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Priscila M
ossato Rodrigues Barbosa
PSICO
LO
GIA SO
CIAL E CO
M
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ITÁRIA
Fundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-6644-5
9 7 8 8 5 3 8 7 6 6 4 4 5
Código Logístico
59440
Esta obra apresenta reflexões sobre a teoria e a 
prática da psicologia social e comunitária. São 
discutidos temas como desigualdade, problemas 
biopsicossociais, processos de exclusão, políticas 
de assistência e as intervenções e os desafios da 
psicologia social e comunitária na saúde, no sistema 
prisional e em serviços de acolhimento. A intenção 
deste livro é apresentar um panorama teórico 
e prático sobre a área, bem como os princípios, 
conhecimentos, valores e compromissos na busca de 
melhores condições biopsicossociais.
Psicologia social e 
comunitária
Priscila Mossato Rodrigues Barbosa
IESDE BRASIL
2020
© 2020 – IESDE BRASIL S/A.
É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do 
detentor dos direitos autorais.
Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. 
Imagem da capa: i3alda/Shutterstock Jason Heglund/elements.envato
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
B211p
Barbosa, Priscila Mossato Rodrigues
Psicologia social e comunitária / Priscila Mossato Rodrigues Barbosa. 
- 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2020.
94 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-6644-5
1. Psicologia social. 2. Psicologia comunitária. I. Título.
20-64093 CDD: 302
CDU: 316.6
Todos os direitos reservados.
IESDE BRASIL S/A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Priscila Mossato 
Rodrigues Barbosa
Mestre em Educação pela Universidade Federal do 
Paraná (UFPR). Especialista em Psicologia Clínica – 
Abordagem Psicanalítica e graduada em Psicologia 
pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná 
(PUCPR). Professora do ensino superior, ministrando 
as disciplinas de Psicologia da Educação e Psicologia 
do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Atua também 
como psicóloga clínica.
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SUMÁRIO
1 Psicologia social e comunitária 9
1.1 Psicologia como ciência e profissão 10
1.2 O que é psicologia social e comunitária? 12
1.3 Psicologia social e comunitária no Brasil 16
2 Constituição do sujeito 25
2.1 Psicologia do desenvolvimento e a constituição do sujeito 25
2.2 Dimensões do sujeito 28
3 Sujeito como ser biopsicossocial 39
3.1 Sentimento de pertença 39
3.2 Desigualdade social 48
3.3 Problemas biopsicossociais 50
4 Sujeito e cultura 55
4.1 Representações sociais 55
4.2 Ideologia 61
4.3 Sociedade e cultura 64
4.4 Estereótipos, estigma e preconceito 67
5 Intervenções da psicologia social e comunitária 73
5.1 A atuação do psicólogo social e comunitário 73
5.2 Psicologia social e as políticas de assistência social 86
5.3 Desafios da psicologia social e comunitária contemporânea 89
Esta obra apresenta a você, leitor, reflexões sobre a teoria e a prática da 
psicologia social e comunitária. Para tanto, no primeiro capítulo, intitulado 
“Psicologia social e comunitária”, abordamos o contexto da psicologia como 
ciência e profissão. Você vai aprender e adquirir noções necessárias sobre este 
campo de estudo e conhecer seu percurso histórico no Brasil.
No segundo capítulo, denominado “Constituição do sujeito”, 
trazemos conhecimentos iniciais da psicologia do desenvolvimento para 
compreendermos o processo de constituição do sujeito e suas dimensões: 
identidade, subjetividade, afetividade e consciência.
Com essa compreensão, podemos adentrar no terceiro capítulo, intitulado 
“Sujeito como ser biopsicossocial”, no qual tratamos do ser humano de maneira 
integral e consideramos sua constituição biológica inseparável da constituição 
psíquica e social. Explicitamos o sentimento de pertença, elemento tão 
fundamental para o ser humano, e o articulamos com os agentes socializadores 
configurados em grupos como família, escola, trabalho e comunidade. Ao 
final, desenvolvemos a temática da desigualdade social e os problemas 
biopsicossociais com o objetivo de trazer reflexões sobre o compromisso da 
psicologia social e comunitária na realidade brasileira.
Na sequência, o quarto capítulo, intitulado “Sujeito e cultura”, versa sobre a 
teoria das representações sociais, muito importante na leitura dos fenômenos 
sociais. Além disso, discutimos sobre ideologia por meio de uma perspectiva 
crítica com relação à manutenção das diferenças. É preciso ampliar este 
conhecimento para alcançar uma certa compreensão de sociedade e de cultura. 
Ainda estudamos noções como estereótipo, estigma, preconceito e seus efeitos 
nos processos de exclusão social.
No quinto capítulo, “Intervenções da psicologia social e comunitária”, 
você poderá identificar as aplicações da psicologia social e comunitária em 
intervenções sociais na saúde, na atuação do psicólogo no sistema prisional 
brasileiro e em serviços de acolhimento. Além disso, abordamos o papel do 
psicólogo social e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.
É também neste capítulo que apresentamos as políticas de assistência social 
para chegarmos aos desafios que a psicologia social e comunitária enfrenta. 
Nossa intenção é que você possa adquirir um panorama teórico e prático da 
psicologia social e comunitária, bem como absorva princípios, conhecimentos, 
valores e compromissos na busca de melhores condições biopsicossociais.
Desejamos uma excelente leitura, bons estudos e produtivas reflexões!
APRESENTAÇÃO
Psicologia social e comunitária 9
1
Psicologia social e 
comunitária
Neste capítulo, convidamos você a acompanhar um percurso 
que se inicia com a compreensão da psicologia como ciência e 
tem como ponto de chegada a psicologia social e comunitária. 
Para tanto, é fundamental que se entenda, mesmo que de modo 
sucinto, as três principais correntes filosóficas sobre o desenvol-
vimento humano.
A primeira corrente, chamada inatismo, sustenta que as ca-
racterísticas do indivíduo são definidas por sua genética e, por 
essa razão, são predeterminadas biologicamente. O ambientalis-
mo, segunda corrente, acredita que o ambiente prevalece sobre 
as características biológicas. Por fim, denominada sócio-histórica, 
a terceira corrente entende que as características do indivíduo 
se estabelecem na interação dos fatores biológicos e dos fato-
res ambientais e, consequentemente, ambos são fundamentais 
no desenvolvimento humano. 
A teoria sócio-histórica pode ser considerada a mais aceita 
na interpretação do desenvolvimento e na visão biopsicossocial 
do ser humano. Seus fundamentos e pressupostos se aproxi-
mam da psicologia social não somente na forma de entendi-
mento, mas também nas possíveis formas de intervenção que 
se efetivam na sua atuação. A psicologia social e comunitária 
é extremamente pertinente para contribuição de formas mais 
igualitárias de organização social.
Desse modo, inicialmente, abordaremos o histórico da psicolo-
gia social e comunitária no Brasil. Em seguida, integraremos os fun-
damentos da teoria e da prática desse campo do conhecimento.
10 Psicologia social e comunitária
1.1 Psicologia como ciência e profissão 
Vídeo O interesse em compreender as questões da mente humana é an-
terior à constituição da psicologia como ciência, a filosofia já se ocupa-
va dessas questões. Sua origem é evidenciada, inclusive, na etimologia 
da palavra psicologia, que resulta da junção das palavras gregas psyché 
(alma ou mente) e logos (razão ou estudo), isto é, estudo da mente.
O termo psicologia já era mencionado em algumas obras de filo-uma 
perspectiva crítica em psicologia. São Paulo: Cortez, 2001.
BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M de L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo da 
Psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.
BRANDÃO, R. C. Identidade e etnia: construção da pessoa e resistência cultural. São Paulo: 
Brasiliense, 1990.
CIAMPA, A. C. Identidade. In: CODO, W.; LANE, S. T. M. (orgs.). Psicologia social: o homem em 
movimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.
CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: Brasiliense, 1987.
DOLTO, F. A imagem inconsciente do corpo. São Paulo: Perspectiva, 2001. (Coleção Estudos).
HOUAISS, A. (org.). Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.
JACQUES, M. G. C.  Identidade. In: STREY, M. N. et al.  Psicologia social contemporânea. 
Petrópolis: Vozes, 1998.
JERUZALINSKY, A. Saber falar: como se adquire a língua?. Petrópolis; Rio de Janeiro: Vozes, 
2008.
LANE, S. T. M. O que é psicologia social?. São Paulo: Brasiliense, 2006.
LAURENTI, C.; BARROS, M. N. F. Identidade: questões conceituais e contextuais. Revista de 
Psicologia Social e Institucional, v. 2, n. 1, p. 24, 2000. 
LEME, M. I. da S. Cognição e afetividade na perspectiva da psicologia cultural. In: ARANTES, 
V. A. (org.). A afetividade na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 
2003.
LEVISKY, D. L. Algumas contribuições da psicanálise à psicopedagogia. In: SCOZ, B. J. L. et 
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Artes Médicas, 1992. 
MARIOTTO, R. M. M. et al. O IRDI: indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento 
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com.br/. Acesso em: 12 jun. 2020.
OLIVEIRA, M. K.; REGO, T. C. Vygotsky e as complexas relações entre cognição e afeto. In: 
ARANTES, V. A. (org.). A afetividade na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: 
Summus, 2003.
SAVOIA, M. G. Psicologia social. São Paulo: McGraw-Hill, 1989.
SHAFFER, D. R. Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. São Paulo: Pioneira 
Thomson Learning, 2005.
VOLTOLINI, R. Pensar é desejar. Revista educação, Edição especial: biblioteca do professor: 
Freud pensa a educação. São Paulo, n. 1, 2006.
VYGOTSKY, L.S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
GABARITO
1. A construção da identidade se inicia com as relações que o sujeito começa a esta-
belecer. Com o avanço no desenvolvimento e a aquisição de mais experiências, as 
relações sociais se ampliam e os papéis sociais mudam de acordo com o momento 
vivido. Assim, é possível sustentar que a identidade é, também, uma construção social 
e, por isso, algo mutável.
38 Psicologia social e comunitária
2. A subjetividade se refere ao singular do sujeito, mas, ao mesmo tempo em que se 
caracteriza como um mundo interno, é totalmente interdependente do meio, isto é, 
do mundo externo. O sujeito apreende ou subjetiva por meio da sua relação com o 
mundo; a subjetividade, portanto, é composta por causas internas e externas, na qual 
a maneira como o sujeito interpreta suas experiências e seu entorno se estabelece 
com as relações sociais. A capacidade subjetiva nasce com a constituição do sujeito e 
está vinculada a condições sócio-históricas.
3. É por meio do contato com o outro que é possível construir a noção da existência por 
meio da diferenciação. Na relação com o outro, esse outro é significado e também sig-
nifica para que o “eu” possa se significar. Desde o início, por meio do seu contato com 
aquele que encarna a função materna, o sujeito vive sucessivas diferenciações. Na inser-
ção social, são construídas a identidade, a subjetivação, a afetividade e a consciência de 
si. Para ter consciência de si, é necessário consciência social e vice-versa.
Sujeito como ser biopsicossocial 39
3
Sujeito como ser biopsicossocial
Neste capítulo, vamos conhecer abordagens do cotidiano 
relacional do ser humano. Nesse sentido, conheceremos o 
conceito de sentimento de pertença, que é fundamental para 
os seres humanos. Esse conceito é articulado pelo o que no-
meamos como agentes socializadores, a saber: (i) família – nossa 
primeira pertença em grupo; (ii) escola – possivelmente nosso 
segundo grupo social; (iii) trabalho – inserção social que ocupa 
um grande lugar; e (iv) comunidade – na qual também se esta-
belecem relações de pertença.
Na sequência, iremos estudar a desigualdade social e suas 
diversas implicações. Vamos abordar os chamados problemas 
biopsicossociais, buscando compreender um pouco do trabalho do 
psicólogo social com as comunidades. Para tanto, mencionamos 
questões delicadas como abandono, violência familiar, abuso de 
substâncias, gravidez na adolescência, abuso sexual, trabalho in-
fantil, adolescentes em conflito com a lei, entre outros.
3.1 Sentimento de pertença 
Vídeo Viver em grupos faz parte da natureza do ser humano. Essa carac-
terística tem uma base biológica, uma vez que “as chances de sobrevi-
vência em sua história evolutiva foram maiores para indivíduos ligados 
socialmente” (GASTAL; PILATI, 2016, p. 286). Baumeister e Leary (1995 
apud GASTAL; PILATI, 2016) afirmam que o pertencimento é uma ne-
cessidade básica do ser humano, sendo essa necessidade o que o mo-
vimenta na procura por relações sociais.
Fontana (2002) corrobora essa afirmação ao ressaltar que os 
seres humanos são criaturas sociais. O autor atribui isso à natu-
reza indefesa do sujeito, especialmente na primeira infância, visto 
que “ajudou a assegurar ao longo de milhões de anos de evolução 
40 Psicologia social e comunitária
humana que as pessoas permanecessem unidas” (FONTANA, 2002, 
p. 19). Nesse sentido, é importante entender quais grupos sociais 
possibilitam o sentimento de pertença (veremos essa questão nas 
próximas seções). Contudo, adiantamos que esse sentimento é es-
sencial para a saúde física e psíquica do ser humano.
Spitz, em sua obra O primeiro ano de vida (1993), ressalta os efei-
tos terríveis no desenvolvimento humano quando ocorre a privação 
de carinho no decorrer do primeiro ano de vida. O autor menciona a 
necessidade humana de contato e do sentimento de pertença. Além 
disso, ele demonstra como a falta desses elementos contribui para o 
desenvolvimento de patologias.
Fontana (2002) corrobora Spitz ao sustentar que o ser humano vive e 
trabalha em grupos sociais. Para o autor, há evidências de que o isolamen-
to do indivíduo pode levar a graves problemas cognitivos e emocionais. 
Fontana afirma também que o ser humano é programado para ser gregá-
rio. Essa programação, segundo o autor, é tão importante que determina 
o modo como a vida é experienciada, uma vez que não basta apenas par-
ticipar de grupos sociais, o ser humano precisa de estima e apoio para se 
desenvolver de modo saudável, feliz e adaptado.
A necessidade de relacionamento e sentimento de pertença acom-
panha o ser humano por toda sua vida. As variadas maneiras de or-
ganização social têm forte ligação com a manutenção de vínculos 
sustentados pelo sentimento de pertença. Vejamos algumas dessas 
formas de organização nas subseções a seguir.
3.1.1 Família
É consenso entre estudiosos que o primeiro grupo social do ser hu-
mano é a família. Para Fontana (2002), a família é o grupo mais impor-
tante ao longo de toda a infância, mesmo quando, em um segundo 
momento, a escola passa a fazer parte da vida do indivíduo.
A função mais importante da família é cuidar dos filhos e socializá-
-los. Faz parte da socialização a aquisição de valores, as crenças e as 
adequações de comportamentos em relação à sociedade da qual fazem 
parte. A família propicia, além da formação, uma espécie de “treino”, 
que prepara o sujeito para se inserir nos demais grupos sociais. Desse 
modo, a família tem uma função primordial na socialização infantil.
gregário: “que gosta de ter a 
companhia de outras pessoas;sociável” (HOUAISS, 2009).
Glossário
Sujeito como ser biopsicossocial 41
Além disso, devemos levar em consideração que os acontecimentos 
dos primeiros anos de vida são muito importantes para o desenvolvi-
mento emocional, intelectual e social. Isso caracteriza a família como 
um meio primário de socialização.
Shaffer (2005) explica que há um sistema social familiar, que é ca-
racterizado pela rede complexa de interações, relacionamentos e pa-
drões de influências em famílias com mais de três membros. Desse 
modo, pensar na família como sistema social é admitir que não somen-
te os filhos são influenciados pelos pais, mas que os pais também são 
influenciados pelos filhos, o que constitui uma relação de reciprocida-
de. O sistema familiar, ainda, é influenciado pela comunidade e pela 
cultura da qual se participa.
Outra aspecto a considerar é sua dinâmica. O desenvolvimento das 
famílias nunca se encerra; existem variáveis que se modificam de acor-
do com o momento da vida. Nesse sentido, “a família não é apenas um 
sistema no qual acontecem mudanças desenvolvimentais, sua dinâmica 
também muda com o desenvolvimento de seus membros” (SHAFFER, 
2005, p. 539). Assim como o mundo está submetido às mudanças, essas 
mudanças influenciam, também, os movimentos dinâmicos das famílias.
Além do mais, a família está sujeita a contextos sociais amplos, os 
quais definem o modo com que irão desempenhar suas funções. A liga-
ção com amigos próximos, instituições (por exemplo, a Igreja) e situa-
ção econômica são alguns fatores que interferem na dinâmica familiar.
As mudanças de costumes também têm seu papel nas configura-
ções familiares. Existem famílias monoparentais – formadas por pai, 
mãe e filhos; famílias multinucleares – novas famílias com coabitação 
ou novos casamentos, que podem incluir outros filhos e novas rela-
ções; família extensa – grupos de parentes com mais de um núcleo 
familiar, por exemplo, avós, tios, primos e sobrinhos. Cada uma dessas 
configurações tem efeito na dinâmica familiar e na maneira como a 
socialização do sujeito se estabelecerá.
Para Passos (2008), mesmo com as transformações nas formas de 
organização das famílias, especialmente nas últimas décadas, os grupos 
familiares são como lugares privilegiados de recepção e acolhimento. 
Segundo a autora, as famílias são consideradas espaços propícios para 
a constituição psíquica e socialização do bebê e da criança.
O artigo Configurações 
familiares: os pilares do 
sujeito aborda a família 
como um pilar para o su-
jeito. A autora demonstra 
de que modo a família, 
apesar de todas as novas 
configurações, funciona 
como lugar privilegia-
do para a constituição 
psíquica e a socialização 
infantil.
PASSOS, M. C. Mente & Cérebro, São 
Paulo, Duetto Editorial, 2008. 
Leitura
42 Psicologia social e comunitária
A família configura suas principais bases tanto por meio da qualida-
de das trocas afetivas, que ocorrem entre os integrantes do grupo fami-
liar, quanto por suas representações sociais. Passos (2008) desenvolve 
seu texto sob a ideia de que o espaço de socialização, instituído pela 
família, propicia as primeiras parcerias e negociações com os outros. 
Isso faz com que o ser humano assimile valores para que, no futuro, 
venha a se inserir em outros grupos.
Quanto aos princípios, Passos (2008) destaca que, em virtude de te-
rem sido apreendidos em um período tão inicial do desenvolvimento, 
dificilmente serão suprimidos. Durante as fases da vida que se sucede-
rem, esses servirão como modelos, isto é, os sujeitos buscarão princí-
pios e valores semelhantes aos que lhe foram apresentados na infância. 
Para que sejam internalizados, os princípios e valores precisam ser sig-
nificados por pessoas importantes para a criança; com isso, passam a 
integrar a realidade subjetiva e dirigir a forma de se relacionar.
Na família, ocorre um processo interessante, que é a necessidade 
de que cada membro se diferencie um do outro ao mesmo tempo que 
mantém sua vinculação com o grupo. Outro ponto importante se dá 
em relação à história das origens, pois esse é um elemento fundamen-
tal na construção da identidade psíquica e social.
Por fim, vale ressaltar que a família prepara o ser humano para a 
expansão das relações sociais. Ela é decisiva na formação psicossocial 
dos sujeitos, independentemente das diversas configurações existen-
tes. Desse modo, não podemos perder de vista que a família, apesar da 
sua singularidade, interage com a sociedade e a cultura e, por isso, é 
influenciada por padrões educativos e diferentes contextos.
3.1.2 Escola
Assim como a família, a escola representa um dos agentes socia-
lizadores do ser humano na forma como a sociedade se organiza na 
contemporaneidade. Como vimos, as formas de estruturação familiar 
se ampliaram e, além disso, o aumento da participação da mulher no 
mercado de trabalho antecipou a ida das crianças à escola.
A escola precisa favorecer o desenvolvimento afetivo, cognitivo e 
social das crianças. Ferreira e Mello (2008) enfatizam que os múltiplos 
contextos nos quais as crianças estão inseridas devem ser levados em 
consideração nas iniciativas educacionais. Segundo os autores, “na his-
Realize uma articulação sobre a 
família como agente socializador 
e constituinte do sujeito.
Atividade 1
Sujeito como ser biopsicossocial 43
tória cotidiana das interações com o outro são construídas significações 
compartilhadas, pelas quais aprende como agir de acordo com os valo-
res e normas culturais do seu ambiente” (FERREIRA; MELLO, 2008, p. 28).
Novamente, apontamos a importância do desenvolvimento de as-
pectos físicos, afetivos, cognitivos e sociais, pois eles repercutem na 
construção subjetiva e na formação da identidade, ainda que o proces-
so de desenvolvimento se dê por toda a vida. A inserção da criança na 
escola tem como consequência a ampliação de suas vivências e trocas 
sociais. O relacionamento com os professores, cuidadores e demais 
crianças faz parte dos progressos do sujeito como ser biopsicossocial.
Barbosa (2009) comenta que, ao iniciarmos a vida escolar, somos 
inseridos em um novo contexto, no qual nos relacionamos, em princí-
pio, por meio da atualização de maneiras conhecidas de relações, que 
foram constituídas, anteriormente, nas relações familiares. Ao mesmo 
tempo, esse novo contexto trará novidades que ampliarão o modo de 
significar e de se relacionar com os outros e com a cultura inserida.
No mesmo sentido, Kupfer (2007) lembra que a escola não é apenas 
um lugar para se aprender conteúdos. Nela – por meio das leis que re-
gem as relações humanas e da oferta de lugares sociais (lugar de aluno, 
de colega, de quem apresenta oralmente um trabalho, entre outros), 
transmitidos pelos discursos –, há uma contribuição para subjetivação 
do ser humano; é a escola que propicia o sentimento de identidade, de 
pertença e de inserção social.
Ferreira e Mello (2008) abordam a questão dos estímulos sociais, que 
implica propiciar o exercício cotidiano no contato com os outros, favore-
cendo a cooperação e a negociação nas relações. O ingresso da criança 
em outro grupo social, para além da família, promove uma articulação 
de tal modo que a escola passa a ser uma interveniente não somente 
na vida da criança, como também na própria dinâmica familiar.
A lógica que deve ser compreendida é a de que todos os sujeitos 
são atores e influenciam, reciprocamente, seu meio, ou seja, ao 
mesmo tempo que influenciam, também são influenciados. Logo, 
qualquer relação passa a causar mudanças na dinâmica do sujeito 
e dos grupos em que ele esteja incluído.
Pensando, em específico, no ingresso da criança no espaço escolar 
ainda na primeira infância, Mariotto (2009) acredita que a criança se 
interveniente: “que ou aquele 
que intervém; medianeiro; 
interventor” (HOUAISS, 2009).
Glossário
44 Psicologia social e comunitária
confronta com um campo social antes que sua identidade esteja esta-
belecida, de modo a requerer dela um novo lugar na humanidade.A autora sustenta, ainda, que o espaço escolar antecipa um sujei-
to com determinadas habilidades e competências, antes mesmo que a 
criança se constitua como tal, esperando que ela responda à sua condi-
ção de educante. Mariotto (2009) pondera que essa antecipação é ne-
cessária, visto que representa uma aposta na emergência do humano. 
Entretanto, a autora alerta que não se pode desconsiderar as bases sub-
jetivas necessárias para que se desenvolva um sujeito de aprendizagem.
A escola seria, desse modo, um segundo grupo social na vida do ser 
humano. Considera-se que, nesse momento, o sujeito já adquiriu, na 
família, algumas referências objetivas e subjetivas de comportamen-
tos, valores e princípios. Além disso, a escola representará uma função 
didática, assim como a família, mas de maneira submetida a outras re-
gras instituídas, as quais também exercerão influências significativas 
na formação da personalidade social, isto é, sobre o arranjo pessoal, 
construído em cada um na sua forma de se relacionar socialmente.
A escola, na condição de instituição social, desempenha um pa-
pel fundamental na formação do sujeito como ser social efetivo. 
Moura (2004) afirma que a representação da escola é construída por 
meio das relações que os alunos estabelecem com a realidade, com o 
meio familiar e escolar e com as pessoas com as quais necessitam se 
relacionar no cotidiano. Parte da percepção e compreensão de que o 
mundo se dá por meio dessas relações.
Moura considera que o ser humano, ao nascer, encontra um mundo 
que já está estruturado pelas representações sociais de seu entorno e 
de sua comunidade, com ideias já estabelecidas. Isso lhe oferece um 
lugar no conjunto sistemático de relações e formas práticas sociais, que 
certamente participarão da interpretação e representação que o sujei-
to construirá sobre a escola e suas funções.
