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PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E TEORIAS DA APRENDIZAGEM UNIDADE VI Temas Contemporâneos na Perspectiva da Psicologia Educacional Carolina Cunha Seidel Temas Contemporâneos na Perspectiva da Psicologia Educacional 3 Introdução Olá! Nesta unidade, vamos discutir alguns dos problemas mais urgentes e relevantes que a sociedade enfrenta atualmente. Vamos explorar temas como gênero, raça, preconceito, bullying e o uso da tecnologia, entre outros. Sabemos que esses tópicos são sensíveis e podem gerar muitas opiniões e sentimentos diferentes. No entanto, é importante que tenhamos um espaço para analisar as formas como esses temas afetam a vida das pessoas e como podemos trabalhar juntos para superá-los, promovendo a inclusão, a equidade e a justiça em nossas comunidades. Esperamos que estejam prontos para explorar esses temas complexos e importantes e, juntos, desenvolvermos uma maior conscientização sobre a sociedade em que vivemos. Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Aprender sobre temas contemporâneos, partindo das noções de cultura e multiculturalismo. • Compreender as relações entre gênero, sexualidade e educação, inclusive na perspectiva do enfrentamento das violências. • Refletir sobre preconceito social, racial e o acesso a bens materiais e imate- riais. • Entender as possibilidades e contradições do uso da tecnologia na escola. • Perceber como se dá o bullying e como criar estratégias de enfrentamento dessa situação e de seus desdobramentos. 4 Cultura e Multiculturalismo A cultura é um conceito complexo que abrange diversos aspectos da vida humana, desde valores, crenças e costumes até artes e formas de organização social e política. Ela é transmitida de geração em geração e está em constante transformação, influenciada por fatores históricos, geográficos, sociais, econômicos, políticos, entre outros. Por ser dinâmica, a cultura passa por processos que podem ser mais ou menos lentos, à medida que as pessoas interagem e se adaptam ao ambiente em que vivem. Sem dúvidas, a escola é um dos ambientes que mais se relaciona com a cultura, sua transmissão e também sua transformação. A cultura popular é uma fonte inesgotável de conhecimento e sabedoria. A escola não pode ignorar essa riqueza, mas sim dialogar com ela e aprender com ela. Os saberes populares precisam ser valorizados e respeitados, e isso só será possível se a prática pedagógica for construída a partir de uma perspectiva dialógica e crítica. (FREIRE, 2004, p. 79) Dentro do contexto da cultura, a identidade é um tópico central, pois é um elemento de coesão que une indivíduos ou grupos por meio de afinidades. Essa união é demonstrada por meio de elementos em comum, como a língua, as representações, as práticas sociais e culturais. No entanto, embora os grupos compartilhem uma afinidade, é importante lembrar que cada indivíduo tem sua própria identidade, com suas particularidades. Ainda sobre as relações entre cultura e educação: A escola não pode ser um espaço de homogeneização cultural, mas sim de valorização da diversidade. É preciso que os professores estejam preparados para lidar com a diversidade cultural presente em sua sala de aula, e que sejam capazes de construir uma prática pedagógica que promova a igualdade de oportunidades e o respeito às diferenças. (FREIRE, 2004, p. 105) Ao abordarmos o assunto pela ótica do multiculturalismo, temos a coexistência pacífica de diversas culturas em um mesmo território. Esse conceito surgiu em sociedades marcadas por conflitos entre povos culturalmente diferentes como alternativa à criação de Estados nacionais ou sociedades modernas. Para alcançar esse ideal, as pessoas se organizaram em torno de estratégias comuns, articulando propostas para viver em sociedade. 5 Em países colonizados, especialmente aqueles que usaram a ideia de raça como base para leis segregacionistas, como os Estados Unidos e a África do Sul, o eurocentrismo prevaleceu, tentando impor uma única cultura como ideal, correta e apropriada. No entanto, considerando as muitas diferenças entre os povos desses países, é fundamental criar políticas públicas capazes de atender os diferentes grupos sociais, garantindo o acesso aos seus direitos constitucionais. Cultura e multiculturalismo Fonte: Freepik (2023). #pratodosverem: fotografia de seis braços levantados, temos entre eles diver- sas cores, adereços e manifestações culturais, como tatuagens. Em sociedades multiculturais, o reconhecimento das diferenças e o direito a elas são importantes. Embora a coexistência de várias culturas no mesmo espaço seja vista como um problema para a unidade nacional, preservar as características culturais dos povos é um direito, e o Estado deve atender todos de acordo com os direitos garantidos pela Constituição. 