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CENTRO UNIVERSITÁRIO – CATÓLICA DE SANTA CATARINA 
CURSO DE DIREITO 
PESQUISA EM CIÊNCIA JURÍDICA – TRABALHO DE CONCLUSÃ O DE CURSO 
DANIELE JANSSEN 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA 
HOLDING PATRIMONIAL NO CASO DE CONFLITO NO DIREITO DE FAMÍ LIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
JARAGUÁ DO SUL 
2015 
DANIELE JANSSEN 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA 
HOLDING PATRIMONIAL NO CASO DE CONFLITO NO DIREITO DE FAMÍ LIA 
 
 
 
 
 
 
Monografia apresentada como requisito parcial 
para aprovação na disciplina Pesquisa em 
Ciência Jurídica – Trabalho de Conclusão de 
Curso, e obtenção do grau de bacharel em 
Direito no Centro Universitário – Católica de 
Santa Catarina em Jaraguá do Sul (SC). 
Orientadora: Profª. Msc. Maristela Hertel 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
JARAGUÁ DO SUL 
2015 
 
DANIELE JANSSEN 
 
 
 
 
A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA 
HOLDING PATRIMONIAL NO CASO DE CONFLITO NO DIREITO DE FAMÍ LIA 
 
 
 
 
 
 
 
Trabalho de Conclusão de Curso 
apresentado ao Curso de Graduação em 
Direito do Centro Universitário – Católica 
de Santa Catarina, como requisito à 
obtenção do título de Bacharel. 
 
 
COMISSÃO EXAMINADORA 
 
 
 
___________________________________ 
Prof. Msc. Daniel de Mello Massimino 
Centro Universitário – Católica de Santa 
Catarina 
 
 
 
___________________________________ 
Profª. Msc. Maristela Hertel 
Centro Universitário – Católica de Santa 
Catarina 
 
 
 
___________________________________ 
Prof. Msc. 
Centro Universitário – Católica de Santa 
Catarina 
 
 
 
 
Jaraguá do Sul, __ de ______ de 20__. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos meus pais Claus Henrique Janssen e Maira Betina Manske Janssen, exemplos 
de vida, que não mediram esforços para a minha formação pessoal e educacional. 
 
AGRADECIMENTOS 
 
Aos meus pais, os quais amo imensamente, agradeço pelo carinho, pelos conselhos 
sempre certeiros, pelo apoio incondicional na vida, por sempre quererem o melhor 
para mim, ainda que diante de alguns obstáculos, bem como pelo investimento na 
minha educação, e pelos seus valores e princípios, que moldaram a pessoa que sou 
hoje. 
À minha família, por ser meu porto seguro; à minha vó, Reinilda Modro Manske, que 
é um exemplo de busca incansável pelo conhecimento; ao meu tio, Julio Max 
Manske, pelo qual não meço esforços para agradecer as oportunidades recebidas, e 
que, além de ser um profissional inspirador, no qual me espelho, também sempre 
me incentivou, apoiou e passou segurança para tornar realidade meus sonhos. 
Aos meus colegas de turma, em especial aos amigos Eduardo, Guilherme, 
Jefferson, Paulo e Tassiane, com os quais pude dividir das mesmas dificuldades e 
alegrias, e que percorreram esta jornada sempre comigo, tornando-a mais divertida 
e agradável. 
Ao professor Daniel de Mello Massimino, pela sua disciplina e devida atenção. 
E, finalmente, agradeço minha orientadora Maristela Hertel, que além de ser uma 
grande profissional, ética e concisa, e acrescentar vastos ensinamentos e 
experiências à minha vida profissional e pessoal, também foi essencial na 
elaboração deste trabalho, desde a escolha do tema, até a sua finalização, 
despendendo seu vasto conhecimento na área para me auxiliar e nortear ao alcance 
do objetivo proposto. 
 
 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
 
Crescente vem sendo a aplicabilidade da desconsideração da personalidade jurídica 
no ordenamento jurídico brasileiro, a qual oportunizou espaço à criação doutrinária e 
jurisprudencial da sua modalidade inversa, objetivando responsabilizar, também, a 
própria pessoa jurídica em decorrência de obrigações assumidas por seus sócios ou 
administradores. Corroborado a isso, nota-se que a criação de sociedades 
denominadas holdings familiares e sua utilização para destinar e concentrar os bens 
da sociedade conjugal em uma pessoa jurídica criada para este fim, possibilita a 
prática de fraude de um dos cônjuges ou companheiro(a), com intuito de burlar a 
partilha de bens, por exemplo, em decorrência de litígio familiar, correspondente a 
dissolução do vínculo conjugal, retirando o direito à meação inerente ao outro 
cônjuge ou companheiro(a) da relação. Portanto, o presente estudo aborda a 
ocorrência da desconsideração inversa da personalidade jurídica, na holding 
familiar, no âmbito do Direito de Família, especificamente quando há litígio entre os 
companheiros ou cônjuges que motivam a fraude à meação. 
 
PALAVRAS - CHAVE: Desconsideração da personalidade jurídica. Inversa. Holding 
Familiar. Fraude. Partilha de bens. Meação. Família. Litígio. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 8 
2 ENTIDADE FAMILIAR ............................... ....................................................... 11 
2.1 CASAMENTO ................................................................................................. 13 
2.2 UNIÃO ESTÁVEL ........................................................................................... 14 
2.3 REGIME DE BENS ........................................................................................ 15 
2.3.1 Espécies de comunhão .............................. ............................................... 17 
2.3.1.1 Comunhão universal................................................................................. 17 
2.3.1.2 Comunhão parcial .................................................................................... 18 
2.3.1.3 Participação final nos aquestos ................................................................ 20 
2.3.2 Separação de bens ........................... ......................................................... 21 
2.4 EFEITOS DO ATO PRATICADO COM E SEM A AUTORIZAÇÃO DO 
CÔNJUGE ............................................................................................................ 22 
2.5 DA DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE E DO VÍNCULO CONJUGAL ............... 23 
2.5.1 Separação ................................... ............................................................... 24 
2.5.2 Divórcio .......................................... ............................................................ 26 
3 HOLDING .......................................................................................................... 28 
3.1 CONCEITO DE HOLDING ............................................................................. 28 
3.2 ESPÉCIES DE HOLDING .............................................................................. 29 
3.3 NATUREZA JURÍDICA DA HOLDING ........................................................... 30 
3.3.1 Simples ........................................... ............................................................ 31 
3.3.2 Empresária ........................................ ......................................................... 31 
3.4 OBJETO SOCIAL ........................................................................................... 32 
3.5 HOLDING PATRIMONIAL E FAMILIAR ......................................................... 33 
3.6 TIPOS SOCIETÁRIOS ................................................................................... 34 
3.6.1 Sociedade Limitada ................................ ................................................... 35 
3.6.2 Sociedade Anônima ................................. ................................................. 37 
3.6.3 EIRELI ......................................................................................................... 38 
3.7 FUNCIONAMENTO DA HOLDING FAMILIAR ............................................... 39 
3.7.1 Representação e administração ..................... ......................................... 39 
3.7.2 Sociedadecada sócio, há de se destacar que cada 
um está limitado a responder pelo total do capital social subscrito, assim, conforme 
dispõe Coelho (2012, p. 437), “a falta de bens do patrimônio da sociedade, sobre os 
quais pudesse ser efetivada a garantia de recuperação de crédito, significa a perda 
do credor” caso o capital esteja totalmente integralizado, não podendo haver 
responsabilização, via de regra, dos sócios pelas obrigações sociais. 
36 
 
Entretanto, Silva e Rossi (2015), alertam e já adiantam que a limitação da 
responsabilidade dos sócios, apesar de atraente ao empresariado, não é absoluta, 
não podendo resultar na proteção dos sócios de toda a sorte de dívidas, inclusive se 
constatada que estas foram realizadas em decorrência de atos fraudulentos, que 
possam ensejam a desconsideração da personalidade jurídica. 
Com relação à dissolução da sociedade empresária limitada, dispõe o 
doutrinador Coelho (2012, p. 487) o seguinte: 
 
A dissolução, entendida como procedimento de terminação da 
personalidade jurídica da sociedade empresária, abrange três fases: a 
dissolução (ato ou fato desencadeante), a liquidação (solução das 
pendências obrigacionais da sociedade) e a partilha (repartição do acervo 
entre os sócios). 
 
Dentre as causas que levam à dissolução da sociedade empresária, podem 
ser elencadas pela vontade dos sócios, decurso do prazo previsto para duração da 
sociedade, a decretação da falência, bem como pela unipessoalidade e irrealização 
do objeto social. 
Mamede e Mamede (2014a, p. 96) destacam, que uma das seguranças 
trazidas pela sociedade contratuais é que: 
 
[...] podem ser constituídas intuitu pecuniae, sem restrições à cessão de 
quotas, ou intuitu personae, hipótese na qual a cessão de quotas para um 
terceiro dependerá da aprovação pela totalidade dos demais sócios ou, nas 
sociedades limitadas, por 75% do capital social. 
 
Por fim, em casos omissos, ou seja, quando não há previsão na sua 
legislação específica, a sociedade limitada é regida pelas normas das sociedades 
simples, ou até mesmo, caso haja previsão contratual, poderá conter regência 
supletiva pelas normas da sociedade anônima, conforme dispõe o art. 1.053 do 
Código Civil. 
Na modalidade de holding, Silva e Rossi (2015, p. 35) acrescentam que: 
 
[...] a sociedade limitada é adequada para os propósitos do planejamento 
societário a partir da constituição de uma holding familiar, mormente 
considerando sua limitação de responsabilidade, a proteção contra a 
entrada de terceiros estranhos, menos complexidade em relação à 
sociedade anônima e, consequentemente, menor custo de manutenção. 
 
37 
 
O que justifica a afirmativa feita pelos doutrinadores Mamede e Mamede 
(2014a, p. 98), ao destacarem que a sociedade limitada “trata-se de um dos tipos 
mais utilizados para a constituição de holdings [...]”. 
 
3.6.2 Sociedade Anônima 
 
Regida pela Lei 6.404/76, que dispõe acerca das Sociedades por Ações, este 
tipo societário pode ser definido como uma companhia ou sociedade anônima, que, 
como característica, apresenta um capital dividido em ações, com a 
responsabilidade dos sócios ou acionistas limitada ao preço de emissão das ações 
subscritas ou adquiridas, conforme previsão expressa no art. 1º do referido diploma 
legal. 
Em seu art. 2º é possível verificar a finalidade do objeto social, que poderá ser 
qualquer empresa de fim lucrativo, desde que não contrário à lei, bem como à ordem 
pública e aos bons costumes. 
O doutrinador Coelho (2012, p. 87) apresenta a seguinte definição acerca do 
tema: 
 
A sociedade anônima, também referida pela expressão “companhia”, é a 
sociedade empresária com capital social dividido em ações, espécie de 
valor mobiliário, na qual os sócios, chamados acionistas, respondem pelas 
obrigações sociais até o limite do preço de emissão das ações que 
possuem. 
 
 Neste sentido, considerando que os acionistas correspondem àqueles 
titulares de ações, tem obrigações a partir do momento da constituição da 
sociedade, como, por exemplo, a obrigação essencial, que é a de pagar o preço das 
ações que subscreveu (VENOSA, 2015). Por outro lado, também são detentores dos 
direitos discriminados no art. 109, da Lei das Sociedades por Ações. 
A sua constituição pode se dar através de apenas dois acionistas, mas sua 
administração deverá ser integrada por, pelo menos, dois diretores, pessoas 
naturais, acionistas ou não (GONÇALVES NETO, 2010). 
O estatuto social, documento equivalente ao contrato social na sociedade 
limitada, definirá o objeto social da companhia, e fixará o valor do capital social, 
expresso em moeda nacional, podendo ser formado através de contribuições, sejam 
38 
 
em dinheiro ou em qualquer espécie de bens, desde que suscetíveis de avaliação 
em dinheiro. 
Conforme o art. 11 e seguintes da Lei 6.404/76, as ações restarão fixadas no 
estatuto social, no qual, inclusive, constará se terão, ou não, valor nominal. 
Também, as ações serão dividias pelas seguintes espécies: ordinárias, preferenciais 
ou de fruição, conforme natureza dos direitos ou vantagens que confiram a seus 
titulares. 
A respeito, inclusive, destaca Coelho (2012, p. 103): 
 
A ação é o valor mobiliário representativo de uma parcela do capital social 
da sociedade anônima emissora que atribui ao seu titular a condição de 
sócio desta. A o fracionar o capital social da anônima em valores 
mobiliários, a lei facilita a negociação de participação societária desse tipo 
de sociedade e ressalta a natureza de investimento do ato de ingresso no 
seu quadro de sócios. 
 
O art. 4º da Lei das Sociedades por Ações ainda divide a companhia em 
aberta ou fechada. Na primeira categoria, são classificadas aquelas cujos valores 
mobiliários são percebidos à negociação diretamente nas bolsas de valores ou 
mercado de balcão, enquanto na segunda, encontram-se aquelas não emitem 
valores mobiliários negociáveis nesses mercados (COELHO, 2012). 
Para finalizar, assim concluem Mamede e Mamede (2014a, p. 100), ao 
enfatizarem que “as sociedades por ações têm um custo de manutenção mais 
elevado, já que a Lei 6.404/76 exige a publicação de diversos atos sociais. Estas 
publicações são caras” e, por isso, não são tão atraentes quando se adotadas para 
a constituição da sociedade holding familiar. 
 
3.6.3 EIRELI 
 
Mamede e Mamede (2014a) conceituam a empresa individual de 
responsabilidade limitada (EIRELI) como unipessoal, destacando a possibilidade de 
sua titularidade em participações societárias, sejam quotas, sejam ações, bem como 
a simples participação, participação relevante (filiação), ou controle societário. 
 
Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será 
constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social, 
devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior 
salário-mínimo vigente no País (BRASIL, 2015f). 
39 
 
Neste sentido, ainda embasado pelo referido artigo, a pessoa natural que 
constituir a EIRELI só poderá ser titular de uma única empresa da modalidade. 
Se constituída para prestação de serviços de qualquer natureza, poderá ser 
atribuída remuneração decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de 
imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, 
vinculados à atividade profissional, conforme dispõe o artigo 980-A, 3º, do Código 
Civil. 
Ademais, no que atine ao §3º do art. 980-A, do Código Civil, Mamede e 
Mamede (2014a, p. 111) assim explicam: 
 
[...] É lícito constituir uma holding eireli mesmo que haja participação numa 
só sociedade. Visto por outro ângulo – para ser exaustivo – é possível que o 
controlador de uma sociedade seja uma eireli que tenha sido constituída 
exclusivamente para titularizar as quotas ou ações daquela sociedade, e de 
nenhuma mais. 
 
Quando destinada para a constituição de holding, “nada indica que a Eireli 
não possa ser utilizada”(SILVA; ROSSI, 2015, p. 46), entretanto, seguem os 
doutrinadores em sua linha de pensamento informando que, normalmente, a holding 
familiar é constituída para deter o patrimônio da família, motivo pelo qual os sócios 
são os membros da família, o que acaba, novamente, indicando a sociedade 
limitada como melhor alternativa (SILVA; ROSSI, 2015). 
 
3.7 FUNCIONAMENTO DA HOLDING FAMILIAR 
 
Repisa-se. A holding familiar não corresponde a um tipo específico de 
sociedade, nem mesmo de uma natureza específica. É caracterizada 
essencialmente pela sua função, pelo seu objetivo, e não pela natureza jurídica ou 
pelo tipo societário. Pode ser uma sociedade contratual ou estatutária, constituída 
por uma sociedade simples ou empresária. 
Poderá, inclusive, adotar as formas de sociedade simples, sociedade em 
nome coletivo, em comandita simples, sociedade limitada, sociedade anônima ou 
comandita por ações, excetuando-se, como já visto, a cooperativa. 
 
3.7.1 Representação e administração 
40 
 
A sociedade holding poderá ter como sócios qualquer pessoa, natural ou 
jurídica, que possa ser sócia de uma sociedade simples ou empresária, contratual 
ou estatutária (MAMEDE; MAMEDE, 2014a), excetuando-se os cônjuges casados 
pelo regime da comunhão universal de bens ou separação obrigatória de bens, 
conforme art. 977 do Código Civil. 
 
Os membros da família deixam de ser proprietários dos bens usados na 
integralização, sejam móveis ou imóveis, sejam materiais ou imateriais (a 
exemplo das quotas e ações). A holding passará a ser proprietária desses 
bens. Os membros da família se tornam membros da holding, ou seja, 
tornam-se sócios e, assim, titulares de suas quotas e ações, conforme o tipo 
societário escolhido (MAMEDE; MAMEDE, 2014a, p. 150). 
 
