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1 
PRÉ E ORO-REGISTRO DE MEDICAMENTOS 
1 
 
 
 
Sumário 
 
NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 
INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 
INOVAÇÃO NO SETOR FARMACÊUTICO E O DESENVOLVIMENTO 
DE MEDICAMENTOS ........................................................................................ 7 
OS ENSAIOS CLÍNICOS CONTROLADOS .......................................... 10 
QUEDA NA PRODUÇÃO DE NOVOS MEDICAMENTOS .................... 13 
REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS ................................ 16 
O REGISTRO SANITÁRIO DE MEDICAMENTOS ................................ 19 
HARMONIZAÇÃO DOS REGULAMENTOS TÉCNICOS SANITÁRIOS 
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A HARMONIZAÇÃO (ICH) ......... 22 
CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE HARMONIZAÇÃO DA 
REGULAMENTAÇÃO FARMACÊUTICA ......................................................... 24 
HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO SANITÁRIA NO 
MERCOSUL ..................................................................................................... 26 
REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS NOS ESTADOS 
UNIDOS ........................................................................................................... 27 
APLICAÇÃO DE NOVO MEDICAMENTO (NDA) .................................. 34 
PROCESSO DE REVISÃO DA NDA ..................................................... 40 
AGÊNCIA EUROPEIA DE MEDICAMENTOS (EMEA).......................... 40 
REGISTRO DE MEDICAMENTOS NA UNIÃO EUROPEIA .................. 42 
ADMINISTRAÇÃO NACIONAL DE MEDICAMENTOS, ALIMENTOS E 
TECNOLOGIA MÉDICA (ANMAT) ................................................................... 46 
ESTRUTURA DA ANVISA ..................................................................... 52 
REGISTRO DE MEDICAMENTOS NOVOS NA ANVISA ...................... 53 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 55 
2 
 
 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho 
de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de 
cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma 
entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior. 
O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a 
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na 
sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos 
científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, 
transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de 
publicações e/ou outras normas de comunicação. 
Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, 
de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir 
uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, 
conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos 
de qualidade. 
 
 
 
 
3 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
No século XIX os terapeutas adeptos da medicina “ortodoxa” tentavam 
usar as novas ciências biológicas ou médicas segundo princípios hipocráticos 
reconstruídos no Iluminismo e disputavam espaço com outras doutrinas médicas 
como a homeopatia. 
No Brasil, na França e nos Estados Unidos a homeopatia ameaçava a 
anátomo-clínica como uma concorrente de peso. 
Mas a criação de técnicas de prevenção e tratamento etiológico, 
destacando-se as contribuições de Pasteur com bases científicas nítidas, foi 
realmente impressionante para a sociedade do século XIX e contribuíram 
decisivamente para a mudança do paradigma de controle de doenças: a ciência 
médica assumiu a hegemonia na virada do século XIX. 
Segundo Sayd (1998:133): “(...) este prestígio significou a hegemonia 
do médico ortodoxo sobre os demais, adeptos de outros sistemas 
terapêuticos como a homeopatia. 
A linha entre o charlatanismo e uma medicina oficial se tornou nítida e 
modificou inteiramente a situação de competição anterior entre os terapeutas 
(...)” O final do século XIX foi marcado pelo crescimento dos centros urbanos e 
pelo processo de industrialização em várias partes do mundo. 
Somam-se a estas mudanças a proliferação de doenças contagiosas e a 
necessidade de que a classe trabalhadora fosse mantida saudável, já que dela 
dependia o sistema de produção (Costa, 2004). 
No Brasil, a industrialização e o desenvolvimento da ciência e da 
tecnologia tiveram papel decisivo no processo de produção de normas sanitárias 
pelo Estado neste período. Havia uma pressão para que as atividades 
comerciais fossem padronizadas e que os produtos obedecessem algumas 
normas de qualidade. 
A sociedade, preocupada com as denúncias frequentes de adulteração de 
alimentos e medicamentos, pressionava os órgãos públicos para que tomassem 
medidas de controle sanitário (Costa & Rozenfeld, 2000). 
4 
 
 
Coulter (1973, apud Sayd,1998) chama a medicina anátomo-clínica de 
ortodoxa ao narrar a disputa entre a American Medical Association e a 
homeopatia norte-americana. 
A influência do setor industrial neste processo de regulamentação pode 
ser explicada pelo interesse em expandir o mercado para seus produtos já que 
grande parte do comércio era dominada pela produção artesanal, como no caso 
das preparações farmacêuticas de origem vegetal. 
Nas décadas de 30 e 40 os medicamentos industrializados representavam 
menos de 25% dos produtos vendidos nas farmácias (Laporte et al, 1993). 
A importância assumida pela medicina científica e o crescimento da 
produção industrial de medicamentos são fatores que se somam, no início do 
século XX, contribuindo um para a legitimação e valorização do outro: os 
medicamentos eram fabricados segundo os princípios da racionalidade científica 
e somente os terapeutas adeptos deste modelo teriam capacidade de prescrevê-
los (Sayd, 1998). 
O desenvolvimento da química, da fisiologia e da farmacologia básica, 
durante a segunda metade do século XX, associado ao aumento da demanda 
por serviços de saúde, garantiram a introdução de vários produtos farmacêuticos 
no mercado. 
O aumento da utilização de fármacos acentuou-se após a Segunda 
Guerra Mundial e o período entre as décadas de 1940 e 1960 ficou conhecido 
como Idade de Ouro da Indústria Farmacêutica (Barros, 1995). 
Os efeitos benéficos dos medicamentos foram profundamente percebidos 
neste período pela introdução de antibióticos como penicilina e estreptomicina 
que permitiram salvar muitas vidas em condições anteriormente impossíveis 
(Laporte et al, 1993). 
O consumo cada vez maior de medicamentos, induzido maciçamente por 
meio de propagandas e marketing dos produtos, teve como impacto cultural a 
substituição de formas tradicionais de cuidado da saúde, gerando a dependência 
da população pela alopatia, e consequentemente, pela classe médica e 
farmacêutica (Sayd, 1998). 
5 
 
 
Para os dois principais agentes envolvidos na cadeia terapêutica – o 
médico e o paciente – o medicamento passou a ter uma função simbólica: para 
o médico, um medicamento adequadamente prescrito lhe outorgava prestígio e 
reforçava seu poder sobre o paciente, e para o paciente, o sinal de uma boa 
consulta médica tende a ser uma prescrição. 
Os avanços tecnológicos permitiram a fabricação de uma variedade de 
medicamentos que hoje estão presentes no mercado - obtidos de fontes naturais, 
sintetizados nos laboratórios e entende-se por medicamento o produto 
farmacêutico tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, 
curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico (Brasil, 1976). 
Obtidos por processos de biotecnologia - comercializadosdos dados citados na NDA (FDA, 2004c). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
 
 
PROCESSO DE REVISÃO DA NDA 
 
 
 
 
AGÊNCIA EUROPEIA DE MEDICAMENTOS (EMEA) 
A Agência Europeia de Medicamentos (EMEA) foi criada pelo 
Regulamento nº 2309/93 da Comunidade Econômica Europeia (CEE), mas suas 
41 
 
 
atividades só foram iniciadas em fevereiro de 1995. A sede da agência está 
localizada em Londres, na Inglaterra. 
A EMEA é uma das dezesseis agências especializadas (agências 
comunitárias) existentes atualmente no âmbito da Comunidade Europeia, 
organismos públicos criados por meio da legislação europeia que possuem 
personalidade jurídica própria e têm por objetivo a realização de tarefas de 
natureza técnica, científica ou gerencial (Garattini & Bertelle, 2004): 
O "triângulo institucional" formado pelo Conselho da União Europeia, 
Parlamento Europeu e Comissão Europeia é responsável pela elaboração da 
legislação (diretivas, regulamentos e decisões) que se aplica em toda a União 
Europeia e, de forma geral, a Comissão Europeia propõe a legislação que é 
então adotada pelo Conselho e pelo Parlamento. No âmbito da União Europeia, 
a EMEA está subordinada à Diretoria Geral de Empresas da Comissão Europeia 
e não à Diretoria de Saúde Pública e as suas atividades são regulamentadas 
pela legislação europeia (Garattini & Bertelle, 2004). 
A EMEA é composta por um conselho de administração e por um grupo 
técnico. 
O conselho de administração é formado por dois representantes de cada 
Estado-Membro, dois representantes da Comissão Europeia e dois 
representantes indicados pelo Parlamento Europeu. 
O grupo técnico é composto por dois comitês científicos, responsáveis 
pela elaboração dos pareceres sobre questões relacionadas à avaliação dos 
produtos farmacêuticos para uso humano, o Committee for Proprietary Medicinal 
Products (CPMP), e para uso veterinário, o Committee for Veterinary Medicinal 
Products (CVMP) (Garattini & Bertelle, 2004). 
O CPMP é formado por dois representantes de cada país que compõe a 
União Européia (EU), indicados por seus governantes. 
A União Europeia é atualmente formada por vinte e cinco países: 
Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Dinamarca, 
Irlanda, Reino Unido, Grécia, Espanha, Portugal, Áustria, Finlândia, Suécia, 
42 
 
 
Chipre, República Tcheca, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, 
Eslováquia e Eslovênia (Europa, 2005). 
Dentre as principais funções do CPMP estão a avaliação dos pedidos de 
registro de medicamentos feitos pela Indústria Farmacêutica e a emissão do 
parecer, favorável ou não ao registro do medicamento para a Diretoria Geral de 
Empresas da Comissão Europeia. O CPMP 41 pode solicitar o apoio de 
consultores externos para a resolução de questões mais complexas relativas aos 
medicamentos. 
 
 
REGISTRO DE MEDICAMENTOS NA UNIÃO EUROPEIA 
Os procedimentos para registro de medicamentos na União Europeia são 
denominados procedimento centralizado e procedimento descentralizado. Por 
meio destes mecanismos os fabricantes de medicamentos obtêm autorização 
para que seus produtos sejam comercializados em mais de um país na União 
Europeia. Quando o fabricante deseja comercializar seu produto em apenas um 
país da União Europeia, o procedimento escolhido será a solicitação de registro 
nacional (European Commission, 2002). 
O procedimento descentralizado é usado para a solicitação de registro da 
maior parte dos medicamentos. Por meio deste procedimento uma empresa 
farmacêutica solicita a autorização para registro de seu medicamento à 
autoridade sanitária oficial de determinado país da União Europeia e, obtendo o 
registro, a empresa pode solicitar a aprovação para a comercialização do 
medicamento em outros países da Comunidade, baseando-se no princípio do 
reconhecimento mútuo entre os países que compõe a União Europeia. 
Quando um Estado-Membro não reconhece o registro para 
comercialização de um medicamento registrado em outro país da Comunidade, 
a EMEA assume o papel na arbitragem deste processo, cabendo à Comissão 
Europeia tomar a decisão final a partir do parecer emitido pela EMEA (European 
Commission, 2002). 
43 
 
 
O Procedimento Centralizado é realizado quando o fabricante solicita o 
registro do produto diretamente à EMEA. Um registro aprovado por meio do 
procedimento centralizado garante que o medicamento poderá ser 
comercializado em todos os países da União Europeia. Existe um grupo de 
medicamentos que só pode ser comercializado na União Europeia se registrado 
por meio do procedimento centralizado (Parlamento Europeu, 2004). 
1. Medicamentos para uso humano que contenham uma substância ativa nova 
ainda não autorizada na Comunidade Europeia, e cuja indicação terapêutica seja 
o tratamento de uma das seguintes patologias: — síndrome de imunodeficiência 
adquirida, 42 — neoplasias, — doenças neurodegenerativas, — diabetes 
2. Medicamentos desenvolvidos por meio de um dos seguintes processos 
biotecnológicos: — tecnologia do DNA recombinante; — expressão controlada 
da codificação de genes para proteínas biologicamente ativas em procariontes e 
eucariontes, incluindo células mamíferas transformadas; — métodos de 
hibridoma e de anticorpos monoclonais. 
3. Medicamentos designados como medicamentos órfãos, conforme o 
Regulamento (CE) n.o 141/2000 
4. Medicamentos veterinários destinados como potenciadores de rendimento a 
fim de promover o crescimento dos animais tratados ou aumentar a sua 
produtividade. 
Os medicamentos que não se enquadram nas categorias listadas acima 
podem obter autorização de introdução no mercado concedida pela EMEA se o 
solicitante do registro demonstrar que o medicamento constitui uma inovação 
significativa no plano terapêutico, científico ou técnico, capaz de justificar uma 
concessão de registro comunitário (Parlamento Europeu, 2004) 
Quando o medicamento representa um grande interesse do ponto de vista 
da saúde pública, principalmente quando se refere a uma inovação terapêutica, 
o requerente pode solicitar um procedimento de avaliação acelerado para o seu 
produto, devendo o pedido ser devidamente fundamentado. 
Se o CPMP aceitar o pedido, o prazo para emissão do parecer para a 
Comissão Europeia é reduzido de 210 dias para 150 dias (Parlamento Europeu, 
44 
 
