravam imediatamente a partir deles simplesmente designa que este existir é que se encontra Certamente, bem antes de tomar conhecimento do pensamento sempre, numa relação de entendimento com o que vem ao seu É "dascinsanalitíco" de Heidegger, Binswanger tinha percebido os limites do por isso que o termo "zelar", no sentido que o entende Heidegger, não somen- procedimento que consistia em aplicar à psiquiatria, o método de pensamen- te não exclui as diversas formas de relações afetivas, como as inclui de imedi- to próprio das ciências naturais. Em particular os trabalhos do psiquiatra ato. Do mesmo modo, todas as possibilidades de comportamento parisiense Eugene Minkowski, influenciado por Bergson, tinham despertado ôntico do homem repousam, de fato, sobre essa característica fundamental sua atenção. Entretanto, foi necessário para Binswanger a forte impulsão do que é modo de ser sempre e primordialmente em relação a alguma coisa, pensamento heideggeriano para demonstrar, com uma precisão espantosa, até Finalmente Binswanger descobriu erro capital que havia cometido cm que ponto a psiquiatria que prevalecia até então, estava carente de bases sóli- sua interpretação do pensamento heideggeriano coragem das. a recriminava por ter tomado emprestado, inconsiderada e arbitraria- publicamente. Coerente consigo mesmo, parou logo de qualifi- mente, a totalidade de seus conceitos fundamentais das disciplinas científicas car suas pesquisas de Voltou, então, à posição adotada por mais diversas entre as quais, a neuropsicologia, a biologia, antropologia ou Husserl, o mestre de Heidegger, que não tinha ainda chegado no ponto de simplesmente da linguagem falada cotidianamente. Demonstrou, passo a pas- ultrapassar a noção de consciência subjetiva existente primordialmente cm si, so, mecanismo indicando a que nível e como desenrolar do pensamento e penetrado no sentido do fenômeno do "mundo" heideggeriano, Binswanger das ciências naturais era insuficiente para estudar o comportamento humano deu mesmo um outro nome à nova orientação de sua pesquisa, intitulando-a e passava precisamente ao lado do caráter específico da existência humana. de"fenomenologia antropológica". Apoiava-se assim essencialmente empreendida por Heidegger, Estimulado pelos trabalhos de Binswanger e descontente também, com a da idéia fundamental do matemático e filosófico Descartes que no séc. XVII obscuridade dos fundamentos sobre os quais se apoiava a psiquiatria tradicio- tinha tão desastradamente dividido "o mundo do homem" em duas partes: a e a res-extensa. nal, o psiquiatra e o psicoterapeuta Medard Boss voltou-se também para o pensamento de Martin Heidegger. Certamente, existia, desde início, uma di- Binswanger descobriu que essa divisão do mundo em objeto e sujeito ferença importante entre suas motivações. Enquanto Binswanger foi antes de pos Descartes provocava danos no domínio da psiquiatria, tendo mesmo chegado a qualificá-la de verdadeiro câncer da ciência. Aquele que (2) N.T. Do alemão "sorge" que significa: cuidar, zelar, preocupar-se, etc... 25tudo, levado a penetrar no pensamento desse filósofo por um "impulso pura- dizer, suspenso no Ao primeiro olhar, já lhe é dado ver a casa como uma mente científico" não, como Freud, por um interesse de ordem terapêutica, casa, que fala por uma série de significados e de relações específicas. A foram sobretudo preocupações terapêuticas que determinaram a escolha de casa enquanto tal indica, por exemplo, diretamente para que a olha, Boss. Esperava em primeiro lugar, que as recentes considerações filosóficas de que cla serve de habitação para os homens. E leva, em seguida, ao solo que Hcidegger fossem útcis no domínio da terapêutica. a sustenta. Por intermédio de scu telhado, se revela como uma proteção tanto do calor solar quanto das tempestades. Estas são algumas das inumerávcis referências significativas que pertencem, de início, a cada referências A CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DO HOMEM não são feitas posteriormente pelo homem mas, elas mesmas, pertencem pri- À LUZ DA DASEINSANALYSE mordialmente à própria