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<p>HISTÓRIA DO DIREITO E DO</p><p>PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>Unidade 2</p><p>Antiguidade e</p><p>Direito</p><p>CEO</p><p>DAVID LIRA STEPHEN BARROS</p><p>DIRETORA EDITORIAL</p><p>ALESSANDRA FERREIRA</p><p>GERENTE EDITORIAL</p><p>LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS</p><p>PROJETO GRÁFICO</p><p>TIAGO DA ROCHA</p><p>AUTORIA</p><p>SILVIA CRISTINA DA SILVA</p><p>4 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>A</p><p>U</p><p>TO</p><p>RI</p><p>A</p><p>Silvia Cristina da Silva</p><p>Olá! Sou CEO na empresa Modular Criativo - produtora</p><p>de conteúdos didáticos, graduada em Ciências Jurídicas e</p><p>Sociais pelo Centro Universitário de Ensino Octávio Basto,</p><p>mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade</p><p>das Faculdades Associadas de Ensino (UNIFAE), atuando na</p><p>linha de pesquisa em Desenvolvimento Sustentável e Políticas</p><p>Públicas. Participação discente em seminários e palestras no</p><p>mestrado acadêmico em Análise do Discurso na Universidade</p><p>Federal de Buenos Aires, especialista em Docência no Ensino</p><p>Superior e em Direito e Educação (FCE). Atuo como consultora</p><p>jurídica e fiscal e investigadora de antecedentes para o exterior</p><p>(México e Argentina), docente, tutora e conteudista para cursos</p><p>de graduação e pós-graduação, elaboradora de questões para</p><p>concursos públicos, redatora, tradutora e intérprete da língua</p><p>espanhola e portuguesa, de gravadora e transcritora de áudios e</p><p>textos. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar</p><p>seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em</p><p>poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte</p><p>comigo!</p><p>5HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>ÍC</p><p>O</p><p>N</p><p>ES</p><p>6 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>SU</p><p>M</p><p>Á</p><p>RI</p><p>O</p><p>O Direito nas antigas civilizações orientais .......................... 10</p><p>Código de Hamurabi: primeiras evidências de um Sistema Jurídico ....... 10</p><p>Direito e Sociedade no Antigo Egito ...............................................................16</p><p>Princípios Jurídicos na Antiga China e sua Influência Contemporânea ... 21</p><p>O Direito romano e seu legado .............................................. 26</p><p>Formação e Evolução do Direito Romano: Da Monarquia à República e ao</p><p>Império.................................................................................................................26</p><p>Princípios Fundamentais e Instituições Jurídicas Romanas ....................... 31</p><p>O Legado do Direito Romano: Influências no Sistema Jurídico</p><p>Contemporâneo .................................................................................................34</p><p>O Direito na Grécia antiga ...................................................... 39</p><p>O Desenvolvimento do Direito na Grécia Antiga: de Drácon a Sólon ...... 39</p><p>Instituições e Práticas Jurídicas na Grécia Antiga ........................................ 44</p><p>O Legado do Direito Grego: Filosofia, Democracia e Direito Moderno ... 48</p><p>O Direito na Idade Média ........................................................ 53</p><p>O Direito Canônico e o Direito Feudal: duas faces do Sistema Jurídico</p><p>Medieval ..............................................................................................................53</p><p>As Universidades e o Renascimento do Direito Romano ........................... 58</p><p>Os Tribunais da Inquisição: Implicações Jurídicas e Sociais ...................... 63</p><p>7HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>A</p><p>PR</p><p>ES</p><p>EN</p><p>TA</p><p>ÇÃ</p><p>O</p><p>Na Unidade 2, embarcaremos em uma fascinante jornada</p><p>pela história do Direito e do pensamento jurídico na Antiguidade.</p><p>Nessa época distante, diferentes civilizações floresceram e</p><p>desenvolveram sistemas jurídicos complexos, que deixaram um</p><p>legado duradouro na evolução do Direito até os dias de hoje.</p><p>No primeiro capítulo, exploraremos o Direito nas antigas</p><p>civilizações orientais. Desde os Códigos de Leis da Mesopotâmia,</p><p>que regulamentavam aspectos da vida cotidiana, até o conceito</p><p>de Maat no Antigo Egito, que estabelecia princípios de justiça e</p><p>equidade, descobriremos como essas civilizações buscaram a</p><p>organização e a estabilidade social por meio do Direito.</p><p>Em seguida, adentraremos o mundo do Direito Romano</p><p>no segundo capítulo. Exploraremos seu desenvolvimento desde</p><p>a Lei das Doze Tábuas, que estabeleceu os alicerces do Direito</p><p>Romano arcaico, até a codificação de Justiniano, que influenciou</p><p>o pensamento jurídico por séculos. Veremos como o Direito</p><p>Romano se tornou um legado de valor inestimável, moldando a</p><p>tradição jurídica ocidental.</p><p>No terceiro capítulo, voltaremos nosso olhar para a</p><p>Grécia Antiga e sua contribuição para o pensamento jurídico.</p><p>Investigaremos a democracia ateniense e seu sistema legal, bem</p><p>como a influência de grandes filósofos como Sócrates, Platão e</p><p>Aristóteles na concepção da justiça e da lei.</p><p>Por fim, no quarto capítulo, exploraremos o Direito na Idade</p><p>Média, um período caracterizado por uma complexa interação</p><p>entre o Direito Canônico e o Direito Feudal. Compreenderemos</p><p>as principais características desse sistema jurídico e seu impacto</p><p>na evolução do pensamento jurídico, examinando, também, os</p><p>tribunais da Inquisição e suas implicações jurídicas e sociais.</p><p>8 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Preparados para mergulhar na história do Direito?</p><p>Acompanhem-nos nesta Unidade e descubram como os</p><p>alicerces do Direito foram estabelecidos nas civilizações antigas,</p><p>influenciando os sistemas legais contemporâneos. Vamos</p><p>desvendar os segredos do passado e compreender como o</p><p>pensamento jurídico evoluiu ao longo dos tempos. Sigam adiante</p><p>nesta fascinante jornada pela Antiguidade e pelo Direito!</p><p>9HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O</p><p>BJ</p><p>ET</p><p>IV</p><p>O</p><p>SOlá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2. Nosso objetivo</p><p>é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências</p><p>profissionais até o término desta etapa de estudos.</p><p>1. Entender o desenvolvimento do Direito nas antigas</p><p>civilizações orientais.</p><p>2. Discernir sobre a importância do Direito Romano e sua</p><p>influência no sistema jurídico atual.</p><p>3. Identificar as características do Direito na Grécia Antiga</p><p>e sua relevância para a compreensão do pensamento</p><p>jurídico.</p><p>4. Compreender as principais características do Direito na</p><p>Idade Média e seu impacto na evolução do pensamento</p><p>jurídico.</p><p>10 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Direito nas antigas</p><p>civilizações orientais</p><p>OBJETIVO</p><p>Ao término deste capítulo, você será capaz de</p><p>entender como funcionava o desenvolvimento</p><p>do Direito nas antigas civilizações orientais.