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DA CULTURA DA DISCIPLINA E DO IMAGINÁRIO MODERNO Empresa: Modular Criativo Professora: Kaio Samuel Barboza Gomes Faculdade Campos Elíseos (FCE) São Paulo – 2023 SUMÁRIO DA CULTURA DA DISCIPLINA E DO IMAGINÁRIO MODERNO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 A cultura da disciplina e da civilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 O imaginário dos contemporâneos e o pensamento cientificista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 3 4 DA C U LT U R A DA D I S C I P L I N A E D O I M AG I N Á R I O M O D E R N O A cultura da disciplina e da civilidade O mundo contemporâneo mergulha no século XIX repleto de sentimentos disciplinares e civilizatórios, principalmente no que concerne ao contexto da vida privada, quando os hábitos, costumes, gestos e gostos passaram a ser ressignificados com o objetivo de trazer à memória das pessoas, no ocidente europeu, que a partir daquele momento elas deveriam viver de acordo com a dita modernidade, e não mais de acordo com costumes e hábitos ligados ao mundo dos medievais, na Idade Média. Diante disso, esse processo de ressignificações não se inicia no século XIX, mas de acordo com os historiadores franceses da História da Vida Privada, como é o caso de Alain Corbin, já se observa tais mudanças durante o século XVIII, na segunda metade deste período, quando os cômodos das casas francesas da sociedade burguesa passaram a ser modificados em prol dos novos hábitos civilizados cultivados pela modernidade. Figura 07: Charge ilustrando como se deu a relação entre os povos nativos na América e os europeus, que se colocavam como os portadores da civilização e da modernidade, ao passo que os nativos eram os selvagens. Ao longo da contemporaneidade, essas relações se acentuam. Isso explica, em grande medida, a forma como os colonizadores se comportavam perante os nativos das terras que eram achadas pelos europeus, tal como mencionados anteriormente, pois se no início da colonização da América portuguesa e espanhola já havia esse processo civilizatório em curso, nos séculos XVIII e XIX esse processo é acentuado, sobretudo pela forma como aconteceram as grandes revoluções burguesas nesse período, por meio do advento do capitalismo, a nova cultura que passou a permear a vida urbana europeia, bem como as mudanças de mentalidade que passaram também a fazer parte do cotidiano das pessoas na Europa. 5 Com isso, sobretudo as regiões colonizadas pelos ingleses e franceses foram fortemente influenciadas pelo contexto modernizante e civilizacional, influenciando não apenas os cidadãos que viviam em ambos os países, mas também as pessoas que eram colonizadas em suas terras de origem. Nesse contexto, esse processo ficou conhecido como neocolonização, e ocorreu sobretudo na África, quando houve a chamada partilha da África entre praticamente todos os países europeus (ditos civilizados) e em parte da Ásia, sobretudo no sudeste Asiático, em regiões como a Índia, grandemente influenciada pela Inglaterra, maior potência econômica durante o século XIX. Desse modo, a desculpa ideológica, mas ressignificada em relação ao período de colonização de Portugal e Espanha na América, era levar o mundo civilizado europeu para essas regiões conhecidas como “selvagens”, alicerçados pelo chamado Darwinismo Social. Por hora, no entanto, cabe-nos entendermos como esse processo de modernização e de progresso civilizatório ocorreu na Europa, com seu início a partir das revoluções burguesas e do advento do capitalismo, que começaram a transformar todo o contexto da vida privada europeia. Até mesmo os espaços no interior dos ambientes privados foram modificados, trazendo a sensação de autonomia e liberdade para os indivíduos que ali viviam, pois como afirma Alain Corbin: nas novas residências e ainda mais nos projetos dos arquitetos, os quartos deixam de se interligar uns aos outros e multiplicam-se os corredores para que a autonomia dos quartos seja garantida. O espaço de representação tende a ser dissociado do espaço de intimidade (CORBIN, 1987, p.207). Ou seja, se observa nas fontes da vida privada europeia a partir da segunda metade do século XVIII, constantes mudanças dos espaços residenciais, até mesmo que aqueles espaços que eram projetados pelos arquitetos, pois tinham em mente toda uma ideia que já permeava todo o contexto contemporâneo, que era a busca por mais autonomia e, consequentemente, gerando liberdade para cada indivíduo que usufruísse do ambiente. É notório, portanto, que as ideias difundidas pelas grandes revoluções burguesas