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1 PRÉ E ORO-REGISTRO DE MEDICAMENTOS 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 INOVAÇÃO NO SETOR FARMACÊUTICO E O DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS ........................................................................................ 7 OS ENSAIOS CLÍNICOS CONTROLADOS .......................................... 10 QUEDA NA PRODUÇÃO DE NOVOS MEDICAMENTOS .................... 13 REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS ................................ 16 O REGISTRO SANITÁRIO DE MEDICAMENTOS ................................ 19 HARMONIZAÇÃO DOS REGULAMENTOS TÉCNICOS SANITÁRIOS CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A HARMONIZAÇÃO (ICH) ......... 22 CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO FARMACÊUTICA ......................................................... 24 HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO SANITÁRIA NO MERCOSUL ..................................................................................................... 26 REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS NOS ESTADOS UNIDOS ........................................................................................................... 27 APLICAÇÃO DE NOVO MEDICAMENTO (NDA) .................................. 34 PROCESSO DE REVISÃO DA NDA ..................................................... 40 AGÊNCIA EUROPEIA DE MEDICAMENTOS (EMEA).......................... 40 REGISTRO DE MEDICAMENTOS NA UNIÃO EUROPEIA .................. 42 ADMINISTRAÇÃO NACIONAL DE MEDICAMENTOS, ALIMENTOS E TECNOLOGIA MÉDICA (ANMAT) ................................................................... 46 ESTRUTURA DA ANVISA ..................................................................... 52 REGISTRO DE MEDICAMENTOS NOVOS NA ANVISA ...................... 53 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 55 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior. O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras normas de comunicação. Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade. 3 INTRODUÇÃO No século XIX os terapeutas adeptos da medicina “ortodoxa” tentavam usar as novas ciências biológicas ou médicas segundo princípios hipocráticos reconstruídos no Iluminismo e disputavam espaço com outras doutrinas médicas como a homeopatia. No Brasil, na França e nos Estados Unidos a homeopatia ameaçava a anátomo-clínica como uma concorrente de peso. Mas a criação de técnicas de prevenção e tratamento etiológico, destacando-se as contribuições de Pasteur com bases científicas nítidas, foi realmente impressionante para a sociedade do século XIX e contribuíram decisivamente para a mudança do paradigma de controle de doenças: a ciência médica assumiu a hegemonia na virada do século XIX. Segundo Sayd (1998:133): “(...) este prestígio significou a hegemonia do médico ortodoxo sobre os demais, adeptos de outros sistemas terapêuticos como a homeopatia. A linha entre o charlatanismo e uma medicina oficial se tornou nítida e modificou inteiramente a situação de competição anterior entre os terapeutas (...)” O final do século XIX foi marcado pelo crescimento dos centros urbanos e pelo processo de industrialização em várias partes do mundo. Somam-se a estas mudanças a proliferação de doenças contagiosas e a necessidade de que a classe trabalhadora fosse mantida saudável, já que dela dependia o sistema de produção (Costa, 2004). No Brasil, a industrialização e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia tiveram papel decisivo no processo de produção de normas sanitárias pelo Estado neste período. Havia uma pressão para que as atividades comerciais fossem padronizadas e que os produtos obedecessem algumas normas de qualidade. A sociedade, preocupada com as denúncias frequentes de adulteração de alimentos e medicamentos, pressionava os órgãos públicos para que tomassem medidas de controle sanitário (Costa & Rozenfeld, 2000). 4 Coulter (1973, apud Sayd,1998) chama a medicina anátomo-clínica de ortodoxa ao narrar a disputa entre a American Medical Association e a homeopatia norte-americana. A influência do setor industrial neste processo de regulamentação pode ser explicada pelo interesse em expandir o mercado para seus produtos já que grande parte do comércio era dominada pela produção artesanal, como no caso das preparações farmacêuticas de origem vegetal. Nas décadas de 30 e 40 os medicamentos industrializados representavam menos de 25% dos produtos vendidos nas farmácias (Laporte et al, 1993). A importância assumida pela medicina científica e o crescimento da produção industrial de medicamentos são fatores que se somam, no início do século XX, contribuindo um para a legitimação e valorização do outro: os medicamentos eram fabricados segundo os princípios da racionalidade científica e somente os terapeutas adeptos deste modelo teriam capacidade de prescrevê- los (Sayd, 1998). O desenvolvimento da química, da fisiologia e da farmacologia básica, durante a segunda metade do século XX, associado ao aumento da demanda por serviços de saúde, garantiram a introdução de vários produtos farmacêuticos no mercado. O aumento da utilização de fármacos acentuou-se após a Segunda Guerra Mundial e o período entre as décadas de 1940 e 1960 ficou conhecido como Idade de Ouro da Indústria Farmacêutica (Barros, 1995). Os efeitos benéficos dos medicamentos foram profundamente percebidos neste período pela introdução de antibióticos como penicilina e estreptomicina que permitiram salvar muitas vidas em condições anteriormente impossíveis (Laporte et al, 1993). O consumo cada vez maior de medicamentos, induzido maciçamente por meio de propagandas e marketing dos produtos, teve como impacto cultural a substituição de formas tradicionais de cuidado da saúde, gerando a dependência da população pela alopatia, e consequentemente, pela classe médica e farmacêutica (Sayd, 1998). 5 Para os dois principais agentes envolvidos na cadeia terapêutica – o médico e o paciente – o medicamento passou a ter uma função simbólica: para o médico, um medicamento adequadamente prescrito lhe outorgava prestígio e reforçava seu poder sobre o paciente, e para o paciente, o sinal de uma boa consulta médica tende a ser uma prescrição. Os avanços tecnológicos permitiram a fabricação de uma variedade de medicamentos que hoje estão presentes no mercado - obtidos de fontes naturais, sintetizados nos laboratórios e entende-se por medicamento o produto farmacêutico tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico (Brasil, 1976). Obtidos por processos de biotecnologia - comercializadosdos dados citados na NDA (FDA, 2004c). 40 PROCESSO DE REVISÃO DA NDA AGÊNCIA EUROPEIA DE MEDICAMENTOS (EMEA) A Agência Europeia de Medicamentos (EMEA) foi criada pelo Regulamento nº 2309/93 da Comunidade Econômica Europeia (CEE), mas suas 41 atividades só foram iniciadas em fevereiro de 1995. A sede da agência está localizada em Londres, na Inglaterra. A EMEA é uma das dezesseis agências especializadas (agências comunitárias) existentes atualmente no âmbito da Comunidade Europeia, organismos públicos criados por meio da legislação europeia que possuem personalidade jurídica própria e têm por objetivo a realização de tarefas de natureza técnica, científica ou gerencial (Garattini & Bertelle, 2004): O "triângulo institucional" formado pelo Conselho da União Europeia, Parlamento Europeu e Comissão Europeia é responsável pela elaboração da legislação (diretivas, regulamentos e decisões) que se aplica em toda a União Europeia e, de forma geral, a Comissão Europeia propõe a legislação que é então adotada pelo Conselho e pelo Parlamento. No âmbito da União Europeia, a EMEA está subordinada à Diretoria Geral de Empresas da Comissão Europeia e não à Diretoria de Saúde Pública e as suas atividades são regulamentadas pela legislação europeia (Garattini & Bertelle, 2004). A EMEA é composta por um conselho de administração e por um grupo técnico. O conselho de administração é formado por dois representantes de cada Estado-Membro, dois representantes da Comissão Europeia e dois representantes indicados pelo Parlamento Europeu. O grupo técnico é composto por dois comitês científicos, responsáveis pela elaboração dos pareceres sobre questões relacionadas à avaliação dos produtos farmacêuticos para uso humano, o Committee for Proprietary Medicinal Products (CPMP), e para uso veterinário, o Committee for Veterinary Medicinal Products (CVMP) (Garattini & Bertelle, 2004). O CPMP é formado por dois representantes de cada país que compõe a União Européia (EU), indicados por seus governantes. A União Europeia é atualmente formada por vinte e cinco países: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Dinamarca, Irlanda, Reino Unido, Grécia, Espanha, Portugal, Áustria, Finlândia, Suécia, 42 Chipre, República Tcheca, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia (Europa, 2005). Dentre as principais funções do CPMP estão a avaliação dos pedidos de registro de medicamentos feitos pela Indústria Farmacêutica e a emissão do parecer, favorável ou não ao registro do medicamento para a Diretoria Geral de Empresas da Comissão Europeia. O CPMP 41 pode solicitar o apoio de consultores externos para a resolução de questões mais complexas relativas aos medicamentos. REGISTRO DE MEDICAMENTOS NA UNIÃO EUROPEIA Os procedimentos para registro de medicamentos na União Europeia são denominados procedimento centralizado e procedimento descentralizado. Por meio destes mecanismos os fabricantes de medicamentos obtêm autorização para que seus produtos sejam comercializados em mais de um país na União Europeia. Quando o fabricante deseja comercializar seu produto em apenas um país da União Europeia, o procedimento escolhido será a solicitação de registro nacional (European Commission, 2002). O procedimento descentralizado é usado para a solicitação de registro da maior parte dos medicamentos. Por meio deste procedimento uma empresa farmacêutica solicita a autorização para registro de seu medicamento à autoridade sanitária oficial de determinado país da União Europeia e, obtendo o registro, a empresa pode solicitar a aprovação para a comercialização do medicamento em outros países da Comunidade, baseando-se no princípio do reconhecimento mútuo entre os países que compõe a União Europeia. Quando um Estado-Membro não reconhece o registro para comercialização de um medicamento registrado em outro país da Comunidade, a EMEA assume o papel na arbitragem deste processo, cabendo à Comissão Europeia tomar a decisão final a partir do parecer emitido pela EMEA (European Commission, 2002). 43 O Procedimento Centralizado é realizado quando o fabricante solicita o registro do produto diretamente à EMEA. Um registro aprovado por meio do procedimento centralizado garante que o medicamento poderá ser comercializado em todos os países da União Europeia. Existe um grupo de medicamentos que só pode ser comercializado na União Europeia se registrado por meio do procedimento centralizado (Parlamento Europeu, 2004). 1. Medicamentos para uso humano que contenham uma substância ativa nova ainda não autorizada na Comunidade Europeia, e cuja indicação terapêutica seja o tratamento de uma das seguintes patologias: — síndrome de imunodeficiência adquirida, 42 — neoplasias, — doenças neurodegenerativas, — diabetes 2. Medicamentos desenvolvidos por meio de um dos seguintes processos biotecnológicos: — tecnologia do DNA recombinante; — expressão controlada da codificação de genes para proteínas biologicamente ativas em procariontes e eucariontes, incluindo células mamíferas transformadas; — métodos de hibridoma e de anticorpos monoclonais. 