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R ES U M O TÍTULO DO RESUMO C IC LO B Á SI C O DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍ- ASE AMERICANA CURSO: INFECTOLOGIA CONTEÚDO: ANA ELISA ALMEIDA Amplie as possibilidades deste conteúdo em https://www.jaleko.com.br/ 4 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 1 INTRODUÇÃO A doença de Chagas é uma antropozoonose (doença primária de animais e que pode ser transmitida aos humanos) causada pelo protozoário Trypano- soma cruzi. Pode se manifestar de forma aguda e evoluir para a fase crônica. Estima-se que a doença acometa cerca de 1,0 a 2,4% da população, man- tendo alta mortalidade e sendo uma das quatro maiores causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias, além de ser a principal doença negligenciada no Brasil. Sua detecção e manejo continuam sendo um desafio pela ocorrência de casos relacionados à transmissão oral devido à ingesta de alimentos contaminados, à transmissão vetorial extradomiciliar, principalmente na região amazônica, e a existência de ciclos de transmissão do parasito em ambientes silvestres próximos às habitações humanas. O médico sanitarista Carlos Chagas foi o responsável por identificar o agente etiológico (espécie cujo nome homenageou o mestre Oswaldo Cruz), o vetor e as manifestações clínicas da doença que posteriormente receberia seu nome. Em abril de 1909, aos 29 anos, ele comunicou em nota na Revista Brasil- -Médico a nova entidade mórbida do homem. Um grande feito na medicina! 2 ETIOLOGIA A doença de Chagas ou tripanossomíase americana é causada pelo proto- zoário flagelado Trypanosoma cruzi, pertencente à classe Mastigophora, ordem Kinetoplatida e à família Trypanosomatidae. O protozoário possui um flagelo anterior que direciona o movimento do parasita e possui também o cinetoplasto, uma mitocôndria modificada que possui alto conteúdo de ácido desoxirribonucleico (DNA). A forma tripomastigota (FIGURA 1), que possui o cinetoplasto posterior ao núcleo e tem flagelo anterior com membrana ondulante, é a forma do parasita encontrada no sangue do hospedeiro vertebrado. 5DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA FIGURA 1 Figura 1: Forma tripomastigota – (F) Flagelo anterior; (K) Cinetoplasto posterior ao (N) núcleo. Como parasitas intracelulares, assumem a forma amastigota (FIGURA 2), forma oval com flagelo curto que não se exterioriza. FIGURA 2 Figura 2: Forma amastigota – oval, com flagelo curto que não se exterioriza, formando ninhos (NI) no tecido muscular. No trato gastrintestinal dos vetores da doença, o parasita se apresenta na forma de epimastigota (FIGURA 3), forma flagelada com cinetoplasto anterior próximo ao núcleo. Parte das epimastigotas se diferenciam em tripomasti- gotas metacíclicas, as formas infectantes para os hospedeiros vertebrados. FIGURA 3 Figura 3: Forma epimastigota – alongada, com cinetoplasto (K) justanuclear e anterior ao núcleo (N), com flagelo (F) anterior. 6 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA No próximo tópico, entenderemos melhor como essas formas evolutivas do parasita aparecem no ciclo evolutivo. 3 CICLO EVOLUTIVO DO T. CRUZI 3.1 No hospedeiro vertebrado A forma tripomastigota é a que circula no sangue e infecta células como os macrófagos, fibras musculares esqueléticas, fibrocélulas cardíacas e células da glia. Ao serem fagocitadas pelo macrófago, intracelularmente, os flagelados se transformam em amastigotas ovaladas. Ao se multiplicarem por divisão bi- nária, as amastigotas tornam-se tripomastigotas novamente e são liberadas no sangue. O curso da infecção do homem segue um padrão típico: a replicação do T. cruzi nos tecidos é exponencial, assim como a parasitemia, facilitando a visualização do parasita no sangue. Com a ativação da resposta imune, há supressão progressiva da parasitemia, que fica subpatente na infecção crônica. 3.2 No hospedeiro invertebrado Os triatomídeos (FIGURA 4), vetores da doença, ao sugarem o sangue do paciente, aspiram tripomastigotas para o seu tubo digestivo. No estômago do artrópode, o parasita se transforma em epimastigota. No intestino médio do inseto, as epimastigotas multiplicam-se por divisão binária. Parte delas migra para o intestino posterior, diferenciando-se em tripomastigotas me- tacíclicos, as formas infectantes para os hospedeiros vertebrados. A figura abaixo ilustra o ciclo evolutivo do parasite. 7DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA FIGURA 4 Figura 4: Estágios no inseto triatomíneo. 4 EPIDEMIOLOGIA O perfil epidemiológico brasileiro da doença de Chagas é resultado de duas vertentes principais: ■ deslocamento do homem para o ambiente silvestre, causando um desba- lanceamento ambiental (desmatamento, abertura de pastos) e consequente domiciliação do vetor; essa situação envolve os principais triatomíneos vetores da doença, como Triatoma brasiliensis e Panstrongylus megistus; ■ movimentação da população, carregando o único vetor relacionado nesse caso: o Triatoma infestans; espécie muito antropofílica, que se ambienta fácil em casas rústicas latino-americanas e se dispersa em longas distâncias por meio de objetos e pertences de seres humanos. Os vetores da doença de Chagas são os triatomídeos, insetos hematófagos estritos, que possuem hábitos noturnos; popularmente, são conhecidos como “barbeiros” e “chupões”. Esses vetores epidemiologicamente importantes, na grande maioria dos casos, vivem nas paredes e telhados das casas de taipa. Moradores de casas infestadas são expostos repetidamente ao vetor e ao parasita por muitos anos. 8 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA A América Latina fez progressos substanciais no controle da doença de Cha- gas. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) certificou a interrupção da transmissão por vetores domésticos em vários países da América do Sul e na América Central. A triagem sorológica para T. cruzi é realizada na maioria dos bancos de sangue da América, e alguns países têm sistematizado rastreio da doença de Chagas congênita. Porém, apesar dos avanços, a doença de Chagas continua a ser a doença parasitária mais importante no Hemisfério Ocidental. 5 TRANSMISSÃO A transmissão pode ocorrer por via vetorial, oral, transfusional, por trans- plantes de órgãos, congênita, por acidente e por via sexual (teoricamente). 5.1 Transmissão vetorial A transmissão via vetorial ocorre por meio da picada de um triatomíneo infectado (FIGURA 5). Geralmente, o inseto pica o ser humano em áreas expostas (face, mãos, antebraços e membros inferiores) à noite. A picada é não dolorosa, sendo facilitada por propriedades anestésicas e anticoagulantes da saliva do inseto. FIGURA 5 Figura 5: Triatomíneo infectado. O tempo de sucção médio é de 10 a 30 minutos, a depender da espécie. As formas infectantes do parasita estão nas fezes, que são eliminadas durante ou após a sucção sanguínea do vetor. A transmissão é efetivada quando o parasita penetra a pele (por meio do próprio orifício da picada) ou também 9DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA pelo contato com mucosas da boca ou ocular (nesse caso, transportado pelas mãos da pessoa, após coçar o local em que o inseto evacuou). Em 2006, após trabalho intensivo de prevenção da Doença de Chagas no país, com controle químico de populações domiciliadas do vetor, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) a certificação de interrupção de transmissão por T. infestans. Apesar desse título, a transmissão vetorial ainda persiste em nosso país devido aos seguintes fatores: a) presença do parasita em outras espécies de triatomídeos; b) presença de reservatórios de T. cruzi e aproximação cada vez mais frequente das populações humanas aos ambientes em que vivem esses animais; e c) persistência de focos residuais de T. infestans, ainda exis- tentes em alguns municípios dos estados da Bahia e do Rio Grande do Sul. Segundo dados do ministério da saúde, dos triatomídeos capturados, as espécies T. vitticeps (52,0%), R. robustus (33,3%)e P. lutzi (29,4%) foram as que apresentaram as maiores taxas de infecção por Trypanosoma cruzi. T. vitticeps se apresenta com maior frequência nos estados da região Sudeste (Minas Gerais e Espírito Santo), R. robustus predomina na região Norte (Tocantins, Amazonas, Acre e Rondônia), e P. lutzi na região Nordeste (Piauí, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco). Em relação aos focos residuais, identificou-se ainda a persistência de focos de Triatoma infestans em quatro municípios do Estado da Bahia (Itaguaçu da Bahia, Ibipeba, Novo Horizonte e Tremedal) e em 12 municípios do Rio Grande do Sul (Ajuricaba, Alegria, Coronel Barros, Doutor Maurício Cardo- so, Giruá, Humaitá, Ijuí, Independência, Porto Mauá, Salvador das Missões, Santo Cristo e São José do Inhacorá). Ações integradas de controle vetorial mobilizando governos Federal, Estaduais e Municipais têm avançado na direção do controle desse triatomíneo. 