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Unidade IV Ensino, Avaliação e Pesquisa em História Metodologia do Ensino de História Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial ALESSANDRA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria CARMEM SILVIA DA FONSECA KUMMER LIBLIK AUTORIA Carmem Silvia da Fonseca Kummer Liblik Olá. Meu nome é Carmem Silvia da Fonseca Kummer Liblik. Sou formada em Bacharelado e Licenciatura em História, com Mestrado e Doutorado em História pela UFPR. Também sou formada em Química Ambiental pela UTFPR, com especialização em Tutoria em EAD pela UNINTER. Tenho experiência profissional na área de ensino e produção de material didático há 14 anos. Passei por empresas como a Uninter, PUC-PR e UFPR. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de apresentar um novo conceito; NOTA: quando necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido; ACESSE: se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando uma competência for concluída e questões forem explicadas; SUMÁRIO Formação do professor de história ...................................................... 10 Atuação doProfessor de História ......................................................................................... 15 Conceitos históricos em sala de aula ............................................................................... 19 Avaliação no ensino de História ............................................................23 Como ensinar e avaliar determinados conteúdos? ................................................24 Primeiro exemplo de oficina: A Segunda Guerra Mundial .................................27 Segundo exemplo de oficina: A Ilha das Flores e suas relações com o consumo e a sociedade capitalista .................................................................................. 30 A pesquisa no ensino de história .......................................................... 33 Proposições do ensino de História na História recente ......................................35 Teorias e metodologias inovadoras no ensino de história ........40 O que é a história oral? Reflexões sobre narrativa, memória e metodologia ........................................................................................................................................42 A aplicação da História Oral em sala de aula: o que ensinar e como fazer um projeto? ......................................................................................................................................... 50 História oral: trabalho e ética ..................................................................................................53 Trabalho de campo ........................................................................................................................54 Edição ......................................................................................................................................................55 Interpretação ......................................................................................................................................57 Restituição ............................................................................................................................................57 7 UNIDADE 04 Metodologia do Ensino de História 8 INTRODUÇÃO A quarta unidade da disciplina Metodologia do Ensino de História tem como objetivo apresentar reflexões sobre a formação de professores de História, articulando as possíveis relações entre o Ensino Superior e a Educação Básica. Aliado a isso, a atuação no magistério, ou seja, a prática profissional do professor de História, será debatida tendo em vista algumas demandas da rotina escolar. Quando nos referimos à disciplina Metodologia do Ensino da História, devemos nos preocupar com um conjunto de conhecimentos inerentes a ela, os quais serão tranalhados nesta unidade, quais sejam: conceitos históricos, avaliação, pesquisa e proposições (conteúdos) do ensino de história. Serão fornecidos exemplos e modelos explicativos para que o aluno consiga comprender melhor as finalidades de cada temática. Finalizaremos a unidade mostrando as implicações teóricas e metodológicas da História Oral como recurso a ser implantado na sala de aula no processo de aprendizagem do ensino de História. Metodologia do Ensino de História 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender as articulações entre o Ensino Superior e a Educação Básica no processo da formação do professor de História. 2. Compreender as atuações pedagógicas do professor de História. 3. Compreender a importância de aplicar em sala de aula os principais conceitos que orientam a compreensão do processo histórico. 4. Compreender o processo avaliativo e ser capaz de elaborar avaliações em História. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Metodologia do Ensino de História 10 Formação do Professor de História OBJETIVO: Refletir sobre a formação de professores de História implica no conhecimento de uma complexa rede de saberes. O debate nos direciona para temas relacionados a: • saberes docentes; • didática; • práticas pedagógicas; • avaliação, financiamento e gestão da educação; • identidade docente; • contextualização e interdisciplinaridade; • prática educativa e políticas de inclusão; • novas tecnologias da informação; • promoção da diversidade curricular; • relações entre ensino e aprendizagem e procedimentos de avaliação; • articulação entre ensino e pesquisa. Esses são alguns dos aspectos que apontam para a relação entre ensino superior e educação básica. Nesse sentido, toma-se importante conhecermos o processo formativo de docentes, bem como a relação - nem sempre consistente, entre o que se efetiva no período de formação como currículo e o que se busca vivenciar como Base Nacional Comum. A Base Nacional Comum relaciona-se aos componentes curriculares da educação básica (Art. 26), sendo definida pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996. Conforme a LDB, é necessário que se garanta igualdade de acesso aos alunos a uma base nacional comum. Ela aborda um conjunto de conteúdos mínimos das áreas de conhecimento trabalhadas sob o ponto de vista de uma perspectiva contestualizada de conteúdos e práticas, ou seja, articuladas a vivências cognitivas e socioculturais dos alunos. Os conteúdos mínimos das áreas de conhecimento são “noções e conceitos essenciais sobre fenômenos, processos, sistemas e operações, que contribuem para a constituição de saberes, conhecimentos, valores Metodologia do Ensinopossibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o historiador relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu trabalho. Com efeito, nossa escolha incide na reflexão da história oral enquanto estatuto metodológico. Ou seja, compreendemos a história oral como metodologia de pesquisa e de constituição de fontes primárias para o estudo de eventos e acontecimentos pertinentes à história contemporânea. Ela consiste na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram de determinados acontecimentos ou testemunharam conjunturas do passado. Dessa forma, a partir da história oral, os alunos poderão (re) construir suas histórias familiares, como também da sua comunidade por meio da entrevista, transcrição e interpretação. É nessa direção que as definições sobre a História Oral não se esgotam, uma vez que há vários desdobramentos reflexivos quanto a sua metodologia e pressupostos. Pode-se conceituar a História Oral como uma prática de pesquisa para a compreensão de narrativas que estão associadas a um método. E qual seria, em linhas gerais, o principal fio condutor que nos conduz ao conhecimento do método? Realizada por meio de materiais eletrônicos e destinada à elaboração de documentos – as fontes orais, é necessário prever uma atividade organizada com os estudantes para registrar as entrevistas e criar um trabalho analítico sobre elas. É necessário, sobretudo, conhecer o tema a ser pesquisado, elaborar as questões mais pertinentes que serão interrogadas ao depoente, escolher criteriosamente os entrevistados, marcar as entrevistas, gravar e transcrever os depoimentos, analisar os discursos apresentados e, Metodologia do Ensino de História 47 finalmente, torná-los visíveis ao público. Nesse sentido, o barateamento dos recursos tecnológicos como gravadores e filmadoras facilitam o trabalho de registro das fontes orais e ajuda a promover estudos referentes a experiência social de indivíduos, famílias e de grupos próximos ao cotidiano da escola. Quanto aos temas e objetos de pesquisa, é comum a dúvida se a História Oral contempla todos os objetos de conhecimento da disciplina História. Efetivamente ela torna-se particularmente eficaz em áreas temáticas do tempo presente nas quais a rede de informações são inacessíveis, escassas ou desorganizadas. Também constitui importante ferramenta para compreender fenômenos que se manifestam em curtos ou longos intervalos temporais, como o caso de mudanças geracionais, manifestações sociais ou trajetórias de mobilidade social. Eventos políticos, sociais e culturais que se destacam no cenário local ou nacional também podem ser problematizados à luz da História Oral. Isto é, indivíduos que participaram, como por exemplo, da Segunda Guerra Mundial, da Ditadura Militar no Brasil, de movimentos imigratórios, da formação de partidos políticos ou de sindicatos de trabalhadores, podem esclarecer tais eventos por meio de suas memórias e narrativas. É por isso que os temas e abordagens são ilimitados e múltiplos, devendo o professor escolher aquele que mais poderá trazer resultados positivos aos alunos em termos de conhecimento, análise e reflexões. Finalmente, nas práticas educativas do ensino da História, cabe ao professor assumir um papel de mediador ao priorizar a metodologia da História Oral, considerando as narrativas dos indivíduos que estão mais próximos do educando: pode-se incluir a própria memória individual e familiar, bem como a memória coletiva da escola, do bairro e da cidade em que os discentes residem. Desta maneira, as consequências positivas deste método de estudos é o estabelecimento do diálogo entre os alunos e o grupo de sujeitos que fazem parte de sua rede de sociabilidades. A história oral pode contribuir para que possamos ir além da simples história do acontecimento e dos fatos abordados nos livros escolares. Paralelamente, ela amplia a discussão ao reconhecimento não só da igualdade, como também da diferença entre indivíduos e grupos sociais. Metodologia do Ensino de História 48 Para Portelli, por exemplo, a diferença é, antes de qualquer coisa, aquela manifestada entre as numerosas pessoas com quem conversamos, constituindo a razão primordial que nos motiva a procurá-las. (PORTELLI, 1981). O fato de valorizar as diferenças no interior das narrativas que iremos ouvir vai de encontro com a ideia de problematizar as ideias predominantes e incontestáveis em nossa sociedade. A metodologia da História Oral também é usada para fundamentar as práticas de ensino de História nos anos iniciais da educação básica ao mesmo tempo em que diversifica a compreensão dos alunos sobre a variedade das fontes históricas, ampliando, portanto, a ideia de que todo registro do passado, que foi construído pela atividade do homem, deve se tornar digno do estudo da História. Com o desenvolvimento do método da História Oral, o pesquisador não depende unicamente dos textos escritos para estudar o passado. Ao mesmo tempo, esta metodologia possibilita que indivíduos pertencentes a categorias sociais geralmente