3. Medicamentos designados como medicamentos órfãos, conforme o Regulamento (CE) n.o 141/2000 4. Medicamentos veterinários destinados como potenciadores de rendimento a fim de promover o crescimento dos animais tratados ou aumentar a sua produtividade. Os medicamentos que não se enquadram nas categorias listadas acima podem obter autorização de introdução no mercado concedida pela EMEA se o solicitante do registro demonstrar que o medicamento constitui uma inovação significativa no plano terapêutico, científico ou técnico, capaz de justificar uma concessão de registro comunitário (Parlamento Europeu, 2004) Quando o medicamento representa um grande interesse do ponto de vista da saúde pública, principalmente quando se refere a uma inovação terapêutica, o requerente pode solicitar um procedimento de avaliação acelerado para o seu produto, devendo o pedido ser devidamente fundamentado. Se o CPMP aceitar o pedido, o prazo para emissão do parecer para a Comissão Europeia é reduzido de 210 dias para 150 dias (Parlamento Europeu, 44 2004). Os fabricantes de medicamentos que desejam solicitar o registro de seus produtos na EMEA devem entregar o dossiê do produto contendo informações referentes à qualidade, segurança e eficácia do medicamento e estas informações devem estar organizadas em módulos (referentes à qualidade, segurança e eficácia) que compõem o Documento Técnico Geral (CTD) para o Registro de Medicamentos de Uso Humano (Comissão Europeia, 2002). O solicitante de registro de medicamento na EMEA é obrigado a fornecer também os dados sobre a comercialização do medicamento em outros países, qualquer resultado novo ou diferente sobre a segurança do medicamento e sobre as ações regulatórias relacionadas à segurança do mesmo. Além destas informações, o solicitante deverá também apresentar no CTD as conclusões sobre os riscos e benefícios do medicamento, quando o mesmo é comparado com alternativas farmacológicas disponíveis para tratamento da doença ou com nenhum tratamento farmacológico, quando esta for uma opção clinicamente aceitável. No caso de medicamentos que contenham substâncias ativas presentes na composição de medicamentos já comercializados, mas que ainda não tenham sido associadas para fins terapêuticos, devem ser fornecidos os resultados dos novos ensaios pré-clínicos ou clínicos relativos à associação (Parlamento Europeu, 2004). As autoridades sanitárias responsáveis pela fiscalização das empresas produtoras dos medicamentos registrados na EMEA são as autoridades dos Estados-Membro que concederam a autorização de fabricaçãodo medicamento. A inspeção nestas empresas pode ser realizada durante o processo de avaliação do pedido de registro do medicamento. Os critérios adotados pela agência europeia para desenvolvimento e registro de medicamentos na União Europeia são influenciados atualmente pelo processo de harmonização dos regulamentos técnicos sanitários, descrito anteriormente. 45 Desta forma, os manuais elaborados pela EMEA para orientação das empresas farmacêuticas contêm regras para a fabricação e registro de medicamentos que já foram harmonizadas com outros países. Etapas do processo de registro de medicamentos na EMEA: O procedimento para registro de medicamentos na EMEA pode ser resumido nas seguintes etapas (Garattini & Bertelle, 2004): 1- Etapa de Validação: até o 15º dia após o recebimento do pedido de registro o secretariado da EMEA verifica se o dossiê apresentado pelo solicitante contém todas as informações necessárias à avaliação técnica. 2- Avaliação do CPMP: dois membros do CPMP são selecionados como relatores (indicados geralmente pelo fabricante e pelo próprio CPMP). Estes relatores são responsáveis pela coordenação das atividades de avaliação do dossiê, pelo contato com o fabricante, pela solicitação de informações necessárias durante o processo de avaliação e pela apresentação do relatório de avaliação à equipe do CPMP. O CPMP emite o parecer para a Comissão Europeia geralmente 7 meses após a entrada do pedido de registro na EMEA. 3- Decisão da Comissão Europeia: a Comissão Europeia tem três meses após o recebimento do parecer do CPMP para decidir se concorda ou não com o Comitê. A decisão é obtida por consenso entre os integrantes ou pelo voto da maioria (aproximadamente 300 dias após a entrada do pedido de registro na EMEA). 4- Nos casos em que o pedido de registro é negado, a empresa pode entrar com recurso que será avaliado pelo CPMP depois de terem sido indicados dois relatores, reiniciando o processo. O registro sanitário de medicamentos na União Europeia deve ser renovado cinco anos após a concessão do registro e, a partir de então, possui validade ilimitada. Além disso, qualquer autorização não utilizada durante três anos consecutivos, isto é, que não tenha dado origem à introdução de um medicamento no mercado dos Estados-Membros durante este período, é considerada caducada (Parlamento Europeu, 2004). 46 ADMINISTRAÇÃO NACIONAL DE MEDICAMENTOS, ALIMENTOS E TECNOLOGIA MÉDICA (ANMAT) A Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (ANMAT) foi criada na Argentina por meio do Decreto Presidencial nº 1490, de 20/08/1992. Naquele período foi realizada na Argentina uma série de atividades com vistas à revisão e adequação das funções básicas do Estado e a criação da agência ocorreu em observância ao Decreto Presidencial nº 1269/92, que estabeleceu as Políticas de Saúde na Argentina, denominadas Políticas Substantivas (Argentina, 1992a). A quarta e última Política Substantiva do referido Decreto tem como um dos seus objetivos: “(...) adecuar la estructura de la SECRETARIA DE SALUD a fin de posibilitar a dicho organismo el desarrollo de las líneas estratégicas de transformación propuestas, favoreciéndose así la conformación de un ente técnico con capacidad para liderar la salud en el desarrollo con equidad, implementar la planificación estratégica en normatización, en fiscalización y conducción superior, y garantizar una efectiva acción sanitaria en todo el ámbito nacional, poniéndose énfasis en el desarrollo de las acciones de promoción y protección (ítem 4.1.1.)”. A ANMAT é um órgão descentralizado, uma autarquia com autonomia financeira e suas atividades possuem abrangência nacional. Está ligada administrativamente à Secretaria de Políticas de Saúde e Fiscalização Sanitária do Ministério da Saúde e Ação Social da Argentina, responsável pela elaboração das normas técnicas e científicas que norteiam as atividades da agência. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA) Regulação sanitária de medicamentos no Brasil – antecedentes. As primeiras regulamentações na área de medicamentos surgiram no Brasil no início do século XX, período em que se faziam muitas denúncias sobre a qualidade dos medicamentos e dos alimentos presentes no mercado nacional, como descrito por Monteiro Lobato em 1918: “Em matéria de drogas nem é bom falar. 47 Iodofórmio adulterado com enxofre. Emetina fabricada com sais de quina. Quinino e aspirina feitos com lactose. Óleos minerais e medicinais clarificados com ácido sulfúrico impuríssimo, contendo arsênico. E, cúmulo, 914 em ampolas que não passa de finíssimo fubá de milho amarelo. São Paulo virou o paraíso da fraude bromatológica. Indefesa como está a cidade, confiada a uns fiscais que fiscalizam para si, os desalmados envenenam-se por todas as vias e amontoam fortunas colossais à custa da saúde alheia. São duas coisas que, arre! Valem a pena: falsificar e fiscalizar” (Lobato, 1964 apud Rozenfeld, 1998). Este período é caracterizado pelo crescimento econômico do país, impulsionado pela produção de café e o aquecimento do comércio internacional. As cidades portuárias receberam atenção especial: era necessário que suas estruturas sanitárias estivessem em condições adequadas, pois eram rotas de exportação de produtos para várias partes do mundo e porque assim favoreciam a vinda de imigrantes para o aumento da força de trabalho. Mas os problemas sanitários não foram resolvidos de imediato e epidemias, como a febre amarela, tornaram- se sérias ameaças à população e à economia do país (Costa, 2004). Oswaldo Cruz assume o comando da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) e em 1904 é aprovado o Decreto nº 5.156 que estabelecia o novo Regulamento dos Serviços Sanitários da União, contendo normas para o controle sanitário no país. Na área de medicamentos foi elaborada, em 1918, uma política de medicamentos oficinais e no Instituto Oswaldo Cruz passaram a ser produzidos medicamentos para o controle de doenças endêmicas e epidêmicas, como a quinina para o tratamento da malária (Costa, 2004). Em 1920 é criado o Departamento 55 Nacional de Saúde Pública (DNSP) e em 1923 foi editado um importante documento sanitário no país, o Decreto nº 16.300, que permaneceu por muitos anos como o Regulamento Sanitário Federal. Em relação ao controle sanitário sobre os medicamentos, o DNSP, por meio do referido Decreto, tinha como competência (Costa, 2004:126). “(...) a fiscalização de produtos farmacêuticos (...) expostos à venda e são estabelecidas multas e penas de prisão inafiançáveis para os falsificadores de alimentos e outros produtos sob o controle do DNSP, como medicamentos e produtos biológicos.” Ainda segundo a autora, a venda de preparados farmacêuticos, antissépticos e desinfetantes, nacionais ou importados, só poderia ocorrer a 48 partir da licença concedida pelo DNSP. O Decreto não continha exigências sobre a eficácia e segurança dos produtos – o fabricante detinha a credibilidade sobre estes atributos. No que se refere ao controle da produção de medicamentos, o Decreto Federal nº 19.606/1931 estabeleceu as normas para o controle sanitário e para a atuação da Indústria Farmacêutica no Brasil (Zubioli, 1992 apud Rozenfeld, 1998). Neste Decreto reafirma-se a necessidade de licenciamento prévio à produção e comercialização de produtos farmacêuticos e outros produtos de interesse da saúde quando fabricados por particulares (Costa, 2004). Em 1941 foi criado o Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina (SNFM) por meio do Decreto 3.171 e em 1942 são criadas as Comissões de Biofarmácia e a Comissão de Revisão da Farmacopeia. Segundo Costa & Rozenfeld (2000) a Comissão de Biofarmácia foi responsável pela elaboração de várias normas que restringiram a produção e a comercialização de produtosneste período. Nas décadas de 30 e 40 houve um expressivo desenvolvimento do ramo químicofarmacêutico no Brasil, que foi acompanhado da criação de um importante regulamento para a Indústria Farmacêutica – o Decreto nº 20.397/46. Este Decreto apresentava normas para as especialidades farmacêuticas, produtos oficinais e biológicos, produtos psicotrópicos e entorpecentes, produtos químico-farmacêuticos, antissépticos e desinfetantes e normas para o funcionamento dos estabelecimentos fabricantes destes produtos. Segundo Costa (2004), o referido Decreto não apresentava exigências que dificultassem o licenciamento das especialidades farmacêuticas, este era concedido desde que houvesse a legalização do 56 estabelecimento produtor e do responsável técnico. A licença para o medicamento tinha validade de dez anos, fim dos quais deveria ser renovada. O processo de licenciamento era baseado no Relatório Técnico do medicamento e não eram exigidas informações referentes às contraindicações, eficácia e segurança do produto. Nas décadas de 60 e 70 o Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina e Farmácia (antigo SNFM) e a Comissão de Biofarmácia do Ministério da Saúde proscreveram ou restringiram vários produtos presentes no mercado brasileiro. Em 1971 foi criada a Central de Medicamentos (CEME) que tinha como funções a regulação da produção e da distribuição de medicamentos em todo o país. A década de 70 foi muito importante historicamente para ao campo da vigilância 49 sanitária brasileira, pois neste período foram criadas importantes normas, como as Leis 5.991/73 e 6.360/76. A Lei 5.991/73 (Brasil, 1973) revogou o Decreto Federal nº 19.606, de 1931, e estabeleceu o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos. Esta Lei incorporou o termo medicamento no lugar de especialidade farmacêutica (Costa, 2004). Na reforma administrativa promovida pelo governo do presidente Ernesto Geisel, em 1976, o controle de produtos foi agregado ao controle dos portos, aeroportos e fronteiras e estas atividades foram identificadas como pertencentes à área de vigilância sanitária. Neste período a fiscalização do exercício profissional, um dos primeiros objetos de regulamentação e controle sanitário estatal, passou a ser realizada pelos conselhos das respectivas profissões e um grande número de estabelecimentos de prestação de serviços era objeto de vigilância sanitária estadual e municipal (Lucchese, 2001). A Lei 6.360, de 1976, estabeleceu normas sanitárias para medicamentos, drogas, insumos farmacêuticos, cosméticos, produtos de higiene e perfumes, saneantes domissanitários e seus elementos (embalagens