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<p>trans re</p><p>®</p><p>l\l~</p><p>~IM</p><p>A e_duca~ao. como</p><p>pnitica da Woerdade</p><p>li-aduc;:ao de Marcelo Brandao Cipolla</p><p>wmffiil'il@rtBIlil~f@flilte~</p><p>SAO PAULO 2013</p><p>Esla abra [oi pubUenda origillalmente em inglBs com 0 titulo</p><p>TEACHING TO TRANSGRESS</p><p>por Taylor & Francis Group</p><p>Copyright © 1994 GMrin Wallcins</p><p>Traduflio Ilulorizatia da edit;iio inglesa pub/icadn por Routledge Inc.</p><p>parte de Taylor & Frallcis Group LLC.</p><p>Todos os direitos reseroados. NenilIlma parle desle Uvro pode ser reproduzida,</p><p>armazenada em sistemas eletrallieos recripmweis, nem trallsmilidn por lien/UInta</p><p>[onllil OIL meio, eletrOnieo, meennieo, iudl/iudo [otoe6pia, gravnflio, 011 Oll/roS,</p><p>sem a pr!:uia alltorizaf/io por eserito dos Edi/ores.</p><p>Copyriglrt © 2013, Editora WMF Marlins Foutes Ltda.,</p><p>Siio Palllo, para II preseu/e edi~iio.</p><p>1 ~ edi~o 2013</p><p>Tradu~1io .</p><p>Marcelo Bmndiio Cipolla</p><p>Acompanhamento editorial</p><p>Luzia Apareeida dos Santos</p><p>Revisoes graficas</p><p>Rena/o dn Roella Carlos</p><p>Marisa Rosa Teixeira</p><p>Edi~ao de arte</p><p>Kalia Harul1li Terasaka</p><p>Produ~o gnifica</p><p>Gemltln Alves</p><p>Pagina~io</p><p>Moneir Ka/slImi Ma/sllsnki</p><p>Dados Intemacionais de Cataloga~io na Publica~io (CIP)</p><p>(Camara Brasileira do Livro, SF, Brasil)</p><p>Hooks, Bell</p><p>Ensinando a transgredir : a educa~ao como pratica da liberdade /</p><p>bell hooks ; tradu,ao de Marcelo Brandao Cipolla. - Sao Paulo :</p><p>Editora WMF Martins Fontes, 2013.</p><p>Titulo original: Teaching to trangress.</p><p>ISBN 97s-85-7827-703-1</p><p>1. Ensino 2. Feminismo e educa,ao 3. Pedagogia critica 4.</p><p>Pensamento critico - Estudo e ensino I. Titulo.</p><p>13-05850</p><p>indices para catalogo sistematico:</p><p>1. Pedagogia : Educa,ao 370.115</p><p>CDD-370.115</p><p>Todos as direitos desta edifao reservados il</p><p>Editora WMF Martins Fontes Ltda.</p><p>Roo Prof Laerte Ramos de Carvalho, 133 01325-030 Sao Paulo SP Brasil</p><p>Tel. (11) 3293-8150 Fax (11) 3101-1042</p><p>e-mail: info@wmjmartinsfontes.com.br http://www.wmjmartinsfontes.com.br</p><p>a todos os meus alunos,</p><p>especialmente LaRon,</p><p>que esd. dans:ando com os anjos,</p><p>como agradecimento por todas as vezes em que comes:amos</p><p>de novo - do zero - renovamos nossa alegria de aprender.</p><p>"Ser capaz de recomes:ar sempre, de fazer, de reconstruir, de</p><p>nao se entregar, de recusar burocratizar-se mentalmente, de</p><p>entender e de viver a vida como processo, como vir a ser ... "</p><p>- Paulo Freire</p><p>~ntrodu~ao ............................................ 9</p><p>Ensinando a transgredir</p><p>Pedagogia engajada .............................. 2S</p><p>2 Uma revolu~ao de valores ................ 37</p><p>A promessa da mudan</p><p>todas as revolu~6es culturais ha perfodos de caos e confu­</p><p>sao, epocas em que graves enganos sao cometidos. Se tiver­</p><p>mos medo de nos enganar, de errar, se estivermos a nos</p><p>avaliar constantemente, nunca transformaremos a acade­</p><p>mia num lugar culturalmente diverso, onde tanto os aca­</p><p>demicos quanto aquilo que eles estudam abarquem todas</p><p>as dimens6es dessa diferen</p><p>e·filosofia em Prmceton,</p><p>para dar uma palestra sobre "descentralizar a civilizac;ao</p><p>ocidental". Esperavamos que sua formac;ao muito conven­</p><p>cional e sua pnitica progressista como pesquisador dessem</p><p>a todos uma sensac;ao de otimismo quanto a nossa capaci­</p><p>dade de mudar. Na sessao informal, alguns professores</p><p>brancos, homens, tiveram a coragem de dizer claramente</p><p>que aceitavam a necessidade de mudar, mas nao tinham</p><p>certeza de quais seriam as consequencias da mudanc;a. Isso</p><p>nos lembrou que as pessoas tern dificuldade de mudar de</p><p>paradigma e precisam de urn contexte onde deem voz a</p><p>seus medos, onde falem sobre 0 que estao fazendo, como</p><p>estao fazendo e por que. Uma das reunioes mais liteis foi</p><p>aquela em que pedimos a professores de varias disciplinas</p><p>(inclusive de matematica e ciencias) que falassem informal­</p><p>mente sobre como seu ensino havia sido modificado pelo</p><p>desejo de promover a inclusao. A abordagem de ouvir as</p><p>pessoas descrevendo estrategias concretas ajudava a dissipar</p><p>o medo. Era crucial que os professores mais tradicionais ou</p><p>conservadores que tinham tido a disposic;ao de fazer mu­</p><p>danc;as falassem sobre motivac;oes e estrategias.</p><p>Quando as reunioes acabaram, Chandra e eu sentimos,</p><p>de inkio, urna tremenda decepc;ao. Nao haviamos percebi-</p><p>Abra~ar a mudan~a 55</p><p>do 0 quanto 0 corpo docente precisava desaprender 0 ra­</p><p>cismo para aprender sobre a coloniza</p><p>cultural e multietnica, eu estava despreparada. Nao sabia</p><p>como lidar eficazmente com tanta "dif~ren</p><p>da rnulticulturalidade do mundo, pode­</p><p>mos dar aos alunos a educa</p><p>de Freire; e diflcil encontrar</p><p>uma linguagem que permita estruturar uma cdtica e</p><p>ao mesmo tempo continue reconhecendo tudo 0</p><p>que e valioso e respeitado na obra. Parece-me que a</p><p>oposic.;:ao binaria tao embutida no pensamento e na</p><p>linguagem ocidentais torna quase impossivel que se</p><p>projete uma resposta complexa. 0 sexismo de Freire</p><p>e indicado pela linguagem de suas primeiras obras,</p><p>apesar de tantas coisas continuarem libertadoras.</p><p>Nao e preciso perur desculpas pelo sexismo. 0 pro­</p><p>prio modelo de pedagogia critica de Freire acolhe 0</p><p>questionamento cdtico dessa falha na obra. Mas ques­</p><p>tionamento cdtico nao e 0 mesmo que rejeic.;:ao.</p><p>Entao, voce nao ve contradis:ao entre sua valorizas:ao</p><p>da obra de Freire e seu compromisso com os estudos</p><p>feministas?</p><p>E 0 pensamento feminista que me da forc.;:a para fazer</p><p>a critica construtiva da obra de Freire (da qualeu</p><p>precisava para que, como jovem leitora de seus tra­</p><p>balhos, nao absorvesse passivamente a visao de mun­</p><p>do apresentada), mas existem muitos outros pontos</p><p>de vista a partir dos quais abordo sua obra e que me</p><p>permitem perceber 0 valo'r dela, permitem que essa</p><p>Paulo Freire 71</p><p>obra toque 0 pr6prio amago do meu ser. Conversan­</p><p>do com feministas da academia (geralmente mulhe­</p><p>res brancas) que sentem que devem ou desconsiderar</p><p>ou desvalorizar a obra de Freire por causa do sexis­</p><p>mo, vejo claramente que nossas diferentes reac,;:6es</p><p>sao determinadas pelo ponto de vista a partir do qual</p><p>encaramos a obra. Encontrei Freire quando estava</p><p>sedenta, morrendo de sede (com aquela sede, aquela</p><p>carencia do sujeito colonizado, marginalizado, que</p><p>ainda nao tern certeza de como se libertar da prisao</p><p>do status quo), e encontrei na obra dele (e na Mal­</p><p>colm X, de Fanon etc.) urn jeito de matar essa sede .