que marcaram o mundo contemporâneo também estavam na ordem do dia da vida privada das pessoas. Outrossim, há uma forte preocupação com a individualidade de cada membro do ambiente residencial, em detrimento da antiga coletividade que marcava tempos anteriores, caracterizados pela grande casa da nobreza, que abrigava a todos, na sociedade medieval. Outrora priorizado, a partir das mudanças arquitetônicas geradas no contexto do século XVIII, a coletividade passa a ser representada apenas pelos grandes corredores que ligavam os quartos, mas que fazia uma diferenciação clara nos espaços da casa, pois com o surgimento da modernidade e dos ideais civilizacionais, o espaço de representação separava-se do espaço de intimidade. Além disso, todas essas mudanças, somadas, ajudarão a formar o que Corbin chamará de psicologia coletiva, relacionando sobretudo às mudanças de hábitos, costumes e cheiros que passaram a caracterizar o ambiente privado entre os séculos XVIII e XIX. Essa tal psicologia coletiva é operada por meio de mudanças nunca vistas antes na 6 sociedade ocidental, que se propunha a trazer o novo, já que a chamada sociedade de corte representava, mesmo em seu período áureo, hábitos que não eram considerados, por parte dos burgueses, civilizados. Portanto, cabia ao burguês, simbolizar os novos incrementos civilizados e modernizantes de uma nova sociedade, com uma mentalidade contemporânea e diferente dos tempos da sociedade de corte, o que poderia representar novos cheiros no ambiente privado, que permitisse, por exemplo, uma identificação do lugar, como se este realmente a ele pertencesse: A desodorização, que constitui o meu assunto, implicava o recuo para dentro de casa, a constituição da esfera do privado, numa palavra, esta ‘domesticação’ já iniciada no século XVIII; sobre este século, dizia Robert Mauzi que ‘a felicidade do burguês não está em outro lugar senão na casa.’ O desdobramento da ‘higiene doméstica’, que tende a se tornar ‘higiene das famílias’, bem como o desdobramento da higiene corporal, constitui apenas um lado do retiro da vida pública: engendra uma forma de habitat que é tributário da medicalização do espaço privado. Abrigado em sua casa, longe do cheiro do pobre e suas ameaças, o burguês pretende gozar das volúpias narcisistas em moda, bem como da sutileza das mensagens corporais que doravante tecerão as trocas afetivas com uma nova delicadeza (CORBIN, 1987, p.208). Sendo assim, se para o burguês “a felicidade não estava em outro lugar senão na casa”, esta deveria representar um ambiente livre de todos os odores característicos do ambiente externo, onde prevalecia os odores fabris, de suor e até mesmo de esgotos. É bom lembrarmos que as cidades, no período de efervescência da Revolução Industrial, se caracterizavam por serem ambientes bastante hostis aos olfatos das pessoas. Desse modo, nelas haviam as chaminés que expeliam fumaça todo o dia devido ao trabalho exaustivo nas fábricas, haviam os rios poluídos, pois recebiam os dejetos advindo das casas e das fábricas, e haviam os trabalhadores,que exaustos, estavam sujos e suados devido ao trabalho diário e praticamente sem folga. Nesse sentido, eram exatamente estes os odores que os burgueses não gostariam que fizesse parte do ambiente residencial. Portanto, para que houvesse a felicidade por estar em casa e num ambiente de pertencimento, era necessário livrar a casa dos odores externos, incentivando o processo de desodorização, através da chamada “higiene doméstica”. Desse modo, é daí que vem todas as preocupações atuais em manter, continuamente, o ambiente familiar em casa, limpo. Tais mudanças comportamentais também estavam relacionadas a um processo bastante utilizado para modernizar a sociedade ocidental, o qual foi o processo de medicalização, também citado pelo historiador francês. Ademais, é significativa a importância da medicina no processo civilizatório, sobretudo do ambiente familiar na casa, pois é a medicina que validará cientificamente todo o discurso em torno da defesa das mudanças de hábitos no ambiente da vida privada. É a junção do “útil ao agradável”, já que nos ambientes externos sujos e poluídos estavam a maioria das doenças e infecções da época, devido principalmente a “falta de higiene”, seja ela individual ou coletivo, a partir do saneamento básico, que foi um processo científico de modernização do espaço urbano e coletivo, mas que se deu já na segunda metade do século XIX. Para o burguês que vivia sua vida privada, no entanto, era necessário desodorizar para viver bem. 7 Nesse sentido, o cheiro da família burguesa deveria