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AULA 5 FILOSOFIA DA ARTE Profª Renata Tavares 02 CONVERSA INICIAL O século XX foi, para a filosofia, um momento de profunda desconstrução. Não dizemos isso pela existência de uma escola de pensamento que se intitula desconstrucionista, tendo como escopo teórico a filosofia de Derrida. Mas sim porque, muito antes disso, na própria alvorada dos anos 1900, o edifício aparentemente inabalável do pensamento filosófico estava por ruir. A tradição que remonta a Platão e que, na modernidade, se consuma como tarefa de uma racionalidade iluminista começa a ser questionada, revista e reescrita. A ideia de reescrever surge aqui no sentido de que rever o passado é contar sobre ele outra versão. E, à medida que alguns filósofos começam a olhar para o passado da filosofia e vê-la como uma construção histórica talvez não tão bem-sucedida, inauguram a difícil tarefa de reescrever a nossa relação com o passado, tornando-a mais crítica e consciente de seus erros. Que erros seriam estes? Há várias maneiras de explicá-los, e cada uma das vertentes filosóficas que trabalha com o tema ressalta uma nuance diferente. Mas, para resumir, falaremos aqui apenas de modo geral de uma crença excessivamente positiva na capacidade racional do homem, ou seja, na ideia de que à razão pertence o domínio sobre a totalidade da vida humana. E o esgotamento dessa ideia caracteriza o pensamento do século XX. Falaremos aqui em alguns autores da filosofia que tecem críticas ao conceito de racionalidade que guiou o pensamento até o período moderno, especialmente Nietzsche e Heidegger. E por que esse tema? Sem dúvida ele já seria importante pela intenção mesma de compreender o tempo em que vivemos. Mas é ainda mais porque a arte do século XX expressa aquelas mesmas críticas, a procura pelos erros do passado que é, ao mesmo tempo, busca dos caminhos para o futuro. CONTEXTUALIZANDO Pablo Picasso foi, sem dúvida, um dos grandes gênios que a humanidade já viu. Inclusive por sua versatilidade, isto é, a capacidade de pintar desde quadros extremamente realistas até aqueles totalmente desconstruídos, que são o emblema de sua proposta artística, o cubismo. E é importante notar que, ainda hoje, mais de um século depois, por exemplo, de Les Demoiselles de Avignon, há muita gente que não compreende por que Picasso desconfigurou os rostos e 03 corpos, que sentido tem afinal a proposta cubista. O mesmo raciocínio vale para todas as outras vanguardas artísticas que marcaram o início do século XX. O que gostaríamos de ressaltar, contudo, não é apenas o fato de que muita gente não compreende, mas perguntar o porquê. Devemos refletir que, em um tempo em que se tem acesso muito facilmente ao conhecimento e às obras – tudo está disponível na internet – o problema não pode ser o do desconhecimento. Por que então será que estas obras não estão completamente assimiladas pelo público? Nesta aula, discutiremos brevemente sobre uma possível resposta filosófica a essa pergunta. Propomos que você reflita sobre a relação entre as obras vanguardistas do século XX e o pensamento que animava esse mesmo tempo. Será que o que havia então de revolucionário – e se expressava tanto na arte quanto no pensamento – é algo que abala as estruturas de nosso modo habitual de pensar e, justamente por isso, permanece incômodo até hoje? Nosso raciocínio parte do princípio de que somos herdeiros de uma longa tradição que privilegia a racionalidade, a linearidade e a harmonia, ligando, como fez Platão, a beleza à verdade e à moralidade. Essa é a herança que será criticada tanto pelos pensadores quanto pelos artistas (que no fundo também são pensadores) que aqui elencamos. TEMA 1 – UM CONTEXTO DE MUDANÇAS Basta lembrar personagens como Pablo Picasso, Vincent Van Gogh ou Salvador Dalí para pensar em algo que somente a palavra vanguarda pode nomear: artistas à frente de seu tempo, capazes de, por assim dizer, enxergar mais longe que seus contemporâneos. Isso, em certa medida, corresponde a uma capacidade de perceber grandes mudanças históricas que talvez a maioria das pessoas não perceba e de ser, ao mesmo tempo, inclusive, os próprios provocadores destas mudanças. É impossível reduzir um tema tão complexo quanto o movimento da história e a sua relação com a arte, e é especialmente impossível estabelecer, como se tratássemos de uma ciência exata, uma causalidade imediata e necessária entre uma e outra coisa. O que propomos