e rotulagem), estabelecimentos produtores, meios de transporte e propaganda. Introduziu também o termo vigilância sanitária em seu sentido amplo, não restrito ao conceito de fiscalização, incluiu o elemento qualidade como componente da vigilância sanitária de produtos e os fabricantes de medicamentos ficaram obrigados a informar à autoridade sanitária as reações nocivas provocadas pelo uso de seus produtos (Brasil, 1976). Os primeiros anos da década de 80 foram marcados pelo Movimento Sanitário que apresentava propostas reformistas para o setor saúde no Brasil. Neste período, alguns profissionais envolvidos no referido “Movimento” foram convocados para atuar em importantes 57 setores ligados à saúde e houve também uma aproximação entre os profissionais de vigilância sanitária, os demais profissionais da saúde e as organizações de consumidores. No ano de 1986 ocorreram dois importantes eventos: a 8ª Conferência Nacional de Saúde e a Conferência Nacional de Saúde do Consumidor, esta última tendo sido definida por Costa (2004) como o “mais significativo e amplo debate sobres as questões do campo sanitário”. Na área dos medicamentos foram publicadas 50 duas importantes normas direcionadas para as substâncias e produtos cujo uso deveria ser controlado: as Portarias DIMED nº 27 e nº 28, de 1986, que estiveram em vigência até final década de 90. No início da década de 90 o Governo do presidente Fernando Collor de Melo promoveu a primeira etapa da Reforma do Estado brasileiro, caracterizada, dentre outros fatores, pela redução do tamanho do Estado, desmonte das instituições de protecionismo e estatismo, liberalização do comércio internacional e do investimento estrangeiro, desregulamentação do setor privado e privatizações de várias empresas estatais. A Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), então vigente, foi também atingida pela onda de reformas – a prioridade era a agilidade administrativa e o atendimento dos pedidos das empresas. O número de funcionários da SNVS foi reduzido, ainda que insuficiente para o atendimento da demanda existente (Lucchese, 2001). Em agosto de 1990 o Governo Federal lançou o Projeto Inovar e, segundo Costa & Rozenfeld (2000) “(...) neste período foram liberados irregularmente registros para uma grande quantidade de produtos, principalmente medicamentos, desconsiderando-se a importância das análises técnico-científicas. ” Os primeiros anos da década de 90 foram bastante conturbados para SNVS. A mudança frequente dos Secretários não permitia a continuidade das ações que se pretendiam implementar na área, denúncias de corrupção e o desgaste dos profissionais que trabalhavam na SNVS revelavam a necessidade de uma discussão mais séria sobre quais seriam os rumos da vigilância sanitária no Brasil. Em meio ao estado de crise, em setembro de 1990 foi publicada a Lei 8.080 – Lei Orgânica da Saúde – que definiu a Vigilância Sanitária como: “(...) um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde.” Publicada em 26 de agosto de 1994, a Portaria GM nº 1.565 estabeleceu o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, definindo a abrangência do sistema, a distribuição das competências entre a União, estados e municípios, os procedimentos para a articulação política e administrativa destas três esferas de 51 governo no Sistema Único de Saúde e as bases para a descentralização das ações de vigilância sanitária. Em janeiro de 1995, no início do primeiro Governo Fernando Henrique Cardoso, a nova direção da SNVS tinha como objetivo dar continuidade ao projeto de reestruturação completa da vigilância sanitária federal e transformar a SNVS em uma autarquia de caráter especial. Diante das pressões do seguimento produtivo e enfrentando sérios problemas, como a falsificação de medicamentos, o projeto de criação de uma agência regulatória forte ganhou destaque naquele período. O processo de reformulação da SNVS foi concluído em janeiro de 1999 quando então foi aprovada no Congresso Nacional a Medida Provisória nº 1.791 que resultou na Lei nº 9.782, de 26/01/1999. Esta Lei definiu o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e criou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA. A partir deste fato o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária ficou formado pelos seguintes órgãos: ANVISA, Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS), Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS), Centros de Vigilância Sanitária Estaduais, do Distrito Federal e Municipais (VISAS), Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENS), Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Conselhos Estaduais, Distrital e Municipais de Saúde. Momento atual - A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) A ANVISA, definida pela Lei 9.782 como uma agência regulatória – uma autarquia sob regime especial, vinculada ao Ministério da Saúde e caracterizada pela independência administrativa, estabilidadede seus dirigentes e autonomia financeira, é responsável pela coordenação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. Os órgãos de vigilância sanitária estaduais ligados às secretarias estaduais de saúde são responsáveis pela coordenação das ações de vigilância sanitária no âmbito estadual e executam as principais ações de fiscalização do sistema nacional. Os órgãos de vigilância sanitária municipais são responsáveis pela execução das ações sanitárias locais, como o licenciamento e o monitoramento 52 de estabelecimentos comerciais, de criadouros de animais em áreas urbanas e de prestadores de serviços de interesse da saúde. No que se refere às competências da ANVISA, além da coordenação do Sistema, a Lei nº 9.782 (Brasil, 1999), em seu Artigo 7º, definiu uma série de outras atividades: estabelecer normas, propor, acompanhar e executar as políticas, as diretrizes e as ações de vigilância sanitária; autorizar o funcionamento de empresas de fabricação, distribuição, importação e comercialização dos produtos relacionados na referida lei; conceder registros de produtos; coordenar as ações de vigilância sanitária realizadas por todos os laboratórios que compõem a rede oficial de laboratórios de controle de qualidade em saúde e fomentar o desenvolvimento de recursos humanos para o sistema e a cooperação técnico-científica nacional e internacional. O registro de medicamentos como atividade competente ao órgão federal de vigilância sanitária já havia sido enfatizada pela Política Nacional de Medicamentos (PNM), aprovada pela Portaria 3.916, de 30/10/1998, alguns meses antes da aprovação da Lei nº 9782. A PNM definiu o registro de medicamentos como “ato privativo do órgão competente do Ministério da Saúde destinado a conceder o direito de fabricação do produto no país” (MS, 2001). ESTRUTURA DA ANVISA A ANVISA é formada por uma Diretoria Colegiada, responsável por sua direção, uma Procuradoria, uma Corregedoria, uma Ouvidoria, um Conselho Consultivo e unidades especializadas responsáveis por diferentes atividades. A unidade da ANVISA atualmente responsável pelo processo de avaliação dos pedidos de registro de medicamentos novos é a Gerência de Medicamentos Novos, Pesquisa e Ensaios Clínicos (GEPEC), ligada à Gerência Geral de Medicamentos (GGMED) que por sua vez está subordinada à Direção da agência. 53 A GGMED é composta ainda pela Gerência de Medicamentos Genéricos, Gerência de Isentos, Fitoterápicos e Homeopáticos, Gerência de Medicamentos Similares, Unidade de Produtos Biológicos e Hemoterápicos, Unidade de Farmacovigilância e Unidade de Produtos Controlados. A GEPEC possui uma série de competências dentro da agência (ANVISA, 2000): planejar, coordenar, orientar e fomentar as atividades técnicas e operacionais relativas a produtos sujeitos a vigilância sanitária em pesquisas envolvendo seres humanos; planejar, coordenar e orientar as atividades técnicas e normativas relativas ao registro de medicamentos novos e analisar e emitir parecer circunstanciado e conclusivo nos processos referentes a registro de medicamentos novos, tendo em vista a identidade, qualidade, finalidade, atividade, eficácia, segurança, risco, preservação e estabilidade dos produtos sob o regime de vigilância. REGISTRO DE MEDICAMENTOS NOVOS NA ANVISA O registro de medicamentos novos na ANVISA é atualmente regulamentado pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) da ANVISA nº 136, de 29 de maio de 2003. O Regulamento Técnico estabelecido por meio desta RDC, definido como “Regulamento Técnico para Medicamentos Novos ou Inovadores com Princípios Ativos Sintéticos ou Semissintéticos”, deve ser aplicado para (ANVISA, 2003a): 1. Registro de medicamentos novos com princípios ativos sintéticos ou semissintéticos associados ou não; 2. Registro de novas formas farmacêuticas, novas concentrações, nova via de administração e indicações no País com princípios ativos sintéticos ou semissintéticos por parte de empresas não detentoras de registro inicial daquele(s) principio(s) ativo(s); 3. Registro de produto resultante de: 3.1. Alteração de propriedades farmacocinéticas; 54 3.2. Retirada de componente ativo de produto já registrado; 3.3. Sais novos, isômeros, embora a entidade molecular correspondente já tenha sido autorizada. Na primeira parte do Regulamento são apresentadas as exigências anteriores à etapa de registro, referentes à procedência do medicamento e aos ensaios clínicos com o mesmo. Se o produto novo a ser registrado for de origem nacional o fabricante deve apresentar os protocolos de pesquisa clínica e os resultados do andamento destas pesquisas. Para os medicamentos novos fabricados fora do país (importados), cujos fabricantes desejam fazer os estudos clínicos de Fase III no Brasil, é necessária a apresentação do protocolo de pesquisa e os resultados de seu andamento. A terceira situação refere-se à realização de estudos de Fase III com medicamento de origem estrangeira que terminará de ser fabricado no Brasil, neste caso o fabricante deverá notificar a agência para a produção de lotes piloto. No ato do protocolo de pedido de registro a empresa deverá apresentar, dentre outros documentos, a cópia do protocolo da notificação da produção de lotes-piloto e o Certificado de Boas Práticas de Fabricação e Controle (BPFC) emitidos pela ANVISA para a linha de produção na qual o produto classificado como medicamento novo será fabricado, ou ainda, cópia do protocolo de solicitação de inspeção para fins de emissão do referido certificado. 55 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANMAT,2005a. ANMAT, 2005b. 23/01/05 ARGENTINA, 1992a.Decreto 1269 de 20/07/1992. Políticas Nacionales de Salud Ministerio de Salud y Acción Social. ARGENTINA, 1992b. Decreto nº 150 de 23/01/92 (Texto ordenado de acuerdo com las modificacionaes de los Decretos nº 1.890/92 y 177/93). Normas para el Registro, Elaboracion, Fraccionamiento, Prescripcion, Expendio de Medicamentos.05/08/05. http://www.anmat.gov.ar/principal.htm OLIVEIRA, M.A.,2001.Tecnociência, Ativismo e a Política do Tratamento da AIDS.Tese de Doutorado.,Rio de Janeiro:COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro. OLIVEIRA, M.A.; BERMUDEZ, J.A.Z.& SOUZA, A.C.M.,1999. Talidomida no Brasil: vigilância com responsabilidade compartilhada?. Cadernos de Saúde Pública, 15 (1):99-112. PIOVESAN, M.F., 2002. A Construção Política da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. REIS, A.L.A.,2004. Novos Produtos no Mercado Farmacêutico: padrão de difusão e preços. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. ROZENFELD,S.,1998. Farmacovigilância: elementos para discussão e perspectivas.Cadernos de Saúde Pública, 14 (2):237-250. SAYD, J.D.,1998. Higiene, o Desperdício de Panacéia. In: Mediar, Medicar, Remediar: aspectos da terapêutica na medicina ocidental, pp.127-155, Rio de Janeiro: EdUERJ(Saúde & Sociedade). TOGNONI G. & LAPORTE J-R., 1989. Estudos de Utilização de Medicamentos e de Farmacovigilância.In:Epidemiologia do Medicamento. Princípios Gerais (J- 56 R. Laporte, G. Tognoni & S. Rozenfeld), pp. 43-56, São Paulo – Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco.em diferentes formas farmacêuticas como comprimidos, cápsulas, xaropes, injetáveis, sprays, adesivos transdérmicos e cremes. A grande variedade de apresentações comerciais dos medicamentos permite que o paciente tenha à sua disposição formas farmacêuticas de uso mais conveniente ao tratamento, contribuindo para adesão ao mesmo. Entretanto, passados os anos de euforia da Idade de Ouro, houve um grande período de letargia no que se refere à descoberta de fármacos que representassem avanços terapêuticos efetivos e um incremento de “novidades” que não passavam de uma nova roupagem dada a produtos já existentes no mercado (Barros, 1995). Esta situação apresenta-se como um problema para os sistemas de saúde, pois estes medicamentos, registrados pelas autoridades sanitárias são anunciados por seus fabricantes como medicamentos novos e acabam “conquistando” muitos profissionais de saúde. Neste sentido, Dupuy & Karsenty (apud Barros, 1995:29) afirmam que: “(...) prescrever a última novidade lançada no mercado significa “competência”, o que favorece a boa imagem do médico pois assim ele estará buscando uma eficácia maior para o tratamento; e mesmo a indicação de produtos mais antigos pode provocar no paciente a ideia de que seu caso não está merecendo o interesse que esperava.” 6 Mas uma questão importante não pode ser desconsiderada: os medicamentos também podem representar riscos à saúde, causar sérios danos ao organismo dos indivíduos e, em casos extremos, até a morte. A vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo é reforçada pelo que se define como assimetria de informação (Piovesan, 2002: 60): “(...) impossibilidade das pessoas disporem de todas as informações necessárias para orientar suas escolhas de consumo, os produtores e prestadores dispõem de informações sobre produtos e serviços que a população não possui.” Neste cenário, o registro sanitário de medicamentos torna-se um importante instrumento de regulação sanitária por meio do qual o Estado deve atuar como mediador entre os interesses das empresas produtoras de medicamentos, que desejam registrar seus produtos, e os interesses da saúde pública, zelando por sua defesa e proteção. A regulação exercida pelo Estado é definida por Camargo (apud Piveosan, 2002:56) como: “Uma função típica da materialização de políticas públicas, pois por meio delas procura-se estabelecer uma ponderação de interesses aparentemente conflitantes em situações que comprometem o equilíbrio das relações entre agentes econômicos e usuários ou consumidores.” Uma das principais ações de proteção à saúde dos futuros consumidores é, portanto, a avaliação da solicitação de registro de medicamentos, devendo esta ser conduzida com a responsabilidade e o rigor necessários, uma vez que alguns dos efeitos dos medicamentos somente serão identificados após o uso prolongado e por um número significativo de pessoas, cada qual com sua singularidade. Tendo em vista a importância da entrada de novos medicamentos nos mercados considerou-se oportuno fazer inicialmente uma breve abordagem sobre a inovação no setor farmacêutico, para em seguida analisar, o processo de registro de medicamentos novos nos Estados Unidos, na Comunidade Europeia, na Argentina e no Brasil, assim como os registros de medicamentos novos, concedidos no Brasil, entre os anos de 2000 e 2002. 7 INOVAÇÃO NO SETOR FARMACÊUTICO E O DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS A inovação tecnológica é um componente fundamental para as empresas que desejam competir no mercado atual e é obtida por meio de investimentos em atividades de pesquisa e desenvolvimento. Existem dois tipos de inovação: inovação não-linear e inovação linear (Schmid, 2002). Um exemplo perfeito de inovação não-linear foi a descoberta da penicilina. Em 1928, trabalhando com o vírus Influenza o pesquisador Alexander Fleming observou que não havia crescimento da cultura de Staphilococcus aureus ao redor de certas regiões da placa de cultura contaminadas por fungo. Fleming não pretendia descobrir um agente bactericida, mas por suas observações e deduções acabou descobrindo a penicilina e abrindo caminho para o tratamento de uma série de infecções. A inovação linear ou lógica, por sua vez, é aquela inovação baseada em um conhecimento prévio, a partir do qual se somam avanços incrementais. Segundo Schmid, a inovação linear é uma forma de inovação orientada, com objetivos bem definidos. Um exemplo deste tipo de inovação na Indústria Farmacêutica é o avanço em terapias existentes pela descoberta de medicamentos mais seguros e eficazes a partir de uma mesma classe terapêutica. No setor farmacêutico a inovação é um processo bastante variado e contínuo, podendo ocorrer de duas formas: produção de medicamentos cujos fármacos são novas entidades moleculares ainda não comercializadas e o desenvolvimento de medicamentos que já estão no mercado por meio de pequenas alterações nos mesmos (NIHCM Foundation, 2002). Estas alterações podem melhorar o perfil farmacocinético do medicamento, aumentando sua absorção, diminuindo o número de doses diárias do medicamento, dentre outros benefícios. 8 Em alguns casos, as pesquisas com medicamentos reconhecidamente eficazes levam à descoberta de uma nova indicação terapêutica para o mesmo, alterando-se apenas a concentração do fármaco no medicamento. A aspirina (ácido acetilsalicílico) é um exemplo de medicamento antigo, usado inicialmente como analgésico, antitérmico e anti-inflamatório, que teve seu uso expandido para a prevenção de doenças cardiovasculares, como angina pectoris, trombose venosa e episódio isquêmico transitório devido a sua capacidade de inibição da atividade plaquetária (NAF/ENSP, 2002). Segundo Schmid (2002) dificilmente o primeiro medicamento para o tratamento de uma nova doença apresentará todas as propriedades que o tornem bem aceito pelos médicos e pacientes e, até atingir o status ideal, são necessários de 10 a 15 anos de comercialização. Ainda segundo o autor esta “otimização” é realizada pela Indústria Farmacêutica por meio de inovações incrementais nos medicamentos já comercializados. O termo é usado para o lançamento de produtos genuinamente novos e para produtos originados de alterações em produtos já comercializados. A Sociedade Internacional de Boletins sobre Medicamentos (ISDB), em sua Declaração sobre o Avanço Terapêutico no Uso de Medicamentos (ISDB, 2001,) definiu a inovação de medicamentos por meio de três conceitos: a) Conceito comercial: qualquer produto "me-too" recém-comercializado, novas substâncias, novas indicações, novas formulações, e novos métodos de tratamento. b) Conceito tecnológico: qualquer inovação industrial, uso de biotecnologia, introdução de um novo sistema de liberação da substância (adesivo, aerossol, etc) ou a seleção de um isômero ou um metabólito. c) Conceito de avanço terapêutico: um novo tratamento que beneficia o paciente quando comparado a opções previamente existentes. Arnau & Laporte (1989) apresentam uma classificação qualitativa dos medicamentos segundo seu valor terapêutico potencial: valor “elevado”, valor “relativo”, valor “duvidoso/nulo” e valor “inaceitável”. 9 Medicamentos de valor elevado são definidos pelos autores como aqueles cuja eficácia foi demonstrada em ensaios clínicos controlados e também por aqueles que não foram avaliados em ensaios clínicos controlados, mas cujo uso está justificado por apresentarem efeitos imediatos e óbvios. Medicamentos de valor relativo são aqueles que, apesar de possuírem um princípio ativo de valor potencial elevado, possuem também uma ou mais entidades químicas com eficácia terapêutica duvidosa; os medicamentos de valor relativo são aqueles cuja eficácia Me-too drug (medicamento similar; "eu também"): medicamento cuja estruturaquímica é similar ao medicamento de referência e cujo perfil farmacológico e terapêutico não difere significativamente deste. (ISDB,2001) ainda não foi demonstrada de maneira convincente em ensaios clínicos controlados, para os quais não foram associados efeitos indesejáveis graves ou frequentes e os medicamentos classificados como de valor inaceitável são aqueles que, devido sua composição, apresentam uma relação risco/benefício claramente desfavorável em todas as circunstâncias. Sob o ponto de vista da saúde pública, definir a inovação de um medicamento a partir do conceito de avanço terapêutico é, sem dúvida, a melhor forma para se avaliar um novo medicamento. A “novidade” usada pelos fabricantes na propaganda de seus medicamentos exerce forte influência sobre os profissionais de saúde e sobre os pacientes que, na maioria das vezes, passam a indicá-los e/ou utilizá-los sem ter acesso às informações sobre as verdadeiras vantagens (ou desvantagens) terapêuticas trazidas pelos novos medicamentos. Mas para que um novo medicamento esteja disponível no mercado atualmente são necessárias várias etapas que incluem a pesquisa básica, os ensaios pré-clínicos (em culturas de células e com animais), os ensaios clínicos em seres humanos e a aprovação para comercialização. 10 OS ENSAIOS CLÍNICOS CONTROLADOS A Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos dos Estados Unidos, aprovada em 1938, norteia as atividades de regulação da FDA (FDA, 1938), tendo sido aprovadas algumas emendas importantes a esta lei como a Emenda Kafauver-Harris, em 1962. Dentre as exigências estabelecidas pela referida Lei está a garantia de segurança dos medicamentos antes da comercialização. A Lei conferiu maiores poderes e responsabilidades a FDA e definiu que não mais o governo e sim os fabricantes dos medicamentos deveriam comprovar a segurança dos mesmos antes da comercialização naquele país. Mas para que a agência americana pudesse proceder à avaliação clínica da segurança dos novos medicamentos foi necessário um grande esforço inicial, pois não havia naquele período parâmetros pré-estabelecidos para o tipo de pesquisa que se pretendia e eram marcantes a relatividade e a ambiguidade incorporadas à definição de segurança dos medicamentos naquele período. A segurança era um atributo relativo, sua avaliação realizada por meio de julgamento valorativo – incorporando subjetividade – e não apenas por medidas objetivas contidas nos padrões de toxicidade vigentes. Neste cenário de “incertezas metodológicas” os ensaios clínicos foram definidos pelos técnicos da FDA como a única forma para determinar a segurança dos novos medicamentos (Oliveira, 2001). Os padrões de referência para a realização de ensaios clínicos controlados foram estabelecidos pela FDA em 1970, sendo definidas exigências metodológicas como (Marks, 1997 apud Oliveira, 2001): alocação aleatória (randomização) dos indivíduos nos grupos do estudo; necessidade de grupo controle e elaboração do protocolo de pesquisa permitindo proceder à análise quantitativa usando métodos estatísticos adequados. Os ensaios clínicos controlados são definidos como estudos experimentais analíticos que partem da causa (exposição ao medicamento) para o efeito por meio da observação e acompanhamento dos grupos experimental e controle. 