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APG 4 GUSTAVO MENDES SARMENTO O INIMIGO MORA AO LADO O QUE SÃO ZOONOSES? Zoonoses são doenças infecciosas transmitidas entre animais e pessoas. Os patógenos podem ser bacterianos, virais, parasitários ou podem envolver agentes não convencionais e podem se espalhar para os humanos por meio do contato direto ou através de alimentos, água ou meio ambiente. ASPECTOS GERAIS DOS PROTOZOÁRIOS • São organismos eucarióticos, unicelulares e que se nutrem de forma heterotrófica. • Esses seres vivos podem ser de vida livre, habitando diversos tipos de ambientes; ou podem viver associados a outros organismos de forma comensal, mutualística ou mesmo parasitária. De acordo com a estrutura de locomoção, os protozoários são classificados como: 1. Ciliados: Se locomovem mediante o batimento de cilios, (p. ex: Balantidium coli). 2. Flagelados: Se movimentam por meio de flagelos, estruturas mais adaptadas para o meio aquoso, (p. ex: Giardia, Trichomonas, Trypanosomas e Leishimania ). 3. Ameboides/rizópodes: Se rastejam com movimento ameboide, um tipo de locomoção no qual os microrganismos vão mudando a forma do seu corpo pela emissão de pseudópodes (falsos pés), (p. ex: Entamoeba). 4. Esporozoários: Não possuem organelas locomotoras nem vacúolos contráteis; esses microrganismos parasitas se disseminam pelo ambiente através da produção de muitos esporos, que são levados pela água e pelo ar, ou são levados através de animais vetores (moscas, mosquitos, carrapatos etc.), que se contaminam com esses protozoários patogênicos, ficam doentes e transmitem essas doenças para outros animais, (p. ex: Cryptosporidium, Toxoplasma, Plasmodium). PRINCIPAIS DOENÇAS CAUSADAS POR PORTOZOÁRIOS 1. Giardíase: A giardíase é uma infecção do intestino delgado, causada pelo flagelado Giardia lamblia. A giardíase é uma das causas mais comuns de diarreia entre crianças que, em consequência da infecção, muitas vezes apresentam problemas de má nutrição (baixa absorção de nutrientes) e retardo no desenvolvimento. A transmissão é verificada diretamente entre crianças ou ainda, de forma indireta, através de alimentos ou água contaminados. 2. Amebíase: A amebíase é causada pelo protozoário Entamoeba histolytica, cujos cistos podem ser ingeridos por meio de água e alimentos contaminados ou mesmo por contato com pessoas contaminadas. Geralmente, a amebíase é assintomática em seus estágios iniciais. Apenas quando ela já está avançada é possível detectar sintomas da doença. Entre os principais sintomas de amebíase podemos destacar: dor e cólica abdominal; abdômen sensível ao toque, forte diarreia, presença de sangue e/ou muco nas fezes, perda de peso, febre. 3. Tricomoníase: A tricomoníase é uma infecção causada pelo parasita Trichomonas vaginalis, que pode levar ao aparecimento de sinais e sintomas que podem ser bastante desconfortáveis, como corrimento amarelado ou esverdeado, dor e ardor ao urinar e coceira na região genital. A tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível (IST), sendo transmitida através da relação sexual sem preservativo. 4. Toxoplasmose: A toxoplasmose é uma infecção causada por um protozoário chamado Toxoplasma Gondii, encontrado nas fezes de gatos e outros felinos, que pode se hospedar em humanos e outros animais. É causada pela ingestão de água ou alimentos contaminados. A infecção pelo Toxoplasma gondii pode espalhar-se pelo cérebro, coração, fígado, músculos, pulmões, olhos, ouvidos, etc, podendo causar dor de cabeça e garganta, manchas pelo corpo, confusão mental, convulsões e etc. 5. Leishmaniose: Leishmaniose é um tipo de doença infecciosa causada por um protozoário do gênero leishmania, sua transmissão se dá por meio da picada do mosquito-palha e por insetos hematófagos. Existem dois tipos de leishmaniose, a visceral (afeta órgãos viscerais) e a cutânea. Entre os sintomas da visceral Maria Vitória de Sousa Santos (calazar) estão: febre, tosse, dor