 
2004). Os fabricantes de medicamentos que desejam solicitar o registro de seus 
produtos na EMEA devem entregar o dossiê do produto contendo informações 
referentes à qualidade, segurança e eficácia do medicamento e estas 
informações devem estar organizadas em módulos (referentes à qualidade, 
segurança e eficácia) que compõem o Documento Técnico Geral (CTD) para o 
Registro de Medicamentos de Uso Humano (Comissão Europeia, 2002). 
O solicitante de registro de medicamento na EMEA é obrigado a fornecer 
também os dados sobre a comercialização do medicamento em outros países, 
qualquer resultado novo ou diferente sobre a segurança do medicamento e sobre 
as ações regulatórias relacionadas à segurança do mesmo. Além destas 
informações, o solicitante deverá também apresentar no CTD as conclusões 
sobre os riscos e benefícios do medicamento, quando o mesmo é comparado 
com alternativas farmacológicas disponíveis para tratamento da doença ou com 
nenhum tratamento farmacológico, quando esta for uma opção clinicamente 
aceitável. 
No caso de medicamentos que contenham substâncias ativas presentes 
na composição de medicamentos já comercializados, mas que ainda não tenham 
sido associadas para fins terapêuticos, devem ser fornecidos os resultados dos 
novos ensaios pré-clínicos ou clínicos relativos à associação (Parlamento 
Europeu, 2004). 
As autoridades sanitárias responsáveis pela fiscalização das empresas 
produtoras dos medicamentos registrados na EMEA são as autoridades dos 
Estados-Membro que concederam a autorização de fabricaçãodo medicamento. 
A inspeção nestas empresas pode ser realizada durante o processo de 
avaliação do pedido de registro do medicamento. 
Os critérios adotados pela agência europeia para desenvolvimento e 
registro de medicamentos na União Europeia são influenciados atualmente pelo 
processo de harmonização dos regulamentos técnicos sanitários, descrito 
anteriormente. 
45 
 
 
Desta forma, os manuais elaborados pela EMEA para orientação das 
empresas farmacêuticas contêm regras para a fabricação e registro de 
medicamentos que já foram harmonizadas com outros países. 
Etapas do processo de registro de medicamentos na EMEA: O 
procedimento para registro de medicamentos na EMEA pode ser resumido nas 
seguintes etapas (Garattini & Bertelle, 2004): 
1- Etapa de Validação: até o 15º dia após o recebimento do pedido de 
registro o secretariado da EMEA verifica se o dossiê apresentado pelo 
solicitante contém todas as informações necessárias à avaliação técnica. 
2- Avaliação do CPMP: dois membros do CPMP são selecionados como 
relatores (indicados geralmente pelo fabricante e pelo próprio CPMP). 
Estes relatores são responsáveis pela coordenação das atividades de 
avaliação do dossiê, pelo contato com o fabricante, pela solicitação de 
informações necessárias durante o processo de avaliação e pela 
apresentação do relatório de avaliação à equipe do CPMP. O CPMP emite 
o parecer para a Comissão Europeia geralmente 7 meses após a entrada 
do pedido de registro na EMEA. 
3- Decisão da Comissão Europeia: a Comissão Europeia tem três meses 
após o recebimento do parecer do CPMP para decidir se concorda ou não 
com o Comitê. A decisão é obtida por consenso entre os integrantes ou 
pelo voto da maioria (aproximadamente 300 dias após a entrada do 
pedido de registro na EMEA). 
4- Nos casos em que o pedido de registro é negado, a empresa pode entrar 
com recurso que será avaliado pelo CPMP depois de terem sido indicados 
dois relatores, reiniciando o processo. 
O registro sanitário de medicamentos na União Europeia deve ser 
renovado cinco anos após a concessão do registro e, a partir de então, possui 
validade ilimitada. Além disso, qualquer autorização não utilizada durante três 
anos consecutivos, isto é, que não tenha dado origem à introdução de um 
medicamento no mercado dos Estados-Membros durante este período, é 
considerada caducada (Parlamento Europeu, 2004). 
 
46 
 
 
 
ADMINISTRAÇÃO NACIONAL DE MEDICAMENTOS, 
ALIMENTOS E TECNOLOGIA MÉDICA (ANMAT) 
A Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia 
Médica (ANMAT) foi criada na Argentina por meio do Decreto Presidencial nº 
1490, de 20/08/1992. 
Naquele período foi realizada na Argentina uma série de atividades com 
vistas à revisão e adequação das funções básicas do Estado e a criação da 
agência ocorreu em observância ao Decreto Presidencial nº 1269/92, que 
estabeleceu as Políticas de Saúde na Argentina, denominadas Políticas 
Substantivas (Argentina, 1992a). 
A quarta e última Política Substantiva do referido Decreto tem como um 
dos seus objetivos: “(...) adecuar la estructura de la SECRETARIA DE SALUD a 
fin de posibilitar a dicho organismo el desarrollo de las líneas estratégicas de 
transformación propuestas, favoreciéndose así la conformación de un ente 
técnico con capacidad para liderar la salud en el desarrollo con equidad, 
implementar la planificación estratégica en normatización, en fiscalización y 
conducción superior, y garantizar una efectiva acción sanitaria en todo el ámbito 
nacional, poniéndose énfasis en el desarrollo de las acciones de promoción y 
protección (ítem 4.1.1.)”. 
A ANMAT é um órgão descentralizado, uma autarquia com autonomia 
financeira e suas atividades possuem abrangência nacional. Está ligada 
administrativamente à Secretaria de Políticas de Saúde e Fiscalização Sanitária 
do Ministério da Saúde e Ação Social da Argentina, responsável pela elaboração 
das normas técnicas e científicas que norteiam as atividades da agência. 
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA) Regulação 
sanitária de medicamentos no Brasil – antecedentes. As primeiras 
regulamentações na área de medicamentos surgiram no Brasil no início do 
século XX, período em que se faziam muitas denúncias sobre a qualidade dos 
medicamentos e dos alimentos presentes no mercado nacional, como descrito 
por Monteiro Lobato em 1918: “Em matéria de drogas nem é bom falar. 
47 
 
 
Iodofórmio adulterado com enxofre. Emetina fabricada com sais de quina. 
Quinino e aspirina feitos com lactose. Óleos minerais e medicinais clarificados 
com ácido sulfúrico impuríssimo, contendo arsênico. E, cúmulo, 914 em ampolas 
que não passa de finíssimo fubá de milho amarelo. São Paulo virou o paraíso da 
fraude bromatológica. Indefesa como está a cidade, confiada a uns fiscais que 
fiscalizam para si, os desalmados envenenam-se por todas as vias e amontoam 
fortunas colossais à custa da saúde alheia. São duas coisas que, arre! Valem a 
pena: falsificar e fiscalizar” (Lobato, 1964 apud Rozenfeld, 1998). Este período é 
caracterizado pelo crescimento econômico do país, impulsionado pela produção 
de café e o aquecimento do comércio internacional. As cidades portuárias 
receberam atenção especial: era necessário que suas estruturas sanitárias 
estivessem em condições adequadas, pois eram rotas de exportação de 
produtos para várias partes do mundo e porque assim favoreciam a vinda de 
imigrantes para o aumento da força de trabalho. Mas os problemas sanitários 
não foram resolvidos de imediato e epidemias, como a febre amarela, tornaram-
se sérias ameaças à população e à economia do país (Costa, 2004). 
Oswaldo Cruz assume o comando da Diretoria Geral de Saúde Pública 
(DGSP) e em 1904 é aprovado o Decreto nº 5.156 que estabelecia o novo 
Regulamento dos Serviços Sanitários da União, contendo normas para o 
controle sanitário no país. Na área de medicamentos foi elaborada, em 1918, 
uma política de medicamentos oficinais e no Instituto Oswaldo Cruz passaram a 
ser produzidos medicamentos para o controle de doenças endêmicas e 
epidêmicas, como a quinina para o tratamento da malária (Costa, 2004). Em 
1920 é criado o Departamento 55 Nacional de Saúde Pública (DNSP) e em 1923 
foi editado um importante documento sanitário no país, o Decreto nº 16.300, que 
permaneceu por muitos anos como o Regulamento Sanitário Federal. Em 
relação ao controle sanitário sobre os medicamentos, o DNSP, por meio do 
referido Decreto, tinha como competência (Costa, 2004:126). “(...) a fiscalização 
de produtos farmacêuticos (...) expostos à venda e são estabelecidas multas e 
penas de prisão inafiançáveis para os falsificadores de alimentos e outros 
produtos sob o controle do DNSP, como medicamentos e produtos biológicos.” 
Ainda segundo a autora, a venda de preparados farmacêuticos, 
antissépticos e desinfetantes, nacionais ou importados, só poderia ocorrer a 
48 
 
 
partir da licença concedida pelo DNSP. O Decreto não continha exigências sobre 
a eficácia e segurança dos produtos – o fabricante detinha a credibilidade sobre 
estes atributos. No que se refere ao controle da produção de medicamentos, o 
Decreto Federal nº 19.606/1931 estabeleceu as normas para o controle sanitário 
e para a atuação da Indústria Farmacêutica no Brasil (Zubioli, 1992 apud 
Rozenfeld, 1998). Neste Decreto reafirma-se a necessidade de licenciamento 
prévio à produção e comercialização de produtos farmacêuticos e outros 
produtos de interesse da saúde quando fabricados por particulares (Costa, 
2004). Em 1941 foi criado o Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina 
(SNFM) por meio do Decreto 3.171 e em 1942 são criadas as Comissões de 
Biofarmácia e a Comissão de Revisão da Farmacopeia. 
Segundo Costa & Rozenfeld (2000) a Comissão de Biofarmácia foi 
responsável pela elaboração de várias normas que restringiram a 
produção e a comercialização de produtosneste período. Nas décadas 
de 30 e 40 houve um expressivo desenvolvimento do ramo 
químicofarmacêutico no Brasil, que foi acompanhado da criação de um 
importante regulamento para a Indústria Farmacêutica – o Decreto nº 
20.397/46. Este Decreto apresentava normas para as especialidades 
farmacêuticas, produtos oficinais e biológicos, produtos psicotrópicos 
e entorpecentes, produtos químico-farmacêuticos, antissépticos e 
desinfetantes e normas para o funcionamento dos estabelecimentos 
fabricantes destes produtos. 
Segundo Costa (2004), o referido Decreto não apresentava exigências 
que dificultassem o licenciamento das especialidades farmacêuticas, 
este era concedido desde que houvesse a legalização do 56 
estabelecimento produtor e do responsável técnico. A licença para o 
medicamento tinha validade de dez anos, fim dos quais deveria ser 
renovada. O processo de licenciamento era baseado no Relatório 
Técnico do medicamento e não eram exigidas informações referentes 
às contraindicações, eficácia e segurança do produto. 
Nas décadas de 60 e 70 o Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina 
e Farmácia (antigo SNFM) e a Comissão de Biofarmácia do Ministério da Saúde 
proscreveram ou restringiram vários produtos presentes no mercado brasileiro. 
Em 1971 foi criada a Central de Medicamentos (CEME) que tinha como funções 
a regulação da produção e da distribuição de medicamentos em todo o país. A 
década de 70 foi muito importante historicamente para ao campo da vigilância 
49 
 