5.2 Transmissão oral Nos últimos anos, a transmissão oral da doença de Chagas tem sido a via de transmissão mais frequente no Brasil, em especial nos contextos da Região Amazônica. No caso do homem, essa transmissão ocorre de maneira esporádica, por meio de alimentos contaminados com o parasita, principalmente a partir de triatomíneos ou de suas fezes. Nos surtos que já aconteceram no Brasil, os prováveis alimentos contaminados com T. cruzi foram açaí, bacaba, jaci (coquinho), caldo de cana e palmito de babaçu. 10 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA Sugere-se que a transmissão oral pode ocorrer a partir de formas tripomasti- gotas, epimastigotas de T. cruzi e, provavelmente, de amastigotas, originárias de mamíferos ou vetores contaminados, assim como, acidentalmente, por meio de cultivos artificiais do parasita. Em relação ao mecanismo de transmissão oral de T. cruzi, foram identificadas como situações possíveis para exposição: ■ ingestão das fezes ou urina de triatomíneos ou ainda de triatomíneos infectados, na hipótese de que sejam processados com o alimento; ■ ingesta de alimentos ou bebidas contaminados com formas tripomasti- gotas metacíclicas presentes na secreção da glândula anal ou na urina de gambás (reservatórios da doença); ■ ingesta de suspensão de T. cruzi em pipetas em contextos de laboratórios de pesquisa ou diagnósticos; ■ ingesta de leite materno de mãe com diagnóstico de doença de Chagas aguda ou coinfectada com vírus da imunodeficiência humana (HIV) em fase avançada de síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS) ou com reativação documentada da doença de Chagas, ou em situações de sangramento por fissuras. O suco gástrico é capaz de destruir o parasita, porém grande parte consegue evadir dessa ação, por meio de mecanismos químicos de proteção externa. 5.3 Transmissão por transfusão de sangue e transplante de tecidos/ órgãos Essa forma de transmissão foi ampliada com a urbanização da doença de Chagas no Brasil. Sua ocorrência depende dos seguintes fatores: ■ presença do parasita no sangue ou componente transfundido; ■ tipo e número de produto sanguíneo infectado transfundido; ■ estado imunológico do receptor; ■ qualidade na triagem clínico-epidemiológica; ■ nível de cobertura da triagem sorológica dos doadores; ■ sensibilidade dos testes sorológicos empregados no processo de triagem dos candidatos à doação. As taxas de transmissão por via transfusional, nos países endêmicos, redu- ziram drasticamente após a obrigatoriedade da triagem clínico-epidemioló- gica e sorológica entre doadores, inclusive no Brasil. A triagem, segurança transfusional e vigilância também se estendem a candidatos à doação de tecidos ou órgãos. 11DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 5.4 Transmissão vertical (congênita) A transmissão congênita acontece, principalmente, após o 3º mês de gestação, com envolvimento placentário. A placenta afetada fica volumosa, edemacia- da e com placas esbranquiçadas. Ocorre prematuridade em muitos casos. Nos casos congênitos “clássicos”, os fetos nascem prematuros, com febre, hepatoesplenomegalia, taquicardia e parasitemia alta. Casos graves podem cursar com insuficiência cardíaca, meningoencefalite e calcificações cerebrais. Revisão sistemática com metanálise de estudos conduzidos no Brasil esti- mou a prevalência de infecção em gestantes como de 1,1%, com taxa de transmissão vertical de 1,7%. No Brasil, a doença de Chagas congênita é considerada aguda e de notificação compulsória. O tratamento da doença de Chagas em mulheres férteis infectadas, não grávidas, representa uma estratégia importante para reduzir a transmissão vertical no futuro. Ressalta-se que a transmissão vertical pode ser repetida a cada gravidez, durante todo o período fértil da vida de uma mulher. 5.5 Transmissão acidental As situações relatadas de transmissão acidental acontecem nos seguintes contextos: laboratórios de triatomíneos, ações de captura do vetor em áreas endêmicas, trabalhos experimentais com mamíferos infectados e culturas, aerossóis de materiais infectados, infecção cirúrgica e coleta de sangue a partir de pessoas com infecção aguda – nesses casos, deficiências de segurança no transporte de materiais contaminados –, entre outros. Dessa forma, são necessárias medidas de educação em saúde, adesão ao uso correto de equipamentos de proteção individual e comunicação de acidentes de trabalho. 