abdominal, anemia, hemorragias, imunodeficiência, perda de peso, diarreia, fraqueza, aumento do fígado e do baço, além de inchaço nos linfonodos. Para a cutânea estão as feridas na pele, que podem evoluir para feridas nas mucosas, como a boca e o nariz. CONCEITOS BÁSICOS • O que é vetor? Quando falamos em vetor, referimo- nos a organismos que servem de veículo para a transmissão de algum causador de doença. • O que é agente etiológico? O agente etiológico é o agente causador da doença, aquele que desencadeia os sinais e sintomas de determinada enfermidade, Ex: Vírus, bactérias, protozoários, fungos, platelmintos e nematelmintos são alguns exemplos de agentes etiológicos. • Em resumo: A diferença entre vetor e agente etiológico é que esse último causa a doença, mas o vetor transporta o agente etiológico. DOENÇA DE CHAGAS • A Doença de Chagas (DC) é uma doença infecciosa, que também é conhecida popularmente por “doença do coração crescido” e é causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi, que é transmitido pelo contato com as fezes e urina dos insetos vetores, chamados de “barbeiros” no Brasil, da família Triatomidae. • Além disso, algumas formas de transmissão são por via oral, pela ingestão de alimentos contaminados com os parasitas; da mãe para o filho ou de forma congênita, por transfusão sanguínea e acidentes laboratoriais. EPIDEMIOLOGIA • São de 6 a 7 milhões de infectados em todo mundo, sendo a maioria na América Latina, a Argentina com maior número de casos (1,5milhão), seguido do Brasil (1,1 milhão) e fora da América o destaque vai para a África. • Mesmo sendo uma doença descoberta a muitos anos, ainda existem lacunas muito importantes no que diz respeito aos campos técnicos, científicos e políticos para que haja um enfrentamento efetivo da doença. Apenas 1% das pessoas têm tratamento adequado. • A maioria infectada tem idade de 16 a 18 anos. ASPECTOS BIOLÓGICOS • Os principais estágios do parasito encontrados no vetor: - Epimastigotas: Estágios capazes de dividir-se, mas não de infectar células. - Tripomastigotas metacíclicos: Estágios infectantes, mas sem capacidade de dividir-se. • No hospedeiro mamífero, predominam os: - Amastigotas: Estágios capazes de dividir-se, mas pouco infectantes para células, encontrados no interior de células nucleadas. - Tripomastigotas sanguíneos: Que não se reproduzem, mas são muito infectantes, encontrados na na corrente sanguínea. ESTRUTURAS 1. Amastigotas: os Amastigotas de T. cruzi são tipicamente arredondados ou ovoides, medem aproximadamente 3 a 5 μm de diâmetro e apresentam um flagelo incipiente que não chega a emergir do bolso flagelar e o cinetoplasto próximo do núcleo. Os amastigotas ocorrem principalmente durante o ciclo intracelular na infecção dos mamíferos, constituindo o principal estágio reprodutivo nesses hospedeiros. Multiplicam-se por fissão binária no citoplasma das células infectadas. 2. Tripomastigotas: São formas extracelulares alongadas, de aproximadamente 15 μm de comprimento, que apresentam um flagelo que emerge do bolso flagelar na parte posterior da célula e a percorre longitudinalmente até a parte anterior, ligado à membrana. No hospedeiro vertebrado, os tripomastigotas são encontrados majoritariamente no sangue, e são conhecidos como tripomastigotas sanguíneos. Nos triatomíneos, são encontrados tripomastigotas na extremidade distal do tubo digestório; são denominados tripomastigotas metacíclicos. Os tripomastigotas não se reproduzem, mas são as principais formas infectantes do parasito. 