casa. Mas como possibilidade de ver, tanto no sentido como no Graças ao ensinamento pessoal de Heidegger que Boss e seus alunos rece- sentido "figurado", seria possível SC o que se encontra entre a pessoa beram, a partir de 1947, numa série de cursos organizados várias vezes por dora e a casa da frente não fosse aberto, "transparente"? E além disso, scria os "seminários de Zollikon", a psicopatologia se com um impossível para essa pessoa ver uma casa se cla mesma, enquanto espectado- novo que não só se esforçava em procurar uma não fosse em sua essência aberta, abertura que consiste em um poder com- solução para a distinção cartesiana sujeito-objeto, como nem mesmo permitia, preender os diversos significados que the chegam a partir dos lugares onde que tal questão se colocasse. está o que vem ao seu encontro, na abertura espacial e temporal de seu mun- Esse pensamento serviu como base, para a elaboração de novos caminhos do. homem pode perceber uma casa enquanto a casa da frente, unicamento para uma nova aproximação da medicina e da psicologia. É por isso, que a porque o existir humano subentende, ocupa, ou melhor ainda, é de imediato, "Dascinsanalyse" não deve ser considerada como mais uma "escola" que sim- uma abertura transparente e estendida para o que encontra no mundo, do plesmente se agrupa a todas que já existem. É, antes de tudo e primordialmen- mais próximo ao mais tanto no sentido espacial quanto temporal. te, uma nova abordagem do conjunto dos fenômenos chamados normais e Podemos também comparar a essência da existência humana a uma clareira patológicos do existir humano. Mas esta abordagem não é mais que um cami- que consiste em um poder ver o que vem ao seu Assim, existir nho, um meio de acesso. Não leva a um tesouro de conclusões científicas. humano é sempre conforme sua natureza mais profunda, um "ck-starc" no O caminho ou a abordagem daseinsanalítica é de ordem sentido próprio do termo e pode enquanto abertura iluminadora Em outros termos, tem essencialmente como intuito ver sem deformações aqui- aqui como ali e se encontrar numa livre com aquilo que oferecc a lo que se mostra a nós de si-mesmo. Isto parece tratar-se da coisa mais simples ele na abertura iluminadora de seu mundo. Já que em sua essência o homem mas para nós é hoje a mais difícil uma vez que perdemos, há muito tempo, a tem não somente a possibilidade de escolher ele mesmo que tipo de relação possibilidade de ver a essência das coisas sob as exigências das inúmeras expli- quer estabelecer com os diferentes entes que se apresentam a elc em meio a cações que nos foram dadas. Entretanto, tenhamos agora a audácia de multiplicidade de dados do mundo, mas também porque é necessário a aprendermos essa nova forma de ver. Observa-se primeiramente que o homem todo momento tomar pessoalmente tais decisões, o ser humano só clc não se apresenta no mundo como um corpo inanimado. Um corpo inanimado deve ser qualificado de ser-si-mesmo. está scmpre presente num lugar determinado no interior de outro dado inani- Esta possibilidade existir no modo de ser-si-mesmo, não somente não nado.Também todo corpo inanimado ocupa uma posição precisa de espaço, exclui, mas na realidade inclui, que todo homem se encontra primordialmente determinada por seu volume e sua superficie. Além disso, esse tipo de corpo e sempre, co-existindo com outras pessoas. Nunca o homem se encontrou está separado dos outros corpos inanimados por uma certa primordialmente como um sujeito individual, subsistindo apenas para si mcs- Assim, por exemplo, roupas guardadas num armário não sabem absoluta- mo, sozinho, e que apenas mais tarde teria sido levado a entrar em contato mente que estão nesse lugar o armário não a mínima idéia de que com outras pessoas. Os homens estão primordialmente e sempre co-existindo contém roupas. Completamente diferente, é o ser-no-mundo do homem. perto das mesmas coisas de um mcsmo mundo; contribuem scmpre primari- existir não cessa nos limites da pele do homem e nela não está contido. amente em comum, embora cada um a seu modo, para manter aberto este nunca uma pessoa olhando pela janela de seu quarto seria capaz de ver a casa mundo "descoberto". É isto que constitui o caráter fundamental de ser-com-o- situada à sua frente como uma casa, O homem, aliás, nunca vê uma casa como outro primordial é sobre isto que se fundam os modos mais diversos uma "simples" casa; não é para ele somente um objeto isolado, por assim desdobramento do e notadamente a possibilidade de uma ciência como a sociologia. 