A escola, na condição de agente socializador, se caracteriza por pos-
sibilitar momentos de lazer, brincadeiras e jogos, que funcionam como 
condições de trocas e interação. Além disso, ela proporciona o encon-
tro com as diferenças e oportunidades de cooperação, permitindo aju-
dar, compartilhar e fazer atividades individuais e grupais, de maneira 
que o aprendizado não se dê apenas por meio dos conteúdos, mas 
também pelas relações sociais.
O livro Afetividade na 
escola: alternativas teóricas 
e práticas, obra organi-
zada por Valéria Amorim 
Arantes, considera as 
várias correntes teóricas 
da educação com vistas 
à função da escola no 
sentido social e afetivo. 
Vale a pena a leitura!
ARANTES, V. A. (org.). São Paulo: 
Summus, 2003.
Livro
A escola é um ambiente social 
bastante importante. Com base 
nessa premissa, descreva qual é 
a função social da escola e como 
ela se efetiva.
Atividade 2
Sujeito como ser biopsicossocial 45
Por fim, ressaltamos que a escola, assim como a família, sofre mu-
danças em seu contexto histórico e social, o que interfere em suas re-
presentações e significados. A escola tem sua dinâmica submetida à 
cultura, ao momento histórico e à realidade social.
3.1.3 Trabalho
O trabalho ocupa grande parte da vida da maioria dos seres huma-
nos. Ele é importante não somente como forma de relacionamento e 
socialização, mas também por ser capaz de sustentar, para o sujeito, 
sua identidade, o sentimento de pertença, seu papel e sua inserção 
social. Percebemos isso quando a profissão, assim como nosso local de 
trabalho, é uma forma de apresentação social.
Assim, o trabalho como significado corresponde a uma ativida-
de que remete a uma profissão, podendo significar também o local 
onde realizamos a atividade produtiva. Japiassu e Marcondes (1989 
apud RIBEIRO 1997, p. 236) o definem como a atividade pela qual 
o homem transforma “o mundo, a natureza, de forma consciente e 
voluntária, para satisfazer suas necessidades básicas (alimentação, 
habitação, vestuário etc.)”.
Lane (1994) destaca que o trabalho tem sua origem relacionada à 
necessidade de cooperação entre os homens para produzirem seus 
meios de sobrevivência; a autora realiza apontamentos críticos à so-
ciedade capitalista e à divisão de classes. Com relação ao trabalho no 
nível psicossocial, a autora o define como “atividades realizadas por 
indivíduos; atividades estas produzidas pela sociedade à qual eles per-
tencem” (LANE, 1994, p. 57).
O trabalho, nesse sentido, tem uma importância vital. Segundo 
Lane, é por meio dele que o ser humano se objetiva socialmente e 
se modifica continuamente, ou seja, produz e se realiza. Esse pro-
cesso só é possível por meio da comunicação e da cooperação nas 
relações sociais.
É interessante considerar que o trabalho é uma representação in-
vestida de valor no social. Há, ainda, na cultura, a ideia de que o traba-
lho deve ser algo que agrega valor ao sujeito, de maneira que é capaz 
de gerar certo orgulho do seu ofício e/ou produção. Ele pode ser consi-
derado um componente básico na sociedade, presente em sua forma 
de organização desde os primórdios.
46 Psicologia social e comunitária
O trabalho é o lugar social que o sujeito ocupa, sendo definido 
também pelo meio no qual se insere, havendo diferenças e variá-
veis entre os grupos de acordo com a cultura. De maneira geral, na 
cultura ocidental, há a valorização quanto à satisfação consequen-
te do trabalho e suas produções.
Friedman (1973 apud RIBEIRO, 1997) defende que as reações do 
sujeito em relação ao trabalho não modelam somente seu comporta-
mento durante o período em que está no trabalho, mas também sua 
forma de se relacionar fora dele. Novamente, nos encontramos com a 
lógica de que há uma interação e de que, em qualquer grupo que o su-
jeito participe, ele influenciará e será influenciado. Essa interação terá 
efeitos nos outros grupos sociais dos quais o sujeito participa. Segundo 
Friedman (1973 apud RIBEIRO, 1997, p. 38), “trabalho e não trabalho se 
encontram em relações de causalidade recíproca”.
O que se conclui, desse modo, é que as relações entre um grupo de 
trabalho são estabelecidas com base em fatores objetivos (qual ativi-
dade, qual o lugar na hierarquia do grupo, entre outros) e em fatores 
subjetivos (qual posição subjetiva cada um ocupa no grupo). Esses fa-
tores investem o sujeito em papéis sociais, os quais estão em constante 
relação com diferentes papéis, que foram encarnados pelo sujeito em 
outras instâncias da vida.
O trabalho implica em um significado tão forte na vida das pessoas 
que momentos de desemprego ou aposentadoria trazem consequências 
psicológicas, fato que caracteriza a importância dos processos de ressig-
nificação de valor e de identificações que o sujeito ancorava, subjetiva-
mente, no trabalho. Assim, o trabalho é um grande fator de socialização e 
de relação em grupo, participando da vida objetiva e subjetiva do ser hu-
mano e devendo, também, situar o sujeito com sua consciência histórica.
3.1.4 Comunidade
Vamos iniciar nossas reflexões com a definição de comunidade, en-
contrada em uma enciclopédia:
1. Qualidade ou estado do que é comum. 2. Qualquer grupo so-
cial cujos membros habitam determinada região têm o mesmo 
governo e se irmanam cultural e historicamente. 3. Qualquer 
conjunto populacional considerado como um todo, em virtude 
de aspectos geográficos, econômicos e/ou culturais comuns. 
As atividades laborais estão 
presentes na humanidade há 
milhões de anos. Nesse sentido, 
por que o trabalho é importante 
para o ser humano?
Atividade 3
A obra Psicologia nas 
organizações faz um 
apanhado amplo dos 
conceitos da psicologia, 
da psicologia social e 
da psicologia organiza-
cional, de modo que o 
leitor possa entender as 
relações do trabalho, os 
aspectos relacionados à 
comunicação, motivação, 
liderança, entre outros 
temas relevantes para 
a ampliação do nosso 
conhecimento.
REGATO, V. C. Rio de Janeiro: LTC, 
2005.
Livro
Sujeito como ser biopsicossocial 47
4. Em uma formação social complexa, grupo de indivíduos con-
siderado em suas características específicas e individualizantes.5. Conjunto de indivíduos que vivem em comum. 6. Conjunto de 
pessoas que compartilham uma mesma crença ou ideal. (ENCI-
CLOPÉDIA..., 2005, p. 234)
Essas definições nos remetem à ideia do que há de comum e com-
partilhado entre integrantes de um grupo. Para entendermos melhor 
o que é comunidade para a psicologia social e comunitária, podemos 
citar Sawaia (2015). Segundo o autor, o conceito de comunidade tem 
presença intermitente na história das ideias, pois “ela aparece e de-
saparece das reflexões sobre o homem e sociedade em consonância 
às especificidades do contexto histórico e esse movimento explicita a 
dimensão política do conceito, objetivado no confronto entre valores 
coletivistas e valores individualistas” (SAWAIA, 2015, p. 30).
A relação subjetiva do sujeito com a representação da comunidade 
passa pelo sentimento de pertença, isto é, se sentir incluído na existên-
cia do outro, como a família e os grupos unidos pela amizade, solidarie-
dade, vizinhança e fraternidade, que, por vezes, é religiosa. As relações 
podem ser afetivas, baseadas em um compromisso de interesse moti-
vado racionalmente (SAWAIA, 2015).
Freud (1976 apud SAWAIA, 2015), em seu texto Novas conferências 
introdutórias sobre psicanálise, aponta uma dimensão negativa da co-
munidade, que é seu caráter homogeneizador. A constituição do ser 
humano implica uma singularidade de desejos e necessidades; logo, a 
relação com a comunidade não deve pretender anular as diferenças e 
singularidades, como se todos fossem um só.
Para Heller (1987 apud SAWAIA, 2015), a comunidade não é anta-
gônica à individualidade. Desse modo, os valores específicos, que pos-
sibilitam o amadurecimento e desenvolvimento das potencialidades 
humanas, ocorrem nos espaços particulares do cotidiano.
Esse ideal rompe com a dicotomia entre coletividade e individua-
lidade, pois essas são duas facetas do ser humano, o qual é um ser 
individual e ao mesmo tempo social:
Nessa concepção, a comunidade rompe com a dicotomia clássica 
entre coletividade e individualidade, ser humano genérico e ser 
humano particular, apresentando-se como espaço privilegiado 
da passagem da universalidade ética humana à singularidade 
do gozo individual. Um movimento de recriação permanente da 
O livro Psicologia 
social comunitária: da 
solidariedade à autonomia 
discorre sobre o conceito 
de comunidade, trazendo 
fundamentos para 
reflexão e entendimento 
das relações e repre-
sentações. Além disso, 
a obra aborda aspectos 
relacionados à conscienti-
zação e à identificação de 
diferentes grupos, bem 
como aponta a direção 
do trabalho do psicólogo 
social comunitário. 
 
CAMPOS, R. H. F. (org.). Petrópolis: 
Vozes, 2015.
Livro
48 Psicologia social e comunitária
existência coletiva, fluir de experiências sociais vividas como rea-
lidade do eu e partilhadas intersubjetivamente, capaz de subsi-
diar formas coletivas de luta pela libertação de cada um e pela 
igualdade de todos. (SAWAIA, 2015, p. 39)
Nesse sentido, a comunidade, na condição de corpo social, contém 
individualidades e, por isso, não pode ser tomada como uma unidade. 
A comunidade deve conter espaço para atitudes particulares ao mes-
mo tempo que sustenta ideias comuns e compartilha projetos para a 
melhoria de condições para todos. Além disso, deve favorecer refle-
xões e ações ligadas ao contexto e à realidade da qual faz parte. É uma 
dimensão da cidadania, favorável à democracia, à igualdade social e ao 
plural, sendo objetiva à inclusão e à ética do bem viver.
3.2 Desigualdade social 
Vídeo A história, assim como a atualidade, é caracterizada pela desigual-
dade social, o que acarreta muitos problemas. A principal causa da de-
sigualdade social é a concentração de riqueza da classe dominante de 
um lado e, do outro, a condição de pobreza da classe dominada, dife-
rença que tem como origem o sistema econômico capitalista.
No Brasil, assim como em muitos outros países, a desigualdade so-
cial vem acompanhada do que se pode chamar de exclusão social. Esse é 
um conceito complexo, mas, de maneira ampla, a exclusão social pode 
ser compreendida como uma privação em relação aos acessos sociais, 
inclusive direitos básicos, como alimentação, saúde e educação.
A desigualdade social evidencia que existe, na área social, uma má 
distribuição de renda, bem como falta de investimento. Essa falta de 
investimento faz com que seja quase impossível uma travessia do su-
jeito, no sentido de mudar sua realidade. A educação, por exemplo, 
seria uma das maneiras de o sujeito se desenvolver e angariar posições 
sociais melhores; no entanto, o que acontece é a falta de acesso a um 
ensino de qualidade que possa cumprir essa função social.
A própria desigualdade social faz com que ela seja mantida, de modo 
a se perpetuar. No âmbito da saúde, é possível nomear a desnutrição, 
a alta mortalidade infantil e as doenças de maneira geral. Em virtude 
da precariedade das habitações, é insustentável manter a saúde e as 
condições de higiene básicas. No âmbito socioeconômico, é possível re-
Sujeito como ser biopsicossocial 49
lacionar a educação precária e a profissionalização insuficiente com as 
altas taxas de desemprego. A miséria, decorrente da dificuldade de se 
incluir no sistema de mercado de trabalho, favorece a violência e a cri-
minalidade, que, por fim, reforça a marginalização social e a exclusão.
Os problemas sociais decorrentes das condições sociais desiguais, 
que incluem o indivíduo e suas relações sociais, tocam o trabalho do 
psicólogo social comunitário. Sawaia (2014) coloca a exclusão e a inclu-
são em uma relação dialética, na qual o mesmo movimento que inclui 
também exclui, no sentido de incluir de uma maneira que a separação 
social se mantenha. Nesse sentido, o monopólio dos instrumentos de 
produção, que poderiam causar uma transformação, se mantém cen-
tralizado na classe dominante.
Para essa reflexão, é importante não perdemos de vista o que já 
discutimos sobre as interações sociais e seus conceitos, pois, assim, te-
remos subsídios para compreender a desigualdade social, seus efeitos 
na estrutura social e as condições de exclusão e inclusão. Além da com-
preensão teórica, pretende-se uma formação com a qual seja possível 
transformar essas reflexões em atitudes responsáveis e cidadãs.
Abordamos, nesta seção, a desigualdade econômica represen-
tada pela pobreza; contudo, existem outras formas de desigualda-
de social, como a desigualdade racial, que se efetiva pela diferença 
nas oportunidades para pessoas de diferentes raças. No Brasil, os 
negros são os que mais sofrem com a desigualdade, fato que está 
relacionado às heranças históricas da escravidão.
Outra forma de desigualdade social refere-se à desigualdade de 
região. Sabemos que o Brasil é um país bastante extenso e que 
comporta diferenças proporcionais a seu tamanho, no sentido de 
que algumas regiões são mais desenvolvidas economicamente, en-
quanto outras sofrem, como é o caso da região nordeste. As cau-
sas dessa desigualdade são multifatoriais e têm como efeito, por 
exemplo, a discriminação, inclusive cultural, em relação às pessoas 
que buscam oportunidades nas grandes cidades.
A desigualdade de gênero também se caracteriza como desigual-
dade social. Historicamente, há uma clássica diferença na valorização 
entre homens e mulheres. Seja intelectualmente ou com relação ao 
mercado de trabalho, a sociedade tende a sustentar inúmeros precon-
O livro As artimanhas da 
exclusão: análise psicosso-
cial e ética da desigualdade 
social reúne artigos de vá-
rios autores importantes, 
produtores de conheci-
mento na psicologia so-
cial e comunitária. A obra 
apresenta articulações 
teóricas com a filosofia, 
a história e a teoria das 
representações sociais 
de uma maneira muito 
interessante para o 
aprofundamento do tema 
da desigualdade social e 
da exclusão social. 
SAWAIA, B. (org.). 14. ed. Petrópolis: 
Vozes, 2014.
Livro
Como é possível explicar as 
causas da desigualdade social? 
Elabore um pequeno texto,contextualizando essa questão.
Atividade 4
50 Psicologia social e comunitária
ceitos e a reproduzir padrões. A desigualdade de gênero abarca, ainda, 
homossexuais, transexuais e demais gêneros.
Por meio da perspectiva da psicologia social comunitária, há um 
direcionamento para trabalhar e intervir nessas realidades. É pre-
ciso entender o que ocorre psiquicamente com quem vivencia a 
desigualdade social – sentimentos como culpa, baixa autoestima, 
constrangimento, desmoralização etc. Isso pode estar relacionado 
à falta de sentimento de pertença, de inclusão e de reconhecimen-
to e valorização social.
Sawaia (2014) explica que a exclusão é um produto do sistema e 
que sua complexidade se deve ao fato de ser um processo multiface-
tado, que, por vezes, se estabelece de maneira sutil. Essa sutileza con-
tribui para uma falta de consciência, como se as pessoas estivessem 
tão imersas nessa reprodução social que dificilmente percebem sua 
própria participação nesse processo.
Há a ideia de que fracasso e sucesso são responsabilidades indi-
viduais, sem considerarmos toda rede de fatores históricos, sociais e 
variáveis determinantes. Essa ideia contribui para o sentimento de cul-
pabilização. Guareschi (2015) destaca essa tendência ao individualizar 
as circunstâncias. Para tanto, o autor usa o termo individualização do 
social, que desconsidera o social em relação às problemáticas que são, 
essencialmente, sociais.
3.3 Problemas biopsicossociais 
Vídeo A intervenção do trabalho da psicologia social e comunitária implica 
em um grande desafio. Neste capítulo, buscamos fazer considerações 
a respeito da prática por meio de bases construídas ao longo do per-
curso da psicologia social e comunitária. Montero (2004 apud ANSARA; 
DANTAS, 2010) declara que a intervenção nas comunidades é constituí-
da por cinco dimensões:
I. ontológica;
II. epistemológica;
III. metodológica;
IV. ética;
V. política.
Sujeito como ser biopsicossocial 51
A primeira dimensão, ontológica, é relativa aos problemas, aos an-
seios, às necessidades, às expectativas e aos recursos nomeados pelos 
participantes da comunidade. A segunda dimensão, epistemológica, 
refere-se à produção do conhecimento, isto é, à relação entre sujeitos e 
objetos do conhecimento. Essa dimensão consiste em um levantamen-
to do saber no contexto em que vivem.
A terceira dimensão, metodológica, diz respeito aos meios utiliza-
dos para produção do conhecimento. A metodologia deve sustentar 
questionamentos e saberes e deve ser crítica, reflexiva e flexível, de 
acordo com as situações-problema que surgem, pois deve ser adequa-
da, especificamente, para a realidade de determinada comunidade. Já 
a quarta dimensão, ética, consiste em considerar o sujeito no processo 
de construção do conhecimento, ocupando um papel de autor ativo e 
não de objeto. Para tanto, Montero (2004 apud ANSARA; DANTAS, 2010) 
aponta que é necessário o reconhecimento e a aceitação do sujeito em 
sua igualdade de direitos e respeito às diferenças.
Antes de continuarmos e abordarmos a quinta dimensão, cabe um 
comentário sobre a direção do trabalho da psicologia social comunitá-
ria frente aos problemas psicossociais, que é sempre a conquista da 
autonomia dos grupos sociais. Nesse sentido, a conquista da autono-
mia é um caminho para que não se reproduza um modelo de domina-
ção, em que os sujeitos da comunidade ocupem uma posição subjetiva 
de objetos dominados.
A quinta dimensão, política, refere-se à aplicação do conhecimento 
como fruto da conscientização e de seus efeitos sociais, o que implica à es-
fera pública questões relativas à cidadania. Como Ansara e Dantas (2010) 
afirmam, refere-se, também, ao caráter político da ação comunitária.
Um dos instrumentos de intervenção é o espaço de palavras para que 
a expressão do sujeito seja acolhida, incentivando o diálogo de modo que 
os sujeitos possam ter voz. As cinco dimensões abordadas “devem sus-
tentar os processos de intervenção comunitária, propiciando a problema-
tização das práticas sociais especialmente no que diz respeito à atuação 
dos profissionais nas comunidades” (ANSARA; DANTAS, 2010, p. 100).
A lógica desse trabalho consiste na garantia de que os sujeitos se-
jam levados em consideração, tenham voz ativa e conquistem posições 
de autonomia. O trabalho com a comunidade deve ser no sentido da 
construção em conjunto, ou seja, incluir os sujeitos no processo, de 
52 Psicologia social e comunitária
modo que o poder de transformação emane deles mesmos e não de 
um saber externo. Esse pressuposto tende a fortalecer a comunidade, 
efetivando uma transformação social de verdade.
A produção em conjunto deve acontecer desde o início (caracte-
rização das necessidades) até o final (decisões e encaminhamentos 
para solução dos problemas). O papel do psicólogo social comuni-
tário não pode se confundir com o de um “clínico-assistencialista”, 
capaz de resolver problemas emocionais ou sociais. Seu papel é o de 
favorecer a autonomia e de romper com o modelo de dependência 
que reproduz a dominação.
Concluímos, desse modo, que essas são as bases que devem sus-
tentar a atenção para os problemas comunitários em articulação com 
os problemas psicossociais específicos, como evasão escolar, violência 
familiar, abuso de substâncias, gravidez precoce, abuso sexual, traba-
lho infantil, adolescente em conflito com a lei, entre outros. Como vi-
mos, a intervenção se inicia com a identificação do problema e, com 
base nele, são promovidas reflexões, tomada de consciência, amparo 
e construção de conhecimento. É necessário que sejam feitos encami-
nhamentos contextualizados, adequados ao problema levantado, com 
a implicação dos sujeitos nas ações resultantes desse processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A constituição do sujeito é um processo complexo que se inicia no 
contato com a mãe (função materna) e se desenvolve na inserção do ser 
humano em seu primeiro grupo social, a família. Esta se mostra inseri-
da em uma cultura com características de sua própria história, a qual é 
transmitida de maneira significativa. O sentimento de pertença é capaz 
de sustentar o sujeito como ser biopsicossocial, juntamente com algumas 
garantias de segurança e afeto.
Na sequência, o ser humano é inserido em seu segundo grupo social, 
que é a escola. Considerando a constante interação que ocorre em todas 
as instâncias da vida, tanto a escola quanto a família se influenciam mu-
tuamente. A socialização que decorre da inserção da criança na vida esco-
lar marca significativamente seu desenvolvimento em todos os aspectos.
Mais tarde, o trabalho também ocupará um lugar importante na vida do 
sujeito. Assim como a família e a escola, o trabalho carrega representações 
que contribuem para a formação identitária e para o sentimento de pertença.
Por que é importante que o 
psicólogo social trabalhe em 
conjunto com os indivíduos da 
comunidade e articule com a 
conquista da autonomia?
Atividade 5
A obra Crime: o social pela 
culatra, embora escrita 
antigamente, é bastante 
atual. Nela, ao autores for-
necem uma leitura crítica 
e sociológica dos sujeitos 
que possuem problemas 
com a lei. Uma leitura 
fácil, fluída e de grande 
conteúdo reflexivo. 
 
MISSE, M.; MOTTA, D. Rio de Janeiro: 
Edições Achiamé, 1979.
Leitura
Sujeito como ser biopsicossocial 53
A comunidade se caracteriza como lugar em que são compartilhadas 
situações de cotidiano e que muito diz sobre o sujeito e o contexto eco-
nômico, social e histórico a que ele pertence. Diante da desigualdade so-
cial, a psicologia social comunitária busca intervir, no sentido de minimizar 
os problemas psicossociais decorrentes da exclusão social. Esse trabalho 
considera ideal a construção de autonomia para que os sujeitos possam 
atuar de maneira ativa, consciente e efetiva em relação à transformação da 
sua realidade e, com isso, possam alcançar melhores condições de vida.
Nesse processo, torna-se fundamental o acolhimento dos sujeitos 
como seres capazes, potentes, conscientesde seus direitos e implicados 
em fazer sua parte, sem uma posição passiva, dependente e dominada. 
Da nossa parte, é importante termos uma consciência crítica, entender o 
sistema e nos apropriarmos de uma postura que seja ativa e profissional-
mente capaz de colaborar nas melhorias sociais.
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RIBEIRO, O. C. F. A influência dos agentes sociais nos interesses físico-esportivos do lazer. 
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54 Psicologia social e comunitária
SAWAIA, B. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. 
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Thompson Learning, 2005.
SPITZ, R. A. O primeiro ano de vida. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
GABARITO
1. A família é o primeiro grupo social do ser humano. O cuidado e a socialização que a 
família dispensa ao sujeito, mesmo antes do seu nascimento, o humaniza e o insere 
em uma rede simbólica, na qual se articula a história familiar, assim como o contexto 
sociocultural presente na sociedade em que passa a fazer parte.
2. A escola oferece oportunidades para a aprendizagem e desenvolvimento de habi-
lidades. Ela tem uma função socializadora importante, caracterizando uma espécie 
de preparação para o convívio social e vida adulta. No ambiente escolar, acontecem 
diversas experiências fundamentais: jogos, brincadeiras, negociações etc. Todos os 
estímulos desse grupo social interferem no desenvolvimento e favorecem ampliações 
cognitivas e emocionais significativas.
3. O trabalho, além de ser uma forma de inserção social, tem importante função na vida do 
ser humano. Ele contribui para nossa identidade social, para o sentimento de pertença 
e para a autoestima, gerada pela vivência de se sentir capaz de ser produtivo. Nesse 
sentido, o trabalho ocupa um lugar fundamental na vida e na história da humanidade.
4. A desigualdade social é decorrente da concentração de riqueza na classe dominante e 
a discrepante falta de riqueza na classe dominada, por exemplo. Para contextualizar, 
pode-se pensar que essa discrepância é consequência do sistema econômico capi-
talista. A exclusão social é um de seus efeitos e representa a falta de acessos sociais 
e de direitos básicos (alimentação, saúde e educação) que acomete os mais pobres. 
Desse modo, a desigualdade social é reflexo da má distribuição de renda e falta de in-
vestimento na área social. Podemos citar ainda outras formas de desigualdade social, 
como a racial, de região e de gênero.