6 É importante lembrar que as transformações cotidianas, como a globalização, o multiculturalismo e a socialização dos conhecimentos provenientes da internet causam mudanças na sociedade e afetam as relações sociais e raciais. A questão é: as pessoas estão preparadas para tantas mudanças e informações? Não há uma resposta fácil, já que todos nós somos construídos socialmente e precisamos lidar com as mudanças dinâmicas dos sistemas sociais. Reflita Ressaltamos que o multiculturalismo não significa descuidar da igualdade de direitos e das necessidades compensatórias, mas sim compreender as pluralidades sociais e a necessidade de políticas públicas que levem em consideração esses fatores. Gênero e Sexualidade Sabemos que a sociedade ocidental contemporânea educa meninos e meninas de forma distinta desde antes do nascimento, atribuindo comportamentos adequados a cada um a partir do sexo biológico. Porém, a partir do campo de saberes da psicologia, entre outras ciências sociais e humanas aplicadas, podemos interpretar o conceito de gênero como uma construção sociocultural a partir do sexo anatômico, incluindo construções de papéis masculinos e femininos, identidades, sexualidade, pluralidade de masculinidades e feminilidades, hierarquia de gênero e violência de gênero. É fundamental compreender o gênero para além do termo feminino e masculino, abrangendo a identidade do que é ser masculino ou feminino, e questionar a naturalização de papéis de gênero e o respeito à identidade de gênero de cada pessoa. Para compreender questões sobre sexualidade, gênero e diversidade, é preciso entender as construções sociais envolvidas nesses conceitos. Isso envolve questionar a naturalização de papéis de gênero e o respeito à identidade de gênero de cada pessoa. É importante analisar o modo como a sociedade cria e reforça estereótipos de gênero, e como esses estereótipos impactam a vida das pessoas. Identidade de gênero 7 É a percepção que uma pessoa tem sobre si mesma em relação ao seu gênero, não estando necessariamente vinculada ao sexo biológico ou à orientação sexual da pessoa. Portanto, uma pessoa pode se identificar como homem, mulher, ambos ou nenhum dos dois, independentemente do seu sexo biológico. Identidade de gênero Fonte: Freepik (2023). #pratodosverem: fotografia de três pessoas adultas, as quais não é possível precisar qual é o gênero. Orientação sexual 8 Diz respeito à forma como direcionamos nossos desejos e afetos em relação às pessoas. Refere-se à forma como alguém se sente atraído por outras pessoas, podendo ser por homens, mulheres, ambos ou até mesmo por nenhum gênero em específico. Há pessoas que sentem atração independentemente do sexo biológico ou da identidade de gênero da outra pessoa. Orientação sexual Fonte: Freepik (2023). #pratodosverem: ilustração de duas mulheres com os rostos encostados, de olhos fechados, com expressão afetuo- sa, com uma sombra de arco-íris sobre seus rostos. Diversidade sexual Se refere à variedade de orientações sexuais e identidades de gênero existentes na sociedade. A diversidade sexual é uma parte natural dacondição humana e está presente em todas as culturas e sociedades do mundo. Diversidade sexual Fonte: Freepik (2023). #pratodosverem: ilustração de um braço segurando uma bandeira de arco-íris, símbolo LGBTQIA+, com o mesmo símbolo pintado em seu braço. Confira um quadro com a explicação da sigla LGBTQIA+. LGBTQIA+ explicado 9 Sigla Descrição L Lésbicas: mulheres que sentem atração romântica e/ou sexual por outras mulheres. G Gays: homens que sentem atração romântica e/ou sexual por outros homens. B Bissexuais: pessoas que sentem atração romântica e/ou sexual por pessoas de mais de um gênero. T Transgêneros: pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele designado ao nascer. Q Queer: uma identidade de gênero e/ou sexualidade que não se enquadra nas categorias tradicionais. I Intersexo: pessoas que possuem variações biológicas em relação aos órgãos sexuais e/ou cromossomos. A Assexuais: pessoas que não sentem atração sexual por outras pessoas. + Inclui outras identidades de gênero e/ou sexualidade não mencionadas nas letras anteriores. Fonte: adaptado do Glossário da Diversidade UFSC ([s.d.], p. 9-17). #Pratodosverem: quadro com oito linhas, onde