26 27Assim, existir humano também se apresenta primordialmente e sempre particular. De fato, qualquer modo do ser-doente só pode ser compreendido a como ser-em-relação seja com alguma coisa que o toca de perto, seja com partir do modo de ser-sadio e da constituição fundamental do homem normal, outra que o toca de longe e o deixa indiferente. Esse modo de ser primordial não perturbado, pois todo modo de ser-doente representa um aspecto privati- e sempre situado numa relação de proximidade ou de afastamento face à face de determinado modo de a essência fundamental do bomem com o que se apresenta no mundo, caracteriza a natureza original do homem. sadio caracteriza-se precisamente pelo seu poder-dispor livremente do con- E, ao mesmo tempo, o existir humano vive o tempo que the é dado situando- junto das possibilidades de relação que foi dado manter com que se se de alguma mancira em relação ao que aparece, e seja apresenta na abertura livre de seu o modo de ser- no modo da percepção do pensamento ou da ação. É assim que ele vive no doente é também holista. Não pode existir a não que haja limitação desta tempo, ou dito de outra forma, que o existir tem um fim e se completa ao liberdade próprio ao homem. É por isso que a questão que do ponto de vista término da vida terrena. Podemos dizer que o homem tem uma boa morte científico convêm ser colocada em relação a cada doente, somente pode SC quando ele soube aceitar destino de seu ser primordial e foi capaz de dispor, apresentar a princípio sob estes três aspectos: qual é a possibilidade de rela- de modo adequado, de sua qualidade de abertura iluminante na qual tudo o ção perturbada? Qual é a esfera daquilo que vem ao nosso encontro que está que "há para ser" pode aparecer. Por outro lado, que tem uma morte má se não visada nessa relação? Enfim, como perturbação relacional SC manifesta? foi capaz de aceitar o destino de seu ser primordial. Tomando esta interrogação fundamental como ponto de partida, somos É contudo precisamente quando homem morre que fica evidenciado algo dos a elaborar uma patologia geral mais de também característico do ser humano. De repente, aquilo que justamente cons- modo de ser-doente pode subdividir-se em: tituía a corporeidade do homem vivo mudou de característica de ser e tornou- 1 Ser-doente caracterizado por uma perturbação evidente da se um corpo inanimado, no espaço físico mensurável. Por muito tempo, foi corporeidade do existir humano; a medicina querer compreender a homem sadio ou doente a partir da 2 Ser-doente caracterizado por uma perturbação pronunciada da redução de scu existir a cadáver. Mas isto oferecia uma perspectiva de pesquisa espacialidade de seu ser-no-mundo; unicamente para o estudo de anatomia. Ora, enquanto um homem ainda existe, 3 Modos do ser-doente constituindo privações importantes na realização sua corporeidade é de uma natureza completamente diferente e não pode ser da afinação própria à essência da pessoa; comparada ao cadáver. Qualquer corpo vivo não pode portanto ser compreen- 4. Modos de constituindo privações importantes na realização dido, conforme sua natureza, a não ser que seja considerado como a do ser-aberto e da liberdade. corporcidade da relação com aquilo que se desvela ao Se, por exemplo, É intencionalmente que nessa classificação falamos de perturbação evi- um sapateiro coloca sola num sapato, sua mão direita não constitui uma parte dente, pronunciada ou importante impedindo a realização das diferentes ca- objetivada de scu corpo mas é primordialmente integrante do todo relacional racterísticas de ser do existir humano. Enquanto traços fundamentais do da tarefa em que ele está empenhado. Só se pode dizer de seu