Ultrapassada a verificação de sócios admitidos na holding familiar, necessário 
se faz a análise das pessoas impedidas de exercerem a administração. 
Mamede e Mamede (2014) elencam da seguinte forma: Magistrados; 
Membros MP; Servidores Públicos; Militares na ativa; Falido, se não forem 
declaradas extintas suas obrigações; Moralmente inidôneos; Estrangeiro com visto 
temporário, e, ainda, destaca que “tais pessoas podem ser sócias de uma holding e, 
mesmo, de outras sociedades, como suas controladas e filiadas; apenas não podem 
exercer função de administração” (MAMEDE; MAMEDE, 2014a, p. 18). 
 
3.7.2 Sociedade entre cônjuges e familiares 
 
Inicialmente à constituição de uma sociedade, independentemente de seu tipo 
societário, deve ser analisado o regime de bens escolhido pelo casal, isto porque, a 
holding familiar, como sua denominação transparece, trata-se de sociedade familiar 
e, assim, pode ser constituída por ambos os cônjuges ou companheiros. 
Entretanto, o artigo 977 do Código Civil de 2002 destaca aspectos relevantes 
que, obrigatoriamente, devem ser observados para a constituição de sociedade 
formada entre cônjuges, pois assim dispõe: “Art. 977. Faculta-se aos cônjuges 
contratar sociedade, entre si ou com terceiros, desde que não tenham casado no 
regime da comunhão universal de bens, ou no da separação obrigatória” (BRASIL, 
2015f). 
Gonçalves (2005, p. 183) explica que a vedação, no regime da separação de 
bens, ocorre por disposição legal nos casos em que possam ser levantadas dúvidas 
41 
 
ou questionamentos acerca do cumprimento das formalidades do casamento, ou 
pela avançada idade dos cônjuges. Ainda, segue justificando a proibição da 
contratação de sociedade no regime da comunhão de bens universal, vez que os 
bens de ambos os consortes já lhes pertencem em comum e, por isso: 
 
[...] a sociedade seria uma espécie de ficção, já que a titularidade das 
quotas do capital social de cada cônjuge na sociedade não estaria 
patrimonialmente separada no âmbito da sociedade conjugal, da mesma 
maneira que todos os demais bens não excluídos pelo art. 1668, a ambos 
pertencentes. No que tange ao regime da separação obrigatória, a vedação 
ocorre por disposição legal (FIUZA apud GONÇALVES, 2005, p. 183). 
 
Corroborado ao entendimento extraído do referido artigo 977 do Código Civil, 
o Parecer Jurídico do DNRC/COJUR nº 125/03 veio esclarecer a aplicação da norma 
às sociedades empresária entre cônjuges constituídas antes da vigência do Código 
Civil de 2002, ao assim dispor: 
 
A norma do artigo 977 do CC proíbe a sociedade entre cônjuges tão 
somente quando o regime for o da comunhão universal de bens (art. 1.667) 
ou da separação obrigatória de bens (art. 1.641). Essa restrição abrange 
tanto a constituição de sociedade unicamente entre marido e mulher, como 
destes junto a terceiros, permanecendo os cônjuges como sócios entre si. 
De outro lado, em respeito ao ato jurídico perfeito, essa proibição não atinge 
as sociedades entre cônjuges já constituídas quando da entrada em vigor 
do Código, alcançando, tão somente, as que viessem a ser constituídas 
posteriormente. Desse modo, não há necessidade de se promover alteração 
do quadro societário ou mesmo da modificação do regime de casamento 
dos sócios-cônjuges, em tal hipótese (DNRC, 2003). 
 
Pois bem. Insta salientar que o casal, não enquadrando-se nas hipóteses 
elencadas pelo art. 1.641 do Código Civil, que determina a obrigatoriedade da 
adoção do regime da separação de bens nas seguintes hipóteses: a) pessoas que 
contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do 
casamento; b) pessoa maior de 70 (setenta) anos; c) de todos os que dependerem, 
para casar, de suprimento judicial; via de regra, não havendo convenção quanto a 
outro regime, adotará o regime da comunhão parcial, conforme expressamente 
previsto no art. 1.640 do Código Civil. 
Silva e Rossi (2015, p. 86) justificam esta preocupação da seguinte forma: 
 
No processo de constituição de uma holding familiar, em que os bens da 
família serão integralizados na sociedade, é necessário haver correta 
avaliação dos direitos e deveres de cada componente da família, por isso a 
42 
 
identificação do regime de casamento e a compreensão dos direitos daí 
advindos é parte integrante do planejamento sucessório. 
 
Mamede e Mamede (2014a) correlacionam as restrições do art. 977 do 
Código Civil como forma de evitar que a sociedade seja utilizada para encobrir 
fraude no regime de bens do casamento, uma vez que a relação havida na 
sociedade entre os cônjuges e conviventes, inclusive aquelas atinentes ao 
patrimônio societário e à sua gestão, não serão reguladas pelo Direito de Família, 
mas sim, pelo Direito Societário. 
É neste sentido que o patrimônio familiar, até então sob a titularidade dos 
cônjuges ou companheiros, passa a ser destinado à sociedade, estando, assim, sob 
a manta das obrigações advindas desta relação. 
Acerca do tema, assim explicam Mamede e Mamede (2014a, p. 129): 
 
No âmbito de uma investigação sobre holdings familiares, o tema das 
relações entre sócios pode ser compreendido em dois planos diversos. Num 
plano interno, colocam-se as relações que os sócios da holding mantêm 
entre si, reiterando-se o que já se disse anteriormente: a partir da alocação 
do patrimônio familiar como patrimônio de uma sociedade, por meio de 
integralização do capital desta, as relações pertinentes a esse patrimônio 
deixam de ser familiares e passar a ser empresariais ou, mais 
precisamente, societárias. 
 
Ademais, concluem os mesmos doutrinadores que esta transmutação de 
natureza jurídica para o Direito Societário é eficaz, pois, passa a reger o 
comportamento dos indivíduos, vez que as eventuais disputas familiares devem ser 
ali decididas, o que implica, mais do que isso, no devido respeito às regras contidas 
no ato constitutivo da sociedade, seja ele contrato social ou estatuto (MAMEDE; 
MAMEDE, 2014a). 
 
3.7.3 Da dissolução, liquidação e partilha 
 
Seja a holding familiar constituída sobre o manto da sociedade limitada ou 
anônima, os regimes de dissolução destas sociedades apresentam concepçõesbásicas iguais, as quais iniciam com um ato formal, pelos dos sócios ou do juiz, o 
qual delimita o início do procedimento, seguindo da liquidação, e, posteriormente, 
finalizado com a repartição entre os sócios do patrimônio remanescente (COELHO, 
2012). 
43 
 
Já destacou, inclusive, Coelho (2012), as três fases que abrangem seu 
procedimento, que tem início com a dissolução, seguida da liquidação e, ao final, a 
partilha do acervo entre os sócios integrantes da sociedade limitada. 
Ainda pelas palavras do sábio doutrinador, o termo dissolução: 
 
[...] em sentido amplo, significa o procedimento de terminação da 
personalidade jurídica da sociedade empresária, isto é, o conjunto de atos 
necessários à sua eliminação, como sujeito de direito. A partir da dissolução 
[...] a sociedade empresária não mais titulariza direitos, nem é devedora de 
prestação. Em sentido estrito, a dissolução se refere ao ato, judicial ou 
extrajudicial, que desencadeia o procedimento de extinção da pessoa 
jurídica (COELHO, 2012, p. 486). 
 
As sociedades limitadas e anônimas extinguem-se, ambas, através da 
dissolução. Na sociedade limitada, entretanto, a dissolução é motivada pelas 
hipóteses previstas no art. 1.044 e 1.033 do Código Civil, em contrapartida, as 
sociedades por ações devem respeitar as disposições do art. 206 da Lei das 
Sociedades Anônimas. 
Portanto, diferenciam-se através da natureza do regime adotado por cada 
sociedade, como é o caso da sociedade limitada, que deve ser desfeita através das 
orientações dispostas pelo seu contrato social. 
Destaca Coelho (2012) que os objetivos da liquidação são a realização do 
ativo, compreendida pela venda dos bens da sociedade liquidanda e a efetiva 
cobrança dos devedores, bem como a satisfação do passivo, ou seja, com o 
pagamento dos credores. 
Nas sociedades por ações, a liquidação destina-se a por fim ao patrimônio 
social e extinguir a pessoa jurídica, entretanto, “a companhia dissolvida conserva 
sua personalidade jurídica até a extinção, durante a liquidação” (VENOSA, 2015, p. 
200), não diferente da sociedade limitada. 
No âmbito da sociedade entre cônjuges, as quotas e ações, como bens 
jurídicos, tem valor econômico, devendo ser partilhados, se compõem o patrimônio 
comum do casal ou da unidade afetiva (MAMEDE; MAMEDE, 2014b). 
 
Em relação às participações societárias é preciso atenção para o regime 
patrimonial pelo qual se rege a unidade afetiva (casamento ou outra), a 
partir da qual se determinará o que compõe e o que não compõe o 
patrimônio comum (MAMEDE; MAMEDE, 2014b, p. 96). 
 
44 
 
E, para concluir, destaca que caso tenha sito a holding constituída como 
sociedade contratual, o artigo 1.027 do Código Civil impossibilita, seja o cônjuge ou 
o convivente, de exigir a sua parte, desde logo, diante da separação, devendo 
solicitar a liquidação das quotas, permitindo com que os outros membros da família, 
desde que sócios da sociedade, ou demais sócios, lhe entregue o dinheiro. A 
indenização paga ao meeiro pela sociedade ou seus sócios será reiterada de sua 
parte, e repassada para a parte dos demais (MAMEDE; MAMEDE, 2014a). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
45 
 
4 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 
 
 O ordenamento jurídico brasileiro traz algumas possibilidades de aplicação da 
desconsideração da personalidade jurídica. Dentre elas, preveem o seu emprego o 
Código de Defesa do Consumidor, o Direito Tributário, Direito do Trabalho, a Lei 
Antitruste, Lei de Proteção ao Meio Ambiente, bem como o Código Civil. 
 No âmbito do direito civil, dá-se grande atenção à autonomia patrimonial 
exercida pela sociedade, a qual deve visar a função social da empresa, e ser 
utilizada com boa-fé nas relações jurídicas. 
 Ocorre que, a sociedade, quando constituída e utilizada para fins diversos 
daqueles pelos quais se destina, no intuito de cometer abusos de direito e fraude, a 
desconsideração da personalidade jurídica ganha destaque, objetivando coibir 
referidas práticas. 
 Importante destacar que, na presente monografia, ao adentrar no assunto da 
personalidade jurídica, se destinará o estudo para as pessoas jurídicas de direito 
privado, exclusivamente às sociedades, haja vista o enquadramento da holding 
nesta espécie. Neste diapasão, também terá enfoque a possibilidade de sua 
aplicação no âmbito do Direito de Família, especialmente quando da ocorrência de 
litígio familiar, caracterizado pela dissolução do vínculo conjugal. 
 
4.1 PERSONALIDADE DAS PESSOAS JURÍDICAS 
 
 É sabido que a personalidade da pessoa natural se dá com o seu nascimento 
com vida, e tem a salvo pela lei, desde a concepção, os direitos do nascituro, 
conforme expressa o art. 2º do Código Civil. 
 A respeito, Madaleno (2009) entende a personalidade como uma qualidade 
de ser da pessoa. Ainda, destaca que a ciência jurídica não define a pessoa, mas 
apenas traz quem ela considera como pessoa, uma vez que: 
 
Pessoas, no ordenamento civil, são os sujeitos de direitos e deveres das 
relações jurídicas, reconhecendo o direito duas espécies de pessoas, a 
pessoa natural ou física, representada pelo agrupamento de pessoas físicas 
que buscam um objetivo societário comum (MADALENO, 2009, p. 11). 
 
46 
 
 Nesta linha, para ser titular de direito e obrigações, não é necessário ser 
exclusivamente pessoa biológica, uma vez que de igual modo podem ser as 
pessoas coletivas, pois as sociedades também adquirem personalidade jurídica 
(MADALENO, 2009). Portanto, a personalidade jurídica nada mais é do que “[...] 
uma ficção criada pela lei, com o único propósito de conferir trânsito à associação 
humana em sua atividade empresarial, é produto da vontade humana criado para a 
consecução de determinados fins” (MADALENO, 2009, p. 13). 
 Diferentemente das pessoas naturais, as pessoas jurídicas adquirem sua 
personalidade “com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos 
constitutivos”, de acordo com o artigo 985, do Código Civil de 2002. 
 Assim, o ente, uma vez personificado, inicia sua existência jurídica, pois 
adquire personalidade, atuando no mundo jurídico de igual forma às outras pessoas 
jurídicas (KOURY, 2011). 
 Os objetivos da personificação são a limitação, a supressão de 
responsabilidades individuais, bem como a garantia de separação patrimonial entre 
as pessoas físicas que a constituíram, e a própria pessoa jurídica (KOURY, 2011). 
 A separação patrimonial entre a pessoa jurídica e seus membros já vinha 
expressamente assegurada pelo art. 20 do Código Civil de 1916. O atual Código 
Civil, apesar de não reproduzir o referido artigo, continuou atribuindo vida distinta à 
pessoa jurídica da dos membros que a compõe, conforme pode-se verificar pelo 
texto dos artigos 45 e 985 do referido diploma legal (SOUZA, 2011). 
 Entretanto, Bruschi (2010) lembra que, via de regra, quem responde pelas 
obrigações contraídas pela pessoa jurídica é ela própria, e, caso não cumpra com o 
pactuado, apenas ela poderá ser demandada para satisfação da obrigação 
assumida. O mesmo doutrinador, por fim, conclui que: 
 
Havendo uma relação jurídica de que faça parte pessoa jurídica, apenas 
seu patrimônio responderá por eventuais dívidas. Isso significa dizer que, 
em situações normais e de acordo com a lei, não serão alcançados os bens 
dos sócios ou mesmo dos administradores (BRUSCHI, 2009, p. 11). 
 
 Neste mesmo sentido, Souza (2011) destaca acerca da separação patrimonial 
entre a pessoa jurídica e seus membros, quando atribuída a personalidade jurídica a 
alguém: 
 
47 
 
Uma das principais consequências da atribuição de personalidade jurídica a 
alguém é a separação que se estabelece entre a pessoa jurídica e os 
membros que a integram, consagrando o princípio da autonomia 
patrimonial. Portanto, em regra os membros que compõem a pessoa 
jurídica não podem ser considerados os titularesdos direitos ou os 
devedores das prestações relacionadas ao exercício da atividade 
econômica desta última. Além disso, como regra geral, o patrimônio da 
pessoa jurídica não deve ser confundido com o patrimônio dos seus 
membros (SOUZA, 2011, p. 72). 
 
A sociedade é personificada com a finalidade de ter seu patrimônio separado 
do dos seus sócios, uma vez que, após o arquivamento do seu ato constitutivo em 
registro próprio, a pessoa jurídica adquire autonomia patrimonial, e isso significa 
dizer patrimônio distinto de seus sócios. Portanto, a empresa passa a ter patrimônio 
próprio, pertencente exclusivamente a ela, o qual responderá por eventuais dívidas 
da sociedade, bem como servirá de garantia e para a satisfação dos credores da 
empresa, não obstante este patrimônio tenha sido colacionado pelos sócios 
(MADALENO, 2009). 
É assim, inclusive, que dispõe importante princípio consolidado pelo Conselho 
Federal de Contabilidade, chamado de Princípio da Entidade, o qual, através da 
Resolução nº 530/81, garante que “o Patrimônio da entidade não se confunde com o 
dos seus sócios ou acionistas, ou proprietário individual”. 
Ocorre que, se utilizada esta personalidade jurídica para realizar finalidade 
ilícita, contrária da que se propõe a sociedade, à exemplo da prática de finalidades 
fraudulentas, com o intuito de prejudicar terceiros ou até mesmo, causar algum dano 
ao patrimônio do casal, há que se intervir para combater eventuais abusos, 
utilizando-se da disregard doctrine. 
 