11 A intervenção que se deseja avaliar é realizada em apenas um dos grupos (experimental) – o outro grupo (controle) é usado como padrão para a comparação dos resultados (Oliveira, 2001). Ainda que a realização dos ensaios clínicos tenha sido um passo importante no processo de regulação farmacêutica é importante salientar que os mesmos são realizados com uma amostra da população, com características biológicas e história clínica particulares. Logo, os achados clínicos correspondem à realidade da amostra escolhida e não à totalidade de indivíduos que estarão expostos ao medicamento. Crianças, idosos, pacientes apresentando determinadas patologias e gestantes são excluídos dos ensaios clínicos, mas também poderão utilizar o medicamento quando o mesmo for liberado para comercialização. Desta forma, pode-se afirmar que os ensaios clínicos possuem capacidade limitada na medida em que são incapazes de determinar todas as possíveis reações adversas causadas por um medicamento e porque algumas reações só aparecem com o uso prolongado. Tognoni & Laporte (1989) destacam algumas diferenças entre o ensaio clínico controlado e o uso de fármacos na prática clínica habitual. Segundo os autores, “(...) os ensaios clínicos prévios a comercialização (...) são só uma primeira impressão parcial dos seus efeitos potenciais.” Os ensaios clínicos controlados com medicamentos são geralmente realizados para a verificação da eficácia e segurança dos mesmos. Segundo o Drug Review Glossary, disponível na página eletrônica da FDA (FDA, 2005d), nenhum medicamento é completamente seguro ou incapaz de provocar efeitos adversos e os testes realizados com o medicamento antes de sua comercialização devem demonstrar que o mesmo é seguro para a indicação clínica pretendida e, 9 desta forma, “a segurança é determinada caso a caso e estabelece a relação risco/benefício do medicamento”. A OMS (Organização Mundial da Saúde) apresenta a seguinte definição para a relação risco/benefício de um medicamento: “ (...) é um meio para expressar um julgamento referente ao papel de um 12 fármaco na prática médica, baseado em dados sobre eficácia e segurança, junto a considerações da doença na qual ele é empregado. Este conceito pode ser aplicado a um só fármaco ou na comparação entre dois ou mais fármacos utilizados para a mesma indicação” (Tognoni & Laporte, 1 A eficácia de um tratamento (pelo uso de um medicamento) é a evidência de que ele realmente funciona em pacientes com uma determinada doença e é avaliada sob condições experimentais rigorosas, em geral, um ensaio clínico randomizado. A avaliação da eficácia de um medicamento pode exigir uma metodologia tão rigorosa que o contexto da pesquisa torna-se muito diferente do que é encontrado na prática. Por estes motivos as evidências sobre a efetividade do medicamento, que informam se a intervenção funcionou quando realizada em 13 condições usuais da prática clínica, também devem ser consideradas (Duncan & Schmidt, 1996). Neste sentido é importante que se reconheça o papel limitado dos ensaios clínicos realizados com os medicamentos antes de sua comercialização e que os mesmos não conseguirão abrangir todos os seus potenciais efeitos. A Farmacovigilância surge desta forma como um valioso instrumento para proteção da saúde, sendo definida por Tognoni & Laporte (1989:49) como “a identificação e a avaliação dos efeitos do uso, agudo e crônico, dos tratamentos farmacológicos no conjunto da população ou em subgrupos de paciente expostos a tratamentos específicos”. Originalmente a Farmacovigilância é voltada para o estudo dos efeitos desejáveis e indesejáveis do medicamento, mas seus objetivos principais são identificar os efeitos indesejáveis não descritos previamente, quantificar esses efeitos associados ao uso de determinados fármacos, informar aos profissionais e tomar eventuais medidas administrativas (Carné & Laporte, 1989). QUEDA NA PRODUÇÃO DE NOVOS MEDICAMENTOS Em um documento denominado Inovação ou Estagnação? Desafio e Oportunidade na Etapa Crítica para Novas Tecnologias Médicas a FDA (2004a) declara que, apesar dos avanços no campo da pesquisa básica, a produção de inovações significativas na área de saúde, incluindo os medicamentos, tem deixado a desejar e aponta o ano de 2000 como o início da redução do número de pedidos para registro de medicamentos contendo novas entidades moleculares em agências de todo o mundo. A Indústria Farmacêutica temse dedicado principalmente a encontrar novas aplicações para medicamentos já comercializados e, no ano de 2000, somente 27% dos 98 medicamentos aprovados nos EUA eram novas entidades moleculares (Schmid & Smith, 2004). 14 É importante considerar ainda que o fato destes medicamentos possuírem novas entidades moleculares não significa que representem avanços terapêuticos, conforme as definições apresentadas anteriormente. Segundo a FDA os equipamentos e técnicas de análise não passaram pelo processo de inovação necessário para avaliar os novos produtos e os profissionais que trabalham com pesquisa e desenvolvimento precisam usar ferramentas do século passado para avaliar os avanços obtidos no presente século. O processo atual de descoberta de medicamentos baseado em técnicas in vitro e em modelos animais é muitas vezes insuficiente para a compreensão da relevância clínica do produto. A FDA destaca ainda que um medicamento que iniciava os ensaios clínicos de Fase I, em 2000, não tinha maiores condições de chegar ao mercado que um medicamento que tivesse iniciado a mesma fase em 1985, afirmando que esta “deficiência” em analisar novas tecnologias pode ser uma das explicações na redução do lançamento de produtos com inovações significativas no mercado. Segundo os dados do Tufs Center for the Study of Drugs Development, baseados em medicamentos aprovados nos Estados Unidos entre 1994 e 1998, são necessários, em média, 10 a 15 anos para um medicamento sair de um laboratório de pesquisa e estar disponível para um paciente americano. Apenas 5 em 5000 compostos que entram em testes pré-clínicos (estudos em laboratório e em animais) são liberados para testes clínicos (em seres humanos) e somente 1 destes 5 compostos é aprovado para comercialização (PhRMA, 2003). Buscando reduzir esta deficiência tecnológica e as diferenças entre os resultados das pesquisas básicas e a geração de novos produtos para a saúde, a agência americana declarou a importância do desenvolvimento de novas ferramentas técnicas e científicas incluindo ensaios, padrões, técnicas de modelagem computacional e biomarcadores que possam tornar o processo de desenvolvimento de medicamentos mais eficiente e efetivo, resultando em produtos mais seguros para os pacientes (FDAa, 2004). 15 Mas a explicação da redução da entrada de medicamentos que representam avanços terapêuticos significativos no mercado, baseada apenas nas dificuldades técnicas e metodológicas encontradas pela Indústria Farmacêutica, é limitada. Os interesses comerciais que norteiam os investimentos em novos produtos ou na otimização de produtos já comercializados também devem ser levados em conta. Um importante aspecto relacionado à inovação do mercado farmacêutico é que ela ocorre preferencialmente envolvendo medicamentos que possuem um mercado consumidor garantido para o tratamento de doenças crônicas ou oriundas do estilo de vida. Segundo Trouiller (apud MSF, 2001) uma análise do desenvolvimento de medicamentos ao longo das últimas duas décadas do século XX revelou que apenas 15 novos medicamentos foram introduzidos no mercado para o tratamento das doenças tropicais, que afetam primordialmente as populações dos países pobres e em desenvolvimento, enquanto no mesmo período foram lançados 179 medicamentos para doenças cardiovasculares. Uma doença mortal ou muito grave pode ser considerada negligenciada quando as opções de tratamento são inadequadas ou não existem; quando seu mercado potencial de medicamentos é insuficiente para provocar uma pronta resposta do setor privado em produzir tais medicamentos e quando o interesse do governo em combater este tipo de doença é insuficiente. Malária, tuberculose, doença de Chagas e tripanossomíase humana africana (doença do sono) são exemplos de doenças negligenciadas. Uma explicação muitas vezes apontada pela Indústria Farmacêutica para a queda do número de novas entidades moleculares que estão entrando no mercado atualmente está ligada à questão dos custos para desenvolvimento destes produtos. Entretanto, existe uma polêmica entre aos custos divulgados pela Indústria Farmacêutica e aqueles divulgados por algumas pesquisas que apresentam valores inferiores aos da Indústria. Em um trabalho publicado por J.A. DiMasi et.al (1991), os autores declararam que o custo para desenvolvimento e lançamento de um novo medicamento no mercado era de aproximadamente US$ 231 milhões. 16 Este número foi usado em trabalhos subsequentes que alteraram alguns parâmetros usados pelo grupo de DiMasi, chegando a valores como US$ 359 milhões, valor que ajustado para o dólar de 2000, correspondia a US$ 473 milhões (MSF, 2001). Algumas estimativas recentes sobre os custos de desenvolvimento de medicamentos revelaram resultados diferentes dos citados acima: utilizando o estudo original de DiMasi, o grupo Public Citizen, uma organização sem fins lucrativos destinada à defesa dos consumidores nos Estados Unidos, calculou o gasto com novos medicamentos em US$110 milhões, sem contar o custo de oportunidade (da receita potencial caso o capital fosse investido em outra atividade) e a Aliança Global para Desenvolvimento de Drogas para a Tuberculose (GATB) estimou o custo de um novo medicamento para a tuberculose em cerca de US$40 milhões, utilizando uma entidade química já identificada (MSF, 2001). Verifica-se assim que o processo de inovação no setor farmacêutico apresenta aspectos bastante polêmicos, como a definição do que é verdadeiramente uma inovação, os custos reais associados ao processo de desenvolvimento de novos medicamentos e os interesses comerciais das empresas farmacêuticas. Mas dentre as questões levantadas neste capítulo, uma pode ser apontada como essencial sob o ponto de vista sanitário: a definição da inovação dos medicamentos segundo o avanço terapêutico. Um medicamento só poderá ser considerado uma verdadeira inovação, do ponto de vista terapêutico, se apresentar vantagens clínicas sobre os medicamentos já comercializados, caso contrário, somente os fabricantes, e não os consumidores, estarão sendo beneficiados com o lançamento de novos produtos no mercado. REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS O uso de preparações com propriedades curativas remonta ao início da história da Humanidade. Achados arqueológicos demonstraram que a habilidade 17 para elaborar um medicamento já existia 16 séculos antes de Cristo (Costa & Rozenfeld, 2000). A civilização grega utilizava o termo phármakon destacando que o medicamento possui ao mesmo tempo a natureza de remédio (cura) e de veneno (dano à saúde) (Costa, 1999) e Galeno (131-210) já chamava atenção de que potenciais efeitos venenosos existem em qualquer medicamento. Entretanto, somente no final do século XVIII as preocupações de Galeno começaram a ser efetivamente confirmadas e Withering, médico e botânico inglês, fez a descrição da intoxicação por um fármaco – a intoxicação digitálica (Barros, 1982 apud Costa, 1999). No final do século XIX surgiram os primeiros inquéritos formais quanto à segurança dos medicamentos como resposta às reações adversas observadas em pacientes (Capellà et al.,1989 apud Costa, 1999). Nas primeiras décadas do século XX os países mais desenvolvidos, preocupados com a questão da incorporação descontrolada de novas tecnologias, começaram a estabelecer leis e criar órgãos responsáveis para implementação destas leis, com o intuito de controlar a produção e a comercialização de bens e serviços com potenciais riscos à saúde pública (Abraham,1995). Segundo Tenner (1997 apud Lucchese, 2001), o progresso tecnológico impõe uma vigilância cada vez maior, pois, geralmente, o uso de tecnologias mais avançadas pode produzir resultados melhores (mais potentes), mas exige que sejam obtidos por meio deestreitos controles e critérios. Neste cenário, os profissionais de saúde devem ser qualificados adequadamente para avaliar tais tecnologias. O Estado surge neste contexto como responsável pela proteção da saúde dos consumidores, cabendo-lhe zelar pelos interesses coletivos, intervindo nas atividades de produção e comercialização dos produtos e prestação de serviços. 