</p><p>. Encontrar uma obra que promove a nossa libertac,;:ao</p><p>e uma dadiva tao poderosa que, se a dadiva tem uma</p><p>falha, isso nao importa muito. Imagine a obra como</p><p>agua que contem urn pouco de terra. Como estamos</p><p>com sede, 0 orgulho nao vai nos impedir de separar a</p><p>terra e ser nutridos pela agua. Para mim, essa experien­</p><p>cia e muito semelhante ao jeito com que os indivi­</p><p>duos privilegiados encaram 0 uso da agua no contex­</p><p>to do Primeiro Mundo. Quando voce e privilegiado</p><p>e vive num dos paises mais ricos do mundo, pode</p><p>desperdic,;:ar recursos. E pode, especialmente, justifi­</p><p>car 0 fato de jogar fora algo que considera impuro.</p><p>Veja 0 que a maio ria das pessoas faz com a agua nes­</p><p>te pais. Muita gente compra agua mineral porque</p><p>considera a agua de torneira impura - e e claro que</p><p>essa compra e urn luxo. Mesmo a nossa capacidade</p><p>de considerar impura a agua que sai da torneira e.</p><p>informada por uma perspectiva imperialista de con-</p><p>72 Ensinando a transgredir</p><p>sumo. E uma expressao de luxo, e nao sirnplesrnente</p><p>uma reac.;:ao a condic.;:ao da agua. Se encararrnos 0</p><p>consumo de agua de torneira a partir de uma pers­</p><p>pectiva global, vamos ter de falar sobre ele de outra</p><p>maneira. Vamos ter de levar em conta 0 que a grande</p><p>maioria das pessoas do rnundo tern de fazer para</p><p>obter agua-quando estao com sede. A obra do Paulo</p><p>foi uma agua viva para mim.</p><p>G-w.: Em que medida voce acha que sua experiencia de ser</p><p>afro-americana possibilitou que voce se sintonizasse</p><p>com a obra de Freire?</p><p>bh: Como eu ja dei a entender, fui criada numa area ru­</p><p>ral do Sul agrario, entre negros que trabalhavam a</p><p>terra, e me senti intimamente ligada a discussao da</p><p>vida dos agricultores na obra de Freire e sua relac.;:ao</p><p>com a alfabetizac.;:ao. Sabe, nao existem livros de his­</p><p>toria que realmente con tern como era diRcil a politiea</p><p>da -vida cotidiana para os negros no Sul segregacio­</p><p>nista, quando tantas pessoas nao sabiam ler e fre­</p><p>quentemente dependiam de gente racista-para expli­</p><p>car, ler e escrever. E eu Hz parte de uma gerac.;:ao que</p><p>aprendia essas habilidades, que tinha urn aceS$O a</p><p>educac.;:ao que ainda era novo. A enfase na educac.;:ao</p><p>como necessaria para a libertac.;:ao, que os negrosafir­</p><p>mavam na epoca da escravidao e depois durante a</p><p>reconstruc.;:ao, informava nossa v~da. E por isso a en­</p><p>fase- de Freire na educac.;:ao como pratica da lib erda­</p><p>de fez sentido imediatamente para mim. Consciente</p><p>desde a infancia da necessidade da alfabetizac.;:ao, levei</p><p>comigo para a universidade a lembranc.;:a de ler para as</p><p>Paulo Freire 73</p><p>pessoas, de escrever para as pessoas. Levei comigo as</p><p>lembran</p><p>sobre sua subjetividade. A obra de Freire</p><p>(e de muitos outros professores) afirmava meu direi­</p><p>to, como sujeito de resistencia, de definir minha rea­</p><p>lidade. Os escritos dele me proporcionaram urn meio</p><p>para situar a politica do racismo nos Estados Dnidos</p><p>dentro de urn contexto global onde eu via meu desti­</p><p>no ligado ao dos negros que lutavam em toda parte</p><p>para descolonizar, transformar a sociedade. Mais que</p><p>na obra de muitas pensadoras feministas burguesas</p><p>brancas, na obra de Paulo havia 0 reconhecimento da</p><p>subjetividade dos menos privilegiados, dos que tern</p><p>de carregar a maior parte do peso das fors:as opresso­</p><p>ras (exceto pelo fato de ele nem sempre reconhecer as</p><p>realidades da opressao e da exploras:ao distinguidas</p><p>segundo os sexos). Esse ponto de vista confirmava</p><p>meu desejo de trabalhar a partir de urna compreen­</p><p>sao vivida das vidas das mulheres negras pobres. S6</p><p>nos anos recentes apareceu nos Estados Dnidos urna</p><p>vertente de trabalho academico que DaO ve a vida dos</p><p>negros atraves de lentes burguesas, urn trabalho aca­</p><p>demico fundamentalmente radical que afuma que a</p><p>experiencia dos negros, das negras, pode com efeito</p><p>76 Ensinando a transgredir</p><p>nos dizer mais sobre a experiencia das mulheres em</p><p>geral que urna analise que enfoca primeiro, sobretu­</p><p>do e sempre as mulheres que moram em locais privi­</p><p>legiados. Uma das raz6es pelas quais 0 livro Cartas a</p><p>Guine-Bissau: registros de uma experiencia em processo,</p><p>de Paulo, foi importante para meu trabalhoe que se</p><p>trata de urn exemplo crucial de como urn pensador</p><p>crftico privilegiado aborda a partilha de conhecimen­</p><p>to e recursos com os necessitados. E 0 Paulo nurn de</p><p>seus momentos de sabedoria. Ele escreve:</p><p>A ajuda autentica, nao e demais insistir, e aquela em</p><p>cuja pratica os que nela se envolvem se ajudam mutua­</p><p>mente, crescendo juntos no esfor</p><p>isso em Por</p><p>uma pedagogia da pergunta:</p><p>Se as mulheres forem crfticas, terao que aceitar nossa</p><p>contribuic,;:ao como homens, assim como os trabalha­</p><p>dores tern que aceitar nossa contribui</p><p>onae urna</p><p>capacita a outra.</p><p>A teoria nao e intrinsecamente curativa, libertadora e</p><p>revolucionaria. 56 cwnpre essa funs;ao quando the pedi­</p><p>mos que 0 fas;a e dirigimos nossa teorizas;ao para esse fim.</p><p>Quando era crians;a, e certo que eu nao chamava de "teo­</p><p>rizas;ao" os processos de pensamento e critica em que me</p><p>envolvia. Mas, como afirmei em Feminist Theory: From</p><p>Margin to Center, a posse de urn termo nao da existencia a</p><p>urn processo ou pratica; do mesmo modo, urna pessoa</p><p>pode praticar a teorizas;ao sem jamais conhecer/possuir 0</p><p>termo, assim como podemos viver e atuar na resistencia</p><p>feminista sem jamais usar a palavra "feminismo".</p><p>Muitas vezes, as pessoas que empregarn livremente cer­</p><p>tos termos - como "teo ria" ou "feminismo" - nao sao ne­</p><p>cessariamente praticantes cujos habitos de ser e de viver</p><p>incorporam a as;ao, a pratica de teorizar ou se engajar na</p><p>luta feminista. Com efeito, 0 ato privilegiado de nomear</p><p>muitas vezes abre aos poderosos 0 acesso a modos de co­</p><p>municas;ao e os habilita a projetar uma interpretas;ao, urna</p><p>definis;ao, uma descris;ao de seu trabalho e de seus atos que</p><p>pode nao ser exata, pode esconder 0 que realmente esta</p><p>acontecendo. 