4.2 A ORIGEM DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 
 
Os aspectos históricos iniciais da desconsideração da personalidade jurídica 
se deram a partir do século XIX, quando a doutrina e jurisprudência passaram a ter 
maior preocupação com os fins diversos que estava aplicando-se à pessoa jurídica 
(KOURY, 2011). 
Para Bruschi (2010) a teoria da desconsideração da personalidade jurídica 
teve origem em países ligados ao Common Law, fazendo com que os tribunais 
propiciassem o restabelecimento do direito lesado, de forma imediata. 
48 
 
A primeira decisão judicial que teria aplicado esta regra foi no ano de 1809, 
nos Estados Unidos, com o caso do Bank of United States vs Deveaux, uma vez que 
“(...) as cortes levantaram o véu e consideraram as características dos sócios 
individuais” (BRUSCHI, 2011, p. 13). 
Entretanto, para Bruschi (2011) e Koury (2011), este caso apenas teve 
destaque no âmbito da teoria da desconsideração porque foi a primeira vez em que 
a pessoa jurídica foi analisada considerando características individuais de cada 
sócio. Assim, não teria sido aplicada efetivamente a desconsideração, pois apenas 
houve intenção de preservar a jurisdição das cortes federais sobre as corporations, 
diante da limitação de controvérsias entre cidadãos de diferentes estados, conforme 
dispunha a Constituição Federal americana, em seu art. 3º, seção 2º. 
Neste sentido, ”a verdadeira origem da teoria da desconsideração da 
personalidade jurídica deu-se na Inglaterra, em 1897, no famoso caso “Salomon vs. 
Salomon & CO”” (BRUSCHI, 2010, p. 14). Madaleno (2009, p. 37) apud Talavera 
explica que Aaron Salomon possuía um negócio de peles e botas e: 
 
incitou seis de seus familiares a criar, conjuntamente com ele, uma 
empresa, na qual um de seus familiares era sócio detentor de apenas uma 
ação cada qual. Ao passo que cada um de seus familiares era detentor de 
apenas uma ação cada, Salomon era detentor exclusivo de vinte mil ações, 
tendo integralizado o capital da sociedade por meio de seu fundo de 
comércio, já que ele possuía firma individual e, dessa forma, era 
caracterizado como comerciante em razão da habitualidade da mercancia 
por ele praticada. O fato é que Aaron Salomon esvaziou o patrimônio de sua 
firma individual em prol da empresa e, assim, os seus credores perderam as 
salvaguardas patrimoniais que possuíam. Diante da arquitetura fraudulenta 
perpetrada por Salomon, a justiça de primeiro grau prolatou decisão no 
sentido de que os seus bens pessoais fossem alcançados para satisfazer 
seus débitos, decisão esta que, posteriormente, fora reformada pela 
Câmara dos Lordes, que não vislumbrou nenhuma mácula nos 
procedimentos de Salomon. 
 
Ultrapassado isso, apesar de os tribunais ingleses e norte-americanos terem 
demonstrado, inicialmente, inovadores com a prática da desconsideração da 
personalidade jurídica, estes não tiveram interesse em tratar do assunto e sua 
utilização. Assim, o maior estudo dedicado a esta área o direito foi realizado na 
Europa Continental, principalmente doutrinadores da Alemanha (BRUSCHI, 2010). 
Teve destaque, assim, na década de 50, o jurista alemão Rolf Serick, o qual, 
citado por Madaleno (2009), entendia que, quando haja abuso da pessoa coletiva, o 
juiz deve abstrair da estrita separação entre os membros e a corporação. Para ele, o 
49 
 
abuso restava caracterizado quando se eram utilizados recursos da pessoa coletiva 
para contornar lei, violar deveres contratuais, ou prejudicar fraudulentamente 
terceiros. 
Foi assim que o alemão Serick, após estudos e análises de casos da 
jurisprudência norte-americana que, em 1955, publicou o livro Rechtsform und 
Realität juristischer Personen (Forma jurídica e realidade das pessoas coletivas), o 
qual, para Madaleno (2009, p. 38) “tornou-se a verdadeira carta de cidadania do 
direito internacional para a aplicação da teoria da penetração na forma jurídica, 
sendo tida como uma referência continental obrigatória da desconsideração”. 
Com a popularização da obra de Serick, diversos autores passaram a tratar 
da desconsideração da personalidade jurídica, causando uma revolução 
jurisprudencial, a qual foi batizada como doutrina do levantamento do véu da pessoa 
jurídica (MADALENO, 2009). 
 
4.2.1 No Brasil 
 
O direito brasileiro tem origem do direito romano-germânico e, por isso, nosso 
sistema jurídico é organizado com base em construções abstratas bem como 
genéricas, uma vez que formula-se regras para acontecimentos futuros (BRUSCHI, 
2009). 
Assim, para a aplicação da disregard doctrine no ordenamento jurídico 
brasileiro, viu-se como um empecilho o Código Civil de 1916, uma vez que seu art. 
20 previa existência distinta entre pessoa jurídica e seus membros (BRUSCHI, 
2009). Inclusive, Madaleno (2009) assevera que, ante a inexistência da teoria da 
desconsideração no Código de 1916, bem como em qualquer outro diploma legal, 
reinava o princípio da autonomia patrimonial e, assim, as sociedades empresárias 
eram abusivamente usadas para a realização de fraude contra credores ou em 
situações de abuso de direito, inclusive, de modo profícuo, no Direito de Família. 
A partir disto, Rubens Requião, em 1969, teria escrito o primeiro artigo 
doutrinário que tratava a respeito do assunto, o qual, inclusive, utilizou-se dos 
ensinamentos e estudos do alemão Rolf Serick (BRUSCHI, 2009). Teriam tido, 
também, grande influência acerca do tema, o professor José Lamartine Corrêa de 
Oliveira, com a publicação de seu livro intitulado A dupla crise da pessoa jurídica, 
50 
 
bem como alguns julgados no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal de Justiça de 
Minas Gerais (MADALENO, 2009). 
Entretanto, a primeira disposição legal a tratar a respeito foi o Código de 
Defesa ao Consumidor, no ano de 1990, que, em seu art. 28, trouxe a possibilidade 
expressa de desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em 
desfavor do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, 
fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. Também, no âmbito 
consumerista, será “[...] efetivada quando houver falência, estado de insolvência, 
encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração” 
(BRASIL, 2015e). 
Após, outros dispositivos legais passaram a tratar efetivamente do assunto, a 
exemplo da Lei Antitruste (Lei nº 8.884/1994), em seu art. 18, e, posteriormente,a 
Lei do Meio Ambiente (Lei nº 9.605/1998), com a disposição do seu art. 4º 
(MADALENO, 2009). 
Em seguida, com o advento do Código Civil de 2002, a teoria da 
desconsideração é incorporada. Assim, através da instituição do art. 50, passou-se a 
admitir que, quando caracterizado abuso da personalidade jurídica, caracterizado 
pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, as obrigações sejam 
estendidas aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. 
Como visto, a construção da desconsideração da personalidade jurídica teve 
sua passagem por diversas épocas e países, ficando, assim, conhecida por 
diferentes expressões, a exemplo de: 
 
(...) piercing the corporate veil, lifting the corporate veil, cracking open the 
corporate shell, nos Direitos inglês e americano; superamento dela 
personalità giuridica, no Direito italiano; Durchgriff der juristichen Person, no 
Direito alemão; teoria de la penetración ou desestimación de la 
personalidad, no Direito argentino; mise-à l’cart de la personnalité morale, 
no Direito francês (KOURY, 2011, p. 69). 
 
 Na doutrina brasileira, Bruschi (2010) verifica-se a adoção da expressão 
desconsideração da pessoa ou da personalidade jurídica, ao lado de disregard 
doctrine, as quais, inclusive, veremos com frequência a seguir. 
 
4.3 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO CIVIL 
DE 2002 
51 
 
A personalidade jurídica atribuída às sociedades empresariais nada mais é do 
que um instituto criado para que grupos de indivíduos utilizem deste recurso para 
realizar finalidade lícita pela qual a sociedade se propõe, sem que utilizem a 
personalidade societária para a prática de finalidades fraudulentas ou com a 
intenção de prejudicar terceiros (MADALENO, 2009). 
A personificação só se legitima, portanto, quando utilizada para servir os 
propósitos pelos quais foi criada a sociedade. Caso contrário, sendo esta utilizada 
com intuitos diversos, há a possibilidade de realizar-se a desconsideração da 
personalidade jurídica, objetivando a fixação de limites de sua personalidade como 
meio de corrigir tais abusos (KOURY, 2011). 
Foi diante desta situação que teve início, no Código Civil de 2002, através do 
art. 50, o instituto da disregard doctrine, o qual visa desconsiderar a personalidade 
jurídica quando restar evidenciado abuso da personalidade da pessoa jurídica, 
caracterizado através do desvio de finalidade ou confusão patrimonial. 
 Entretanto, sua efetivação no ordenamento jurídico brasileiro, no âmbito civil, 
passou por diversas construções e modificações, as quais serão verificadas a 
seguir. 
 
4.3.1 Da Teoria Menor e Maior da desconsideração 
 
No Brasil, existem duas teorias a respeito da desconsideração da 
personalidade jurídica, as quais foram denominadas, respectivamente, de Teoria 
Maior, também chamada de teoria subjetiva, e Teoria Menor, também chamada de 
teoria objetiva. 
Incialmente, sobre a Teoria Menor da desconsideração, Mamede (2009), 
destaca haver certo desprezo à forma jurídica, vez que faz-se necessário tão 
somente a demonstração de insolvência da empresa, e não a efetiva satisfação do 
crédito. Assim, torna-se dispensável a comprovação processual dos elementos 
subjetivos da fraude ou do abuso de direito, sendo suficiente apenas “o fato concreto 
da frustração material do credor da sociedade empresária diante da insolvabilidade 
da pessoa jurídica” (MAMEDE, 2009, p. 77). 
Souza (2011) define a Teoria Menor da desconsideração uma decretação 
afobada, diante da ausência de fundamentos técnicos e doutrinários para a 
efetivação de sua aplicação em um caso concreto. Diante disto, Mamede (2009) 
52 
 
justifica o não acolhimento da referida teoria no Código Civil, em ser art. 50, uma vez 
que visa responsabilizar os sócios da relação ao dano causado. 
Cabe salientar, entretanto, que através do REsp 279.273/SP, do Supremo 
Tribunal de Justiça, “a Ministra Nancy Andrighi considera excepcional a aplicação da 
teoria menor da desconsideração, acolhida no Direito do Consumidor e no Direito 
Ambiental (...)” (MADALENO, 2009, p. 77). 
Em contrapartida, no âmbito do diploma civil brasileiro foi adotada a Teoria 
Maior da desconsideração da personalidade jurídica, a qual pode ser desdobrada 
em: subjetiva e objetiva. Inicialmente, a subjetiva dispõe que a fraude e o abuso de 
direito são os elementos autorizadores da aplicação da teoria, enquanto a objetiva 
tem como requisito a confusão patrimonial (SOUZA, 2011). 
Verifica-se, assim, que difere-se da Teoria Menor, uma vez que a fraude e a 
manipulação abusiva devem restar demonstradas, ônus este, inclusive, do credor, 
não podendo, portanto, ser desconsiderada a personalidade jurídica por sua mera 
insolvência no cumprimento das obrigações. 
Assim, o já mencionado art. 50 do Código Civil inicialmente havia sido 
redigido sob a égide da teoria objetiva. Entretanto, sofreu necessários ajustes 
redacionais e redirecionamento legislativo, objetivando impor limites e freios à 
desconsideração, haja vista que a tendência do intérprete da lei é a de acolher a 
Teoria Subjetiva da desconsideração da personalidade jurídica, passando a 
autorizar o instituto apenas quando houver prova incontroversa da prática de abuso 
do direito ou fraude, pois só assim irá preservar a autonomia patrimonial da pessoa 
jurídica (MADALENO, 2009). 
 
4.3.2 Pressupostos para a desconsideração 
 
 A ideia da desconsideração da personalidade jurídica teve como objetivo a 
proteção de credores de boa-fé, contra a realização de fraudes e abusos efetivados 
pela pessoa jurídica, devendo ser aplicável quando constatada má-fé, dolo ou ato 
temerário praticado pela sociedade, a qual é empregada para dissimular interesses 
ilícitos (MADALENO, 2009). 
 De acordo com o próprio art. 50 do Código Civil, é possível extrair os 
pressupostos necessários para a aplicação da desconsideração da personalidade 
jurídica. Dentre eles, expresso está o requisito do abuso da personalidade jurídica. 
53 
 
O abuso de direito é caracterizado pelo desvio de finalidade e confusão 
patrimonial, e “corresponde a um “mau uso” do direito, ou seja, ao exercício normal 
de um direito, estando o seu titular, todavia, desviado do fim econômico-social para 
o qual foi criado” (KOURY, 2011, p. 72). 
Independe, portanto, da demonstração de insolvência da pessoa jurídica. 
Assim, inclusive já decidiu-se na IV Jornada do Conselho de Justiça Federal, através 
do Enunciado 281, que assim definiu: “Art. 50. A aplicação da teoria da 
desconsideração, descrita no art. 50 do Código Civil, prescinde da demonstração de 
insolvência da pessoa jurídica” (CFJ, 2015). 
 No ato abusivo, caracteriza-se “o exercício irregular de direito ou abuso de 
direito pelo seu titular; é a conduta lícita que se mostra desconforme com a 
finalidade que o ordenamento pretende alcançar e promover naquela circunstância 
fática” (GAMA, 2009, p. 49). 
 Outra situação que viabiliza o ensejo da desconsideração é a confusão 
patrimonial, a qual tem aplicabilidade quando há confusão entre os bens dos sócios 
e da sociedade, uma vez que inviabiliza saber de quem é o patrimônio (GAMA, 
2009). 
 A título de exemplo, Souza (2009, p. 93) traz algumas hipóteses de 
incidência: quando “utilizam os mesmos imóveis como sede, os mesmos móveis 
para se locomover, a sociedade paga contas pessoais dos sócios etc”. 
 O desvio de finalidade também trata-se de hipótese autorizadora da teoria da 
desconsideração, pois ocorre quando há incompatibilidade nos atos praticados pela 
pessoa jurídica e o seu contrato social ou estatuto, desviando os objetivos por eles 
previstos e agindo com excesso ou abuso de poder (MADALENO, 2009). 
 Nesta mesma linha, Silva e Rossi (2015, p. 54) acrescentam que o desvio da 
finalidade: 
 
[...] é o desvirtuamento do conceito, do objetivo pelo qual a sociedade foi 
constituída, culminando na ocorrência defraude. Em outro discurso, o 
desvio de sua finalidade é a atuação oposta ou desvirtuada da função da 
empresa em razão de atos fraudulentos realizados pelos sócios ou 
responsáveis legais, causando prejuízos a terceiros, o que indica abuso da 
personalidade jurídica da empresa em flagrante inobservância ao princípio 
da boa-fé. 
 
54 
 
 Ainda, há que destacar a figura da fraude como pressuposto da aplicabilidade 
da desconsideração da personalidade jurídica. Madaleno (2009), inclusive, assim 
dispõe a respeito: 
 
[...] a fraude não sucede tão-somente com o artifício da personalidade 
jurídica, embora seu astucioso uso seja frequente e gere a episódica e 
pontual desconsideração da personalidade jurídica, sucedendo inúmeras 
hipóteses de fraude com a interposição de um terceiro, um figurante, 
pessoa física que atua como testa-de-ferro, ou laranja, com o único intuito 
de contribuir na fraude de um negócio jurídico realizado com o firme 
propósito de reduzir fraudulentamente o acervo patrimonial em detrimento 
de terceiro credor ou meeiro. 
 
 Para Freitas (2004), a fraude caracteriza-se como uma intenção deliberada, 
ou consciência de produzir o dano ao credor. Assim, destaca requisitos da fraude, a 
exemplo da má-fé, malícia do devedor, bem como a intenção de gerar a outrem 
prejuízo. 
 Vale dizer, assim, que o juiz apenas está autorizado a aplicar a 
desconsideração da personalidade jurídica quando for utilizada a pessoa jurídica 
para a realização de fraude ou abuso de direito. Com isso, não será autorizado, por 
exemplo, o simples prejuízo de terceiros em face da limitação da responsabilidade 
dos sócios pelas obrigações sociais assumidas, vez que, sem o elemento subjetivo, 
ou seja, intencional, pelo qual se destina a ocultar uma ilicitude por trás da 
sociedade, não poderá falar-se em superação da autonomia patrimonial (GAMA, 
2009). 
 A conclusão que se pode chegar, portanto, é que, sem a existência e 
comprovação de fraude ou abuso de direito, não há que se falar na retirada da 
autonomia da sociedade, para a aplicação da desconsideração da personalidade 
jurídica. 
 
4.3.3 Finalidade da desconsideração da personalidad e jurídica 
 
Conforme dispõe Madaleno (2009, p. 71), o fundamento legal da 
desconsideração visa tutelar “o princípio inerente da boa-fé nas relações 
obrigacionais, o qual não se compadece com o mau uso da forma jurídica”. 
 Complementa Souza (2011) que a desconsideração procura preservar ao 
máximo a pessoa jurídica, zelando pela sua continuidade, se assim for possível, 
55 
 
buscando coibir o mau uso da pessoa jurídica, quando for invocado o princípio da 
autonomia patrimonial da sociedade para encobrir fraude ou abuso de direito, ou 
quando a pessoa jurídica for utilizada com intuito diverso daquele pelo qual foi 
concebido. 
 Neste sentido, a primordial finalidade está em evitar que o formalismo 
societário sirva como instrumento de fraude ou abuso da pessoa jurídica, com a má 
intenção de ir contra a cláusula geral da boa-fé, princípio este, inclusive, que assenta 
os negócios jurídicos (MADALENO, 2009). 
 