5.6 Transmissão sexual É uma via teoricamente possível, tendo sido demostrada a transmissão sexual em modelos animais e possibilidade de transmissão em população humana. 6 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Período de incubação: após a exposição, o tempo de incubação é cerca de uma a duas semanas. Na transmissão oral, varia entre três e 22 dias. 12 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 6.1 Fase aguda A marca registrada da fase aguda é a parasitemia detectável microscopica- mente. Os sintomas são, geralmente, leves e inespecíficos, cursando com febre, mal-estar, hepatoesplenomegalia, linfadenopatia e linfocitose atípica. Em raros casos, um nódulo na pele (chagoma) ou edema palpebral prolongado e indolor (sinal de Romaña) pode indicar o local da inoculação (FIGURA 6). A grande maioria das infecções agudas nunca é detectada. FIGURA 6 Figura 6: Chagoma e sinal de Romaña. Em menos de 1% das infecções, a fase aguda é grave e com risco de vida, pois pode causar meningoencefalite ou miocardite. Surtos de transmissão oral por T. cruzi parecem estar associados a uma maior incidência de miocardite e uma maior taxa de letalidade do que infecções transmitidas por vetores. Em pessoas que sobrevivem à fase aguda, a resposta imune mediada por células controla a replicação do parasita, com isso, os sintomas se resolvem espontaneamente e a parasitemia patente desaparece em quatro a oito semanas. 13DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 6.2 Fase crônica Os infectados, então, passam para a fase crônica da doença, caso não trata- dos na infecção aguda. A maioria das pessoas permanece assintomática, mas estão infectados para o resto da vida. Esse estágio é denominado de forma indeterminada da doença de Chagas, que é caracterizada por ausência de sinais e sintomas, sem envolvimento cardíaco ou gastrintestinal e radiografia de tórax e eletrocardiograma normais. Aproximadamente 30 a 40% dos infectados cronicamente podem desenvolver envolvimento orgânico 10 a 30 anos depois da infecção aguda (principalmente, cardiomiopatia ou organomegalia – megaesôfago, megacólon ou ambos). O envolvimento cardíaco é o mais frequente e grave tipo de envolvimento orgânico e afeta, principalmente, o sistema de condução e o miocárdio. Os primeiros sinais são, tipicamente, defeitos do sistema de condução, especial- mente bloqueio de ramo direito ou bloqueio fascicular anterior esquerdo. Pode ocorrer também anormalidades segmentares da parede ventricular esquerda. A cardiomiopatia de Chagas é altamente arritmogênica e é caracterizada por bradicardias juncionais, fibrilação atrialou flutter, bloqueios atrioventriculares ou taquicardia ventricular sustentada ou não sustentada. Os pacientes afeta- dos evoluem para cardiomiopatia dilatada e insuficiência cardíaca congestiva. Aneurismas ventriculares esquerdos são comuns em casos avançados da Cardiomiopatia chagásica. Os pacientes podem ter acidente vascular cerebral (AVC) ou outros eventos tromboembólicos como resultado da formação de trombo no ventrículo esquerdo dilatado ou no aneurisma. A Doença de Chagas gastrintestinal afeta o esôfago, cólon ou ambos e é menos comum (10 a 21% dos casos). As manifestações da doença esofágica variam de distúrbios de motilidade assintomáticos e acalasia leve a megaesôfago grave, com sintomas incluindo disfagia, odinofagia, refluxo esofágico, perda de peso, aspiração, tosse e regurgitação. Pacientes com megaesôfago tem risco aumentado para câncer esofágico, portanto pacientes com sintomas novos sou progressivos devem ser investigados com endoscopia digestiva alta. Megacólon é caracterizado por constipação prolongada e pode causar fe- caloma, volvo e isquemia intestinal. O sigmoide e o reto são dilatados em quase todos os casos de megacólon. Não tem sido relatado aumento de câncer colorretal em pacientes com megacólon. 