0 ensaio "Producing Sex, Theory, and Cul­</p><p>ture: Gay/Straight Re-Mappings in Contemporary Femi­</p><p>nism" (em Conflicts in Feminism), de Katie King, faz urna</p><p>discussao muito uti! do modo· pelo qual a produs;ao acade­</p><p>mica de teoria feminista formulada num ambiente hierar­</p><p>quico muitas vezes habilita certas mulheres de alto status e</p><p>A teo ria como pratica libertadora 87</p><p>visibilidade, particularmente as brancas, a se apoiar nos</p><p>trabalhos de pensadoras feministas que podem ter menos</p><p>status ou status nenhum, menos visibilidade ou visibilidade</p><p>nenhurna, sem reconhecer as Fontes. King discute 0 modo</p><p>pelo qual os trabalhos sao confiscados e 0 modo com que</p><p>as leitoras frequentemente atribuem certas ideias a uma</p><p>academicalpensadora feminista bern conhecida, mesmo</p><p>que essa pessoa tenha citado em sua obra que estacons­</p><p>truindo em cima de ideias obtidas em fontesmenos co­</p><p>nhecidas. Enfocando particularmente a obra da teorica</p><p>Chela Sandoval, de origem mexicana, King mrma: "Os</p><p>trabalhos de Sandoval so foram publicados esporadica e</p><p>excentricamente, mas seus manuscritos nao publicados em</p><p>circulac;ao sao muito mais citados e frequentemente rouba­</p><p>dos, embora seu raio de influencia raras vezes seja compre­</p><p>endido." Embora King corra 0 risco de se por no papel de</p><p>baba quando assume retoricamente a postura de autorida­</p><p>de feminista, determinando 0 raio e a amplitude da influen­</p><p>cia de Sandoval, 0 ponto critico que ela pretende enfatizar</p><p>e que a produC;ao da teoria feminista e urn fenomeno com­</p><p>plexo, que raras vezes e tao individual quanto parece e ge­</p><p>ralmente nasce de urn envolvimento com Fontes coletivas.</p><p>Ecoando teoricas feministas, especialmente mulheres de</p><p>cor que trabalharam com perseveranc;a para resistir a cons­</p><p>truc;ao de fronteiras criticas restritivas dentro do pensa­</p><p>mento feminista, King nos encoraja a ter urn ponto de</p><p>vista expansivo sobre 0 processo de teorizaC;ao.</p><p>A reflexao critica sobre a produc;ao contemporanea da</p><p>teo ria feminista mostra com dareza que 0 distanciamento</p><p>em relac;ao as primeiras conceituac;6es da teoria feminista</p><p>88 Ensinando a transgredir</p><p>(que insistiam em que ela era mais eficaz quando estimu­</p><p>lava e capacitava a pratica feminista) come</p><p>que agride as psiques fra­</p><p>geis de mulheres que lutam para sacudir 0 juga opressivo</p><p>do patriarcado. Podemos nos perguntar para que serve</p><p>urna teoria feminista que literalmente as espanca, as expul­</p><p>sa tropegas e de olhos vidrados do contexto da sala de aula,</p><p>sentindo-se humilhadas, sentindo-se como se estivessem</p><p>de pe numa sala ou nwn quarto em algum lugar, nuas, na</p><p>presen</p><p>em debates poHticos</p><p>progressistas radicais enfrentam oposis:ao. Ha am elo entre</p><p>a imposis:ao de silencio que experimentamos, a censura e 0</p><p>anti-intelectualismo em contextos predominantemente</p><p>negros que deveriam ser um lugar de apoio (como am es­</p><p>pas:o onde so ha mulheres negras), e aquela imposis:ao de</p><p>silencio que ocorre em instituiertac.;:ao dos negros,</p><p>temos de reivindicar continuamente a teo ria como uma</p><p>pratica necessaria dentro de uma estrutura hoHstica de ati­</p><p>vismo libertador. Nao basta chamar a atenc.;:ao para, os mo­</p><p>dos pelos quais a teoria e mal usada. Nao basta criticar 0</p><p>A teoria como pnitica libertadora 97</p><p>uso conservador, e as vezes reacioncirio, que algumas aca­</p><p>demicas fazem da teoria feminista. Temos de trabalhar ati­</p><p>vamente para chamar a aten</p><p>em casa era correr urn risco,</p><p>entrar na zona de perigo. Minh</p><p>Mas, na minha vida, essas rea</p><p>de</p><p>que "ha certas coisas que sabemos na nossa vida e cujo</p><p>conhecimento nos vivemos, alem de qualquer teoria que ja</p><p>tenha sido teorizada". Fazer essa teo ria e 0 nosso desafio.</p><p>Em sua produs:a.o jaz a esperan</p><p>literaria - ou</p><p>exclui essas obras porque nao as considera importantes.</p><p>Esta claro que baseia sua avalia</p><p>que</p><p>aoutros?</p><p>Como professora, reconhem a realidade con­</p><p>creta. Minhas experiencias na sala de aula talvez sejam di­</p><p>ferentes das de Fuss porque falo com a voz de uma "outra"</p><p>institucionalmente marginalizada, e nao tenho aqui a pre­</p><p>tensao de assumir uma posi</p><p>os alunos, mas</p><p>tambem para fortalece-los. Como devemos negociar a bre­</p><p>cha entre a fiorao conservadora da experiencia como base de</p><p>toda verdade-conhecimento e 0 imenso poder dessa fics:ao</p><p>para habilitar e estimular a participas:ao dos alunos?</p><p>Todos os alunos, nao somente os de grupos marginali­</p><p>zados, parecem mais dispostos a participar energicamente</p><p>das discussoes em sala quando percebem que elas tern uma</p><p>rela</p><p>preferido a professora progressista branca</p><p>Essencialismo e experh§ncia 123</p><p>com quem efetivamente fiz 0 curso. Embora tenha apren­</p><p>dido muito com essa professora branca, creio sinceramen­</p><p>te que teria aprendido ainda mais com urn(a) 'professor(a)</p><p>progressista negro (a) , pois esse individuo teria levado a sala</p><p>de aula essa mistura especial dos modos experimental e</p><p>anaHtico de conhecimento - ou seja, urn ponto de vista</p><p>privilegiado. Esse ponto de vista nao pode ser adquirido</p><p>por meio dos livros, tampouco pela observacrao distanciada</p><p>e pelo estudo de urna determinada realidade. Para mim,</p><p>esse ponto de vista privilegiado nao nasce da "autoridade</p><p>da experiencia", mas sim da paixao da experiencia, da pai­</p><p>xao da lembrancra.</p><p>Muitas vezes, a experiencia entra na sala de aula a partir</p><p>da memoria. AB narrativas da experiencia em geral sao</p><p>contadas retrospectivamente. No testemunho da campo­</p><p>nesa e ativista guatemalteca Rigoberta Menchu, ou ato</p><p>de transformar a experiencia sexual heterossexual- parti­</p><p>cularmente a questao do acesso dos homens negros ao cor­</p><p>po das mulheres brancas - na expressao quintessencial da</p><p>libertas;ao racial roubou a aten</p><p>urn patriarcado da</p><p>supremacia branca. As normas sexistas, que estipulavam</p><p>que as mulheres brancas eram inferiores em razao de seu</p><p>sexo, podiam ser mediadas pelos vinculos raciais. Embora</p><p>os homens, brancos e negros, se preocupassem antes de</p><p>tudo em policiar os corpos de mtilheres brancas ou ganhar</p><p>acesso a eles, na realidade social onde as mulheres brancas</p><p>viviam os homens brancos engajavam-se ativamente em</p><p>relacionamentos sexuais com mulheres negras. Na mente</p><p>* Termo ofensivo com que os brancos racistas designam os negros nos</p><p>Estados Unidos. (N. do T.)</p><p>130 Ensinando a transgredir</p><p>da maio ria das mulheres brancas, pouco importava que a</p><p>maioria esmagadora dessas liga</p><p>por mulheres</p><p>brancas sobre os relacionamentos entre empregadas negras</p><p>e suas patroas brancas apresenta perspectivas que real</p><p>a vontade das brancas</p><p>de criar urn novo contexto de vinculac;:ao, nao hi a tentati­</p><p>va de assimilar a hist6ria ou as barreiras que podem tornar</p><p>essa vincula</p><p>(e</p><p>todas as mulheres) que assurnem posi</p><p>feminista era 0</p><p>unico espa</p><p>urn espaell'il$ament femBfl'llO$ta</p><p>Na sal a de aula agora</p><p>Dando aula de Estudos da Mulher ha mais de dez anos,</p><p>assisti a mudan</p><p>e inadmissivel,</p><p>esse grito evoca a sensa~ao de que 0 feminismo, na verda­</p><p>de, e uma seita fechada cujos membros sao geralmente</p><p>brancos. Esses alunos negros podem se sentir isolados e</p><p>alienados na dasse. Alem disso, seu ceticismo acerca da</p><p>importancia do feminismo pode ser encarado com despre­</p><p>zo pelos colegas. Seus esfon.;:os incansaveis para relacionar</p><p>todas as discuss6es de genero com a questao da ra~a po­</p><p>dem ser vistos pelos alunos brancos como algo que desvia</p><p>a aten~ao dos interesses feministas e, portanto, deve ser</p><p>contestado. De repente a sala de aula feminista ja nao e</p><p>aquele porto seguro que muitos alunos de Estudos da Mu­</p><p>lher imaginavam que Fosse; e, ao contrario, urn lugar de</p><p>conflito, tens6es e, as vezes, permanente hostilidade. Para</p><p>nos confrontarmos mutuamente de urn lado e do outro</p><p>das nossas diferen~as, temos de mudar de ideia acerca de</p><p>como aprendemos; em vez de ter medo do conflito, temos</p><p>de encontrar meios de usa-Io como catalisador para uma</p><p>nova maneira de . pensar, para ° crescimento. Os alunos</p><p>negros frequentemente introduzem nos estudos feministas</p><p>essa no~ao positiva de desafio, de investiga~ao rigorosa.