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DIREITO PROCESSUAL CIVIL PROF.: IVAL HECKERT JR SUMÁRIO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS..................................................................................................... 5 1.1 POSIÇÕES DOUTRINÁRIAS QUANTO AO PROCESSO ..................................................... 5 1.2 A BUSCA POR UM PROCESSO CONSITUCIONAL E DEMOCRÁTICO ............................... 6 1.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA ENTENDER O PROCESSO CIVIL ATUAL ......................... 6 2 JURISDIÇÃO E NORMAS FUNDAMENTAIS ........................................................................... 11 2.1 CONCEITO .................................................................................................................... 11 2.2 PRINCÍPIO DA INÉRCIA DA JURISDIÇÃO....................................................................... 11 2.3 PRINCÍPIO DO IMPULSO OFICIAL................................................................................. 12 2.4 PRINCÍPIO DA INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO..................................................... 13 2.5 PRINCÍPIO DA AUTOCOMPOSIÇÃO ............................................................................. 14 2.6 PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO ................................................... 15 2.7 PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DO MÉRITO ......................................................................... 15 2.8 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ ................................................................................................. 17 2.9 PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO ....................................................................................... 17 2.10 PRINCÍPIO DA ISONOMIA ............................................................................................ 17 2.11 PRINCÍPIOS DIRETIVOS DA ATUAÇÃO DO JUIZ ............................................................ 18 2.12 2.12 – PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO ....................................................................... 18 2.13 DA ORDEM PREFERENCIAL PARA JULGAMENTO ........................................................ 21 3 COMPETÊNCIA ..................................................................................................................... 23 3.1 CONCEITO .................................................................................................................... 23 3.2 COMPETÊNCIA INTERNACIONAL ................................................................................. 23 3.3 COMPETÊNCIA INTERNA: CRITÉRIOS DE DETERMINAÇÃO ......................................... 26 3.4 INCOMPETÊNCIA ......................................................................................................... 27 3.5 COMPETÊNCIA TERRITORIAL: PREVISIBILIDADE NO CPC ............................................ 30 3.6 MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIA ............................................................................... 35 4 DAS PARTES ......................................................................................................................... 39 4.1 CONCEITO .................................................................................................................... 39 4.2 DA LEGITIMIDADE ....................................................................................................... 39 4.3 DA CAPACIDADE .......................................................................................................... 39 4.4 DOS DEVERES DA PARTES E DOS PROCURADORES ..................................................... 40 5 DO LITISCONSÓRCIO ............................................................................................................ 44 6 INTERVENÇÃO DE TERCEIROS ............................................................................................. 47 6.1 INTRODUÇÃO: conceito de partes e de terceiros ....................................................... 47 6.2 MODALIDADES DE INTERVENÇÃO DE TERCEIROS PREVISTAS NO CPC ....................... 47 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 2 6.3 DA INTERVENÇÃO DE TERCEIRO ANÓDINA OU ANÔMALA ........................................ 49 6.4 ASSISTÊNCIA ................................................................................................................ 50 6.5 DENUNCIAÇÃO DA LIDE .............................................................................................. 50 6.6 DO CHAMAMENTO AO PROCESSO .............................................................................. 51 6.7 DO INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ..................... 51 6.8 AMICUS CURIAE........................................................................................................... 52 7 DO JUIZ, DO MINISTÉRIO PÚBLICO, DA DEFENSORIA PÚBLICA E DA ADVOCACIA PÚBLICA53 7.1 DO JUIZ ........................................................................................................................ 53 7.2 DO MINISTÁRIO PÚBLICO ............................................................................................ 53 7.3 DA ADVOCACIA PÚBLICA ............................................................................................. 54 7.4 DA DEFENSORIA PÚBLICA ............................................................................................ 54 8 DOS ATOS PROCESSUAIS ..................................................................................................... 56 8.1 PRINCÍPIOS .................................................................................................................. 56 8.2 DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL E DA CALENDARIZAÇÃO .................................. 57 8.3 DOS ATOS DAS PARTES ................................................................................................ 59 8.4 DOS PRONUNCIAMENTOS DO JUIZ ............................................................................. 60 8.5 DO TEMPO E DO LUGAR DOS ATOS PROCESSUAIS ..................................................... 61 9 DOS PRAZOS ........................................................................................................................ 63 9.1 CLASSIFICAÇÃO ............................................................................................................ 63 9.2 CONTAGEM DOS PRAZOS PROCESSUAIS EM DIAS ÚTEIS ............................................ 64 9.3 DA SUSPENSÃO DOS PRAZOS PROCESSUAIS ............................................................... 65 9.4 DA EXTINÇÃO DOS PRAZOS ......................................................................................... 65 10 DA COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS ................................................................. 67 10.1 DA CITAÇÃO ................................................................................................................. 67 10.2 DAS CARTAS ................................................................................................................. 75 10.3 DAS INTIMAÇÕES ........................................................................................................ 79 11 TUTELAS PROVISÓRIAS .................................................................................................... 83 11.1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 83 11.2 CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO ....................................................................................... 83 11.3 TUTELAS DE URGÊNCIA ............................................................................................... 84 11.4 TUTELA ANTECIPADA ANTECEDENTE .......................................................................... 84 11.5 TUTELA CAUTELAR ANTECEDENTE .............................................................................. 86 11.6 TUTELAS DA EVIDÊNCIA .............................................................................................. 86demanda versar sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova (ii) O segundo também derivado do CPC e do mesmo art. 47, só que agora do §2º, já que nas ações possessórias imobiliárias o foro do local da coisa tem competência territorial absoluta; e, por fim (iii) A ação Civil Pública (Lei 7.347/1985, art. 2º), que deve ser proposta no foro do local onde ocorreu o dano, sendo competência funcional-territorial absoluta. c) Quando é possível que a incompetência relativa (territorial) seja reconhecida de ofício Um dos pontos de maior cobrança atualmente em concursos públicos, quando lidamos com o tema competência, é a potencialidade da incompetência relativa ser reconhecida de ofício, uma situação excepcional prevista na lei processual. Podem questionar o fato da existência da Súmula 33, STJ, que dita a vedação do juiz conhecer de ofício da incompetência relativa/territorial. Ocorre que essa súmula é do início dos anos 90’, sendo fortemente impactada pelo art. 63, §§ 3º e 4º, CPC, justamente o que demonstra a existência da potencialidade (diante da situação prevista na lei) do juiz controlar a incompetência territorial/relativa de ofício, notadamente quando: - existir cláusula de eleição de foro - e o juiz, de ofício e liminarmente, reconhecê-la abusiva - declarar sua ineficácia e - remeter ao juízo do foro de domicílio do réu 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 30 3.5 COMPETÊNCIA TERRITORIAL: PREVISIBILIDADE NO CPC O CPC cuida de apresentar critérios territoriais de determinação da competência, estabelecendo regras e situações pontuais específicas. a) primeira regra de competência territorial: domicílio do réu e suas variações Como mencionado, o CPC cuida de regras de competência em razão do território, determinando, por exemplo, que na justiça estadual, em regra, em qual comarca deverá ser proposta a demanda (CPC art. 46). Dentre as regras a primeira observada é a do DOMICÍLIO DO RÉU, notadamente para demandas que versem sobre direitos pessoais. Referida regra se justifica por ser, digamos, mais fácil ao réu exercer seu direito de defesa se for demandado no seu domicílio. Existe a potencial situação do réu ter mais de um domicílio, nesse caso a escolha não será dele, em que juízo dos possíveis ele será demandado, competindo a escolha ao autor (CPC 46, §1º) Exemplo: o réu possui domicílios diversos, em Belo Horizonte/MG e em Ouro Preto/MG; o autor, utilizando da faculdade legal, propõe a demanda em Ouro Preto/MG; em contestação o réu alega incompetência relativa, afirmando que, apesar de ter dois domicílios, prefere ser demandado em Belo Horizonte/MG; referida arguição não terá sucesso, já que a lei confere ao autor a faculdade de demandar o réu em qualquer dos seus domicílios, tudo isso independente da vontade do réu. Ocorre que é possível que não se saiba qual é o domicílio do réu, sendo necessário, inclusive, a citação por edital; nesse caso a demanda poderá ser proposta no domicílio do autor, em razão do desconhecimento do domicílio do réu; porém, caso seja possível localizar o réu, no local onde ele for encontrado deverá ser proposta a demanda (CPC 46, §2º). Outro ponto a ser destacado é o fato do réu não ter domicilio ou residência no Brasil; neste caso; primeiro há que ser determinado se o juízo brasileiro é competente para conhecer de determinada demanda; para isso se faz necessário verificar as regras de competência internacional previstas nos artigos 21 a 23, CPC/2015; verificado se o juízo brasileiro seria competente, devemos verificar se, para o caso, existe regra de determinação territorial outra que não o domicílio do réu; não existindo regra específica vamos aplicar a regra primeira do §3o, do art. 46, CPC/2015, que é: FORO DO DOMICÍLIO DO AUTOR. Se autor e réu, entretanto, forem domiciliados no estrangeiro e a ação venha a ser proposta no Brasil, a ação poderá ser proposta EM QUALQUER FORO dentro do território nacional. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 31 Por fim o CPC, art. 46, §4º parte da premissa da existência de um LITISCONSÓRCIO PASSIVO, ou seja, uma demanda com mais de um réu que possuem domicílios diversos; novamente a lei processual dita ser uma opção do autor escolher em que foro será proposta a demanda, desde que seja o foro de qualquer dos réus. b) foro competente para a execução fiscal A lei processual não dita uma primazia para o ente público em juízo, pelo contrário, dita que a primazia, em termos de delimitação do juízo competente, será o da parte adversa à fazenda pública, quando estamos diante de competência territorial (CPC 46, §5º). c) segunda regra de competência territorial: foro da situação da coisa Se a demanda versar sobre direitos reais sobre imóveis a demanda deverá ser proposta no foro da situação da coisa, como regra, já que sendo inicialmente competência territorial relativa, o autor poderá optar por propor a demanda no foro de eleição ou de domicílio do réu. Entretanto se a demanda versar sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova, tal opção desaparece, devendo a demanda ser proposta exclusivamente no foro do local, da situação, da coisa, que tem competência absoluta, bem como no caso de ação possessória imobiliária. d) Competência: causa mortis Cuida o art. 48, CPC, da competência das demandas oriundas do falecimento de determinada pessoa natural, aqui chamado de AUTOR DA HERANÇA, demandas que tenham reflexos econômicos e patrimoniais, estabelecendo como regra de competência o foro do autor da herança. e) competência: ausente como réu – incapaz como réu Dita a lei que, sendo reconhecido, declarado, o réu como ausente, as demandas contra ele deverão ser propostas no foro do seu último domicílio (CPC 49). Já se o réu for incapaz, a propositura da demanda deverá ser no foro do domicílio de seu representante ou assistente (CPC 50). f) da não primazia de entes púbicos em competência territorial Como se verifica do art. 51, CPC, sendo demanda a União poderá o autor se valer do seu foro, tendo outras opções, já quando a União é a autora a demanda deve ser proposta no foro do domicílio do réu. Claro que essa regra não afasta as situações de competência territorial absoluta especificadas na lei. Referida situação legal também atinge o Estado (CPC art. 52), reforçando que o ente público não tem primazia de foro 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 32 g) Da competência para as ações de família Inicia o art. 53 apresentando regra de competência territorial para as ações de família, notadamente divórcio, anulação de casamento e reconhecimento e dissolução de união estável. O velho CPC/73 ditava uma regra que não mais comportava ser seguida pelos operadores do direito, afirmando, no dispositivo correlato, que essas demandas ligadas ao casamento deveriam ser propostas na residência da mulher. Agora, acertadamente, a perspectiva da competência para essas demandas leva em consideração interesse de incapaz, ditando ser a regra preferencial para ajuizamento da demanda de família o domicílio daquele que ficou com a guarda de filho incapaz, mesmo que essa guarda decorre apenas de situação fática. Na ausência de filho incapaz, referidas demandas deverão ser propostas territorialmente no último domicílio do casal, desde que, pelo menos um dos cônjuges ou conviventes estejam ainda residindo na localidade; na hipótese de nenhum deles residir mais no último domicílio do casal, a demanda deverá ser proposta no domicílio do réu, independentemente de quem seja. Inovação mais que importante foi o acréscimo do item “d”, ao inciso I, do art. 53, CPC, sendo a mulher vítima de violência doméstica ou familiar, a demanda poderá ser proposta no seu domicílio. h) Da competência para as ações de alimentos A solicitação de alimentos parte da premissa que há um estado denecessidade, o pedido de alimentos carrega, no meu entender, a presunção da situação de necessidade. Diante disso cria a lei processual um “privilégio” de foro quando em determinada demanda se pede verba alimentar. Sabemos que a ação de alimentos é regulada em lei própria, entretanto tal lei não carrega no seu bojo qual o juízo territorialmente competente, cuidando disso, portanto, o CPC, no art. 53, II. i) Pessoa Jurídica em Juízo: competência A primeira coisa que devemos levar em consideração, para a delimitação do juízo competente para demandas onde o réu seja pessoa jurídica, é verificar se não é causa de demanda a ser regida por lei própria. Exemplo: Código de Defesa do Consumidor: Não sendo causa de utilização de regra específica, de forma genérica a pessoa jurídica deverá ser demandada no lugar da sua sede, ou, eventualmente, sendo obrigação contraída por uma agência ou sucursal dessa pessoa jurídica, utilizaremos o local dessa agência ou sucursal para a propositura da demanda (CPC, 53, III) 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 33 Já as sociedades ou associações sem personalidade jurídica, devem ser demandadas, salvo foro específico, no lugar onde ela exerce suas atividades. j) Cumprimento de obrigação: competência Regra específica e genérica para a demanda que verse sobre o cumprimento de obrigações: CPC 53, III. Nestes casos o processo deverá ter início e desenvolvimento perante o juízo do local onde a obrigação deve ser satisfeita, onde a obrigação de ser cumprida. k) Idoso: competência Art. 53. É competente o foro: (...) III - do lugar: (...) e) de residência do idoso, para a causa que verse sobre direito previsto no respectivo estatuto Sendo causa que tenha como parte pessoa idosa e que verse sobre direitos derivados do estatuto do idoso, a demanda deverá ser proposta no local da sua residência. Mas, atenção, para a utilização desse foro é necessária a conjugação dos dois elementos expostos no art. 53, III, e, do CPC e acima apresentados: SER IDOSO + VERSAR A DEMANDA SOBRE DIREITO PREVISTO NO ESTATUTO. O simples fato de ser a parte idosa não dá direito da utilização desse foro específico. Por exemplo, uma ação de responsabilidade civil decorrente de danos derivados de acidente de veículo não envolve direito do idoso, assim, nesse caso, não será ditada a competência pela residência do idoso. Ainda no tocante a competência para as ações em que o idoso é parte, temos que trazer à colação o disposto no Estatuto do Idoso (Lei 10741/2003), que ao tratar “Da Proteção Judicial dos Interesses Difusos, Coletivos e Individuais Indisponíveis ou Homogêneos”, estabelece que: Art. 80. As ações previstas neste Capítulo serão propostas no foro do domicílio da pessoa idosa, cujo juízo terá competência absoluta para processar a causa, ressalvadas as competências da Justiça Federal e a competência originária dos Tribunais Superiores. (Redação dada pela Lei nº 14.423, de 2022) l) Ações de reparação de danos: competência Quando lidamos com ações de reparação de danos a lei processual civil define um juízo territorialmente competente (CPC 53, IV, a) onde, em regra, as demandas reparatórias 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 34 deverão ser propostas, não fazendo a lei distinção quanto a natureza jurídica do pedido reparatório, notadamente se é causa de dano patrimonial ou dano moral; a saber: - juízo do local do ato ou fato Apresenta a lei processual variações dessa regra e que, claro, pelo princípio da especificidade, devem orientar inicialmente a análise do juízo competente, só sendo observada a regra na ausência de norma específica; alguns casos: - reparação de dano decorrente de delito ou acidente de veículo (inclusive aeronaves): domicílio do autor ou local do ato fato (CPC) - dano causado por atuação de serventia notarial ou de registro: local sede da serventia (CPC) - reparação decorrente de relação consumerista: domicílio do autor consumidor (CDC 101, I). m) perpetuação da jurisdição Para a análise do disposto no art. 43, CPC o melhor é criarmos uma situação concreta. Imaginemos a seguinte situação concreta: - João pretende propor uma ação de indenização em face de Paulo - Quando da distribuição da petição inicial Paulo era domiciliado em Belo Horizonte/MG - Logo após a distribuição e, portanto, antes de ser citado, Paulo muda de domicílio, indo morar na cidade e comarca de Recife/PE - Citado no seu atual domicílio o réu alega, em contestação, incompetência relativa do juízo de Belo Horizonte, posto que, quando citado, outro era o seu domicílio. - A QUESTÃO É: Paulo terá sucesso na questão processual arguida em contestação? RESPOSTA: não; a competência é delimitada no momento da distribuição da petição inicial, sendo irrelevante eventual e posterior modificação do estado de fato. Situações excepcionais (a) extinção do órgão judiciário (b) modificação da competência absoluta n) deslocamento da demanda para a justiça federal Cuida a lei processual (CPC 45) de deslocamento (remessa dos autos) de demandas para a justiça federal, quando o processo inicialmente tramita em outra compartimentação da jurisdição. Exemplo: estando uma demanda tramitando perante um juízo estadual e a União (ou qualquer dos outros entes enumerados no dispositivo em comento) solicite a sua intervenção no processo, deverá ser remetido para a justiça federal, não tendo o juiz estadual competência para ditar ser caso ou não de intervenção da União. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 35 Ressalte-se que estamos diante de situação de competência em razão da pessoa, e, portanto, absoluta, devendo tal atitude, da remessa pelo juízo estadual para a justiça federal, ocorrer de ofício. Destacamos também, que o juízo estadual não deve emitir juízo de valor, analisando se é ou não caso de interesse do ente público intervencionista, somente a justiça federal detém competência para essa análise. Hipóteses em que não haverá a remessa Algumas demandas, entretanto, não serão remetidas a justiça federal, mesmo diante da intervenção de alguns dos entes descritos no caput do art. 45, essas exceções estão enumeradas nos incisos do referido dispositivo legal: I - de recuperação judicial, falência, insolvência civil e acidente de trabalho; II - sujeitas à justiça eleitoral e à justiça do trabalho. Pedidos cumulados sem interesse do ente público em relação a todos os pedidos Situação concreta possível é a de existirem, em determinado processo, pedidos cumulados e, por exemplo, a União intervir afirmando ter interesse num desses pedidos. Não prevê a lei processual, no dispositivo em comento, a divisão ou cisão da demanda com a remessa parcial à justiça federal, optou o legislador por, não sendo o juízo estadual competente para conhecer do interesse da União, extinguir parcialmente a demanda, extinguir o pedido no qual a União demonstrou interesse sem resolução do mérito. Interessante destacar que, quando lidamos com incompetência, mesmo a absoluta, como é o presente caso, a lei processual determina a remessa dos autos ao juízo competente; na hipótese retratada na lei, entretanto, não teremos a remessa mas, sim, uma causa excepcional de extinção de um pedido em razão da incompetência do juízo para dele conhecer. Extinto o pedido competirá ao interessado, já que foi extinto sem resolução do mérito, demandar perante o juízo federal competente, aguardando a decisão dele sobre a existência ou não de interesse da União. Da possível restituição dos autos ou juízo originário Verificando o juízo federal não ser causa de interesse da União ou de qualquer dos outros entes mencionados no caput do art. 45, CPC/2015, deverá restituir os autos ao juízo originário, tudo isso sem suscitar conflito de competência já que, como mencionamos, a competência para verificar se há ou não interesse da União no conflito é exclusivo do juízo federal. 3.6 MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIAComo visto, quem determina qual o juízo competente para determinado caso submetido ao judiciário é a lei, ela estabelece, a partir dos critérios de determinação, qual o órgão jurisdicional é competente para conhecer e julgar a lide. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 36 Entretanto a própria lei cria situações permissivas para que a competência anteriormente fixada possa ser modificada, seja em razão da vontade das partes ou mesmo quando em determinado juízo já tramita um anterior processo. Vale destacar que somente é possível a modificação de competência quando relativa, não sendo lícita a modificação da competência absoluta. A modificação de competência pressupõe: (a) a existência de um prévio juízo competente para uma determinada situação litigiosa; (b) existência de um fator, previsto em lei, criador do permissivo para a modificação da competência (c) o que tornará competente para a demanda um juízo que, originariamente, não seria o competente para conhecer da demanda. E quais são esses fatores de modificação da competência? Os fatores de modificação da competência derivam: 1 - da vontade das partes: 1.1 - de forma expressa: hipóteses de foro de eleição (CPC 63, §§ 1º e 2º); ou 1.2 - de forma tácita: não arguir a tempo e modo a incompetência relativa (CPC 65) 2 - existência de outro e anterior processo: 2.1 - conexão; ou 2.2 – continência (CPC 54 e ss) a) Só é possível a modificação de competência de critérios relativos O art. 54 apresenta duas das formas de modificação da competência, em que duas ou mais demandas se aproximam pelos seus elementos de identificação subjetivos (partes) e/ou objetivos (causa de pedir e pedido), mas sem identidade das demandas, pois ai estaremos diante de uma litispendência. Tanto a conexão quanto a continência ditam que as demandas guardam elementos de semelhança, mas não em sua totalidade, sendo correto, assim, nos limites da lei, a distribuição por dependência com a reunião das demandas perante o juízo prevento. b) Da conexão A conexão, conforme caput do art. 55, CPC, pressupõe que entre dois ou mais processos ocorra uma identidade dos elementos objetivos de constituição da demanda, a saber: identidade de causa de pedir e/ou o pedido. Quando falamos em causa de pedir sabemos que ela é composta dos fatos e dos fundamentos jurídicos; a identidade fática é o elemento a gerar a proximidade suficiente 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 37 para que tenhamos a conexão entre demandas, não necessariamente matérias idênticas de “direito” discutidas em duas ou mais demandas. Quanto ao pedido, a identidade para a conexão está ligada ao objeto material pretendido; do objeto material pretendido em duas ou mais demandas ser o mesmo. Podemos afirmar que a conexão de demandas, e sua reunião para julgamento conjunto pressupõe a observância de dois princípios: - segurança jurídica: para evitar decisões díspares entre causas que derivam do mesmo fato ou que versam sobre o mesmo objeto; e - economia processual: versando a demanda sobre os mesmos fatos ou objeto, as provas a serem produzidas em um dos processos será, potencialmente, as provas que deverão ser produzidas no outro ou outros processos. Limite temporal para reunião dos processos conexos propostos em separado A reunião dos processos por conexão se justifica para que possam ser, as demandas, julgadas de forma conjunta; assim, se um dos processos já foi sentenciado, não se justifica a reunião dos processos, mesmo existindo entre eles conexão, o que nos apresenta o art. 55, §1º, CPC, parte final. Basta a sentença ser proferida numa das demandas conexas, sem necessidade do trânsito em julgado, para que se tenha o fator impeditivo de reunião das demandas. c) Da Continência Podemos afirmar que a continência, em razão do disposto no CPC, art. 56, como motivo para modificação da competência, é uma forma qualificada de conexão, onde passa a ser necessária a proximidades das demandas em razão de: - mesmas partes (+) - mesma causa de pedir (+) - e, numa das demandas, o pedido ser mais abrangente de tal forma a comportar (a conter) o pedido da outra demanda. Assim, não temos necessariamente identidade das demandas mas uma grande proximidade entre elas e inclusive situações possíveis de prejudicialidade. Sendo uma forma qualificada da conexão APLICAMOS A CONTINÊNCIA TUDO AQUILO QUE APLICAMOS A CONEXÃO, por exemplo: - reunião perante o juízo prevento - verificação do juízo prevento pelos mesmos critérios da conexão - limite de reunião das demandas ditada pelo ato sentença - potencialidade de ser conhecida de ofício ou mediante requerimento; entre outras. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 38 Uma diferença, entretanto, deve ser destacada, A CONEXÃO GERA A REUNIÃO DAS DEMANDAS PROPOSTAS EM SEPARADO, JÁ A CONTINÊNCIA PODERÁ GERAR A REUNIÃO DAS DEMANDAS OU A EXTINÇÃO DE UMA DELAS, é o que se depreende da análise do art. 57, CPC. Reunião dos processos em razão da continência - extinção parcial (litispendência parcial) Necessário que a ação contida seja ajuizada primeiramente, tornando o juízo prevento; posteriormente é ajuizada a ação continente; reunidas as demanda, nessa última não será julgado o pedido contido, já que ele é parte da demanda primeira, onde esse pedido deve ser julgado. Extinção dos processos em razão da continência Lado outro, se a ação continente for ajuizada primeiramente e, posteriormente, ocorrer o ajuizamento da ação contida, não serão as demandas reunidas; como o pedido da segunda ação já está contido na primeira demanda, será caso de extinção do processo, com o seguimento da demanda primeira, onde o pedido da segunda será devidamente julgado. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 39 4 DAS PARTES 4.1 CONCEITO O conceito de partes é totalmente abstrato, derivando exclusivamente da ocorrência de atos processuais, não se confundindo com o conceito de sujeito da relação processual. - Todo aquele que apresenta em juízo um pedido é considerado parte - Todo aquele que é citado passa a compor a relação processual como parte - Todo aquele que, não apresentando originariamente o pedido ou que não é citado originariamente para a integrar a relação processual, mas que intervém no processo por ato de sucessão processual passa a ser considerado parte. - Algumas modalidades de intervenções de terceiros passam a gerar, também, a integração de alguém como parte no processo. 4.2 DA LEGITIMIDADE Apresentado o conceito de partes como algo abstrato do direito material, derivado exclusivamente de atos processuais, podemos afirmar que para o conceito de legitimidade a verificação da relação jurídico-material submetida a análise do poder judiciário é algo essencial. LEGITIMIDADE ORDINÁRIA: o legitimado ordinário é o sujeito da relação processual, independentemente de ter capacidade para a prática de atos da vida civil. LEGITIMIDADE EXTRAORDINÁRIA: permite a lei, entretanto, que alguém que não é sujeito da relação jurídico-material possa, em seu nome buscar direito de outrem. Não podemos misturar o conceito de partes e de legitimidade. Como visto, o conceito de partes é abstrato, derivando da prática de atos do processo; lado outro, quando lidamos com o conceito e a observância da legitimidade, devemos levar em consideração quem são os sujeitos da relação jurídico-material (algo que não ocorre para definir se alguém é ou não parte no processo) 4.3 DA CAPACIDADE Sobre a capacidade: (i) DE SER PARTE: todo aquele que é detentor de direitos ou que possui obrigações no campo das relações jurídico-materiais tem capacidade para ser parte. (ii) PROCESSUAL: é a aptidão daquele que, sendo parte, pode praticar os atos processuais como tal; não há tendo deverá estar em juízo devidamente representado ou assistido por quem a lei determinar 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 40 (iii) POSTULATÓRIA: detém dita capacidade aqueleque pode realizar os atos técnicos dentro da relação processual instaurada; também conhecida como capacidade técnica, a possui o advogado, público ou privado, o Ministério Público nas causas em que figura como parte, o defensor público. Muitas vezes pode a própria parte ter, também, capacidade postulatória 4.4 DOS DEVERES DA PARTES E DOS PROCURADORES a) princípio da boa-fé como norma fundamental do processo Norma fundamental do processo civil, esculpida no art. 5º, CPC, existe uma exigência voltada não apenas para aqueles que são considerados partes no processo, mas para todos aqueles que são sujeitos do processo ou que dele venham a participar por qualquer motivo, que é agir dentro de preceitos de boa-fé, de BOA-FÉ OBJETIVA. b) alcance subjetivo da norma e situações meramente enumerativas O art. 77, CPC enumera algumas situações de condutas éticas exigidas, não apenas das partes e de seus procuradores, mas de todos aqueles que, de qualquer forma participem da relação jurídico-processual. As condutas elencadas são apenas enumerativas, sendo que eventual conduta ali não descrita em precisão, mas que importe em conduta não amparada pela atuação ética que se espera, pressupõe, também, desrespeito ao princípio da boa-fé. Alguns dos preceitos elencados no art. 77, CPC podem significar um enquadramento da conduta como litigância de má-fé, tendo sua correspondência no art. 80, CPC, gerando as penalidades que lhe são próprias.; lado outro existem condutas típicas no art. 77, CPC que, desrespeitadas, podem gerar ATO ATENTATÓRIO A DIGNIDADE DA JUSTIÇA, são elas: IV - cumprir com exatidão as decisões jurisdicionais, de natureza provisória ou final, e não criar embaraços à sua efetivação; (...) VI - não praticar inovação ilegal no estado de fato de bem ou direito litigioso. Caracterizado o ato atentatório a dignidade da justiça estará, o sujeito, passível de imposição de multa, nos moldes do art. 77, §2º, CPC. c) Dos deveres e da responsabilidade por dano processual A novel legislação previu em seu art. 77 alguns deveres a serem observados pelas partes, seus procuradores, bem como qualquer pessoa que de alguma forma participe do processo. O descumprimento de tais obrigações constitui ato atentatório à dignidade da justiça, punível com aplicação de multa, sem prejuízo de sanções criminais, civis e processuais cabíveis. Em relação às condutas descritas no art. 80 do CPC/15, responderá por litigância de má- fé o autor, o réu ou interveniente. Nesse caso, o juiz condenará o litigante de má-fé em 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 41 multa, além de indenização pelos prejuízos causados à parte contrária, honorários advocatícios e outras despesas processuais. d) Despesas, honorários advocatícios e multas Sabidamente, as despesas processuais abrangem as custas, as indenizações de viagens, a remuneração de assistentes técnicos e as diárias de testemunhas. Constitui ônus das partes antecipar as despesas dos atos praticados ou requeridos no processo, salvo quando a sua realização for determinada de ofício pelo juiz ou requerida pelo Ministério Público, caso em que incumbirá ao autor o seu adiantamento. Importante inovação trazida pelo CPC/15 diz respeito aos honorários advocatícios, os quais receberam tratamento especial. A aludida verba alcançou status legal de natureza alimentar, privilegiada e não compensável (art. 85, § 14, CPC/15). Além disso, a novel legislação contemplou a possibilidade de cumulação dos honorários, sendo devidos, inclusive, na reconvenção, no cumprimento de sentença, na execução e nos recursos interpostos (art. 85, §1º, CPC/15). Quanto à fixação dos honorários sucumbenciais, o CPC/15 adotou critérios objetivos a serem observados pelo juiz, cujo arbitramento pode variar entre dez e vinte por cento calculados sobre o valor da condenação, do proveito econômico obtido ou sobre o valor atualizado da causa, conforme o caso. Por derradeiro, a nova égide processual regulamentou os honorários advocatícios nas causas em que a Fazenda Pública for parte, estabelecendo percentuais, em conformidade com o art. 85, §3º do CPC/15. e) Da gratuidade da justiça Com o advento do CPC/15, foram revogados alguns dispositivos da Lei 1.060/50 que regula a assistência judiciária gratuita. A matéria relativa à gratuidade da justiça passou a ser disciplinada pelo novo código, o qual promoveu-lhe importantes alterações. A insuficiência de recursos é pressuposto necessário para a concessão dos benefícios da justiça gratuita, cujo pedido pode ser formulado na petição inicial, na contestação na petição de ingresso de terceiro, na peça recursal ou mediante petição simples (art. 99, §1º do CPC/15). O requerimento de gratuidade da justiça formulado exclusivamente por pessoa natural prescinde de comprovação, bastando a mera da declaração de hipossuficiência financeira, cuja veracidade é presumida (art. 99, §3º, CPC/15), sendo cabível, no entanto, prova em sentido contrário pelo impugnante. O indeferimento do pedido somente se justifica quando houver nos autos elementos que evidenciem a ausência dos requisitos para a sua concessão. Ademais, a negativa do pleito deve ser precedida de contraditório, nos termos do art. 99, §2º do CPC/15, cuja decisão é recorrível por meio de Agravo de Instrumento (art. 101 do CPC/15). Outra característica é a revogabilidade do benefício pelo juiz, quando insubsistentes os motivos que autorizaram o seu deferimento. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 42 Cumpre salientar que a concessão da gratuidade judiciária não afasta a responsabilidade do beneficiário de arcar com as despesas processuais e honorários advocatícios decorrentes de sua sucumbência (art. 98, §2º, CPC/15), tampouco o exime da obrigação de recolher, ao final do processo, as multas que lhe forem porventura impostas. O direito à gratuidade de justiça é pessoal e intransferível, não se entendendo ao litisconsorte ou sucessor do beneficiário, salvo quando expressamente requerido e deferido nesse sentido. A gratuidade de justiça pode ser parcial ou abranger todos os atos do processo. Outrossim, pode consistir apenas na redução percentual de despesas processuais a serem recolhidas antecipadamente pelo beneficiário no curso do procedimento. Na hipótese de revogação da benesse, a parte deverá recolher todas as despesas processuais cujo adiantamento tiver sido dispensado, sob pena de extinção do processo sem resolução de mérito, quando tal obrigação incumbir ao autor e, nos demais casos, nenhuma diligência será deferida, enquanto não efetuado o respectivo preparo. IMPORTANTE: segundo o atual CPC a gratuidade, a ser concedida à parte, mediante requerimento será: • gratuidade total, abarcando a totalidade das despesas e honorários • gratuidade parcial, que pode consistir na gratuidade apenas para alguns atos do processo ou um desconto percentual das despesas • parcelamento, que é a possibilidade do pagamento parcelado das despesas do processo pela parte. f) Dos procuradores A capacidade postulatória é conferida aos advogados regularmente inscritos nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil. Além disso, para representar em juízo o procurador deve estar legalmente habilitado, mediante instrumento de procuração outorgado pela parte. Admite-se, contudo, a postulação sem mandato, a fim de evitar preclusão, decadência ou prescrição, ou quando ato for reputado urgente. Nesses casos, a eficácia do ato ficará condicionada à apresentação nos autos do aludido documento, no prazo legal. É dever do advogado manter seu endereço atualizado, sendo consideradas válidas as intimações eletrônicas ou por carta registrada enviadas para o endereço constante dos autos. Ainda de acordo com a legislação vigente, é assegurado ao advogado o direito de examinar em cartório ou em secretaria os autos de qualquer processo, independentemente de procuração, ressalvados os processos que tramitamem segredo de justiça. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 43 Finalmente, o CPC/15 consolidou a garantia dos advogados de ter acesso amplo aos autos de qualquer processo, pelo prazo de 5 (cinco) dias. g) Sucessão das partes e dos procuradores A teor do art. 108 do CPC/15, a sucessão voluntária das partes ocorre apenas nos casos expressos em lei. Ou seja, a legitimidade das partes não se altera automaticamente, ainda que alienada a coisa ou o direito litigioso por ato entre vivos. Nesse caso, a alteração do polo da ação exige a anuência da parte contrária. Lado outro, na morte de qualquer das partes, haverá a sucessão pelo espólio e sucessores. A parte poderá revogar o mandato outorgado ao advogado, constituindo, no mesmo ato, outro patrono para a causa. A regularidade de representação deve ser feita no prazo de 15 (quinze) dias, sob pena de extinção do processo, se a providência couber ao autor, ou de decreto de revelia, se a providência couber ao réu. O procurador também pode renunciar ao mandato que lhe fora outorgado, desde que comprove que comunicou ao outorgante, a fim de que este nomeie sucessor, salvo se no instrumento de procuração houver outros advogados. Oportuno lembrar que, mesmo depois de manifestar a renúncia, o advogado deverá continuar representando a parte nos 10 (dez) dias subsequentes. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 44 5 DO LITISCONSÓRCIO O processo é composto subjetivamente por partes que, estando em contraditório, se encontram em polos distintos da demanda, ou seja: autor e réu. Autoriza a lei, entretanto, que em determinado processo exista uma composição subjetiva múltipla, com a presença de vários autores e/ou vários réus. Quando isto ocorre, estamos diante do fenômeno processual conhecido como LITISCONSÓRCIO. Depois da definição conceitual, afirmamos que o litisconsórcio pode ser classificado de 4 formas distintas e cumulativas, levando em consideração o polo da relação processual onde existe a multiplicidade de partes, o momento da formação, os efeitos da decisão em relação aos litisconsortes e, por fim, a sua obrigatoriedade de formação. Assim temos litisconsórcio: - ATIVO, PASIVO ou MISTO - INICIAL ou ULTERIOR (incidental) - SIMPLES ou UNITÁRIO - FACULTATIVO ou NECESSÁRIO a) classificação (i) quanto a posição Levamos em consideração em que polo da relação processual o litisconsórcio é formado, se existem no processo multiplicidades de autores e/ou de réus, ou de exequentes e/ou executados, já que essa classificação atinge também a execução. a) ativo: vários autores e um único réu b) passivo: um autor e vários réus c) misto: vários autores e vários réus (ii) quanto ao momento da formação Desde o início do processo, com a distribuição da petição inicial, já podemos ter a configuração do litisconsórcio, entretanto é possível, de forma voluntária ou não, que o litisconsórcio se forma no decorrer do rito processual. a) inicial: quando é formado desde logo, no início da relação processual b) ulterior (ou incidental): quando é formado no decorrer do processo (iii) quanto aos efeitos da decisão Formado o litisconsórcio devemos examinar a pretensão posta no processo e seus efeitos diante da procedência do pedido, se os efeitos da possível decisão meritória atingirão de modo uniforme aqueles que estão em litisconsórcio ou se os efeitos materiais da decisão os atingirão de forma distinta. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 45 a) simples: quando os efeitos da decisão são distintos para os que estão em litisconsórcio b) uniforme: quando os efeitos da decisão atingem de forma idêntica aqueles que estão em litisconsórcio. (iv) quanto a obrigatoriedade da formação A relação jurídico-material controvertida pode permitir às partes dispor (ato de vontade) sobre a formação do litisconsórcio; lado outro, diante da relação jurídico-material submetida ao poder judiciário ou em razão da determinação legal, pode a formação do litisconsórcio ser obrigatória. a) facultativo: a relação jurídico-material controvertida não impõe, para a validade ou eficácia plena da decisão, a formação do litisconsórcio, que poderá existir em razão da vontade das partes b) necessário: a lei impõe, ou a natureza da relação jurídico-material, que no processo seja formado o litisconsórcio, com integração de várias partes no processo, sob pena da decisão final ser nula ou parcialmente ineficaz. b) litisconsórcio facultativo e a possibilidade de sua limitação O art. 113, CPC dita situações permissivas de formação do litisconsórcio facultativo, onde a relação jurídico processual poderá gerar uma decisão válida e eficaz mesmo sem a presença de todos aqueles que poderiam figurar com partes no processo; claro que os efeitos da decisão estarão limitados àqueles que figurarem como participes da relação- processual estabelecida. Destacamos que o art. 113, CPC, apresenta as situações normatizadas que geram o permissivo da formação do litisconsórcio facultativo, seja ele ativo ou passivo. Sendo facultativo o litisconsórcio é possível a sua limitação por decisão tomada de ofício pelo juiz, no início do processo, portanto uma decisão liminar, mas poderá o réu arguir, no prazo da resposta, os elementos processuais que podem ensejar a limitação do litisconsórcio (vide CPC 113, §§ 1º e 2º). c) litisconsórcio necessário Lado outro há situações em que a lei processual exige a formação do litisconsórcio, necessariamente, para que a decisão de mérito que venha a ser proferida possa ser válida e eficaz (CPC arts. 114 e 115). A formação do litisconsórcio necessário pode derivar (i) de imposição da lei, que determina a citação de mais de uma pessoa para compor a relação processual; ou (ii) da natureza da relação jurídico-material submetida a apreciação do poder judiciário. d) litisconsórcio unitário Como mencionado acima, na classificação do litisconsórcio, é considerado simples aquela composição subjetiva múltipla que permite ao juiz julgar a lide de forma 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 46 individualizada para cada uma das partes, gerando potenciais decisões diferentes; lado outro, quando o litisconsórcio é unitário, a decisão deverá ser uniforme para todos aqueles que estão na relação processual em litisconsórcio (CPC 116). e) tratamento Salvo as situações de exceções previstas em lei, os litisconsortes são tratados como partes distintas, frente aqueles com quem litigam, exigindo a lei que todos venham a ser intimados dos atos processuais, dando o permissivo de todos apresentarem, caso queiram, individualmente suas manifestações (CPC 117 e 118). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 47 6 INTERVENÇÃO DE TERCEIROS 6.1 INTRODUÇÃO: CONCEITO DE PARTES E DE TERCEIROS Diverge a doutrina quanto à conceituação de parte. Para alguns, partes serão apenas o autor e o réu, ou seja, aquele que tem legitimidade para exercer o direito de ação, seja legitimidade ordinária ou extraordinária, e aquele em face de quem se propõe a demanda, aquele que deverá suportar o ônus de eventual procedência do pedido do autor. Outros agregam ao conceito de parte não apenas o autor e réu da demanda, mas também a figura do terceiro interessado. Filio-me à corrente expansiva do conceito, data vênia a existência da divergência, acreditando ser parte do processo tanto o autor e o réu quanto terceiros que, ao participarem do processo, demonstram interesse específico no resultado da demanda, aproximando o conceito de partes ao conceito de litigante (quem, participando do processo, tenha interesse num resultado específico da demanda). Portanto, temos que terceiros seriam todos aqueles que não participam da relação processual sendo que, muitas vezes, permite a lei processual que ocorra a intervenção de um terceiro numa demanda já em trâmite, notadamente em razão de algum interesse que ele venha a ter na relação processual originária. 6.2 MODALIDADES DEINTERVENÇÃO DE TERCEIROS PREVISTAS NO CPC Estabelece a lei processual algumas formas de intervenção de terceiros: - ASSISTÊNCIA - cabimento: Tem lugar quando um terceiro tem interesse jurídico na vitória de uma das partes originárias - requerimento: feito pelo próprio terceiro - momento: a qualquer momento, inclusive em fase recursal - objetivo: permitir que um terceiro possa auxiliar, assistir, uma parte originária na busca da vitória no processo instaurado, na medida que, tendo o terceiro interesse jurídico, poderá sofrer efeitos diretos ou reflexos da decisão proferida entre as partes originárias. - DENUNCIAÇÃO DA LIDE - cabimento: para que uma das partes originárias possa buscar direito de regresso em razão de situações contratuais ou legais - requerimento: pode ser solicitada a denunciação tanto pelo autor quanto pelo réu 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 48 - momento: se realizada pelo autor deverá ser na petição inicial; já o réu deverá fazer a solicitação da denunciação da lide na contestação. - objetivo: diante da eventualidade da parte originária, autor ou réu, vir a perder a demanda, tendo direito regressivo contra um terceiro, poderá solicitar desde logo a inclusão desse terceiro na relação processual viabilizando, diante de uma economia processual, possível direito de regresso. Ou seja, caso a parte venha a perder a demanda, ocorrendo a denunciação, não precisará ajuizar ação própria para a busca do direito regressivo, que é assegurado já no próprio processo. - DO CHAMAMENTO AO PROCESSO - cabimento: para que uma das partes originárias possa buscar direito de regresso em razão de situações contratuais ou legais. Difere da denunciação em vários aspectos, notadamente diante da verificação que o autor poderia, desde logo, ter demandado tanto o réu originário quanto o terceiro, e não o fez. - requerimento: pode ser solicitado somente pelo réu originário no processo de conhecimento - momento: deve ser solicitado na contestação sob pena de preclusão - objetivo: também tem como objetivo viabilizar, diante da eventualidade da perda da demanda, direito regressivo contra o terceiro. Ocorre que, no chamamento, ao contrário da denunciação, citado o terceiro ele vira réu na demanda, passando a figurar como litisconsorte da parte originária. - DO INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA - cabimento: sempre que um terceiro, sócio ou mesmo pessoa jurídica, tenha responsabilidade patrimonial secundária, poderá ocorrer a desconsideração da personalidade jurídica para viabilizar a efetivação do direito do autor - requerimento: pode ser solicitado pela parte credora - momento: não apenas na fase de cumprimento de sentença ou no processo de execução, pode ser solicitado a qualquer momento no processo de conhecimento, inclusive na petição inicial. - objetivo: visa trazer o terceiro, sócio ou pessoa jurídica, que não figure na relação jurídico-material submetida a apreciação judicial para responder patrimonialmente pela pretensão autoral. - DO AMICUS CURIAE - cabimento: sempre que for necessária a participação de alguém para auxiliar o magistrado a compreender melhor o tema da controvérsia ou a repercussão social da demanda - requerimento: pode ser solicitado pelo próprio juiz, por qualquer das partes, ou pelo próprio terceiro - momento: a qualquer momento do processo 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 49 - objetivo: diante de uma causa que se apresente como uma demanda que pode gerar um repercussão social, ou que tenha uma matéria específica que possa atingir indiretamente a coletividade, sendo matéria de complexidade, portanto, poderá ser admitida a intervenção de terceiros que, apresentando manifestações, ajudem o juiz a compreender a complexidade social da causa. - RECURSO DE TERCEIRO PREJUDICADO - cabimento: quando um terceiro seja atingido por um ato decisório, de forma direta ou reflexa, sendo um terceiro juridicamente interessado, portanto, no ato decisório - requerimento: pelo próprio terceiro que apresentará o recurso próprio contra a decisão recorrida - momento: no prazo que a parte dispõe para recorrer - objetivo: permitir que terceiro juridicamente interessado possa, atingido por um ato decisório de um processo em que não é parte, possa utilizar do recurso próprio contra a decisão proferida num processo em que não figure como parte. 6.3 DA INTERVENÇÃO DE TERCEIRO ANÓDINA OU ANÔMALA Para que se chegue à verificação da existência dessa forma diferenciada de intervenção de terceiros é necessário que verifiquemos, inicialmente, a Lei Complementar n. 73, LEI ORGÂNICA DA ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO. Referida lei dita, como uma das atribuições do advogado-geral da união: “desistir, transigir, acordar e firmar compromisso nas ações de interesse da União, nos termos da legislação vigente”, conforme expõe seu art. 4º, item VI. Esse dispositivo da Lei Orgânica da Advocacia-geral da União foi regulamentado pela lei 9469/97, art. 5º . Assim, podemos afirmar que a intervenção de terceiros, conhecida como intervenção anódina ou anômala foi criada pelo Art. 5º da Lei nº 9.469/97. O Advogado-Geral da União foi autorizado, por referida norma legal, a transacionar ou firmar acordos em juízo podendo, de acordo com o Art. 5º da lei mencionada, intervir, em nome da União, nas causas em que figurarem, como autoras ou rés, autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas públicas federais. Vê-se que o caput trata de forma ampla da intervenção da União nos processos, bastando que figurem como autoras ou rés as pessoas citadas, mesmo empresas públicas federais. O parágrafo único do mesmo artigo trata de mais um permissivo: as pessoas jurídicas de direito público poderão, nas causas cuja decisão possa ter reflexos, ainda que indiretos, de natureza econômica, intervir, independentemente da demonstração de interesse 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 50 jurídico, para esclarecer questões de fato e de direito, podendo juntar documentos e memoriais reputados úteis ao exame da matéria e, se for o caso, recorrer, hipótese em que, para fins de deslocamento de competência, serão consideradas partes. Referida espécie de intervenção de terceiros independe de interesse jurídico - uma das condições da ação -, bastando, para a nova figura processual, o interesse econômico. 6.4 ASSISTÊNCIA A assistência é uma modalidade de intervenção de terceiros em que um terceiro juridicamente interessado auxilia uma das partes na obtenção de uma decisão favorável. O assistente recebe o processo no estado em que se encontra, podendo intervir em qualquer procedimento e em todos os graus de jurisdição. O pedido de intervenção formulado pelo assistente pode ser impugnado por qualquer das partes, caso em que o juiz decidirá o incidente, sem suspensão do processo. A assistência pode ser simples ou litisconsorcial. O assistente simples atua ao lado da parte principal, exercendo os mesmos poderes e sujeitando-se aos mesmos ônus do assistido, podendo, inclusive, ser seu substituto processual, na hipótese de revelia. Não obstante, a assistência não obsta que assistido reconheça a procedência do pedido, desista da ação, renuncie ao direito controvertido ou mesmo ou transija. O assistente litisconsorcial, por sua vez, atua no procedimento na condição de litisconsorte da parte principal. A sua intervenção se justifica em razão do impacto direto da sentença na relação jurídica existente entre ele e o adversário do assistido. 6.5 DENUNCIAÇÃO DA LIDE A denunciação da lide pode ser promovida por qualquer das partes. É cabível nas ações reivindicatórias ou para fins de direito regressivo em ação indenizatória. O denunciado é citado e integra a lide na qualidade de litisconsorte da parte autora ou da parte ré. Se o autor for o denunciante, o denunciado poderá acrescentar novos argumentos à petição inicial antes da citação do réu.Se o réu for o denunciante, o denunciado poderá apresentar contestação, prosseguindo o feito em litisconsórcio passivo. Na hipótese de revelia do denunciado, o denunciante pode deixar de prosseguir com a sua defesa, abster-se de oferecer recurso, e optar por ajuizar ação de regresso. Havendo confissão do denunciado quanto aos fatos alegados pelo autor, o denunciante réu poderá continuar com a sua defesa ou aderir ao aludido reconhecimento, limitando- se a requerer a procedência da ação de regresso. Na hipótese de procedência do pedido da ação principal, o autor poderá requerer o cumprimento de sentença também em face do denunciado, nos limites da condenação deste na ação regressiva. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 51 Pela redação da norma do art. 125, §2º do CPC/15, verifica-se que o termo “antecessor imediato” nela inserido afastou a denunciação da lide per saltum, na qual o denunciante pode apontar qualquer alienante integrante da cadeia de transmissão do bem. A denunciação da lide só será apreciada no bojo da ação principal quando o denunciante for vencido. Sendo este vencedor, a denunciação não terá seu mérito examinado, podendo ser o denunciante condenado em pagamento das verbas de sucumbência em favor do denunciado. 6.6 DO CHAMAMENTO AO PROCESSO O chamamento ao processo é uma modalidade de intervenções de terceiros requerida exclusivamente pelo réu, admissível nas ações cobrança de dívida garantida por fiança ou quando houver pluralidade de devedores solidários. O chamamento é requerido pelo réu em sede de contestação. Uma vez promovida a citação no prazo legal, o chamado passa a integrar a relação processual, figurando como litisconsórcio passivo. A sentença de procedência constitui título executivo em favor do réu que satisfizer a obrigação, que poderá exigi-la, por inteiro, do devedor principal, ou, de cada um dos codevedores, na proporção que lhes couber. 6.7 DO INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA Essa modalidade de intervenção de terceiros constitui importante novidade trazida pelo CPC/15. A instauração pode ser feita a pedido da parte ou do Ministério Público, por quando couber sua intervenção no processo. O incidente é cabível em todas as fases do processo, bem como na execução de título executivo extrajudicial. Se o requerimento de desconsideração da personalidade jurídica for formulado na inicial não haverá instauração do incidente nem suspensão do processo, sendo desde logo promovida a citação do sócio ou da pessoa jurídica, conforme o caso. Instaurado o incidente, este será resolvido mediante decisão interlocutória, após concluída a fase instrutória, se houver. O acolhimento da desconsideração da personalidade jurídica gera ineficácia do ato de alienação ou oneração de bens havido por fraudulento (art. 137, CPC/15). IMPORTANTE! SISTEMA RECURSAL DERIVADO DO INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA • instauração do incidente, com suspensão do processo: todo ato decisório será atacado por agravo de instrumento 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 52 • resolução do incidente no ato sentença, quando requerido diretamente na petição inicial, já que não suspende o processo: será, a decisão, já que é sentença, atacada por recurso de apelação • incidente de desconsideração solicitado diretamente no tribunal, na fase recursal, como será decisão proferida pelo relator: recurso de agravo interno. 6.8 AMICUS CURIAE O amicus curiae ou “amigo da corte”, assim como o incidente de desconsideração da personalidade jurídica, foi inserido no rol das espécies de intervenção de terceiros pela novel legislação. De acordo com o art. 138 do CPC/15, a participação do amicus curiae faz-se necessária diante da relevância da matéria, da especificidade do tema objeto da demanda ou da repercussão social da controvérsia. O amicus curiae exerce função auxiliar do juízo e a sua atuação é imparcial, destituída de interesse jurídico, não assumindo nenhuma posição subjetiva na relação processual. A decisão que admite ou solicita a intervenção do amicus curiae é irrecorrível e pode ocorrer de ofício ou a requerimento de qualquer das partes. As atribuições do amicus curiae são definidas pelo juiz ou relator na própria decisão. Consoante o disposto no art. 138, §3º do CPC/15, admite-se a interposição de recurso pelo amicus curiae da decisão que julgar o incidente de resolução de demandas repetitivas. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 53 7 DO JUIZ, DO MINISTÉRIO PÚBLICO, DA DEFENSORIA PÚBLICA E DA ADVOCACIA PÚBLICA 7.1 DO JUIZ A nova sistemática processual, pautada na ideia de um cooperativismo judicial, dedicou um capítulo inteiro ao tema, estabelecendo novas regras relativas aos poderes, deveres e responsabilidades do juiz. Nota-se uma mudança substancial no que tange à posição do intérprete da norma, o qual passou a assumir uma posição mais ativa na relação processual tripartite. Ao longo do novo codex, é possível encontrar diversos dispositivos que ilustram essa postura proativa do juiz, o qual é responsável por conduzir bem o processo e garantir a efetiva prestação jurisdicional. O juiz deve ser imparcial, assegurando às partes tratamento isonômico (art. 139, inciso I do CPC/15). Além disso, o juiz deve promover, a qualquer tempo, a solução consensual dos litigantes, em atendimento ao princípio da autocomposição. No tocante aos poderes conferidos ao juiz, novidade importante trazida pelo CPC/15 diz respeito à flexibilização das regras procedimentais, com a possibilidade de dilação dos prazos processuais e alteração da ordem de produção das provas, de modo a adequar às necessidades dos conflitos, à luz do princípio da efetividade. Não obstante, o art. 222, §1º, CPC/15 veda expressamente a redução dos prazos peremptórios pelo juiz, sem o consentimento das partes. Em relação às responsabilidades do juiz, o art. 143 do CPC/15 previu a aplicação de penalidade civil, de cunho indenizatório, ao juiz que proceder com dolo ou fraude no exercício de suas funções; recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício ou a requerimento da parte. Com o intuito de não comprometer a imparcialidade do juiz - pressuposto de validade do processo - o CPC/15 elencou diversas situações em que o exercício da jurisdição é absolutamente vedado, seja por impedimento, seja por suspeição do juiz. As hipóteses de impedimento, elencadas no art. 144, incisos I a IX do CPC/15, são fundadas em elementos objetivamente identificados. Já a suspeição (art. 145, incisos I a III, CPC/15) caracteriza-se pela subjetividade do agente, estando relacionados a questões pessoais, de foro íntimo. 7.2 DO MINISTÁRIO PÚBLICO O Ministério Público, no exercício de suas atribuições institucionais (direito de ação), atua como parte autora (legitimado ativo) na defesa da ordem jurídica, da democracia do estado, dos interesses e direitos sociais e individuais indisponíveis. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 54 Por expressa exigência legal, faz-se necessária a intervenção ministerial, na qualidade de fiscal da ordem jurídica, nos processos que envolvam interesse público ou social; interesse de incapaz; ou litígios coletivos possessórios de terra rural ou urbana. Nesses casos, a intimação do parquet é obrigatória sendo-lhe assegurado vista dos autos depois das partes, sob pena de nulidade do processo. Ainda na hipótese, a despeito de não integrar a relação processual, o MP poderá produzir provas, requerer medidas processuais que reputar pertinentes, bem como recorrer (art. 179, inciso II do CPC/15). No que concerne às prerrogativas funcionais, o MP goza de prazo em dobro para manifestar-se nos autos, devendo ser pessoalmente intimado para tanto. O CPC/15 previu, outrossim, a responsabilidade civil dos membros do MP, quando praticarem algum ato, mediante dolo ou fraude, no exercício de suas funções. 7.3 DA ADVOCACIAPÚBLICA A Advocacia Pública é responsável pela representação judicial dos entes públicos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) e demais pessoas jurídicas que integram a Administração Pública direta e indireta, em todos os âmbitos federativos. A Fazenda Pública e suas respectivas autarquias e fundações de direito público possuem prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais, cujo termo inicial é contado a partir da intimação pessoal, que se faz mediante carga, remessa ou meio eletrônico. Os advogados públicos também podem ser civilmente responsabilizados quando, no exercício de suas funções, agirem com dolo ou fraude. Conforme mencionado alhures, novidade que merece destaque com a entrada em vigor do CPC/15 refere-se à regulamentação dos honorários advocatícios sucumbenciais em favor dos procuradores públicos. 7.4 DA DEFENSORIA PÚBLICA Incumbe à Defensoria Pública, nos termos do art. 185 do CPC/15, promover a orientação jurídica, defender os direitos humanos, individuais e coletivos dos necessitados, em todos os graus de jurisdição, de forma integral e gratuita. Além de representar judicialmente a população carente, compete à Defensoria Pública exercer a curatela especial do incapaz que não tiver representante legal ou, havendo, os interesses deste foram conflitantes com o daquele; do réu revel preso, bem como do réu citado por edital ou por hora certa. Constitui prerrogativa da Defensoria Pública a contagem em dobro de todos os prazos para manifestação nos autos, cuja intimação deve ser pessoal. Igualmente, os defensores públicos responderão civilmente por seus atos dolosos ou fraudulentos, praticados no exercício de suas funções. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 55 Sobre o prazo em dobro, dado para a Defensoria Pública, dita a lei processual que igual direito terão os escritórios escolas das faculdades de direito, bem como entidades que prestam assistência judiciária gratuita, neste último caso desde que tenham convênios firmados com a Defensoria, tudo conforme previsto no art. 186, §3o, CPC/2015. Outra incumbência importante dada pela lei processual civil à Defensoria Pública é a sala atuação como curador especial, notadamente nos casos em que, por força do art. 72, CPC, notadamente seu parágrafo único. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 56 8 DOS ATOS PROCESSUAIS 8.1 PRINCÍPIOS Apresentamos, abaixo, alguns princípios que regulam a prática dos atos no direito processual, com destaque aos princípios da (i) não solenidade, (ii) da instrumentalidade das formas, e (iii) publicidade. a) Princípio da não solenidade Um dos grandes mitos que permeiam o direito processual, quando lidamos com atos processuais, é que eles seriam atos formais, solenes. Ocorre que, como disposto no art. 188, CPC, os atos processuais, em regra, são não-solenes, ou seja, os atos e termos processuais independem de forma determinada. Logo, podemos afirmar que, em regra, a lei procedimental não determina uma forma específica para a prática dos atos processuais. Entretanto, o próprio art. 188, CPC, estampa que a não-solenidade para a prática dos atos processuais é apenas uma regra, podendo a lei estabelecer, para alguns atos específicos, uma forma rígida para a sua realização. Nestas exceções, quando a lei prescreve uma determinada forma para a prática dos atos processuais, a sua realização de outra forma pode gerar nulidade. Mas devemos, sempre, ter em mente que a teoria das invalidades dos atos depende da demonstração de prejuízo. Assim, mesmo que um ato formal seja realizado fora da forma prescrita em lei, se atingir o objetivo e não causar nenhum prejuízo, será tido como ato válido. b) Princípio da instrumentalidade das formas Como acima exposto, em regra os atos processuais são informais (princípio da não solenidade), entretanto há situações prescritas em lei que exigem, para determinados atos, a sua realização dentro de uma determinada forma. Mesmo que a lei estabelece eventual nulidade para um ato formal, quando realizado fora da forma estabelecida, se ele atingir o objetivo procedimental específico será visto como ato válido, justamente pelo chamado princípio da instrumentalidade das formas. c) Princípio da publicidade Por força da própria constituição, os atos processuais são públicos. Referida regra estampada está no CPC, no seu art. 189. Contudo, a própria Constituição permite que alguns atos processuais sejam realizados por meio da publicidade restrita, passando o processo a tramitar em segredo de justiça; são os casos de: 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 57 I - em que o exija o interesse público ou social; II - que versem sobre casamento, separação de corpos, divórcio, separação, união estável, filiação, alimentos e guarda de crianças e adolescentes; III - em que constem dados protegidos pelo direito constitucional à intimidade; IV - que versem sobre arbitragem, inclusive sobre cumprimento de carta arbitral, desde que a confidencialidade estipulada na arbitragem seja comprovada perante o juízo. Nos casos acima elencados somente as partes e seus procuradores podem ter acesso aos autos, aos atos processuais praticados e solicitar certidão. Entretanto, de forma excepcional, terceiro que demonstre ao juiz interesse jurídico, nesses casos que tramitam em segredo de justiça, poderá requerer ao juiz da causa e expedição de certidão, mas apenas do dispositivo da sentença, bem como de inventário e de partilha resultantes de divórcio ou separação. Outro fator importante sobre o princípio da publicidade é sua origem constitucional. Citamos o dispositivo constitucional: “Art. 93. (...) IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004). 8.2 DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL E DA CALENDARIZAÇÃO A lei processual, mesmo no vigor do CPC/73, permitia em algumas situações bem específicas, que a vontade das partes pudesse modificar normas procedimentais, que as partes pudessem estipular regras diferenciadas daquelas esculpidas na lei processual para seus processos. Dois grandes exemplos podemos destacar: (i) a eleição de foro em determinado contrato e (ii) a distribuição diversa do ônus da prova por vontade dos envolvidos no litígio. Ou seja, a concepção do contratualismo processual (do negócio jurídico processual) não é uma novidade decorrente da atual codificação procedimental, já que existia pontualmente no CPC revogado. Deve ser salientado que essas antigas e acima descritas hipóteses de contratualismo processual específico estão mantidas no novo CPC, respectivamente nos arts. 63, caput e §§ 1º e 2º e 373, §§ 3º e 4º. A grande novidade no tocante a esse tema é a inserção, no art. 190, CPC, de regra genérica para o contratualismo processual, permitindo o novo CPC, preenchidos os requisitos legais, que seja possível às partes estipular mudanças no procedimento bem 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 58 como fazer convenções que versem sobre ônus, poderes, faculdades e deveres processuais. Nesta mesma linha de pensamento, dando apoio à disposição das partes no tocante a atos e prazos processuais, o art. 191, CPC permite que as partes, em comum acordo com o juiz da causa, fixem prazos para a prática de atos processuais. a) pressupostos de validade do negócio jurídico processual Só é lícita a validade do negócio jurídico processual se as partes estipulantes forem plenamente capazes e se o direito material admita autocomposição. E não podemos confundir direitos indisponíveis com direitos que admitam autocomposição. Por exemplo, alimentosdevidos por genitor a seu filho(a) é direito indisponível, posto não admitir renúncia, mas é possível que seja objeto de autocomposição, podendo as partes acordar quanto ao valor e forma de pagamento, por exemplo. Assim, se o direito material admite autocomposição, possível é que as partes estipulem regras procedimentais especificas para a demanda judicial, desde que sejam plenamente capazes. b) do controle de validade das convenções procedimentais Lícito que a validade das cláusulas negociais que versem sobre o contratualismo processual sejam objeto de controle judicial, sendo lícito ao juiz, de ofício ou a requerimento, fazer referido controle nas seguintes situações: - nulidade da convenção - inserção indevida em contrato de adesão - uma das partes estar em manifesta situação de vulnerabilidade c) do momento para a estipulação do negócio jurídico processual Conforme previsto no art. 190, caput, última parte, é lícito que as partes celebrem o negócio jurídico processual durante o processo ou mesmo antes, desde que preenchidos os pressupostos legais acima apresentados. d) da calendarização Se há, na parte de atos processuais, uma novidade que merece nossa atenção é a calendarização processual. Segundo o previsto no art. 191, podem as partes, em conjunto com o juiz, estipular calendário para a prática dos atos processuais de um determinado processo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 59 Uma vez estipulado o calendário, a prática dos atos ali lançados vincula as partes e o juiz, só podendo ser alteradas em casos excepcionais, desde que devidamente justificados. A calendarização impacta, também, nos atos de comunicação, sendo dispensados atos intimatórios para a prática dos atos ali descritos, bem como para a realização de audiências. 8.3 DOS ATOS DAS PARTES a) classificação Os atos praticados pelas partes (na correta extensão do conceito de parte adotado pela doutrina), podem ser subdivididos em: Atos postulatórios: ato cujo conteúdo representa uma solicitação ao Estado-Juiz, que pode ser tanto requerimento (quando a solicitação tem o enfoque meramente processual) ou pedido (quando a solicitação versa sobre o próprio mérito da demanda). Atos dispositivos: a parte pode dispor da tutela jurisdicional, sendo o ato dispositivo o ato destinado a tal objetivo. Pode ser unilateral, quando a disposição da tutela jurisdicional não depender de anuência da parte contrária, ou concordante, quando o objetivo pretendido só pode ser alcançado com concordância da parte contrária. Atos instrutórios: tem como objetivo gerar, no espírito do magistrado, o convencimento quanto à veracidade dos argumentos trazidos à análise pelas partes. Consistem os atos instrutórios em alegações, que são os próprios argumentos tecidos pelas partes nas suas manifestações processuais (petição inicial, memoriais, razões de recurso etc.), e probatórios, sendo esses atos as provas colhidas, em razão das partes, para convencimento do Juiz (depoimento pessoal, confissão). Atos Reais: atos que se caracterizam por seu aspecto material, não sendo propriamente atos de postulação, razão pela qual são chamados, também, de atos jurídicos de evento físico. Exemplo de ato real é o pagamento de custas judiciais. b) dos atos das partes como manifestações de vontade Conforme estipulado no art. 200, caput, CPC, os atos das partes são manifestações de vontade que para a sua eficácia podem ou não depender da anuência da parte contrária. Exemplo clássico que nos permite verificar a eficácia dos atos das partes com e sem a anuência da parte contrária (atos unilaterais de vontade e atos bilaterais de vontade, respectivamente) é a desistência da ação (CPC, art. 485, §4º). Caso a manifestação do autor seja apresentada antes da contestação, a desistência da ação poderá ser homologada independente da vontade do réu; lado outro, se a desistência da ação for requerida após a citação do réu passa a ser necessária a sua anuência para a homologação. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 60 c) da preclusão consumativa Uma vez praticado o ato processual temos a imediata constituição, modificação ou a extinção de direitos processuais; exemplo, segundo o CPC (art. 335) tem o réu o prazo de 15 dias para apresentação da contestação, praticado o ato processual no 10º dia do prazo legal extinto está o direito de contestação. É a chamada preclusão consumativa. O único ato que não gera efeitos imediatos, uma vez praticados, é a solicitação de desistência da ação, que só gera efeitos após a homologação pelo juízo (CPC, 200, parágrafo único). 8.4 DOS PRONUNCIAMENTOS DO JUIZ Podemos classificar os atos do juiz como: (i) atos de provimento e (ii) atos reais. São atos reais os atos praticados pelo juiz destinados a instrução e à documentação, os primeiros destinados à realização e aperfeiçoamento de determinadas provas para seu próprio convencimento (ex: oitiva de testemunhas) e os segundos destinados a aperfeiçoar e dar validade a determinado documento constante nos autos (ex: assinar ata da audiência, redigir e assinar sentença, etc.). Por seu turno os atos de provimento são atos substanciais, ligados à essência da atividade jurisdicional. São subdivididos em: - atos de provimento motivados: sentenças e decisões interlocutórias, estando presentes também, na referida classificação, os acórdãos e as decisões monocráticas proferidas pelo tribunal e relator. São assim identificados por terem como condição de validade o respeito ao princípio da motivação, são atos que se não fundamentados são nulos. - atos de provimento não motivados: são os despachos que, para validade, não precisam ser motivados. a) das sentenças Para que determinado ato do juiz tenha a natureza jurídica de sentença, é necessário que contenha uma das hipóteses prevista no art. 485 (sem resolução do mérito) ou art. 487 (com resolução do mérito) e que ponha fim à atividade cognitiva do juiz no processo de conhecimento. O art. 203, §1º, além do conceito acima, apresenta também a natureza jurídica da sentença para a execução (processo ou fase de cumprimento), sendo assim conceituado como ato que põe fim à ao procedimento executivo. b) das decisões interlocutórias Altamente interessante como o legislador tratou o conceito de decisão interlocutória, partindo de um conceito negativo ou residual. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 61 Sem as interlocutórias decisões motivas, tal como as sentenças, o art. 203, §2º afirma que todo ato decisório do juiz que não se enquadre no conceito de sentença há de ser conceituado como decisão interlocutória. c) dos despachos Por seu turno e como previsto no art. 203, §3º, são despachos todos os demais atos praticados pelo juiz no processo, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes. d) das decisões proferidas nos tribunais - acórdãos: decisões colegiadas proferidas pelos tribunais (CPC 204). - decisões monocráticas: decisões proferidas por desembargadores ou ministros dos tribunais superiores de forma singular, não colegiada. 8.5 DO TEMPO E DO LUGAR DOS ATOS PROCESSUAIS a) regra temporal para a prática dos atos processuais A teor do art. 212 do CPC/15, “os atos processuais serão realizados em dias úteis, das 6 (seis) às 20 (vinte) horas”, entretanto poderão ser concluídos após às 20 (vinte) os atos iniciados antes, cujo adiamento possa prejudicar a diligência ou causar grave dano. Ou seja, prevê a lei procedimental a viabilidade dos atos processuais serem praticados em dias pré-estabelecidos, dentro de um determinado período deste dia; o que nos remete à pergunta: o que seria DIA ÚTIL para os termos da legislação? Deve ser verificado que a lei processual estabelece o que são DIAS NÃO ÚTEIS, também conceituados como FERIADOS PARA EFEITOS FORENSES. Assim são feriados os dias assim definidos em lei, sábados, domingos e dias que não tem expediente forense, conforme preceituado no art. 216,CPC. Excepcionalmente é lícita a prática de atos processuais em dias não úteis ou mesmo fora do horário acima mencionado. Segundo o art. 212, §2º, os atos de citações, intimações e penhoras poderão realizar-se no período de férias forenses, onde as houver, e nos feriados ou dias úteis fora do horário estabelecido no caput do mencionado artigo. Um fator que deve ser considerado é que a prática de tais atos fora das regras temporais não depende de autorização do juiz, uma novidade trazida pelo atual CPC. b) dos atos praticados através de peticionamentos O peticionamento em autos físicos realizado por meio de protocolo deve observar no horário de funcionamento do fórum ou tribunal, em conformidade com a lei de organização judiciária local. Relativamente aos processos eletrônicos, os atos processuais poderão ser praticados em qualquer horário, até às 24 (vinte quatro horas) do último dia do prazo. Ressalte-se que para a verificação da tempestividade do peticionamento praticado por meio eletrônico 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 62 deve ser considerado o horário vigente no juízo perante o qual o ato processual deve ser praticado. c) férias forenses e feriados Conforme disposto no art. 214 do CPC/15, no período de férias forenses ou nos feriados não se praticarão atos processuais, salvo as tutelas de urgência, as citações, intimações e penhoras. Além disso, tramitam normalmente durante as férias forenses, sem suspensão pela superveniência delas, os procedimentos de jurisdição voluntária; os necessários à preservação de direitos; as ações de alimentos; as ações que envolvem nomeação ou remoção de tutor ou curador; e outros processos que a lei determinar. d) do lugar Quanto ao lugar dos atos processuais, estes serão realizados ordinariamente na sede do juízo, podendo, contudo, ser praticados em outro lugar “em razão de deferência, de interesse da justiça, da natureza do ato ou de obstáculo arguido pelo interessado e acolhido pelo juiz”. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 63 9 DOS PRAZOS 9.1 CLASSIFICAÇÃO a) classificação (i) primeira forma de classificação - prazo legal: prazo previamente estabelecido na lei para a prática do ato processual - prazo judicial: prazos que, não havendo previa estipulação legal, ficam a cargo de fixação do magistrado. É ele, o juiz, e não a lei, que determina o prazo para a realização do ato processual, levando em consideração a complexidade do ato a ser realizado (Art. 218. Os atos processuais serão realizados nos prazos prescritos em lei. § 1º Quando a lei for omissa, o juiz determinará os prazos em consideração à complexidade do ato.). - prazo convencional: as partes do processo podem convencionar um prazo para a realização de atos processuais, notadamente em virtude do contratualismo processual (vide art. 190, CPC). Esta primeira forma de classificação cabe uma observação, notadamente no caso dos prazos judiciais. Como visto, competirá ao magistrado, diante da omissão da lei, fixar prazo para a prática de determinado ato processual. Entretanto, pode ocorrer que o magistrado não determine os dias para a prática do ato. Diante dessa omissão do magistrado, o ato processual deverá ser praticado no prazo de 05 (cinco) dias, como prescreve o art. 218, §3º, CPC. (ii) segunda forma de classificação - prazos comuns: “prazos estabelecidos a ambas as partes, autor e réu, para a prática de determinado ato. Assim, da sentença que acolher parcialmente o pedido do autor, poderão recorrer ambas as partes, sendo caso de prazo comum. - prazos particulares: prazo dirigido apenas a uma das partes da relação processual, quando compete apenas a ela (uma única parte) a prática de determinado ato processual. (iii) terceira forma de classificação - prazos próprios: são os fixados para o cumprimento do ato processual, cuja inobservância acarreta desvantagem para aquele que o descumpriu, consequência essa que normalmente é a preclusão. - prazos impróprios: são aqueles fixados na lei apenas como parâmetro para a prática do ato, sendo que seu desatendimento não acarreta situação processual detrimentosa para aquele que o descumpriu, mas apenas sanções disciplinares. O ato processual praticado além do prazo impróprio é válido e eficaz. Normalmente são prazos impróprios os fixados para o juiz e auxiliares da justiça. (iv) quarta forma de classificação - prazos dilatórios: aqueles que as partes podem, de comum acordo, prorrogar ou reduzir - prazos peremptórios: aqueles que as partes não podem pactuar, que não podem ser modificados pela vontade das partes. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 64 Com a atual evolução do negócio jurídico processual, muitos doutrinadores defendem que essa última forma de classificação não faz mais sentido, pois as partes poderiam, na sua visão sobre o negócio jurídico processual, pactuar sobre qualquer prazos para a prática de atos processuais pelas partes. b) Tempestividade do ato praticado antes do termo inicial Os prazos para a prática dos atos processuais possuem um termo inicial e, sendo ato para a parte, ele flui a partir do momento em que ela (parte) ou seu procurador é intimado. Entretanto, notadamente em razão do princípio da publicidade dos atos processuais, é possível que a parte tenha ciência, por exemplo, de uma decisão que lhe é contrária e que seria recorrível, antes de ser intimado para tanto. Numa antiga posição da nossa jurisprudência, se a parte apresentasse o recurso antes do início do prazo o ato praticado seria visto como extemporâneo. Fazendo a devida e necessária adequação ao processo moderno o CPC atual consagrou no art. 218, §4º a tempestividade do ato praticado antes do início formal do prazo, afastando a tese do ato prematuro adotada pelos tribunais 9.2 CONTAGEM DOS PRAZOS PROCESSUAIS EM DIAS ÚTEIS A normativa anterior ditava que os prazos processuais fluiriam normalmente nos dias sem expediente forense, não se suspendendo ou interrompendo em razão de feriados. O CPC atual inaugurou uma nova regra procedimental, a qual estabelece que os prazos processuais contados em dia serão contabilizados somente em dias úteis (art. 219). ATENÇÃO: Não se aplica a forma de contagem estabelecida no dispositivo legal a prazos outros que não sejam fixados em dias. Por exemplo, os prazos de “mês” previstos no CPC não são contados, somente, os dias úteis, não apenas pela limitação legal da própria norma, mês pela imprecisão dos “dias” em relação a todos os meses do ano. Outro destaque é que o caput do art. 219 faz referência exclusiva aos prazos legais e judiciais. E os prazos convencionais? - Vai depender do acordo, daquilo que as partes, por vontade, estipularem no contrato (CPC 190). ATENÇÃO!!! Nem todo prazo derivado do processo será contado em dias úteis, referida regra, conforme artigo 219, parágrafo único, aplica-se somente aos prazos processuais. Os chamados prazos materiais continuam a ser contados em “dias corridos”. São exemplos de prazos materiais (e portanto contados em dias corridos): • prazo prescricional 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 65 • prazo decadencial • prazo para cumprimento de decisões que não dependam de atuação do advogado da parte, como, por exemplo, o prazo para cumprimento de uma tutela antecipada de urgência 9.3 DA SUSPENSÃO DOS PRAZOS PROCESSUAIS Estabelece a lei processual que os prazos processuais não fluirão entre os dias compreendidos entre 20 de dezembro e 20 de janeiro, inclusive, não se realizando nesse período audiências ou sessões de julgamento. ATENÇÃO: referida regra se aplica somente aos prazos processuais, não aos prazos tidos como materiais. Outra novidade que merece destaque relativa às causas suspensivas dos prazos concerne ao período de execução de programa instituído pelo Poder Judiciário com vistas a promover a autocomposição, previsto no art. 221, parágrafo único, do CPC/15. Ademais, as hipóteses de suspensão do12 PETIÇÃO INICIAL: PROCEDIMENTO COMUM .................................................................. 90 12.1 ELEMENTOS CONCEITUAIS DO ATO ............................................................................ 90 12.2 A QUESTÃO DA COMPETÊNCIA: ENDEREÇAMENTO DA PETIÇÃO INICIAL .................. 90 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 3 12.3 PARTES E QUALIFICAÇÃO ............................................................................................ 90 12.4 CAUSA DE PEDIR: FATOS E FUNDAMENTOS ............................................................... 91 12.5 DO PEDIDO .................................................................................................................. 91 12.6 DO VALOR DA CAUSA .................................................................................................. 94 12.7 REQUERIMENTO DE PROVAS ...................................................................................... 95 12.8 OPÇÃO PELA AUTOCOMPOSIÇÃO ............................................................................... 95 12.9 A PETIÇÃO INICIAL E O PLENO ACESSO AO JUDICIÁRIO .............................................. 95 13 DOS ATOS PRIMEIROS DO JUIZ ....................................................................................... 