fazer aqui é tão somente refletir sobre certas questões que influenciavam os mais diversos âmbitos da vida dos homens do início do século XX, e sugerir algumas intercessões entre tais questões e as vanguardas que marcaram esse período na arte, não apenas 04 nas artes plásticas, mas em todas elas. No teatro, na dança, na literatura, enfim, em todo tipo de manifestação artística, podemos ver a marca de um novo tempo, um tempo em que os ideais da modernidade pareciam se esgotar. Este processo de ruptura de visão de mundo se inicia em meados do século XIX, e se expressa como uma insatisfação com o idealismo representado por Hegel na filosofia, mas que não se reduz à filosofia. É também uma espécie de espírito do tempo que se coadunava com os ideais da Revolução Francesa. Dentro dessa noção de insatisfação, podemos perceber que começam a se desenhar, e de maneiras diversas, os caminhos de crítica àquele conceito de racionalidade clássica que tem sua origem na filosofia grega e seu apogeu no iluminismo europeu. Poderíamos destacar alguns nomes aos quais nem sempre damos muita atenção, mas que foram relevantes como filosofias que romperam com os ideais modernos, como, por exemplo, o positivismo de Augusto Comte. Esse filósofo francês viveu, por assim dizer, a decadência da Revolução Francesa, e a sua resposta a isto foi a proposta de que o conhecimento fosse entendido com mais ênfase na sua dimensão de utilidade do que enredado em todos os problemas críticos que acabam por configurar falsas questões. Além disto, propõe tomar como objeto mais a sociedade do que o sujeito, criando, com isto, a sociologia. Comte criou a ideia de um espírito positivo, que deveria ser o espírito de seu tempo, animando os pensadores a tomar a ciência como ciência do “como as coisas são” mais do que “o que as coisas são”. Por outro caminho, isto é, não o de abandonar as questões da filosofia moderna, mas de recolocá-las, podemos observar uma busca de se pensar o acesso à realidade – que sempre se pensou em termos de conhecimento racional – por outras vias, ou, em outras palavras, a criação de um conceito de consciência mais amplo, como se dá em Henri Bergson, que entendia que era à intuição (não racional) que deveríamos deixar a tarefa de atingir a realidade. Também Edmund Husserl entendia a necessidade de colocar-se o problema do acesso da consciência à realidade em outros termos, e de certa maneira, disso surge o problema da linguagem que foi tão importante no século XX. Sem entrar muito em nenhuma dessas teorias, queremos apenas indicar que o contexto em que trabalhamos era de profunda transformação. Esta transformação concerne à estética na medida em que o pensamento estético não será, a partir do período em questão, apenas uma área da filosofia que se dedica a pensar a atividade humana específica que é a arte, mas principalmente 05 uma nova consciência: a de que a sensibilidade é algo muito mais importante para o ser humano, isto é, algo mais central em sua relação com a própria realidade. Por isso, o nome central dessa mudança será um pouco mais destacado nesta aula, o de Friedrich Nietzsche. Mas, antes disso, veremos mais alguns aspectos desse contexto. TEMA 2 – AS MUDANÇAS NA CIÊNCIA O processo que descrevemos pode ser visto também se nos voltarmospara o pensamento científico do período. Levantaremos aqui, de maneira breve, alguns nomes que servem de emblema para as profundas rupturas que o século XX terá que absorver, em termos epistemológicos, mas que obviamente não esgotam a questão. Queremos chamar à atenção que mesmo que não entremos em todas as questões sociais relativas ao desenvolvimento do capitalismo, à geopolítica que culminou em duas guerras mundiais, etc., ficando especificamente no âmbito da ciência, já temos rupturas muito profundas com os sistemas de pensamento que sustentaram o homem até o período moderno. Falamos então do próprio desenvolvimento das ciências naturais, que chegava a conclusões bastante incômodas para a época. A primeira que podemos considerar de grande impacto é o darwinismo, isto é, a constatação de que as espécies evoluem a partir de animais mais simples e que essa evolução se dá por meio de uma seleção natural. O homem ocidental sustentou durante muitos séculos a ideia de que era uma criatura especial e privilegiada na natureza, em função, é claro, do escopo de crenças que compõem o cristianismo. Nem a ciência nem a filosofia até aquele momento haviam posto em xeque tal caráter especial do homem enquanto imagem e semelhança de Deus. As ideias de Darwin têm efeito semelhante àquele que provocou Copérnico quando disse que era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário. A ciência da natureza continuaria sendo o campo no qual muitas crenças seriam postas por terra, e não é exagero dizer que mesmo hoje ainda não absorvemos de maneira efetiva o entendimento que tem, por exemplo, a física contemporânea a respeito do universo. Basta mencionar que a teoria da relatividade de Albert Einstein foi publicada em 1905, e ela é apenas uma das grandes revoluções em termos de visão de mundo que foram levadas a cabo por cientistas. 