3. Epimastigotas: São estágios extracelulares alongados, medem aproximadamente 20 μm de comprimento e apresentam o cinetoplasto situado em posição anterior, mas próximo ao núcleo. O flagelo também forma uma membrana ondulante, porém maiscurta e menos evidente. Os epimastigotas são encontrados no intestino médio dos triatomíneos, onde se multiplicam abundantemente por fissão binária. FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA DE CHAGAS CICLO DE VIDA • O ciclo de vida do T. cruzi é bastante complexo e passa por variações morfológicas de acordo com a fase em que o parasito se encontra. • Na região posterior do intestino médio do triatomíneo (vetor) existem, permanentemente, as formas epimastigotas do parasito, as quais são reprodutivas (capazes de se multiplicar) e incapazes de invadir as células do hospedeiro. • A replicação das formas epimastigotas ocorre por divisão binária, e quando estas alcançam o intestino posterior do inseto, sofrem metamorfose, transformando-se na forma infectante, os tripomastigotas metacíclicos. • Uma vez que o triatomíneo e o hospedeiro humano estejam presentes em um mesmo ambiente, o inseto suga quantidade suficiente de sangue; tal fluido biológico, ao adentrar o tubo digestivo do vetor, produz um “sinal” para que ocorra a defecação. • A picada do artrópode e a presença de fezes constituem-se em importante estímulo para o ato de coçar o local da ferida, o que promove a entrada das formas infectantes de T. cruzi no organismo do hospedeiro. • Desse modo, fezes contendo tripomastigotas metacíclicos, quando em contato com mucosas, ou soluções de continuidade da pele de indivíduos sadios, propiciam que o parasito alcance a corrente sanguínea do hospedeiro vertebrado humano de maneira ativa, iniciando-se, assim, o processo infectivo. • Durante a invasão celular, o parasito deve deslocar-se pela matriz extracelular para aderir à superfície da célula hospedeira. • Após atravessar a membrana basal da célula hospedeira, o protozoário interage com a membrana plasmática da célula. • Nesse momento, são desencadeados eventos de adesão, sinalização, internalização, diferenciação e multiplicação do agente etiológico. • Uma vez que T. cruzi se estabeleceu em diferentes órgãos e sistemas, é capaz de subverter o sistema imunológico do hospedeiro vertebrado por meio de inúmeras estratégias para inibi-lo. • Uma vez no citoplasma da célula, ocorre nova diferenciação da forma tripomastigota para a amastigota, uma conformação capaz de se multiplicar por divisão binária a cada 12 horas por cerca de 5 dias. • São realizados em torno de nove ciclos de divisão em aproximadamente 12 h. Antes de levarem ao rompimento da célula e se tornarem livres na circulação, as formas amastigotas se transformam novamente em tripomastigotas, agora do tipo sanguíneo. Alguns desses parasitos ficarão livres no sangue e outros infectarão novas células. IMUNIDADE CONTRA TRYPANOSOMA CRUZI O parasito precisa sobreviver no hospedeiro por longos períodos de tempo para aumentar as chances de encontro com o vetor. Dentre os mecanismos utilizados para subverter o sistema imunológico do hospedeiro encontra-se: 1. Um dos mecanismos mais relevantes é a presença de glicoconjugados (glicoproteínas e glicolipídios) em sua membrana externa, como o ácido siálico (AS), um monossacarídeo de carga negativa que atua como receptor para diversos patógenos. As formas tripomastigotas metacíclicas apresentam a enzima trans�sialidase (TS), que é capaz de transferir esse monossacarídeo de um glicoconjugado para um aceptor ß-galactose presente em sua superfície. O fato de conseguir agregar AS em sua membrana faz com que o protozoário adquira uma carga negativa e estabeleça um processo de variação antigênica (mecanismo pelo qual um agente infeccioso, altera as proteínas ou carboidratos em sua superfície e, assim, evita uma resposta imune do hospedeiro) Maria Vitória de Sousa Santos que o mascara frente a alguns componentes séricos de resposta do hospedeiro. 