</p><p>As professoras (brancas em sua maioria) que tern difi­</p><p>culdade para lidar com rea~6es diversificadas podem se</p><p>sentir tao amea~adas quanto os aluno$ pelas perspectivas</p><p>dos alunos negros. Infelizmente, estes frequentemente saem</p><p>da aula achando que obtiveram a confirma~ao concreta de</p><p>que 0 feminismo nao aborda nenhuma questao a partir de</p><p>urn ponto de vista que inclua a ra~a nem se refere de ma-</p><p>Pensamento feminista 155</p><p>neira signi£lcativa a experiencia negra. As professoras ne­</p><p>gras comprometidas com a poHtica feminista podem apro­</p><p>var a presenlta de urn corpo discente diversi£lcado em suas</p><p>salas de aula, embora reconheltam que e dificil ensinar Es­</p><p>tudos da Mulher a alunos negros que abordam 0 assunto</p><p>com serias duvidas sobre sua pertinencia. Nos anos recen­</p><p>tes, tenho dado aula a urn numero maior de alunos negros</p><p>homens, muitos dos quais nao percehem que 0 sexismo</p><p>afeta seu modo de falar e interagir num contexto de grupo.</p><p>Eles podem enfrentar desafios a certos padr5es de compor­</p><p>tamento que, antes disso, jamais consideraram iinportante</p><p>por em questao. No £lm de um semestre, Mark, aluno ne­</p><p>gro de meu curso de "Leitura de Fic</p><p>que 0</p><p>material de leitura lhes deu a entender que as negras ativas</p><p>no movimento feminista "tern mais inimigos" que os ou­</p><p>tros grupos e sao atacadas com mais frequencia. Na pro­</p><p>pria vida, sentiam que era dificil falar e partilhar 0 pensa­</p><p>mento feminista. Lori perguntou: "0 que aconteceria com</p><p>uma feminista negra se ela falasse com urn tom tao mili­</p><p>tante quanto 0 de urn homem negro?" E ela mesma res­</p><p>pondeu: "AB pessoas enlouqueceriam e comes:ariam a se</p><p>revoltar." Todas nos rimos. Garanti-lhes que eu mesma</p><p>falo em tom militante sobre 0 feminismo num contexto</p><p>negro e que, embora frequentemente haja protestos, tam­</p><p>bern hi cada vez rnais afirmas:ao.</p><p>Pensamento reminista 159</p><p>Todas no grupo expressaram 0 medo de que 0 compro­</p><p>misso com a politica feminista as deixasse isoladas. Ca­</p><p>rolyn, a aluna que organizou as sessoes particulares de lei­</p><p>tura e escolheu boa parte das obras a serem estudadas, ja se</p><p>sentia mais solitaria e atacada: "Vemos 0 isolamento que as</p><p>feministas negras sentem quando falamos enos pergunta­</p><p>mos: 'Voce e forte 0 suficiente para lidar com 0 isolamen­</p><p>to, a critica?' Voce sabe que e isso que vai receber dos ho­</p><p>mens e ate de algumas mulheres." No geral, 0 sentimento</p><p>do grupo era que estudar obras feministas, encarar a anali­</p><p>se do genero desde urn ponto de vista feminista como</p><p>meio para a compreensao da experiencia negra, era neces­</p><p>sario para 0 desenvolvimento coletivo de uma consciencia</p><p>negra, para 0 futuro da luta pela libertas:ao dos negros.</p><p>Rebecca, mulher do Sul, sentia que sua crias:ao lhe facilita­</p><p>va a aceitas:ao da nos:ao de igualdade entre os sexos no local</p><p>de trabalho, mas dificultava a aplicas:ao da mesma ideia</p><p>aos relacionamentos pessoais. Individualmente, todas fala­</p><p>ram enfaticamente sobre 0 exame critico de suas posturas</p><p>e a transformas:ao de sua consciencia como urn primeiro</p><p>estagio no processo de politizas:ao feminista. Carolyn acres­</p><p>centou a esse comentario sua convics:ao de que, "quando</p><p>voce aprende a se examinar criticamente, ve tudo ao seu</p><p>redor com urn novo olhar".</p><p>o ensaio "Eye to Eye", de Audre Lorde, foi uma das</p><p>primeirissimas leituras da lista. Foi a obra da qual todas se</p><p>lembraram quando falamos sobre 0 quanto a solidariedade</p><p>feminista e importante para as negras. Haviam surgido ten­</p><p>soes no grupo entre as alunas que sentiam que certas pes­</p><p>soas viriam a aula e "falariam de feminismo", mas nao atua-</p><p>160 Ensinando a transgredir</p><p>riam conforme suas cren</p><p>minina negra. Nesses primeiros anos, as mulheres brancas</p><p>estimulavam zelosamente 0 crescimento e 0 desenvolvi­</p><p>mento de estudos feministas que tratassem especificamen­</p><p>te de sua realidade, que recuperassem a hist6ria enterrada</p><p>das mulheres brancas e provas documentais que demons­</p><p>trassem as mil maneiras pelas quais as diferen</p><p>da acade­</p><p>mia, nunca se convenceram plenamente de quelhes e van­</p><p>tajoso (quer em materia de progresso na carreira, quer de</p><p>comodidade pessoal) declarar publicamente seu compro­</p><p>misso com a poHtica feminista. Muitas entre nos usam os</p><p>contatos com academicos negros do sexo masculino para</p><p>promover suas carreiras. Algumas sentiarn e ainda sentem</p><p>que a afumas;ao de urn ponto de vista feminista vai separa­</p><p>-las desses aliados.</p><p>Apesar dos muitos fatores que desencorajaram as negras</p><p>de se dedicar a produ</p><p>diferentes den­</p><p>tro das estruturas e partilhem ideias entre si, mapeando</p><p>seus terrenos, seus vinculos e suas preocupa</p><p>pais, de</p><p>classe trabalhadora, viam a educas;ao na verdade como</p><p>urn meio para urn fim e nao como 0 fim em si.</p><p>Quando alguem fazia faculdade, era para ser advoga­</p><p>do ou medico. Para eles, era urn meio de melhorar a</p><p>condiS;ao economica. Nao que eles desprezassem os</p><p>professores universitarios; e que a universidade nao</p><p>era uma profissao. As pessoas estudavam para ganhar</p><p>runheiro, ganhar a vida, fazer familia.</p><p>bh: Hi quanto tempo voce ensina?</p><p>RS: Comecei no LaGuarrua Community College quan­</p><p>do me formei no Queens College, em 1979. Estava</p><p>no departamento de suprimento de habilidades bisi­</p><p>cas. Davamos aulas de leituIa e ingles para suprir as</p><p>defidendas dos alunos.</p><p>bh: E depois voce se doutorou em filosofia?</p><p>A constru~ao de uma comunidade pedag6gica 179</p><p>RS: Foi. Por isso, eu dava aulas enquanto fazia a pos­</p><p>-graduas:ao. Desde 1979 que estou envolvido com 0</p><p>ensino em tempo parcial ou integral. Isso e quanto?</p><p>Quatorze anos?