corpo que ele é, formam todos juntos uma estrutura total Se um entre eles é per- no existir humano, aquilo que pode ser percebido também pelos sentidos e por turbado em sua realização, todos os outros não deixam de sofrer, igualmente, isso mcsmo medido calculado até certo ponto como todo objeto inanimado. as Entretanto, a verdadeira essência da corporeidade escapa sempre e imediata- A primeira categoria citada por exemplo, problemas que as classifi- mente no momento exato em que se faz uso da possibilidade de vê-la como cações da patologia tradicional colocam muito longe uns dos outros, como qualquer objeto inanimado mensurável. uma fratura da perna, uma paralisia histérica e uma demência pós-traumática devida a uma lesão no cérebro causada por uma pedra que Sc se conside- ra uma fratura e uma lesão cerebral simplesmente como uma AS DESCOBERTAS DASEINSANALÍTICAS, um órgão isolado, chega-se apenas a uma compreensão extremamente reduzi- BASE TEÓRICA DE UMA NOVA PSIQUIATRIA da da doença. Certamente isto pode scr suficiente num plano prático, por exemplo no tratamento de uma fratura, na medida em o acidentado Estas são as grandes linhas que caracterizam a constituição fundamental por outro lado sadio e não apresente propensão para sofrer acidentes. Entre- de humano, tal qual Heidegger nos ensinou a ver e que cada um de nós tanto, qualquer modo da faz parte a tal ponto tão dirctamento é capaz de perceber, a cada momento, se assim o desejar. Essa concepção é de do ser-no-mundo do homem, isto é de sua existência, que qualquer redução uma importância capital para a medicina em geral e para a psiquiatria em toca sempre e imediatamente este ser-no-mundo e por isso mesmo, todas pos- sibilidades de relação com o mundo. Assim, uma fratura da perna constitui 4primordialmente uma redução da possibilidade existencial de se aproximar do do é em verdade o tédio. Certamente o homem pode sempre ou de se afastar daquilo que se oferece a nosso encontro no mundo, indepen- aberto para o que vem a seu encontro enquanto um ente mas somente de um dentemente aliás do fato dos sofrimentos provocados por uma fratura reduzi- modo tal que tudo, coisas a seres, só podem mostrar-se a como igualmente rcm consideravelmente a abertura para mundo de um "da-sein", não lhe desprovidos de mensagem. que sofrem do tédio permanecem fun- deixando mais do que um pequeno número de interesse. A queda de uma damentalmente indiferentes a tudo. que SC oferece para elas retira-se imc- pedra que é, no outro exemplo citado, a origem de uma demência traumática, diatamente se não desaparece totalmente, pelo menos se afasta a ponto de não prcjudicou somente um órgão isolado mas que se pode chamar"o cere- não mais lhes tocar. Seu tédio não se limita a certas De fato, SC entendi- bral" de uma Tendo caído, esta pedra intervém diretamente na rea- am permanentemente; sentem o tempo Isto quer dizcr que no lização da possibilidade de ser do homem no espaço em relação ao que se tédio é principalmente a temporalidade que Não existe mais ncm oferecia, se se oferecerá a elc nesse espaço. Para compreender uma verdadeiro futuro, nem passado rico em experiência, nem presente cheio de paralisia histérica, a não precisa mais recorrer à invenção de sentido para aqueles que se entendiam. Essas 3 dimensões ou momentós tem- um inconsciente" ou de um conflito provocado por pulsões incons- porais "ek-staticos" tornam-se relações que não lhe dizem mais nada. cientes cuja energia, seguindo a teoria da conversão psicanalítica, teria sido Todos os modos de ser-doente expostos até agora, apresentam uma pertur- transferida aos músculos voluntários. Sem que seja necessário recorrer a hipó- bação da realização do caráter fundamental do ser-humano que é scu teses metapsicológicas, qualquer paralisia histérica pode ser diretamente que, ao mesmo tempo lhe revela o Mas são comprecndida como uma perturbação que afeta a possibilidade de realizar na os esquizofrênicos que sofrem mais direta e fortemente essa perturbação. Pode- uma certa relação com o que se apresenta no mundo, isto é, se dizer que a esquizofrenia é o modo de ser-doente