se distinguir dos demais cheiros presentes no ambiente urbano, pois se pensou, do ponto de vista da medicalização do espaço privado, uma higiene específica para a família, onde não deveria ser permitido que a família tivesse um cheiro inoportuno e semelhante ao usual nos ambientes externos da cidade, como explica Corbin: Dentro da própria esfera do privado, o cheiro familiar se torna também inoportuno. A esse respeito, por volta de 1840, ecoa um novo alarma. A família, cujas virtudes são tão louvadas, esconde perigos: ela exige uma higiene específica. Convém que se insista neste aspecto, pouco observado, das mentalidades pré-pasteurianas, que coincide com a emergência, muito estudada, das ansiedades suscitadas pela herança mórbida e pela predisposição (CORBIN, 1987, p.209). Portanto, as famílias burguesas deveriam se destacar na busca por uma higienização específica e livre das outrora predisposições e heranças mórbidas, sejam do contexto social e urbano em que vivam, seja das permanências históricas da sociedade de corte, que também viviam, como já mencionamos, imersos em hábitos e odores característicos do período medieval. Esses hábitos deveriam ser extirpados de uma vez por todas do ambiente familiar burguês, a fim de que houvesse o tão desejado avanço civilizacional, motivados pelos anseios modernizantes que passaram a caracterizar o mundo burguês a partir do século XVIII. Dentro dessa perspectiva, a ideia era que o ambiente familiar, outrora marcado pela reunião de todas as mazelas, odores, doenças e infecções trazidas do ambiente externo pelos membros da família para a residência, passasse a se caracterizar por um remodelamento médico e científico, ressignificado e oferecendo um ambiente propício para a tranquilidade de quem habitasse no lar. A antiga atmosfera familiar marcada pela reunião de vários odores e doenças deveria dar lugar a uma nova higiene, proporcionando um lugar agradável e apto para a convivência. Se antes a residência era um lugar temível por conta da falta de higiene familiar, o local da casa deveria se caracterizar por um local em que os membros da família a desejassem. Desse modo, esse, aliás, também passou a ser um ideal burguês bastante difundido ao longo da contemporaneidade. Outra grande contribuição advinda desse pensamento médico, presente continuamente na mentalidade civilizacional burguesa, é a formação dos novos espaços individualizados no ambiente residencial, como já mencionado no início desta lição. No entanto, as fontes históricas dirão que a formação desse espaço individual que prega a autonomia e a liberdade de seus membros serão resultados do processo de higienização pelo qual passam as famílias burguesas. Dessa forma, pois os discursos cientificistas disseminados pela medicina irão argumentar que quanto mais as pessoas que tenham seus espaços individualizados, mais difícil será a passagem de doenças para os demais membros das famílias. Isto é exemplificado por Alain Corbin: Uma boa higiene de família demanda então que se corrijam os danos pela ‘atmosfera doméstica’, com a criação de um espaço reservado ao livre desdobramento da atmosfera individual, sem risco de contaminação recíproca. O comércio das emanações familiares exige um espaço privado individual assim como, outrora, o das emanações sociais demandava a fuga para fora da cidade ou o recolhimento para dentro da residência familiar. A repulsa diante das emanações do outro, no próprio seio da família, apressa este processo de individualização, cujo trajeto desde o século XVIII estamos acompanhando. Após a vitória da cama individual, essa repulsa contribuirá para promover o quarto individual (CORBIN, 1987, p.210, 211). 8 Portanto, a boa higiene familiar será também resultado do processo de individualização ocorrido no ambiente da casa, onde no argumento das fontes históricas, não haveria risco de contaminação advindo dos problemas externos, por isso que as emanações familiares irão exigir uma pretensa formação de espaços individualizados, reservados e autônomos, onde não houvesse contato entre os entes familiares. Além disso, Alain Corbin afirma que por causa desse processo foi possível compreender a formação histórica, bem como suas transformações, dos demais contextos familiares individualizados. Pois o processo de individualização inicia-se com a obtenção de camas próprias, para cada membro familiar, e depois culmina na formação arquitetônica mencionada no início da lição, quando da existência dos quartos individualizados. O imaginário dos contemporâneos e o pensamento cientificista Atualmente, o processo de