5. O trabalho do psicólogo social deve acontecer de maneira conjunta desde o início, 
ainda na etapa da caracterização das necessidades, e assim se desenvolver até o final, 
na tomada de decisões e nos encaminhamentos para solução dos problemas. Com 
isso, garante-se que os indivíduos do grupo sejam levados em consideração, tenham 
voz, se impliquem e se responsabilizem pelo processo do trabalho, a fim de que con-
quistem uma posição de autonomia. Sua importância é a de fortalecer a comunidade 
para que se alcancem transformações e melhorias sociais. Nesse sentido, o papel do 
psicólogo social comunitário é o de favorecer a autonomia e de romper com o modelo 
de dependência que reproduz a dominação.
Sujeito e cultura 55
4
Sujeito e cultura
Este capítulo traz abordagens sobre sujeito e cultura. Para sus-
tentar nosso trabalho e estudo, iniciamos este percurso com a teo-
ria das representações sociais, cujos fundamentos teóricos podem 
ser utilizados na psicologia social e comunitária como instrumento 
de leitura e interpretação dos fenômenos e problemas sociais.
Vamos estudar, ainda, o conceito de ideologia, importante no-
ção para o entendimento das relações sociais e do modo como 
as sociedades se organizam e produzem cultura. Nesse sentido, 
sociedade e cultura serão temas abordados neste capítulo, o qual 
pretende, também, promover conhecimentos sobre estereótipo, 
estigma e preconceito, isto é, elementos que participam da exclu-
são social e são objetos de estudo e de intervenções no campo da 
psicologia social e comunitária.
4.1 Representações sociais 
Vídeo Para conhecermos a teoria das representações sociais, precisa-
mos retomar um pouco sua origem e apresentar suas características. 
Seu marco inicial ocorre na Europa, com o estudo La psychanalyse: son 
image et son public (1961), do psicólogo social Serge Moscovici. A tradu-
ção desse estudo – em português, A representação social da psicanálise – 
chegou ao Brasil somente no ano de 1978, sendo republicada mais 
tarde com o título A psicanálise, sua imagem e seu público.
Moscovici se ocupou do fenômeno da socialização e buscou articu-
lar a psicanálise com a psicologia social. O teórico inaugurou um cam-
po de estudo interdisciplinar, o qual se desenvolve e se consolida na 
perspectiva da psicologia social, com o objetivo de apontar uma nova 
concepção para a psicologia e para as ciências humanas em geral.
As representações sociais são um meio pelo qual a subjetivida-
de do ser humano pode ser entendida em todas as disciplinas sociais. 
56 Psicologia social e comunitária
Trata-se de uma maneira de o sujeito assimilar e significar a realidade 
da vida cotidiana, ao mesmo tempo que ele participa da construção 
dessa realidade. Para Moscovici (1978, p. 41), as representações sociais 
“circulam, cruzam-se e se cristalizam incessantemente através de uma 
fala, de um gesto, um encontro, em nosso universo cotidiano, [impreg-
nando] as relações sociais estabelecidas, os objetos produzidos ou con-
sumidos, as comunicações trocadas”.
Moura (2004) afirma que, embora a proposta de Moscovici tenha se 
sustentado nos estudos realizados pelos fundadores das ciências so-
ciais na França e se inspirado no conceito de representações coletivas de 
Émile Durkheim,o teórico acreditou ser mais adequado estudar o que 
chamou de representações sociais. Moscovici considerou que as repre-
sentações coletivas não combinavam com a atualidade de um tempo 
muito curto, corrido, em que existia pouco espaço para tradições está-
veis – cenário em que Durkheim desenvolveu sua teoria. Desse modo, 
o teórico julgou necessárias a criação e a utilização de conceitos que 
acompanhassem a dinâmica da atualidade.
Para contextualizarmos, vamos entender primeiramente o concei-
to de representações coletivas, concebido por Durkheim, noção bá-
sica para a compreensão das representações sociais. Sá (1995) explica 
que há uma distinção entre representações coletivas e representações 
individuais. As representações coletivas são espécies de produções so-
ciais, que se impõem aos indivíduos como forças exteriores e que têm 
um importante papel em diversos aspectos da vida em sociedade; elas 
são, portanto, estados de coletividade e estão, segundo Durkheim, na 
base de toda a operação intelectual (BARBOSA, 2009). Por outro lado, 
as representações individuais consistem em significações particu-
lares e singulares, que não são necessariamente compartilhadas por 
outros indivíduos.
Outra concepção muito importante para o estudo da psicologia social 
e comunitária é o simbolismo. Durkheim (1989) demonstrou que esse 
elemento não só é parte constitutiva da vida social, como também é sua 
condição essencial, uma vez que a comunicação, a agregação e a vida 
social seriam impossíveis sem as representações coletivas, sem o pen-
samento lógico (o modo que estruturamos nosso pensamento) e sem 
as categorias de entendimento (estabelecidas por meio de convenções).
simbolismo: “expressão, 
figuração ou interpretação por 
meio de símbolos; simbólica” 
(HOUAISS, 2009).
Glossário
Sujeito e cultura 57
Ainda que as representações coletivas se fundamentem na dinâmi-
ca social, elas não são o real, pois apreendem apenas uma parte dele. 
As representações individuais e coletivas, na teoria de Durkheim (1994), 
são sempre imaginárias, uma vez que o modo de instituição do social é 
o próprio imaginário. Nesse sentido, é importante perceber a parciali-
dade da representação em relação ao real. Moura (2004) explica que as 
construções do imaginário humano sobre o real exigem reconsiderar 
as relações entre o mundo material e o simbólico, o objetivo e o subje-
tivo, os fatos e a respectiva compreensão sobre eles.
Agora que já conhecemos um pouco sobre a teoria de Durkheim, po-
demos discorrer sobre a teoria das representações sociais de Moscovici. 
Ele buscou refletir sobre as características das sociedades modernas, 
no que se refere à dinâmica de mobilidade e de plasticidade 1
Em Moscovici, mobilidade e 
plasticidade são propriedades 
que indicam a dinâmica; isto 
é, mudanças relativamente 
rápidas, em contraponto às 
representações presentes 
na teoria de Durkheim. Para 
Moscovici, as representações são 
móveis (por isso o uso da noção 
mobilidade) e, dependendo do 
contexto sócio-histórico, podem 
comportar diferentes sentidos. Já 
plasticidade remete à alteração 
a que as representações estão 
sujeitas ao longo do tempo.
1
, situan-
do-se em relação a mudanças (políticas, econômicas e culturais) com a 
velocidade e multiplicidade com que elas ocorrem. Segundo Moscovici 
(1978), as representações nesse contexto não podem ser considera-
das de fato coletivas, pois apenas poucas podem ser entendidas como 
tal. Desse modo, o estudioso utiliza o termo representações sociais no 
lugar da noção de representações coletivas. Assim como SÁ (2002), en-
tendemos que, ao substituir esses termos, a teoria de Moscovici atua-
lizou as ciências sociais de um modo mais apropriado para interpretar 
a contemporaneidade.
As representações sociais promovem leituras e explicações sobre 
a vida cotidiana por meio de um apanhado de conceitos. Segundo 
Moura (2004) – ao mencionar Moscovici (1978) –, na sociedade contem-
porânea, elas são equivalentes aos mitos e sistemas de crenças das 
sociedades tradicionais. Assim, as representações sociais são respon-
sáveis pela constituição do senso comum na atualidade.
A construção e a teorização das representações sociais foram in-
fluenciadas por outros campos do conhecimento, como a psicanálise 
freudiana e a psicologia do desenvolvimento – por exemplo, a psicoge-
nética de Piaget e a teoria sócio-histórica de Vygotsky. Da psicanálise, 
Moscovici contemplou as prerrogativas freudianas relacionadas com a 
existência dos processos inconscientes e a importância da transmissão 
cultural. No que diz respeito à psicologia do desenvolvimento, a teoria 
das representações sociais de Moscovici utilizou as contribuições de 
58 Psicologia social e comunitária
Piaget e Vygotsky, referentes às atividades representacionais, e desta-
cou a importância das relações com o outro na produção de sentido, o 
que favorece a aprendizagem (MOURA, 2004).
Moura (2004) nos ajuda a compreender que as representações so-
ciais, na perspectiva que descrevemos, são apreensões e apropriações 
do real pelo indivíduo; elas ocorrem nas interações sociais, possibili-
tando a internalização de conceitos e favorecendo a interpretação do 
mundo. As representações sociais especificam o objeto, a ação e o julga-
mento e, também, por se incluírem nas vivências e interações dos indiví-
duos, constituem sistemas cognitivos e emocionais, que têm a lógica e a 
linguagem dos sujeitos. Nesse sentido, essas representações envolvem 
valores, conceitos e estilos próprios de comunicação (BARBOSA, 2009).
Abric (1995 apud SÁ, 2002, p. 64), explica que as “representações so-
ciais são o conjunto organizado de informações, atitudes, crenças que 
um indivíduo ou um grupo elabora a propósito de um objeto, de uma 
situação, de um conceito, de outros indivíduos ou grupos apresentan-
do-se, portanto, como uma visão subjetiva e social da realidade”.
No mesmo sentido, Jodelet (2001, p. 17, grifos nossos) explica que:
sempre há necessidade de estarmos informados sobre o 
mundo à nossa volta. Além de nos ajustar a ele, precisamos 
saber como nos comportar, dominá-lo física ou intelectual-
mente, identificar e resolver os problemas que se apresen-
tam: é por isso que criamos as representações. Frente a esse 
mundo de objetos, pessoas, acontecimentos ou ideias, não 
somos (apenas) automatismos, nem estamos isolados num 
vazio social: partilhamos esse mundo com os outros, que nos 
servem de apoio, às vezes de forma convergente, outras pelo 
conflito, para compreendê-lo, administrá-lo ou enfrentá-lo. Eis 
por que as representações são sociais e tão importantes na 
vida cotidiana. Elas nos guiam no modo de nomear e definir 
conjuntamente os diferentes aspectos da realidade diária, no 
modo de interpretar esses aspectos, tomar decisões e, even-
tualmente, posicionar-se frente a eles de forma defensiva.
Barbosa (2009) relata que a teoria de Moscovici apresenta dois 
processos fundamentais, constituintes das representações sociais, os 
quais foram denominados ancoragem e objetivação. Moura (2004) expli-
ca que ancorar é classificar e denominar um objeto; na ancoragem, ob-
serva-se o processo no qual as novas representações se apoiam ou se 
“amarram”, possibilitando que os conceitos e imagens sejam mais facil-
Sujeito e cultura 59
mente assimiladas ao encontrarem referências e, também, uma acei-
tação nas concepções já formadas e consolidadas de objetos similares.
Já a objetivação “seria uma operação imaginante e estruturan-
te, pela qual se dá uma forma (ou figura) específica ao conhecimen-
to acerca do objeto representado, tornando concreto, como que 
‘materializando a palavra’” (SÁ, 2002, p. 47). Segundo Moura (2004, 
p. 69), “para Moscovici, objetivar seria encontrar as propriedades 
icônicas do objeto social representado, reproduzir um conceito em 
uma imagem”. Em outras palavras, no processo de objetivação, 
ocorre o fenômeno da figuração, que nada mais é do que a trans-
formação de conceitos em imagens.
A representação comoprocesso evidencia a relação entre conceito 
e percepção. Essa relação implica uma elaboração mútua, ou seja, a 
percepção interfere no conceito e o conceito interfere no modo como 
percebemos os aspectos da vida (MOSCOVICI, 1978). Segundo Moura 
(2004, p. 69), “a representação seguiria, por um lado, a linha do pensa-
mento conceitual capaz de se aplicar a um objeto não presente, de con-
cebê-lo, dar-lhe um sentido, simbolizá-lo (ancoragem)”. Por outro lado, 
à maneira da atividade perceptiva, trataria de recuperar esse objeto, 
dar-lhe uma concretude, figurá-lo e torná-lo “tangível” (objetivação).
Com base em Moscovici (1978), acreditamos que as representações 
sociais podem ser entendidas por meio de suas funções básicas. A pri-
meira delas é a de orientar o comportamento do sujeito, o que ocorre 
por meio de formas simbólicas; estas aparecem nos pontos de vista 
compartilhados pelos grupos e definem condutas desejáveis ou admi-
tidas, isto é, promovem certa referência sobre o que é adequado so-
cialmente. Há uma constante interação entre rede de relações, noções, 
teorias e significações já estabelecidas.
Outra função é a ação que ocorre com a organização e significação 
atribuídas a esses dados já existentes, a qual consiste em um processo 
que efetiva a construção da realidade. Para compreender esse proces-
so, é importante ter em mente que, para se relacionar com o mundo, 
o ser humano opera uma transformação do que é externo em interno, 
ou seja, integra um dado novo em um sistema de relações previamente 
constituído. Nesse processo de interiorização, conta-se com a fala, as 
trocas verbais e as expressões. Desse modo, há a transmissão das in-
formações e a confirmação dos hábitos do grupo.
60 Psicologia social e comunitária
Moura (2004, p. 70) explica que
essa ação realiza um movimento de familiarização com o real, 
atribui sentido e organiza informações revelando que os indiví-
duos não são máquinas passivas para obedecer a aparelhos, re-
gistrar mensagens e reagir às estimulações exteriores, mas que 
possuem a imaginação e o desejo de dar um sentido à sociedade 
e ao universo a que pertencem.
Finalmente, as representações sociais têm a função de integrar 
o “estranho” em um sistema de relações familiares, tornando o “não 
familiar em familiar”. “O objeto a ser representado é colocado em 
uma rede de articulações com outros objetos já existentes. Nesse 
processo, o objeto é transformado e ganha o estatuto de um signo” 
(MOURA, 2004, p. 70-71). Assim, as representações sociais oferecem 
um esquema de interpretação do que se apresenta na realidade.
Abric (1994 apud SÁ, 2002) aponta que, entre as funções das re-
presentações sociais, pode-se considerar a função identitária, a qual 
pode ser entendida como aquela que compreende a especificidade de 
cada grupo. O autor refere-se também à função justificatória, que, 
como o próprio nome sugere, justifica os comportamentos e posições 
tomadas pelos sujeitos.
De maneira geral, a representação social é um saber constituído em 
um tipo de conhecimento que elabora comportamentos, bem como 
a comunicação entre os sujeitos (MOSCOVICI, 1978). Por meio das re-
presentações sociais, são constituídos sistemas de valores, noções e 
práticas nas relações sociais (MOURA, 2004).
Nesse sentido, podemos concluir que a teoria das representações 
sociais considera o indivíduo como um sujeito capaz de atuar social-
mente, de maneira ativa, e com o poder de transformar a sociedade. 
Isso corrobora com a proposta teórica de Moscovici (1978), no sentido 
de julgar que há uma dinâmica de construção, significação, reconstru-
ção e ressignificação social. As representações sociais estão ligadas e 
articuladas à cultura e aos contextos históricos e sociais, podendo me-
diar a realidade objetiva e subjetiva do indivíduo e do outro.
A obra As representações 
sociais, organizada por 
Denise Jodelet, traz 
artigos de diversos 
estudiosos da teoria das 
representações sociais. 
Divididos em três grupos, 
os artigos da primei-
ra parte conceituam 
e contextualizam as 
representações sociais 
nas ciências humanas. Os 
artigos da segunda parte 
articulam as represen-
tações sociais com a 
psicologia social. Por fim, 
os textos da terceira par-
te abordam os campos 
específicos de pesquisa e 
a aplicação da teoria das 
representações sociais. 
Em resumo, a obra 
aborda as representa-
ções sociais de maneira 
completa. Vale a pena a 
leitura.
JODELET, D. (org.). Rio de Janeiro: 
EdUERJ, 2001.
Livro
Realize uma síntese da teoria das 
representações sociais.
Atividade 1
Sujeito e cultura 61
4.2 Ideologia 
Vídeo Ideologia é um conceito complexo; desse modo, para compreendê-
-lo, partiremos de uma contextualização histórica. Bosi (2010) resgata 
que o pensador francês Destutt De Tracy (1754-1836) foi o criador do 
termo ideologia, embora já houvesse alguma referência sobre isso na 
filosofia, nos textos de Platão.
Ao definir ideologia, De Tracy a entende como um 
estudo científico de ideias decorrentes da interação 
entre ser humano (organismo vivo) e natureza (meio 
ambiente). Para conceituá-la, o teórico buscou elucida-
ções para entender elementos como razão, memória, 
percepção e vontade, os quais ele considerava inter-
ventores na formação de ideias (RAMALHO, 2012).
Chauí (2008, p. 10) afirma que De Tracy construiu 
“uma teoria sobre as capacidades sensíveis, res-
ponsáveis pela formação de todas as nossas ideias: 
querer (vontade), julgar (razão), sentir (percepção) e 
recordar (memória)”. Nesse sentido, a ideologia pode 
ser entendida como uma ciência sobre as ideias.
A ideologia é, também, um sistema de repre-
sentações compartilhadas por um grupo social 
que tem um caráter dominante sobre o âmbito 
das representações de um determinado grupo 
(LIPIANSKY, 1991). Nesse sentido, podemos arti-
cular esse conceito com o pensamento de Santos 
(1994), que afirma que a ideologia é o contexto 
no qual se inscrevem representações isoladas. 
Assim, o autor compreende que a ideologia é uma espécie de nível 
que engloba as representações. Quanto às suas funções, podemos 
elencar os itens a seguir: 
• articulação do individual e do grupal.
• articulação entre psicológico e social.
• defesa das condutas.
• racionalização das condutas.
• regulação dos discursos.
• manutenção da diferença entre classes sociais. 
A obra O que é ideologia 
traz detalhes interessan-
tes sobre esse conceito e 
em relação ao contexto 
histórico e político 
francês. Marilena Chauí 
discorre sobre diferen-
tes contextos históricos 
e articula a noção de 
ideologia com questões 
sociais e tensões políticas 
da época de Napoleão 
Bonaparte (1769-1821).
CHAUÍ, M. 9. ed. São Paulo: 
Brasiliense, 2008.
Livro
62 Psicologia social e comunitária
Segundo Lipiansky (1991), a ideologia traduz posições e interesses, 
especialmente de um grupo, o apresentando de modo a naturalizá-lo 
como universais e comuns. Assim, essas posições e esses interesses 
são validados como descrição e explicação da realidade.
É importante entender que a ideologia se sustenta em sua própria re-
produção. Isso ocorre com sua apropriação, no momento que responde 
às necessidades cognitivas e psicológicas do sujeito que a toma como um 
modelo e que, nesse ponto, é capaz de interferir na construção da iden-
tidade. A ideologia, portanto, opera em nível simbólico e objetiva uma 
ordem social que conecta os indivíduos e os mantêm em certa harmonia, 
ao preço de suprimir o pensamento crítico e questionador dos sujeitos.
Santos (1994) sugere que a ideologia tem sua articulação em níveis 
sociais, cognitivos e psíquicos, visto que relaciona o social com o psico-
lógico. Isso acontece porque a ideologia é capaz de favorecer a trans-
formação dos mecanismos psíquicos em social, ao mesmo tempo que 
os processos sociais se transformam em psíquicos. Um exemplo desse 
processo, como já mencionado, é a identidade, com aquilo que ela ab-
sorve dos modelos ofertados socialmente.
Para que fique claro, ressaltamosque a entrada do sujeito na dinâmi-
ca social se dá com a interiorização da realidade estabelecida anterior-
mente. Ao assimilá-la, o sujeito se insere e se torna membro participante 
da sociedade, a qual já tem seu universo simbólico formado por regras, 
normas, valores, representações, crenças e códigos de comportamento, 
que são compartilhados por todos. Embora se tenha certa singularidade 
no modo em que o sujeito assimila seu meio, esse é um processo que se 
estabelece como uma via de mão dupla.
É no momento que o sujeito se apropria desses códigos – os quais 
criam o pensamento e os modelos de comportamento da sociedade e 
sua cultura – que a ideologia se consolida, influenciando o modo de ler 
o mundo à sua volta e a si próprio e, assim, formando sua identidade.
Não podemos perder de vista que esses processos tem como pano 
de fundo a intenção de manutenção do status quo (estado das coisas). 
Karl Marx (1818-1883) foi outro teórico que estudou o conceito de ideo-
logia; para ele, o ideólogo inverte as relações entre o real e as ideias, 
porque as ideias não são somente produzidas com base no real, pois 
elas próprias criam a realidade. Chauí (2008) explica que a ideologia 
foi inicialmente compreendida como uma ciência natural da aquisição 
Sujeito e cultura 63
das ideias sobre o real; contudo, ela acabou sendo designada como um 
princípio de ideias, que desconhece sua relação com a realidade. Para 
entender essa questão, vamos considerar a posição de Marx sobre as 
classes que dominam a sociedade, objeto de sua crítica.
Para Ramalho (2012), Marx considera que a ideologia se produz por 
meio das relações socioeconômicas e das contradições sociais. Além 
disso, a ideologia tem a função de ocultar, minimizar e justificar os 
conflitos para tentar torná-los aceitáveis e naturais; essa naturalização 
ocorre, por exemplo, nas diferenças sociais. Segundo Marx, a ideologia 
faz com que essas diferenças sejam tomadas como naturais e, desse 
modo, ela é capaz de anular a reflexão crítica. Nesse caso, a ideologia 
serve aos interesses da classe dominante, que controla os meios de 
produção na sociedade capitalista.
O efeito da ideologia também se mostra nos valores compartilha-
dos pelas sociedades. A mídia, por exemplo, colabora em sua constru-
ção ao universalizar ideias das classes dominantes de maneira massiva, 
adentrando o cotidiano das pessoas pelos meios de comunicação (tele-
visão, rádio, entre outros).
Chauí (2008) ressalta que as classes sociais se constituem por meio 
das relações sociais, sendo definidas e sustentadas na relação com o 
trabalho e nas formas estabelecidas de propriedades pública e privada. 
Para a autora, as políticas e as instituições sociais as validam com siste-
mas de ideias que revelam e ocultam o significado real de suas relações.
Thompson (1995) analisa que o estudo da ideologia promove o en-
tendimento sobre as maneiras com que as simbologias são utilizadas 
para a manutenção e implantação das relações de dominação entre 
as classes. Vale ressaltar que a ideologia é efetiva quando ligada a um 
sentido particular da vivência do sujeito, isto é, quando ela significa e 
constrói sentidos por meio de formas simbólicas, como a linguagem.
Os sentidos constituídos com base na ideologia interferem nos va-
lores e na sustentação dos estereótipos. Lane (2015) menciona que as 
ideologias dominadoras interferem nos desejos e nas necessidades 
daqueles que estão sujeitos a ela. Para a autora, a ideologia se compro-
mete com as necessidades dos sujeitos, capturando suas expectativas 
e se apresentando de modo atraente, agradável e possível.
Ao ler Lane (2015), podemos perceber que a ideologia se atualiza 
e participa da subjetividade do ser humano. Ao mencionarmos as-
Explique por que a ideologia 
serve à manutenção das relações 
de dominação entre as classes 
sociais.
Atividade 2
64 Psicologia social e comunitária
pectos relacionados à dominação, é importante distinguir relação de 
dominação da relação de poder. Thompson (1995) esclarece que o 
poder é uma competência individual, uma potência no trabalho, na 
escrita e na fala e que todos os sujeitos o têm, em menor ou maior 
grau, de acordo com sua singularidade. Já a dominação consiste em 
uma relação capaz de desapropriar o poder, pois é imposta ao outro, 
ainda que, por vezes, injustamente.
A importância de se entender o conceito de ideologia no estudo da 
psicologia social e comunitária está associada à identificação dos fato-
res constituintes da sociedade, para que tenhamos consciência sobre 
eles. Esses fatores estão impregnados e internalizados no sujeito sem 
que ele se dê conta disso.
Ressaltamos, por fim, que meios de comunicação são podero-
sos formadores de opinião, sendo capazes de manipulá-la sem que 
as pessoas percebam. Thompson (1995) aponta o crescimento dos 
meios de comunicação em massa e os considera como instrumento 
de mediação da cultura moderna. O autor explica que o processo de 
transmissão das simbologias pelos aparatos tecnológicos e institucio-
nais da indústria midiática é decorrente do capitalismo. Desse modo, 
podemos concluir que a ideologia reproduz interpretações capazes 
de encobrir a realidade, com explicações alienantes sobre conflitos, 
desigualdades sociais e injustiças.
4.3 Sociedade e cultura 
Vídeo A sociedade abrange as formas como os seres humanos se 
agrupam e se organizam em determinado momento histórico e lo-
cal. Nesse sentido, para que um grupo de caracterize como uma 
sociedade, é necessário que se faça esse recorte no tempo (históri-
co) e no espaço (localidade), além de que se organize por meio de 
regras, normas e leis.
Lane (1994, p. 13) aponta que “a sociedade tem normas e/ou leis 
que institucionalizam aqueles comportamentos que historicamente 
vêm garantindo a manutenção desse grupo social”. Desse modo, em 
cada sociedade haverá normas que regem as relações interpessoais; 
essas normas caracterizam, também, os papéis sociais e suas relações.