</p><p>bh: Eu ensino desde os 21 anos. Na pos-graduas:~o, dava</p><p>meus cursos sobre literatura afro-americana e sobre a</p><p>mulher afro-americana porque tinha interesse em fa­</p><p>zer isso e havia urn grupo de alunos dispostos a fazer</p><p>esses cursos. Mas so fui obter meu doutorado bern</p><p>mais tarde, embora ja estivesse na sala de aula. Vejo</p><p>que ja estou nas salas de aula das faculdades ha 20</p><p>anos. E interessante que voce e eu tenhamos nos co­</p><p>nhecido quando levei meus alunos do Oberlin para</p><p>uma conferencia no Queens. Acho que parte do que</p><p>nos uniu foi urn interesse, evidenciado pela minha</p><p>palestra, nao so pelo trabalho academico que fazia­</p><p>mos em sala de aula, mas tambem pelo modo com</p><p>que esse trabalho academico nos afeta fora da sala de</p><p>aula. Pass amos anos depois do nosso encontro discu­</p><p>tindo pedagogia e ensino; uma das coisas que nos</p><p>vincularam e que nos dois temos verdadeiro interes­</p><p>se pela educas:ao como pratica libertadora e por es­</p><p>trategias pedagogicas que possam servir nao so para</p><p>nossos alunos, mas tambem para nos.</p><p>RS: Com certeza. Esse tambem e urn born jeito de com­</p><p>preender ou descrever 0 modo como eu, na verdade,</p><p>passei a me sentir cada vez mais a vontade no papel</p><p>de professor.</p><p>bh: Quero voltar a ideia de que, de algum modo, foi 0</p><p>fato de eu nao ter investido na no~o de professora</p><p>180 Ensinando a transgredir</p><p>universiraria ou academica como defini</p><p>Algumas pensadoras feministas - e as duas que</p><p>me vern a mente neste contexto sao, curiosam.ente,</p><p>as lacanianas Jane Gallop e Shoshana Felman - tenta­</p><p>ram escrever sobre a presen~a do professor como cor­</p><p>po na sala de aula, a presen~a do professor como al­</p><p>guem que tern efeito total sobre 0 desenvolvimento</p><p>do aluno, nao somente urn efeito intelectual, mas</p><p>urn efeito sobre como esse aIuno percebe" a realidade</p><p>fora da sala de aula.</p><p>RS: Todas essas coisas pesam sobre os ombros de qual­</p><p>quer pessoa que leve a serio a historia do corpo de</p><p>conhecimento personificado no professor. Estava­</p><p>mos mencionando como, de certo modo, nosso tra­</p><p>balho leva nosso eu, nosso corpo, para dentro da sala</p><p>184 Ensinando a transgredir</p><p>de aula. A nos:ao tradicional de estar na sala de aula</p><p>e a de urn professor atras de uma escrivaninha ou em</p><p>pe a frenteda classe, imobilizado. Estranhamente,</p><p>isso lembra 0 corpo de conhecimento firme e imovel</p><p>que integra a imutabilidade da propria verdade. E</p><p>dal que sua roupa esta suja, suas cals:as estao mal</p><p>ajustadas .ou sua camisa esta amarfanhada? Enquan­</p><p>to a mente ainda estiver funcionando com elegancia</p><p>e eloquencia, e isso que se deve apreciar.</p><p>bh: Nossa no</p><p>da sua pr:hica pedagogica.</p><p>RS: Muitos desses professores universitirios nao tern</p><p>consciencia de como se conduzem na sala de aula.</p><p>Urn professor pode ate apresentar as obras que voce</p><p>escreveu, por exemplo, ou as de intelectuals de ou­</p><p>tros grupos sub-representados na academia; mas ele</p><p>vai trabalhar esses textos, vai trabalhar as ideias que</p><p>eles partilham, de modo a dar a entender que no fi­</p><p>nal nao ha diferen</p><p>estao me dizendo, na verdade, e: "Achei que este cur­</p><p>so seria dado como qualquer outro curso de literatu­</p><p>ra que eu ja fiz, apenas substituindo os escritores</p><p>brancos do sexo masculino por escritoras negras do</p><p>sexo feminino." Eles aceitam a mudan</p><p>diretamente</p><p>a preocupa~ao de questionar as parcialidades que refor~am</p><p>os sistemas de dominas;ao (como 0 racismo e 0 sexismo) e</p><p>ao mesmo tempo proporcionam novas maneiras de dar</p><p>aula a grupos diversificados de alunos.</p><p>Neste livro, quero partilhar ideias, estrategias e reflex6es</p><p>crfticas sobre a pratica pedagogica. Quero que estes ensaios</p><p>Introdu~ao 21</p><p>sejam uma interven</p><p>Um dos modos pelos quais os co­</p><p>legas que desconfiam da pedagogia progressista VaG</p><p>rapidamente desconsidera-lo como professor uni­</p><p>versitcirio e deixar que seus alunos, ou voce mesma,</p><p>falem sobre suas experiencias; 0 ate de partilhar nar­</p><p>rativas pessoais, ligando esse conhecimento a infor­</p><p>ma</p><p>agir com responsabilidade; que, se nao exercermos</p><p>controle sobre eles, havera balburdia e nada mais.</p><p>RS: Ou excesso. Existe urn medo tremendo de abrir mao</p><p>do controle na sala de aula, de correr riscos. Quando</p><p>os professores abrem mao do controle, nao e somen­</p><p>te a voz dos alunos que tern de falar com liberdade,</p><p>e tambem a do professor. Os professores tern de pra­</p><p>ticar a liberdade, de falar, tanto quanto os alunos.</p><p>bh: Exatamente. E uma questao em que insisto repetida­</p><p>mente nos meus ensaios sobre pedagogia. Boa parte</p><p>dos trabalhos academicos feministas que criticam a</p><p>pedagogia critica ataca a no</p><p>planejar as</p><p>aulas e queremos nos ater ao nosso plano. Quando</p><p>comecei a lecionar, eu sentia pamco, me sentia em</p><p>crise, toda vez que havia urn desvio em rela</p><p>durante todo 0 semestre. Os profes­</p><p>sores engajados sabem que as pessoas tendem a</p><p>aprender ate nas piores circunstancias. As pessoas</p><p>tendem a aprender, mas nos queremos mais que 0</p><p>simples aprendizado. E como dizer que, ate nas pio­</p><p>res circunstancias, as pessoas sobrevivem; aqui nao</p><p>estamos interessados na simples sobrevivencia.</p><p>bh: Exatamente. E por isso que "educa</p><p>bh: Tern 0 dobro do tamanho do Oberlin!</p><p>RS: Sao 17.000 pessoas, provindas de diversos lugares,</p><p>que falam 66 linguas. Sao muitas pessoas vivendo</p><p>muitas vidas diferentes. Mas muitos professores di­</p><p>zem: "Bern, se eu pudesse, Faria algo diferente." Isso</p><p>levanta a questao de saber 0 que significa prestar urn</p><p>servi</p><p>0 iidiche e tantos</p><p>outros idiomas esquecidos.</p><p>Refletindo sobre as palavras de Adrienne Rich, sei que</p><p>nao e a lingua inglesa que me machuca, mas 0 que os</p><p>opressores fazem com ela, como eles a moldam para trans­</p><p>forma-Ia nurn territorio que limita e define, como a tor­</p><p>nam urna arma capaz de envergonhar, humilhar, colonizar.</p><p>Gloria Anzaldua nos lembra dessa dor em Borderlands/La</p><p>Frontera quando afirma: "Entao, se voce realmente quiser</p><p>me machucar, fale mal da minha lingua/' Temos pouquis­</p><p>simo conhecimento de como os africanos desalojados, es­</p><p>cravizados ou livres que vieram ou foram trazidos contra a</p><p>vontade para os Estados l!nidos se sentiram diante da perda</p><p>da lingua, de ter de aprender ingles. Somente como mu-</p><p>A lingua 225</p><p>Lh.er comecei a pensar nesses negros em sua rela~ao com a</p><p>lingua, a pensar em seu trauma quando foram obrigados a</p><p>assistir a perda de sentido da sua lingua por for~a de wna</p><p>cultura europeia colonizadora, onde vozes consideradas es­</p><p>trangeiras nao podiam se levantar, eram idiomas fora da</p><p>lei, fala de renegados.Quando me dou conta de 0 quanto</p><p>demorou para os americanos brancos reconhecerem as di­</p><p>versas linguas dos indios norte-americanos, para aceitarem ..