individualização continua vigente, pois cada um possui seu lugar para estudar, seu celular, seu computador, sua tv, etc. O mesmo não ocorria com os trabalhadores, que embora sofressem com os mesmos problemas externos que os burgueses, de exposição aos diversos odores, doenças, infecções e temores trazidos do ambiente externo para o ambiente familiar, não gozavam dos mesmos privilégios de individualização, uma vez que muitas vezes nem era possível esse processo, pois seus ambientes residenciais eram pequenos e não havia espaço suficiente nem mesmo para que seus membros vivessem em conforto, coletivamente: Nos meios populares, uma tal ambição [individualizante], seria, por enquanto, deslocada; a família do proletário, cuja normatização se pretende, submetida aos efeitos acumulados de miasmas aparentados, terá poucas chances de escapar à ameaça mórbida. A escrófula do rapaz e a clorose da moça já estão inscritas na paisagem olfativa da residência. O fedor do pobre, aqui, se identifica à decadência hereditária (CORBIN, 1987, p.211). Portanto, a civilidade e a modernidade haviam chegado na Europa por meio das mudanças de hábitos e dos costumes dos burgueses, que, respaldados pelos argumentos médicos, ressignificavam seus contextos privados. No entanto, tais mudanças melhoravam e serviam apenas a eles mesmos, sem que houvesse nenhuma preocupação nas camadas mais populares, em que muitas vezes eram funcionários dos próprios burgueses, em suas fábricas e comércios. Dessa maneira, a civilização cerceada dos burgueses na contemporaneidade será levada, tal como praticada na Europa, com seus questionamentos e segregações, por meio do discurso do Darwinismo Social, para outras partes do mundo durante o século XIX. Ao se analisar o mundo contemporâneo por meio das lentesda chamada História Cultural, mais precisamente a Quarta Geração da Escola dos Annales, será possível interpretar o advento da contemporaneidade por outros pontos de vista. Sabemos da importância da política e da economia na formação do mundo, sobretudo a partir do século XIX. As teorias elaboradas por Karl Marx ainda neste período servem de base para uma série de lutas sociais nos dias atuais. Dessa maneira, a economia ainda é considerada por muitos estudiosos das ciências humanas como sendo a grande infraestrutura da 9 sociedade ocidental, que consegue basear a superestrutura, com todo o seu arcabouço ideológico, jurídico, político e até mesmo religioso da sociedade, mesmo que tenha sofrido diferenciações e ressignificações ao longo dos anos, desde o século XX. Curiosidade: As contribuições da Escola de Frankfurt e de Antonio Gramsci foram essenciais para a ressignificação do pensamento defendido por Karl Marx no século XIX. O século XXI é permeado pelas influências dos pensamentos de Gramsci e da Escola de Frankfurt, que tiveram influência de Marx, mas que aperfeiçoaram suas ideias e tornaram palatáveis para o seu cumprimento em sua época, que era o mundo ocidental a partir do século XX. Nesse sentido, o mesmo ocorre por meio da chamada História da Vida Privada, com a micro história e seus detalhes, que muitas vezes passam despercebidos por aqueles que se propõem em estudar a história utilizando apenas as lentes da política ou da economia. O historiador cultural, analisando fontes íntimas, como os diários e as cartas direcionadas para pessoas específicas e em determinados recortes temporais, utiliza-se do sensível para entender os motivos que fizeram os interlocutores adentrarem em determinados assuntos, utilizarem determinadas palavras, e escolherem até mesmo aquele tipo de conversa em detrimento de outras. O discurso e até o que se chama de “não-ditos” ganha um sentido singular por meio da História Cultural. É nesse contexto de história cultural que se percebe a necessidade de teorizar- se a contemporaneidade, com pensadores que decidem se aprofundar no sistema e na forma como o mundo contemporâneo adentrou na mentalidade das pessoas, por meio de projetos modernizadores, civilizatórios e cientificistas. Neste sentido, dois teóricos das ciências humanas ganharam significativa importância na tentativa de explicação da contemporaneidade: Jorge Larrosa e Marshall Berman. É válido analisar que desde o marco inicial do mundo contemporâneo, com a Revolução Francesa, o grande objetivo da mentalidade do novo contexto no ocidente passou a ser a busca pelo estabelecimento de crenças e valores que possam atribuir sentido e legitimar a tomada de decisão das pessoas, interferindo diretamente em suas escolhas. Dessa forma, isso ocorre principalmente entre aquelas que possuem