18 O poder de restringir direitos individuais em favor dos direitos coletivos é inerente ao Poder Público, que intervém por meio de órgãos da administração pública com poder de regulamentação e de polícia. Segundo Costa & Rozenfeld (2000:16): “As ações de vigilância sanitária estão inseridas no âmbito das relações de produção e consumo, onde se origina a maior parte dos problemas de saúde e sobre os quais é preciso intervir”. As atividades de regulação sanitária no Brasil foram influenciadas ao longo dos tempos pelas mudanças no contexto político e econômico mundial. Do controle dos portos, dos alimentos, do exercício profissional dos médicos e boticários e dos manufaturados importados a atenção é dirigida para a produção interna do país, para as indústrias e produtos que podem provocar riscos à saúde. No contexto atual, com a abertura econômica dos mercados em vários países, a preocupação dos órgãos de vigilância sanitária está direcionada também à produção externa e aos processos internacionais de regulamentação sanitária (Lucchese, 2001). Na área dos produtos para saúde os medicamentos merecem atenção especial quando o assunto é a avaliação do risco. Episódios como o de 1937, que levou à morte dezenas de pessoas que utilizaram o Elixir de Sulfanilamida nos EUA, e o nascimento de crianças com focomelia no final da década de 50, pelo uso da Talidomida durante a gravidez, chamaram a atenção das autoridades regulatórias para a necessidade de se avaliar a segurança e a eficácia dos medicamentos liberados para o consumo humano. O número de produtos para a saúde que entram atualmente nos mercados é crescente e os medicamentos acompanham esta tendência. Como consequência, a incorporação de medicamentos recém lançados no mercado nas práticas de saúde é contínua, sendo facilitada pela velocidade com que as informações chegam até os profissionais de saúde e consumidores. Soares (1997, apud Costa, 1999:381) levanta uma questão importante sobre este fato ao declarar que: “(...) quanto maior a oferta de produtos 19 farmacêuticos, mais difícil é seu controle e uso correto: grande número de produtos registrados piora a cadeia terapêutica e o nível sanitário de um país, pois no mínimo aumenta a confusão no registro, dificulta o controle da fabricação, distribuição, prescrição, dispensação e uso, torna irrealizável o conhecimento sobre os produtos e dificulta o estabelecimento de prioridades de trabalho”. O REGISTRO SANITÁRIO DE MEDICAMENTOS O Processo de registro de medicamentos é uma das ações de vigilância sanitária cuja responsabilidade compete aos órgãos de Estado e, atualmente, no Brasil, esta atividade compete à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) (Brasil, 1999). A Política Nacional de Medicamentos (PNM), aprovada pela Portaria 3.916 de 30/10/1998, definiu o registro de medicamentos como ato privativo do órgão competente do Ministério da Saúde, destinado a conceder o direito de fabricação do produto no país (MS, 2001). A PNM tem como uma de suas diretrizes a regulamentação sanitária de medicamentos e, neste aspecto, enfatiza o papel do gestor federal no que se refere às questões como registro de medicamentos, autorização para funcionamento de empresas e restrições e eliminações de produtos inadequados ao uso. Seguindo o modelo de descentralização das ações de saúde, definido pelo Sistema Único de Saúde, a PNM enfatiza a descentralização gradual das ações de vigilância sanitária do nível federal para estados e municípios. Entretanto, atividades como registro de medicamentos e a autorização para funcionamento de empresas são definidos como “papéis indelegáveis do gestor federal” (MS, 2001). Quando os atributos relacionados à qualidade, segurança e eficácia são considerados na avaliação para concessão registro de medicamentos esta etapa 20 pode se tornar decisiva para que produtos de qualidade sejam liberados para o mercado. A avaliação destes critérios é feita por meio da análise dos resultados dos testes conduzidos com o medicamento – controle de qualidade química e microbiológica, ensaios toxicológicos e clínicos e dados sobre o processo de produção do medicamento. A transparência e a confiabilidade no processo de registro de medicamentos são fundamentais e esta atividade deve ser executada por profissionais capacitados que possam dispor de condições adequadas de trabalho para avaliar criteriosamente a nova tecnologia e os impactos de sua utilização na saúde pública. O processo de registro de medicamentos e as exigências necessárias para a aprovação dos mesmos têm sido considerados barreiras para a comercialização num mercado global em crescimento. Aqueles que defendem a desregulação nesta área sugerem medidas como o registro automático de medicamentos, o registro provisório e o limite de tempo para os processos de avaliação dos dossiês para registro. As autoridades regulatórias têm sido pressionadas para que revisem, simplifiquem e harmonizem métodos, técnicas e procedimentos administrativos envolvidos no processo de registro (MSH,1997). Em um documento elaborado em 1992 os especialistas da Sub-região Andina ligados ao Programa de Medicamentos Essenciais e Vacinas da OMS/OPAS apontaram justificativas históricas para a existência do registro sanitário de medicamentos (OPAS/ OMS, 1992). A partir da década de 50 a Indústria Farmacêutica teve um grande crescimento e as experiências com os primeiros antibióticos foram muito bem- sucedidas. Os medicamentos foram vistos pela sociedade como um caminho promissor por meio do qual a ciência realizaria a cura para todo e qualquer mal. Entretanto, no início da década de 60, a talidomida demonstrou que este 21 caminho não estava isento de riscos e sucessivamente outros medicamentos revelaram graves efeitos secundários. Tornou-se necessário estabelecer normas mais complexas, sofisticadas, custosas e de larga duração para a avaliação dos medicamentos antes da liberação dos mesmos para o mercado. No referido documento os especialistas declararam que alguns fabricantes de medicamentos, com o intuito de recuperar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento e maximizar seus lucros, lançaram medicamentos de eficácia questionável no mercado, omitiram efeitos adversos graves e venderam medicamentos para os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos que não estavam autorizados à venda em países desenvolvidos. Também são apontadas justificativas para a realização do registro sanitário de medicamentos relacionadas às peculiaridades do mercado farmacêutico: a) O paciente (consumidor) não é capaz de fazer o diagnóstico de seu estado de saúde e definir o produto adequado para o seu tratamento; não é capaz de avaliar a utilidade e eficácia do medicamento e o preço que será pago pelo mesmo; b) O médico que prescreve o medicamento não é quem paga por ele e nem sempre está capacitado suficientemente para avaliar a eficácia e segurança dos medicamentos; c) As estratégias de promoção de venda dos medicamentos são destinadas fundamentalmente aos prescritores e a transparência no mercado farmacêutico é objeto de constante debate. Verifica-se assim uma tensão neste campo entre os que defendem a importância do registro sanitário de medicamentos para a proteção da saúde pública e aqueles que o consideram mais uma barreira ao livre comércio. Os critérios para registro de medicamentos são apontadospelos fabricantes como potenciais barreiras não alfandegárias ao comércio entre diferentes países, já que as exigências sanitárias podem variar de um país para 22 outro e, desta forma, impedir que um medicamento registrado em determinado país seja registrado em outro. Neste sentido, dentre outros objetivos, visando diminuir estas diferenças sanitárias legais e facilitar as trocas comerciais entre os países foi iniciado um processo internacional denominado Harmonização dos Regulamentos Técnicos Sanitários. HARMONIZAÇÃO DOS REGULAMENTOS TÉCNICOS SANITÁRIOS CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A HARMONIZAÇÃO (ICH) Desde o final da década de 80, as maiores empresas farmacêuticas dos EUA, Europa e Japão já pressionavam as autoridades regulatórias sanitárias daqueles países para que padronizassem as exigências presentes em seus regulamentos sanitários. A principal justificativa usada pelo setor farmacêutico era diminuir os gastos com o desenvolvimento de novos medicamentos, principalmente com os ensaios clínicos e o tempo para liberação dos novos produtos para o mercado (WHO, 2002a) A Conferência Internacional sobre Harmonização (ICH) foi iniciada em abril de 1991, formada por um Comitê Diretivo composto por seis representantes oficiais – dois da Comissão Europeia, dois da FDA e dois do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão. Participam também do Comitê Diretivo seis representantes das respectivas federações da Indústria Farmacêutica e autoridades do Canadá, Suíça e da OMS participam como observadores. O objetivo principal da Conferência refere-se às exigências das autoridades regulatórias relacionadas aos novos fármacos que, em sua maioria, são desenvolvidos na Europa Ocidental, Estados Unidos ou Japão – estas três regiões contribuem com mais de 90% dos novos medicamentos desenvolvidos no mundo (WHO, 2002a). 23 A harmonização vale apenas para o registro de medicamentos nestas três regiões, mas o objetivo é que no futuro a adoção dos critérios harmonizados seja expandida para outros países, desenvolvidos ou em desenvolvimento. A OMS tem estimulado a disseminação das diretrizes harmonizadas para os países que não participam da Conferência por meio do desenvolvimento de normas e padrões de qualidade internacionalmente reconhecidos. Os países, por sua vez, podem utilizar estes padrões internacionais para elaboração de suas próprias normas, adaptando-os às suas realidades. A OMS tem buscado cooperar na promoção da difusão de informações entre as autoridades regulatórias de diversos países e um exemplo disto é a realização da Conferência Internacional das Autoridades Regulatórias de Medicamentos (ICDRA), único fórum mundial onde os representantes das entidades regulatórias regionais ou nacionais podem trocar informações e debater sobre a questão da regulação de medicamentos. A Conferência é realizada a cada dois anos desde 1980 e o encontro mais recente foi em Madri, na Espanha, em fevereiro de 2004. As questões levantadas na Conferência influenciam a elaboração das resoluções da OMS que são definidas na Assembleia Mundial de Saúde (WHO, 2002a). O processo de harmonização dos regulamentos sanitários apresenta algumas questões que precisam ser discutidas, tendo em vista as suas implicações para os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Ainda que a elevada qualidade científica dos manuais elaborados pela ICH seja largamente reconhecida, o processo de discussão envolvendo países industrializados geralmente não leva em consideração as opiniões e necessidades dos demais países membros da OMS, como os países em desenvolvimento. O objetivo de ter a OMS como instituição observadora nos trabalhos da ICH é garantir que os interesses internacionais para proteção da saúde pública sejam considerados. Porém, argumenta-se que ainda não foi criado nenhum mecanismo operacional que garanta a participação adequada das autoridades regulatórias 24 dos países não membros da ICH nos processos de elaboração dos documentos técnicos, como dos manuais (WHO, 2002b). A adoção de critérios de elevada complexidade técnica, estabelecidos na ICH como padrão global, pode ter implicações sérias para a saúde pública dos países em desenvolvimento. Empresas nacionais produtoras de medicamentos essenciais e genéricos, necessários para a prevenção e tratamento de condições endêmicas locais e que não são produzidos pelas empresas farmacêuticas multinacionais, podem ser afetadas (WHO, 2002b). Segundo Lucchese (2001), para participar do processo de regulamentação sanitária internacional e aproveitar os resultados de suas decisões para proteger sua população, os países em desenvolvimento devem contar com uma estrutura que no presente não têm: de informação, de documentação, de pessoal qualificado, de suporte científico-tecnológico e de uma estrutura administrativa bem consolidada. Ainda segundo o autor, a agilização do processo de registro de medicamentos exige um sistema de farmacovigilância ampliado e mais ágil, capaz de detectar possíveis efeitos adversos e retirar do mercado os produtos inseguros. A harmonização dos regulamentos técnicos cria a necessidade de que as agências tenham um alto grau de confiança em suas decisões no menor tempo e com a menor exigência possível. CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO FARMACÊUTICA Seguindo a tendência internacional para harmonização da regulamentação farmacêutica, iniciada pelos países desenvolvidos no início da década de 90, a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) iniciou os trabalhos de harmonização nas Américas, em 1997, com a realização da I Conferência Pan-americana de Harmonização da Regulamentação Farmacêutica, em Washington (EUA) (Lucchese, 2001). 