</p><p>Isso será fundamental para o exercício de sua</p><p>profissão, pois é impossível compreender o</p><p>Direito contemporâneo sem estudar suas raízes</p><p>históricas. Ao analisar as origens do Direito, você</p><p>estará capacitado a entender os princípios e os</p><p>fundamentos que guiaram a criação de nossos</p><p>sistemas jurídicos atuais. E então? Motivado para</p><p>desenvolver essa competência? Vamos lá. Avante!</p><p>Código de Hamurabi: primeiras</p><p>evidências de um Sistema Jurídico</p><p>O Código de Hamurabi, criado por volta de 1754 a.C.,</p><p>durante o reinado do rei Hamurabi, na Babilônia, é, muitas</p><p>vezes, considerado um dos mais antigos e completos conjuntos</p><p>de leis escritas em toda a história (DIAS, 2015). Esse código legal</p><p>introduziu uma nova forma de entender e aplicar a justiça na</p><p>sociedade, estabelecendo precedentes para muitas tradições</p><p>jurídicas que se seguiriam.</p><p>Segundo o historiador de Direito René David, o Código</p><p>de Hamurabi representa “um sistema jurídico notável pela sua</p><p>antiguidade e pela sua abrangência, que reflete a sociedade</p><p>e a economia de uma civilização oriental avançada” (DAVID,</p><p>2008, p. 35). Esse Código, com sua sofisticada estrutura de leis</p><p>e penalidades, é o primeiro grande exemplo de uma sociedade</p><p>tentando estabelecer a ordem e a justiça por meio da lei escrita.</p><p>11HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>NOTA</p><p>Acreditava-se que essas leis haviam sido entregues</p><p>desse sistema legal foi imensa, estabelecendo as bases</p><p>para o desenvolvimento do Direito moderno em muitos países.</p><p>54 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Por outro lado, o Direito Feudal, como sugere o nome,</p><p>era o sistema jurídico que regia as relações entre senhores e</p><p>vassalos durante o período feudal. Sua essência estava nos laços</p><p>de vassalagem, de acordo com os quais a terra era dada em troca</p><p>de serviço militar ou outro tipo de serviço. Esse sistema não era</p><p>uniforme, mas variava de lugar para lugar, refletindo as relações</p><p>sociais, econômicas e políticas locais.</p><p>Embora distintos, o Direito Canônico e o Direito Feudal</p><p>estavam entrelaçados, influenciando a sociedade em geral. Sua</p><p>influência e seu legado podem ser sentidos até hoje, à medida</p><p>que continuamos a estudar e a compreender sua importância na</p><p>formação do pensamento jurídico moderno.</p><p>Desenvolvimento e Características do</p><p>Direito Canônico</p><p>O Direito Canônico é uma expressão do desejo da Igreja</p><p>Católica de estabelecer regras e regulamentos internos para</p><p>governar seus próprios assuntos eclesiásticos, mas sua influência</p><p>alcançou muito além das paredes da Igreja. Seu desenvolvimento</p><p>pode ser rastreado até as primeiras comunidades cristãs e,</p><p>durante a Idade Média, assumiu uma forma mais estruturada e</p><p>complexa (PENNINGTON, 2012).</p><p>Os Concílios da Igreja, desde os locais até os ecumênicos,</p><p>desempenharam um papel fundamental na criação de</p><p>leis canônicas. O Concílio de Latrão IV, por exemplo, foi</p><p>particularmente influente, abordando questões que variavam</p><p>desde a organização do clero até assuntos sociais, como o</p><p>casamento e a usura (CHENEY, 1967). Esse amplo alcance tornou</p><p>o Direito Canônico uma parte inextricável da vida cotidiana na</p><p>Idade Média.</p><p>55HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Direito Canônico era caracterizado por sua base em</p><p>princípios bíblicos e doutrinários, mas também pela influência dos</p><p>princípios do Direito Romano. As leis canônicas se concentravam</p><p>tanto nas obrigações do clero quanto em questões que afetavam</p><p>a sociedade em geral, como o casamento, o divórcio e a herança</p><p>(TIERNEY, 1980). Assim, o Direito Canônico servia como uma</p><p>ponte entre a fé e a vida cotidiana, moldando o comportamento</p><p>moral e ético.</p><p>Desenvolvimento e Características do</p><p>Direito Feudal</p><p>O Direito Feudal se originou e evoluiu no contexto da</p><p>fragmentação política e social que seguiu o declínio do Império</p><p>Romano do Ocidente. Com o enfraquecimento do poder central,</p><p>a sociedade da Europa Ocidental se organizou em torno de</p><p>relações de vassalagem, de acordo com as quais a terra era</p><p>concedida em troca de serviços, geralmente militares.</p><p>IMPORTANTE</p><p>Esse sistema jurídico não era uniforme, mas</p><p>refletia as relações sociais e econômicas locais.</p><p>O Direito Feudal envolvia um conjunto complexo</p><p>de obrigações e deveres entre os senhores e seus</p><p>vassalos. A relação era de natureza contratual,</p><p>baseada em um juramento de fidelidade do</p><p>vassalo ao seu senhor, em troca da proteção e do</p><p>direito de usar a terra (FOSSIER, 1995).</p><p>Essas relações de vassalagem e os direitos e deveres</p><p>associados formavam a base do Direito Feudal, que era, em</p><p>grande parte, costumeiro e localizado. No entanto, ao longo do</p><p>tempo, houve tentativas de codificar e uniformizar essas leis,</p><p>como as leis de Guilherme, o Conquistador, na Inglaterra, após a</p><p>conquista normanda em 1066 (BROWN, 1976).</p><p>56 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Influências Mútuas entre Direito</p><p>Canônico e Direito Feudal</p><p>Embora o Direito Canônico e o Direito Feudal fossem</p><p>distintos em suas origens e focos, não existiam em silos isolados</p><p>na sociedade medieval. Havia uma intersecção significativa entre</p><p>os dois, com influências mútuas moldando o desenvolvimento</p><p>de cada um (BERMAN, 1983).</p><p>O Direito Canônico, com sua base na fé e na moralidade,</p><p>muitas vezes fornecia o quadro moral e ético dentro do qual</p><p>o Direito Feudal operava. Por exemplo, o Direito Canônico</p><p>influenciou a definição de deveres e obrigações entre senhores e</p><p>vassalos, estabelecendo limites morais para o exercício do poder</p><p>feudal (OAKLEY, 2010).</p><p>Figura 6 – Direito Canônico</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Por outro lado, as realidades pragmáticas do Direito</p><p>Feudal influenciaram o Direito Canônico em questões como</p><p>propriedade e sucessão. A interação entre os dois sistemas</p><p>57HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>jurídicos, portanto, contribuiu para a formação de um quadro</p><p>jurídico mais amplo que governava a vida na Idade Média</p><p>(REYNOLDS, 1994).</p><p>Apesar de suas influências mútuas, também houve</p><p>momentos de conflito entre o Direito Canônico e o Direito Feudal,</p><p>particularmente quando as reivindicações de autoridade da</p><p>Igreja e dos senhores feudais entravam em conflito. No entanto,</p><p>em muitos aspectos, esses dois sistemas de Direito funcionaram</p><p>de forma complementar, cada um fornecendo o que o outro</p><p>não podia, resultando em um quadro jurídico complexo e</p><p>multifacetado que reflete a diversidade e a complexidade da</p><p>sociedade medieval.