consciência de mudança dos períodos históricos que estavam em voga e da forma de se pensar o mundo, como no caso dos idealizadores da Revolução na França e dos demais burgueses, que debruçados nos lucros proporcionados pelas suas fábricas, se propunham a transformar até mesmo seus ambientes residenciais na busca por tais objetivos. De maneira análoga, a grande perspectiva desse período histórico, e o que permeará o restante da contemporaneidade, é a busca por sentido para a vida por meio da liberdade. É esse conceito o mais caro para o mundo contemporâneo, até mesmo ao se pensar novamente a partir das lentes da política e da economia, pois teremos o entendimento de que essa palavra: “liberdade”, servirá de base para o surgimento das ideias de Democracia e República, que ganharam bastante força na França revolucionária e nos Estados Unidos de Thomas Jefferson, bem como para as ideias defendidas por Adam Smith e o seu livre mercado, com o capitalismo em sua essência econômica principal. 10 Figura 08: Charge da Mafalda expressando um dos resultados da contemporaneidade que é a vida baseada na meritocracia. Portanto, fundamentado e defendido pelas mentes pensantes desde os primórdios do mundo contemporâneo, a liberdade fará parte do imaginário das pessoas, sobretudo a partir do século XIX, atravessando até os dias atuais. Com isso, a liberdade será buscada, em certo sentido, porque será vista e percebida a acomodação das pessoas com o que é essencialmente material, e não mais com aquilo que se configura parte de um plano imaterial. O mundo, antes da modernidade e da efervescência contemporânea, era marcado por características firmes em relação à religião. Pois, destacando as pessoas eram suas sensibilidades em relação ao contexto espiritual, sobretudo na Europa, pois era ligada ao cristianismo, e como tal, este pregava que as pessoas não deveriam se apegar a este mundo, mas viverem para agradar a Deus e a pretenderem a vida futura e eterna, em que não haveria mais as importunações relacionadas ao pecado e à vida de satisfação dos prazeres humanos e efêmeros. Sobre isso, afirma o historiador da Reforma Protestante, Carter Lindbeg, em relação às insatisfações de muitos reformadores da igreja, já nos anos de 1500, acerca dos deslizes morais e éticos, portanto mundanos, praticados pela Igreja Romana: Reformadores encorajavam as pessoas a julgar todas as doutrinas pelas Escrituras; todas as igrejas, por sua vez, voltavam-se à história com o fim de legitimar e reforçar reivindicações individuais a respeito de serem a comunidade fiel (LINDBERG, 2017, p.27). Com isso, percebemos uma descontinuidade no processo histórico de formação do pensamento europeu ligado à liberdade, pois enquanto períodos anteriores relacionavam a liberdade ao contexto eclesiástico e espiritual, a partir da contemporaneidade temos que esta relação da liberdade com a religião é quebrada e em consequência disto, a proposta de liberdade se liga, mais do que nunca, ao contexto da individualidade e do mérito, tal como exposto na charge da Mafalda. 11 Pois, o mérito era o grande responsável por fazer com que uma pessoa que era pobre e considerada miserável por muitos, acabasse por se tornar, por razões que dizem respeito apenas aos seus próprios feitos históricos, uma pessoa luxuosa e deixasse para trás o passado de pobreza, sofrimento e tristeza. Apenas os méritos individuais de cada ser humano contemporâneo poderiam trazer tais benefícios. Porém, o grande fator contraditório e perceptível também na charge, é a efemeridade da vida, que não passa despercebido pela personagem Mafalda. É interessante notar que as pessoas que vivem no mundo contemporâneo buscam a liberdade em todos os momentos, pautados muitas vezes pela individualidade, que produz tal experiência sensitiva. No entanto, nem a ciência, nem qualquer outro pensador ainda foi capaz de proporcionar a liberdade em relação à morte. Tal fato é indissolúvel para a humanidade, e por mais que os seres humanos se sintam confortáveis com a vida a qual vivem, é inevitável, mesmo com os méritos, não se deparar com a existência da morte. Mesmo assim, as pessoas modernas tentaram, tentam e continuarão a tentar, fazer com que este mundo seja cada vez mais a sua própria casa (mesmo que por um instante). Por esta razão, a modernidade estará continuamente sofrendo mudanças e transformações em sua prática, como argumenta Marshall Berman: Se encararmos o modernismo como um empreendimento cujo objetivo é fazer que nos sintamos em casa num mundo constantemente em mudança, nos damos conta de que nenhuma modalidade de modernismo