2. Além disso, dada a participação dessa mesma enzima, o T. cruzi é capaz de transferir AS entre os glicoconjugados das células hospedeiras e afetar a resposta imune por meio de dois processos: elevação clonal de células B, que produzem anticorpos de baixa afinidade; e eliminação clonal de linfócitos T. 3. Outro importante mecanismo infectivo usado por T. cruzi é a presença da atividade da proteinase cruzipain, responsável pelo processo de internalização do protista em células não fagocíticas, como as estriadas cardíacas e esqueléticas. Esse fato ocorre devido à liberação de bradicininas, polipeptídio plasmático que auxilia o processo de mobilização de cálcio, de seus depósitos intracelulares, o qual é primordial para internalização do parasito na célula hospedeira. ASPECTOS E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A doença de Chagas apresenta duas fases: aguda e crônica. Fase Aguda • Inicia-se logo após a entrada do parasito no hospedeiro por infecção primária ou por reativação do processo infeccioso durante a fase crônica da doença. • Apresenta um período de incubação que varia de acordo com o modo de transmissão: transmissão por insetos vetores, 4 a 15 dias; transmissão por via oral, de 3 a 22 dias; transmissão por hemotransfusão, 30 a 40 dias ou mais; transmissão por acidentes de laboratório, até 20 dias após exposição. • Frequentemente é assintomática e nem sempre é diagnosticada, embora tripomastigotas sanguíneos possam ser microscopicamente detectadas no sangue. • Quando sintomática, a parasitemia é muito elevada, com sinais de hipoxemia. Além disso, o hospedeiro doente pode apresentar manifestações cutâneas, como os chagomas, se a inoculação for através da pele, ou o sinal de Romaña (edema bipalpebral unilateral, de consistência elástica e indolor), se a inoculação for na conjuntiva. • O quadro clínico nessa fase pode ser bastante variado. Outras manifestações que podem surgir são febre prolongada (superior a 39°C) e recorrente, anorexia, astenia, cefaleia, edema de face ou membros, mialgia, ascite, hepatoesplenomegalia, rash cutâneo e linfadenomegalia generalizada. • Em casos graves, podem ocorrer miocardite e/ou meningoencefalite (mais comum em crianças). Nessas situações, os enfermos se apresentam com pulso fino e rápido, taquicárdicos e, muitas vezes, com hipotensão arterial sistêmica. • As manifestações cardíacas dessa fase são resultado da invasão direta do protozoário na célula cardíaca. • Em casos de transmissão oral, por ingestão de alimentos contaminados, podem ocorrer manifestações digestivas como diarreia, vômito e epigastralgia intensa. • A infecção congênita geralmente é assintomática, e a suspeição diagnóstica surge em função de as mães desses pacientes serem residentes em regiões endêmicas, ou terem habitado por algum tempo essas regiões. A doença é fator de risco para baixo peso ao nascer, hepatoesplenomegalia e anemia no recém- nascido. Meningoencefalite e insuficiência respiratória podem surgir, apesar de raras, mas causam grave morbidade. Fase Crônica • A fase crônica é a grande responsável pela morbimortalidade relacionada à doença de Chagas, pois, nesse momento, o hospedeiro pode permanecer assintomático durante anos. • É caracterizada por baixa parasitemia e pode ser dividida classicamente nas formas indeterminada, cardíaca e digestiva. 1. Indeterminada: Embora infectada, a pessoa permanece assintomática por toda a vida. Os enfermos nessa fase podem permanecer assintomáticos durante anos ou evoluir para as fases crônicas típicas. 2. Cardíaca: Com comprometimento do músculo do coração, e é a forma que mais causa morte pela doença. Pode ser assintomática, manifestar-se com distúrbios de condução do coração (arritmias, extrassístole ventricular ou atrial, bloqueios ou hemibloqueios de ramos, bloqueio atrioventricular e fibrilação atrial), fenômenos tromboembólicos por má função cardíaca (cursando com acidente vascular encefálico ou dor anginosa por isquemiasecundária a danos da microcirculação cardíaca) e com sinais e sintomas de insuficiência cardíaca congestiva, tanto por danos às células miocárdicas quanto às vias de condução. 