excluídas da história oficial possam ser ouvidos, deixando registrada para análises futura sua própria visão de mundo e aquela do grupo social ao qual pertencem. A prática docente fundamentada nesse posicionamento pode contribuir para a percepção da memória, da identidade e da História mais próximas do educando, favorecendo o trabalho com conceitos históricos como tempo, duração e sujeito histórico. A proposta metodológica da História Oral, fundamentada na construção das memórias, vai de encontro com as metas propostas pelos PCNs, para o ensino de História e Geografia (Brasil, 1997) dos anos iniciais. De acordo com esses PCNs a disciplina de História almeja que: Ao longo do ensino fundamental, os alunos gradativamente possam ler e compreender sua realidade posicionar-se, fazer escolhas e agir criteriosamente. Nesse sentido, os alunos deverão ser capazes de: utilizar métodos de pesquisa e de produção de textos de conteúdo histórico, aprendendo a ler diferentes registros escritos, iconográficos, sonoros (BRASIL, 1997, p.33). A História Oral contribui especialmente para a compreensão da história local. Como afirma Revel, ao eleger o “local” como circunscrição Metodologia do Ensino de História 49 de análise, pode-se partir de experiências de grupos ou de indivíduos, da tessitura de relações plurais que envolvem solidariedades, normas, dominação, adaptações, resistências e acomodações. (REVEL, 1988). Assim a incorporação desta metodologia permite que alunos e professores acrescentem perspectivas diferentes em termos de vida cotidiana, de conflitos e experiências de vida. A intenção com esta proposta é demonstrar aos professores que o ensino de história não se limita à transmissão de conhecimentos acumulados, mas, principalmente, possibilitar a produção e construção de saberes por vias “não oficiais”. Como o trabalho é feito em equipe, é importante conseguir apoio de professores de outras disciplinas, bem como convidar os demais funcionários da escolar a participar do projeto. Dessa maneira, é possível mostrar ao aluno que a construção do conhecimento histórico pode ser desdobrado em outras disciplinas. Mas de que maneira é possível integrar várias disciplinas em um tema de pesquisa que envolve a História Oral? Consideram-se, nessa perspectiva, os seguintes aspectos de análise conforme cada disciplina: • Artes: trabalho com desenhos, pinturas, imagens e registros fotográficos mostrados pelos entrevistados. Estes materiais podem ser importantes na medida em que agregam valor à pesquisa histórica. • Geografia: estudos de espaços geográficos, envolvendo meio rural e urbano, os quais fizeram parte da trajetória de vida do indivíduo. Além disso, ele pode relatarquestões relativas a paisagens, mudanças climáticas e alterações no meio ambiente. • Matemática: a utilização de tabulação de dados e cálculos estatísticos podem ser úteis no processo de medir e quantificar a relação do número de pessoas entrevistadas com as opiniões e tipos de experiências vividas. • Língua Portuguesa: trabalho com o processo de escrita de textos, linguagem coloquial e culta, particularidades linguísticas de uma determinada região e comunidade. Metodologia do Ensino de História 50 A aplicação da História Oral em sala de aula: o que ensinar e como fazer um projeto? Preparar um projeto inicial com os estudantes é fundamental na constituição inicial deste trabalho. Nele deverão estar presentes os principais objetivos da pesquisa, bem como o tema em questão e suas perspectivas analíticas, ou seja, o que se pretende investigar e conhecer. Naturalmente, os alunos deverão estar a par do tema que será discutido. Para tanto, textos, livros didáticos, materiais fotográficos, filmes ou qualquer outro tipo de ferramenta didática condizente ao tema, serão bem vindos neste processo em que o aluno deverá conhecer previamente o objeto de sua pesquisa. Essa é uma importante fase para aproximar os estudantes do tema que será abordado. E quais temas históricos podem ser trabalhados? Aqui, sugerimos alguns deles, sem intencionar em esgotá-los: • História local. • Memória de imigrantes. • Processo de urbanização da cidade. • Memória e história dos bairros. • Práticas materiais e sociais: jogos, brincadeiras, festividades, formas de entretenimento. • Papel da mulher. • Relações de trabalho e profissões. • Infância. • Estudo de crenças e tradições religiosas. • Casamento e relações familiares. Depois que esta etapa foi finalizada, ressalta-se a importância de discutir com alunos de que forma as pessoas que serão entrevistadas poderão contribuir, por meio de suas memórias e narrativas, à formulação Metodologia do Ensino de História 51 de repostas ligadas ao tema. Por isso, as histórias e trajetórias de vida dos entrevistados precisam estar intimamente ligadas ao tema de pesquisa, ou seja, necessariamente os depoentes precisam ter participado de eventos e circunstâncias inerentes ao objeto de investigação. Por conseguinte, tanto o professor quanto os alunos devem se perguntar se conhecem e se há um número significativo de pessoas que podem narrar suas histórias de vida. Essa é uma fase muito especial e delicada, pois serão escolhidos os entrevistados e, nesse sentido, é importante estabelecer contato pessoal com eles por meio de visitas, telefonemas ou e-mail. É uma atividade que deve ser realizada pelos próprios estudantes e apenas mediada pelo professor, que pode auxiliá- los também conforme a série e as condições dos alunos. Interessa ressaltar que os alunos precisam informar os entrevistados sobre a pesquisa que está sendo feita na escola, o tema, a contribuição que ele poderá propiciar nesta investigação e do porquê ele foi escolhido. Seguem alguns critérios que julgamos importantes no momento da seleção dos depoentes: • Considerar a idade, lucidez, estado de saúde e representatividade de diferentes segmentos sociais e de gênero dos quais o depoente faz parte. • Escolher diferentes pessoas de modo a adquirir diversos depoimentos sobre a temática em questão. • Verificar quais são as melhores técnicas e equipamentos para realizar a entrevista com o depoente: gravar, fotografar e filmar. • Considerar os horários, datas e locais mais adequados para o depoente. Ainda no que diz respeito à elaboração prévia do projeto, salientamos a importância do professor mostrar aos estudantes uma entrevista já realizada – integral ou parte dela conforme o tempo disponível para o projeto. Ela pode estar no formato gravada – áudio ou vídeo – ou transcrita. O contato inicial da turma com uma entrevista possibilita um entendimento da maneira como ela se constitui, funcionando como um modelo que guiará as tomadas de decisão desse momento em diante. Metodologia do Ensino de História 52 Em seguida, quanto à gravação que deve ser realizada pelos estudantes, é fundamental que o professor os oriente em assuntos relacionados aos equipamentos utilizados e, especialmente, à organização do roteiro de questões. As perguntas devem ser pensadas para além de simples respostas como “sim” ou “não”. Cada aluno pode ser convidado a participar desse processo, formulando, então, quatro ou cinco questões. O roteiro poderá ser elaborado em sala, ou ser pedido como um exercício a ser feito em casa, para depois ser sistematizado em sala. Aliado a isso, o professor deve mediar a escolha das questões, esclarecendo que as perguntas são flexíveis e que no momento da entrevista, o estudante pode refazê-las, se necessário for. É nesse sentido que as perguntas elaboradas anteriormente pelo entrevistador são apenas um modelo norteador. Seguem alguns exemplos de questões que podem ser formuladas para a fase inicial da entrevista, ou seja, no momento em que o entrevistado está conhecendo o depoente e coletando informações básicas, porém fundamentais: • Idade. • Local de nascimento. • Local de nascimento da mãe e do pai. • Origem da família materna (país, se de origem urbana ou rural). • Origem da família paterna. • Conheceu/conviveu com os avós? • Quantos irmãos tem? • Conte-me sobre a sua formação escolar. Onde começou a estudar? Em paralelo à elaboração do projeto e do questionário, há que se pensar que para o desenrolar de uma boa entrevista os alunos devem procura aprender sobre o tema que será abordado. Esse conhecimento prévio pode se estender a outro campo: conhecer o entrevistado. Para tanto, o aluno terá que fazer uma pesquisa sobre o tema em questão e, na medida do possível, sobre o entrevistado. Metodologia do Ensino de História 53 Cabe então a marcação da entrevista, bem como a definição de local e horário para o encontro. Em geral, os projetos de história oral costumam deixar o entrevistado livre para essa escolha, Entretanto, em algumas realidades a saída da escola pode ser um problema para o estudante, além do que o lugar escolhido pelo entrevistado - normalmente a casa dele - pode não ter espaço bastante para acomodar todos os estudantes. Sendo assim, cabe a orientação para que essa entrevista aconteça na própria escola. História oral: trabalho e ética Conforme Portelli (1981), o respeito pelo valor e importância de cada indivíduo constitui uma das primeiras lições de ética sobre a experiência com o trabalho de campo na história oral. Como alunos ou professores que se interessa pela história oral, nossa arte de ouvir baseiam-se na consciência de que praticamente todas as pessoas com quem conversamos enriquecem nossa experiência. Cada um de nossos entrevistados representa uma surpresa e uma experiência de aprendizado, pois trazem visões e concepções diferentes umas das outras. Por constituir um trabalho de campo que envolve a intersubjetividade e importantes relações humanas, ressaltamos que há princípios éticos específicos relacionados à história oral. Os professores ou alunos pesquisadores têm a responsabilidade não só de obedecer a determinadas normas quando reúnem informações, como também devem respeitá-las quando finalmente realizam as interpretações dos depoimentos. Um dos aspectos mais importantes é o compromisso de não usar o material da entrevista de forma que possa prejudicar ou desagradar o(a) entrevistado(a). Ou seja, não podemos abrir mão do compromisso com a honestidade e o respeito por aqueles com quem trabalhamos. Isso implica também no interesse pela verdade e vontade de saber como os fatos históricos ocorreram, reconhecendo de maneira aberta a possibilidade da existência de múltiplas narrativas e não apenas em uma única e incontestável história. Metodologiado Ensino de História 54 Consideramos que existem quatro etapas muito importantes e específicas para a realização da História oral, qual sejam: trabalho de campo, edição, interpretação e restituição. Vejamos a seguir de que maneira os docentes poderão seguir um caminho norteador para mediar o trabalho que irão desenvolver com seus alunos: Trabalho de campo • Em geral, como o pesquisador irá à casa do entrevistado ou ao seu ambiente de trabalho, deverá primeiramente pedir permissão para ligar o gravador. • É importante também entregar ao depoente o termo de consetimento e autorização da entrevista, principalmente se o entrevistador pretende publicar o resultado de sua pesquisa. • Exponha ao entrevistado os objetivos que te levaram até ele. Fale sobre seu interesse na história que ele irá contar, mostre-se aberto e responda perguntas que ele possa fazer. • Devemos agir de maneira espontânea, criando um ambiente confortável e amistoso em que as pessoas tenham condições de falar sobre os assuntos que estamos investigando. • Devemos orientar nossos alunos para agirem com educação e respeito com seu entrevistado, lembrando sempre