</p><p>que a fala que seus antepassados coloruzadores haviam de­</p><p>clarado ser mero grunhido ou algaravia era de fato uma</p><p>lingua, e diHcil nao ouvir sempre, no ingles padrao, os rui­</p><p>dos da matan~a e da conquista. Penso agora no sofrimento</p><p>dos africanos desalojados e "sem lar", obrigados a habitar</p><p>num mundo onde viam pessoas iguais a si, com a mesma</p><p>cor de pele e a mesma condi~ao, mas sem wna lingua co­</p><p>mum para falar uns com os outros, que precisavam da "lin­</p><p>gua do opressor". "Esta e a lingua do opressor, mas preciso</p><p>dela para Jalar com voce. "Quando imagino 0 terror dos afri­</p><p>canos a bordo de navios negreiros, nos palanques dos lei­</p><p>loes, habitando a arquitetura insolita das fazendas de mo­</p><p>nocultura, considero que esse terror ia alem do medo da</p><p>puni~ao e residia tambem na anglistia de ouvir uma lingua</p><p>que nao compreendiam. 0 proprio som do ingles devia</p><p>aterroriza-los. Penso nos negros enGontrando uns aos ou­</p><p>tros nwn espa~o distante das diversas culturas e linguas</p><p>que os distinguiam uns dos outros, obrigados pelas cir­</p><p>cunstancias a achar maneiras de falar entre si num "mundo</p><p>novo" onde a negritude ou a cor escura da pele, e nao a</p><p>lingua, se tornariam 0 espa~o da forma~o de la~os. Como</p><p>lembrar, como evocar esse terror? Como descrever 0 que</p><p>226 Ensinando a transgredir</p><p>devem ter sentido os africanos, cujos la~os mais profundos</p><p>haviam sido sempre forjados no espa~o de uma lingua co­</p><p>mum, mas foram transportados abruptamente para urn</p><p>mundo onde 0 proprio som de sua lingua materna nao ti­</p><p>nha sentido?</p><p>Imagino-os ouvindo 0 ingles falado como a lingua do</p><p>opressor, mas tambem os imagino percebendo que essa lin­</p><p>gua teria de ser adquirida, tomada, reclamada como espa~o</p><p>de resistencia. Imagino que foi feliz 0 momenta em que</p><p>perceberam que a lingua do opressor, confiscada e falada</p><p>pelas linguas dos colonizados, poderia ser um espa~o de</p><p>forma~ao de la~os. Nesse reconhecimento residia a com­</p><p>preensao de que a intimidade poderia ser recuperada, de</p><p>que poderia ser formada uma cultura de resistencia que</p><p>possibilitaria 0 res gate do trauma da escraviza~ao. Imagino,</p><p>portanto, os africanos ouvindo 0 ingles pela primeira vez</p><p>como "a lingua do opressor" e depois ouvindo-o outra</p><p>vez como foco potencial de resistencia. Aprender 0 ingles,</p><p>aprender a falar a lingua estrangeira, foi um modo pelo</p><p>qual os africanos escravizados come~aram a recuperar seu</p><p>poder pessoal dentro de um contexto de domina~ao. De</p><p>posse de uma lingua comum, os negros puderam encontrar</p><p>de novo urn modo para construir a comunidade e um meio</p><p>para criar a solidariedade poHtica necessaria para resistir.</p><p>Embora precisassem da lingua do opressor para falar</p><p>uns com os outros, eles tambem reinve.ntaram, refizeram</p><p>essa lingua, para que ela falasse alem das fronteiras da con­</p><p>quista e da domina~ao. Nas bocas dos africanos negros do</p><p>chamado "Novo Mundo", 0 ingles foi alterado, transfor­</p><p>mado, e se tornou uma fala diferente. Os negros escraviza-</p><p>A lingua 227</p><p>dos pegaram fragmentos do ingles e os transformaram</p><p>numa contralingua. Juntavarn suas palavras de urn modo</p><p>tal que 0 colonizador teve de repensar 0 sentido da lingua</p><p>inglesa. Embora na cultura contemporanea tenha se torna­</p><p>do comum falar das mensagens de resistencia surgidas na</p><p>musica criada pelos escravos, particularmente nos spiri­</p><p>tuals, fala-se muito menos sobre a constru</p><p>padrao fosse a segunda ou a ter­</p><p>ceira lingua, simplesmente nao lhes havia ocorrido que era</p><p>possivel dizer algo em outra lingua, de outra maneira. Nao</p><p>admira, po rtanto , que continuemos pensando: "Esta e a</p><p>lingua do opressor, mas preciso dela para falar com-voce."</p><p>Percebi que corria 0 risco de perder minha relac;ao com</p><p>o vern,kulo dos negros porque tambem eu raramente 0</p><p>uso nos ambientes predominantemente brancos onde ge­</p><p>ralmente me encontro, tanto como professora quanto na</p><p>vida social. Por isso, comecei a trabalhar para integrar em</p><p>varios contextos 0 vernaculo negro espedfico do Sul que</p><p>eu ouvia e falava na infancia. 0 mais dificil foi integrar 0</p><p>vernaculo negro na escrita, particularmente para peri6di­</p><p>cos academicos. Quando comecei a incorporar 0 vernacu-</p><p>10 negro em ensaios criticos, os editores me devolviam 0</p><p>artigo reescrito em ingles padrao. 0 usa do vernaculo sig­</p><p>nifica que a traduc;ao para 0 ingles padrao pode ser neces­</p><p>saria caso se queira atingir urn publico mais amplo. Na sala</p><p>de aula, encorajo os alunos a usar sua primeira lingua e</p><p>depois traduzi-Ia, para nao sentirem que a educac;ao supe­</p><p>rior vai necessariamente afasta-los da lingua e da cultura</p><p>que conhecem mais de perto. Nao surpreende que, quan­</p><p>do os alunos do meu curso de Escritoras Negras comec;am</p><p>a usar urna lingua e uma fala diferentes, os alunos brancos</p><p>frequenternente reclamam. Isso ocorre particularmente</p><p>quando se usa 0 vernaculo negro. Ele perturba os alunos</p><p>brancos sobretudo porque estes podem ouvir as palavras,</p><p>230 Ensinando a transgredir</p><p>mas nao compreendem seu significado. Pedagogicamente,</p><p>estimulo-os a conceber como urn espa que e dito, que nao precisemos "dominar" ou con­</p><p>quistar a narrativa como urn todo, que possamos conhecer</p><p>em fragmentos. Proponho que possamos aprender nao- s6</p><p>com os espa</p><p>cial sejam particularmente ignoradas nas salas de aula.</p><p>Desde 0 ensino fundamental, somos todas encorajados a</p><p>cruzar 0 limiar da sala de aula acreditando que estamos</p><p>entrando num espas;o democratico - uma zona livre onde</p><p>o desejo de estudar e aprender nos torna todos iguais. E,</p><p>mesmo que entremos aceitando a realidade das diferens;as</p><p>de dasse, em nossa maioria ainda acreditamos que 0 co­</p><p>nhecimento sera distribuido em propors;6es iguais e justas.</p><p>Nos raros casos em que se reconhece que 0 professor e os</p><p>alunos nao partilham as mesmas origens de dasse, 0 pres­</p><p>suposto oculto ainda e 0 de que estamos todos igualmente</p><p>empenhados no avans;o social, em subir a escada do suces­</p><p>so ate 0 topo. E, embora muitos nao cheguem ao topo, hi</p><p>urn entendimento ticito de que vamos chegar em algurn</p><p>ponto do meio, entre 0 topo e 0 nivel mais baixo.