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FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS
SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA
Prof. Elton Vinícius Sadao Tada
FILOSOFIA
Marília/SP
2022
“A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma 
ação integrada de suas atividades educacionais, visando à 
geração, sistematização e disseminação do conhecimento, 
para formar profissionais empreendedores que promovam 
a transformação e o desenvolvimento social, econômico e 
cultural da comunidade em que está inserida.
Missão da Faculdade Católica Paulista
 Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo.
 www.uca.edu.br
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma 
sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, 
salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a 
emissão de conceitos.
Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5
SUMÁRIO
CAPÍTULO 01
CAPÍTULO 02
CAPÍTULO 03
CAPÍTULO 04
CAPÍTULO 05
CAPÍTULO 06
CAPÍTULO 07
CAPÍTULO 08
CAPÍTULO 09
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
06
12
21
28
38
47
58
67
74
83
89
97
103
111
117
POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA?
AS ORIGENS DA FILOSOFIA
TEORIA DO CONHECIMENTO E 
EPISTEMOLOGIA
FILOSOFIA GREGA: SÓCRATES, PLATÃO E 
ARISTÓTELES
O HELENISMO
OS MEDIEVAIS: A TEOLOGIA FILOSÓFICA
A MODERNIDADE E A RAZÃO: DESCARTES E 
OS EMPIRISTAS
ILUMINISMO
OS MESTRES DA SUSPEITA
AS DIVERSAS FORMAS DE ÉTICA
A CRÍTICA SOCIAL: OS FRANKFURTIANOS
ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE
DIREITOS HUMANOS E FILOSOFIA
FENOMENOLOGIA E HERMENÊUTICAS
TEMAS ATUAIS EM FILOSOFIA
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6
INTRODUÇÃO
Alunas e alunos, este é o nosso material didático da disciplina de Filosofia. Esse 
material foi especialmente pensado para nossas necessidades no decorrer do curso, 
trabalhando com temas que apresentam pontos de maior contato com o curso de 
Teologia e com as demandas da formação teológica. 
Para contemplar nossos objetivos, escolhemos duas linhas transversais para serem 
seguidas. Uma das linhas é da história da filosofia, trabalhando com elementos desde 
a mitologia grega, anterior ao surgimento da filosofia, até elementos atualíssimos dos 
estudos filosóficos. A segunda linha é temática, contemplando assim os principais 
pontos que precisamos pensar para as reflexões em nosso curso. Esses temas abordam 
questões de ontologia, ética, política, teoria do conhecimento, estética e hermenêutica. 
O fato de trabalharmos com a filosofia como uma ciência em diálogo com a teologia 
não deve tornar nossos objetivos mais próximos de algum tipo de filosofia religiosa. 
O que precisamos trabalhar, de forma geral, são as estruturas filosóficas que dão 
sustentação para uma reflexão profunda e sistemática. Assim, aprendendo as bases 
da filosofia, podemos desenvolver nossas habilidades de reflexão em sentido profundo. 
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7
CAPÍTULO 1
POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA?
Existem diversos motivos para o estudo da filosofia, mas nós precisamos conversar 
mais sobre o que nos interessa de forma partícula, o estudo da filosofia como parte do 
percurso de formação do ensino superior. Sem fazermos uma regressão muito ampla, 
podemos pensar um pouco sobre o caráter da filosofia. Ela é uma matéria que tem 
sua origem na antiguidade grega, e justamente por isso está nas bases da estrutura 
de pensamento ocidental. As demais disciplinas vão surgindo da especialização e se 
separando filosofia de acordo com as mudanças da história.
A filosofia é uma ciência reflexiva. Na origem do termo, filosofia significa amar o 
conhecimento, ou seja, ter uma relação de encontro e dedicação com a função racional 
e reflexiva da vida. Obviamente, essa definição é muito ampla e não funciona na prática 
para mostrar a função da filosofia. Inclusive, o amor ao conhecimento não explica, por 
si só, a necessidade dessa disciplina. Assim, podemos pensar que é possível definir 
algo a mais no trabalho filosófico.
Quando não é fácil fazer uma definição pela via positiva (dizendo o que é), sempre 
temos a possibilidade de fazer a definição pela via negativa (dizendo o que não é). 
Se você pensar que a matemática é a ciência que dá base para os cálculos, é fácil 
diferenciar o trabalho da matemática em relação à filosofia. Entretanto, se você 
perguntar “o que é um número”, pode fazê-lo tanto a partir da matemática quanto a 
partir da filosofia. O método utilizado para responder é o que define s o trabalho é 
filosófico ou matemático. Portanto, se você quer pintar uma parede, e precisa saber 
quantos metros quadrados serão pintados para definir quanta tinta deve comprar, 
é bem melhor que você utilize uma metodologia matemática. Multiplicando os dois 
metros de largura da parede pelos três metros de altura você saberá que precisa 
comprar tinta suficiente para pintar seis metros quadrados. O filósofo e a filósofa 
talvez perguntem se realmente é necessário ´pintar aquela parede e se o custo da 
tinta vale o benefício da renovação de cor. Nesse sentido, a filosofia pensa sobre as 
coisas, sem necessariamente tentar responder a seus objetivos finais. O pensamento 
é feito porque é possível e válido.
Portanto, a filosofia não tenta responder às especificidades que as ciências respondem 
por si só. Essas questões devem ser respondidas cada qual por sua própria estrutura 
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
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científica. Por outro lado, a filosofia está disposta a pensar – e possui ferramentas 
para isso – sobre questões que ninguém mais se dispõe a fazer.
Além disso, a filosofia possui seus próprios temas clássicos. O primeiro deles é 
o que se chama de ontologia, ou o estudo do ser. A ontologia não responde apenas 
“quem eu sou” com uma pergunta identitária pessoal, mas também e principalmente 
como é possível que as coisas todas sejam o que são e não sejam o que não são. 
As coisas que existem possuem uma estrutura de ser, uma base, e uma forma de 
apresentação, uma imagem. Aquilo que existe também possui limites, sendo que para 
além deles há o não ser, aquilo que não é. Nós conhecemos muito essa estrutura a 
partir da reflexão sobre a vida. Nós passamos a existir no mundo ao nascermos e 
deixamos de existir ao morrermos. Dentro desses limites há vida, fora dele não há, 
pelo menos não a vida como a conhecemos.
Outro tema próprio da filosofa é o que é certo e o que é errado. Esse tema é trabalhado 
pela ética. A ética é pensada em alguma escala pelas mais diversas ciências e até 
mesmo fora delas, no conhecimento popular. Quando você, ao chegar em casa, percebe 
que recebeu cinquenta reais a mais de troco em uma compra que fez em uma loja, reflete 
sobre o que deve fazer com aquele dinheiro, está desenvolvendo uma reflexão ética. 
A partir dessa reflexão, você pode decidir retornar à loja e devolver o dinheiro. Como 
existem diversas situações na vida que são corriqueiras e repetidas, existem códigos 
de ética e de moral que regem o funcionamento básico da sociedade. Entretanto, 
algumas coisas não acontecem com frequência ou ainda não foram incorporadas pela 
sociedade, de modo que é necessário que se faça uma ampla reflexão sobre a correção 
de determinada atitude. Sempre que surge um novo desenvolvimento técnico, surge 
também a demanda por uma reflexão que sustente essa técnica. Foi assim com a 
reprodução in vitro, com a clonagem, com o congelamento de óvulos e o descarte de 
embriões. O mesmo acontece quando surgem novas leis, novos remédios e drogas, 
novas formas de comunicação, novas organizações sociais. A ética funciona, portanto, 
como um ponto de apoio para o qual se volta sempre que é necessário decidir sobre 
a correção de uma atitude do ser humano.
Além de pensar o que é correto, a filosofia tambémpelo músico e etc (PEREIRA, 2017, p.42).
A finalidade é aquilo para o qual algo é destinado, seu sentido final, seu objetivo 
como tal.
A teoria das quatro causas de Aristóteles permite sua definição teológica mais 
central, sua ideia de que existe um primeiro motor que é imóvel e que pode mover 
todas as coisas sem ser movido por força alguma externa a si mesma. Essa seria a 
base de uma ideia aristotélica de deus.
A teoria aristotélica do motor imóvel se fundamenta no argumento 
da existênciade uma coisa movida e de um motor movido, o que 
implica a existência de um motor não movido. Isso evidentemente 
não impede que, entre a coisa movida e o motor imóvel, exista uma 
cadeia de motores, na qual cada um mova o seguinte.O exemplo 
recorrente, trazido pelo Estagirita, é o de um homem que empurra 
uma pedra com a ajuda de um bastão. O próprio bastão, que move a 
pedra, é movido pela mão, assim como a mão também é movida por 
esse motor antecedente, que será tanto a sua alma, como o objeto 
de seu desejo(Física VIII 5). Deve-se acrescentar que um elemento-
chave dessa cinética, e que foi a origem de sua derrocada, é que todo 
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
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motor imóvel não deve atuar, ao longo da realização do movimento 
do qual é motor, ignorando, assim, o princípio do ímpeto e da inércia, 
fundamentos da física moderna.Aristóteles admite a existência de 
múltiplos motores imóveis, que seriam divinos, mas sustenta que 
apenas um pode ser o primeiro motor, no qual confluem uma causa 
eficiente e uma causa final, ou seja, algo que atua, como agente 
externo das mudanças, e um fim, para o qual as coisas tendem 
(VALOIS, 2021, p.39).
Com essas explicações, podemos ver as noções básicas do pensamento de Sócrates, 
Platão e Aristóteles, a tríade que marca a era clássica da filosofia grega e que lança 
base para o desenvolvimento de toda a filosofia ocidental. 
ISTO ESTÁ NA REDE
Veja no vídeo a seguir uma comparação entre os pensamentos de Platão e 
Aristóteles, especialmente em suas concepções de mundo e de metafísica:
https://www.youtube.com/watch?v=NFMeZls5DQk
ANOTE ISSO
Quando pensamos na tradição religiosa e teológica ocidental é muito importante 
pensarmos sobre a influência dos pensamentos de Platão e Aristóteles sobre a 
constituição do pensamento cristão. É bom lembrar que tanto geográfica quanto 
temporalmente esses seriam dois pensamentos que estariam à disposição dos 
primeiros pensadores cristãos e em muitos pontos se assemelha com as ideias 
cristãs de Deus e de sagrado. 
FILOSOFIA
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CAPÍTULO 5
O HELENISMO
Para o estudo das correntes filosóficas helênicas trabalharemos com quatro 
correntes, a saber, o ceticismo, o epicurismo, o estoicismo e o cinismo. Com estudo 
dessas quatro correntes teremos uma noção bastante precisa do desenvolvimento 
da filosofia e do pensamento ocidental no período helenista, estruturando bases para 
o desenvolvimento de uma história da filosofia.
 
Ceticismo
O ceticismo não é uma corrente uníssona, mas sim uma base a partir da qual se 
desenvolvem diferentes correntes, sendo as duas principais a do ceticismo acadêmico 
e do ceticismo pirrônico.
Vejamos primeiro o ceticismo acadêmico:
O ceticismo acadêmico floresceu no terceiro século A.C. sob a direção 
dos escolarcas Arcesilau e Carnéades. Nascido na Ásia Menor, Arcesilau 
(315-241 A.C.) estudou matemática e em Atenas foi discípulo de 
Teofrasto, sucessor de Aristóteles no Liceu. Transferiu-se posteriormente 
para a Academia e no ano de 270 A.C. foi eleito o novo chefe da escola 
platônica. Sob sua liderança a Academia passa a adotar uma postura 
mais crítica com relação à herança filosófica de Platão e, inspirando-se 
sobretudo em diálogos aporéticos como o Teeteto e o Parmenides, passa 
a defender uma prática dialética livre de dogmas inspirada na sentença 
de Sócrates “Só sei que nada sei” (DA COSTA, 2014, p.46).
Temos aqui, portanto, dois nomes principais para os quais devemos direcionar 
nossos olhares, o primeiro seria o de Arcesilau e o segundo de Carnéades. Arcesilau 
teria sido aquele que fez uma reforma na Academia, lembrando que academia, nesse 
caso, diz respeito àquela escola fundada por Platão, na qual foi desenvolvida grande 
parte da filosofia grega da época. A academia possuiu basicamente três fases, sendo 
a primeira a de Platão, a segunda a de Arcesilau e a terceira de Lácides. Carnéades 
também pertenceu a essa mesma academia, sendo esse o motivo pelo qual essa 
corrente do ceticismo é chamada de ceticismo acadêmico.
Essa escola, que se estruturava basicamente a partir do pensamento de Sócrates 
e que exprimia traços de negação extrema do conhecimento, foi recebida por críticas 
tantos por outras correntes de pensamento quanto por outros céticos do período:
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40
A negação do conhecimento certo e infalível empreendida pelo 
ceticismo acadêmico encontrou resistência não somente entre 
as escolas filosóficas dogmáticas, mas também, como visto 
anteriormente, entre os céticos pirrônicos. Estes acusavam os 
acadêmicos de dogmatismo negativo, pois, se os estoicos eram 
dogmáticos porque afirmavam a possibilidade de um conhecimento 
certo e indubitável da natureza última das coisas, os acadêmicos 
eram igualmente dogmáticos porque negavam peremptoriamente a 
possibilidade de tal gênero de conhecimento (DA COSTA, 2014, p.46).
Ora, nesse ponto, já podemos entender que o ceticismo se trata, antes de mais 
nada de uma atitude de negação do conhecimento infalível, ou seja, de uma atitude a 
partir da qual todo conhecimento deveria ser posto à prova. A diferença, portanto, nas 
correntes do ceticismo está no quanto o conhecimento pelos sentidos é descreditado 
e na forma que a argumentação é feita. Vejamos, assim, a segunda escola cética, o 
ceticismo pirrônico.
Pirro de Élis
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pirro_de_%C3%89lis#/media/Ficheiro:Pyrrho_in_Thomas_Stanley_History_of_Philosophy.jpg
FILOSOFIA
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Mesmo tendo como referência o nome de Pirro de Élis, a escola pirrônica não foi de 
fato construída por ele. Pouco se sabe a respeito do próprio Pirro. O que se sabe é que 
esse pensador teria influenciado no pensamento de Enesidemo, esse sim, dissidente 
da academia e crítico do pensamento de Arcesilau e Carnéades:
Enesidemo, nascido provavelmente em Creta, fez seus estudos em 
Alexandria e posteriormente juntou-se à Academia. Abandonou a 
escola platônica denunciando o que entendia ser o dogmatismo 
negativo de Arcesilau e Carnéades e formulou uma série de dez 
argumentos chamados “tropos” ou “modos” em que tenta mostrar 
a incapacidade dos sentidos de descobrir a natureza das coisas 
que percebe. Além desses argumentos, outros oito “tropos” sobre 
a causalidade foram formulados pelo pensador cretense, nos 
quais mostra as falácias envolvidas nas diversas doutrinas sobre a 
causalidade (DA COSTA, 2014, p.48).
Apesar de sua marca como fundador da corrente cética pirrônica, Enesidemo não foi 
seu principal representante, sendo que este título foi tomado por um médico chamado 
de Sexto Empírico. Sexto não apenas exercia a medicina, mas se dedicou também 
a compilar o pensamento cético, defendendo a corrente pirrônica em detrimento da 
corrente acadêmica:
Nascido na Grécia durante o segundo século da era cristã e tendo 
aparentemente estudado em Atenas e Alexandria, o médico Sexto 
chamado Empírico (os empíricos eram uma escola de medicina) foi 
o principal divulgador do ceticismo no mundo antigo romano. Sua 
obra nada tem de original, sendo basicamente Sexto um compilador 
das ideias dos céticos que o antecederam. A importância de seus 
escritos reside justamente no fato de reunirem de forma sistemática 
os argumentos tradicionais do ceticismo contra as pretensões 
gnosiológicasdos filósofos dogmáticos (DA COSTA, 2014, p.48). 
Note que há um grande período de tempo entre Enesidemo e Sexto Empírico, 
marcando a longa duração da escola cética. Sobre o pensamento de Sexto Empírico 
e dos céticos perrônicos, devemos saber basicamente que existe ali uma ideia de 
necessidade de contínua investigação, na qual não se estabelece um dogma final, 
fazendo-se apenas relatos parciais a partir da investigação filosófica:
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42
Logo no início do Hipotiposes Pirrônicas, Sexto Empírico afirma 
existirem basicamente três tipos de filosofia, as quais representam 
três atitudes frente aos resultados possíveis de uma pesquisa 
filosófica. Ao fim de uma investigação, pode-se afirmar a obtenção 
de uma verdade, ou a inapreensibilidade da mesma ou ainda continuar 
buscando a resposta. O primeiro caso, segundo Sexto, é o dos 
dogmáticos como Aristóteles, Epicuro e os estoicos que pretendem 
haver alcançado a verdade sobre os seus objetos de investigação. O 
segundo é o caso de Arcesilau e Carnéades da Academia platônica 
que negavam qualquer possibilidade de conhecimento certo da 
natureza última das coisas25 . Os céticos representam o terceiro 
caso, pois nada afirmam ou negam, apenas seguem buscando e 
investigando. Sexto é cuidadoso o suficiente para enfatizar que 
qualquer argumento ou afirmação que fará dali por diante em seu 
livro deverá ser tomado não como uma postulação de que as coisas 
realmente se dão como é dito, mas que ele estará somente relatando 
cada fato como lhe aparece naquele momento, à maneira de um 
cronista26 . Cumpre notar que, já nas primeiras páginas de sua obra 
mais importante, o médico grego fornece ao leitor uma das chaves-
mestras da interpretação do ceticismo pirrônico: o cético não nega 
ou afirma, somente se atém ao que lhe aparece no momento e segue 
buscando (DA COSTA, 2014, p.48).
Passemos agora à análise do epicurismo.
Epicurismo
Na Atenas de IV séculos a.C. surgiu um pensador chamado de Epicuro de Samos. 
Os escritos desse pensador, bem como seus ensinamentos em sua escola, conhecida 
como “Jardins”, deram base para o desenvolvimento de uma corrente chamada de 
epicurismo. O epicurismo possui uma forte tendência ética e é centrada em questões 
mais materialistas, deixando de lado a problemática mais metafísica.
Epicuro desenvolveu uma filosofia muito voltada para a qualidade de vida, sendo 
que no centro dessa discussão encontra-se a ideia de prazer. Para o filósofo, deveria 
ser buscado um prazer moderado e uma apreensão do funcionamento do mundo 
para prever os eventos futuros.
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43
 
 Epicuro
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro#/media/Ficheiro:Epikouros_BM_1843.jpg
No esforço de construir sua filosofia voltada para a materialidade da vida, focando 
inclusive os desejos e medos do ser humano, Epicuro negou boa parte dos ensinamentos 
da tríade clássica Sócrates, Platão e Aristóteles:
É curioso notar, ainda, que o pensamento de Epicuro, que se opôs às 
ideias centrais dos platônicos, aristotélicos e estóicos, deu origem a 
uma tradição filosófica homogênea, a ponto de se poder dizer que o 
pensamento de Epicuro e o epicurismo são praticamente idênticos. 
Alguns de seus seguidores foram Hermarco, Polistrato, Metrodoro 
de Lâmpsaco, Timócrates etc., os quais, apesar de suas variantes 
pessoais, apresentaram um pensamento bastante próximo ao do 
mestre Epicuro. Como dizíamos acima, é justamente no quadro de 
uma experiência cosmopolita do mundo que Epicuro elabora sua 
filosofia. Talvez por isso se compreenda que o eixo de seu pensamento 
seja a ética, ou melhor, que a sua filosofia seja fundamentalmente 
uma ética, pois se percebe que seu pensamento procura responder 
não apenas teoricamente, mas existencialmente às interrogações 
postas pelos indivíduos do novo mundo, em face da tarefa de sua 
auto-realização. Em outros termos, seu interesse exprimia-se pelas 
três perguntas que Kant, muito posteriormente, iria consagrar como 
as três tarefas da filosofia: saber O Que Conhecer, Como Agir e O Que 
Esperar. Em síntese, Epicuro talvez tenha sido o primeiro a elaborar 
uma filosofia que fosse, ao mesmo tempo, visão de mundo e forma 
de vida² (SAVIAN FILHO, 2009, p. 13).
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
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Nesse sentido, a filosofia de Epicuro é amplamente uma filosofia prática, uma filosofia 
voltada para a forma de viver. Esse elemento salienta que o núcleo da filosofia epicurista 
é uma ética materialista que tenta encontrar os caminhos para uma Eudaimonia, ou 
seja, felicidade.
Na busca pela felicidade, Epicuro e os epicuristas debatem a questão do desejo, 
entendendo a necessidade um prazer moderado aliado a um cuidado com a saúde 
do corpo e da alma:
O desejo, assim, “brota” no indivíduo; não depende de nenhuma 
ponderação dele. Justamente por isso é que Epicuro insistia na 
necessidade de adquirir um conhecimento seguro dos desejos, pois 
esta seria a condição para bem direcionar toda escolha (aíresis) ou 
recusa (phygé) da saúde do corpo (sómatos hygíeia) e da serenidade 
da alma (psychês ataraksía). Obter a saúde do corpo e a serenidade 
ou imperturbabilidade da alma constitui, segundo Epicuro, a finalidade 
da vida feliz. Para ele (cf. § 13), tudo o que fazemos visa afastar a dor 
e o medo, ou seja, obter a saúde do corpo e a serenidade da alma. 
Esse estado de completude associa-se diretamente ao que Epicuro 
chamava de prazer (hedoné). A vida feliz, portanto, será uma vida de 
prazer, mas não qualquer prazer, e sim o da completude da saúde do 
corpo e da serenidade da alma. (SAVIAN FILHO, 2009, p. 16)
Se o prazer, por um lado, é o elemento a ser buscado, a dor é o elemento a ser 
evitado. Assim, não se trata de buscar um prazer a qualquer custo, mas sim o de 
equilibrar prazeres e renúncias em prol de uma completude, encontrando saúde e 
tranquilidade. 
 
Estoicismo
Ao contrário do pensamento epicurista, que centrava a questão do prazer, o estoicismo 
centrava o autocontrole, a abnegação. A palavra central do estoicismo é a virtude, que 
é uma prática pensada, um treinamento em prol de um comportamento considerado 
mais correto. Entretanto, o que seria essa ideia de correção? A correção estava voltada 
para o fluxo da natureza. Assim, negar o desejo em prol de uma adequação com a 
realidade das coisas naturais seria o foco da virtude estóica.
Historicamente, o estoicismo se desenvolveu como uma longa corrente de 
pensamento helênica:
FILOSOFIA
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O estoicismo perdurou por um considerável tempo na antigui-dade. 
Devido a essa extensão temporal, ele foi dividido em três fases: antigo, 
médio e imperial. O principais representantes do período antigo 
são Zenão, Cleantes e Crisipo, que conduziram a escola ainda em 
Atenas. Posteriormente, para além dos limites atenienses, Panécio e 
Possidônio se destacaram na continuida-de dos ensinamentos, sendo 
responsáveis também por uma es-pécie de sincretismo filosófico 
(Sedley, 2006, p. 21-26). Por fim, à época do império romano, podemos 
destacar alguns nomes como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (DA 
LUZ, 2019, p.110).
Sendo seu fundador considerado Zenão do Chipre, talvez, seu principal representante 
tenha sido Sêneca. Esse é um dos autores que temos textos que chegam até nós e a 
partir dos quais podemos entender um pouco sobre o pensamento estóico.
Sêneca
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca#/media/Ficheiro:Duble_herma_of_Socrates_and_Seneca_Antikensammlung_Berlin_07.jpg
https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9neca#/media/Ficheiro:Duble_herma_of_Socrates_and_Seneca_Antikensammlung_Berlin_07.jpg 
FILOSOFIA
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FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46
Assim como as outras correntes helenísticas, o estoicismo também possuiu forte 
tendência ética, voltando suas investigaçõespara os modos corretos do bem viver.
No que se refere à doutrina, um dos aspectos mais rele-vantes, que 
perpassou todas essas fases, foi a questão da busca por uma vida boa, 
sábia – nomeadamente a parte ética da doutrina. De acordo com os 
estoicos, a vida boa é aquela que se conecta plenamente ao momento, 
ao acontecimento (Deleuze, 2011, p. 149), é a que se concretiza naquele 
que consegue se compatibilizar devidamente ao fluxo das coisas; é a que 
não precisa de algo a mais para ser feliz, pois nada a insatisfaz; é a que 
não se frustra com o que ocorre, porque consciente de que é o estado 
de espírito perante as situações que realmente importa na consideração 
de quão sabiamente se vive. Para alcançar a fortaleza da pessoa sábia 
perante as oscilações da fortuna é preciso reagir de forma correta ao 
que se apresenta. Isso ocorre por meio do assentimento correto às 
representações, visto que estas intermedeiam a nossa relação com 
o mundo (Acad., I, 40–421). No entanto, é importante ressaltar que a 
habilidade nas representações não se confunde com uma habilidade 
genérica ou superficial no seu manuseio (como ocorre na sofística), mas 
à aplicação correta e constante de bons assentimentos de maneira a 
firmar e estabilizar uma disposição, tornando-a virtuosa (Boeri, 2007, p. 
311-312) (DA LUZ, 2019, p.110).
 
O estoicismo é, portanto, em resumo, uma corrente que aponta para as coisas que 
precisam ser suprimidas no comportamento humano em prol da construção de virtudes 
que levam, em última instância, à felicidade, final último de toda a vida consciente.
 
Cinismo
O cinismo é uma das escolas de filosofia helênica que ganhou grande proporção 
em seu tempo e que tem sido sempre estudada ao longo do pensamento ocidental. 
Enquanto seu fundador, Antístenes, pregava uma forma de seguir a natureza para 
encontrar a felicidade, seu principal personagem Diógenes de Sinope extremou seus 
princípios, pregando uma atitude de saída da lógica da sociedade.
Para Diógenes existia na sociedade um sistema de valores que confundiam os 
valores reais da natureza, de modo a relevar questões menos importantes e diminuir 
questões mais importantes. Por isso, o cinismo se desenvolve como uma atitude de 
descrença em relação às atitudes humanas, que podem ser enganosas.
Como consequência do pensamento cínico, há uma atitude de autarquia, ou seja, de 
autosuficiência que o indivíduo deveria ter em relação à sociedade. Essa autosuficiência 
poderia levar a práticas ascéticas, ou seja, de afastamento da vida comum.
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Diógenes de Sínope
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%B3genes_de_Sinope#/media/Ficheiro:Jean-L%C3%A9on_G%C3%A9r%C3%B4me_-_Diogenes_-_Walters_37131.jpg
ISTO ESTÁ NA REDE
O vídeo a seguir mostra de forma resumida o papel do Helenismo na filosofia antiga 
e suas principais configurações. 
https://www.youtube.com/watch?v=gPzwTNHtYq8
ANOTE ISSO
Para quem estuda Teologia, o estudo do período helênico é importante porque 
mostra as bases do pensamento que estava em voga nos séculos finais antes do 
período cristão e nos séculos iniciais da era cristã. Assim, eram basicamente as 
correntes que estavam valendo no momento da formação do cristianismo primitivo 
e da fundação do cristianismo como religião e como teologia. 
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CAPÍTULO 6
OS MEDIEVAIS: A 
TEOLOGIA FILOSÓFICA
 
A idade média é um grande período do pensamento ocidental e possui suas 
características específicas. Vale a pena entendermos que existe uma diferença entre 
a perspectiva histórica e filosófica dos períodos. Enquanto a história costuma marcar 
os períodos a partir de grandes eventos políticos e bélicos, a filosofia marca seus 
períodos pela mudança de pensamentos e perspectivas.
Diferença entre Patrística e escolástica
Uma das grandes distinções que devem ser entendidas na idade média são as duas 
principais correntes de pensamento do período, a patrística e a escolástica. A patrística 
é a corrente de pensamento que marca o início do medievo. Na verdade, a patrística se 
inicia no final da antiguidade, quando existe relação entre o surgimento do cristianismo 
com a filosofia greco-romana. Se o cristianismo surge como um movimento popular 
de cunho bastante prático, logo em seguida há um esforço pela teorização da religião, 
ou seja, pela tentativa de explicar em termos teóricos os ensinamentos cristãos. Esse 
esforço marcou um empenho mútuo da filosofia com a teologia, sendo que uma das 
grandes tentativas do período foi a de defender o pensamento cristão. Nesse sentido, 
a patrística teve um cunho apologético, ou seja, de defesa da fé.
Já a escolástica é a corrente de pensamento desenvolvida por um cristianismo 
muito mais estruturado, que estava no poder político e econômico da segunda metade 
do medievo. A escolástica se diferencia da patrística em grande parte por conter 
um apelo maior ao pensamento de Aristóteles, filósofo grego que de certa forma foi 
recuperado pelo pensamento ocidental a partir do movimento ao oriente feito nas 
grandes cruzadas.
O pensamento escolástico está muito ligado ao surgimento e desenvolvimento das 
universidades europeias. Tendo os principais dogmas do cristianismo já desenvolvidos, 
a escolástica se dedica a um estudo mais sistemático e intelectualizado da fé cristã 
com os recursos de seu período histórico.
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Apesar do pensamento medieval ser construído por uma grande variedade de 
pensadores, nos deteremos aqui ao estudo de três deles, sendo Agostinho de Hipona, 
Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino, pensadores esses que viriam a se tornar 
santos da Igreja. 
 