mais humano e ao mcsmo como uma perturbação que consiste em interdições estranhas à pessoa. tempo mais desumano. É por isso que diz respeito não somente ao psiquiatra Hojc, mais numerosos que as diversas formas de histeria são os modos de mas também ao conjunto de médicos e mais geralmente ainda a todos os ho- que se caracterizam por uma redução na realização das mens. Justamente porque aqui se manifesta abertamente uma grave perturba- que são a afinação ("Gestimmthcit") e o scr-aberto. quadro ção no caráter fundamental do ser humano, isto é, em seu ser-aberto, esta clássico da loucura maníaco-depressiva entra naturalmente nesta categoria. ça mais do que qualquer outra coisa lança uma luz sobre a natureza mais profun- caminho dascinsanalítico permite, como nenhum outro havia feito até o da de nosso existir por isso mesmo sobre sua fragilidade. compreender igualmente a constituição fundamental das pessoas A esquizofrenia pode ser considerada como uma perturbação específica atingidas por essa doença. Esta constituição fundamental foi objeto de uma do conforme a do particularidade descrição detalhada por Boss em seu livro FUNDAMENTOS DA MEDICINA dessa perturbação reside numa dupla incapacidade. De um lado, os E DA Mas atualmente na prática cotidiana, muito mais numero- esquizofrênicos não estão mais aptos a se engajar totalmente no que se mos- SOS do que esses casos de loucura circular, são as perturbações da afinação tra na abertura do seu existir, ao contrário de seus semelhantes que estão que se pode considerar a forma de neurose mais representativa de nossa épo- sadios e em vigília. Conseqüentemente não podem também responder por ca. Sc na época de Charcot e de Freud e até a Primeira Guerra Mundial inclu- um engajamento total com o que se apresenta, isto é, cm conformidade com os grandes fenômenos histéricos predominavam entre as neuroses, foram os significados presentes para os outros. Por outro lado, não podem preservar cm seguida as neuroses orgânicas que predominaram. Hoje encontra-se, cada intacto um ser-si-mesmo capaz de manter uma relação livre com o que vez mais, pessoas sofrendo de uma opressão vaga, do absurdo e do tédio de ce e deixar as coisas e os seres percebidos no lugar que é devido num sua vida. Como essas pessoas não apresentam nem sintomas psíquicos dado momento, no mundo comum a todos. esquizofrênico perde sua liber- distúrbios psicossomáticos evidentes, nem elas nem seus dade existencial no momento em que como ser-aí, enquanto possibilidade de médicos sabem o que fazer. Na verdade, não se trata de uma doença no senti- responder aos numerosos significados e às diversas solicitações do que apare- do comum do termo. Mesmo os padres e os pastores estão desamparados em seu mundo, se sobrecarrega a tal ponto que não é mais capaz de diante desse mal. Freqüentemente esses doentes tentam durante muito tempo responder ao que aparecc como o fazcm todas as pessoas ao seu redor. Elc mascarar seu desespero se entorpecendo, seja pelo trabalho, pelas distrações não é mais capaz de resistir à dissolução de seu ser na esfera de scu mundo .ou pelas drogas. Mas definitivamente, esta contínua tapeação não atinge sua finalidade se mostra então, de modo evidente, como nessas distimias (1) depressivas tão em nossos dias se revelam o tédio e o absurdo da Etimologicamente a palavra Langweile, tédio, se descompõe cm Lang: comprido Weile: própria vida. Eles revelam brutalmente qual distúrbio da abertura para o mun- tempo, a duração. 30 31tornado vasto Compreende-se portanto facilmente, porque a csquizofrenia é desconhecida nos animais e tão rara nas crianças, mas que em sim, pode-se dizer que existem em grande parte fora deles mesmos. São tão pouco capazes de assumir as suas possibilidades num ser-si-mesmo autônomo compensação aparece muito no momento da puberdade e também nas mulheres depois da primeira ou da segunda Nessas que somente podem sentir o que se mostra a eles como algo estranho e im- duas épocas importantes da vida, o existir humano enquanto possibilidade de posto de fora. É por isso que tão têm a impressão de que abre-se de