Sujeito e cultura 65
É interessante considerar que a sociedade se caracteriza por uma 
atividade conjunta entre os seres humanos, que funciona e que se man-
tém. Lane (1994) nos lembra que a complexidade da sociedade é históri-
ca, pois teve seu início com o ser humano transformando a natureza, isto 
é, seu meio. Essa constatação nos leva a concluir que são muitos os pi-
lares que sustentam a sociedade, um deles, por exemplo, é o da cultura.
Para compreendermos a sociedade, é fundamental construirmos 
um saber sobre a cultura. São várias as áreas do conhecimento que a 
estudam e a conceituam – como a antropologia, sociologia, economia, 
administração, arte, entre outras. A importância de seu estudo está re-
lacionada com o modo como ela afeta os seres humanos, tanto na sua 
subjetividade singular quanto na social. As contribuições da filosofia, 
da sociologia e da psicologia serão úteis para nosso estudo.
Abbagnano (1999) descreve que a filosofia considera duas vertentes 
para pensar a cultura: a primeira diz respeito à formação humanística, 
já a segunda abarca o que conhecemos como civilidade. A formação 
humanística está vinculada à capacidade de desenvolvimento do ser 
humano como um refinamento, estando historicamente relacionada a 
modelos de manifestações culturais da elite social. Sob essa visão, ter 
a qualidade de ser culto significa deter conhecimentos em várias áreas. 
Já a civilidade está associada às especificidades dos hábitos e compor-
tamentos de cada povo. Nesse sentido, novamente devemos conside-
rar que a cultura produz formas de comportamento, ao mesmo tempo 
em que é produzida por elas.
O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) entendia que a cultura é a 
representação máxima da natureza no ser humano. O teórico desta-
cou a racionalidade humana expressa em seu conjunto de valores e 
costumes, que capacitam o ser humano a fazer escolhas e agir em con-
formidade com elas (KANT, 2002). Na sociologia, o conceito de cultura 
se relaciona com os fatos sociais, buscando compreendê-los. Suaabor-
dagem engloba as instituições sociais, as interações e a influência do 
ambiente social na vida do ser humano (DURKHEIM, 2002).
A cultura pode ser lida por meio dos fenômenos e fatos sociais. 
Para Weber (2004), o estudo da cultura na sociologia observa pa-
drões estabelecidos socialmente; um exemplo é a família, que se 
institui e se regula por meio das leis que a formalizam – leis de 
filiação, casamento, divórcio, adoção etc. Weber (2004) também 
66 Psicologia social e comunitária
analisa as culturas que se regulam informalmente, por intermédio 
da tradição; um exemplo são as sociedades indígenas, que geral-
mente não possuem sistemas burocráticos.
A psicologia entende a cultura como o conjunto de saberes, valores 
e crenças estabelecidos; esse conjunto é relacionado ao comportamen-
to humano e define, em parte, esse comportamento. Wilhelm Wundt, 
teórico considerado o pai da psicologia científica, se deparou com a 
impossibilidade de explicar a mente humana somente por suas bases 
biológicas e fisiológicas, o que o levou a considerar a interação do sujei-
to com a sociedade e a cultura em que ela está inserida.
Um aspecto importante da cultura conceituada pela psicologia – e 
que nos interessa especialmente no estudo da psicologia social e co-
munitária – é a relação da cultura com a capacidade humana de cons-
truir significados. Segundo Massimi (2006, p. 183), “se toda cultura é 
o âmbito dos significados que os homens atribuem à existência e à 
realidade, então ela contém também os significados da própria vida 
psíquica”. Em outras palavras, cada sistema cultural terá sua própria 
maneira de significar os variados aspectos da vida objetiva e subjetiva.
Nesse sentido, podemos afirmar que é impossível pensar a psico-
logia sem considerar a cultura, pois é nela que a própria psicologia é 
significada não somente como conhecimento, mas como o fenôme-
no psíquico determinante nas relações do sujeito com a sociedade. 
A cultura, na condição de produto sócio-histórico, define padrões 
lógicos e cognitivos (como tradições e valores) e é responsável pela 
identidade tanto individual – se a considerarmos parcialmente, isto 
é, não como única responsável por determiná-la – quanto pela iden-
tidade cultural. Assim, torna-se fundamental que o sujeito reconhe-
ça a história e a cultura na qual se insere.
O ser humano se diferencia dos animais em virtude de, além de se 
constituir um ser biológico e psicológico, também assumir papel histó-
rico e cultural. A socialização humana é fortemente ligada ao sistema 
cultural que sustenta costumes, convenções, códigos sociais, hábitos e 
comportamentos fundamentais na forma de interpretar e se relacionar 
com as pessoas e com o mundo.
O que é cultura é uma 
obra de leitura leve e 
esclarecedora sobre essa 
temática. Ela integra a 
coleção Primeiros Passos, 
que costuma trazer 
uma introdução sobre 
temas fundamentais e 
relevantes de maneira 
prática e didática. Nessa 
obra, o leitor encontra 
um panorama sobre o 
tema cultura, despertan-
do reflexões sobre o ser 
humano e suas relações. 
SANTOS, J. L. São Paulo: Brasiliense, 
1995. 
Livro
De acordo com o que foi 
apresentado no capítulo, discorra 
sobre o conceito de cultura.
Atividade 3
Sujeito e cultura 67
4.4 Estereótipos, estigma e preconceito 
Vídeo As construções culturais de valores e ideias são convenciona-
das e acabam produzindo percepções sociais que funcionam como 
uma espécie de julgamento, o qual as pessoas fazem, umas das 
outras, por meio de elementos parciais, como a aparência. Parece 
existir no ser humano uma necessidade de interpretar o outro com 
base em características que podem resultar na formação de este-
reótipos compartilhados socialmente.
Em princípio, o termo estigma designa cicatriz, aquilo que marca, 
que assinala. Outro significado remete-se a sinal infamante, desonro-
so; ele também é associado à medicina, sendo definido como marcas e 
sinais físicos geralmente relacionados a doenças ou deficiências 
(ENCICLOPÉDIA..., 2005). Entendendo a origem do termo, podemos al-
cançar o sentido atrelado aos estereótipos e preconceitos.
Estigma é um conceito complexo, que consiste na 
desqualificação e desvalorização de alguém ou de 
um grupo social. Sua força está ligada à ordem de 
uma marca evidente e involuntária, capaz de produ-
zir um significado arbitrário ao sujeito que o porta. O 
estigma é como um rótulo impregnado de sentido, 
que se torna alvo de discriminação e preconceito.
Para entendermos como isso ocorre, podemos 
considerar que criamos classificações como se 
fosse uma espécie de tipologia, ou seja, algum tra-
ço considerado típico, possível de ser reconhecido 
e que gera a ideia de tipos de pessoas, resultando 
no conceito de estereótipo.
Alguns estereótipos podem ser nomeados como 
estereótipos culturais e comumente têm uma carac-
terística generalizante. Dentre esses, podemos citar 
estereótipos ligados a questões de gênero, como “ho-
mem não chora”, “mulher é sensível”, bem como re-
lacionados à religião, profissão, etnia e regionalismo. 
Além disso, há estereótipos que recaem sobre os sujeitos considerados 
desprovidos de educação, fortuna, beleza física etc.
Estigma: notas sobre a 
manipulação da identi-
dade deteriorada é uma 
obra de referência nesta 
temática. Por meio da 
conceituação das noções 
de estigma e estereótipo, a 
obra realiza uma articu-
lação rica sobre as con-
dições sociais do meio e 
seus efeitos psicológicos 
nos sujeitos.
GOFFMAN, E. Rio de Janeiro: LTC, 2017.
Livro
68 Psicologia social e comunitária
Outra faceta dos estereótipos é que, de maneira geral, eles aca-
bam sendo determinados de acordo com características que não são 
comuns à maioria das pessoas; dessa forma, os estereótipos frequen-
temente incidem sobre grupos específicos. Os traços característicos, 
nesse caso, podem servir para uma manipulação da identidade do su-
jeito estereotipado (GOFFMAN, 1988).
Goffman (1988) adverte que é possível rotular qualquer caracterís-
tica que se deseja manipular. Essa manipulação remete a uma concep-
ção de controle e, por vezes, de inferiorização dos sujeitos a quem se 
atribuem os estereótipos. Jodelet (2014) elucida que os estereótipos 
podem ser entendidos por meio de uma concepção cognitivista – ou 
seja, como um processo cognitivo, em que os esquemas são construí-
dos sobre particularidades pessoais, as quais caracterizam os sujeitos 
de um grupo ou de uma categoria social estabelecida. Novamente, é 
possível identificar os processos de simplificação e generalização, típi-
cos do conhecimento produzido no senso comum.
No mesmo sentido, Regato (2005) explica que os estereótipos são 
efeitos da tendência do ser humano de traduzir suas percepções em 
conceitos organizados. Essa tendência acaba por efetivar um julgamen-
to sobre as pessoas por meio de informações limitadas, que apressada-
mente constroem um sentido.
É importante refletir que a construção de sentido acaba por tra-
zer certo conforto, já que, desse modo, o sujeito se sente com con-
trole e entendimento sobre algo que, além de aparecer de maneira 
simplificada, não exige o trabalho intelectual e psíquico de se com-
preender a complexidade do outro.
Nesse caso, como Regato (2005) destaca, a pouca informação sobre 
alguém não impede que o sujeito crie uma ideia sobre esse mesmo 
alguém; pelo contrário, a rotulação resolve a necessidade de catego-
rização, de fechamento do conjunto perceptivo. Para o autor, “o es-
tereótipo [...] cria um subproduto no contexto das relações sociais: o 
preconceito” (REGATO, 2005, p. 65).
Jodelet (2014, p. 61) define preconceito como um “julgamento po-
sitivo ou negativo, formulado sem exame prévio a propósito de uma 
pessoa ou de uma coisa e que, assim, compreende vieses e esferas 
específicas”. A autora explica que o preconceito é sustentado na di-
mensão cognitiva em seus conteúdos, proposições (sobre pessoas ou 
Sujeito e cultura 69
grupos) e sua forma, isto é, a estereotipia.sofia do século XVI. Segundo Davidoff (2004), é possível compreen-
der a mente/alma como o princípio subjacente aos fenômenos da 
vida mental e espiritual do ser humano. Esse princípio aponta que 
os fenômenos psíquicos nem sempre são manifestos, mas são ati-
vos de maneira implícita.
Como mencionado, o início da psicologia ocorreu com a filosofia, 
até que emergiu como uma ciência independente. Seu estabelecimen-
to como ciência ocorreu quando Wilhelm Wundt (1832-1920) criou, em 
1879, o primeiro laboratório de psicologia experimental na cidade de Lei-
pzig, na Alemanha. Nesse momento, houve a consolidação dos estudos 
da psicologia sob os critérios científicos de observação e com métodos 
provenientes da fisiologia (SCHULTZ; SCHULTZ,1998).
Esse laboratório foi o precursor de tantos outros na Europa e nos 
Estados Unidos. Wundt se dedicava, principalmente, a pesquisar rea-
ções de comportamento aos estímulos de maneira controlada e com 
rigor científico, o que, de certa forma, limitava o desenvolvimento 
da psicologia. Seu método de pesquisa e produção de conhecimen-
to se caracterizava como estruturalista, pois buscava compreender 
processos estruturais do psiquismo. Por esse motivo, acreditava-se 
que a consciência era separada da mente.
Nesse período, a psicologia passa a se relacionar com a fisiologia, 
se distanciando de ideias abstratas e espirituais. Isso foi importante 
para seu fortalecimento, sua vinculação com princípios e métodos 
científicos, bem como seu reconhecimento. Mais tarde, no desenvol-
vimento de seu percurso, a psicologia foi além da sua relação com 
a fisiologia, de modo que hoje pode ser considerada nas dimensões 
fisiológica, psíquica e social.
Psicologia social e comunitária 11
A psicologia tem como objeto de estudo os fenômenos psíquicos, 
que abarcam conceitos como percepção, atenção, inteligência, cog-
nição, memória, emoção, sentimentos, comportamentos, relação 
interpessoal, linguagem, personalidade, consciente e inconsciente, re-
siliência, psicopatologias, entre outros.
Não é possível nos referirmos à teoria da psicologia como única, 
pois ela é muito ampla. Existem muitas abordagens, e cada uma delas 
pode privilegiar certos fenômenos, bem como ter sua própria meto-
dologia. Também, não é possível considerar uma abordagem superior 
à outra, pois todas são reconhecidas e contribuem na construção do 
conhecimento científico.
Para conhecimento geral, podemos mencionar algumas das 
principais abordagens da psicologia: behaviorismo, cognitivismo, 
humanismo, psicanálise e gestalt. Em comum, todas têm conside-
ração à subjetividade própria. Sobre isso, Bock, Furtado e Teixeira 
(2001, p. 23) salientam:
É o homem em todas as suas expressões, as visíveis (nosso com-
portamento) e as invisíveis (nossos sentimentos), as singulares 
(porque somos o que somos) e as genéricas (porque somos 
assim) – é o homem-corpo, homem-pensamento, homem-afeto, 
homem-ação e tudo isso está sintetizado no termo subjetividade.
Agora que já temos um panorama de teorização, podemos conhe-
cer as principais áreas de atuação da psicologia. É importante ressaltar 
que cada área conta com diferentes especificidades e aplicações:
• escolar/educacional;
• organizacional e do trabalho;
• de trânsito;
• jurídica;
• psicomotricidade;
• do esporte;
• clínica;
• hospitalar;
• psicopedagogia;
• social;
• neuropsicologia.
Introdução à psicologia, 
de Linda Davidoff, é uma 
leitura indicada para 
quem deseja obter visão 
ampla da psicologia. A 
obra aborda a história 
desse campo do co-
nhecimento, bem como 
apresenta seus principais 
fundamentos e conceitos. 
Além disso, contempla 
os avanços mais atuais 
da área. 
DAVIDOFF, L. São Paulo: Pearson, 
2004.
Livro
12 Psicologia social e comunitária
O Conselho Federal de Psicologia, órgão responsável pela regula-
mentação da psicologia como profissão, descreve cada uma dessas 
áreas na Resolução CFP 03/2007. Na sequência, abordamos a psicolo-
gia social propriamente dita, tema principal desta obra.
1.2 O que é psicologia social e comunitária? 
Vídeo Primeiramente, é prudente levar em conta que alguns autores con-
sideram a psicologia comunitária como uma subárea da social. Por isso, 
iniciamos nossa discussão com a tarefa de conceituar o que é psicolo-
gia social. Em seguida, avançamos para o entendimento da psicologia 
social e comunitária de fato.
A psicologia social se interessa em estudar o ser humano e sua 
relação com seu meio sócio-histórico e cultural. Lane (2006, p. 8) 
destaca que “o enfoque da Psicologia Social é estudar o comporta-
mento de indivíduos no que ele é influenciado socialmente”. Nesse 
sentido, a psicologia social privilegia a interação social e o que se 
origina nela, incluindo o pensamento social, a história do indivíduo, 
seus costumes e seus valores.
Ao pensarmos nessa perspectiva, ou melhor, no ser humano 
como um ser social, é importante ressaltar que, ao nascermos, 
somos inseridos em uma organização anterior. Essa organização 
engloba elementos sociais, culturais e históricos já estabelecidos. 
Para nos humanizarmos, somos amparados na relação com um ou-
tro ser humano, que se apropria da função do cuidado, visto que 
somos completamente dependentes ao nascer.
Além dos cuidados essenciais de alimentação, limpeza, aquecimen-
to e afetividade, são transferidas, nessa relação, referências simbólicas. 
Elementos como a nossa língua materna e o nome que nos é atribuí-
do nos permitem fazer parte de um sistema social. O ser humano se 
insere por meio de um lugar também subjetivo, localizado no tempo, 
no espaço (data e local de nascimento), na história da humanidade, na 
sociedade e na cultura.
Nesse sentido, a psicologia social busca compreender a inserção do 
indivíduo no processo histórico e sua dinâmica, já que ele próprio é 
agente transformador da sociedade em que vive. Inclusive, a psicologia 
social pode ser considerada uma ciência ambiental. Myers (2014) a 
Psicologia social e comunitária 13
nomeia assim por entender que ela investiga como o ambiente social 
afeta o comportamento de cada indivíduo.
A psicologia social também se ocupa da construção do conhecimen-
to sobre o convívio social, o processamento desse conhecimento, suas 
leis, suas influências situacionais e seus estímulos sociais. É correto 
sustentar que ela compreende as formas de relacionamento humano 
em diferentes âmbitos, como comportamentos em grupo, fenômenos 
de grupo, motivações, comoções, a violência e o altruísmo social, bem 
como a construção de estereótipos e preconceitos.
Uma reflexão interessante é percebemos como as interações sociais 
são intensas até mesmo em situações corriqueiras. Interagimos fre-
quentemente com nossa família, nossos vizinhos, colegas de trabalho 
etc. A interação social está presente, inclusive, em situações mais com-
plexas. Nelas, utilizamos nossas habilidades interpessoais, nos empe-
nhamos em sermos aceitos, realizamos negociações, persuadimos, 
agimos com empatia e com nossas identificações 1 . Nesse sentido, a 
psicologia social também estuda processos cognitivos e emocionais.
De acordo com o Conselho Regional de Psicologia (CRP09, 2015), 
a atuação profissional do psicólogo social deve ser “fundamentada na 
compreensão da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais e coleti-
vos, sob diferentes enfoques teóricos e metodológicos, com o objetivo 
de problematizar e propor ações no âmbito social”.
Ainda segundo o CRP09, é permitido ao psicólogo social desenvol-
ver atividades em distintos espaços institucionais e comunitários, assim 
como “no âmbito da saúde, educação, trabalho, lazer, meio ambiente, 
comunicação social, justiça, segurança e assistência social”.
O trabalho do psicólogo social pode envolver políticas e ações li-
gadas à comunidade em geral e aos movimentos sociais de grupos 
étnico-raciais, religiosos, de gênero, geracionais, de orientação sexual, 
de classes sociais e de outros segmentos socioculturais. Sua atuação se 
refere à realização de projetos da área socialO preconceito também 
se sustenta em uma dimensão afetiva predominantemente ligada às 
emoções e aos valores engajados na interação com determinado sujei-
to ou grupo, bem como se sustenta em uma dimensão conotativa, cuja 
descrição pode ser positiva ou negativa.
Pensando na psicologia social e comunitária, é importante con-
siderarmos que os estereótipos e preconceitos funcionam como 
mediadores da exclusão social. Nesse sentido, a contribuição da 
psicologia social e comunitária ocorre em relação às representa-
ções que fundam os preconceitos, nos processos de comunicação 
e nos contextos sócio-históricos.
A educação é uma das maneiras de intervenção e transformação 
desse fenômeno social, pois, por meio dela, ampliamos e deixamos 
mais complexas nossas formas de interpretação, com maior capacida-
de de relativização, compreensão e respeito às diferenças.
Por vezes, o preconceito pode ser decorrente de uma defesa, no 
sentido de que o sujeito se apoia no preconceito por se sentir amea-
çado pela diferença. Ignorância, insegurança e ansiedade podem estar 
por trás das atitudes preconceituosas (PISANI, 1996). Além de fatores 
cognitivos, emocionais, midiáticos e sociais, o preconceito pode estar 
relacionado a dificuldades psicológicas particulares. A separação, ex-
clusão e falta de interação entre as pessoas de grupos diferentes tam-
bém colaboram para sedimentação dos estereótipos e preconceitos.
Para Rodrigues (1999), o contato é capaz de alterar a percepção e 
diminuir a força dos estereótipos e preconceitos. Nesse sentido, é im-
portante refletir que a exclusão social, ao mesmo tempo que é causada 
pelo preconceito, pode ser, ainda, uma de suas causas. Desse modo, a 
inclusão social pode ter um efeito desejável sobre esse problema.
Relacione os conceitos de 
estereótipo, estigma e preconceito 
com a exclusão social.
Atividade 4
O texto Ação moral e 
estereótipos culturais 
não promove somente 
conhecimentos em 
relação à temática dos es-
tereótipos, mas também 
realiza uma articulação 
pertinente com a área da 
educação.
La TAILLE, E. H. In: ARANTES, V. A. 
Afetividade na escola: alternativas 
teóricas e práticas. São Paulo: 
Summus Editorial, 2003.
Leitura
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo das representações sociais e da ideologia são importantes 
para o entendimento do conceito de cultura. Representações sociais, 
ideologias, estereótipos, estigmas e preconceitos são processos que de-
terminam as relações sociais; por essa razão, torna-se fundamental a 
compreensão desses elementos.
As teorias nos ajudam a entender e subjetivar o conhecimento que 
instrumentaliza a ação. É necessário que a psicologia social comunitária 
70 Psicologia social e comunitária
intervenha a favor de melhorias nas relações sociais, de modo que mi-
nimize a exclusão social e o sofrimento causado por ela, que, de certa 
forma, sustenta sua reprodução.
O preconceito, como a própria palavra explicita, é constituído por um 
conceito prévio, anterior ao conhecimento. Pode ser considerado um re-
curso de leitura e interpretação simples, conforme visto no conceito de 
estereótipo. Essa interpretação simples pode ser útil em alguns momentos, 
contudo, se torna um grande problema quando sustenta a segregação e 
a desigualdade social.
A educação é uma das formas de investimento nas transformações so-
ciais, pois é por meio da conscientização, da construção de pensamento 
crítico e do desenvolvimento da autonomia que conquistamos a igualda-
de, conhecemos nossos direitos e cumprimos, também, nossos deveres.
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GABARITO
1. A teoria das representações sociais surge da articulação entre psicologia social, so-
ciologia e psicanálise. Um dos objetivos primordiais das representações sociais é 
tornar familiar algo que, até então, era desconhecido, possibilitando, desse modo, 
categorizar, classificar e nomear novas ideias e eventos com os quais não tínhamos 
contato no passado. Além disso, ela permite o entendimento desses novos aconte-
cimentos por meio de valores, ideias e teorias anteriormente existentes, internaliza-
das por nós e aceitas pela sociedade. No processo que se permite a interiorização, 
compreensão e manipulação de algo novo, vinculam-se teorias, valores e ideias já 
existentes e aceitas pela sociedade.
2. Karl Marx demonstra que a ideologia é produzida por meio das relações socioeconô-
micas e das contradiçõesque estão presentes na sociedade. Nesse sentido, estudá-la 
consiste em entender e esclarecer as maneiras com que as simbologias são utilizadas 
para a manutenção e implantação das relações de dominação entre as classes. As 
ideologias dominadoras podem modificar os desejos e as necessidades daqueles que 
a ela são submetidos, assim como naturalizar conceitos. Para que a ideologia seja 
correspondente, é necessária sua apropriação para que sua visão seja reproduzida. 
72 Psicologia social e comunitária
Em resumo, a ideologia responde de acordo com as necessidades cognitivas e psí-
quicas do indivíduo que lhe dá aprovação, pois nela encontra-se um modelo de 
representação, de crença e de ação, no qual ela pode se manifestar e ter sua rela-
ção com o ambiente.
3. Podemos entender cultura como uma forma de manifestação social, fruto da história, 
e de construção de conhecimentos, valores de vida, tradições e costumes relaciona-
dos a um povo. A cultura é uma maneira de entender o mundo e a existência do ho-
mem, englobando toda a produção de conhecimentos sobre a vida.
4. Os estereótipos, estigmas e preconceitos são fenômenos que corroboram a exclusão 
social, bem como são sustentados por ela. Trata-se de frutos de processos simplistas 
de interpretações em que se generaliza e se cristaliza um conceito sobre algo, sem 
que haja um conhecimento mais elaborado. A segregação e a exclusão alimentam as 
atitudes preconceituosas que reforçam a exclusão social.
Intervenções da psicologia social e comunitária 73
5
Intervenções da psicologia 
social e comunitária
O objetivo deste capítulo é pensar nas possíveis aplicações da 
psicologia social e comunitária. É importante enfatizar que esse 
campo se constitui como um ramo da psicologia social e, por isso, 
engloba diferentes tipos de intervenções.
Desse modo, apresentamos os principais temas relacionados 
à atuação do psicólogo social e comunitário, como intervenções 
sociais na saúde; a atuação do psicólogo no sistema prisional 
brasileiro; serviços de acolhimento; o trabalho no fortalecimen-
to de vínculos familiares e comunitários; e relações com as polí-
ticas de assistência social.