</p><p>Impacto e Legado de ambos os</p><p>sistemas na Evolução do Direito e do</p><p>Pensamento Jurídico:</p><p>O Direito Canônico e o Direito Feudal deixaram marcas</p><p>profundas na evolução do pensamento jurídico e do Direito. O</p><p>Direito Canônico, por exemplo, desempenhou um papel crucial</p><p>no desenvolvimento do Direito Internacional e o Direito Marítimo</p><p>durante o período medieval. Além disso, aspectos de Direito</p><p>Canônico ainda podem ser vistos hoje, na lei eclesiástica da Igreja</p><p>Católica, bem como na formação das leis de família em muitas</p><p>sociedades (KELLY, 1992).</p><p>O Direito Feudal, por outro lado, influenciou a estrutura</p><p>do sistema de propriedade e a formação de relações contratuais</p><p>em muitas sociedades ocidentais. Por exemplo, conceitos como</p><p>tenure e homage, que foram fundamentais para o Direito Feudal,</p><p>ainda podem ser vistos na lei de propriedade contemporânea de</p><p>alguns países (BAKER, 2002).</p><p>58 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Esses sistemas jurídicos também influenciaram a evolução</p><p>do pensamento jurídico, estabelecendo conceitos fundamentais,</p><p>como a importância da lei escrita, o respeito pelos Direitos e</p><p>obrigações contratuais e a necessidade de um quadro ético para</p><p>a aplicação da lei. Portanto, mesmo que as estruturas jurídicas</p><p>medievais possam parecer distantes e distintas dos sistemas</p><p>jurídicos contemporâneos, ainda moldam, de forma sutil mas</p><p>significativa, a maneira como entendemos e aplicamos a lei hoje</p><p>(BERMAN, 1983).</p><p>As Universidades e o</p><p>Renascimento do Direito Romano</p><p>No contexto da Idade Média, as universidades surgiram</p><p>como instituições inovadoras de estudo e aprendizado.</p><p>Originando-se de escolas monásticas e catedrais, tornaram-se</p><p>os principais centros de educação, cultura e intelectualidade na</p><p>Europa medieval.</p><p>Por meio dessas instituições, houve um renascimento</p><p>notável do Direito Romano, especificamente em universidades</p><p>como a de Bolonha, na Itália. A redescoberta do Corpus Juris</p><p>Civilis, o principal compêndio de leis romanas compilado por</p><p>Justiniano no século VI, permitiu que o Direito Romano ganhasse</p><p>uma nova vida e relevância (STEIN, 1999).</p><p>Os glosadores, como eram chamados os estudiosos que</p><p>se dedicavam a interpretar e expandir esses textos jurídicos</p><p>romanos, exerceram uma influência considerável sobre o</p><p>pensamento jurídico da época. Seus comentários e análises</p><p>dos textos jurídicos clássicos não apenas aprofundaram a</p><p>compreensão do Direito Romano, mas também contribuíram</p><p>para a formação de um novo corpus de Direito que combinava</p><p>tradições romanas, canônicas e locais (STEIN, 1999).</p><p>59HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O surgimento das universidades na</p><p>Idade Média</p><p>As universidades surgiram como instituições inovadoras</p><p>de estudo e aprendizado durante a Idade Média. Inicialmente,</p><p>derivaram de escolas monásticas e catedrais, que ofereciam um</p><p>espaço para o ensino e o estudo de diversas disciplinas,</p><p>desde a</p><p>teologia até as artes liberais (VERGER, 1999).</p><p>A partir do século XII, essas escolas começaram a se</p><p>transformar em universidades, ganhando um grau de autonomia</p><p>e institucionalização. Além disso, começaram a atrair estudantes</p><p>de várias partes da Europa, tornando-se, assim, centros de</p><p>intercâmbio cultural e intelectual.</p><p>As universidades eram, frequentemente, patrocinadas</p><p>pela Igreja ou por governantes seculares, que viam na educação</p><p>uma forma de formar clérigos competentes ou administradores</p><p>capazes para seus reinos. Isso permitiu que as universidades</p><p>adquirissem recursos e influência para se expandir e se</p><p>estabelecer como instituições importantes na sociedade</p><p>medieval (VERGER, 1999).</p><p>A redescoberta do Direito Romano</p><p>Durante a Idade Média, especificamente a partir do século</p><p>XI, as universidades europeias, em especial a Universidade de</p><p>Bolonha, na Itália, tiveram um papel crucial na redescoberta e</p><p>reintrodução do Direito Romano. A redescoberta do Digesto, uma</p><p>parte essencial do Corpus Juris Civilis, marcou um ponto de virada</p><p>na história jurídica medieval (STEIN, 1999).</p><p>Os juristas da Universidade de Bolonha, conhecidos</p><p>como glosadores, dedicaram-se ao estudo intensivo desses</p><p>60 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>textos romanos. Criaram um complexo sistema de glosas,</p><p>comentários explicativos que clarificavam, interpretavam e, às</p><p>vezes, expandiam o significado dos textos jurídicos romanos</p><p>(STEIN, 1999).</p><p>A redescoberta do Direito Romano foi de enorme</p><p>importância para a evolução do pensamento jurídico na Europa.</p><p>O Direito Romano era considerado um modelo de racionalidade</p><p>e de sistema jurídico bem-organizado, com princípios gerais que</p><p>podiam ser aplicados a uma variedade de situações concretas. Seu</p><p>estudo permitiu uma compreensão mais profunda da lei, de sua</p><p>estrutura e de suas finalidades, estimulando o desenvolvimento</p><p>de um pensamento jurídico mais sofisticado e sistemático (STEIN,</p><p>1999).</p><p>A influência do Direito Romano nas</p><p>universidades e no pensamento</p><p>jurídico medieval</p><p>O ressurgimento do Direito Romano nas universidades</p><p>medievais, especialmente em Bolonha e em Paris, foi um marco</p><p>que redefiniu o curso do pensamento jurídico ocidental. O</p><p>Direito Romano, com sua sofisticação técnica e seus princípios</p><p>universais, ofereceu um contraponto à fragmentação do Direito</p><p>Feudal e aprimorou a abstração do Direito Canônico (STEIN,</p><p>1999).</p><p>61HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Figura 7 – Ressurgimento do Direito Romano</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>O Direito Romano ofereceu uma estrutura jurídica</p><p>clara, uma riqueza de conceitos jurídicos e uma tradição de</p><p>pensamento analítico que foi absorvida, imediatamente, pelo</p><p>ambiente universitário. Como resultado, uma nova classe de</p><p>juristas treinados começou a se formar, tornando-se influente</p><p>tanto na Igreja quanto nos estados nascentes.</p><p>A interação entre o Direito Romano e o Direito Canônico</p><p>foi particularmente profícua. Em muitos casos, o Direito Romano</p><p>preencheu as lacunas do Direito Canônico e forneceu conceitos</p><p>e ferramentas analíticas que enriqueceram a discussão jurídica</p><p>da Igreja. O Direito Romano foi incorporado ao Direito Canônico</p><p>em muitos aspectos, dando origem ao que é conhecido como ius</p><p>commune, o Direito comum da Europa medieval.</p><p>62 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Quanto ao Direito Feudal, o Direito Romano exerceu uma</p><p>influência mais limitada, mas não menos importante. Muitos</p><p>princípios do Direito Romano foram adaptados para acomodar</p><p>as necessidades e características do sistema feudal, resultando</p><p>em uma síntese peculiar que marcou o desenvolvimento do</p><p>Direito Privado na Europa (STEIN, 1999).