4.3.4 Aplicação no sistema jurídico nacional 
 
O texto legal que prevê a desconsideração da personalidade jurídica na 
esfera civil já dispõe, em sua redação, o funcionamento do instituto, vez que, 
constatado o abuso de direito, a própria parte ou o Ministério Público poderá o 
requerer judicialmente, ficando a cargo do juiz competente analisar e decidir se 
devem ou não ser estendido aos bens particulares dos sócios ou administradores a 
responsabilidade de determinadas relações de obrigações, conforme art. 50 do 
Código Civil: 
 
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo 
desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a 
requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir 
no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de 
obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou 
sócios da pessoa jurídica (BRASIL, 2015f). 
 
 Assim, Gama (2009, p. 137), destaca que “A competência para tornar eficaz a 
pessoa jurídica diante desses fatos será do juízo de família e sucessões, como, 
aliás, decidiu o De. JOSÉ ATAÍDES SIQUEIRA TRINDADE, do TJRS” no Ag. 
70002822757, da 8ª Câmara Civil: 
 
Desconsideração da personalidade societária. Competência. Preliminar. 
São admitidos embargos de declaração nas interlocutórias, pelo direito da 
parte de ver amplamente aclarada a decisão. Feito que visa reparar 
eventual lesão a meação da mulher em virtude de ato societário. A 
competência é da vara de família e sucessões, mormente, no caso, visto 
que a matéria já transitou nesta 8ª Câmara Cível, que tem como uma de 
suas atribuições, julgar os feitos atinentes à família. Agravo de instrumento 
desprovido (GAMA, 2009, p. 137). 
 
56 
 
 Neste diapasão, Gama (2009, p. 222) apud Coelho orienta quanto ao 
procedimento adotado pelo judiciário, para a aplicação do processo incidental da 
desconsideração da personalidade jurídica: 
 
O juiz não pode desconsiderar a separação entre a pessoa jurídica e seus 
integrantes senão por meio de ação judicial própria, de caráter cognitivo, 
movida pelo credor da sociedade contra os sócios ou seus controladores. 
Nessa ação, o credor deverá demonstrar a presença do pressuposto 
fraudulento. 
 
 Salienta Freitas (2004), entretanto, que a desconsideração da personalidade 
jurídica tem caráter excepcional, ou seja, só deve ser aplicada quando a autonomia 
da pessoa jurídica for afastada, em face de seu desvirtuamento, com o intuito de 
servir como pano de fundo para a realização de falcatruas. 
 Souza (2011, p. 78) enfatiza, entretanto, que “essa desconsideração da 
pessoa jurídica no caso concreto não significa a anulação ou a desconstituição do 
ato jurídico que a constituiu, mas apenas a declaração de sua ineficácia 
momentânea”. Declaração incidental esta que atinge o fato determinado, ou seja, 
uma ocorrência eventual, e não a validade do ato constitutivo da sociedade (GAMA, 
2009). 
 
4.4 DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA 
 
 Atualmente, a modalidade da desconsideração inversa não está prevista 
expressamente na legislação brasileira, vez que sue histórico teve início com a 
construção doutrinária e jurisprudencial. 
 Os autores Silva e Rossi (2015, p. 59), inclusive, destacam que “Apesar de a 
aplicação da desconsideração inversa da personalidade ainda estar se consolidando 
no poder judiciário, a doutrina atual entende que seu emprego é possível”. 
 Muito parece-se, pois, com a desconsideração da personalidade jurídica, vez 
que aplicam-se à ela os mesmo requisitos e pressupostos. A diferença está na 
responsabilização pelos atos de abuso ou fraude, que será transmitida à própria 
pessoa jurídica, em virtude de obrigações realizadas pelos seus sócios, sendo sua 
autonomia desconsiderada, visando ”[...] coibir atos da sociedade que estão 
encobrindo bens ou obrigações familiares dos sócios, atingindo desse modo os bens 
57 
 
da sociedade empresária que está sendo utilizada abusivamente” (MADALENO, 
2009, p. 215). 
 Os doutrinadores Silva e Rossi (2015, p. 60) apud Rosenvald discorrem a 
respeito, aduzindo que: 
 
[...] a partir do momento em que se isola o fundamento jurídico da 
admissibilidade desta teoria, fácil é depreender a admissibilidade do 
inverso: é possível, igualmente, desconsiderar a (mesma) autonomia da 
pessoa jurídica para responsabilizá-la por obrigações assumidas pelos seus 
sócios. 
 
 É neste rumo que Souza (2011, p. 94) enfatiza o desvio de bens como 
modalidade comumente prevista no âmbito da desconsideração inversa, conforme 
destaca a seguir: 
 
A desconsideração inversa da personalidade jurídica normalmente é 
invocada em casos de desvio de bens, quando o devedor transfere seus 
bens para uma pessoa jurídica sobre a qual detém o controle. Assim, ele 
continuaa usufruir de tais bens, apesar de não serem formalmente de sua 
propriedade, mas sim da pessoa jurídica controlada. 
 
 O tema, inclusive, que vem ganhando maior aplicabilidade no legislativo, foi 
objeto de Enunciado nº 283, na IV Jornada de Direito Civil, o qual previu que: “Art. 
50. É cabível a desconsideração da personalidade jurídica denominada “inversa” 
para alcançar bens de sócio que se valeu da pessoa jurídica para ocultar ou desviar 
bens pessoais, com prejuízo a terceiros”. 
 Corroborado a isso, cabe destacar que a alteração do novo Código de 
Processo Civil, através da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, inovará na sua 
redação trazendo no texto legal o “Capítulo IV”, que tratará do procedimento 
específico para aplicação do Incidente de Desconsideração da Personalidade 
Jurídica, inovando, também, ao prever expressamente a possibilidade de aplicação 
da modalidade inversa da desconsideração. 
 
4.4.1 Desconsideração inversa da personalidade jurí dica no Direito de Família 
 
No âmbito do Direito de Família, ganhou forma a possibilidade da 
desconsideração inversa da personalidade jurídica, principalmente quando 
configurada a intenção fraudulenta de burlar a meação do outro cônjuge ou 
58 
 
companheiro(a), diante de eventual ocorrência de dissolução conjugal ou divórcio do 
casal. 
Outras aplicabilidades da desconsideração inversa também estão presentes 
nas relações familiares, como no caso de pagamento de pensão alimentícia, pois 
“quando uma empresa empresta o seu véu ao sócio ávido por burlar a sua dívida 
alimentar, não deve ficar impune ao artifício ilícito” (MADALENO, 2009, p. 243). 
O Direto das Sucessões também ganha destaque para a aplicação da teoria, 
uma vez que, conforme discorre Madaleno (2009, p. 290) “o autor da herança pode 
ter recorrido a meios fraudulentos para subtrair os bens de seu patrimônio, em 
prejuízo de alguns ou de todos os herdeiros necessários, sob a cobertura de um 
negócio societário de aparente legitimidade formal”, motivo pelo qual teria 
aplicabilidade a desconsideração inversa. 
Entretanto, “a finalidade mais visível e premente da utilização da 
desconsideração inversa ou invertida ocorre no direito de família, quando a partilha 
de bens for fraudada na desconstituição do vínculo conjugal do casamento, ou de 
união estável” (BRUSCHI, 2009, p. 132). 
Neste sentido, Bruschi (2009, p. 133) traz a tona a prática realizada por um 
dos cônjuges ou companheiro(a) da relação, ao perceberem a ocorrência de crise no 
ambiente familiar: 
 
Ao sentir sua união em crise, o cônjuge empresário e fraudador faz com que 
despareçam os bens que antes estavam em nome da sociedade e, com 
eles, toda a proteção prevista em lei para o patrimônio de sua esposa. Esse 
quadro desalentador pode, evidentemente, ser revertido, valendo-se o 
cônjuge prejudicado da disregard doctrine inversa. 
 
Na esfera do Direito de Família, especificamente em decorrência da 
desconstituição do casamento ou união estável, será utilizada “[...] de hábito, na via 
inversa, desconsiderando-se o ato, para alcançar bem da sociedade, para 
pagamento do cônjuge ou credor prejudicado” (MADALENO apud PEREIRA, 2009, 
p. 101). 
A fraude, entretanto, não ocorre exatamente no momento da dissolução dos 
laços conjugais, mas sim, anteriormente a isso, quando, hipoteticamente, um dos 
cônjuges ou companheiro(a), apesar de adquirir bens de grande monta, os registra 
em nome da pessoa jurídica, figurando, ainda, como sócio controlador na sociedade 
(GAMA, 2009). 
59 
 
 Diante da diuturna constatação nas disputas patrimoniais de cônjuges ou 
convivente empresário(a) que intencionalmente esconde-se sob as vestes da 
empresa, tanto no âmbito do casamento quanto na união estável, a aplicação da 
disregard visa descobrir o fim ilícito pelo qual encobre-se a sociedade, ao penetrar 
por detrás de sua máscara societária para frustrar o resultado antijurídico pelo qual 
objetivava-se atingir com a personalidade jurídica (MADALENO, 2009). 
 A exemplo, vislumbra Madaleno (2009) a possibilidade do cônjuge ou 
companheiro(a) burlar a meação em decorrência da separação do casal: 
 
[...] por ocasião da separação, usualmente quando eleita a via litigiosa, 
diante da resistência separatória daquele que não vê razões para a ruptura 
afetiva, adverte Maria Tereza Maldonado prevalece o aspecto econômico do 
casamento ou da união, onde o amor recolhido pela negada 
correspondência afetiva sede espaço fácil e absoluto para uma visão 
eminentemente mercantilista daquele relacionamento que se esboroa, 
abrindo espaço para que ganhos e patrimônio sejam manipulados para uma 
partilha desigual, quando não for possível esvaziar completamente a 
meação do parceiro ainda desejado, mas cujo amor desfeneceu 
(MADALENO, 2009, p. 168). 
 
Neste rumo, Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, citados por Rolf 
Madaleno (2009, p. 167) justificam esta ação fraudulenta do cônjuge ou 
companheiro(a), pois acreditam existir, nas relações familiares, “[...] um estranho e 
perverso sentimento vingativo, permitindo, não raras vezes, o uso da pessoa jurídica 
para tramar fraudes com o objetivo de prejudicar o cônjuge na partilha dos bens [...]”. 
Ao verificar o ato fraudatório e abusivo, a teoria da desconsideração inversa 
aplica-se para desconsiderar o ato praticado, e atingir os bens registrados em nome 
da sociedade, sem deixar que sua (eu) companheira (o) faça parte do montante a 
ser partilhado e subtraia da meação o que lhe seria devido pela comunhão de bens 
pactuada. 
O cônjuge ou companheiro(a), através de singela transferência dos bens 
comunicáveis, registrados em empresa constituída para este ilícito, de qual é sócio 
(por muitas vezes majoritário), continua usufruindo os bens, que estão sob sua 
posse. 
Entretanto, caracterizada a fraude através da personalidade jurídica da 
empresa, será possível responsabilizar a própria sociedade pelo valor devido ao 
outro cônjuge ou companheiro(a). 
É o que assevera, também, Madaleno (2009, p. 79): 
60 
 
Essa técnica jurídica de responsabilizar a sociedade empresária por ato 
abusivo de seus sócios ou administradores é chamada de desconsideração 
inversa, só se legitimando quando a sociedade se tornou mera extensão da 
pessoa física do sócio, como pode acontecer quando um cônjuge transfere 
maliciosamente os bens do casamento para a empresa da qual é sócio, 
entre outras previsíveis situações de fraude a direitos e obrigações de 
ordem civil e especialmente familiar. 
 
 Dito isto, algumas situações merecem destaque para a melhor compreensão 
prática do instituto da desconsideração inversa no âmbito do Direito de Família, 
conforme os exemplos a seguir expostos: 
 
A 7ª Câmara Cível do TJRS julgou hipótese similar na Apelação Cível nº 
70006948889, sendo relatora a desembargadora Maria Berenice Dias, 
proveniente de ação anulatória de alienação de quotas de capital social ou 
alternativamente indenização pela meação devida, porque seu esposo se 
retirou da empresa familiar às vésperas da separação judicial, tornando-se 
empregado da própria empresa e com parca remuneração. O acórdão 
censurou o comportamento desleal em se esquivar de repassar á esposa 
sua meação sobre as quotas sociais e aplica o instituto da disregard 
(MADALENO, 2009, p. 221). 
 
Ainda: 
 
Em outra situação processual, com uma planejada antecedência à 
separação judicial, quando já visíveis os sinais exteriores de rompimento 
afetivo, o varão constitui, com seus habituais sócios das outras empresas 
das quais participava, uma holding nominada de BMPD Ltda. Quando 
distribuída a separação amistosa, ingressaram na partilha alguns bens 
registrados em nome da pessoa física dos cônjuges e somente a holding 
BDMP Ltda., controladora de todas as demais empresas, acresceu cláusula 
contratual onde a ex-esposa sócia lhe outorgava procuração para as futuras 
alterações sociais. Mesmo antes de concluída a partilha, a separandajá não 
mais detinha qualquer bem conjugal, salvo alguns poucos bens de menor 
importância, recebidos com a separação e que se constavam em nome 
pessoal do casal (MADALENO, 2009, p. 223). 
 
Portanto, a desconsideração inversa da personalidade jurídica contra a ação 
de burlar a meação do cônjuge ou companheiro(a), apesar de não estar 
expressamente prevista em lei, vem sendo adotada pela doutrina e jurisprudência 
como meio adequado e descomplicado a fim de impedir a subtração fraudulenta dos 
bens patrimoniais por aqueles mal intencionados. 
 
4.4.2 Desconsideração inversa na Holding Familiar 
 
61 
 
Como já visto, constantemente vem ganhando espaço no planejamento 
societário a chamada holding familiar, que nada mais é do que uma empresa 
administradora de bens próprios, criada ou utilizada para direcionar e concentrar os 
bens particulares da família em uma sociedade destinada a isto. 
 Pois bem. Assim como está previsto no ordenamento jurídico brasileiro a 
criação das entidades familiares, há também a previsão de sua dissolução, 
decorrente de uma gama de causas geradoras da discórdia do casal. 
É nesta situação que a empresa que visa a administração de bens pode vir a 
ser o alvo encontrado pelo cônjuge ou convivente como ferramenta de fraude, 
esvaziando o patrimônio do casal e transferindo os bens adquiridos na constância do 
casamento ou união estável para a titularidade da pessoa jurídica, da qual é sócio 
(ou não). 
A respeito da efetivação da desconsideração inversa da personalidade 
jurídica de uma sociedade holding, da modalidade familiar, Silva e Rossi (2015, p. 
61) assim explicam: 
 
É bem verdade que a sociedade holding oferece alguma proteção aos bens 
pertencentes à família. Entretanto, essa espécie societária não pode ser 
alçada à condição de panaceia, remédio para toda sorte de problemas 
jurídicos particulares. Estando presentes elementos que demonstrem que 
sua constituição deu-se com o intuito de desviar bens em prejuízo de 
terceiros, será viável, em tese, a desconsideração inversa, sujeitando os 
bens da pessoa jurídica à penhora e até mesmo a expropriação para fazer 
frente às dívidas de seus sócios (SILVA e ROSSI, 2015, p. 61). 
 