Agostinho de Hipona
Santo Agostinho de Hipona foi um importante pensador da patrística, possivelmente 
o mais importante pensador desse período. É um autor importante não apenas por 
seu pensamento, mas também por sua biografia, que é até hoje muito lida e estudada 
em todo o universo cristão.
A particularidade da biografia de Agostinho é sua conversão tardia ao cristianismo e 
sua mudança de vida a partir da mesma. Em sua obra chamada “Confissões” Agostinho 
conta em primeira pessoa a transformação que ocorreu em sua vida. Quando jovem, 
viveu uma vida de libertinagem, voltada aos prazeres carnais. Mais tarde aderiu a uma 
corrente de pensamento chamada de maniqueísmo, que pode ser resumida como a 
crença na existência de poderes bons e maus que se chocam, gerando um constante 
confronto no ser humano.
Ao se converteu para o cristianismo, Agostinho começa a deixar de lado os princípios 
do maniqueísmo e passa a desenvolver seu sistema de pensamento com base nos 
ensinamentos cristãos. Com isso, o problema da natureza humana é inserido na 
discussão da antropologia cristã, da queda e da graça, bem como na constituição de 
uma ideia de mal.
O problema do mal, pensado constantemente por Agostinho, estava no cerne de 
sua compreensão da ideia de Deus e da natureza humana:
Agostinho, no decorrer de sua trajetória intelectual, demonstrou 
grande inquietação em relação à questão do mal. Para evidenciarmos 
essa profunda inquietação, podemos ressaltar uma significativa 
passagem das Confissões, onde Agostinho menciona a questão que 
o acompanhou durante a vida: “Qual a sua origem, se Deus, que é 
bom, fez todas as coisas? Sendo o supremo e sumo Bem, criou bens 
menores do que Ele; mas, enfim, o Criador e as criaturas, todos são 
bons. Donde, pois, vem o mal”? (COELHO, 2003, p.13).
Veja que a questão levantada por Agostinho segue um princípio bastante lógico e 
corresponde a um problema próprio da ideia de criação. Se Deus, em sua absoluta 
bondade cria tudo o que existe, ele teria também criado o mal? A criação do mal não 
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implicaria na falta de bondade da parte de Deus? Se esse fosse o caso, não poderiaser Deus a origem do mal, portanto o mal teria sido criado por alguma outra força. 
Entretanto, a ideia de que outra força teria criado o mal é própria da filosofia maniqueísta 
a qual Agostinho já julgava não ser suficiente para resolver suas questões filosóficas:
Simpatizante, por alguns anos de sua vida, da seita gnóstica 
dos maniqueus, o bispo de Hipona compactuou com o dualismo 
ontológico estabelecido pela mesma. Neste dualismo ontológico, 
bem e mal seriam princípios originários: o bem representaria a luz. O 
mal (ou matéria) representaria as trevas. De acordo com a doutrina 
dos maniqueus, o mal se justificaria em função de o ser humano ser 
definido como uma mescla de corpo e alma. O corpo (matéria) seria 
a causa do mal, o que isentaria o homem de responsabilidade na 
causa deste (COELHO, 2003, p.13).
Com o desenvolver de seus estudos, e especialmente a partir do contato com o 
pensamento de Plotino e de sua ontologia, Agostinho passa a considerar que a divisão 
do bem e do mal derivada da divisão do corpo e da alma como algo limitado:
Através da leitura de filósofos neoplatônicos, sobretudo Plotino, onde 
apreendeu a noção de participação e o conceito de não-ser como 
equivalente ao nada, Agostinho muniu-se de argumentos que lhe 
seriam fundamentais para resolver a questão do mal. Travando contato 
com a leitura do apóstolo Paulo, Agostinho descobre a necessidade 
da humildade cristã em detrimento do orgulho racionalista que o 
habitava. Passa a perceber que a plena sabedoria e felicidade residem 
em Deus, e que, para alcançá-Lo, é preciso transcender a razão. A 
conversão agostiniana à fé cristã foi decisiva e serviu como alicerce 
para o bispo de Hipona responder satisfatoriamente ao problema 
referente ao mal. É pela crença num Deus sumamente bom, que criou 
todas as coisas a partir do nada, que Agostinho supera a teoria dos 
maniqueus (COELHO, 2003, p.13).
Agostinho chega então à sua fórmula central que é a ideia de que Deus criou 
todas as coisas e que criou as coisas como sendo boas. O pecado, e o mal como seu 
derivado seriam o distanciamento de Deus.
Uma decorrência lógica da preocupação com o mal, com a criação e com a 
possibilidade do ser humano de fazer o mal é a questão do livre arbítrio, também 
muito tematizada por Agostinho. O livre arbítrio, para o filósofo é um livre arbítrio 
para o bem, pois não há na natureza humana uma liberdade deliberada para o mal, 
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mas apenas a possibilidade da aproximação e do distanciamento de Deus, que é o 
sumo bem.
Agostinho de Hipona
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona#/media/Ficheiro:Saint_Augustine_by_Philippe_de_Champaigne.jpg
 
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Anselmo de Cantuária
Outro filósofo medieval que precisamos trabalhar para entender o pensamento do 
medievo é Santo Anselmo de Cantuária. Santo Anselmo nasceu em 1033 e viveu até 
1109, sendo portanto um homem do século XI. Foi um monge beneditino inglês e 
chegou a ser arcebispo de Cantuária.
Anselmo de Cantuária foi um dos primeiros pensadores escolásticos, buscando 
portanto uma racionalização dos princípios cristãos a partir da lógica filosófica.
Santo Anselmo de Cantuária
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anselmo_de_Cantu%C3%A1ria#/media/Ficheiro:Anselm-CanterburyVit.jpg
 
Anselmo determinou que a fé deveria preceder a compreensão, de modo a acreditar 
que sua fé deveria ser direcionada para a racionalidade e não o contrário. Nesse 
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sentido, apesar de todo seu esforço racional, não acreditava que a crença derivava 
da compreensão, mas o contrário.
Dentre seus trabalhos, talvez o que devemos ressaltar são as provas ontológicas da 
existência de Deus. Devemos ressaltar duas obras, o “monologion” e o “proslogion”. O 
monologion seria a prova única da existência de Deus. O proslogion é uma explicação 
que o autor lança posteriormente como uma forma de rebater as críticas e apresentar 
respostas a seus leitores.
A argumentasção de Anselmo sobre a existência de Deus pode ser resumida em 
uma frase, “Deus é aquilo que não pode se pensar nada maior”:
O Proslogion pode ser dividido em duas partes: dos capítulos 2 a 4 
pretende-se provar a existência de Deus, enquanto que no restante 
da obra, capítulos 5 a 26, pretende-se provar a natureza de Deus5 
(Cf. Barth 5, p. 81). Nas duas partes, o núcleo da argumentação de 
Anselmo é o “algo tal que não se pode pensar nada maior”. O primeiro 
ponto que é preciso levar em consideração é a origem dessa frase. 
Anselmo diz crer que Deus é algo tal que não se possa pensar nada 
maior, contudo, mesmo que se procure intensamente nas Escrituras 
não se encontrará Deus sendo nomeado dessa forma. Então, de que 
maneira pode Anselmo dizer que crê nisso? A resposta surge quando 
se compreende que, para Anselmo, as conseqüências lógicas das 
Escrituras corretamente interpretadas devem ser, conjuntamente 
com as Escrituras, verdadeiras. A partir disso, vê-se que crer em 
Deus como algo tal que não se possa pensar nada maior não é uma 
difi culdade para Anselmo, pois tal designação não entra em confl ito 
com as Escrituras (COSTA, 2005, p.159).
Note que não há uma busca de justificação do argumento a partir das escrituras 
bíblicas, mas sim a tentativa de apontar para uma compreensão lógica que se enquadre 
com o pensamento bíblico.
Como consequência de que Deus é aquilo que não se pode pensar nada maior, há 
também o fato da existência de Deus na realidade. A lógica utilizada por Anselmo é 
simples, mas bastante sofisticada. Se pensarmos que Deus é de tal forma que não 
se pode pensar nada maior do que ele, teremos em última instância a infinitude e a 
perfeição. Essa perfeição, no pensamento, não poderia ser vazia, pois se fosse vazia 
não seria perfeita. Portanto, essa perfeição diz respeito a algo que existe também para 
além do pensamento, na realidade. É nesse sentido que a ideia de Deus como aquilo 
que não se pode pensar nada maior serve como uma prova não apenas de uma ideia 
de Deus, mas também de sua existência na realidade. Por isso que entendemos que 
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o argumento de Santo Anselmo é um argumento ontológico, ou seja, um argumento 
sobre a existência.
 
São Tomás de Aquino
São Tomás de Aquino viveu de 1225 a 1274. Foi membro da escolástica e desenvolveu 
sua própria escola de pensamento, o tomismo, considerada uma das mais importantes 
escolas do cristianismo, sendo que seu pensamento adentra o período moderno, seja 
por concordância ou por refutação.
Tomás de Aquino centralizou o pensamento de Aristóteles, mesmo não tendo 
concordado com tudo que o filósofo propôs. Ele colocou, de certo modo, Aristóteles 
como referencial teórico fundamental do pensamento cristão. De Aristóteles tomou 
basicamente sua ideia de movimento e sua compreensão da natureza, aplicando o 
pensamento cristão a essa lógica.
O ponto central de seu pensamento teológico-filosófico são as cinco provas da 
existência de Deus, que ele mesmo explica que não são provas em si, acreditando que 
a existência de Deus é auto-explicativa e evidente. O que ele enfatiza, no entanto, é que 
nós, humanos, só podemos compreender a existência de Deus por suas consequências 
no mundo.
As cinco provas da existência de Deus seriam as seguintes: o movimento, a causa, 
a existência do necessário e do desnecessário, a gradação e as tendências ordenadas 
da natureza. É importante notar que essas provas são, antes de mais nada, filosóficas 
e não teológicas. Elas são uma base filosófica na qual Tomás de Aquino constrói sua 
Teologia.
O movimento: no mundo as coisas se movem. Por exemplo, uma semente pode 
virar uma árvore. Uma árvore pode morrer e se desintegrar no solo. Ou seja, há um 
movimento. Tomás de Aquino entende que esse movimento não é provocadopelas 
próprias coisas, mas por um motor que lhes seja anterior. Assim, é necessário que haja 
um primeiro motor, que move todas as coisas. Essa é uma argumentação derivada 
da ideia de primeiro motor imóvel de Aristóteles.
A causa: o argumento da causa se assemelha ao argumento do movimento. As 
coisas não são causadas por si mesmas, mas por algo anterior a si. Nesse sentido, 
a cadeia das causalidades nos levaria a uma causa primeira, que seria Deus.
A existência do necessário e do desnecessário: algumas coisas que existem são 
desnecessárias. Por exemplo, se a cadeira na qual você está sentado não existisse, você 
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poderia se sentar em outra cadeira, ou no chão. No entanto, se pensarmos assim, em 
algum momento poderíamos chegar à ideia de que tudo que existe é desnecessário. 
Se tudo que existe é desnecessário, não haveria a existência. Assim, é importante que 
exista algo necessário, o que seria, para Tomás de Aquino o próprio Deus.
A gradação: nós podemos fazer o bem, mas o bem que fazemos não é absoluto, e 
sim apenas parcial. Se existem coisas parciais é necessário que exista algo absoluto. 
O absoluto é, para Tomás de Aquino, Deus.
Ordem da natureza: na natureza, apesar de existirem muitas coisas que não possuem 
consciência própria, existe uma ordem nas coisas. Por exemplo, a água da chuva 
sempre cai, e o vapor sempre sobe. Nesse sentido, existe uma organização para as 
coisas na natureza, e essa organização vem de Deus.
Entendendo os cinco argumentos da prova de Deus de Tomás de Aquino, devemos 
relevar sua importância:
Parece justificável considerar os cinco argumentos como 
provas filosóficas. Pois, Tomás afirma que pode ser provado,pela 
razão natural,que Deus existe. E a razão natural para o filósofo é 
tida como o instrumento da filosofia, em sua procura pela verdade. 
A verdade de que Deus existe cai, portanto, sobre oâmbito 
do conhecimento filosófico (natural). Para Tomás, um relato 
filosófico da realidade requer como fundamento a afirmação de 
um primeiro princípio explicativo, de tudo o que existe. Tomás 
acredita que esse conhecimento natural de Deus advém através 
das escrituras–Romanos: 1,20 que dizem: “as ocultas coisas 
de Deus podem ser claramente entendidas a partir das coisas 
que ele fez”. E aqui vemos claramente porque Tomás tem como 
princípio das suas vias aquilo que podemos observar no mundo 
(os efeitos de Deus). Todavia, seguindo a transformação da razão 
na recente era moderna, as clássicas provas da existência 
de Deus receberam uma interpretação epistemológica. Com 
isso, as provas ofereceriam certeza e justificação epistêmicassobre 
a crença da existência de Deus. No entanto, deve ser notado que o 
contexto epistemológico moderno é diferente do contexto em 
que se situava a filosofia medieval. A questão real para Tomás 
não é se Deus existe como matéria, nem mesmo se consideramos 
possível justificar racionalmente que Deus existe. Seu foco, de certa 
maneira,não é espistemológico. Tomás não está procurando por 
alguma espécie de razão, que possa justificar seu assentimento à 
proposição de que Deus existe. O que o filósofo está procurando 
é explicar a maneira pela qual o intelecto intelige a verdade da 
proposição de que Deus existe (IZÍDIO, 2013, p.36).
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Ao explicar a existência de Deus, Tomás de Aquino não apenas fala de uma noção 
teológica, mas exprime também algo importante sobre a possibilidade da compreensão 
humana sobre as coisas metafísicas.
Tomás de Aquino
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_de_Aquino#/media/Ficheiro:Benozzo_Gozzoli_004a.jpg
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ISTO ESTÁ NA REDE
No vídeo a seguir você poderá ter um resumo bem estruturado sobre as principais 
ideias do pensamento medieval:
https://www.youtube.com/watch?v=rNQbsOsWKWs
ANOTE ISSO
A teologia e a filosofia da religião não surgem juntamente com o cristianismo e não 
são expostas nas escrituras bíblicas. Desse modo, é importante entender que existe 
um desenvolvimento histórico do pensamento cristão, de modo que o medievo foi 
um período fértil desse desenvolvimento. O pensamento medieval, portanto, é uma 
importante parte do cânone filosófico e teológico que constitui o cristianismo que 
conhecemos hoje. 
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CAPÍTULO 7
A MODERNIDADE E A RAZÃO: 
DESCARTES E OS EMPIRISTAS
Fim do pensamento medieval
Para começarmos a falar sobre o pensamento moderno é importante entendermos 
que há um declínio do pensamento medieval. Mas, o pensamento, ele não declina por 
si só, ele se enquadra com a situação econômica e política. Durante séculos, o estilo de 
vida medieval foi enfraquecendo, chegando a uma situação insustentável. O modo de 
vida medieval foi muito centrado no estilo de vida que se organizava em feudos, ou seja, 
núcleos políticos e econômicos comandados por um Senhor feudal que devia tributos e 
respeito a um principado que atribuía o poder. Nesses feudos, o senhor feudal trocava o 
trabalho de seus súditos pela alimentação e defesa, havendo obviamente uma balança 
de exploração do trabalho dos servos.
O início da modernidade é marcado pela formação de cidades que não se organizavam 
mais em torno do poder de um senhor feudal, mas em torno de uma atividade econômica, 
normalmente o comércio. Com isso, o trânsito das pessoas e a iniciativa produtiva se 
tornou muito mais livre, de modo que os conhecimentos também poderiam ser trocados 
de forma mais livre.
Outro fato que marcou o fim do período medieval foi a invenção da prensa móvel, 
tecnologia que permitiu a publicação de livros em grande escala. Durante o medievo, os 
livros só poderiam ser reproduzidos a partir da cópia manual, encarecendo o processo e 
dificultando o acesso ao conhecimento. Com o surgimento da prensa móvel, o acesso 
ao conhecimento foi facilitado, aumentando grandemente o acesso a diversos textos, 
especialmente o acesso aos textos religiosos. Esse acesso foi muito importante porque o 
poder da Igreja na interpretação dos textos bíblicos e da tradição cristã foi absoluto durante 
o período medieval. Com a abertura do conhecimento a partir da publicação de livros, as 
pessoas puderam acessar de modo mais direto as informações de cunho religioso.
Inclusive, é na religião que acontece uma das grandes mudanças do início do período 
moderno. A reforma protestante apresenta uma divisão de perspectiva entre cristãos de 
diversos locais e tradições a partir da qual aconteceram mudanças intelectuais e teológicas, 
assim como mudanças na organização política.
Todas essas situações marcam uma profunda mudança na sociedade europeia que 
perduram do século XV até o século XVII. É nesse século que produz o filósofo e matemático 
René Descartes, que marca o início de uma filosofia moderna.
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René Descartes: Racionalismo, Método e eu
Durante o período medieval a autoridade esteve muito ligada à Igreja, de modo que os 
argumentos eram muito associados com a lógica cristã. A fé, nesse sentido possuía papel 
importante na organização do pensamento que justificava a autoridade e a explicação do 
mundo. O pensamento moderno surge com uma novidade, o aumento da importância 
da racionalidade em detrimento da fé. Se as explicações medievais eram desenvolvidas 
a partir da autoridade da fé, as explicações modernas passam a ser construídas a partir 
da demonstração racional.
O pensamento de Descarte está no âmbito do que chamamos de Teoria do conhecimento 
e entende que deve estabelecer normas específicas sobre a possibilidade de conhecer. O 
método desenvolvido por Descartes é conhecido como o método dadúvida hiperbólica, 
ou seja, o método da dúvida exagerada, sobre o qual ele coloca alguns critérios:
Nessa busca de conhecimento preciso e correto o filósofo constrói 
um método, este que fez com que Descartes duvidasse de tudo, como 
diz Bertrand Russel: Afim de ter uma base firme para a sua filosofia, 
resolve duvidar de tudo o que lhe seja possível duvidar. Como prevê 
que o processo possa levar algum tempo, decide, entrementes, regular 
sua conduta segundo as normas comumente admitidas; isto permitirá 
à sua mente sentir-se embaraçada das possíveis consequências de 
suas dúvidas em relação com a prática. (RUSSEL,1977, p. 87). Com a 
construção do método, Descartes formula algumas regras para que 
qualquer um que busque um conhecimento verdadeiro possa alcançá-
lo a partir de sua própria razão. Na concepção de Reale, o método de 
Descartes “é um estilo fácil e nãopedante, dirigido, mais que a alunos, 
a todos os homens inteligentes do mundo” (REALE, 1990, p. 348). O 
Filósofo dividiu seu método em quatro regras, eis uma a uma, conforme 
vemos abaixo:O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que 
eu não conhecesse claramente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a 
precipitação e a prevenção; e de compreender em meus julgamentos só 
o que se apresentasse tão claramente e tão distintamente a meu espírito 
que eu não tivesse a menor dúvida (O.L.1953, p. 137).A segunda, de 
dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse, em tantas parcelas 
que se poderia fazê-lo e que seria requerido para melhor as resolver 
(O.L.1953, p. 138).A terceira, de conduzir por ordem meus pensamentos, 
começando pelos objetos os mais simples e os mais fáceis a conhecer, 
para subir, pouco a pouco, como por graus, até o conhecimento dos 
mais compostos; e supondo ordem mesmo entre aqueles que não se 
precedem naturalmente uns dos outros (O.L.1953, p. 138).E a última, de 
fazer por tudo enumerações tão completas, e revisões tão gerias, que 
eu estava certo de nada omitir (O.L.1953, p. 138).Estas regras foram 
formuladas por Descartes visando o não engano, ou, ao menos, para 
que se diminuam as possibilidades de equívoco (ZANETE; SARMENTO, 
2016, p.52-53).
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Primeiramente devemos entender como funciona a dúvida cartesiana. O filósofo 
parte do princípio de que para um conhecimento ser válido o mesmo deve ser claro 
e distinto, ou seja, um conhecimento que vença toda forma de dúvida e que possa 
ser compreendido amplamente. Para se chegar a conhecimentos que sejam claros e 
distintos Descartes propõe a necessidade de passar esses conhecimentos pelo crivo 
da dúvida. Entretanto, essa dúvida não deve ser uma simples desconfiança, mas sim 
um procedimento de perceber se aquele conhecimento se susta ante a todo e qualquer 
tipo de dúvida. É assim que se desenvolve o método hiperbólico.
René Descartes
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes#/media/Ficheiro:Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg
Após o processo de duvidar de todos os seus conhecimentos, Descartes chega a 
uma verdade firme o suficiente para sustentar seu sistema, a ideia de que não pode 
duvidar do pensamento, uma vez que enquanto está pensando ou duvidando, não 
pode duvidar da própria dúvida. Assim, o ato de pensar, o cogito, se estabelece como 
centro do pensamento cartesiano.
O conhecimento proposto por Descartes possui uma característica própria que 
devemos lembrar, o solipsismo. Solipsismo é a ideia de que o conhecimento se dá 
na solidão plena, de modo que a prova da existência do ser pensante não precisa 
de um mundo ou de outra pessoa para existir. O ser pensante existe a partir do 
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pensamento, ou seja, por conta própria, sem a necessidade de um mundo no qual 
se ancore. Essa característica perpassa grande parte do racionalismo moderno de 
cunho mais idealista, ou seja, um racionalismo que se ancore unicamente nas ideias 
e não na materialidade das coisas.
Por incrível que possa parecer, o pensamento de Descartes possui um argumento forte 
de caráter teológico. Em sua discussão sobre o conhecimento acaba desenvolvendo 
um argumento sobre a existência de Deus:
E pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa 
solidão. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente 
extraordinária. É a idéia de perfeição, de infinito. Não posso tê-Ia tirado 
de mim mesmo, visto que sou finito e imperfeito. Eu. tão imperfeito. que 
tenho a idéia de Perfeição, só posso tê-Ia recebido de um Ser perfeito 
que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. Por conseguinte, eis 
demonstrada a existência de Deus. E note-se que se trata de um Deus 
perfeito, que, por conseguinte, é todo bondade. Eis o fantasma do 
gênio maligno exorcizado. Se Deus é perfeito, ele não pode ter querido 
enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas 
pela veracidade divina. Uma vez que Deus existe, eu então posso crer 
na existência do mundo. O caminho é exatamente o inverso do seguido 
por São Tomás. Compreenda- -se que, para tanto, não tenho o direito 
de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas 
e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Só posso 
crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o que existe 
verdadeiramente é o que é claramente pensável, isto é, a extensão e o 
movimento). Alguns acham que Descartes fazia um círculo vicioso: a 
evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não 
se trata da mesma evidência. A evidência ontológica que, pelo cogito, 
me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. 
Por conseguinte, a metafísica tem, para Descartes, uma evidência mais 
profunda que a ciência. É ela que fundamenta a ciência (um ateu, dirá 
Descartes, não pode ser geometra) (VERGEZ; HUISMAN, 1976, p.5).
A existência de Deus, para Descartes, é um argumento importante para a construção 
de sua metafísica e também para a construção de sua ideia de conhecimento.
 
Os empiristas
Se, por um lado, Descartes desenvolve sua teoria do conhecimento a partir da razão 
em ligação com as ideias, um outro grupo de pensadores modernos acredita que o 
conhecimento não está na ideia, mas nos objetos. Isso significa que o conhecimento 
acontece quando o sujeito vai até o objeto e extrai dele sua verdade. Esses pensadores 
são conhecidos como os empiristas.
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Para resumirmos bem a relação entre o racionalismo solipsista cartesiano e os 
empiristas, podemos partir de um exemplo. Imagine que nós queremos saber o que 
é uma árvore. Para Descartes você vai pensar sobre a ideia de árvore, duvidar de 
todo conhecimento de árvore que você já tenha e construir, com base no raciocínio 
uma verdade sobre a árvore. Para os empiristas, você deve ir até a árvore, medi-la, 
observá-la, experimentá-la, tocá-la e então desenvolver um conhecimento com base 
nessa experiência.
Vejamos alguns dos principais pensadores empiristas.
David Hume
David Hume foi um filósofo inglês que se inseriu na corrente do empirismo. Essa 
corrente teve uma especial importância na filosofia britânica, contando com vários 
representantes. O primeiro, que poderia ser citado, foi John Locke. Também não 
devemos deixar de citar George Berkeley. Tendo vivido de 1711 a 1766, Hume pôde 
contar com a obra de Locke já pronta, pois ele morreu em 1704.
Desenvolvendo a tradição empirista, Hume acredita que existem alguns pontos 
dessa corrente que podem ser aperfeiçoados, discordando em diversos pontos de 
seus demais colegas empiristas. Basicamente, para ele, o conhecimento surge sim 
da experiência, mas ele não entende que a mente seja passiva ao conhecimento que 
vem do objeto:
Gostaria de sustentar que, se há algum sentido em classificar a 
filosofia de Hume como empirista, é preciso esclarecer as diferenças 
fundamentaisque seu empirismo apresenta em relação ao de Locke e 
seus herdeiros. Comecemos pelas semelhanças que podem evidenciar 
a adequação do termo “empirismo” a ambos os paradigmas. De 
fato, para Hume, assim como para Locke, o conhecimento humano, 
ou grande parte dele, deriva da experiência. Como bem observou 
Monteiro (2009, p.16), “dos empiristas, Hume conserva especialmente 
uma atitude metodológica: a recusa em aceitar qualquer teoria que 
não se submeta à prova da experiência”. Ambos, ainda, rejeitam a 
teoria das ideias inatas, que estariam desde sempre inscritas na alma 
humana, por obra do Criador e atribuem papel secundário à razão no 
processo de conhecimento. As semelhanças, contudo, cessam aí. O 
empirismo de Hume é marcado por um deslocamento radical, através 
do qual o conceito de “experiência” afasta-se do sentido lockeano. A 
experiência, para Locke, abrange os processos de sensação e reflexão. 
O primeiro consiste na recepção pela mente, através dos órgãos dos 
sentidos, dos estímulos emitidos pelos objetos componentes do 
mundo material (GONÇALVES, 2020, p.2).
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Com seu posicionamento, Hume garante uma crítica forte ao pensamento cartesiano, 
no qual há um forte apelo metafísico.
David Hume
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Hume#/media/Ficheiro:David_Hume_1754.jpeg
Francis Bacon
Francis Bacon foi um filósofo empirista inglês, que assim como John Locke, assina 
a primeira geração do empirismo moderno. Viveu de 1561 a 1626. Seu pensamento 
se tornou importante tanto para a filosofia como para a ciência moderna, isso porque 
o autor se dedicou a produzir vasto conteúdo sobre o método e as possibilidades 
corretas do conhecer.
Primeiramente devemos entender que para Bacon o conhecimento deve ser alcançado 
na natureza, a partir de um procedimento empírico, baseado na experimentação:
A pretensão do filósofo inglês com seu método é elaborar uma forma 
de tornar o conhecimento da natureza acessível, assim ele se 
posiciona fortemente contra o modelo científico vigente em sua 
época, isto é, as deduções silogísticas aristotélicas. Bacon diz haver 
duas formas de se conhecer a natureza, entretanto, só uma 
proporciona melhores êxitos: [...] chamamos à forma ordinária da 
razão humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipações 
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da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à 
que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por 
interpretação da natureza. (NO 
I, 26) A forma de antecipação da natureza é oriunda da filosofia 
aristotélica, essa forma consiste na elaboração de enunciados 
universais fundamentados em poucos casos da experiência, o 
que pode incorrer em erros. Por outro lado, se nos distanciarmos 
desse procedimento de dedução e recorrermos a indução teremos 
melhores resultados. É preciso, entretanto, separarmos o que 
chama Bacon de indução vulgar da indução verdadeira. A indução 
vulgar ao estabelecer um axioma e este em algum caso particular 
é negado, procura salva-lo ignorando o tal caso; já a indução 
verdadeira busca corrigir o axioma ao invés de ignorar o caso 
particular e manter o axioma equívoco, ou seja, a interpretação da 
natureza (CUNHA; RHODEN, 2020, p.16).
 