 
sanitária brasileira, pois neste período foram criadas importantes normas, como 
as Leis 5.991/73 e 6.360/76. 
A Lei 5.991/73 (Brasil, 1973) revogou o Decreto Federal nº 19.606, de 
1931, e estabeleceu o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos, 
insumos farmacêuticos e correlatos. Esta Lei incorporou o termo medicamento 
no lugar de especialidade farmacêutica (Costa, 2004). Na reforma administrativa 
promovida pelo governo do presidente Ernesto Geisel, em 1976, o controle de 
produtos foi agregado ao controle dos portos, aeroportos e fronteiras e estas 
atividades foram identificadas como pertencentes à área de vigilância sanitária. 
Neste período a fiscalização do exercício profissional, um dos primeiros objetos 
de regulamentação e controle sanitário estatal, passou a ser realizada pelos 
conselhos das respectivas profissões e um grande número de estabelecimentos 
de prestação de serviços era objeto de vigilância sanitária estadual e municipal 
(Lucchese, 2001). 
A Lei 6.360, de 1976, estabeleceu normas sanitárias para medicamentos, 
drogas, insumos farmacêuticos, cosméticos, produtos de higiene e perfumes, 
saneantes domissanitários e seus elementos (embalagens e rotulagem), 
estabelecimentos produtores, meios de transporte e propaganda. Introduziu 
também o termo vigilância sanitária em seu sentido amplo, não restrito ao 
conceito de fiscalização, incluiu o elemento qualidade como componente da 
vigilância sanitária de produtos e os fabricantes de medicamentos ficaram 
obrigados a informar à autoridade sanitária as reações nocivas provocadas pelo 
uso de seus produtos (Brasil, 1976). 
Os primeiros anos da década de 80 foram marcados pelo Movimento 
Sanitário que apresentava propostas reformistas para o setor saúde no Brasil. 
Neste período, alguns profissionais envolvidos no referido “Movimento” foram 
convocados para atuar em importantes 57 setores ligados à saúde e houve 
também uma aproximação entre os profissionais de vigilância sanitária, os 
demais profissionais da saúde e as organizações de consumidores. No ano de 
1986 ocorreram dois importantes eventos: a 8ª Conferência Nacional de Saúde 
e a Conferência Nacional de Saúde do Consumidor, esta última tendo sido 
definida por Costa (2004) como o “mais significativo e amplo debate sobres as 
questões do campo sanitário”. Na área dos medicamentos foram publicadas 
50 
 
 
duas importantes normas direcionadas para as substâncias e produtos cujo uso 
deveria ser controlado: as Portarias DIMED nº 27 e nº 28, de 1986, que estiveram 
em vigência até final década de 90. No início da década de 90 o Governo do 
presidente Fernando Collor de Melo promoveu a primeira etapa da Reforma do 
Estado brasileiro, caracterizada, dentre outros fatores, pela redução do tamanho 
do Estado, desmonte das instituições de protecionismo e estatismo, liberalização 
do comércio internacional e do investimento estrangeiro, desregulamentação do 
setor privado e privatizações de várias empresas estatais. 
A Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), então vigente, foi 
também atingida pela onda de reformas – a prioridade era a agilidade 
administrativa e o atendimento dos pedidos das empresas. O número de 
funcionários da SNVS foi reduzido, ainda que insuficiente para o atendimento da 
demanda existente (Lucchese, 2001). Em agosto de 1990 o Governo Federal 
lançou o Projeto Inovar e, segundo Costa & Rozenfeld (2000) “(...) neste período 
foram liberados irregularmente registros para uma grande quantidade de 
produtos, principalmente medicamentos, desconsiderando-se a importância das 
análises técnico-científicas. ” Os primeiros anos da década de 90 foram bastante 
conturbados para SNVS. 
A mudança frequente dos Secretários não permitia a continuidade das 
ações que se pretendiam implementar na área, denúncias de corrupção e o 
desgaste dos profissionais que trabalhavam na SNVS revelavam a necessidade 
de uma discussão mais séria sobre quais seriam os rumos da vigilância sanitária 
no Brasil. 
Em meio ao estado de crise, em setembro de 1990 foi publicada a Lei 
8.080 – Lei Orgânica da Saúde – que definiu a Vigilância Sanitária como: “(...) 
um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e 
de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção 
e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde.” 
Publicada em 26 de agosto de 1994, a Portaria GM nº 1.565 estabeleceu 
o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, definindo a abrangência do sistema, 
a distribuição das competências entre a União, estados e municípios, os 
procedimentos para a articulação política e administrativa destas três esferas de 
51 
 
 
governo no Sistema Único de Saúde e as bases para a descentralização das 
ações de vigilância sanitária. 
Em janeiro de 1995, no início do primeiro Governo Fernando Henrique 
Cardoso, a nova direção da SNVS tinha como objetivo dar continuidade ao 
projeto de reestruturação completa da vigilância sanitária federal e transformar 
a SNVS em uma autarquia de caráter especial. 
Diante das pressões do seguimento produtivo e enfrentando sérios 
problemas, como a falsificação de medicamentos, o projeto de criação de uma 
agência regulatória forte ganhou destaque naquele período. 
O processo de reformulação da SNVS foi concluído em janeiro de 1999 
quando então foi aprovada no Congresso Nacional a Medida Provisória nº 1.791 
que resultou na Lei nº 9.782, de 26/01/1999. Esta Lei definiu o Sistema Nacional 
de Vigilância Sanitária e criou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - 
ANVISA. A partir deste fato o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária ficou 
formado pelos seguintes órgãos: ANVISA, Conselho Nacional de Secretários 
Estaduais de Saúde (CONASS), Conselho Nacional de Secretários Municipais 
de Saúde (CONASEMS), Centros de Vigilância Sanitária Estaduais, do Distrito 
Federal e Municipais (VISAS), Laboratórios Centrais de Saúde Pública 
(LACENS), Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), 
Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Conselhos Estaduais, Distrital e 
Municipais de Saúde. Momento atual - A Agência Nacional de Vigilância 
Sanitária (ANVISA) A ANVISA, definida pela Lei 9.782 como uma agência 
regulatória – uma autarquia sob regime especial, vinculada ao Ministério da 
Saúde e caracterizada pela independência administrativa, estabilidadede seus 
dirigentes e autonomia financeira, é responsável pela coordenação do Sistema 
Nacional de Vigilância Sanitária. 
Os órgãos de vigilância sanitária estaduais ligados às secretarias 
estaduais de saúde são responsáveis pela coordenação das ações de vigilância 
sanitária no âmbito estadual e executam as principais ações de fiscalização do 
sistema nacional. 
Os órgãos de vigilância sanitária municipais são responsáveis pela 
execução das ações sanitárias locais, como o licenciamento e o monitoramento 
52 
 
 
de estabelecimentos comerciais, de criadouros de animais em áreas urbanas e 
de prestadores de serviços de interesse da saúde. 
No que se refere às competências da ANVISA, além da coordenação do 
Sistema, a Lei nº 9.782 (Brasil, 1999), em seu Artigo 7º, definiu uma série de 
outras atividades: estabelecer normas, propor, acompanhar e executar as 
políticas, as diretrizes e as ações de vigilância sanitária; autorizar o 
funcionamento de empresas de fabricação, distribuição, importação e 
comercialização dos produtos relacionados na referida lei; conceder registros de 
produtos; coordenar as ações de vigilância sanitária realizadas por todos os 
laboratórios que compõem a rede oficial de laboratórios de controle de qualidade 
em saúde e fomentar o desenvolvimento de recursos humanos para o sistema e 
a cooperação técnico-científica nacional e internacional. 
O registro de medicamentos como atividade competente ao órgão federal 
de vigilância sanitária já havia sido enfatizada pela Política Nacional de 
Medicamentos (PNM), aprovada pela Portaria 3.916, de 30/10/1998, alguns 
meses antes da aprovação da Lei nº 9782. 
A PNM definiu o registro de medicamentos como “ato privativo do órgão 
competente do Ministério da Saúde destinado a conceder o direito de fabricação 
do produto no país” (MS, 2001). 
 
 
ESTRUTURA DA ANVISA 
A ANVISA é formada por uma Diretoria Colegiada, responsável por sua 
direção, uma Procuradoria, uma Corregedoria, uma Ouvidoria, um Conselho 
Consultivo e unidades especializadas responsáveis por diferentes atividades. 
A unidade da ANVISA atualmente responsável pelo processo de 
avaliação dos pedidos de registro de medicamentos novos é a Gerência de 
Medicamentos Novos, Pesquisa e Ensaios Clínicos (GEPEC), ligada à Gerência 
Geral de Medicamentos (GGMED) que por sua vez está subordinada à Direção 
da agência. 
53 
 
 
A GGMED é composta ainda pela Gerência de Medicamentos Genéricos, 
Gerência de Isentos, Fitoterápicos e Homeopáticos, Gerência de Medicamentos 
Similares, Unidade de Produtos Biológicos e Hemoterápicos, Unidade de 
Farmacovigilância e Unidade de Produtos Controlados. A GEPEC possui uma 
série de competências dentro da agência (ANVISA, 2000): planejar, coordenar, 
orientar e fomentar as atividades técnicas e operacionais relativas a produtos 
sujeitos a vigilância sanitária em pesquisas envolvendo seres humanos; planejar, 
coordenar e orientar as atividades técnicas e normativas relativas ao registro de 
medicamentos novos e analisar e emitir parecer circunstanciado e conclusivo 
nos processos referentes a registro de medicamentos novos, tendo em vista a 
identidade, qualidade, finalidade, atividade, eficácia, segurança, risco, 
preservação e estabilidade dos produtos sob o regime de vigilância. 
 
 
REGISTRO DE MEDICAMENTOS NOVOS NA ANVISA 
O registro de medicamentos novos na ANVISA é atualmente 
regulamentado pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) da ANVISA nº 136, 
de 29 de maio de 2003. 
O Regulamento Técnico estabelecido por meio desta RDC, definido como 
“Regulamento Técnico para Medicamentos Novos ou Inovadores com Princípios 
Ativos Sintéticos ou Semissintéticos”, deve ser aplicado para (ANVISA, 2003a): 
1. Registro de medicamentos novos com princípios ativos sintéticos ou 
semissintéticos associados ou não; 
2. Registro de novas formas farmacêuticas, novas concentrações, nova via de 
administração e indicações no País com princípios ativos sintéticos ou 
semissintéticos por parte de empresas não detentoras de registro inicial 
daquele(s) principio(s) ativo(s); 
3. Registro de produto resultante de: 
3.1. Alteração de propriedades farmacocinéticas; 
54 
 
 
3.2. Retirada de componente ativo de produto já registrado; 
3.3. Sais novos, isômeros, embora a entidade molecular correspondente já tenha 
sido autorizada. 
Na primeira parte do Regulamento são apresentadas as exigências 
anteriores à etapa de registro, referentes à procedência do medicamento e aos 
ensaios clínicos com o mesmo. 
Se o produto novo a ser registrado for de origem nacional o fabricante 
deve apresentar os protocolos de pesquisa clínica e os resultados do andamento 
destas pesquisas. 
Para os medicamentos novos fabricados fora do país (importados), cujos 
fabricantes desejam fazer os estudos clínicos de Fase III no Brasil, é necessária 
a apresentação do protocolo de pesquisa e os resultados de seu andamento. 
A terceira situação refere-se à realização de estudos de Fase III com 
medicamento de origem estrangeira que terminará de ser fabricado no Brasil, 
neste caso o fabricante deverá notificar a agência para a produção de lotes 
piloto. 
No ato do protocolo de pedido de registro a empresa deverá apresentar, 
dentre outros documentos, a cópia do protocolo da notificação da produção de 
lotes-piloto e o Certificado de Boas Práticas de Fabricação e Controle (BPFC) 
emitidos pela ANVISA para a linha de produção na qual o produto classificado 
como medicamento novo será fabricado, ou ainda, cópia do protocolo de 
solicitação de inspeção para fins de emissão do referido certificado. 
 