25 A Conferência conta com a participação de representantes das autoridades regulatórias de diferentes países e entidades representantes da Indústria Farmacêutica – A Federação Latinoamericana da Indústria Farmacêutica (FIFARMA), que representa majoritariamente as multinacionais, e a Associação Latino-americana das Indústrias Farmacêuticas (ALIFAR), que representa as indústrias de capital nacional da região. A segunda Conferência ocorreu em novembro de 1999 e a terceira e última em abril de 2002, também em Washington (EUA). Dentre as recomendações apresentadas na I Conferência podem ser destacadas (Lucchese, 2001): • Adoção das boas práticas de fabricação de produtos farmacêuticos; • Exigências de testes de bioequivalência e biodisponibilidade; • Mudanças nas condições de venda dos produtos; • Adoção das boas práticas clínicas; • Fortalecimento das agências regulatórias; • Processo de harmonização por blocos econômicos; • Aproximação com a Conferência Internacional de Harmonização (ICH). Na II Conferência foram discutidos alguns temas já abordados na I Conferência e temas adicionais, como a falsificação de medicamentos e a classificação de medicamentos (com e sem prescrição). Também foi validado o conceito de país de referência e os países latino-americanos foram convocados a harmonizar a lista de países segundo critérios definidos. 26 HARMONIZAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO SANITÁRIA NO MERCOSUL A década de 1990 foi marcada por Reformas no aparelho de alguns Estados latino americanos, impulsionadas pelo baixo crescimento econômico, altas taxas de inflação, desequilíbrio fiscal e dívida externa dos países. As reformas conduziram à abertura econômica dos países ao comércio internacional por meio da redução das barreiras tarifárias e gerou um ambiente favorável para a implementação de acordos bi ou multilaterais entre os países latino americanos (Lucchese, 2001). Neste contexto, em 1991, quatro países da América do Sul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - formaram um bloco de integraçãoeconômica denominado Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), celebrado por meio do Tratado de Assunção. Dentre os pontos de negociação previstos no Tratado está o compromisso de harmonização da legislação destes quatro países em diversas áreas. O Tratado define a redução progressiva de barreiras tarifárias e a eliminação de restrições não tarifárias (a regulamentação sanitária é um dos tipos mais importantes de barreira não tarifária) (Senado Federal, 1996 apud Lucchese, 2001). A harmonização dos regulamentos técnicos sobre alimentos, medicamentos, artigos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, saneantes domiciliares e produtos de uso médico, hospitalar, laboratorial e odontológico é realizada pelas comissões temáticas que formam cada Subgrupo de Trabalho (SGT) do Mercosul, o órgão executivo mais importante. Lucchese (2001) aponta alguns avanços no campo farmacêutico obtidos nas negociações do Mercosul: • O roteiro para inspeções: contêm todos os passos que um inspetor deve seguir para fazer uma boa inspeção sanitária. É considerado o principal regulamento harmonizado do Mercosul na área farmacêutica e farmoquímica e adotado como modelo em outros países latino-americanos e como referência pela própria Indústria Farmacêutica; 27 • O Mercosul harmonizou um regime de inspeções conjuntas que permite que a autoridade sanitária de um Estado Parte receptor do novo medicamento faça uma inspeção na empresa do Estado Parte do produtor do medicamento de forma conjunta com a autoridade sanitária do país sede da empresa produtora. Considerando as questões abordadas neste capítulo, verifica-se que, embora o uso de medicamentos pela humanidade remonte a muitos séculos atrás, a exigência de dados relacionados à segurança e eficácia dos mesmos só foi estabelecida no século XX, principalmente por meio da realização dos ensaios clínicos controlados. Efeitos adversos severos e mortes marcaram algumas tragédias envolvendo o uso de medicamentos e chamaram a atenção das autoridades sanitárias em vários países do mundo ao longo do século XX, reforçando a importância do papel do Estado na regulação das relações de produção e consumo destes produtos. O registro sanitário de medicamentos apresenta-se como um importante instrumento de regulação, pois é por meio dele que o fabricante recebe autorização para comercializar seu produto. Ainda que existam críticas à necessidade do registro sanitário de medicamentos, buscou-se destacar neste capítulo a importância desta atividade para proteção da saúde coletiva. REGULAÇÃO SANITÁRIA DE MEDICAMENTOS NOS ESTADOS UNIDOS No início do Século XX existiam muitos medicamentos adulterados, falsificados, denominados medicamentos de patente no mercado americano. Mas apesar desta denominação estes medicamentos não eram patenteados, seus fabricantes usavam fórmulas secretas para garantir seus mercados. Os medicamentos produzidos pelas empresas farmacêuticas disputavam o mercado com estes medicamentos de patente e eram vendidos principalmente para os médicos. Eram chamados de medicamentos éticos – pois eram produtos 28 de “elevada qualidade, produzidos a partir de preparações padronizadas, ao contrário dos medicamentos de patente” (Abraham, 1995). O controle estatal americano sobre os medicamentos adulterados foi iniciado em 1906 quando a Lei dos Alimentos e Medicamentos Puros, a primeira lei para o controle da adulteração de medicamentos nos Estados Unidos, foi aprovada. As atividades de regulação do setor farmacêutico também eram desenvolvidas na Europa e neste período foi aprovada uma lei muito similar à americana na Inglaterra. As leis protegiam os consumidores dos falsos anúncios sobre os benefícios dos medicamentos, mas permitia que os fabricantes dos medicamentos de patente mantivessem as fórmulas dos mesmos sob segredo. Mas apesar desta proteção o volume de vendas dos medicamentos industrializados aumentou significativamente nas primeiras décadas do século XX e pouca importância era dada à possibilidade de ocorrência de efeitos adversos severos e à necessidade de garantia de segurança e eficácia dos medicamentos (Abraham, 1995). Entretanto, em 1938, um episódio foi capaz de chamar a atenção das autoridades americanas: a morte de mais de 100 pessoas (maioria crianças) que utilizaram um xarope de Sulfanilamida. Este fármaco era largamente utilizado naquele período e nenhum problema quanto à sua segurança havia ocorrido até então. Em outubro de 1937, uma empresa obteve autorização para comercializar a substância sob a forma líquida, usando, porém, uma substância tóxica como solvente, o dietilenoglicol. Os testes de toxicidade (em animais) com os compostos resultantes do dietilenoglicol foram negligenciados e o nome do solvente tóxico não estava presente no rótulo do produto (Abraham, 1995). Como consequência da tragédia, o governo americano aprovou, em junho de 1938, a Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos. 29 Por meio desta nova lei as empresas farmacêuticas ficaram obrigadas a realizar estudos de segurança com os medicamentos e passou a ser exigido também o registro dos medicamentos na FDA para a comercialização. Até então as empresas farmacêuticas não eram obrigadas a solicitar autorização governamental para comercializar seus medicamentos nos Estados Unidos e a FDA apenas tinha poderes para retirar do mercado aqueles medicamentos que apresentassem riscos à saúde pública (Abraham, 1995). O desenvolvimento da química, da fisiologia e da farmacologia básica durante a segunda metade do século XX, associado ao aumento na demanda por serviços de saúde, garantiram a introdução de vários produtos farmacêuticos no mercado. O aumento da utilização de medicamentos acentuou-se após a Segunda Guerra Mundial e os efeitos benéficos dos mesmos foram profundamente percebidos durante as décadas de 40 e 50 pela introdução de antibióticos como penicilina e estreptomicina que permitiram salvar muitas vidas em condições até então improváveis (Laporte et al., 1993). O consumo cada vez maior de medicamentos, promovido maciçamente pelos laboratórios fabricantes por meio de propagandas e marketing dos produtos, teve, segundo Sterky (1985 apud Laporte et al.,1993), um impacto cultural óbvio: aumento da dependência da alopatia (e consequentemente da classe médica e farmacêutica) pela população e a substituição de formas tradicionais de cuidado da saúde. O controle das autoridades sanitárias sobre o uso indevido dos medicamentos, sobre a propaganda dos medicamentos que em sua maioria só destacavam os efeitos benéficos (quase milagrosos) dos mesmos e sobre a eficácia destes produtos era ainda muito incipiente. Neste cenário surge então um novo medicamento: a Talidomida. Lançada no mercado alemão, em outubro de 1957, pelo laboratório Chemie Grunenthal, a Talidomida foi indicada inicialmente como sedativo e o fabricante anunciava que o produto não apresentava toxicidade. 30 O pesado investimento em marketing fez do produto um dos líderes de venda na Alemanha naquele período. O uso da Talidomida não ficou restrito à Alemanha e no início da década de 60 vinte países tinham licença para produzi-la e /ou distribuí-la. (Oliveira et al, 1999). O crescimento das vendas do produto foi acompanhado dos primeiros relatos médicos sobre reações adversas, como constipação intestinal, tonteiras, perda de memória e polineurites. O fabricante, por sua vez, buscava minimizar estes relatos atribuindo-os ao uso de altas doses do medicamento e por tempo prolongado (Mokhiber,1995 apud Oliveira et al.,1999). Os relatos médicos sobre o nascimento de crianças com má-formação congênita, caracterizada pelo desenvolvimento defeituoso dos ossos longos dos braços e das pernas e mãos e pés variando entre aspecto normal e o rudimentar(síndrome denominada focomelia pela semelhança dos recém-nascidos com a forma externa das focas), começaram a surgir na Alemanha a partir de 1959. Em 1961, durante o North Rhein-Westphalia Pediatric Meeting, realizado em Dusseldorf, na Alemanha, Lenz apresentou os resultados de uma pesquisa onde foram analisados casos de recém-nascidos com graves deformidades nas extremidades. O pediatra levantou publicamente a possibilidade das anomalias congênitas terem sido provocadas pelo consumo da Talidomida durante a gestação (Mellin & Katzenstein,1962 apud Oliveira et al., 1999). A FDA não havia autorizado o registro da Talidomida nos Estados Unidos, pois segundo a agencia americana, o fabricante não apresentou resultados satisfatórios sobre a segurança do medicamento (Abraham, 1995). No contexto da tragédia a FDA saiu fortalecida por ter impedido um desastre maior com a população americana e, estimulado pela repercussão dos fatos, em outubro de 1962, o Congresso Americano aprovou a Emenda Kefauver-Harris. 31 Esta emenda fortaleceu o controle da FDA sobre os medicamentos e os fabricantes foram obrigados a fornecer não somente provas de segurança, mas também de eficácia de seus produtos (FDA, 2004b). Foi estabelecida a exigência das solicitações de Investigação de Novo Medicamento (IND) e Aplicação de Novo Medicamento (NDA) que deveriam ser feitas pelo solicitante de registro do medicamento a FDA (Abraham, 1995). Outras normas importantes sobre os medicamentos foram aprovadas nos EUA nos anos seguintes, dentre as quais podem ser destacadas (FDA, 2004b): 1- Ato de Competição de Preço de Medicamentos e Prazo de Restauração de Patente (1984): esta Lei aumentou o número de medicamentos que poderiam ser submetidos a uma NDA abreviada (ANDA). Este processo de avaliação para registro tem como objetivo a redução de custos e de tempo para registro de medicamentos genéricos. O Prazo de Restauração de Patente referia-se aos 17 anos de proteção legal que era concedida para a patente de um medicamento. 