06 Outra ruptura fundamental proporcionada por descobertas científicas durante os anos que antecederam a virada do século XIX para o XX foi o desenvolvimento da psicanálise por Sigmund Freud. Já o mencionamos na aula anterior, e é importante retomá-lo aqui como emblema de um rompimento com os parâmetros de uma ideia moderna de razão. A mente humana passa a ser entendida de uma forma completamente inaugural, se a compararmos com o entendimento que tinham os autores da filosofia até então. Aquela capacidade superior do homem que o tornava capaz de controlar os instintos e dominar tudo aquilo que nos faz natureza também é posta em xeque nesse momento crucial da História. O que gostaríamos de discutir, portanto, a partir desses exemplos, é a perda da centralidade do ser humano em sua relação com a natureza e com a vida. Trata-se fundamentalmente de um questionamento do lugar do ser humano no mundo, e do poder que esteve sempre ligado à ideia de conhecimento. “Saber é poder”, disse Francis Bacon, ainda no século XVI. E é a própria ciência moderna, cujos métodos o próprio Bacon é responsável por fundamentar, que encontra no alvorecer do século XX as constatações que questionam este poder. Seria possível discorrer longamente sobre outros autores e temas importantes sem chegarmos a um esgotamento da questão. De toda forma, cremos que pensar em autores da ciência permite perceber que o momento que aqui nos concerne é marcado por profundos abalos em crenças longamente estabelecidas, e que os caminhos que se abrem na História são importantes para se falar de estética no século XX. TEMA 3 – NIETZSCHE E A VIDA COMO OBRA DE ARTE Na filosofia, como já dissemos, as transformações e críticas que recaem sobre o espírito moderno se dão por diversos caminhos. Mas é fundamental ressaltar a importância de Nietzsche como o filósofo que pretendeu, como diz, “a marteladas”, destruir, de fato, esse espírito e dar à arte uma dimensão que não havia sido pensada até então. É importante lembrar que até a modernidade a arte era pensada em parâmetros platônicos, isto é, como algo que deveria se subordinar ao entendimento da ideia de verdade advindo da filosofia. Nietzsche discorda veementemente de tal postura, e poderíamos dizer que é essa discordância que dá o tom de sua crítica, que não será pertinente só aos estudos sobre a arte, mas que se transformará em uma crítica à construção 07 histórica que o pensamento ocidental realizou como um todo. Isso é, Nietzsche critica toda a cultura filosófica pelo peso que deu a Platão e ao platonismo, assim como a sua apropriação pelo pensamento cristão. Já mencionamos na aula anterior que ela significa para Nietzsche uma continuidade entre ciência e moral, ou seja, aponta para a necessidade de se reconhecer que o conhecimento e a ciência – e a própria ideia de verdade – não são neutras, e a forma como a filosofia organiza seus conceitos dá privilégio a uma moral determinada, que responde a interesses determinados. Devemos aqui aprofundar essa concepção, compreendendo que a raiz desta pretensa neutralidade do conhecimento foi colocada justamente pela filosofia, que propõe e valoriza o par de opostos verdade e aparência. A verdade não poderia estar, para a tradição filosófica, na aparência. A verdade está naquela essência descolada da realidade finita e material, como pensou Platão com o termo ideia. A aparência é sempre ilusória e imperfeita, e deve ser evitada se queremos conhecer alguma coisa. A arte pertence ao reino do aparente, por se tratar de uma atividade dada no campo da sensibilidade e, como diz Platão, por não ter o compromisso com a verdade que o pensamento racional teria. Nietzsche procura afirmar um pensamento que não reduza tudo a essa dicotomia e tantas outras que derivam dela. Já mencionamos também como