cada linha mostra a explicação das letras que compõem a siga LGBTQIA+. É importante lembrar que a sigla é uma tentativa de abranger a diversidade das identidades de gênero e/ou sexualidade, mas é apenas um ponto de partida. Há muitas outras identidades que não estão incluídas na sigla e que também são importantes e devem ser respeitadas. A reflexão sobre gênero, sexualidade e diversidade sexual é essencial para entender a realidade em que vivemos. Embora exista uma grande quantidade de informações disponíveis, muitas delas não são acessadas devido ao tabu em torno do tema e à falta de clareza nas discussões sobre a dimensão social e política desse debate. Preconceito Social e Racial Para compreender a desigualdade, é fundamental entender conceitos como discriminação, preconceito e racismo. Discriminação é o tratamento desigual e excludente atribuído a indivíduos em função de suas diferenças sociais. Já o preconceito reproduz hierarquias sociais negativas, baseado em opiniões preconcebidas e informações estereotipadas. Ambos distribuem de forma desigual status, prestígio e poder, cuja origem no Brasil está ligada ao passado colonial e escravista. 10 Ao observarmos com mais atenção, podemos constatar que as três categorias mencionadas apontam para questões presentes em nossa sociedade, as quais precisamos enfrentar no nosso dia a dia. É fundamental, portanto, debater os conceitos e suas aplicações na realidade brasileira, uma vez que geram desigualdades materiais e simbólicas. A ideia de que a humanidade está dividida em tipos raciais justificou, durante muito tempo, a segregação racial e a escravidão negra, e ainda persiste nos dias de hoje. Apesar de não ser cientificamente possível falar em raças humanas, é importante reconhecer a existência do racismo. O racismo já foi considerado uma teoria científica, mas a ciência contemporânea evidenciou que a cor da pele ou o grupo étnico ao qual pertencemos não mudam nossas capacidades físicas ou intelectuais. Quando essa ideia de que algumas “raças” são naturalmente superiores às demais permanece em vigor, temos um problema de repetição, ignorância e preconceito. O racismo é uma ideia que se apresenta como objetiva e se sustenta na suposta teoria da natureza das coisas, reforçando seus pilares de repetição, ignorância e preconceito. Para Oliveira (2002, p. 29), O racismo é uma questão complexa que envolve não apenas as relações entre indivíduos, mas também as estruturas sociais e culturais que perpetuam a desigualdade. A escola tem um papel fundamental na desconstrução do racismo, ao promover a valorização da diversidade étnico-racial e o combate às práticas discriminatórias. A raça é uma construção sociológica e político-ideológica, e o racismo é perpetuado por persistir no imaginário coletivo e na cabeça dos racistas, tornando milhões de pessoas em suas vítimas (OLIVEIRA, 2002). Etnia não é o mesmo que raça, pois se refere a aspectos culturais de um grupo de pessoas com ancestral comum, língua, religião, cultura e tradições compartilhadas. A palavra etnia tem origem no grego ethnikos, significando gente ou nação estrangeira, e é um conceito polivalente que constrói a identidade de um indivíduo por meio de parentesco, religião, língua, território e nacionalidade, além da aparência física. Atenção 11 A escola, como instituição social, está sujeita às mesmas interações presentes em qualquer outro ambiente, o que nos leva a questionar se ela está rompendo ou reforçando imagens preconceituosas e discriminatórias. A construção de uma identidade positiva em relação à raça e etnia é fundamental para o desenvolvimento saudável das crianças e jovens. A escola pode contribuir para essa construção ao promover a valorização da diversidade étnico-racial e ao proporcionar um ambiente acolhedor e respeitoso para todos os alunos. (OLIVEIRA, 2002, p. 84) Sendo assim, não podemos refletir sobre o combate ao etnocentrismo, preconceito e racismo sem considerar como esses temas são discutidos no ambiente escolar. Temos, em Freire (2004, p. 18), que: A educação é um ato político-cultural. Por isso, as práticas educativas devem estar comprometidas com a luta pela superação das desigualdades sociais, com a construção de relações horizontais e com a valorização da diversidade cultural. Além disso, a escola tem a importante função de transmitir e construir conhecimento, tendo profissionais dedicados a esse papel. É importante lembrar que, atualmente, a cultura africana e afro-brasileira e dos povos indígenas ganharam respaldo legal por meio de leis que