a máxima de que o essencial é saber a arte de ouvir. • Paralelamente à arte de ouvir, é necessário manter flexível a pauta do trabalho. Ou seja, temos que incluir não só aquilo que acreditamos querer ouvir, mas também o que a outra pessoa considera importante dizer. • Cabe, ainda, ao professor alertar os alunos que as pessoas podem ter dificuldade de falar sobre alguns assuntos, gaguejar e até mesmo se emocionarem, pois estarão falando de coisas muito importantes para elas. • Exemplo de termo de consentimento de entrevista: Metodologia do Ensino de História 55 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA A REALIZAÇÃO DA PESQUISA PROJETO DE PESQUISA: Título Local e Data Prezado(a) senhor(a) ... Eu (nome, estado civil, documento de identidade), declaro para os devidos fi ns que cedo os direitos autorais de minha entrevista gravada em (datas das entrevistas) para (nome do entrevistador) usá-las integralmente ou em partes, sem restrições de prazos ou citações, desde a presente data. Abdicando de direitos meus e de meus descendentes quanto ao objeto desse termo de consentimento, subscrevo o presente. _________________________ Assinatura do depoente Edição Apontaremos nesta parte o processo de edição da entrevista e a postura do entrevistado perante a publicação textual do depoimento. Se o professor e/ou a escola tiverem pretensão de divulgar o trabalho realizado a partir da História Oral para a comunidade, a edição das entrevistas é muito importante na medida em que o discurso oral não se constitui um texto propriamente dito. Em outras palavras, a linguagem falada e coloquial possui uma estrutura bastante diversificada da escrita Metodologia do Ensino de História 56 culta e, quando transcrita fielmente, pode transformar-se em um texto incompreensível para publicação ou divulgação (FERNANDES, 2001). A elaboração de um texto deve passar por uma edição e uma escolha do material produzido, que deve envolver toda a turma. No caso da elaboração de um material impresso ou de uma exposição, será necessário realizar atividades de editoração e diagramação para, finalmente, publicar os resultados. A finalização do projeto pode ser realizado por meio seminários ou feiras. Os pais e a própria comunidade podem ser chamados a participar desse acontecimento público, o que dará sentido a todo o processo. Vejamos alguns pontos condizentes ao processo e editoração: • É comum que o próprio entrevistado indague sobre a divulgação do depoimento que ofereceu, solicitando que não se publique a entrevista com as características da linguagem falada. • A edição do depoimento deve levar em conta sua reestruturação gramatical. • Ao editarmos uma entrevista, estaremos alterando sua forma original, porém o conteúdo não deve ser modificado. • Há elementos impossíveis de serem transcritos e transformados em texto, tais como a entonação da voz, as lacunas e o gestual do depoente. • Existem ainda no depoimento fragmentos de frases ou pensamentos que não são possíveis de serem estruturados formalmente. Por isso, torna-se impossível sua reconstituição, e desnecessário sua manutenção. A exclusão destes fragmentos não irá alterar o conteúdo do que foi intencionalmente dito. • Por fim, é importante ter clareza de que os entrevistados precisam se identificar com o material que será sua entrevista transcrita e editada. Metodologia do Ensino de História 57 Interpretação Depois que nossos alunos realizaram as entrevistas, como podemos ensiná-los a buscar significado àquilo que ouviram, gravaram e transcreveram? Ou seja, quais são as possíveis formas interpretativas que eles precisam conhecer? • Em primeiro lugar, devemos ter clareza de que nunca iremos saber de toda a “verdade” ou obter uma história total sobre um fato ou um evento. • Estamos lidando com elementos mutáveis, como imaginação, subjetividade, memórias e multiplicidade de narrativas históricas. • Por esse mesmo motivo, essa abordagem nos compromete com o reconhecimento do pluralismo e das variadas formas de se chegar à verdade. • O trabalho que realizamos adquire uma dimensão interpretativa que é inerente às palavras reproduzidas dos nossos entrevistados. Ao mesmo tempo, nosso trabalho adquire uma dimensão dialógica pois coexiste também a interpretação que os leitores farão dessas palavras. • Concluindo: aquilo que criamos é um texto dialógico de múltiplas vozes e múltiplas interpretações: temos as interpretações dos entrevistados, as nossas interpretações e as interpretações dos leitores. Restituição Uma grande parcela dos trabalhos de história oral realizados nas escolas, principalmente no ensino fundamental, diz respeito às imediações da instituição escolar. Em outras palavras, os temas dizem respeito ao cotidiano da comunidade e das especificidades identitárias e diversidades que cercam a escola. Por isso, cabe lembrar que para promover a integração entre escola e comunidade, ou melhor, para que os estudantes sintam seu pertencimento à aquele grupo, é fundamental promover a devolução do trabalho à comunidade que o gerou. Assim, por meio da criação de um produto histórico - um folder, um texto, uma exposição, uma palestra – é possível dar acesso público aos resultados do trabalho. Metodologia do Ensino de História 58 RESUMINDO: É envolvendo a comunidade e buscando seu apoio que os trabalhos com história oral podem ganhar relevância na busca do conhecimento histórico. A história oral pode ser aliada na valorização das histórias individuais e dos saberes locais. Assim, depois do projeto finalizado, com todos os seus resultados, ele pode ser arquivado na biblioteca da escola e servir de referência a outros trabalhos da mesma natureza que venham a ser desenvolvidos em anos posteriores. O trabalho com fontes orais pode fazer com que o ensino de História caminhe em direção de muitas descobertas e possibilidades analíticas. Os depoimentos estão repletos de práticas de resistência, singularidades e vivências cotidianas. Num mundo em que se perde parte de suas referências, especialmente mitos, tradições milenares e narrativas familiares, o trabalho com a memória incide na valorização das experiências sociais e individuais. Oferece, ainda, a possibilidade dos alunos conhecerem e se aproximarem de sujeitos que participaram de processos históricos, aliado a todo impacto das representações que estes fazem de si e do mundo. Por extensão, como aponta Gaebrin e Penna (2006), as fontes orais auxiliam a manter uma atitude consciente na tarefa de reinventar a vida e o modo de pensar a história. Um dos pontos centrais desta metodologia diz respeito à interpretação da experiência narrada. Isto é, a História Oral deveser entendida como um método capaz de produzir interpretações sobre processos históricos relativos ao tempo presente. Este, por sua vez, só pode ser conhecido por intermédio de pessoas que participaram ou testemunharam algum tipo de acontecimento ou vivera experiências subjetivas importantes na história. Quando um indivíduo passa a relatar suas memórias, transmite emoções e vivências que podem e devem ser compartilhadas, transformando-as, assim, em experiências. No momento em que uma entrevista é realizada, o depoente encontra um interlocutor – o estudante no caso, com quem pode trocar impressões sobre a vida que testemunhou. Metodologia do Ensino de História 59 REFERÊNCIAS ANDRÉ, M. 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SCHMIDT, Maria Auxiliadora. O ensino de história local e os desafios da formação da consciência histórica. In: MONTEIRO, A. M. F. C.; GASPARELLO, Arlete M., MAGALHAES, Marcelo de S.(orgs). Ensino de História: sujeitos, saberes e práticas. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2007. Metodologia do Ensino de Históriade História 11 e práticas sociais indispensáveis ao exercício de uma vida de cidadania plena” (BRASIL, 1998, p. 6). Tendo como base essas premissas, tornar-se docente de uma determinada área não requer apenas o domínio dos conteúdos específicos desta área. O esforço para garantir um ensino contextualizado e interdisciplinar na educação básica exige dos cursos de formação de professores uma elaboração e vivência curricular baseada na articulação entre o ensino superior e o de nível básico. A Base Nacional Comum chama atenção para os seguintes aspectos relacionados à formação de professores: [...] definida no documento da Conae (2010), deve voltar-se para a garantia de uma concepção de formação pautada tanto pelo desenvolvimento de sólida formação teórica e interdisciplinar em educação de crianças, adolescentes, jovens e adultos(as) e nas áreas específicas de conhecimento científico quanto pela unidade entre teoria e prática e pela centralidade do trabalho como princípio educativo na formação profissional, como também pelo entendimento de que a pesquisa se constitui em princípio cognitivo e formativo e, portanto, eixo nucleador dessa formação (BRASIL, 2015, p. 7). A percepção de que o professor de educação básica pode pesquisar sobre o ensino que ministra, possibilita o aprofundamento da formação docente no contexto dos aspectos específicos do seu campo de trabalho. A escola básica tem exigido dos novos professores conhecimentos e iniciativas que esse novo profissional recém-formado desconhece, por vezes, completamente. O atual professor de História precisa buscar diálogos e práticas interdisciplinares, além de efetivar uma prática educativa que considere as diferenças cognitivas, físicas e culturais de seus alunos. Ele também é corresponsável pela gestão da escola e, em determinados momentos, pode se tornar o principal gestor, conforme princípios da autonomia escolar (AZEVEDO, 2015). As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica (BRASIL, 2015) apontam para a importância da constituição da Base Comum Nacional, tendo em vista os seguintes aspectos: Metodologia do Ensino de História 12 I - sólida formação teórica e interdisciplinar dos profissionais; II - a inserção dos estudantes de licenciatura nas instituições de educação básica da rede pública de ensino, espaço privilegiado da práxis docente; III - o contexto educacional da região onde será desenvolvido; IV - atividades de socialização e avaliação dos impactos; V - aspectos relacionados à ampliação e ao aperfeiçoamento do uso da língua portuguesa e à capacidade comunicativa, oral e escrita, como elementos fundamentais da formação dos professores e à aprendizagem de Libras; VI - questões socioambientais, éticas, estéticas e relativas à diversidade étnico-racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional e sociocultural como princípios de equidade. (BRASIL, 2015, p. 44). Conforme todas essas exigências, o futuro professor de História deverá estar capacitado a: trabalhar na promoção da aprendizagem e do desenvolvimento de sujeitos em diferentes fases do desenvolvimento humano nas etapas e modalidades de educação básica; dominar os conteúdos específicos e pedagógicos e as abordagens teóricas metodológicas do seu ensino; relacionar a linguagem dos meios de comunicação à educação, demonstrando domínio das tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento da aprendizagem; atuar na gestão das instituições de educação básica, planejando, executando e avaliando políticas, projetos e programas educacionais assim como o projeto pedagógico da instituição; realizar pesquisas que proporcionem conhecimento sobre os estudantes e sua realidade sociocultural e sobre processos de ensinar e de aprender; sobre propostas curriculares, entre outros. (BRASIL, 2015, p. 27). Metodologia do Ensino de História 13 Fonte: Freepik Nesta perspectiva, é necessário que o