jamais poderá ser definitiva. Nossas construções e realizações mais criativas estão fadadas a se transformar em prisões e sepulcros caiados; para que a vida possa continuar, nós ou nossos filhos terremos de escapar delas ou então transformá-las (BERMAN, 2007, p.12). Nesse sentido, o ponto é que quanto mais se preocupa em alterar conceitos, mais sem identidade ficarão as pessoas, portanto, carecendo de algo em que possam encontrar sentido para suas vidas. No entanto, o que o pensador enfatiza éque há a necessidade de que seja proporcionada uma mudança de mundo e até mesmo de toda uma cultura à sua volta, para poder se conseguir algum sentido. É neste aspecto que Berman propõe para a modernidade, e consequentemente, para o mundo contemporâneo, que haja uma “modernidade alternativa”, mais voltada para a experiência, do que efetivamente para aquilo que é moderno e subterrâneo, como uma cidade construída e planejada para ser moderna, caso exemplificado pela capital brasileira, Brasília. A modernidade alternativa, é baseada na experiência, constitui-se num ato de altruísmo, em que ouvir e perceber o outro, passa a ser parte da experiência individual. Desse modo, tal modernidade configura-se contrária à praticada desde os primórdios, onde a individualidade e o enaltecimento do mérito se sobressaem em detrimento daquilo que o outro pensa ou enxerga. Percebemos, com isso, que o mundo contemporâneo gerou um sentido controverso de liberdade, uma vez que aquilo que era difundido e levado à prática pelas pessoas desde o século XIX, era a efetivação de um tipo de liberdade que não se configurava na prática, pois se sobressaia como uma ditadura do individualismo. Por isso, a proposta de Berman leva em conta tais fatores, haja vista a percepção do autor em relação a estas sensibilidades egocentristas levadas a cabo pela sociedade dita moderna no ocidente. 12 O autor afirma também que tais ideias, disseminadas pela contemporaneidade, configura “um medo generalizado, e muitas vezes desesperado, da liberdade que a modernidade confere a todo indivíduo, e o desejo de fugir dessa liberdade por quaisquer meios” (BERMAN, 2007, p.17). Tais inquietações constituem-se na grande contradição para a contemporaneidade, pois era sabido que os grandes ideais das revoluções burguesas e também na solidificação do sistema capitalista seria em torno da liberdade. Uma vez que esta ideia produziu, antes, uma escravidão de desejos e sentimentos mal resolvidos entre os humanos, o seu resultado principal foi a fuga, o fugir de tudo o que representava liberdade, principalmente no instante em que as pessoas, já no século XX, começaram a se dar conta de que tal liberdade representava escravidão, seja ela praticada nos costumes, nos desejos, no consumo ou até mesmo nos discursos. Assim, o desespero produziu fugas dessa pretensa ideia de liberdade. Citando o personagem o Inquisidor, presente no livro “Os irmãos Karamazov”, o autor testifica esse “horror moderno” produzido pela pretensa ideia de liberdade: ‘O homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal. Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso.’ Em seguida, ele sai do cenário da história, Sevilla no tempo da Contrarreforma, e se dirige diretamente à plateia de Dostoievski, no final do século XIX: ‘jamais os homens se creram tão livres como agora, e, no entanto, eles depositaram sua liberdade humildemente a nossos pés.’ (BERMAN, 2007, p.18). Portanto, o imaginário no ocidente europeu era essencialmente motivado pelo desejo da liberdade, e esta como fonte para que se pudesse encontrar o sentido para a vida. No entanto, esse conceito terminou por conceder escravidão ao colocar os homens, juntamente com sua liberdade, de joelhos diante de um sistema que não deseja sua liberdade, mas que possui o objetivo intrínseco de fazer com que os indivíduos sejam condicionados a fazerem o que o próprio sistema deseja. E ainda de maneira individual, pois quanto mais individualistas, menos se preocupará com os demais, e mais o “inquisidor” será recompensado. Diante disso, esses fatos serão de suma importância, segundo as lentes da história a partir da economia, para o capitalismo conseguir se ressignificar ao longo dos anos, pois além de todos os aparatos ideológicos que sirvam para habilitar o sistema, será necessário que os indivíduos passem a pensar nos benefícios que existem em utilizarem a sua liberdade, por exemplo, para o consumo. Dessa forma, se mantém todo o círculo vicioso de interações estabelecidas entre os seres humanos contemporâneos e a efetivação do sistema capitalista nos anos