Espera-se que, ao final do capítulo, possamos ter clareza de 
como a atividade do psicólogo social e comunitário se efetiva, bem 
como ocorre sua inserção em diferentes contextos sociais. Com 
base nesses aspectos, podemos conhecer os desafios que essa 
profissão enfrenta na contemporaneidade.
5.1 A atuação do psicólogo social e comunitário 
Vídeo Como área de atuação, a psicologia social e comunitária – com base 
em um posicionamento reflexivo, crítico e ético – tem o desenvolvimen-
to e a efetivação de intervenções sociais em grupos específicos.
Azevêdo e Pardo (2014) ressaltam que a atuação do psicólogo 
social e comunitário, no Brasil, vem ao encontro da Lei n. 9.394, 
de 20 de dezembro de 1996, popularmente conhecida como LDB 
(BRASIL, 1996). Essa lei definiu as diretrizes e bases da educação 
nacional e enfatizou o desenvolvimento de estratégias de ensino 
para a promoção de práticas sociais.
74 Psicologia social e comunitária
A promulgação dessa lei é importante para o nosso estudo, uma 
vez que interferiu nas diretrizes curriculares nacionais dos cursos de 
graduação em psicologia, que passaram a preparar os estudantes para 
o envolvimento e o engajamento no trabalho com grupos e em equi-
pes multidisciplinares. A perspectiva de atuação do psicólogo leva em 
consideração as necessidades sociais dos indivíduos, dos grupos e das 
comunidades (AZEVÊDO; PARDO, 2014).
De modo geral, pode-se dizer que o psicólogo é convocado a atuar 
em relação às demandas psicológicas e sociais dos indivíduos, dos gru-
pos e das comunidades. Nesse sentido, a psicologia social e comunitária 
responde a essa necessidade ao propor ações educativas e conscienti-
zadoras no desenvolvimento das relações comunitárias (LANE, 1994).
Lane (1994) explica que os seres humanos se agrupam com o 
objetivo de serem produtivos em outros espaços além do trabalho 
remunerado. Eles buscam a satisfação ao realizar atividades como 
ações voluntárias e engajamento na comunidade. Segundo a autora, 
é em torno dessa premissa que a psicologia social e comunitária 
sugere o desenvolvimento de uma sistemática de intervenções nas 
quais “a mediação da ideologia dominante 1 se faz sentir nas rela-
ções sociais desempenhadas na família, na escola, e no trabalho, 
impedindo ou dificultando a criação de novas formas de relaciona-
mento 2 ” (LANE, 1994, p. 67-68).
Com base nessa premissa, a psicologia social e comunitária pro-
cura colaborar ativamente no desenvolvimento das relações comu-
nitárias e tem foco no aprimoramento da comunicação e das ações 
de cooperação entre os sujeitos. Ela investe na instauração dessas 
novas formas de relacionamento, as quais são independentes da 
ideologia dominante (LANE, 1994).
É por meio da conscientização promovida no grupo que o tra-
balho do psicólogo social e comunitário se torna viável. Bock (2008 
apud AZEVÊDO; PARDO, 2014) explica que, ao priorizar a relação 
dinâmica que o indivíduo estabelece com o grupo social, a psicolo-
gia se compromete com a sociedade e possibilita sua atuação por 
meio de uma perspectiva crítica. Essa relação dinâmica representa 
a força e o movimento do sujeito nas interações com o grupo – por 
exemplo, expressão de ideias, aprendizado, negociações, persua-
são, mudança de posicionamento.
Durante este capítulo, você 
perceberá que, em alguns 
momentos, adotamos o termo 
psicólogo, em outros, psicólogo 
social e, ainda, psicólogo social e 
comunitário. Como a psicologia 
social é uma subárea da psicolo-
gia (área do conhecimento) e a 
psicologia social e comunitária é 
um campo da psicologia social, 
é normal o uso dessas nomen-
claturas. Contudo, é importante 
ter em mente que se trata de 
informações distintas e, por isso, 
ocorre a diferenciação.
Importante
A ideologia dominante 
representa os interesses de 
uma determinada classe 
(dominante) para a manutenção 
das diferenças existentes entre as 
classes sociais.
1
Nesse contexto, as novas formas 
de relacionamento representam 
aquelas não submetidas à 
ideologia dominante.
2
Intervenções da psicologia social e comunitária 75
Nesse sentido, cabe ao psicólogo social e comunitário se apropriar 
do desafio de aplicar os princípios teóricos no desenvolvimento de in-
tervenções que gerem mudanças e ações realmente efetivas na comu-
nidade. A intenção é vislumbrar melhorias e aumentar a qualidade de 
vida dos indivíduos que dela participam.
O papel do psicólogo social e comunitário deve ser o de facilitador 
da conscientização na circulação da palavra 3 e nas intervenções neces-
sárias para que se chegue à definição de encaminhamentos. Com isso, 
é possível a efetivação das ações da comunidade para resolução dos 
problemas identificados no trabalho. Para compreender essa questão, 
considere o exemplo a seguir:
Em uma reunião na qual os membros da comunidade expressam os problemas que 
enfrentam, cada participante se posiciona e há um diálogo mediado pelo psicólogo 
social comunitário. Juntos, comunidade e psicólogo definem prioridades e traçam 
estratégias e encaminhamentos possíveis para a resolução dos problemas. Além dis-
so, discutem possibilidades na efetivação das ações necessárias.
Com base em Campos (2015) e Rapport (1977 apud AZEVÊDO; 
 PARDO, 2014), elencamos alguns dos valores implicados nos trabalhos 
dos psicólogos sociais e comunitários, a saber:
• ética da solidariedade;
• promoção das relações humanas;
• direitos humanos fundamentais;
• busca de justiça social;
• igualdade entre pares;
• defesa da cidadania;
• posicionamento democrático;
• compromisso ético e político.
Com embasamento e construção de saberes da psicologia social, 
ou seja, suas diretrizes teóricas e a pesquisa participante como meto-
dologia (CAMPOS, 2015), podemos definir como objetivos e eixos de 
atuação da psicologia social e comunitária:
Circulação da palavra tem aconotação de diálogo, de dar 
voz aos membros do grupo ao 
mesmo tempo em que se faz 
ouvir.
3
76 Psicologia social e comunitária
• levantamento de problemas;
• construção de conhecimentos;
• investimento na comunicação;
• movimentos de conscientização;
• pensamento crítico;
• orientação de objetivos;
• definição de estratégias de intervenção;
• desenvolvimento de práticas coletivas;
• incentivo à autonomia;
• conquistas e melhorias psicossociais significativas para os indivíduos, 
os grupos e as comunidades.
A atuação do psicólogo social e comunitário tem a função de in-
tegrar a teoria com a prática. Esse trabalho visa à aplicação dos co-
nhecimentos de modo comprometido com a educação popular, que 
é direcionada à solução dos problemas e da qualidade de interações 
sociais, bem como da vida em geral.
5.1.1 Intervenções sociais na saúde
A saúde é um tema de relevância para a psicologia social, visto que 
o acesso a ela é um direito fundamental e está diretamente ligado ao 
bem-estar social. Nesse sentido, as intervenções do psicólogo social 
são baseadas em um olhar coletivo e dirigido à promoção da saúde, o 
que pressupõe, também, uma dimensão preventiva.
Rey (2004) entende a saúde como um fator básico no tecido social, 
sendo, portanto, um campo favorável para o trabalho da psicologia so-
cial. A intervenção na área da saúde abarca as necessidades coletivas 
em variados contextos. Assim, são mais amplas do que as intervenções 
do modelo utilizado pela psicologia clínica, voltado ao atendimento in-
dividual, pois, além de se voltar ao coletivo, conta com a interdisciplina-
ridade em seu modo de atuar.
O trabalho nas equipes interdisciplinares tem se mostrado bas-
tante interessante na busca da prevenção, da promoção e do trata-
mento da saúde. Profissionais de diferentes áreas – agentes de saúde, 
Intervenções da psicologia social e comunitária 77
enfermeiros, médicos, farmacêuticos, assistentes sociais etc. – estão 
comprometidos com a saúde coletiva e, consequentemente, com o de-
senvolvimento e o aumento da qualidade de vida dos indivíduos, gru-
pos, comunidades e da sociedade em geral.
A qualidade de vida engloba a saúde, o bem-estar social e a po-
sição do sujeito em seu ambiente social; dessa forma, é impossível 
pensar na saúde e no bem-estar sem considerar as condições sociais. 
O psicólogo social se insere em programas de promoção da saúde, 
tanto nas comunidades quanto no âmbito mais amplo das políticas 
públicas e dos programas sociais.
Motta (2015) relata que, com a ampliação do Sistema Único de 
 Saúde (SUS) brasileiro e o avanço das políticas públicas – com princí-
pios de universalidade, equidade e integralidade da atenção à saúde 
–, houve uma abertura para a atuação profissional dos psicólogos. Se-
gundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2020a), o SUS é idealizado com 
o objetivo de promover o acesso integral, universal e gratuito à saúde:
com a sua criação, o SUS proporcionou o acesso universal ao sis-
tema público de saúde, sem discriminação. A atenção integral à 
saúde, e não somente aos cuidados assistenciais, passou a ser 
um direito de todos os brasileiros, desde a gestação e por toda 
a vida, com foco na saúde com qualidade de vida, visando a pre-
venção e a promoção da saúde.
A Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabeleceu que a “saúde 
é direito de todos e dever do Estado”. O SUS compreende, portan-
to, a gestão das ações e dos serviços de saúde, e isso se efetiva por 
meio de uma rede ampla que abarca a assistência aos brasileiros 
em todos os níveis – emergencial, hospitalar, preventivo, vigilância 
sanitária, epidemiológica e ambiental.
A abertura que assinala a introdução da psicologia no SUS se re-
laciona historicamente com o envolvimento dos psicólogos no movi-
mento da reforma psiquiátrica e com a colaboração na construção dos 
dispositivos substitutivos do modelo asilar, como a criação do Centro 
de Atenção Psicossocial (CAPS). Essa abertura ocorre no momento em 
que se estabelece uma nova forma de lidar com a saúde mental, que 
passou a englobar modalidades de trabalho que permitem maior inclu-
são social dos pacientes psiquiátricos (MOTTA, 2015).
A Reforma do Modelo de 
Assistência em Saúde Mental 
– amparada pela Lei 10.216 
(BRASIL, 2001) – desenvolve 
novas formas de tratamento aos 
pacientes psiquiátricos evitando 
o máximo possível o modelo 
asilar, no qual os pacientes 
ficam internados e privados da 
inclusão social.
Saiba mais
A obra Psicologia Social e 
saúde: prática, saberes e 
sentidos é uma coletânea 
de artigos que aborda o 
papel da psicologia social 
na promoção e preven-
ção da saúde. O leitor é 
levado a refletir sobre 
os serviços primários 
disponíveis na comunida-
de e sobre âmbitos mais 
amplos, como o desen-
volvimento de programas 
sociais e a contribuição 
para as políticas públicas 
de saúde coletiva. Vale a 
pena a leitura.
SPINK, M. J. Petrópolis: Vozes, 2003.
Livro
78 Psicologia social e comunitária
Houve também, segundo Motta (2015), a inclusão do atendimento à 
saúde mental na atenção básica, o que mostra o aumento da participação 
dos psicólogos em equipes e no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF). 
Outro espaço importante se efetivou com a Política Nacional de Humaniza-
ção (PNH) que, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2020a), deve estar 
presente em todas as políticas e programas do SUS, bem como promover 
debates para discutir mudanças no cuidar e em organizar o trabalho.
O olhar para humanização vai ao encontro do olhar da psicologia 
social, pois contribui para “a valorização dos usuários, trabalhado-
res e gestores no processo de produção de saúde” (BRASIL, 2020a). 
Além disso,
valorizar os sujeitos é oportunizar uma maior autonomia, a am-
pliação da sua capacidade de transformar a realidade em que 
vivem, através da responsabilidade compartilhada, da criação de 
vínculos solidários, da participação coletiva nos processos de ges-
tão e de produção de saúde. Produzindo mudanças nos modos 
de gerir e cuidar, a PNH estimula a comunicação entre gestores, 
trabalhadores e usuários para construir processos coletivos de 
enfrentamento de relações de poder, trabalho e afeto que muitas 
vezes produzem atitudes e práticas desumanizadoras que inibem 
a autonomia e a corresponsabilidade dos profissionais de saúde 
em seu trabalho e dos usuários no cuidado de si. (BRASIL, 2020a)
Podemos pensar que o encontro entre as políticas públicas do 
SUS e o interesse e compromisso dos psicólogos sociais consolida o 
trabalho da psicologia social no campo da saúde. Camargo-Borges e 
Cardoso (2005 apud MOTTA, 2015) destacam que a atuação do psi-
cólogo social deve considerar a interface da cultura e do social. Já 
Spink (2010 apud MOTTA, 2015) ressalta que a posição do psicólogo 
social em relação aos demais profissionais de saúde deve sustentar 
a alteridade, isto é, reconhecer os saberes dos outros e as suas fron-
teiras. A autora acredita que essa seja a via possível para a prática 
nas instituições de saúde.
O ponto fundamental da atuação do psicólogo social no campo da 
saúde é o uso de estratégias para o trabalho, tendo compromisso com 
o coletivo e possibilitando que as pessoas tenham acesso à saúde de 
maneira humanizada, sem perder de vista seu direito e sua cidadania. 
O trabalho se põe a serviço da saúde na produção de pesquisas, nas 
construções teóricas, nas reflexões e nas intervenções com o intuito de 
contribuir para o aprimoramento do SUS.
Os Núcleos de Apoio à 
Saúde da Família (NASF) 
foram criados com o 
objetivo de ampliar as 
ofertas de saúde na rede 
de serviços, assim como 
a resolutividade, a abran-
gência e o alvo das ações. 
Atualmente, são compos-
tos por equipes multi-
profissionais que atuam 
de modo integrado com 
as equipes de Saúde 
da Família, de atenção 
primária para populações 
específicas – consultórios 
na rua, equipes ribeiri-
nhas e fluviais – e com o 
Programa Academia da 
Saúde (BRASIL, 2020a). 
Para conhecer mais, 
visite a páginaoficial do 
Ministério da Saúde: ht-
tps://www.saude.gov.br/
saude-de-a-z/vacinacao/
vacine-se/693-acoes-e-
-programas/40038-huma-
nizasus. Acesso em: 12 
jun. 2020.
Site
A Política Nacional de Hu-
manização (PNH) existe 
desde 2003 para efetivar 
os princípios do SUS no 
cotidiano das práticas de 
atenção e gestão, quali-
ficando a saúde pública 
no Brasil e incentivando 
trocas solidárias entre 
gestores, trabalhadores e 
usuários. Para conhecer 
mais, visite a página oficial 
do Ministério da Saúde: 
https://www.saude.gov.
br/acoes-e-programas/
saude-da-familia/nucleo-
-de-apoio-a-saude-da-fa-
milia-nasf. Acesso em: 12 
jun. 2020.
Site
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/vacine-se/693-acoes-e-programas/40038-humanizasus
Intervenções da psicologia social e comunitária 79
5.1.2 Atuação no sistema prisional brasileiro
Ao estudarmos sobre a atuação do psicólogo no sistema prisional 
brasileiro, podemos conhecer o contexto atual das prisões do Brasil. 
Esse cenário, bastante distante do que pode ser considerado ideal, le-
va-nos a pensar que, apesar de contarmos com uma Lei de Execução 
Penal (BRASIL, 1984) e também com a Declaração Universal dos Direi-
tos Humanos (ONU, 2020), a realidade sinaliza uma série de problemas 
graves no sistema prisional brasileiro.
Dessa forma, a atuação do psicólogo social no nosso sistema pri-
sional é muito complexa e enfrenta muitos problemas. Por isso, nossa 
proposta é uma reflexão e um apontamento das possibilidades de tra-
balho nessa área situando o papel do psicólogo social sem perder de 
vista princípios, valores e compromisso social.
Werle (2016) explica que a superlotação dos presídios, assim como 
o despreparo dos profissionais, a violência, os abusos sexuais, as bri-
gas etc., são fatores que fazem com que exista uma perda identitá-
ria por parte do sujeito encarcerado e, com isso, há uma demanda a 
ser trabalhada pelo psicólogo. O conhecimento do psicólogo propicia 
um olhar único e diferenciado em relação aos outros profissionais e 
na atuação com essas pessoas. A autora aponta que o psicólogo pode 
realizar atendimentos individuais e grupais, bem como trabalhar com 
familiares e outros profissionais envolvidos no sistema.
Foi a Lei de Execuções Penais que configurou o trabalho dos psicó-
logos no sistema penitenciário do Brasil. Werle (2016) observa que, ini-
cialmente, esses profissionais se envolviam com o trabalho no sistema 
prisional brasileiro especificamente nos manicômios judiciários, que 
atualmente são nomeados hospitais de custódia e tratamento psiquiá-
trico. Foi depois da promulgação dessa lei que se ampliou o campo de 
atuação do psicólogo nas penitenciárias.
Essa mesma lei “instituiu o exame criminológico e a comissão técnica 
de classificação (CTC), dispositivos utilizados para fazer o acompanha-
mento individualizado da pena” (WERLE, 2016). A comissão é formada 
por diferentes profissionais – psicólogo, assistente social, psiquiatra, 
chefes de serviço – e presidida pelo diretor da unidade prisional.
Uma questão frequentemente levantada pelos psicólogos que 
trabalham no sistema prisional brasileiro é a visão reducionista 
80 Psicologia social e comunitária
com relação à sua atuação, que acaba por demandar do profissio-
nal uma atividade predominantemente avaliativa de quem realiza 
diagnósticos, laudos, pareceres técnicos e perícias. Com isso, o psi-
cólogo produz documentos com o objetivo de subsidiar posiciona-
mentos do sistema judiciário em relação ao processo de aquisição 
de benefícios, progressão de regime, livramento condicional e pos-
sibilidade de reintegração na sociedade.
Há uma preocupação, por parte dos psicólogos que se dedicam a 
esse tema, em salientar a necessidade de ampliar a atuação para que 
o profissional possa realmente contribuir para a saúde mental, o bem-
-estar e a recuperação das pessoas em situação de encarceramento.
Silva (2010) pensa que a própria inserção é o desafio do psicólogo. 
O autor o considera um ator privilegiado porque está disponível para 
o acolhimento, a atenção e o cuidado; a importância do funcionamen-
to humanitário na instituição é o compromisso social do psicólogo. 
É desejável que esse profissional construa e sustente estratégias e 
formas de atuar considerando os princípios da psicologia social e seu 
compromisso com seres biopsicossociais possuidores de identidade, 
história, sentimentos e desejos.
Em níveis individuais, a psicologia pode buscar acolher e trabalhar 
subjetivamente com os sujeitos encarcerados – superações psicoló-
gicas relacionadas aos efeitos do encarceramento etc. – com base na 
compreensão de si mesmos. O objetivo do profissional de psicologia é 
auxiliar os sujeitos a compreenderem suas histórias e ressignificá-las 
para, quem sabe, construírem novas alternativas fora do crime e trans-
formar suas condições de vida por meio do trabalho (WERLE, 2016).
O caminho ideal seria o de recuperação das pessoas encarceradas 
para a ressocialização, ou seja, ao terminar o cumprimento da sua 
pena, o sujeito poder se reinserir como membro ativo na sociedade de 
modo a não reincidir em atos criminosos. Porém, sabemos que essa 
recuperação é muito difícil, consideradas as dificuldades e os proble-
mas do sistema prisional brasileiro, na qual a ideia de educação e de 
capacitação pouco ou nada se efetiva.
Além desse olhar dirigido a cada sujeito – possível por meio do tra-
balho e para além das avaliações já citadas –, pensa-se na atuação na 
realidade vivida dentro dos presídios. A psicologia pode contribuir para 
Intervenções da psicologia social e comunitária 81
a humanização no funcionamento institucional com base na criação de 
intervenções e na inserção de trabalhos multidisciplinares que possam 
fazer a diferença na vida dessas pessoas.
Outra vertente do trabalho que o psicólogo pode realizar – além do 
individual e em grupo – é o trabalho com os familiares de pessoas em 
situação de encarceramento. Segundo Werle (2016):
Em relação ao trabalho com os familiares, o Conselho Federal 
de Psicologia (2009) informa que os principais objetivos dos 
psicólogos ao realizar esta atividade são: informar aos familia-
res do preso suas condições de saúde e o acompanhamento 
de seu caso; informar sobre a inclusão em presídio de algum 
familiar; orientar os familiares para receberem de volta a pes-
soa que esteve presa; entrevistá-los para melhor compreen-
são de cada caso, entre outros.
O trabalho com os familiares pode desenvolver recursos subjeti-
vos para acolher e ajudar na reinserção do familiar quando ele tiver 
terminado seu tempo de prisão. A família é o laço social essencial 
para o sentimento de pertença, e este, por sua vez, é fundamental 
para que o sujeito se sinta capaz de fazer novas escolhas e vir a ocu-
par um lugar diferente e produtivo na sociedade.
O artigo Intervenção com a família pra o fortalecimento dos vínculos familiares 
no enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente, de Dione Lolis 
e Lisa Mitiko Koga Kuriki, publicado no periódico Serviço Social em Revista, 
traz um estudo que demonstra a importância da intervenção com a família 
para o fortalecimento dos vínculos familiares no enfrentamento da violência 
contra a criança e o adolescente. As autoras trazem relatos de experiências 
significativas que estimulam boas reflexões.
Acesso em: 12 jun. 2020.
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ssrevista/article/view/13751/12474
Artigo
Silva (2010) menciona a necessidade de uma desmontagem da 
lógica penalpredominante. Isso nos leva a pensar na importância 
de que o trabalho do psicólogo abranja pesquisas e produções de 
conhecimento que possam interferir positivamente no sistema pri-
sional brasileiro para que as leis se estabeleçam em termos educa-
cionais e de direitos humanos.
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ssrevista/article/view/13751/12474
82 Psicologia social e comunitária
O trabalho dos psicólogos é também muito bem-vindo quando di-
rigido aos demais funcionários que fazem parte do sistema prisional 
brasileiro, visto que seria mais uma maneira de intervenção em prol da 
saúde institucional como um todo.
Por fim, podemos pensar na atuação da psicologia social e comuni-
tária como fator preventivo nas comunidades menos favorecidas, nas 
quais as condições são precárias e tendem a ter mais casos de envol-
vimento de jovens com drogas e atos ilícitos. Um bom trabalho social 
com políticas públicas que visem à educação, ao esporte, ao lazer, à 
saúde e à profissionalização é capaz de propiciar a esses jovens outros 
caminhos antes que eles sejam captados para o crime.
Assim, os desafios para a atuação do psicólogo no sistema prisional 
brasileiro são grandes e proporcionais à necessidade desse trabalho 
em contribuir para a humanização e melhores condições de vida.
5.1.3 A psicologia nos serviços de acolhimento
Os chamados serviços de acolhimento têm a função de acolher, 
cuidar e proteger pessoas e famílias que, por variados motivos, en-
contram-se em situação de vulnerabilidade, abandono, ameaça ou 
privadas do exercício dos seus direitos e afastadas temporariamen-
te do seu núcleo familiar e/ou comunitário de origem.
Os serviços de acolhimento contam com o trabalho do psicólogo 
e do assistente social. Esses profissionais ocupam lugar de equipe 
de referência dos serviços socioassistenciais do chamado Sistema 
Único de Assistência Social (SUAS), sistema governamental res-
ponsável por formulação, apoio e articulação de ações sociais.
Os serviços de acolhimento incluem a oferta de moradia provi-
sória até que a pessoa tenha condições de ser acolhida novamente 
pela família de origem, encaminhada à família substituta ou alcançar 
autonomia para ter sua moradia (própria ou alugada).
Entre os serviços estabelecidos, há o Serviço de Acolhimento 
Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA). Moreira e 
 Paiva (2015) enfatizam que a atuação dos psicólogos nesse serviço 
de acolhimento deve considerar a conjuntura social histórica das fa-
mílias e das comunidades de origem das crianças e dos adolescentes.
O Conselho Federal de 
Psicologia (CFP) realizou 
uma coletânea de textos 
produzidos por psicólo-
gos que atuam na área 
prisional. O mais interes-
sante são os relatos dos 
profissionais que conhe-
cem o cotidiano desse 
trabalho desafiador.
CFP – Conselho Federal de 
Psicologia. Atuação do psicólogo 
no sistema prisional. Brasília, DF: 
CFP, 2010. Disponível em: https://
site.cfp.org.br/wp-content/
uploads/2010/09/Atuacao_dos_
Psicologos_no_Sistema_Prisional.
pdf.
 Acesso em: 12 jun. 2020.