 
 
 
 
 
55 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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com las modificacionaes de los Decretos nº 1.890/92 y 177/93). Normas para el 
Registro, Elaboracion, Fraccionamiento, Prescripcion, Expendio de 
Medicamentos.05/08/05. http://www.anmat.gov.ar/principal.htm 
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56 
 
 
R. Laporte, G. Tognoni & S. Rozenfeld), pp. 43-56, São Paulo – Rio de Janeiro: 
Hucitec-Abrasco.em diferentes 
formas farmacêuticas como comprimidos, cápsulas, xaropes, injetáveis, sprays, 
adesivos transdérmicos e cremes. 
A grande variedade de apresentações comerciais dos medicamentos 
permite que o paciente tenha à sua disposição formas farmacêuticas de uso mais 
conveniente ao tratamento, contribuindo para adesão ao mesmo. 
Entretanto, passados os anos de euforia da Idade de Ouro, houve um 
grande período de letargia no que se refere à descoberta de fármacos que 
representassem avanços terapêuticos efetivos e um incremento de “novidades” 
que não passavam de uma nova roupagem dada a produtos já existentes no 
mercado (Barros, 1995). 
Esta situação apresenta-se como um problema para os sistemas de 
saúde, pois estes medicamentos, registrados pelas autoridades sanitárias são 
anunciados por seus fabricantes como medicamentos novos e acabam 
“conquistando” muitos profissionais de saúde. 
Neste sentido, Dupuy & Karsenty (apud Barros, 1995:29) afirmam que: 
“(...) prescrever a última novidade lançada no mercado significa 
“competência”, o que favorece a boa imagem do médico pois assim ele 
estará buscando uma eficácia maior para o tratamento; e mesmo a 
indicação de produtos mais antigos pode provocar no paciente a ideia 
de que seu caso não está merecendo o interesse que esperava.” 
6 
 
 
Mas uma questão importante não pode ser desconsiderada: os 
medicamentos também podem representar riscos à saúde, causar sérios danos 
ao organismo dos indivíduos e, em casos extremos, até a morte. 
A vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo é reforçada 
pelo que se define como assimetria de informação (Piovesan, 2002: 60): “(...) 
impossibilidade das pessoas disporem de todas as informações necessárias 
para orientar suas escolhas de consumo, os produtores e prestadores dispõem 
de informações sobre produtos e serviços que a população não possui.” 
Neste cenário, o registro sanitário de medicamentos torna-se um 
importante instrumento de regulação sanitária por meio do qual o Estado deve 
atuar como mediador entre os interesses das empresas produtoras de 
medicamentos, que desejam registrar seus produtos, e os interesses da saúde 
pública, zelando por sua defesa e proteção. 
A regulação exercida pelo Estado é definida por Camargo (apud 
Piveosan, 2002:56) como: “Uma função típica da materialização de 
políticas públicas, pois por meio delas procura-se estabelecer uma 
ponderação de interesses aparentemente conflitantes em situações 
que comprometem o equilíbrio das relações entre agentes econômicos 
e usuários ou consumidores.” 
Uma das principais ações de proteção à saúde dos futuros consumidores 
é, portanto, a avaliação da solicitação de registro de medicamentos, devendo 
esta ser conduzida com a responsabilidade e o rigor necessários, uma vez que 
alguns dos efeitos dos medicamentos somente serão identificados após o uso 
prolongado e por um número significativo de pessoas, cada qual com sua 
singularidade. 
Tendo em vista a importância da entrada de novos medicamentos nos 
mercados considerou-se oportuno fazer inicialmente uma breve abordagem 
sobre a inovação no setor farmacêutico, para em seguida analisar, o processo 
de registro de medicamentos novos nos Estados Unidos, na Comunidade 
Europeia, na Argentina e no Brasil, assim como os registros de medicamentos 
novos, concedidos no Brasil, entre os anos de 2000 e 2002. 
 
7 
 
 
 
INOVAÇÃO NO SETOR FARMACÊUTICO E O 
DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS 
A inovação tecnológica é um componente fundamental para as empresas 
que desejam competir no mercado atual e é obtida por meio de investimentos 
em atividades de pesquisa e desenvolvimento. Existem dois tipos de inovação: 
inovação não-linear e inovação linear (Schmid, 2002). Um exemplo perfeito de 
inovação não-linear foi a descoberta da penicilina. 
Em 1928, trabalhando com o vírus Influenza o pesquisador Alexander 
Fleming observou que não havia crescimento da cultura de Staphilococcus 
aureus ao redor de certas regiões da placa de cultura contaminadas por fungo. 
 Fleming não pretendia descobrir um agente bactericida, mas por suas 
observações e deduções acabou descobrindo a penicilina e abrindo caminho 
para o tratamento de uma série de infecções. 
A inovação linear ou lógica, por sua vez, é aquela inovação baseada em 
um conhecimento prévio, a partir do qual se somam avanços incrementais. 
Segundo Schmid, a inovação linear é uma forma de inovação orientada, com 
objetivos bem definidos. Um exemplo deste tipo de inovação na Indústria 
Farmacêutica é o avanço em terapias existentes pela descoberta de 
medicamentos mais seguros e eficazes a partir de uma mesma classe 
terapêutica. 
No setor farmacêutico a inovação é um processo bastante variado e 
contínuo, podendo ocorrer de duas formas: produção de medicamentos cujos 
fármacos são novas entidades moleculares ainda não comercializadas e o 
desenvolvimento de medicamentos que já estão no mercado por meio de 
pequenas alterações nos mesmos (NIHCM Foundation, 2002). Estas alterações 
podem melhorar o perfil farmacocinético do medicamento, aumentando sua 
absorção, diminuindo o número de doses diárias do medicamento, dentre outros 
benefícios. 
8 
 
 
Em alguns casos, as pesquisas com medicamentos reconhecidamente 
eficazes levam à descoberta de uma nova indicação terapêutica para o mesmo, 
alterando-se apenas a concentração do fármaco no medicamento. 
A aspirina (ácido acetilsalicílico) é um exemplo de medicamento antigo, 
usado inicialmente como analgésico, antitérmico e anti-inflamatório, que teve seu 
uso expandido para a prevenção de doenças cardiovasculares, como angina 
pectoris, trombose venosa e episódio isquêmico transitório devido a sua 
capacidade de inibição da atividade plaquetária (NAF/ENSP, 2002). 
Segundo Schmid (2002) dificilmente o primeiro medicamento para o 
tratamento de uma nova doença apresentará todas as propriedades 
que o tornem bem aceito pelos médicos e pacientes e, até atingir o 
status ideal, são necessários de 10 a 15 anos de comercialização. 
Ainda segundo o autor esta “otimização” é realizada pela Indústria 
Farmacêutica por meio de inovações incrementais nos medicamentos 
já comercializados. 
O termo é usado para o lançamento de produtos genuinamente novos e 
para produtos originados de alterações em produtos já comercializados. 
A Sociedade Internacional de Boletins sobre Medicamentos (ISDB), em 
sua Declaração sobre o Avanço Terapêutico no Uso de Medicamentos (ISDB, 
2001,) definiu a inovação de medicamentos por meio de três conceitos: 
a) Conceito comercial: qualquer produto "me-too" recém-comercializado, novas 
substâncias, novas indicações, novas formulações, e novos métodos de 
tratamento. 
b) Conceito tecnológico: qualquer inovação industrial, uso de biotecnologia, 
introdução de um novo sistema de liberação da substância (adesivo, aerossol, 
etc) ou a seleção de um isômero ou um metabólito. 
c) Conceito de avanço terapêutico: um novo tratamento que beneficia o paciente 
quando comparado a opções previamente existentes. 
Arnau & Laporte (1989) apresentam uma classificação qualitativa dos 
medicamentos segundo seu valor terapêutico potencial: valor 
“elevado”, valor “relativo”, valor “duvidoso/nulo” e valor “inaceitável”. 
9 
 
 
Medicamentos de valor elevado são definidos pelos autores como aqueles 
cuja eficácia foi demonstrada em ensaios clínicos controlados e também por 
aqueles que não foram avaliados em ensaios clínicos controlados, mas cujo uso 
está justificado por apresentarem efeitos imediatos e óbvios. 
Medicamentos de valor relativo são aqueles que, apesar de possuírem um 
princípio ativo de valor potencial elevado, possuem também uma ou mais 
entidades químicas com eficácia terapêutica duvidosa; os medicamentos de 
valor relativo são aqueles cuja eficácia Me-too drug (medicamento similar; "eu 
também"): medicamento cuja estruturaquímica é similar ao medicamento de 
referência e cujo perfil farmacológico e terapêutico não difere significativamente 
deste. 
(ISDB,2001) ainda não foi demonstrada de maneira convincente em 
ensaios clínicos controlados, para os quais não foram associados efeitos 
indesejáveis graves ou frequentes e os medicamentos classificados como de 
valor inaceitável são aqueles que, devido sua composição, apresentam uma 
relação risco/benefício claramente desfavorável em todas as circunstâncias. 
Sob o ponto de vista da saúde pública, definir a inovação de um 
medicamento a partir do conceito de avanço terapêutico é, sem dúvida, a melhor 
forma para se avaliar um novo medicamento. 
A “novidade” usada pelos fabricantes na propaganda de seus 
medicamentos exerce forte influência sobre os profissionais de saúde e sobre os 
pacientes que, na maioria das vezes, passam a indicá-los e/ou utilizá-los sem ter 
acesso às informações sobre as verdadeiras vantagens (ou desvantagens) 
terapêuticas trazidas pelos novos medicamentos. Mas para que um novo 
medicamento esteja disponível no mercado atualmente são necessárias várias 
etapas que incluem a pesquisa básica, os ensaios pré-clínicos (em culturas de 
células e com animais), os ensaios clínicos em seres humanos e a aprovação 
para comercialização. 
 
 
10 
 
 
OS ENSAIOS CLÍNICOS CONTROLADOS 
A Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos dos Estados Unidos, 
aprovada em 1938, norteia as atividades de regulação da FDA (FDA, 1938), 
tendo sido aprovadas algumas emendas importantes a esta lei como a Emenda 
Kafauver-Harris, em 1962. 
Dentre as exigências estabelecidas pela referida Lei está a garantia de 
segurança dos medicamentos antes da comercialização. A Lei conferiu maiores 
poderes e responsabilidades a FDA e definiu que não mais o governo e sim os 
fabricantes dos medicamentos deveriam comprovar a segurança dos mesmos 
antes da comercialização naquele país. 
Mas para que a agência americana pudesse proceder à avaliação clínica 
da segurança dos novos medicamentos foi necessário um grande esforço inicial, 
pois não havia naquele período parâmetros pré-estabelecidos para o tipo de 
pesquisa que se pretendia e eram marcantes a relatividade e a ambiguidade 
incorporadas à definição de segurança dos medicamentos naquele período. 
A segurança era um atributo relativo, sua avaliação realizada por meio de 
julgamento valorativo – incorporando subjetividade – e não apenas por medidas 
objetivas contidas nos padrões de toxicidade vigentes. Neste cenário de 
“incertezas metodológicas” os ensaios clínicos foram definidos pelos técnicos da 
FDA como a única forma para determinar a segurança dos novos medicamentos 
(Oliveira, 2001). 
Os padrões de referência para a realização de ensaios clínicos 
controlados foram estabelecidos pela FDA em 1970, sendo definidas exigências 
metodológicas como (Marks, 1997 apud Oliveira, 2001): alocação aleatória 
(randomização) dos indivíduos nos grupos do estudo; necessidade de grupo 
controle e elaboração do protocolo de pesquisa permitindo proceder à análise 
quantitativa usando métodos estatísticos adequados. 
Os ensaios clínicos controlados são definidos como estudos 
experimentais analíticos que partem da causa (exposição ao medicamento) para 
o efeito por meio da observação e acompanhamento dos grupos experimental e 
controle. 
11 
 
 
A intervenção que se deseja avaliar é realizada em apenas um dos grupos 
(experimental) – o outro grupo (controle) é usado como padrão para a 
comparação dos resultados (Oliveira, 2001). 
Ainda que a realização dos ensaios clínicos tenha sido um passo 
importante no processo de regulação farmacêutica é importante salientar que os 
mesmos são realizados com uma amostra da população, com características 
biológicas e história clínica particulares. 
Logo, os achados clínicos correspondem à realidade da amostra 
escolhida e não à totalidade de indivíduos que estarão expostos ao 
medicamento. 
Crianças, idosos, pacientes apresentando determinadas patologias e 
gestantes são excluídos dos ensaios clínicos, mas também poderão utilizar o 
medicamento quando o mesmo for liberado para comercialização. 
Desta forma, pode-se afirmar que os ensaios clínicos possuem 
capacidade limitada na medida em que são incapazes de determinar todas as 
possíveis reações adversas causadas por um medicamento e porque algumas 
reações só aparecem com o uso prolongado. 
Tognoni & Laporte (1989) destacam algumas diferenças entre o ensaio 
clínico controlado e o uso de fármacos na prática clínica habitual. 
Segundo os autores, “(...) os ensaios clínicos prévios a comercialização 
(...) são só uma primeira impressão parcial dos seus efeitos potenciais.” 
Os ensaios clínicos controlados com medicamentos são geralmente 
realizados para a verificação da eficácia e segurança dos mesmos. 
Segundo o Drug Review Glossary, disponível na página eletrônica da 
FDA (FDA, 2005d), nenhum medicamento é completamente seguro ou 
incapaz de provocar efeitos adversos e os testes realizados com o 
medicamento antes de sua comercialização devem demonstrar que o 
mesmo é seguro para a indicação clínica pretendida e, 9 desta forma, 
“a segurança é determinada caso a caso e estabelece a relação 
risco/benefício do medicamento”. 
A OMS (Organização Mundial da Saúde) apresenta a seguinte 
definição para a relação risco/benefício de um medicamento: “ (...) é 
um meio para expressar um julgamento referente ao papel de um 
12 
 
 
fármaco na prática médica, baseado em dados sobre eficácia e 
segurança, junto a considerações da doença na qual ele é empregado. 
Este conceito pode ser aplicado a um só fármaco ou na comparação entre 
dois ou mais fármacos utilizados para a mesma indicação” (Tognoni & Laporte, 
1 
 