97 13.1 DA EMENDA DA INICIAL .............................................................................................. 97 13.2 DO INDEFERIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL .................................................................. 97 13.3 DA IMPROCEDÊNCIA LIMINAR DO PEDIDO ................................................................. 98 13.4 DA AUDIÊNCIA DE TENTATIVA DE AUTOCOMPOSIÇÃO .............................................. 98 14 DA CONTESTAÇÃO ......................................................................................................... 100 15 DA RECONVENÇÃO ........................................................................................................ 102 16 DA REVELIA .................................................................................................................... 103 17 DO JULGAMENETO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO (e o julgamento antecipado parcial do mérito) ...................................................................................................................... 104 18 DO SANEAMENTO E DA ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO ............................................... 105 19 DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO ........................................................... 106 20 DA SENTENÇA E DA COISA JULGADA............................................................................. 107 21 DAS PROVAS .................................................................................................................. 109 21.1 DISPOSIÇÕES GERAIS ................................................................................................. 109 21.2 DOS MEIOS TÍPICOS DE PROVA: QUESTÕES ESSENCIAIS .......................................... 110 21.3 DA PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS ................................................................. 112 22 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA ............................................................................... 115 22.1 DO TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL .............................................................................. 115 22.2 DA EXIGIBILIDADE...................................................................................................... 115 22.3 DA COMPETÊNCIA ..................................................................................................... 115 22.4 CUMPRIMENTO DEFINITIVO: OBRIGAÇÃO DE PAGAR QUANTIA CERTA .................. 116 22.5 – DO CUMPRIMENTO PROVISÓRIO ........................................................................... 117 22.6 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA DAS OBRIGAÇÕES DE FAZER, NÃO FAZER E ENTREGAR COISA .................................................................................................................. 117 23 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO ........................................................................................ 119 23.1 DO TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL .................................................................... 119 23.2 DA EXIGIBILIDADE...................................................................................................... 119 23.3 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO POR QUANTIA CERTA ................................................ 119 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 4 24 RECURSOS E MEIOS DE IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS ................................. 122 24.1 CONCEITO .................................................................................................................. 122 24.2 SUCEDÂNEOS RECURSAIS .......................................................................................... 122 24.3 PRINCÍPIOS RECURSAIS ............................................................................................. 123 24.4 EFEITOS DEVOLUTIVO E SUSPENSIVO ....................................................................... 126 24.5 JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE ...................................................................................... 128 24.6 JUÍZO DE MÉRITO ...................................................................................................... 132 24.7 DO RECURSO ADESIVO .............................................................................................. 133 24.8 DO RECURSO COMO ATO VOLUNTÁRIO E DISPONÍVEL ............................................ 134 24.9 APELAÇÃO ................................................................................................................. 134 24.10 AGRAVO DE INSTRUMENTO .................................................................................. 138 24.11 AGRAVO INTERNO ................................................................................................. 140 24.12 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ................................................................................ 141 24.13 RECURSO ESPECIAL ................................................................................................ 145 24.14 RECURSO EXTRAORDINÁRIO ................................................................................. 146 24.15 AGRAVO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO E EM RECURSO ESPECIAL .................. 148 24.16 RECURSO ORDINÁRIO............................................................................................ 148 24.17 EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA ............................................................................... 149 24.18 INCIDENTE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA ............................................................ 149 24.19 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS .................................... 150 24.20 DA RECLAMAÇÃO .................................................................................................. 150 Apostila atualizada em Abril/2023. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 5 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS O Estado, como ente responsável por ministrar a “Justiça”, dizendo, diante de situações controvertidas que se estabelecem no seio da coletividade, qual o “melhor direito aplicável”, dispõe de um meio para tanto, que é o PROCESSO. Visto por muitos como meio de pacificação social, é através do Processo que se exterioriza o poder jurisdicional do Estado, onde as questões litigiosas encontram seu acertamento. Do latim procedere, que significa “ir na frente, avançar, progredir”, foi durante muito tempo, confundido com uma simples sucessão de atos ordenados. Entretanto, a partir dos estudos elaborados pelo jurista alemão Oskar Von Bülow, notadamente da publicação em 1868 de sua obra “Die Lehre Von den Processeinreden und die Processvoraussetzungen”, o direito processual ganha status de ciência, com a exposição e desenvolvimento da teoriaprocesso arroladas no art. 313 do CPC/15, por consequência lógica, suspendem os prazos processuais. Ressalte-se, também, que os prazos ficarão suspensos por obstáculo criado em detrimento da parte. Um exemplo: autos físicos que deveriam estar disponíveis para uma das partes, em razão da fluência de um prazo e que, por um equívoco da secretaria foi concluso ao magistrado ou entregue indevidamente à outra parte. Cessada a causa da suspensão, a contagem do prazo é retomada de onde parou, e restituído à parte o tempo que faltava para o término do prazo. 9.4 DA EXTINÇÃO DOS PRAZOS Tendo decorrido o prazo, seja ele legal ou judicial, cessa, em regra, a oportunidade para a prática do ato (essencialmente se o prazo for peremptório e/ou próprio), não sendo necessária qualquer declaração por parte do juiz de que o prazo decorreu sem manifestação da(s) parte(s). Ou seja, passa a ocorrer o fenômeno da preclusão temporal (CPC 223). Entretanto é lícito à parte comprovar que não realizou o ato processual dentro do prazo por motivo de justa causa. Considera-se justa causa todo evento ocorrido, alheio à vontade da parte, que teria impedido a prática do ato processual pela própria parte ou por seu mandatário. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 66 Alegada e comprovada a justa causa, o juiz permitirá que a parte pratique o ato processual no prazo que lhe assinar. Exemplo típico é o da sede do juízo, que se localiza em uma ilha e em razão de um temporal, a única ponte desaba e não há qualquer outro meio de transporte, resultando que a parte não pode apresentar, dentro do prazo, contestação ou recurso de apelação. Para tanto, deverá a parte provar a concorrência desses requisitos e a relação de causalidade entre o ato imprevisto e o impedimento da realização do ato 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 67 10 DA COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS Quanto aos atos de comunicação eles são: citações, intimações e cartas. 10.1 DA CITAÇÃO a) conceito e natureza jurídica A lei processual revogada conceituava o ato citatório com ato pelo qual se chama o réu a apresentar defesa. Hoje o conceito, derivado do art. 238, CPC, carrega um caráter muito mais científico e real quando ao conceito e natureza jurídica do ato de citação. Não necessariamente a parte ré (ou executada) é chamado inicialmente a apresentar defesa, notadamente quando estamos diante da primazia da resolução dos conflitos judiciais por técnica autocompositiva. O melhor conceito do ato citatório e vê-lo como um ATO DE INTEGRAÇÃO SUBJTIVA DA RELAÇÃO PROCESSUAL, pois a partir da citação estão integrados ao processo os réus, o executado ou o interessado, chamados que são a serem efetivos participes do processo judicial. b) indispensabilidade da citação para a validade do processo Sendo a citação o ato de integração do réu e do executado ao processo, abrindo a oportunidade de regular exercício de defesa, estabelece a lei processual sua a indispensabilidade para a validade do processo. Lado outro apresenta a lei duas exceções, em que temos processo válido, com formação inclusive de coisa julgada material (hipótese do art. 332, CPC), sem o ato citatório. São as hipóteses de sentenças proferidas liminarmente, em razão do permissivo legal e nas situações descritas nos arts. 330 e 332, CPC. c) do comparecimento espontâneo Pressupõe que o réu não foi citado, mesmo assim comparece ao processo. Comparece porque ficou sabendo por outros meios da existência da demanda na qual foi lançado como réu. Esse comparecimento espontâneo supre a falta ou a nulidade da citação. Comparecer é vir ao processo, por meio de petição, com advogado constituído, e se manifestar. Não é apenas ter ciência, é demonstrar ter ciência com manifestação nos autos. Várias questões práticas podem ser debatidas a partir da atual regulação do que é o comparecimento espontâneo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 68 A lei processual anterior, e seu conceito de citação, abriu a oportunidade para uma jurisprudência que passou a considerar o comparecimento espontâneo o ato de apresentação da contestação. Pela jurisprudência derivada no CPC/73, se a parte, não citada, se fizesse representar por advogado, juntando aos autos procuração sem poderes para receber citação, isso não era considerado comparecimento espontâneo, sendo ainda necessário o ato citatório do réu para abertura do prazo para defesa. A atual lei processual mudou, corretamente e como já debatido, o conceito do ato de citação, e afirma que o comparecimento espontâneo abrirá o prazo para apresentação de defesa. Apesar dessa significativa mudança, observamos que o STJ ainda mantém, apesar de não ser posição unânime, os preceitos da lei anterior como fator interpretativo para os seus julgados (a seguir apresentaremos essa discussão) Outro fator a ser considerado é que a lei não leva em consideração a primazia do princípio da autocomposição; vejamos: A lei afirma que o comparecimento espontâneo, ao suprir a falta ou nulidade da citação, abre o prazo para defesa. NÃO NECESSARIAMENTE. Como assente, integrada a parte ao processo cognitivo, notadamente no caso de procedimento comum, antes da abertura do prazo de defesa teremos, em regra, a audiência de tentativa de autocomposição (CPC, 334). Temos, portanto, o exemplo da parte não citada comparecer à audiência, o que caracterizará o comparecimento espontâneo e não necessariamente a abertura do prazo para defesa. d) da alegação de nulidade Realizada a citação fora da forma prescrita em lei, resultando em suposto prejuízo para a parte, é possível o comparecimento para alegar referida nulidade. O dispositivo legal aqui comentado (239, §2º, CPC) parte da premissa que a alegação foi rejeitada, apresentando os efeitos próprios. Mas, acredito, que a normatização procedimental não responde a todas as situações processuais possíveis, razão pela qual passamos a apresentar várias hipóteses concretas e sua respectiva resolução. e) efeitos da citação Segundo o artigo 240, CPC, para que a citação gere os efeitos que lhe são próprios é necessário que ela seja realizada validamente; ato citatório realizado de forma não 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 69 válida não tem o condão de integrar formalmente o réu ao processo, não gerando, assim, efeitos. (i) induzir litispendência: Ocorre quando existem dois ou mais processos idênticos, ou seja, quando temos processos dom as mesmas partes, mesma causa de pedir (fatos e fundamentos) e o mesmo pedido, isso em processos distintos. Não se permite que o poder judiciário se manifeste mais de uma vez acerca da mesma situação litigiosa; assim a citação válida no segundo processo é que induzirá a litispendência, fazendo com o processo tenha que ser extinto sem resolução de mérito. (ii) tornar litigiosa a coisa: A partir do momento em que ocorre a citação, tendo ciência de que um terceiro está buscando em juízo o reconhecimento do direito sobre algum bem que está em poder de outro se impõem limites ao uso do bem. Portanto, a partir do momento em que a citação é realizada a coisa, potencial objeto de determinado processo, torna-se litigiosa. (iii) constituir em mora o devedor Quando o réu tem ciência válida da demanda judicial, constituído está em mora, fluindo a partir daí, em regra, os juros de mora, salvo disposição expressa em sentido contrário. ATENÇÃO: mesmo que seja a citação ordenada por um juízo incompetente o ato será válido e gerará os efeitos acima destacados. SOBRE A PRESCRIÇÃO: Relativamente à interrupção da prescrição, o CPC/15 estabeleceu que ela se dará por ocasião do despacho que ordena a citação, com efeitos retroativos à data da propositura do feito, ainda que proferido por juízo incompetente. Lembrando que a regra da retroatividade dos efeitos do despacho aplica-se à decadência e demais prazos extintivos previstos em lei. Mas, atenção, nem toda manifestação doJuiz, no início do processo, é capaz de gerar o interromper da prescrição. Necessário que seja o despacho positivo, aquele que ordena a citação, pois partimos da premissa que, com esse ato, o juiz estaria aceitando a petição inicial, afirmando sua aptidão para um possível pronunciamento de mérito. Assim, por exemplo, o ato de indeferimento da petição inicial ou o ato que determina a emenda da inicial, não geram o efeito de interromper a prescrição. Referida situação também se aplica aos processos de execução por títulos executivos extrajudiciais (CPC 802). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 70 f) sentença proferida antes da citação do réu – atos da secretaria Como já analisado existem duas situações previstas no CPC de sentenças liminares, proferidas antes da citação do réu: indeferimento da petição inicial e improcedência liminar do pedido. Exige a lei (CPC 241) que, transitando em julgado uma sentença de mérito a favor de réu não citado, deverá ele ser comunicado para ter ciência da formação da coisa julgada material. Ocorre que também exige a lei a intimação do réu não citado quando a seu favor é proferida uma sentença sem mérito e ela transita em julgado. Referida intimação é condição de validade ou eficácia da sentença? - Não, mero ato formal de comunicação que não implica na validade ou eficácia do ato decisório e do respectivo trânsito em julgado, já que o réu não foi integrado ao processo pelo ato citatório. Ao determinar essa comunicação ao réu o CPC pensa na segurança jurídica, pois tendo ciência da sentença a seu favor, mesmo não tendo sido citado, e do respectivo trânsito em julgado, se o autor intentar novamente a mesma ação poderá alegar a formação da coisa julgada. g) citação pessoal Conforme art. 242, CPC, a citação deverá ser pessoal. Citação pessoal pressupõe a citação que leva diretamente à parte (réu, executado) ou ao interessado a devida cientificação da existência da demanda. A citação por correio é citação pessoal, ditando a lei que deverá ser feita a entrega da correspondência em mãos do citando. Lembrando que o CPC prevê a presunção da citação por correio ser pessoal quando entregue a pessoa encarregada de receber as correspondências na portaria, no caso de condomínio edilício ou loteamento com controle de acesso (CPC 248, §4º). Sendo pessoa jurídica ou pessoa natural incapaz a ser citado, a lei determina que o ato seja realizado na pessoa do seu representante legal, o que não lhe retira o caráter da pessoalidade. h) situações de vedação da realização da citação Apresenta o art. 244 situações em que não será realizado o ato de citação. Nenhuma das situações estampadas abaixo está ligada a locais, já que o art. 243, caput, CPC, preceitua que a citação poderá ser feita em qualquer lugar em que se encontrar o réu ou executado. Entretanto, mesmo ocorrendo uma das hipóteses de vedação do ato citatório há que se considerar que a lei carrega uma exceção: “salvo para evitar perecimento do direito”. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 71 QUESTÃO PRÁTICA: realizada a citação numa das impeditivas situações será o ato considerado nulo? - A citação, dado ser ato indispensável à validade do processo (CPC 239), é ato formal razão pela qual realizada fora da forma prescrita em lei, ou nas situações vedadas, será, em regra, nulo. Mas não podemos perder de vista o princípio da instrumentalidade das formas, que afirma que se o ato for praticado fora da forma prescrita em lei mas atingir sua finalidade, não havendo prejuízo, será considerado válido. Tais situações são: (i) prática de ato religioso O que a lei protege é o sentimento religioso (situação derivada da constituição) inibindo a citação daquele que participa de qualquer ato de culto religioso. (ii) estado de luto Protege a lei, no presente inciso, o estado de luto daquele que sendo o citando, perdeu um cônjuge ou parente. Referido luto, para inibição do ato de citação, vigorará no prazo estipulado e no limite de grau de parentesco estampado no dispositivo. (iii) casamento Também se preservará os três dias seguintes ao casamento, entendido casamento com o ato oficial de matrimônio. (iv) doença grave No caso de doença grave, dita a lei a não realização do ato de citação, evitando um potencial agravamento do estado de saúde do citando. (v) incapacidade do citando Outro fator impeditivo e justificável de realização do ato citatório é a potencial incapacidade do citando, conforme art. 245. Parte das seguintes premissas: - citação por oficial de justiça - percepção de possível incapacidade ou impossibilidade de receber a citação - não realização do ato, sob pena de, em razão da condição estampada acima, inibido ficar o regular exercício do direito de defesa Neste caso, o oficial de justiça certificará as circunstâncias pela qual teve a percepção da incapacidade do réu, devolvendo aos autos o mandado de citação sem cumprir. Conclusos os autos ao magistrado, deverá nomear um médico para proceder ao exame do citando, salvo se os familiares do citando apresentarem documento médico que ateste sua incapacidade. Uma vez reconhecida a incapacidade, o juiz nomeará um curador (respeitando a ordem estabelecida na lei material), providenciando, assim, após a nomeação, a citação do réu na pessoa desde curador. Caso fique comprovando, entretanto, que o réu está na posse de suas faculdades mentais, extrai-se o mandado para que seja procedida sua citação pessoal. Acrescente-se que, sendo ao citando nomeado curador, referida pessoa somente poderá exercer os poderes de representação no processo no qual foi nomeado, não se estendendo estes poderes aos outros atos da vida civil do réu. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 72 i) da citação por meio eletrônico Foi o CPC/15 modificado pela lei 14.195/2021, que estabeleceu como regra para a prática do ato citatória a modalidade eletrônica. Estabelece a redação atual do art. 246, CPC, a preferência da prática do ato de forma eletrônica, por meio dos endereços eletrônicos indicados pelo citando no banco de dados do Poder Judiciário; ou seja, através do envio de e-mail. Ordenada a citação a serventia judicial tem 02 dias úteis para encaminhar ao citando a citação pela modalidade aqui em discussão e, uma vez recebida a citação, deverá o citando, no prazo de 03 dias úteis, confirmar o recebimento da citação eletrônica. Não confirmada no prazo acima o ato citatório será feito pelos outros meios previstos em lei. Ocorre que o citando, não tendo confirmado a citação eletrônica no prazo mencionado, deverá, na primeira oportunidade que dispõe para falar nos autos, apresentar justa causa para a ausência de confirmação do recebimento da citação enviada eletronicamente. Se não apresentar justa comprovação para a não comprovação da citação eletrônica será, tal ato, considerado ato atentatório à dignidade da justiça, passível de multa de até 5% (cinco por cento) do valor da causa. Dentro dessa reforma apresentada pela lei 14.195/2021, devemos destacar, também, a data inicial para a contagem do prazo, quando a citação é feita por tal modalidade. Segundo o disposto na norma do art. 231, IX, o prazo para contestação começara no quinto dia útil seguinte à confirmação da citação. j) da citação por correio Não sendo caso de realização do ato por meio eletrônico, que como visto passou a ser a regra preferencial, a citação deverá ser realizada, em regra, por correio (CPC 247). Entretanto devemos ponderar que há situações de vedação da realização do ato citatório por tal forma: (i) Ações de estado: Aquelas que impactam no estado da pessoa enquanto cidadão, como por exemplo, ações que interferem em regulação de estado civil do cidadão ou casamento e divórcio. Ex.: Ação de investigação de paternidade. Nessas ações não se pode realizar a citação por correio e a regra será por oficial de justiça. (ii) Sendo o citando incapaz a citação não se realizarápor correio, mas sim por oficial de justiça, na pessoa do seu representante legal (iii) quando o citando for pessoa jurídica de direito público (iv) quando o citando residir em local não atendido pela entrega domiciliar de correspondência 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 73 (v) por disposição do autor. Em regra, a citação ocorreria pelo correio, porém, o autor prefere que seja realizada de outra forma, por edital ou oficial de justiça. Nesse sentido, deve ocorrer justificativa para o requerimento do autor. Observa- se que a lei processual antiga não exigia a justificativa. O mandado de citação enviado por correio conterá cópia da petição inicial, para que o citando tenha ciência dos argumentos, fatos, fundamentos e pedidos, bem como cópia do despacho do juiz, que é, em regra, informando que recebe a petição inicial, a designação da audiência e a citação do réu. E ainda, conterá também, a comunicação do prazo para resposta, o endereço do juízo e o respectivo cartório. A correspondência será por carta registrada, ou seja, aquela em que se obtém o retorno por meio do aviso de recebimento. Em regra, a correspondência será entregue ao réu, sendo modalidade de citação pessoal. Sendo o citando pessoa jurídica, a regra é a entrega a alguém encarregado da recepção ou em caso de prédio a entrega será realizada na portaria, que são pessoas responsáveis pela recepção da correspondência da respectiva pessoa jurídica. A nova lei processual cuida da citação realizada a moradores de condomínios edilícios (prédios de apartamento) e loteamento com controle de acesso, informando que será válida a entrega do mandado a funcionário da portaria responsável pelo recebimento de correspondência. Contudo, mencionado funcionário poderá recusar afirmando, por escrito, que o destinatário está ausente, sob as penas da lei. A ausência em questão é referente a dias em que o citando não estará em casa, que deve ser declarada pelo porteiro e sob sua responsabilidade pessoal. k) citação por oficial de justiça Não sendo caso de citação por meio eletrônico, nem por correio, o citando deverá ser integrado ao processo (citação) por ato do oficial de justiça. Os arts. 250 e 251, CPC, apresentam os requisitos de validade da citação realizada por oficial de justiça. Assim, mandado entregue ao oficial de justiça, esse tentará localizar o réu. Onde encontrar, o réu será citado. O oficial de justiça deve ler o mandado de citação, entregar a contrafé (cópia). Independentemente de o cidadão receber ou recusar receber a contrafé a citação estará realizada validamente. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 74 Caso o citando se recuse a assinar o recebimento da citação o oficial de justiça, que tem fé pública quanto às suas declarações, descreverá o ato e a citação se dará como realizada. l) citação por hora certa Modalidade ficta de citação, parte da premissa que o oficial de justiça não teria encontrado o réu para a realização do ato citatório, havendo suspeita que o réu está se ocultando. Premissas cumulativas: (i) Sem encontrar o citando; (ii) Suspeita de ocultação. O oficial de justiça comparece uma primeira vez ao endereço informado e não encontra o citando e suspeita de ocultação. Sua obrigação é voltar uma segunda vez e, novamente, não localiza o citando. Suspeita novamente de ocultação. Nessa segunda vez o oficial de justiça intima uma terceira pessoa, podendo ser familiar ou porteiro, informando para avisar ao citando que já esteve na localidade, suspeita de ocultação e irá voltar em data próxima (dia útil) com hora definida e que é para o citando estar presente para receber a citação. Na terceira vez abrem-se duas alternativas: Réu encontrado: Citação pessoal realizada. Réu não encontrado: Suspeita de ocultação: Citação por “hora certa”. Em condomínios edilícios ou loteamentos com controle de acesso será considerada válida a citação a que se refere o caput do art. 252, CPC, efetivada a funcionário da portaria responsável pelo recebimento de correspondência. Independentemente de novo despacho a citação por “hora certa” é ato praticado de ofício pelo oficial de justiça, ou seja, não informa ao juiz que irá realizar a citação dessa forma, apenas realiza independentemente de novo despacho. O despacho positivo inicial já confere oportunidade de realização dessa citação. Da certidão da ocorrência o oficial de justiça deixa a contrafé com a pessoa da família ou vizinho, conforme o caso. A citação por “hora certa” é modalidade ficta de citação, assim, a preocupação da lei é de que a terceira pessoa não esteja informando a realidade para o oficial de justiça, bem como não informe ao réu posteriormente acerca da citação. Quando o oficial devolve o mandado e é juntado aos autos começa a contar o prazo de 10 (dez) dias para a secretaria enviar a esse réu uma carta, telegrama ou correspondência eletrônica dando ciência de que foi citado, para que possa, caso queira, comparecer e, inclusive, informar caso tenha ocorrido nulidade de citação. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 75 m) citação por edital Também modalidade de citação ficta. Muitas vezes não se tem ciência de onde o réu pode ser encontrado, assim, faz-se a citação por edital, gerando publicação em mídia e fluência de prazos. Hipóteses de citação por edital: Quando ocorre incerteza ou desconhecimento em relação da pessoa do réu, quando não se sabe em que local o citando se encontra e, ainda, demais situações expressas em lei. Requisitos da citação por edital: I – a afirmação do autor ou a certidão do oficial informando a presença das circunstâncias autorizadoras; II – a publicação do edital na rede mundial de computadores, no sítio do respectivo tribunal e na plataforma de editais do Conselho Nacional de Justiça, que deve ser certificada nos autos; III – a determinação, pelo juiz, do prazo, que variará entre 20 (vinte) e 60 (sessenta) dias, fluindo da data da publicação única ou, havendo mais de uma, da primeira; IV - a advertência de que será nomeado curador especial em caso de revelia. Como estamos diante de uma modalidade ficta de citação, tem a lei processual uma preocupação: do autor, dolosamente, afirmar não ter ciência de onde o réu se encontra para forçar a citação por edital, o que pode limitar o direito de defesa do réu. Assim, caso futuramente verifica-se que o autor levou ao processo afirmações inverídicas dolosamente para viabilizar a citação por edital incorrerá em multa de 5 (cinco) vezes o salário-mínimo. Multa que será revertida em benefício do citando e declaração de nulidade da citação. 10.2 DAS CARTAS a) conceito Podemos conceituar as cartas como ato de comunicação entre órgãos da jurisdição, com o escopo da prática de atos fora da territorialidade do juízo solicitante. É possível que referido ato de comunicação seja, também, utilizado para que um juízo arbitral solicite a prática de ato por um órgão da jurisdição. b) modalidades Quatro são os tipos de cartas: - de ordem: do tribunal para juízo a ele vinculado, se o ato houver de se realizar fora dos limites territoriais do local de sua sede. - rogatória: para que órgão jurisdicional estrangeiro pratique ato de cooperação jurídica internacional, relativo a processo em curso perante órgão jurisdicional brasileiro 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 76 - precatória: para que órgão jurisdicional brasileiro pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato relativo a pedido de cooperação judiciária formulado por órgão jurisdicional de competência territorial diversa - arbitral: para que órgão do Poder Judiciário pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato objeto de pedido de cooperação judiciária formulado por juízo arbitral, inclusive os que importem efetivação de tutela provisória c) requisitos Apresenta a lei processual (CPC 260) vários requisitosque são comuns às cartas de ORDEM, PRECATÓRIA E ROGATÓRIA. Ao afirmar que a carta ARBITRAL, atenderá esses mesmos requisitos, NO QUE COUBER, partimos da premissa que, ao contrário das nominadas no caput, a carta arbitral não é expedida por um órgão da atividade jurisdicional do Estado, mas sim pelo juízo arbitral, devendo ser levado em consideração essas diferenças. (i) a indicação dos juízes de origem e de cumprimento do ato - juiz de origem: Juízo onde tramita o processo do qual se ordena a prática do ato processual (juízo deprecante) - Juiz de cumprimento do ato: Juízo de destino da carta, juízo onde será praticado o ato processual (juízo deprecado) (ii) o inteiro teor da petição, do despacho judicial e do instrumento do mandato conferido ao advogado - Inteiro teor da petição: Petição de solicitação do ato processual que deve ser realizado em outra localidade - Despacho Judicial: Despacho judicial do juiz determinando a expedição da carta para a realização do ato processual solicitado - Instrumento de mandado: Apesar da lei falar do instrumento de procuração no singular, o correto é a instrução da carta com os instrumentos de mandados conferidos aos advogados de todas as partes do processo (iii) a menção do ato processual que lhe constitui o objeto Deve a carta fazer expressa referência ao ato processual a ser realizado no juízo de destino, limitando o cumprimento da carta a esse expresso objeto (iv) o encerramento com a assinatura do juiz Existem atos processuais que são redigidos e o fechamento (assinatura) é do escrivão, afirmando que o faz por ordem o juiz; lado outro, sendo a carta a solicitação de cooperação de outro juízo, deve ser assinada pelo Juiz. (v) traslado de peças ou remessa de documentos originais TRASLADAR: “Reproduzir de forma a copiar algo, transcrever” – OU SEJA, deverá a carta ser instruída com cópia de qualquer peça processual ou documento que tendo ligação com o objeto do ato processual a ser praticado, deva ser examinado pelas partes ou 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 77 testemunhas, nos eventuais depoimentos a serem prestados em audiência, ou utilizado pelo perito para a prática do ato a seu cargo REMESSA DO ORIGINAL: Ao contrário do lançado acima, que determina o remesso de cópias de partes dos autos, o presente dispositivo legal exige a remessa do original. Isso ocorre pelo fato da carta ter como objeto uma perícia sobre o documento propriamente dito, não apenas sobre o seu conteúdo, mas sobre o documento como formalmente se apresenta. Por exemplo, a carta tem como objeto a verificação da autenticidade (ou não) de determinada assinatura; nesse caso o perito precisará examinar o original do documento, não apenas uma simples cópia, razão pela qual se remete o original, ficando nos autos uma cópia fotográfica. (vi) Requisitos específicos para a carta arbitral Além dos requisitos exigidos nos incisos do caput, tem a carta arbitral requisitos específicos, devendo ser instruída com: - Convenção de arbitragem - Prova da nomeação do árbitro - Prova que o árbitro aceitou a função Esses específicos requisitos demonstram a validade do procedimento arbitral e a autoridade do árbitro solicitante do ato processual d) prazo para cumprimento Determina o art. 261, CPC, que o juiz fixe prazo para cumprimento da carta. Podemos afirmar que o prazo para o cumprimento da carta é, também, um requisito, mas cuja falta não prejudica o ato caso praticado. O objetivo de ter a carta um prazo é para que se tenha o ato praticado dentro de um lapso temporal razoável, o que poderá impactar em eventual suspensão do processo. Expedida a carta, as partes serão intimadas da prática desse ato. O antigo CPC não apresentava a regulação aqui trazida, sendo completamente silente quanto aos atos intimatórios a serem realizados quando da expedição das cartas. O atual CPC, como se observa, regula a prática dos atos intimatórios e por qual juízo deverá acontecer. É obrigação das partes zelar para o correto cumprimento da carta, inclusive para que seja realizada dentro do prazo estabelecido, disponibilizando aos juízo de destino o necessário para o devido cumprimento Exige a lei, também, que a parte a quem interessa o cumprimento da carta, coopere para a sua correta efetivação. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 78 Estabelece a lei verdadeira responsabilidade ao interessado no cumprimento da carta, exigindo que ele coopere para que a carta seja efetivamente cumprida no prazo determinado. Eventual desídia poderá resultar no não cumprimento da carta, com perda da oportunidade da prática do ato processual solicitado. e) da itinerância da carta Possuem as cartas caráter itinerante, podendo ser apresentada a juízo diverso do seu endereçamento, nos corretos moldes do art. 262, CPC. Alguns aspectos desse dispositivo legal devem ser destacados. - QUEM ORDENA O CUMPRIMENTO DA CARTA? - JUÍZO DE ORIGEM: Apenas expede a carta, solicitando ao juízo de destino, em cooperação, que pratica o ato processual nos limites do seu território. - JUÍZO DE DESTINO: É quem determina a prática do ato, ordenando o cumprimento da carta. - A CARTA PODE TER A ITINERÂNCIA “ANTES” ou “DEPOIS” de ser ordenado o cumprimento: - “ANTES”: caso concreto: Processo tramitando em Belo Horizonte, devendo o réu ser citado em seu domicílio, na comarca de Montes Claros. Carta expedida para citação do réu na comarca de Montes Claros, constando esse foro como juízo de destino da precatória. Notícia que o réu, na verdade, está na comarca de Curvelo. Apresentação em Curvelo, para a prática do ato, apesar da carta ter como destino Montes Claros. - “DEPOIS”: caso concreto: Processo tramitando em Belo Horizonte, devendo o réu ser citado em seu domicílio, na comarca de Montes Claros. Carta expedida para citação do réu na comarca de Montes Claros, sendo ordenado o cumprimento do ato. Citação negativa já que o réu, na verdade, está na comarca de Curvelo. Remessa da carta para Curvelo, se ainda está no prazo para cumprimento f) forma preferencial Permite a lei (CPC 263) a expedição das cartas (percebam, qualquer delas), por meio eletrônico, sendo condição essencial para que isso possa acontecer que entre os sistemas dos juízos de origem e de destino sejam compatíveis, aptos a receber e enviar arquivos. Por tal motivo a lei fala apenas em forma preferencial, não obrigatória, para a expedição eletrônica das cartas. Expedida a carta por tal meio ai surge, por obvio, a obrigação de que a assinatura do juiz se faça por meio eletrônico. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 79 g) recusa ao cumprimento Pode o juiz de destino recusar o cumprimento da carta, desde que o faça por motivo justificado, podendo fundamentar a devolução e o não cumprimento pelos seguintes motivos: (i) ausência de requisitos legais (ii) dúvida quanto a autenticidade (iii) juízo de destino não ser o competente em razão da matéria ou da hierarquia (incompetência absoluta) Nesse 3º caso pode ser que não ocorra a devolução da carta, mas sim a remessa ao juízo competente para o seu cumprimento. 10.3 DAS INTIMAÇÕES a) conceito Ato de cientificação dos atos e termos praticados e realizados em determinado processo (CPC 269). Sendo ato que gera a ciência do realizado ou efetivado no processo, abre para os interessados, potencialmente, a oportunidade de manifestação e/ ou reação, sendo ato indispensável para a vivência do efetivo contraditório. Ao afirmar que é ato que se dá ciência a “ALGUÉM”, afirma a lei que é ato que tem como destinatário os sujeitos do processo (partes, advogados, ministério público, entre outros), e, também, terceiros (aqueles que, não sendo sujeitos do processo, precisam ser cientificados da prática de um ato), gerando, potencialmente, direitos e obrigações. b) a intimação por ato privado entre os advogados Permitido no art. 269, §1º, CPC. Meio “diferenciado” de intimação,parte da premissa da ausência do poder para a prática e validade do ato, sendo meio privado de cientificação. Não limita a lei se referido parágrafo se aplica, ou não, somente a autos físicos, em razão dessa não limitação é aplicável tanto a autos não eletrônicos e autos eletrônicos. Pressupostos de validade: - estar a parte representada por advogado [não é, o referido ato, modalidade intimatória direta para a parte, em razão da segurança jurídica que se espera dos atos processuais, referida intimação privada somente pode ocorrer se as partes possuem advogados e entre os advogados]; - remessa da correspondência intimatória ao endereço do advogado contrário, com as informações mínimas da manifestação judicial; - remessa, anexo à correspondência intimatória, de cópia da manifestação judicial que se quer intimar; 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 80 - envio da correspondência por carta registrada com aviso de recebimento ao endereço do advogado contrário constante nos autos; e - peticionamento nos autos com juntada do comprovante de envio da correspondência intimatória. c) forma preferencial O legislador (CPC 270), pensando em autos eletrônicos, informa que sempre que possível a intimação deve ser realizada também por meio eletrônico, inclusive citações. Aplicando-se ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Advocacia Pública o disposto no §1º do art. 246, o qual dispõe acerca da obrigatoriedade manter cadastro junto aos sistemas para recebimento de citações e intimações. Caso não seja feita a intimação por meio eletrônico, considera-se realizada quando existe a publicação do ato no órgão oficial. Podendo também ser realizada por correio ou por oficial de justiça. d) ato determinado de ofício (em regra) De acordo com o art. 2º, CPC , o processo se inicia por iniciativa da parte, mas se desenvolve por impulso oficial. Significa que uma vez que cidadão foi ao poder judiciário e tirou a jurisdição da inércia compete ao juiz determinar o impulsionamento do rito procedimental. Dentro dessa percepção o juiz determinará de ofício as intimações (CPC 271), que seria a fluência processual dos atos sequenciados, salvo eventuais disposições em contrário em que a lei, excepcionalmente, exige que a intimação surja por meio de requerimento. e) intimação por meio do diário da justiça (órgão oficial) Não sendo caso de intimação por meio eletrônico, considera-se intimada a parte, notadamente através de seu advogado, pela publicação do ato no órgão oficial (CPC 272) A lei processual permite que se forme sociedade de advogados, as quais não apenas tem nome, com respectivo CNPJ, como também registro na OAB. Ao serem registradas na OAB recebem um número de registro da sociedade. As procurações não são outorgadas às sociedades de advogado, mas sim aos advogados individualmente, a todos da sociedade, alguns ou apenas um. Nesse sentido, é lícito que o advogado, sendo parte de uma sociedade de advogados solicite que no processo que atua as intimações não sejam dirigidas a ele e seu número de OAB, mas sim apenas à respectiva sociedade ao qual pertença. Na publicação no órgão oficial, para sua validade, não basta o nome do advogado, deve ter também o nome da parte para correta identificação do processo. Isso é 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 81 indispensável. Sob pena de nulidade daquela intimação, não podendo o nome das partes conter abreviações. Os nomes dos advogados devem corresponder ao nome completo. Aquele que consta da procuração ou aquele que estiver registrado na OAB. É possível que havendo vários advogados constituídos na mesma procuração se requeira que apenas um seja intimado. Portanto, caso tenha requerimento expresso no processo de que seja intimado advogado específico e a intimação foi realizada para outro advogado, ainda que também tenha procuração, esse desatendimento implicará em nulidade da intimação. A retirada dos autos de secretaria poderá ser realizada por advogado ou por pessoa credenciada. Essa pessoa credenciada poderá ser qualquer pessoa e está autorizado pelo advogado ou sociedade de advogados a retirar os autos de secretaria. Portanto, lícita a entrega dos autos em carga. Ainda de acordo com o §6º, do art. 272, CPC, caso haja algum ato no decorrer do processo que o advogado não tenha sido intimado, porém, posteriormente e em virtude de intimação de outro ato, o advogado faça carga do processo se dará por intimado de todos os atos, inclusive do primeiro, ainda que pendente a primeira intimação. Desse modo, desse ato de carga abre-se prazo para recurso. Para a validade da intimação, quando requisitado, deve ser realizada em nome de determinado advogado ou sociedade de advogados. Nesse sentido, caso essa intimação não seja realizada especificamente em nome daquele que consta no requerimento a intimação será considerada nula, ainda que seja feita em nome de quem conste na procuração, mas não no requerimento. A parte alegará a nulidade da intimação e, no mesmo ato e desde que possível, praticará o ato processual específico. f) intimação pessoal da parte Merece destaque o esculpido na norma prevista no art. 274, CPC. Muitas vezes a intimação não é para o advogado, mas feita diretamente para a parte, pessoalmente para a prática de algum ato do processo. A parte poderá ser intimada por meio eletrônico, porém, essa possibilidade será para aqueles que tenham obrigatoriedade de manter o cadastro, art. 246, §1º, CPC. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 82 Quanto à parte pessoa física, a qual não tem a obrigatoriedade de manter cadastro eletrônico, será intimada por correio e, se frustrada, será intimada por oficial de justiça, art. 275, caput, CPC. Nesse sentido, a parte tem a obrigação de manter seu endereço atualizado. Art. 274, CPC. Obrigação tanto da parte quanto do seu advogado. Caso tenha mudado e não atualizado no processo perde-se a intimação, que será considerada como válida. Fluindo o prazo a partir da juntada aos autos do comprovante de entrega da correspondência no endereço constante dos autos. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 83 11 TUTELAS PROVISÓRIAS 11.1 INTRODUÇÃO Dentro de uma vivência de um processo baseado em um sincretismo processual, busca- se um aperfeiçoamento da lei desde os anos 90, para construir no Brasil um processo de conhecimento onde seja lícita a prática de atos de conhecimento, execução e de natureza cautelar. Todavia, o NCPC elimina o processo cautelar, mas não dispensa as medidas de natureza cautelar, que são as medidas assecuratórias de direitos, para que estes possam ser futuramente objeto de efetivação. Com o desaparecimento do processo cautelar, caso o sujeito tenha interesse na efetivação de uma medida de natureza acautelatória, deverá fazer requerimento nos próprios atos. O que a lei, entretanto, nos traz de novidade, é o permissivo para que o processo possa se iniciar tão somente com o requerimento de tutela cautelar ou antecipada, sendo que na sequência seria apresentado nesse procedimento o pedido, no prazo determinado em lei. Quando se fala em tutelas provisórias, pensa-se nas tutelas que são de natureza cautelar, que geram a segurança de que realmente, em um futuro, um determinado direito possa ser efetivado, mas também se regulam as tutelas antecipadas, as medidas antecipatórias que, ao contrário da medida cautelar, impactam o mundo real, com natureza satisfativa de pretensão, antecipada no tempo. Além disso, nas tutelas provisórias tem-se uma terceira técnica de tutela provisória, que é a baseada na evidência. 11.2 CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO O CPC/15 reservou um capítulo inteiro para tratar do instituto jurídico-processual referente às tutelas provisórias. Conceitualmente, a tutela provisória pode ser definida como uma tutela jurisdicional, de caráter sumário e não definitivo. Conforme preceitua o art. 294, caput, do CPC/15, a tutela provisóriaé classificada em duas espécies: de urgência e de evidência. As tutelas provisórias, como o próprio nome indica, caracterizam-se pela provisoriedade, mutabilidade e revogabilidade. Isso porque, a tutela provisória conserva os efeitos na pendência do processo (art. 296, CPC/15), ou seja, enquanto não houver uma solução definitiva para a demanda, em tese, perdurará por prazo indeterminado. Todavia, o juiz, de acordo com o seu convencimento motivado, poderá modificá-la, substituindo-a por outra tutela, ou mesmo revogá-la a qualquer tempo (art. 298 c/c o art. 296 do CPC/15). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 84 Além da classificação das tutelas como TUTELAS DE URGÊNCIA e TUTELAS DA EVIDÊNCIA, que abaixo serão explanadas, as tutelas provisórias também se classificam como CAUTELARES e ANTECIPATÓRIAS. (i) TUTELA PROVISÓRIA CAUTELAR: não tem o condão de antecipar efeitos do pedido, mas sim de criar meios e circunstâncias para a possível efetivação do direito, garantindo a potencialidade do ato executivo futuro; (ii) TUTELA PROVISÓRIA ANTECIPADA: verdadeiro ato de efetivação do direito, antecipa no tempo os efeitos do pedido, entregando ao jurisdicionado aquilo que seria o seu direito material, antes mesmo de uma decisão de mérito definitiva. Não assegura a futura efetivação, já antecipa efeitos da potencial procedência do pedido. 11.3 TUTELAS DE URGÊNCIA Para a concessão de uma tutela cautelar ou antecipatória baseada na urgência, devem estar preenchidos os pressupostos lançados no art. 300, CPC, a saber: - probabilidade do direito - perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo Referidos requisitos são cumulativos. Só que além desses, caso a solicitação seja de uma tutela antecipada, deve ficar patente, também, a possibilidade da reversibilidade para a concessão da medida. As tutelas de urgência podem ser concedidas liminarmente, se a petição inicial estiver instruída com documentos comprobatórios dos pressupostos legais ou após justificação prévia, notadamente quanto a parte solicitante precisar da utilização de prova testemunhal para comprovar os pressupostos legais autorizativos da medida solicitada. Importante salientar a regra de RESPONSABILIDADE CIVIL DO REQUERENTE. Quem solicita a tutela de urgência fica responsável por eventuais danos que o cumprimento da medida trouxer à parte contrária, notadamente quando (CPC 302): I - a sentença lhe for desfavorável; II - obtida liminarmente a tutela em caráter antecedente, não fornecer os meios necessários para a citação do requerido no prazo de 5 (cinco) dias; III - ocorrer a cessação da eficácia da medida em qualquer hipótese legal; IV - o juiz acolher a alegação de decadência ou prescrição da pretensão do autor. 11.4 TUTELA ANTECIPADA ANTECEDENTE Para que se possa solicitar a tutela antecipada em caráter antecedente, fundamental a demonstração da urgência, do perigo de dano ou o perigo ao resultado útil do processo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 85 A estrutura do art. 303 se utiliza da expressão “petição inicial”, que se limitaria ao requerimento da tutela antecipada e tão somente a indicação do pedido de tutela final. Logo, está-se dando início ao processo. Entretanto, não se tem o pedido propriamente dito, que será apresentado futuramente. Nessa petição inicial já se tem a indicação desse pedido – indica-se a tutela final que se espera do Estado, requerendo, todavia, a concessão da tutela antecipada. A petição inicial será feita de forma padrão, com pedido e requerimento de tutela antecipada, retira-se o pedido e mantém-se apenas o requerimento da tutela antecipada. Assim se iniciará o processo, sendo o juiz chamado a conceder ou não, conforme o caso, liminarmente, essa tutela antecipada. É uma técnica nova em termos procedimentais, que até então não se tinha parâmetros de vivência dentro do nosso Direito Processual Civil. Recebida a inicial, o juiz poderá determinar a emenda, indeferir a petição inicial pelos motivos que lhe são próprios – indicado o pedido, nada impediria ao juiz verificar a prescrição e decadência, não concedendo a tutela antecipada. Mas se a inicial estiver apta a dar a devida continuidade, o juiz deferirá a tutela antecipada. A partir do momento que se tem a concessão da tutela antecipada, será intimado o autor para que possa, no prazo de 15 dias ou mais, apresentar um aditamento da inicial, podendo trazer novos documentos, apresentar novas argumentações, mas, primordialmente, que apresente tecnicamente o pedido. O juiz também designará a audiência de conciliação ou mediação, conforme o caso, citando e intimando o réu, para que, em querendo, compareça a essa audiência. Nessa audiência pode ocorrer acordo entre as partes ou, em não havendo, abre-se prazo para o réu apresentar a sua contestação. Se, eventualmente, devidamente intimado o autor a realizar o aditamento e esse não é feito, extingue-se o processo com a revogação da tutela antecipada, pois é obrigação do autor, dentro do prazo legal de 15 dias ou mais, fazer o aditamento, sob pena de extinção do processo sem resolução do mérito. O aditamento será feito dentro dos próprios autos, com a continuidade do processo, em demonstração do sincretismo. Ressaltando que não haverá incidência de novas custas processuais. A utilização desse procedimento inicial, com requerimento da tutela antecipada, é tão somente uma faculdade, a lei não cria obrigação. Diante dessa faculdade, caso seja esse o interesse do autor, na petição inicial deve criar um indicativo de que está indo a juízo, em um primeiro momento, fazer um requerimento de tutela antecipada. Nada impediria que o magistrado desse uma decisão de não concessão da tutela antecipada. Assim, o processo seria extinto se, no prazo de 05 dias, o autor não fizesse a emenda da inicial, trazendo o pedido. Dessa decisão denegatória da medida caberia 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 86 agravo de instrumento. Não aditando a inicial no prazo de 05 dias, haverá a extinção do processo sem resolução do mérito. O réu será citado e intimado dessa decisão concessiva da tutela antecipada e também para comparecimento à audiência, abrindo a ele prazo de 15 dias para, querendo, interpor recurso de agravo de instrumento. Se comparecer e apresentar seu recurso de agravo de instrumento, tem-se a sequência dos atos. Porém, se o réu, no prazo de 15 dias, não interpor seu agravo de instrumento, haverá a extinção do processo. E essa decisão concessiva da tutela antecipada torna-se estável. 11.5 TUTELA CAUTELAR ANTECEDENTE A lei também permite que se tenha uma tutela cautelar requerida em caráter antecedente, não como processo anterior ou preparatório para depois haver distribuição por dependência do processo principal. Mas irá fazer a petição inicial, solicitando a cautelar e, dentro do prazo legal, traz o pedido. Enquanto na tutela antecipada requerida em caráter antecedente se trouxe grandes novidades em termos procedimentais, na cautela não, pois basicamente o legislador deu continuidade ao processo, mantendo os mesmos preceitos do processo cautelar preparatório, apenas o inserindo em um sincretismo. O art. 305 repete o que se tinha no art. 801, parágrafo único, do CPC/73. O parágrafo único do art. 305 traz a fungibilidade – se há proximidade dos requisitos para a concessão da tutela antecipada e da cautela, que seja dado entre eles a devida fungibilidade. Se percebendo o juiz que pelo nome se requer medida de outra natureza, que se dê a medida própria, independentemente do nome dado pela parte. 11.6 TUTELAS DA EVIDÊNCIA a) introdução O direito processual civil sempre conviveu com tutelas de urgência e com tutelas baseadas na evidência, o que não acontecia na lei processual anterior era a correta delimitação conceitual das tutelas de evidência. As tutelas da evidência têm como característica a inexistência do “periculum in mora”, ou seja, dispensadaé a verificação, pelo juiz, da urgência para a concessão da tutela provisória. Exemplos antigos de tutelas de evidência no direito processual civil são: - Ações possessórias: nunca foi exigido, pela lei procedimental, atual ou anterior, a existência de danos para a concessão liminar de reintegração ou manutenção de posse; a juízo da evidência, nas possessórias, sempre foi caracterizado pela demonstração, documental ou testemunhal, da posse, do ilícito contra o direito, e de que isso ocorreu a menos de ano e dia. Nunca se exigiu eventual dano à 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 87 coisa ou uma impossibilidade de efetivação do direito de forma futura para a concessão da tutela provisório possessória. (vide arts. 560 a 563, CPC/2015 e arts. 926 a 929, CPC/1973) - Concessão de tutela antecipada baseada no abuso de direito de defesa ou manifesto proposito protelatório do réu (CPC/1973: art. 273, II) - Concessão de tutela antecipada diante de pedido, ou parcela de pedido, incontroverso (CPC/1973: art. 273, §6º) Assim não podemos afirmar que as tutelas da evidência são uma novidade na legislação processual civil. b) a regulação genérica das tutelas da evidência Destacamos, inicialmente, que tutela da evidência é concedida sem que seja necessária a demonstração do dano. Apresenta o art. 311, CPC, regras, ou melhor, situações processuais para a concessão das tutelas da evidência em demandas de natureza cognitiva. (i) abuso de direito de defesa, atitude protelatória O art. 311, I, trata da concessão da tutela de evidência quando ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte. Já tínhamos esse motivo para concessão de uma tutela baseada na evidência no art. 273, II, CPC/73. O CPC/73, ao prever essas duas oportunidades para a concessão de uma tutela provisória, sempre levava em consideração uma possível manifestação do réu. Após a manifestação do réu ter-se-ia, em algumas hipóteses, um abuso de direito de defesa ou caráter protelatório – oportunidade para uma tutela antecipada baseada na evidência. O CPC/15 dispõe que será concedida tutela baseada na evidência quando ficar caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu. Nitidamente a lei processual prestigia o princípio da boa-fé processual, ao inibir, com uma devida adequação do tempo do processo, que atitudes meramente protelatórias de uma parte possam macular o tempo razoável do processo. Essa adequação do tempo do processo pode ser entendida da seguinte forma: se, por exemplo, o réu está praticando atos protelatórios ou abusando do direito de defesa, nitidamente ele está alargando, indevida e a seu favor, o tempo do processo; com a concessão da tutela da evidência a esse fundamento, e ao concedermos ao autor os efeitos antecipados do seu pedido, o ônus temporal do processo se inverte, já que efetivado o direito do autor, mesmo que provisoriamente. (ii) comprovação documental do fato constitutivo e tese firmada em precedentes No inciso II, alegações comprovadas documentalmente, trazem, desde a apresentação da inicial, elementos de convicção do juiz, de forma sumarizada quanto à veracidade das alegações. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 88 Isso somado à tese jurídica apresentada para a procedência do pedido baseada em julgamento repetitivo ou súmula vinculante, dita a existência da evidência. Assim, o juiz concede a tutela antecipada liminarmente baseada na evidência; na sequência, em se tratando de procedimento comum, designará audiência de autocomposição, ou, não sendo caso de designação de audiência de autocomposição, citará o réu para apresentar contestação. A hipótese do item II do art. 311, CPC/2015, dá vazão a uma técnica de cognição sumária do juiz diante da evidência da possível procedência do pedido ditada pela composição objetiva da causa de pedir: - o fato, que só pode ser comprovado por documento, está devidamente amparado pela instrumentalização da inicial com dito documento; - a tese exposta na causa de pedir já está devidamente amparada por forte precedente de tribunal superior A conclusão, quase absoluta, será, portanto, pela procedência do pedido, o que cria o permissivo para a concessão da tutela de evidência nessa hipótese. (iii) pedido de entrega da coisa diante de contrato de depósito Ressaltamos, inicialmente, que o procedimento especial da ação de depósito desapareceu no CPC/15. Assim, se há comprovação desse contrato de depósito instruindo a petição inicial, com pedido de devolução da coisa dada em depósito, pode- se fazer o requerimento de uma tutela provisória baseada na evidência para que a coisa seja entregue, sob cominação de pena. O contrato de depósito, devidamente formalizado instruindo a petição inicial é evidente comprovação, não apenas da relação jurídico-material ligando autor e réu, como, também, prova da existência da obrigação de restituir a coisa dada em depósito. (iv) inexistência de dúvida razoável A última hipótese genérica está baseada em inexistência de dúvida razoável. Imaginemos a seguinte situação: - petição inicial, já com o fato constitutivo comprovado por documentos anexos à inicial; - contestação apresentada pelo réu: a) sem que o fato constitutivo tenha sido devidamente impugnado, b) ou que não tenha fato novo apresentado pelo réu, c) ou que tenha o réu se limitado a impugnar o fato constitutivo do direito do autor mas não apresentou indício probatório para por terra a prova produzida pelo autor. Logo, surge a evidência do direito do autor, baseada na inexistência de dúvida razoável, posto que o réu, apesar de apresentar contestação, não colocou por terra a presunção da existência do fato constitutivo afirmado pelo autor, posto que baseado em prova previamente existente. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 89 c) hipóteses de concessão liminar Nos termos do parágrafo único do art. 311, CPC/2015, é possível ao juiz conceder, em duas hipóteses, a tutela da evidência liminarmente, ou seja, sem a oitiva da parte contrária. 311, II: comprovação documental do fato constitutivo e tese firmada em precedentes HIPÓTESE DE CONCESSÃO LIMINAR: o alto grau de probabilidade da procedência do pedido está estampado já na inicial, com a comprovação do fato constitutivo do autor e com a tese jurídica firmada em precedentes dos tribunais superiores. Esse alto grau de probabilidade estampado na petição inicial, autoriza o juiz a conceder liminarmente a tutela baseada na evidência. 311, III: pedido de entrega da coisa diante de contrato de depósito HIPÓTESE DE CONCESSÃO LIMINAR: aqui também, tal como no item anterior, o alto grau de probabilidade da procedência do pedido está estampado já na inicial. Como a prova documental do contrato de depósito está devidamente instruindo a petição inicial, temos não apenas a comprovação da existência da relação material entre as partes do processo como, também, a denotação da existência da obrigação de devolução da coisa dada em depósito. Assim, nítido que o juiz, diante da produção de prova prévia do contrato de depósito, pode conceder liminarmente a tutela de evidência, determinando ao réu a imediata entrega da coisa, sob pena de multa, inclusive, além da expedição de mandado, por exemplo, de busca e apreensão. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 90 12 PETIÇÃO INICIAL: PROCEDIMENTO COMUM 12.1 ELEMENTOS CONCEITUAIS DO ATO Ato processual da parte autora que: - tira a jurisdição da inércia - exterioriza a pretensão autoral; e - delimita a atuação do Estado-Jurisdição A petição inicial representa o regular exercício do direito de petição. É onde se encontra o limite objetivo da atuação do Estado. Ora, o Estado não pode conceder algo que não se encontra dentro da pretensão, nem acima desta, em termos de preceito condenatório. O limite posto quando da interposição da petição inicial, pode serobjeto de ampliação no curso do processo. Um desses exemplos é a figura da reconvenção. Assim, podemos afirmar que a petição inicial: - É ATO DO AUTOR, ONDE ELE DITA SUA PRENTESÃO (pedido) - É ATO DO AUTOR QUE LIMITA A ATUAÇÃO DO ESTADO (princípio dispositivo) Como ato formal, apresenta a lei processual, CPC, no art. 319, os requisitos essenciais de condição de validade e eficácia da petição inicial. Abaixo analisamos cada um deles individualmente. 12.2 A QUESTÃO DA COMPETÊNCIA: ENDEREÇAMENTO DA PETIÇÃO INICIAL O primeiro requisito formal é o endereçamento da petição inicial, que deve ser direcionada ao juízo competente, segundo a lei, para conhecer da demanda cognitiva que se apresenta. 12.3 PARTES E QUALIFICAÇÃO Deve indicar na petição inicial quem são as partes, ou seja, quem é o autor e quem é o réu, trazendo também, como notório e previsto em lei, os elementos de qualificação das partes, de tal modo a individualizá-las, evitando, por exemplo, situações de homônimos. Uma das inovações que a lei processual apresenta é a indicação, também, caso a parte tenha, de endereço eletrônico, além de estipular ser necessário que a parte declare eventual existência de união estável. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 91 Não é exigida pela lei a identificação da pessoa pela nacionalidade ou ascendência (nome da mãe ou do pai), apesar de, muitas vezes, na praxe forense, serem as partes qualificadas por estes itens. Se o autor não tiver algum item de qualificação do réu não resultará, isso, no eventual indeferimento da petição inicial. A ausência de alguns desses elementos de identificação do réu não prejudicará que o cidadão tenha acesso ao poder judiciário. 12.4 CAUSA DE PEDIR: FATOS E FUNDAMENTOS a composição da causa de pedir não apenas é essencial para a delimitação da lide e para o devido alcance da própria atividade jurisdicional do Estado, como também pressupõe, na prática, uma correta precisão na petição inicial. Assim, apresento uma forma prática de delimitação e divisão da causa de pedir em seus elementos: - FATOS Toda narrativa fática pressupõe o desenvolvimento estrutural e temporal da relação jurídico-material. Ou seja: o autor deve expor na petição inicial o início da relação jurídico-material até a ocorrência da lide, de forma clara e organizada. Por exemplo: imaginemos uma convencional situação de acidente de veículos. Deve o autor narrar os fatos imediatamente anteriores ao acidente, o acidente como teria ocorrido e que a outra parte não assumiu a culpa; assim, estamos apresentando os fatos constitutivos do direito, com a narrativa da lide. - FUNDAMENTOS Expostos os fatos, compete agora à parte autora narrar as consequências jurídicas negativas na sua esfera de direito, apresentando os fundamentos pelos quais deve ter seu pedido acolhido. Continuando no exemplo citado: Narrado nos fatos a ocorrência do ilícito e da pretensão resistida (lide) compete agora ao autor, nos fundamentos, demonstrar o dano sofrido e sua extensão, inclusive, ser for o caso (sou favorável a tal situação) expondo os fundamentos legais que ampararão o seu pedido. 12.5 DO PEDIDO O próximo requisito exigido por lei, decorrente do próprio aspecto lógico da petição inicial é, justamente o pedido, pelo qual o autor, após expor os motivos que o leva ao poder judiciário, deduz sua pretensão, tendo como objetivo atingir, através de uma prestação jurisdicional do Estado, a realização ou alteração de alguma coisa em sua esfera de direitos materiais (bem como na do réu). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 92 Da tentativa de conceito supra, se extraem as duas faces (ou elementos, ou objetos) do pedido. Num primeiro momento, o autor busca uma prestação jurisdicional, um ato decisório do juiz com conteúdo específico (condenar, declarar, constituir); num segundo e sequenciado momento, exterioriza o autor que, a sentença buscada, tem como objeto tutelar, de forma específica, o bem jurídico que considera estar sendo violado. Assim, temos a definição do chamado pedido imediato e do pedido mediato. a) pedido certo e determinado Segundo o art. 322, caput, CPC, todo pedido deve ser certo, sendo obrigação do autor identificar o bem (ou bens) jurídico buscado em juízo. Admite, entretanto, a lei processual a existência de pedidos implícitos, também conhecidos como pedidos indiretos, que devem ser objeto de conhecimento pelo magistrado mesmo sem o expresso requerimento. São eles: - Juros legais; - Correção monetária; - Verbas decorrentes da perda do processo / sucumbência: - Despesas e, entre elas, as custas; Abandonou a atual lei processual, também, a antiga exigência de que os pedidos deveriam ser interpretados restritivamente. Conforme hoje acertadamente lançado no §2º do art. 322, “a interpretação do pedido considerará o conjunto da postulação e observará o princípio da boa-fé”. Sim, hoje, legislativamente prevalece a ideia de que o pedido seja interpretado de forma a lhe conferir a sempre buscada efetividade, considerando a petição inicial em sua totalidade, mas sem a criação de surpresas ou armadilhas e com respeito ao contraditório e à ampla defesa (art. 5o, LV, da CF), isto é, sem elastérios indevidos e prejudiciais ao exercício do direito de defesa. Por isso a parte final do §2º do art. 322 fala em respeito ao princípio da boa-fé. Além de certo, deve o pedido ser, também, determinado, trazendo a petição inicial a devida liquidez da pretensão autoral (CPC 324). Permite, entretanto, o §1º do art. 324, CPC que a parte apresente pedidos genéricos, nas seguintes hipóteses. - Ações universais. Ex.: Inventário, em que ainda não se tenha, ainda, toda a definição da extensão patrimonial do falecido. Nesse caso, a ação versa sobre a universalidade de bens do falecido. - Quando não for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato. Ex.: Acidente de veículo, em que o acidentado ainda está tendo gastos em sua recuperação. Ainda não se sabe quanto será toda a extensão dos valores que será gasto para a plena recuperação física. Não há necessidade de se esperar mais tempo para a 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 93 ação. Já é possível acionar o poder judiciário e na sentença ou depois, se for o caso, o juiz fixará o valor. - Quando a determinação do objeto ou do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado pelo réu. Ex.: Ocorrência de hora extra em que não há o devido pagamento de seus valores. O autor busca, em juízo, seu pagamento. Contudo, na petição inicial não é possível que se precise exatamente quais são essas horas extras, porque o controle de ponto, em regra, permanece com a empresa. Portanto, será necessário, para conclusão dos valores, de ato a ser praticado pelo réu, qual seja, trazer aos autos do processo as folhas de ponto. b) classificação Os pedidos são classificados, inicialmente, como: - PEDIDO SIMPLES: quando há apenas uma pretensão, um único pedido, posto na petição inicial - PEDIDOS CUMULADOS: quando temos mais de um pedido apresentado na inicial, caso de cumulação de pretensões. c) dos pedidos cumulados Os pedidos cumulados podem ser: - cumulação simples: mais de um pedido que podem ser apresentados em qualquer ordem na petição inicial e, consequentemente julgados independentemente da ordem. Ex.: Cometimento de ato ilícito, o qual ocasionou dano material e moral. Logo, se pede a condenação ao pagamento de dano moral e material ou, ainda, de dano material e moral. - cumulação sucessiva: mais de um pedido só que um segundo ser julgado é necessário que o primeiro seja procedente. Ex.: Pedido de investigação de paternidade e, no mesmo processo, pedido de alimentos. Julgada procedente e reconhecida a paternidade há a possibilidade de julgamento dos alimentos. Caso declare que não há paternidade o juiz não enfrentará o segundo pedido. - cumulação subsidiária: também conhecida como cumulação eventual.Busca o autor a procedência de um pedido, entretanto, na eventualidade de ser julgado improcedente, ele apresenta um segundo, que será, nessa hipótese, julgado. Ex.: Declaração de nulidade do contrato inteiro, como pedido principal. Pedido de declaração de nulidade de uma cláusula abusiva de juros desse contrato, como pedido subsidiário. - cumulação alternativa: na verdade trata-se de solicitação do cumprimento de uma obrigação alternativa, podendo a parte ser compelida, na procedência do pedido, a cumprir a obrigação de uma ou de outra forma. Ex.: Relação de consumo. Comprado um aparelho de celular, esse está com problemas. Pode ser solicitado um novo aparelho ou a devolução do dinheiro. *Cumulação própria: Cumulação simples ou sucessiva, em que se pretende a procedência de todos os pedidos. Embora possa existir apenas uma ordem lógica de colocação dos pedidos. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 94 *Cumulação imprópria: Cumulação subsidiária ou alternativa, em que se pretende a procedência de um pedido ou de outro pedido, mas não de todos. d) do aditamento ou alteração do pedido Permite a lei processual, no art. 329, que o autor modifique o pedido e, também, a causa de pedir, estabelecendo uma linha temporal a ditar o ato como unilateral (não dependendo da vontade do réu) ou bilateral de vontade (quando a modificação dos elementos dependerá da anuência do réu). Estabelece, também, um limite temporal para a solicitação de modificação do pedido ou da causa de pedir. Assim, até a citação é permitido ao autor a mudança unilateral do pedido ou causa de pedir. Ocorrendo o ato citatório só é possível a modificação com anuência do réu. Entretanto, uma vez realizado o saneamento, não mais se torna possível a modificação dos elementos objetivos de constituição da demanda. 12.6 DO VALOR DA CAUSA Outro requisito exigido pela legislação processual é a delimitação, na inicial, do valor da demanda. Sendo requisito indispensável da petição inicial, regra primeira é que o valor da causa será correspondente com valor econômico da pretensão buscada em juízo. Entretanto, mesmo que não seja possível identificar corretamente o valor da demanda, por qualquer motivo, mesmo assim deverá estar presente na petição inicial o valor da causa, conforme determina o art. 291, CPC Não estando presente na peça de apresentação da demanda o valor da causa, inicialmente o magistrado deverá permitir ao autor emendá-la para suprir a lacuna; não o fazendo, deverá ser indeferida a petição inicial. No tocante às regras para correta delimitação do valor da causa, apresente o CPC, no art. 292, algumas situações delimitadoras do valor da causa mas, atenção, referido dispositivo legal não esgota todas as situações de valoração da causa de forma específica pelo autor. OBSERVAÇÃO: muito se discute se o valor da causa poderia ou não ser modificado pelo próprio magistrado; como se extrai do art. 292, §3º, o CPC atual é expresso ao afirmar que ao magistrado é lícita a modificação do valor atribuído à causa pelo autor. Assim, recebendo o magistrado a petição inicial e verificando que ela não corresponde, o valor dado à causa, à pretensão econômica perseguida, deverá fixar novo valor, por arbitramento e de ofício, determinando que o autor recolha as custas complementares, sob pena de indeferimento da petição inicial (salvo nos casos de dispensa de recolhimento das custas prévias). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 95 12.7 REQUERIMENTO DE PROVAS Consagra a doutrina a necessidade do autor exteriorizar, já na peça de ingresso, quais os meios probatórios que pretende requerer ao magistrado para comprovação dos fatos por ele alegados. A existência de referido requisito está amparada no princípio do contraditório, já afirmando o autor quais as provas que pretenderá produzir. Dentro da melhor técnica processual, melhor será que o autor precise quais as provas pretenderão produzir, fugindo, assim, do simples e genérico protesto de provas sem especificação. 12.8 OPÇÃO PELA AUTOCOMPOSIÇÃO Um dos pilares do processo moderno é a resolução dos conflitos por técnicas autocompositivas. Logo, compete ao autor trazer já na sua petição inicial, a afirmação de ter ou não interesse em situações de autocomposição. Cumpre lembrar que nem todo direito admite autocomposição e, neste caso, tal requisito não será obrigatório na petição inicial. 12.9 A PETIÇÃO INICIAL E O PLENO ACESSO AO JUDICIÁRIO Era muito comum que os magistrados, diante da inexistência de dados de qualificação do réu, determinassem ao autor a emenda da petição inicial para a complementação dos elementos de qualificação. Esse problema se apresentava mais grave quando a autor não disponha do correto endereço do réu, sendo que muitos juízes indeferiam requerimentos de solicitação de dados cadastrais junto a órgãos públicos. Quem, exercendo a advocacia, já solicitou e teve negada pelo poder judiciário solicitação de intimação da receita federal para trazer aos autos dados cadastrais do réu? – acredito que todos nós. Para corrigir esta situação, inseriu o legislador, no parágrafo primeiro do art. 319, a obrigatoriedade de, sendo requerido pelo autor, o juiz deferir o requerimento de intimação de órgãos públicos para trazer aos autos dados cadastrais do réu. Note-se que referido dispositivo legal deve ser lido, inclusive, junto do o art. 256, §3º, CPC. Nítido que ao magistrado não é lícito indeferir requerimentos formulados pelo autor para a busca de dados cadastrais do réu. Inclusive devemos nos perguntar: É lícito ao juiz, de ofício, determinar a intimação de órgãos públicos, de concessionárias de serviços públicos, que tragam aos autos os dados cadastrais para realizar a citação do réu? Sim. Como se observa, somente será lícita a citação por edital esgotados os meios de busca de dados cadastrais do réu, devendo o juiz zelar para que ele seja devidamente citado. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 96 Portanto, não se pode ler o artigo 319 de forma isolada (precisamos lê-lo dentro do contexto da atual legislação processual e da visão ampla que temos que ter da atuação jurisdicional, muito mais ampla, muito mais incisiva da atuação do magistrado). Assim, tanto a requerimento da parte autora, como também de ofício, os dados cadastrais do réu não só podem, como devem vir ao processo. Só sendo lícito que se determine a citação por edital, depois de esgotados todos os meios, inclusive este. Já os parágrafos 2º e 3º do art. 319, não apenas reforçam o que acima se expõe mas, também, deixa bem claro que a ausência de dados de identificação do réu, talvez até mesmo o correto nome dele, não impedirá que a parte venha a juízo buscando sua pretensão, sendo, assim, respeitado o “sagrado” direito de acesso ao poder judiciário. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 97 13 DOS ATOS PRIMEIROS DO JUIZ Distribuída a petição inicial, o juiz poderá adotar diferentes posturas no processo: 1. Emenda ou conserto da petição inicial, conforme previsão do art. 321 do CPC/15 2. Indeferir a petição inicial, nos termos do art. 330 do CPC/15; 3. Deferir a inicial e julgar liminarmente improcedente o pedido, na forma do art. 332 do CPC/15; 4. Deferir a inicial e designar a audiência de conciliação e mediação, conforme art. 334 do CPC/15 13.1 DA EMENDA DA INICIAL Em primeiro lugar, deve o juiz verificar se a petição inicial contém algum vício formal, e se referido vício seria ou não sanável, conforme previsto no art. 321, CPC. Na hipótese da petição inicial não preencher os requisitos legais, ou conter deficiências que possam prejudicar o julgamento de mérito, e que sejam irregularidades sanáveis, tem o juiz a obrigação de intimar o autor, para que, no prazo de 15 (quinze) dias, regularize a deficiência formal, consertando ou emendando a petição inicial. Não pode o juiz, em respeito ao princípio da primazia do mérito, indeferir desde logo a petiçãoinicial se o vício formal é sanável. ATENÇÃO!!! O ato do juiz que determina a emenda da petição inicial não é um mero despacho, é uma DECISÃO INTERLOCUTÓRIA, sendo que a lei processual (art. 321) exige que o juiz indique com precisão o que deve ser objeto de correção pelo autor. A ausência desse indicativo, pelo Juiz, acarreta a possibilidade de manejamento de EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. 13.2 DO INDEFERIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL Ao verificar, entretanto, que a petição inicial não preenche os requisitos intrínsecos e extrínsecos, e que esses vícios não são sanáveis, ou tendo a parte autora sido intimada para regularizar a deficiência e não o fez a tempo e modo, o magistrado decidirá por seu indeferimento, mediante sentença terminativa do feito (CPC 330). Sendo sentença deve o autor, caso tenha interesse, interpor recurso de apelação que, excepcionalmente, carrega efeito regressivo, já que permite ao juiz exercer juízo de retratação no prazo de 5 dias. Não havendo retratação o magistrado citará o réu para apresentar contrarrazões e encaminhará, a seguir, os autos ao tribunal competente para o julgamento do recurso. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 98 ATENÇÃO: é lícito que o indeferimento seja parcial. Exemplo: pedidos cumulados, apenas um dos pedidos e objeto de indeferimento, sendo o réu citado para responder aos outros pedidos que não foram indeferidos. Nesse caso a natureza jurídica do ato decisório será de decisão interlocutória, sendo recorrível por recurso de agravo de instrumento. 13.3 DA IMPROCEDÊNCIA LIMINAR DO PEDIDO Não sendo o caso de indeferimento da inicial, o julgador, ao verificar que a demanda prescinde de fase instrutória, poderá, desde logo, julgar improcedente o pedido. A improcedência liminar do pedido independe da citação do réu e tem cabimento nas hipóteses em que o pedido contrariar: (i) Enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça; (ii) Acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos; (iii) Entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; (iv) Enunciado de súmula de Tribunal de Justiça sobre direito local; O instituto jurídico em apreço tem por finalidade promover a uniformização do direito pátrio e evitar o ajuizamento de demandas repetitivas, cuja matéria já esteja jurisprudencialmente pacificada, em consonância com os princípios da segurança jurídica, economia e celeridade processuais. Além das situações mencionadas acima, o juiz poderá julgar, de imediato, o mérito quando constatar a existência de prescrição ou decadência (art. 332, §1º do CPC/15). Da decisão de improcedência do pedido, cabe recurso de apelação, caso em que o juiz poderá retratar-se no prazo de 5 (cinco) dias. Não havendo retratação, o réu será citado para apresentar contrarrazões, no prazo de 15 (quinze) dias. Se não houver interposição de recurso, o réu será intimado do trânsito em julgado da sentença. Por último, uma vez deferida a petição inicial e não sendo o caso de improcedência liminar do pedido, o juiz determinará a citação do réu e designará a audiência de conciliação e mediação, observado o prazo mínimo legal de antecedência. 13.4 DA AUDIÊNCIA DE TENTATIVA DE AUTOCOMPOSIÇÃO Com a vigência do CPC/15, a audiência de conciliação e mediação tornou-se obrigatória, sendo dispensada apenas nas causas que versem sobre direitos que não admitam 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 99 autocomposição, bem como quando ambas as partes expressamente manifestarem desinteresse na composição consensual (art. 334, §4º do CPC/15). Em relação ao réu, a intimação para comparecimento à audiência de conciliação e mediação se dá no mesmo ato que determina a sua citação pessoal. Já o autor é intimado na pessoa de seu advogado. A audiência de conciliação e mediação será realizada por conciliadores ou mediadores, onde houver, sendo admitida a sua realização por meio eletrônico. A ausência injustificada de qualquer das partes à audiência de conciliação constitui ato atentatório à dignidade da justiça, punível com multa de até 2% (dois por cento) da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa. Todavia, a parte que não se fizer presente poderá constituir representante, com procuração específica, para negociar e transigir. O acordo firmado entre as partes será reduzido a termo e homologado por sentença. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 100 14 DA CONTESTAÇÃO A contestação é uma modalidade de resposta apresentada pelo réu, na qual poderá alegar toda matéria de defesa, bem como expor as razões de fato e de direito com que impugna o pedido do autor, especificando as provas que pretende produzir no processo. A defesa de mérito refere-se à substância ou ao objeto da lide. Nesse aspecto, é dividida em direta - quando o réu simplesmente nega os fatos contra si articulados -, ou indireta, em que o réu alega algum fato extintivo, impeditivo ou modificativo do direito do autor. Nesse último caso, abre-se vista ao autor para a réplica, no prazo de 15 (quinze) dias (art. 350 do CPC/15). Entretanto, além da defesa meritória (art. 336, CPC/15) poderá o réu apresentar, também defesas de natureza processual, aquelas elencadas no art. 337, CPC/2015, que devem ser alegadas, na estrutura do peticionamento, antes da defesa substancial. Damos o nome, a essas defesas processuais, de preliminares, justamente pelo fato de antecederem, na contestação, a defesa de mérito. Algumas dessas defesas processuais, alegadas em contestação, podem ocasionar a extinção do processo sem resolução do mérito, caso acolhidas pelo juiz. São chamadas, portanto, de defesas processuais peremptórias. Entre elas destacamos, a alegação de falta de interesse de agir, que conduz o processo a sua extinção (CPC art. 337, VI, c/c art. 485, VI). Lado outro, existem defesas processuais que, uma vez arguidas em contestação, não ditam, mesmo que acolhidas, a extinção do processo. São meras irregularidades processuais que serão corrigidas por ato do Juiz. Chamamos essas defesas processuais de meramente dilatórias, citando como exemplo a arguição de incompetência (seja absoluta ou relativa), cujo resultado será a remessa dos autos ao juízo competente (CPC, art. 337, II c/c 64, §3º). Existem, também, as chamadas defesas processuais dilatórias tendentes a se tornarem peremptórias. Essas defesas pressupõem uma irregularidade procedimental, que para ser sanada dependerá de um ato a ser praticado pelo autor. Como exemplos temos a arguição de deficiência de representação (CPC art. 337, IX); no caso, será o autor intimado para a regularização, no prazo a ser fixado pelo juiz (CPC art. 76), e, não sendo regularizado o processo, será extinto sem resolução do mérito. ATENÇÃO!!!! 1 – nem toda defesa processual é apresentada em contestação, existem algumas que são apresentadas em peças processuais próprias. Como exemplo temos a arguição de impedimento ou suspeição do juiz, que, conforme art. 146, CPC/15, é feita em petição específica. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 101 2 – É certo, entretanto, afirmar que o CPC/2015 diminui as defesas processuais que eram apresentadas em peças apartadas, sendo agora matérias que devem ser arguidas em preliminar de contestação. São elas: a) Incompetência relativa (CPC 317, II), não mais existindo a peça processual de exceção de incompetência relativa b) Incorreção do valor da causa (CPC 317, III), não mais existindo a peça apartada de impugnação ao valor da causa c) Indevida concessão da gratuidade de justiça ao autor (CPC art. 337, XIII), não mais sendo arguida, essa matéria, em peça separada. À luz do princípio da impugnação especificada estatuído no art. 341, caput do CPC/15, incumbe ao réu manifestar-se precisamente acerca das alegações de fato constantes na inicial, presumindo-seda relação processual. 1.1 POSIÇÕES DOUTRINÁRIAS QUANTO AO PROCESSO Preferimos não tecer comentários sobre o desenvolvimento histórico-teórico da natureza jurídica do processo, em razão do objetivo dessa obra. Passamos a mencionar as teorias que, hoje, têm maior amparo e repercussão na doutrina brasileira. a) Processo como Relação Jurídica Para os adeptos da teoria do processo como relação jurídica, que, conforme acima referenciado, foi sistematizada por Von Bülow, o processo pode ser visto como uma relação jurídica intersubjetiva (isto é: entre pessoas- autor, réu, juiz), autônoma (pois está dissociada da relação jurídico material controvertida que lhe teria dado origem), dinâmica (não é uma relação estática, na verdade, como afirmamos, o processo se inicia já com o pré-determinado objetivo de ser extinto) e de direito público (mesmo que a relação material controvertida seja de direito privado, uma vez instaurada a relação processual, esta é sempre de direito público, até porque é (o processo e seu objetivo) a própria exteriorização da função jurisdicional do Estado). b) Processo como Procedimento em Contraditório Modernamente, inspirado pelo pensamento do prof. Italiano Elio Fazzalari (entre outros autores), vários doutrinadores definem o processo como procedimento em contraditório. Dentro desta concepção teórica, o processo não é visto como uma relação intersubjetiva, não havendo relação entre as pessoas; os sujeitos do processo, ao serem chamados a participar do procedimento estariam se relacionando, sim, com a norma jurídica, devendo, para que o procedimento venha a ser conceituado como processo, que estes partícipes, que serão atingidos em sua esfera de direitos pelo ato final buscado 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 6 (ex: no processo de conhecimento a sentença), tenham assegurado pela própria norma jurídica a participação em contraditório. c) Processo como Ente Complexo Recentemente, outra teoria tem tido aceitação entre os pensadores do direito, teoria esta que busca analisar o fenômeno processual como uma entidade complexa, buscando uma confluência do pensamento das duas teorias acima explanadas. Não se afastam, estes que assim lidam com o conceito de processo, da teoria da relação jurídica, entretanto acrescentam ao conceito, obrigatoriamente, a noção teórica do procedimento (conceituação extremamente bem desenvolvida pelos adeptos da teoria de Fazzalari), além de agregar a figura do contraditório. Resumidamente, como entidade complexa o processo deverá ser visto como uma relação jurídica intersubjetiva (além dos outros aspectos dogmáticos da primeira teoria estudada), desenvolvida através de um procedimento, onde, inclusive por força da CR- 88, haverá a imperativa presença do contraditório. 