</p><p>No geral, a reintrodução do Direito Romano marcou</p><p>uma importante mudança no pensamento jurídico medieval,</p><p>inaugurando uma era de maior sistematização, racionalização e</p><p>profissionalização da lei. Esse desenvolvimento foi crucial para a</p><p>formação do pensamento jurídico ocidental e para a criação dos</p><p>sistemas jurídicos modernos.</p><p>O legado do Direito Romano e das</p><p>universidades medievais para a</p><p>modernidade</p><p>A revitalização do Direito Romano e o papel das</p><p>universidades medievais tiveram uma influência duradoura sobre</p><p>a evolução do Direito e do pensamento jurídico na modernidade.</p><p>A influência do Direito Romano não se restringiu ao período</p><p>medieval, mas se estendeu por séculos, moldando o Direito Civil</p><p>na Europa e, consequentemente, no mundo (BERMAN, 1983).</p><p>A contribuição mais significativa do Direito Romano para</p><p>o pensamento jurídico moderno é a noção de que o Direito é</p><p>um sistema de normas racionais, universais e aplicáveis a uma</p><p>variedade de situações. O Direito Romano introduziu conceitos-</p><p>chave, como propriedade, contrato, delito, sucessão, entre</p><p>outros, que são fundamentais para a compreensão do Direito</p><p>hoje.</p><p>63HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Por sua vez, as universidades medievais desempenharam</p><p>um papel central na disseminação do Direito Romano e</p><p>na formação de uma nova classe de juristas profissionais.</p><p>Estabeleceram a tradição do ensino jurídico, que continua até</p><p>hoje; e foram fundamentais para a formação do que conhecemos</p><p>como ciência jurídica (BERMAN, 1983).</p><p>A formação dessa tradição jurídica, combinada com a</p><p>contribuição do Direito Canônico e do Direito Feudal, levou ao</p><p>desenvolvimento do ius commune, uma forma comum de Direito</p><p>que, apesar de ter sido superada pelo desenvolvimento dos</p><p>direitos nacionais na Europa Moderna, teve grande influência na</p><p>formação dos sistemas jurídicos europeus modernos (BERMAN,</p><p>1983).</p><p>Portanto, o legado do Direito Romano e das universidades</p><p>medievais para o Direito e o pensamento jurídico modernos é</p><p>inestimável. Seus princípios e métodos continuam a influenciar</p><p>a forma como o Direito é entendido e praticado hoje, e entender</p><p>esse legado é fundamental para entender o próprio Direito.</p><p>Os Tribunais da Inquisição:</p><p>Implicações Jurídicas e Sociais</p><p>Os Tribunais da Inquisição na Idade Média representam</p><p>uma parte intrigante e, muitas vezes, mal compreendida da</p><p>história do Direito. Esses tribunais, geralmente associados à Igreja</p><p>Católica, eram, na verdade, uma manifestação de uma mudança</p><p>muito mais ampla nos sistemas legais e sociais da época. Embora</p><p>sejam lembrados por seus aspectos mais brutais, como a tortura</p><p>e a perseguição a heréticos e minorias, os Tribunais da Inquisição</p><p>também introduziram inovações significativas no pensamento e</p><p>na prática jurídica (KAMEN, 1998).</p><p>64 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Iniciada no século XIII, a Inquisição era, originalmente, uma</p><p>resposta à crescente preocupação da Igreja com a heresia dentro</p><p>de suas próprias fileiras. Com o tempo, entretanto, expandiu-</p><p>se para se tornar uma instituição central na administração da</p><p>justiça na Europa Medieval, com amplas implicações tanto no</p><p>âmbito jurídico quanto no âmbito social (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Funcionamento dos Tribunais da</p><p>Inquisição</p><p>Os Tribunais da Inquisição, como aponta Bethencourt</p><p>(2000), operavam de maneira particular, sendo a manifestação</p><p>jurídica de um sistema de poder que procurava regular e</p><p>disciplinar a sociedade em nome da fé.</p><p>O processo inquisitorial começava, muitas vezes, com a</p><p>“denúncia”, que poderia ser uma acusação explícita ou apenas</p><p>uma suspeita de heresia. A partir daí, iniciava-se a “investigação”</p><p>para determinar se a acusação tinha fundamento. Esse processo</p><p>poderia envolver a inquirição de testemunhas, o exame de</p><p>documentos e, em alguns casos, a utilização de tortura para</p><p>extrair confissões (KAMEN, 1998).</p><p>Os inquisidores, na maioria das vezes clérigos, tinham</p><p>uma ampla autoridade para conduzir esses inquéritos. Podiam</p><p>convocar testemunhas, ordenar prisões e, em última instância,</p><p>decidir sobre a inocência ou culpa do acusado. O acusado, por</p><p>outro lado, enfrentava uma série de desvantagens, como a</p><p>impossibilidade de conhecer a identidade dos seus acusadores</p><p>e a ausência</p><p>de um advogado de defesa (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Em termos de penalidades, o tribunal da Inquisição</p><p>poderia impor uma variedade de sanções, desde penitências</p><p>leves, como peregrinações ou orações; até punições severas,</p><p>como a prisão perpétua ou mesmo a execução. A pena mais</p><p>65HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>temida era a execução por queima na fogueira, que era reservada</p><p>para hereges obstinados e reincidentes (BETHENCOURT, 2000).</p><p>O funcionamento desses tribunais, portanto, representou</p><p>uma ruptura significativa com as práticas jurídicas anteriores</p><p>e lançou as bases para alguns aspectos do moderno Direito</p><p>Processual Penal.</p><p>Implicações Jurídicas dos Tribunais da</p><p>Inquisição</p><p>Os tribunais da Inquisição tiveram uma influência</p><p>significativa na evolução do pensamento jurídico, introduzindo</p><p>práticas e conceitos que, ainda hoje, estão presentes na</p><p>jurisprudência (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Um dos principais conceitos jurídicos introduzidos</p><p>pelos inquisidores foi o da inquisição ex officio, que dava aos</p><p>inquisidores o poder de iniciar inquéritos sobre heresia sem</p><p>a necessidade de uma acusação formal (KAMEN, 1998). Isso</p><p>diferia, significativamente, das práticas jurídicas anteriores, em</p><p>que a acusação formal era, geralmente, necessária para iniciar</p><p>um processo judicial. Isso pode ser visto como um antecessor</p><p>distante da moderna prática do Ministério Público de instaurar</p><p>inquéritos de ofício.</p><p>Além disso, o papel do “promotor” nos tribunais da</p><p>Inquisição também foi significativo. O promotor, também</p><p>conhecido como “promotor fiscal”, era responsável por apresentar</p><p>as acusações contra o réu e argumentar o caso perante o tribunal.</p><p>Esse papel pode ser comparado ao do promotor nos sistemas</p><p>jurídicos modernos (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Outra inovação controversa introduzida pelos tribunais</p><p>da Inquisição foi o uso da tortura como meio de obtenção de</p><p>66 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>provas. A tortura era usada para extrair confissões dos acusados,</p><p>sob o pressuposto de que a confissão era a “rainha das provas”.</p><p>No entanto, essa prática foi objeto de controvérsia e debates</p><p>acalorados, tanto na época quanto em análises históricas</p><p>posteriores.