A eficácia de um tratamento (pelo uso de um medicamento) é a evidência 
de que ele realmente funciona em pacientes com uma determinada doença e é 
avaliada sob condições experimentais rigorosas, em geral, um ensaio clínico 
randomizado. 
A avaliação da eficácia de um medicamento pode exigir uma metodologia 
tão rigorosa que o contexto da pesquisa torna-se muito diferente do que é 
encontrado na prática. Por estes motivos as evidências sobre a efetividade do 
medicamento, que informam se a intervenção funcionou quando realizada em 
13 
 
 
condições usuais da prática clínica, também devem ser consideradas (Duncan 
& Schmidt, 1996). 
Neste sentido é importante que se reconheça o papel limitado dos ensaios 
clínicos realizados com os medicamentos antes de sua comercialização e que 
os mesmos não conseguirão abrangir todos os seus potenciais efeitos. 
A Farmacovigilância surge desta forma como um valioso instrumento 
para proteção da saúde, sendo definida por Tognoni & Laporte 
(1989:49) como “a identificação e a avaliação dos efeitos do uso, agudo 
e crônico, dos tratamentos farmacológicos no conjunto da população 
ou em subgrupos de paciente expostos a tratamentos específicos”. 
Originalmente a Farmacovigilância é voltada para o estudo dos efeitos 
desejáveis e indesejáveis do medicamento, mas seus objetivos principais são 
identificar os efeitos indesejáveis não descritos previamente, quantificar esses 
efeitos associados ao uso de determinados fármacos, informar aos profissionais 
e tomar eventuais medidas administrativas (Carné & Laporte, 1989). 
 
 
QUEDA NA PRODUÇÃO DE NOVOS MEDICAMENTOS 
Em um documento denominado Inovação ou Estagnação? Desafio e 
Oportunidade na Etapa Crítica para Novas Tecnologias Médicas a FDA (2004a) 
declara que, apesar dos avanços no campo da pesquisa básica, a produção de 
inovações significativas na área de saúde, incluindo os medicamentos, tem 
deixado a desejar e aponta o ano de 2000 como o início da redução do número 
de pedidos para registro de medicamentos contendo novas entidades 
moleculares em agências de todo o mundo. 
A Indústria Farmacêutica temse dedicado principalmente a encontrar 
novas aplicações para medicamentos já comercializados e, no ano de 2000, 
somente 27% dos 98 medicamentos aprovados nos EUA eram novas entidades 
moleculares (Schmid & Smith, 2004). 
14 
 
 
É importante considerar ainda que o fato destes medicamentos possuírem 
novas entidades moleculares não significa que representem avanços 
terapêuticos, conforme as definições apresentadas anteriormente. 
Segundo a FDA os equipamentos e técnicas de análise não passaram 
pelo processo de inovação necessário para avaliar os novos produtos 
e os profissionais que trabalham com pesquisa e desenvolvimento 
precisam usar ferramentas do século passado para avaliar os avanços 
obtidos no presente século. 
O processo atual de descoberta de medicamentos baseado em técnicas 
in vitro e em modelos animais é muitas vezes insuficiente para a compreensão 
da relevância clínica do produto. 
A FDA destaca ainda que um medicamento que iniciava os ensaios 
clínicos de Fase I, em 2000, não tinha maiores condições de chegar ao 
mercado que um medicamento que tivesse iniciado a mesma fase em 
1985, afirmando que esta “deficiência” em analisar novas tecnologias 
pode ser uma das explicações na redução do lançamento de produtos 
com inovações significativas no mercado. Segundo os dados do Tufs 
Center for the Study of Drugs Development, baseados em 
medicamentos aprovados nos Estados Unidos entre 1994 e 1998, são 
necessários, em média, 10 a 15 anos para um medicamento sair de 
um laboratório de pesquisa e estar disponível para um paciente 
americano. 
Apenas 5 em 5000 compostos que entram em testes pré-clínicos (estudos 
em laboratório e em animais) são liberados para testes clínicos (em seres 
humanos) e somente 1 destes 5 compostos é aprovado para comercialização 
(PhRMA, 2003). 
Buscando reduzir esta deficiência tecnológica e as diferenças entre os 
resultados das pesquisas básicas e a geração de novos produtos para a saúde, 
a agência americana declarou a importância do desenvolvimento de novas 
ferramentas técnicas e científicas incluindo ensaios, padrões, técnicas de 
modelagem computacional e biomarcadores que possam tornar o processo de 
desenvolvimento de medicamentos mais eficiente e efetivo, resultando em 
produtos mais seguros para os pacientes (FDAa, 2004). 
15 
 
 
Mas a explicação da redução da entrada de medicamentos que 
representam avanços terapêuticos significativos no mercado, baseada apenas 
nas dificuldades técnicas e metodológicas encontradas pela Indústria 
Farmacêutica, é limitada. 
Os interesses comerciais que norteiam os investimentos em novos 
produtos ou na otimização de produtos já comercializados também devem ser 
levados em conta. Um importante aspecto relacionado à inovação do mercado 
farmacêutico é que ela ocorre preferencialmente envolvendo medicamentos que 
possuem um mercado consumidor garantido para o tratamento de doenças 
crônicas ou oriundas do estilo de vida. 
Segundo Trouiller (apud MSF, 2001) uma análise do desenvolvimento 
de medicamentos ao longo das últimas duas décadas do século XX 
revelou que apenas 15 novos medicamentos foram introduzidos no 
mercado para o tratamento das doenças tropicais, que afetam 
primordialmente as populações dos países pobres e em 
desenvolvimento, enquanto no mesmo período foram lançados 179 
medicamentos para doenças cardiovasculares. 
Uma doença mortal ou muito grave pode ser considerada negligenciada 
quando as opções de tratamento são inadequadas ou não existem; quando seu 
mercado potencial de medicamentos é insuficiente para provocar uma pronta 
resposta do setor privado em produzir tais medicamentos e quando o interesse 
do governo em combater este tipo de doença é insuficiente. 
Malária, tuberculose, doença de Chagas e tripanossomíase humana 
africana (doença do sono) são exemplos de doenças negligenciadas. Uma 
explicação muitas vezes apontada pela Indústria Farmacêutica para a queda do 
número de novas entidades moleculares que estão entrando no mercado 
atualmente está ligada à questão dos custos para desenvolvimento destes 
produtos. Entretanto, existe uma polêmica entre aos custos divulgados pela 
Indústria Farmacêutica e aqueles divulgados por algumas pesquisas que 
apresentam valores inferiores aos da Indústria. 
Em um trabalho publicado por J.A. DiMasi et.al (1991), os autores 
declararam que o custo para desenvolvimento e lançamento de um 
novo medicamento no mercado era de aproximadamente US$ 231 
milhões. 
16 
 
 
Este número foi usado em trabalhos subsequentes que alteraram alguns 
parâmetros usados pelo grupo de DiMasi, chegando a valores como US$ 359 
milhões, valor que ajustado para o dólar de 2000, correspondia a US$ 473 
milhões (MSF, 2001). 
Algumas estimativas recentes sobre os custos de desenvolvimento de 
medicamentos revelaram resultados diferentes dos citados acima: utilizando o 
estudo original de DiMasi, o grupo Public Citizen, uma organização sem fins 
lucrativos destinada à defesa dos consumidores nos Estados Unidos, calculou o 
gasto com novos medicamentos em US$110 milhões, sem contar o custo de 
oportunidade (da receita potencial caso o capital fosse investido em outra 
atividade) e a Aliança Global para Desenvolvimento de Drogas para a 
Tuberculose (GATB) estimou o custo de um novo medicamento para a 
tuberculose em cerca de US$40 milhões, utilizando uma entidade química já 
identificada (MSF, 2001). 
Verifica-se assim que o processo de inovação no setor farmacêutico 
apresenta aspectos bastante polêmicos, como a definição do que é 
verdadeiramente uma inovação, os custos reais associados ao processo de 
desenvolvimento de novos medicamentos e os interesses comerciais das 
empresas farmacêuticas. Mas dentre as questões levantadas neste capítulo, 
uma pode ser apontada como essencial sob o ponto de vista sanitário: a 
definição da inovação dos medicamentos segundo o avanço terapêutico. 
Um medicamento só poderá ser considerado uma verdadeira inovação, 
do ponto de vista terapêutico, se apresentar vantagens clínicas sobre os 
medicamentos já comercializados, caso contrário, somente os fabricantes, e não 
os consumidores, estarão sendo beneficiados com o lançamento de novos 
produtos no mercado. 
 
 
REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS 
O uso de preparações com propriedades curativas remonta ao início da 
história da Humanidade. Achados arqueológicos demonstraram que a habilidade 
17 
 
 
para elaborar um medicamento já existia 16 séculos antes de Cristo (Costa & 
Rozenfeld, 2000). 
 A civilização grega utilizava o termo phármakon destacando que o 
medicamento possui ao mesmo tempo a natureza de remédio (cura) e de veneno 
(dano à saúde) (Costa, 1999) e Galeno (131-210) já chamava atenção de que 
potenciais efeitos venenosos existem em qualquer medicamento. 
Entretanto, somente no final do século XVIII as preocupações de Galeno 
começaram a ser efetivamente confirmadas e Withering, médico e botânico 
inglês, fez a descrição da intoxicação por um fármaco – a intoxicação digitálica 
(Barros, 1982 apud Costa, 1999). 
No final do século XIX surgiram os primeiros inquéritos formais quanto à 
segurança dos medicamentos como resposta às reações adversas observadas 
em pacientes (Capellà et al.,1989 apud Costa, 1999). 
Nas primeiras décadas do século XX os países mais desenvolvidos, 
preocupados com a questão da incorporação descontrolada de novas 
tecnologias, começaram a estabelecer leis e criar órgãos responsáveis para 
implementação destas leis, com o intuito de controlar a produção e a 
comercialização de bens e serviços com potenciais riscos à saúde pública 
(Abraham,1995). 
Segundo Tenner (1997 apud Lucchese, 2001), o progresso tecnológico 
impõe uma vigilância cada vez maior, pois, geralmente, o uso de 
tecnologias mais avançadas pode produzir resultados melhores (mais 
potentes), mas exige que sejam obtidos por meio deestreitos controles 
e critérios. 
Neste cenário, os profissionais de saúde devem ser qualificados 
adequadamente para avaliar tais tecnologias. 
O Estado surge neste contexto como responsável pela proteção da saúde 
dos consumidores, cabendo-lhe zelar pelos interesses coletivos, intervindo nas 
atividades de produção e comercialização dos produtos e prestação de serviços. 
18 
 
 
O poder de restringir direitos individuais em favor dos direitos coletivos é 
inerente ao Poder Público, que intervém por meio de órgãos da administração 
pública com poder de regulamentação e de polícia. 
Segundo Costa & Rozenfeld (2000:16): “As ações de vigilância 
sanitária estão inseridas no âmbito das relações de produção e 
consumo, onde se origina a maior parte dos problemas de saúde e 
sobre os quais é preciso intervir”. 
As atividades de regulação sanitária no Brasil foram influenciadas ao 
longo dos tempos pelas mudanças no contexto político e econômico mundial. Do 
controle dos portos, dos alimentos, do exercício profissional dos médicos e 
boticários e dos manufaturados importados a atenção é dirigida para a produção 
interna do país, para as indústrias e produtos que podem provocar riscos à 
saúde. 
No contexto atual, com a abertura econômica dos mercados em vários 
países, a preocupação dos órgãos de vigilância sanitária está direcionada 
também à produção externa e aos processos internacionais de regulamentação 
sanitária (Lucchese, 2001). 
Na área dos produtos para saúde os medicamentos merecem atenção 
especial quando o assunto é a avaliação do risco. 
Episódios como o de 1937, que levou à morte dezenas de pessoas que 
utilizaram o Elixir de Sulfanilamida nos EUA, e o nascimento de crianças com 
focomelia no final da década de 50, pelo uso da Talidomida durante a gravidez, 
chamaram a atenção das autoridades regulatórias para a necessidade de se 
avaliar a segurança e a eficácia dos medicamentos liberados para o consumo 
humano. 
O número de produtos para a saúde que entram atualmente nos mercados 
é crescente e os medicamentos acompanham esta tendência. Como 
consequência, a incorporação de medicamentos recém lançados no mercado 
nas práticas de saúde é contínua, sendo facilitada pela velocidade com que as 
informações chegam até os profissionais de saúde e consumidores. 
Soares (1997, apud Costa, 1999:381) levanta uma questão importante 
sobre este fato ao declarar que: “(...) quanto maior a oferta de produtos 
19 
 
 
farmacêuticos, mais difícil é seu controle e uso correto: grande número 
de produtos registrados piora a cadeia terapêutica e o nível sanitário 
de um país, pois no mínimo aumenta a confusão no registro, dificulta o 
controle da fabricação, distribuição, prescrição, dispensação e uso, 
torna irrealizável o conhecimento sobre os produtos e dificulta o 
estabelecimento de prioridades de trabalho”. 
 