garantem sua obrigatoriedade no ensino em sala de aula. Tecnologias: Utensílios Eletrônicos Moveis e Redes Sociais As tecnologias têm transformado a forma como as pessoas se comunicam e realizam suas atividades diárias. No contexto escolar, os utensílios eletrônicos móveis e as redes sociais têm se mostrado como ferramentas poderosas para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem. Os utensílios eletrônicos móveis, como smartphones e tablets, permitem aos alunos acessarem uma infinidade de informações, além de possibilitar o uso de aplicativos educativos que tornam o aprendizado mais dinâmico e interativo. Já as redes sociais, 12 quando utilizadas de maneira adequada, podem facilitar a comunicação entre alunos e professores, permitindo a troca de informações e o compartilhamento de conhecimentos. No entanto, é importante ressaltar que o uso dessas tecnologias deve ser orientado e supervisionado pelos professores, a fim de garantir que seu potencial educacional seja maximizado e que os alunos saibam utilizar essas ferramentas de forma responsável e ética. Bullying Bullying se refere a um comportamento intencional, agressivo e repetitivo voltado a uma pessoa ou a um grupo de indivíduos com dificuldade em se defender. Geralmente, o bullying é caracterizado por comportamentos como humilhação, ridicularização, insultos, exclusão social, ameaças e agressões físicas. Quando pensamos na atuação docente, é importante entender que o bullying pode ocorrer em diferentes contextos, reconhecendo que pode ter consequências graves para a saúde mental e física das vítimas, incluindo ansiedade, depressão, baixa autoestima e até mesmo ideações suicidas. Atenção Devemos, na educação, estar atentos aos sinais de bullying em sala de aula e fora dela, e trabalhar para criar um ambiente seguro e acolhedor para todos os alunos. Isso inclui promover a empatia, a tolerância e a compreensão entre os alunos, bem como estabelecer regras claras e consistentes para o comportamento adequado e para a resolução pacífica de conflitos. Além disso, é importante que professores estejam preparados para lidar com situações de bullying de forma eficaz e assertiva, o quepode incluir a implementação de programas de prevenção, o envolvimento dos pais e/ou responsáveis dos alunos e a colaboração com profissionais de saúde mental e assistentes sociais, se necessário. Uma das principais estratégias da psicologia escolar para prevenir o bullying é a conscientização e a educação, o que pode envolver a realização de palestras e workshops sobre o tema para alunos, professores e pais, bem como a inclusão de conteúdos sobre bullying no currículo escolar. É importante identificar os 13 comportamentos de risco e ensinar habilidades sociais e emocionais para alunos e professores, a fim de ajudá-los a lidar com situações de conflito e bullying. Para saber mais sobre diversidade na escola, clique aqui e leia o artigo: “Escola como espaço para a diversidade e o desenvolvimento humano”, de Mônica Carvalho Magalhães Kassar (2016). Saiba mais https://www.scielo.br/j/es/a/3pZfQcXscKP5rN6T94Pjfrj/?lang=pt&format=pdf 14 Conclusão Chegamos ao final de nossa unidade. Por meio de nossos estudos, pudemos levantar uma discussão produtiva e enriquecedora sobre esses assuntos tão relevantes para o nosso tempo. Lembrando que a reflexão e o diálogo são fundamentais para que possamos construir uma sociedade mais justa e igualitária, em que a diversidade seja valorizada e respeitada. É importante que, mesmo após nossos estudos, continuemos a nos informar, a questionar e a lutar por um mundo mais inclusivo e tolerante. Neste momento, aprendemos que gênero, raça, preconceito, bullying, o uso da tecnologia, entre outros, são temas contemporâneos interconectados e que precisam ser abordados de maneira integrada para que possamos abordá-los e manejá-los da melhor forma. Esperamos que você tenha conseguido ampliar seus horizontes e construir um ambiente de aprendizagem respeitoso e acolhedor. Desejamos a todos uma ótima jornada. 15 Referências FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004. GLOSSÁRIO da Diversidade UFSC. SAAD, Florianópolis, [s.d.]. Disponível em: https:// saad.paginas.ufsc.br/files/2017/10/Glossario_versaointerativa.pdf. Acesso em: 5 maio 2023. OLIVEIRA, M. K. de. Psicologia, educação e as temáticas da vida contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002. https://saad.paginas.ufsc.br/files/2017/10/Glossario_versaointerativa.pdf https://saad.paginas.ufsc.br/files/2017/10/Glossario_versaointerativa.pdf