2- Ato das taxas sobre medicamentos de prescrição (1992): por meio desta lei os fabricantes de medicamentos vendidos sob prescrição médica passaram a pagar taxas para a aplicação dos novos medicamentos e suplementos – uma taxa anual por fabricante e uma taxa anual por produto. Estes recursos foram utilizados pela FDA na contratação de mais de 700 profissionais no final do ano de 1997 com o objetivo de acelerar o processo de revisão das NDA. 3- Lei de Modernização da FDA (1997): esta lei causou uma das mais amplas mudanças na lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos em 35 anos (depois da Emenda KefauverHarris, em 1962) e teve impacto importante no registro de medicamentos, pois foram estabelecidas normas para o processo acelerado de registro e orientações para os revisores das NDA. Por meio deste processo é dada autorização para a comercialização de novos medicamentos sem que se tenha obtido resultados clínicos conclusivos (requeridos no processo de registro normal) sobre a eficácia dos mesmos. A FDA argumenta que a aprovação de registro acelerada é concedida para alguns medicamentos novos indicados para patologias graves e que carecem de tratamento 32 satisfatório. Nesta modalidade de registro, medidas menos tradicionais, denominadas desfechos substitutos (surrogate endpoints) são usadas para avaliar a eficácia dos medicamentos. Os desfechos substitutos são resultados laboratoriais que não permitem uma “medida” direta de como o paciente se sente, como seu organismo funciona ou sobrevive, mas que permitem “prever” o benefício. Um exemplo de desfecho substituto pode ser a diminuição da carga viral por curtos períodos de tempo em um paciente que esteja usando um antirretroviral. Muitos medicamentos antirretrovirais estão sendo aprovados para comercialização nos EUA desta forma (FDA, 2004c). O medicamento Mesilato de Imatinib (Glivec), indicado para tratamento oral de pacientes com Leucemia Mielóide Crônica, foi submetido ao registro acelerado baseado em resultados de três estudos de Fase II que revelaram redução substancial dos níveis de células cancerígenas na medula óssea e no sangue. O fabricante do medicamento (Novartis Pharmaceuticals) recebeu autorização para Investigação de Novo Medicamento (IND) em abril de 1998 e a FDA recebeu a solicitação para Aplicação de Novo Medicamento (NDA) em fevereiro de 2001. O medicamento foi aprovado dois meses e meio depois, em maio de 2001 (Meadows, 2002). Registro de medicamentos novos na FDA O processo de registro de medicamentos na FDA é regulamentado pela Lei dos Alimentos, Medicamentos e Cosméticos de 1938, citada anteriormente, e tem sido baseado na Aplicação de Novo Medicamento (NDA) desde 1962, quando foi aprovada a Emenda KefauverHarris (emenda à Lei de 1938). Empresas, instituições de pesquisa e outras instituições que desejam testar seus medicamentos em seres humanos nos Estado Unidos devem inicialmente solicitar uma autorização para Investigação de Novo Medicamento (IND) a FDA. Este documento deve conter informações como a fórmula estrutural do princípio ativo, os resultados dos ensaios pré-clínicos (em culturas de células e animais) realizados em laboratório com a substância, informações sobre o 33 processo de produção do medicamento e o planejamento que será adotado para os testes em seres humanos. Os ensaios com o medicamento em seres humanos, denominados ensaios clínicos, só podem ser realizados após revisão dos dados da IND pela FDA e por um grupo formado por cientistas e outros profissionais que supervisionarão a pesquisa clínica. Estes supervisores são responsáveis pela aprovação dos protocolos clínicos onde estão definidos os indivíduos que participarão dos ensaios clínicos, a relação de testes e procedimentos que serão realizados, o medicamento e as doses que serão estudadas, a duração dos testes e os objetivos dos estudos. É necessário também que o grupo de supervisores se certifique que os indivíduos selecionados para o estudo estejam informados sobre os riscos dos testes para sua saúde e que tenham dado consentimento expresso sobre sua participação na pesquisa clínica. Observadas as exigências éticas e legais para realização da pesquisa envolvendo seres humanos, os ensaios clínicos são realizados em quatro fases consecutivas (Meadows, 2002): Fase I: os testes são normalmente conduzidos com voluntários sadios e os objetivos são determinar os efeitos adversos mais frequentes do medicamento e como o mesmo é metabolizado e eliminado do organismo humano. Visam avaliar principalmente a segurança do medicamento. O número de indivíduos envolvidos nesta fase pode variar de 20 a 80. Fase II: se os estudos da Fase I não demonstrarem níveis de toxicidade inaceitáveis do medicamento, os estudos da Fase II poderão ser iniciados. Nesta etapa busca-se avaliar principalmente a eficácia do medicamento em pacientes doentes, mas também são avaliados os aspectos relacionados à segurança. O número de indivíduos envolvidos nesta fase pode variar de 100 a 300. Fase III: se os ensaios realizados na Fase II revelarem que o medicamento apresenta eficácia clínica para a indicação proposta, os ensaios da Fase III poderão ser iniciados. 34 Estes ensaios têm por objetivo dar continuidade à avaliação de segurança e eficácia do medicamento. O número de indivíduos envolvidos nesta fase pode variar de algumas centenas a 3000. Fase IV: é realizada quando o medicamento já se encontra no mercado, podendo ser usado por um grande número de indivíduos. Nesta fase são avaliados os novos usos do medicamento, novas populações de pacientes e podem ser monitorados os efeitos adversos que surgem com o uso prolongado. O contato entre os profissionais da FDA com os solicitantes de registro pode variar conformea necessidade de informações para subsidiar o processo de desenvolvimento e avaliação do produto. Ao término dos ensaios clínicos de Fase II, normalmente acontece uma reunião onde os profissionais da FDA e o fabricante discutem sobre como os ensaios clínicos da Fase III deverão ser conduzidos. APLICAÇÃO DE NOVO MEDICAMENTO (NDA) As etapas descritas acima devem ser observadas pelos fabricantes que pesquisam e desenvolvem seus medicamentos nos Estados Unidos. Estas empresas e aquelas que desenvolveram seus produtos fora dos EUA e que desejam registrar e comercializar seus medicamentos nos EUA devem solicitar a FDA a autorização para Aplicação de Novo Medicamento (NDA). Esta solicitação deve ser feita ao Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos (CDER) da FDA, que será responsável pela avaliação da NDA. Tratando-se de medicamentos biológicos esta solicitação deverá ser feita ao CBER. O volume de informação que deve estar presente na NDA pode variar de um produto para o outro, dependendo da natureza deste, mas de forma geral, uma NDA deve ser composta de seções relacionadas aos seguintes tópicos (FDA, 2005d): 1- Estrutura química do medicamento, processos de produção e controle; 35 2- Dados sobre amostra, métodos de validação da embalagem e rotulagem; 3- Dados farmacológicos e toxicológicos dos ensaios pré-clínicos; 4- Dados clínicos (farmacocinética e biodisponibilidade); 5- Relatório atualizado sobre dados de segurança do medicamento (geralmente 120 dias após a entrada do pedido de NDA); 6- Informações sobre a patente do produto. Para o início do processo de revisão, o CDER utiliza um sistema de classificação das NDA que permite diferenciar os níveis de inovação dos medicamentos. Esta classificação é feita a partir da caracterização do tipo químico e do potencial terapêutico dos medicamentos (NIHCM, 2002): Tipo químico do medicamento: classificação referente ao fármaco do medicamento. Este fármaco pode ser novo, pode estar contido em um medicamento já aprovado ou ser derivado de um fármaco presente em um medicamento já aprovado. Potencial terapêutico do medicamento: referente à eficácia clínica do medicamento quando comparada à eficácia de medicamentos já disponíveis no mercado, destinados ao diagnóstico, tratamento ou prevenção da mesma patologia, tendo por base as evidências disponíveis no período da revisão para aprovação. A partir da análise do tipo químico, o CDER classifica os medicamentos que são apresentados para o registro da seguinte forma (FDA, 2005d): 1. Novas Entidades Moleculares (NME): medicamentos contendo fármacos ainda não aprovados para o mercado americano; 2. Novo sal de um medicamento já aprovado; 3. Nova formulação de medicamento já aprovado; 4. Nova associação de dois ou mais medicamentos; 5. Medicamentos já comercializados (novo fabricante); 6. Nova indicação para medicamento já comercializado. 36 Os medicamentos que se enquadram nos itens 2, 3 e 4 são denominados pelo CDER como IMD (Incrementally Modified Drugs). A FDA permite que um novo fabricante produza um medicamento que já está sendo produzido e comercializado por outro fabricante em duas situações diferentes: permite que um novo fabricante produza um medicamento que já está sendo produzido por outra empresa e permite o registro de medicamentos que estavam no mercado antes da promulgação da Emenda Kefauver-Harris, em 1962. Como visto anteriormente, esta Emenda estabeleceu os requerimentos de eficácia para o registro de novos medicamentos e foi aplicada de forma retroativa para os medicamentos aprovados após a Lei dos Alimentos, Medicamentos e Cosméticos de 1938 que, por sua vez, exigia a apresentação de dados de segurança. Os medicamentos que entraram no mercado antes desta data (1938) são assumidos como seguros e eficazes pela FDA, a menos que surjam evidências contrárias (NIHCM, 2002). A partir da análise do potencial terapêutico, a revisão da NDA pode ser classificada como padrão ou prioritária. Se o medicamento não apresentar nenhuma vantagem clínica sobre os medicamentos já comercializados, o CDER denomina a revisão desta NDA como padrão. Para atingir o status prioritário, o novo medicamento deve demonstrar avanço terapêutico de uma das quatro formas (NIHCM, 2002): 37 A definição de prioridade para a revisão da NDA foi estabelecida pela FDA em 1976 e até 1992 a agência usava três categorias para classificar as NDA segundo o avanço terapêutico: A, B e C. Os medicamentos da classe A apresentavam ganho terapêutico significativo sobre os medicamentos comercializados, os medicamentos da classe B apresentavam ganho terapêutico moderado e os medicamentos da classe C apresentavam uma pequena vantagem ou nenhuma vantagem sobre os medicamentos presentes no mercado. Este sistema foi aplicado de forma retroativa para os medicamentos registrados a partir de 1962. Em 1992 a agência converteu este sistema em duas categorias a partir das quais os medicamentos anteriormente classificados como “A” ou “B” passaram a ter sua NDA classificada como “prioritária” e os medicamentos classificados como “C” passaram a ter sua NDA classificada como “padrão” (DiMasi, 2000). DiMasi (2000) destaca que, embora a significância clínica definitiva dos medicamentos seja desconhecida durante o processo de revisão da NDA, já que outros possíveis usos e efeitos do medicamento são desconhecidos até que sejam usados na prática clínica diária, 38 há uma forte correlação positiva entre a classificação da FDA e a significância clínica dos medicamentos. A partir da solicitação de revisão da NDA a FDA possui um prazo de sessenta dias para decidir se o dossiê apresentado pelo fabricante contém as informações necessárias para sua 38 revisão, podendo ser enviado para avaliação técnica (FDA, 2005d). O CDER faz a revisão das NDAs classificadas como “padrão” em, no mínimo, dez meses ou aproximadamente 300 dias, já para os medicamentos considerados “prioritários”, o processo de avaliação leva em média seis meses (Meadows, 2002). A equipe de revisores do CDER que faz a revisão da NDA varia conforme o tipo de medicamento apresentado para registro, se for um medicamento indicado para tratamento de câncer, a equipe responsável pertence à Divisão de Oncologia, a NDA de um medicamento contraceptivo será encaminhada para revisão na Divisão de Medicamentos do Sistema Reprodutor e Urológico, e assim por diante. A revisão da NDA é feita inicialmente por revisores primários e em seguida por um grupo de supervisores. Os Diretores dos Departamentos geralmente é que tomam a decisão final quando o medicamento que está sendo avaliado é uma Nova Entidade Molecular e decidem também sobre a mudança de status de um medicamento de venda sob prescrição médica para medicamento de venda livre (OTC). As outras situações são decididas ao nível das Divisões do próprio CDER. Para se certificar que o processo de revisão e aprovação da NDA será baseado em dados atualizados sobre a segurança do medicamento, o CDER exige que o solicitante do registro forneça dados sobre os estudos de segurança do produto em períodos determinados: quatro meses após a entrada do pedido de revisão da NDA na FDA, após o envio da carta de aprovação da NDA ao solicitante e em outros períodos, se necessário. 39 O relatório enviado pelo solicitante deve informar a ocorrência de novas reações adversas e alterações importantes na frequência e na gravidade de efeitos adversos já conhecidos. Quanto às inspeções nos locais de fabricação do medicamento, quando uma NDA é submetida para revisão no CDER, a mesma é cadastrada em um banco de dados que é monitorado pela Divisão de Investigações Científicas da FDA que designa revisores de campo para realização de inspeções e verificação da validade