1.2 A BUSCA POR UM PROCESSO CONSITUCIONAL E DEMOCRÁTICO Independente das concepções doutrinárias quanto ao processo, nítido que a teoria do processo (e sua aplicabilidade ao processo posto na realidade dos jurisdicionados e dos operadores do direito) caminha e busca a construção de um processo justo, democrático e que efetivamente respeite os princípios estampadas na nosso Constituição. Tanto que o CPC/2015, no seu art. 1º dita que o processo civil deve ser ordenado, disciplinado e interpretado conforme o estabelecido na CF-88, notadamente seus valores e normas fundamentais. A busca por um processo civil que respeite os valores e preceitos constitucionais, assim podemos sintetizar a diretriz estabelecida no artigo 1º do CPC/2015, é um dos objetivos do processo moderno; mas não apenas um respeito abstrato, trata-se da necessidade de se pensar o processo de forma concreta, como um autêntico e verdadeiro procedimento a garantir, a todos, indistintamente, um devido processo justo, assegurando que a legislação processual infraconstitucional respeitará os direitos e garantias assegurados na constituição federal. 1.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA ENTENDER O PROCESSO CIVIL ATUAL a) A nova diretriz estrutural do CPC Sobre a estrutura do CPC/73, observamos que o legislador, à época, criou 05 grandes “livros”, alocando a classificação do processo (Conhecimento, Execução e Cautelar), trazendo na sequência os Procedimentos Especiais e as Disposições Finais e Transitórias: 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 7 LIVRO I - PROCESSO DE CONHECIMENTO LIVRO II – PROCESSO DE EXECUÇÃO LIVRO III – PROCESSO CAUTELAR LIVRO IV – PROCEDIMENTOS ESPECIAIS LIVRO V – DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS Com a evolução do sincretismo processual e o desaparecimento do processo cautelar (não das medidas cautelares), o CPC/2015, em posição antagônica à estampada, e acima refletida, do CPC/73, apresenta, primeiro, uma PARTE GERAL, onde cuida dos aspectos gerais do processo e dos atos processuais, e uma PARTE ESPECIAL, onde se desenvolve o processo/procedimento cognitivo, o processo/procedimento executivo, a parte dos processos nos tribunais (incluindo recursos) e, por fim, as disposições finais e transitórias: PARTE GERAL LIVRO I – NORMAS PROCESSUAIS CIVIS LIVRO II – DA FUNÇÃO JURISDICIONAL LIVRO III – DOS SUJEITOS DO PROCESSO LIVRO IV – DOS ATOS PROCESSUAIS LIVRO V – TUTELA PROVISÓRIA LIVRO VI – DA FORMAÇÃO, SUSPENSÃO E EXTINÇÃO DO PROCESSO PARTE ESPECIAL LIVRO I – PROCESSO DE CONHECIMENTO E CUMPRIMENTO DE SENTENÇA LIVO II – PROCESSO DE EXECUÇÃO LIVRO III – PROCESSO NOS TRIBUNAIS E DOS MEIOS DE IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS LIVRO COMPLEMENTAR – DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS b) A evolução do sincretismo processual Abaixo apresentamos pontos históricos-normativos da visão da evolução do sincretismo processual, que apresenta como máxima a possibilidade da realização de atos processuais de natureza distinta na mesma relação processual, se a necessidade de vários processos para que a jurisdição possa declarar, garantir e efetivar o direito do jurisdicionado. Afirmamos que, em razão do sincretismo hoje reinante temos: - um processo de conhecimento onde se praticam atos para a declaração do direito, atos de natureza cautelar e atos executivos, insisto, tudo isso na mesma relação processual. - CPC/73: e a dualidade entre conhecimento e execução - CPC/73: a tripartição processual: processos de conhecimento, cautelar e execução 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 8 - CPC/73: reformas anos 90’ e o início do sincretismo para o procedimento comum (obrigações específicas) – fase de cumprimento de sentença para as obrigações de fazer, não fazer e entregar coisa - CPC/73: reformas anos 00’: ampliação do sincretismo para as obrigações de pagar (não para todas) - CPC/2015: evolução do sincretismo: manutenção do sincretismo já existente, com aperfeiçoamentos e ampliação para todas as obrigações, incluindo a execução por quantia certa contra a fazenda pública como mera fase de cumprimento de sentença c) A autocomposição como meio primário para resolução da lide Rompendo o antigo paradigma de que a resolução da lide primariamente se faria por ato impositivo do Estado (sentença de mérito na qual o Estado-Juiz, de forma impositiva, reconheceria ou não o direito invocado, substituindo a vontade das partes pela vontade abstrata da lei material), sendo reservada a autocomposição como um meio secundário de resolução dos conflitos; o atual CPC coloca a resolução da lide pelas técnicas autocompositivas como algo primeiro, estabelecendo parâmetros procedimentais para que a resolução da lide se dê, primariamente, por ato de vontade das partes e, secundariamente, de forma impositiva pelo Estado. - CPC/73: primariamente o Estado resolverá a lide de forma impositiva, afirmando, por decisão imperativa, a existência ou não do direito pretendido pela parte; secundariamente, e de forma excepcional, será buscada a solução do litígio por técnica autocompositiva. - CPC/2015: primariamente o Estado disponibilizará, pelo processo, oportunidade para que as partes possam resolververdadeiras as não impugnadas. Esse ônus, contudo, não se aplica ao defensor público, ao advogado dativo e ao curador especial. Depois de apresentada a contestação, opera-se a preclusão consumativa, sendo lícito ao réu somente deduzir novas alegações quando relativas a direito ou a fato superveniente; quando se tratar de matéria que deva ser conhecida de ofício pelo juiz; ou, mediante expressa autorização legal, quando for arguível em qualquer tempo e grau de jurisdição. ATENÇÃO!!! PRAZO PARA APRESENTAÇÃO DA CONTESTAÇÃO Dita hoje o CPC/2015, art. 335, 03 (três) marcos iniciais para a contagem do prazo de contestação, que continua a ser de 15 (quinze) dias. São eles: - da data de realização da audiência de conciliação ou mediação, quando frustrada a tentativa de autocomposição - caso não seja realizada a audiência de tentativa de autocomposição, pelo fato das partes terem expressamente demonstrado desinteresse no acordo, o prazo fluirá da data em que o réu apresentou sua petição de solicitação de cancelamento da audiência - nos casos em que não seja designada a audiência, por situações da não admissibilidade da autocomposição, o prazo para contestação será contado conforme o art. 231, CPC/15, levando em consideração o tipo de citação. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 102 15 DA RECONVENÇÃO Consoante o art. 343 do CPC/15, a reconvenção é uma modalidade de defesa apresentada no bojo da contestação, em que o réu formula pretensão própria, conexa com a ação principal ou com o fundamento da defesa. Embora proposta nos mesmos autos do processo principal, a reconvenção goza de autonomia, visto que a sua apreciação independe da análise de mérito da ação originária, que poderá, inclusive, ser extinta. Ademais, admite-se a reconvenção, mesmo quando não oferecida a contestação (art. 343, §6º do CPC/15) A reconvenção pode ser promovida em face do autor ou de terceiros, bem como em litisconsórcio com terceiro. Referido permissivo, estampado nos §§ 3º e 4º, do art. 343, CPC, é uma inovação processual, pelo menos em termos normativos. Assim podemos afirmar que a reconvenção amplia objetivamente a demanda judicial, mas que pode, também, ser um fator a ampliar objetivamente o processo judicial. O autor reconvindo, será intimado, na pessoa de seu advogado, para apresentar resposta, no prazo de 15 (quinze) dias. Após, o processo retomará o seu curso normal, sendo julgadas conjuntamente as pretensões formuladas pelas partes. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 103 16 DA REVELIA Considera-se revel o réu que deixar de oferecer contestação. Decretada a revelia, presumir-se-ão verdadeiros os fatos alegados pelo autor na inicial. Essa presunção de veracidade, entretanto, é meramente relativa (iuris tantum), admitindo-se, pois, prova em sentido contrário. Por força do art. 345 do CPC/15, não incidem os efeitos da revelia nas seguintes situações hipotéticas: • havendo litisconsórcio passivo, algum dos réus contestar a ação; • a ação versar sobre direitos indisponíveis; • a petição estiver desacompanhada de documentos indispensáveis à prova do ato; • quando as alegações de fato formuladas pelo autor forem inverossímeis ou contrárias à prova constante dos autos. O revel que não possuir patrono constituído nos autos será intimado dos atos processuais, a partir da publicação do ato decisório no diário oficial. No código anterior (CPC/73), ditava a lei processual que o prazo para o revel, sem patrono constituído nos autos, fluiria independentemente de intimação. Ora, a contagem de prazo fluindo sem o ato intimatório é preceito de um procedimento inquisitório, não se amoldando à realidade de um processo constitucional e democrático. A revelia não obsta a intervenção do revel no processo, podendo nele ingressar em qualquer fase, recebendo-o no estado em que se encontrar, sendo-lhe autorizada ainda a produção de provas, de modo a confrontá-las com as alegações do autor, desde que se faça representar nos autos em tempo hábil, ou seja, antes do encerramento da instrução probatória. ATENÇÃO!!! Quando ocorre a revelia, podemos ter como verdadeiros os fatos afirmados. Entretanto é equivocado afirmar que, mesmo diante da veracidade dos fatos, automaticamente o pedido será julgado procedente. A revelia não induz veracidade do direito, razão pela qual podemos afirmar ser lícita a improcedência do direito do autor, mesmo diante da revelia do réu. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 104 17 DO JULGAMENETO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO (E O JULGAMENTO ANTECIPADO PARCIAL DO MÉRITO) Superada a fase concernente às providências preliminares, se houver, o processo segue para o pronunciamento judicial. Na ocorrência de qualquer das hipóteses previstas no art. 485 e 487, incisos II e III do CPC/15 o juiz proferirá sentença (terminativa ou definitiva, conforme o caso), com a consequente extinção do processo. Inovação trazida pela nova ordem processual refere-se à possibilidade de se prolatar decisão que julgue apenas parcela do processo, com ou sem exame de mérito. A despeito da nomenclatura “sentença parcial” utilizada pelo novo codex, a referida decisão sujeita-se a recurso de agravo de instrumento (art. 354, parágrafo único, do CPC/15). No tocante à sentença de mérito, o juiz julgará antecipadamente o pedido, na forma do art. 487, inciso I, do CPC/15, quando se mostrar desnecessária a produção de outras provas, eliminando-se, por consequência, a fase probatória; ou na hipótese de revelia, quando não houver requerimento de prova pelo revel. O art. 356 do CPC/15 consagrou ainda o julgamento antecipado parcial de mérito, sendo cabível quando um ou mais pedidos formulados pelo autor for incontroverso ou quando o processo já estiver em condições de imediato julgamento. O mérito parcialmente decidido pode consistir em obrigação líquida ou ilíquida (art. 356, §1º do CPC/15), sendo lícito à parte liquidar ou executar a decisão parcial, desde logo, independentemente de caução, mesmo na pendência de recurso. Transitada em julgada, torna-se definitiva a execução. A decisão parcial de mérito é impugnável por meio de agravo de instrumento (art. 356, §5 do CPC/15). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 105 18 DO SANEAMENTO E DA ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO A decisão saneadora é composta por uma série de atos praticados pelo juiz com vistas a sanear e organizar o processo. Nessa oportunidade, incumbe ao juiz resolver as questões processuais eventualmente pendentes; delimitar as questões fáticas sobre as quais recairá a atividade probatória, especificando os meios de prova admitidos; determinar a distribuição do ônus da prova; delimitar as matérias de direito relevantes a serem decididas; designar, se for o caso, a audiência de instrução e julgamento. A decisão de saneamento do processo é impugnável pelas partes, as quais poderão requerer esclarecimentos ou solicitar ajustes, no prazo comum de 5 (cinco) dias, findo qual a decisão se torna estável. O art. 357, §2º do CPC/15 trouxe mais uma novidade no que pertine aos negócios jurídicos processuais, conferindo às partes a possibilidade de delimitarem, consensualmente, as questões de fato que serão objeto de prova, bem como as questões relevantes de direito a serem submetidas a julgamento de mérito. Se homologado, os termos do acordo vinculam as partes e o juiz. Diante da complexidade da causa, deverá o juiz designar audiência a fim de que o saneamento seja realizado em cooperação com as partes, ocasião em que as partes poderão ser convocadas a integrar ou esclarecer suas alegações (art. 357, §3º do CPC/15). ATENÇÃO!!! – PRAZO PARA APRESENTAÇÃO DO ROL DE TESTEMUNHAS O art. 357, CPC, no seu parágrafo 4º, determina que o juiz, ao designar a audiência de instrução e julgamento, fixe prazo, não superior a 15 (quinze) dias, para que as partes apresentem em juízo o rol de testemunhas. ENTRETANTO, caso seja designadaa audiência prevista no §3º, do artigo mencionado, o rol de testemunhas, obrigatoriamente, deverá ser levado para a audiência, sob pena de preclusão. É o que informa o art. 357, no seu parágrafo 5º, CPC/15) 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 106 19 DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO A audiência de instrução e julgamento constitui um ato processual complexo, no qual participam as partes e outros sujeitos do processo. Em regra, sua designação se dá apenas quando necessária à produção de prova oral (depoimento pessoal das partes, oitiva de testemunhas) ou esclarecimentos periciais. O art. 359 do CPC/15 ilustra, mais uma vez, o viés conciliatório presente na nova sistemática processual, dispondo que o juiz, ao declarar instalada a audiência, deverá empregar métodos de acordo na tentativa de obter a solução consensual do conflito. Em regra, a audiência é una e contínua, sendo excepcionalmente admitido o seu fracionamento, mediante justificativa da ausência de testemunha ou de perito, contanto que haja consentimento das partes. Encerrada a instrução processual, o juiz concederá a palavra ao autor e ao réu, sucessivamente, para apresentarem alegações finais orais. Em decorrência da complexidade da causa, o debate oral poderá ser substituído por razões finais escritas (memoriais), no prazo sucessivo de 15 (quinze) dias. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 107 20 DA SENTENÇA E DA COISA JULGADA A sentença consiste no pronunciamento judicial que põe fim ao procedimento cognitivo ou a execução, sendo dividida em terminativa, quando fundada nas hipóteses descritas no art. 485 do CPC/15, e definitiva, quando resolve o mérito, com fulcro no art. 487 do CPC/15. O julgamento proferido sem resolução de mérito não faz coisa julgada material, razão pela qual a parte poderá a propor novamente a ação (art. 486, caput, do CPC/15), salvo na hipótese de perempção prevista no §3º do mesmo dispositivo legal. Conforme abordado na parte principiológica desse estudo, o CPC/15 consagrou o princípio da primazia do mérito, refletido, outrossim, na norma do art. 488 do CPC/15, segundo a qual determina que o juiz, desde que possível, resolverá o mérito, sempre que a decisão for favorável à parte a quem aproveitaria eventual resultado nos termos do art. 485 do CPC/15. Com relação aos elementos essenciais que integram a sentença, o art. 489 do CPC/15 estabelece os seguintes requisitos: • Relatório, contendo o nome das partes, identificação do caso, descrição sumária do pedido e da contestação, o registro das principais ocorrências no processo; • Fundamentação, em que o juiz analisa as questões de fato e de direito; • Dispositivo, em que o juiz resolve as questões principais que lhe forem submetidas pelas partes A respeito da fundamentação, o §1º do mesmo dispositivo legal, preceitua que não se considera fundamentada decisão judicial que se limita a indicar, reproduzir ou parafrasear ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; que faça uso de conceitos jurídicos indeterminados, sem indicar o motivo de sua incidência; invocar motivos genéricos; não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar o resultado do processo; citar precedente ou súmulas, sem identificar seus fundamentos determinantes nem subsumi-los ao caso concreto; afastar enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem justificativa de distinção com o caso ou superação de entendimento. Com efeito, é nula a sentença proferida sem fundamentação ou insuficientemente fundamentada. No tocante aos limites da sentença, de acordo com o princípio da congruência ou adstrição estatuído no art. 492 do CPC/15, o juiz deverá decidir nos limites dos pedidos formulados pelas partes, sendo-lhe vedado proferir decisão de natureza diversa, bem como condenar a parte em quantidade superior (ultrapetita) ou em objeto diverso da lide (extrapetita). De igual modo, a violação desse princípio resulta na nulidade da sentença. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 108 O art. 490 do CPC/15 dispõe ainda que “o juiz resolverá o mérito acolhendo ou rejeitando, no todo ou em parte, os pedidos formulados pelas partes”. Assim, havendo cumulação de pedidos, por exemplo, se a sentença for proferida aquém, isto é, deixar de apreciá-los em sua integralidade ou não enfrentar a causa de pedir ou a defesa apresentada pelo réu (citrapetita) estará sujeita à oposição de Embargos de Declaração, por vício de omissão. Quanto à possibilidade de modificação da sentença pelo julgador, o art. 494 do CPC/15, estabelece que, depois de publicada, o juiz só poderá alterá-la: • Para corrigir inexatidões materiais ou erros de cálculos • Por meio de embargos de declaração Relativamente aos limites objetivos da coisa julgada, o CPC/15 recepcionou a tese de que a fundamentação não faz coisa julgada, mas tão somente a parte dispositiva da sentença (art. 504 do CPC/15). Segundo o disposto no art. 502 do CPC/15, denomina-se coisa julgada material “a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso”. Desse modo, o mérito total ou parcialmente decidido tem força de lei, vinculando as partes e o juiz, o qual é vedado decidir novamente questões já resolvidas relativas à mesma lide (art. 505, CPC/15). A regra da imutabilidade da sentença comporta, contudo, exceções. Nas relações jurídicas de trato continuado, por exemplo, sobrevindo modificação no estado de fato ou de direito, a parte poderá pedir revisão do que foi estatuído na sentença (art. 505, inciso I do CPC/15). Por fim, no tocante à eficácia preclusiva da coisa julgada, o art. 508 do CPC/15 prevê que com o trânsito em julgado da decisão de mérito, “considerar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento quanto à rejeição do pedido”. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 109 21 DAS PROVAS 21.1 DISPOSIÇÕES GERAIS Necessário tecer algumas considerações sobre as provas no processo civil moderno. Destacamos que qualquer das partes tem o direito de convencimento do magistrado, podendo solicitar a produção de provas, desde que lícitas, para o devido exercício desse direito. Claro que o magistrado detém o poder de indeferir requerimentos de provas que sejam meramente protelatórias e/ou que não sejam necessárias para a sua atividade cognitiva. Como o juiz é que deve ser convencido, para que possam surgir decisões justas, lícito (além do requerimento apresentado pelas partes) que seja determinado de ofício a realização de provas, mas sempre sobre os fatos presentes nos autos. a) sobre a prova emprestada Há muito a doutrina e a jurisprudência pátria admitem que provas produzidas em um processo possam ser trazidas a outro como meio de comprovação dos fatos debatidos nessa segunda demanda. É a chamada prova emprestada. O CPC atual textualizou tal possibilidade na redação do art. 372. Com a utilização do instituto da prova emprestada o magistrado poderá atribuir o valor que julgar adequado, não se vinculando ao aspecto decisório do anterior processo. Mas, ATENÇÃO: só é permitida a utilização da prova emprestada desde que tenha sido respeitado o contraditório. b) do ônus da prova Manteve o atual código de processo civil a repartição legal do ônus da prova, ditando que o autor deverá provar os fatos constitutivos do seu direito e o réu fazer prova dos fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do autor. Novidade é o permissivo normativo do art. 373, §§1º e 2º, CPC. Referido regramento legal abre a oportunidade para que o juiz possa distribuir o ônus da prova de forma diversa, mesmo que não exista lei específica para tanto. Manteve o CPC, entretanto, o contratualismo processual no tocante à repartição do ônus da prova, sendo possível às partes convencionar, nos limites legais, sobre talinstituto. c) dos fatos que não dependem de provas Nem todo fato precisa ser comprovado em juízo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 110 Segundo o art. 374 do CPC não precisam ser provados os fatos: I - notórios; II - afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária; III - admitidos no processo como incontroversos; IV - em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade. d) demais preceitos sobre as provas Quanto a interpretação das provas, reina o princípio do livre convencimento motivado, não havendo uma hierarquia quanto às provas produzidas, devendo o juiz aplicar as regras de experiência comum, ou seja, interpretar as provas e os respectivos fatos pela observação do que ordinariamente acontece, se valendo da prova pericial para questões técnicas. Interessante notar que a lei, incorporando na fase de provas o princípio da cooperação, afirma que ninguém se exime do dever de colaborar com o Poder Judiciário para o descobrimento da verdade, não sendo exigido da parte, entretanto o direito de produzir provas contra si. Dentro desse princípio da cooperação, nos limites da preservação acima, tem a parte a obrigação de: I - comparecer em juízo, respondendo ao que lhe for interrogado; II - colaborar com o juízo na realização de inspeção judicial que for considerada necessária; III - praticar o ato que lhe for determinado. 21.2 DOS MEIOS TÍPICOS DE PROVA: QUESTÕES ESSENCIAIS a) da ata notarial Permite a lei processual que a existência e o modo de existir de algum fato podem ser atestados ou documentados, a requerimento do interessado, mediante ata lavrada por tabelião. Referido meio probatório ganha enorme importância no direito moderno, inclusive pelo fato de que muitos atos são praticados no “mundo virtual”, por isso permite a lei no art. 384, parágrafo único que dados representados por imagem ou som gravados em arquivos eletrônicos poderão constar da ata notarial. b) depoimento pessoal Meio probatório típico, pode uma parte requerer o depoimento pessoal da outra, sendo lícito ao juiz de ofício ordenar tal produção de prova (CPC 385). Deve a parte, devidamente intimada, comparecer à audiência para prestar seu depoimento e, comparecendo, prestar o devido depoimento. Caso a parte, intimada, não compareça ou, comparecendo, não preste o depoimento, lhe será aplicada a pena de confesso. Entretanto é importante salientar que a parte não é compromissada com a verdade, não prestando tal compromisso é que ela pode se recusar a depor sobre fatos: I - criminosos 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 111 ou torpes que lhe forem imputados; II - a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo; III - acerca dos quais não possa responder sem desonra própria, de seu cônjuge, de seu companheiro ou de parente em grau sucessível; IV - que coloquem em perigo a vida do depoente ou das pessoas referidas no item III. Referidas limitações não se aplicam às causas de família. c) da exibição de documento ou coisa É lícito ao juiz, de ofício ou mediante requerimento, determinar que qualquer parte no processo apresente em juízo documento ou coisa que esteja em seu poder, e que tenha relação com a lide posta perante o judiciário. Interessante que a lei processual (art. 399) não admite que a parte recuse a apresentação do documento ou coisa nas seguintes hipóteses: I - o requerido tiver obrigação legal de exibir; II - o requerido tiver aludido ao documento ou à coisa, no processo, com o intuito de constituir prova; III - o documento, por seu conteúdo, for comum às partes. Além da parte tem o terceiro, também, obrigação legal de fornecer ao juízo documento ou coisa que se encontre em seu poder (CPC 401). d) da prova documental Confere a lei processual civil força probante aos documentos e no caso de ser documento público ele faz prova não apenas da sua formação mas também dos atos e fatos declarados no documento pelo escrivão, o chefe de secretaria, o tabelião ou o servidor, desde que declarem que tenham ocorrido na sua presença. Já as declarações consubstanciadas em documentos particulares escrito e assinado ou somente assinado presumem-se verdadeiras em relação ao signatário. Além de vários aspectos enumerados na lei processual (CPC arts. 405 a 424), devem ser destacadas as situações em que a lei determina que fazem a mesma prova que o original, merecendo o art. 425 a devida leitura e estudo. e) da prova testemunhal Podem as partes se valer de testemunhas para a comprovação das suas alegações fáticas no processo. Limitação existe, entretanto, segundo a lei processual, para a realização de tal prova. (i) deve o juiz indeferir a realização de prova testemunhal sobre fatos já provados por documento ou confissão da parte ou que só por documento ou por exame pericial puderem ser provados. (ii) não podem depor como testemunhas aqueles a quem a lei considera: incapaz, impedido ou suspeito. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 112 Novidade na legislação codificada, que não estava prevista no código revogado, é o fato da testemunha ser informada e intimada para comparecimento à audiência pelo próprio advogado da parte que as tenha arrolado. Tal intimação deverá ser feita por correio, competindo ao advogado juntar aos autos com antecedência de pelo menos 3 (três) dias da data da audiência, cópia da correspondência de intimação e do comprovante de recebimento. Dispensada será essa intimação se a parte se comprometer a levar a testemunha à audiência. Entretanto, nesse caso, caso a testemunha não compareça isso será considerado como desistência na inquirição da testemunha. f) da prova pericial A prova pericial há de ser realizada quando forem necessários conhecimentos técnicos especializados, consistindo em exame, vistoria ou avaliação. O atual CPC apresenta como regra primária a realização da perícia simplificada, que consiste na inquirição de especialista, pelo juiz, sobre ponto controvertido que demande conhecimento científico ou técnico, desde que o ponto controvertido seja de menor complexidade. Entretanto, caso seja uma situação de maior complexidade, manteve o CPC atual a nomeação, pelo juiz, de perito especializado no objeto da perícia e fixará de imediato o prazo para a entrega do laudo. Requerida a prova pericial, por qualquer das partes, pode o juiz indeferir quando: I - a prova do fato não depender de conhecimento especial de técnico; II - for desnecessária em vista de outras provas produzidas; III - a verificação for impraticável. g) da inspeção judicial Meio probatório altamente interessante, que considera que o juiz pode, de ofício ou a requerimento da parte, pode, em qualquer fase do processo, inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato que interesse à decisão da causa. Ou seja, o juiz comparece pessoalmente ao local onde está a pessoa ou coisa, objeto da prova, para atestar a situação fática por si, e, concluída a diligência, o juiz mandará lavrar auto circunstanciado, mencionando nele tudo quanto for útil ao julgamento da causa. 21.3 DA PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS Dentro do direito probatório, merece especial destaque a produção antecipada de prova, prevista nos arts. 381 e ss., do CPC. Referido destaque se faz necessário em razão da evolução do instituto, que impacta o processo civil moderno de forma muito nítida. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 113 a) natureza jurídica do instituto Vista historicamente, em termos normativos, a produção antecipada de provas estava lançada como procedimento de natureza cautelar, notadamente pelo fato dos autores clássicos considerarem a produção antecipada como um meio de preservação das provas para futura utilização em determinado processo, ou seja, acautelava a prova em determinado momento para viabilizar sua utilidade futura. Hoje, no CPC 2015, nitidamente a produção antecipada de provas não se reveste de caráter cautelar,nem no caso de urgência, posto que não se preserva, necessariamente, a prova, mas sim o meio para produção futura. Assim podemos afirmar que a produção antecipada de provas possui, na verdade, natureza jurídica de jurisdição voluntária, não havendo lide e os sujeitos são identificados, inclusive como meros interessados, não exercendo o juiz atividade de fundo jurisdicional. b) sobre a produção antecipada de provas em caráter incidental Vista no velho código como cautelar, previa a lei que a produção antecipada de provas poderia ser solicitada em caráter preparatório (antes do processo principal) ou incidental (no curso do processo principal). O Novo CPC dita, nitidamente, que a produção antecipada de provas, regulada a partir do art. 381, deverá ser anterior ao pedido, ou melhor, antecedente ao processo principal propriamente dito. No caso de ser necessária a produção de alguma prova, já no curso do processo propriamente dito, basta que ela seja requerida por petição incidental dentro dos próprios autos, já que o magistrado tem, por força do art. 139, VI, CPC, permissivo para alterar a ordem da produção das provas, antecipando aquelas que sejam, em razão de eventual urgência, realizadas já no curso do processo. c) Aceitação de todas as modalidades probatórias A lei processual anterior (CPC/73) ditava que somente as provas testemunhais, depoimentos pessoais e perícias poderiam ser realizadas antecipadamente, tudo por força do art. 846, CPC/73. Denota-se da leitura do artigo 381, CPC/2015, uma ampliação do instituto para qualquer prova que se queira produzir antecipadamente, não havendo, na atual lei, ao contrário da antiga, nenhuma limitação quanto ao meio probatório a ser produzido. Lembrando que não apenas lícito será a produção da modalidades reguladas em lei, de forma antecipada, mas também todos os meios lícitos mesmo que não especificados na lei processual, dentro do permissivo do art. 369, CPC. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 114 d) Hipóteses legais de utilização do instituto Sendo vista no CPC antigo como um procedimento cautelar, exigia a lei processual, para a concessão da produção antecipada de provas, a comprovação do “periculum in mora”, só sendo possível o permissivo da produção antecipada no caso de comprovado urgência. Hoje, além da urgência, é possível a utilização do instituto em comento para outras situações, o que concede, ao profissional da advocacia cível, uma gama de estratégias processuais na busca de um melhor resultado do processo, notadamente na qualidade de autor. Vejamos essas hipóteses nos itens abaixo. (i) urgência: Nitidamente o CPC/2015 permite a utilização da produção antecipada de provas em situações de urgência, justificada pela impossibilidade futura de produção da prova. (ii) viabilizar a autocomposição: A segunda hipótese de produção antecipada de provas se coaduna com os ditames atuais do processo civil, na busca, sempre, pela resolução do mérito através de situação autocompositiva. Nessa hipótese não é necessária a demonstração de nenhum risco futuro no tocante a produção da prova, basta que se demonstre ao juiz que é possível, produzindo a prova antecipadamente, melhorar as chances de autocomposição quando da apresentação da demanda. Comprovada tal situação, deve ser deferida a produção antecipada. (iii) comprovação do fato constitutivo do direito: Em muitas situações práticas podemos ter dúvidas sobre a existência do fato constitutivo do direito do autor, razão pela qual, diante da sempre necessária segurança jurídica, e para inibir demandas sem fundamento, abre-se a possibilidade de utilização do procedimento de produção de provas antecedente como uma forma de comprovar a existência do fato. Lembrando, não se produzirá, no campo da produção antecipada, nenhum convencimento do juiz quando a existência do fato como um fato efetivamente constitutivo do direito do autor. O que se fará, para o possível ajuizamento da demanda principal, é trazer indícios do fato dito, pelo autor, como constitutivo do seu direito, sendo que a valoração de tal prova e a eventual caracterização do fato como algo a ditar procedência de pedidos, só será avaliado pelo juiz no processo principal. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 115 22 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA 22.1 DO TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL Pressuposto essencial para toda e qualquer execução, sendo o cumprimento de sentença uma fase executiva, o título executivo judicial e formado após a existência de uma demanda cognitiva, exigindo a existência de um ato decisório da atividade jurisdicional (ou de um juízo arbitral) para sua existência. O art. 515 do CPC elenca quais são os títulos executivos judiciais. Devemos destacar, dentro os títulos executivos judiciais o que se segue: (i) o inciso I do art. 515, CPC, faz referência “decisão” não a “sentença”, tal nominação se dá, principalmente, em razão do previsto no art. 356, CPC, que permite o julgamento antecipado parcial do mérito, através de uma decisão interlocutória; e (ii) há um título executivo que não é formado a partir da atividade jurisdicional do Estado: a sentença arbitral. Nítido que o arbitro é dotado, à similaridade, de atividade cognitiva próxima àquela que detém o juiz togado, entretanto, não tendo “força de império”, não pode o arbitro terminar que terceiros ou agentes do Estado pratiquem atos de “força” para a efetivação de direitos reconhecidos na sentença, devendo o cumprimento da decisão arbitral ser feita junto ao Poder Judiciário. 22.2 DA EXIGIBILIDADE Formado o título executivo, passa a ser possível a prática de atos de cumprimento dos direitos reconhecidos na decisão judicial ou arbitral. Ressalte-se que, uma vez transitada em julgada a decisão, o cumprimento será definitivo, entretanto é possível que, havendo recurso interposto contra a decisão, não dotado de efeito suspensivo, o cumprimento seja possível, só que nesse caso será cumprimento provisório. 22.3 DA COMPETÊNCIA Segundo a norma processual civil (CPC art. 516), partindo da premissa que o título executivo foi formado por decisão judicial proferida em primeiro grau de jurisdição, o cumprimento de sentença seja realizado perante o mesmo juízo prolator da decisão. Permite a lei, entretanto, no parágrafo único do art. 516, CPC/2015, que o exequente solicite a remessa dos autos a outro juízo, notadamente onde existam bens passíveis de penhora ou localidade do atual domicílio do devedor. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 116 Referida opção garante ao exequente um possível melhor resultado na execução, evitando delongas provocadas pela remessa, de um juízo a outro, de cartas precatórias. 22.4 CUMPRIMENTO DEFINITIVO: OBRIGAÇÃO DE PAGAR QUANTIA CERTA Transitado em julgado o título executivo judicial, contendo ele uma decisão líquida (caso não tenha será necessária uma fase anterior de liquidação de sentença - vide arts. 509 e ss do CPC/2015), poderá o credor solicitar, por petição, o início da fase executiva. Salienta-se que não é lícito ao juiz determinar de ofício o início da fase de cumprimento de sentença por quantia certa, somente a requerimento do exequente será o executado intimado para cumprir a decisão, no prazo de 15 (quinze) dias, tudo como se infere do art. 523 do CPC, devendo o requerimento ser instruído com a memória atualizada dos valores devidos (CPC art. 524). Ultrapassado o prazo de 15 (quinze) dias, contados da intimação, sem o cumprimento voluntário pelo executado, começa a fase de cumprimento forçado, com imediata expedição do mandado de penhora e avaliação. Além a expedição do mandado de penhora e avaliação, determina a lei “penalidades” ao executado, com imposição de multa de 10% (dez por cento) sobre o valor executado, e de honorários de advogado também de 10% (dez por cento) sobre o valor devido. A imposição dos honorários e da multa (CPC art. 523, §1o) é justificada, respectivamente, pelosfatos de: a) merecer o advogado do exequente a devida remuneração pelo seu trabalho, já que a fixação dos honorários anteriores, na sentença, levou em consideração exclusivamente seu trabalho na fase cognitiva; e b) impor uma penalidade pecuniária (multa) ao executado que, intimado, não adimpliu a obrigação devida. Diante do não cumprimento voluntário, no prazo legal de 15 (quinze) dias, caracterizado está, portanto, como mencionado, o inadimplemento do devedor condenado na sentença, razão pela qual o título executivo judicial poderá ser objeto de protesto (CPC art. 517), podendo o nome do executado, a requerimento do exequente, ser lançado em cadastros de inadimplentes (CPC art. 782, §§3o a 5o). Caracterizado que o devedor não cumpriu voluntariamente a decisão, apesar de ter condições, poderá, sua conduta, ser tida como ato atentatório a dignidade da justiça, já que é obrigação derivada do princípio da boa-fé processual, o cumprimento, com exatidão, das ordens judiciais (CPC art. 77, IV). Neste caso, além da multa do art. 523, §1o, estará sujeito a uma segunda multa, cumulativa, de até 20% (vinte por cento), conforme previsto no art. 77, §§1o a 4o, CPC/2015). E o executado, não poderá se defender? - Sim, garante a lei processual (CPC art. 525) ao executado, decorrido o prazo para cumprimento voluntário, apresentar IMPUGNAÇÃO AO CUMPRIMENTO de sentença, através de petição, podendo alegar qualquer das matérias enumeradas no art. 525, §1o, CPC/2015. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 117 Ressalte-se que a fluência do prazo para apresentação da impugnação ao cumprimento de sentença, 15 (quinze) dias, flui independente de nova intimação ou de penhora, contado do esgotamento do anterior prazo de 15 (quinze) dias para cumprimento voluntário. 22.5 – DO CUMPRIMENTO PROVISÓRIO Possível é, entretanto, antes do trânsito em julgado, na pendência de recurso não dotado de efeito suspensivo, que a sentença seja objeto de execução, de forma provisória. Referido permissivo está estampado no art. 520, CPC/2015 e tem como regras: • a responsabilidade civil do exequente, que se obriga, se a sentença for reformada, a indenizar o executado por qualquer prejuízo que ele venha a ter; • a transformação da execução provisória em definitiva, se a sentença for confirmada e vier a transitar em julgado; • a possibilidade de realização de atos de constrição patrimonial (penhora); • ser possível ao exequente, no cumprimento provisório, requerer o levantamento de valores depositados, ou mesmo a expropriação (alienação) de bens penhorados, desde que, em regra, primeiramente ofereça caução. Assim é lícito afirmar que a execução provisória pode sim permitir a prática de atos de alienação de bens do executado que venham a ser penhorados, mediante prestação de caução pelo exequente. Ocorre que a lei processual permite a dispensa da caução nos seguintes casos (CPC art. 521): • o crédito for de natureza alimentar, independentemente de sua origem; • o credor demonstrar situação de necessidade; • pender o agravo do art. 1.042 • a sentença a ser provisoriamente cumprida estiver em consonância com súmula da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça ou em conformidade com acórdão proferido no julgamento de casos repetitivos. OBS: também no cumprimento provisório da sentença, intimado o devedor para depositar os valores devidos, no mesmo prazo da execução, não o fazendo, está sujeito a imposição da multa e dos honorários que são devidos na fase de cumprimento definitivo, como se infere dos arts. 520, §2o, c/c 523, §1o, CPC/2015) 22.6 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA DAS OBRIGAÇÕES DE FAZER, NÃO FAZER E ENTREGAR COISA Quando é proferida uma sentença reconhecendo a exigibilidade de obrigação de fazer, não fazer ou de entregar coisa, não temos, tão somente, uma sentença condenatória, mais do que isso, nós temos uma sentença que além de condenar carrega uma ordem 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 118 judicial, que deve ser objeto de cumprimento pelo destinatário do comando jurisdicional. Referidos títulos executivos, portanto, ao contrário daqueles que carregam simplesmente uma obrigação de pagar, possuem natureza jurídica diferenciada, o que permite ao magistrado determinar seu cumprimento de ofício (CPC 536). Quanto ao prazo para cumprimento da obrigação, é dever do magistrado fixá-lo levando em consideração todos os fatores inerentes a obrigação a ser cumprida: qual a sua natureza, qual a condição do devedor de cumprir a obrigação de uma forma plena, entre outros. Devidamente intimado, o devedor deverá cumprir a obrigação dentro do prazo estipulado pelo magistrado. Caso não ocorra o cumprimento, teremos as seguintes consequências: - imposição de multa diária, por dia de não cumprimento da obrigação - possibilidade do juiz determinara a prática de atos que possam gerar o cumprimento da obrigação e a satisfação do credor - imposição de penalidades decorrentes da litigância de má-fé - responsabilização criminal daquele que desobedecer a ordem judicial - imposição de multa por ato atentatório a dignidade da justiça 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 119 23 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO 23.1 DO TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL Permite a lei processual que sujeitos de determinada relação jurídico-material, por ato de vontade, estipulem direitos, obrigações e deveres, em documentos que sejam, por previsão legal, títulos executivos extrajudiciais. O título executivo extrajudicial, fruto, como frisado, de ato de vontade daqueles que são credor e devedor de determinada obrigação, carrega a presunção da existência da obrigação, permitindo a prática, desde logo, de atos executivos caso não tenha ocorrido o cumprimento da obrigação a tempo e modo. O CPC, no seu art. 784, apresenta uma relação exemplificativa dos títulos executivos extrajudiciais. 