Diante da expressão “blindagem patrimonial”, pela qual também é conhecida 
a holding familiar, e apesar de tratar-se de denominação divergente entre 
doutrinadores, Silva e Rossi (2015) explicam que a falsa impressão dessa expressão 
faz crer que, uma vez constituída a holding, o patrimônio familiar a si transferido não 
estaria em risco em decorrência de dívidas de seus sócios. 
 Ao exemplificar sua aplicação, pode-se buscar a situação ilustrativa em que o 
cônjuge, vendo-se em meio à crise da relação conjugal e almejando o prejuízo de 
sua esposa, constituiu fraudulentamente a holding familiar do tipo societário EIRELI, 
ou utiliza-se dela, caso já constituída, para transferir e esvaziar todo o patrimônio do 
casal a ela. Assim, sendo unicamente o cônjuge o sócio, ao desviar bens familiares 
à sociedade, atinge seu objetivo de fraudar a partilha de bens na ocorrência do 
divórcio, podendo usufruí-los exclusivamente como proprietário da holding EIRELI. 
62 
 
 Sentindo-se prejudicada diante da ação fraudulenta de seu cônjuge, a esposa 
poderia utilizar-se da desconsideração inversa da personalidade jurídica da holding 
EIRELI, no processo de divórcio, a fim de ter declarada a ineficácia da autonomia 
patrimonial da sociedade, para buscar os bens desviados do casal, e poder realizar 
a partilha de bens, conforme o regime de bens adotado. 
 Assim, como visto, apesar da holding transferir alguma proteção do 
patrimônio familiar, resta caracterizada a possibilidade de aplicação da 
desconsideração inversa nesta modalidade de sociedade, quando presentes os 
pressupostos autorizadores para sua configuração e seguindo o formalismo judicial. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
63 
 
5 CONCLUSÃO 
 
O desenvolvimento do presente trabalho desdobrou-se em três estratégicas 
seções que, interligadas pelo instituto da desconsideração da personalidade jurídica, 
influenciam nesta e são necessárias para o melhor entendimento acerca da temática 
apresentada. 
 Constatou-se na primeira etapa aspectos relevantes acerca das instituições 
familiares e, principalmente, os meios utilizados para a dissolução do vínculo 
conjugal, diante do litígio familiar, advindo da crise no relacionamento. 
 Neste diapasão, também, teve a presente etapa o objetivo de demonstrar 
algumas responsabilidades criadas a partir da união conjugal, que interferem nas 
relações jurídicas realizadas pelos consortes. 
 Já na segunda etapa do trabalho, foi possível verificar que a holding familiar, 
apesar de não tratar-se de modalidade específica das sociedades holdings, vem 
sendo cada vez mais presente no âmbito das relações familiares. 
Isto porque, diante das suas vantagens, possibilita que seja destinado a ela o 
patrimônio pessoal da família, concentrando-o em uma pessoa jurídica própria para 
sua gerência e controle. 
Esta concentração de patrimônio, corroborada com as vantagens da holding, 
entretanto, vem instigando cônjuges e companheiros(as) a se utilizarem desta 
sociedade para transferir os bens da relação conjugal à sociedade. 
 O terceiro e último capítulo, por fim, trouxe aspectos importantes e 
justificadores para a aplicação da desconsideração inversa da personalidade jurídica 
no âmbito do direito de família, especificamente no caso de litígio familiar, 
caracterizado pela crise da relação conjugal, que pode dar origem à dissolução ou 
pelo divórcio. 
 Passou-se, portanto, a tratar da boa-fé inerente das relações jurídicas, bem 
como da autonomia patrimonial da sociedade com relação à responsabilização de 
seus sócios, o que deu margem à análise aprofundada da desconsideração da 
personalidade jurídica, restando clara a figura da fraude e o abuso de direito como 
pressupostos autorizadores da aplicação da referida teoria, principalmente quando 
evidenciado o desvio de finalidade da pessoa jurídica ou a confusão patrimonial da 
sociedade, responsabilizando esta por ato praticado pelos seus sócios ou 
administradores. 
64 
 
 Assim, restou caracterizada na referida seção que, se comprovada a intenção 
fraudulenta ou abusiva de um dos cônjuges ou companheiro(a) que, ciente da crise 
na relação conjugal, utiliza-se da pessoa jurídica para burlar e prejudicar a meação 
reservada à outra parte, é possível a aplicação da teoria da desconsideração inversa 
da personalidade jurídica. 
 Dito isto, verifica-se que a primeira hipótese destacada restou confirmada, 
haja vista que a transferência de bens pessoais adquiridos na entidade familiar para 
uma pessoa jurídica, especificamente a holding patrimonial, no intuito de burlar a 
partilha do casal, utilizando-se de má-fé, abuso de direito ou fraude, poderá dar 
causa à aplicação da desconsideração inversa da personalidade jurídica, visando o 
retorno destes bens à titularidade do cônjuge ou companheiro(a) prejudicado, para 
aí, então, efetuar-se a partilha dos bens. 
 Com relação à segunda hipótese, denota-se que não pode ser aplicada a 
teoria da desconsideração da personalidade jurídica, nem mesmo sua modalidade 
inversa, quando a criação da holding patrimonial resultar de planejamento voluntário 
ou estratégico da entidade familiar, sem intenção fraudulenta quanto a partilha dos 
bens, e sem preencher os requisitos presentes no art. 50 do Código Civil. 
 Portanto, os objetivos inicialmente propostos para verificar a possibilidade de 
aplicação a teoria da desconsideração inversa da personalidade jurídica de holding 
patrimonial no caso de litígio familiar foram cumpridos, vez que buscou-se trazer um 
apanhado acerca dos temas presentes na problemática, através da construção e 
interligação dos assuntos. 
 O que propiciou, assim, a conclusão de que o abuso dedireito e a fraude são 
pressupostos para a aplicabilidade da desconsideração inversa da personalidade 
jurídica da holding familiar. 
 Cabe ressaltar, por fim, a importância do tema para coibir tais práticas mal 
intencionadas entre um dos cônjuges ou companheiro(a), que se utilizam da 
proteção patrimonial da holding familiar para burlar a meação e prejudicar seu 
consorte. 
 Destaca-se, também, o crescimento do instituto da desconsideração da 
personalidade jurídica no ordenamento jurídico brasileiro, o qual vem sendo 
fortemente aplicado e, através da construção doutrinária e jurisprudencial, deu 
origem à modalidade inversa, que passará, inclusive, a ter previsão legal expressa 
com o advento do Novo Código Civil, Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. 
65 
 
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5. ed. São Paulo: Atlas, 2015.entre cônjuges e familiares ....... ............................................ 40 
3.7.3 Da dissolução, liquidação e partilha......... ............................................... 42 
4 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ....... ....................... 45 
4.1 PERSONALIDADE DAS PESSOAS JURÍDICAS ........................................... 45 
4.2 A ORIGEM DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ... 47 
4.2.1 No Brasil ......................................... ............................................................ 49 
4.3 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO 
CIVIL DE 2002 ..................................................................................................... 50 
4.3.1 Teoria Menor e Maior da desconsideração ........... .................................. 51 
4.3.2 Pressupostos para a desconsideração ............... .................................... 52 
4.3.3 Finalidade da desconsideração ..................... .......................................... 54 
4.3.4 Aplicação no sistema jurídica nacional ............ ....................................... 55 
4.4 DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA ........... 56 
4.4.1 Desconsideração inversa da personalidade jurídica n o Direito de 
Família ........................................... ...................................................................... 57 
4.4.2 Desconsideração inversa na Holding Familiar ....................................... 6 0 
5 CONCLUSÃO ......................................... .......................................................... 63 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 65 
8 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
O presente estudo tem como objetivo analisar a possibilidade de 
reconhecimento judicial da desconsideração da personalidade jurídica inversa da 
holding patrimonial quando ficar configurada fraude ou desvio de finalidade na 
transferência dos bens da entidade familiar, com o objetivo de prejudicar o cônjuge 
ou convivente na partilha dos bens e a consequente dissolução afetiva. 
A disregard doctrine, também conhecida como desconsideração da 
personalidade jurídica, tem destaque no ordenamento jurídico brasileiro através do 
artigo 50 do Código Civil de 2002, e visa proteger credores de boa-fé contra uso 
indevido da personalidade jurídica da sociedade, com a intenção de desviar sua 
finalidade, prejudicar terceiros ou violar a lei, possibilitando a responsabilização dos 
sócios ou administradores, que responderão com seus bens particulares. 
 As hipóteses de aplicação da desconsideração da personalidade jurídica 
abrangem as diversas áreas do Direito, portanto, decidiu-se por abordar questões 
mais relevantes concernentes ao Direito de Família, especificamente no caso de 
litígio familiar, caracterizado pela fraude na partilha de bens diante do divórcio ou 
dissolução de união estável, o qual é o enfoque do presente trabalho. 
Corroborado a isso, constantemente vem ganhando espaço no planejamento 
societário as chamadas holdings patrimoniais, que nada mais são do que empresas 
administradoras de bens próprios, criadas para direcionar os bens particulares da 
família em uma única sociedade. 
É nesta situação que a empresa administradora de bens pode vir a ser o alvo 
encontrado pelo cônjuge ou convivente como ferramenta de fraude, esvaziando o 
patrimônio do casal e transferindo os bens adquiridos na constância do casamento 
ou união estável para a titularidade da pessoa jurídica, da qual é sócio (ou não). 
Neste sentido, a formulação do trabalho está envolvida em responder aos 
seguintes questionamentos: Existe a possibilidade de aplicar a teoria da 
desconsideração da personalidade jurídica inversa no direito de família, no caso de 
litígio familiar? Esta teoria pode ser aplicada à holding patrimonial, para repor 
eventual prejuízo causado à partilha de bens, por um dos cônjuges ou 
companheiro(a)? 
Dito isto, algumas hipóteses foram destacadas acerca do estudo. Incialmente, 
considerou-se que a transferência de bens pessoais adquiridos na entidade familiar 
9 
 
para uma pessoa jurídica, especificamente a holding patrimonial, no intuito de burlar 
a partilha do casal, utilizando-se de má-fé, abuso de direito ou fraude, poderá dar 
causa à aplicação da desconsideração inversa da personalidade jurídica, visando o 
retorno destes bens à titularidade do cônjuge ou companheiro(a) prejudicado, para 
aí, então, partilhar os bens. 
Também, uma segunda hipótese foi levantada, a qual destina-se em saber se 
pode ou não ser aplicada a teoria da desconsideração da personalidade jurídica 
quando a criação da holding patrimonial resultar de planejamento voluntário ou 
estratégico da entidade familiar, sem a intenção fraudulenta quanto a partilha dos 
bens. 
 Portanto, o objetivo geral do presente trabalho visa verificar a possibilidade de 
aplicar a teoria da desconsideração inversa da personalidade jurídica de holding 
patrimonial no caso de litígio familiar, caracterizado este pela dissolução do vínculo 
conjugal. 
Para isso, traça-se seguintes objetivos específicos: serão pesquisados o 
histórico e desenvolvimento da desconsideração da personalidade jurídica inversa 
no sistema jurídico nacional; elencados aspectos relevantes a respeito da sociedade 
empresarial do tipo holding patrimonial, como sua constituição, dissolução e partilha 
de bens; pesquisadas as influências da desconsideração da personalidade jurídica 
inversa no Direito de Família, especificamente na dissolução da entidade familiar, 
em especial quando houver litígio; e, por fim, verificar se o abuso, má-fé ou fraude 
na constituição da holding patrimonial é requisito para aplicação da teoria da 
desconsideração da personalidade jurídica inversa. 
Partindo desta premissa, portanto, busca-se aprofundar o conhecimento a 
respeito das pessoas jurídicas de direito privado, especificamente das empresas 
administradoras de bens próprios, também conhecidas por holding patrimonial, na 
qual sua criação destina-se na concentração, em uma única sociedade, dos bens 
particulares da família, e a sua desconsideração quando constatada fraude na 
meação, motivada pelos litígios familiares. 
Na realização da pesquisa será empregado o método hipotético-dedutivo, 
visando aplicar hipóteses da desconsideração da personalidade jurídica inversa no 
âmbito do direito de família, especificamente no caso de litígio familiar, para que, no 
decorrer do estudo, sejam eliminados aspectos não aplicáveis, concluindo, ao final, 
10 
 
as hipóteses concretas de sua aplicação, sendo atingidos os objetivos aqui 
propostos. 
Neste rumo, considerando o tema em questão, a técnica de pesquisa que 
servirá de suporte à metodologia do projeto será a Documentação Indireta, ou seja, 
a aplicação de pesquisa documental e bibliográfica, dentre legislações pertinentes 
ao assunto, consultas ao site da Junta Comercial do Estado de Santa Catarina, 
DREI - Departamento de Registro Empresarial de Integração, e grande destaque 
aos aspectos doutrinários especializados. 
 Por fim, visando a compreensão e, principalmente, a interligação dos 
assuntos que dizem respeito ao objeto da pesquisa, o conteúdo abordado divide-se 
em 3 seções. 
 A primeira seção destina-se a explanar sobre as entidades familiares e a 
relação entre cônjuges e companheiros, podendo entender mais a fundo as suas 
obrigações e responsabilidades, bem como a dissolução do vínculo conjugal, 
principalmente no que concerne ao divórcio e a dissolução de união estável. 
 Na segunda seção, a temática abordada diz respeito à sociedade 
denominada holding, e o seu enquadramento quanto sociedade, traçando suas 
características e tipos societários, para, então, adentrar na holding familiar e 
compreender o seu funcionamento e finalidade. 
 É na terceira seção, entretanto, que encontra-se o instituto da 
desconsideraçãoda personalidade jurídica, a qual vem embasada a partir de sua 
contextualização histórica, o que faz entender sua aplicação no âmbito do direito de 
família, para, então, desencadear na sua modalidade inversa, aplicada no caso de 
litígio familiar, que desencadeia o divórcio ou a dissolução da união estável, e a 
consequente oportunidade para burlar a partilha de bens do(a) companheiro(a) ou 
cônjuge. 
Ressalta-se, por fim, que não há a intenção de esgotar um assunto tão amplo, 
de grande importância para a sociedade e para o mundo jurídico, mas sim contribuir 
para o esclarecimento da comunidade em geral, com o intuito de coibir a prática 
destes atos abusivos e fraudulentos. 
 
 
 
 
11 
 
2 ENTIDADE FAMILIAR 
 
 A família encontra-se protegida pelo Estado, conforme assegura a 
Constituição Federal, que, inclusive, traz em seu art. 226 e seguintes parágrafos, 
três entidades familiares incluídas nesta proteção, tais como o casamento, a união 
estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais juntamente com seus 
descendentes, também conhecidas como monoparental. 
 
Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. 
§ 1º O casamento é civil e gratuita a celebração. 
(...) 
§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre 
o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua 
conversão em casamento. 
§ 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada 
por qualquer dos pais e seus descendentes (BRASIL, 2015c). 
 
 Assim, o objetivo da entidade familiar é a constituição de família, no intuito de 
diferençá-la de outros relacionamentos afetivos, à exemplo da amizade, da 
camaradagem entre colegas de trabalho, bem como das relações religiosas. É 
aferido objetivamente e não a partir da intenção das pessoas que as integram 
(LÔBO, 2008). 
Neste sentido, Oliveira e Hironaka (2005, p. 4) assim expressam o seu 
entendimento de entidade familiar: 
 
Seja a união legalizada pelo casamento ou aquela sedimentada por 
duradouro tempo de convivência (união estável), e bem assim a 
comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes (família 
monoparental), haverá de merecer proteção do Estado como núcleo 
familiar, assim entendido o agrupamento de pessoas envolvidas por laços 
de sangue, vínculos afetivos e comunhão de interesses. 
 
 Ademais, além da previsão constitucional da entidade familiar, verifica-se que 
outros institutos legais também atribuem a determinados grupos sociais esta 
qualidade, de acordo com específicos fins legais, como assim explica Lôbo (2008), a 
exemplo da: 
 
(...) Lei n. 8.009, de 1990, sobre a impenhorabilidade do bem de família; da 
Lei n. 8.425, de 1991, sobre locação de imóveis urbanos, relativamente à 
proteção da família, que inclui todos os residentes que vivam na 
dependência econômica do locatário; dos arts. 183 a 191 da Constituição, 
sobre a usucapião especial, em benefício do grupo familiar que possua o 
12 
 
imóvel urbano e rural como moradia; da Lei n. 11.340/2006 (Lei Maria da 
Penha), que coíbe a violência doméstica contra a mulher, cujo art. 5º 
compreendo no âmbito da família “a comunidade formada por indivíduos 
que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por 
afinidade ou por vontade expressa” (LÔBO, 2008, p. 58). 
 
 Coelho (2010) traz interessante posicionamento acerca das entidades 
familiares, também chamadas de família, que classificam-se, do ponto de vista do 
direito positivo brasileiro, em duas espécies: as constitucionais, e as não 
constitucionais. 
 As constitucionais são aquelas expressamente reconhecidas pela 
Constituição Federal, e dispostas pelo seu art. 226, enquanto as famílias não 
constitucionais, conforme Coelho (2010, p. 135) “são as demais, como, por exemplo, 
a união livre e a parceira entre pessoas do mesmo sexo”. Ainda, o mesmo 
doutrinador complementa que: 
 
As não constitucionais (fundadas em união livre, de pessoas de mesmo 
sexo e demais), porem, são igualmente famílias e merecem ser 
reconhecidas e protegidas como tais pela ordem jurídica. A lei ordinária não 
está obrigada a tratá-las de forma isonômica, relativamente às 
constitucionais: essa a única conseqüência da omissão dos constituintes. 
Mas em função dos princípios maiores da igualdade e dignidade, a lei 
também não pode ignorar, desprestigiar ou criminalizar qualquer outra 
forma de entidade familiar não mencionada pelos constituintes (COELHO, 
2010, p. 134). 
 
 Também, não há que deixar de destacar a figura da união homossexual, 
assunto de grande discussão e que, apesar de não disciplinada por lei que a 
regulamente, mas também não vedada pela Constituição Federal, as regras da 
união estável podem ser aplicáveis à união homossexual, por analogia, de acordo 
com o art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil, em virtude de ser a entidade 
familiar que mais aproxima-se da estrutura, nomeadamente quantos às relações 
pessoais, de lealdade, respeito e assistência, alimentos, filhos, adoção, regime de 
bens e impedimentos (LÔBO, 2008). 
 A respeito, o doutrinador ainda segue explanando sobre o assunto, 
assegurando que não se sustenta o argumento de impossibilidade da filiação entre 
casais homossexuais, uma vez que, por exemplo, a família sem filhos tem sua tutela 
constitucional; bem como é permitido o direito de adoção a qualquer pessoa, seja 
qual for seu estado civil, e isto não é nenhum impedimento para que a criança se 
integre à família; e ainda não é finalidade indeclinável de uma família tutelada pela 
13 
 
Constituição Federal a procriação. Portanto, estaria a realidade sendo encobertada 
pelo preconceito quando não reconhecida a filiação socioafetiva (LÔBO, 2008). 
 Conclui Gama (2005) que a família é um valor constitucionalmente 
assegurado, seja dentro dos seus limites e de não contrariedade aos valores 
caracterizados pelas relações civis, destacando-se, especialmente, ao princípio da 
dignidade humana. Neste sentido, ainda que existam diversas modalidades de 
organização, ou seja, espécies diferenciadas de família, a ordem constitucional que 
é dirigia ao Estado tem como finalidade a efetivação da sua proteção e daqueles que 
a ela pertencem. 
 