fato para novas exigências muito fortes em relação ao outro: que a eles se oferece é ditado por "vozes" exteriores e que tudo que pensam é feito pensado por outra pessoa. para um deixar-se aproximar, como no amor entre adultos do sexo oposto, ou ainda para um devotamento total como no amor materno. isto se acrescen- Ainda mais do que nos esquizofrênicos, parece haver uma perturbação da liberdade existencial nos neuróticos fato, que existe de mais tam ainda muitas outras solicitações da parte dos seres e das coisas às quais a oposto à liberdade do que a obsessão? Na realidade entretanto, a obsessão existência do homem começa a SC abrir a partir da puberdade, solicitações nunca é o contrário da liberdade, ainda que muito deficiente. Também só po- que requerem, por exemplo, uma atitude voltada para o futuro, assumindo a demos falar de obsessão em relação aos seres que são, por natureza, dotados responsabilidade e exigindo sentido do planejamento e do progresso. de liberdade. Uma pedra por exemplo, que é uma coisa desprovida de Isto explica porque ninguém pode ser considerado esquizofrênico de de e de não poderá nunca apresentar um comportamento obsessivo modo geral porque a esquizofrenia não pode ser considerada como uma mesmo que, conforme as leis da natureza, caia sempre igualmente de cima doença em si mesma. Isolada em si, ela somente pode ser como abstração dos para baixo. É portanto mais conveniente em cada caso a seguinte pergunta: As manifestações patológicas da neurose obsessiva caráter obsessivo Esquizofrênico diante de qual situação relacional acima de suas forças? Por fazem parte de um comportamento de defesa semelhante à "atitude de afasta- uma mulher que enquanto esposa e mãe de três crianças apresenta mento", já mencionada a propósito dos esquizóides e dos autistas. Nos neuró- cada vez mais distúrbios de comportamento esquizofrênico pode ter todos os ticos obsessivos igualmente, a liberdade c a abertura do existir são atingidos: sintomas específicos da esquizofrenia, inclusive um autismo pronunciado, eli- essas pessoas de fato só podem ocupar-se com as coisas cm relações distante minados rapidamente e para sempre no momento em que ela for liberada que consistem em reflexões controladas objetivas sobre aquilo que desta situação existencial que exige demais dela, tendo apenas que responder bcm. Essa distância controlada é sobrctudo marcante em relação às coisas que às exigências que a vida coloca para uma mulher exercendo a sua lhes aparecem como sujas, em decomposição ou patogênicas. Os neuróticos profissão. Mesmo nos doentes internados muito atingidos, sofrendo alucina- obsessivos são forçados a se manter rigorosamente à distância dessas ções corporais e idéias delirantes, toda manifestação esquizofrênica pode ces- delas se proteger porque seu próprio ser-si-mesmo está sar de um dia para outro se o psicoterapeuta conseguir obter de seu doente naquilo que cles julgam indigno do homem. que a criancinha abandonada que ele no fundo permaneceu se entregue em Entretanto, nos neuróticos obsessivos, a realização do ser-aberto do ser- total confiança e se ponha aos seus cuidados numa espécie de relação criança- livre nunca é atingida da mesma maneira que nos esquizofrênicos. Os ncuró- pais à qual ele ainda é capaz de responder enquanto ser-si-mesmo inteiro. ticos obsessivos jamais são completamente absorvidos pclo percebido C não Essas constatações permitem definir o modo de ser-doente esquizofrênico se perdem, enquanto ser-humano, quase que totalmente nele. como privação que consiste em não poder-ser-si-mesmo de modo livre e autônomo, isto é, não mais possuir senão numa forma reduzida esse traço distintivo do existir humano. Mas isto quer dizer ao mesmo tempo que ALCANCE TERAPÊUTICO DA DASEINSANALYSE a esquizofrenia só pode ser definida negativamente. Não existe nos um único modo de comportamento em relação ao que apare- A abordagem dascinsanalítica da constituição fundamental do ser-huma- cm seu miundo que não se nas pessoas sadias. cará- no não se limita a permitir uma compreensão dos diferentes modos de patológico desses doentes