23.2 DA EXIGIBILIDADE Estando o credor, portanto, de posse de um título executivo extrajudicial, que contenha obrigação certa, líquida e exigível, não sendo cumprida a obrigação a tempo e modo, caracterizado estará o inadimplemento, sendo possível o início, desde logo, do processo de execução (CPC art. 786) 23.3 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO POR QUANTIA CERTA a) petição inicial Deve a petição inicial da Execução estar instruída com o título executivo e devidamente acompanhada de uma planilha de atualização dos valores em execução, até da data da sua apresentação em juízo. Essas e outras incumbências do exequente, para a devida formalização de sua petição inicial, estão estampadas no art. 798, CPC/2015. b) despacho positivo Verificando o juiz que a petição inicial da execução contém todos os elementos necessários para o seu devido processamento, determina a expedição do mandado de citação para pagamento, penhora e avaliação de bens, atos que serão praticados caso o devedor executado, citado, não cumpra a obrigação. No despacho primeiro, aceitando a petição inicial da execução, o juiz fixa, desde logo, honorários para o advogado do exequente, no percentual de 10% (dez por cento) sobre os valores executados, conforme previsto no art. 827, caput, CPC/2015. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 120 c) averbação premonitória Ocorrendo o despacho positivo, com a ordem de citação do executado, pode o exequente requerer a expedição de certidão da distribuição e aceitação da execução pelo juízo competente. De posse dessa certidão pode o exequente solicitar, junto a órgãos públicos que mantém registro de bens (exemplo: cartórios de registro de imóveis), que se proceda a averbação, a margem do registro de bens do executado, da existência da execução, informando ao juízo as averbações realizadas, facilitando assim o possível ato de penhora, bem como gerando, desde logo, se o bem averbado for alienado, a ocorrência da fraude a execução (CPC, art. 828). d) citação do executado Devidamente citado, o executadopoderá efetuar o pagamento dos valores em execução, no prazo de 3 (três) dias. Realizado esse pagamento, dentro do prazo legal, reserva a lei processual um benefício ao exequente, o pagamento de apenas metade dos honorários de advogado inicialmente fixados, como se infere, respectivamente, dos arts. 829, caput e 827, §1o, do CPC/2015. Entretanto, caso não realize o pagamento no prazo acima, o mandado de penhora e avaliação poderá ser devidamente cumprido pelo oficial de justiça. e) pagamento parcelado Permite a lei processual que o exequente, por ato unilateral de vontade, efetue, no prazo dos embargos, o pagamento dos valores em execução de forma parcelada. Para tanto deverá preencher os seguintes pressupostos: • efetuar o pagamento de, pelo menos, 30% (trinta por cento) dos valores em execução; • apresentar o requerimento, ao juízo, do pagamento do saldo em até 6x no prazo dos embargos Feito o requerimento e ouvida a parte contrária sobre o preenchimento dos pressupostos acima elencados, o juiz deferirá o pagamento de forma parcelada. Interessante destacar que, solicitado o pagamento parcelado, perde o executado o direito de apresentar embargos, sendo o requerimento aqui discutido ato de confissão dos valores devidos em execução, tudo conforme previsto no art. 916, CPC/2015. f) embargos a execução Não efetuado o pagamento dos valores devidos, nem tendo o executado interesse em fazer o pagamento parcelado, poderá, no prazo de 15 (quinze) dias contados da juntada aos autos do mandado de citação, apresentar, independente de garantia do juízo, os embargos à execução. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 121 Tendo natureza jurídica de ação de conhecimento, a apresentação dos embargos se faz através de uma petição inicial, que será distribuída por dependência ao processo executivo, e instruída com cópias de peças essenciais da execução (CPC, arts. 914 e 915). É lícito ao executado, nos embargos, apresentar, além de defesas específicas contra a execução (exemplo: inexequibilidade do título ou inexigibilidade da obrigação, excesso de execução ou cumulação indevida de execuções, entre outras), todas as defesas, processuais e meritórias, que ele poderia apresentar em uma demanda cognitiva, tudo por força e garantia da ampla defesa, consagrada no art. 917, CPC/2015. Como ação judicial de natureza cognitiva, os embargos serão julgados por sentença, contra a qual caberá recurso de apelação. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 122 24 RECURSOS E MEIOS DE IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS 24.1 CONCEITO Recurso pode ser conceituado como um ato de inconformismo, manejado pela parte que tem legitimidade e interesse, no mesmo processo em que o ato foi proferido, buscando a reforma, a invalidação, a integração ou o esclarecimento da decisão judicial impugnada. 24.2 SUCEDÂNEOS RECURSAIS Recursos não são os únicos meios de impugnação de decisões judiciais; existem os chamados sucedâneos recursais. Os SUCEDÂNEOS RECURSAIS são os meios de impugnação e confrontação de decisões judiciais que não possuem características conceituais de recursos, e que não seja tipificado como tal, desprovidas das características básicas do ato denominado recurso. Por exemplo: existem ações que servem para impugnar atos decisórios (ação rescisória), ou podem existir atos no processo que podem gerar os mesmos efeitos de recurso mas que não possuem suas características básicas (remessa necessária). a) sucedâneos recursais internos Assim chamados por serem atos de impugnação voltados contra decisões judiciais, externando inconformismo contra essas decisões judiciais, apresentados no mesmo processo em que a decisão hostilizada foi proferida. EXEMPLOS: (i) remessa necessária Mesmo sendo notório que o reexame necessário (ou remessa necessária, art. 496, CPC/2015), gera efeitos próximos do recurso, podendo reformar ou modificar o ato decisório objeto do duplo grau obrigatório, não é possível que seja considerado recurso por lhe faltar elementos conceituais essências, tais como a voluntariedade e a dialeticidade. (ii) correição parcial Instrumento processual cabível quando o magistrado fere a ordem lógica dos atos processuais, invertendo a ordem prática dos atos procedimentais, gerando uma confusão procedimental. Os regimentos internos dos tribunais tratam, sempre, desse meio procedimental. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 123 (iii) pedido de reconsideração Próprio da prática processual, as solicitações de reconsideração não possuem previsão legal e não podem ser confundidas com as hipóteses recursais que possuem efeito regressivo, ou seja, pedido de reconsideração não é o requerimento, feito no recurso, de exercício, pelo juiz, do juízo de retratação, é mera manifestação da parte, por petição incidental nos próprios autos do processo em que proferida a decisão que lhe é contrária. b) sucedâneos recursais externos (ações autônomas de impugnação) Por seu turno, sucedâneos recursais externos é a utilização de “um outro processo” (exercício de direito de ação) para impugnar atos decisórios proferidos em um “anterior processo”. Por isso a nominação “sucedâneos recursais EXTERNOS”, posto que o meio de impugnação da decisão judicial se faz a partir de um outro processo. São exemplos de sucedâneos recursais externos as ações autônomas de impugnação: ação rescisória, ação anulatória; ação de querela nullitatis, reclamação constitucional, mandado de segurança contra decisão judicial e embargos de terceiro. 24.3 PRINCÍPIOS RECURSAIS Devemos aplicar aos recursos (e isso não poderia ser diferente), vários princípios processuais genéricos, vistos como normas fundamentais. Por exemplo, para a validade dos recursos é necessário o respeito ao contraditório, sendo dada oportunidade à parte recorrida de apresentar suas contrarrazões, sob pena de nulidade de eventual reforma da decisão recorrida; princípio da boa-fé, não podendo a parte manejar recursos infundados sob pena, inclusive, de ser visto como litigante de má-fé (art. 79 e ss., CPC); princípio da publicidade; princípio da primazia do mérito, entre outros. Destacamos abaixo alguns PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS aplicáveis aos atos recursais. a) Duplo Grau de Jurisdição Inicialmente discutimos o princípio do duplo grau de jurisdição, que alguns colocam como um derivativo da garantia dada, a todos, de um devido processo legal. Acredito, entretanto, que apesar do duplo grau ser uma regra processual a ser observada, pode a lei processual, de forma excepcional, limitar, em casos isolados, a utilização de recursos contra determinadas decisões judiciais. Analisemos, abaixo, algumas situações legais limitadoras de interposição de recurso: - a admissão ou não da modalidade de terceiro chamada “amicus curiae”; referida decisão, pelo art. 138, CPC, não admite recurso, posto que é ele magistrado, condutor 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 124 do processo, que deve analisar ser necessária ou não a presença de terceiro para esclarecimentos sobre os efeitos da demanda judicial e sua possível decisão; a lei não fala que em matéria de complexidade será necessária a presença de terceiros como “amigos da corte”, a lei faculta levando em consideração a relevância da matéria e outras questões; - quando um recurso interposto não vem acompanhado do preparo, pode a parte recorrente demonstrar justo impedimento; demonstrado o juiz pode relevar a deserção, fixando prazo para a parte apresentar o recurso, sendo essa decisão irrecorrível, tudo conforme o art. 1.007, $6º, CPC. - outros exemplos no CPC: art. 1.031, §§2º e 3º e art. 1.035. b) Taxatividade Pelo princípio da taxatividade, somente podemos ter como recurso um ato processual cuja criação derive de lei federal, que também se encarregará de ditar quando esses recursos criados poderão ser interpostos. Em outras palavras compete à lei federal criar os recursos (princípio da taxatividade)e ditar as devidas hipóteses de utilização desses recursos (hipóteses de incidência recursal). Insisto: SOMENTE A LEI FEDERAL PODE CRIAR RECURSOS, tudo em razão da competência prevista na constituição federal; pois compete privativamente à União legislar sobre direito processual. Percebam que o CPC (lei federal), no art. 994, o primeiro nas disposições gerais de recursos, prevê, criando, quais são os recursos possíveis de serem apresentados no processo civil codificado; esse dispositivo legal afirma serem cabíveis os recursos de apelação, agravo de instrumento, agravo interno, embargos de declaração, recurso ordinário recurso especial, recurso extraordinário, agravo em recurso especial ou extraordinário e embargos de divergência. c) Singularidade O princípio da singularidade ou da unirrecorribilidade das decisões, prevê que, ao criar um recurso, a lei federal ditará também quando ele será utilizado (hipótese de incidência) não podendo, determinado ato decisório, em regra, ser atacado por mais de um recurso. Por isso o nome do princípio: UMA DECISÃO = UM RECURSO PRÓPRIO. Situação processual decorrente do princípio da taxatividade é a chamada ‘hipótese de incidência’. Como afirmamos acima, compete a lei federal não apenas criar o recurso mas, também, delimitar quando o recurso será utilizado. Assim, compete a lei federal ‘criar’ o recurso e determinar sua ‘incidência’, sendo inconstitucional que os regimentos internos dos Tribunais criem hipóteses de incidência recursal. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 125 d) Dialeticidade Além de princípio é uma das características do ato recursal (não basta que se exteriorize o inconformismo contra a decisão, é necessário que se fundamente os motivos pelos quais a decisão deve ser reformada ou invalidade, de tal forma que, diante dos fundamentos do recurso, fique claro, nítido, que a decisão impugnada merece ser revista). Não será admitido recurso que não impugne de forma específica os fundamentos da decisão recorrida. Hoje inclusive, referido princípio está estampado no art. 932, III, do CPC, quando se afirma ser incumbência do relator “não conhecer de recurso inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os fundamentos da decisão recorrida”. e) Fungibilidade Fungibilidade em termos processuais, sabemos é a utilização de um instituto processual (ou o manejamento de um ato processual) que não seria próprio no momento processual, mas que pode gerar os mesmos efeitos do instituto processual (ou ato) que seria o cabível naquele momento do processo. Em outras palavras, e sendo específico para os recursos: fungibilidade recursal pressupõe que A PARTE UTILIZOU DE UM RECURSO QUE NÃO SERIA O RECURSO PRÓPRIO CONTRA A DECISÃO RECORRIDA, MAS QUE, PRESENTES OS PRESSUPOSTOS, PODE SER ADMITIDO, gerando os potenciais efeitos de reforma ou invalidação da decisão hostilizada. O CPC/2015 não traz, de forma expressa, a figura do princípio, não em normas gerais, mais apresenta casos isolados (o que não veda que a fungibilidade possa ser aplicada em outras hipóteses, desde que presentes os pressupostos). Situações isoladas de utilização do princípio encontramos, por exemplo, no art. 1.024, §3º, CPC, ao ditar a lei a possibilidade dos embargos de declaração serem desde logo recebidos como agravo interno, chamando a parte recorrente à complementar as razões do recurso; além dos arts. 1.032 e 1.033, CPC, fungibilidade entre recursos extraordinários e especiais. Nossa clássica doutrina, bem como a histórica jurisprudencial sobre o tema, dita serem necessários 03 requisitos para a aplicação do princípio da fungibilidade: - dúvida objetiva quanto ao recurso a ser interposto; - inexistência de erro grosseiro; e - observância do prazo do recurso cabível. Devemos ressaltar, entretanto, que existe uma evolução doutrinária interessante do princípio aqui em discussão, que afasta a necessidade do recurso interpostos, não sendo o recurso cabível, ser apresentado no prazo do recurso próprio; pela doutrina, se há 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 126 dúvida objetiva seria incongruente solicitar que fosse o recurso indevido apresentado dentro do prazo do recurso próprio. f) Proibição da “reformatio in pejus” Sendo o recurso um ato de inconformismo, se fosse permitido que a parte, ao recorrer, tivesse a sua situação agravada pelo julgamento do recurso, seria isso uma forma de pressão psicológica para que a parte não apresentasse o recurso. Imaginem, determinado autor solicita em juízo a condenação do réu ao pagamento da quantia de R$100.000,00 (cem mil reais); o réu contesta afirmando não dever nada ao autor; na sentença o juiz julga parcialmente procedente o pedido para condenar o réu ao pagamento da quantia de R$80.000,00 (oitenta mil reais). Imaginando que o autor não apresente recurso, e que o réu viesse a recorrer buscando a diminuição da condenação, se ao tribunal lícito fosse aumentar a condenação imposta ao recorrente, isso poderia concorrer por tirar do réu o legítimo direito de apresentar seu inconformismo contra a sentença. Entretanto devemos afirmar que referido princípio não é absoluto. 24.4 EFEITOS DEVOLUTIVO E SUSPENSIVO Possuem os recursos vários efeitos. No presente momento tratamos dos dois mais lembrados, que são os efeitos devolutivo e suspensivo. a) efeito devolutivo Por efeito devolutivo podemos entender a transferência, a outro órgão da jurisdição, do conhecimento daquelas matérias que já foram objeto de decisão pelo juízo prolator da decisão recorrida. O efeito devolutivo pode ser visto nos seus aspectos de extensão e de profundidade. - efeito devolutivo em extensão: Para a verificação da extensão do efeito devolutivo, devemos levar em consideração a matéria impugnada pelo recorrente. Permite a lei processual, ao legitimado, o direito de impugnar de forma integral o julgado ou apenas parte, como previsto no art. 1.002, CPC: ‘A decisão pode ser impugnada no todo ou em parte’; nitidamente tal preceito legal deriva do princípio da demanda. A extensão do efeito devolutivo depende, portanto, da faculdade dada ao legitimado, de recorrer de todos os capítulos da decisão (levando em consideração o princípio da sucumbência que só permite recurso contra os capítulos da decisão ao qual o recorrente é sucumbente), ou de apenas alguns deles. - efeito devolutivo em profundidade: uma vez que o recorrente fixou a extensão do efeito devolutivo, a profundidade de dito efeito permite ao julgador verificar todos os fatos e fundamentos que estejam lançados e debatidos no processo, 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 127 ainda que não tenham sido solucionados na decisão impugnada, desde que versem sobre o capítulo (ou capítulos) da decisão atacados no recurso. Como exemplo citamos o art. 1.013 do CPC/2015, que prevê, no caput, o efeito devolutivo em extensão, ditando que a apelação somente “devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada”; já os §§ 1o e 2o do mesmo dispositivo legal trazem a provisão do efeito devolutivo em profundidade, ao permitir que os julgadores do recursos possam apreciar e julgar “todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo impugnado”, bem como “Quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e o juiz acolher apenas um deles, a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento dos demais.” b) efeito suspensivo O CPC/1973 partia da premissa que todo recurso teria, em regra, efeito suspensivo, que corresponde ao impedimento de ser efetivada a decisão enquanto o recurso não for julgado. Assim, o código procedimental revogado afirmava, textualmente, quando um recurso não teria efeito suspensivo. Por seu turno, sendo uma verdadeira inversão paradigmática, o novo CPC parte de uma premissa inversa, a de que os recursos não impedem a eficácia da decisão, ou seja: que,em regra, os recursos não são dotados de efeito suspensivo, permitindo que as decisões judiciais gerem efeitos imediatamente após publicadas. Referida regra está prevista no art. 995, CPC/2015, caput: “Os recursos não impedem a eficácia da decisão, salvo disposição legal ou decisão judicial em sentido diverso.” Observem que o dispositivo legal acima citado permite, entretanto, que alguns recursos sejam dotados de efeito suspensivo por expressa previsão legal ou, não havendo, por decisão judicial concessiva do efeito. Podemos afirmar que, em regra, o recurso que possui efeito suspensivo por imperativo legal é o recurso de APELAÇÃO, por força da norma do art. 1.012, caput, CPC/2015; os demais recurso somente teriam efeito suspensivo por decisão judicial, desde que preenchidos os pressupostos legais do parágrafo único do art. 995, CPC/2015, que são: a) o risco de, cumprida imediatamente a decisão, o recorrente sofrer um dano grave, de difícil ou impossível reparação; e b) o recorrente demonstrar a probabilidade do seu recurso ser provido. OBS: não é absoluta a regra do efeito suspensivo ao recurso de apelação, o próprio art. 1.012, CPC/2015, em seu §1o, traz, de forma exemplificativa, algumas situações em que, publicada a sentença, poderá ser imediatamente executada; ou seja, situações em que a apelação não terá efeito suspensivo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 128 24.5 JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE Para que o mérito recursal possa ser enfrentado pelo órgão jurisdicional competente, primeiro devem ser verificados se os pressupostos processuais estão preenchidos. Ou seja, somente se ultrapassados os elementos formais inerentes ao ato recursal, com a verificação do preenchimento deles, é que o mérito do recurso poderá ser enfrentado. a) Efeito da Decisão de Inadmissibilidade Questão altamente relevante é o efeito da decisão que inadmite o recurso por ausência de um dos seus pressupostos, se “ex tunc” ou “ex nunc”. No primeiro caso, admitindo- se que o efeito seria “ex tunc”, a preclusão ou o trânsito em julgado ocorreria a partir do momento em que o vício formal passou a existir no processo: ‘Se houver deserção da apelação, o trânsito em julgado ocorrerá na interposição do recurso deserto; se o recurso de agravo é intempestivo, a preclusão ocorrerá no vencimento do prazo recursal’ ; se “ex nunc” a preclusão ou o trânsito em julgado somente ocorreria somente a partir da decisão da inadmissibilidade recursal. O Superior Tribunal de Justiça vem entendendo que, apensar da natureza declaratória, o juízo de admissibilidade tem eficácia ‘ex nunc’, de forma que a preclusão ou a coisa julgada decorrente da decisão impugnada só seja computada a partir da não admissão do recurso b) Pressupostos Intrínsecos de Admissibilidade (i) cabimento Para que determinado recurso possa ser manejado, é necessário que: 1) A DECISÃO SEJA RECORRÍVEL (nos observamos, em aula anterior, decisões que, pela lei, são irrecorríveis); e 2) que SEJA INTERPOSTO O RECURSO ADEQUADO (analisamos, também em aula anterior, o princípio da taxatividade e a hipótese de incidência recursal). Assim, verificado, no caso concreto, que não há na lei uma vedação da decisão ser recorrível, deverá ser analisada a hipótese de incidência recursal. Abaixo uma pequena tabela em que apresentamos, de um lado, o recurso criado pela lei federal (princípio da taxatividade) e, do outro, a hipótese legal de interposição recursal. RECURSO HIPÓTESE LEGAL DE CABIMENTO APELAÇÃO CPC: Art. 1.009. Da sentença cabe apelação. AGRAVO DE INSTRUMENTO CPC: Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre: (...) AGRAVO INTERNO CPC: Art. 1.021. Contra decisão proferida pelo relator caberá agravo interno para o respectivo órgão colegiado, observadas, quanto ao processamento, as regras do regimento interno do tribunal. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CPC: Art. 1.022. Cabem embargos de declaração contra qualquer decisão judicial para: (...) 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 129 RECURSO ORDINÁRIO CPC: Art. 1.027. Serão julgados em recurso ordinário: (...) RECURSO ESPECIAL CF: Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: (...)III - julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida: (...) RECURSO EXTRAORDINÁRIO CF: Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal (...): (...) III - julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida: (...) AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL E EXTRAORDINÁRIO CPC: Art. 1.042. Cabe agravo contra decisão do presidente ou do vice-presidente do tribunal recorrido que inadmitir recurso extraordinário ou recurso especial, salvo quando fundada na aplicação de entendimento firmado em regime de repercussão geral ou em julgamento de recursos repetitivos. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA CPC: Art. 1.043. É embargável o acórdão de órgão fracionário que: (...) (ii) Legitimidade Recursal Demonstrado o cabimento, deve ser analisado se o recorrente é legítimo para recorrer e, segundo a lei, podem recorrer quem é PARTE no processo, o MINISTÉRIO PÚBLICO, quando intervém como fiscal da ordem jurídica, bem como TERCEIRO que eventualmente seja atingido pelo ato decisório; tudo conforme art. 996 CPC (iii) Interesse recursal Uma coisa é a legitimidade para recorrer, questão enfrentada no item acima, outra coisa é a parte demonstrar seu interesse em recorrer, o interesse recursal. O interesse recursal está intimamente ligado ao PRINCÍPIO DA SUCUMBÊNCIA, somente aquela parte sucumbente, ou que tem seus interesses atingidos, é que terá interesse em apresentar, contra a decisão, o ato recursal. (iii) Inexistência de Ato Impeditivo ou Extintivo do Direito de Recorrer Sendo o recurso um ato voluntário e disponível pode aquele que tem legitimidade e interesse, por ato de vontade, exercer o direito de desistir do recurso interposto (art. 998 CPC); tal ato de vontade impede, portanto, que o recurso seja julgado pelo órgão jurisdicional competente. Possível também que o legitimado a praticar o ato de vontade renuncie a tal direito, sendo esse ato um ato extintivo do direito de recorrer (art. 999 CPC). Também é extintiva a aceitação expressa ou tácita da decisão (art. 1.000 CPC). Desta forma, esses atos disponíveis geram: - desistência: ato impeditivo - renúncia: ato extintivo - aceitação: ato extintivo 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 130 Lado outro, pode o direito de recorrer depender do pagamento ou depósito de multas, como ocorre em hipóteses derivadas do julgamento dos embargos de declaração (art. 1.026, §§2º e 3º CPC), bem como de agravo interno (art. 1.021, §§4º e 5º CPC), assim, podemos afirmar que o não pagamento/depósito dessas multas constitui outro fato impeditivo ou julgamento do recurso. - não pagamento de multas: ato impeditivo c) Pressupostos Extrínsecos de Admissibilidade Recursal (i) Tempestividade Como ato processual voluntário das partes e dos demais legitimados, os recursos sujeitam-se a preclusão temporal, devendo ser interpostos dentro do prazo prescrito em lei. O CPC/2015 buscou unificar o prazo para a interposição de recursos, ditando ser o prazo para recorrer e para responder ao recurso de até 15 (quinze) dias. No CPC/2015, o único recurso que possui prazo diferenciado são os embargos de declaração, que continuam a ser interpostos no prazo legal de até 05 (cinco) dias. Referida unificação pode ser verifica da redação do art. 1.003, §5o, CPC/2015: “Excetuados os embargos de declaração, o prazo para interpor os recursos e para responder-lhes é de 15 (quinze) dias.” O início da contagem do ato recursal será, tomando como norte a advocacia privada, em regra, a data que os advogados das partes (ou a sociedade de advogados) é intimadado ato decisório. Dessa intimação fluirá o prazo legal para apresentação do recurso de forma tempestiva. Falamos “em regra” pelo fato de existirem outros marcos iniciais para a contagem do prazo recursal, tudo pensando na advocacia privada. Exemplos: se o ato decisório foi proferido em audiência, tendo sido o advogado intimado para comparecimento, se ele não foi e na audiência foi proferida a decisão, da data da audiência fluirá o prazo recursal; ou, quanto a decisão é proferida contra a parte ainda não citada (como no caso de concessão de tutela antecipada, contra o réu, liminarmente), nesse caso o prazo fluirá a partir do ato citatório da parte. Tudo isso está esculpido no art. 1.003, caput e seus parágrafos. Devemos levar em consideração, que o prazo recursal, sendo prazo processual, é contado em dias úteis (CPC art. 219), aplicando a regra da contagem do prazo em dobro (CPC art. 229) e tendo a parte recorrente a obrigação de comprovar, no ato da interposição do recurso, para verificação da tempestividade, a ocorrência de feriado local (CPC art. 1.003, §6o). (ii) Preparo Quanto a parte autora faz o pagamento das custas iniciais, está efetuando o pagamento dos atos processuais que serão praticados no processo que se inicia, desde seu registro e distribuição até a prolação da sentença, levando em consideração o tipo de procedimento e os atos citatórios e intimatórios requeridos na petição inicial. Desta forma, sendo o recurso ato voluntário, não consta das custas iniciais a possível despesa que os Tribunais têm com o processamento do recurso. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 131 Portanto, em regra, os recursos carregam, para o recorrente, um ônus financeiro, devendo ser efetuado o pagamento das custas recursais, tal como previsto na tabela de custas de cada tribunal, bem como comprovado o respectivo pagamento no ato da interposição do recurso. É dado o nome de PREPARO ao recolhimento das custas recursais. O CPC/2015, no art. 1.007, regula o preparo, ditando não apenas que ele deve ser comprovado, como afirmado acima, no ato de interposição do recurso, mas que alguns entes processuais estão isentos do recolhimento dos valores do preparo, notadamente os recursos interpostos “pelo Ministério Público, pela União, pelo Distrito Federal, pelos Estados, pelos Municípios, e respectivas autarquias, e pelos que gozam de isenção legal” (CPC art. 1.007 caput e §1o). A lei processual faz referência, também, a outro possível ônus financeiro do processo, os chamados portes de remessa e de retorno dos autos. Alguns recursos são apresentados perante um juízo originário, para serem encaminhados, após alguns trâmites processuais, para outro juízo, aquele encarregado do efetivo julgamento do recurso. Como exemplo podemos citar o recurso de apelação. A apelação é interposta, por petição, perante o juízo de primeiro grau prolator da sentença, para, posteriormente, ser encaminhado ao Tribunal competente para julgamento (CPC art. 1.010). O Tribunal, nesse caso, terá um gasto financeiro com a remessa dos autos do juízo originário para o juízo julgador do recurso, esse gasto é reembolsado pelo recorrente quanto ele faz o pagamento do chamado porte de remessa, e como os autos deverão, após o julgamento, retornar ao juízo de origem, temos o chamado porte de retorno. Assim, no ato de interposição do recurso, deve o recorrente comprovar, quando assim exigido por lei, não apenas o preparo, mas, também, o recolhimento dos valores correspondentes ao porte de remessa e de retorno dos autos. OBS 1: alguns recursos somente terão, além do preparo, o chamado porte de retorno, como no caso do agravo de instrumento, já que ele é interposto não no juízo originário prolator da decisão recorrida, mas, sim, diretamente perante o Tribunal. Assim, não há no agravo de instrumento o porte de remessa, somente sendo necessário que o recorrente comprove o preparo e o porte de retorno (CPC art. 1.017, §1o). OBS 2: é dispensado o comprovante do porte de remessa e de retorno se o processamento do recurso se der em autos eletrônicos (CPC art. 1.007, §3o) Sendo ato da parte, o preparo (aqui incluindo o porte de remessa e retorno, quando exigidos) está sujeito a, eventualmente: 1 - não ser comprovado seu recolhimento no ato da interposição; 2 - ter a parte recorrente efetuado o pagamento dos valores a menor; e 3 - a guia estar preenchida incorretamente. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 132 Referidas situações podem conduzir a deserção do recurso, ocasionando a sua não admissibilidade. Entretanto, diante do princípio da primazia do mérito recursal, sendo sanáveis todas as hipóteses de deficiência no tocante ao preparo acima apresentadas, podemos afirmar que não existe deserção imediata no direito processual civil atual. Diante de qualquer dessas deficiência deverá o juiz: 1 - no caso de não comprovação do preparo no ato de interposição do recurso, intimar a parte recorrente para sanar esse vício, no prazo de 05 dias, efetuando, entretanto, o recolhimento dos valores em dobro (CPC art. 1.007, §4o) 2 - no caso de recolhimento a menor, intimar a parte para complementar o pagamento inicial, também no prazo de 5 dias (CPC art. 1.007, §2o); e 3 - caso a guia apresentada esteja preenchida erroneamente, intimar o recorrente, no mesmo prazo, para sanar o vício (CPC art. 1.007, §7o). Somente no caso do recorrente não regularizar a deficiência do preparo é que poderá o recurso ser inadmitido (vide, também, CPC art. 932, parágrafo único). (iii) Regularidade Formal A apresentação do recurso submetesse a regrar previstas na lei, que regulam a forma de interposição; assim, para que o recurso seja admitido, deve a parte pautar a interposição do recurso pelas regras estabelecidas em lei. Por exemplo, salvo nos juizados especiais, os recursos devem ser interpostos de forma escrita, não sendo admitida a oralidade nos recursos; alguns recursos exigem a apresentação de alguns documentos para a sua admissibilidade, como ocorre no recurso de agravo de instrumento. 24.6 JUÍZO DE MÉRITO A primeira coisa que devemos discutir é o conceito de Mérito Recursal. Podemos afirmar que o mérito recursal é a pretensão veiculada no recurso, seja de reforma, invalidação, integração ou esclarecimento da decisão recorrida, não se confundindo com o mérito da demanda propriamente dita. Assim, quando da interposição do recurso, deve a parte demonstrar o equívoco da decisão, buscando sua reforma ou anulação, demonstrando ter ocorrido um erro no procedimento (erro formal) ou um erro de julgamento (equívoco do magistrado prolator da decisão no tocante à aplicação da lei ao caso concreto). a) Causa de Pedir: error in procedente e error in judicando Devemos, portanto, ao recorrer, demonstrar qual é a nossa causa de pedir: se estamos alegando um erro de procedimento, e portanto buscando a invalidação da decisão, ou se estamos discutindo um erro no julgamento, buscando, assim, a reforma da decisão hostilizada. Muitas vezes, na prática, ocorre uma certa confusão, solicitando o operador do direito muitas vezes a “cassação” ou “nulidade” da decisão, quando o correto seria solicitar a 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 133 “reforma” do ato decisório. Se estamos alegando erro no procedimento, o correto é a invalidação da decisão, se estamos alegando um erro de julgamento, o pedido deve ser de reforma da decisão. b) Pedido De acordo com a causa de pedir (erro no procedimento ou erro no julgamento) devemos fazer o respectivo pedido, como acima demonstramos. Se o fundamento do recurso é a existência de um error in procedendo o pedido será de anulação. Caso o fundamento do recurso seja error in judicando o pedido é de reforma da decisão, ou seja, a substituição da decisão recorrida pela decisão do recurso, como já analisado. 24.7 DO RECURSO ADESIVO Diante da sucumbência recíproca, poderá cada parte, de forma independente, interpor o seurespectivo recurso contra a parte da decisão que lhe é desfavorável. Exemplo: o autor pede a condenação do réu ao pagamento da quantia de R$10.000,00 (dez mil reais), por seu turno o réu, ao apresentar contestação, impugna o pedido afirmando não ter a obrigação de pagar, que não deve absolutamente nada ao autor; a sentença, julga parcialmente procedente o pedido condenando o réu ao pagamento da quantia de R$7.000,00 (sete mil reais). Estamos diante de caso de sucumbência recíproca, já que o réu foi condenado, mas o autor não ganhou tudo aquilo que pediu. Nesse caso poderão, autor e réu, recorrer da decisão, cada um apresentando seu recurso de apelação, no prazo comum de até 15 (quinze) dias. Permite, entretanto, a lei processual, que tendo apenas uma das partes sucumbentes apresentado o recurso, possa a outra, que não recorreu diretamente, apresentar seu recurso de forma adesiva, no prazo que ela, parte, teria para apresentar sua resposta ao recurso. Partindo do exemplo acima, imaginemos que apenas o autor tenha recorrida da decisão, solicitando, através do recurso próprio a reforma da decisão para majorar a condenação do réu; intimado para apresentar suas contrarrazões, poderá o réu, além de responder ao recurso, apresentar em outra peça processual, também, seu recurso de apelação, solicitando a reforma da decisão para minorar ou excluir totalmente sua condenação. Essa técnica processual, do recurso adesivo, está previsto no art. 997 do CPC/2015, e tem como pressupostos: - ser possível apenas nos recursos de apelação, recurso especial ou recurso extraordinário; - deve ser interposto, por petição nos autos, no mesmo prazo que dispõe para responder o recurso intentado pela parte contrária; - tem que preencher todos os pressupostos do recurso (tempestividade, preparo…); e 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 134 - está subordinado ao recurso principal, não sendo conhecido o recurso adesivo se o principal for inadmitido ou se a outra parte desistir do recurso anteriormente intentado. 24.8 DO RECURSO COMO ATO VOLUNTÁRIO E DISPONÍVEL Conforme declinamos no conceito, para que o ato processual de impugnação seja visto como recurso, é essencial o pressuposto da voluntariedade. É por esse e outros motivos que o instituto da remessa necessária, sendo ato praticado de ofício pelo juiz, não pode ser considerado recurso. Além de ser ato voluntário o recurso é ato disponível e sujeito a preclusão lógica. Como ato voluntário, a parte sucumbente (ou qualquer outro legitimado) interpõe o recurso se tiver vontade, exercendo o direito de recorrer a tempo e modo. Como ato disponível, é permitido à parte sucumbente renunciar ao direito de recorrer, bem como, já tendo intentado o recurso, dele desistir a qualquer momento, desde que antes do seu julgamento, sem necessitar da anuência da parte contrário ou de eventual litisconsorte. Esses permissivos, da renúncia e da desistência como atos unilaterais de vontade, estão previstos nos artigos 998 e 999 do CPC/2015. No tocante a alegada preclusão lógica (CPC art. 1.000), se a parte sucumbente aceitar de forma expressa, ou mesmo tácita, o ato decisório, perde o direito de recorrer. A aceitação expressa da decisão consiste em qualquer manifestação processual de concordância com a decisão. Por seu turno a aceitação tácita, como previsto no parágrafo único do art. 1.000 CPC/2015, é “a prática, sem nenhuma reserva, de ato incompatível com a vontade de recorrer”. Exemplo de preclusão lógica partindo de uma aceitação tácita: o réu e condenado, por sentença, a pagar ao autor determinada quantia, sem nenhuma reserva, no prazo do recurso, comparece em juízo fazendo o pagamento da quantia; estamos assim diante de um ato incompatível com a vontade de recorrer. Ora, se o recurso é ato de impugnação, de não concordância com a decisão, quando o autor cumpre o preceito condenatório, sem nenhuma ressalva, temos verdadeira aceitação da condenação, perdendo, portanto, o direito de recorrer. 24.9 APELAÇÃO a) Hipótese de incidência (i) recurso contra a sentença Todo recurso possui aquilo que chamamos de “Hipótese de Incidência”. Primeiro a lei federal cria o recurso (princípio da taxatividade, representado no CPC no art. 994), depois, ela lei federal, dita em que hipótese processual o recurso será interposto; ou seja, a lei normatiza, primeiro, qual é o ato decisório que será objeto do recurso, e, depois, qual será o recurso cabível. No tocante a apelação, referida regra está estampada no CPC art. 1.009, caput: “Da sentença cabe apelação”. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 135 (ii) recurso contra decisões interlocutórias não preclusas Notório que o CPC buscou limitar a utilização do recurso de agravo de instrumento e que, apesar do STJ ter mitigado a taxatividade do art. 1.015 CPC, muitas decisões interlocutórias continuam não sendo atingidas imediatamente pelo recurso próprio. Técnica própria de procedimentos ou situações que respeitam o princípio da IRRECORRIBILIDADE EM SEPARADO DAS INTERLOCUTÓRIAS, as decisões interlocutórias que não podem ser objeto de recurso imediato não tendem a preclusão, podendo ser impugnadas no recurso contra a sentença (razões ou contrarrazões). Assim, quando das razões recursais, pode o recorrente, antes de discutir o eventual equívoco da sentença, impugnar decisão interlocutória proferida contrária aos seus interesses no curso do processo. Deve o recorrente, além de apresentar os motivos pelos quais a decisão interlocutória recorrida deve ser reformada, requerer corretamente os efeitos da reforma da decisão. b) a apelação como um recurso de fundamentação livre O recurso de apelação é um recurso de AMPLA FUNDAMENTAÇÃO. A formação objetiva de todo processo pressupõe a apresentação de - fatos - fundamentos - e pedidos Notadamente, quando pensamos em atos decisórios, eles analisam, notadamente a sentença, os fatos e fundamentos apresentados pelas partes, bem como todos os pedidos existentes no processo. Através do recurso de apelação pode a parte recorrente “atacar” a decisão de forma livre (não restrita), apresentando todos os argumentos de fatos e de direito possíveis. Assim, quando se fala que um recurso possui fundamentação livre, podemos afirmar que a lei deixa a parte livre para, em seu recurso, deduzir qualquer tipo de alteração em relação à decisão, sem que isto tenha influência na admissibilidade dele, podendo discutir todos os fatos e fundamentos. Já os recursos de fundamentação vinculada, estão nos casos em que a lei, ao estabelecer as hipóteses de cabimento do recurso, limita sua fundamentação, ou seja, o tipo de alteração que se pode fazer à decisão através do recurso. Tais fundamentações são encontradas na lei, em enumeração taxativa, os tipos de vícios que podem ser apontados na decisão recorrida. Um exemplo, para fazer o contraponto necessário, de recurso de fundamentação restrita ou vinculada é o recurso extraordinário; somente é possível, nesse recurso, discutir questões que estejam cujo prequestionamento seja evidente e que atinjam a constituição federal, sendo vedado discutir, em sede desse recurso, questões fáticas. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 136 Concluindo, no recurso de apelação poderá a parte recorrente buscar a modificação ou anulação da decisão recorrida, apresentando todos os argumentos de fatos e de direito que disponha. c) forma de propositura O recurso de apelação, por força da lei, não é apresentado ao juízo que julgará o recurso. Segundo a lei processual (de forma histórica), o recurso de apelação é apresentado ou juízo prolator da decisão, para que ele encaminhe o recurso, após o processamento inicial, para o tribunal que julgará a causa. Portanto, o procedimento do recurso de apelação pressupõe a atuação de dois juízos: (a) o juízo de primeiro grau, prolator da sentença, que é o competente para receber o recurso; e (b) o juízo de segundo grau, o tribunala lide por técnicas autocompositivas, com a ajuda de agentes do próprio Estado; não sendo resolvida a lide pela autocomposição, ou não sendo ela possível, o Estado, secundariamente, resolverá a lide de forma impositiva, afirmando, por decisão, a existência ou não do direito. Acrescente-se a existência, dentro da linha da autocomposição como meio primário para a solução dos litígios, a existência da Lei de Mediação Extrajudicial, lei 13.140/2015, que dispõe sobre a mediação entre particulares como meio de solução de controvérsias e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública. Tal lei, dentro da temática aqui abordada, apesar de ser uma mediação extrajudicial, é necessária para entender como o princípio da autocomposição afeta de forma primária a resolução dos conflitos. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 9 d) A decisão interlocutória como título executivo judicial e sua execução definitiva Historicamente a figura do título executivo judicial, por excelência, sempre foi a sentença de mérito, onde o juiz afirmava a existência de um direito de uma das partes do processo. Decisões interlocutórias não “carregariam” decisões meritórias, sendo una a decisão sempre de caráter precário não tendente a definitividade. Rompendo com esse antigo paradigma, o CPC atual tem como título executivo extrajudicial, por excelência, a “decisão” que reconheça, de uma das partes, um direito; isso em razão da técnica do julgamento antecipado parcial do mérito, do pedido, onde é possível que por decisão interlocutória seja parcialmente julgado meritoriamente um ou um dos pedidos cumulados, nas hipóteses previstas em lei. Portanto, não é tão somente em uma sentença que há o reconhecimento de eventual direito, sendo possível que uma decisão interlocutória gere coisa julgada material. [vide arts. 356 e 515, I, CPC] e) A primazia do mérito Muitos consideram, equivocadamente, o direito processual como um direito formal, onde o formalismo procedimental se sobrepõe ao próprio direito material buscado no processo. Podemos afirmar que essa é uma visão completamente equivocada. Só para criar situações afirmativas que demonstrem o equívoco da visão acima apresentada, é correto afirmar, por exemplo, que os atos processuais são, em regra, não solenes e mesmo que sejam excepcionalmente solenes, se realizados fora da forma definida em lei, atinjam o objetivo sem causar nenhum prejuízo, serão considerados válidos. Outro grande exemplo, que parametriza a visão da teoria das invalidades: não há nulidade de nenhum ato processual, ou mesmo do processo, sem que tenha ocorrido prejuízo para uma das partes do processo. Essa já era uma evolução legal, doutrinária e jurisprudencial, no vigor da codificação anterior. Com o atual CPC a questão da prioridade da manifestação do mérito em detrimento da forma ganha foro de princípio, de norma fundamental. O princípio da primazia do mérito impacta de forma considerável o atual ordenamento processual, ao ponto de afirmarmos que: (a) se é possível eventual extinção do processo, sem resolução do mérito, sendo entretanto possível o julgamento do mérito em favor de qual aproveitaria a decisão sem mérito, que o magistrado julgue substancialmente a causa; (b) eventuais deficiências formais não podem impactar negativamente o processo de forma direta, em outras palavras, deve ser dada oportunidade para que parte regularize o processo, para que seja possível a análise e julgamento da pretensão material; (c) deficiências formais na apresentação dos recursos não podem gerar imediata inadmissibilidade, devendo ser dado ao recorrente oportunidade de regularização; entre outras situações. f) Do salto qualitativo quanto ao contratualismo processual Para falar sobre contratualismo processual, ou negócio jurídico processual, é necessária uma breve visão conceitual: O negócio jurídico processual é a oportunidade que se dá às partes plenamente capazes de, por ato de vontade, modificarem o procedimento, adaptando à realidade do direito material debatido e aos seus interesses, firmando 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 10 acordo sobre a forma da prática dos atos processuais e convencionando sobre outras situações procedimentais nos limites impostos pela lei. Acho um equívoco falar que o contratualismo processual veio ao direito agora com o advento do CPC/2015. Antes do vigor do novo CPC, portanto sob a égide do CPC/73, já encontrávamos situações normativas que permitiam às partes fazer ajustes no procedimento. Alguns exemplos no CPC/73 de contratualismo processual: (a) possibilidade das partes, mesmo existindo normas legais determinadoras de competência territorial, elegerem foro em contrato para a propositura de possível demanda; (b) inversão de ônus de prova por disposição e vontade das partes; (c) deliberarem as partes sobre a suspensão do processo. Todas as situações acima exemplificadas estão presentes no CPC/2015, só que ele foi além, criando uma norma genérica permissiva para que as partes, plenamente capazes, insisto, possam modificar vários outros aspectos do procedimento. Estamos falando do art. 190, CPC, que permite, dentro dos limites ali presentes, a devida equação do contratualismo processual, antes ou durante o processo judicial. Mas não apenas ele, temos que destacar, também, a calendarização processual, prevista no art. 191, CPC. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 11 2 JURISDIÇÃO E NORMAS FUNDAMENTAIS 2.1 CONCEITO Muitos doutrinadores apresentam uma tentativa conceitual da atividade jurisdicional do Estado. Para o presente trabalho acho importante a visão conceitual do Prof. Fredie Didier, que assim a apresenta didaticamente A jurisdição é a função atribuída a terceiro imparcial (a) de realizar o Direito de modo imperativo (b) e criativo (reconstrutivo) (c), reconhecendo/efetivando/protegendo situações jurídicas (d) concretamente deduzidas (e), em decisão insustentável de controle externo (f) e com aptidão para tornar-se indiscutível (g). [DIDIER, Fredie. Curso de Direito Processual Civil, Vol. 1. 20a ed. Salvador: ed. Jus Podium, 2018, pág. 187] O CPC/2015, prima, em sua primeira parte, de forma bem diversa do antigo código, por apresentar princípios do processo e da atividade jurisdicional. A seguir daremos ênfase a alguns desses princípios, notadamente daqueles relacionados a atividade jurisdicional do Estado. Referidos princípios são tratados no CPC/2015 como NORMAS FUNDAMENTAIS, cuja regulação é encontrada nos arts. 1º a 12 da lei processual. Necessário observar tais dispositivos legais (1º) à luz da constituição e, (2º) notar que tais normas fundamentais não são de aplicação somente no procedimento cognitivo, mas, também, aos procedimentos executivos, dando amparo, a uma visão constitucional e democrática do processo. 2.2 PRINCÍPIO DA INÉRCIA DA JURISDIÇÃO a) Regra Normativa e Algumas Exceções no CPC Referido princípio, estampado na primeira parte do art. 2º, CPC, também conhecido como princípio da demanda, cria a inviabilidade, em regra, da instauração de procedimentos judiciais de ofício pelo magistrado. Segundo dita regra principiológica o processo civil começará por iniciativa da parte, não sendo lícito, em regra, que o procedimento tenha início por ato do juiz. Percebam, entretanto, que a própria lei processual civil dita a possibilidade de exceções, ou seja, situações em que é lícito ao juiz dar início a procedimentos de ofício; vamos a alguns exemplos: - Restauração de autos (CPC Art. 712) 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 12 - Herança Jacente (CPC Art. 738) - Arrecadação de Bens de Ausente (CPC Art. 744) - Conflito de competência (CPC Art. 951) Referida regra não é própria da jurisdição contenciosa, aplicando-se, também, aos procedimentos de jurisdição voluntária, conforme se observa da norma prevista no art. 720, CPC. b) Justificativa Principiológica Podemos trazer três vertentesque, recebendo o recurso do juízo primário, julgará o recurso. d) juízo de admissibilidade Historicamente o recurso de apelação estava sujeito a um duplo grau de admissibilidade, um realizado pelo juízo originário, o juízo prolator da decisão e outro pelo tribunal competente para julgar o recurso. Se o juiz de primeiro grau ADMITISSE o recurso, encaminhando ao tribunal, ele (tribunal) faria um segundo exame de admissibilidade, verificando novamente todos os pressupostos, não estando vinculado à decisão primeira, do juízo de origem, que admitiu a apelação. Se o juiz de primeiro grau INADMITISSE o recurso, era cabível recurso de agravo de instrumento contra essa decisão, chamando, por esse recurso, o tribunal a reanalise dos pressupostos de admissibilidade. O CPC/2015 rompeu com essa forma de análise do juízo de admissibilidade, sendo agora realizado uma única vez, diretamente no tribunal, não tendo mais o juiz de primeiro grau competência para admitir ou inadmitir recurso de apelação. e) distribuição ao relator e sua atuação Uma vez encaminhado ao tribunal, deve o recurso de apelação ser distribuído a um relator. Nos Tribunais pátrios, os órgãos jurisdicionais são compostos por mais de um julgador, mais de um desembargador ou ministro, pelo que os recursos, assim, em regra, são apreciados de forma colegiada, cuja expressão típica é o acórdão (art. 163 do CPC/73 — art. 204 do CPC/15). Por tal princípio, até mesmo para uma melhor análise da decisão recorrida e na busca de uma decisão mais justa, os recursos devem ser julgados por mais de um desembargador ou ministro. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 137 Pois bem, historicamente, ao longo das reformas introduzidas no CPC/73, a tendência passou a ser o incremento dos poderes do relator, para além da gestão do processo, acentuando-se os julgamentos monocráticos nos Tribunais; aos poucos a lei veio impondo ao relator resolver sozinho o recurso, não apenas no aspecto formal (inadmissibilidade), mas também no seu aspecto substancial (provimento ou improvimento do recurso, análise de mérito). Seria correto afirmar que a lei veio, aos poucos QUEBRANDO O PRINCÍPIO DO COLEGIADO, ampliando os poderes do relator ou ponto de termos decisões meritórias que devem ser proferidas unicamente por ele magistrado relator de forma monocrática. Em razão do que acima se apresentou, podemos afirmar que a lei processual atual AUMENTOU OS PODERES DO RELATOR, notadamente em razão do disposto no art. 932, CPC/2015. f) do efeito suspensivo (i) do efeito suspensivo como exceção processual Antes de mais nada devemos demonstrar que o CPC/2015 rompeu um antigo paradigma: dos recursos, em regra, serem dotados de efeito suspensivo. O velho CPC/73 partia da premissa que os recursos teriam efeito suspensivo, salvo quando a lei, expressamente, afirmasse o contrário. Por seu turno, o CPC atual parte de uma premissa contrária, que os recursos, em regra, não são dotados de efeito suspensivo, salvo quando a lei, ou decisão judicial, conceder ao recurso efeito suspensivo; para tanto devem ler o art. 995 CPC. (ii) efeito suspensivo e recurso de apelação O recurso de apelação é aquele que, em regra, por força da lei, é dotado de efeito suspensivo, como se infere do art. 1.012, caput, CPC: “A apelação terá efeito suspensivo.” Entretanto existem situações que o recurso de apelação não é dotado de efeito suspensivo, permitindo, após a publicação da sentença, a execução provisória da decisão, notadamente as hipóteses previstas no art. 1.012, §1º, CPC. A partir do momento em que o recurso de apelação não é dotado, por força da lei, de efeito suspensivo, pode o recorrer, logo após a interposição do recurso, solicitar diretamente ao tribunal da concessão do efeito suspensivo, não sendo esse ato de competência do juízo de primeiro grau. Para a concessão do efeito suspensivo, ao recurso de apelação, além de ser o requerimento endereçado ao juízo competente, devem ser preenchidos os requisitos do §4o, do artigo legal acima citado. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 138 24.10 AGRAVO DE INSTRUMENTO a) sobre o princípio da vedação de um recurso em separado contra decisões interlocutórias Um dos princípios recursais, que possui parâmetro no direito processual brasileiro mas que sempre foi, historicamente, inobservado no direito processual civil é o que vedaria a interposição de recurso próprio e separado das decisões interlocutórias. Segundo tal princípio, as decisões interlocutórias seriam, em tese, irrecorríveis de forma direta, só podendo ser objeto de impugnação específica quando do recurso interposto contra a sentença. Apesar do CPC não seguir a risca esse princípio, isso de forma histórica, alguns outros ordenamentos do direito processual civil brasileiro seguem a figura principiológica aqui discutida. Destacamos, por exemplo, a CLT em seu art. 893, §1º, que dita que “os incidentes do processo são resolvidos pelo próprio Juízo ou Tribunal, admitindo-se a apreciação do merecimento das decisões interlocutórias somente em recursos da decisão definitiva.” No direito processual civil também encontramos, historicamente, mas de forma bem mais recente, a aplicação desse princípio nos juizados especiais cíveis, já que segundo a lei 9099/95 somente caberá recurso contra a sentença, sendo as decisões interlocutórias recorríveis, também, nesse momento (art. 41, Lei 9099/95). O ideário, portanto, seria o ataque às decisões interlocutórias somente quando da interposição do recurso contra a sentença, o que, em tese, tornaria o processo mais célere. Como afirmamos acima, o CPC, nunca seguiu esse princípio, sendo apenas, no campo do direito processual civil codificado, um ideário perseguido. Com o advento do CPC/2015 foi dado mais um passo na busca de aproximação da lei processual civil básica com o princípio, passando a lei (assim foi a ideia originária) a exigir que a interposição do recurso de agravo de instrumento guardasse possibilidade decorrente de expressa previsão legal; ou seja, somente diante de disposição legal prevendo a utilização do recurso é que ele seria possível de ser interposto (taxatividade das hipóteses de incidência do recurso de agravo de instrumento). E as decisões interlocutórias que não estejam previstas na lei processual como hipótese de incidência do recurso de agravo de instrumento? - O legislador optou, nesse caso, em extinguir a figura do agravo retido, declarar que as decisões interlocutórias não impugnáveis por agravo de instrumento não estariam sujeitas a preclusão, para que possam, caso o sucumbente queira, serem impugnadas em preliminar do recurso de apelação (razões ou contrarrazões). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 139 b) hipóteses de incidência Recurso próprio contra decisões interlocutórias proferidas pelos juízes em primeiro grau de jurisdição. Ocorre que, em razão da discussão do princípio acima, o legislador optou por restringir as hipóteses de utilização (ou de incidência) do recurso de apelação, lançando no art, 1.015 um rol de decisões interlocutórias aptas a serem desafiadas pelo recurso de agravo de instrumento. Entretanto, além das situações elencadas na lei, permite a tese julgado pelo STJ em repetitivo (TESE DA TAXATIVIDADE MITIGADA) que o recurso de agravo de instrumento seja interposto contra outras decisões interlocutórias, notadamente no caso de urgência. Para que o recurso seja admitido sob a tese da taxatividade mitigada deverá o recorrente/agravante demonstrar: - não estar a decisão recorrida prevista em dispositivo legal como decisão atacável por recurso de agravo de instrumento; - ser situação de urgência, ou seja: que será inútil esperar a possível interposição do recurso de apelação para a discussão da decisão em questão - o devido enquadramento, portanto, na tese dos julgados repetitivos do STJ Atenção: a situações procedimentais que devem permitir,independente do conteúdo da decisão interlocutória, a interposição do recurso de agravo de instrumento. Assim, por força do parágrafo único do art. 1.015, CPC, toda decisão proferida no (a) processo de execução, (b) no cumprimento de sentença, (c) no procedimento de liquidação de sentença, bem como (d) no processo de inventário, são desafiadas por recurso de agravo de instrumento. O STJ, inicialmente, passou a defender que, mesmo nesses casos, seria necessária demonstração da urgência, sendo que tal entendimento já foi superado, entendendo hoje o tribunal mencionado que deve ser respeitada a legalidade e a interpretação literal do parágrafo único do art. 1.015, CPC. c) questões procedimentais O agravo de instrumento é interposto diretamente no tribunal competente para julgamento (CPC art. 1.016), devendo ser instruído com as peças processuais obrigatórias ditadas pela lei (CPC art. 1.017), salvo nos casos de autos eletrônicos, quando é dispensada a apresentação de peças dos autos originários para a formação do recurso. Deve ser destacado que a nova lei procedimental, seguindo o princípio da primazia do mérito recursal, não mais considera motivo de inadmissibilidade imediata do recurso a 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 140 não apresentação, quando da interposição do agravo de instrumento, a ausência de peças obrigatórias. Segundo o Art. 1.017, §3o, c/c Art. 932, parágrafo único, todos do CPC, caso o agravo de instrumento não esteja devidamente instruído com as peças obrigatórias, deverá o relator, antes de inadmitir o recurso, intimar o recorrente para apresentá-las no prazo de 05 (cinco) dias, não sanado esse vício, aí sim, poderá licitamente ser inadmitido o agravo de instrumento. Outra questão que merece destaque é a informação que deve ser levada ao juízo de primeiro grau, prolator da decisão interlocutória recorrida, da interposição do recurso de agravo de instrumento. Segundo o art. 1.018 do CPC, quando forem autos não eletrônicos, a parte recorrente tem a obrigação de informar ao juízo de primeiro grau, no prazo preclusivo de 3 (três) dias, a interposição do agravo de instrumento, apresentando cópia do recurso e a relação das peças que formaram o recurso. Caso o recorrente não cumpra o determinado, dentro do prazo legal, desde que a parte recorrida alegue essa matéria, comprovando o não cumprimento do disposto no artigo em comento, o tribunal deverá inadmitir o recurso. Entretanto, quando forem autos eletrônicos, a lei apenas faculta ao recorrente a prática do ato processual aqui discutido. 24.11 AGRAVO INTERNO Contra as decisões monocráticas proferidas pelo relator, reserva a lei processual a interposição do recurso de agravo interno, tal como previsto no art. 1.021 do CPC. Referido recurso é endereçado ao próprio relator prolator da decisão monocrática recorrida, que deverá intimar a parte contrária para apresentar, querendo, resposta ao recurso. Após o prazo de contrarrazões, tenha ou não o recorrido apresentado a sua manifestação, poderá o relator exercer juízo de retratação, reformando sua decisão monocrática; entretanto, caso seja mantida a decisão pelo relator, o recurso será colocado para julgamento perante o órgão colegiado competente. Deve ser destacado que o legislador, objetivando restringir o uso abusivo desse recurso, determina que, quando o “agravo interno for declarado manifestamente inadmissível ou improcedente em votação unânime, o órgão colegiado, em decisão fundamentada, condenará o agravante a pagar ao agravado multa fixada entre um e cinco por cento do valor atualizado da causa.” (CPC, art. 1.021, §4o). Interessante notar, entretanto, que o STJ pacificou entendimento no sentido que a aplicação da multa não é automática, sendo necessário a verificação que o recurso de agravo interno foi interposto de forma abusiva ou com intuito protelatório: “A aplicação da multa prevista no art. 1.021, § 4º, do CPC/2015 não é automática, não se tratando de mera decorrência lógica do desprovimento do agravo interno em votação unânime. A condenação do agravante ao pagamento da aludida multa, a ser analisada em cada caso concreto, em decisão fundamentada, pressupõe que o agravo interno se mostre manifestamente inadmissível ou que sua improcedência seja de tal forma evidente que a simples interposição do recurso possa ser tida, de plano, como abusiva ou 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 141 protelatória” [AgInt no AREsp 1310962 / SP - Relator(a) Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE - TERCEIRA TURMA - DJe 06/12/2018]. 24.12 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO a) amplo cabimento dos embargos de declaração Inicialmente pontuamos ser possível a interposição de embargos de declaração para sanar deficiência formais de qualquer tipo de decisão, seja ela decisão interlocutória, sentença, acórdão ou mesmo decisões monocráticas proferidas porá desembargadores ou ministros. b) hipóteses de cabimento O art. 1.022, CPC, dispõe ser possível a interposição de embargos de declaração quando na decisão houver: OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO, OMISSÃO OU, sendo essa última uma nova hipótese, ERRO MATERIAL. Buscar o conceito de cada uma dessas deficiências formais é algo necessário, assim, apresento a conceituação de cada uma dessas situações da lavra do prof. Humberto Theodoro Júnior. HUMBERTO THEODORO JÚNIOR [“Curso de Direito Processual Civil”. Vol. III. 47ª Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, pags. 1061 a 1067]: [obscuridade] “A obscuridade caracteriza-se pela falta de clareza, pela confusão das ideias, pela dificuldade no entendimento de algo. Como registra Bondioli, para os fins dos embargos de declaração, ‘decisão obscura é aquela consubstanciada em texto de difícil compreensão e ininteligível na sua integralidade. É caracterizada, assim, pela impossibilidade de apreensão total de seu conteúdo, em razão de um defeito na fórmula empregada pelo juiz para a veiculação de seu raciocínio no deslinde das questões que lhe são submetidas. Não há obscuridade apenas quando o julgador, na decisão, utiliza má redação, segundo as regras gramaticais ou mediante emprego de palavras inadequadas para precisar o enunciado sentencial; ela está presente também quando, na composição do texto, se depara com uma conjuntura lógico-jurídica que evidencia ‘imperfeições na própria ideia que norteia o julgamento’.” [contradição] “A decisão judicial é um ato lógico, de maneira que entre as conclusões e suas premissas não pode haver contradição alguma. Os argumentos e os resultados do decisório devem ser harmônicos e congruentes. Se no decisório acham-se presentes ‘proposições entre si inconciliáveis’, impõe-se o recurso aos embargos de declaração. (...) Para Calamandrei a consequência da contradição, assim como da obscuridade, é a ineficácia do julgado e sua inaptidão para pacificar o litígio, em total prejuízo ao ‘acesso à ordem jurídica justa”. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 142 [omissão] “Configura-se a omissão quando o ato decisório deixa de apreciar matéria sobre o qual teria de manifestar-se. (...) No processo justo, instituído e garantido pelo Estado Democrático, o contraditório deve ser completo, desde o diálogo da propositura da demanda até a resposta jurisdicional. Como o acesso à justiça há de ser pleno (CF 5º, XXXV), pois não é dado ao litigante praticar a autotutela mediante suas próprias forças, nenhuma questão relevante para a justa composição do litígio pode deixar de ser apreciada e ponderada pelo juiz. A resposta do órgão judicial não é arbitrária, nem mesmo discricionária. Tem de ser ‘suficiente e adequada’ diante das pretensões contrapostas, devendo a motivação do decisório abarcar as questões de fato e de direito integrante do litígio. As garantias do processo e da tutela jurisdicional constituem direito fundamentais assegurados pela Constituição, com destaque ao dever de proferir decisões adequadamente fundamentadas, sobe pena de nulidade do julgamento (CF/1988,art. 93, IX).” [erro material]: “O Novo CPC acrescentou uma outra hipótese ao rol de cabimentos dos embargos, estabelecendo, expressamente, serem admissíveis para corrigir erro material, ou seja, aquele manifesto, visível, facilmente verificável (NCPC, art. 1.022, III). (...) A rigor, o erro material consiste na ‘dissonância flagrante entre a vontade do julgador e a sua exteriorização; num defeito mínimo de expressão, que não interfere no julgamento da causa e na ideia nele veiculada (por exemplo, 2 + 2 = 5). Ocorre essa modalidade de erro quando a declaração, de fato, não corresponde à vontade real do declarante. Assim, e ainda a rigor, não se enquadram nessa categoria a inobservância de regras processuais e erros de julgamento, vale dizer, o error in procedendo e o error in iudicando.” c) pressupostos Tempestividade: devem os embargos serem opostos no prazo de 05 (cinco) dias, sendo aplicada a regra da contagem de prazo em dobro. Como se infere a lei processual, de forma específica, dita ser possível a utilização do art. 229 CPC (CPC 1.023, caput e §1º) Ressalte-se que a questão do prazo em dobro atinge, pelos dispositivos próprios, também a advocacia pública, o ministério público e a defensoria pública. Preparo: por força da lei federal, referido recurso não está sujeito a preparo, nem mesmo quando dotado de efeito modificativo (CPC 1.023, caput) d) efeito modificativo Como acima mencionado, os embargos de declaração se prestam, primariamente ao esclarecimento, complemento ou correção formal da decisão. Portanto, eles não se prestam a invalidar uma decisão processualmente defeituosa nem a reformar uma decisão que contenha um erro de julgamento, não de forma primária. Entretanto ao suprir a omissão, eliminar a contradição, esclarecer a obscuridade ou corrigir o erro material, é possível que a decisão de resposta aos embargos altere até mesmo substancialmente o teor da decisão embargada. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 143 Por exemplo, o juiz havia julgado procedente o pedido condenatório ao pagamento de quantia. No entanto, omitiu-se de examinar a questão da prescrição da pretensão de cobrança – que foi objeto de alegação pela parte e deveria até ser conhecida de ofício. Uma vez apontada essa omissão em embargos de declaração e constatada pelo juiz, seu suprimento poderá alterar essencialmente o resultado do julgamento. Ao examinar a questão da prescrição e tê-la por ocorrida, o juiz emitirá um julgamento de mérito desfavorável ao autor, antes vencedor. Mas – reitere-se – quando isso ocorrer, estar-se- á diante da função normal, típica, dos embargos. ATENÇÃO, somente terá validade uma decisão que empreste efeitos modificativos se, antes, a parte contrária for intimada para apresentar contrarrazões. Sem a vivência do contraditório não será válida uma decisão que possa invalidar ou modificar uma anterior manifestação jurisdicional. LEMBRANDO, só é necessária a vivência prévia do contraditório no caso dos embargos de declaração, eventualmente, ter a possibilidade de modificar a decisão recorrida substancialmente; caso os embargos de declaração não se prestem a eventual modificação substancial do julgado, não será necessária prévia vista dos autos à parte contrária para contrarrazões. e) efeito interruptivo de prazos recursais Os embargos têm ainda efeito interruptivo do prazo para a interposição de outros recursos eventualmente cabíveis contra a decisão. Uma vez interpostos, interrompem- se os prazos para a interposição dos demais recursos, por qualquer das partes (art. 1.026, caput, segunda parte). Note-se, aqui, que se trata do fenômeno da interrupção: os prazos começam a contar de novo, desde o início, a partir da intimação da decisão dos embargos declaratórios. Tal efeito interruptivo aplica-se: (a) a qualquer das partes, e não apenas àquela que interpôs os embargos; (b) a todos os capítulos da decisão, e não apenas àquele(s) objeto dos embargos; (c) mesmo quando os embargos não são conhecidos, por serem reputados inadmissíveis, ressalvada apenas a hipótese de não conhecimento por intempestividade, quando já houver inclusive decorrido o prazo para o(s) outro(s) recurso(s) – hipótese em que não haverá mais nada para interromper. Nos demais casos, quando ainda em curso o prazo para o(s) outro(s) recurso(s), a interposição dos embargos, ainda que intempestiva, deve ter a eficácia interruptiva. Afinal, como ela se aplica também à parte contrária da que embargou, essa não poderia ser prejudicada, na hipótese em que, se fiando na interposição dos embargos pelo adversário, aguardasse para recorrer depois de decididos os embargos. Se houver má-fé na interposição os embargos intempestivos, deve-se sancionar o embargante pela procrastinação (art. 1.026, § 2º), mas não se negar a força interruptiva dos embargos (v. a seguir); 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 144 (d) mesmo quando os embargos são reputados procrastinatórios, exceto quando se tratar da terceira interposição sucessiva de embargos procrastinatórios contra a mesma decisão (art. 1.026, § 4.º). f) ausência de efeito suspensivo automático Mas a circunstância de os embargos terem efeito interruptivo, nos termos acima explicados, não significa que eles tenham automaticamente efeito suspensivo. Como já visto, o efeito suspensivo de um recurso consiste na sustação dos efeitos da decisão recorrida. Em regra, os embargos não produzem esse resultado, pois a lei não lhes atribuiu tal eficácia. O seu art. 1.026, caput, estabelece expressamente a não incidência desse efeito automático nos embargos de declaração. g) embargos protelatórios Por ter, como mencionado, o efeito interruptivo do recurso sequenciado, os embargos de declaração, muitas vezes, são interpostos com intuito meramente protelatório. Para coibir a indevida utilização dos declaratórios impõe a lei processual multa de até 2% (dois por cento) sobre o valor corrigido da causa atualizado, quando o recurso for tido como protelatório e, na reiteração dos embargos, também com intuito protelatório, a multa poderá ser elevada a até 10%, ficando vedada a interposição de novos embargos de declaração e condicionada a interposição de qualquer outro recurso ao depósito da multa, tudo conforme art. 1.026, §§2o a 4o. h) embargos de declaração e o prequestionamento Os embargos de declaração podem ser utilizados, licitamente, para viabilizar o prequestionamento de matérias, objetivando a interposição de futuro recurso extraordinário e/ou recurso especial. Tanto que a súmula 98/STJ, tem a seguinte redação: “Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório.” Entretanto, havia uma “praxe” de alguns julgados de, mesmo o acórdão trazendo deficiência e sendo apresentado os embargos de declaração para fins de prequestionamento, não ser suprida, por exemplo, a omissão efetivamente existente, o que inviabilizava o prequestionamento da matéria para a interposição dos recursos extremados. Pondo fim a tal situação, o atual CPC, no seu art. 1.025, admite a tese do prequestionamento implícito. Ou seja, se realmente existe a omissão e, interpostos os embargos de declaração, o tribunal de origem não sanar a deficiência, o STF ou STJ poderá considerar a matéria como prequestionada. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 145 24.13 RECURSO ESPECIAL a) incidência e pressupostos Recurso extremado que tem como objetivo levar ao STJ a impugnação de decisões dos tribunais estaduais ou regionais federais que estejam em descordo com a legislação infraconstitucional, nos limites impostos pelo art. 105, III da constituição. Está sujeito a todos os pressupostos de admissibilidade genéricos, quais sejam: tempestividade, preparo, regularidade forma, interesse recursal, entre outros. Entretanto podemos destacar alguns pressupostos específicos: (i) Matéria jurídica: não se presta o recurso especial a permitirque a jurisdição reexamine questões probatórias. (ii) Prequestionamento: só será admitido o recurso especial se a matéria debatida estiver devidamente prequestionada no acórdão recorrido. (iii) Esgotamento dos recursos ordinários: se ainda é possível a interposição de algum outro recurso, não é possível o manejamento desse recurso extremado. b) questões procedimentais relevantes O recurso especial será interposto perante o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido. Depois das providencias necessárias, o recorrido será intimado para, querendo, apresentar contrarrazões no prazo legal. É possível a interposição de recurso especial adesivo quando houver sucumbência recíproca e apenas uma das partes interpuser recurso especial, como devidamente demonstrado na aula específica, Interposto o recurso especial adesivo, deve-se intimar o recorrido para ofertar contrarrazões ao recurso adesivo, assim como sucede com o recurso principal Em decisão fundamentada, o Presidente ou Vice-Presidente fará o juízo de admissibilidade do recurso, que se restringe a verificação dos pressupostos extrínsecos e intrínsecos não podendo analisar a questão de mérito do recurso. Da decisão que inadmitir o recurso especial caberá o recurso de agravo previsto no art. 1.042 CPC, que, inclusive, permitirá ao presidente ou vice-presidente do tribunal, exercer juízo de retratação; ou seja, apresentado o recurso próprio contra a decisão de inadmissibilidade, na origem, do recurso especial, poderá o julgador voltar atrás na sua decisão e admitir o recurso especial interposto. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 146 Presentes os pressupostos, admite-se o recurso especial. Independentemente de interposição conjunta com recurso extraordinário, o recurso especial será enviado para o Superior Tribunal de Justiça. No STJ o relator fará novo exame de admissibilidade Presentes os requisitos de admissibilidade, o relator poderá decidir unipessoalmente (art. 932, CPC), cabendo agravo interno dessa decisão. Não se tratando, porém, de julgamento monocrático, o recurso será julgado pelo órgão colegiado competente, nos termos que dispuser o regimento interno da Corte. c) sobre o efeito suspensivo Por determinação do artigo 995, CPC, os recursos especiais não são dotados de efeito suspensivo. Isso significa que, uma vez proferido julgamento colegiado pelos tribunais de segundo grau, o respectivo acórdão passa a ter eficácia imediata, podendo, desde logo, ser executado provisoriamente. O parágrafo 5º do artigo 1.029 do Código de Processo Civil em vigor, com a redação conferida pela Lei 13.256/2016, acolhendo o enunciado das referidas súmulas, dispõe, de forma didática, que “o pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário ou a recurso especial poderá ser formulado por requerimento dirigido: I – ao tribunal superior respectivo, no período compreendido entre a publicação da decisão de admissão do recurso e sua distribuição, ficando o relator designado para seu exame prevento para julgá-lo; II - ao relator, se já distribuído o recurso; III – ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido, no período compreendido entre a interposição do recurso e a publicação da decisão de admissão do recurso, assim como no caso de o recurso ter sido sobrestado, nos termos do art. 1.037”. No tocante sãos pressupostos para a concessão do efeito suspensivo, eles estão presentes no art. 995, CPC: PROBABILIADE E DANO!! 24.14 RECURSO EXTRAORDINÁRIO a) questões procedimentais relevantes Recurso direcionado ao STF, parte da premissa que o ato decisório recorrido está ferindo o texto constitucional, conforme e nos limites postos no art. 102, III, da CF. O recurso em questão é, tal como o recurso especial, desprovido de efeito suspensivo, entretanto, a legislação permite que este efeito recursal venha a ser postulado mediante requerimento específico. Cabe, porém, a advertência no sentido de que houve inovação da nova legislação processual, pois no modelo do Código de 1973 o pedido de efeito suspensivo era postulado mediante medida cautelar, sendo agora a sua realização efetivada por simples requerimento, porém, é claro, com a adequada fundamentação justificadora do efeito suspensivo. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 147 É possível a interposição de recurso extraordinário adesivo quando houver sucumbência recíproca e apenas uma das partes interpuser o recurso extraordinário, como devidamente demonstrado na aula específica. Interposto o recurso extraordinário adesivo, deve-se intimar o recorrido para ofertar contrarrazões ao recurso adesivo, assim como sucede com o recurso principal. Inicialmente, em sua redação originária, o CPC/2015 previa que o juízo de admissibilidade dos recursos extremados (especial e extraordinário), seria feito exclusivamente nos tribunais superiores. Entretanto, em fevereiro de 2016, antes do CPC/2015 entrar em vigor, foi publicada uma lei alterando o CPC e determinando que voltasse o duplo juízo de admissibilidade. Assim, em decisão fundamentada, o Presidente ou Vice-Presidente fará o juízo de admissibilidade do recurso, que se restringe a verificação dos pressupostos extrínsecos e intrínsecos não podendo analisar a questão de mérito do recurso. O único pressuposto de admissibilidade do recurso extraordinário que o tribunal de origem não examinará é a existência de repercussão geral, pressuposto cuja análise se dá, de forma exclusive, no STF. Da decisão que inadmitir o recurso extraordinário caberá o recurso de agravo previsto no art. 1.042 CPC, que, inclusive, permitirá ao presidente ou vice-presidente do tribunal, exercer juízo de retratação; ou seja, apresentado o recurso próprio contra a decisão de inadmissibilidade, na origem, poderá o julgador voltar atrás na sua decisão e admitir o recurso interposto b) interposição simultânea de recurso especial e recurso extraordinário Havendo a interposição simultânea dos recursos extraordinário e especial os autos do processo serão inicialmente encaminhados ao STJ, para julgamento potencial do recurso especial, com a devida verificação da admissibilidade. Se o Relator do recurso especial entender que o recurso extraordinário, interposto simultaneamente, lhe é prejudicial, sobrestará o julgamento do recurso especial e remeterá os autos ao STF, sendo tal decisão irrecorrível. Distribuído a um Ministro Relator no STF, a matéria da prejudicialidade será reexaminada. Assim, duas coisas podem acontecer: (a) aceitando a prejudicialidade passará à análise do recurso extraordinário e em caso de provimento, irá reconhecer a perda do objeto do recurso especial, mas em caso de não provimento ensejará o retorno dos autos ao STJ; (b) entendendo-se pela não identificação da prejudicialidade, os autos retornarão ao STJ para julgamento do recurso especial. c) sobre a repercussão geral O excesso de recursos extraordinários ensejou a implementação do requisito da repercussão geral. A exigência de tal pressuposto específico para a admissibilidade do recurso extraordinário tem, nitidamente, a tentativa de realocar o STF como uma verdadeira Corte Constitucional. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 148 Para que o recurso seja dotado de repercussão geral há que se demonstrar que a matéria debatida tem questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os interesses subjetivos do processo. Quanto a competência para verificar a ocorrência da repercussão geral, o CPC estabelece competência exclusiva do STF, cuja decisão é irrecorrível. Entretanto, não se pode deixar de reconhecer a real possibilidade de manejamento de embargos de declaração, que embora não se preste para a revisão da decisão, poderá se mostrar indispensável para a sua adequação ou viabilizar a sua compreensão. Há hipóteses em que a repercussão geral será presumida: (i) o acórdão recorrido tenha contrariadoenunciado de súmula ou jurisprudência dominante do STF; e (ii) a decisão recorrida tenha reconhecido a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. 24.15 AGRAVO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO E EM RECURSO ESPECIAL Recurso próprio contra decisões de inadmissibilidade de recursos especiais e extraordinários proferidas pelos tribunais de origem. Deve ser interposto no prazo de 15 dias, não estando sujeito a preparo. Interposto perante o órgão jurisdicional próprio, será a parte contrária intimada a apresentar contrarrazões e, após, serão os autos encaminhados ao STF ou STJ, conforme o caso, para julgamento desse recurso de agravo. Na hipótese de interposição conjunta de recursos extraordinário e especial, o art. 1.042, § 6º, CPC/2015, prevê que o agravante deverá interpor um agravo para cada recurso não admitido, sendo nesse caso os autos encaminhados para o Superior Tribunal de Justiça. Após a conclusão do julgamento do agravo pelo Superior Tribunal de justiça e, se for o caso, do recurso especial, independentemente de pedido, os autos serão remetidos ao Supremo Tribunal Federal para apreciação do agravo a ele dirigido, salvo se estiver prejudicado. 24.16 RECURSO ORDINÁRIO Referido recurso tem suas hipóteses de cabimento previstas tanto na Constituição Federal (arts. 102, II, e 105, II, da CF) como no Código de Processo Civil (art. 1.027). Ainda que o recurso ordinário tenha previsão constitucional, a exemplo dos recursos extraordinário e especial, são diversas e significativas as diferenças entre eles. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 149 (a) no recurso ordinário não existe fundamentação vinculada, admitindo-se ao recorrente a alegação de qualquer matéria desde que respeite os limites objetivos da demanda; (b) a exigência de prequestionamento presente nos recursos extraordinário e especial não existe no recurso ordinário; (c) a devolução do recurso ordinário é ampla, abrangendo tanto matéria de direito - constitucional, federal e local - quanto matéria de fato Considerações devem ser feitas sobre a competência e incidência do presente recurso. Primeiro destacamos que o STF tem competência para julgar o recurso ordinário nos casos de os mandados de segurança, os habeas data e os mandados de injunção decididos em única instância pelos tribunais superiores, quando denegatória a decisão. Já o STJ tem competência para julgar em recurso ordinário os mandados de segurança decididos em única instância pelos tribunais regionais federais ou pelos tribunais de justiça dos Estados e do Distrito Federal e Territórios, quando denegatória a decisão; bem como os processos em que forem partes, de um lado, Estado estrangeiro ou organismo internacional e, de outro, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País. 24.17 EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA Um dos objetivos do presente recurso, para não afirmar que é o maior objetivo de tal forma recurso, é a uniformização da jurisprudência interna do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. Recurso previsto no CPC, art. 1.043 e ss, dita ser possível a interposição desse recurso, contra decisões proferidas por órgão fracionário do STJ ou do STF que: (i) em recurso extraordinário ou em recurso especial, divergir do julgamento de qualquer outro órgão do mesmo tribunal, sendo os acórdãos, embargado e paradigma, de mérito (ii) em recurso extraordinário ou em recurso especial, divergir do julgamento de qualquer outro órgão do mesmo tribunal, sendo um acórdão de mérito e outro que não tenha conhecido do recurso, embora tenha apreciado a controvérsia Tratando-se de recurso que tem como objetivo a da jurisprudência interna dos tribunais superiores, é indispensável para a sua admissibilidade que exista uma comparação entre o acórdão recorrido e o acórdão apresentado como paradigma, considerando-se que dessa análise comparativa será verificada a efetiva existência da divergência a permitir o cabimento do recurso ora analisado. 24.18 INCIDENTE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA A admissibilidade do presente incidente parte da premissa da existência de questão relevante, com grande repercussão social e que não esteja sendo discutida em múltiplos recursos, como se observa da leitura do art. 947, caput, CPC. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 150 Observando tal questão relevante em recurso, em remessa necessária ou em ação originária, o relator proporá, de ofício ou mediante requerimento da parte, do MP ou da defensoria pública, o julgamento do incidente por um órgão colegiado, indicado no regimento interno de cada tribunal de forma específica. O aqui analisado incidente tem como objetivo a manifestação do órgão competente do tribunal, para essa assunção de competência, de tal forma a formar decisão vinculativa direcionada a todos os juízes e órgãos fracionários do tribunal. Pode referido incidente também ser utilizado quando ocorrer relevante questão de direito a respeito da qual seja conveniente a prevenção ou a composição de divergência entre câmaras ou turmas do tribunal. 24.19 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS Referido incidente, regulado no CPC nos arts. 976 e ss., do CPC, parte da premissa da existência de várias ações, sejam individuais ou coletivas, com uma ou mais questões de direito pautadas por identidade (repetidas). Sendo cabível a instauração do incidente quando houver, simultaneamente: I - efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre a mesma questão unicamente de direito; e II - risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica. Trata-se, na essência, de um incidente para uniformizar a jurisprudência, mas antecipadamente, pois, ao invés de julgar múltiplas apelações de sentenças dispares, o tribunal determina previamente a formação da tese de direito que considera adequada a essas múltiplas e próximas demandas. Quanto a legitimidade para a instauração do referido incidente (IRDR) temos que o juiz ou relator de ofício podem requerer ao presidente do tribunal, bem como as partes, o Ministério Público e a Defensoria pública, por petição. A competência para julgado do IRDR depende de norma regimental, estipulando cada tribunal qual órgão interno julgara esse incidente. Uma vez admitido o incidente o relator: I - suspenderá os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitam no Estado ou na região, conforme o caso; II - poderá requisitar informações a órgãos em cujo juízo tramita processo no qual se discute o objeto do incidente, que as prestarão no prazo de 15 (quinze) dias; III - intimará o Ministério Público para, querendo, manifestar-se no prazo de 15 (quinze) dias. 24.20 DA RECLAMAÇÃO Referido procedimento tem como objetivo (CPC 988): I - preservar a competência do tribunal; II - garantir a autoridade das decisões do tribunal; III – garantir a observância 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 151 de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; IV – garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência; Não pode ser instaurada de ofício, demandando requerimento da parte interessada ou do Ministério Público e pode ser proposta perante qualquer tribunal, nas hipóteses acima elencadas. Veda a lei processual a utilização da reclamação quando: I – proposta após o trânsito em julgado da decisão reclamada; II – proposta para garantir a observância de acórdão de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão proferido em julgamento de recursos extraordinário ou especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias. 