Francis Bacon
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon#/media/Ficheiro:Francis_Bacon,_Viscount_St_Alban_from_NPG_(2).jpg
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Além da forte proposição de um método científico de caráter indutivo e experimental, 
Bacon também nos aponta a presença de falhas comuns em nosso pensamento, 
falhas tais que ele chama de ídolos:
Ídolos da tribo: corresponde a humanidade como tudo ou a 
ajuntamentos sociais; estes ídolos surgem quando nos condicionamos 
a ver a realidade de apenas uma perspectiva, isto é, quando elegemos 
determinados conhecimentos como verdadeiros apenas por meras 
convicções ou por se apresentarem assim aos nossos sentidos. A 
ocorrência dos ídolos da tribo se deve ao fato de os seres humanos 
possuírem o caráter de tentar explicar a totalidade e complexidade 
da natureza com meras simplificações.
Ídolos da caverna: caverna é a metáfora que representa nossa 
individualidade; cada um de nós está preso em sua caverna, assim, 
estamos sujeitos a equívocos pela forma singular que vemos e 
interpretamos o mundo.
Ídolos do foro: ou ídolos do mercado ou da feira são erros caracterizados 
pela ambiguidade das palavras, pelos erros de comunicação e os 
desentendimentos entre interlocutores.
Ídolos do teatro: surgem dos sistemas e teorias filosóficas, como que 
em um palco, estas se apresentam como verdades, entretanto, não 
passam de fabulações (CUNHA; RHODEN, 2020, p.16).
A partir da concepção desses quatro ídolos é possível evitarmos de antemão os 
problemas mais comuns do conhecimento, abrindo espaço assim para a proposição 
de uma ciência que seja mais assertiva. 
ISTO ESTÁ NA REDE
Nesse vídeo podemos conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Descartes:
https://www.youtube.com/watch?v=vv2kKJ45MQw&t=218s
E nesse vídeo podemos ver um resumo sobre o empirismo:
https://www.youtube.com/watch?v=mzN9w1SGBQw
https://www.youtube.com/watch?v=vv2kKJ45MQw&t=218s
https://www.youtube.com/watch?v=mzN9w1SGBQw
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ANOTE ISSO
Tudo o que conhecemos hoje e tudo aquilo que acreditamos ser verdade passa 
por uma forma específica de busca pelo conhecimento. O conhecimento religioso, 
por exemplo, é desenvolvido com base na autoridade da revelação e da fé. Já 
o conhecimento científico tem se desenvolvido por séculos para chegarmos 
às formas mais adequadas de elaboração da verdade. É com base nesse 
conhecimento que usamos medicamentos, que temos tratamentos médicos, que 
fazemos psicoterapia e até mesmo que andamos em um carro. É nesse sentido 
que se torna tão importante conhecermos o desenvolvimento do método do 
conhecimento. 
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CAPÍTULO 8
ILUMINISMO
A idade da razão
O iluminismo foi um dos mais importantes movimentos da modernidade, sendo 
dividido entre partes mais teóricas e partes mais práticas. O que acontece de fato é 
que aquela mudança de pensamento proposta desde o declínio da idade média chega 
a seu ápice.
Basicamente, o iluminismo parte do pressuposto de que a razão humana pode 
lançar luzes, iluminar o desenvolvimento da história humana, sendo necessário para 
isso alguns princípios fundamentais.
Um dos princípios adotados pelo iluminismo é o de que o ser humano é capaz de 
se governar por intermédio da sua própria razão, pois é dotado tanto de racionalidade 
quanto de liberdade. Assim, é preciso sair da menoridade da razão, quando ainda 
não se está no pleno domínio de todas as suas atribuições, mas respeitando a um 
governo externo. Esse governo externo poderia ser, por exemplo, o governo da fé ou 
da mitologia, ou seja, poderia ser qualquer força externa que te faça seguir uma vida 
sem passar por um julgamento crítico racional.
Revolução Francesa
A revolução francesa foi o período no qual os princípios iluministas se converteram 
em práticas sociais, mudando significativamente a organização da política e da vida 
social na Europa moderna. A França foi o local onde estourou uma revolução buscando 
o fim do governo monárquico e a instauração de uma república sustentada a partir 
de uma constituição, ou seja, de uma carta que constitui os princípios da organização 
legal da sociedade.
A revolução francesa levanta bandeiras como a da liberdade, igualdade e fraternidade, 
defendendo que com base nesses princípios a sociedade se organizaria de forma 
mais racional, instaurando assim uma maioridade social. Esses princípios estiverampresentes nas bases da formação de países como os Estados Unidos da América e o 
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Brasil. Com eles, estabelece-se não apenas a lógica da filosofia moderna, mas também 
grande parte dos princípios das organizações modernas de sociedade.
Beccaria, Voltaire, Diderot
Alguns autores ficaram conhecidos por suas importantes contribuições no âmbito 
do pensamento iluminista. Cada qual em sua área, somaram esforços diversos, 
constituindo assim grande parte do que conhecemos como conhecimento moderno.
Cesare Beccaria foi um pensador italiano que viveu de 1738 a 1794, sendo responsável 
por um grande avanço no campo do Direito penal. A tradição medieval e a modernidade 
até o século XVIII trabalhavam com um sistema de penalizações bastante injusto e 
injustificável, como por exemplo a possibilidade de transferência da pena de um Senhor 
para seu súdito. Ainda cria-se também na intervenção sobrenatural para a resolução 
de problemas penais, o que subjetivava muito o sistema legal.
 
Cesare Beccaria
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cesare_Beccaria#/media/Ficheiro:Cesare_Beccaria.jpg
Beccaria escreveu uma obra chamada “Dos delitos e das penas” na qual lançou mão 
da discussão básica sobre direitos fundamentais, direitos humanos e da utilização de 
meios e sistemas justos de julgamento e de aplicação de penas que fossem proporcionais 
ao delito, buscando assim uma elevação da função racional das sentenças. Com isso 
constituiu e até hoje é tocado como a base da nossa ideia de sistema penal atual.
Já Voltaire foi um importante pensador na defesa das liberdades, uma das mais 
fortes bandeiras da revolução francesa e do iluminismo. Para Voltaire, as liberdades 
deveriam ser amplas, constituindo portanto ideias fundamentais de um liberalismo no 
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qual deve existir a liberdade de crença, de pensamento, de manifestação, de comércio, 
entre outros.
Voltaire
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Voltaire#/media/Ficheiro:Atelier_de_Nicolas_de_Largilli%C3%A8re,_portrait_de_Voltaire,_d%C3%A9tail_(mus%C3%A9e_
Carnavalet)_-002.jpg
Voltaire desenvolveu um pensamento especialmente importante para a liberdade 
que hoje consideramos corriqueira, ou seja, para o estabelecimento de princípios e 
garantias da liberdade de imprensa, de opinião, de religião, entre outras, que constituem 
o mote das democracias liberais.
Denis Diderot foi o fundador de um movimento muito conhecido no contexto do 
iluminismo, o movimento enciclopedista, que estaria presente na sociedade moderna 
até meados do século XX, quando se inicia um processo de especialização. Os 
enciclopedistas acreditavam que o conhecimento deveria ser disseminado de forma 
ampla, de modo que deveria ser publicado no formato de enciclopédias, ou seja, livros 
que tratam das definições e comentários dos mais diversos assuntos.
As ideias de Diderot e dos enciclopedistas interferiram na forma de se pensar o 
ideal moderno de educação e a distribuição ampla do conhecimento.
 
Immanuel Kant
Kant é um dos principais filósofos da modernidade e o é por diversos motivos, 
como seu trabalho amplo e sistemático, sua presença no iluminismo e especialmente 
por sua resolução do problema entre o racionalismo cartesiano e o empirismo. Essa 
resolução se dá a partir de seu criticismo que é uma característica importante de seu 
pensamento. 
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Immanuel Kant
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant#/media/Ficheiro:Kant_foto.jpg
Juízos analíticos e sintéticos
Kant divide o raciocínio humano em duas categorias, sendo o de juízos analíticos e 
de juízos sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles que não dependem da experiência, 
mas que existem justamente pela necessidade da definição conceitual de algo. Por 
exemplo, quando se diz que o triângulo tem três lados, esse é um juízo analítico, pois 
diz apenas aquilo que é necessário ao objeto. O predicado da afirmação “ter três lados” 
faz parte da própria definição do sujeito, o triângulo. Não é possível que o triângulo 
não tenha três lados, pois essa é sua definição.
Os juízos analíticos são, portanto, aqueles que se dão à priori. São anteriores à 
experiência, independe delas. Já os juízos sintéticos são aqueles que derivam da 
experiência, e que por isso dependem do sujeito da experiência e de sua interpretação 
do conhecimento para existirem. Quando você diz que a chuva está forte, apesar de 
estar fazendo uma percepção sobre a natureza, não está dando uma definição, mas 
apresentando um juízo a posteriori, um juízo derivado da experiência, sendo conhecido 
portanto como juízo sintético.
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Criticismo
O criticismo é o procedimento desenvolvido por Kant para fazer sua investigação 
sobre o conhecimento, sendo que a crítica é direcionada diretamente para as teorias 
do conhecimento em voga, especialmente o racionalismo e empirismo.
O racionalismo, especialmente aquele representado por Descartes, acredita que as 
ideias são naturais da mente humana e que portanto, as verdades se encontram no 
exercício humano de pensar. Já os empiristas acreditam que o conhecimento está 
nos objetos externos ao ser humano, sendo portanto necessário que se experimente 
aquele objeto, que o observe para extrair dele a verdade. Kant acredita que essa 
divisão é limitada e insuficiente, sendo necessário que se entenda melhor a forma do 
pensamento:
Kant afirmou que apesar da origem do conhecimento ser a experiência 
se alinhando aí com o empirismo , existem certas condições a priori 
para que as impressões sensíveis se convertam em conhecimento 
fazendo assim uma conces- são ao racionalismo. Esta concessão 
ao racionalismo não devia ser levada ao extremo, pois “todo o 
conhecimento das coisas proveniente só do puro entendi- mento ou 
da razão pura não passa de ilusão; só na experiência há verdade” 
(Kant apud Pascal, 1999; p. 45).
 
Se não começarmos da experiência ou se não procedermos se- gundo 
leis de interconexão empírica dos fenômenos, nos van- gloriamos em 
vão de querer adivinhar ou procurar a existência de qualquer coisa 
(Kant, 1987; p. 273/274).
A reflexão kantiana tentou mostrar que a dicotomia empiris- mo/
racionalismo requer uma solução intermediária já que “pensamentos 
sem con- teúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas”12 
(Kant, 1987; p. 75).
O enfoque que procura determinar e analisar as condições a priori de 
qualquer experiência, ele denominou de transcendental.
Denomino transcendental todo o conhecimento que em geral se ocupa 
não tanto com os objetos, mas com nosso modo de conhecimento de 
objetos na medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema 
de tais conceitos de- nominar-se-ia filosofia transcendental. (Kant, 
1987, p. 26. Grifo no original)
O enfoque transcendental constituiu-se, segundo seu idealizador, 
em uma revolução copernicana na filosofia (SILVEIRA, 2002, p.36).
Ética: Imperativo categórico
No campo da ética, Kant elabora um sistema também centrado na razão e na 
elevação da capacidade da razão como ferramenta de desenvolvimento da sociedade. 
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Lembramos que a ética tem sido uma preocupação filosófica desde a antiguidade e 
que no caso específico da modernidade, dada a profunda e intensa mudança social, 
carecia de novos paradigmas.
A ética kantiana parte de uma reflexão sobre a possibilidade de relativização dos 
comportamentos de acordo com os afetos e da negação da possibilidade de tomar 
tal ato. Kant se pergunta se seria justo, por exemplo, que você livrasse seu pai de uma 
pena, sabendo que ele é culpado do ato que levou a tal pena. Em caso extremo, se 
você pudesse tirar seu pai da forca por conta de um crime que ele cometeu, seria justo 
tirá-lo?O filósofo defende que isso não seria justo, porque a abertura de uma exceção 
desmonta o sistema ético do comportamento humano como um todo. Funciona assim, 
se você acredita ser justo tirar seu pai da forca sabendo que ele é merecedor da 
punição, todas as outras pessoas também podem achar que é justo que cada qual 
abra uma exceção quando o caso for de seu interesse afetivo. Por isso, Kant propõe 
que a ética deve ser desenvolvida a partir do princípio do imperativo categórico, que 
diz o seguinte: faça apenas aquilo que poderia se tornar uma regra universal. O que 
isso significa? Significa que cada atitude sua, cada decisão que você vai tomar sobre 
qualquer ação deve ser pensada a partir da possibilidade daquela ação se tornar uma 
regra universal:
 
O dever, a lei moral, é universal. Único motivo que pôde influir 
nas determinações de um ser livre e racional, a lei moral deve ser 
necessariamente uma cousa conforme á natureza dos seres livres e 
racionaes. A razão tem um caracter universal; e, pois, o dever, a lei moral, 
deve ser também universal. O dever é universal; é uma influencia que 
se impõe a todos os seres racionaes e livres. Também é obrigatório, 
porque a razão de todos os seres livres, comprehendendo-o, se lhe 
submette, sem coacção. A universalidade e a obrigatoriedade são 
caracteres necessários do dever, ou lei moral, ou motivo legitimo, que 
inflúe na actividade dos seres racionaes e livres (LESSA, 1902, p.224).
Imaginemos o seguinte exemplo: você precisa comprar um remédio em uma farmácia, 
e a única vaga disponível para estacionar seu carro nos arredores da farmácia é uma 
vaga destinada exclusivamente para idosos. Mesmo você não sendo idoso, pensa em 
utilizar aquela vaga, pois você acabou de sair do hospital e está com mal estar. Kant 
te perguntaria, a partir do princípio do imperativo categórico, se essa ação poderia 
se tornar uma regra universal, ou seja, se toda vez que alguém queira comprar um 
remédio na farmácia deva utilizar a vaga destinada a idosos. Se fosse esse o caso, 
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certamente a vaga destinada a idosos perderia sua função, se tornando então mais uma 
vaga universal. Nesse caso, é melhor que você deixe seu carro em um local distante e 
volte andando, pois assim você não atrapalha o princípio ético que rege a sociedade. 
ISTO ESTÁ NA REDE
Nesse vídeo, Daniel Omar Perez apresenta um resumo interessante sobre a Crítica 
da Razão Pura, de Kant:
https://www.youtube.com/watch?v=AigtcwMbN58
ANOTE ISSO
No iluminismo está presente a primeira grande onda de Direitos humanos que vai 
se desenvolver ao longo do Século XIX e sofrer forte queda no século XX por conta 
das grandes guerras mundiais e dos regimes nazista e fascista. É importante, para 
entender o pensamento sobre Direitos humanos na contemporaneidade, entender 
também suas origens modernas em correntes de pensamento como o iluminismo. 
https://www.youtube.com/watch?v=AigtcwMbN58
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CAPÍTULO 9
OS MESTRES DA SUSPEITA
O filósofo francês Paul Ricoeur, que atuou em grande parte do século XX e início do 
século XXI, em um livro sobre Freud, acabou chamando a tríade Nietzsche, Marx e Freud 
como os “mestres da suspeita”. Esse interessante nome, diz respeito às características 
específicas desses três autores, que colocam à prova, pontos importantes da tradição 
filosófica ocidental. De modo resumido, Nietzsche questiona a metafísica, Marx 
questiona a economia e Freud questiona o Eu. Entretanto, veremos a seguir que há 
mais do que isso. Na verdade, o que esses três autores nos apresentam é uma forma 
de fazer filosofia que aparece, no processo hermenêutico, a partir da dinâmica da 
suspeita em prol da construção e desconstrução de verdades.
Comecemos falando sobre Friedrich Wilhem Nietzsche, um filósofo alemão, nascido em 
1844 e que viveu até 1900, sendo, portanto um pensador que se enquadra amplamente no 
espectro do século XIX. Nietzsche está longe de ser um filósofo ortodoxo e um academicista. 
Ele dialoga e se aproxima com a arte, especialmente com a música e a poesia, incluindo em 
seu próprio estilo um pouco dessa veia artística. Ao invés de escrever tratados, Nietzsche 
opta por aforismos, pequenos trechos que trazem em si um tom mais direto, criticando 
assim inúmeros pontos de maneira objetiva. Em sua escrita, utiliza muitos recursos irônicos 
e satíricos, aplicando até mesmo certa indignação jocosa.
No pensamento de Nietzsche destaca-se sua crítica à religião, que é utilizada 
erroneamente como uma forma de distanciar o autor da filosofia da religião e da 
Teologia. Entretanto, o pensamento crítico de Nietzsche aponta justamente para uma 
perspectiva de revisão de princípios religiosos muito caros ao cristianismo.
Para entendermos o pensamento de Nietzsche devemos olhar um pouco para seu 
contexto. O autor fala a partir da Alemanha do século XIX, amplamente organizada 
ao redor do luteranismo. Há, nesse caso, uma presença muito forte da religião na 
sociedade não apenas a partir dos ritos religiosos, mas na própria formação do Estado 
e da mentalidade. Essa presença, para Nietzsche, se apresenta de forma assombrosa, 
pois o cristianismo seria uma força contrária ao movimento da modernidade, que 
trazia em seu bojo o cientificismo e o retorno ao ser humano central da arte grega.
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A mentalidade moderna, que entende na racionalidade do ser humano sua chave 
de libertação, acaba sendo antagonizada por um sentimento de covardia que vem 
de uma leitura do cristianismo como uma espécie de religião do sacrifício, na qual 
as pessoas se identificam, antes de mais nada, com a figura do cordeiro crucificado, 
diminuindo assim sua potencialidade de compreensão do horizonte da existência 
humana. É nesse sentido que Nietzsche afirma a morte de deus, sendo esse deus 
a representação metafísica de um sentimento humano de dependência e limitação. 
Nietzsche não nega, por si só, os poderes da religião como fenômeno, nem suas 
contribuições para humanidade, mas ressalta que um religiosidade limitadora não 
estaria de acordo com a potência de vida do ser humano de seu tempo. Inclusive, 
Nietzsche coloca figuras como as de Cristo e buda na mais alta estima, sendo esses 
referências para humanidade que devem lê-los a partir de um princípio de força e 
resiliência e não a partir de uma lógica derrotista.
Essa percepção de Nietzsche não é isolada em sua obra, apesar de não ter sido 
algo amplamente sistematizado. O filósofo mostra diversos pontos de sua leitura de 
mundo que revelam uma leitura crítica da tradição filosófica ocidental.
Ao invés de fundar valores específicos em patamares metafísicos, 
sejam estes filosóficos ou teológicos, Nietzsche buscou pela história 
dos valores, a história de seu surgimento, assim como seu sentido. 
O pensamento ao qual o filósofo chama de metafísico nunca foi 
capaz de aceitar uma origem histórica para os valores e, por isto 
mesmo, nunca colocou a questão sobre o valor dos valores. Para a 
metafísica, “os fenômenos morais não poderiam, portanto, comportar 
uma ‘origem’ e muito menos uma ‘história’” (MARTON, 2000, p. 75). 
Nietzsche rompe com essa tradição filosófica e irá mostrar que os 
valores humanos, as concepções sobre o bem e o mal, o certo e o 
errado, são criações humanas e, por isto, possuem necessariamente 
uma história. Ao contar essa história, abre o caminho para uma nova 
forma de pensar a moral, uma forma que coloca o ser humano como 
centro das decisões e criações e, por isto mesmo, lhe atribui uma 
responsabilidade ainda não imaginada (CAMARGO, 2011, p.81).
Ao olhar para a história do ocidente, Nietzsche percebe que não há, justamente, uma 
razão explícita que justifique a firmação de tais bases. Assim, entende que os valores 
são criados e que essas criações são processos históricos da mentalidade humana.
Aquientendemos que há, no pensamento de Nietzche, uma revisão da moral e da 
valoração estática de princípios morais:
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Ao entender que o homem bom não é aquele que faz o bem, e sim, 
aquele que faz o que quer, abre-se a possibilidade para um mundo sem 
uma moral universal, isto é, sem valores que obrigatoriamente valham 
para todos. Isto é muito diferente de todas as filosofias anteriores 
que sempre se reservaram o direito de julgar o que é certo e errado 
e, a partir daí, estipular como todos deveriam agir. Nietzsche propõe 
que a escolha dos valores pertença a cada um, pois a hierarquia 
dos valores muda ao longo da história. Temos, por exemplo, um 
período em que a vingança era mais valorizada do que a justiça. Hoje, 
valorizar a vingança é ser imoral. Mas é imoral apenas por não estar 
de acordo com os valores mais aceitos de uma época. São esses 
valores, que são mutáveis, que determinam o que é moral e imoral. 
Ser imoral, portanto, é apenas agir conforme valores que não são os 
mais valorizados naquele período. “Mas a hierarquia dos bens não é 
fixa e igual em todos os tempos; quando alguém prefere a vingança 
à justiça, ele é moral segundo a medida de uma cultura passada, 
imoral segundo a atual” (MA I, 42). Além disto, alerta: não é a moral 
que estabelece a hierarquia dos valores, é a determinação do valor 
dos valores que estabelece a moral (MA I, 42) (CAMARGO, 2011, p.83).
 
Essa nova percepção sobre a moral e os valores inaugura uma forma de ler a 
realidade diferente, na qual bondade e maldade são ressignificados, e o que acaba 
realmente importando é a capacidade de impor e de fazer acontecer os desejos de um 
indivíduo. Com essa nova leitura nietzscheana, o filósofo propõe uma figura importante, 
o “Übermensch” que podemos traduzir para o português como o “super homem”. O 
super homem de Nietzsche é na verdade um supra-homem, um homem além da 
média, que supera a lógica média da vida do ser humano comum, que construiu ao 
longo dos séculos formas de apoio metafísicos para a vida, ou seja, que construiu 
estruturas mentais e intelectuais para fugir das lutas e dificuldades da vida natural 
que acontece dentro da história.
No caminho de demonstrar essa figura superior, que representa basicamente 
a superação da história da metafísica ocidental, Nietzche apresenta um conceito 
importante para sua filosofia, o conceito de amor fati. Esse conceito significa basicamente 
a aceitação da vida, a aceitação das contingências todas da vida, ou seja, o abraço 
da vida como ela é, independente do que possa de fato acontecer no quotidiano. 
Essa aceitação do destino e das contingências da vida, não é, de forma alguma, uma 
aceitação passiva do que pode acontecer por conta dos mandos e desmandos alheios, 
mas sim uma aceitação ativa daquilo que não pode ser evitado por conta da natureza 
própria do ser humano, das características do existir e da existência.
FILOSOFIA
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Os conceitos de Übermensch e amor fati estão estreitamente 
relacionados. Se o primeiro exprime a travessia trágica do criar e 
do destruir na ordem de uma aquiescência profunda, a mesma 
aquiescência que liga Nietzsche, Zaratustra e Dionísio, o segundo elucida 
a tragicidade da travessia por resgatar os motivos não conscientes na 
base dos sentidos e valores que, ao conferirem gratuidade ao agir, 
remetem à mesma anuência. A intenção torna-se condição, o dever 
converte-se em imposição de perspectiva e o seu ser assim transmuda-
se no movimento constante de seu vir-a-ser como fatum. O amor fati 
exprime a anuência à necessidade que vige em profundidade, ao 
reconhecer, na base das interpretações, um certo destino. A luta entre 
os impulsos introduz interpretações que revelam aproximadamente 
um plano desconhecido governado pelo pensar, querer e sentir que 
atravessa o corpo humano e impõem uma perspectiva de corpo 
social. Se não há causa primeira, também não existe razão última. 
Ao remeter a condição humana tão-somente às suas inclinações que 
manifestam necessidades, o amor fati conduz a afirmação do caráter 
fortuito da própria existência à sua singularidade, casualidade e finitude. 
É a aceitação da necessidade independentemente de justificativas 
que resgata a condição trágica do humano, na aquiescência àquilo 
que se é enquanto necessidade do que se vem a ser, no domínio das 
interpretações impostas. Enquanto interpretação ética, o amor fati 
expõe o processar-se da ação no homem como uma interpretação do 
próprio agir. Enfim, o percurso nietzschiano da dissolução da metafísica 
à ética do amor fati excluiu dos domínios interpretativos a noção de 
fundamento e conduziu à incompatibilidade entre culpa e ética. Eis 
o sentido do riso que atravessa Zaratustra (AZEREDO, 2011, p.132).
Com essas palavras, podemos ver que o pensamento de Nietzsche, em sua poética, é 
uma tentativa de revisão da história da metafísica ocidental e que por isso é entendido, 
de certo modo, como um filósofo de difícil acesso e complexa interpretação.
Friedrich Nietzsche
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche#/media/Ficheiro:Nietzsche187a.jpg
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Passemos agora para nosso próximo filósofo, um dos pensadores que talvez seja 
mais mal compreendido na sociedade contemporânea, Karl Marx. Isso se dá porque 
uma das questões centrais do pensamento de Marx se dá no campo da economia e 
a economia interfere diretamente nos posicionamentos políticos. No mundo de hoje 
nós possuímos concepções já prontas e definidas das relações entre economia e 
política. Entretanto, essas políticas foram construídas historicamente o trabalho de 
Marx está exatamente no centro dessa construção.
Karl Marx nasceu na Alemanha em 1818, vivendo portanto o núcleo da revolução 
industrial europeia, que iniciou-se na Inglaterra, local utilizado por Marx para exemplificar 
suas ideias econômicas. Tendo vivido até 1883, Marx, assim como Nietzsche, foi um 
cidadão e pensador do século XIX.
Para começarmos a nos aproximar da obra de Marx, podemos seguir o caminho 
clássico de suas ideias econômicas, deixando para depois as reflexões mais filosóficas. 
Marx, buscando entender o funcionamento da sociedade, se dedicou ao estudo do 
capital, ou, de forma mais ampla, o estudo do sistema econômico capitalista. O 
capitalismo é o sistema no qual o acúmulo de capital possui um papel central, que 
é inclusive um dos elementos principais para o qual a vida se direciona. O sistema 
capitalista permite que as pessoas troquem bem e serviços por recursos financeiros 
e a possibilidade de acúmulo é ilimitada. Por outro lado, assim como não há um teto 
para o acúmulo de capital, não há um piso para a ausência do mesmo. Com isso, o 
sistema capitalista permite que haja uma discrepância muito grande das condições 
de vida das pessoas.
A reflexão de Marx começa com o valor do trabalho. Nesse sentido, ele questiona a 
diferença entre o preço de um produto vendido e quanto o trabalhador que fez aquele 
produto ganha por isso. Digamos que um sapato, por exemplo, custe no varejo cem 
reais. Ainda, digamos que um trabalhado consiga fazer cem sapatos em um mês. Com 
isso, ele produziu uma riqueza de dez mil reais em um mês. Seu empregador, o dono 
da fábrica de sapatos, paga a ele um salário de mil reais por mês. Lhe sobra, portanto, 
o valor de nove mil reais, com os quais ele vai pagar todos os custos da produção, os 
fornecedores, os impostos, sendo que o restante será o seu lucro. Digamos que todos 
os custos de produção e impostos sejam do montante de quatro mil reais. Sobrará 
ao dono da fábrica uma riqueza de cinco mil reais e isso se aplica para cada um de 
seus trabalhadores, de modo que a riqueza final do dono da fábrica de sapatos será 
maior do que a riqueza de todos os trabalhadores juntos.
FILOSOFIA
PROF. ELTON VINÍCIUS SADAO TADA
FACULDADE CATÓLICApensa sobre o que é belo, e 
esse ramo da filosofia é conhecido como estética. Já parou pra pensar, por exemplo, 
porque algumas coisas são consideradas bonitas pelas mais diversas pessoas ou 
por que algumas pessoas gostam de um tipo de música enquanto outras pessoas 
acham aquela mesma música repugnante? Pois bem, a filosofia investiga a beleza e 
ajuda na compreensão das produções artísticas humanas.
A filosofia é tão ampla, que pensa inclusive sobre o próprio conhecimento. Como 
é possível conhecer e como é possível distinguir conhecimentos verdadeiros de 
conhecimentos enganosos? A área da filosofia que faz essa reflexão é a epistemologia.
FILOSOFIA
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A filosofia política é aquela que se dedica a entender a pólis, ou seja, a cidade no 
sentido antigo, o que talvez para nós seja melhor traduzido como a sociedade e as 
formas de organização e poder social. A vida não acontece em uma bolha, mas em 
uma coletividade, de modo que as pessoas se organizam em grupos e estabelecem 
relações de poder entre esses grupos. Entender essa dinâmica é essencial para que se 
saia de uma compreensão superficial da sociedade e se chegue a uma compreensão 
mais profunda dessa estrutura viva da coletividade.
Existem formas de filosofia que estão ligadas a outras ciências diretamente. Essas 
filosofias dialogam ao mesmo tempo em que dão sustento à reflexão de uma área 
específica. É assim a Filosofia da educação, a filosofia da religião, e a filosofia do 
Direito, por exemplo. A filosofia da religião, por exemplo, estuda objetos iguais ou 
semelhantes aos da teologia. Entretanto, a forma de investigação é um pouco diferente, 
pois enquanto a teologia parte do princípio da fé como base, a filosofia não parte 
desse pressuposto, por mais que possa, em algum momento chegar a discutir a fé.
Com esse breve panorama podemos perceber que a filosofia não é algo único e 
estático, mas um pensamento em movimento que se direciona para diferentes objetos, 
de acordo com demanda específica.
A principal característica da filosofia é, nesse sentido, pensar de modo diverso 
daquele que nos é dado pelo conhecimento comum, ou seja, forçar os objetos a 
entregar algo a mais do que o óbvio que é dado pela tradição ou pelas construções 
populares de sentido:
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as 
mesmas idéias, os mesmos gostos, as mesmas preferências e os 
mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor? O que é um 
valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a 
vontade? O que é a liberdade?
Alguém que tomasse essa decisão, estaria tomando distância da vida 
cotidiana e de si mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças 
e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando 
conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que 
sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse 
alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude 
filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia 
ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as 
idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de 
nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los 
investigado e compreendido (CHAUÍ, 2000, p.9).
 