seguintes, principalmente a partir do século XX, quando o mundo atravessa crises e necessitará ser reabilitado para conseguir reerguer todo o sistema econômico nos países afetados, principalmente pelas duas grandes guerras. Nessa perspectiva, a técnica mais usual será o exercício da liberdade e a utilização do consumo individualizado e do mérito, para ser reerguida a economia. Somado a isso, temos que quanto mais se consome, mais se consumirá, e quanto mais se consumirá, mais há a necessidade de investimento em discursos que tornem as pessoas tanto necessitadas pelo consumo, quanto também dependentes de tal discurso, principalmente por meio da validação meritória, pois a pessoa é forçada a pensar, devido às propagandas, que merece consumir, já que trabalha incansável e exaustivamente durante a semana. 13 Portanto, consumir seria o equivalente ao prêmio de consolação do indivíduo, e por isso, o círculo vicioso se retroalimenta por meio do próprio sistema. Leitura adicional: Sobre outras informações acerca da sociedade do consumo e a busca pela felicidade e, consequentemente, a liberdade na contemporaneidade, conferir: LIPOVESTSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo / Gilles Lipovetsky; tradução Maria Lúcia Machado. – São Paulo, Companhia das Letras, 2007. Tais fatores são efeitos claros e objetivos daquilo que Dostoievski, no texto citado por Berman, chamou de livre-arbítrio. É a liberdade que se constitui sedutora, mas também bastante dolorosa, silenciosa, mas destrutiva, pacificadora, mortífera e com poder de decidir, ao invés de promover escolhas livres de imposição discursivas. Sendo assim, a liberdade, portanto, não se configura liberdade enquanto inserida no sistema depreciativo e tomado pelo discurso do consumo, do individualismo e do mérito. Sendo assim, Marshall Berman enxerga a sociedade da modernidade uma experiência desenraizada. Há também conceituações teóricas acerca do mundo contemporâneo, pois o pensador Berman pensa a modernidade um tipo de pensamento, enquanto a modernização se referiria a tudo aquilo que é concreto e material, e foi produzido durante a modernidade, como o exemplo já citado da cidade de Brasília, capital construída a partir do conceito de modernidade, mas fruto de uma modernização urbana. Por isso, a experiência desenraizada da modernidade justifica-se enquanto parte de um processo necessário para a sociedade contemporânea, ao propor ressignificar a modernidade em seu sentido conceitual e teórico, a fim que fosse posta a chamada modernidade alternativa, em que o grande carro chefe seria justamente a busca da liberdade por outros fins que não o pensamento advindo do individualismo e do mérito e que se baseou nas ideias inicialmente elaboradas e difundidas pelos burgueses. Assim Marshall argumenta: Existe um tipo de experiência vital – experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outro, das possibilidades e perigos da vida – que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designei esse conjunto de experiências como ‘modernidade’. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos (BERMAN, 2007, p.24). Assim sendo, Marshall Berman resume a modernidade a um conjunto de experiências que pretendem transformar os seres humanos, modificando seus gostos, suas intenções, seus desejos e até mesmo seus sentidos. O conjunto desses fatores promete alegria, prazer, poder e até mesmo crescimento. Porém, ao fim e ao cabo, o autor argumenta que o grande resultado é uma ameaça, que perpassa todos os fatores que prometem transformação, concedendofrustrações. Com isso, o mundo contemporâneo passa a viver diante do contexto da modernidade, da modernização e das inúmeras dialéticas que delas surgem, trazendo também resultados e consequências para os dias atuais, com sua liquidez e o seu desmanche de tudo o que aparentemente era sólido. 14 B I B L I O G R A F I A BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade / Marshall Berman; Tradução Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti – São Paulo: Companhia das Letras, 2007. CORBIN, Alain. Saberes e Odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII – XIX / Alain Corbin: tradução Lígia Watanabe. – São Paulo: Companhia das Letras, 1987. ECCA, Edgar Salvadori. O nascimento das Fábricas. 1ªed: 1982. 6ª ed. – Editora Brasiliense, 1988. Figura 01: tropas de Oliver Cromwell na Guerra civil inglesa. Disponível em: <https:// conhecimentocientifico.com/revolucao-puritana-guerra-civil-inglesa/> Acesso: 06/10/2022. Figura 02: Cena do filme “Tempos modernos” (1936). 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