</p><p>Portanto, os tribunais da Inquisição, apesar de suas</p><p>controvérsias e excessos, desempenharam um papel importante</p><p>na evolução do pensamento jurídico. Suas práticas e inovações</p><p>ajudaram a moldar o sistema jurídico como o conhecemos hoje.</p><p>Implicações Sociais dos Tribunais da</p><p>Inquisição</p><p>Os tribunais da Inquisição, além de terem introduzido</p><p>importantes práticas jurídicas, também tiveram profundos</p><p>impactos sociais durante a Idade Média, moldando a sociedade</p><p>de formas que ainda são sentidas hoje (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Um dos principais impactos dos tribunais da Inquisição</p><p>foi seu papel na manutenção do controle social. Os inquisidores,</p><p>frequentemente apoiados pela nobreza e pelo clero, usavam</p><p>o medo da heresia e da excomunhão como ferramentas para</p><p>controlar a população e reprimir o dissenso (KAMEN, 1998).</p><p>Isso resultou em um ambiente de medo e repressão em que as</p><p>pessoas tinham que estar vigilantes para não violar os estritos</p><p>códigos morais e religiosos.</p><p>Além disso, os tribunais da Inquisição, frequentemente,</p><p>atuavam na perseguição de minorias, particularmente judeus</p><p>e conversos. As acusações de heresia eram usadas como</p><p>pretexto para justificar a perseguição e a marginalização dessas</p><p>comunidades. Isso contribuiu para um ambiente de intolerância</p><p>e discriminação que persistiu por séculos.</p><p>67HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Finalmente, os tribunais da Inquisição também tiveram</p><p>implicações significativas para o conceito de justiça na época.</p><p>A ênfase na obtenção de confissões, mesmo que por meio da</p><p>tortura; e a falta de direito de defesa para os acusados levantaram</p><p>sérias questões sobre a justiça e a equidade dos processos</p><p>inquisitoriais (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Em resumo, os tribunais da Inquisição tiveram impactos</p><p>sociais profundos na Idade Média, influenciando o controle</p><p>social, a perseguição de minorias e o conceito de justiça. Essas</p><p>implicações ainda ressoam nos debates contemporâneos sobre</p><p>direitos humanos e justiça social.</p><p>O Legado dos Tribunais da Inquisição</p><p>Os Tribunais da Inquisição, muitas vezes vistos sob uma</p><p>perspectiva negativa, deixaram um legado complexo e significativo</p><p>para o Direito e a sociedade, influenciando, de maneira marcante,</p><p>a evolução do pensamento jurídico (BETHENCOURT, 2000).</p><p>No campo do Direito, os Tribunais da Inquisição</p><p>introduziram práticas jurídicas que, apesar de controversas,</p><p>moldaram as tradições jurídicas futuras. O princípio da inquisitio</p><p>ex officio, ou seja, a ideia de que era responsabilidade do juiz</p><p>investigar os crimes contrastava com o sistema acusatório</p><p>romano e pode ser visto como precursor do sistema inquisitório</p><p>moderno (KAMEN, 1998). Da mesma forma, a figura do promotor,</p><p>representante do interesse público, tem raízes na prática</p><p>inquisitorial.</p><p>Socialmente, a Inquisição teve um impacto duradouro</p><p>na relação entre a religião e o estado, ajudando a consolidar o</p><p>papel do estado como regulador da ortodoxia religiosa e como</p><p>instrumento de controle social. Isso moldou as concepções</p><p>68 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>ocidentais de liberdade religiosa e tolerância, que ainda são</p><p>questões de debate hoje.</p><p>Por mais paradoxal que possa parecer, os Tribunais da</p><p>Inquisição também desempenharam um papel na formação</p><p>dos princípios do devido processo legal. As críticas às práticas</p><p>inquisitoriais, como a falta de direitos de defesa e o uso da</p><p>tortura, contribuíram para a formação das modernas noções de</p><p>direitos humanos e justiça (BETHENCOURT, 2000).</p><p>Assim, apesar das crueldades e injustiças cometidas pelos</p><p>Tribunais da Inquisição, seu legado se entrelaça com a história</p><p>do Direito e da sociedade de formas que ainda podemos sentir.</p><p>RESUMINDO</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de</p><p>que você realmente entendeu o tema de estudo</p><p>deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos.</p><p>Você deve ter aprendido que o Direito na Idade</p><p>Média era um emaranhado de sistemas, incluindo</p><p>o Direito Canônico e o Direito Feudal. Esses eram</p><p>dois lados de uma mesma moeda, pois, enquanto</p><p>o Direito Canônico regulava assuntos eclesiásticos</p><p>e tinha aplicação universal, o Direito Feudal</p><p>era, essencialmente, local e variava conforme o</p><p>senhor feudal. Nesse período, as universidades</p><p>desempenharam um papel fundamental na</p><p>revitalização do Direito Romano, que veio a</p><p>influenciar, profundamente, o pensamento jurídico.</p><p>Os tribunais da Inquisição também representaram</p><p>um marco no Direito medieval, implementando</p><p>um novo paradigma processual, com a inovação</p><p>da inquisição ex officio, o papel do promotor e o</p><p>uso da tortura como meio de obtenção de provas.</p><p>69HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>ARISTÓTELES. Constituição dos atenienses. Trad. Maria Cecília</p><p>de C. G. de Souza. São Paulo: Edipro, 1984.</p><p>BAKER, J. H. An Introduction to English Legal History. 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São Paulo: Saraiva, 2016.</p><p>_Hlk139840526</p><p>O direito nas antigas civilizações orientais</p><p>Código de Hamurabi: primeiras evidências de um Sistema Jurídico</p><p>Direito e Sociedade no Antigo Egito</p><p>Princípios Jurídicos na Antiga China e sua Influência Contemporânea</p><p>O direito romano e seu legado</p><p>Formação e Evolução do Direito Romano: Da Monarquia à República e ao Império</p><p>Princípios Fundamentais e Instituições Jurídicas Romanas</p><p>O Legado do Direito Romano: Influências no Sistema Jurídico Contemporâneo</p><p>O direito na grécia antiga</p><p>O Desenvolvimento do Direito na Grécia Antiga: de Drácon a Sólon</p><p>Instituições e Práticas Jurídicas na Grécia Antiga</p><p>O Legado do Direito Grego: Filosofia, Democracia e Direito Moderno</p><p>O direito na idade média</p><p>O Direito Canônico e o Direito Feudal: duas faces do Sistema Jurídico Medieval</p><p>As Universidades e o Renascimento do Direito Romano</p><p>Os Tribunais da Inquisição: Implicações Jurídicas e Sociais</p><p>pelos deuses, legitimando, assim, sua autoridade.</p><p>As leis contidas no Código de Hamurabi eram</p><p>consideradas a expressão da vontade divina e,</p><p>como tal, tinham uma força de obrigatoriedade</p><p>quase sagrada (PINTO, 2017).</p><p>Neste capítulo, vamos explorar a origem do Código</p><p>de Hamurabi; suas características e princípios; sua estrutura</p><p>e implementação; e; por fim, seu legado e influência sobre os</p><p>sistemas jurídicos subsequentes.</p><p>Características e Princípios</p><p>O Código de Hamurabi é conhecido por sua abordagem</p><p>detalhada e específica à lei e à ordem, abrangendo uma ampla</p><p>gama de questões sociais, comerciais e familiares. Um de seus</p><p>aspectos mais notáveis e, talvez, o mais citado é o princípio de</p><p>“olho por olho, dente por dente”. Essa forma de justiça retributiva,</p><p>também conhecida como lei de talião, era um elemento central</p><p>do código e buscava garantir uma punição proporcional ao crime</p><p>cometido (FARIA, 2010).