FILOSOFIA
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A filosofia é um pensamento que sai do âmbito dos pensamentos cotidianos, 
chegando a uma reflexão criteriosa, minuciosa, lógica e metodológica sobre os mais 
diversos objetos, inclusive sobre o próprio cotidiano. Desse modo, a filosofia não possui 
uma padronização de objetos ou de métodos, mas sim uma estrutura fundamental 
de atitude.
O que há de mais constante na atitude filosófica é a construção do conhecimento 
a partir de sistemas, ou seja, da elucidação não de um ponto isolado, mas de 
encadeamentos de pensamentos que precisam ser provados, demonstrados e postos 
à prova pela própria filosofia, pela razão e pelos pares:
As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático. Que 
significa isso? Significa que a Filosofia trabalha com enunciados 
precisos e rigorosos, busca encadeamentos lógicos entre os 
enunciados, opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos 
de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é 
enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer 
com que nossa experiência cotidiana, nossas crenças e opiniões 
alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer “eu 
acho que ”, mas de poder afirmar “eu penso que”. O conhecimento 
filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se 
contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas 
exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, 
que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, 
esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de idéias 
e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente 
(CHAUÍ, 2000, p.13).
A filosofia, apesar dessa possível acomodação de diversas demandas, não pode 
ser construída a partir de opiniões e convicções, mas de pensamentos corretamente 
concatenados. Existem diversos espaços para as opiniões na sociedade, ou seja, 
lugares nos quais o posicionamento pode ser dado de forma não demonstrada ou 
demonstrada a penas parcialmente. No caso da filosofia, a aceitação de uma opinião 
não fundamentada erradica a premissa própria da atitude filosófica e torna a discussão 
inviável. Com a atitude filosófica o que é provável só é aceitável com sua argumentação, 
demonstração racional dentro das próprias regras da razão.
Na poesia, por exemplo, as expressões mais densas e silenciosas da alma possuem 
espaço inquestionável, pois são exatamente a revelação do ser humano em sua cultura, 
ser humano esse que não precisa estar submetido ao jogo das discussões sistemáticas. 
Já a filosofia é a forma de ciência hermenêutica que quer elevar o logos, a palavra dita 
FILOSOFIA
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e concatenada racionalmente. É tudo uma questão de perspectiva de procedimento. 
A poesia pode ser analisada pela filosofia, contanto com uma atitude filosófica, mas 
nesse momento a poesia deixa de ser expressão da alma para tornar-se objeto da 
razão. É outro jogo, com outras regras.
Ao fim e ao cabo, quando pensamos no sentido inicial e mais amplo da filosofia, 
podemos pensa-la de forma mais ingênua, uma atividade humana para a compreensão 
do viver:
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, 
relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo 
isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas 
como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e 
busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho 
da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, 
como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum 
continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, 
a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como 
a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou 
dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram 
também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica.
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não 
seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem 
as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas 
o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. 
Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, 
analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos 
nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto 
e justo naPAULISTA | 79
A diferença entre a riqueza que um trabalhador produz e a riqueza que ele recebe 
por seu trabalho é chamada por Marx de “Mais-valia”. Esse conceito de Marx se aplica 
aos mais diversos meios de produção e trabalho, tanto quando é fácil medir essa 
diferença quanto quando é difícil. A mais-valia, para Marx está na base da injustiça e 
da desigualdade na sociedade.
Por conta da necessidade de superação dessa injustiça estrutural que Marx aponta 
para a necessidade de uma nova revolução, revolução tal que tirasse os meios de 
produção dos burgueses (donos dos burgos, ou meios de produção) e entregasse 
essa riqueza para os próprios trabalhadores. Esse procedimento revolucionário serviria 
primeiramente para socializar os meios de produção, ou seja, distribuí-los na sociedade, 
e depois para levar, em última instância para um Estado comunista. O comunismo 
seria construído quando toda riqueza fosse igualmente distribuída na sociedade, a 
partir de uma percepção individual da necessidade de partilha coletiva das riquezas 
de um país.
A proposta de Marx contraria fortemente a lógica capitalista. Essa lógica foi utilizada 
e reformulada politicamente ao longo do século XX em alguns países do mundo. 
Entretanto, para nós é importante entender os princípios filosóficos por trás das ideias 
econômicas de Marx.
No contexto filosófico, Marx esteve na esteira do que é conhecido como idealismo 
alemão. Estudou especialmente a obra de Hegel, filósofo que desenvolveu a ideia de 
que há uma dialética no Espírito que corre por trás da história, constituindo assim o 
desenvolvimento da sociedade. Marx pegou o princípio da dialética hegeliana e fez 
uma mudança significativa, tirando a mesma do âmbito idealista e a trazendo para 
o campo material, ou seja, para dentro da história. Por isso, a filosofia de Marx é 
conhecida como uma filosofia materialista.
No centro da filosofia de Marx há um problema existencial. O trabalhador, que 
como vimos anteriormente, vende sua força de trabalho para receber parte da riqueza 
gerada por seu trabalho, ao fazê-lo, está vendendo seu tempo de vida e sua potência 
de viver. Com isso, quando há uma injustiça social e econômica, há também uma 
injustiça de cunho existencial.
FILOSOFIA
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Karl Marx
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx#/media/Ficheiro:Karl_Marx_001.jpg
 
Freud
Sigmund Freud
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud#/media/Ficheiro:Sigmund_Freud_LIFE.jpg
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O terceiro autor que queremos tratar aqui na aula dedicada aos mestres da suspeita 
é Sigmund Freud. Ao contrário de Nietzsche e Marx, que foram pensadores do século 
XIX, Freud viveu a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.
Freud foi um médico que se dedicou ao estudo de doenças relacionadas à mente. 
Na verdade, Freud elaborou partes importantes da teoria que conhecemos hoje sobre o 
funcionamento das psicopatologias. Ele alterou partes importantes tanto da medicina 
quanto da psicologia. Desenvolveu e ficou conhecido como pai da psicanálise, que é 
uma forma de tratamento específico na qual o paciente faz associações livres entre 
suas experiências íntimas como sonhos e os sentidos das mesmas.
Freud apoiou boa parte de sua produção em sua ideia em sua concepção de 
inconsciente. É como se a mentalidade humana fosse dividida em duas partes, 
sendo uma delas a consciente, ou seja, aquilo que sabemos que sabemos, e a parte 
inconsciente na qual não sabemos exatamente o que está presente. Entretanto, partes 
daquilo que está presente em nosso inconsciente podem aparecer ao nosso consciente 
em pequenas revelações, como em sonhos e em nossos desejos mais íntimos. 
Além da divisão entre consciente e inconsciente, há também a divisão entre id, ego 
e superego. Comecemos pelo id:
O id foi concebido como um conjunto de conteúdos de natureza 
pulsional e de ordem inconsciente, constituindo o polo psicobiológico 
da personalidade. É considerado a reserva inconsciente dos desejos 
e impulsos de origem genética, voltados para a preservação e 
propagação da vida. Contém tudo o que é herdado, que se acha 
presente no nascimento, acima de tudo os elementos instintivos que 
se originam da organização somática. Do ponto de vista “topográfico”, 
o inconsciente, como instância psíquica, virtualmente coincide com 
o id. Portanto, os conteúdos do id, expressão psíquica das pulsões, 
são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro lado, 
adquiridos e recalcados. Do ponto de vista “econômico”, o id é, para 
Freud, a fonte e o reservatório de toda a energia psíquica do indivíduo, 
que anima a operação dos outros dois sistemas (ego e superego). 
Do ponto de vista “dinâmico”, o id interage com as funções do ego 
e com os objetos, tanto os da realidade exterior como aqueles que, 
introjetados, habitam o superego. Do ponto de vista “funcional”, o id 
é regido pelo princípio do prazer, ou seja, procura a resposta direta e 
imediata a um estímulo instintivo, sem considerar as circunstâncias 
da realidade. Assim, o id tem a função de descarregar as tensões 
biológicas, regido pelo “princípio do prazer” (LIMA, 2010, p.281).
Em seguida, vejamos o conceito de ego:
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O ego se desenvolve a partir da diferenciação das capacidades 
psíquicas em contato com a realidade exterior. Sua atividade é, em 
parte, consciente (percepção e processos intelectuais) e, em parte, 
pré-consciente e também inconsciente. É regido pelo princípio da 
realidade, que é o fator que se incumbe do ajustamento ao ambiente 
e da solução dos conflitos entre o organismo e a realidade. O ego lida 
com a estimulação que vem tanto da própria mente como do mundo 
exterior. Desempenha a função de obter controle sobre as exigências 
das pulsões, decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas, adiando 
essa satisfação para ocasiões e circunstâncias mais favoráveis ou 
reprimindo parcial ou inteiramente as excitações pulsionais. Assim, 
o ego atua como mediador entre o id e o mundo exterior, tendo que 
lidar também com o superego, com as memórias de todo tipo e com 
as necessidades físicas do corpo (LIMA, 2010, p.281).
E, por fim, vejamos a noção de superego:
O superego desenvolve-se a partir do ego, em um período que Freud 
designa como período de latência, situado entre a infância e o início da 
adolescência. Nesse período, forma-se nossa personalidade moral e 
social. O superego atua como um juiz ou um censor relativamente ao 
ego. Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação 
de ideais, funções do superego. Classicamente, o superego constitui-
se por interiorização das exigências e das interdições parentais. 
Num primeiro momento, o superego é representado pela autoridade 
parental que molda o desenvolvimento infantil, alternando as provas 
de amor com as punições, geradoras de angústia. Num segundo 
tempo, quando a criança renuncia à satisfação edipiana, as proibições 
externas são internalizadas (LIMA, 2010, p.281).
A teoria de Freud se torna algo realmente importante quando entendemos seu sentido 
mais amplo. Para além da ideia básica da constituição da psique humana, Freud mostra que 
o ser humano não é, como na concepção cartesiana uma racionalidade solta no espaço, 
mas sim um ser de experiências. Com isso, o ser humano contemporâneo passa a ser 
entendido de forma diferente, a partir de uma perspectiva de experiências emocionais. 
ISTO ESTÁ NA REDE
No vídeo a seguir, vemos a professora Scarllet Marton, principal estudiosa de 
Nietszche no Brasil, nos apresentando as principais ideias do autor:
https://www.youtube.com/watch?v=qrDV2TyIKJQ
https://www.youtube.com/watch?v=qrDV2TyIKJQ
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CAPÍTULO 10
AS DIVERSAS FORMAS DE ÉTICA
Ética e moralidade
Existe um problemacomum de se falar de ética e moralidade, um problema que é 
próprio da filosofia, pois é uma dificuldade de definição e de distinção entre termos. 
Nesse sentido, o que se fala sobre ética e moralidade pode ser facilmente confundido, 
ou definido de maneira contraditória. Em senso geral, tanto ética quanto moralidade 
dizem respeito ao comportamento do ser humano. Entretanto, enquanto a moral fala 
sobre os costumes associados com determinado grupo social em determinado período, 
a ética trata das decisões que podem ser tomadas em qualquer momento da vida, 
quando nos é dada a possibilidade de escolher.
Podemos dizer, assim, que a moralidade está mais próxima do que aprendemos, 
do que é transmitido culturalmente dentro de um grupo. O que é moral ou imoral, 
depende, portanto, das regras daquele grupo. A ética, por outro lado, não depende 
necessariamente de uma regra de um grupo, mas da possibilidade de decisão ante 
a uma situação específica.
Se você fizer parte, por exemplo, de uma família vegetariana, e nesse caso, comer 
carne pode ser um ato imoral. Por outro lado, a decisão ética sobre a possibilidade 
de comer carne ou não depende da sua racionalidade, dos seus princípios filosóficos 
e da sua capacidade de decidir diante desse ato.
Os exemplo aqui poderiam ser os mais diversos, o importante, no entanto, é lembrar 
que essa distinção deve ser feita com muitas ressalvas, pois em determinadas situações 
os termos ética e moral podem ser utilizados de maneira diversa a essa.
 
Ética de Aristóteles
Como já vimos anteriormente, Aristóteles foi o terceiro da tríade clássica grega, 
Sócrates, Platão e Aristóteles. Dentre os diversos pontos de seu pensamento que 
são até hoje estudados, temos sua ética, que apresenta uma inovação sobre a ética 
platônica.
FILOSOFIA
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Platão acreditava que existia um bem supremo, que estava presente no mundo 
ideal, o qual deveríamos buscar em nossa vida no mundo de aparências. Aristóteles, 
por outro lado, trouxe essa investigação para o mundo material:
Neste sentido, Aristóteles é o fundador da ética como “ciência prática”, 
em contraposição à ética como “ciência teórica” intentada por Platão3 
. O pensamento ético de Aristóteles, pode-se dizer, é desenvolvido, 
sobretudo, nas obras: Ética a Eudemo, Ética a Nicômacos, Política e 
Grande Ética (NODARI, 1997, p.384).
A ciência prática de Aristóteles, sua ética, encontrava ressonância em outros 
campos de seu pensamento. O filósofo pensava na sociedade como um conjunto 
dos agrupamentos menores e voltado para o bem comum. A amizade estava entre 
seus interesses investigativos, e a felicidade no centro de seu estudo ético.
A ética Aristotélica pode ser chamada de uma ética teleológica, pois apresenta um 
direcionamento para um fim, para uma finalidade última:
Esclarecidos esses aspectos preliminares, podemos, agora, iniciar, 
propriamente, a discussão do problema do bem supremo em 
Aristóteles. Logo no início da Ética a Nicômacos, Aristóteles dá o tom 
geral de toda sua ética. Toda arte e toda investigação e igualmente 
toda ação e toda escolha tendem a algum bem10. Toda ação visa 
alguma coisa e de sua tendência a produzir esta coisa ela tira seu 
valor. A ética aristotélica é nitidamente teleológica. Aristóteles 
interpreta a ação humana segundo a categoria de meio e fim. O fim 
ao qual tende uma ação particular não pode ser senão um meio em 
vista de um fim ulterior, mas é necessário que tenha um limite para 
a seqüência. Cada ação deve ter um fim último que tenha um valor 
nele mesmo, e, conclui Aristóteles, sem hesitação, o fim último de 
todas as coisas deve ser o mesmo [...] Assim, um só bem tem uma 
perfeição absoluta. É desejado “por si” e “por causa de si” sem jamais 
ser subordinado a um outro bem. Ora, como já dissemos, um só bem 
responde a tal exigência. É a felicidade. Deste modo, os prazeres, a 
potencialidade política, a contemplação, que são fins últimos para 
cada um dos gêneros de vida em questão preeminente, são, na 
verdade, fins relativos à felicidade. Esta é um verdadeiro fim com 
toda a excelência e o único fim verdadeiramente último. A Felicidade é, 
então, o fim último e perfeito, isto que é jamais visto em vista de outra 
coisa. Mas é sempre em vista dele que o homem faz tudo o resto. É o 
bem supremo e final que torna o homem feliz. A felicidade faz parte 
dos bens excelentes e perfeitos e ela é o princípio em vista do qual 
nós fazemos todos os nossos atos. E nós dizemos que o princípio e 
a causa dos outros bens é algo estimável e divino19 (NODARI, 1997, 
p.386-388).
FILOSOFIA
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O fim último, a felicidade, seria encontrada a partir de um bom senso, senso tal que 
só seria encontrado a partir de um caminho médio, sendo que esse caminho se daria 
pelo exercício das virtudes, comportamentos que deveriam ser buscados.
 
Ética da alteridade: Emmanuel Levinas
Saindo da antiguidade e chegando no século XX, vamos conhecer agora um pouco 
sobre o pensamento de Emmanuel Levinas, um filósofo nascido na Lituânia, que fora 
perseguido durante a ascensão do terceiro Reich por conta de sua origem judaica. 
Nesse ambiente de fuga e ódio, Levinas constrói um pensamento ético extremamente 
humanista entendendo a importância da diferença, aproximando a ética da ontologia.
Para Levinas nós só existimos porque existimos para o outro e o outro é alguém 
totalmente outro, ou seja, alguém que não repousa na nossa compreensão ou 
imaginação. A partir dessa ideia do outro como totalmente outro, Levinas percebe a 
importância da alteridade, que é a ideia da primazia do outro sobre o si mesmo.
Emmanuel Levinas
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuel_Levinas#/media/Ficheiro:Emmanuel_Levinas.jpg
FILOSOFIA
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O ser humano com seu modelo racional humanista da sociedade 
contemporânea cometeu um grande erro na compreensão de mundo, 
fechado em si mesmo, onde tenta se impor sobre o outro, buscando 
o modelo da concorrência e da competividade, dando mais valor as 
coisas e objetos do que ao ser humano. Lévinas faz sua crítica à 
filosofia Ocidental, que coloca a ontologia como filosofia primeira, 
por se tratar do Ser. A ontologia para Lévinas (2009) é egocêntrica, 
no decorrer da história só se preocupa com o Eu, a ontologia trata 
o Eu como centro do Universo. Frente a essa concepção, Lévinas 
(2009) propõe uma nova filosofia a partir da ética como filosofia 
primeira, abordando o conceito de Alteridade como princípio da 
relação humana (COSTA, 2014, p.199).
Levinas entende que esse fechamento no Eu gerou uma ideia de totalidade, na qual 
as pessoas são ensinadas para a manutenção dos poderes estabelecidos sem pensar 
na integridade dos infinitos outros que existem fora de nós, fora do convencional.
Na ética levinasiana, as decisões não devem ser tomadas a partir do si mesmo, a 
partir do eu, a partir da totalidade, mas sim a partir do outro que precisa ser respeitado 
para garantir a própria existência de qualquer eu que exista no mundo, afinal de contas 
o eu só pode ser afirmado quando esse eu é visto e reconhecido por alguém como 
um outro.
Imagine que, priorizando os interesses do outro, não haveria violência e haveria, 
antes de mais nada, a busca pela paz, pois a paz para o outro significa o entendimento 
e o acolhimento das mais diversas formas de eu.
 
Ética da responsabilidade
A ética da responsabilidade pode ser pensada a partir de diversas frentes, de 
diversos autores. Nós escolhamos pensa-la a partir de Hans Jonas, um filósofo alemão, 
contemporâneo a Levinas, que aponta as necessidades de atenção ante aos diversos 
descontroles de nossa sociedade com o destino da natureza do mundo.
Jonas aponta para as consequências quase inimagináveis do estilo de vida moderno, 
que pensando ter controlado a natureza, perdeu o controle sobre suas próprias ações, 
podendo assim ter desencadeadouma situação irremediável de ameaça à vida no 
mundo:
FILOSOFIA
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Vive-se, portanto, segundo Jonas, uma crise sem precedentes em 
nossos dias atuais. O espectro da crise é tão amplo que soluções 
tradicionais não têm eficácia. Para Jonas, a tradição do pensamento 
ocidental se encontra profundamente interpelada por esta nova 
situação e incapacitada de enfrentá-la, uma vez que suas diferentes 
éticas não são de responsabilidade em relação ao futuro. O que 
importa na atual situação de crise da modernidade é uma ética de 
conservação, de proteção e cuidado e não uma ética do progresso e 
do desenvolvimento desenfreados. Numa palavra, trata-se da crítica 
da idéia do progresso voraz e de seu “utopismo tecnológico”, a fim de 
poder garantir a sobrevivência da vida humana e salvar a dignidade 
humana de suas ameaças, porque o ideal grandioso ambicioso 
moderno, segundo Jonas, desemboca em um dilema crucial: por 
um lado, o poder tecnológico alargou, de forma nunca conhecida 
dantes, a extensão e as possibilidades da ação humana, gerando, 
por conseguinte, a necessidade premente de regrar, por meio de 
normas, o uso efetivo deste enorme potencial; e, por outro lado, o 
tipo de racionalidade, que conduz este processo, reduz-se ao controle 
dos fenômenos, e, em última instância, no momento atual, põe em 
dúvida a possibilidade mesma de uma verdade objetiva, teórica ou 
prática, na vida humana (NODARI, 2014, p.3).
A ética de Jonas nos apresenta para um princípio amplo de responsabilidade, no 
qual somos responsáveis não apenas por aquilo que fazemos, mas também por aquilo 
que deixamos, por omissão, de fazer.
 
Ética latino-americana: enrique Dussel
Enrique Dussel é o principal responsável por aquilo que chamamos de Filosofia 
latino-americana da libertação. Para o autor, a filosofia europeia encontra limites ao 
responder os problemas latino-americanos, pois as forças da colonização e as heranças 
pré-colombianas fazem com que a situação e as demandas sejam diferentes em 
nosso continente. Por isso, a forma de pensar precisa ser liberta dos princípios da 
colonização, deve ser voltada para um pensamento de libertação.
No intento de desenvolver uma ética da libertação para os latino-americanos Dussel 
pega a ética da alteridade de Levinas faz uma sutil, porém decisiva mudança. Enquanto 
para Levinas o outro é uma figura qualquer que se põe ante ao sujeito e permite que 
ele seja entendido como um eu, na ética latino-americana da libertação esse outro é 
sempre um pobre latino-americano, que fora explorado pela colonização e que herdou 
as consequências da grande violência contra seu povo.
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Nesse sentido, a existência do eu depende da existência do pobre latino-americano 
e as decisões tomadas pela ética do eu devem contribuir para a libertação do pobre 
latino-americano. Sendo assim, a ética é voltada para a concepção de uma América 
Latina mais justa.
Enrique Dussel
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Enrique_Dussel#/media/Ficheiro:EnriqueDussel.jpg
ISTO ESTÁ NA REDE
No vídeo a seguir voc~e poderá ter mais algumas reflexões sobre o funcionamento 
da ética para Aristóteles:
https://www.youtube.com/watch?v=FHF1HBpjLXw
https://www.youtube.com/watch?v=FHF1HBpjLXw
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CAPÍTULO 11
A CRÍTICA SOCIAL: OS 
FRANKFURTIANOS
 
O século XX foi o grande momento histórico de desenvolvimento tecnológico e 
de regresso na organização social ao redor do mundo. A velocidade das mudanças 
tecnológicas no século XX exigiram que diversas reflexões fossem feitas sobre como 
a sociedade se organizava e sobre qual seria a destinação da humanidade.
É importante notar que depois da Revolução Industrial, no final do século XVIII, 
o ritmo das mudanças tecnológicas começou a escalar, passando pelo século XIX 
com diversos avanços, mas alcançando um aumento vertiginoso da velocidade de 
desenvolvimento no século XX.
Com o desenvolvimento técnico, houve também uma mudança do comportamento 
social e humano. Apenas para efeito de ilustração, imagine que há pouco tempo atrás, 
não existiam telefones celulares. Eles passaram a existir e a serem acessados aos 
poucos e foram se desenvolvendo rapidamente, de modo que hoje os recursos possíveis 
em um aparelho celular são ilimitados. Portanto, se há algum tempo quando você 
queria dizer algo a alguém teria que ligar para o telefone fixo da casa ou do trabalho 
de uma pessoa, agora você pode mandar uma mensagem gratuita por um aplicativo 
a qualquer momento do dia ou da noite, independente da distância, alcançando aquela 
pessoa instantaneamente. Com isso, o comportamento das relações de trabalho, 
por exemplo muda. As relações afetivas mudam, o tempo da comunicação muda. 
Podemos ilustrar a conversa com imagens e vídeos, etc.
Da mesma forma, as mudanças tecnológicas que aconteceram no século XX 
alteraram as relações pessoais e sociais. A comunicação esteve no centro dessas 
mudanças. Nesse caso, a comunicação estava centrada na escalada da presença 
primeiro dos rádios e depois dos televisores nas casas das pessoas.
Imagine que antes das plataformas de rádio e televisão, a maior forma de atingir 
um grande número de pessoas seria a partir da comunicação impressa, plataforma 
tecnológica inventada ainda no século XV.
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A escola de Frankfurt foi um grupo de pensadores que se organizou inicialmente 
na universidade de Frankfurt para pensarem as inovações de seu tempo. Essa reunião 
juntou pensadores de algumas áreas, especialmente da filosofia, sociologia e da 
psicologia, fazendo assim uma abordagem multidisciplinar dos estudos propostos.
Um dos principais conceitos da escola de Frankfurt foi a ideia de Indústria cultural, 
desenvolvido por Theodor Adorno e Max Horkheimer:
Na indústria cultural, “não se deve tomar de maneira literal o termo 
indústria”. O fenômeno não se define pela sua base tecnológica. 
O vocábulo em destaque refere-se sobretudo ao manejo das 
técnicas de distribuição (difusão e venda) e à padronização da 
estrutura dos bens simbólicos (“estandardização da própria coisa”) 
. A cultura não pode ser motivo de indústria. As tecnologias de 
comunicação, o cinema, o rádio, o vídeo, os cassetes, os programas 
de computador etc, considerados como um “conjunto [formador] 
de [...] experiências entre si relacionadas, e no entanto diferentes 
por sua técnica e efeitos, constituem [apenas] o clima da indústria 
da cultura”5 . Entretanto incorreríamos em erro também reduzindo 
o terreno do conceito às empresas que produzem e difundem os 
bens culturais para a sociedade. O fundamental aqui é o processo 
social que transforma a cultura em bem de consumo. O esquema, 
e não a coisa. Os empreendimentos culturais e os conglomerados 
multimídia são um momento do processo de acumulação do capital 
e não a sua totalidade. O capitalismo não é o conjunto das indústrias 
que abastecem o mercado, trata-se antes de uma relação social, cujo 
movimento condiciona toda a sociedade A perspectiva é igualmente 
válida para a indústria cultural. O conceito designa basicamente o 
conjunto das relações sociais que os homens entretém com a cultura 
no capitalismo avançado (RUDIGER, 1998, p.18).
Adorno e Horkheimer foram dois dos principais teóricos da escola de Frankfurt. 
Ambos se preocupavam em refletir a sociedade a partir da tradição filosófica, relendo 
a teoria social de Karl Marx. O marxismo, nesse momento, já tinha caído nas graças 
de algumas correntes ao redor do mundo e havia acumulado erros e benefícios, cada 
qual em sua proporção. Entretanto, a proposta frankfurtiana seria não apenas de repetir 
a forma como se lia Karl Marx e as desigualdades sociais, mas atualizá-lo para ler os 
novos problemas do capitalismo daquele período.
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Theodor Adorno
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_W._Adorno#/media/Ficheiro:Theodor_W._Adorno.jpg
A indústria cultural seria o procedimento de produção em massa de produtos 
comunicativos e comunicadores com o objetivo de alcançar o máximo possível de 
consumidores desses produtos, reduzindo assim a cultura a um produto talhado de 
acordo com os interesses do mercado. Até hoje existe esse controle dos bens culturais 
a partir da indústria da comunicação, de modo que a tendência é a de que o indivíduo 
tenha que se adaptar ao que vende na produção cultural, sendo que qualquer pessoa 
que discorde disso será considerada estranha ou inadequada.
O aumento dos meios de comunicação no começo do século XX ajudaram não 
apenas no processo de venda de produtos, mas também na disseminação de ideologias 
diversas. Essa é a ideia de propaganda, uma ideia de convencimento em massa a 
partir de técnicas de comunicação. Inclusive, o regime nazista se valeu muito da 
propaganda para se estabelecer como poder absoluto na Alemanha:
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Em 1933 o partido nazista já estava no poder e estabelecendo o 
Ministério do Reich para o esclarecimento da propaganda. Joseph 
Goebbels foi encarregado deste departamento com o objetivo de 
garantir que a ideologia fosse transmitida por mensagens através 
da arte, música, teatro, filmes, livros, rádios, materiais escolares e 
imprensa. As propagandas passavam por audiências para serem 
aprovadas e tinham como função criar uma atmosfera propensa 
que antecedia o estabelecimento das leis antissemitas3 (PORTAL 
USHMM 2016). O cinema desenvolveu um papel muito importante 
na propagação de ideias antissemitas, raciais ou de superioridade 
do poder militar do país, esclarecendo, os filmes retratavam alemães 
como heróis de guerra criando uma essência nacionalista para a 
população. E também caracterizavam os judeus como vilões e 
seres sub-humanos que se infiltravam na sociedade ariana (TADA; 
GRACINO, 2018, p.45).
 