entende que a arte, tendo como exemplo a tragédia grega, poderia ser pensada como a conciliação de princípios opostos no homem, tendo Apolo e Dioniso como potências complementares. Mas Nietzsche não se restringe a uma perspectiva de conciliação. Ele pensa, para além disto, que a arte atinge sim a verdade, não uma verdade pensada nos parâmetros racionais e científicos da tradição, mas justamente aquela que não é legitimada por eles. Na esteira de Schopenhauer, Nietzsche concebe que a verdade não está somente ligada àquilo que nos permite a capacidade racional de representação, mas que o instinto, a força humana de querer viver, que o filósofo chama de vontade de poder, faz parte de nossa realidade, ou muito mais que isso, é a nossa verdadeira “essência”. Usamos a palavra entre aspas para chamar à atenção que Nietzsche não pensa aqui em uma essência metafísica que definiria o homem, mas justamente faz a crítica à perspectiva de se entender o homem por meio de uma essência metafísica. Ao longo de sua trajetória como pensador, Nietzsche vai aprofundando essa crítica e entende que, enquanto potência de vida que somos, também nos servimos de algo que chamou de vontade de verdade, que seria um impulso 08 para dominar a natureza por meio do conhecimento, o que, para Nietzsche, não é algo tão positivo quanto pensaram os filósofos anteriores a ele. Ele a entende como uma grande ilusão do homem, na medida em que questiona o próprio conceito de verdade como adequação que sempre pautou a filosofia. Para ele a verdade não será um discurso que corresponde necessariamente a coisas reais, mas algo simplesmente inventado. No lugar do animal racional, para Nietzsche, o que caracteriza o homem é a sua capacidade de criação. Resumindo um pouco o assunto, Nietzsche pensa que todos os discursos a que atribuímos o caráter de verdade necessária, ou seja, a filosofia e a ciência, são tão inventadas quanto a poesia. Em última instância, trata-se da defesa da própria vida humana como arte, como criação, e do homem como criador e nada mais. Todos os discursos têm a mesma validade, a validade de uma criação humana. Vejamos como explica RobertoMachado: Criticar a vontade de verdade como vontade negativa de potência significa valorizar ou revalorizar os instintos artísticos como dominação da criação de novos tipos de vida, de novas condições de existência. O artista é aquele que dá forma, determina valor, se apossa. Se a arte é o que torna a vida possível, é o grande estimulante da vida, a grande sedutora, e mesmo a força superior capaz de se contrapor à vontade de negação da vida, isso se deve a seu poder criador, transfigurador. (2002, 103) A força e a importância da filosofia nietzschiana ultrapassam, sem dúvida, o campo da arte. Por isso, gostaríamos de ressaltar o papel que a arte tem nesse pensamento, que preconiza a afirmação da vida em detrimento da negação, que é, para Nietzsche, característica da tradição filosófica. Assim, a estética passa a ter um papel mais central para os pensadores do século XX, que não podem passar ilesos à necessidade de rever os desígnios da tradição filosófica e buscar caminhos para além da antiga oposição entre verdade e aparência. TEMA 4 – A FENOMENOLOGIA E A HERMENÊUTICA Este é um assunto bastante amplo, mas que devemos mencionar aqui, ainda que como indicação para que você busque mais tarde referências adicionais. Pois, paralelamente ao desenvolvimento da filosofia nietzschiana, surge também a escola fenomenológica, cujo nome principal é o de Edmund Husserl, filósofo alemão que legou ao século XX a tarefa de refletir profundamente sobre a linguagem humana. 09 Falando de forma muito breve, Husserl dedicou-se a pensar, mais uma vez, a relação entre a consciência e a realidade. Em um primeiro momento, busca sustentar a hipótese de uma objetividade nessa relação, que era dada pela noção de intencionalidade da consciência. O fato de que a consciência tende sempre para um objeto, sua intencionalidade, significava para Husserl a ponte entre ela e o real. Haveria para ele a possibilidade de captar, para além das variáveis subjetivas das coisas, uma estrutura invariável, uma essência, e esse trabalho só era possível por meio da linguagem, isto é, pela tentativa de depurá-la de tudo aquilo que fosse subjetivo, até que sobrasse apenas um cerne de objetividade. Husserl não acreditou nisso pelo resto da vida. É um dos pensadores que realizam uma completa virada de opinião, que no seu caso