2.1 CASAMENTO 
 
 Conforme art. 1.511 do Código Civil (BRASIL, 2015f), “o casamento 
estabelece comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres 
dos cônjuges”, sendo defeso a qualquer pessoa, seja de direito público ou privado, a 
interferência na comunhão de vida instituída pela família, de acordo com o art. 
1.513, do mesmo diploma legal. 
 O ordenamento jurídico brasileiro também permite ampla liberdade na escolha 
do regime de bens adotado pelo casal, em sua comunhão, no intuito de possibilitar o 
melhor enquadramento de seus interesses com relação aos bens, exceto quando 
imposto pela legislação o regime da separação de bens, conforme será abordado 
adiante. 
 Portanto, com relação ao regime de bens do casamento, o doutrinador Coelho 
(2010, p. 78) explica que: 
 
[...] são quatro: comunhão universal, comunhão parcial, separação absoluta 
e participação final nos aquestos. Se os consortes nada contratarem sobre 
seus bens, ou se o que convencionaram resultou nulo ou ineficaz, será 
observado o regime da comunhão parcial (CC, art. 1.640). Ele é chamado, 
por isso, de regime geral, enquanto os outros três são os convencionais. 
 
 Quanto a sua formalidade, a celebração do casamento civil é gratuita, 
conforme art. 1.512 do Código Civil, e é realizado no momento em que os nubentes, 
diante do juiz, manifestam sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, sendo 
declarados casados por este, de acordo com o art. 1.514 do Código Civil. 
 Realizado o casamento, ambos os consortes assumem mutuamente a 
14 
 
condição de consortes, companheiros e responsáveis pelos encargos da família, 
uma vez que a direção da sociedade conjugal será exercida pelo casal, sempreem 
seu interesse e dos seus filhos. 
 A constância da união conjugal, a partir do casamento, impõe aos consortes o 
cumprimento dos seus deveres de: manter a fidelidade recíproca; a vida em comum, 
no domicílio conjugar; a mútua assistência; o sustento, guarda e educação dos 
filhos; e o respeito e consideração mútuos. Com relação a estas obrigações, assim 
dispõe Leite (2005, p.128): 
 
São deveres de ordem pessoal e deveres recíprocos. De ordem pessoal, 
porque fazem do casamento um modo de vida; porque regulamentando a 
vida conjugal, a unidade do lar se cumpre na fidelidade e na assistência. 
São deveres recíprocos, porque pesam igualmente sobre os dois cônjuges; 
eles comprometem cada um em relação ao outro e vice versa. 
 
 Com isso, caracteriza-se a constituição do casamento pela dependência da 
manifestação e declarações de vontade sucessivas, corroborado com a oficialidade 
que é revestido, uma vez que, para sua eficácia, depende dos atos estatais, quais 
sejam: a habilitação, celebração e registro público, diferentemente das demais 
entidades familiares, que são constituídas livremente, através de fatos sociais aos 
quais o direito lhes empresta consequências jurídicas (LÔBO, 2008). 
 Trata-se de um contrato de direito de família, pelo qual está disciplinado por 
regras próprias, sem sujeitar-se a muitos dos preceitos reguladores dos contratos 
em geral, e nem mesmo se sujeita a certas normas aplicáveis aos demais negócios 
jurídicos (COELHO, 2010). 
 A legislação ainda assegura aos cônjuges a possibilidade de dissolução desta 
entidade familiar, que pode ocorrer pela morte de um dos cônjuges, pela nulidade ou 
anulação do casamento, ou através do divórcio ou da separação. Esta última 
dissolve a sociedade conjugal, mas não o vínculo entre os cônjuges, enquanto o 
divórcio, que, em termos mais precisos, pode ser realizado por conversão, dissolve o 
vínculo quando a sociedade conjugal já estava desfeita pela separação ou, se 
realizado da forma direta, se desfaz, ao mesmo tempo, a sociedade e o vínculo 
(COLEHO, 2010). 
 
2.2 UNIÃO ESTÁVEL 
 
15 
 
 A união estável, relação esta também havida entre os consortes com o 
objetivo de constituir família, também reconhecida constitucionalmente, tem a 
mesma proteção que o Estado libera para a família fundada no casamento. A única 
diferença diz respeito à prova do vínculo horizontal de família, que se produz muito 
mais facilmente no casamento (COELHO, 2010). 
 Esta entidade familiar tem como características a convivência pública, 
contínua e duradoura, com o intuito de constituir família, quando não há 
impedimento para o casamento. Também pode ser caracterizado como união 
estável o vínculo havido quando qualquer dos conviventes (ou ambos) for separado, 
ou até mesmo quando esteja separado de fato, sendo ainda casado (COELHO, 
2010). 
 Com relação ao regime de bens da união estável, o art. 1.725 do Código Civil 
estabelece que, salvo contrato escrito entre os companheiros, será aplicado o 
regime da comunhão parcial de bens às relações patrimoniais. 
 As relações pessoais entre os companheiros muito se assemelham ao 
casamento, uma vez que deverão obedecer aos deveres de lealdade, respeito e 
assistência, e de guarda, sustento e educação dos filhos, conforme art. 1.724 do 
Código Civil. 
 Prevê, ainda, o art. 1.726 do Código Civil, que poderá a união estável ser 
convertida em casamento, desde que os companheiros apresentem pedido ao juiz e 
assento no Registro Civil. 
 Entretanto, para a extinção da relação, diferentemente do casamento, onde 
dissolve-se o ato jurídico e pode-se ser imputada ou investigada a culpa, na da 
união estável a dissolução é objetiva, pois dissolve a convivência, fundando-se 
exclusivamente na separação de fato. Assim, o procedimento da dissolução pode 
ser realizado de forma amigável, podendo, inclusive, ser exteriorizada em 
instrumento particular, ou, em caso de litígio, através de pedido de dissolução 
judicial (LÔBO, 2008). 
 
2.3 REGIME DE BENS 
 
 O regime de bens tem a finalidade de regulamentar as relações patrimoniais 
havidas entre os cônjuges e companheiros, nomeadamente quanto ao domínio, bem 
como da administração de ambos ou de cada um sobre os bens que foram trazidos 
16 
 
e adquiridos durante a união conjugal. Assim, o regime aplicável depende de 
escolhas realizadas pelos próprios nubentes, salvo exceções, podendo ser escolhida 
por estipulações convencionais e de normas cogentes, ou ser determinada por 
normas legais, quando não for exercida a escolha (LÔBO, 2008). 
 A respeito, Madaleno (2009, p. 116) expressa o seguinte: 
 
O regime de bens contém normas sobre a propriedade e destino dos bens 
que aportam ao casamento e à união estável. Representa um conjunto de 
relações patrimoniais denominado regime matrimonial e sua principal 
função é a de dar lastro ao sustento da entidade familiar, que precisa 
satisfazer suas requisições econômicas e atender aos custos de 
manutenção da família com os rendimentos do casal, na proporção do 
esforço de cada um, ou pode criar um patrimônio acomodado ao uso e às 
necessidades de sustento dos seus componentes. 
 
 A ampla liberdade do casal de escolher, com relação ao regime de bens, o 
que lhes aprouver, prevista no art. 1639 do Código Civil, viabiliza aos nubentes a 
possibilidade de estipular conjuntamente acerca do seu patrimônio, ainda que haja 
regra geral que determine o regime específico no caso de omissão, como será 
tratado adiante. 
 Assim, não havendo convenção entre o casal quanto ao regime de bens, ou 
sendo ela nula ou ineficaz, vigorará entre os cônjuges, o regime da comunhão 
parcial, via de regra, conforme previsto no art. 1640 do Código Civil. Caso contrário, 
podem os nubentes escolher regime diverso, dentre aqueles previstos no 
ordenamento jurídico brasileiro, através da realização de Pacto Antenupcial, 
conforme expressa o Parágrafo único do art. 1640 do Código Civil: 
 
Art. 1.640 [...] Parágrafo único. Poderão os nubentes, no processo de 
habilitação, optar por qualquer dos regimes que este código regula. Quanto 
à forma, reduzir-se-á a termo a opção pela comunhão parcial, fazendo-se o 
pacto antenupcial por escritura pública, nas demais escolhas (BRASIL, 
2015f). 
 
 Neste rumo, entretanto, para ter eficácia o pacto antenupcial, deverá ser 
formalizado através de escritura pública, conforme art. 1.653 do Código Civil, caso 
contrário, será considerado nulo o regime de bens escolhido, e terá validade a regra 
geral prevista pelo Código Civil, qual seja, a comunhão parcial de bens, nos termos 
do art. 1.640 do mesmo diploma legal. 
17 
 
 A respeito da livre escolha do regime de bens durante a sociedade conjugal, 
Coelho (2010, p. 77) assim complementa, conforme seus ensinamentos, que: 
 
O princípio fundamental é o da ampla liberdade dos cônjuges para estipular 
acerca de seus bens, anteriores ou posteriores ao casamento, o que bem 
quiserem (CC, art. 1.639). Podem, por exemplo, contratar que certo imóvel, 
onde pretendem residir, pertencerá aos dois em partes iguais e que os 
outros bens serão da propriedade exclusiva de quem já os titula ou vier a 
adquirir, por negócio jurídico ou sucessão. Ou podem contratar a 
incomunicabilidade de um ou alguns bens e a divisão dos demais. A lei 
faculta aos cônjuges, em suma, dispor livremente sobre os efeitos 
patrimoniais do casamento. 
 
 Ademais, há também a possibilidade de alteração do regime de bens 
escolhido, desde que seja realizado mediante autorização judicial em pedido 
motivado de ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e 
ressalvados os direitos de terceiros, conforme §2º do art. 1.639, do Código Civil. 
 Coelho (2010, p. 79) segue explicando também que: 
 
[...] qualquer que seja o regime de bens do casamento, se um dos cônjuges 
ficar impossibilitado, por qualquer razão, de administrar seu patrimônio 
particular, caberá ao outro a responsabilidadepela gerência deste. A lei lhe 
atribui, também, o direito de alienar os bens móveis comuns; bem como o 
de, mediante autorização do juiz, alienar os imóveis comuns e os imóveis 
pertencentes ao consorte impedido (CC, art. 1.651). Responderá pelos atos 
que praticar, perante o cônjuge e seus herdeiros, na condição de 
usufrutuário (quanto à administração dos bens comuns) ou depositário (dos 
bens particulares), a menos que lhe tenha sido outorgado, tácita ou 
expressamente, mandato (art. 1.652). 
 
 Por fim, outras especificações gerais, além daquelas atinentes ao regime de 
bens estabelecido entre o casal, dizem respeito à solidariedade de dívida contraída 
pelo casal, assim, “independentemente do regime de bens adotado, haverá 
solidariedade entre os cônjuges pela dívida contraída por qualquer um deles, mesmo 
sem a anuência do outro, quando necessária à economia doméstica (CC, arts. 1.643 
e 1.644)” (COELHO, 2010). 
 
2.3.1 Espécies de comunhão 
 
2.3.1.1 Comunhão universal 
 
18 
 
 Conforme disposto no art. 1.667 do Código Civil (BRASIL, 2015f), o regime da 
comunhão universal diz respeito à “[...] comunicação de todos os bens presentes e 
futuros dos cônjuges e suas dívidas passivas, com as exceções do artigo seguinte”. 
 A respeito destaca Madaleno (2009, p. 2014): 
 
O casamento, que agora rapidamente se desagrega pela profunda 
transformação dos valores sociais, não mais pode servir como um meio de 
aquisição de bens. No que obtempera Varela, só devem ser considerados 
comuns, como resultado da união, os bens adquiridos pelo conjugado 
esforço de ambos os cônjuges, mantendo-se próprios os bens trazidos para 
dentro do matrimônio, ou por eles individualmente recebidos a título gratuito 
na constância do casamento. 
 
Mesmo tratando-se de regime de bens com maior amplitude, ou seja, que 
engloba maior grau de comunicação de bens dos cônjuges, ainda assim a lei 
preocupou-se em preservar alguns dos direitos dos nubentes, ao estabelecer uma 
margem mínima de incomunicabilidade, portanto, sempre haverá no patrimônio dos 
cônjuges alguns bens separados (COELHO, 2010). 
É neste sentido, portanto, que veio disciplinar o art. 1.668 do Código Civil 
(BRASIL, 2015f), ao excluir da comunhão universal: os bens doados ou herdados 
com a cláusula de incomunicabilidade e os sub-rogados em seu lugar; os bens 
gravados de fideicomisso e o direito do herdeiro fideicomissário, antes de realizada a 
condição suspensiva; as dívidas anteriores ao casamento, salvo se provierem de 
despesas com seus aprestos, ou reverterem em proveito comum; as doações 
antenupciais feitas por um dos cônjuges ao outro com a cláusula de 
incomunicabilidade. 
A extinção da comunhão universal de bens se dará pela divisão do ativo e 
passivo, momento em que cessará a responsabilidade dos cônjuges para com os 
credores do outro. Assim, as formas de extinção são a dissolução da sociedade 
conjugal, através da separação judicial ou do divórcio direto, com o falecimento de 
um dos cônjuges, quando alterado o regime de bens, ou até mesmo quando da 
separação de fato (quando sucedida pela constituição de união estável) 
(GONÇALVES, 2005). 
 
2.3.1.2 Comunhão parcial 
 
19 
 
 Como já destacado, nesta espécie de comunhão de bens comunicam-se os 
bens que sobrevierem ao casal, na constância do casamento, salvo exceções que 
serão tratadas a seguir, e não comunicam-se aqueles bens cuja aquisição tiver por 
título causa anterior ao casamento, de acordo com o art. 1.661 do Código Civil, 
conforme dispõe Coelho (2010, p. 91): 
 
Nesse regime, os bens anteriores ao casamento continuam a permanecer 
ao cônjuge que os trazia em seu patrimônio quando se casou (CC, art. 
1.659, I). A diferença fundamental em relação à comunhão universal está na 
exclusão dos bens que cada cônjuge já titularizava antes do casamento. Se 
a mulher havia adquirido, quando solteira ainda, um apartamento, esse 
imóvel permanece em seu patrimônio particular e não se comunica. 
Terminando a sociedade conjugal, o apartamento não será partilhado. 
 
 Os bens que serão considerados excluídos da comunhão parcial de bens são 
aqueles previstos pelo art. 1.659 do Código Civil, quais sejam as hipóteses: 
 
Art. 1.659. Excluem-se da comunhão: 
I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem, na 
constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados em 
seu lugar; 
II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um dos 
cônjuges em sub-rogação dos bens particulares; 
III - as obrigações anteriores ao casamento; 
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito 
do casal; 
V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão; 
VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge; 
VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes 
(BRASIL, 2015f). 
 
 Assim, no regime da comunhão parcial de bens o patrimônio dos cônjuges 
deverá ser repartido entre três massas de bens, conforme Lôbo (2008) explica, ou 
seja, duas massas particulares, sendo os bens próprios de cada cônjuge, também 
chamados de não comunicáveis, e uma massa dos bens comuns, chamados de 
comunicáveis. 
Também, todo bem apresto, ainda que recebido durante o casamento, 
através de doação ou herança, não pode comunicar-se com o outro consorte, nem 
tampouco aqueles que nestes se sub-rogarem, fato que ocorre, por exemplo, 
quando o cônjuge vende um bem incomunicável e com o produto desta venda 
adquire outro de igual valor, que assim também não se comunica (MADALENO, 
2009). 
20 
 
A respeito, inclusive, Coelho (2010) expressa seu entendimento, sintetizando 
que no referido regime de bens, é possível distinguir o patrimônio particular de cada 
cônjuge e o comum. 
O primeiro caracteriza-se pelos bens adquiridos antes da constância do 
casamento, sejam eles recebidos por doação, ou até mesmo os proventos do 
trabalho pessoal, as obrigações passivas constituídas anteriormente ao matrimônio, 
entre outras. Ou seja, trata-se de patrimônio administrado exclusivamente pelo 
cônjuge titular, que tem direito de dispô-lo a qualquer tempo, e recaindo sobre ele 
apenas as dívidas contraídas para a respectiva administração, nos termos dos arts. 
1.665 e 1.666, do Código Civil. Enquanto no patrimônio comum, integram os bens 
adquiridos após o casamento, como por exemplo, as benfeitorias nos particulares, 
as obrigações passivas em proveito da família, etc. (COELHO, 2010). 
 