curso de formação de professores de História possua relações intrínsecas com a licenciatura, tendo em vista a importância da articulação com o curso de bacharelado e as licenciaturas. Isso significa também a necessidade de existência de uma “efetiva articulação entre faculdades e centros de educação, institutos, departamentos e cursos de áreas específicas, além de fóruns de licenciatura” (BRASIL, 2015, p. 28), implicando na mudança de ações e práticas educativas por parte dos professores formadores, muitos dos quais rejeitam essa articulação. Para a formação de professores, conforme as novas DCN (BRASIL, 2015, p. 30), os cursos de licenciatura deverão possuir, no mínimo, 3.200 horas assim distribuídas: a. 400 (quatrocentas) horas de prática como componente curricular, distribuídas ao longo do processo formativo; b. 400 (quatrocentas) horas dedicadas ao estágio supervisionado, na área de formação e atuação na educação básica, contemplando também outras áreas específicas, se for o caso, conforme o projeto de curso da instituição; c. pelo menos 2.200 (duas mil e duzentas) horas dedicadas às atividades formativas estruturadas pelos núcleos I e II, conforme o projeto de curso da instituição; Metodologia do Ensino de História 14 d. 200 (duzentas) horas de atividades teórico-práticas de aprofundamento em áreas específicas de interesse dos estudantes, como definido no núcleo III, por meio da iniciação científica, da iniciação à docência, da extensão e da monitoria, entre outras, conforme o projeto de curso da instituição. Finalmente, conforme Azevedo (2015), esse retrato aponta mais uma vez para a necessidade de estudos e discussões entre os professores formadores tendo em vista o processo de melhorias nos cursos de História, o que inclui formar o profissional da História em permanente articulação com princípios de outra grande área, a Educação. Tomando por base esses aspectos, o Projeto Pedagógico do Curso (PCC) de licenciatura em História deverá levar em consideração diferentes características e dimensões da iniciação à docência, entre as quais: • Estudo do contexto educacional; • Ações que valorizem o trabalho coletivo e interdisciplinar com intencionalidade clara; • Planejamento e execução de atividades nos espaços formativos desenvolvidas em níveis crescentes de complexidade em direção à autonomia do estudante em formação; • Participação nas atividades da escola; análise do processo pedagógico e de ensino-aprendizagem dos conteúdos específicos e pedagógicos, além das diretrizes e currículos educacionais da educação básica; • Leitura e discussão de referenciais teóricos contemporâneos educacionais e de formação; cotejamento e análise de conteúdos que balizam e fundamentam as diretrizes curriculares para a educação básica; desenvolvimento, execução, acompanhamento e avaliação de projetos educacionais e escolares (BRASIL, 2015, p. 26). Metodologia do Ensino de História 15 Atuação doProfessor de História Nada mais natural a um curso de licenciatura do que discutir a dimensão da prática da docência. No entanto, a falta de clareza sobre princípios epistemológicos que fundamentam as práticas educativas pode direcionar tais cursos à falta de problematizações a respeito do tema. É preciso clareza sobre a definição de prática no PPC do curso de licenciatura. A definição de prática como componente curricular pelo grupo docente da licenciatura em História poderá se constituir no “eixo formativo para a docência”. A ausência desse eixo tem se constituído no maior problema dos cursos de licenciatura, segundo Gatti (2010). Conforme as novas DCN de 2015, que reiteram o estabelecido em 2001, a prática docente deve assumir, desde o início do curso, uma dimensão pedagógica fundamental e para tanto deve ser tratada como “componente curricular” (AZEVEDO, 2015). Isso pressupõe umaperspectiva transversal de trabalho orientado pela investigação entre teoria e prática em (e entre) todos os componentes curriculares ou disciplinas do curso. A dimensão da prática da docência é muito mais complexa do que possa parecer inicialmente, visto que ela não se refere, por exemplo, a uma rotina de fazeres de um professor simplesmente. Tal dimensão baseia- se em bases teóricas que apontam para uma relação entre teoria e prática, orientando o papel do professor para o estabelecimento de uma maior proximidade com o processo de aprendizagem dos seus alunos (AZEVDO, 2015). Metodologia do Ensino de História 16 Fonte: Freepik Estudos de Schön (2000) respaldados na epistemologia da prática influenciaram pesquisas na área de Educação, especialmente, com foco na formação de professores. A orientação básica dessa perspectiva é o processo reflexivo sobre a prática docente que possibilitaria ao docente construir conhecimento sobre o seu próprio ofício. A reflexão na ação, sobre a ação e sobre a própria reflexão na ação caracterizam a epistemologia da prática, a qual vem influenciando as reformas nos cursos de formação de professores no Brasil, sobretudo, no atual milênio (AZEVEDO, 2015). A defesa de tratamento próprio e permanente à dimensão prática da formação aparece em estudos de outros pesquisadores da área como Tardif (2000, 2002), ao apregoar saberes próprios para o exercício da docência, e Nóvoa (1992) ao discutir o que chama de simetria invertida, conceito adotado pelas diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores no Brasil desde 2001 (BRASIL, 2001a, 2001b). Essa dimensão da prática como componente curricular não se confunde com o modelo aplicacionista do conhecimento, a partir do qual o futuro professor Metodologia do Ensino de História 17 “aplicaria” em sala de aula (geralmente no estágio), o que aprendeu com base em seus estudos teóricos, em uma completa desvinculação entre teoria e prática. Para uma melhor compreensão sobre essa nova dimensão da prática, é válido considerarmos o que declara o Conselho Nacional de Educação em seu Parecer n. 28/2001: “[...] deve ser planejada quando da elaboração do projeto pedagógico e seu acontecer deve se dar desde o início da duração do processo formativo e se estender ao longo de todo o seu processo. Em articulação intrínseca com o estágio supervisionado e com as atividades de trabalho acadêmico, ela concorre conjuntamente para a formação da identidade do professor como educador. Esta correlação teoria e prática é um movimento contínuo entre saber e fazer na busca de significados na gestão, administração e resolução de situações próprias do ambiente da educação escolar (BRASIL, 2001b, p. 11).” Fica clara, assim, a distinção entre prática como componente curricular e estágio supervisionado, posto que este passa a ser considerado mesmo como o momento de contato efetivo com o exercício profissional durante a formação inicial. O estágio supervisionado passa a ser entendido como: [...] o tempo de aprendizagem que, através de um período de permanência, alguém se demora em algum lugar ou ofício para aprender a prática do mesmo e depois poder exercer uma profissão ou ofício. Assim o estágio curricular supervisionado supõe uma relação pedagógica entre alguém que já é um profissional reconhecido em um ambiente institucional de trabalho e um aluno estagiário. Por isso é que este momento se chama estágio curricular supervisionado (BRASIL, 2001b, p. 11). Real (2012), ao bem analisar diferentes instrumentos normativos do Conselho Nacional de Educação, relativos à formação docente, aponta a prática como componente curricular como algo amplo, como elemento estruturador ao longo de um curso e não como algo passível de ser enquadrado em uma disciplina acadêmica simplesmente: [...] é possível sinalizar que a criação de uma disciplina intitulada “prática de ensino” não parece atender aos princípios requeridos pela política nacional de formação de professores que está em curso. Nesse mesmo sentido, não deve ocorrer a criação Metodologia do Ensino de História 18 de disciplinas de caráter prático. A dimensão prática parece que deve vir diluída ao longo do curso entre as disciplinas de caráter propositivo, estabelecendo uma relação dialética entre teoria e prática (REAL, 2012, p. 60). As pesquisas na área têm avançado e, hoje, há consenso sobre a necessidade de uma formação que articule teoria e prática como alicerce para a compreensão e resolução de questões concernentes aos processos de ensinar e aprender. Esse contexto leva-nos a uma nova maneira de conceber a instituição formativa e, por consequência a formação do professor e o seu papel na escola. Contudo, como bem afirma Ghedin (2012, p. 1018) “embora os esforços e as conquistas no campo das pesquisas ao longo desses anos, a proposição de uma formação que atenda as necessidades do trabalho docente foram muito mais discutidas do que verdadeiramente incorporadas nos espaços de formação de professores”. Ou seja, mudam-se discursos, elaboram-se propostas, mas na prática pouco acontece. Diniz-Pereira (2011) analisa as origens das dificuldades de se compreender e se seguir o princípio da indissociabilidade teoria-prática na formação docente, e nesse sentido, o autor afirma que “recebemos uma herança cultural muito forte que tende a separar e hierarquizar as atividades de cunho teórico e intelectual, de um lado, e as atividades práticas, manuais e laborais, de outro” (2011, p. 212). A análise do autor, que toma por base estudos de John Dewey, chega até à Grécia Antiga para mostrar as origens da separação entre teoria e prática na cultura ocidental. A ênfase na dimensão prática relativa à docência não significa “reforçar as ideias conservadoras e retrógradas que limitam a formação docente ao mero treinamento de habilidades necessárias ao ensino, ou seja, concepções meramente técnicas e instrumentais sobre a formação de educadores” (DINIZPEREIRA, 2011, p. 213). Essa perspectiva refere-se a um movimento de profissionalização do trabalho docente, iniciado mais precisamente na década de 1980, nos Estados Unidos e no Canadá. A prática como componente curricular possibilita melhor formarmos o professor. Uma vez que em um curso de licenciatura, o futuro docente não pode continuar experimentando o lugar de aluno, já vivido durante Metodologia do Ensino de História 19 a sua educação básica. Estamos formando o professor e não um aluno. Logo, é imprescindível que desde o início do curso, o licenciando vivencie experiências de prática profissional. O sujeito não pode se formar professor vivendo o papel de aluno. A prática como componente curricular objetiva assim tornar a licenciatura coerente com a sua função: formar professores (AZEVEDO, 2015). Conceitos históricos em sala de aula No artigo “Construindo conceitos no ensino de história: “a captura lógica” da realidade social”, a historiadora Maria Auxiliadora Schmidt (1999) propõe uma apresentação de ideias que esclarecem os conceitos que devem ser trabalhados na disciplina de História. Dessa maneira, ela chama atenção para o fato de que na construção de conceitos históricos, é preciso ser cuidadoso para não transformar este objetivo “no uso abusivo de termos técnicos ou na imposição de definições abstratas e memorizações formais de palavras e do seu significado” (SCHMIDT, 1999, p. 149). Aprender conceitos, como afirma a historiadora, não significa acumular definições ou conhecimentos formais, mas construir uma grade que auxilie o aluno na sua interpretação e explicação da realidade social. Com base nesse artigo, apresenta-se a seguir importantes conceitos trabalhados no ensino-aprendizagem em História. Esse trabalho abarca algumas atividades, como classificação, definição, aplicação em determinadas situações, programação e de