Livro
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/09/Atuacao_dos_Psicologos_no_Sistema_Prisional.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/09/Atuacao_dos_Psicologos_no_Sistema_Prisional.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/09/Atuacao_dos_Psicologos_no_Sistema_Prisional.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/09/Atuacao_dos_Psicologos_no_Sistema_Prisional.pdf
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2010/09/Atuacao_dos_Psicologos_no_Sistema_Prisional.pdf
Intervenções da psicologia social e comunitária 83
Podemos elencar entre as atribuições dos psicólogos:
• apoio na seleção e na formação dos educadores;
• acompanhamento psicossocial dos acolhidos e das suas famílias;
• elaboração do Plano Individual de Acompanhamento (PIA);
• organização das informações;
• elaboração de relatórios;
• atendimento em grupo;
• preparação para o processo de adoção (quando for o caso);
• articulação com o Sistema de Garantia de Direitos (SGD);
• fundamentação das decisões judiciais concernentes ao presente e ao futuro 
das crianças e dos adolescentes acolhidos;
• participação em audiências;
• visitas escolares.
“O Sistema de Garantia de 
Direitos (SGD) é a articulação 
e a integração de instituições 
e instâncias do poder público 
na aplicação de mecanismos 
de promoção, defesa e controle 
para a efetivação dos direitos 
da criança e do adolescente, 
nos níveis federal, estadual, 
distrital e municipal, efetivando 
as normativas do Estatuto da 
Criança e do Adolescente (ECA), 
marco legal brasileiro de 1990” 
(CONANDA, 2020).
Saiba mais
Com base nessas atividades, podemos perceber e concordar 
com Moreira e Paiva (2015) que o trabalho do psicólogo, nesse con-
texto, é peculiar, pois compreende desde aspectos mais formais 
– produção de documentos, relatórios, participação em reuniões, 
articulação com o Sistema de Garantia de Direitos, entre outros 
– até os aspectos subjetivos e afetivos, pois participam da rotina 
residencial das crianças e dos adolescentes acolhidos, além de mo-
mentos de lazer e passeios, como ocorre na relação familiar. Nesse 
sentido, o psicólogo circula entre o burocrático, técnico e formal 
para o afetivo, subjetivo e relacional.
No estudo intitulado Os serviços de acolhimento institucional para crianças e 
adolescentes: os desafios e o trabalho com a rede de proteção social, dissertação 
de mestrado de Maria do Carmo Salviano Adrião (2013), você encontra in-
formações sobre o funcionamento dos serviços de acolhimento de maneira 
contextualizada e articulada com a legislação. Além disso, a autora aponta os 
desafios que envolvem essa realidade.
Acesso em: 12 jun. 2019. 
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/11183/Artigo_MPGPP_FINAL.pdf?sequence
Dissertação
84 Psicologia social e comunitária
5.1.4 O psicólogo social e o fortalecimento de 
vínculos familiares e comunitários
Para abordar o trabalho do psicólogo social no fortalecimento de 
vínculos familiares e comunitários, é importante partir do princípio de 
que a preservação dos vínculos familiares e comunitários é o que fun-
damenta o trabalho dos serviços sociais. No caso de crianças e adoles-
centes abrigados, o princípio é a promoção da reintegração familiar. 
Quando isso realmente não é possível, o objetivo passa a ser a integra-
ção em família substituta.
Para Valente (2010 apud MOREIRA; PAIVA, 2015), a família precisa 
ser cuidada e protegida: “é preciso ter em mente que a família tem o 
problema, mas é ela que pode ter a solução”. Nesse sentido, é com-
promisso dos profissionais que atuam nesses serviços investir no en-
volvimento das famílias e intervir para favorecer a responsabilidade 
e os vínculos possibilitando que a família venha a ter condições de 
responder pelo seu papel. Para tanto, é importante ressaltar a impor-
tância de que se quebrem preconceitos e estereótipos, bem como se 
desenvolvam práticas diferenciadas cujo olhar aponte para as possi-
bilidades e não somente para suas faltas, o que poderia estagnar o 
processo em uma culpabilização.
Trabalhar nessa direção implica ir além das visitas protocolares 
realizadas para constatação, avaliação das condições familiares e pro-
dução de relatórios burocráticos. Deve haver um investimento em 
informar, escutar, conhecer a história, a realidade, os anseios, as di-
nâmicas e intervir de maneira ampla para que haja conscientização e 
fortalecimento dos vínculos.
Os trabalhos com grupos de familiares podem ser uma alternati-
va para incentivar, integrar e favorecer processos subjetivos por meio 
da interação entre pessoas que podem se identificar, sentir-se valori-
zadas e investidas, o que pode aumentar seu comprometimento e o 
desenvolvimento de potencialidades.
Considera-se ideal que os serviços de acolhimento se instituam nos 
bairros e nas comunidades de origem das crianças e dos adolescen-
tes como forma de preservar as referências delas e seus vínculoscom 
os grupos sociais aos quais pertencem, diminuindo as rupturas que se 
dão no processo de acolhimento.
Intervenções da psicologia social e comunitária 85
Outra forma de se trabalhar a favor do fortalecimento dos víncu-
los familiares é em parceria com o Sistema de Garantia de Direitos 
(SGD). Conforme Moreira e Paiva (2015), os serviços de acolhimen-
to podem ter sua gestão mais complexa e compartilhada com o Po-
der Judiciário e o Ministério Público, além de relações com outras 
entidades que se façam necessárias. Os autores citam o Conselho 
Tutelar e outros órgãos da assistência social, como o Centro de 
Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência 
Especializado de Assistência Social (CREAS).
A relação interinstitucional entre as entidades da rede de assis-
tência social pode ser um caminho para um acompanhamento mais 
próximo das famílias, podendo contar, também, com o acionamento 
de parentes que consigam colaborar. Além disso, é importante pro-
piciar orientações a essas famílias e favorecer a inserção delas em 
projetos que as beneficiem e proporcionem apoio de acordo com as 
necessidades que apresentem.
Entre os instrumentos que amparam o fortalecimento dos vínculos 
familiares e comunitários e servem de referência e apoio aos psicólo-
gos sociais, podemos citar:
• Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (BRASIL, 1990);
• Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adoles-
centes à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC) (BRASIL, 2006b);
• Lei 12.010, de 3 de agosto de 2009 (BRASIL, 2009);
• Resoluções do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS, 2020);
• Resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2020);
• Declaração Universal dos Direitos Humanos (CÂMARA..., 2020);
• Declaração dos Direitos da Criança (CÂMARA..., 2020);
• Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006a);
• Lei Antidrogas (BRASIL, 2006a);
• Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) (BRASIL, 2012).
86 Psicologia social e comunitária
Esses instrumentos trazem uma visão panorâmica sobre a ques-
tão da psicologia social e o fortalecimento dos vínculos familiares e 
comunitários. Trata-se de instrumentos que oferecem possibilidades 
de atuação do psicólogo social, mesmo com as dificuldades e os pro-
blemas sociais existentes no país. Assim, concluímos que é necessária 
a consolidação de políticas públicas que garantam condições mínimas 
para as famílias, bem como condições para que elas cumpram seu pa-
pel adequadamente e conquistem a autonomia.
A prática dos psicólogos sociais deve ser contextualizada e ir além 
de um assistencialismo puro. Essa prática deve ser comprometida com 
a formação dos educadores e também com o processo que envolve a 
situação e a reintegração das crianças e dos adolescentes às suas famí-
lias originais ou em famílias substitutas.
5.2 Psicologia social e as políticas 
de assistência social Vídeo
Entre outras políticas e serviços de assistência social, há o Cen-
tro de Referência de Assistência Social (CRAS), o Centro de Refe-
rência Especializado de Assistência Social (CREAS) e o Centro de 
Atenção Psicossocial (CAPS).
O espaço físico do CRAS é instituído em áreas de maior vulnerabi-
lidade social, nas quais são oferecidos serviços de assistência social 
para fortalecer a convivência com a família e com a comunidade. O 
objetivo é promover e possibilitar que a população acesse serviços, 
benefícios e projetos de assistência social por meio de ações que 
consistem em: organizar e articular as unidades da rede socioassis-
tencial e de outras políticas; ser referência para a população local e 
para os serviços setoriais e apoiar ações comunitárias por meio de 
palestras, campanhas e eventos.
Além dessas ações, a atuação do CRAS junto à comunidade é de-
terminante para o enfrentamento de problemas comuns, como fal-
ta de acessibilidade, violência no bairro, trabalho infantil, falta de 
transporte, baixa qualidade na oferta de serviços, ausência de espa-
ços de lazer, cultural, entre outros.
Com base no que foi apresen-
tado neste capítulo, elenque os 
principais objetivos da psicologia 
social e comunitária e suas áreas 
de atuação.
Atividade 1
Intervenções da psicologia social e comunitária 87
São serviços ofertados pelo CRAS:
• Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF);
• Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV);
• Orientação aos cidadãos sobre os benefícios assistenciais;
• Inscrição dos cidadãos no Cadastro Único para programas sociais do Governo 
Federal.
Já o CREAS atende famílias e pessoas em situação de risco pessoal 
e social com violação de direitos. São exemplos disso situações que 
envolvem violência física, psicológica, negligência e violência sexual, 
afastamento do convívio familiar devido à aplicação de medida de pro-
teção, situação de rua, abandono, trabalho infantil e discriminação por 
orientação sexual e por raça/etnia. Além disso, é atribuição do CREAS 
averiguar o descumprimento de condicionalidades do Programa Bolsa 
Família em decorrência de violação de direitos, cumprir medidas so-
cioeducativas, entre outras (BRASIL, 2015).
O CREAS oferta os seguintes serviços:
• Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI);
• abordagem social e serviço para pessoas com deficiência, idosas e suas famílias;
• serviço de medidas socioeducativas em meio aberto;
• orientação e encaminhamento de cidadãos para os serviços da assistência social 
ou demais serviços públicos existentes no município;
• oferta de informações, orientação jurídica, apoio à família, apoio no acesso à 
documentação pessoal e mobilização comunitária.
O artigo A atuação do psicólogo no CREAS, de Bruna Elizabeth Carvalho de 
Almeida e publicado no Portal Psicologado, fundamenta e descreve detalha-
damente os princípios e as práticas desenvolvidas pelos psicólogos sociais 
no CREAS.
Acesso em: 12 jun. 2020. 
https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-comunitaria/a-atuacao-do-psicologo-no-creas
Artigo
https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-comunitaria/a-atuacao-do-psicologo-no-creas
88 Psicologia social e comunitária
Agora que conhecemos um pouco sobre as políticas e o sistema de 
assistência social, podemos adentrar o papel do psicólogo social nes-
ses serviços. Para nos ajudar a compreender esse aspecto, podemos 
utilizar as informações do Centro de Referência Técnica em Psicologia e 
Políticas Públicas (CREPOP), que tem a função de compartilhar práticas 
relevantes por meio da produção de informação qualificada para capa-
citação dos psicólogos sociais.
O trabalho do psicólogo social nesse contexto abrange atendimen-
tos psicossociais (aconselhamento, orientação familiar e conjugal), 
atividades e ações psicossocioeducativas individuais ou em pequenos 
grupos. O profissional também realiza entrevistas de acolhimento para 
avaliação inicial, acompanha e monitora os encaminhamentos reali-
zados, faz visitas domiciliares e estabelece ações de sensibilização e 
mobilização para o enfrentamento da violação de direitos. São outras 
atribuições a capacitação da rede de atendimento, o desenvolvimento 
de práticas técnicas (registro de informação, prontuários, relatório téc-
nico, reunião de equipe e reunião para estudo de caso) e realização de 
trabalhos em grupo multiprofissional (psicólogos, assistentes sociais e 
outros) (CREPOP, 2012).
Além do CRAS e do CREAS, há a atuação de psicólogos sociais no 
CAPS. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços de saú-
de de caráter aberto e comunitário nos quais trabalham equipes multi-
profissionais que realizam atendimento a pessoas com sofrimento ou 
transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de álcool 
e outras drogas. O CAPS tem como objetivo oferecer um trabalho que 
ampare as pessoas em situações de crise ou em processos de reabili-
tação psicossocial para substitutivos do modelo asilar (BRASIL, 2017).
A função dos psicólogos sociais nesses espaçosé essencial no 
acolhimento, na proteção e no amparo às pessoas. Além disso, é 
preciso atuar de maneira interdisciplinar por meio de intervenções 
que, segundo Almeida (2018), favoreçam a compreensão do pro-
blema do indivíduo e da família. É importante potencializar o emo-
cional de cada sujeito para torná-lo capaz de investir na construção 
da própria vida e refazer os laços familiares e comunitários, tão 
fundamentais aos seres humanos.
Descreva a abrangência do 
trabalho do psicólogo social no 
sistema de assistência social.
Atividade 2
Intervenções da psicologia social e comunitária 89
5.3 Desafios da psicologia social e 
comunitária contemporânea Vídeo
Ao pensarmos nos desafios da psicologia social e comunitária, é 
necessário considerar a produção de conhecimento e intervenção em 
uma realidade social que decorre de um contexto histórico. Quanto a 
esse aspecto, Cardoso (2012) ressalta que um dos desafios da interven-
ção social está relacionado às transformações constantes das socieda-
des. A compreensão do psicólogo social e comunitário a respeito dos 
problemas sociais é que chancelará a possibilidade de relacionamento 
com as pessoas e as comunidades de modo a sustentar um trabalho 
realmente efetivo e significativo.
Freitas (1986 apud CARDOSO, 2012) explica que, de um lado, existe 
o psicólogo com sua formação, seus conhecimentos, sua metodologia 
de trabalho, sua percepção sobre o mundo e o ser humano. Já do outro 
lado, existe a comunidade com suas características e seu funcionamen-
to em um momento histórico determinado. É necessário que ambos 
os lados possam se relacionar, por isso é importante que o psicólogo 
social comunitário esteja consciente sobre o contexto em que a comu-
nidade está inserida.
Outro desafio é com relação à posição subjetiva que o psicólogo 
social comunitário deve assumir. Não se deve encarnar uma espécie de 
assistencialismo, uma vez que essa postura não é favorável à autoes-
tima necessária para a conquista da autonomia, um dos princípios da 
psicologia social comunitária. É imprescindível que as pessoas sejam 
amparadas, mas a intenção é que os sujeitos alcancem e desenvolvam 
seus próprios potenciais fundamentais para uma transformação social 
de fato, ocupando seu lugar em sua história.
Bomfim (1989) fala da resistência que a comunidade por vezes tem 
em relação à intervenção externa, o que nos leva a pensar que isso é 
comum em qualquer trabalho operado pelo psicólogo, especificamen-
te no caso dos psicólogos sociais comunitários. Parte dessa resistência 
se sustenta diante das evidentes diferenças socioeconômicas entre a 
figura do psicólogo e a comunidade, o que requer sensibilidade e habi-
lidade do profissional em conquistar seu lugar.
90 Psicologia social e comunitária
Dessa maneira, entre os desafios relacionados ao papel do psicó-
logo social e comunitário, encontramos dificuldades com relação ao 
sistema de assistência social, pois a realidade nem sempre correspon-
de aos ideais que norteiam os serviços. Muitas vezes, há um desgaste 
emocional por parte dos psicólogos sociais e comunitários que se de-
param com uma parcial impotência.
É necessário que o psicólogo social e comunitário não se perca 
dos objetivos de conscientização, em promover a igualdade e o aces-
so aos direitos básicos dos cidadãos. Além disso, é importante a di-
reção de conquista e de protagonismo por parte das pessoas. Como 
mencionado, o psicólogo social e comunitário não deve tender ao 
assistencialismo paternalista que mantém as relações de dominação 
predominante entre as classes.
No artigo A Práxis do Psicólogo Comunitário: desafios e possibilidades, 
publicado no portal Psicologado, Géssica da Silva Cardoso descreve o 
trabalho dos psicólogos sociais e comunitários e traz recortes teóricos que 
contextualizam as principais teorias da psicologia e como elas podem ser 
aplicadas no trabalho.
Acesso em: 12 jun. 2020. 
https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-comunitaria/a-praxis-do-psicologo-comunitario-desafios-e-possibilidades
Artigo
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A atuação do psicólogo social e comunitário é complexa, pois deman-
da dos profissionais mais do que conhecimento e técnica, exige recursos 
subjetivos para que eles possam cumprir seu papel sem restringi-lo à pro-
dução de laudos e relatórios. A intenção é que esse profissional não cor-
ra o risco de encarnar uma posição apenas avaliativa, que centraliza um 
saber sobre as pessoas, pois a amplitude do trabalho se dá exatamente 
no inverso, no sentido de que o profissional possa acolher o saber das 
pessoas e da comunidade sobre elas mesmas para poder alcançá-lo e 
interagir sobre ele.
Para que o trabalho nas comunidades seja possível, é preciso que o 
psicólogo social e comunitário seja aceito por elas. Essa inserção é chan-
celada com a compreensão das diferenças e dos contextos históricos e 
sociais das comunidades. Nesse sentido, sua postura é determinante.
Liste os desafios que a psicologia 
social e comunitária encontra no 
decorrer da sua atuação.
Atividade 3
Intervenções da psicologia social e comunitária 91
O psicólogo social e comunitário deve ter cuidado com relação ao pa-
pel de “ajudador”. O assistencialismo paternalista prejudica a conscienti-
zação e a valorização dos sujeitos para que eles possam ser protagonistas, 
sujeitos ativos da sua história e exerçam a desejada autonomia.
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em:  https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-comunitaria/a-atuacao-do-psicologo-
no-creas. Acesso em: 12 jun. 2020.
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Social: Creas. 26 jun. 2015. Disponível em: http://mds.gov.br/assuntos/assistencia-social/
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92 Psicologia social e comunitária
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CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Eixo 3: 
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da-crianca-e-do-adolescente/eixo-3-fortalecimento-do-sistema-de-garantia-de-direitos. 
Acesso em: 12 jun. 2020.
CREPOP – Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas. Referência 
Técnica para Atuação de Psicólogas(os) em Programas de Medidas Socioeducativas em 
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uploads/2012/10/Atua%C3%A7%C3%A3o-dasos-Psic%C3%B3logasos-em-Programas-de-
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MOREIRA, T. A. S.; PAIVA, I. L. Atuação do psicólogo nos serviços de acolhimento 
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Disponível em:  https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-juridica/atuacao-do-
psicologo-no-sistema-prisional-brasileiro. Acesso em: 12 jun. 2020.
Intervenções da psicologia social e comunitária 93
GABARITO
1. A psicologia social tem por objetivo promover bem-estar ao indivíduo considerando 
o meio social no qual vive; favorecer a comunicação, o relacionamento entre as pes-
soas inseridas na comunidade. Ela visa a transformações coletivas que reflitam na 
realidade social por meio da conscientização e do desenvolvimento da autonomia. 
Sua atuação pode ocorrer em escolas, em clínicas, na área da saúde (SUS), no sistema 
prisional brasileiro, nos serviços de acolhimento, nos serviços de assistência social 
(CRAS, CREAS), entre outros.
2. O trabalho do psicólogo social abrange os atendimentos psicossociais (aconselha-
mento, orientação familiar e conjugal), atividades e ações psicossocioeducativas indi-
viduais ou em pequenos grupos, realização de entrevistas de acolhimento para ava-
liação inicial e acompanhamento e monitoramento dos encaminhamentos realizados. 
Além disso, é atribuição do profissional a realização de visitas domiciliares, ações de 
sensibilização e mobilização para o enfrentamento da violação de direitos, capacita-
ção da rede de atendimento e práticas técnicas como registro de informação, pron-
tuários, relatório técnico, reunião de equipe e reunião para estudo de caso. Por fim, o 
psicólogo social também realiza trabalhos com grupos multiprofissionais (psicólogos, 
assistentes sociais e outros profissionais).
3. Em síntese, os desafios enfrentados pela psicologia social e comunitária são:
• transformações constantes da sociedade;
• necessidade de compreender de maneira aprofundada os problemas sociais;
• consciência sobre o contexto no qual a comunidade está inserida;
• sustentar posição subjetiva diferente da assistencialista;
• superar as possíveis resistências da comunidade em relação a intervenções externas;
• dificuldades próprias do sistema de assistência social.
Priscila M
ossato Rodrigues Barbosa
PSICO
LO
GIA SO
CIAL E CO
M
UN
ITÁRIA
Fundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-6644-5
9 7 8 8 5 3 8 7 6 6 4 4 5
Código Logístico
59440
	Página em branco
	Página em brancoe/ou definição de políticas 
públicas (CRP09, 2015).
Além disso, o mesmo documento ressalta que esse profissional tem 
o compromisso de realizar estudos, pesquisas e supervisão quanto à 
relação do indivíduo com a sociedade, a fim de oportunizar a proble-
matização e a estruturação de proposições que qualifiquem o trabalho, 
bem como a formação no campo da psicologia social (CRP09, 2015).
Identificação designa um proces-
so psicológico inconsciente pelo 
qual o sujeito se constitui ou se 
transforma, assimilando ou se 
apropriando de aspectos, atribu-
tos ou traços das pessoas mais 
próximas (ZIMERMAN, 2001).
1
14 Psicologia social e comunitária
É válido destacar que a atuação prática da psicologia social é condi-
cionada ao contexto tanto quanto às demandas sociais, que são variá-
veis. Trata-se de uma prática que tem se ampliado proporcionalmente 
aos movimentos sociais, assim como às políticas governamentais em 
saúde pública (CRP09, 2015).
Para atender às necessidades sociais, a psicologia social é apli-
cada em subáreas – psicologia comunitária, ambiental/ecologia 
humana, do trabalho, da saúde e dos movimentos sociais, por 
exemplo. Além disso, ela está relacionada às práticas psicossociais 
específicas, como de direitos humanos, de situações de emergên-
cia e desastres, de grupos de mulheres, de população em situação 
de rua, terceira idade, entre outras.
Segundo Góis (1993 apud CAMPOS, 2015, p. 11) a psicologia social 
estuda a atividade do psiquismo consequente do modo de vida do lu-
gar ou da comunidade e, da mesma forma, estuda “o sistema de rela-
ções e representações, identidade, níveis de consciência, identificação 
e pertinência dos indivíduos ao lugar/comunidade e aos grupos comu-
nitários”. A intenção é que haja o desenvolvimento da consciência de 
sujeitos históricos e comunitários, por meio da dedicação interdiscipli-
nar no desenvolvimento dos grupos e da comunidade, ou seja, que o 
indivíduo se transforme em sujeito.
Campos (2015) explica que, desde meados da década de 1960, há a 
aplicação de teorias e métodos da psicologia no trabalho com comuni-
dades de baixa renda, tendo em vista a busca por melhores condições 
de vida da população. Esse campo teórico e prático passou a ser cha-
mado de psicologia comunitária.
O início dos trabalhos de psicologia social comunitária acon-
teceu em bairros populares, favelas, associações de bairro e mo-
vimentos populares. Somente após a ampliação dos sistema de 
saúde e educação pública no Brasil é que a psicologia social comu-
nitária passou a atuar em postos de saúde, creches, instituições de 
promoção de bem-estar social etc.
Os trabalhos comunitários se efetivam com base no levantamento 
das necessidades e carências – por exemplo, condições de saúde, edu-
cação e saneamento básico – de determinado grupo. Após o levanta-
mento das necessidades, o trabalho consiste na conscientização dos 
grupos, objetivando a apropriação dos indivíduos do seu papel de su-
Psicologia social e comunitária 15
jeitos ativos, conscientes e capazes de buscar estratégias que solucio-
nem seus problemas (CAMPOS, 2015).
As produções teóricas e práticas da psicologia social comunitá-
ria se caracterizam pelo desenvolvimento de práticas cooperativas 
ou autogestionárias, fundamentadas na ética da solidariedade. 
O desenvolvimento do trabalho nessa área se sustenta por meio da 
conscientização de causas sociopolíticas e do desenvolvimento do 
senso crítico sobre o contexto dos problemas que fazem parte do 
cotidiano da comunidade.
Campos (2015) destaca que os conceitos utilizados na psicologia 
social se verificam nas contribuições das teorias de abordagem cog-
nitivista, das representações sociais e do interacionismo simbólico. 
Em termos teóricos, seu conhecimento é produzido com a interação 
entre o psicólogo social e os sujeitos. A organização do saber – já 
construído pela psicologia social – é articulado ao saber da comu-
nidade para coordenar processos e encaminhamentos que visam à 
transformação da realidade. A metodologia utilizada é a pesquisa 
participante, “na qual o pesquisador e os sujeitos da pesquisa traba-
lham juntos na busca de explicações para os problemas colocados, 
e no planejamento e execução de programas de transformação da 
realidade vivida” (CAMPOS, 2015, p. 10).