2.3.1.3 Participação final nos aquestos 
 
 O Código Civil, ao disciplinar acerca da participação final nos aquestos, 
delimita em seus arts. 1.672 e 1.673 que, neste regime, cada cônjuge possuirá 
patrimônio próprio, integrado por bens que cada um possuía ao casar, bem como os 
por ele adquiridos, a qualquer título, durante o casamento, cabendo a cada cônjuge, 
à época da dissolução da sociedade conjugal, direito à metade dos bens adquiridos 
pelo casal, a título oneroso, na constância do casamento. 
 Neste rumo, a administração dos bens que integram o patrimônio próprio de 
cada cônjuge será realizada por cada um destes, de forma exclusiva, podendo 
livremente os alienar, caso sejam móveis, conforme Parágrafo único do art. 1.673 do 
Código Civil. 
 Madaleno (2009) define as relações patrimoniais do referido regime 
comparando com o regime de separação de bens, onde cada cônjuge, durante a 
união, administra livre e independente seu patrimônio pessoal, podendo dispor dele 
quando for bem móvel, conforme Parágrafo único do art. 1.673, salvo a dispensa 
realizada através de pacto antenupcial para os bens particulares. 
 Assim, com a dissolução conjugal, nasce “uma massa comunicável dos bens 
aquestos, como acontece da comunhão parcial. [...] por ocasião da dissolução do 
casamento, há um direito de crédito do outro cônjuge sobre os bens alheios.” 
(MADALENO, 2009, p. 125). 
21 
 
2.3.2 Separação de bens 
 
Inicialmente, insta esclarecerque, atualmente, como já visto, a regra geral do 
ordenamento jurídico adota o regime da comunhão parcial de bens aos casais que 
nada convencionaram a respeito, salvo se à união aplica-se o regime da separação 
obrigatória de bens. 
A partir disto, o presente regime de bens pode decorrer de duas formas: 
através de determinação legal, ou então pela convenção dos cônjuges, ou seja, 
quando optado voluntariamente pelo casal, devendo ser, entretanto, formalizada 
através de pacto antenupcial para que tenha eficácia o regime de bens adotado. 
A obrigatoriedade, entretanto, deste regime, diz respeito às seguintes 
hipóteses: a) pessoas que contraírem casamento com inobservância das causas 
suspensivas da celebração do casamento; b) pessoa maior de 70 (setenta) anos; c) 
de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial, conforme art. 1.641 
do Código Civil. 
Neste sentido, o artigo 1.687 do Código Civil assim dispõe sobre a separação 
de bens: “Estipulada a separação de bens, estes permanecerão sob a administração 
exclusiva de cada um dos cônjuges, que os poderá livremente alienar ou gravar de 
ônus real” (BRASIL, 2015f). 
 Ademais, “ambos os cônjuges são obrigados a contribuir para as despesas do 
casal na proporção dos rendimentos de seu trabalho e de seus bens, salvo 
estipulação em contrário no pacto antenupcial”, conforme art. 1.688 do Código Civil 
(BRASIL, 2015f). 
 No que diz respeito a separação patrimonial, Lôbo (2008, p. 329) considera 3 
(três) importantes dimensões: 
 
A separação patrimonial se perfaz em suas três mais importantes 
dimensões: a) a administração exclusiva de cada cônjuge sobre seus bens 
próprios e respectivo usufruto; b) a liberdade de alienação dos bens 
próprios, sem autorização do outro, bem como do destino do resultado; c) a 
responsabilidade de cada um sobre as dívidas e obrigações que contrair. 
 
 Por fim, restou assegurado pelo STF, através da edição da Súmula nº 377, 
que “No regime da separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na 
constância do casamento” (BRASIL, 2015a). Entretanto, referido diploma legal teve 
sua interpretação “restrita aos bens adquiridos pelo esforço comum dos cônjuges, 
22 
 
reconhecendo-se a existência de uma verdadeira sociedade de fato” (GONÇALVES, 
2005, p. 411), passando a decidir desta forma o Supremo Tribunal Federal. 
 
2.4 EFEITOS DO ATO PRATICADO COM E SEM A AUTORIZAÇÃO DO CÔNJUGE 
 
Alguns atos ou negócios jurídicos realizados pela pessoa casada em regime 
de comunhão, seja ele universal, parcial ou até mesmo participação final nos 
aquestos, só poderão ser praticados mediante a concordância do outro cônjuge, a 
fim de resguardar os seus interesses, pois podem afetar consideravelmente o 
patrimônio comum, comprometendo-o direta ou indiretamente. Assim, quando 
depende da concordância da mulher, o ato chama-se outorga uxória, e do marido, 
autorização marital (COELHO, 2010). 
Sendo assim, os atos pelos quais independem da autorização do cônjuge são 
aqueles previstos pelo art. 1642 do Código Civil: 
 
Art. 1.642. Qualquer que seja o regime de bens, tanto o marido quanto a 
mulher podem livremente: 
I - praticar todos os atos de disposição e de administração necessários ao 
desempenho de sua profissão, com as limitações estabelecida no inciso I do 
art. 1.647; 
II - administrar os bens próprios; 
III - desobrigar ou reivindicar os imóveis que tenham sido gravados ou 
alienados sem o seu consentimento ou sem suprimento judicial; 
IV - demandar a rescisão dos contratos de fiança e doação, ou a invalidação 
do aval, realizados pelo outro cônjuge com infração do disposto nos incisos 
III e IV do art. 1.647; 
V - reivindicar os bens comuns, móveis ou imóveis, doados ou transferidos 
pelo outro cônjuge ao concubino, desde que provado que os bens não 
foram adquiridos pelo esforço comum destes, se o casal estiver separado 
de fato por mais de cinco anos; 
VI - praticar todos os atos que não lhes forem vedados expressamente 
(BRASIL, 2015f). 
 
De outra forma, o art. 1.643 do Código Civil assegura a possibilidade dos 
cônjuges realizarem atos independentemente de autorização do outro, tais como: 
comprar, ainda a crédito, as coisas necessárias à economia doméstica; e obter, por 
empréstimo, as quantias que a aquisição dessas coisas possa exigir. Entretanto, as 
dívidas contraídas para estes citados fins obrigam solidariamente ambos os 
cônjuges, conforme previsão do art. 1.644 do Código Civil. 
 Também deve ser resguardada a hipótese prevista pelo art. 978 do Código 
Civil, que autoriza o empresário casado por qualquer seja o regime de bens, alienar 
23 
 
os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real, sem 
necessidade de outorga conjugal. 
 Entretanto, para a prática de determinados atos, a legislação prevê, 
obrigatoriamente, a necessidade de autorização do outro cônjuge, conforme 
disposto no art. 1.647 do Código Civil: 
 
Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, 
sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: 
I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; 
II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos; 
III - prestar fiança ou aval; 
IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que 
possam integrar futura meação. 
Parágrafo único. São válidas as doações nupciais feitas aos filhos quando 
casarem ou estabelecerem economia separada (BRASIL, 2015f). 
 
 Neste rumo, considerando o dever da autorização do outro cônjuge para a 
prática dos atos determinados no artigo anteriormente citado, caso não siga esta 
regra, o negócio jurídico torna-se anulável, nos termos do art. 1.649 do Código Civil. 
Assim, inclusive, dispõe Lôbo (2008, p. 306-307): 
 
A falta de autorização do outro cônjuge para a prática de determinados 
negócios jurídicos torna-os anuláveis. Definiu bem a lei a natureza de 
anulabilidade para a falta de autorização conjugal, porque os interessados 
são determinados, máxime o outro cônjuge. A anulabilidade do negócio 
jurídico é passível de confirmação pelas partes a quem interessa, e o 
negócio jurídico pode ser convalidado se vencido o prazo dentro do qual 
poderia ser arguida. 
 
 Além das hipóteses acima previstas, há de destacar a restrição legal trazida 
pelo art. 977 do Código Civil para a constituição de sociedade entre si ou com 
terceiros, quando os cônjuges forem casados pelo regime da comunhão universal de 
bens ou pela separação obrigatória, assunto este, entretanto, que ainda será 
abordado com maior profundidade no presente trabalho. 
 
2.5 DA DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE E DO VÍNCULO CONJUGAL 
 
 Disciplina o Código Civil que a sociedade conjugal tem seu término através 
das disposições previstas pelo art. 1.571, que são: a morte de um dos cônjuges; a 
nulidade ou anulação do casamento; pela separação judicial; ou pelo divórcio. 
24 
 
 A separação e o divórcio, mesmo sendo dois institutos distintos, encontram-se 
previstos no Capítulo de Dissolução da Sociedade e do Vínculo Conjugal, inserido 
no Código Civil, e merecem ser apreciados conjuntamente, haja vista terem a 
mesma finalidade, qual seja: o fim de um relacionamento, bem como são 
modalidades de encerramento do casamento, entretanto, assemelham-se 
unicamente por esta razão. O §1º do art.1.571 traz uma prévia de suas distinções, 
ao determinar que o casamento apenas se dissolve pela morte de um dos cônjuges 
ou pelo divórcio, e que a separação limita-se a colocar fim à sociedade conjugal, 
sem lhe dissolver (DIAS, 2005), conforme será aprofundado a seguir. 
 
2.5.1 Separação 
 
 Dias (2005, p. 65), ao introduzir o instituto da separação, expressa sua 
opinião, alegando que “Além de dispensável, a separação, como modalidade de 
terminar o casamento, traz em suas entranhas a marca de um conservadorismo que 
não mais se justifica no atual estágio de desenvolvimento da sociedade”. 
 Dito isto, apesarda sua considerável inutilidade para os dias atuais, ainda 
encontra-se expresso na legislação brasileira, e pode ser escolhido como forma de 
término da sociedade conjugal. 
 Assim, pode ser a separação amigável ou litigiosa. Coelho (2010, p. 110) 
explica que “No primeiro caso, os dois cônjuges requerem em conjunto ao juiz que 
decrete o desfazimento da sociedade conjugal [...]. No segundo, um deles imputa ao 
outro a culpa ou pelo menos a responsabilidade pelo fim do matrimônio [...]”. 
 Nos termos do art. 1.572, a separação judicial poderá ser proposta por 
qualquer um dos cônjuges, “[...] imputando ao outro qualquer ato que importe grave 
violação dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum” 
(BRASIL, 2015f). 
 Coelho (2010, p. 114), a partir dos parágrafos constantes do art. 1.572 do 
Código Civil, descreve da seguinte forma a separação judicial litigiosa: 
 
Na separação litigiosa, o cônjuge que propõe a demanda deve provar que o 
demandado descumpriu gravemente um dever do casamento, tornando 
insuportável a vida em comum (separação-sanção), que esta se rompeu há 
pelo menos um ano, não havendo por que se reconstituir (separação-
ruptura) ou este último foi acometido de doença mental grave e 
provavelmente incurável há dois anos (separação-remédio). 
25 
 
 Neste âmbito, a separação litigiosa ainda pode ser divida em separação com 
culpa e sem culpa, caracterizando a primeira em separação-sanção, conforme 
definição acima citada por Coelho, uma vez que a comunhão de vida torna-se 
impossibilitada em decorrência de alguns exemplos listados pelos incisos do art. 
1.573 do Código Civil, como o adultério; tentativa de morte; sevícia ou injúria grave; 
abandono voluntário do lar conjugal, durante um ano contínuo; condenação por 
crime infamante; conduta desonrosa, dentre outros fatos que podem ser 
considerados pelo juiz. 
 Assim, o cônjuge considerado culpado pela dissolução da relação conjugal 
terá imposto a seu favor três sanções. A primeira caracteriza-se pela condenação 
nas verbas sucumbenciais do processo de separação, bem como ao pagamento dos 
honorários e das custas judiciais. A segunda hipótese é aplicada apenas ao culpado 
que tiver adotado o sobrenome do outro cônjuge, podendo o cônjuge inocente 
requerer a realização da mudança do sobrenome, quando tal ocorrência não trouxer 
prejuízos ao culpado. A terceira sanção diz respeito ao direito de receber alimentos 
mínimos, ou seja, aqueles necessários unicamente à subsistência, caso não 
disponha o culpado de recursos para se manter (COELHO, 2010). 
 A respeito da separação litigiosa sem culpa, quando tornar-se insuportável a 
convivência entre os cônjuges e houver impossibilidade da vida em comum, prevê o 
Código Civil duas hipóteses para sua efetivação, através dos §§1º e 2º do art. 1.572: 
 
Art. 1.572. Qualquer dos cônjuges poderá propor a ação de separação 
judicial, imputando ao outro qualquer ato que importe grave violação dos 
deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum. 
§ 1o A separação judicial pode também ser pedida se um dos cônjuges 
provar ruptura da vida em comum há mais de um ano e a impossibilidade de 
sua reconstituição. 
§ 2o O cônjuge pode ainda pedir a separação judicial quando o outro estiver 
acometido de doença mental grave, manifestada após o casamento, que 
torne impossível a continuação da vida em comum, desde que, após uma 
duração de dois anos, a enfermidade tenha sido reconhecida de cura 
improvável (BRASIL, 2015f). 
 
 Diferentemente, na separação amigável, conforme art. 1.574 do Código Civil, 
“Dar-se-á a separação judicial por mútuo consentimento dos cônjuges se forem 
casados por mais de um ano e o manifestarem perante o juiz, sendo por ele 
devidamente homologada a convenção” (BRASIL, 2015f). 
 Ainda, a lei 6.515 de 26 de dezembro de 1977, que regula os casos de 
dissolução da sociedade conjugal e do casamento, seus efeitos e respectivos 
26 
 
processos, corroborada com o Código Civil, dispõe, em seu art. 3º, que “A 
separação judicial põe termo aos deveres de coabitação, fidelidade recíproca e ao 
regime matrimonial de bens, como se o casamento fosse dissolvido” (BRASIL, 
2015d). 
 Também, com a separação judicial, haverá a consequente partilha de bens, 
conforme art. 1.575 do Código Civil, bem como, apesar da dissolução conjugal, 
poderão os cônjuges restabelecer a união, a todo tempo, reconciliação esta que “em 
nada prejudicará o direito de terceiros, adquirido antes e durante o estado de 
separado, seja qual for o regime de bens” (BRASIL, 2015f), conforme Parágrafo 
único do art. 1.577 do mesmo diploma legal. 
 Assim, a explanação acerca da procedimentalização da separação 
demonstra, por si só, a conclusão tomada pela doutrinadora Dias (2005), que 
visualiza a separação como um procedimento inútil, desgastante e oneroso, seja 
para o casal, seja para o Poder Judiciário, que acaba impondo uma duplicidade de 
procedimentos para o simples fato de ter que manter, durante um ano, uma 
sociedade conjugal “finda”, mas não “extinta”. 
 
2.5.2 Divórcio 
 
O divórcio encontra-se expressamente assegurado pela Constituição Federal 
que, em seu art. 226, §6º. A respeito do divórcio direto, é assim expressa Coelho 
(2010, p. 121): 
 
[...] no divórcio direto, os cônjuges não se separam, isto é, não tiveram 
decretada em juízo a dissolução da sociedade conjugal nem a pactuaram 
(quando possível) por escritura pública. Passam, então, do estado civil de 
casados diretamente para o de divorciados, daí a designação dessa 
modalidade de extinção do vínculo conjugal, que dissolve 
concomitantemente a sociedade entre os cônjuges. 
 
 O divórcio denominado direto, inclusive, conforme o divórcio por conversão, 
“[...] pode ser litigioso, se pedido ao juiz por um só dos cônjuges, ou consensual, se 
por convergência de contados dos dois, manifestada em juízo ou, se não há filhos 
menores ou incapazes, mediante escritura pública” (COELHO, 2010, p. 121). 
 Ademais, uma vez sendo direito exclusivamente dos cônjuges a realização do 
pedido de divórcio, exceto quando um deles for incapaz, ocasião em que poderá ser 
27 
 
realizado através de curador, ascendente ou irmão, nos termos do Parágrafo único 
do art. 1.582 do Código Civil, o divórcio poderá ser decretado sem a prévia partilha 
dos bens do casal, conforme prevê o art. 1.581 do Código Civil, sendo possível, 
portanto, a concessão do divórcio sem a divisão patrimonial. 
 Cabe destacar, ainda, que “o fim da sociedade ou do vínculo conjugal [...] não 
implica nenhuma alteração nos deveres e direitos que os pais têm em relação aos 
filhos” (COELHO, 2010, p. 122). 
Para finalizar, no divórcio litigioso “[...] não se admite que o cônjuge-autor e o 
cônjuge-réu imputem um ao outro qualquer causa de natureza subjetiva ou 
responsabilidade culposa pelo fim do casamento. Não há culpado, no divórcio, nem 
responsável pela ruptura” (LÖBO, 2008, p. 129). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
28 
 
3 HOLDING 
 
Atualmente, vem ganhando espaço no planejamento societário, 
principalmente por empresas pertencentes a grupo familiar, a constituição das 
denominadas holdings, que almejam inovações estratégicas de organização 
patrimonial. 
Diante de suas peculiaridades, e, principalmente, pela concentração de bens 
e direitos que é destinada a esta sociedade, criada com finalidade específica, é que 
possibilitam, eventualmente, a prática da desvirtuação de seu objetivo jurídico, ou 
seja, sua constituição aplicada com propósito diverso da sua ferramenta estratégica 
familiar. 
É a partir deste contexto, entretanto, que será verificado, ao final, a 
possibilidade de aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica 
inversa na holding patrimonial, quando constituída ou utilizada, em meio ao litígio 
familiar, para atividade fraudulenta ou com propósito de prejudicar a partilha do outrocônjuge ou companheiro(a). 
Para isto, inicialmente, necessário se faz a abordagem, no presente capítulo, 
de aspectos conceituais da sociedade holding, para que, adiante, possa ser 
compreendida as especificidades da holding denominada patrimonial e sua espécie 
familiar, apresentando aspectos como sua constituição, dissolução, partilha de bens, 
e demais peculiaridades inerentes à sociedade. 
 