6.3 T. cruzi em hospedeiros imunocomprometidos A infecção aguda em transplantados tem várias características distintas das relatadas anteriormente, incluindo um período de incubação prolongado e um espectro clínico mais grave, que pode incluir miocardite aguda e insu- ficiência cardíaca congestiva. A reativação da infecção crônica por T. cruzi 14 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA ocorre, principalmente, em pacientes que foram submetidos a transplante de órgãos e em adultos com HIV. Em ambas as populações, o risco de rea- tivação está relacionado à gravidade da imunossupressão. Um estudo mostrou que 20% dos pacientes com HIV apresentam reativação da doença de Chagas, cursando com meningoencefalite, abscesso cerebral e miocardite aguda. Em pacientes transplantados cardíacos secundários à cardiomiopatia cha- gásica terminal, a reativação do T. cruzi é causa rara de morte. Nesse grupo, a reativação por T. cruzi deve ser considerada no diagnóstico diferencial de episódios febris e crises aparentes de rejeição. A FIGURA 7 apresenta um resumo da fase aguda e crônica. FIGURA 7 Figura 7: Fase aguda e crônica. 15DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 7 PATOGÊNESE 7.1 Fase aguda Nessa fase, o dano orgânico resulta da ação do parasita e da resposta inflamatória aguda. Ninhos de amastigotas são encontrados nos tecidos, principalmente, cardíacos, esqueléticos e músculo liso. A ação do parasita é controlada por meio da resposta inflamatória intensa com produção de anticorpos e ativação da resposta imune inata (células natural killer e ma- crófagos) por meio das citocinas pró-inflamatórias Th1, tais como fator de necrose tumoral (TNF – alfa) e interferon gama. 7.2 Fase crônica Embora a patogênese da cardiomiopatia chagásica não seja completamente compreendida, há um consenso de que a persistência do parasita é central para a doença, assim como a resposta imune inflamatória do hospedeiro, resultando na urgência em busca por tratamento antitripanossômico com alta eficácia durante a fase crônica. 8 DIAGNÓSTICO 8.1 Diagnóstico parasitológico O diagnóstico da fase aguda ou da doença congênita é realizado por meio da visualização de tripomastigotas por microscopia direta no sangue e, oca- sionalmente, em outros fluidos como líquido cerebroespinhal. Lembre-se: na fase aguda, a parasitemia é intensa! Os exames parasitológicos diretos são o padrão ouro para diagnóstico de fase aguda. Os métodos aplicáveis para pesquisa direta são: ■ exame a fresco de tripanossomatídeos: de execução rápida e simples; a coleta deve ser realizada em pessoa com síndrome febril e até 30 dias do início de sintomas; caso a primeira coleta seja negativa e a suspeita clínica persistir, repetir exame entre 12 e 24 horas da primeira coleta; ■ métodos de concentração (Strout, micro-hematócrito ou creme leu- cocitário): são recomendados nos casos em que o exame a fresco for negativo; entretanto, visando à otimização do diagnóstico, recomenda-se que sejam realizados simultaneamente ao exame a fresco; em suspeitos com mais de 30 dias de sintomatologia, os métodos de concentração são mais sensíveis; ■ lâmina corada de gota espessa ou esfregaço sanguíneo: possui menor sensibilidade que os métodos anteriores, sendo realizados prioritariamente 16 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA na região da Amazônia Legal, em virtude de aspectos operacionais pela sua utilização sistemática para o diagnóstico da malária. A reação cadeia de polimerase (PCR) é um método parasitológico indireto sensível na fase aguda e tem sido muito utilizado para diagnóstico de trans- missão vertical, para detecção inicial de infecção em receptores de órgãos de um doador infectado ou depois de exposição acidental. Infelizmente, no Brasil, os custos atuais e a não padronização em escala são uma barreira importante para justificar seu uso como rotina no momento. Na fase crônica, a parasitemia é baixa e intermitente, logo, nessa fase, métodos parasitológicos diretos e PCR não são confiáveis. Portanto, o diagnóstico da infecção crônica é realizado pela detecção de anticorpos IgG contra o T. cruzi. O diagnóstico é realizado pela combinação de dois testes sorológicos com métodos diferentes. Entre os testes disponíveis, os mais utilizados são ELISA (ensaio imunoenzimático), IFI (imunofluorescência indireta) e HAI (hemaglu- tinação indireta). Em geral, eles apresentam altos níveis de sensibilidade e especificidade. Nos casos de discordância sorológica, realizar nova avaliação diagnóstica, podendo repetir um dos testes realizados anteriormente (ELISA, IFI ou HAI) ou fazer o Western-blot (WB) ou quimiluminescência (CLIA). Os testes rápidos não substituem o diagnóstico convencional, porém podem ser utilizados em locais remotos sem infraestrutura laboratorial adequada, em pacientes com difícil acesso aos serviços de saúde e com possibilidade de perda de seguimento, assim como em gestantes com suspeita da doença, tanto durante o pré-natal quanto durante o trabalho de parto. Pelo teste rápido ter alta sensibilidade, caso seja negativo, exclui a doença. Dando po- sitivo, necessário realizar confirmação diagnóstica com algum dos métodos mencionados acima (ELISA, IFI, HAI, WB ou CLIA). A infecção congênita é uma infecção aguda e métodos parasitológicos diretos são realizados para o diagnóstico. Porém, para bebês com risco para a infec- ção e em quem a doença de Chagas não foi diagnosticada ao nascimento, o teste sorológico convencional é recomendado após nove meses, quando o anticorpo materno transferido desapareceu. 