3. Digestiva: Acomete o intestino grosso (cólon) e, também, o esôfago. Nesses casos, há um aumento das estruturas e perturbação g rave da motilidade (megacólon e megaesôfago). A esofagopatia chagásica ocorre de maneira progressiva, e seu primeiro sintoma é a disfagia. Costumam ocorrer regurgitação, epigastralgia, tosse, odinofagia, hipertrofia das glândulas parótidas, salivação, soluço, emagrecimento, aspiração bronco pulmonar (principalmente durante o sono) e pneumonia por bronco aspiração. O adenocarcinoma esofágico pode aparecer em consequência ao megaesôfago. 4. Outras manifestações: Incluem-se as lesões do sistema nervoso central, seus achados incluem, principalmente: alterações circunscritas na substância cinzenta ( prováveis sequelas da meningoencefalite aguda) e complicações cerebrovasculares (que emergem em enfermos com arritmias cardíacas e/ou com insuficiência cardíaca grave); e lesões hepáticas (esteatose grave, fibrose hepática e necrose central), biliares (atrofia, colelitíase ou megavesícula), pancreáticas (pancreatite aguda hemorrágica), esplênicas (infartos esplênicos), pulmonares (broncopneumonia, bronquiectasia, enfisema, pleuris, tromboembolismo e infartos) e renais (angioesclerose, infartos, glomerulopatia crônica e necrose tubular aguda). DIAGNÓSTICO DA DOENÇA DE CHAGAS • Uma vez que o portador da doença de Chagas comumente se encontra na forma indeterminada da doença, o exame laboratorial é um dos instrumentos mais importantes do qual o médico poderá dispor para ratificar sua hipótese diagnóstica. • A anamnese deve ser realizada cuidadosamente para identificar possíveis fatores de risco, e o exame físico deve ser minucioso. Algumas indicações para investigação laboratorial da tripanossomíase americana são: 1. Suspeita de infecção aguda presença de chagomas ou sinal de Romaña positivo; 2. Febre e/ou hepatoesplenomegalia, história de hemotransfusão recente e paciente morador de área endêmica); 3. Doadores de sangue; gestante com histórico de hemotransfusão ou moradora de área endêmica; 4. Filho de mãe com diagnóstico de tripanossomíase americana; 5. Indivíduos com alterações cardíacas ou digestivas que evoquem a possibilidade de infecção por T. cruzi; 6. Doadores e receptores de órgãos; 7. Pacientes imunodeprimidos com histórico de hemotransfusões ou apresentando sinais ou sintomas como miocardite, lesões cutâneas, alterações do sistema nervoso central, que vivem ou estiveram em regiões endêmicas; pessoas com antecedentes epidemiológicos e que relatem sintomas inespecíficos ou neurológicos, ou ainda alguma disfunção do sistema nervoso autônomo. Métodos Sorológicos • Tais exames são extremamente relevantes para o diagnóstico da fase crônica, uma vez que a parasitemia é baixa ou é considerada inexistente, destacando-se que sua utilidade na fase aguda é apenas complementar. Os métodos mais utilizados são: 1. A hemaglutinação indireta (HAI) 2. A imunofluorescência indireta (IFI) 3. Método imunoenzimático (ELISA). • Detectam-se, em geral, anticorpos anti-T. cruzi da classe IgG (duas coletas com intervalo mínimo de 15 dias entre uma e outra) e anticorpos anti-T. cruzi da classe IgM, sendo que estes últimos podem apresentar resultados falso-reativos em várias doenças febris. • O uso dos testes sorológicos para investigação da doença de Chagas congênita é limitado, pois, até o nono mês de vida, os anticorpos detectados podem ser oriundos da transmissão transplacentária do IgG materno. • Após esse período, caso a criança não seja diagnosticada, a dosagem de imunoglobulinas pode ser realizada. • A confirmação da doença de Chagas crônica deverá ser realizada com a identificação de reatividade sorológica em pelo menos duas das técnicas citadas ou de pelo menos dois tipos de antígenos diferentes do T. cruzi. Exames Complementares • Após a confirmação do diagnóstico da doença de Chagas, deve-se realizar uma avaliação mais detalhada do paciente, a fim de buscar informações que possam ser úteis ao prognóstico. • Para tanto, anamnese e exame físico detalhados devem ser revisados em busca de elementos que possam não ter sido adequadamente valorizados em avaliação prévia. • Durante a análise dos dados do paciente, deve-se averiguar o grau de acometimento dos órgãos mais afetados pela doença; atenção especial deverá ser dada à presença de arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca congestiva, tromboembolismo e doença gastrintestinal. 