 
O REGISTRO SANITÁRIO DE MEDICAMENTOS 
O Processo de registro de medicamentos é uma das ações de vigilância 
sanitária cuja responsabilidade compete aos órgãos de Estado e, atualmente, no 
Brasil, esta atividade compete à Agência Nacional de Vigilância Sanitária 
(ANVISA) (Brasil, 1999). 
A Política Nacional de Medicamentos (PNM), aprovada pela Portaria 
3.916 de 30/10/1998, definiu o registro de medicamentos como ato privativo do 
órgão competente do Ministério da Saúde, destinado a conceder o direito de 
fabricação do produto no país (MS, 2001). 
A PNM tem como uma de suas diretrizes a regulamentação sanitária de 
medicamentos e, neste aspecto, enfatiza o papel do gestor federal no que se 
refere às questões como registro de medicamentos, autorização para 
funcionamento de empresas e restrições e eliminações de produtos inadequados 
ao uso. 
Seguindo o modelo de descentralização das ações de saúde, definido 
pelo Sistema Único de Saúde, a PNM enfatiza a descentralização gradual das 
ações de vigilância sanitária do nível federal para estados e municípios. 
Entretanto, atividades como registro de medicamentos e a autorização para 
funcionamento de empresas são definidos como “papéis indelegáveis do gestor 
federal” (MS, 2001). 
Quando os atributos relacionados à qualidade, segurança e eficácia são 
considerados na avaliação para concessão registro de medicamentos esta etapa 
20 
 
 
pode se tornar decisiva para que produtos de qualidade sejam liberados para o 
mercado. 
A avaliação destes critérios é feita por meio da análise dos resultados dos 
testes conduzidos com o medicamento – controle de qualidade química e 
microbiológica, ensaios toxicológicos e clínicos e dados sobre o processo de 
produção do medicamento. 
A transparência e a confiabilidade no processo de registro de 
medicamentos são fundamentais e esta atividade deve ser executada por 
profissionais capacitados que possam dispor de condições adequadas de 
trabalho para avaliar criteriosamente a nova tecnologia e os impactos de sua 
utilização na saúde pública. 
O processo de registro de medicamentos e as exigências necessárias 
para a aprovação dos mesmos têm sido considerados barreiras para a 
comercialização num mercado global em crescimento. Aqueles que defendem a 
desregulação nesta área sugerem medidas como o registro automático de 
medicamentos, o registro provisório e o limite de tempo para os processos de 
avaliação dos dossiês para registro. 
As autoridades regulatórias têm sido pressionadas para que revisem, 
simplifiquem e harmonizem métodos, técnicas e procedimentos administrativos 
envolvidos no processo de registro (MSH,1997). 
Em um documento elaborado em 1992 os especialistas da Sub-região 
Andina ligados ao Programa de Medicamentos Essenciais e Vacinas da 
OMS/OPAS apontaram justificativas históricas para a existência do registro 
sanitário de medicamentos (OPAS/ OMS, 1992). 
A partir da década de 50 a Indústria Farmacêutica teve um grande 
crescimento e as experiências com os primeiros antibióticos foram muito bem-
sucedidas. 
Os medicamentos foram vistos pela sociedade como um caminho 
promissor por meio do qual a ciência realizaria a cura para todo e qualquer mal. 
Entretanto, no início da década de 60, a talidomida demonstrou que este 
21 
 
 
caminho não estava isento de riscos e sucessivamente outros medicamentos 
revelaram graves efeitos secundários. 
Tornou-se necessário estabelecer normas mais complexas, sofisticadas, 
custosas e de larga duração para a avaliação dos medicamentos antes da 
liberação dos mesmos para o mercado. 
No referido documento os especialistas declararam que alguns 
fabricantes de medicamentos, com o intuito de recuperar os investimentos em 
pesquisa e desenvolvimento e maximizar seus lucros, lançaram medicamentos 
de eficácia questionável no mercado, omitiram efeitos adversos graves e 
venderam medicamentos para os países em desenvolvimento e 
subdesenvolvidos que não estavam autorizados à venda em países 
desenvolvidos. 
Também são apontadas justificativas para a realização do registro 
sanitário de medicamentos relacionadas às peculiaridades do mercado 
farmacêutico: 
a) O paciente (consumidor) não é capaz de fazer o diagnóstico de seu estado de 
saúde e definir o produto adequado para o seu tratamento; não é capaz de 
avaliar a utilidade e eficácia do medicamento e o preço que será pago pelo 
mesmo; 
b) O médico que prescreve o medicamento não é quem paga por ele e nem 
sempre está capacitado suficientemente para avaliar a eficácia e segurança dos 
medicamentos; 
c) As estratégias de promoção de venda dos medicamentos são destinadas 
fundamentalmente aos prescritores e a transparência no mercado farmacêutico 
é objeto de constante debate. 
Verifica-se assim uma tensão neste campo entre os que defendem a 
importância do registro sanitário de medicamentos para a proteção da saúde 
pública e aqueles que o consideram mais uma barreira ao livre comércio. 
Os critérios para registro de medicamentos são apontadospelos 
fabricantes como potenciais barreiras não alfandegárias ao comércio entre 
diferentes países, já que as exigências sanitárias podem variar de um país para 
22 
 
 
outro e, desta forma, impedir que um medicamento registrado em determinado 
país seja registrado em outro. 
Neste sentido, dentre outros objetivos, visando diminuir estas diferenças 
sanitárias legais e facilitar as trocas comerciais entre os países foi iniciado um 
processo internacional denominado Harmonização dos Regulamentos Técnicos 
Sanitários. 
 
 
HARMONIZAÇÃO DOS REGULAMENTOS TÉCNICOS 
SANITÁRIOS CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A 
HARMONIZAÇÃO (ICH) 
Desde o final da década de 80, as maiores empresas farmacêuticas dos 
EUA, Europa e Japão já pressionavam as autoridades regulatórias sanitárias 
daqueles países para que padronizassem as exigências presentes em seus 
regulamentos sanitários. 
A principal justificativa usada pelo setor farmacêutico era diminuir os 
gastos com o desenvolvimento de novos medicamentos, principalmente com os 
ensaios clínicos e o tempo para liberação dos novos produtos para o mercado 
(WHO, 2002a) A Conferência Internacional sobre Harmonização (ICH) foi 
iniciada em abril de 1991, formada por um Comitê Diretivo composto por seis 
representantes oficiais – dois da Comissão Europeia, dois da FDA e dois do 
Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão. Participam também do 
Comitê Diretivo seis representantes das respectivas federações da Indústria 
Farmacêutica e autoridades do Canadá, Suíça e da OMS participam como 
observadores. 
O objetivo principal da Conferência refere-se às exigências das 
autoridades regulatórias relacionadas aos novos fármacos que, em sua maioria, 
são desenvolvidos na Europa Ocidental, Estados Unidos ou Japão – estas três 
regiões contribuem com mais de 90% dos novos medicamentos desenvolvidos 
no mundo (WHO, 2002a). 
23 
 
 
A harmonização vale apenas para o registro de medicamentos nestas três 
regiões, mas o objetivo é que no futuro a adoção dos critérios harmonizados seja 
expandida para outros países, desenvolvidos ou em desenvolvimento. 
A OMS tem estimulado a disseminação das diretrizes harmonizadas para 
os países que não participam da Conferência por meio do desenvolvimento de 
normas e padrões de qualidade internacionalmente reconhecidos. Os países, 
por sua vez, podem utilizar estes padrões internacionais para elaboração de 
suas próprias normas, adaptando-os às suas realidades. 
A OMS tem buscado cooperar na promoção da difusão de informações 
entre as autoridades regulatórias de diversos países e um exemplo disto é a 
realização da Conferência Internacional das Autoridades Regulatórias de 
Medicamentos (ICDRA), único fórum mundial onde os representantes das 
entidades regulatórias regionais ou nacionais podem trocar informações e 
debater sobre a questão da regulação de medicamentos. 
A Conferência é realizada a cada dois anos desde 1980 e o encontro mais 
recente foi em Madri, na Espanha, em fevereiro de 2004. As questões levantadas 
na Conferência influenciam a elaboração das resoluções da OMS que são 
definidas na Assembleia Mundial de Saúde (WHO, 2002a). 
O processo de harmonização dos regulamentos sanitários apresenta 
algumas questões que precisam ser discutidas, tendo em vista as suas 
implicações para os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. 
Ainda que a elevada qualidade científica dos manuais elaborados pela 
ICH seja largamente reconhecida, o processo de discussão envolvendo países 
industrializados geralmente não leva em consideração as opiniões e 
necessidades dos demais países membros da OMS, como os países em 
desenvolvimento. 
O objetivo de ter a OMS como instituição observadora nos trabalhos da 
ICH é garantir que os interesses internacionais para proteção da saúde pública 
sejam considerados. 
Porém, argumenta-se que ainda não foi criado nenhum mecanismo 
operacional que garanta a participação adequada das autoridades regulatórias 
24 
 
 
dos países não membros da ICH nos processos de elaboração dos documentos 
técnicos, como dos manuais (WHO, 2002b). 
A adoção de critérios de elevada complexidade técnica, estabelecidos na 
ICH como padrão global, pode ter implicações sérias para a saúde pública dos 
países em desenvolvimento. Empresas nacionais produtoras de medicamentos 
essenciais e genéricos, necessários para a prevenção e tratamento de 
condições endêmicas locais e que não são produzidos pelas empresas 
farmacêuticas multinacionais, podem ser afetadas (WHO, 2002b). 
Segundo Lucchese (2001), para participar do processo de 
regulamentação sanitária internacional e aproveitar os resultados de 
suas decisões para proteger sua população, os países em 
desenvolvimento devem contar com uma estrutura que no presente 
não têm: de informação, de documentação, de pessoal qualificado, de 
suporte científico-tecnológico e de uma estrutura administrativa bem 
consolidada. 
Ainda segundo o autor, a agilização do processo de registro de 
medicamentos exige um sistema de farmacovigilância ampliado e mais 
ágil, capaz de detectar possíveis efeitos adversos e retirar do mercado 
os produtos inseguros. 
A harmonização dos regulamentos técnicos cria a necessidade de que as 
agências tenham um alto grau de confiança em suas decisões no menor tempo 
e com a menor exigência possível. 
 
 
CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE HARMONIZAÇÃO DA 
REGULAMENTAÇÃO FARMACÊUTICA 
Seguindo a tendência internacional para harmonização da 
regulamentação farmacêutica, iniciada pelos países desenvolvidos no início da 
década de 90, a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) iniciou os 
trabalhos de harmonização nas Américas, em 1997, com a realização da I 
Conferência Pan-americana de Harmonização da Regulamentação 
Farmacêutica, em Washington (EUA) (Lucchese, 2001). 
25 
 
 
A Conferência conta com a participação de representantes das 
autoridades regulatórias de diferentes países e entidades representantes da 
Indústria Farmacêutica – A Federação Latinoamericana da Indústria 
Farmacêutica (FIFARMA), que representa majoritariamente as multinacionais, e 
a Associação Latino-americana das Indústrias Farmacêuticas (ALIFAR), que 
representa as indústrias de capital nacional da região. 
A segunda Conferência ocorreu em novembro de 1999 e a terceira e 
última em abril de 2002, também em Washington (EUA). Dentre as 
recomendações apresentadas na I Conferência podem ser destacadas 
(Lucchese, 2001): 
• Adoção das boas práticas de fabricação de produtos farmacêuticos; 
• Exigências de testes de bioequivalência e biodisponibilidade; 
• Mudanças nas condições de venda dos produtos; 
• Adoção das boas práticas clínicas; 
• Fortalecimento das agências regulatórias; 
• Processo de harmonização por blocos econômicos; 
• Aproximação com a Conferência Internacional de Harmonização (ICH). 
Na II Conferência foram discutidos alguns temas já abordados na I 
Conferência e temas adicionais, como a falsificação de medicamentos e a 
classificação de medicamentos (com e sem prescrição). Também foi validado o 
conceito de país de referência e os países latino-americanos foram convocados 
a harmonizar a lista de países segundo critérios definidos. 
 