8.2 Diagnóstico de envolvimento visceral Complicações viscerais devem ser avaliadas. Eletrocardiograma (ECG) em repouso deve ser realizado na avaliação inicial, mesmo em pacientes assinto- máticos. Ecocardiograma deve ser realizado rotineiramente, principalmente, em pacientes com alterações no ECG, homens acima dos 30 anos e mulhe- res acima dos 45 anos. Testes cardíacos adicionais, como Holter 24h, teste ergométrico ou ressonância magnética cardíaca devem ser considerados em pacientes sintomáticos. 17DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA Em pacientes com sintomas gastrintestinais, a avaliação diagnóstica pode ser realizada com enema opaco ou esofagograma. Manometria esofágica deve ser realizada em pacientes sintomáticos, mesmo com esofagograma normal. 9 TRATAMENTO A doença de Chagas pode ser tratada em qualquer fase com dois medica- mentos principais: benznidazol (mais utilizado no Brasil) e nifurtimox. Os objetivos do tratamento são reduzir a parasitemia e a reativação da doença, melhorar sintomas clínicos, reduzir complicações clínicas e aumentar expec- tativa e qualidade de vida. 9.1 Eventos adversos associados aos antiparasitáriosEm relação aos efeitos adversos, o benznidazol é responsável por cerca de 53%. Destacam-se parestesias (inclusive, podendo persistir meses após o tratamento), artralgias e intolerância gastrintestinal. Os eventos adversos dermatológicos mais comuns são: alopecia, dermatite e rash. Complicações graves como neutropenia podem ocorrer, sendo indicado realizar hemograma três semanas após o início do tratamento. O QUADRO 1 apresenta as fases da doença e o tratamento. QUADRO 1 FASES DA DOENÇA E TRATAMENTO Fase da doença Idade Tratamento Aguda Todas as idades ■ 1ª linha: benznidazol ■ 2ª linha: nifurtimox Crônica indeterminada ou Digestiva Crianças e adolescentes ■ 1ª linha: benznidazol ■ 2ª linha: nifurtimox Adultos 40%, ausência de IC, ausência de arrit- mias graves) Todas as faixas etárias Decisão compartilhada: oferecer possibilidade de tratamento, sendo tratar com benznidazol ou não tratar; Não usar nifurtimox Crônica cardíaca (doença avançada) Todas as idades Não tratar ECG: eletrocardiograma; FE: fração de ejeção; IC: insuficiência cardíaca. 18 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 9.2 Recomendações terapêuticas para tratamento etiológico da doença de Chagas Já o nifurtimox possui frequência de eventos adversos gerais na ordem de 85%, e os mais comuns são intolerância gastrintestinal (61%), eventos reumatológicos (artralgias) (33%) e acometimento dermatológico (15%). 9.3 Tratamento da fase aguda O tratamento de pacientes com doença de Chagas aguda deve ser imediato. Prioriza o uso do benznidazol por ter maior experiência no nosso meio, maior disponibilidade (inclusive com apresentações pediátricas) e pelo seu perfil de eventos adversos. O nifurtimox deve ser utilizado quando o benznidazol não for tolerado. A taxa de cura chega a ser de 80 a 90%. 9.4 Tratamento da fase crônica O paciente com doença de Chagas crônica deve ser tratado conforme perfil do paciente e forma da doença. Em crianças e adolescentes na fase crônica indeterminada, o tratamento é indicado visto que a taxa de negativação sorológica é relativamente alta e os antiparasitários, geralmente, são bem tolerados. Em adultos na fase crônica indeterminada, o benefício do tratamento antipa- rasitário é incerto, a incidência de eventos adversos é em torno de 50%, com impacto funcional e na qualidade de vida, apesar de raramente conferirem gravidade. Em adultos menores de 50 anos, as vantagens do tratamento parecem superar as desvantagens, e a evidência de prevenção de doença cardíaca é maior; assim, o tratamento deve ser considerado. Em pessoas com doença de Chagas acima de 50 anos, o benefício tem maior grau de incerteza, não