comunicação(SCHMIDT, 1999, p. 153). Porém, atendendo aos objetivos deste texto, iremos privilegiar os dois primeiros, quais sejam, classificação e definição: A atividade de classificação significa que alguns conceitos são relacionados com o seu significado mais amplo e outros pelo seu significado mais específico ou temático. Conceitos como os de civilização, sociedade, poder, economia e cultura podem ser apreendidos pelo seu significado mais amplo, tendo em vista algumas orientações. Metodologia do Ensino de História 20 Civilização: Este conceito pode ser apreendido a partir de vários critérios acessíveis aos alunos. Podem ser explorados os modos de viver, de morar, de locomover, de vestir, de alimentar, de cuidar de si, analisar as mentalidades, crenças e tradições (como a festa, a feira, etc. ...); estudar o patrimônio (como a língua falada, a escrita, os monumentos, as obras de arte, os objetos e utensílios e a paisagem). Sociedade: A construção do conceito de sociedade é realizado a partir do conhecimento de uma determinada organização social em um determinado momento da história; de se situar os direitos e deveres dos diferentes componentes sociais (operários, classes médias, etc.); de se situar as grandes fases como as de conquista, colonização, crise, revolução, entre outras. Poder: Aprender este conceito diz respeito, por exemplo, à compreensão do modo como as pessoas são governadas e como se tem exercido o poder político através das instituições; como as nações narram os acontecimentos relativos ao seu passado de guerra e paz. O conceito de poder é necessário ao cidadão, tanto em seu aspecto político (poder monárquico, republicano, etc., como em outros aspectos relacionados com o poder econômico, religioso, social, ideológico). Cultura: A construção do conceito de cultura pressupõe, basicamente, a necessidade de se conhecer a maneira de viver, o tamanho e forma geral das sociedades, a natureza das classes sociais, dos papéis de gênero, dos aspectos étnicos, das religiões e crenças. Trata também de tudo o que diz respeito à criatividade humana na arte, na arquitetura, música e dança, e na literatura, bem como os aspectos da cultura mediática e da cultura comum. Economia: Normalmente apreendido através dos seus elementos visíveis, como a produção agrícola, artesanal e industrial. Diz respeito também aos recursos utilizados pelas pessoas para viver, incluindo a criação, produção, distribuição e consumo de riquezas e mercadorias. Entre outros, inclui ainda a maneira como as pessoas usam a tecnologia e a ciência. SCHMIDT, 1999, p. 153-154 Outro importante trabalho a ser realizado com os conceitos, é a sua definição. Para que os alunos possam construir a sua definição de um Metodologia do Ensino de História 21 conceito, é importante que ele saiba expressar o seu significado e consiga diferenciá-lo dos demais conceitos. Segundo Trepart (1995), os conceitos podem ser definidos de diferentes maneiras: DEFINIÇÕES NOMINAIS: Apelam à etimologia, isto é, referem-se ao significado do termo ou palavra que designa o conceito. Por exemplo: Democracia - vem do grego antigo: demos (povo) e kratos (poder), e significa poder ou governo do povo. Muitas vezes essas definições podem ajudar a criar referências. No passado mais remoto e a vivenciar certas heranças presentes no cotidiano atual. DEFINIÇÕES REAIS: Referem-se ao objeto que designa. Por exemplo: Democracia - é uma doutrina política que defende a intervenção do povo no governo e na eleição de governantes. DEFINIÇÕES ESSENCIAIS: Precisam o significado de um conceito por meio da enumeração de algumas características consideradas indispensáveis para a sua definição. Por exemplo: democracia - regime político, doutrina. DEFINIÇÕES POR ANTÔNIMOS OU SINÔNIMOS: Como a própria indicação aponta. Por exemplo: democracia - é o contrário de ditadura. DEFINIÇÕES DESCRITIVAS: Trata-se de explicar o significado de um conceito por meio da enumeração do maior número de suas características. Por exemplo: democracia ¬ regime político caracterizado pela liberdade de expressão, associação, manifestação, no qual o poder é exercido pelos representantes do povo, livremente eleitos em sufrágio universal, direto e secreto. DEFINIÇÕES POR SÉRIE: Nesse caso, o conceito é definido com base em sua contextualização dentro de um quadro temporal de sucessão ou simultaneidade. Por exemplo: Democracia - regime político de Atenas, fundado por Clístenes no séc. V a.C., posterior às oligarquias que existiam nesta cidade. É importante observar que, na construção das definições dos conceitos, deve-se evitar passar a ideia de que só uma definição é correta. Metodologia do Ensino de História 22 Ao final de seu artigo, Schmidt avalia a importância de um trabalho sistematizado com os conceitos históricos, contribuindo para que alunos e professores realizem uma leitura mais reflexiva e crítica dos documentos e conteúdos históricos. Esse trabalho lembra a historiadora, não deve ser feito de maneira fragmentada e isolada, do tipo “atividades no final de capítulos de livros ou unidades, mas de forma orgânica e sistemática no decorrer do processo de ensino-aprendizagem, integrado às atividades cotidianas da sala de aula (SCHMIDT, 1999, p. 163). Metodologia do Ensino de História 23 Avaliação no ensino de História Uma vez que os processos de ensino e de avaliação são atos que ocorrem de modo simultâneo, é necessário compreender também a importância das respostas às questões que compõem uma avaliação. Isto é, espera-se que estas devem ser resultado de exercício de análise crítica, comparação e criatividade, bem como do esforço de identificação das várias alternativas apresentadas no problema-questão. Por exemplo, as questões objetivas requerem emprego de raciocínio na identificação das alternativas corretas, enquanto as questões discursivas exigem por parte do aluno outra habilidade, qual seja: o saber expressar-se também por escrito. É nesse sentido que convém lembrar que em avaliação, as perguntas que são formuladas como diretas devem ser evitadas, por exigirem pouca reflexão e raciocínio contextualizado, posto que as respostas solicitadas incidem no que se denomina popularmente como “decoreba”. Na disciplina de História, por exemplo, esse tipo de questão é formulada da seguinte maneira: “Quem descobriu o Brasil?”, “Quem proclamou a república?”, “Quando é o dia do índio”? Logo, deve-se evitar este tipo de pergunta uma vez que não estimula a reflexão e a construção de conhecimento no processo ensino-aprendizagem. Em outras palavras, defende-se a idéia de que os acontecimentos não podem ser estudados isoladamente e que é preciso ensinar o estudante a pensar/refletir historicamente. Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1998), os métodos tradicionais de ensino, memorização e reprodução passaram a ser questionados com maior ênfase. Os livros didáticos foram amplamente criticados quanto aos conteúdos e exercícios propostos. A escrita simples e superficial dos textos, os conteúdos atrelados a determinadas ideologias (de classe, raça e gênero), os testes ou exercícios sem exigência de nenhum raciocínio foram apontados como comprometedores de qualquer avanço no campo curricular formal. Por isso, de acordo com os PCNs, o ensino está em processo de mudanças substantivas nos objetivos, conteúdos e métodos. Parte dessas mudanças é decorrente da ansiedade em diminuir distâncias entre o que é ensinado na escola fundamental e a produção universitária, isto é, entre Metodologia do Ensino de História 24 o saber histórico escolar e as pesquisas e reflexões que acontecem no plano do conhecimento acadêmico. A tentativa de aproximação entre estas duas realidades, nas quais o saber histórico está presente, faz com que a escola se envolva a seu modo no debate historiográfico atual, incorporando parte desuas tensões e contradições (BRASIL, 1998). Como ensinar e avaliar determinados conteúdos? Elegemos neste momento a disciplina de História para a reflexão do processo ensino-avaliação. Assim, pergunta-se inicialmente: como se ensina História? Como se avalia História? Em primeiro lugar, não se ensina História somente em sala de aula por meio dos livros didáticos. É fato que os estudantes têm acesso a informações e explicações históricas a partir das suas relações familiares e sociais, das mídias e veículos de comunicação e das tradições inerentes às regiões onde moram. A par disso, a convivência com gerações anteriores, o acesso a fotografias, depoimentos, testemunhos, memórias e objetos do passado também fazem parte do imaginário e da construção do conhecimento histórico. Cinema, rádio, televisão, internet, revistas, livros e jornais também são excelentes ferramentas que propiciam aos estudantes a refletirem sobre diferentes experiências humanas e contextos históricos. Por isso, os alunos são considerados agentes do processo de construção do conhecimento histórico uma vez que eles participam, da sua maneira, do trabalho da reconstituição da memória que, invarialvemente, recria e interpreta os fatos do passado. No entanto, é necessário fazer uma distinção clara e precisa entre o conhecimento que o aluno adquire em sala de aula e aquele adquirido nos demais lugares sociais. No âmbito escolar, o ensino e a avaliação da História relacionam-se a uma seleção criteriosa de conteúdos e métodos que envolvem o tempo, o fato e a relação entre os agentes históricos. Assim, o ensino é uma reelaboração de muitos saberes, constituindo o que se chama de saber histórico escolar. Esse saber é decorrente da interlocução feita por muitos profissionais, bem como pelas fontes, sendo permanentemente elaborado e construído conforme as demandas sociais, didáticas e pedagógicas. Conforme os PCNs, dele fazem parte, as: Metodologia do Ensino de História 25 • tradições de ensino da área; • vivências sociais de professores e alunos; • representações do que e como estudar; • produções escolares de docentes e discentes; • conhecimento fruto das pesquisas dos historiadores, educadores e especialistas das Ciências Humanas; • formas e conteúdos provenientes dos mais diferentes materiais utilizados; • informações organizadas nos manuais e as informações difundidas pelos meios de comunicação. É interessante pensar que os desdobramentos desta reflexão se estendem para nossa compreensão do que deve ser ensinado e avaliado. Ou seja, antigamente os acontecimentos históricos eram convencionalmente apresentados de modo isolado e efetivamente desarticulados de importantes contextos políticos, religiosos, culturais e econômicos. Exemplo disso é a faceta dada à história política, em que se apontavam somente as ações de governantes e heróis, ou seja, dos vencedores. Mas hoje, por outro lado, tem prevalecido a ênfase nas diversas atuações dos sujeitos históricos, bem como as relações de circularidade, continuidade e descontinuidade. Fonte: Freepik Metodologia do Ensino de História 26 As complementariedades, as contradições e os limites de uma única verdade estabelecida também são problematizadas no interior dos processos históricos de uma determinada época. São colocados em evidência os eventos que pertencem não somente à vida política, econômica, social e cultural, como também aqueles relacionados ao âmbito artístico, religioso, familiar, arquitetônico, científico e tecnológico. Valorizam-se eventos do passado mais próximo e/ou mais distante no tempo. Há a preocupação com as mudanças e/ou com as permanências na vida das sociedades. E como se dá a avaliação neste contexto? O conhecimento de noções e temas específicos da História, pelo saber histórico escolar, não