reside no fato de lhes faltar uma possibilidade doente completamente nova e mais própria do homem. É igualmente impor- de existir cm relação aos seres Falta-lhes acentuadamente a capacidade tante na prática terapêutica. Permite notavelmente a aplicação da terapêutica de assumir as possibilidades constitutivas de seu para tornar-se um ser- de uma nova compreensão dos sonhos assim como uma concepção comple- si-mesmo livre e autônomo cuja abertura para o mundo possa se manter firme tamente diferente daquilo que se chamou ate agora nas escolas freudianas e face a tudo que a eles se oferece. São na realidade de modos diversos, presas junguianas de "transferência" entre o paciente e o terapeuta. Menos palpáveis de scus semelhantes assim como das coisas inanimadas que os rodeiam. Seu mas não menos essenciais na prática terapêutica são as modificações que se é de algum modo aspirado pelos outros entes nos quais submerge. interpuseram no clima da análise. Estes fundamentam-se sobre tudo no respei-to incondicional ao caráter próprio dos fenômenos do existir humano que se disso, essa formação é completada por controles terapêuticos regulares mostram, no accitar e tomar a sério aquilo que são enquanto Essa nova fim, por conferências, seminários e sessões organizadas pelo Instituto. pro- atitude do terapeuta contrasta radicalmente com a violação feita aos fenôme- grama de estudos tem a duração mínima de quatro anos. Além do prá- nos pelo preconceito da psicanálise, segundo o qual a realidade verdadeira tica, é dada uma introdução tcórica à psicoterapia, a psicossomática, à sociolo- dos comportamentos consistirá em "pulsões". gia e à filosofia. É evidente que uma compreensão daseinsanalítica da constituição funda- mental do existir humano não tem como única aplicação o tratamento de indivíduos mas abre igualmente o caminho para uma medicina ventiva para uma higiene mental significativas para toda a sociedade. De fato, faz ressaltar nitidamente as limitações patogênicas impostas à humanida- inteira pelo espírito tecnológico que reina hoje, isto é a apreciação mate- mática e o aumento crescente da produção. Não é que a daseinsanalyse consi- dere que se deva eliminar a técnica e as ciências naturais que estão na Isto levaria apenas a condenar um número incalculável de pessoas a morrer de fome. Mas é urgente dar aos homens de hoje a noção de uma relação consideravelmente mais livre com a técnica, pondo fim a sua supremacia. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA PESQUISA E DA TERAPÊUTICA DASEINSANALÍTICA afastamento cada vez maior que separa a psicanálise ortodoxa, funda- mentada na metapsicologia filosófica de a daseinsanalyse que por sua vez se apoia com uma determinação crescente sobre as concepções filosófi- cas da tornou inevitável uma institucionalização do pensa- mento dascinsanalítico quer seja no plano de pesquisa ou dos métodos terapêuticos. Primeiramente, no outono de 1971, houve a fundamentação da "Sociedade Suíça de Daseinsanalyse". Em 1973, foi criada a "Associação Inter- nacional de Daseinsanalyse". Essa já compreende um certo número de organi- zações mais ou menos rigorosamente institucionalizadas, estando localizadas em: Boston (Estados Unidos), Tel-Aviv (Israel), Buenos Aires (Argentina), Men- donça (Argentina) e São Paulo (Brasil). Em 1971 houve a criação do "Instituto Dascinsanalítico de Psicoterapia e Psicossomática, Fundação Medard-Boss", cujo diretor atual é o professor Gion Condrau, doutor em medicina e em filosofia. O nome desse instituto pode parecer paradoxal à primeira vista. Re- úne conceitos tão antigos como ambíguos de "psique" e "psíquico". Esses fo- ram revistos na Daseinsanalityk, pelo esclarecimento dos termos tência", e "ser-no-mundo". Entretanto, aquele nome foi escolhido em conside- ração ao grande público cujas concepções sobre a essência do homem não devem ser transformadas tão brutalmente. O Instituto Daseinsanalítico dedica-se primeiramente à formação de futu- ros terapeutas "daseinsanalíticos". Esta compreende a análise didática até o seu final, isto é, até momento em que é considerada bem Além 34 35