 
26 
 
 
HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO SANITÁRIA NO 
MERCOSUL 
A década de 1990 foi marcada por Reformas no aparelho de alguns 
Estados latino americanos, impulsionadas pelo baixo crescimento econômico, 
altas taxas de inflação, desequilíbrio fiscal e dívida externa dos países. 
As reformas conduziram à abertura econômica dos países ao comércio 
internacional por meio da redução das barreiras tarifárias e gerou um ambiente 
favorável para a implementação de acordos bi ou multilaterais entre os países 
latino americanos (Lucchese, 2001). 
Neste contexto, em 1991, quatro países da América do Sul – Brasil, 
Argentina, Paraguai e Uruguai - formaram um bloco de integraçãoeconômica 
denominado Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), celebrado por meio do 
Tratado de Assunção. 
Dentre os pontos de negociação previstos no Tratado está o compromisso 
de harmonização da legislação destes quatro países em diversas áreas. 
O Tratado define a redução progressiva de barreiras tarifárias e a 
eliminação de restrições não tarifárias (a regulamentação sanitária é um dos 
tipos mais importantes de barreira não tarifária) (Senado Federal, 1996 apud 
Lucchese, 2001). 
A harmonização dos regulamentos técnicos sobre alimentos, 
medicamentos, artigos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, saneantes 
domiciliares e produtos de uso médico, hospitalar, laboratorial e odontológico é 
realizada pelas comissões temáticas que formam cada Subgrupo de Trabalho 
(SGT) do Mercosul, o órgão executivo mais importante. 
Lucchese (2001) aponta alguns avanços no campo farmacêutico obtidos 
nas negociações do Mercosul: 
• O roteiro para inspeções: contêm todos os passos que um inspetor deve seguir 
para fazer uma boa inspeção sanitária. É considerado o principal regulamento 
harmonizado do Mercosul na área farmacêutica e farmoquímica e adotado como 
modelo em outros países latino-americanos e como referência pela própria 
Indústria Farmacêutica; 
27 
 
 
• O Mercosul harmonizou um regime de inspeções conjuntas que permite que a 
autoridade sanitária de um Estado Parte receptor do novo medicamento faça 
uma inspeção na empresa do Estado Parte do produtor do medicamento de 
forma conjunta com a autoridade sanitária do país sede da empresa produtora. 
Considerando as questões abordadas neste capítulo, verifica-se que, 
embora o uso de medicamentos pela humanidade remonte a muitos séculos 
atrás, a exigência de dados relacionados à segurança e eficácia dos mesmos só 
foi estabelecida no século XX, principalmente por meio da realização dos ensaios 
clínicos controlados. 
Efeitos adversos severos e mortes marcaram algumas tragédias 
envolvendo o uso de medicamentos e chamaram a atenção das autoridades 
sanitárias em vários países do mundo ao longo do século XX, reforçando a 
importância do papel do Estado na regulação das relações de produção e 
consumo destes produtos. 
O registro sanitário de medicamentos apresenta-se como um importante 
instrumento de regulação, pois é por meio dele que o fabricante recebe 
autorização para comercializar seu produto. Ainda que existam críticas à 
necessidade do registro sanitário de medicamentos, buscou-se destacar neste 
capítulo a importância desta atividade para proteção da saúde coletiva. 
 
 
REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS NOS ESTADOS 
UNIDOS 
No início do Século XX existiam muitos medicamentos adulterados, 
falsificados, denominados medicamentos de patente no mercado americano. 
Mas apesar desta denominação estes medicamentos não eram patenteados, 
seus fabricantes usavam fórmulas secretas para garantir seus mercados. 
Os medicamentos produzidos pelas empresas farmacêuticas disputavam 
o mercado com estes medicamentos de patente e eram vendidos principalmente 
para os médicos. Eram chamados de medicamentos éticos – pois eram produtos 
28 
 
 
de “elevada qualidade, produzidos a partir de preparações padronizadas, ao 
contrário dos medicamentos de patente” (Abraham, 1995). 
O controle estatal americano sobre os medicamentos adulterados foi 
iniciado em 1906 quando a Lei dos Alimentos e Medicamentos Puros, a primeira 
lei para o controle da adulteração de medicamentos nos Estados Unidos, foi 
aprovada. As atividades de regulação do setor farmacêutico também eram 
desenvolvidas na Europa e neste período foi aprovada uma lei muito similar à 
americana na Inglaterra. 
As leis protegiam os consumidores dos falsos anúncios sobre os 
benefícios dos medicamentos, mas permitia que os fabricantes dos 
medicamentos de patente mantivessem as fórmulas dos mesmos sob segredo. 
Mas apesar desta proteção o volume de vendas dos medicamentos 
industrializados aumentou significativamente nas primeiras décadas do século 
XX e pouca importância era dada à possibilidade de ocorrência de efeitos 
adversos severos e à necessidade de garantia de segurança e eficácia dos 
medicamentos (Abraham, 1995). 
Entretanto, em 1938, um episódio foi capaz de chamar a atenção das 
autoridades americanas: a morte de mais de 100 pessoas (maioria crianças) que 
utilizaram um xarope de Sulfanilamida. Este fármaco era largamente utilizado 
naquele período e nenhum problema quanto à sua segurança havia ocorrido até 
então. 
Em outubro de 1937, uma empresa obteve autorização para comercializar 
a substância sob a forma líquida, usando, porém, uma substância tóxica como 
solvente, o dietilenoglicol. 
Os testes de toxicidade (em animais) com os compostos resultantes do 
dietilenoglicol foram negligenciados e o nome do solvente tóxico não estava 
presente no rótulo do produto (Abraham, 1995). Como consequência da 
tragédia, o governo americano aprovou, em junho de 1938, a Lei de Alimentos, 
Medicamentos e Cosméticos. 
29 
 
 
Por meio desta nova lei as empresas farmacêuticas ficaram obrigadas a 
realizar estudos de segurança com os medicamentos e passou a ser exigido 
também o registro dos medicamentos na FDA para a comercialização. 
Até então as empresas farmacêuticas não eram obrigadas a solicitar 
autorização governamental para comercializar seus medicamentos nos Estados 
Unidos e a FDA apenas tinha poderes para retirar do mercado aqueles 
medicamentos que apresentassem riscos à saúde pública (Abraham, 1995). 
O desenvolvimento da química, da fisiologia e da farmacologia básica 
durante a segunda metade do século XX, associado ao aumento na demanda 
por serviços de saúde, garantiram a introdução de vários produtos farmacêuticos 
no mercado. 
O aumento da utilização de medicamentos acentuou-se após a Segunda 
Guerra Mundial e os efeitos benéficos dos mesmos foram profundamente 
percebidos durante as décadas de 40 e 50 pela introdução de antibióticos como 
penicilina e estreptomicina que permitiram salvar muitas vidas em condições até 
então improváveis (Laporte et al., 1993). 
O consumo cada vez maior de medicamentos, promovido maciçamente 
pelos laboratórios fabricantes por meio de propagandas e marketing dos 
produtos, teve, segundo Sterky (1985 apud Laporte et al.,1993), um impacto 
cultural óbvio: aumento da dependência da alopatia (e consequentemente da 
classe médica e farmacêutica) pela população e a substituição de formas 
tradicionais de cuidado da saúde. 
O controle das autoridades sanitárias sobre o uso indevido dos 
medicamentos, sobre a propaganda dos medicamentos que em sua maioria só 
destacavam os efeitos benéficos (quase milagrosos) dos mesmos e sobre a 
eficácia destes produtos era ainda muito incipiente. 
Neste cenário surge então um novo medicamento: a Talidomida. Lançada 
no mercado alemão, em outubro de 1957, pelo laboratório Chemie Grunenthal, 
a Talidomida foi indicada inicialmente como sedativo e o fabricante anunciava 
que o produto não apresentava toxicidade. 
30 
 
 
O pesado investimento em marketing fez do produto um dos líderes de 
venda na Alemanha naquele período. 
O uso da Talidomida não ficou restrito à Alemanha e no início da década 
de 60 vinte países tinham licença para produzi-la e /ou distribuí-la. (Oliveira et al, 
1999). 
O crescimento das vendas do produto foi acompanhado dos primeiros 
relatos médicos sobre reações adversas, como constipação intestinal, tonteiras, 
perda de memória e polineurites. O fabricante, por sua vez, buscava minimizar 
estes relatos atribuindo-os ao uso de altas doses do medicamento e por tempo 
prolongado (Mokhiber,1995 apud Oliveira et al.,1999). 
Os relatos médicos sobre o nascimento de crianças com má-formação 
congênita, caracterizada pelo desenvolvimento defeituoso dos ossos longos dos 
braços e das pernas e mãos e pés variando entre aspecto normal e o rudimentar(síndrome denominada focomelia pela semelhança dos recém-nascidos com a 
forma externa das focas), começaram a surgir na Alemanha a partir de 1959. 
Em 1961, durante o North Rhein-Westphalia Pediatric Meeting, realizado 
em Dusseldorf, na Alemanha, Lenz apresentou os resultados de uma pesquisa 
onde foram analisados casos de recém-nascidos com graves deformidades nas 
extremidades. 
O pediatra levantou publicamente a possibilidade das anomalias 
congênitas terem sido provocadas pelo consumo da Talidomida durante a 
gestação (Mellin & Katzenstein,1962 apud Oliveira et al., 1999). 
A FDA não havia autorizado o registro da Talidomida nos Estados Unidos, 
pois segundo a agencia americana, o fabricante não apresentou resultados 
satisfatórios sobre a segurança do medicamento (Abraham, 1995). 
No contexto da tragédia a FDA saiu fortalecida por ter impedido um 
desastre maior com a população americana e, estimulado pela repercussão dos 
fatos, em outubro de 1962, o Congresso Americano aprovou a Emenda 
Kefauver-Harris. 
31 
 
 
Esta emenda fortaleceu o controle da FDA sobre os medicamentos e os 
fabricantes foram obrigados a fornecer não somente provas de segurança, mas 
também de eficácia de seus produtos (FDA, 2004b). 
Foi estabelecida a exigência das solicitações de Investigação de Novo 
Medicamento (IND) e Aplicação de Novo Medicamento (NDA) que deveriam ser 
feitas pelo solicitante de registro do medicamento a FDA (Abraham, 1995). 
Outras normas importantes sobre os medicamentos foram aprovadas nos EUA 
nos anos seguintes, dentre as quais podem ser destacadas (FDA, 2004b): 
1- Ato de Competição de Preço de Medicamentos e Prazo de Restauração 
de Patente (1984): esta Lei aumentou o número de medicamentos que 
poderiam ser submetidos a uma NDA abreviada (ANDA). Este processo 
de avaliação para registro tem como objetivo a redução de custos e de 
tempo para registro de medicamentos genéricos. O Prazo de Restauração 
de Patente referia-se aos 17 anos de proteção legal que era concedida 
para a patente de um medicamento. 
2- Ato das taxas sobre medicamentos de prescrição (1992): por meio desta 
lei os fabricantes de medicamentos vendidos sob prescrição médica 
passaram a pagar taxas para a aplicação dos novos medicamentos e 
suplementos – uma taxa anual por fabricante e uma taxa anual por 
produto. Estes recursos foram utilizados pela FDA na contratação de mais 
de 700 profissionais no final do ano de 1997 com o objetivo de acelerar o 
processo de revisão das NDA. 
3- Lei de Modernização da FDA (1997): esta lei causou uma das mais 
amplas mudanças na lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos em 
35 anos (depois da Emenda KefauverHarris, em 1962) e teve impacto 
importante no registro de medicamentos, pois foram estabelecidas 
normas para o processo acelerado de registro e orientações para os 
revisores das NDA. Por meio deste processo é dada autorização para a 
comercialização de novos medicamentos sem que se tenha obtido 
resultados clínicos conclusivos (requeridos no processo de registro 
normal) sobre a eficácia dos mesmos. A FDA argumenta que a aprovação 
de registro acelerada é concedida para alguns medicamentos novos 
indicados para patologias graves e que carecem de tratamento 
32 
 