significa que se pretende fazer do aluno um “pequeno pesquisador e historiador” e nem que ele tenha capacidade de escrever monografias históricas. O objetivo é que ele desenvolva a habilidade de analisar, observar, contemplar e selecionar informações importantes. Além disso, pretende-se que ele saiba interpretar os acontecimentos gerais e singulares da sua realidade, e que dizem respeito ao tempo presente. Por extensão, espera-se que o aluno consiga estabelecer relações entre os parâmetros atuais e do passado, datar e localizar as suas ações e as dos sujeitos históricos e, em certa medida, relativizar questões específicas de sua época. São estas as habilidades que se espera encontrar na avaliação. Assim, de acordo com os PCNs, a avaliação “não revela simplesmente as conquistas pessoais dos jovens ou do grupo de estudantes. Ela possibilita ao professor problematizar o seu trabalho, discernindo quando e como intervir e quais as situações de ensino-aprendizagem mais significativas ao longo do ciclo”. (BRASIL, 1998, p 40). A fim de contemplar a diversidade de circunstâncias que o docente encontra quando se posiciona diante dos alunos, ele precisa, por conseguinte, ter acesso a atividades didáticas múltiplas e complementares. Paulatinamente, em sala de aula, o professor pode recorrer ao registro de importantes situações vividas pelos alunos no processo de ensino, além de se informar sonre experiências de outros docentes e compartilhar as suas com outros educadores. Por fim, um interessante instrumento avaliativo do professor para verificar a coerência de seu trabalho, identificar os principais pontos para Metodologia do Ensino de História 27 recriá-lo, construir um conjunto de experiências didáticas e socializar suas vivências de sala de aula, é a produção de relatórios escritos. Com isso, “ele estimula o exercício de explicitar em uma comunicação com as outras pessoas as intenções, as reflexões e as fundamentações, as hipóteses dos alunos e as intervenções pedagógicas, recuperando, entre inúmeros aspectos, aqueles que poderiam ser modificados ou recriados em outra oportunidade”. (BRASIL, 1998, p. 41). Primeiro exemplo de oficina: A Segunda Guerra Mundial Considerada por muitos historiadores como o evento mais importante do século, a Segunda Guerra Mundial foi acima de tudo um grande acontecimento que envolveu muitos povos de diferentes nacionalidades, cujas consequências mostram-se na formação das atuais conjunturas políticas, econômicas, culturais e sociais. A Segunda Guerra Mundial foi um acontecimento decorrente de graves crises econômicas, ideológicas, institucionais e políticas que arruinou a economia de muitos países e dizimou milhares de pessoas. Por consequência, o mundo que a guerra deixou, ao contrário das expectativas gerais, não se mostrou mais livre, seguro e solidário que o anterior. Nessa direção, pode-se elencar os possíveis conteúdos a serem trabalhados: • Os processos sociais, econômicos e políticos que lhe deram origem, destacando-se a grande depressão dos anos 30; • A radicalização ideológica entre o socialismo e o capitalismo, que culminou na origem do totalitarismo; • As marchas e contramarchas da guerra, inclusive a participação brasileira no conflito; • Os momentos decisivos da guerra, até a vitória dos aliados na Europa e no Pacífico; • As negociações de paz e o novo desenho geopolítico-militar do mundo no pós guerra; Metodologia do Ensino de História 28 • As transformações econômicas, sociais, culturais e tecnológicas que a guerra provocou no mundo nas décadas seguintes a 1945. A revisão histórica da Segunda Guerra Mundial oferece um acervo amplo e múltiplo de possibilidades didáticas interessantes, seja explorando os conteúdos temáticos, organizando e articulando os fatos da guerra ou, então, refletindo sobre os desdobramentos do conflito. Como este conteúdo é amplo e diversificado, a avaliação poderá ser feita a partir de pesquisas sobre determinados temas apresentados aos alunos feitos aos alunos: • Um mapeamentodo conflito, que pode ser feito sobre um mapa- múndi, indicando os principais dados geográficos, demográficos, econômicos, políticos e culturais sobre os países, regiões e povos envolvidos no conflito. É um trabalho que pode ser feito em equipe. • Um quadro ou mapa das grandes e decisivas batalhas da guerra, com dados sobre localização, efetivos militares, armas, estratégias, táticas, personagens, envolvimento da população local. • Uma pesquisa orientada sobre a propaganda na guerra; seu sentido político-ideológico, os meios, as técnicas, a influência no desenvolvimento do conflito, etc. • Uma pesquisa sobre o envolvimento progressivo do Brasil no conflito, desde o rompimento de relações com o Eixo até a declaração de guerra e eo envio da FEB para a Itália, terminando com os desdobramentos politicos internos dessa participação. Por extensão, a fim de estimular a criatividade dos alunos, poderiam ser pesquisadas as reações de diferentes grupos nacionais e estrangeiros no Brasil à participação do país na guerra. • Uma pesquisa sobre o Holocausto, o processo de extermínio de judeus na Europa, promovido pela Alemanha nazista: números, lugares, campos, revoltas, depoimentos de pessoas envolvidas, pronunciamentos de autoridades, etc. • Um trabalho de grupo sobre a história do bombardeio atômico das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, com informações Metodologia do Ensino de História 29 gerais sobre o episódio, depoimentos publicados no Japão e nos Estados Unidos, repercussão na imprensa mundial, etc. • Uma investigação sobre algumas transformações sociais e culturais decorrentes da Segunda Guerra Mundial como, por exemplo, a expansão de massa e o novo papel da mulher no mercado de trabalho. • Debate sobre alguns dos numerosos livros, filmes, documentários e reportagens que têm por tema a Segunda Guerra Mundial. Percebe-se que este tema exigem do aluno a capacidade de interpretação de textos, articulação de ideias, reflexão sobre temas diversos, contextualização dos processos históricos, identificação de relações complementares e de continuidades e descontinuidades históricas. São questões que vão além da simples pergunta “Quais foram os países que compuseram o Eixo?”, ou então, “Quem era o presidente dos EUA na época?” Naturalmente que estas duas últimas questões são importantes, mas não condizem ao esperamos atingir na avaliação. Desta forma, a avaliação neste projeto de trabalho não possui caráter de classificação. Não há espaço para excluir, sentenciar, aprovar ou reprovar. A avaliação deixa de ser classificatória e passa a ser processual. Devemos ainda considerar que o trabalho por projetos assim constitui uma possibilidade metodológica que potencializa o desenvolvimento de estudos e pesquisas, numa perspectiva inter e multidisciplinar, capaz de redimensionar a gestão do processo de ensino e ressignificar a concepção de aprendizagem em História. Como a maior parte dos temas sugeridos articulam-se à pesquisa, o estudante pode apresentá-la da seguinte maneira: • Seminários; • Portfólio; • Debate; • Relatórios; • História em quadrinhos. Metodologia do Ensino de História 30 Segundo exemplo de oficina: A Ilha das Flores e suas relações com o consumo e a sociedade capitalista O segundo exemplo traz um trabalho interdisciplinar desenvolvido em aulas de história, geografia e ciências naturais, tomando como base o famoso documentário Ilha das Flores. O uso deste recurso insere-se no quadro da tendência metodológica voltada para a incorporação da linguagem cinematográfica no processo de ensino e aprendizagem. As experiências realizadas situam-se no movimento de ampliação do campo temático e documental visando redimensionar a história e a geografia praticadas por alunos e professores nos diferentes espaços e níveis de escolaridade. (FONSECA, 2005, p. 179). O curta-metragem Ilha das Flores, do cineasta Jorge Furtado (1988), constitui excelente fonte de pesquisa, possível de ser utilizada em múltiplos temas e situações. O documentário tem duração de 15 minutos, em cores, com narração clara, objetiva e um jogo rápido de imagens e conceitos, montagem e roteiro cuidadosos, provocando didaticamente os telespectadores, instigando-os a pensar sobre a degradação social e ambiental das grandes cidades do Brasil. (FONSECA, 2005, p. 179). O documentário constitui importante fonte para trabalhar o tema “Introdução ao estudo da história e/ou da geografia”, que geralmente aparece nos programas de 5 série do ensino fundamental, ou às vezes se repete nos programas de todas as séries, a partir da 3 ou 4 série da primeira etapa do ensino fundamental. E qual seria a temática mais importante atribuída a este documentário? A constituição da sociedade capitalista e do consumo. Em outras palavras, o filme pode dar uma grande contribuição ao estudo dos conceitos e para a explicação da dinâmica e do caráter processual do capitalismo, bem como suas relações com o cotidiano dos alunos e das regiões onde eles moram. Mas, além disso, há alguns pontos mais específicos que esta problemática traz, tais como: • Liberalismo e neoliberalismo; • Consumo: eferta e procura; Metodologia do Ensino de História 31 • Problemas ambientais; • Problemas sociais; • Processo de ocupação e reorganização do espaço na sociedade capitalista; • Desumanização do homem, em especial aqueles que vivem de forma marginalizada; • Apropriação da natureza; • Análise da dinâmica socioespacial. E a avaliação? Tendo em vista a possibilidade de amplo debate das inúmeras questões levantadas pelo documentário, é importante, inicialmente, os estudantes terem a seguinte clareza das relações estabelecidas no filme: Homens Trabalho Produto Consumo Lixo Mercadoria Lucro Poluição Natureza No interior do processo avaliativo, este quadro pode ser montado, passo a passo, pelo professor e pelos alunos durante a discussão em sala Metodologia do Ensino de História 32 de aula, à medida que as diferentes cenas aparecem no filme. A discussão de tais elementos pode ser resumida em alguns tópicos colocados pelo professor de modo que os alunos avaliem e respondam, quais sejam: • Estabeleça a relação entre o homem (Sr. Suzuki) e o trabalho (plantar e colher) na modificação da natureza. • O produto (o tomate) é uma consequencia da relação do trabalho do homem com a natureza. O que é trocado pelo tomate, tornando-o uma mercadoria? • A mercadoria (tomate) é vendida à população (D. Anete e família), para atender as necessidades de consumo alimentar. Peça para que os alunos observem como o produto do trabalho do homem é essencial para suprir as necessidades de sobrevivência do próprio homem. • Como o tomate é uma mercadoria perecível, ele estraga facilmente e vai para o lixo. Isso causa um efeito problemático na natureza e na sociedade. Qual seria este efeito? • O lixo produzido pelos homens vai servir de alimento para outros homens. Quem homens são esses? Que condições eles vivem? Eles têm acesso a mercadorias e produtos de qualidade? Nesse sentido, com base em um amplo debate das inúmeras questões levantadas pelo documentário, relacionando-as com a situação de miséria e fome vivenciada por muitas pessoas no Brasil, é possível pedir aos alunos uma produção de texto, desenho em quadrinhos ou colagens em cartazes para que sistematizem os conceitos desenvolvidos. Ao lado disso, eles podem ampliar o entendimento de como o espaço social é (re) construído historicamente pelos homens, de diferentes formas e em diferentes épocas. (FONSECA, 2005, p. 184). Metodologia do Ensino de História 33 A pesquisa no ensino de História Um dos aspectos tratados pelas