3.1 CONCEITO DE HOLDING 
 
A denominação holding não se encontra prevista, expressamente, no 
ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que se origina com o propósito particular 
da empresa, ou seja, tem como foco o objetivo pelo qual sua constituição almeja 
atingir, uma vez que não se configura como um tipo societário específico (SILVA; 
ROSSI, 2015). 
Para esclarecer o sentido do termo holding, os doutrinadores Gladston 
Mamede e Eduarda Mamede (2014a, p. 08) aprofundam-se na conceituação da 
palavra, ao ensinar que: 
 
29 
 
To hold, em inglês, traduz-se por segurar, deter, sustentar, entre ideias 
afins. Holding traduz-se não apenas como ato de segurar, deter etc., mas 
como domínio. A expressão holding company, ou simplesmente holding, 
serve para designar pessoas jurídicas (sociedades) que atuam como 
titulares de bens, direitos, o que pode incluir bens imóveis, bens móveis, 
participações societárias, propriedade industrial (patente, marca etc.), 
investimentos financeiros etc. (...). 
 
Através da Lei 6.404/76, que dispõe acerca das Sociedades por Ações, um 
dos objetivos societários da holding está descrito no art. 2º,§3º do referido diploma 
legal, que assim dispõe: “A companhia pode ter por objeto participar de outras 
sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é facultada como 
meio de realizar o objeto social, ou para beneficiar-se de incentivos fiscais” (BRASIL, 
2015b). 
Entretanto, Silva e Rossi (2015) explicam que, apesar de seu objetivo 
encontrar-se previsto na Lei das Sociedades por Ações, não significa que, 
necessariamente, a holding deva ser constituída na forma de sociedade anônima, 
conforme veremos adiante. 
 
3.2 ESPÉCIES DE HOLDING 
 
Como visto, a holding é uma sociedade que pode ser constituída para 
titularizar participação(ões) societária(s), como também com o objetivo de centralizar 
a administração das atividades realizadas por todas essas sociedades, sejam elas 
ou não controladas (MAMEDE; MAMEDE, 2014a). 
Sendo assim, partindo da premissa do art. 2º, §3º, da Lei 6.404/76, é possível 
definir duas espécies de holdings, sejam elas as conceituadas de holdings puras e 
as holdings mistas. 
São assim, também, conceituadas por Mamede e Mamede (2014a, p. 09): 
 
Holding (ou holding company) é uma sociedade que detém participação 
societária em outra ou de outras sociedades, tenha sido constituída 
exclusivamente para isso (sociedade de participação), ou não (holding 
mista). 
 
As holdings puras apresentam em seu objeto social, exclusivamente, a 
titularidade de quotas ou ações de outra(s) sociedade(s), ou seja, trata-se de: 
 
30 
 
[...] uma empresa que tem como atividade única manter quotas ou ações de 
outras companhias. Segundo Arlindo Luiz Rocha Júnior et al. (2014), tal 
espécie também é conhecida como sociedade de participação, justamente 
por ter como objetivo participar de outras empresas (SILVA; ROSSI, 2015, 
p. 21). 
 
Já as chamadas holdings mistas dedicam-se às atividades empresariais de 
produção e/ou circulação de bens, prestação de serviços, simultaneamente à 
titularidade de participação(ões) societária(s) (MAMEDE; MAMEDE, 2014a) e, nas 
palavras de Silva e Rossi (2015, p. 21) o “seu objeto social compõe não somente a 
participação de outras empresas, mas também prevê a exploração de alguma 
atividade empresarial diversa”. 
 
3.3 NATUREZA JURÍDICA DA HOLDING 
 
A natureza jurídica da holding segue aquela do tipo societário em que ela foi 
constituída. 
Acerca das sociedades, o ordenamento jurídico brasileiro estabelece 
especificamente em seu art. 982 do Código Civil, dois tipos societários, sejam eles 
distinguidos entre sociedades simples e sociedades empresárias, senão vejamos: 
 
Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a 
sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de 
empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais. 
Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se 
empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa (BRASIL, 
2015f). 
 
Verifica-se, de antemão, que as sociedades são diferenciadas através de seu 
objeto social, uma vez que a sociedade empresária exerce atividade de empresário, 
ou seja, quem exerce atividade econômica organizada para a produção ou a 
circulação de bens ou de serviços, conforme disposto no art. 966, do Código Civil, e 
as simples exploram atividade de prestação de serviços advindos de atividade 
intelectual e de cooperativa. 
Com relação as suas diferenças Madaleno (2009, p. 21) traz sua 
conceituação de sociedade simples e sociedade empresária, destacando que: 
 
As sociedades personificadas dividem-se entre sociedades personificadas 
simples, quando não prepondera o interesse econômico imediato em prol 
dos sócios, lembrando as extintas sociedades civis, e aquelas 
31 
 
personificadas empresárias, correspondentes às antigas sociedades 
comerciais, onde o lucro e ganho econômico são a pauta da constituição. 
 
Nesta esfera, insta destacar que Madaleno, ao utilizar-se da expressão 
“sociedades personificadas”, se refere às sociedades que inscrevem seus atos 
constitutivos perante o registro próprio e na forma da lei, conforme dispõe o art. 985, 
do Código Civil. 
Assim, enquanto não inscritas, não adquirem personalidade jurídica, e são 
tratadas pelo Código Civil em seu art. 986 e seguintes, ou seja, caracterizam-se 
como sociedades não personificadas. 
 
3.3.1 Simples 
 
A sociedade simples, conforme Madaleno (2009, p. 21), “[...] constitui um tipo 
societário destinado ao exercício de atividades não mercantis”, portanto, uma vez 
que sua constituição explora atividade não empresarial, não há exigências 
específicas com relação à sua forma, diferentemente da sociedade empresária, que 
deve limitar às disciplinas da modalidade escolhida. 
Conforme o art. 1.150 do Código Civil, as sociedades simples estão 
vinculadas ao Registro Civil das Pessoas Jurídicas e poderão, segundo Mamede e 
Mamede (2014a), adotar os seguintes tipos societários: a) sociedade simples (em 
sentido estrito ou comum); b) sociedade em nome coletivo; c) sociedade em 
comandita simples; d) sociedade limitada; e, e) sociedade cooperativa. 
Outra grande diferença a ser destacada entre estas duas naturezas 
societárias é a inaplicabilidade, às sociedades simples, da Lei nº 11.101/05, que 
regula a recuperação judicial, extrajudicial e a falência apenas da sociedade 
empresária, ou seja, não tem o direito à recuperação judicial ou extrajudicial, 
estando sujeita unicamente à insolvência civil, prevista no Código Civil e Código de 
Processo Civil. 
 
3.3.2 Empresária 
 
Por outro lado, as sociedades empresárias, são pessoas jurídicas distintas 
dos sócios, e titularizam seus próprios direitos e obrigações (COELHO, 2012), bem 
como tem em seu objeto a exploração da atividade econômica. 
32 
 
Entretanto, Coelho (2012) nos ensina que, embora perfazem cinco os tipos de 
sociedade empresária, quais sejam: nome coletivo, comandita simples, comandita 
por ações, anônima e limitada, apenas estas duas últimas possuem importância 
econômica, uma vez que as demais são constituídas para atividades de menor 
envergadura. 
 A holding que concentra administração de patrimônio pode ou não ter no seu 
quadro societário familiares comuns. Se o objetivo é a organização patrimonial 
familiar, é classificada como holding patrimonial familiar. 
Outras diferenciações a serem destacadas, dizem respeito ao fato de que, 
para adquirir personalidadejurídica, a sociedade empresária deve arquivar seus 
atos constitutivos e demais alterações, obrigatoriamente, junto ao Registro de 
Públicos de Empresas Mercantis, conforme disposto no art. 1.105, do Código Civil e, 
ainda, faz jus à Lei 11.101/05, que regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a 
falência do empresário e da sociedade empresária. 
 
3.4 OBJETO SOCIAL 
 
Dentre as atribuições inerentes à constituição das sociedades, está a 
definição do objeto social, a fim de realizar o enquadramento de sua atividade 
econômica pelos diversos órgãos da Administração Tributária do país. 
Acerca do objeto social, por exemplo, a Instrução Normativa DREI 
(Departamento de Registro Empresarial e Integração) nº 10/2013, que aprovou 
Manuais de Registro, delimitou em seu Anexo II – Manual de Registro de Sociedade 
Limitada, aspectos do objeto social desta sociedade que, por exemplo, não poderá 
ser ilícito, impossível, indeterminado ou indeterminável, nem mesmo contra os bons 
costumes e à ordem pública ou à moral, devendo seu contrato social indicar as 
atividades desenvolvidas por esta (DREI, 2015). 
Para isto, a Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE, 
instrumento de padronização nacional dos códigos de atividade econômica e dos 
critérios de enquadramento (FEDERAL, 2015) há de ser consultada. 
Tratando- se de uma sociedade holding, sua atividade econômica tem as 
seguintes opções apresentadas pelo CNAE: a) Holding de Instituição Financeira 
(6461-1); b) Empresa Holding Exceto Bancos (6462-0); c) Gestão de Participações 
Societárias - Holding Não Financeira (6462-0); d) Holding de Instituições Não 
33 
 
Financeiras (6462-0); e) Holding de Participação Acionária - Não Financeira (6462-
0). 
Exceto a CNAE 6461-1 - Holding de Instituições Financeiras, as demais 
classes acima citadas sob o código de nº 6462-0 compreendem: 
 
[...] as atividades de entidades econômicas que detêm o controle de capital 
de um grupo de empresas com atividades preponderantemente não-
financeiras. Essas holdings podem exercer ou não funções de gestão e 
administração dos negócios das empresas do grupo (IBGE, 2015). 
 
Entretanto, para a constituição da holding patrimonial, que será objeto de 
estudo a seguir, alguns exemplos a serem adotados como objeto social envolvem a 
CNAE nº 6810-2/02 - Administração de bens imóveis próprios e aluguéis e a CNAE 
nº 6810-2/01 - Compra e venda de bens imóveis próprios. 
 
3.5 HOLDING PATRIMONIAL E FAMILIAR 
 
Antes de aprofundar o conceito da holding patrimonial, Silva e Rossi (p. 2015, 
p. 21), de pronto, ensinam que, para esta espécie de holding, “não há previsão legal 
definindo os contornos jurídicos [...]”. 
É neste rumo que complementam e aprofundam o conhecimento acerca da 
holding patrimonial os doutrinadores Mamede e Mamede (2014a, p. 11): 
 
Embora o art. 2º, §3º, da Lei 6.404/76 nada fale a respeito, é possível 
também que se constitua uma sociedade com o objetivo de ser a 
proprietária (a titular) de um determinado patrimônio, entre bens imóveis, 
bens móveis, propriedade imaterial (patentes, marcas etc.), aplicações 
financeiras, direitos e créditos diversos. Desse patrimônio podem constar, 
inclusive, quotas e ações de outras sociedades. Para esses casos, é 
comum ouvir a expressão holding patrimonial, da mesma forma que é usual 
a referência à holding imobiliária, isto é, a sociedade constituída para ser 
proprietária de imóveis, tenham ou não a finalidade locativa. 
 
Nesta esfera, acompanhada da denominada holding patrimonial, surge a 
figura da holding familiar que, entretanto, não pode ser confundida em seus 
aspectos, uma vez que, conforme Mamede e Mamede (2014a, p. 05), esta “não é 
um tipo específico, mas uma contextualização específica [...]”. 
Nos ensinamentos de Silva e Rossi (2015, p. 22), a contextualização da 
denominação holding familiar “advém do fato de ser uma sociedade administrada 
34 
 
por uma família em particular, sendo constituída justamente com o objetivo de deter 
o patrimônio que lhe pertence”. 
Ou seja, sua denominação faz jus à finalidade, que visa a concentração de 
bens patrimoniais da entidade familiar, constituída como forma de organização 
societária e patrimonial. 
Dentre suas ferramentas e peculiaridades, ainda os doutrinadores Silva e 
Rossi (2015, p. 20) destacam que: 
 
[...] a holding familiar pode ser criada unicamente para manter as atividades 
e quotas/ações de outras empresas pertencentes à família, concentrando a 
gestão dos negócios em uma única estrutura societária, de modo que, por 
meio dela, também seja possível adotar um planejamento sucessório e 
tributário, visando melhor gestão do patrimônio e das finanças da família. É 
comum, ainda, sua constituição para que se detenham os bens familiares, 
mormente imóveis, desenvolvendo atividades correlacionadas, como 
compra, venda e aluguel. 
 
O que leva a concluir que a holding familiar, ao ser constituída por 
determinada família, visa estrategicamente o planejamento desenvolvido pelos seus 
membros, atinente principalmente aos aspectos da organização patrimonial, 
administração dos bens da família, otimização fiscal, bem como da sucessão 
hereditária (MAMEDE; MAMEDE, 2014a). 
 
3.6 TIPOS SOCIETÁRIOS 
 
A holding pode ser constituída por diversos tipos societários, tal qual é o caso 
da sociedade limitada, sociedade anônima, EIRELI, entre outras. A escolha da sua 
constituição por determinado tipo societário dependerá dos seus objetivos, 
necessidades, bem como aspectos jurídicos (SILVA; ROSSI, 2015). 
Inclusive, como já destacado anteriormente, ainda que haja previsão legal da 
holding perante o art. 2º, §3º da Lei de Sociedades por Ações, não obsta que seja 
constituída à luz de outro tipo societário. 
Entretanto, como bem descreve Mamede e Mamede (2014a, p. 17), a 
sociedade cooperativa “[...] não pode ser usada como holding familiar, nem pode ser 
sociedade controlada." Isto porque, como já dito, a holding é uma atividade, e não 
um tipo societário específico. 
 
35 
 
3.6.1 Sociedade Limitada 
 
Viu-se, anteriormente, que a sociedade limitada pode ser constituída através 
de sociedade simples ou empresária, não sendo, portanto, uma característica 
exclusiva desta última. 
Ademais, os doutrinadores Venosa e Rodrigues (2015), juntamente com Silva 
e Rossi (2015) são uníssonos aos afirmar que a sociedade limitada é a modalidade 
societária mais utilizada e escolhida, exclusivamente, pelas empresas de pequeno e 
médio porte, diante da sua menor burocracia, se comparada à sociedade anônima. 
Ultrapassadas as considerações iniciais, a sociedade limitada, que está 
prevista no Código Civil, em seu artigo 1.052 e seguintes, tem como característica a 
responsabilidade de cada sócio, que “[...] é restrita ao valor de suas quotas, mas 
todos respondem solidariamente pela integralização do capital social” (BRASIL, 
2015f), conforme art. 1.052, do referido diploma legal. 
Em complementação, assim conceituam Silva e Rossi (2015, p. 28) a 
sociedade limitada: 
 
Esse tipo de sociedade é formado por duas ou mais pessoas com atos 
sociais registrados na Junta Comercial competente. Seu capital social é 
dividido por duas quotas, não necessariamente de forma proporcional, 
sendo a responsabilidade dos sócios limitada ao valor total das quotas 
subscritas [...]. 
 
O capital social é representado através da soma dos valores em dinheiro das 
contribuições, sejam elas em dinheiro ou bens – não permitindo-se integralização 
por meio de prestação de serviço, trazidos à sociedade pelos sócios, para formar o 
patrimônio da sociedade, podendo ser realizado quando da sua constituição, ou em 
deliberações posteriores (GONÇALVES NETO, 2010), sendo que, por capital social, 
entende-se pela “expressão numérica em moeda do valor do patrimônio fornecido 
pelos sócios da sociedade [...]” (GONÇALVES NETO, 2010, p. 326). 
Com relação à responsabilidade de

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