se dá com a obra Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Falamos então no segundo Husserl, que já não sustenta mais aquela objetividade e defende uma total relatividade do mundo real e do sujeito, expressa pela sua ideia de que o mundo é tão somente consciência do mundo. Retoma então uma posição de que a consciência está isolada em si e não é possível provar que nossa linguagem corresponda a algo fora da consciência. Você pode estranhar esse tipo de colocação, que nos lembra o exemplo do gênio maligno que René Descartes deu nas Meditações metafísicas quando queria levar a sua dúvida metódica ao grau mais superlativo. Mas é importante compreender que isso inaugura na filosofia do século XX um questionamento muito profundo da linguagem, na medida em que outros filósofos tentaram caminhos para romper com o solipsismo da consciência husserliana, perguntando-se o que, afinal, a linguagem pode dizer. Um deles foi o também alemão, aluno de Husserl, Martin Heidegger. É importante pensar nele como inaugurador de uma postura que terá muito a ver com a arte, pois, assim como Nietzsche, traz uma noção que pertencia a ela para a filosofia. No caso, a da linguagem como não definida a priori por nada, linguagem como possibilidade de todas as possibilidades. Se Nietzsche se propôs a entender a vida como obra de arte, Heidegger se propôs a ver a vida como poesia. A principal obra de Heidegger que deve ser entendida nesta perspectiva é A origem da obra de arte, que já mencionamos na aula de número dois. Aqui, ele desenvolve a noção de arte como “pôr-se em obra da verdade”, o que significa mais exatamente uma crítica à própria noção de verdade, entendida ao longo da 010 tradição filosófica como “correspondência do intelecto à coisa”. Heidegger procura retomar o sentido grego de aletheia, o desvelamento da verdade, que é o aparecer do real que não obedece de antemão aos parâmetros e regras da razão lógica. Para ele, é preciso, portanto, libertar a linguagem daquelas regras impostas, que podem parecer naturais ao homem, mas não são. O homem é linguagem, na acepção deste pensador, mas não uma linguagem cujas regras estão dadas. Heidegger entende a linguagem no aberto da liberdade. Por isso, quase podemos dizer que ela é, para o filósofo, sinônimo da própria palavra poesia. Importa-nos, portanto, compreender por que Heidegger inaugura uma postura hermenêutica na filosofia. Em grego, hermeneuein significava interpretar. E Heidegger insiste que não podemos, para compreender o mundo, nos reduzir a analisá-lo, o que sempre significa o uso de um parâmetro científico, matematizador, racional, que significaria apenas uma parte do pensamento humano. Para pensar, o filósofo entende que é preciso compreender a linguagem como algo mais amplo, que inclusive não se reduz à perspectiva do sujeito e corresponde, em última instância, ao próprio dar-se do Ser. Como já dissemos, trata-se de um pensador complexo, ao qual deveríamos nos dedicar com mais calma, mas as indicações aqui colocadas intencionam apenas apontar para a possibilidade aberta por ele de que o próprio pensamento seja, no final das contas, uma tarefa de interpretação. Isso significa a possibilidade de que a arte se torne o parâmetro, no lugar da ciência, para a procura da verdade. TEMA 5 – RESSONÂNCIAS ENTRE ARTE E PENSAMENTO Como dissemos desde o início, não procuramos aqui estabelecer causalidades, pois não tratamos de um assunto que o permita. Mas, sim, há ressonâncias entre as rupturas elaboradas no âmbito do pensamento e as práticas artísticas que se desenvolveram no século XX. Podemos observar, de modo geral, uma ampliação de possibilidades, uma abertura à exploração que revoluciona por dentro a maior parte das artes. É bem possível e provável que os artistas não tenham lido os filósofos de que falamos, mas não se trata disso. São pessoas que fazem parte de um mesmo tempo, que se caracterizava pela necessidade de expressar as questões da vida e dos homens de maneira mais real, talvez mais visceral, em todo caso, 011 menos idealizada. O pensamento de que o homem deve ser tal ou qual coisa perde espaço, e os artistas desejam expressar o que os homens são. Esse preceito simples – embora não seja capaz de dizer tudo o que está por trás dele – pode ser observado em todos os tipos de arte. Se você pensar, por exemplo, em dadaísmo ou surrealismo, nesta perspectiva, entenderá que não se tratam apenas de vertentes que desejam pintar ou escrever de