novas DCN é a importância da aprendizagem de procedimentos investigativos e de interpretação da realidade. Para isso, é importante favorecer ao licenciando processos de atuação individuaise coletivos no espaço escolar, proporcionando trocas reflexivas sobre suas práticas (AZEVEDO, 2015). No caso do licenciando em História, o domínio dos elementos teóricos e metodológicos da pesquisa histórica é importante, mas não somente ele. É preciso que o professor de História pesquise sobre o ensino que ministra e o processo de aprendizagem de seus alunos na educação básica. Fonte: Freepik A dupla relação entre teoria e prática resulta em um significado próprio ao papel da pesquisa na formação do professor. Isso significa que a capacidade de pesquisar dentro da área de especialidade aplicada ao ensino, refletir sobre a atividade de ensinar e formular alternativas para seu aperfeiçoamento é indispensável para o futuro professor. Com isso, compreende-se que os objetos da pesquisa nos cursos de formação Metodologia do Ensino de História 34 docente são o ensino e a aprendizagem do conteúdo dos componentes curriculares da educação básica. Com base nessa perspectiva, segundo as novas Diretrizes, o egresso de um curso de licenciatura deverá estar capacitado, entre outras coisas, a: XI - realizar pesquisas que proporcionem conhecimento sobre os estudantes e sua realidade sociocultural; sobre processos de ensinar e de aprender, em diferentes meios ambiental-ecológicos; sobre propostas curriculares; e sobre organização do trabalho educativo e práticas pedagógicas, entre outros; XII - utilizar instrumentos de pesquisa adequados para a construção de conhecimentos pedagógicos e científicos, objetivando a reflexão sobre a própria prática e a discussão e disseminação desses conhecimentos; (BRASIL, 2015, p. 27). A formação docente com base em experiências de investigação é defendida tanto pela produção acadêmica (ANDRÉ, 2006; BECKER e MARQUES, 2010; CALEFFE e MOREIRA, 2006; MORAES e LIMA, 2004) quanto por orientações curriculares anteriores ao ano de 2015. Em 2001 declarava-se, por exemplo, que: “A formação de professores para os diferentes segmentos da escola básica tem sido realizada muitas vezes em instituições que não valorizam a prática investigativa. Além de não manterem nenhum tipo de pesquisa e não perceberem a dimensão criativa que emerge da própria prática, não estimulam o contato e não viabilizam o consumo dos produtos da investigação sistemática. Com isso, a familiaridade com os procedimentos de investigação e com o processo histórico de produção e disseminação de conhecimento é, quando muito, apenas um item a mais em alguma disciplina teórica, sem admitir sua relevância para os futuros professores. Essa carência os priva de um elemento importante para a compreensão da processualidade da produção e apropriação de conhecimento e da provisoriedade das certezas científicas (BRASIL, 2001a). A proposta de organização dos estágios supervisionados que tem como base a prática de pesquisa constitui um desafio para todos os sujeitos Metodologia do Ensino de História 35 envolvidos com o processo formativo. É necessário que se busquem novas visões que se tem sobre formação de professores. Concordamos com Azevedo no sentido da necessidade que licenciados e seus formadores percebam que um profissional da História pode realizar pesquisa sobre o ensino que pratica, sobre a aprendizagem efetivada por seus alunos, sobre como se ensina História em uma dada realidade escolar, sobre o que significa estudar História para um aluno do Ensino Fundamental e Médio, por exemplo (AZEVEDO, 2015). Muitos são aqueles que, ao pensar em pesquisa, mesmo em curso de licenciatura, só conseguem associá- la à pesquisa específica da ciência de referência. O resultado disso pode ser uma confusão entre projeto de pesquisa e projeto pedagógico o qual toma por base apenas os conteúdos de História a serem ensinados. Essa experiência desenvolvida por meio do estágio supervisionado muito contribui para levar o futuro professor a compreender melhor as vivências em uma realidade escolar bem como a ter maior clareza sobre as implicações resultantes da sua prática na escola na função de docente. Nessa direção, concordamos com André (2006, p. 124), quando afirma que: “[...] Já que no início da docência podem ser recuperadas muitas práticas vividas na formação profissional, é preciso utilizar, na formação inicial, uma metodologia presidida pela pesquisa, que leve à aprendizagem da reflexão educativa e que vincule constantemente teoria e prática”. Trabalhar o estágio supervisionado como iniciação à pesquisa torna-se um caminho para tanto. Proposições do ensino de História na História recente Os conteúdos formais, organizados para o ensino, são parcialmente inclusos naquilo que o professor seleciona para ensinar em aula, e representam apenas uma potencialidade daquilo que os alunos aprendem. A aprendizagem escolar é muito mais ampla do que está estabelecido em lei, nos programas ou nos manuais. Mas o que é posto como conteúdo formal revela aproximações com o que pode ser apreendido no ambiente escolar (FERNANDES, 2018). Metodologia do Ensino de História 36 A preocupação com a história dos conteúdos decorre da constatação de que, nas últimas décadas, há embates de diferentes proposições do que deve ser ensinado na escola, chamando a atenção para quais têm sido, em outras épocas, as seleções legitimadas para o ensino de História. Consideramos que a seleção dos conteúdos escolares de história expressa uma parcela importante do saber escolar, e, nesse sentido, também é influenciada por diálogos estabelecidos com as tradições e memórias da escola, com reflexões historiográficas (novos temas, conceitos, pesquisas e documentação), com exigências da sociedade de cada época (que delineiam suas finalidades políticas, sociais e educativas), como também com proposições dos estudos e reflexões educacionais. Assim, constantemente, há demandas para mudanças e/ ou permanências (FERNANDES, 2018). Por conta desses inúmeros fatores que moldam os saberes escolares, a seleção de conteúdos de História tem sido variável (CHERVEL, 1980). Em parte, eles permanecem por conta de memórias consolidadas ou ressignificadas nas tradições de ensino; sofrem influência de debates intelectuais e políticos e de projetos educacionais apresentados e/ou reformados por diferentes regimes; são reforçados em materiais escolares e em seus vínculos com avaliações institucionais e particularidades do mercado editorial; são reorganizados pelos sistemas oficiais de avaliação da aprendizagem; são ampliados ou reduzidos por demandas de movimentos sociais; e incorporam diferentes fundamentos históricos, didáticos e pedagógicos (FERNANDES, 2018). Exemplo disso, na década de 1990, foram propostos os denominados conteúdos “procedimentais” e “atitudinais” (ZABALLA, 1996), presentes em currículos das diferentes disciplinas. Também naquele contexto, para dar conta de questões interdisciplinares para entendimento da realidade contemporânea, foram propostos “temas transversais”, a serem estudados por toda a escola, como cidadania, meio ambiente e pluralidade cultural. Outras vezes, as proposições de conteúdos fogem do modelo descritivo ou de enumeração, para serem substituídos por orientações pedagógicas de avaliação das aprendizagens finais dos estudantes, através do que se denomina de “habilidades” e “competências” (PERRENAULD, 2000). Metodologia do Ensino de História 37 IMPORTANTE: Algumas das solicitações recentes, para os conteúdos de ensino de História, dizem respeito ao valor dado aos protagonistas das transformações históricas; outras questionam a preocupação em identificar as desigualdades, sejam elas sociais, políticas, econômicas, desencadeando preconceitos, discriminações, sejam impedimentos de usufruto comum do poder; e outras ainda referem-se ao tratamento dado à história ensinada como homogênea, no sentido de não apresentar debates ou divergências, semexplicitar possíveis controvérsias. Perpassam essas diferentes questões as demandas dos movimentos sociais que, legalmente, nas suas lutas por direito e melhores condições de vida, conseguiram estabelecer a obrigatoriedade de serem incluídos como atuantes e valorizados nos processos das transformações históricas. E, em reconhecimento a esse direito, tem sido importante rever e reavaliar os silêncios, as abordagens e os valores impingidos à imaginação de gerações, pelos enfoques históricos disseminados pela historiografia e no ensino de história, durante mais de dois séculos, justificando a desigualdade e a exploração por parte de elites e seus referenciais de superioridade (FERNANDES, 2018). Fonte: Freepik Metodologia do Ensino de História 38 A crítica ao tempo único e linear também está associada à preocupação da permanência do recorte espacial, onde os acontecimentos históricos se desenrolam. Há a crítica ao “eurocentrismo”. A história do mundo sendo traçada pelos acontecimentos europeus (“brancos” em algumas versões), restando aos outros continentes viverem as consequências dos fatos lá desencadeados. A predominância de uma centralidade espacial, como o principal palco da história, desdobra-se também nos outros cenários. No Brasil, por exemplo, a colonização portuguesa e seu modelo de sociedade, predominantemente desenvolvida no litoral, permanecem como temas principais dos estudos históricos escolares. Os estudantes pouco estudam histórias de regiões com pouca participação na economia rentável voltada para o pacto colonial, desencadeando pouco conhecimento a respeito de outros modos de vida, como no caso da história das populações indígenas habitantes do interior do continente. Outro problema dos sistemas de avaliação é gerar índices educacionais, para compor indicadores econômicos de desenvolvimento e orientadores de políticas de investimento de capitais nos países. Essa política de avaliação e coleta de índices tem reduzido os conteúdos escolares, inclusive o que se ensina e o que se aprende de História, em “competências” e “habilidades”, que não são nada além do que indicadores de apreensão de determinada racionalidade, com finalidades que escapam ao compromisso com a formação de gerações para refletirem e se posicionarem criticamente diante da realidade social e econômica. As políticas de avaliação de livros didáticos, desde o século XIX, ora indicando manuais, ora qualificando aqueles que podem ser adquirido por verba pública, é outro fator que tem influído nos conteúdos ensinados de História. Parâmetros estabelecidos nesses processos avaliativos tornam- se referência para as editoras e autores lançarem ou manterem as vendas de suas mercadorias. Nesse sentido, critérios de avaliação cerceiam ou incentivam conteúdos a serem abordados nos manuais. Como há fortes vínculos da educação com as questões das sociedades contemporâneas, os conteúdos de história na escola também têm agregado algumas de suas problemáticas. É o caso, por exemplo, das relacionadas ao meio ambiente, à qualidade da alimentação e uso Metodologia do Ensino de História 39 e acesso à informatização. Nesse último tema, a realidade da tecnologia da comunicação tem envolvido também os estudos históricos escolares no reforço de uso de ferramentas de informática; no acesso aos ambientes digitais; na verificação de veracidade das fontes de informação e no reconhecimento de autorias; e no desenvolvimento de reflexões acerca dos limites morais e éticos de seu uso (FERNANDES, 2018). Metodologia do Ensino de História 40 Teorias e metodologias inovadoras no ensino de História É muito comum ouvir por