sendo sugerido como tratamento de rotina. Em mulheres com a doença crônica, o tratamento pode trazer um benefício a mais: diminuir o risco de transmissão congênita. Pelo pequeno número de publicações avaliando o uso do nifurtimox, menor disponibilidade no país e maior ocorrência de eventos adversos, seu uso não é recomendado. Contudo, ele pode ser considerado nos casos motivados e com expectativa de maior benefício, como crianças, adolescentes e adultos jovens com infecção recente e intolerância ao benznidazol. Em paciente com cardiopatia chagásica inicial (ECG alterado, fração de ejeção [FE] normal, ausência de insuficiência cardíaca [IC] e ausência de arritmias graves), pode ser realizado o tratamento com benznidazol ou é possível também não tratar. A decisão deve ser compartilhada com o paciente, ex- plicando riscos e benefícios, assim como incertezas em relação à efetividade 19DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA do tratamento. Não há evidências para justificar o tratamento de cardiopatia chagásica avançada, assim como não há evidência para recomendar o trata- mento com nifurtimox nesses casos. Na fase crônica digestiva, não há evidências do efeito do tratamento anti- parasitário na evolução natural da doença digestiva, uma vez que a infecção promove destruição das células nervosas, incoordenação motora e viscerome- galia (megaesôfago e/ou megacólon). Assim, o tratamento deve ser realizado de forma independente da manifestação digestiva. As recomendações para o tratamento na fase crônica indeterminada se aplicam a casos na fase crônica digestiva, e as recomendações para tratamento na fase crônica cardíaca se aplicam a pessoas com doença cardiodigestiva. Em resumo, o tratamento na fase crônica diminui mortalidade, diminui a progressão para cardiomiopatia, diminui o risco de transmissão congênita e tem taxa de cura acima de 50% em pacientes jovens (abaixo de 13-14 anos). 9.5 Tratamento etiológico da doença de Chagas em situações especiais (coinfecção com HIV, transplantes e gestação) A imunossupressão pelo HIV pode ser um fator de risco para reativação da doença de Chagas. A reativação caracteriza pelo aumento da parasitemia, sem resposta imune adequada, acarretando alta morbimortalidade devido à reativação de infecção no sistema nervoso central e miocardite. Logo, é indicado tratar paciente com HIV com doença de Chagas crônica sem reativação e sem tratamento etiológico prévio, preferencialmente com benznidazol, objetivando controle e prevenção da reativação, apesar das evidências limitadas. Em pacientes transplantados e com reativação da doença, realizar tratamento com o benznidazol (melhor perfil de eventos adversos e maior experiência de uso no Brasil). Não há evidência científica para recomendar profilaxia secundária em casos submetidos a transplantes. Em gestantes na fase aguda com doença grave (ex.: miocardite ou menin- goencefalite), o tratamento deve ser realizado com o benznidazol, indepen- dentemente da idade gestacional, devido à alta morbimortalidade materna e ao alto risco de transmissão congênita da doença e potencial impacto na saúde dos neonatos afetados. Gestantes com doença aguda não grave diagnosticadas no primeiro trimestre, idealmente, devem aguardar o segundo trimestre de gestação para realizar o tratamento (menor risco de malformação). O medicamento indicado é o benznidazol. Gestantes com doença crônica não devem realizar o tratamento, uma vez que o risco de transmissão congênita é baixo. 20 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 9.6 Tratamento de complicações digestivas O QUADRO 2 apresenta o tratamento de megaesôfago e megacólon. QUADRO 2 TRATAMENTO DE MEGAESÔFAGO E MEGACÓLON Clínica Tratamento Megaesôfago Adequação de hábitos alimentares (mastigar bem os alimentos, ingerir pequenos volumes por vez, dar preferência a alimentos líquidos e pastosos, evitar a ingestão de alimentos irritantes e antes de se deitar); Fármacos que relaxam o esfíncter esofágico inferior (efeito sintomático e prescrever quando não responde às medidas não farmacológicas): nifedipina (10mg, por via sublingual, 30 minutos antes de cada refeição), dinitrato de isossorbida ( 2,5 a 5mg, por via sublingual, 15 minutos antes de cada refeição); Injeção de toxina botulínica no esfíncter esofágico inferior; Dilatação (por balão pneumático ou sonda); Tratamento cirúrgico. Megacólon Instruções dietéticas: dietas com alto teor de fibras, elevada ingestão de líquidos, restrição de alimentos constipantes; Atender sistematicamente ao desejo de evacuar; Evitar medicamentos constipantes (como opioides, diuréticos, antihistamínicos, anticonvulsivan- tes); Laxativos emolientes ou osmóticos; Supositórios com glicerol; Enemas; Tratamento cirúrgico; Tratamento das complicações (remoção de fecaloma, redução de volvo, tratamento cirúrgico de perfurações). 