1. ECG convencional: Está sempre indicado a partir do momento em que o diagnóstico é estabelecido, representando um bom preditor de acometimento do miocárdico, embora um resultado normal não exclua a possibilidade de doença. Deve-se atentar principalmente para a ocorrência de taquicardia sinusal, estreitamento do complexo QRS, alterações do seguimento ST ou da onda T, e etc. 2. Ecocardiografia: Tem grande relevância para definir a gravidade do acometimento cardíaco por meio da medida da fração de ejeção do ventrículo esquerdo. Uma alteração na função desse ventrículo relaciona-se com um pior prognóstico, sendo possível a ocorrência de díspares eventos mórbidos, como o acidente vascular encefálico (AVE) ou mesmo a morte súbita. 3. Dosagem do peptídio natriurético tipo B (BNP): A produção de BNP pelos ventrículos é estabelecida quando ocorre distensão da parede cardíaca, em função de pré-carga aumentada decorrente de acréscimo de pressão na câmara ventricular. A dosagem de BNP é um importante biomarcador de disfunção ventricular esquerda em pacientes com tripanossomíase americana e é também um preditor de risco de AVE ou de morte. 4. Radiografia de tórax : A radiografia de tórax deve ser solicitada; todavia, cabe comentar que nem sempre apresentará alteração. Em casos mais avançados da cardiopatia dilatada, entretanto, o aumento do coração pode ser percebido por ocasião da avaliação da área cardíaca. Maria Vitória de Sousa Santos 5. Ressonância magnética: A ressonância magnética cardíaca representa um exame de imagem alternativo e eficaz, pois as imagens fornecidas por ela podem detectar precocemente o envolvimento cardíaco na doença de Chagas, devido ao seu potencial para demonstrar alterações morfofuncionais cardíacas. 6. Outros exames: Outros exames que devem ser solicitados são hemograma, urina de rotina, provas de função hepática e ensaios para a avaliação da coagulação (tempo de tromboplastina parcial ativado – TTPA). Deve-se também atentar para a realização de endoscopias e radiografias do tubo gastrintestinal, caso o paciente apresente queixas digestivas. TRATAMENTOS Tratamento Específico • O tratamento antimicrobiano dirigido ao T. cruzi tem como objetivos curar a infecção, prevenir lesões orgânicas ou sua evolução e diminuir a possibilidade de transmissão do protozoário. • Essa modalidade terapêutica tem resultados adequados na maioria dos casos agudos e congênitos e, também, em casos crônicos recentes. Situações relevantes em que deverá ser considerada a terapêutica antimicrobiana para o T. cruzi, incluem o tratamento dos enfermos com imunossupressão (transplantes, infecção por HIV/AIDS) e da transmissão acidental (contato com fluidos biológicos de pacientes com doença de Chagas, acidentes laboratoriais, entre outros). • O fármaco de escolha disponível para o tratamento específico da doença de Chagas no Brasil é o benznidazol. • Sua administração é feita por via oral, sendo rápida a absorção com concentrações máximas após 2 a 4 horas. Tem meia-vida de cerca de 12 horas e metabolização conduzida pelo fígado e eliminaçãopela urina; uma pequena parcela não absorvida é eliminada nas fezes. • O tratamento deve ser realizado pelo período de 60 dias, nas doses de 5 mg/kg/dia para adultos e de 10 mg/kg/dia para crianças, por via oral, sempre em duas a três tomadas diárias (12/12 horas ou 8/8 horas). • Devido ao efeito do benznidazol sobre os parasitos circulantes, a eficácia envolvendo esse fármaco tem sido relatada durante a fase aguda da infecção, podendo levar, inclusive, à cura parasitológica. Tratamento Sintomático • O tratamento das principais manifestações da doença deve ser realizado de acordo com as