 
satisfatório. Nesta modalidade de registro, medidas menos tradicionais, 
denominadas desfechos substitutos (surrogate endpoints) são usadas 
para avaliar a eficácia dos medicamentos. 
Os desfechos substitutos são resultados laboratoriais que não permitem 
uma “medida” direta de como o paciente se sente, como seu organismo funciona 
ou sobrevive, mas que permitem “prever” o benefício. Um exemplo de desfecho 
substituto pode ser a diminuição da carga viral por curtos períodos de tempo em 
um paciente que esteja usando um antirretroviral. Muitos medicamentos 
antirretrovirais estão sendo aprovados para comercialização nos EUA desta 
forma (FDA, 2004c). 
O medicamento Mesilato de Imatinib (Glivec), indicado para tratamento 
oral de pacientes com Leucemia Mielóide Crônica, foi submetido ao registro 
acelerado baseado em resultados de três estudos de Fase II que revelaram 
redução substancial dos níveis de células cancerígenas na medula óssea e no 
sangue. 
O fabricante do medicamento (Novartis Pharmaceuticals) recebeu 
autorização para Investigação de Novo Medicamento (IND) em abril de 1998 e a 
FDA recebeu a solicitação para Aplicação de Novo Medicamento (NDA) em 
fevereiro de 2001. 
O medicamento foi aprovado dois meses e meio depois, em maio de 2001 
(Meadows, 2002). Registro de medicamentos novos na FDA O processo de 
registro de medicamentos na FDA é regulamentado pela Lei dos Alimentos, 
Medicamentos e Cosméticos de 1938, citada anteriormente, e tem sido baseado 
na Aplicação de Novo Medicamento (NDA) desde 1962, quando foi aprovada a 
Emenda KefauverHarris (emenda à Lei de 1938). 
Empresas, instituições de pesquisa e outras instituições que desejam 
testar seus medicamentos em seres humanos nos Estado Unidos devem 
inicialmente solicitar uma autorização para Investigação de Novo Medicamento 
(IND) a FDA. Este documento deve conter informações como a fórmula estrutural 
do princípio ativo, os resultados dos ensaios pré-clínicos (em culturas de células 
e animais) realizados em laboratório com a substância, informações sobre o 
33 
 
 
processo de produção do medicamento e o planejamento que será adotado para 
os testes em seres humanos. 
Os ensaios com o medicamento em seres humanos, denominados 
ensaios clínicos, só podem ser realizados após revisão dos dados da IND pela 
FDA e por um grupo formado por cientistas e outros profissionais que 
supervisionarão a pesquisa clínica. 
Estes supervisores são responsáveis pela aprovação dos protocolos 
clínicos onde estão definidos os indivíduos que participarão dos ensaios clínicos, 
a relação de testes e procedimentos que serão realizados, o medicamento e as 
doses que serão estudadas, a duração dos testes e os objetivos dos estudos. 
É necessário também que o grupo de supervisores se certifique que os 
indivíduos selecionados para o estudo estejam informados sobre os riscos dos 
testes para sua saúde e que tenham dado consentimento expresso sobre sua 
participação na pesquisa clínica. 
Observadas as exigências éticas e legais para realização da pesquisa 
envolvendo seres humanos, os ensaios clínicos são realizados em quatro fases 
consecutivas (Meadows, 2002): 
Fase I: os testes são normalmente conduzidos com voluntários sadios e 
os objetivos são determinar os efeitos adversos mais frequentes do 
medicamento e como o mesmo é metabolizado e eliminado do organismo 
humano. Visam avaliar principalmente a segurança do medicamento. O número 
de indivíduos envolvidos nesta fase pode variar de 20 a 80. 
Fase II: se os estudos da Fase I não demonstrarem níveis de toxicidade 
inaceitáveis do medicamento, os estudos da Fase II poderão ser iniciados. Nesta 
etapa busca-se avaliar principalmente a eficácia do medicamento em pacientes 
doentes, mas também são avaliados os aspectos relacionados à segurança. O 
número de indivíduos envolvidos nesta fase pode variar de 100 a 300. 
Fase III: se os ensaios realizados na Fase II revelarem que o 
medicamento apresenta eficácia clínica para a indicação proposta, os ensaios 
da Fase III poderão ser iniciados. 
34 
 
 
Estes ensaios têm por objetivo dar continuidade à avaliação de segurança 
e eficácia do medicamento. O número de indivíduos envolvidos nesta fase pode 
variar de algumas centenas a 3000. 
Fase IV: é realizada quando o medicamento já se encontra no mercado, 
podendo ser usado por um grande número de indivíduos. Nesta fase são 
avaliados os novos usos do medicamento, novas populações de pacientes e 
podem ser monitorados os efeitos adversos que surgem com o uso prolongado. 
O contato entre os profissionais da FDA com os solicitantes de registro pode 
variar conformea necessidade de informações para subsidiar o processo de 
desenvolvimento e avaliação do produto. 
Ao término dos ensaios clínicos de Fase II, normalmente acontece uma 
reunião onde os profissionais da FDA e o fabricante discutem sobre como os 
ensaios clínicos da Fase III deverão ser conduzidos. 
 
 
APLICAÇÃO DE NOVO MEDICAMENTO (NDA) 
As etapas descritas acima devem ser observadas pelos fabricantes que 
pesquisam e desenvolvem seus medicamentos nos Estados Unidos. Estas 
empresas e aquelas que desenvolveram seus produtos fora dos EUA e que 
desejam registrar e comercializar seus medicamentos nos EUA devem solicitar 
a FDA a autorização para Aplicação de Novo Medicamento (NDA). Esta 
solicitação deve ser feita ao Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos 
(CDER) da FDA, que será responsável pela avaliação da NDA. 
Tratando-se de medicamentos biológicos esta solicitação deverá ser feita 
ao CBER. 
O volume de informação que deve estar presente na NDA pode variar de 
um produto para o outro, dependendo da natureza deste, mas de forma geral, 
uma NDA deve ser composta de seções relacionadas aos seguintes tópicos 
(FDA, 2005d): 
1- Estrutura química do medicamento, processos de produção e controle; 
35 
 
 
2- Dados sobre amostra, métodos de validação da embalagem e rotulagem; 
3- Dados farmacológicos e toxicológicos dos ensaios pré-clínicos; 
4- Dados clínicos (farmacocinética e biodisponibilidade); 
5- Relatório atualizado sobre dados de segurança do medicamento (geralmente 
120 dias após a entrada do pedido de NDA); 
6- Informações sobre a patente do produto. Para o início do processo de 
revisão, o CDER utiliza um sistema de classificação das NDA que permite 
diferenciar os níveis de inovação dos medicamentos. 
Esta classificação é feita a partir da caracterização do tipo químico e do 
potencial terapêutico dos medicamentos (NIHCM, 2002): 
Tipo químico do medicamento: classificação referente ao fármaco do 
medicamento. Este fármaco pode ser novo, pode estar contido em um 
medicamento já aprovado ou ser derivado de um fármaco presente em um 
medicamento já aprovado. 
Potencial terapêutico do medicamento: referente à eficácia clínica do 
medicamento quando comparada à eficácia de medicamentos já disponíveis no 
mercado, destinados ao diagnóstico, tratamento ou prevenção da mesma 
patologia, tendo por base as evidências disponíveis no período da revisão para 
aprovação. 
A partir da análise do tipo químico, o CDER classifica os medicamentos 
que são apresentados para o registro da seguinte forma (FDA, 2005d): 
1. Novas Entidades Moleculares (NME): medicamentos contendo fármacos 
ainda não aprovados para o mercado americano; 
2. Novo sal de um medicamento já aprovado; 
3. Nova formulação de medicamento já aprovado; 
4. Nova associação de dois ou mais medicamentos; 
5. Medicamentos já comercializados (novo fabricante); 
6. Nova indicação para medicamento já comercializado. 
36 
 
 
Os medicamentos que se enquadram nos itens 2, 3 e 4 são denominados 
pelo CDER como IMD (Incrementally Modified Drugs). A FDA permite que um 
novo fabricante produza um medicamento que já está sendo produzido e 
comercializado por outro fabricante em duas situações diferentes: permite que 
um novo fabricante produza um medicamento que já está sendo produzido por 
outra empresa e permite o registro de medicamentos que estavam no mercado 
antes da promulgação da Emenda Kefauver-Harris, em 1962. 
Como visto anteriormente, esta Emenda estabeleceu os requerimentos de 
eficácia para o registro de novos medicamentos e foi aplicada de forma retroativa 
para os medicamentos aprovados após a Lei dos Alimentos, Medicamentos e 
Cosméticos de 1938 que, por sua vez, exigia a apresentação de dados de 
segurança. 
Os medicamentos que entraram no mercado antes desta data (1938) são 
assumidos como seguros e eficazes pela FDA, a menos que surjam evidências 
contrárias (NIHCM, 2002). A partir da análise do potencial terapêutico, a revisão 
da NDA pode ser classificada como padrão ou prioritária. Se o medicamento não 
apresentar nenhuma vantagem clínica sobre os medicamentos já 
comercializados, o CDER denomina a revisão desta NDA como padrão. Para 
atingir o status prioritário, o novo medicamento deve demonstrar avanço 
terapêutico de uma das quatro formas (NIHCM, 2002): 
37 
 
 
 
A definição de prioridade para a revisão da NDA foi estabelecida pela FDA 
em 1976 e até 1992 a agência usava três categorias para classificar as NDA 
segundo o avanço terapêutico: A, B e C. 
Os medicamentos da classe A apresentavam ganho terapêutico 
significativo sobre os medicamentos comercializados, os medicamentos da 
classe B apresentavam ganho terapêutico moderado e os medicamentos da 
classe C apresentavam uma pequena vantagem ou nenhuma vantagem sobre 
os medicamentos presentes no mercado. 
Este sistema foi aplicado de forma retroativa para os medicamentos 
registrados a partir de 1962. Em 1992 a agência converteu este sistema em duas 
categorias a partir das quais os medicamentos anteriormente classificados como 
“A” ou “B” passaram a ter sua NDA classificada como “prioritária” e os 
medicamentos classificados como “C” passaram a ter sua NDA classificada 
como “padrão” (DiMasi, 2000). DiMasi (2000) destaca que, embora a 
significância clínica definitiva dos medicamentos seja desconhecida durante o 
processo de revisão da NDA, já que outros possíveis usos e efeitos do 
medicamento são desconhecidos até que sejam usados na prática clínica diária, 
38 
 
 
há uma forte correlação positiva entre a classificação da FDA e a significância 
clínica dos medicamentos. 
A partir da solicitação de revisão da NDA a FDA possui um prazo de 
sessenta dias para decidir se o dossiê apresentado pelo fabricante contém as 
informações necessárias para sua 38 revisão, podendo ser enviado para 
avaliação técnica (FDA, 2005d). 
O CDER faz a revisão das NDAs classificadas como “padrão” em, no 
mínimo, dez meses ou aproximadamente 300 dias, já para os medicamentos 
considerados “prioritários”, o processo de avaliação leva em média seis meses 
(Meadows, 2002). 
A equipe de revisores do CDER que faz a revisão da NDA varia conforme 
o tipo de medicamento apresentado para registro, se for um medicamento 
indicado para tratamento de câncer, a equipe responsável pertence à Divisão de 
Oncologia, a NDA de um medicamento contraceptivo será encaminhada para 
revisão na Divisão de Medicamentos do Sistema Reprodutor e Urológico, e 
assim por diante. 
A revisão da NDA é feita inicialmente por revisores primários e em seguida 
por um grupo de supervisores. 
Os Diretores dos Departamentos geralmente é que tomam a decisão final 
quando o medicamento que está sendo avaliado é uma Nova Entidade Molecular 
e decidem também sobre a mudança de status de um medicamento de venda 
sob prescrição médica para medicamento de venda livre (OTC). 
As outras situações são decididas ao nível das Divisões do próprio CDER. 
Para se certificar que o processo de revisão e aprovação da NDA será baseado 
em dados atualizados sobre a segurança do medicamento, o CDER exige que o 
solicitante do registro forneça dados sobre os estudos de segurança do produto 
em períodos determinados: quatro meses após a entrada do pedido de revisão 
da NDA na FDA, após o envio da carta de aprovação da NDA ao solicitante e 
em outros períodos, se necessário. 
39 
 
 
O relatório enviado pelo solicitante deve informar a ocorrência de novas 
reações adversas e alterações importantes na frequência e na gravidade de 
efeitos adversos já conhecidos. 
Quanto às inspeções nos locais de fabricação do medicamento, quando 
uma NDA é submetida para revisão no CDER, a mesma é cadastrada em um 
banco de dados que é monitorado pela Divisão de Investigações Científicas da 
FDA que designa revisores de campo para realização de inspeções e verificação 
da validade

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