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 1.1 POSIÇÕES DOUTRINÁRIAS QUANTO AO PROCESSO 1.2 A BUSCA POR UM PROCESSO CONSITUCIONAL E DEMOCRÁTICO 1.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA ENTENDER O PROCESSO CIVIL ATUAL 2 JURISDIÇÃO E NORMAS FUNDAMENTAIS2.1 CONCEITO 2.2 PRINCÍPIO DA INÉRCIA DA JURISDIÇÃO 2.3 PRINCÍPIO DO IMPULSO OFICIAL 2.4 PRINCÍPIO DA INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO 2.5 PRINCÍPIO DA AUTOCOMPOSIÇÃO 2.6 PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO 2.7 PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DO MÉRITO 2.8 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ 2.9 PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO 2.10 PRINCÍPIO DA ISONOMIA 2.11 PRINCÍPIOS DIRETIVOS DA ATUAÇÃO DO JUIZ 2.12 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO 2.13 DA ORDEM PREFERENCIAL PARA JULGAMENTO 3 COMPETÊNCIA 3.1 CONCEITO 3.2 COMPETÊNCIA INTERNACIONAL 3.3 COMPETÊNCIA INTERNA: CRITÉRIOS DE DETERMINAÇÃO 3.4 INCOMPETÊNCIA 3.5 COMPETÊNCIA TERRITORIAL: PREVISIBILIDADE NO CPC 3.6 MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIA 4 DAS PARTES 4.1 CONCEITO 4.2 DA LEGITIMIDADE 4.3 DA CAPACIDADE 4.4 DOS DEVERES DA PARTES E DOS PROCURADORES 5 DO LITISCONSÓRCIO 6 INTERVENÇÃO DE TERCEIROS 6.1 INTRODUÇÃO: conceito de partes e de terceiros 6.2 MODALIDADES DE INTERVENÇÃO DE TERCEIROS PREVISTAS NO CPC 6.3 DA INTERVENÇÃO DE TERCEIRO ANÓDINA OU ANÔMALA 6.4 ASSISTÊNCIA 6.5 DENUNCIAÇÃO DA LIDE 6.6 DO CHAMAMENTO AO PROCESSO 6.7 DO INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 6.8 AMICUS CURIAE 7 DO JUIZ, DO MINISTÉRIO PÚBLICO, DA DEFENSORIA PÚBLICA E DA ADVOCACIA PÚBLICA 7.1 DO JUIZ 7.2 DO MINISTÁRIO PÚBLICO 7.3 DA ADVOCACIA PÚBLICA 7.4 DA DEFENSORIA PÚBLICA 8 DOS ATOS PROCESSUAIS 8.1 PRINCÍPIOS 8.2 DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL E DA CALENDARIZAÇÃO 8.3 DOS ATOS DAS PARTES 8.4 DOS PRONUNCIAMENTOS DO JUIZ 8.5 DO TEMPO E DO LUGAR DOS ATOS PROCESSUAIS 9 DOS PRAZOS 9.1 CLASSIFICAÇÃO 9.2 CONTAGEM DOS PRAZOS PROCESSUAIS EM DIAS ÚTEIS 9.3 DA SUSPENSÃO DOS PRAZOS PROCESSUAIS 9.4 DA EXTINÇÃO DOS PRAZOS 10 DA COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS 10.1 DA CITAÇÃO 10.2 DAS CARTAS 10.3 DAS INTIMAÇÕES 11 TUTELAS PROVISÓRIAS 11.1 INTRODUÇÃO 11.2 CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO 11.3 TUTELAS DE URGÊNCIA 11.4 TUTELA ANTECIPADA ANTECEDENTE 11.5 TUTELA CAUTELAR ANTECEDENTE 11.6 TUTELAS DA EVIDÊNCIA 12 PETIÇÃO INICIAL: PROCEDIMENTO COMUM 12.1 ELEMENTOS CONCEITUAIS DO ATO 12.2 A QUESTÃO DA COMPETÊNCIA: ENDEREÇAMENTO DA PETIÇÃO INICIAL 12.3 PARTES E QUALIFICAÇÃO 12.4 CAUSA DE PEDIR: FATOS E FUNDAMENTOS 12.5 DO PEDIDO 12.6 DO VALOR DA CAUSA 12.7 REQUERIMENTO DE PROVAS 12.8 OPÇÃO PELA AUTOCOMPOSIÇÃO 12.9 A PETIÇÃO INICIAL E O PLENO ACESSO AO JUDICIÁRIO 13 DOS ATOS PRIMEIROS DO JUIZ 13.1 DA EMENDA DA INICIAL 13.2 DO INDEFERIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL 13.3 DA IMPROCEDÊNCIA LIMINAR DO PEDIDO 13.4 DA AUDIÊNCIA DE TENTATIVA DE AUTOCOMPOSIÇÃO 14 DA CONTESTAÇÃO 15 DA RECONVENÇÃO 16 DA REVELIA 17 DO JULGAMENETO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO (e o julgamento antecipado parcial do mérito) 18 DO SANEAMENTO E DA ORGANIZAÇÃO DO PROCESSO 19 DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO 20 DA SENTENÇA E DA COISA JULGADA 21 DAS PROVAS 21.1 DISPOSIÇÕES GERAIS 21.2 DOS MEIOS TÍPICOS DE PROVA: QUESTÕES ESSENCIAIS 21.3 DA PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS 22 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA 22.1 DO TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL 22.2 DA EXIGIBILIDADE 22.3 DA COMPETÊNCIA 22.4 CUMPRIMENTO DEFINITIVO: OBRIGAÇÃO DE PAGAR QUANTIA CERTA 22.5 – DO CUMPRIMENTO PROVISÓRIO 22.6 DO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA DAS OBRIGAÇÕES DE FAZER, NÃO FAZER E ENTREGAR COISA 23 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO 23.1 DO TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL 23.2 DA EXIGIBILIDADE 23.3 DO PROCESSO DE EXECUÇÃO POR QUANTIA CERTA 24 RECURSOS E MEIOS DE IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS 24.1 CONCEITO 24.2 SUCEDÂNEOS RECURSAIS 24.3 PRINCÍPIOS RECURSAIS 24.4 EFEITOS DEVOLUTIVO E SUSPENSIVO 24.5 JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE 24.6 JUÍZO DE MÉRITO 24.7 DO RECURSO ADESIVO 24.8 DO RECURSO COMO ATO VOLUNTÁRIO E DISPONÍVEL 24.9 APELAÇÃO 24.10 AGRAVO DE INSTRUMENTO 24.11 AGRAVO INTERNO 24.12 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO 24.13 RECURSO ESPECIAL 24.14 RECURSO EXTRAORDINÁRIO 24.15 AGRAVO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO E EM RECURSO ESPECIAL 24.16 RECURSO ORDINÁRIO 24.17 EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA 24.18 INCIDENTE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA 24.19 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS 24.20 DA RECLAMAÇÃOde justificativas que tornam a regra da inércia da jurisdição algo que respeita os valores e ditames processuais previstos na Constituição Federal: (i) a garantia de um processo conduzido por um juiz imparcial; (ii) a liberdade das partes em não instaurar formalmente a lide, evitando judicializações indevidas; (iii) a possível busca de meios alternativos e, diante do caso concreto, mais eficazes de resolução dos conflitos. c) Princípio da inércia e a limitação da atuação jurisdicional Importante salientar que o princípio da inércia (princípio da demanda) também limita a atuação jurisdicional do Estado, não sendo lícito ao juiz conceder ao demandante aquilo que não foi por ele solicitado. Note que o art. 492 do CPC veda que o juiz profira decisão diversa da pedida ou mesmo condene a parte a quantia superior à pretendida. Claro que essa limitação não atinge aquilo que chamamos de “pedidos implícitos” ou “pedidos indiretos”, bem como eventuais outras matérias de ordem pública que devem ser conhecidas de ofício, conforme art. 322,§1º, CPC. 2.3 PRINCÍPIO DO IMPULSO OFICIAL a) Uma visão conceitual Referido princípio está previsto no art. 2º, CPC, segunda parte, e dita que uma vez que a parte deu início ao processo, com a retirada da jurisdição da inércia, competirá ao próprio juiz determinar a prática dos atos processuais, conduzindo o processo ao seu objetivo final. Há situações que o impulso processual surgirá por ato dos auxiliares da justiça, notadamente na prática dos chamados atos ordinatórios. b) Permissivo constitucional para a delegação de atos ordinatórios A Emenda Constitucional n. 45, de 2004, incluiu na CF o permissivo necessário para que os servidores recebessem, por delegação, a possibilidade de praticarem atos de mero expediente sem caráter decisório (vide art. 93, XIV, CF) Referido permissivo impacta de forma expressiva o tempo do processo, criando a possibilidade dos atos de mero expediente do procedimento serem praticados pelos servidores de ofício, sem a necessidade de despachos do magistrados. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 13 c) Legislação infraconstitucional sobre atos ordinatórios Podemos conceituar, portanto, os atos ordinatórios como aqueles que são praticados de ofício pelo servidor, sem a necessidade de despacho do juiz, notadamente atos ligados ao regular andamento do procedimento, de natureza formal e sem caráter decisório. Para a verificação dos atos ordinatórios e sua prática por servidores, vide arts. 152, VI, §1º e 203, §4º, CPC. d) Da relativização do princípio do impulso oficial Não podemos afirmar, entretanto, que esse princípio é absoluto, existindo situações em que o correto andamento processual depende de atos a serem praticados pelas partes. No tocante às situações de exceção, em que o andamento processual dependerá de ato de solicitação da(s) parte(s), podemos dividi-los em: (i) situações de não cooperação; (ii) situações de ordem econômica. (i) não cooperação: exemplos: arts. 76, §1º, I; 111; 112, §§ 1º e 2º; 321; 485, II e III (ii) situações econômicas: exemplos: arts. 83; 102; 290 2.4 PRINCÍPIO DA INAFASTABILIDADE DA JURISDIÇÃO Princípio derivado da Constituição Federal (art. 5º, XXXV), encontra guarida também no art. 3º, caput do CPC. Podemos afirmar que, embora o destinaria da norma aqui debatida seja o legislador, ele é apenas o destinatário principal, já que o comando normativo-principiológico atinge a todos, indistintamente, não sendo lícito ao legislador e a ninguém impedir que um jurisdicionado deduza em juízo sua pretensão. Não podemos, entretanto, limitar a visão conceituação do princípio da inafastabilidade somente ao seu aspecto formal. A essência do princípio não reside, apenas, no permissivo do cidadão ter acesso à atividade jurisdicional levando sua pretensão ao Estado-Juiz. Mais que isso, deve ser garantido ao jurisdicionado amplo acesso à atividade jurisdicional (inclusive no caso de hipossuficiência econômica), oportunidade de participação e influência no julgamento (com respeito aos princípios do contraditório e da cooperação), direito a uma decisão justa e eficaz. a) Sobre a Arbitragem A inafastabilidade da jurisdição, por seu turno, não exclui a possibilidade das partes, de comum acordo, nos limites da lei, optarem por submeter a relação material litigiosa à resolução através de um procedimento arbitral (vide CPC, art. 3º, §1º) E qual é o limite da lei? – No âmbito do privado exige-se os seguintes fatores: (i) que a relação jurídico material se desenvolva entre pessoas capazes; (ii) a livre e válida 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 14 exteriorização de vontade para submissão de eventual lide ao regime do procedimento arbitral; (iii) que o direito material controvertido seja direito patrimonial; e (iv) a disponibilidade desse direito; preceitos fundamentais da Lei 9307/1996. Avanço no procedimento arbitral passa a ser a lei expressamente permitir que a administração pública direta e indireta, possa se valer da arbitragem para resolver eventuais conflitos, desde que versem sobre, também, direitos patrimoniais disponíveis; ou seja, os critérios exigidos dos particulares para a adoção da arbitragem como meio de solução do conflito, também se estendem à administração pública. Outros pontos que devem ser destacados: a arbitragem e sua regulação legal (Lei 9307/1996) ainda dispõem que: - a administração pública, direta e indireta, poderá utilizar a arbitragem (art. 1º, §1º) - que é possível a concessão de tutelas de urgência e de natureza cautelar (arts. 22-a e 22-b) - a criação, recepcionada pelo CPC, da carta arbitral (art. 22-c) 2.5 PRINCÍPIO DA AUTOCOMPOSIÇÃO Um dos preceitos básicos do direito processual atual, o princípio da autocomposição passa a ser linha mestra adotada pelo CPC/2015, devendo dito princípio reger a forma interpretativa da lei processual atual (vide art. 3º, §2º, CPC). Viemos de uma “escola” onde a atuação do estado para a resolução das situações litigiosas era a regra, ou seja, fomos “educados“ a pensar que a função maior do processo era de permitir ao Estado resolver a situação litigiosa de forma imperativa, afirmando (ou não) a existência de determinado direito de um cidadão em face de outro. Hoje, primariamente, o processo é um mecanismo dado ao Estado para a tentativa de aproximar as partes, para que elas, diante dos mecanismos próprios, atinjam por ato de vontade a solução do conflito, só atuando o Estado-Juiz de forma impositiva na afirmação do direito secundariamente, caso as partes não cheguem a um bom termo ou nas hipóteses em que a autocomposição não seria permitida. Necessária a percepção da mudança de paradigma, deixando o processo de ser, primariamente, o meio pelo qual o Estado, de forma impositiva, declarava, diante de uma situação litigiosa, a existência (ou não) de um direito, para ser visto, primariamente, como o meio pelo qual o Estado tentará resolver a lide por técnicas autocompositivas. a) O estímulo a autocomposição Na visão da lei processual antiga (CPC/73) tinha o juiz o “dever” da tentativa de conciliação das partes, quando, por exemplo, aberta a audiência de instrução e 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 15 julgamento, ele conclamava as partes a uma possível conciliação. Na verdade, colocando os olhos na realidade, o que sempre ocorreu no CPC/73 era um arremedo de técnica conciliatória. Hoje, com a adoção da autocomposição como meio primário de resolução dos conflitos dentro da esfera jurisdicional, possamos a ter uma efetiva busca pelo acordo de vontades para colocar fim à lide, sendo que não fica apenas a cargo do magistrado estimular as partes à autocomposição (CPC art, 3º, §3º) 2.6 PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO Princípio derivado da CF/88 (art. 5º, LXXVIII), está previsto como norma fundamental do processo no CPC (art. 4º). Uma das maiores preocupações do Estado moderno, no que se referea função jurisdicional, não é apenas assegurar o acesso formal do cidadão ao Poder Judiciário, mas, sim, assegurar o acesso a uma ordem jurídica justa através da atuação do Judiciário. Não podemos considerar, nessa linha de pensamento, justa, simplesmente, uma decisão que diga acertadamente o direito entre as partes; justa será uma decisão que diga acertadamente o direito entre as partes e que seja proferida dentro de um prazo razoável. Decisão correta tardia não é uma decisão justa. A razoável duração do processo, entretanto, não pode ser vista exclusivamente como a adoção de medidas processuais para acelerar o processo. A celeridade processual, muitas vezes, não quer dizer que foi assegurado à parte o acesso a uma ordem jurídica justa. 2.7 PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DO MÉRITO Cuida dito princípio, previsto no art. 4º, CPC, de assegurar ao jurisdicionado os cuidados necessários para que seja possível ao Estado analisar e julgar a pretensão apresentada, evitando a extinção do processo sem resolução do mérito. É a primazia do direito substancial diante da suposta rigidez das normas formais procedimentais. a) Exemplos do princípio no CPC atual Um dos maiores exemplos do princípio da primazia do mérito encontramos no art. 139, IX, CPC. Referida norma processual determina que o juiz deverá determinar o suprimento de pressupostos processuais e o sanar de eventuais vícios existentes no processo, devendo, sempre que possível, corrigir as questões formais para que seja possível o julgamento do mérito. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 16 O princípio aqui explicitado é parâmetro para a máxima das teorias das nulidades que, conforme art. 282 e §§ do CPC, dita que não há declaração de nulidade de nenhum ato processual se não há prejuízo para a parte. Outra grande presença do princípio aqui debatido encontramos nos arts. 317 e 488, CPC. Nítido que referidos dispositivos impactam o processo com o intuído de minimizar decisões sem resolução do mérito, paramentando a atuação do Juiz para, sempre que possível, eliminar elementos formais e julgar meritoriamente as pretensões existentes na demanda judicial. b) Princípio da Primazia do Mérito na fase recursal Interessante ressaltar como o princípio aqui estudado impacta na fase recursal. Podemos afirmar que, hoje, em termos recursais, as eventuais imperfeições formais na interposição do recurso não poderão, em regra, gerar a inadmissibilidade direta do recurso, devendo o recorrente ser intimado para sanar o vício formal. Exemplos no CPC: - art. 932, parágrafo único - art. 1.007, §§2º, 4º e 7º - art. 1.017, §3º - art. 1.029, §3º c) Uma crítica aos Juizados Especiais Observamos, acima, que eventuais deficiências formais no ato da interposição do recurso não geram a imediata inadmissibilidade do recurso, sendo, em razão do princípio da primazia do mérito, chamado o recorrente a regularizar a irregularidade, inclusive no tocante a vícios formais quanto ao preparo. Nos juizados especiais estaduais cíveis exige a lei específica o preparo como requisito formal para a admissibilidade dos recursos inominados (art. 42, §§ 1º e 2º, da Lei 9099/95. Crível seria a aplicabilidade aos juizados especiais, por ser o princípio da primazia do mérito norma fundamental não do CPC, mas do DIREITO PROCESSUAL, o art. 1.007, CPC, notadamente no não permissivo da inadmissibilidade imediata diante de deficiências no tocante ao preparo. Ocorre que, infelizmente, essa não tem sido a interpretação que os juízes dos juizados especiais estão aplicando. Observem o seguinte enunciado do FONAJE: ENUNCIADO 168 - Não se aplica aos recursos dos Juizados Especiais o disposto no artigo 1.007 do CPC 2015 (XL Encontro - Brasília-DF). 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 17 2.8 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ Deve, todo aquele que venha, de qualquer forma, a participar do processo, agir de acordo com a boa-fé. O art. 5º, CPC consagrou tal norma fundamental de maneira expressa, sendo imperativa a boa-fé objetiva. Não se trata de princípio recente no ordenamento procedimental, pelo contrário, a lei ritualística sempre cuidou de punir condutas omissivas ou comissivas que atentem contra a boa-fé processual. O que o CPC/15 fez foi elevar tal preceito a norma fundamental. Destacamos, por ser cada vez mais enfático, que um dos destaques do princípio aqui debatido é o art. 77, CPC, que elenca obrigações, não apenas para as partes e seus procuradores mas, sim, para todos aqueles que de qualquer forma participam do processo. 2.9 PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO Princípio que, lançado no art. 6º, CPC, rege toda a atividade jurisdicional do Estado, seja na sua atuação cognitiva seja na atuação executiva. Por tal princípio, essencial para a concepção de um processo democrático e justo, todos devem cooperar entre si para que obtenha um decisão justa, dentro de um prazo razoável, tendente a possível e real efetivação. O princípio da cooperação não dita normas de conduta processual apenas para aqueles considerados partes, todos, indistintamente, sejam juízes, promotores, auxiliares da justiça, defensores públicos, advogados públicos e privados, TODOS, tem o dever de cooperação, para a busca e construção de decisões justas e para a concretização efetiva de direitos. 2.10 PRINCÍPIO DA ISONOMIA a) Visão conceitual e exemplos na lei processual A paridade de tratamento estabelecida no art. 7º, CPC, apresenta princípio consagrado diante da busca de um devido processo justo: o princípio da ISONOMIA, normatizando a necessária forma de tratamento igualitário a todos que sejam partes no processo. Nítido que, no direito atual, não mais está a lei, ao determinar uma necessária igualdade de tratamento, pensando apenas no aspecto formal. Ao se falar de igualdade, o princípio da isonomia dita que deve a lei processual, sopesando diferenças entre as partes, criar 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 18 condições para que todos tenham os mesmos direito, ônus e deveres processuais, equilibrando aqueles que são substancialmente desiguais. Um grande exemplo da aplicação do princípio da isonomia dentro do atual CPC é a possibilidade de conceder aquele que é hipossuficiente de forma econômica, a gratuidade de justiça (CPC, art. 98 e ss). E, justamente para manter essa necessária visão da isonomia, da paridade de tratamento substancial, a lei cria “gradações” de gratuidade, permitindo que referido benefício seja concedido de forma parcial, como acima se denota. Outro exemplo de tratamento isonômico está contido no permissivo do magistrado determinar a inversão do ônus da prova, conforme art. 373, §§1º e 2º: Percebam, nos exemplos citados, que a hipossuficiência financeira ou técnica se torna um parâmetro para a criação e implementação de regras procedimentais de tratamento diferenciado entre as partes, o que cria um propício ambiente no processo para a igualdade substancial. b) Obrigação do Juiz de garantir às partes a igualdade substancial E para assegurar o tratamento isonômico das partes, exige a lei processual uma atuação positiva do magistrado, que, deve como participe e condutor do processo, criar condições para assegurar às partes a igualdade de tratamento substancial, conforme preceituado no art. 139, I, CPC. 2.11 PRINCÍPIOS DIRETIVOS DA ATUAÇÃO DO JUIZ O CPC, no seu art. 8º, apresente princípios diretivos voltados à atuação do magistrado, ditando como ele deverá aplicar o ordenamento jurídico, fixando parâmetros de hermenêutica e deixando claro o escopo social do processo. 2.12 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO Na parte final do artigo 7º, CPC, encontramos a necessária referência, diante da busca da igualdade substancial no processo, do princípio do contraditório (também desenvolvido nos arts. 9º e 10º CPC). Ressaltamos aqui, como visão mínima, mas necessária do instituto, que não se pode pensar num tratamento isonômico entre as partes no processo sem a devida garantiado contraditório. Notadamente princípio derivado da própria Constituição Federal (art. 5º, LV), o contraditório consiste na devida garantia dada às partes de participar da formulação da regra concreta (função de cognição), ou da efetiva entrega do bem da vida do vitorioso (função de execução), em pé de igualdade e em todas as fases do processo, mas em contradição recíproca, cabendo ao juiz, além de garantir a bilateralidade da audiência, o dever de dialogar com as partes. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 19 a) Do contraditório Prévio Para tanto deve ser assegurado às partes o direito a prévia manifestação para que eventualmente possa surgir uma decisão contrária aos seus interesses, garantindo, também, o direito de reação. O contraditório prévio está previsto na norma lançada no art. 9º, caput, do CPC. b) Do contraditório diferido Não se pode afirmar que o contraditório, aqui lido com prévia manifestação da parte para eventual decisão que lhe seja contrária, seja algo absoluto e inafastável no direito processual. Em situações excepcionais é lícito que seja proferida decisão contra o interesse de uma das partes do processo sem que ela seja previamente ouvida. Não que não se dará oportunidade da parte se apresentar sua manifestação, o que se terá, na verdade, é a manifestação da parte após a decisão que lhe foi contrária; é o chamado “contraditório diferido”, somente admissível em situações excepcionais, justificáveis, e decorrentes de determinação legal. Em razão dessa possível mitigação do contraditório prévio apresenta a lei processual, no parágrafo único, do art. 9º, CPC, 03 (três) situações em que é permitida uma decisão contrária à parte contrária sem sua prévia oitiva. Tutela provisória de urgência (CPC, art. 300) Mais que justificável, a concessão de tutela de urgência sem a prévia oitiva da parte contrária deriva do diálogo do princípio do contraditório com o princípio da utilidade. Tutela de evidência (CPC, art. 311, II e III) Ou mesmo fundamento da concessão da tutela de urgência, os casos de tutela da evidência elencados no inciso II do parágrafo único do art. 9º, os seja, da observância do princípio da utilidade em diálogo com o princípio do contraditório. Decisão de expedição do mandado monitório (CPC, art. 701) A ação monitória exige do magistrado, diante de prova pré-constituída da relação jurídico material obrigacional afirmada na petição inicial, atividade cognitiva prévia e, claro, não exauriente. Assim, diante da prova previamente apresentada pelo credor, é da essência do procedimento a expedição da ordem judicial sem a prévia oitiva da parte devedora. Rol exemplificativo. Não podemos afirmar que as hipóteses previstas no art.9º de contraditório diferido são taxativas, existem outras situações, inclusive no processo de conhecimento, que não estão previstas no mencionado artigo. Um exemplo é o art. 562, CPC, que permite a concessão de medida liminar nas ações possessórias, sem a prévia oitiva da parte ré. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 20 c) Do contraditório Inútil Temos que lançar, entretanto, uma reflexão: seria possível mitigar o contraditório diante de inexistência de prejuízo à parte? Faria sentido anular atos processuais pelo não respeito ao contraditório em desfavor daquele que acabou se tornando parte vitoriosa no processo? Imaginemos o seguinte caso: no decorrer de determinado processo junta o réu ao autos determinado documento não sendo o autor chamado a se manifestar sobre o mesmo; entretanto, ao final, o pedido do autor é julgado procedente. Para parte da doutrina temos aqui a chamada teoria do contraditório inútil, onde a efetividade da tutela jurisdicional não pode ser prejudicada se a falta do contraditório não causou à parte nenhum prejuízo. 2.13 - O PRINCÍPIO DA NÃO SURPRESA Um dos preceitos do CPC/2015 derivado do princípio do contraditório é o princípio da não surpresa, que veda ao juiz decidir questões, mesmo que sejam de ordem pública, sem a prévia oportunidade de debate pelas partes (CPC 10). Mesmo que seja material processual de ordem pública, e que, portanto, os magistrados devem decidir de ofício, havendo a formação da relação processual em sua plenitude só será lícita uma decisão sobre tal fundamento se previamente as partes forem chamadas ao debate, à manifestação prévia e antecedente da decisão a ser tomada. Claro que há situações em que não é necessário o prévio debate. Exemplo: recurso intempestivo, sendo que o recorrido não alegou a intempestividade em contrarrazões. Ou seja, o princípio da não surpresa está ligado a questões fáticas e de direito que baseiam a pretensão, não à mera aplicação de dispositivos legais, notadamente quanto a requisitos extrínsecos de validade ou eficácia de determinado ato processual. O STJ tem sido muito claro, em seus julgados, a ditar que o ferir desse princípio esculpido no art. 10, CPC, quando não observado, há de gerar a nulidade do julgado, da decisão proferida sem o amparo do contraditório prévio. 2.14 – PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE E DA FUNDAMENTAÇÃO DEVIDA Como sabido, referidos princípios possuem previsão constitucional, sendo pilares de um processo justo e democrático (CF, art. 93, IX). Assim, nessa linha da postura constitucional o CPC, no seu art. 11, replica tais princípios como normas fundamentais do processo. O CPC, além do, art. 11, apresenta vários dispositivos que versam sobre o princípio da publicidade, como exemplo apresentamos alguns: 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 21 - CPC art. 107, I - CPC art. 152, V - CPC art. 189 - CPC art. 195, entre outros Frisamos o acima citado art. 189, que apresenta as situações de processos que tramitam em segredo de justiça, tendo a chamada PUBLICIDADE RESTRITA, como permitido no texto constitucional inicialmente citado. Sobre o princípio da fundamentação, vários dispositivos o CPC apresenta, deixando a lei processual claro como tal princípio merece a devida respeitabilidade: - CPC art. 489, §1º - CPC art. 927, §1º - CPC art. 1.022, parágrafo único, entre outros 2.13 DA ORDEM PREFERENCIAL PARA JULGAMENTO Uma das grandes inovações, focadas na razoável duração do processo, é o estabelecimento da ordem preferencial para julgamento, a partir do ato de conclusão do processo ao magistrado para esse fim (CPC, art. 12). a) Das técnicas de Gestão dos Processos Como visto alhures, notadamente no art. 8º do atual CPC, uma das exigências normativas da atuação do juiz é que ele atenda, nas suas funções, ao princípio da eficiência; “Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.” Para o respeito a tal exigência legal, deve o juiz adotar regras de gestão, tanto na condução administrativa da serventia quanto na coordenação dos atos processuais. A implementação de técnicas de gestão, sem dúvida alguma, tornam o tramite processual mais eficiente e, portanto, melhor ampara o princípio da razoável duração do processo. b) Da ordem preferencial de julgamento: dever ou faculdade? Neste sentido surgiu o art. 12, caput, que em sua redação originária ditava que: “Art. 12. Os juízes e os tribunais deverão obedecer à ordem cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão.” Entretanto, antes mesmo do CPC entrar em vigor, lembrando que tivemos o período de vacatio legis de um ano (CPC/2015, art. 1.045), houve a mudança da redação do caput, e onde se lia ordem obrigatória de julgamento levando em consideração o tempo de conclusão, passamos a ler ser isso uma ordem preferencial de julgamento. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 22 O que se discute, diante da postura da nova redação, é se o juiz continua a ter o dever de julgar na ordem cronológica ou se passa a ser uma merafaculdade. A melhor posição doutrinária enfatiza que, apesar da mudança da redação do art. 12, caput, CPC, continua a ser uma norma imperativa, que deve ser seguida pelo judiciário. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 23 3 COMPETÊNCIA 3.1 CONCEITO Numa tentativa de conceituar competência, alguns autores enveredam por um caminho doutrinário a ditar competência como uma medida da jurisdição. Buscando a fonte doutrinária de boa parte dos pensadores do direito processual no Brasil, extraímos o conceito acima resumido do pensamento de LIEBMAN: “a competência é a quantidade de jurisdição cujo exercício é atribuído a cada órgão, ou seja, a medida da jurisdição” [CARNEIRO, Athos Gusmão; Jurisdição e Competência, 11ª ed. São Paulo, Saraiva, 2001, pág. 55.] Com base no ensinamento do mestre italiano, outros autores definem da mesma forma a competência , conceituação esta que enfrenta muitas críticas pelo fato da atividade do Estado, a manifestação do Poder Estatal, não ter o condão de ser fracionada. Deverá sim, a conceituação da competência, ser feita a partir do exame e constatação da unicidade do poder. Como função estatal, a atividade jurisdicional dos órgãos do judiciário é, naturalmente, una. Mantendo nossa linha de pensamento, comungando com a doutrina acima citada e partindo da verificação que o PODER ESTATAL é UNO, que a ATIVIDADE JURISDICIONAL é uma das FUNÇÕES DO PODER, temos que tal poder/função não poderá ser objeto de fracionamento, razão pela qual nos afastamos da clássica conceituação da competência como medida da jurisdição. 3.2 COMPETÊNCIA INTERNACIONAL Vivemos uma época de enorme circulação de bens, mercadorias, valores, pessoas, que rompem as fronteiras, gerando uma grande internacionalização das relações processuais. Assim, o CPC, a partir do art. 21, define as regras de competência internacional no direito processual civil brasileiro, apontando situações em que um Juízo interno (brasileiro) terá competência para julgar causas que envolvam critérios de internacionalização. Desta forma, quando lidamos com os limites da atuação da jurisdição interna, em situações de internacionalização, falamos que a autoridade judiciária brasileira poderá ter competência internacional EXCLUSIVA ou CONCORRENTE - EXCLUSIVA: somente uma autoridade judiciária brasileira poderá conhecer da causa e caso ela seja decidida por um juízo estrangeiro não será, a sentença, objeto de reconhecimento no Brasil para aqui gerar efeitos 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 24 - CONCORRENTE: tem a autoridade judiciária brasileira competência para julgar a causa, mas caso ela seja decidida por um juízo estrangeiro poderá gerar efeitos aqui no Brasil, depois de devidamente reconhecida. a) Da competência Internacional Concorrente Os artigos 21 e 22 do CPC estabelecem alguns casos de competência internacional concorrente, ditando ser a autoridade judiciária brasileiro competente para julgar a causa, não excluindo, entretanto, a potencialidade dela vir a ser julgada por juízo estrangeiro e, posteriormente, ser reconhecida no Brasil, para que aqui possa gerar os devidos e regulares efeitos. As hipóteses do art. 21 são: I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil; II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação; III - o fundamento seja fato ocorrido ou ato praticado no Brasil. No antigo CPC (1973) somente as causas enumeradas no art. 21 (acima relacionadas) estavam no rol legislativo das demandas que poderiam ser julgadas no Brasil, em competência concorrente e, portanto, relativa. Ocorre que a melhor interpretação doutrinária e jurisprudencial, sempre reinante, é que o rol acima nunca foi exaustivo, sendo consideradas outras hipóteses, outros casos, de relações internacionais que poderiam (podem) ser julgadas por um juízo brasileiro. Assim, o CPC/2015 apresentou, em artigo individualizado (CPC 22), outras hipóteses de competência internacional concorrente, ampliando o rol exemplificativo das hipóteses que um juiz brasileiro poderá julgar uma causa que verse sobre situações internacionais. I - de alimentos, quando: a) o credor tiver domicílio ou residência no Brasil; b) o réu mantiver vínculos no Brasil, tais como posse ou propriedade de bens, recebimento de renda ou obtenção de benefícios econômicos; II - decorrentes de relações de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou residência no Brasil; III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional. b) Da competência Internacional Exclusiva O que se apresenta no art. 23, CPC/2015, são os casos de COMPETÊNCIA INTERNACIONAL EXCLUSIVA DA AUTORIDADE BRASILEIRA, portanto situação de competência internacional absoluta.: I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil; II - em matéria de sucessão hereditária, proceder à confirmação de testamento particular e ao inventário e à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 25 autor da herança seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional; III - em divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional. Somente um juiz brasileiro poderá conhecer das causas enumeradas no referido dispositivo legal e caso, eventualmente, uma das situações descritas venha a ser resolvida por um órgão jurisdicional estrangeiro, o STJ não reconhecerá essa decisão, posto que estará ofendendo a ordem pública interna. c) Da litispendência entre demandas estrangeiras Dos elementos de identificação da demanda Toda e qualquer demanda judicial é identificada por três elementos, um de caráter subjetivo e dois de caráter objetivo, a saber: (i) partes, (ii) causa de pedir, e (iii) pedido. A identidade de causas ocorre quando temos duas (ou mais) demandas que possuem os mesmos elementos de identificação, repetindo nelas as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido (objeto); e causas idênticas geram litispendência ou coisa julgada, levando em consideração estarem as duas demandas em trâmite ou uma delas já ter transitado em julgado. Da inexistência de litispendência entre causas em trâmite perante a jurisdição nacional e a jurisdição estrangeira Nos termos do art.24, salvo regulação internacional (tratados internacionais ou acordos bilaterais em vigor no Brasil), não há que se afirmar da existência de litispendência entre demandas que tramitam no Brasil e demandas idênticas que tramitem perante órgão jurisdicional estrangeiro. Tomemos como exemplo uma demanda tramitando perante um juízo nacional, e outra demanda, idêntica, tramitando perante um juízo estrangeiro, não poderá ser oponível a litispendência como defesa no processo tramitando no Brasil, mesmo que a demanda estrangeira tenha sido proposta anteriormente. Qual o motivo pelo qual não há litispendência entre essas demandas se elas possuem os mesmos elementos de identificação? - Princípio da aderência ao território: CPC: Art. 16. A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições deste Código. - Respeito à soberania Percebam que a lei processual, última parte do caput do art. 24, permite que por tratados internacionais, ou acordos bilaterais, o Brasil aceite a litispendência se uma demanda está tramitando no estrangeiro, mas sempre diante de normas internacionais permissivas da incidência do instituto processual aqui discutido. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 26 d) Foro de Eleição em contratos internacionais O artigo 25, CPC, limita a competência da autoridade judiciária brasileira para as demandas em que exista cláusula de eleição de foro exclusivo de juízo estrangeiro, derivado de um contrato internacional. Cláusulade eleição de foro, resultado da livre manifestação e vontade das partes, determina que outro juízo, que não aquele legalmente previsto, possa processar e julgar determinada demanda. Derivando da primazia do interesse das partes, somente situações de competência relativa podem ser objeto de cláusula de eleição de foro, razão pela qual deverá o réu arguir a incompetência baseada nessa cláusula em contestação, sob pena de preclusão; isso incide, inclusive, nos contratos internacionais. 3.3 COMPETÊNCIA INTERNA: CRITÉRIOS DE DETERMINAÇÃO a) critério territorial de determinação da competência A legislação, para verificação de qual juízo exercerá a função jurisdicional em casos concretos e específicos, leva em consideração a divisão do território nacional e dos Estados Membros da Federação, além do Distrito Federal, em comarcas e em seções judiciárias. Na Justiça Comum, buscamos a comarca. Na Justiça eleitoral, a zona eleitoral. Na Justiça Federal, a seção judiciária e a circunscrição ou subseção b) critério material de determinação da competência Segundo critério a ser analisado, leva em consideração, para verificação do juízo competente, o próprio direito material controvertido. Várias comarcas do Estado possuem mais de uma vara, mais de um juízo, alguns deles especializados em razão de um determinado direito material, ou seja, apenas o critério territorial, muitas vezes, não é suficiente para a correta determinação da competência; necessário verificar, dentre os vários juízos existentes em uma comarca (pensando apenas na justiça estadual), se existe algum diferenciado em razão do direito material controvertido. Justificável a preocupação da lei, em permitir a criação de varas especializadas ditadas pelo direito material debatido no processo, pelo fato de que, nas comarcas maiores, em razão da crescente demanda pela atividade jurisdicional, faça o legislador opção de “especializar” algumas varas tendo como parâmetro o próprio direito material litigioso. Cria-se, assim, por exemplo, as varas específicas para direito criminal, varas especializadas em direito de família, outras especializadas em falência e concordatas, entre outras. Ressaltamos que referido critério também define, constitucionalmente, a eventual apresentação da demanda perante uma compartimentação jurisdicional específica, sendo um grande exemplo a competência material da Justiça do Trabalho. 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 27 c) critério funcional de determinação da competência Critério que leva em consideração a função de determinado órgão jurisdicional, ditando, através de normas esparsas em nosso ordenamento, a competência, para um caso específico, de um juízo competente. O prof. Athos Gusmão Carneiro, citando o prof. Celso Agrícola Barbi, diz tratar-se a competência funcional “da natureza especial das funções que o magistrado é chamado a exercer em um processo”. Aclarando melhor a questão, pesa a exposição do prof. Alexandre Freitas Câmara fazendo referência ao pensamento de Chiovenda: “O critério funcional de fixação de competência a distribui entre diversos órgãos quando as diversas funções necessárias num mesmo processo ou coordenadas à atuação da mesma vontade da lei são atribuídas a juízes diversos ou a órgãos jurisdicionais diversos (competência por graus; cognição e execução; medidas provisórias e definitivas e outras)”. Dá-se, portanto, a competência funcional quando em um único processo, mais de um juízo é chamado a exercer a atividade jurisdicional (ex.: recursos direcionados a tribunais), ou quando um único juízo exerce atividade jurisdicional em mais de um processo (ex.: competência do mesmo juízo da execução para processar e julgar os embargos). d) critério pessoal de determinação da competência Este critério adota, como juízo competente, um juízo específico levando em consideração as partes, ou uma das partes, envolvidas na relação jurídico processual. Grande exemplo dessa situação, de determinação da competência em razão da pessoa, é a competência da justiça federal; outro ponto de destaque da utilização desse critério são as situações de “foros privilegiados”, ou prerrogativa de foro em razão da função, que determina (diante de preceitos constitucionais) que alguns que exercem cargos públicos serão processados e julgados originariamente por Tribunais. e) critério valor da causa de determinação da competência Referido critério é fortemente notado na estruturação do microssistema dos juizados especiais, onde temos, além de outros critérios, a delimitação da atuação dos juizados cíveis estaduais de causas até 40 s.m. e nos juizados federais e da fazenda pública a delimitação de atuação em causas de até 60 s.m. 3.4 INCOMPETÊNCIA Verificado acima os critérios legais para determinação do juízo competente para exercer a função jurisdicional em um caso concreto e específico, um problema se divisa, partindo da apresentação da demanda perante o aparato jurisdicional 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 28 Por força do art. 2º do CPC: (princípio da inércia da jurisdição) o processo civil se inicia com a apresentação da demanda pela parte interessada. Compete, assim, à parte peticionante identificar qual é o órgão da jurisdição que detém competência para processar e julgar a causa que se inicia. Erros, portanto, poderão ocorrer, apresentando o jurisdicionado sua demanda a um juízo que não seria o competente para exercer a função jurisdicional, em detrimento dos ditames legais de determinação. Assim, sendo apresentada uma demanda a um juiz que não seria o competente frente aos critérios legais, passamos a ter o fenômeno da INCOMPETÊNCIA. Podemos conceituar a incompetência, portanto, como um erro perpetrado pelo autor da demanda, voluntária ou involuntariamente, frente à regra determinada na legislação, apresentando sua pretensão perante um juízo que não detém, inicialmente, competência para exercício da função jurisdicional. Ocorrendo a incompetência, deve ser verificado qual o critério legal de determinação não foi observado: territorial, material, valor, função ou pessoa, na medida em que, ferindo um desses critérios, passaremos a ter incompetência absoluta ou relativa. a) Incompetência Absoluta x Incompetência Relativa Alguns critérios de determinação da competência são criados e utilizados diante de questão de ordem pública preponderante; já outros são criados levando em consideração o mero interesse privado das partes envolvidas no litígio. São critérios absolutos: - MATERIAL - FUNCIONAL - PESSOAL São critérios relativos:* - TERRITORIAL - VALOR DA CAUSA *deve ser desde logo destacado que, por expressa determinação legal, é lícito que critérios relativos se tornem critérios absolutos Abaixo apresentamos quadros sistemáticos e explicativos das distinções entre incompetência absoluta e relativa e pontos de aproximação. FATORES DE DISTINÇÃO ABSOLUTA RELATIVA Matéria de ordem pública Primazia de interesse privado Reconhecimento: de ofício ou por arguição da parte Reconhecimento: por arguição da parte 2023 | DIREITO PROCESSUAL CIVIL | 29 Momento: a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição, mesmo após o trânsito em julgado através de ação rescisória Momento: na contestação, sob pena de preclusão FATORES DE IDENTIDADE ABSOLUTA RELATIVA Efeitos quanto a decisões proferidas: decisões válidas e eficazes, até que eventualmente sejam revistas pelo juízo competente Efeitos quanto ao processo: remessa dos autos ao juízo competente b) Critérios Relativos (territorial) que se tornam absolutos Por expressa determinação legal é possível que os critérios vistos como relativos possam se tornar, em situações específicas, absolutos. Três grandes exemplos podem ser destacados: (i) O primeiro no CPC, quando no art. 47, §1º, segunda parte, temos que o autor não tem opção de demandar em outro local, que não o local da coisa quando a