</p><p>Originiria de urn meio materialmente desprivilegiado,</p><p>da dasse trabalhadora pobre, entrei na universidade com</p><p>aguda consciencia da questao da classe. Quando fiquei sa-</p><p>235</p><p>236 Ensinando a transgredir</p><p>bendo que tinha sido aceita na Universidade Stanford, a</p><p>primeira questao que surgiu em casa foi como eu arcaria</p><p>com os custos. Meus pais entendiam que eu tinha recebido</p><p>uma bolsa e podia fazer emprestimos, mas queriam saber</p><p>de onde viria 0 dinheiro para 0 transporte, as roupas, os</p><p>llvros. Dadas essas preocupa</p><p>a transgredir</p><p>mente se enfocava era a maneira pda qual as diferenc;as de</p><p>classe se estruturam na sociedade maior, e nao a nossa po­</p><p>siC;ao no quadro das classes sociais. Mas 0 enfoque dos pd­</p><p>viIegios de genera na sociedade patriarcal acarretava, mui­</p><p>tas vezes, urn reconhecimento de como as mulheres eram</p><p>privadas de certos direitos economicos e, portanto, tinham</p><p>mais probabilidade de ser pobres ou pertencer a classe tra­</p><p>balhadora. Em geral, a sala de aula feminista era 0 t1nico</p><p>lugar onde os alunos (em sua maioria mulheres) de origem</p><p>materialmente desprivilegiada podiam falar a partir de sua</p><p>situac;ao de classe, tanto reconhecendo 0 imp acto da classe</p><p>social sobre seu status social quanto criticando as parciali­</p><p>dades de classe dentro do proprio pensamento feminista.</p><p>Quando entrei no contexto universitario pda primeira</p><p>vez, me senti urna estranha nesse novo ambiente~ Como a</p><p>maioria dos meus colegas e professores, a principio acredi­</p><p>tei que esse sentimento se devia a diferenc;a de origens ra­</p><p>ciais e culturais. Entretanto, a medida que 0 tempo passa­</p><p>va, cada vez mais se evidericiava que esse estranhamento</p><p>refletia, em parte, as diferenc;as de classe social. Em Stan­</p><p>ford, colegas e professores muitas vezes me perguntavam se</p><p>eu tinha bolsa. Por tra.s dessa pergunta estava implicita a</p><p>noc;ao de que 0 auxilio fmanceiro e.ra algo que de algum</p><p>modo "diminllia" a pessoa. Nao foi so essa experiencia que</p><p>intensificou minha consciencia das diferenc;as de classe.</p><p>Foi tambem a evocac;ao constante das experiencias das</p><p>classes materialmente privilegiadas (geralmente as da classe</p><p>media) como norma universal que nao so afastava as pes­</p><p>soas de classe trabalhadora como tambem exclufaos des­</p><p>privilegiados das discuss6es e das atividades sociais. Para</p><p>Confronta~ao da classe social na sal a de aula 241</p><p>evitar essa sensa</p><p>informac:;:ao e partilhada), sera vista na maio ria</p><p>dos casos, sem sombra de dtivida, como negativa e pertur­</p><p>badora. Dada a suposta natureza radical ou liberal das pri­</p><p>meiras disciplinas academicas feministas, foi chocante para</p><p>mim descobrir que tambem aqueles ambientes estavam</p><p>frequentemente fechados para maneiras diferentes de pen­</p><p>sar. Embora Fosse aceitavel criticar 0 patriarcado naquele</p><p>contexto, nao era aceitavel confrontar quest6es de classe</p><p>social, especialmente de urn jeito que nao se resumisse a</p><p>simples evocac:;:ao de culpa. Em geral, apesar da diversidade</p><p>de suas origens sociais e de participarem de diferentes dis­</p><p>ciplinas, os academicos afro-americanos e 01).tros professo­</p><p>res universitarios nao brancos nao tern se mostrado mais</p><p>dispostos a confrontar questoes de classe. Mesmo quando</p><p>se tornou mais aceitavel reconhecer quest6es de rac:;:a, ge­</p><p>nero e classe social, pelo menos da boca para fora, a maio-</p><p>Confrontac;:ao da classe social na sala de aula 245</p><p>ria dos professores e alunos simplesmente nao se sentiu ca­</p><p>paz de pensar sobre a classe de uma maneira que nao Fosse</p><p>simplista. A area principal em que havia a possibilidade de</p><p>urna critica e uma mudans;a significativas eram os estudos</p><p>academicos tendenciosos, que davam carater normativo as</p><p>experiencias e aos pensamentos de pessoas materialmente</p><p>privilegiadas. .</p><p>Nos anos recentes, a consciencia cada vez maiorda$_di­</p><p>ferens;as de classe nos drculos academicos progressistas</p><p>deu aos alunos e professores comprometidos com a peda­</p><p>gogia critica e feminista a oportunidade para abrir, na aca­</p><p>demia, espas;os onde a questao da classe social possa rece­</p><p>ber atens;ao. Mas nao pode haver intervens;ao que desafie 0</p><p>status quo se nao estivermos dispostos a questionar 0 modo</p><p>como nao so nosso processo pedagogico, mas tambem</p><p>nossa autoapresentas;ao costurnam ser moldados pelas nor­</p><p>mas de classe media. Minha consciencia de classe tern sido</p><p>continuamente refors;ada por meus esfors;os para me man­</p><p>ter proxima das pessoas queridas que permanecem em po­</p><p>si</p><p>dores passivos. A educas:ao como pratica da liberdade era</p><p>continuamente solapada por professores ativamente hostis</p><p>a nos:ao de participas:ao dos alunos. A obra de Freire afir­</p><p>maya que a educas:ao s6 pode ser libertadora quando todos</p><p>tomam posse do conhecimento como se este fosse urna</p><p>p1antas:ao em que todos temos de trabalhar. Essa nos:ao de</p><p>trabalho coletivo tambem e afirmada pela Hlosofia do bu­</p><p>dismo engajado de Thich Nhat Hanh, focada na prcitica</p><p>associada a contemplas:ao. Sua Hlosofia e semelhante a in­</p><p>sistencia de Freire na "praxis" - agir e refletir sobre 0 mun­</p><p>do a fim de modifica-Io.</p><p>Em sua obra, Thich Nhat Hanh sempre compara 0</p><p>professor a urn medico ou curador. Sua abordagem, como</p><p>a de Freire, pede que os alunos sejam parpcipantes ativos,</p><p>liguem a consciencia a pratica. Enquanto Freire se ocupa</p><p>sobretudo da mente, Thich Nhat Hanh apresenta urna</p><p>maneira de pensar sobre a pedagogia que poe em evidencia</p><p>a integridade, uma tmiao de mente, corpo e espirito. Sua</p><p>Pedagogia engajada 27</p><p>abordagem holistica ao aprendizado e a pratica espiritual</p><p>me permitiu vencer anos e anos de socializaS;ao que ha­</p><p>viam me levado a acreditar que a sala de aula perde impor­</p><p>tancia quando os alunos e professores encaram uns aos</p><p>ourros como seres humanos "integrais", buscando nao so­</p><p>mente 0 conhecimento que esta nos livros, mas tambem 0</p><p>conhecimento acerca de como viver no mundo.</p><p>Nestes vinte anos de experiencia de ensino, percebi que</p><p>os professores (qualquer que seja sua tendencia politica)</p><p>dao graves sinais de perturbaS;ao quando os alunos querem</p><p>ser vistos como seres humanos integrais, com vidas e expe­</p><p>riencias complexas, e nao como meros buscadores de peda­</p><p>cinhos compartimentalizados de conhecimento. Quando</p><p>eu era aluna de graduaS;ao, os Estudos da Mulher estavam</p><p>apenas comes;ando a encontrar seu lugar na academia.</p><p>Aquelas aulas eram 0 unico espas;o em que as professoras</p><p>estavam dispostas a admitir que existe uma ligaS;ao entre as</p><p>ideias aprendidas no contexto universitario e as aprendidas</p><p>pela pratica da vida. E, apesar dos momenros em que os</p><p>alunos abusavam dessa liberdade em sala de aula e queriam</p><p>falar so mente sobre sua experiencia pessoal, as salas de aula</p><p>feministas eram, no geral, 0 lugar onde eu via as professo­</p><p>ras buscando criar espas;os participativos para a partilha de</p><p>conheCimento. Hoje em dia, a maioria das professoras de</p><p>Estudos da Mulher ja nao e tao comprometida com a ex­</p><p>ploraS;ao de novas estrategias pedagogicas. Apesar dessa</p><p>mudans;a, muitos alunos ainda querem fazer os cursos fe­</p><p>ministas porque continuam acreditando que ali, mais que</p><p>em qualquer outro lugar na academia, VaG ter a oportuni­</p><p>dade de experimentar a educayao como pratica da liberdade.