Ainda de acordo com Campos, os trabalhos de psicologia social 
e comunitária enfatizam, sobretudo, a ética da solidariedade, assim 
como os direitos humanos fundamentais e a busca pela melhoria da 
qualidade de vida da população. Bonfim (1987) ressalta o compro-
misso ético e político que a psicologia social e comunitária assume 
ao trabalhar com o intuito de que haja condições adequadas para o 
exercício pleno da cidadania, democracia e igualdade. Em termos po-
líticos, a psicologia social e comunitária busca o desenvolvimento de 
práticas de autogestão cooperativa e o questionamento das formas 
de opressão e de dominação.
O aspecto social deve ser entendido como tudo aquilo que se refere 
à vida coletiva e psicológica do indivíduo, atuando de modo determi-
nante sobre o comportamento individual e se inscrevendo no corpo e 
psiquismo humano. Assim, se considera a complexidade envolvida na 
construção de conhecimento e sua efetivação prática (CAMPOS, 2015).
autogestionário: relativo à 
autogestão.
Glossário
Discorra sobre o modo de 
atuação da psicologia social e 
comunitária.
Atividade 1
16 Psicologia social e comunitária
Historicamente, a psicologia social buscou, desde seu início, identi-
ficar de que modo as relações interpessoais são fundamentais para a 
constituição das funções psicológicas e da subjetividade do sujeito. Ela 
tenta compreender como isso varia de um contexto sociocultural para 
outro (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001).
Na Seção 1.3, faremos um apanhado histórico para clarificar e enten-
dermos o percurso e o desenvolvimento da psicologia social, bem como 
da psicologia social comunitária, desde seu início até a atualidade.
1.3 Psicologia social e comunitária no Brasil 
Vídeo Para conhecermos os aspectos referentes à psicologia social e co-
munitária no Brasil, precisamos, primeiramente, realizar uma breve 
contextualização da psicologia social no mundo para, depois, enten-
dermos como esse campo se desenvolveu no país.
Quando Wundt desenvolveu o primeiro laboratório experimental, já 
havia um estímulo aos estudos em psicologia social (DAVIDOFF, 2004). 
O pesquisador se ocupava de temas como linguagem, cultura, mitos, 
religião e costumes. Nesse sentido, segundo Bernardes (2001), já se 
considerava que os fenômenos coletivos não poderiam ser reduzidos à 
consciência individual, fato que endereça várias questões à psicologia 
social como campo de investigação. Dessa forma, os objetos de estu-
do eram pertinentes tanto à esfera individual quanto à esfera coletiva. 
Desde o início dos estudos em psicologia, os fenômenos sociais são 
considerados (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001).
A psicologia social teve seu desenvolvimento acentuado na Europa 
e nos Estados Unidos após o término da Segunda Guerra Mundial 
(1939-1945). Esse fato ocorreu devido à necessidade de estudos sobre 
a moral das tropas em tempos de guerra, suas motivações, episódios 
de estresse, enfrentamento de situações adversas e seus efeitos psico-
lógicos (FARR, 2004).
As publicações de trabalhos com esse enfoque acabaram sendo 
base para a psicologia social nos EUA e a obra The American Soldier – em 
português, O Soldado Americano (1949) –, sob a editoração do sociólogo 
Samuel Stouffer (1900-1960), abordou o treinamento e a adaptação dos 
soldados, a vida no exército e suas consequências. Essa obra inspirou a 
busca por soluções de problemas causados por esse contexto.
Explique qual é o objeto de 
estudo da psicologia social.
Atividade 2
Psicologia social e comunitária 17
Na década de 1950, iniciava-se a sistematização de modelos cientí-
ficos. A tendência dominante era a pragmática americana, que preten-
dia garantir a produtividade de grupos e a minimizaçãodos conflitos 
humanos. Já na Europa, foram desenvolvidos modelos científicos com 
raízes na fenomenologia (LANE; CODO, 1984).
Bernardes (2001) faz uma comparação interessante ao afirmar 
que a psicologia social está para a Segunda Guerra Mundial assim 
como os testes psicométricos estão para a Primeira Guerra. Em 
outras palavras, esses dois momentos são caracterizados por um 
“utilitarismo” na psicologia.
Com relação aos referenciais teóricos, pode-se afirmar que aqueles 
que privilegiavam a interação do sujeito com o meio foram os que 
tiveram mais espaço. São eles: o behaviorismo radical, de Burrhus 
Skinner (1904-1990); a abordagem histórico-cultural, de Lev Vygotsky 
(1896-1934); e a teoria sistêmica, de Ludwig von Bertalanffy (1901-1973) 
(SCHULTZ; SCHULTZ, 1998). É importante que haja esse pluralismo, a 
propósito, ele ocorre em virtude da complexidade dessa área. Ainda 
que possa haver erros nas interpretações de fenômenos sociais, certa 
abertura teórica auxilia na sua compreensão.
O surgimento da Escola de Frankfurt também foi importante para 
a história da psicologia social. Conhecida como o Instituto de Pesquisa 
Social, seu estudo incluía o entendimento da sociedade e o comporta-
mento autoritário de alguns ditadores europeus.
Lane (2006) explica que os cientistas do Instituto de Pesquisa Social 
buscavam compreender as origens e as causas do comportamento do 
indivíduo. Para isso, aprofundavam os estudos sobre traços de perso-
nalidade, atitudes, preconceitos e motivações, contudo, acabavam por 
tomar o indivíduo e a sociedade como fenômenos distintos.
Segundo Lane, foi nesse período que surgiu a chamada crise da 
psicologia social, oriunda dos trabalhos dos próprios cientistas e psi-
cólogos sociais e feitas em virtude da continuidade dos problemas. O 
preconceito, a violência e a miséria permaneciam, e o ser humano apa-
rentava se desumanizar nos centros urbanos. A crise era tanto meto-
dológica quanto prática, o que dificultava intervenções, explicações e 
prevenções com relação ao comportamento social.
Na Europa, no fim da década de 1960, as crises se intensificaram 
e expuseram que “nada poderia ser alterado nas condições sociais de 
A psicometria é o ramo da 
psicologia que pesquisa e 
aplica técnicas de mensuração 
das capacidades mentais. 
O teste mais famoso é o QI 
(quociente de inteligência). 
Os testes psicológicos de 
inteligência e personalidade 
foram amplamente utilizados 
pelos norte-americanos durante 
a Primeira Guerra Mundial 
(1914-1918), especialmente 
pelo exército, com o objetivo de 
classificar os recrutas (SCHULTZ; 
SCHULTZ, 1998).
Saiba mais
18 Psicologia social e comunitária
vida de qualquer sociedade, se a base fosse os conhecimentos desen-
volvidos até aquele momento” (LANE, 2006, p. 78).
É importante saber que dois grandes congressos tiveram um papel 
importante na história da psicologia social. O primeiro ocorreu no ano 
de 1976, em Miami, nos EUA. Nele, participaram muitos profissionais 
latino-americanos, que, diante das críticas, discutiram e tentaram enca-
minhar os rumos de uma psicologia social que atendesse às demandas 
da realidade cotidiana, com fortes influências de bases materialistas e 
históricas (LANE, 1984).
O segundo, Congresso de Psicologia Interamericana, aconteceu em 
1979, na cidade de Lima, no Peru. Pode-se dizer que, nesse congresso, 
teve início um novo momento e, finalmente, uma redefinição da psico-
logia social. A Assembleia da Associação Latino-Americana de Psicolo-
gia Social (Alapso) foi uma iniciativa criada para promover e fortalecer 
os estudos na área.
Entre as discussões que ocorreram nesse congresso, foram le-
vantados o problema da dependência teórica e a reprodução do co-
nhecimento norte-americano. Isso ocorria em virtude de os modelos 
estrangeiros não englobarem a realidade latino-americana, especial-
mente a brasileira (LANE, 2006).
Na América Latina, a crise também teve um caráter político, com a 
tendência de pensar e propor práticas de psicologia social dirigidas às 
condições de cada país. É fato que as ditaduras militares – nas décadas 
de 1960 e 1970 – favoreceram o debate sobre o papel de psicólogos e 
da psicologia social e comunitária, embora existisse a tendência teórica 
americanizada (LANE, 1995).
Algum tempo depois desse congresso no Peru, psicólogos bra-
sileiros associados à Alapso promoveram o Encontro de Psicologia 
Social, no qual emergiu a Associação Brasileira de Psicologia Social 
(Abrapso). A intenção era de intensificar as trocas e produções en-
tre os estudiosos de todas as regiões do país. Os psicólogos sociais 
se comprometeram com o estudo da realidade social, desenvolve-
ram novas ações para reposicionar essa área e priorizaram a par-
ticipação dos indivíduos nas transformações sociais (LANE, 2006). 
Com isso, se abriu um espaço para a psicologia social comunitária, 
que se desenvolveria em um próximo momento.
Psicologia social e comunitária 19
Nesse período, a psicologia social passa a ter uma abordagem 
crítica, na qual a perspectiva teórica conduz a uma nova concepção 
histórica e social do ser humano. O sujeito pode ser tomado como 
produto das relações, mas, do mesmo modo, ele é produtor; com 
isso, a ciência também passa a ser tomada como uma prática social 
(GUARESCHI; BRUSCHI, 2003). Não se tinha mais a premissa de que a 
psicologia teria leis universais – como sustentavam as tendências prag-
máticas americanas –, mas, sim, perspectivas subjetivas, singulares. 
Além disso, não havia consenso entre a relação do aspecto biológico 
da espécie e o aspecto histórico e cultural das sociedades (LANE, 1995).
O texto A psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia, de Ana 
Mercês Bahia Bock, aborda de modo interessante o compromisso social da 
psicologia por meio da perspectiva sócio-histórica. 
In: BOCK, A. M. B; GONÇALVES, M. G. G.; FURTADO, O. (orgs.). Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica 
em psicologia. São Paulo: Cortez, 2001.
Leitura
Com a revisão crítica dos aspectos teóricos e suas aplicabilidades 
práticas, alguns conteúdos passaram a se destacar. Um exemplo é a 
psicologia da linguagem, que é entendida como um fenômeno dinâmi-
co e construído historicamente pela sociedade, além de participar das 
funções psíquicas (pensamento e sentimento). Outro exemplo é a teo-
ria da identidade social – que estuda como os grupos se formam e suas 
dinâmicas – e a criação de técnicas de dinâmicas de grupo 2 . Os papéis 
sociais e as relações de poder também passam a ser temas de estudo.
Esses congressos internacionais foram fundamentais e evidenciaram 
as preocupações dos psicólogos sociais de toda a América Latina em 
produzir um conhecimento realmente transformador. Buscava-se uma 
metodologia de pesquisa que, sobretudo, pudesse alcançar o sujeito em 
seu contexto histórico e favorecesse a interdisciplinaridade, com o obje-
tivo de efetivar uma prática comprometida com a realidade social.
Nesse sentido, o método de pesquisa participante é considerado 
um dos mais adequados para acompanhar transformações sociais. 
Além dele, outras estratégias podem ser utilizadas, como a obser-
vação em processos grupais, estudos de caso e estudos mediante 
relatos históricos de vida.
Dinâmica de grupo é uma 
técnica na qual simula-se uma 
situação social em determinado 
grupo, de modo que o desem-
penho dos indivíduos é avaliado 
por um psicólogo, conside-
rando a aplicação de conceitos 
relativos ao comportamento 
individual e grupal (SCHULTZ; 
SCHULTZ,1998).
2
20 Psicologia social e comunitária
A história da psicologia social na América Latina foi permeada pela 
ideia de que a ciência deveria produzir efeitos práticos ou ser desenvol-
vida com base em uma prática que resultaria em uma sistematização 
teórica. Desse modo, podemos afirmar que a psicologia social e comu-
nitária criou as bases para a atuação transformadora e crítica, com ori-
gem nas relações de grupos (LANE, 1995).
A psicologia social e comunitária é, portanto, caracterizadapela ar-
ticulação entre teoria, pesquisa e prática. Sua comprovação teórica é 
fruto da transformação da realidade por meio da prática. No Brasil, 
como mencionado, as práticas da psicologia social tiveram origem em 
1960 e, até a década de 1970, apresentavam a mesma problemática: a 
alienação da própria realidade e a adoção do modelo norte-americano.
O rompimento com o modelo norte-americano ocorreu na década 
de 1980, com influência da psicologia marxista. Segundo Bernardes 
(2001, p. 31):
Os países latino-americanos conseguem construir uma pro-
dução em psicologia social que não deixa nada a desejar à 
produção do restante do Ocidente. Contextualizada, histórica, 
preocupada com a cultura, valores, mitos e rituais, brasileiros e 
latino-americanos em geral, já não veem mais necessidade de 
importação desenfreada de teorias e métodos cientificistas.
Além disso, o surgimento da Abrapso, como abordado anteriormente, 
também foi determinante, uma vez que essa entidade se preocupa em 
promover congressos e pesquisas. Seu surgimento ocorreu em julho de 
1980, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A professora 
doutora Sílvia Lane – que coordenou esse processo com a temática “Psi-
cologia social como ação transformadora” – é até hoje referência na área.
A Abrapso pode ser considerada, portanto, decisiva para o desen-
volvimento da psicologia social no Brasil. A instituição promove encon-
tros periódicos, nos quais se apresentam diferentes experiências em 
psicologia social. Entre seus objetivos, destaca-se a ampliação e de-
mocratização do serviço para população. Ainda, a Abrapso conta com 
núcleos regionais de pesquisa e estudos (CAMPOS, 2015). As ações da 
instituição foram extremamente importantes, visto que, desde o início, 
a psicologia, em geral, era acessível apenas para uma parcela da popu-
lação, tendo, consequentemente, um viés que pode ser considerado 
elitista (BOCK, 2003; LANE, 2006; YAMAMOTO, 2003).
Psicologia social e comunitária 21
Recentemente, com a evolução da tecnologia, alguns pesquisadores 
passaram a estudar, entre outros temas, a cognição social, a comunica-
ção, o processamento das informações e o mundo virtual. A psicologia 
social, nesse sentido, também teve seu crescimento e está presente 
com distintas funções em diversas áreas: acadêmica, nas disciplinas e 
nos estágios das graduações em psicologia; profissional, nas clínicas, 
nos centros de atenção psicossocial e nas empresas; e na pesquisa.
Alguns autores, como Lane e Codo (1984), distinguem a atuação da 
psicologia em psicológica e social. A vertente psicológica reduz expli-
cações do coletivo e social às leis individuais e envolve reflexões sobre 
como extrair entidades psicológicas dos fenômenos sociais. Já a verten-
te social reflete a relação entre o individual e o coletivo.
Segundo Lane (2007), há a necessidade de trabalhos e práticas que 
tenham qualidade e competência suficientes para identificar e respon-
der às exigências feitas por setores da sociedade (saúde, educação, 
bem-estar social etc.) para que a psicologia não se afaste das deman-
das sociais e se torne pouco útil.
O profissional da área de psicologia social deve considerar os as-
pectos históricos gerais e regionais, assim como conhecer a cultura e o 
local a se trabalhar. Além disso, esse profissional deve contribuir para 
construir novos significados de interação social, proporcionar oportu-
nidades para diálogo e adaptação salutar 3 (LANE, 2007).
Por fim, a psicologia social é desafiada a intervir nas questões so-
ciais impostas pela contemporaneidade, o que confere a esse trabalho 
uma complexidade própria.
Descreva as origens da 
psicologia social e as relacione 
com as críticas sofridas em seu 
processo histórico e com as 
transformações que ocorreram 
por meio delas.
Atividade 3
Adaptação saudável; pessoas 
saudáveis psicologicamente.
3
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste capítulo, pudemos conhecer um pouco a trajetória da psicologia 
e como ela se instituiu como ciência. É importante pensar que o ser huma-
no sempre se sentiu intrigado e procurou compreender a vida psíquica. 
Por vezes, é comum buscar essa compreensão em caminhos diferentes 
da psicologia científica e encontrar explicações e aconselhamentos em 
fontes como misticismo, religião, astrologia, entre outros.
A psicologia teve seu processo de construção científica e, com isso, des-
cobriu muito sobre o ser humano e seu psiquismo. Diversas hipóteses foram 
levantadas e, por meio de métodos científicos, foram elaboradas teorias. 
22 Psicologia social e comunitária
Desse modo, esse campo do conhecimento teve muitos avanços e 
diversas áreas surgiram. Ocupando-se do estudo do indivíduo e sua 
inter-relação com a sociedade, a psicologia social é uma das áreas 
emergentes da psicologia geral.
Inicialmente, estudava-se o indivíduo separado da sociedade, o que 
gerou muitas críticas. Contudo, essas críticas foram construtivas, uma vez 
que, por meio delas, foi possível construir uma nova perspectiva, com ên-
fase socio-histórica, na qual considera o ser humano como sujeito ativo, 
não estático e reducionista.
É fundamental compreender que o ser humano é um sujeito 
biopsicossocial, desse modo, é um erro tentarmos “fragmentá-lo” e buscar 
compreendê-lo sem considerar a tessitura que o humaniza. Ele é um ser 
biológico, mas também relacional, social e histórico.
A linguagem é um elemento extremamente importante e muito 
considerado pela corrente sócio-histórica. Ela se dá apoiada no aparato 
fisiológico, medeia a relação entre os humanos, participa da construção 
do pensamento e, por isso, é um produto cultural e sustenta o social.
A psicologia social contribui para o entendimento de vários problemas 
e pode oferecer subsídios na busca por soluções. A psicologia social co-
munitária se estabelece em virtude de as questões e os conflitos existen-
tes nas sociedades perpassarem pelas experiências vividas, o que impõe 
reflexões, implicações e compromisso social.
REFERÊNCIAS
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Petrópolis: Vozes, 2001.
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Petrópolis: Vozes, 2015.
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2015. Disponível em: http://www.crp09.org.br/portal/orientacao-e-fiscalizacao/orientacao-
por-temas/areas-de-atuacao-do-a-psicologo-a. Acesso em: 12 jun. 2020.
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Psicologia social e comunitária 23
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SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, S. E. História da psicologia moderna. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1998.
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ZIMERMAN, D. E. Vocabuláriocontemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.
GABARITO
1. A atuação prática da psicologia social é condicionada ao contexto e às demandas so-
ciais, que variam. Sua aplicação ocorre em subáreas, como a psicologia comunitária, 
ambiental/ecologia, do trabalho, da saúde, dos movimentos sociais, além de práticas 
psicossociais específicas – por exemplo, direitos humanos, situações de emergência e 
desastres, grupos de mulheres, populações em situação de rua, terceira idade etc. Os 
trabalhos comunitários devem se efetivar com base em um levantamento das neces-
sidades e carências do grupo em questão, por exemplo, condições de saúde, educa-
ção e saneamento básico. Na sequência, há a utilização de métodos e processos de 
conscientização no trabalho com os grupos populares, a fim de que os indivíduos se 
apropriem progressivamente do seu papel de sujeitos ativos, conscientes e busquem 
soluções para os problemas. 
2. A psicologia social estuda a interação social e suas origens, abarcando o pensamento 
social, a história do indivíduo, seus costumes e valores. Ela compreende as formas de 
relacionamento humano no âmbito social, como comportamentos em grupo (os cha-
mados fenômenos de grupo), motivações, comoções, violência social, altruísmo social 
e construção de estereótipos e preconceitos. A psicologia social tem como objetivo 
conhecer características e grupos de indivíduos no conjunto de suas relações sociais. 
Além disso, ela busca superar a cultura do individualismo, tendo como premissa que 
o conhecimento se constrói na interação social (sociointeracionista). Por fim, a psi-
cologia social estuda as instituições sociais e suas diferentes manifestações, assim 
como fenômenos que envolvem multidões de pessoas, relações de poder e domina-
ção, propaganda, processos de influência social que englobam aspectos emocionais, 
inconscientes, afetivos e irracionais.
3. No início, a psicologia científica se caracterizou, predominantemente, em sua li-
gação com a fisiologia. Mais tarde, ela se ampliou para além dessa relação, de 
modo que hoje pode ser considerada nas dimensões fisiológica, psíquica e social. 
A psicologia social emerge do esforço de compreender o ser humano socialmente, 
visto que muitos fenômenos humanos não podem ser completamente entendidos 
considerando apenas aspectos individuais. Historicamente, a psicologia social na 
24 Psicologia social e comunitária
América Latina e no Brasil é caracterizada por uma crise após a década de 1960. Com 
isso, há um investimento para que as práticas se tornem mais comprometidas com 
transformações sociais, envolvendo contextos políticos e específicos de cada região, 
além de um desapego às teorias norte-americanas e europeias, distantes da realida-
de latino-americana. No Brasil, o desenvolvimento da Abrapso, bem como a reação 
à opressão política, ideológica e econômica do período militar são alguns fatores. A 
psicologia social tem como objetivo ampliar e democratizar o fornecimento de servi-
ços a favor da população em geral.
Constituição do sujeito 25
2
Constituição do sujeito
Ao iniciarmos este capítulo, vamos estabelecer dois pressupos-
tos para o desenvolvimento dos temas. O primeiro é o de que a 
psicologia social estuda o comportamento do indivíduo na condi-
ção de influenciado e influenciador social. Já o segundo parte do 
fato de a socialidade, tão própria da condição humana, fazer parte 
do sujeito antes mesmo de ele nascer.
Nosso objetivo neste capítulo é entender – com base nesses 
pressupostos – como o sujeito se constitui subjetivamente, isto é, 
suas dimensões, sua subjetividade, sua identidade, sua afetividade 
e sua consciência. Esses conceitos levantam o seguinte questiona-
mento: como podemos ser sujeitos individualizados e, simultanea-
mente, tão coletivos?
Para respondê-lo, é importante conhecermos como a socializa-
ção acontece, quer dizer, quais são seus agentes e processos, bem 
como as questões que envolvem a relação dos sujeitos com a cul-
tura. Isso nos leva a concluir que há uma articulação fundamental 
entre indivíduo, sociedade e cultura. Contudo, não se exclui o fato 
de que, ao mesmo tempo, cada sujeito é único, singular em suas 
vivências e em sua personalidade.
Este estudo nos convida, portanto, à compreensão dos proces-
sos subjetivos e sociais, desvelando algo que diz respeito a nós 
mesmos, na nossa complexa forma de estar no mundo.
2.1 Psicologia do desenvolvimento 
e a constituição do sujeitoVídeo
Para compreendermos o fato de antes de nascermos já sermos in-
seridos socialmente, pense na seguinte afirmativa: quando um bebê 
nasce, ele é imediatamente inserido em uma ordem simbólica da hu-
26 Psicologia social e comunitária
manidade. Desde o nascimento e por todo percurso da vida, nós nos 
relacionamos socialmente com pessoas e grupos, bem como com con-
textos históricos e culturais.
Segundo Barbosa (2009, p. 47):
O contexto simbólico (social, histórico e cultural), portanto, é o 
que insere a existência de um ser na humanidade. É representa-
do pela língua materna, pelo nome que é escolhido para desig-
ná-lo, a história sobre sua origem (data e lugar de nascimento, 
filiação), as quais são referências essenciais para que se desen-
volva o sentimento de pertença e segurança, a partir de algo que 
se torna sempre familiar, sua identidade.
Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, há uma in-
terdependência indissociável entre o orgânico, o psíquico e o social. 
O sujeito se constitui como um ser biopsicossocial, de maneira arti-
culada entre maturação, crescimento, desenvolvimento, subjetivida-
de e aprendizagem.
A psicologia do desenvolvimento estuda e produz conhecimento 
articulando o ciclo biológico do ser humano – desenvolvimento em-
brionário, feto, nascimento, crescimento, reprodução, envelhecimento 
e morte – com os desenvolvimentos psicológico e socioambiental. O 
desenvolvimento ocorre com a articulação de todas essas dimensões 
da existência humana. Sua separação para estudo é meramente didá-
tica, uma vez que essas dimensões incidem sobre o sujeito de modo 
simultâneo e interligado.
Com base nessa premissa, podemos apresentar as definições en-
contradas em Mariotto (2018). Essas definições, além de serem interde-
pendentes, são diferentes entre si, pois compreendem características 
específicas; os conceitos de desenvolvimento e aprendizagem acompa-
nharão todas essas definições.
A primeira definição versa sobre a noção de maturação, ligada à 
fisiologia e ao avanço das estruturas nervosas. Essa evolução possibili-
ta que haja instalação de funções e aquisição de habilidades; é impor-
tante, contudo, entender que a maturação por si só não garante essas 
aquisições. Um exemplo disso é a fala: para desenvolver a habilidade 
de falar, os seres humanos necessitam de um aparato fisiológico fona-
dor. Entretanto, a presença desse aparato não garante que o ser hu-
mano fale por si só – ele precisa, também, de condições relacionais e 
ambientais, ou seja, é necessário que alguém fale com ele. Enquanto 
Constituição do sujeito 27
o aparelho fonador não está maduro, a criança ainda não pode falar, 
embora se fale muito com ela. Desse modo, a maturação oferece con-
dições para que haja o desenvolvimento e a aprendizagem.