</p><p>Ao mesmo tempo, o Código de Hamurabi demonstra uma</p><p>preocupação com a equidade e a justiça. De acordo com Faria</p><p>(2010), apesar de sua severidade em muitos aspectos, o Código</p><p>também expressava uma tendência de proteger os mais fracos e</p><p>vulneráveis, regulamentando as relações de trabalho, aluguel e</p><p>vendas para evitar a exploração. Assim, pode-se dizer que havia</p><p>uma preocupação com a justiça social já naquela época.</p><p>Além disso, o Código de Hamurabi introduziu conceitos</p><p>legais fundamentais que se tornaram pilares de muitos sistemas</p><p>jurídicos posteriores. Entre esses, destacam-se o princípio da</p><p>presunção de inocência e a necessidade de evidências para a</p><p>12 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>cem quenação. Segundo Cardoso (2014), no Código de Hamurabi,</p><p>já existia uma forma rudimentar de presunção de inocência: o</p><p>acusado deveria ser considerado inocente até que sua culpa</p><p>fosse provada.</p><p>O Código também estabelecia a necessidade de</p><p>testemunhas e evidências na tomada de decisões legais. Embora</p><p>esses princípios não tenham sido aplicados com a mesma rigidez</p><p>que nos sistemas legais modernos, representam uma importante</p><p>etapa na evolução do pensamento jurídico (CARDOSO, 2014).</p><p>Estrutura e Implementação</p><p>Avançando para a estrutura e implementação do Código</p><p>de Hamurabi, torna-se evidente o seu papel revolucionário como</p><p>um texto legal detalhado e abrangente.</p><p>O Código de Hamurabi consiste em cerca de 282 leis,</p><p>com penas variando de acordo com a gravidade do crime e a</p><p>posição social dos envolvidos (BOTTINO, 2010). As leis abrangem</p><p>uma variedade de áreas, desde o comércio e a agricultura até a</p><p>propriedade e a família, refletindo a complexidade da sociedade</p><p>babilônica da época.</p><p>Uma característica distintiva do Código é a sua aplicação</p><p>detalhada da lei de talião, ou seja, “olho por olho, dente por</p><p>dente”. Embora esse conceito seja, muitas vezes, visto como</p><p>vingativo, foi criado para prevenir a escalada da vingança e</p><p>garantir que a punição se adequasse ao crime (BOTTINO, 2010).</p><p>Na sociedade babilônica, as leis eram implementadas e</p><p>aplicadas por uma variedade de funcionários do Estado, como</p><p>juízes, governadores e agentes do rei. Esses eram responsáveis</p><p>por manter a ordem, julgar os casos e impor as penas (SANTOS,</p><p>2012).</p><p>13HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>NOTA</p><p>Entretanto, vale lembrar, como ressalta Santos</p><p>(2012, p. 145), que “o Código não era aplicado</p><p>de maneira uniforme em toda a sociedade. A</p><p>justiça babilônica era bastante estratificada, com</p><p>diferentes classes sociais sujeitas a diferentes leis</p><p>e penas”.</p><p>O Código de Hamurabi representou um avanço significativo</p><p>em termos de pensamento legal e social, ao tentar estruturar e</p><p>codificar o que, até então, era baseado, majoritariamente, em</p><p>tradições orais e costumes locais. A sua influência pode ser vista</p><p>não apenas na antiguidade, mas também em muitos sistemas</p><p>jurídicos modernos.</p><p>Legado do Código de Hamurabi</p><p>Compreender o legado do Código de Hamurabi nos</p><p>permite apreciar sua influência duradoura e significativa na</p><p>História do Direito.</p><p>O Código de Hamurabi é considerado um marco na</p><p>evolução do pensamento jurídico, representando um dos</p><p>primeiros exemplos de um sistema legal codificado. Conforme</p><p>apontado por Rodrigues (2014, p. 167), “a criação do Código de</p><p>Hamurabi foi um dos primeiros passos na história da humanidade</p><p>para a formação de um estado de Direito, em que as leis são</p><p>claras, escritas e acessíveis”.</p><p>Essa codificação da lei proporcionou uma maior</p><p>previsibilidade e transparência na administração da justiça,</p><p>estabelecendo um precedente para a codificação das leis</p><p>em muitas outras civilizações antigas e modernas. É possível</p><p>observar traços da influência de Hamurabi nos sistemas legais</p><p>de várias sociedades subsequentes, como as leis romanas e as</p><p>modernas constituições escritas (RODRIGUES, 2014).</p><p>14 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Além disso, muitos dos princípios fundamentais</p><p>introduzidos pelo Código de Hamurabi, como a presunção de</p><p>inocência e a necessidade de provas para a cem quenação, são,</p><p>ainda hoje, pilares do Direito em muitas sociedades. Segundo</p><p>Silva (2017), o Código de Hamurabi ofereceu à humanidade os</p><p>primeiros vislumbres de princípios jurídicos que, ainda hoje, são</p><p>considerados fundamentais para a garantia de uma justiça justa</p><p>e equitativa.</p><p>Contudo, o Código de Hamurabi também nos oferece</p><p>uma importante lição sobre as limitações e falhas da justiça</p><p>humana. Apesar de suas inovações, o Código era produto de</p><p>sua época e refletia as desigualdades e injustiças sociais da</p><p>sociedade babilônica. Isso nos lembra que o Direito e a justiça</p><p>são, em última análise, criações humanas, moldadas pelas nossas</p><p>crenças, valores e circunstâncias históricas (SILVA, 2017).</p><p>Assim, estudar o Código de Hamurabi nos ajuda a refletir</p><p>sobre a evolução do Direito e a buscar, continuamente, sistemas</p><p>jurídicos mais justos e equitativos.</p><p>Comparação com Outros Sistemas</p><p>Jurídicos Antigos</p><p>Ao comparar o Código de Hamurabi com outros sistemas</p><p>jurídicos antigos, podemos ver tanto pontos em comum como</p><p>diferenças marcantes, o que reflete a diversidade e a riqueza da</p><p>evolução do pensamento jurídico ao longo da história.</p><p>Comparado ao Direito Romano, o Código de Hamurabi é</p><p>mais antigo e mais estritamente codificado. Enquanto o Código</p><p>de Hamurabi buscava cobrir todas as situações possíveis em</p><p>uma única lista de leis e penas, o Direito Romano desenvolveu-</p><p>se ao longo de muitos séculos, sendo reinterpretado e adaptado</p><p>15HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>por juristas e legisladores para respem quer a novas situações</p><p>(MAGALHÃES, 2012).</p><p>Ainda assim, há semelhanças importantes. Ambos</p><p>os sistemas demonstram uma preocupação com a justiça e</p><p>a equidade, embora expressas de maneiras diferentes. Por</p><p>exemplo, a lei de talião, o “olho por olho, dente por dente” do</p><p>Código de Hamurabi, pode ser vista como uma tentativa primitiva</p><p>de garantir a proporcionalidade na punição - um princípio que</p><p>também é fundamental no Direito Romano (MAGALHÃES, 2012).</p><p>Em relação ao Direito Grego, o Código de Hamurabi é,</p><p>notavelmente, mais detalhado e específico. Os gregos, em sua</p><p>maioria, dependiam de normas e costumes sociais não escritos</p><p>e só mais tarde desenvolveram um sistema jurídico escrito</p><p>mais formalizado. Além disso, enquanto o Código de Hamurabi</p><p>aplicava a lei de talião, os gregos enfatizavam o uso do debate e</p><p>da persuasão para resolver disputas legais (SOUZA, 2016).