A força da propaganda sobre o comportamento das pessoas foi amplamente utilizada 
pelo regime Nazista e tem sido utilizada por diversas formas de poder ao longo do século 
XX. Além da propagação de ideologias, a comunicação social foi utilizada também 
em favor do próprio capitalismo propondo um estilo de vida centrado no consumo.
O consumo foi um assunto bastante tratado por Erich Fromm, filósofo e psicanalista 
da escola de Frankfurt. Em sua famosa obra “Ter ou Ser” Fromm reflete sobre como 
existe um desvio da compreensão do ser humano do século XX sobre a qualidade da 
vida, sobre a forma de ser.
Erich Fromm
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Erich_Fromm#/media/Ficheiro:Erich_Fromm_1974.jpg
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Para Fromm, o indivíduo capitalista confunde aquilo que é com as coisas que tem, de 
modo que afirma sua existência a partir de suas posses. As posses funcionam como 
uma forma de afirmar a existência de uma pessoa que centra sua vida no consumo, 
como se objetos e marcas formatassem o valor existencial de alguém. Obviamente, 
Fromm critica essa postura e afirma que existe a necessidade de se resgatar o sentido 
da existência humana, que o autor defende ser estabelecida a partir do humanismo:
Erich Fromm, em seu livro “Ter ou Ser?” faz uma análise psicológica 
e social com influências filosóficas, teológicas e psicanalíticas 
de dois modos de existência, o modo Ter e o modo Ser. No início, 
Fromm introduz a ideia da “Grande Promessa” da era industrial e o 
porquê dessa promessa ter sido um fracasso. Ele afirma que cada 
vez mais chegamos ao consenso de que “a satisfação irrestrita de 
todos os desejos não é conducente ao bem-estar, nem é a via para a 
felicidade ou mesmo para o máximo prazer” (p. 24). [...] É importante 
que se destaque tais questões, pois assim o argumento de Erich 
Fromm fica claro: de que o tipo de caráter que é incentivado – culto 
do eu, egoísmo e cobiça – pelo nosso sistema socioeconômico, ou 
seja, nosso modo de vida é patogênico, e de fato produz pessoas 
doentes e por consequência uma sociedade doente. Baseado 
nisso, vem o argumento de que são necessárias (de forma urgente) 
profundas mudanças psicológicas no homem como uma alternativa 
para a catástrofe econômica e ecológica. Essa necessidade surge 
agora de forma diferente, pois chegamos ao ponto em que “viver 
corretamente” é não mais apenas o cumprimento de uma ordem 
ética ou religiosa, não é apenas uma exigência psicológica decorrente 
da natureza doentia do nosso caráter social atual. Pela primeira vez, 
a sobrevivência física da espécie humana depende de uma radical 
mudança no coração humano (MEIRA;LIMA, 2016, p.1-2).
A reflexão levantada por Fromm serve a nossos dias, pois o capitalismo de consumo 
tem cada vez mais se acirrado, de modo que a vida das pessoas se reflete cada vez 
mais a partir de sua capacidade e interesse de consumir os mais diferentes tipos de 
bens e produtos. 
O último ponto que queremos tratar nessa aula é sobre o conceito de Capitalismo 
como religião, elaborado por Walter Benjamin, filósofo também pertencente à escola 
de Frankfurt.
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Walter Benjamin
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg
Nas palavras de Benjamin:
O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está 
essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, 
aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões 
quiseram oferecer resposta. A demonstração da estrutura religiosa do 
capitalismo, que não é só uma formação condicionada pela religião, 
como pensou Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso, 
nos levaria ainda hoje a desviar para uma polêmica generalizada 
e desmedida. Não temos como puxar a rede dentro da qual nos 
encontramos. Mais tarde, porém, teremos uma visão geral disso. Em 
primeiro lugar, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez 
até a mais extremada que já existiu. Nele, todas as coisas só adquirem 
significado na relação imediata com o culto; ele não possui nenhuma 
dogmática, nenhuma teologia. Sob esse aspecto, o utilitarismo obtém 
sua colaboração religiosa (BENJAMIN, 2013, p.21).
https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg
https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin#/media/Ficheiro:Walter_Benjamin_vers_1928.jpg
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Por meio dessa definição apresentada por Benjamin nota-se que o filósofo entende 
um comportamento religioso cúltico na prática do capitalismo. Ao contrário do que 
normalmente se nota nas religiões, nas quais os cultos possuem características 
expiatórias, o culto capitalista possui uma característica culpabilizadora, na qual quem 
não consome é tido como culpado de sua incapacidade:
Em terceiro lugar, esse culto é culpabilizador. O capitalismo 
presumivelmente é o primeiro caso de culto não expiatório, mas 
culpabilizador. Uma monstruosa consciência de culpa que não sabe 
como expiar lança mão do culto, não para expiar essa culpa, mas 
para torná-la universal, para martelá-la na consciência e, por fim e 
acima de tudo, envolver o próprio Deus nessa culpa, para que ele 
se interesse pela expiação. Esta, portanto, não deve ser esperada 
do culto em si, nem mesmo da reforma dessa religião, que deveria 
poder encontrar algum ponto de apoio firme dentro dela mesma; 
tampouco da recusa de aderir a ela. Faz parte da essência desse 
movimento religioso que é o capitalismo aguentar até o fim, até a 
culpabilização final e total de Deus, até que seja alcançado o estado 
de desespero universal, no qual ainda se deposita alguma esperança. 
Nisto reside o aspecto historicamente inaudito do capitalismo: a 
religião não é mais reforma do ser,mas seu esfacelamento. Ela é 
a expansão do desespero ao estado religioso universal, do qual se 
esperaria a salvação. A transcendência de Deus ruiu. Mas ele não 
está morto; ele foi incluído no destino humano. Essa passagem do 
planeta “ser humano” pela casa do desespero na solidão absoluta de 
sua órbita constitui o éthos definido Nietzsche. Esse ser humano é 
o ser super-humano [Übermench], o primeiro que começa a cumprir 
conscientemente a religião capitalista (BENJAMIN, 2013, p.22).
Com essa reflexão podemos notar como foi ampla a reflexão feita pelos frankfurtianos 
sobre sua sociedade e sobre a necessidade de se entender a profundidade do domínio 
do capital sobre a sociedade contemporânea. 
ISTO ESTÁ NA REDE
No vídeo a seguir vemos o professor Franklin Leopoldo e Silva fala sobre a teoria 
crítica de um autor que não trabalhamos em nossa aula, mas que também foi 
importante para a escola de Frankfurt, Herbert Marcuse:
https://www.youtube.com/watch?v=KrFuihZXgQU
https://www.youtube.com/watch?v=KrFuihZXgQU
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ANOTE ISSO
Podemos fazer uma reflexão, com base em nossa aula, sobre qual o papel do 
consumo em nossas vidas e em nossa sociedade. Se olharmos com muita atenção 
veremos que a propaganda gera “necessidades” de consumo que não são reais e 
que não apontam para a criação de uma sociedade mais justa. 
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CAPÍTULO 12
ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE
Para quem não conhece a filosofia, dificilmente passará a ideia de que é no âmago 
da filosofia que se discute o que é beleza e o que é arte. Aparentemente se entende 
que a filosofia é mais ligada às questões do ser, com os problemas do conhecimento 
e do sentido da existência. Todavia, desde o início da filosofia há uma preocupação 
com a ideia de belo, com a ideia daquilo que transmite a produção humana sobre 
aquilo que nos agrada os sentidos.
 
O que é estética
A estética enquanto ramo da filosofia foi desenvolvida na modernidade a partir do 
pensamento de um autor alemão do século XVIII, Alexander Baumgarten. Como sabemos, 
o século XVIII foi um período de grande discussão sobre as questões relacionadas ao 
conhecimento, especialmente com a aura do iluminismo, mas não apenas por conta disso.
Baumgarten, como filósofo e educador, propôs uma reforma na distribuição dos 
campos da filosofia, entendendo que há um tipo de conhecimento diferente do 
conhecimento lógico. Essa forma distinta do conhecimento seria o conhecimento 
estético, que é um conhecimento derivado dos sentidos:
Entre 1750 e 1758, Baumgarten escreve sua Aesthetica, na qual 
postula a inclusão de uma nova disciplina no campo filosófico, a saber, 
a disciplina estética. O principal objetivo dessa obra é comprovar a 
autonomia do conhecimento sensível em relação ao conhecimento 
lógico. A partir de tal fundamento, Baumgarten pretende defender a 
existência da verdade estética, paralela à já aceita verdade lógica. 
Em outra obra, as Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema 
pertinentibus(1735), o filósofo havia demonstrado em que consiste a 
especificidade do conhecimento sensívelem relação ao conhecimento 
lógico através da análise de um poema. Para Baumgarten6, o poema é 
um discurso (oratio) constituído de representações sensíveis, diferente 
dos discursos que se constituem apenas de representações lógicas. 
No entanto, mesmo assim, segundo Baumgarten, não se pode dizer 
que sua representação não veicula algum conhecimento. Por essa 
mesma razão, Baumgarten sugere, mais tarde, que a filosofia inclua, 
em seu escopo, uma nova disciplina, a estética, que se encarregaria 
de estudar esse tipo específico de cognição (KIRCHOF, 2012, p.28).
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Justamente por conta dessa divisão entre o conhecimento estético e o conhecimento 
lógico que aquilo que se apreende através dos sentidos nem sempre é explicável a 
partir do discurso lógico.
Com a divisão feita por Baumgarten, há um distanciamento entre a ideia de beleza 
e a ideia de bondade. O bom era aproximado do belo desde a filosofia platônica. Para 
Platão, o bom e o belo eram categorias muito aproximadas, pois ambas estavam no 
ideal platônico de perfeição, algo semelhante à ideia de Deus. Nesse sentido, a maior 
beleza estava no âmbito ético, relacionado a uma maior bondade.
Ao entender que existe o âmbito estético na filosofia, Baumgarten propõe que assim 
como a verdade lógica é alcançada através da ciência, também é necessário que se 
desenvolva uma ciência para o conhecimento estético:
Conforme esclarece Cassirer, Baumgarten não pretende que a 
ciência seja rebaixada ao domínio da sensibilidade: é o sensível que 
deve ser elevado ao status do saber, o que ocorrerá somente se for 
dominado por uma forma científica específica. Daí a necessidade da 
formulação de uma ciência capaz de tratar desse fenômeno diferente 
– embora análogo – ao fenômeno lógico.8 Portanto, para saber como 
a sensibilidade é capaz de gerar cognição, na filosofia de Baumgarten, 
é necessário perguntar quais são as faculdades estéticas do espírito, 
de um lado, e quais são as regras capazes de levar as representações 
de tais faculdades a produzirem um conhecimento análogo ao 
conhecimento lógico, em vez de erro, de outro lado (KIRCHOF, 2012, 
p.29).
As regras para o conhecimento estético em Baumgarten vem do estudo da poética, 
uma reflexão filosófica que já se fazia presente desde Aristóteles, e amplamente 
difundida na história da filosofia. A poética e a retórica foram elementos estudados 
na história da filosofia desde seu início, pois a poesia e o discurso sempre foram 
elementos de interesse para o campo do conhecimento.
Para Baumgarten, a estética deve seguir uma ideia de representação para que se 
chegue à beleza propriamente dita.
Em suma, o conceito de conhecimento estético, em Baumgarten, 
está subordinado a uma teoria da representação que equivale o seu 
resultado sensível (obtido pelas faculdades inferiores), elevado a 
uma condição de perfeição (dada pela ordem das representações 
com as coisas e com os signos), ao efeito da beleza. No entanto, tal 
efeito será alcançado apenas caso a representação siga as regras 
de disposição, conforme acima enumeradas. Em outros termos, de 
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um lado, o efeito estético pressupõe uma certa liberdade, uma vez 
que algumas das faculdades inferiores, como a fantasia, a criação 
e a habilidade linguística, são capazes de produzir representações 
quase ilimitadas, como fábulas, paixões e sonhos. Por outro lado, 
contudo, tal liberdade é coagida pelos critérios claros e restritivos da 
ordem,unidade e adequação, buscados por Baumgarten nas tradições 
da poética e da retórica (KIRCHOF, 2012, p.29).
A representação, como vemos, possui no entendimento estético uma certa liberdade, 
podendo passar pela imaginação, mas também deve seguir uma ordem, a ordem da 
adequação.
 
Schelling
Friedrich Schelling foi um filósofo alemão que nasceu na quadra final do século 
XVIII, tendo produzido na primeira metade do século XIX. Sendo contemporâneo de 
Hegel, Schelling foi um dos principais representantes da corrente de pensamento 
conhecida como idealismo alemão. O idealismo alemão surgiu como uma leitura 
pós-kantiana, um grupo de filósofos que desenvolveram seu pensamento como uma 
leitura do pensamento de Kant.
 
Friedrich Schelling
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Wilhelm_Joseph_von_Schelling#/media/Ficheiro:Nb_pinacoteca_stieler_friedrich_wilhelm_joseph_von_schelling.jpg
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O idealismo é, em sentido simples, uma teoria que se compõe a partir do estudo de 
ideias, como se opondo a uma teoria materialista. O idealismo alemão possui algumas 
particularidades, mas o que mais nos interessa nessemomento é a perspectiva estética 
de Friedrich Schelling:
Schelling é, na filosofia, talvez o melhor intérprete de uma época que 
uniu idealismo e romantismo num objetivo comum: atribuir à arte 
a função de religação (substituindo a religião) entre o particular e o 
universal, entre o indivíduo e o absoluto, após a radicalidade crítica 
da modernidade em relação quer à metafísica, quer às instituições 
que sustentavam o discurso religioso. Vemo-lo assim unido a 
personalidades como Hölderlin, Novalis ou Schleiermacher naquilo 
que Georges Gusdorf designou «a invenção de uma religião», como o 
próprio Schelling referiu, «nesse santuário onde a religião e a poesia 
se aliam»15. Para Schelling sobre os ombros da arte e da estética, 
enquanto procura do belo, recai talvez a maior responsabilidade do 
seu tempo, que ultrapassa em muito um desígnio teorético, ou uma 
especulação sobre valores. Trata-se, em suma, da reconciliação da 
humanidade consigo mesma, perdidos que estavam os equilíbrios 
e as conexões que mantinham a Weltanschaung grega e medieval, 
enquanto totalidades coerentes, projetando-se até à Revolução 
Francesa (CASTRO, 2016, p.262).
Há em Schelling a presença de um conceito que será importante especialmente para 
os movimentos existenciais que seguirão o fim do século XIX e início do século XX, a 
ideia de absoluto. O absoluto, em Schelling, apresenta uma relação com a natureza, que 
não é natureza apenas como as coisas que existem no mundo, mas como princípio 
de tudo que existe.
O naturalismo em Schelling prevê a reunião entre a arte e a natureza, o que é a 
união entre a o racional e o irracional, entre a criatura e o criador:
A relação do livre agir com a arte é explorada na última parte do 
Sistema do Idealismo Transcendental. Para Schelling a atividade 
estética é exatamente a que promove a unificação entre dois tipos 
de atividade: a atividade inconsciente, do mundo real da natureza, 
com a atividade consciente, ideal, racional, caracterizada pela arte 
(URDANOZ, ibidem, p. 225). Em Deus estas duas atividades não 
se distinguem. O real na natureza, caracterizado pela atividade 
inconsciente, é uma objetivação da pura idealidade ou da atividade 
consciente, de modo que todo finito é, em relação ao Absoluto, 
também infinito. O logos criador não está separado da criatura, mas 
é causa imanente desta. Assim, a arte e a contemplação estética é 
uma forma de acessar o próprio Absoluto em sua perfeita unidade, 
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que é em si mesmo acima de qualquer conceito. [...] A intuição estética 
corresponde, assim, à intuição intelectual, ressaltando que a intuição 
intelectual é de caráter subjetivo, enquanto a intuição estética é de 
caráter objetivo. O Absoluto, sendo acima de qualquer predicado, é 
acessível apenas mediante a arte e seus produtos, de modo que a arte 
constitui o verdadeiro objeto da filosofia. A indiferença entre o ideal e 
o real, entre o infinito e o finito, que caracteriza o Absoluto, é expressa 
na arte (Urdanoz, op. cit., p. 227-228). A Beleza, segundo Schelling, 
é caracterizada como a expressão do infinito no finito (URDANOZ, 
ibidem, p. 227). Poderíamos dizer, em função disso, que todo ser 
particular é dotado de beleza (MAIA, 2015, p.135).
A presença do logos criador na criatura faz com que haja uma extensão da natureza 
divina nos seres finitos, e os seres finitos podem expressar a beleza absoluta a partir 
da arte, que é representação da natureza em sua completude. 
A ideia de completude e de absoluto é central para o pensamento de Schelling, pois 
para ele há uma unificação entre o que é verdadeiro e o que é belo:
No princípio do diálogo Bruno Schelling (1973, p. 239-240) considera 
a questão da unidade entre o verdadeiro e o belo. O belo é aquilo 
que é atemporal e eterno, isto é, os arquétipos eternos e perfeitos 
contidos no logos divino, dos quais as coisas sensíveis e temporais 
são imagem. Tais arquétipos eternos, contudo, considerados como os 
únicos portadores da Beleza, são também os únicos absolutamente 
verdadeiros. Assim, “conhecer as coisas com absoluta verdade 
significa o mesmo que: conhece-las em seus conceitos eternos” 
(Schelling, ibidem, p. 240), o que implica na suprema unidade da 
verdade e da beleza. A verdade de cada coisa, portanto, é seu 
conceito eterno, e cada coisa só é bela na medida em que se refere 
a este. Qualquer outro tipo de verdade é necessariamente uma 
verdade subordinada e relativa, não tendo relação com a Beleza em 
si mesma. A respeito disso, Schelling (ibidem, p. 241) afirma: Essa 
espécie de verdade, que pactua mesmo com o que é imperfeito e 
temporal nas formas, com aquilo que lhe é imposto de fora e que 
não se desenvolveu vitalmente a partir de seu conceito, só pode ser 
tornada regra e norma da beleza por aquele que nunca contemplou a 
beleza eterna e sagrada. Da imitação dessa verdade nascem aquelas 
obras nas quais admiramos apenas a arte com que atingem o natural, 
sem poder vinculá-lo com o divino. Mas dessa verdade nem sequer 
pode ser dito (...) que é subordinada à beleza, mas antes que não 
tem nada em comum com ela. Mas aquela única e alta verdade não 
é contingente à beleza, nem esta a ela, e, assim como a verdade que 
não é beleza também não é verdade, inversamente, a beleza que 
não é verdade também não pode ser beleza. Assim, Schelling (idem) 
conclui que “a suprema beleza e a verdade de todas as coisas é, 
pois, intuída em uma e mesma ideia” e que “essa ideia é a do eterno” 
(MAIA, 2015, p.135).
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O eterno é o princípio que unifica a verdade e a beleza, que não são subordinadas 
entre si, mas que estão presentes no princípio ideal. 
ISTO ESTÁ NA REDE
Neste vídeo, o professor Francisco Porfírio faz um passeio sobre a ideia de estética 
e filosofia da arte. Esse vídeo pode complementar nossa abordagem ao tema, 
fortalecendo nossa compreensão do assunto:
https://www.youtube.com/watch?v=1hhSJ9D5bxU
ANOTE ISSO
Analise o quadro a seguir:
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Guernica_(quadro)#/media/Ficheiro:Mural_del_Gernika.jpg
Esse é o Mural chamado “Guernica”, do pintor Pablo Picasso. Nessa pintura Picasso 
retrata um ataque a bomba sofrido pela cidade de Guernica durante a Guerra civil 
espanhola. Note que a formação fragmentária das imagens do quadro apontam 
para a destruição gerada pela guerra e pela violência, apresentando vários pontos 
de desespero e falta de sentido. A composição retrata o sentimento de destruição 
gerada pela violência e pela guerra, fazendo assim um discurso a partir dos 
sentidos. 
https://www.youtube.com/watch?v=1hhSJ9D5bxU
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CAPÍTULO 13
DIREITOS HUMANOS 
E FILOSOFIA
Direitos humanos e revolução francesa
Quando pensamos em Direitos Humanos temos a ideia de tópicos específicos que 
são discutidos na sociedade atual, mas que são na verdade desenvolvimentos de 
uma discussão mais geral que surge há algum tempo no campo da reflexão sobre a 
sociedade.
Os Direitos humanos surgem como uma discussão moderna, mesmo tendo havido 
em alguns momentos da história alguns pontos de presença de ações sobre a dignidade 
dos seres humanos.
Um ponto importante da modernidade é a discussão sobre o jusnaturalismo, ou seja, 
a ideia de que existe uma justiça natural do ser humano, um direito que é próprio da 
natureza do ser humano. Esse pensamento concorre com outro pensamento de uma 
corrente que é conhecida como contratualismo. O contratualismo parte do princípio 
que a justiça se dá a partir do contrato civil adotado na sociedade:
Lewandowsky (1984) assinala que a teoria dos direitos humanos 
teve sua origem no Iluminismo e no Jusnaturalismo desenvolvidos 
na Europa dos séculos XVII e XVIII, quando se firmou a noção de que 
o homem tinha direitos inalienáveis e imprescritíveis, decorrentes da 
própria natureza humana e existentesindependentemente do Estado. 
O pensamento iluminista, com suas ideias sobre a ordem natural, 
sua exaltação às liberdades e sua crença nos valores individuais 
do homem acima dos sociais, constitui a gênese da teoria dos 
direitos humanos. Não se pretende, entretanto, afirmar que antes 
da Modernidade as ideias sobre dignidade, liberdade e igualdade 
não estivessem presentes, mas essas não eram formuladas como 
direitos reivindicáveis por todos os seres humanos. Assim, os direitos 
previstos na Magna Carta de 1215 e no Bill of Rights da Inglaterra de 
1689 foram concebidos como concessões do poder soberano a um 
grupo determinado de pessoas, e não como direitos inerentes a todo 
ser humano (BOBBIO, 1992, p. 101) (LOPES, 2019, p.8).
Com a modernidade surge uma ideia de direito bastante diferente das ideias 
anteriores de justiça. De acordo com Norberto Bobbio, há uma virada de compreensão 
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da proposição fundamental de Direito. Na modernidade o direito se organiza não mais 
a partir dos deveres, mas a partir dos direitos de cada cidadão. Assim se organizam 
as sociedades em torno de constituições, o que se tornou algo cada vez mais comum 
nos estados de direito.
A revolução francesa marca um momento em que as sociedades começam a 
pensar nos direitos que são básicos, elementares para todos os cidadãos como o 
direito à vida, à liberdade, e assim por diante. Esses direitos básicos dão base para 
desenvolvimentos de direitos mais específicos como temos hoje, o direito dos idosos, 
das crianças, direitos trabalhistas, entre outros.
Vejamos, portanto, um pouco sobre os direitos humanos a partir da aproximação 
filosófica do século XX.
 
Hannah Arendt
Hannah Arendt foi uma filósofa judia nascida na Alemanha no início do século 
XX. Arendt ficou conhecida por diversas contribuições para a filosofia de seu tempo, 
especialmente contribuições no campo dos direitos humanos. O contexto da Segunda 
Guerra mundial foi muito produtivo para produções em termos de direitos humanos. 
O surgimento do autoritarismo na Europa rompeu uma situação de violência sem 
limites, culminando com os terrores dos campos de concentração nazista.
Arendt foi perseguida pelo regime nazista, perdendo sua nacionalidade alemã e 
migrando para os Estado Unidos da América para fugir da perseguição. Tendo sua 
nacionalidade cassada, Arendt se tornou uma apátrida, conceito que seria importante 
para seu pensamento. Uma pessoa apátrida é aquela que não possui uma pátria 
definida, tendo sido por algum motivo expulsa de sua pátria natal.
Levando em consideração que as leis que regem um cidadão são as leis de seu país, 
quando as pessoas são apátridas, elas não possuem leis que garantem seus direitos 
e que apontem seus deveres. Essas pessoas, em resumo, estão fora do alcance das 
leis, estando, portanto, órfãs do princípio civil que sustenta uma vida em sociedade.
Hannah Arendt
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt#/media/Ficheiro:Hannah_Arendt_auf_dem_1._Kulturkritikerkongress,_Barbara_Niggl_Radloff,_FM-2019-1-5-9-
16.jpg
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Outro conceito importante de Arendt é o de “banalidade do mal”. A ideia de banalidade 
do mal, ou seja, a ideia de que o mal está presente no cotidiano da sociedade:
Segundo Hannah Arendt, o mal é trivial e não há em si profundidade 
alguma, daí a noção arendtiana de ‘banalidade do mal’. Para ela, 
basta que haja pessoas supérfluas, banais e simplistas, pessoas 
essas que sigam, cotidianamente, a normalidade da vida – como um 
fotógrafo ou um burocrata – para que o mal consiga tão facilmente se 
estabelecer na sociedade. Entretanto, com isso, ela não minimiza as 
consequências individuais ou coletivas das horripilantes atrocidades 
que advém dessa incapacidade de julgar, criticar e conhecer a 
realidade. Pelo contrário, na concepção de Hannah Arendt, o mal 
em seu estágio máximo de perversidade, ou seja, em regimes 
totalitaristas, só se tornam tão aceitavelmente perversos por causa 
das ações dessas pessoas supérfluas, banais e simplistas – esses 
termos não são pejorativos ou depreciativos, apenas se referem à 
cotidianização da vida. A banalização do mal está em conformidade 
com o processo de cotidianização da vida, sendo é nesse estágio em 
que a maldade se torna aceitável, praticável e corriqueira, mesmo que 
seus algozes nunca precisem engatilhar um revólver, ou empunhar 
uma faca, ou cometer qualquer ato considerável atroz. Basta-lhes 
seguir o cronograma, seguir as normas, seguir as regras e limitar sua 
capacidade de julgamento (conhecimento) a apenas suas próprias 
atividades individuais. A banalidade do mal, nesse sentido, é o estado 
de normose social em que não se questiona as ações coletivas e não 
se busca compreender a extensão dos atos individuais. O mal, segundo 
Hannah Arendt, não é externo aos indivíduos, e, provavelmente, não se 
deixa conhecer-se a si mesmo por completo, talvez, esse seja o grande 
triunfo do mal, sua invisibilidade e naturalidade social (SILVA, 2013). 
Nesse viés, para o mal ter êxito, basta que a vida seja fracionada em 
intervalos existenciais descompassados com o coletivo; basta que 
o trabalho laboral seja dividido em etapas tantas que praticamente 
se torne incomunicável as partes do todo; e, basta que as fronteiras 
invisíveis do coletivo se tornem tão intransponíveis ao ponto de 
produzir um abismo entre o “eu” e o “outro”. Contudo, aqueles que se 
permitem questionar, duvidar e conhecer, ou seja, ter profundidade, 
poderão romper com o ciclo da perpetuação da ‘banalidade do mal’, 
que, ao que tudo indica, já está em vigor na sociedade moderna 
(GUIMARÃES, 2019, p.61).
Para Arendt, a preocupação deve estar na compreensão de uma vida fragmentada 
de modo a trazer a falta de reflexão à vida, propiciando assim as condições para a 
presença de anormalidades como o totalitarismo na sociedade. O totalitarismo é uma 
perversão que, segundo Arendt, surge desse descuidado com a crítica social, com a 
falta de reflexão sobre as condições da maldade e da bondade no mundo. 
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Michel Foucault
Michel Foucault foi um filósofo francês que viveu de 1926 a 1984 e segue uma 
linha de pensadores do século XX que não se restringe a um tema específico, mas que 
amplia seu trabalho para campos um pouco distintos. Foucault deixou contribuições 
valiosas no campo da filosofia social, da história e da linguística/crítica literária. Alguns 
de seus trabalhos mais importantes tratam da história da loucura e da história da 
sexualidade, mostrando como existem relações de poder dentro dessas definições e 
entre os sujeitos dos grupos sociais.
O método utilizado por Michel Foucault é essencialmente de arqueologia e genealogia 
de conceitos e ideias, ou seja, a investigação das origens e das cadeias estruturais que 
sustentam uma ideia. Basicamente, quando se aproxima de um problema Foucault 
questiona de onde veio esse problema, como ele surgiu como ideia e como chega 
até nossos dias.
Michel Foucault
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault#/media/Ficheiro:Michel_Foucault_1974_Brasil.jpg
 
O primeiro grande ponto que devemos entender em Foucault é sua reflexão sobre 
o poder. O filósofo entende que há uma organização capilar do poder na sociedade:
Atendo-se a uma análise nominalista, Foucault recusa-se a pensar o 
poder enquanto coisa ou substância, as quais seriam possuídas por 
uns e extorquidas de outros. O poder opera de modo difuso, capilar, 
espalhando-se por uma rede social que inclui instituições diversas 
como a família, a escola, o hospital, a clínica. Ele é, por assim dizer, 
um conjunto de relações de força multilaterais (Foucault, 1999).As 
reflexões do filósofo consistem na tentativa de estabelecer uma 
análise que escape às teorias políticas tradicionais, para as quais 
as relações de força são pensadasa partir do modelo do contrato 
social, da luta de classes, ou ainda da figura de um Estado absoluto 
e opressivo em oposição à sociedade civil.Nesse sentido, o poder 
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atua não em conformidade à lógica binária dos dominadores versus 
dominados. Não é da onisciência de um soberano-que-tudo-sabe que 
o poder emana ou conserva-se. Ele irradia-se de modo microfísico, 
sem possuir um centro permanente. As relações de força são móveis e 
suscetíveis de se modificarem, compõem arranjos transitórios dados 
a uma constante transfiguração. Será tal mobilidade que permitirá 
Foucault (1995) contemplar a possibilidade de resistência face ao 
controle, reconhecendo-a enquanto elemento indissociável de seu 
exercício.Igualmente, o filósofo contesta a ideia consagrada segundo 
a qual o poder agiria por meio da supressão, da repressão, coibindo e 
impedindo a manifestação de condutas indesejáveis. Ele atuaria, ao 
contrário, de maneira a produzir, incitar comportamentos. A sociedade 
ocidental teria menos reprimido os sujeitos, que os levado a emitir 
certos padrões de resposta (Foucault, 1976/2010a) (FURTADO, 2016, 
p.35).
A capilaridade do poder nas estruturas da sociedade faz com que as relações de 
poder não sejam relações binárias, na qual um sujeito se incide diretamente sobre 
outro, mas há sim uma relação difusa de diversas formas de poder em cada estrutura 
e em cada relação social. 
Como consequência de sua ideia de poder, Foucault constrói uma ideia de biopoder, que 
é uma forma de poder sobre a vida, de um controle sobre os processos vitais humanos. 
Há também, nessa esteira, uma biopolítica, ou seja, uma ação política que incide na vida 
dos indivíduos da sociedade, formas de controle e negociação do modo de viver.
Em 1978, no curso intitulado Segurança, território, população, Foucault 
estabelece como fio condutor de suas análises o estudo do biopoder, 
definindo-o como “o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo 
que, na espécie humana, constitui suas características biológicas 
fundamentais, vai poder entrar numa política, numa estratégia política, 
numa estratégia geral do poder” (Foucault, 2008a, p. 3).As origens 
da problemática do biopoder em Foucault remontam, contudo, às 
conferências proferidas pelo filósofo no Instituto de Medicina Social 
da Universidade do Estado da Guanabara, atual UERJ, em 1974. No 
contexto dessas comunicações, Foucault (1979/2010b), utilizando-se 
do neologismo “biopolítica”, defende a hipótese segundo a qual com 
o capitalismo assistimos não à privatização da prática médica, mas 
à crescente presença da medicina nos espaços públicos.Tomado 
como objeto de sofisticadas tecnologias políticas, o corpo torna-se 
público, e o público “somatocrático” (Foucault, 2010c, p. 171). Isto 
significa que “vivemos num regime em que uma das finalidades da 
intervenção estatal é o cuidado do corpo, a saúde corporal, a relação 
entre as doenças e a saúde, etc.” (Foucault, 2010c, p. 171) (FURTADO, 
2016, p.35).
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Note-se que o corpo, o próprio núcleo material da existência humana é tipo como 
Foucault como um campo de disputa de poder, um local de ação política para domínio 
de comportamentos e controle dos processos da existência.
No campo dos direitos humanos, a reflexão de Foucault traz novas frentes e novas 
ferramentas para o pensamento sobre quais são dos direitos fundamentais dos seres 
humanos e como eles podem ser pensados tanto em seu sentido mais teórico quanto 
na prática do cotidiano. 
 