determinada maneira (uma maneira que nega formas harmônicas ou que pretende valorizar o ilógico e o inconsciente), mas que são formas de pensar a arte condizentes com as de se pensar a própria realidade. Estão em harmonia com o pensamento que pede passagem em um tempo histórico de grandes revoluções. Dentro desse paradigma mais amplo é que podemos chamar atenção para o fato de que uma série de atitudes e propostas vanguardistas surgiram de forma concomitante. É a arte moderna como um todo. Nas artes plásticas, você pode pensar em nuances que vão desde Pablo Picasso até Tarsila do Amaral, e a mesma coisa vale na literatura, de André Breton a Carlos Drummond de Andrade, ou na música, de Schönberg a Stravinsky. Nas artes cênicas, as revoluções não são menos relevantes. Surge um novo modo de conceber a dança, a dança moderna, que rompe definitivamente com o predomínio das formas preconcebidas da dança clássica. No teatro, de Constantin Stanislavski a Antonin Artaud e Bertold Brecht,a idealização perde todo o espaço frente à necessidade de se falar das coisas como elas realmente são. Em todos os exemplos citados, há transgressão: coisas inesperadas, rompimento com formas canônicas de expressão, uso da linguagem escrita, visual ou corporal de maneiras que não foram sequer pensadas no período moderno, deformidade das representações usuais, relevo a questões políticas, contestação. É importante olhar para esse período de nossa história, observando as ressonâncias entre arte e pensamento, para compreender a arte hoje. Pois se, por um lado, entendemos que a arte atual pode ser descrita em grande medida como pós-moderna, por aprofundar-se na negação das grandes narrativas, enfim, por compreender a liberdade que nos foi legada pelos artistas do século passado, por outro, também é preocupante pensar que propostas que foram vanguardistas cem anos atrás possam continuar sendo vistas com olhar de incompreensão e preconceito. 012 FINALIZANDO Esta aula pretendeu indicar uma série de temas e pensadores que permitam construir uma reflexão sobre o rompimento com as formas de pensar características da modernidade, isto é, aquelas centradas na racionalidade como essência do ser humano e nos consequentes valores norteados pela ideia de um dever ser do homem definido pela razão. Salientamos que este é um assunto em que se deve ter cuidado, isto é, que não pode ser reduzido a uma defesa de irracionalismos e relativismos gratuitos. Há uma intensa dedicação de filósofos de todas as vertentes à busca de novos caminhos para além daqueles do iluminismo, mas em nenhuma medida isso significa um abandono com relação ao pensamento, ao contrário, trata-se de uma exigência de compreender questões que as escolhas históricas da filosofia tinham deixado de lado. Neste sentido, pretendemos demonstrar que as críticas de Nietzsche e Heidegger à construção da racionalidade como se deu na História da Filosofia não surge de uma insatisfação pessoal apenas. Da segunda metade do século XIX em diante, são muitas as mudanças em todas as áreas do pensamento e a necessidade de ruptura com o antigo configura uma espécie de espírito do tempo, do qual todos os nomes aqui elencados fazem parte. Dessa maneira, procuramos apontar as ressonâncias entre todo o processo de ruptura mencionado e o modo como se passou a entender a arte no século XX, marcado como um momento de grandes revoluções em todas as formas artísticas. É importante, ainda, frisar que isso tudo configura, como se pode ver tanto no pensamento nietzschiano quanto na proposta de Heidegger de um pensamento hermenêutico, que a arte começa a ser entendida não apenas como algo acessório à vida humana, mas ganha novos entendimentos, em que se reconhece nela um caráter mais essencial para o próprio pensamento. 013 REFERÊNCIAS HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte. Tradução de Idalina Azevedo e Manuel Antônio de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010. HUSSERL, E. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias e Letras, 2006. LYOTARD, J.-F. A condição pós-moderna. Tradução de Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000. MACHADO, R. Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro: Graal, 2002. NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia. Tradução e notas de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. PALLÀS, R G. Curso básico de filosofía estética. 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