</p><p>No contexto oriental, o Código de Hamurabi é uma das</p><p>primeiras e mais completas codificações legais, mas, certamente,</p><p>não a única. Por exemplo, na antiga Índia, o Código de Manu</p><p>também fornecia uma extensa lista de leis e penas, mas com</p><p>um enfoque distinto, incorporando considerações religiosas e</p><p>filosóficas de uma maneira que o Código de Hamurabi geralmente</p><p>não fazia (FERNANDES, 2018).</p><p>Essas comparações nos permitem apreciar a</p><p>complexidade e diversidade dos sistemas jurídicos antigos, bem</p><p>como a influência contínua</p><p>que exercem sobre o Direito e o</p><p>pensamento jurídico modernos.</p><p>16 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Direito e Sociedade no Antigo</p><p>Egito</p><p>O Antigo Egito, conhecido por suas pirâmides majestosas,</p><p>faraós poderosos e contribuições significativas para a arte e a</p><p>ciência, também desempenhou um papel fundamental na</p><p>evolução do Direito e do pensamento jurídico.</p><p>A civilização egípcia, uma das mais duradouras da</p><p>história, floresceu por mais de três milênios, desde cerca de 3100</p><p>a.C. até 30 a.C. (SOARES, 2013). Ao longo desse extenso período,</p><p>os egípcios desenvolveram uma complexa estrutura social e</p><p>política, na qual o Direito desempenhava um papel crucial.</p><p>Contudo, ao contrário de outras civilizações antigas,</p><p>como a Babilônia, o Antigo Egito não tinha um código de leis</p><p>formalizado. Em vez disso, o sistema legal egípcio era baseado em</p><p>uma combinação de costumes, decretos reais e jurisprudência,</p><p>um conjunto de decisões e interpretações que orientavam a</p><p>aplicação da lei (SILVA, 2015).</p><p>IMPORTANTE</p><p>A sociedade egípcia e seu sistema legal eram</p><p>influenciados, profundamente, por suas crenças</p><p>religiosas e pela figura central do faraó. Esse era</p><p>considerado um intermediário entre os deuses</p><p>e os homens, a personificação da lei e da justiça</p><p>(SOARES, 2013).</p><p>Compreender o sistema legal do Antigo Egito e sua</p><p>interação com a sociedade egípcia nos oferece uma perspectiva</p><p>valiosa sobre o desenvolvimento do Direito na Antiguidade e as</p><p>diversas formas como o Direito e a sociedade podem influenciar</p><p>um ao outro. Ainda mais, permite-nos traçar paralelos e</p><p>contrastes com outros sistemas jurídicos antigos, enriquecendo</p><p>nossa compreensão da História do Direito.</p><p>17HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Concepção de Justiça no Antigo Egito</p><p>Na civilização egípcia antiga, a concepção de justiça</p><p>estava ligada ao conceito de Maat, que, literalmente, traduz-se</p><p>como “verdade”, “ordem” ou “equilíbrio”; era a personificação</p><p>da verdade, do equilíbrio, da ordem, da lei, da moralidade e da</p><p>justiça (FISHER, 2017). Essa divindade feminina representava</p><p>a ordem cósmica, a estabilidade do universo e a harmonia da</p><p>sociedade humana.</p><p>A visão egípcia de justiça não era abstrata, mas vinculada</p><p>à manutenção da Maat. Reis, juízes e cidadãos comuns eram</p><p>considerados responsáveis por sustentar a Maat por meio de</p><p>suas ações e decisões, tanto no âmbito público quanto no privado</p><p>(FISHER, 2017). Assim, a justiça era vista como parte integrante</p><p>do tecido da sociedade e do universo, e a lei era considerada</p><p>uma maneira de assegurar que a Maat fosse mantida.</p><p>Além disso, a figura do faraó era essencial para a</p><p>concepção egípcia de justiça. Como intermediário entre os</p><p>deuses e os homens, o faraó era considerado a personificação da</p><p>Maat na Terra. Ele tinha a responsabilidade sagrada de manter a</p><p>ordem e a justiça, e suas decisões eram vistas como reflexos da</p><p>vontade divina (SOARES, 2013).</p><p>Essa visão de justiça influenciava, profundamente, a</p><p>maneira como as leis eram interpretadas e aplicadas no Antigo</p><p>Egito. A preocupação primordial era manter a ordem e o equilíbrio</p><p>social, e as leis eram vistas como instrumentos para esse fim.</p><p>Mesmo sem um código de leis formalizado, a sociedade egípcia</p><p>possuía uma rica tradição jurídica, fundamentada em costumes,</p><p>decretos reais e jurisprudência (SILVA, 2015).</p><p>18 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Leis e Costumes</p><p>As leis e costumes do Antigo Egito refletiam as</p><p>peculiaridades de sua civilização e sua visão única de justiça.</p><p>Como mencionado anteriormente, os egípcios não possuíam</p><p>um código de leis formalizado, como o Código de Hamurabi da</p><p>Babilônia (SILVA, 2015). Em vez disso, as leis eram informadas por</p><p>uma combinação de costumes, decretos reais e jurisprudência.</p><p>Os costumes, que são práticas e convenções sociais</p><p>longamente estabelecidas, desempenharam um papel</p><p>significativo na formação do Direito no Antigo Egito. Moldaram</p><p>aspectos importantes da vida cotidiana, desde o Direito de</p><p>Família e o Direito de Propriedade até as regras de conduta</p><p>social e as relações comerciais (MENDES, 2016). Esses costumes</p><p>eram passados de geração em geração e eram considerados</p><p>obrigatórios para os membros da sociedade.</p><p>Os decretos reais, emitidos pelo faraó, representavam</p><p>outra fonte importante da lei. Poderiam abordar uma ampla</p><p>gama de assuntos, desde questões de administração estatal e</p><p>impostos até disputas territoriais e conflitos armados (SOARES,</p><p>2013). Como o faraó era considerado a personificação da Maat,</p><p>seus decretos tinham uma autoridade incontestável e eram</p><p>vistos como uma expressão da vontade divina.</p><p>A jurisprudência, ou seja, a interpretação e aplicação das</p><p>leis por juízes e outros funcionários legais também era essencial</p><p>para o Direito egípcio. As decisões judiciais anteriores eram</p><p>usadas como precedentes e orientavam a tomada de decisões</p><p>em casos semelhantes (SOARES, 2013).</p><p>19HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Embora não possuíssem um código legal formalizado,</p><p>os egípcios conseguiram construir um sistema legal sofisticado</p><p>e eficaz, que refletia seus valores e crenças e atendia às</p><p>necessidades de sua sociedade.</p><p>O Papel do Faraó e dos Juízes</p><p>O faraó detinha um papel central na sociedade e no Direito</p><p>do Antigo Egito. Ele não era apenas o governante político, mas</p><p>também a figura suprema de autoridade legal e a personificação</p><p>da Maat na Terra (SOARES, 2013). Como resultado, suas decisões</p><p>eram vistas como reflexos da vontade divina e tinham a força da</p><p>lei. A responsabilidade do Faraó era manter a ordem e a justiça,</p><p>preservando a Maat e garantindo a harmonia da sociedade egípcia.</p><p>O faraó era o juiz supremo do reino, mas estava,</p><p>frequentemente, assistido por um vizir, que era uma espécie</p><p>de primeiro-ministro e juiz, atuando em nome do faraó em</p><p>casos judiciais (SILVA, 2015). Além disso, o Antigo Egito possuía</p><p>um corpo de juízes e oficiais que desempenhavam funções</p><p>jurídicas, conhecidos como kenbet ou gran juri (SILVA, 2015). Esses</p><p>indivíduos eram responsáveis pela aplicação da lei e da justiça em</p><p>casos específicos. Eram selecionados entre os cidadãos comuns</p><p>e tinham um bom conhecimento dos costumes locais, além de</p><p>serem respeitados pela integridade moral e sabedoria.