Giorgio Agamben
Giorgio Agamben é um filósofo italiano que ainda está vivo e que tem atuado 
na reflexão sobre os direitos humanos seguindo a reflexão tanto de Hannah Arendt 
quanto de Michel Foucault. Agamben tem um projeto amplo que se chama Homo 
Sacer, que pode ser traduzido ao português como “homem santo, ou homem sagrado”. 
Esse projeto faz um grande esforço arqueológico de entender o funcionamento da 
justiça e do poder na história, partindo da reflexão de um conceito do Direito romano, 
o conceito de Homo Sacer.
O homo sacer era um conceito presente no direito romano que entendia que uma 
pessoa poderia ser punida por um determinado crime com a pena de exclusão do 
alcance da lei. O que isso significa? Ao invés da pessoa ser punida e levada à prisão 
ou à morte, essa pessoa era excluída da cidade, de modo que poderia viver, mas não 
estaria protegida pelo sistema legal. Com isso, qualquer mal que fosse infringido a 
essa pessoa não seria considerado um crime, pois esse indivíduo já não se encontrava 
nos limites da lei.
Em relação ao homo sacer, existe uma reflexão sobre o poder soberano. Ainda no 
direito romano, o soberano seria aquele que poderia decidir sobre a vida de todos, 
aquele que concentrava em si o poder absoluto, a decisão de fazer com que alguém 
viva ou morra. Diante do soberano, todos seriam homo sacer, pois todos estariam fora 
da defesa da lei. Por outro lado, para as pessoas que fossem condenadas a saírem 
da cidade, tornando-se assim homo sacer, qualquer pessoa teria um poder soberano, 
pois qualquer um poderia escolher sobre a vida e a morte daquela pessoa.
Com essa base teórica, Agamben pensa sobre qual é ou quais são os poderes 
soberanos em nossos dias e consequentemente sobre quem são as pessoas que 
vivem como homo sacer, ou seja, fora do alcance da lei. Digamos que haja em nossa 
sociedade um benefício para as pessoas que vivem em situação de rua. Se, entretanto, 
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um indivíduo que vive em situação de rua não possui documentos que o inscrevam 
no sistema de dados do governo, esse indivíduo não atinge esse benefício, não sendo 
alcançado pela lei.
Giorgio Agamben
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Giorgio_Agamben#/media/Ficheiro:Agamben.png
De forma muito erudita e minuciosa, Giorgio Agamben provoca um novo tipo de 
reflexão sobre os direitos humanos, apontando para problemáticas até hoje pouco 
percebidas em nossa concepção atual de justiça e de direitos fundamentais.
 
ISTO ESTÁ NA REDE
Nesse programa, Lenio Streck discute o tema “Homo Sacer” com os convidados 
Eloísa Capovilla, professora de História da Unisinos, Kathrin Rosenfield, professora 
de Filosofia e de Literatura da UFRGS e Fábio D’ávila, professor de Direito da 
PUCRS.
https://www.youtube.com/watch?v=EAHEuhwb0e8
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ISTO ACONTECE NA PRÁTICA
Na prática os assuntos de Direitos humanos costumam ser tratados a partir 
de demandas específicas, como por exemplo os direitos raciais, os direitos de 
gênero ou os direitos de classe. No entanto, é comum que essas demandas sejam 
muito particularizadas, como por exemplo a partir das demandas específicas das 
mulheres negras, ou das demandas dos jovens periféricos na cidade. De fato, 
existem particularidades de casa caso que podem gerar discussões distintas em 
cada caso. O papel da filosofia está em fornecer bases para esse tipo de discussão 
e se aproximar dos casos específicos de acordo com cada necessidade. 
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CAPÍTULO 14
FENOMENOLOGIA E 
HERMENÊUTICAS
 
Nesta aula vamos discutir sobre duas abordagens da filosofia que aparecem 
com frequência nos últimos dois séculos do pensamento e que são tomadas como 
ferramentas importantes do fazer filosófico. Fenomenologia e hermenêutica podem ser 
utilizadas em conjunto ou sozinhas, como método e atitude filosófica ante a questões 
particulares. 
 
O que é fenomenologia
O termo fenomenologia designa o estudo dos fenômenos, ou seja, o estudo daquilo 
que se mostra. Pelo termo, o sentido de fenomenologia pode ser muito amplo, de 
modo que é melhor conceituarmos a fenomenologia como método, desenvolvida 
principalmente por Edmund Husserl.
A fenomenologia como método indica umcaminho de conhecimento, ou seja, uma 
técnica filosófica voltada para o conhecer, e nesse sentido se coloca em categorias 
de teorias do conhecimento como o racionalismo ou o empirismo. Na fenomenologia 
parte-se do pressuposto que o conhecimento não está apenas na mente do sujeito, 
como em Descartes, nem apenas no objeto, como para os empiristas. O conhecimento 
está no que é possível que se apreenda da revelação do objeto para o sujeito.
Em termos práticos, cada vez que vemos um objeto, vemos apenas aquilo que ele 
revela naquela experiência, sendo necessário olha-lo de uma maneira específica para 
vermos tudo aquilo que ele nos revela sem sermos atrapalhados por outras coisas que 
estão ao redor, por nossa imaginação ou nossos conceitos pré-estabelecidos. Portanto, 
a mente precisa, nesse caso, de uma disciplina do olhar, que Husserl estabelece em 
seu método fenomenológico.
Edmund Husserl
Edmund Husserl foi um filósofo alemão nascido em 1859 e que elaborou em sua 
fase mais madura uma proposta de fenomenologia que influenciou diversos pensadores 
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do século XX, incluindo mesmo uma área nova na filosofia ocidental. Entre as pessoas 
influenciadas por Husserl temos Martin Heidegger, Marcel Merleau-Ponty, Edith Stein, 
Jean-Paul Sartre, entre outros.
Edmund Husserl
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Husserl#/media/Ficheiro:Edmund_Husserl_1900.jpg
 
Husserl discutia lógica e teoria do conhecimento, de modo a problematizar a 
capacidade humana de conhecer a verdade sobre as coisas. Nesse exercício, propôs 
a necessidade de retorno às coisas mesmas, que acabou sendo chamada de redução 
suspensão fenomenológica, ou redução eidética. Essa ferramenta faz com que se 
olhe não apenas para o objeto, mas para a consciência que olha ao objeto enquanto 
fenômeno, buscando entender o que é essencial naquela imagem que se forma na 
consciência.
O método fenomenológico geralmente nos é apresentado como 
possuindo dois passos: O primeiro passo consiste em uma epoché, 
ou epoché, a suspensão provisória da nossa crença na vigência de 
uma ciência ou teoria psicológica, colocando-se tudo isso “entre 
parênteses”. Com essa atitude, o fenômeno que se apresenta à 
consciência, aparecerá, para sermos víeis a expressão husserliana, 
ele mesmo em “carne e osso” (HUSSERL, 2006; GUIMARÃES, 2008). 
[...] A segunda etapa, etapa transcendental, corresponde ao momento 
articulado da evidenciação formal das categorias entrelaçadas no 
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conjunto de significações ou essências intuídas na imediatidade 
da manifestação do mundo da vida. Essa etapa se encarrega da 
evidenciação das essências como significações e sentidos dos objetos 
ou fatos constitutivos do nosso vivido imediato. Se fenomenologia é 
“ciência do vivido”, o fundamento último dessa ciência está enraizado 
no plano transcendental da consciência pura, pois é o lugar de toda 
evidenciação possível. (GUIMARÃES, 2008, p. 25-26) Assim como 
afirma Guimarães (2008, p. 73): “a fenomenologia não se interessa 
imediatamente pelos objetos ou pelos fatos, mas pelos sentidos que 
neles podem ser percebidos. Fenomenologia é o ato de perceber e 
descrever as essências ou sentidos dos objetos. Enquanto as ciências 
positivas buscam suas verdades nos fatos, a fenomenologia descreve 
essas verdades a partir da percepção das essências dos fatos, pois 
é nelas que os seus sentidos se revelam tais quais são.” (BORBA, 
2010, p.100).
O que é hermenêutica
Se pudéssemos falar da hermenêutica de maneira muito simples poderíamos dizer 
que ela é a ciência da interpretação. Como não é algo tão simples, o melhor é definirmos 
algumas bases da hermenêutica.
A hermenêutica sempre existiu como uma referência ao trabalho de Hermes a 
divindade responsável por levar as mensagens. Sendo responsável por dar as mensagens, 
Hermes tinha o controle sobre o que era dito e como era dito. Portanto, a hermenêutica 
sempre teve essa relação com a mensagem. Entretanto, na modernidade, há uma 
reformulação da hermenêutica, a proposição da hermenêutica como método filosófico 
específico. Desse modo, a hermenêutica acabou sendo utilizada na modernidade por 
diversas disciplinas como a teologia e o direito.
A hermenêutica moderna estabelece formas para que o conhecimento seja alcançado 
a partir da construção de sentido dentro do horizonte de possibilidades. Uma mesma 
mensagem pode ter diversos sentidos, mas para que esses sentidos sejam válidos é 
necessário que se tenham as condições adequadas.
 
Schleiermacher
Friedrich Schleiermacher foi um filósofo e teólogo alemão responsável pela 
formulação da hermenêutica como campo próprio da filosofia, tirando essa arte da 
interpretação do discurso do nível de ciência auxiliar e centralizando-a como método 
constituinte do fazer filosófico.
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Friedrich Schleiermacher
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schleiermacher#/media/Ficheiro:Friedrich_Daniel_Ernst_Schleiermacher.jpg
 
Tendo vivido de 1768 a 1834, Schleiermacher foi quem primeiro propôs uma guinada 
na ideia de hermenêutica da modernidade, sendo seguido por Whilhem Dilthey e outros 
filósofos modernos.
 
Falar ou ouvir falar em hermenêutica implica pensar primeiramente 
no nome de Schleiermacher, ao menos na Alemanha e desde a 
sua divulgação por Dilthey - afirma Peter Szondi. 1 As histórias da 
hermenêutica, que por ele iniciam, reconhecem normalmente que foi 
em seu pensamento que se operou o giro hermenêutico. Com ele, 
pois, a hermenêutica passa a integrar o cenário filosófico, 2 ao deixar 
sua função de mera disciplina auxiliar (da exegese ou da literatura) 
e erigir-se em ciência autônoma como arte da compreensão e da 
interpretação. Sua indagação transcende os estreitos limites de 
uma interpretação específica, perguntando pelas condições gerais 
da compreensão e da interpretação, à semelhança da pergunta 
de Kant pelas condições de possibilidade do conhecimento. Com 
Apel poderíamos caracterizar o seu empreendimento “como uma 
transformação da crítica da razão em crítica do sentido”. Constitui-se 
em certo “divisor de águas”, dando início, na filosofia e na hermenêutica, 
a uma nova etapa de discussão, o que nos permite falar dele como 
de um “clássico da hermenêutica moderna” (RUEDELL, 1999, p.28).
 
Basicamente, a ideia de hermenêutica em Schleiermacher faz com que o trabalho 
de interpretação deixe de ser guiado pelo esforço de compreensão da lógica interna 
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do texto, buscando uma análise da intencionalidade do autor e comparando-a com 
a possibilidade de sentido gerada no receptor. Com isso, o que se decorre é um 
processo de hermenêutica que dá vida ao texto, que interpreta não apenas pelos signos 
linguísticos, mas também pelo contexto hermenêutico que circunda o mundo do texto.
 
Martin Heidegger
Martin Heidegger foi um filósofo alemão do século XX que trouxe duas discussões 
para um campo comum, as discussões sobre a fenomenologia e sobre a hermenêutica. 
Com isso, Heidegger faz uma filosofia que se reconhece como analítica existencial, 
tendo um método que é ao mesmo tempo fenomenológico-hermenêutico.
Com sua analítica existencial, Heidegger inaugura de modo mais sistemático o que 
seria conhecido como filosofia da existência, ou existencialismo.
Para Heidegger, existir é interpretar. Somos, enquanto ser-aí, 
interpretação e pertencer ao ser é o mesmo que compreender o ser. 
Essa compreensão que temos, a priori, do ser, Heidegger chama de 
ontologia fundamental. O sentido do ser para a ontologia fundamental 
não é algo dado, ela denota a recuperação da pergunta pelo ser 
esquecida pela tradição metafísica.O homem só compreende porque 
já é pertencente ao ser, o ser o constitui. O Dasein é o único ente 
capaz de questionar,dialogar e assim ele se faz capaz de interpretar. 
Dessa forma, qualquer intuito e tentativa de interpretação deve estar 
mediada pela presença do ser (ser-aí). Daí o signifi cado do termo 
Dasein, Heidegger o designa como sendo o lugar de manifestação 
do ser, onde a questão do ser surge (um ser no ser).Se o Dasein é o 
único capaz de compreender é, exatamente por este ser marcado pela 
possibilidade do vir-a-ser, seu modo de ser no mundo, obviamente, é 
pura possibilidade (ALMEIDA, 2012, p.339).
A filosofia da existência de Heidegger é possível a partir de um conceito de DASEIN, 
palavra alemã que pode ser traduzida como ser-aí, ou seja, o ser sendo no mundo.
Tendo sido o principal discípulo de Husserl, Heidegger dá um passo além de seu 
mestre indicando que são precisos dois elementos no conhecimento filosófico, o 
primeiro sendo o de voltar às coisas elas mesmas, anteriores ao conhecimento teórico, 
sendo conhecimento da vida que se revela, e o segundo a construção do sentido do 
ser a partir de um horizonte viável de sentidos, não indicando assim um conhecimento 
final, mas um conhecimento possível dentro da experiência de cada ser-aí em sua 
jornada no mundo.
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Paul Ricoeur
Paul Ricoeur foi um filósofo francês que é considerado um dos maiores eruditos do 
século XX, tendo uma ampla produção em diversas frentes, como história, hermenêutica, 
linguística e semiótica.
Paul Ricoeur
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Ric%C5%93ur#/media/Ficheiro:Paul_Ricoeur_Balzan.png
 
Dentre as diversas contribuições de Ricoeur está sua formulação de método 
hermenêutico que, já contanto com grande parte da produção do século XX, soma 
esforços de outros campos no projeto entregar uma possibilidade de sentido e de 
compreensão do sentido das coisas:
Com uma finalidade exclusivamente didática e a partir de um esquema 
muito representativo, Althaus-Reid apresenta a hermenêutica de Paul 
Ricoeur em quatro passos: Seguindo o esquema de Ricoeur em teoria 
da interpretação, e com o objetivo de esclarecimento, eu organizei aqui 
uma descrição do paso-apasso metodológico que na realidade não é 
tão definidamente separada como esta apresentação pode sugerir. 
Estes momentos da interpretação de acordo com Ricoeur e com os 
princípios gerais da hermenêutica fenomenológica são os seguintes: 
1) adivinhação; 2) explanação; 3) compreensão; 4) apropriação 
(ALTHAUS-REID, 1993, p.32). Esses quatro passos propostos por 
Ricoeur são muito próximos do caminho da fenomenologia de 
Husserl. Apresenta-se uma aproximação a partir do lugar-entre o 
sujeito e o objeto do conhecimento, de modo que o primeiro contato, 
que traduzimos aqui como adivinhação é de fato a relação ontológica 
fundamental da participação no círculo hermenêutico (TADA, 2022, 
p.16-17).
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CAPÍTULO 15
TEMAS ATUAIS EM FILOSOFIA
 
Por mais que a filosofia tenha seus temas clássicos e contínuos, é de seu caráter 
que sempre responda às demandas de seu tempo. Nosso tempo possui características 
muito específicas, pois o mundo tem se organizado de um modo ao mesmo tempo 
global e local, vivendo ao mesmo tempo a tecnologia e a tradição.
Nessa aula temos a tarefa de apresentar alguns dos temas que tem sido discutidos 
pela filosofia contemporânea, servindo sobretudo como uma exemplificação que possa 
se adequar a diversos outros assuntos. 
 
Filosofia e meio ambiente
A questão ambiental nas últimas décadas tem saído de um nicho específico de 
ambientalistas e pessoas que se especializam na temática para se tornar algo presente 
nas mais diversas camadas e setores da sociedade. A economia, especialmente, tem 
voltado seu olhar para a questão ambiental, pois é necessário que se estabeleçam 
formas de consumo que permitam ao mesmo tempo a manutenção da vida na terra, 
uma vez que a forma como se encontra hoje é algo basicamente insustentável.
A modernidade é a chave de leitura para o entendimento da falta de sustentabilidade 
das questões ambientais. Na modernidade, a natureza foi instrumentalizada, 
mecanizada, de modo a ser mais um elemento controlado a serviço do desenvolvimento 
técnico e econômico:
Na Filosofia e ciência modernas, por meio da revolução mecanicista 
que procura compreender a natureza através dos princípios 
da matemática, o modelo antigo e medieval do cosmos vivo é 
gradativamente substituído pela ideia do universo como máquina, 
uma máquina que obedece a leis deterministas e universais. De acordo 
com essa nova concepção, a natureza em geral não tem vida própria, 
sendo desprovida de alma e destituída de qualquer espontaneidade. 
Ela é antes de mais nada matéria física, movendo-se em obediência às 
leis matemáticas eternas dadas por Deus, que passa a ser concebido 
como um Deus que se guia por um pensamento racional e mecânico. 
Dentro desta tradição moderna, René Descartes é o pensador quem 
primeiro sistematiza o paradigma mecanicista de compreensão da 
Natureza (PINTO, 2014, p.3).
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No campo específico da filosofia, alguns autores tem proposto formas de leitura a 
partir das quais podemos ter opções de pensamento para conciliar a vida contemporânea 
com o cuidado ambiental. Uma dessas teorias é pensada por Feliz Guattari:
Guattari (2009) afirma que os modos de vida humanos individuais 
e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração 
do nosso planeta. Nesse sentido, os problemas ambientais da 
contemporaneidade são resultados das ações humanas sem 
projeção consciente ao longo do tempo, prejudicando o futuro da 
natureza. Assim, torna-se relevante a discussão ecosófica abordada 
pelo filósofo francês Félix Guattari, que procurou concatenar de 
modo lógico e heterogêneo os conceitos do que é natural e do que é 
cultural, relacionando natureza e meio ambiente com o humano. De 
acordo com Guattari (2009), vivemos no planeta sob a aceleração das 
mutações técnico-científicas que podem ser identificadas no tempo 
atual, onde vivemos uma crise ambiental, de revoluções políticas, 
sociais e culturais. Através de três registros. Assim, a proposta 
ecosófica defendida por Guattari busca resposta e ações para a 
problemática ambiental que vivenciamos no cotidiano. A tomada 
de consciência ecológica futura não deverá se contentar com a 
preocupação com os fatores ambientais, mas deverá também ter 
como objeto devastações ambientais no campo social e no domínio 
mental (GUATTARI, 2009, p. 41). Dessa forma, torna-se imprescindível 
a compreensão da formação do sujeito ambiental atualmente, inserido 
no processo de inclusão nas práticas ecológicas e ações ambientais 
para buscar soluções para as ações antrópicas de destruição. Assim, 
sem transformações das mentalidades e dos hábitos coletivos haverá 
apenas medidas ilusórias relativas ao meio material (CAVALCANTE, 
2017, p.73).
Felix Guattari entende que devemos pensar a subjetividade em relação ao meio 
ambiente, de modo a entendermos que o sujeito se veja como partícipe do meio 
ambiente, como constituinte da vida do mundo.
 