parte de alunos, pais e professores que a História ensinada em sala de aula mostra-se distante da realidade dos discentes. As principais críticas revelam que os conteúdos dessa disciplina são desinteressantes pois não dizem respeito ao cotidiano, às práticas sociais e à história de vida dos alunos. O privilégio dos conteúdos tradicionais e factuais, baseados fundamentalmente nos eventos políticos, religiosos e econômicos, faz com que os estudantes acabem desconhecendo a história do seu bairro, cidade, escola, e até mesmo a memória das manifestações culturais da sua família. A consequência disso é a formação de uma sociedade que manifesta dificuldades de reflexão sobre seu passado e por isso torna-se incapaz de reconhecer seu lugar, seus direitos e seu valor no interior de uma organização social (LIBLIK; LIBLIK, 2014). É interessante notar que estas reflexões vão de encontro com os Parâmetros Curriculares Nacionais de História e Geografia (Brasil, 1997) no que diz respeito à interação entre os alunos e os grupos sociais nos quais eles estão inseridos. Vejamos o que este documento diz: Ao ingressarem na escola, as crianças passam a diversificar os seus convívios, ultrapassando as relações de âmbito familiar e interagindo, também, com outro grupo social — estudantes, educadores e outros profissionais —, caracterizados pela diversidade, e, ao mesmo tempo, por relações entre iguais. A própria classe possui um histórico no qual o aluno terá participação ativa. Sendo um ambiente que abarca uma dada complexidade, os estudos históricos aprofundam, inicialmente, temas que dão conta de distinguir as relações sociais e econômicas submersa nessas relações escolares, ampliando-as para dimensões coletivas, que abarcam as relações estabelecidas na sua localidade (Brasil, 1997, p. 40) Conforme Maria Auxiliadora Schmidt (2007), a História Local consta nas Referências Curriculares de Base em relação aos anos iniciais, de modo que esses currículos tratam a abordagem local como base fundamental na construção da didática da História. Nessa direção, a História Local pode Metodologia do Ensino de História 41 ser entendida como recurso pedagógico privilegiado que possibilita ao estudante adquirir uma nova visão sobre a História. Fonte: Freepik Além disso, o trabalho com a História Local permite a criação de possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atividades investigativas e críticas. Logo, o estudante pode tornar-se um pesquisador e trilhar caminhos para a construção do conhecimento histórico. As atividades devem ser criadas a partir das situações cotidianas, podendo ser trabalhadas através de diferentes análises: foco no viés econômico, político, social, cultural, gênero, representações e relações intersubjetivas. Existe, portanto, várias possibilidades para o professor trabalhar com seus alunos o tema da História Local, objetivando desenvolver a formação da consciência histórica da sua região e do seu grupo social. É nessa direção que a História Oral pode ser vista por alguns como meio, mas pode também ser um bom modo de pensar um propósito para a disciplina histórica. Mas a História Oral nos permite grandes contribuições para além do saber que está ligado à Histórica Local. Em primeiro lugar, a emergência de um novo estatuto da História do século XX, definido por alguns teóricos como a história do tempo presente e portadora da particularidade Metodologia do Ensino de História 42 de contemplar testemunhos vivos, coloca, como afirma Marieta de Moares Ferreira (1994), obrigatoriamente em foco o debate relativo aos depoimentos orais. Paralelamente, as próprias transformações das sociedades modernas e as consequentes mudanças no conteúdo dos arquivos, impulsionam a tendência a uma revisão das fontes escritas e orais. (FERREIRA, 1994). Ao lado disso, o trabalho com a História Oral nos coloca uma questão muito importante, qual seja o papel da memória na constituição dos processos históricos. As relações entre memória e história rompem com a visão determinista que limita a liberdade dos homens, uma vez que evidencia a construção dos agentes históricos em relação a sua própria identidade e reequaciona as relações entre passadoe presente. É dessa maneira que as entrevistas orais são vistas como memórias que espelham determinadas representações e construções simbólicas. (FERREIRA, 1994). Portanto, nosso objetivo neste capítulo é elucidar e compreender de que maneira a História Oral pode ser uma importante ferramenta no ensino de História. Tanto seu método quanto os resultados obtidos a partir das entrevistas com os depoentes podem contribuir também para a ampliação de saberes que se estendem a outras disciplinas como Artes, Língua Portuguesa, Geografia e Matemática. Iremos considerar também algumas reflexões sobre o estatuto da História Oral, sua metodologia e os principais procedimentos para a realização de entrevistas que demarcarão as atividades que podem ser realizadas no ambiente escolar. O que é a história oral? Reflexões sobre narrativa, memória e metodologia Ao buscar uma compreensão das relações humanas e sua trajetória no interior de um período histórico, o historiador depara–se em sua pesquisa com inúmeros procedimentos metodológicos, correntes teóricas, campos disciplinares e fontes do saber histórico. Foi na História Cultural que se desenvolveu um campo de estudo que vem crescendo desde a década de 1970: trata-se da história oral como forma de resgate da memória histórica. Metodologia do Ensino de História 43 Inicialmente, é possível definir a História Oral como o registro da história de vida de indivíduos que, ao priorizar suas memórias pessoais e coletivas, possibilita a construção de uma representação concreta e dinâmica da trajetória do grupo social ao qual pertence. Aliado a isso, a História Oral também é um procedimento destinado à constituição de novas fontes para a História, com base nas entrevistas orais coletadas sistematicamente em pesquisas temáticas que estão atrelados a determinados métodos e pressupostos teóricos. Particularmente a História Oral está ligada a uma experiência fundamental para os indivíduos: a arte de narrar. Trata-se de uma experiência narrativa que inclui um narrador e uma história que ele versará. Benjamin (1985) nos chama atenção de que a experiência da arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem e gostam narrar devidamente. Quando se pede num grupo de estudantes que alguém narre algum evento ou uma história, a timidez se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. Uma das causas desse fenômeno é óbvia: como aponta Benjamin, “as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo”. (BENJAMIN, 1985). As experiências que passam de indivíduo a indivíduo constituem a fonte a que recorrem todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Há também outro aspecto importante da natureza narrativa: ela pode consistir num ensinamento moral, manifestada por uma sugestão prática e aconselhativa. Por isso que Benjamin preza a arte de narrar, uma vez que “o narrador é um homem que sabe dar conselhos”. E se ouvirmos por parte de alguns alunos e professores que “dar conselhos” parece algo antiquado ou normativo, é porque, como diz Benjamin, “as experiências estão deixando de ser comunicáveis”. (BENJAMIN, 1985). Com isso, atenuam-se paulatinamente o dom e a paciência em ouvir os outros, desaparecendo a comunidade de ouvintes e de narradores. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas no interior das famílias, escolas e comunidades. Metodologia do Ensino de História 44 Ao lado desta questão, outro ponto que vale ser lembrado é o papel da memória. Durante o processo de rememoração o depoente estabelece relações entre suas próprias experiências que o permite reconstruir seu passado segundo uma determinada estrutura narrativa. Isto é, estabelece- se a construção de uma rede de lembranças na qual suas vivências vão sendo organizadas, proporcionando a cada ato de rememorar um novo encadeamento de ideias, estruturado, então, pela valoração simbólica de sua própria personalidade e viabilizado mediante a construção do relato. Desta forma, o relato se estrutura a partir da memória, não se constituindo, no entanto, por seu conteúdo puro. (FERNANDES, 2001). É intessante perceber também que nossas memórias como argumentam Maurice Halbwachs, permanecem no âmbito do coletivo e nos são constantemente lembradas por outras pessoas, “ainda que se trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos”. (HALBWACHS, 2006). Isso acontece porque jamais estamos sós, pois em vários momentos e circunstâncias os indivíduos estão situados em grupo. Em certo sentido, não se pode negar, portanto, que o resgate da memória pode se dar no interior de quadros sociais, problematizados a partir de uma referência coletiva da história do próprio depoente. Com efeito, a tendência é conduzirmos uma interpretação ligada à necessidade de se conferir uma coerência narrativa à vida dos grupos. Contudo, nossa reflexão caminha rumo a ideia de que a memória tem seus limites e impasses. Tal como afirma Fernando Catroga, nossa memória é seletiva e tendemos ao esquecimento. Deve-se alertar aos alunos que há predisposições que condicionam os indivíduos a selecionarem o seu passado, fato que envolve processos psicológicos em que as escolhas são sempre acompanhadas, consciente ou inconscientemente, do que as pessoas desejam esquecer. (CATROGA, 2001). Por isso, nas entrevistas que os alunos poderão realizar, é necessário que eles saibam que a recuperação da memória de seus entrevistados nunca será total e amplamente verdadeira. Pelo contrário, é necessário considerar que existe, por parte dos depoentes, a vontade de esquecer eventos do passado, preincipalmente aqueles relativos a traumase perdas. Em seu texto Memória, esquecimento Metodologia do Ensino de História 45 e silêncio, Michael Pollak salieta a importância dos ditos e dos não- ditos para a construção de uma memória, seja ela coletiva ou individual. (POLLAK, 1989). Fonte: Freepik Tratamos até aqui da importância da narrativa e da memória no interior dos estudos da História Oral. Mas quando e de que forma a História Oral é reconhecida como prática de pesquisa no Brasil? A introdução do debate sobre a História Oral no Brasil ocorre na década de 70, embora somente no início dos anos 90 ela passa a experimentar uma expansão mais significativa no interior dos estudos acadêmicos. Conforme Ferreira e Amado (1996) é possível compreendermos o status da história oral a partir de três categorias: 1. História oral enquanto técnica: o objetivo incide apenas nas experiências com gravações, transcrições e conservações de entrevistas. Alguns cientistas sociais e historiadores defensores dessa posição se envolvem apenas na constituição e conservação de acervos orais. Ao mesmo tempo, os trabalhos realizados por esses pesquisadores baseiam- se prioritariamente em outros tipos de fontes, como a escrita, de modo que a história oral é eventualmente utilizada. 2. História oral enquanto disciplina: os que defendem a história oral como disciplina partem da ideia de que a história oral inaugurou técnicas Metodologia do Ensino de História 46 específicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto de conceitos norteiam seu próprio campo disciplinar. 3. História oral como metodologia: entender a história oral como metodologia significa que ela estabelece e ordena procedimentos de trabalho, especialmente os diversos tipos de entrevistas e as implicações de cada uma delas para a pesquisa histórica. Interessam também os defensores dessa posição as várias