diretrizes para cada um dos quadros específicos. • Na fase aguda, deve ser feito repouso, e podem ser usadas medicações antitérmicas, anticonvulsivantes e diuréticas, além de digitálicos e outros fármacos para o tratamento do quadro de miocardite aguda. • Na fase crônica (para a CCC), recomendam-se dieta e repouso como terapias não medicamentosas, mas podem ser usados inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), betabloqueadores seletivos, digitálicos e diuréticos, conforme a necessidade de cada paciente. • Em casos de arritmias, amiodarona pode ser instituída em diversos esquemas terapêuticos, ou pode haver necessidade de implante de marca�passo ou de outras abordagens terapêuticas. • Fenômenos tromboembólicos devem ser tratados com anticoagulantes, e o ácido acetilsalicílico pode ser usado para fins profiláticos, com o intuito de minimizar tais ocorrências. • Em casos graves, o transplante cardíaco pode ser a única alternativa viável, embora seja de difícil acesso e ainda haja a possibilidade de recorrência da doença devido às formas infectantes presentes em outros tecidos do receptor do órgão. • Para o megaesôfago, o uso de medicamentos, como nitratos e bloqueadores de canais de Ca2+, e a injeção de toxina botulínica podem ser empregados. • Além dessas abordagens, a medida terapêutica que apresenta melhores resultados é a cirurgia, que, embora não trate a causa básica da doença, pode proporcionar melhoras na qualidade de vida do paciente. FORMAS DE PREVENÇÃO As principais estratégias usadas modernamente são o combate ao vetor domiciliado (com inseticidas, melhoramento habitacional, educação sanitária e vigilância epidemiológica) e a sorologia pré- transfusional de doadores de sangue (o mesmo em transplantes de órgãos). Casos congênitos e por transmissão oral devem ser diagnosticados e tratados especificamente o mais rapidamente possível. SAÚDE DOS INDÍGENAS E A DOENÇA DE CHAGAS NESSA POPULAÇÃO • A saúde dos indígenas brasileiros é uma questão complexa e multifacetada. Muitas comunidades indígenas enfrentam desafios significativos de acesso a serviços de saúde de qualidade devido a barreiras geográficas, culturais e socioeconômicas. As condições de saúde variam amplamente entre diferentes grupos indígenas e regiões do país. • No que diz respeito à doença de Chagas, ela também pode afetar as populações indígenas. A transmissão da doença pode ocorrer de várias maneiras, incluindo a picada do inseto vetor, transfusão de sangue contaminado, transplante de órgãos, ingestão de alimentos contaminados ou da mãe para o filho durante a gravidez. A situação da doença de Chagas entre os indígenas pode ser influenciada por fatores como: 1. Condições de Moradia: Muitas vezes, as habitações nas comunidades indígenas podem favorecer a presença do inseto vetor, aumentando o risco de transmissão da doença. 2. Acesso a Cuidados de Saúde: Dificuldades de acesso a serviços médicos adequados podem afetar a detecção precoce e o tratamento da doença. 3. Educação em Saúde: A falta de informações sobre medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento pode contribuir para a disseminação da doença. 4. Presença de Vetores: Em algumas áreas, a presença dos vetores responsáveis pela transmissão da doença pode ser mais prevalente. 5. Cultura e Costumes: Práticas culturais e costumes podem influenciar os padrões de transmissão da doença. • É importante destacar que as informações específicas sobre a situação da doença de Chagas entre os indígenas brasileiros podem variar e é necessário considerar as características individuais de cada comunidade. A atenção do governo, organizações de saúde e pesquisadores é fundamental para abordar de maneira eficaz as questões de saúde enfrentadas por essas populações vulneráveis. Referências: - Bogliolo - II Consenso Brasileiro em Doença de Chagas, 2015 - Parasitologia - Fundamentos e Prática Clínica- Rodrigo Siqueira - Microbiologia Médica - MURRAY, Patrick.