Bioética
Assim como é comum nas ciências atualmente, a bioética trata de uma matéria 
transdisciplinar, sendo contemplada por diversos campos do conhecimento. De certo 
modo, a bioética poderia ser pensada em conjunto com o meio ambiente, pois trata-
se em última instância da vida. Por outro lado, sabemos que o termo bioética tem 
sido utilizado para tratar de coisas mais relacionadas a saúde, ao indivíduo e suas 
questões relacionadas a vida e a morte:
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Se procurarmos o verbete Bioética num dicionário ou enciclopédia 
teremos, provavelmente, a desagradável surpresa de não achá-lo. 
Trata-se de um conceito novo. O neologismo Bioética foi cunhado 
e divulgado pelo oncologista e biólogo americano Van Rensselaer 
Potter no seucompanhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria 
como finalidade ensinarnos a virtude, que é o princípio do bem-viver 
(CHAUÍ, 2000, p.11).
Imagine que todas as matérias possuem limites. Esses limites estão normalmente 
marcados pelas fronteiras da razão, pelas concepções culturais ou pelas decisões 
pessoais. O viver, depende, por exemplo, do querer-viver, do desejo de cada indivíduo 
ou de uma sociedade. Por isso, o que é fundamental para uma pessoa pode ser 
absolutamente fútil para outra. Entretanto, como a filosofia não responde ao senso 
comum e não é pautada por opiniões, mas pela reflexão que se expõe na palavra, ela 
pode entrar em espaços que estariam, a princípio, para além dos limites das matérias 
particulares. O jurista sabe argumentar com toda razão sobre os fundamentos jurídicos 
FILOSOFIA
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de uma lei, mas nem sempre consegue compreender os impactos dessa mesma lei 
em uma vida. Por isso, a filosofia é quem dá o passo anterior de refletir sobre o que 
é justiça e, em casos particulares, dá passos outros, mostrando desdobramentos e 
consequências que a lei por si só não alcança.
O âmbito da fé é, talvez, aquele que melhor expresse como o trabalho da filosofia é 
precedente e complementar ao de outra ciência. A teologia parte do pressuposto da 
fé para entender as minúcias de uma religião ou de um fenômeno religioso. A filosofia 
é quem pode questionar o que é o sagrado, o que é religião e mesmo o que é a fé. 
Nota-se uma atitude distanciamento dos resultados e de aproximação à razão, pois 
é ela a ferramenta universalmente disposta para o ser humano. 
ISTO ESTÁ NA REDE
Neste vídeo, vemos dois dos principais estudiosos da filosofia no Brasil conversando 
sobre nossa questão central, o estudo da filosofia. Esses professores são Franklin 
Leopoldo e Silva e Oswaldo Giacoia Junior. 
https://www.youtube.com/watch?v=s3jEDxpfu9I
ANOTE ISSO
A atitude filosófica segue, em grande parte, o desenvolvimento histórico da filosofia 
e das ciências. Por exemplo, a filosofia inicia ainda na Grécia antiga uma reflexão 
sobre o ser, sobre as coisas que são, dando assim os primeiros sentidos não 
mitológicos para a existência. No vocabulário dessa reflexão encontra-se a psiché 
(alma), palavra que mais tarde dará origem à psicologia, ciência que estuda as 
emoções e comportamentos humanos. O surgimento de uma ciência especializada 
não exclui o que foi produzido pela filosofia, pelo contrário, incorpora esse 
conhecimento para aprofundar suas reflexões em termos de técnicas específicas 
voltadas para a saúde humana. 
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CAPÍTULO 2
AS ORIGENS DA FILOSOFIA
Como vimos na aula anterior, a filosofia possui características bastante específicas. 
Não é diferente em relação à sua história, que mais do que ser uma narrativa sobre 
fatos que já aconteceram, é campo de disputa teórica sobre perspectivas distintas 
para a explicação de como e por que a filosofia surgiu. Façamos essa reflexão em 
conjunto. A filosofia não existia, não existia uma atitude de pensamento sobre o ser 
e sobre outros temas da vida para além daqueles providos pela religião e pelo senso 
comum. Em determinado momento, essa reflexão passou a existir. Por quais motivos 
o ser humano construiria uma reflexão com esse caráter?
Uma corrente teórica defende que a filosofia surgiu de um rompimento com a 
forma religiosa/mitológica de se pensar o mundo. O que dizia esse conteúdo religioso? 
Primeiramente, os conhecimentos sagrados haviam sido compilados pelos escritos dos 
grandes poetas, nominalmente Homero e Hesíodo. Esses autores escreveram textos 
como a Ilíada e a Odisseia e continham histórias dos deuses e de suas relações com os 
humanos. Neles, se entendia que as divindades possuíam características específicas. 
Afrodite, por exemplo, era a deusa do amor e teria nascido, segundo Hesíodo, de um 
evento intrigante, de quando Cronos, o deus do tempo, cortou a genitália de Urano, o 
deus dos céus. Tendo lançado a genitália ao mar, Afrodite surgiu das espumas do mar. 
Já segundo Homero, ela seria filha de Zeus e Dione. Ela é, na narrativa mitológica, a 
mãe de Eros. Nesse sentido, podemos ver que são narrativas que explicam as relações 
das forças da natureza e acima dela.
Quando alguns pensadores passaram a desconfiar das explicações dadas pelos 
mitos, surge então a necessidade de uma nova explicação, sendo a filosofia a alternativa 
que surge dessa necessidade.
Por outro lado, existe uma corrente de pensamento que acredita que a filosofia 
surgiu de uma continuação, um desenvolvimento natural da mitologia. Nessa corrente, 
entende-se que a narrativa mitológica explicou até onde pôde, mas que das próprias 
reflexões mitológicas surgiram novas formas de reflexão, como o pensamento filosófico.
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Pensemos um pouco. A mitologia, oferecia uma forma de explicação da origem 
e do sentido da vida. A filosofia busca essa mesma investigação, entretanto, com 
meios diferentes. Portanto, há uma similaridade fundamental, distanciada pela forma 
de explicação utilizada:
Enquanto o pensamento mítico se caracterizava grosso modo 
pela intervenção constante de divindades nos desígnios humanos 
e naturais, o pensamento racional procurava identificar elementos 
estruturais que subjazessem aos fenômenos e os regulassem de forma 
independente de entidades personificadas (ou antropomorfizadas). As 
divindades mitológicas podiam ter personalidade7 , mas não estavam 
submetidas a regras fixas de comportamento ou leis. Em termos 
do conceito de causalidade, isso equivale a dizer que os mesmos 
efeitos podiam ter, em princípio, causas eventualmente diferentes. 
Assim, parte da explicação dos fenômenos observados na natureza 
(e, principalmente, na sociedade) era vedada ao conhecimento 
humano, pois era fruto exclusivo da vontade divina. A substituição 
do pensamento mitológico pelo pensamento racional representa o 
fim dessa proibição, pois a vontade divina como causa de processos 
naturais foi (quase) completamente eliminada8 . Novamente, em 
termos do conceito de causalidade, a consequência imediata foi o 
começo da busca por regras que permitissem descrever a conexão 
constante entre tipos de efeitos e tipos de causas. Nesse contexto, 
a substituição da mitologia pela razão permitiu a fundação do 
pensamento teórico – em contraposição ao pensamento prático 
–, caracterizado pela construção de sistemas de explicação que, 
indo além da mera compilação de conhecimentos e técnicas úteis 
para os mais diversos fins, procurava submeter o todo da natureza 
a princípios gerais de funcionamento (POLITO; SILVA FILHO, 2014, 
p.329).
Note que há uma mudança significativa do tipo de pensamento utilizado na mitologia 
e na filosofia. O pensamento prático, que explicava mitologicamente a fundação e o 
sentido do mundo, foi substituído por um pensamento teórico que se preocupa mais 
com a investigação do que com o resultado. Esse pensamento teórico dá bases para 
a atitude filosófica, que se estende ao longo do pensamento ocidental.
Quando pensamos nas origens da filosofia, devemos aprender um vocabulário básico. 
Existe um período de transição do mito para a filosofia, sendo que o surgimento formal da 
filosofia é marcado em Sócrates e pela tríade Sócrates, Platão e Aristóteles. Entretanto, 
existem pensadores anteriores a Sócrates e esses pensadores são conhecidos como 
os pré-socráticos, ou seja, aqueles que vieram antes de Sócrates.
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Entre poetas, matemáticos e pensadores livres, alguns nomes se destacam entre 
os pré-socráticos. O primeiro que devemos conhecer é Tales de Mileto. Tales viveu 
entre o final do século VII e início do século VI a.C. Tales acreditava que a água seria a 
origem de todas as coisas. Reflita, a água realmente está presentelivro Biocthics: bridge to the feature (16). 0 sentido do 
termo Bioética tal como é usado por Potter é diferente do significado 
ao mesmo hoje atribuído. Potter usou o termo para se referir à 
importância das ciências biológicas na melhoria da qualidade de 
vida; quer dizer, a Bioética seria, para ele, a ciência que garantiria a 
sobrevivência no planeta. Certamente, se impõe a necessidade de 
serem adotados determinados valores até agora considerados de 
caráter não relevante. A Terra está em perigo, vítima do crescimento 
descontrolado da sociedade industrial e de sua tecnologia. O respeito 
à ecologia e a necessidade de estabelecer limites ao desenvolvimento 
industrial e tecnológico são inquestionáveis para a sociedade universal 
no fim do segundo milênio. Assim foi que a Organização das Nações 
Unidas criou em 1983 a Comissão Mundial para o Meio Ambiente ou 
Comissão Brundtland. A partir de então, multiplicaram-se o número 
de entidades e sessões dedicadas a esses temas. Cabe recordar 
o protagonismo brasileiro na Declaração do Rio de Janeiro sobre 
o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em junho de 1992. O termo 
Bioética poderia ser usado também com o significado amplo referente 
à ética ambiental planetária, por exemplo: o tema dos agrotóxicos 
ou o uso indiscriminado de animais em pesquisas ou experimentos 
biológicos. Mas não é essa, atualmente, sua conotação específica 
e mais comum. Segundo a Encyclopedia of Bioethics (17)-resultado 
da colaboração de 285 especialistas e 330 supervisores, e a maior 
contribuição coletiva para a Bioética numa só obra, com sua segunda 
edição em fase final de elaboração..., Bioética é “o estudo sistemático 
da conduta humana na área das ciências da vida e dos cuidados da 
saúde, na medida em que esta conduta é examinada à luz dos valores 
e princípios morais” (18). Outros autores preferem a expressão ética 
biomédica (19), porém sem ampla aceitação. A Bioética ocupa-se, 
principalmente, dos problemas éticos referentes ao início e fim da vida 
humana, dos novos métodos de fecundação, da seleção de sexo, da 
engenharia genética, da maternidade substitutiva, das pesquisas em 
seres humanos, do transplante de órgãos, dos pacientes terminais, 
das formas de eutanásia, entre outros temas atuais (CLOTET, 2009, 
p.3).
Desde que o projeto genoma se desenvolveu há uma dúvida social sobre os limites 
da engenharia genética, sobre como é possível pensar a vida a partir das possibilidades 
técnicas que tem sido atualizadas atualmente.
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As limitações em relação ao aborto e eutanásia também tem se instalado em 
nossos dias, especialmente por conta de demandas da saúde pública, que precisam 
ser refletidas em parceria com as atualidades morais e éticas.
Não é nosso objetivo refletir aqui sobre a validade ou não dos pontos levantados 
pela bioética, mas apenas sabermos que a filosofia precisa dar sua contribuição nesse 
sentido.
O que não podemos deixar de pensar é que há uma instrumentalização do corpo 
humano em nossos dias:
Na cultura ocidental contemporânea, o corpo humano foi “reduzido” 
a objeto e matéria-prima, com seu valor técnico e mercantil, 
sobrepujando, em muitos contextos, o seu valor moral. Decomposto 
em peças e em partes, o corpo humano torna-se uma potência 
mecânica, um objeto, em que se exerce uma relação de posse e poder; 
o corpo se torna um servo do próprio homem. A questão ética que 
se impõe sobre o tema corpo / objeto é: como tratar de temas como 
aborto, sexualidade, contracepção, transplante de órgãos, clonagem, 
início e fim da vida, etc., se o ser humano reduz sua corporeidade a 
um objeto no qual exerce manipulação e controle? A ciência, como 
consequência da hiperespecialização, “(...) perde a consciência de si 
mesma e, cega diante da própria marcha”, perde a referência ética de 
seus atos, métodos e técnicas. As questões “do que fazer, com quem, 
a quem, com quais meios, com que objetivos” devem ser levantadas 
para o balizamento ético das ações do homem1 . Em um momento 
histórico de “empolgação” com o corpo e a corporeidade, a oferta 
tecnológica, com oportunismo, se oferece para satisfazer “(...) os 
desejos da subjetividade e da valorização do prazer: no cultivo do 
corpo, nos avanços biotecnológicos que prometem a potencialização 
da vida corpórea” (MARQUES, 2012, p.316).
 
Inteligência artificial
Saindo do campo da ética, outro ponto que se apresenta é o do avanço tecnológico 
no sentido da informática e de suas ciências. A inteligência artificial é um dos 
pontos que podem ser pensados. Imagine que a possibilidade de computar dados 
chegou a uma realidade tão avançada que é possível pensar na construção artificial 
da inteligência:
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O conceito de inteligência artificial é bastante claro e preciso nas 
ciências da computação; contudo, possui implicações que vão além 
de seu emprego técnico, pois aponta para a possibilidade de se criar 
pensamento nas máquinas, ou seja, a mente artificial. Aqui chegamos 
ao ponto focal de nosso artigo: o que é pensamento? O filósofo John 
Searle, que escreveu vários textos sobre o assunto, demonstra o 
quanto é controverso o tema ao citar o teórico que cunhou o termo 
“inteligência artificial”, John McCarthy: “O meu termostato tem três 
crenças - está demasiado quente aqui, está demasiado frio aqui e 
está bem aqui” (Searle,1997a, p. 38) - se, ter crenças é pensar; então, 
o termostato pensa? Searle (1990) faz uma distinção entre dois 
projetos distintos de inteligência artificial: o projeto “fraco”, onde o 
computador é visto apenas como uma ferramenta que pode imitar 
alguns comportamentos racionais; e o “forte”, cujo objetivo é produzir 
uma mente artificial a partir do computador (PORTO, 2006, p.13).
A inteligência artificial, junto com outros avanços da informática e da computação 
são assuntos que podem ser pensados em profundidade a partir das ferramentas da 
filosofia. 
FILOSOFIA
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CONCLUSÃO
Ao longo de nossa disciplina trabalhamos os principais pontos da filosofia, abordamos 
temáticas como o surgimento da filosofia, os sofistas, o pensamento pré-socrático, o 
pensamento grego clássico, a filosofia helenista, medieval, moderna e contemporânea.
É certo que não trabalhamos tudo que a filosofia pode oferecer e esse não seria nosso 
objetivo. O que se pretendia e que esperamos ter alcançado foi oferecer ferramentas 
básicas para que as demandas de cada aluno e aluna possam caminhar por conta 
própria a partir daqui. Alguém que, tendo lido nosso material, se interesse, por exemplo, 
de estudar mais sobre o pensamento de René Descartes, poderá, por sua própria 
conta, se aventurar nesses estudos.
Desse modo podemos fazer uma utilização mais instrumental da filosofia, evitando 
nos aprofundarmos onde não há interesse ou necessidade da parte do docente e 
abrindo o horizonte para o contato mais profundo de acordo com o exercício intelectual 
de cada um. 
FILOSOFIA
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ELEMENTOS COMPLEMENTARES
LIVRO
Título: [O que é filosofia]
Autor: [Caio Prado Junior]
Editora: [Brasiliense]
Sinopse: [Qual a natureza, o objeto e o valor da 
investigação filosófica? A filosofia é apenas uma 
criação literária ou uma modalidade de conhecimento? 
Qual a relação entre conhecimento científico e 
conhecimento filosófico? A filosofia enquanto 
conhecimento do conhecimento. A filosofia segundo 
os próprios filósofos: dos antigos gregos até Hegel 
e Marx.]
FILME
Título: [O Show de Truman]
Ano: 1998]
Sinopse: [Essa comédia estrelada por Jim Carrey é um 
filme com profunda possibilidade de reflexão filosófica. 
Nele, o personagem principal tem toda sua vida em 
torno de um espetáculo, moldada como um projeto 
televisivo sem seu conhecimento ou consentimento]
FILOSOFIA
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FACULDADECATÓLICA PAULISTA | 124
WEB
[Na página da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia - Anpof você pode 
acessar diversos eventos, publicações, boletins, resenhas, entre outros assuntos que 
tratam sobre a produção de filosofia no Brasil].
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	Por que estudar filosofia?
	As origens da filosofia
	Teoria do Conhecimento e Epistemologia
	Filosofia grega: Sócrates, Platão e Aristóteles
	O helenismo
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elementos da natureza, nos vegetais, nos animais, e até mesmo em nosso corpo. 
Mesmo assim, o que mais nos chama a atenção não é a água em si, mas a tentativa 
de explicar a origem das coisas a partir de um elemento da natureza.
Tales de Mileto
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Illustrerad_Verldshistoria_band_I_Ill_107.jpg 
Primeiramente, crer que há uma origem para as coisas que são é o princípio de 
uma reflexão sobre o próprio ser. Nesse caso, Tales não estaria satisfeito com a ideia 
de que os deuses seriam origem e sentido do ser. Portanto, buscou outra forma de 
explicação, a reflexão a partir da observação e do argumento. Em segundo lugar, 
Tales mostra uma busca por unidade, na qual um único elemento seria originário e 
isso deriva de sua ideia de arché:
Aristóteles referiu-se a Tales como archégòs philosophías, o 
inici-ador da filosofia. Mas, qual foi mesmo a filosofia que Tales, 
segundoAristóteles, iniciou? A filosofia da arché, expressa no 
conceito água ouumidade. Entretanto, será que deveríamos levar essa 
FILOSOFIA
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questão arcaica asério? Dentre outros, além de Aristóteles, também 
Nietzsche acreditavaque sim. Vejamos o que eles dizem, em primeiro, 
Nietzsche:“A filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, 
com a proposição de que a água é a origem e o seio materno de 
todas as coisas. Será realmente necessário parar aqui e levar esta 
idéia a sério? Sim, e por três razões: primeiro, porque a proposição 
assere algo acerca da origem das coisas; em segundo lugar, porque 
faz isso sem imagens e fábulas; e, finalmente, porque contém, embora 
em estado de crisálida, a idéia de que “tudo é um”. A primeira 
destas três razões ainda deixa Tales na comunidade dos homens 
religiosos e supersticiosos, a segunda separa-o dessa sociedade e 
mostra-o como investigador da natureza, a terceira faz de Tales o 
primeiro filósofo grego” (SPINELLI, 2002, p.72-73).
A ideia, portanto, que dá origem à filosofia pré-socrática é a ideia de que “tudo é 
um”, tudo possui uma natureza comum, encadeada, originária. Além desse princípio 
primeiro, de lidar com o ser como uma unidade, Tales também deu origem a uma 
corrente que perduraria por todo o período da filosofia pré-socrática, a elevação da 
natureza. Por isso, esses pensadores do início da filosofia ficaram conhecidos como 
fisiólogos, ou seja, estudiosos da natureza: 
Seja como for, o fato de Aristóteles ter denominado Tales arché 
gós philosophías (e mesmo de reconhecer que o seu pensamento 
deixou de ser uma alegoria ou um mito), não foi porque ele disse 
simplesmente que “a água é o princípio gerador de todas as coisas”. 
Aristóteles lhe atribuiu esse título porque compreendeu nessa tese 
(aparentemente trivial) um significado grandioso, pois que estava 
contida a idéia deum princípio, único, que poderia explicar o móvel 
do fazer-se da geração como um todo. Ora, foi por causa dessas 
idéias (inevitavelmente carregadas com o sentido da sua teoria 
da phýsis e das archai dageração) que ele concedeu a Tales o 
título de iniciador da filosofia da arché. E, mais ainda, ele também 
concedeu a Tales o mérito de ter sido o iniciador da filosofia da phýsis 
(SPINELLI, 2002, p.75).
Na corrente dos fisiólogos, depois de Tales, mais dois nomes são importantes e não 
podem ser confundidos. O primeiro é Anaximandro de Mileto e o outro é Anaxímenes. 
Anaximandro viveu de 610 a 546 a.C. e foi um pensador de diversas áreas. Para esse 
pensador, existia um elemento que era o princípio de todas as coisas, assim como em 
Tales, porém, esse não era um elemento conhecido da natureza, como a água. A esse 
elemento, Anaximandro deu o nome de apeiron, que significa, grosso modo, o ilimitado.
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Anaximandro de Mileto
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anaximandro#/media/Ficheiro:Anaximander.jpg
O apeiron, de acordo com o pensamento de Anaximandro não consiste de um 
elemento derivado de outros elementos, ele é o elemento infinito, originário, total. 
Não tendo sido criado, dá base para o surgimento de tudo que existe. Portanto, em 
Anaximandro, tudo deriva, de algum modo, do apeiron.
A estrutura do apeiron serve como base para uma cosmologia, ou seja, uma ideia 
de mundo bastante elaborada para a época. Anaximandro acredita que existe uma 
relação paradoxal entre as coisas do mundo. Primeiramente, no mundo existem opostos, 
mas todos os opostos derivam, originalmente, de uma unidade. Portanto, essa divisão 
seria um distanciamento da unidade central do ser. Como consequência dessa divisão, 
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os opostos lutam entre si para defender cada qual sua própria existência, em um 
movimento de superação ao contrário do movimento de união:
O elogio de Dirk Couprie (2003, p.1) 2 a Anaximandro 610 a.C, 
reconhecendo o milésio como uma das mentes mais brilhantes que 
já existiu, evoca aos tempos atuais o contributo que Anaximandro 
deu, ao seu modo, às investigações cosmológicas e, sobretudo, 
os parâmetros pelos quais na aurora do pensamento no ocidente, 
nortearam as convicções do milésio sobre a arquitetura do 
cosmo. A genialidade que Dirk atribui ao milésio relaciona-se, 
portanto, especificamente à capacidade de elevação do intelecto 
de Anaximandro que, não obstante estar inscrito em um século 
marcado com as cores do quadro mental da tradição mítica, não 
se recuou na busca de um modelo cosmológico que se explique 
por intermédio da razão. A cosmologia de Anaximandro, no entanto, 
ganhou notoriedade, sobretudo, por amalgamar na sua constituição, 
elementos que inauguraram uma cosmologia à frente da proposta 
por seu mestre Tales3 624 a.C., ou seja, Anaximandro versa por uma 
cosmologia esférica cuja estabilidade se dá por espaços isotrópicos, 
simétricos e harmônicos, ainda não contemplados. No mesmo trilho, 
assinala Jean-Pierre Vernant (1990, p. 248), “trata-se por certo de 
um espaço essencialmente definido por relações de distância e de 
posição, um espaço que permite fundamentar a estabilidade da 
terra na definição geométrica do centro em suas relações com a 
circunferência” (FREIRE, 2016, p.9-10).
 
Como podemos ver, Anaximandro, ainda em um período marcado pelo pensamento 
mitológico, consegue estabelecer uma arquitetura do cosmos um tanto quanto 
sofisticada, marcada por uma dicotomia central entre união do todo e separação e 
distanciamento das partes.
Discípulo de Anaximandro, Anaxímenes deu continuação à tradição jônica, 
concordando com a ideia de que existia um elemento básico a partir do qual todas 
as coisas seriam derivadas. Entretanto, para Anaxímenes esse elemento seria o ar. 
Esse elemento é escolhido pelo pensador a partir de suas observações da natureza, 
reforçando assim o caráter físico do pensamento pré-socrático.
Seguindo na linha de pensamento crítico ao princípio mitológico e interessado 
em uma nova explicação de mundo, a Grécia antiga vai apresentar outras figuras 
que desenvolverão o pensamento anterior a Sócrates. Para nossos objetivos, não 
devemos deixar de conhecer uma dupla de pensadores importantes e opostos, a 
saber, Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfeso.
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Nascido já nas últimas décadas do século VI a.C., Parmênides inaugurou uma 
terminologia que seria propriamente adotada pela filosofia, uma terminologia que 
expressa em si a preocupação com o Ser. De certo modo, Parmênides inaugura a 
corrente ontológica que vai perdurar ao longo de toda a história da filosofia.
Vejamos, na tradução de Barbieri, trechos do poema “Sobre a Natureza” de Parmênides:
Há de haver o pensar, o dizer e o ser, pois o ser é e o nada, não. Peço 
que o peses. Dessa primeira via de exame te afasto, mas também 
daquela outra em que os néscios mortais 5 deambulam com duascabeças, guiadas suas mentes errantes pelo imo inepto. Surda e 
cega, é levada a hesitante e confusa raça, crendo que o ser e o não 
ser são o mesmo e o não mesmo, e o caminho de tudo regride (DK, 
fr 4b) (BARBIERI, 2020, p.318).
Ao afirmar que o ser é e o nada, não é, Parmênides lança as bases para a ideia de 
ser e não ser como estrutura fundamental da existência. Nesse momento você pode 
pensar, mas isso não demasiadamente óbvio, e a resposta é não. Isso só é óbvio para 
nós porque ao longo dos últimos vinte e seis séculos tal princípio tem sido depurado 
no ocidente. Em diversas partes do pensamento oriental, por exemplo, o ser e o não 
ser, o positivo e o negativo, são unidos e participantes um da realidade do outro.
Continuando a leitura do próprio poema de Parmênides, podemos ver:
Resta só um relato
sobre a via que é. Há sinais nela, muitos,
vários, de que o ser é incriado e indelével,
pois completo é, imóvel e ainda infindo.
 5 Nem já foi nem será; ora é, todo e coeso
e contínuo e um. Que orto há p’ra apurar?
Onde e como iria crescer? Pois te vedo
a pensá-lo e exprimi-lo. Não se pensa ou fala
do que não é. Forçou-o qual necessidade,
10 em tempo ido ou vindouro, a nascer desde o nada?
Assim, deve algo ser totalmente ou nunca.
E jamais o poder da Fé há de aprovar
do ser vir o não ser. Logo, não permitiu-lhe
nem surgir nem morrer a Justiça, lasseando
15 seus grilhões, mas contendo-os. Tal é o veredito:
ou algo é ou não é (DK, fr 7b) (BARBIERI, 2020, p.318).
 
Nesse trecho podemos ver Parmênides argumentando que o ser não pode surgir do 
não ser, bem como o não ser não pode surgir do ser. Como consequência dessa ideia, 
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Parmênides acredita que tudo aquilo que existe, existe de maneira acabada, de modo 
tal que não há movimento no mundo, pois não há a possibilidade de surgimento de 
algo novo que antes não existia. O que existe, existe e pronto, de maneira definitiva. 
Só existem mudanças na forma da matéria, mas não em seu ser.
Parmênides de Eléia
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parm%C3%AAnides#/media/Ficheiro:Parmenides.jpg
Como oposição a Parmênides e a seu pensamento sobre o ser estático, há o 
pensamento de Heráclito de Éfeso. Heráclito, que viveu aproximadamente entre os 
anos 500 e 450 a.C. acreditava que o movimento da existência era algo constante. 
É dele a célebre frase de que um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio, 
pois na segunda vez o rio não seria o mesmo e o homem não seria o mesmo.
Essa ideia de movimento de Heráclito dá as bases ao que conhecemos como 
dialética e que será estudado em diversos momentos da história da filosofia, como 
em Sócrates, Hegel e Marx. A ideia de dialética consiste, basicamente do princípio de 
que existem polos opostos e que a oposição entre esses polos gera um movimento 
fundamental.
Para Heráclito, o elemento fundamental é o fogo, de modo que tudo surge do fogo. 
Ainda, esse elemento retrata a ideia de Heráclito de que tudo está em constante 
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fruição, na luta entre ser e não algo, tornando-se algo novo. Assim, talvez, a máxima 
que devemos lembrar de Heráclito é que “tudo flui”. 
ISTO ESTÁ NA REDE
No vídeo a seguir temos uma explicação resumida sobre os pré-socráticos. Essa 
explicação pode ser uma boa aproximação para fixarmos os conteúdos dessa aula. 
Filósofos Pré-socráticos (resumo)
ANOTE ISSO
Note que indivíduos há mais de vinte e seis séculos constroem uma cosmovisão, 
ou seja, uma organização do mundo a partir da qual é possível explicar a origem e 
o sentido da existência. Qual seria, hoje, a sua cosmovisão? Como você entende a 
estrutura do mundo e por quê? Ainda, quais são as cosmovisões mais comuns em 
nossos dias?
https://www.youtube.com/watch?v=hbDr8L4M1T8
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CAPÍTULO 3
TEORIA DO CONHECIMENTO 
E EPISTEMOLOGIA
Uma coisa é certa, o ser humano tem a capacidade de conhecer a si mesmo e o 
mundo ao seu redor. Entretanto, existem inúmeras questões que circulam o campo do 
conhecimento, de modo que não é unanimidade como o conhecimento existe e quais 
são suas estruturas no ser humano. Imagine, por exemplo, que você visite uma cidade 
que não conhecia e volta para sua cidade original com a sensação de que aquela é 
uma cidade fria. Ao conversar com um amigo, você expõe sua sensação, de que aquela 
cidade é fria e seu amigo discorda completamente de você. Quem está correto? Qual é 
o conhecimento correto sobre aquela cidade que ambos conheceram? Existem variáveis 
que devem ser levadas em conta, de modo que a verdade sobre a temperatura daquela 
cidade seja apreciada. Nós, olhando de fora, podemos analisar que você visitou aquela 
cidade no inverno e seu amigo a visitou no verão. Com isso, podemos entender que 
aquela cidade é muito fria no inverno e muito quente no verão. Além disso, podemos 
entender também, que as pessoas possuem experiências diferentes e que, com isso, 
desenvolvem crenças diferentes sobre a verdade.
Dado esse exemplo inicial, podemos pensar agora sobre quais são os limites do 
conhecimento dado a partir da experiência. Por outro lado, podemos ver também 
que a memória que temos sobre as experiências são elementos importantes do 
conhecimento, pois se ao voltar para sua cidade você esquecesse da experiência que 
teve na cidade que foi visitar, sua crença sobre a temperatura daquela cidade seria 
afetada. O trabalho de análise é aquele que pega um dado e compara a outro, dentro 
da situação específica. Fizemos análise ao entendermos que você visitou a cidade 
no inverno e seu amigo o fez no verão. Com a comparação da situação, pudemos 
entender algo novo que expressa um conhecimento novo sobre o contexto. Se não 
soubéssemos qual era o período do ano que você e seu amigo visitaram a cidade, 
poderíamos imaginar que justamente no dia de sua visita uma massa de ar polar 
passava por aquela cidade, mas na verdade ela era em geral uma cidade quente. 
Poderíamos imaginar também o contrário, que aquela cidade era normalmente fria, 
mas que por conta de um fenômeno meteorológico qualquer, no dia da visita de seu 
amigo, a temperatura estava nas alturas.
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Note, existem várias formas de conhecer e várias ferramentas para que o 
conhecimento seja desenvolvido. A filosofia, com sua atitude filosófica, busca entender 
o que está para além da superfície, e sua forma de investigação permite que as bases 
e as estruturas sejam questionadas. Nessa aula, vamos aprender um pouco mais 
sobre o conhecimento e suas estruturas.
Marilena Chauí, nos afirma que:
Com os filósofos gregos, estabeleceram-se alguns princípios gerais 
do conhecimento verdadeiro:
? as fontes e as formas do conhecimento: sensação, percepção, 
imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual;
? a distinção entre o conhecimento sensível e o conhecimento 
intelectual;
? o papel da linguagem no conhecimento;
? a diferença entre opinião e saber;
? a diferença entre aparência e essência;
? a definição dos princípios do pensamento verdadeiro (identidade, 
nãocontradição, terceiro excluído, causalidade), da forma do 
conhecimento verdadeiro (idéias, conceitos e juízos) e dos 
procedimentos para alcançar o conhecimento verdadeiro (indução, 
dedução, intuição);
? a distinção dos campos do conhecimento verdadeiro, sistematizados 
por Aristóteles em três ramos: teorético (referente aos seres que 
apenas podemos contemplar ou observar, sem agir sobre eles ou 
neles interferir), prático (referente às ações humanas: ética, política 
e economia) e técnico (referente à
fabricação e ao trabalho humano, que pode interferir no curso da 
Natureza, criar instrumentos ou artefatos: medicina, artesanato, 
arquitetura, poesia, retórica, etc.).
Para os gregos, a realidade é a Natureza e dela fazem parte os humanos 
e as instituiçõeshumanas. Por sua participação na Natureza, os 
humanos podem conhecê-la, pois são feitos dos mesmos elementos 
que ela e participam da mesma inteligência que a habita e dirige.
O poeta alemão Goethe criou estes versos, que exprimem como os 
antigos concebiam o conhecimento:
Se os olhos não fossem solares
Jamais o Sol nós veríamos;
Se em nós não estivesse a própria força divina,
Como o divino sentiríamos?
O intelecto humano conhece a inteligibilidade do mundo, alcança a 
racionalidade
do real e pode pensar a realidade porque nós e ela somos feitos da 
mesma
maneira, com os mesmos elementos e com a mesma inteligência 
(CHAUÍ, 2000, p.141-142).
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Vamos destrinchar essa citação que nos ajudará muito nos rumos de nossa aula. 
Primeiramente, é afirmado que os gregos estabeleceram: “as fontes e as formas do 
conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio 
e intuição intelectual”. Nesse trecho, vemos que já nos gregos antigos havia uma 
preocupação com as fontes do conhecimento, ou seja, com a investigação sobre de 
onde vem conhecimento. Pela proposição dos gregos, podemos ver, por exemplo que 
o conhecimento é possível a partir da sensação, como no exemplo que demos acima 
sobre a sensação que a temperatura de uma cidade pode gerar em você. Além dessa 
forma de conhecimento, existem diversas outras, e isto, estamos pensando apenas 
a partir da produção dos gregos antigos, sem levar em conta seus desenvolvimentos 
ao longo da história.
O segundo ponto que devemos entender é que existe uma diferença entre o 
conhecimento sensível e o conhecimento intelectual. Boa parte do conhecimento 
que carregamos conosco se enquadra no âmbito do conhecimento sensível, aquele 
que deriva das experiências práticas da vida. Entretanto, uma outra parte do que 
conhecemos, deriva de nossa capacidade de intelecção, nossa capacidade de inteligir. 
Imagine, por exemplo, que você aprende na faculdade de medicina, que um remédio 
qualquer seja bom para dor de cabeça. Você aprende os princípios farmacológicos e 
as reações fisiológicas daquele remédio, e por isso, indica a seus pacientes que eles 
tomem aquele remédio para dor de cabeça. Por acaso, você é uma pessoa que não 
costuma ter casos de dor de cabeça, e por isso, nunca tomou aquele remédio. Por 
outro lado, seu paciente, que não estudou aquele remédio, o tomou, e alguns minutos 
após tê-lo tomado sentiu, de fato, que aquele remédio funciona para dor de cabeça. 
Nesse caso, ambos possuem um conhecimento, porém, você tem esse conhecimento 
pela via intelectual e seu paciente tem um conhecimento pela via sensível. Por mais 
que esse conhecimento seja parecido, ele possui uma estrutura diferenciada, e por 
isso, é um conhecimento diferente.
Na sequência, devemos pensar um pouco sobre o papel da linguagem no 
conhecimento. A comunicação em geral, e a linguagem em particular, tem papel 
importante na formação do conhecimento. Quantas vezes, no quotidiano, enfrentamos 
problemas para resolver alguma situação por conta da incapacidade de comunicação 
efetiva. Não estamos falando aqui de linguagem formal ou informal, mas de efetividade 
de comunicação, ou seja, de uma comunicação que transmita, de fato, as intenções 
dos comunicantes. Digamos que você vá à padaria e peça um pingado. No Paraná e 
em São Paulo um pingado significa um copo de café com leite. Em outras partes do 
Brasil, não necessariamente se entenderá o que se deseja. Mas, digamos que você 
consiga superar essa dificuldade e explique que deseja um copo de café com leite. No 
entanto, você está acostumado a tomar um copo quase cheio de café, com apenas 10 
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% de leite. Então, você pede um copo de café com pouco leite. O atendente, que está 
acostumado a tomar um copo quase cheio de leite e apenas 10% de café, entende que 
deve diminuir a quantidade de leite, mas não necessariamente diminuir a apenas 10% 
de leite. Com isso, você recebe um copo com metade de leite e metade de café. Note 
como uma situação simples, quando não explicada corretamente, gera uma grande 
dificuldade de compreensão. Para que se chegue ao desejado é necessário que haja 
uma explicação ampla, bem definida, apresentando cada passo e cada elemento que 
constitui aquele ponto desejado. Na filosofia, essa necessidade de definição é ainda 
maior, pois muitos dos conceitos são extremamente específicos e complexos. 
Passando para uma reflexão um pouco mais complexa veremos o exemplo da 
diferença fundamental da ideia de conhecimento entre os sofistas e Aristóteles. Dentre 
os sofistas havia uma forte tendência a acreditar que o conhecimento se dava de 
forma relativa, ou seja, que o conhecimento verdadeiro dependeria da verdade do 
próprio observador. Essa perspectiva foi refutada por Aristóteles, que acreditava que 
havia uma diferença entre a aparência e a sensação:
Segundo a tese sofística sobre o conhecimento, podemos dizer 
brevemente que ela se desdobra dessa maneira: se conhecimento 
é sensação, então (i) tudo o que conheço é o que me aparece e é 
verdadeiro para mim e (ii) o conhecimento depende da disposição do 
percipiente, i.e., se muda a disposição, muda-se o conhecimento. Ou 
seja, se o conhecimento é sensação, então o que conheço, o que é 
verdadeiro para mim é aquilo que aparece aos meus sentidos, e, como 
a sensação depende da disposição do percipiente, então também o 
conhecimento depende da disposição do percipiente, portanto, se o 
saudável pensa que o vinho é doce, mas o doente que é amargo, então 
é verdadeiro que o vinho seja doce e amargo ao mesmo tempo, visto 
que o modo pelo qual conhecem depende da disposição de cada um.
Aristóteles refuta esta argumentação ao mostrar o que é qualidade 
sensível e em que ela difere do que aparece ao sujeito, que 
conhecimento não é sensação de modo absoluto e nem o ser é 
perceber de modo absoluto, mas apenas em parte. As diferenças, 
portanto, entre conhecimento e sensação e entre ser e perceber se 
tornarão evidentes a partir dos seguintes argumentos: o primeiro 
argumento consiste em dizer que a qualidade sensível e o que me 
aparece, bem como a sensação e a mera aparência são coisas 
distintas. A qualidade sensível é uma propriedade real da coisa 
externa e independente do sujeito, já a aparência é uma afecção do 
sujeito, algo interno e dependente daquele que a sente. Porém, como 
veremos, nem tudo o que me aparece é verdadeiro, já a sensação dos 
sensíveis próprios será sempre verdadeira. O segundo argumento 
consiste em mostrar que aquilo que é não é absolutamente idêntico 
ao mundo sensível.
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Quanto ao primeiro argumento, Aristóteles nos diz que a sensação 
deve ser distinta da mera aparência, sendo que a primeira pode ser 
verdadeira, e assim o é quanto aos sensíveis próprios; já a segunda 
normalmente é falsa, ou seja, não corresponde ao objeto externo 
apreendido. Neste sentido, Aristóteles tem o intuito de refutar a tese 
relativista de que o ser é apenas ser percebido e sempre verdadeiro 
para quem o percebe. É claro que o conceito de verdade, no caso 
do fenômeno perceptivo, é ambíguo, pois não podemos negar que 
aquele que percebe algo amargo, verdadeiramente tenha a sensação 
da amargura. Todavia, podemos investigar se o objeto percebido, 
verdadeiramente tem a qualidade amarga no momento em que esta 
foi percebida, ou é apenas uma me ra aparência que não corresponde 
à real natureza do objeto percebido.
Em outras palavras, nem sempre é possível discriminar 
verdadeiramente a naturezada qualidade sensível de acordo com 
o modo pelo qual as coisas nos aparecem. Em primeiro lugar, 
sabemos que o que nos aparece nem sempre é verdadeiro, isto é, 
nem sempre corresponde ao que é o objeto externo, mas sabemos 
que a sensação do sensível próprio pelo órgão adequado é sempre 
verdadeira (como a cor percebidapela visão, os sons pela audição 
e assim com os outros sensíveis). Por exemplo, se um certo objeto 
aparece para o saudável com certa qualidade e para o doente com 
outra, não significa que o objeto tenha e não tenha ao mesmo tempo 
certa qualidade, nem em diferentes tempos, pois o órgão do sentido 
não deixa de apreender adequadamente o seu sensível próprio seja 
simultânea ou sucessivamente. Todavia, é fato que indivíduos em 
condições ou disposições diversas têm opiniões diferentes acerca 
dos objetos que lhes aparecem, como o doente e o saudável. Ora, nem 
simultaneamente, nem em diferentes tempos o órgão do sentido deixa 
de apreender adequadamente o seu objeto próprio se as seguintes 
condições forem cumpridas: o percipiente deve estar, no instante de 
percepção, em certas condições adequadas e com certa disposição 
adequada, assim como, o próprio objeto percebido não venha a mudar 
para outro estado, assumindo outros atributos diferentes do atual 
(AGGIO, 2006, p.9-10).
 