9.7 Tratamento de complicações cardiovasculares A IC é uma manifestação comum em pacientes com cardiopatia chagásica, devendo ser manejada da mesma forma que as insuficiências cardíacas por outras etiologias. Uma ressalva importante é que o uso de betabloqueadores exige cautela nos casos comcardiopatia chagásica, visto que, apesar do be- nefício ao tratamento dos casos com taquiarritmias e ectopias ventriculares, pode acentuar o grau de bradicardia ou bloqueios do sistema de condução, comuns nessa etiologia. Por conta disso, a dose máxima tolerada é, muitas vezes, inferior à dose dos estudos em casos com outras cardiopatias. Em casos de IC grave por etiologia chagásica, o transplante cardíaco é uma opção terapêutica. As arritmias também são comuns nesses pacientes, po- dendo causar palpitação, tontura, dispneia, lipotimia, síncope e morte súbita. A amiodarona é o antiarrítmico mais utilizado. Pessoas com arritmia grave devem ser encaminhadas para centros de referência para avaliar o uso de cardiodesfibrilador implantável (CDI) ou de realização de ablação de focos arritmogênicos por cateter. A FIGURA 8 apresenta um esquema sobre o tratamento de complicações cardiovasculares. 21DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA FIGURA 8 Figura 8: Tratamento de complicações cardiovasculares. 10 RASTREIO Recomenda-se o rastreamento de pessoas com a presença de fatores asso- ciados ao maior risco de exposição e infecção por T. cruzi. Quais os fatores de risco para doença de Chagas? ■ ter residido na infância ou residir em área com relato de presença de vetor transmissor da doença de Chagas ou ainda com reservatórios animais (silvestres ou domésticos) com registro de infecção por T. cruzi; ■ ter residido ou residir em habitação onde possa ter ocorrido o convívio com vetor transmissor (principalmente, casas de estuque, taipa, sapê, pau a pique, madeira, entre outros modos de construção que permitam a colonização por triatomíneos) (FIGURA 9); ■ residir ou ser procedente de área com registro de transmissão ativa de T. cruzi ou com histórico epidemiológico sugestivo de ocorrência da transmissão da doença no passado; ■ ter realizado transfusão de sangue ou hemocomponentes antes de 1992; ■ ter familiares ou pessoas do convívio habitual ou rede social que tenham diagnóstico de doença de Chagas, em especial, ser filho(a) de mãe com infecção comprovada por T. cruzi. 22 DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA FIGURA 9 Figura 9: Casa de pau a pique. 11 PREVENÇÃO ■ Controle da transmissão vetorial e triagem de sangue e órgãos para transfusão. ■ Os viajantes e residentes em áreas endêmicas devem evitar dormir em moradias potencialmente infestadas com triatomíneos, usar repelentes e mosquiteiros, e evitar ingesta de frutas ou caldo de cana contaminados. ■ No laboratório, os profissionais devem usar equipamento de proteção individual. ■ Nenhuma vacina está disponível para a prevenção da doença de Chagas; para evitar as consequências graves da infecção crônica, o diagnóstico precoce é crucial tanto em áreas endêmicas quanto em áreas não endê- micas em que o rastreamento deve ser oferecido para os pacientes com fatores de risco para exposição/infecção ao parasita. 12 REFERÊNCIAS 1. BERN, C. Chagas’ Disease. N. Engl. J. Med. 2015; 373:456-66. 2. II Consenso Brasileiro em Doença de Chagas, 2015. Epidemiol. Serv. Saúde, 7 Brasília, 25 (núm. esp.): 7-86, 2016. 3. MOLINA, I. Chagas disease. Lancet 2018; 391: 82–94. Published Online. June 30, 2017. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(17)31612-4. 4. NEVES, David Pereira. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016. 5. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Ministério da Saúde. PORTARIA Nº 57, DE 30 DE OUTUBRO DE 2018. 23DOENÇA DE CHAGAS: TRIPANOSSOMÍASE AMERICANA 6. VERONESI. Tratado de infectologia. Editor científico Roberto Focaccia. 5. ed. Ver. e atual. São Paulo: Editora Atheneu, 2015. Visite nossas redes sociais @jalekoacademicos Jaleko Acadêmicos @grupojaleko