</p><p>28 Ensinando a transgredir</p><p>A educac;ao progressiva e hoHstica, a "pedagogia engaja­</p><p>da", e mais exigente que a pedagogia critica ou feminista</p><p>convencional. Ao contr:irio destas duas, ela da enfase ao</p><p>bem-estar. 1sso significa que os professores devem ter 0</p><p>compromisso ativo com urn processo de autoatualizas;ao</p><p>que promova seu proprio bem-estar. 56 assim poderao en­</p><p>si,nar de modo a fortalecer e, capacitar os alunos. Thich</p><p>Nhat Hanh ressalta que "a pratica do curador, do terapeu­</p><p>ta, do professor ou de qualquer profissional de assistencia</p><p>deve ser dirigida primeiro para ele mesmo. 5e a pessoa que</p><p>ajuda estiver infeliz, nao podera ajudar a muita gente".</p><p>Nos Estados Unidos, e raro ouvir alguem comparar os pro­</p><p>fessores universit:irios a curadores. E e ainda mais raro ou­</p><p>vir alguem afirmar que os professores tern a responsabili­</p><p>dade de ser individuos autoatualizados.</p><p>Antes de entrar na faculdade, eu conhecia 0 trahalho dos</p><p>intelectuais e academicos principalmente a partir da ficc;ao</p><p>e da nao ficc;ao do seculo XIX, e por isso tinha certeza de</p><p>que a tarefa dos que escolhem essa vocas;ao e a de buscar</p><p>holisticamente a autoatualizas;ao. Foi a experiencia concreta</p><p>da faculdade que perturbou essa imagem. Foi ali que eu</p><p>passei a me sentir terrivelmente ingenua a respeito da "pro­</p><p>fissao". Aprendi que, longe de ser autoatualizada, a univer­</p><p>sidade era vista antes como urn porto seguro para pessoas</p><p>competentes em materia de conhecimento livresco, mas</p><p>inaptas para a interac;ao social. Por sorte, durante 0 curso de</p><p>graduac;ao comecei a distinguir entre a pratica de ser urn</p><p>intelectual/professor e 0 papel de membro da academia.</p><p>Era dificil continuar fiel a ideia do intelectual como</p><p>uma pessoa que buscava ser integra - num contexto em</p><p>Pedagogia engajada 29</p><p>que pouco se ressaltava 0 bem-estar espiritual, 0 cuidado</p><p>da alma. Com efeito, a objetifica</p><p>como professora universitaria e como feminista, tinha mui­</p><p>to medo de usar a autoridade de modo a perpetuar 0 elitis­</p><p>mo de dasse e outras formas de domina</p><p>muito foi conhecer professores brancos, homens,</p><p>Pedagogia engajada 31</p><p>que afirmavam seguir 0 modelo de Freire ao mesmo tempo</p><p>em que suas praticas pedagogicas estavam afundadas nas</p><p>estruturas de dominas:ao, espelhando os estilos dos profes­</p><p>sores conservadores embora os temas fossem abordados de</p><p>urn ponto de vista mais progressista.</p><p>Quando conheci a obra de Paulo Freire, fiquei ansiosa</p><p>para saber se seu estilo de ensino incorporava as praticas</p><p>pedagogicas que ele descrevia com tanta eloquencia em sua</p><p>obra. No curto perlodo em que estudei com ele, fui pro­</p><p>fundamente tocada por sua presen</p><p>a partilhar as</p><p>suas exercem 0 poder de maneira potencialmente coerciti­</p><p>va. Nas minhas aulas, nao quero que os alunos corrarn ne­</p><p>nhum risco que eu mesma nao you correr, nao quero que</p><p>partilhem nada que eu mesma nao partilharia. Quando os</p><p>professores levarn narrativas de sua propria experiencia</p><p>para a discussao em sala de aula, elimina-se a possibilidade</p><p>de atuarem como inquisidores oniscientes e silenciosos. E</p><p>produtivo, muitas vezes, que os professores sejam os pri­</p><p>meiros a correr 0 risco, ligando as narrativas confessionais</p><p>as discuss6es academicas para mostrar de que' modo a</p><p>36 Ensinando a transgredir</p><p>experiencia pode iluminar e ampliar nossa compreensao</p><p>do material academico. Mas a maioria dos professores tern</p><p>de treinar para estarem abertos em sala de aula, estarem</p><p>totalmente presentes em mente, corpo e espirito.</p><p>Os professores progressistas que trabalham para trans­</p><p>formar 0 curdculo de tal modo que ele nao reforce os sis­</p><p>temas de domina</p><p>racial nos obrigava a lutar para</p><p>fazer valer a integridade daquele vinculo. Nao tinhamos</p><p>ilus6es. Sabiarnos que haveria obstaculos, conflito e dor.</p><p>No patriarcado capitalista da supremacia branca - palavras</p><p>que nunca usarnos na epoca -, sabiamos que teriarnos de</p><p>pagar urn pres;o por aquela amizade, que teriarnos de ter</p><p>coragem para defender nossa crens;a na democracia, na</p><p>justis;a racial, no poder transformador do arnot. 0 valor</p><p>que davarnos ao nosso vinculo era suficiente para encarar­</p><p>mos esse desafio.</p><p>Dias antes da confraternizas;ao, lembrando a dos;ura da­</p><p>quela amizade, me senti muito humilde quando percebi a</p><p>quantas coisas nos renunciarnos na juventude acreditando</p><p>que algum dia vamos encontrar algo tao born quanto aquilo</p><p>ou meihor, mas que acabarnos nao encontrando. Perguntei·</p><p>a mim mesma como era posslvel que Ken e eu tivessemos</p><p>perdido 0 contato urn com 0 outro. Desde aquela epoca eu</p><p>nao havia conhecido nenhum branco que compreendesse a</p><p>Uma revolUl;ao de valores 41</p><p>profundidade e a complexidade da injusti</p><p>por uma falta de acesso significativo a</p><p>verdade. Ou seja: nao somente se apresentam inverdades</p><p>Uma revolu~ao de valores 45</p><p>as pessoas como tambem essas inverdades sao apresentadas</p><p>de uma forma que as habilita a ser comunicadas do modo</p><p>mais eficaz. Quando 0 consumo cultural coletivo da desin­</p><p>formacrao e 0 apego a desinformacrao se aliam as camadas e</p><p>mais camadas de mentiras que as pessoas contamem sua</p><p>vida cotidiana, nossa capacidade de enfrentar a realidade</p><p>diminui severamente, assim como nossa vontade de inter­</p><p>vir e mudar as circunstancias de injusticra.</p><p>Se examinarmos criticamente 0 papel tradicional da</p><p>uni"versidade na busca da verdade e na partilha de conheci­</p><p>mento e informacrao, ficara claro, infelizmente,; que as par­</p><p>cialidades que sustentam e mantem a supremacia branca,</p><p>o imperialismo, 0 sexismo e 0 racismo distorceram a edu­</p><p>cacrao a tal ponto que ela deixou de ser uma pratica da li­</p><p>berdade. 0 clamor pelo reconhecimento 4a diversidade</p><p>cultural, por repensar os modos de conhecimento e pela</p><p>desconstfucrao das antigas epistemologias, bern como a exi­</p><p>gencia concomitante de uma transformacrao das salas de</p><p>aula, de como ensinamos e do que ensinamos, foram revo­</p><p>lucr6es necessarias - que buscam devolver a vida a uma aca­</p><p>demia moribunda e corrupta.</p><p>Quando todos comes;aram a falar sobre a diversidade</p><p>cultural, isso nos entusiasmou. Para nos que estavamos a</p><p>margem (pessoas de cor, gente da. classe trabalhadora, gays,</p><p>lesbicas e por af afora) e sempre tiveramos sentimentos</p><p>ambivalentes sobre nossa presencra numa instituis;ao onde</p><p>o conhecimento era partilhado de modo a reforcrar 0 colo­</p><p>nialismo e a dominacrao, era emocionante pensar que a vi­</p><p>sao de justi</p>

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