Vejamos quais são as consequências dessa compreensão. Aristóteles separa o 
campo da aparência e da sensação, sendo que a aparência é aquilo que corresponde 
ao próprio objeto. Digamos que você coloque a mão em uma bacia de água e note que 
a água está quente. A temperatura da água não depende da sua sensação, ela é algo 
que pode ser medida objetivamente. Se a água está a uma temperatura de 25 graus, 
ela está a 25 graus independente da sua sensação. Se a temperatura ambiente está 
40 graus, você terá a sensação de que a água está fria. Entretanto, se a temperatura 
ambiente estiver a 0 grau, sua sensação será de que a água está quente. A sensação 
é verdadeira para quem sente, mas não diz a verdade absoluta do objeto externo.
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Protágoras ao centro (sofista)
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Prot%C3%A1goras#/media/Ficheiro:Salvator_Rosa_-_D%C3%A9mocrite_et_Protagoras.jpg
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Essa percepção de Aristóteles difere muito da concepção sofista de que o 
conhecimento é absolutamente relativo, ou seja, de que ele varia de acordo com 
cada sujeito. O que varia, de fato, é apenas a sensação, mas verdade objetiva sobre a 
temperatura da água é uma e a mesma, a de que ela está a 25 graus. Hoje, por exemplo, 
nós temos com facilidade o auxílio de termômetros. A utilização dessa ferramenta 
depende da nossa ideia de que há uma verdade objetiva a ser compreendida para 
além de nossa sensação.
Esse exemplo de Aristóteles nos ajuda a entender a diferença fundamental entre 
os períodos da teoria do conhecimento e epistemologia. A teoria do conhecimento 
é esse esforço filosófico geral que abrange o problema do conhecimento como um 
todo. A epistemologia, especialmente a epistemologia moderna, por outro lado, diz 
respeito ao conhecimento específico de uma ciência. Pode-se falar, por exemplo da 
epistemologia nas ciências biológicas ou na física. Mas, essa reflexão está dentro do 
problema de como se pode desenvolver um conhecimento verdadeiramente científico 
e não necessariamente sobre o problema da capacidade de conhecer em si. 
ISTO ESTÁ NA REDE
O vídeo a seguir explica de modo esquemático um pouco sobre a epistemologia e 
sobre a teoria do conhecimento:
https://www.youtube.com/watch?v=UYYucWHzCko
ANOTE ISSO
Hoje nós estamos muito acostumados a lidar com uma infinidade de informações 
que querem nos ensinar sobre tudo, sobre como devemos comer, como nos 
exercitarmos, como nos relacionarmos com nossa família, como ganhar dinheiro, 
como nos vestirmos, etc. Nem sempre aquilo que tem a aparência de um 
conhecimento verdadeiro é um conhecimento criterioso que realmente tem validade 
e que pode ser utilizado em nossa vida. Para entendermos a validade dos saberes e 
das informações devemos nos dedicar um pouco ao estudo do conhecimento em 
si. 
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CAPÍTULO 4
FILOSOFIA GREGA: SÓCRATES, 
PLATÃO E ARISTÓTELES
Agora chegamos ao núcleo do pensamento grego: Sócrates, Platão e Aristóteles. 
Se é importante conhecermos diversos pensadores que vieram antes ou depois dessa 
tríade, é essencial que entendamos o que foi desenvolvido por esses três pensadores.
Primeiro é importante que saibamos que esses três pensadores se dão nessa mesma 
ordem cronológica, Sócrates veio primeiro, depois Platão e em seguida Aristóteles. 
Em seguida, podemos entender que dois desses filósofos foram escritores, Platão e 
Aristóteles. Sócrates não escreveu nada. Seu pensamento foi transmitido a partir dos 
escritos de Platão. Sócrates nasceu em 470 a.C. e Aristóteles morreu em 322 a.C. 
Assim, eles viveram e produziram quase na totalidade dos séculos IV e V a.C. 
Como Sócrates não escreveu nada, o que sabemos sobre o seu pensamento vem da 
escrita de outra pessoa, nesse caso, de Platão. Platão se dedicou tanto ao pensamento 
de Sócrates que algumas pessoas questionam se Sócrates realmente existiu ou se 
foi apenas um personagem de Platão. Existem alguns outros poucos registros de um 
Sócrates na época, como na escrita de Aristófanes, o que nos dá a ideia de que sim, 
ele deve ter sido uma figura histórica.
Das coisas que podemos aprender com Sócrates, talvez a mais central é a de que 
existe um processo dialético no conhecimento. Para o filósofo, a relação entre pólos 
seria o princípio de movimentação do conhecimento e seria a partir dele que teríamos 
a possibilidade de gerar saber.
O nome que devemos registrar é “maiêutica”, ou, a arte da velha parteira. Para 
Sócrates, a geração do conhecimento pode ser comparada com a arte das parteiras. 
Sua mãe teria sido uma parteira famosa e por isso ele teria desenvolvido essa teoria. 
Ora, para Sócrates, é necessário ajudar o conhecimento a nascer, é necessário que 
se faça o parir do saber. Essa arte, é feita a partir de um processo dialético, na qual 
dois polos se põem em diálogo, sabidamente o mestre e o discípulo, o professor e o 
aluno. Não seria possível que o mestre passasse um conhecimento diretamente para 
o aluno, pois o conhecimento vem da investigação e não do depósito.
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Sócrates
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates#/media/Ficheiro:Plato-raphael.jpg
 
Sócrates explica que em sua época, a parteira não tinha o papel apenas de auxiliar 
no parto, mas devia também fazer o encontro dos casais, servir como casamenteira. 
Nesse sentido, quem ensina deve também apresentar ao aluno as condições do 
conhecimento. Essas condições são dadas através de questões, para que o próprio 
aluno possa pensar sobre as mesmas e responde-las, gerando assim um conhecimento 
a partir de si mesmo. 
Na prática, a filosofia de Sócrates consiste em uma aproximação em busca de 
diálogo com a juventude, buscando com isso pessoas dispostas a gerar conhecimento, 
e no caminho do diálogo gerar as definições, as essências que permitem uma prática 
ética válida.
Disso, resulta uma necessidade imperiosa de definir. Definir claramente 
as virtudes morais, em primeiro lugar. A definição, a chamada “caça às 
essências”, é uma das grandes contribuições de Sócrates à filosofia. 
Constitui a última etapa do método que ficou conhecido como método 
socrático. Conhecida a essência de determinado valor ético, segue-
se a ação, porque agora se dispõe de um conceito universalmente 
válido, não mais uma atitude relativista. Ê o império da Razão. O 
método socrático tinha o aspecto geral do uso do diálogo vivo, já que 
o escrito — e a isso já nos referimos no começo, quando lembramos a 
passagem do Fedro (275 e) — tolhia o uso livre do melhor no homem: 
seu caráter racional. A ironia, a maiêutica e a “caça às essências” 
constituíam suas etapas (IANNI, 1983, p.52).
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A busca por essências em Sócrates acompanha a lógica essencialistaque será 
proposta por Platão. Além disso, aponta para a elevação da racionalidade contra o 
uso superficial do discurso, sua principal crítica aos sofistas, que eram mestres da 
retórica que compunham uma escola de pragmatismo discursivo.
Platão desenvolveu seu próprio sistema essencialista apresentando uma cosmovisão. 
A cosmovisão platônica entende que existem dois mundos, um mundo das essências 
e outro mundo das aparências. Nós vivemos no mundo das aparências, onde as 
coisas são tangíveis – ou seja, tocáveis – e podem mudar de aparência. Por exemplo, 
digamos que exista uma cadeira na qual você está sentado. Essa cadeira pode ser 
a clássica cadeira de cozinha, de madeira e com quatro pernas. Entretanto, pode 
ser também uma cadeira de escritório, com rodinhas, feita de metal. Pode ser ainda 
uma daquelas cadeiras de plástico branca. Todas essas cadeiras, que são diferentes, 
possuem a mesma essência de cadeira, mas possuem aparências diferentes, pois 
aqui, no nosso mundo, as coisas são contingentes, podem mudar.
Com isso, Platão desenvolve sua teoria das ideias, o que seria, de certa forma, o 
ponto de partida para toda a metafísica ocidental:
Para Platão, o tipo de método dos naturalistas, fundado sobre 
os sentidos, não esclarece, mas obscurece o conhecimento. O 
novo tipo de método, portanto, deverá fundar-se sobre as Idéias, 
e mediante elas deverá tentar captar a verdade das coisas (Fédon 
100 a – 101 d)6. A passagem do sensível ao supra-sensível, ou 
seja, a introdução de uma causa não-física, metafísica, torna-se 
necessária justamente para explicar o sensível e libertá-lo das 
contradições nas quais cairia se fosse deixado a si mesmo7. “O 
benefício da ‘segunda navegação’, como vimos, é a descoberta de 
um novo tipo de ‘causa’, que consiste nas realidades puramente 
inteligíveis”8. O sensível e o físico não são considerados causa 
verdadeira. Sensível é meio e instrumento mediante o qual 
a “causa verdadeira” se realiza. Neste sentido, a intelecção e 
a opinião devem ser cuidadosamente distintas quanto à sua 
origem e quanto à sua natureza. Segue-se, por conseguinte, 
que é necessário postular a existência de uma outra realidade, 
diferente da que percebemos. A realidade das Idéias é, pois, 
baseada na distinção entre dois modos de conhecimento e limita 
a pretensão do sensível de esgotar a verdade do real (NODARI, 
2004, p.361-362).
Note-se que há uma grande mudança entre a perspectiva platônica e a perspectiva 
dos pré-socráticos. Para os pré-socráticos, a natureza seria o objeto de investigação 
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e seria na própria natureza que se encontrariam as causas de tudo que acontece no 
mundo. Para Platão, por outro lado, há uma outra causa, uma causa que está para 
além da física (natureza), uma metafísica.
 
Platão
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o#/media/Ficheiro:Plato_Silanion_Musei_Capitolini_MC1377.jpg
O idealismo de Platão desenvolve um sistema no qual não apenas existem as ideias, 
mas que existem também elementos supremos. Como aqui no mundo das aparências 
a bondade é parcial, há, no mundo das ideias uma bondade que é absoluta. Esse bem 
absoluto recebeu o nome de sumo bem:
Platão, na República, chama o Princípio Supremo de Bem25. No 
Bem, a unidade não é somente a perfeição de um gênero. É a 
perfeição absoluta. É o perfeito em si. É o Bem em si no qual 
identidade e diferença estão unidas. O Bem, aos olhos de Platão, 
é a Idéia Suprema que constitui o tema do mais alto grau do 
conhecimento (República 505 a), o qual, não obstante seja o 
grau mais elevado do conhecimento, constitui-se também no 
mais difícil, pois o Bem permanece sempre mais além de tudo o 
que o homem pode alcançar. Por isso, enquanto em si absoluto, 
a Idéia do Bem propaga luz sobre os objetos do conhecimento e 
confere ao sujeito, que conhece, o poder de conhecer (República 
508 a – 509 b), sendo que “(...) o verdadeiro conhecimento 
consiste em saber unificar a multiplicidade numa visão sinótica 
que reúne a multiplicidade sensorial na unidade da Idéia da qual 
depende” (NODARI, 2004, p.364).
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O supremo bem, de Platão, se identifica com a beleza, sendo ao mesmo tempo um 
sumo bem e um sumo belo. Note-se que essas noções platônicas de divisão em dois 
mundos, de existência de um ser com características supremas e da consideração do 
mundo real como algo passageiro, indica um princípio metafísico que será amplamente 
utilizado na cosmovisão cristã.
No campo da política, que passou a ser um elemento importante na filosofia antiga 
a partir de Platão, há uma crítica incisiva sobre o funcionamento da democracia como 
regime político:
É sabido que a indagação acerca do problema da democracia – seu 
valor, seu modo de funcionamento, seus princípios – dispõe, no 
registro da filosofia política desenvolvida por Platão, de um lugar 
teórico destacado e privilegiado. Mais ainda, poderíamos dizer que 
Platão é um dos primeiros autores da história do pensamento ocidental 
a efetuar uma análise rigorosa, sistemática e profunda da politeía 
democrática, submetendo o que se convencionou chamar de “sistema 
de governo popular” a uma abordagem filosófica radical e consistente, 
que, não obstante os mais de dois mil anos que dela nos separam, 
conserva até hoje seu vigor e sua atualidade.1 É certo que, via de 
regra e de um modo geral, essa análise assume contornos 
nitidamente críticos e polêmicos, visando denunciar, de maneira 
contundente, aquelas que seriam as possíveis insuficiências políticas 
e institucionais do referido regime – procedimento que provoca no 
leitor contemporâneo certo estranhamento e perplexidade, de vez 
que, em nossos dias, a democracia parece ter se estabelecido como 
única forma de governo realmente legítima, como um valor político, 
portanto, inquestionável e inconcusso.2 Porém, deve-se reconhecer 
ao mesmo tempo que, apesar de seu tom profundamente polêmico e 
não muito amistoso, a reflexão platônica sobre a democracia possui 
um caráter instigante e sobremaneira provocador, podendo, portanto, 
como tal, contribuir para que alcancemos uma compreensão mais 
madura e filosoficamente menos ingênua do fenômeno 
democrático, para além das considerações meramente apologéticas 
e laudatórias que costumam dominar os discursos convencionais 
sobre o tema (OLIVEIRA, 2017, p. 28-29).
A crítica básica de Platão é simples e ele a expõe em seu livro “O Político”. O filósofo 
afirma que a democracia é o governo do povo, mas entende que o povo não está 
preparado para governar. Seria necessário, portanto, que o governante fosse instruído, 
desde sua infância, na arte do governo da coisa pública. Com isso, Platão defende a 
existência de um rei-filósofo.
Aristóteles, discípulo de Platão, é o primeiro filósofo sistemático, que apresenta 
tratados em busca da construção de um sistema de pensamento mais completo. 
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Aristóteles define a metafísica de quatro formas ao longo do seu trabalho, sendo 
que a primeira causa seria a seguinte:
A primeira, já citada acima, aparece logo no início da Metafísica, 2014, 
I em 982 b 5-10, p. 11: “[...] esta deve especular sobre os princípios 
primeiros e as causas [...]”. A metafísica, portanto, é a ciência que 
estuda os princípios e as causas supremas presentes na realidade. 
Ressalta-se o fato de que os objetos da metafísica não são quaisquer 
causas ou princípios, mas sim os supremos, pois os particulares 
são objetos das ciências particulares. É necessáriauma ciência 
que estude os princípios e causas universais para que as demais 
ciências tenham fundamentos para se apoiarem e se desenvolverem. 
E, segundo Aristóteles, aqueles que possuem conhecimento sobre as 
causas são mais sábios, dado que o conhecimento sensível é mais 
básico e está disponível a todos. Ora, de fato, qualquer um é capaz 
de perceber que o fogo queima, contudo, nem todos podem dizer por 
que ele queima (PEREIRA, 2017, p.17).
 
Desse modo, o sentido da metafísica seria o estudo das causas primeiras, os princípios. 
Essa ideia de metafísica serve como uma estrutura básica a partir da qual as demais 
ciências podem se firmar. Ou seja, não é apenas uma estrutura metafísica, mas uma 
estrutura metafísica que aponta para a física e para o funcionamento das ciências.
Aristóteles
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles#/media/Ficheiro:Aristotle_Altemps_Inv8575.jpg
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 O segundo sentido da metafísica em Aristóteles é:
Num segundo sentido, porém, complementar ao anterior, a metafísica 
é, como nos diz Aristóteles em Metafísica, 2014, IV, 1003 a 20-21, p. 
131: “[...] ciência que considera o ser enquanto ser, e as propriedades 
que lhe competem enquanto tal”. O ser, em última instância, é também 
um determinado tipo de causa suprema, já que é o responsável pelos 
atos e perfeições das coisas. Entretanto, sobre o conceito específico 
de ser trataremos posteriormente (PEREIRA, 2017, p.18).
Esse é o sentido recuperado na fenomenologia hermenêutica de Martin Heidegger 
já no século XX. Segundo Heidegger, a história da filosofia se dedicou muito mais ao 
estudo dos entes, ou seja, das coisas que são, do que do Ser propriamente dito.
O terceiro sentido da metafísica em Aristóteles é:
Em sua terceira significação, Aristóteles apresenta a metafísica como 
teoria da substância: “O objeto sobre o qual versa nossa pesquisa 
é a substância: de fato, os princípios e as causas que estamos 
pesquisando são as das substâncias” (ARISTÓTELES, 2014, XII, 
1069 a 18 - 19, p. 543). Para ajudar a compreender melhor a questão, 
Reale nos diz, em Metafísica, 2001, p. 42: “[...] o ser tem múltiplos 
significados, dos quais o de substância não só é o principal, mas até 
mesmo o fundamento de todos os outros”. A metafísica é ciência da 
substância na medida em que a substância é o significado máximo do 
ser e permite que todos os outros sentidos dele não somente ocorram, 
mas ocorram de maneira fundamentada (PEREIRA, 2017, p.18).
Nesse sentido, a metafísica assume uma das ideias principais de Aristóteles, sua 
noção de substância, que é o sentido principal do Ser. Por último a metafísica em 
Aristóteles possui o seguinte sentido: “Por fim, a metafísica é definida como teologia, 
pois a ciência dos primeiros princípios é também ciência divina e das coisas relativas 
a Deus, ou seja, do suprassensível” (PEREIRA, 2017, p.18). Teologia, que nesse caso 
é o próprio estudo sobre Deus ou sobre a divindade, estava ainda no horizonte de 
interesses de Aristóteles, e ali ele inicia a fusão entre a metafísica e a religião de 
forma sistemática.
Vejamos também algo sobre uma importante proposição de Aristóteles, sua teoria 
das quatro causas. Para Aristóteles existem as seguintes causas: material, formal, 
eficiente e final. As causas são, antes de mais nada, o elemento anterior que permite 
com que algo seja exatamente o que é.
Vejamos primeiramente a causa material:
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A primeira causa, a material, é aquilo imanente de onde algo 
provém e, ainda, é causa intrínseca do ente real. Ela é sujeito de 
toda e qualquer determinação e mudança do devir e, portanto, não 
possui determinação alguma. Ou seja, a matéria é o subjacente da 
transformação de toda substância considerada nela mesma, pois ela 
não se predica de nada; ao contrário, todas as coisas se predicam da 
matéria, inclusive a substância [...] (PEREIRA, 2017, p.39).
 
A segunda causa, para Aristóteles, é a causa formal:
A forma, em contrapartida, é o oposto da matéria, pois uma de suas 
características é a necessidade de sempre portar-se em algo. Além 
disso, ela é responsável por trazer as determinações para a matéria 
e, por essa razão, diz o que a coisa é. Vale ressaltar que, assim como 
a matéria, a forma é sempre causa intrínseca na coisa, porque ainda 
que ela advenha de terceiros, ela só pode ser concretamente enquanto 
num substrato. Na natureza, ela se divide em duas, como explica 
Tomás Alvira [et al] (2014, p. 264): “A forma sem a qual um ente não 
seria nada é denominada forma substancial; as que agem em um ente 
já em ato, acrescentando-lhe ulteriores determinações, são as formas 
acidentais”. Em outras palavras, a forma substancial é a responsável 
por trazer o ato da matéria à luz, pois é a matéria que a recebe como 
sujeito e, nesse sentido, o ente passa a ser uma substância própria. 
Já as formas acidentais dão determinações ulteriores à substância 
composta, ou seja, atualizam a matéria segunda com perfeições que 
necessitam sempre da substância composta; por exemplo, a altura de 
um homem, a cor dos seus olhos, cabelo e etc (PEREIRA, 2017, p.41).
É importante perceber que existem formas substanciais, ou seja, aquelas que são 
básicas para que algo seja o que é e existem também formas acidentais, que não 
determinam aquilo que algo é, mas que fazem parte de sua forma mesmo assim.
A terceira causa é a eficiente, que também é chamada de causa motriz:
 
A causa eficiente ou motriz, diferentemente da matéria e da forma, 
porém também de fundamental importância, é aquilo de onde 
provém o movimento ou repouso das coisas. Artigas explica que, 
para Aristóteles, a causa motriz encontra-se no contato de umas 
coisas com outras: “Aristóteles afirmou que, no âmbito natural, a 
causa agente sempre atua por contato” (ARTIGAS, M. 2005, p. 321). 
A causa eficiente na natureza ocorre quando os entes, que são 
providos de movimento, tocam-se uns nos outros. No âmbito da 
técnica é fácil identificar esse tipo de causa, pois o agente é sempre 
quem delibera e move-se em direção a determinada ação como, por 
exemplo, o construtor de uma casa; após estabelecer o fim último da 
ação e possuir a matéria necessária para esse tipo de construção, 
ele move-se deliberadamente e inicia o processo de construção da 
casa (PEREIRA, 2017, p.41).
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Entende-se portanto que a causa eficiente é aquela força que um ente exerce sobre 
o outro, movimentando-o para uma nova posição ou configuração.
A quarta e última causa é a causa final, ou seja, aquela que determina a finalidade 
de algo, sua destinação:
Temos, por fim, a causa final, que é a finalidade e o objetivo da 
realização do movimento. Aristóteles explica: “Certas coisas, por sua 
vez, são causas como o acabamento e o bem de outras: aquilo em 
vista de que outras coisas se dão é o melhor e tende a ser acabamento 
delas [...]” (ARISTÓTELES, 2009, Física II, 195 a 15, p. 49). Na natureza, 
ela se efetiva por via da forma, pois todas as coisas naturais sempre 
são em vista de algo e a forma, como já foi dito, traz atualidade à 
potencialidade. Trataremos melhor dessa questão mais adiante. No 
processo técnico, ela parte da intenção do agente e, aqui, o fim é 
fim de duas maneiras: enquanto causa e enquanto efeito. Enquanto 
causa, é aquilo que determinado processo visa alcançar, ou seja, o 
objetivo: do escultor, a escultura; do construtor de casas, a casa; do 
conhecimento, a ciência e assim por diante. Se subtraído esse fim, 
o processo sequer pode ser iniciado, pois ele é causa da ação do 
agente; não é causa do agente em si, mas é o que move o agente para 
cumprir determinada meta posta por ele mesmo. Enquanto efeito, ele 
é aquilo que se concretiza ao final do processo de criação de algo 
ou de determinada ação: a mesa feita pelo marceneiro, a música 
produzida

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