A segunda definição compreende a noção de crescimento. O 
crescimento, assim como a maturação, também diz respeito à di-
mensão fisiológica e à evolução corporal no sentido das medidas e 
proporções. Além disso, essa noção está relacionada às aquisições 
funcionais características de cada idade, como as funções sexuais 
e reprodutivas.
A terceira definição é o desenvolvimento, que representa a capaci-
dade adaptativa. Essa expressão adaptativa ao meio e ao mundo social 
se apoia nos recursos conquistados na maturação, e isso só é possível 
em função das conquistas das habilidades físicas e mentais. O desen-
volvimento engloba os processos da personalidade e a aptidão para 
dar significação às experiências e às interpretações sobre seu entorno.A quarta definição é a subjetividade. A sua formação está relacio-
nada à incursão do ser humano no mundo simbólico da linguagem, 
pois é nesse momento que a criança se situa em determinada cultura e 
adquire sua identidade particular.
A maturação, o crescimento e, particularmente, o desenvolvimen-
to dependem dos processos de formação da vida psíquica e são pro-
fundamente sensíveis a eles. É importante ressaltar que todos esses 
processos estão condicionados pelos adultos próximos à criança, 
inicialmente por meio da relação entre mãe e filho. A figura materna 
pode ser considerada, aqui, uma função: sempre que nos referirmos a 
ela, estamos nomeando uma função que pode ser exercida pela mãe 
ou outra pessoa que realize os cuidados próprios da maternagem. A 
constituição do sujeito acontece na troca relacional e primitiva com 
a função da maternagem; ela ocorre por meio de identificações e pela 
transmissão de significações afetivas, morais, entre outras.
Shaffer (2005), no prefácio de sua obra Psicologia do desenvolvimen-
to: infância e adolescência, afirma que o desenvolvimento humano é 
um processo holístico e contínuo. Embora alguns pesquisadores se 
ocupem com tópicos particulares do desenvolvimento humano – por 
exemplo, os desenvolvimentos físico, cognitivo ou moral –, o desenvol-
vimento, em virtude de suas características, não pode ser fragmentado. 
Shaffer (2005) afirma que os seres humanos são, ao mesmo tempo, 
David R. Shaffer, em 
sua obra Psicologia do 
desenvolvimento: infância 
e adolescência, faz um 
apanhado sobre o desen-
volvimento humano até a 
adolescência, explorando 
as principais teorias da 
psicologia do desenvolvi-
mento. O autor apresenta 
também pesquisas preo-
cupadas em identificar e 
entender os processos 
desenvolvimentais, 
fatores biológicos e 
ambientais. 
SHAFFER, D. R. São Paulo: Pioneira 
Thomson Learning, 2005.
Livro
holístico: que busca o entendi-
mento integral dos fenômenos.
Glossário
28 Psicologia social e comunitária
criaturas físicas, cognitivas, sociais e emocionais; cada um desses com-
ponentes do “eu” depende parcialmente das mudanças que ocorrem 
em outras áreas do desenvolvimento.
O fato de sermos filhos de seres humanos não garante nossa huma-
nização. Precisamos ter uma história e memórias que constituam um 
repertório de experiências que angariamos em nosso percurso de vida. 
Nesse sentido, as variáveis da formação de nossa subjetividade não de-
pendem somente de nós mesmos e de nossos dotes inatos da infância. 
Elas dependem especialmente de um humano adulto, que se relaciona 
e cuida, em um processo complexo de enlaces subjetivos e simbólicos, 
os quais instituem bases e recursos para o desenvolvimento de novos 
processos interpessoais. Esses processos se atualizam e se ampliam 
pelo resto da vida em todos os grupos e experiências sociais.
2.2 Dimensões do sujeito
Vídeo Para compreendermos as dimensões do sujeito, podemos retomar 
a ideia de que o ser humano é um ser biopsicossocial. Nesse sentido, 
sua fisiologia biológica é a base da sua existência, que garante possibi-
lidades para o desenvolvimento do psiquismo e da sociabilidade; esse 
desenvolvimento, por sua vez, ocorre articulado com as condições do 
meio. Embora o ser humano não possa ser considerado um ser instin-
tivo, ele carrega características historicamente desenvolvidas que mos-
tram sua predisposição em se relacionar. Um fato interessante é que, 
apesar de uma base comum e objetiva, cada ser se tornará único no 
processo de desenvolvimento.
Na sequência, vamos abordar alguns conceitos inerentes às di-
mensões do sujeito. Eles são úteis para o entendimento da psicolo-
gia social e comunitária.
2.2.1 Identidade
Embora a ideia de identidade faça parte do nosso cotidiano – temos 
até documentos instituídos, como o RG, que nos identifica como únicos 
e diferentes –, não costumamos parar para refletir sobre isso. Para a 
questão humana que jamais cessa – “quem sou eu”? –, as respostas, 
sempre parciais, por vezes mutáveis, são incapazes de totalizar nosso 
ser. Assim, vamos nos recobrindo de representações que nos referen-
ciam e trazem notícias sobre nós.
Constituição do sujeito 29
Para definirmos identidade, podemos fazer um resgate desse 
termo no dicionário. Lá, encontramos a seguinte definição: “conjun-
to de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e 
por meio das quais é possível individualizá-la”; “qualidade do que é 
idêntico” (HOUAISS, 2009). Outra definição é: “estado de semelhança 
absoluta e completa entre dois elementos com as mesmas caracte-
rísticas principais” (MICHAELIS, 2020).
Com base nessas definições, podemos perceber um interessan-
te paradoxo: identidade é, simultaneamente, igualdade e diferença. 
 Jacques (1998) destaca esse paradoxo afirmando que identidade reme-
te-nos tanto à qualidade do que é idêntico e igual quanto à ideia daqui-
lo que é capaz de caracterizar o sujeito como distinto dos demais. Em 
outras palavras, identidade se refere ao reconhecimento de um sujeito 
naquilo que lhe é próprio, mas também no que lhe faz pertencer ao 
todo, confundindo-se com outros e seus pares.
Ciampa (1984) chama atenção para as propriedades de igualdade 
e diferença contidas nesse termo. O termo identidade é constituído 
pela diferença (prenome) e pela igualdade (sobrenome), o que re-
mete à família, nosso primeiro grupo social. Trata-se de um parado-
xo, uma vez que a soma do prenome e do sobrenome identificam o 
sujeito socialmente – “eu sou José da Silva”. Contudo, é o prenome 
(José) que o diferencia dos familiares, já que o sobrenome (da Silva) 
é compartilhado pelos membros da família, isto é, carregamos em 
nossa identidade e em nosso nome completo um aspecto simbólico 
de nosso primeiro grupo social.
Diversas áreas do conhecimento – filosofia, antropologia, história e 
sociologia, por exemplo – já se apropriaram e estudaram esse conceito 
de maneira própria. Para a psicologia social e comunitária, as contribui-
ções da sociologia são bastante relevantes.
Laurenti e Barros (2000) relatam que, historicamente, o termo 
 personalidade já foi utilizado para significar o que atualmente entende-
mos como identidade. Isso evidencia como a perspectiva individualista 
foi predominante na ciência. Na própria história da psicologia, assim 
como em outras ciências, podemos constatar que o processo de estu-
do se deu sob uma primazia do ser biológico e individual apoiados em 
uma estrutura psíquica. As dicotomias indivíduo x grupo e ser humano x 
sociedade ainda são um processo de transformação inacabado.
30 Psicologia social e comunitária
O conceito de personalidade remete a características classificá-
veis em categorias, desconsiderando, de certo modo, as variantes do 
ambiente. Segundo Laurenti e Barros, a história social e singular do 
indivíduo era considerada como um cenário para a manifestação de 
comportamentos reconhecidos como habituais.
Algumas definições sobre o conceito de personalidade incluem a in-
tervenção da socialização, como podemos constatar em Savoia (1989). 
Para o autor, a construção da personalidade é consequente do pro-
cesso de socialização, no qual intervêm fatores inatos (psicogenética) 
e adquiridos (sociedade e cultura). Nesse sentido, há a necessidade de 
se considerar o ser humano como um sujeito social, ou seja, um sujeito 
incluído em seu contexto sócio-histórico. Por essa razão, os psicólogos 
sociais passaram a trabalhar com o conceito de identidade.
A identidade deve ser considerada uma construção social, entretan-
to, se considerarmos o sujeito de modo integral, ela também opera na 
subjetividade por participar das representações que cada um tem de si. 
A identidade abarca algo do sujeito que pode ser considerado na fron-
teira entre o particular e o social. Ao mesmo tempo em que incorpora 
sua identidade de maneira singular, ela o apresenta ao olhar do outro, 
no social. Nesse sentido, concordamos com Laurenti e Barros (2000) 
quando as autoras afirmam que o termo identidade podeexpressar, 
de certa forma, uma singularidade construída na relação com o outro.
As mesmas autoras apontam que a identidade pode ser caracteri-
zada como uma processualidade histórica ligada ao conjunto das re-
lações que permeiam a vida cotidiana. Em outras palavras, as bases 
sobre as quais se articulam o pessoal e o social dependem de certa 
contextualização histórica.
A identidade não é uma propriedade natural, inerente ao biológi-
co, com surgimento espontâneo e independente; ela deve ser com-
preendida como uma figuração sócio-histórica de individualidade. É o 
contexto social que vai oferecer requisitos para as mais diversificadas 
possibilidades de identidade.
O contexto social precisa ser tomado de modo amplo, e não iso-
ladamente. Para compreender a articulação entre desenvolvimento e 
identidade, podemos pensar no seguinte aspecto: a identidade de um 
sujeito se apresenta de determinado modo na infância, pois os papéis 
Constituição do sujeito 31
sociais de uma criança são diferentes dos de um adolescente, que, por 
sua vez, é diferente de um adulto, e assim por diante. Nesse sentido, a 
identidade é o arranjo entre variáveis; por isso, pode ser considerada 
mutável. De acordo com Ciampa (1987, p. 74), “identidade é movimen-
to, é desenvolvimento do concreto [...] é metamorfose”.
Bock (2001) identifica que existem momentos da vida de todos nós 
em que acontecem redefinições sobre a maneira de estarmos no mun-
do. O autor ressalta, inclusive, que podemos ter crises de identidade, 
caracterizadas por mudanças intensas que podem ser confusas e an-
gustiantes. Em certos momentos, sofremos alterações em nosso corpo, 
mudamos nossos interesses e meio social; um exemplo dessa mudan-
ça é a fase da adolescência.
Esse exemplo reforça a afirmativa de que somos seres biopsicosso-
ciais. Um evento fisiológico do desenvolvimento, como a adolescência, 
articula-se de modo indissociável com o social e com o psicológico.
Outra implicação referente à mobilidade identitária é o fato de que 
ela não pode ser considerada como pronta e acabada. O desenvolvi-
mento do ser humano só se encerra com a morte, e o mesmo ocorre 
com a identidade.
2.2.2 Subjetividade
Abordamos brevemente a subjetividade quando tratamos da cons-
tituição do sujeito. A razão disso é o fato de ela ser relativa ao sujeito; 
mais do que isso, sem a subjetividade, não existe sujeito, é o processo 
de sua construção que o instaura. A subjetividade é a forma particular 
de o sujeito se relacionar com o mundo.
O ser humano subjetiva suas experiências. O que isso significa? A 
capacidade de subjetivar nos humaniza, faz com que tenhamos um 
aparato simbólico internalizado de significação sobre o mundo. A sub-
jetividade se constrói por meio de diferentes elementos, como história 
de vida e experiências, na maneira como nos apropriamos desses ele-
mentos e os representamos psiquicamente.
A subjetividade pode ser representada como um mundo interno 
criado pela interação entre o sujeito e o mundo externo. Ela é articu-
lada pela nossa forma própria de interpretar, registrar e simbolizar. 
A identidade se mantém a 
mesma durante toda a vida ou 
ela é algo mutável? Justifique 
sua resposta. 
Atividade 1
No texto Identidade: uma 
ideologia separatista?, 
Bader Sawaia promove 
uma reflexão sobre a 
identidade, bem como 
sobre a dialética da inclu-
são e exclusão em uma 
articulação com a realida-
de social. O interessante 
dessa leitura é que ela 
nos ajuda a compreender 
um pouco mais sobre a 
desigualdade social por 
meio de um posiciona-
mento crítico. 
In: SAWAIA, B. B. As artimanhas 
da exclusão: análise psicossocial e 
ética da desigualdade social. 14. ed. 
Petrópolis: Vozes, 2014.
Leitura
32 Psicologia social e comunitária
O processamento singular do que se apreende do meio, da cultura e 
como se inscreve subjetivamente caracteriza nossa forma de interagir 
e nos relacionarmos com os aspectos da vida.
Os sentimentos, a afetividade, os pensamentos, as ideias, as repre-
sentações, os desejos e as significações são componentes psíquicos 
(emocionais e cognitivos) que pertencem à nossa subjetividade. Esses 
componentes psíquicos, como já mencionamos, estão submetidos a 
contextos históricos, culturais e sociais. Assim, não é possível pensar no 
sujeito e em sua subjetividade sem considerar os contextos nos quais 
ele se encontra inserido.
Se a subjetividade remete a uma forma singular de interpretar as 
coisas do mundo, em oposição a ela temos a objetividade, que diz 
respeito exatamente ao que é unânime, o que pode ser lido e interpre-
tado de uma única forma por todos. Aguiar (2015) nos lembra que é a 
linguagem que faz a mediação da internalização da objetividade, o que 
possibilita a elaboração de sentidos e significações pessoais que cons-
tituem a subjetividade. O autor aponta, ainda, que o mundo psicológico 
é um mundo em relação dialética com o mundo social.
Para Bock (2001), entender o fenômeno psicológico representa en-
tender a expressão subjetiva de um mundo objetivo e coletivo. Trata-se 
de um processo que se estabelece por meio da conversão do social 
em individual e da construção interna dos elementos e das atividades 
do mundo externo, isto é, que fazem parte da vida (interpretamos in-
ternamente eventos externos). O autor afirma, ainda, que entender o 
fenômeno psicológico dessa maneira significa retirá-lo de um campo 
abstrato e idealista para constituir uma base material vigorosa (BOCK, 
2001). O social resulta do modo como o ser humano pensa, bem como 
a forma de se pensar resulta também do social.
Nesse sentido, concordamos com Aguiar (2015) e Bock, Furtado 
e Teixeira (2002) quando os autores ressaltam que a psicologia so-
cial enfatiza a influência de fatores situacionais, envolvendo todos 
os fenômenos sociais, comportamentais e cognitivos decorrentes 
da interação interpessoal dos sujeitos. O estudo da subjetividade 
possibilita conhecer o ser humano em suas expressões compor-
tamentais, sentimentais, singulares e genéricas, pois é a síntese 
singular e individual que cada ser humano constrói durante seu 
desenvolvimento e suas vivências da vida social e cultural.
dialética: “oposição, conflito 
originado pela contradição entre 
princípios teóricos ou fenômenos 
empíricos” (HOUAISS, 2009).
Glossário
Explique o processo de subjeti-
vidade e especifique qual é sua 
relação com os meios interno 
e externo.
Atividade 2
Constituição do sujeito 33
O artigo Constituição do sujeito, subjetividade e identidade, publicado no periódico 
Interações, faz uma articulação bastante interessante entre constituição do su-
jeito, identidade e subjetividade, abordando também a consciência de si, o que 
pode promover reflexões e complementar seus estudos. Vale a pena conferir!
Acesso em: 12 jun. 2020.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-29072002000100003&lng=pt&nrm=iso
Artigo
2.2.3 Afetividade
No ser humano, pensamentos, sentimentos, crenças, valores etc. 
são entrelaçados no tecido da subjetividade; entre as dimensões do 
sujeito, temos a complexa dimensão afetiva.
Na tentativa de se compreender o ser humano, mais uma vez nos 
deparamos com uma dicotomia. Essa dicotomia refere-se à dimensão 
cognitiva, como se ela fosse separada da dimensão afetiva. Bruner 
(1986; 1998 apud LEME, 2003) afirma que a tradicional distinção concei-
tual entre afetividade e cognição – realizada tanto na filosofia quanto 
na psicologia – delimita regiões e fronteiras pouco úteis sobre o psi-
quismo e impõe a necessidade de se criarem pontes conceituais para 
relacionar aquilo que nunca deveria ter sido apartado.
Nesse sentido, Vygotsky (1993) adverte que é necessário reconhecer 
a íntima relação entre o pensamento e a dimensão afetiva. Na teoria 
de Vygotsky, os processos cognitivos e afetivos e os modos de pensar 
e sentir são carregados de conceitos, relações e práticas sociais que os 
constituem como fenômenos históricos e culturais (OLIVEIRA; REGO, 
2003). Nesse constructo teórico, pode-sesustentar que a afetividade 
humana se constitui culturalmente.
Na perspectiva da psicanálise, a dicotomia entre pensamento e afe-
to também não se sustenta. Voltolini (2006) explica que, quando Freud 
percebeu que o pensamento é afetado – para se referir à relação in-
trínseca entre pensamentos e afetos –, estava em vias de formular que 
o pensamento não é afetado apenas eventualmente, como se poderia 
pensar com base na cisão entre afetividade e cognição, mas que não 
há pensamento que não seja afetado. Essa “afetação” não é boa e nem 
má, é simplesmente característica do pensamento humano.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-29072002000100003&lng=pt&nrm=iso
34 Psicologia social e comunitária
Agora que já entendemos que a afetividade se relaciona com a cog-
nição, podemos nos fazer a seguinte pergunta: como a afetividade se 
constitui? A afetividade participa da constituição do sujeito. Como vi-
mos, o ser humano precisa ser amparado para viver, se desenvolver e 
se humanizar. O amparo é fisiológico e afetivo, de maneira integrada e 
simultânea, realizado por alguém que faz a função materna.
O estabelecimento da dimensão afetiva se desenvolve por meio 
desse amparo afetivo, que se dá com investimento dirigido ao ser hu-
mano e é manifestado na maternagem por toques, carinhos, olhares, 
palavras endereçadas ao bebê, aspectos esses que o introduzem em 
um contexto simbólico e de relações múltiplas (BARBOSA, 2005; 2009; 
DOLTO, 2001; JERUZALINSKY, 2008).
Levisky (1992) enfatiza a importância de um bom vínculo entre o 
bebê e a mãe (função materna) como uma condição para que se de-
senvolva um sentimento de confiança básica. Esse sentimento é a base 
para o desenvolvimento das funções psíquicas. A capacidade de o su-
jeito fazer laços, de ter sua capacidade de se relacionar de modo inter-
pessoal, depende dessas primeiras experiências, pois elas terão como 
consequência a transformação do ser humano em um ser de lingua-
gem e também em um ser relacional.
Barbosa (2009) destaca a ideia de que, como resultado da necessi-
dade de amparo ao nascer, o ser humano carrega em si, em todas as 
suas próximas fases da vida, aspectos dessa relação com o outro – uma 
relação basicamente afetiva. É desse modo que ele estabelecerá novos 
laços, se posicionará e produzirá na vida.
2.2.4 Consciência
Como vimos, a separação entre o individual e o social deve ser to-
mada apenas de maneira didática, pois, na verdade, as dimensões do 
sujeito se articulam e interdependem umas das outras; a vida psíquica 
se relaciona com a construção social. O sujeito deve ser sempre en-
tendido como ativo, como alguém que é influenciado, mas também 
influencia seu entorno. Essa ideia é importante, também, para enten-
dermos a dimensão da consciência no sujeito.
A consciência refere-se à propriedade de se ter ciência. Ela se relacio-
na também com as percepções, pois trata-se da capacidade de perceber 
Constituição do sujeito 35
a si mesmo e ao outro. Para que se tenha consciência social, o sujeito 
precisa, antes de mais nada, ter consciência de si próprio. A consciência 
social se efetiva por meio da distinção entre o sujeito e os outros.
A imagem que construímos de nós mesmos tem relação com o 
retorno do olhar dos outros sobre nós. O conceito de identidade 
nos revela, também, que o ser humano se vê como tal porque os 
outros o reconhecem assim.
O reconhecimento de si mesmo por meio do reconhecimento do 
outro promove sucessivas diferenciações que colaboram para que o 
ser humano construa consciência sobre si mesmo. A consciência de si 
pode ser compreendida como condicionada à consciência social.
Se a consciência de si acontece por meio da relação com o outro, 
devemos entender que, nesse processo, há uma significação. Em uma 
relação com o outro, o sujeito é significado pelo outro enquanto sig-
nifica o outro e, consequentemente, a si próprio. Sobre essa questão, 
Brandão (1990, p. 37) afirma:
Os acontecimentos da vida de cada pessoa geram sobre ela a 
formação de uma lenta imagem de si mesma, uma viva imagem 
que aos poucos se constrói ao longo de experiências de trocas 
com outros: a mãe, os pais, a família, a parentela, os amigos de 
infância e as sucessivas ampliações de outros círculos de outros: 
outros sujeitos investidos de seus sentimentos, outras pessoas 
investidas de seus nomes, posições e regras sociais de atuação.
À medida que o ser humano adquire experiências e amplia suas 
relações sociais, ele vai se formando, aprendendo e se transformando. 
Com isso, ele adquire novos papéis sociais, e esse processo continua 
por toda a vida do sujeito. Em cada fase da vida, o sujeito representa 
determinados papéis sociais associados à sua faixa etária, à sua posi-
ção familiar e a outras representações. Ser filho, pai, estudante, marido, 
profissional e avô são exemplos de papéis sociais. Alguns papéis ocor-
rem simultaneamente, enquanto outros ocorrem temporariamente.
Lane (2006) explica que, nos grupos nos quais se relaciona, o ser 
humano se encontra com normas balizadoras, algumas podem ser 
mais sutis e outras, mais rígidas. Essas normas caracterizam os pa-
péis e constituem as relações sociais. Além disso, os papéis sociais 
acabam tendo a função de localizar o sujeito socialmente – o lugar 
que ele ocupa na sociedade.
36 Psicologia social e comunitária
Nesse sentido, é importante compreender como esses conceitos 
se relacionam, pois esse conjunto de papéis desempenhados pelo su-
jeito também constitui a identidade social, que passa pela consciência 
de si. Os papéis atendem à manutenção das relações sociais repre-
sentadas pelo o que os outros esperam de nós, com suas expectativas 
e normas (LANE, 2006).
Segundo Lane, a consciência de si interfere na identidade social 
quando os papéis dentro do grupo são postos em questão, uma vez 
que eles definem a identidade social. De modo geral, há uma sustenta-
ção por parte das instituições e das ideologias, o que torna a interferên-
cia e a mudança mais difíceis.
A psicologia social busca transformações por meio das melhorias 
na condição de vida das pessoas, criticando a manutenção das clas-
ses dominantes. Por isso, aponta para importância da consciência, que 
permite ao sujeito integrar o conhecimento da sua própria história, en-
tender-se como sujeito ativo e conhecer sua realidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo da subjetividade é complexo e se estabelece por meio da 
relação do indivíduo com a sociedade. A constituição do sujeito e seu pro-
cesso de desenvolvimento precisam da afetividade; trata-se de processos 
necessários para possibilitar sua construção identitária, bem como para 
que ele encare os papéis sociais e obtenha consciência social e de si.
É importante que o ser humano possa se apropriar de sua história. É 
importante, também, que ele compreenda seus grupos sociais de uma 
perspectiva mais ampla para que possa exercer sua cidadania e seu lugar 
de sujeito ativo, capaz de operar transformações sociais.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, R. P.  Noção de subjetividade na perspectiva da psicologia Social.  Psicologado, 
fev. 2015. Disponível em: https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-social/nocao-de-
subjetividade-na-perspectiva-da-psicologia-social. Acesso em: 12 jun. 2020.
BARBOSA, P. M. R. Adoção: amparo e desamparo. 2005. Artigo científico (Especialização em 
Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2005.
BARBOSA, P. M. R. Representações de crianças sobre a relação afetiva com seus professores: 
uma contribuição para compreensão do desejo de aprender. 2009. Dissertação (Mestrado 
em Educação) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009.
Comente a seguinte afirmativa: 
“A consciência de si pode ser 
compreendida como algo condi-
cionado à consciência social”.
Atividade 3
Constituição do sujeito 37
BOCK, A. M. B. A psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. In: 
BOCK, A. M. B; GONÇALVES, M. G. G.; FURTADO, O. (orgs.). Psicologia sócio-histórica:

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