</p><p>Os juízes no Antigo Egito, a despeito da falta de um</p><p>código legal formalizado, eram guiados por princípios e costumes</p><p>ancestrais e pelo precedente jurídico. Baseavam-se em casos</p><p>anteriores para tomar decisões em casos novos, criando, assim,</p><p>uma forma de jurisprudência (MENDES, 2016). É importante</p><p>ressaltar que, mesmo com a existência de um sistema jurídico</p><p>complexo, a justiça no Antigo Egito estava ligada à espiritualidade</p><p>e à religião, refletindo a visão de mundo holística da sociedade</p><p>egípcia.</p><p>20 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Legado Jurídico Egípcio</p><p>O sistema jurídico do Antigo Egito deixou um legado</p><p>significativo que contribuiu para o desenvolvimento do Direito</p><p>na Antiguidade e ainda ressoa no pensamento jurídico moderno.</p><p>Em primeiro lugar, o conceito egípcio de Maat, que</p><p>integrava ordem, justiça e verdade, é precursor dos princípios</p><p>modernos de justiça e ética (SOARES, 2013). Reflete uma</p><p>compreensão de que a lei não é apenas um instrumento de</p><p>controle social, mas também um meio de promover a harmonia</p><p>e a equidade na sociedade. Esse entendimento é fundamental</p><p>para muitas das doutrinas jurídicas contemporâneas.</p><p>Além disso, o Antigo Egito apresentava um sistema judicial</p><p>bem-organizado com um alto grau de especialização, algo notável</p><p>para a época (SILVA, 2015). Os juízes egípcios eram profissionais</p><p>que conheciam os costumes locais e a jurisprudência, e suas</p><p>decisões eram registradas e usadas como precedentes, formando</p><p>a base para uma tradição legal que durou mais de três milênios.</p><p>Os antigos egípcios também foram pioneiros em várias</p><p>áreas do Direito. Por exemplo, o Direito de Família egípcio já</p><p>reconhecia</p><p>o divórcio e o direito das mulheres à propriedade</p><p>privada, aspectos progressistas para a época (MENDES, 2016).</p><p>Finalmente, o legado jurídico egípcio também se</p><p>manifesta na forma como percebemos a lei como uma expressão</p><p>da vontade da sociedade. Assim como os faraós governavam</p><p>em nome de Maat, os governantes modernos são vistos como</p><p>representantes da vontade do povo, e as leis que promulgam são</p><p>vistas como uma expressão dos valores e normas da sociedade</p><p>(MENDES, 2016).</p><p>21HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Princípios Jurídicos na</p><p>Antiga China e sua Influência</p><p>Contemporânea</p><p>Em qualquer civilização, as leis são um reflexo dos valores,</p><p>crenças e filosofias fundamentais daquela sociedade. No caso</p><p>da Antiga China, a concepção e a aplicação do Direito estavam</p><p>entrelaçadas com as ideias éticas e filosóficas que dominavam</p><p>a época, especialmente os ensinamentos do Confucionismo (LI,</p><p>2010).</p><p>Confúcio, uma figura histórica cujo pensamento moldou</p><p>a cultura chinesa por mais de dois milênios, propôs uma ética</p><p>que enfatizava a harmonia social, a hierarquia e a virtude moral.</p><p>Esses princípios se refletiam nas leis da antiga China e moldavam</p><p>a maneira como a justiça era administrada (WANG, 2015).</p><p>Embora a China tenha passado por grandes mudanças</p><p>desde então, a influência do passado ainda é visível hoje. A</p><p>herança do pensamento jurídico antigo, com sua ênfase na</p><p>harmonia social e na ética, ainda pode ser vista na estrutura e na</p><p>prática do sistema legal contemporâneo da China (CHEN, 2018).</p><p>Portanto, ao entender o Direito na Antiga China, não</p><p>estamos apenas olhando para o passado, mas também ganhando</p><p>uma visão valiosa sobre o presente e, possivelmente, o futuro</p><p>do Direito chinês. Está pronto para explorar essa rica tapeçaria</p><p>histórica e cultural? Então, vamos avançar.</p><p>22 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>A Filosofia Confucionista e o Direito</p><p>Confúcio ou Kongzi, como era conhecido, foi uma figura</p><p>central na formação da ética, da moralidade e da justiça na China</p><p>Antiga. Não apenas influenciou a maneira como as pessoas</p><p>viviam suas vidas cotidianas, mas também como as leis eram</p><p>formadas e aplicadas (WU, 2013).</p><p>No cerne da filosofia confucionista, está a ideia de ren, que</p><p>pode ser traduzida como “humanidade” ou “benevolência”. Os</p><p>princípios de ren se traduziam em leis que buscavam promover a</p><p>harmonia social e a boa conduta moral. O Direito Chinês antigo,</p><p>portanto, não se tratava apenas de punir o comportamento</p><p>ilícito, mas também de encorajar a virtude (ZHANG, 2016).</p><p>Outro conceito confucionista importante é li, que se</p><p>refere à etiqueta e aos rituais apropriados. No contexto jurídico, li</p><p>poderia ser entendido como o cumprimento das normas sociais e</p><p>legais estabelecidas (LI, 2010). Assim, a aplicação da lei, na China</p><p>Antiga, não era apenas um meio de controlar o comportamento,</p><p>mas também uma forma de manter e promover as normas</p><p>sociais e a ordem (ZHANG, 2016).</p><p>A justiça, na visão confucionista, estava ligada à harmonia</p><p>social e à ordem ética. Em vez de se concentrar, estritamente, na</p><p>igualdade formal, como muitos sistemas jurídicos ocidentais, o</p><p>Direito, na China Antiga, via a justiça como um meio de promover</p><p>a harmonia social e a ética moral (WANG, 2015).</p><p>Como você pode ver, a filosofia confucionista teve um</p><p>impacto profundo e duradouro na formação do Direito na China</p><p>Antiga, moldando não apenas a letra da lei, mas também a</p><p>maneira como a lei era vista e aplicada.</p><p>23HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Sistema Legal dos Qing e os Códigos</p><p>Legais</p><p>Os Qing, última dinastia imperial da China, governaram</p><p>de 1644 a 1912, período durante o qual se firmaram com um</p><p>complexo sistema legal. A Lei Penal Qing, também conhecida</p><p>como Código Penal Qing ou Código Penal da Grande Qing, serviu</p><p>como a principal base legal durante esse tempo (WANG, 2015).</p><p>A Lei Penal Qing era um código legal extremamente</p><p>detalhado, abrangendo uma ampla gama de assuntos, desde</p><p>delitos menores, como roubo e fraude, até delitos maiores, como</p><p>assassinato e traição. Um aspecto único desse código legal era a</p><p>ênfase na punição proporcional. Em conformidade com a filosofia</p><p>confucionista, a lei visava não apenas a punir os infratores, mas</p><p>também a restaurar a harmonia social (ZHANG, 2016).</p><p>Diferentemente de alguns sistemas jurídicos ocidentais,</p><p>cuja lei pode ser interpretada e aplicada com certo grau de</p><p>flexibilidade, a Lei Penal Qing era caracterizada por sua rigidez.</p><p>Os juízes tinham pouco espaço para interpretação - a lei era</p><p>aplicada conforme foi escrita, visando a garantir a consistência</p><p>na aplicação da justiça (WANG, 2015).</p><p>É importante ressaltar que, apesar de sua rigidez, a</p><p>Lei Penal Qing não era estática. Evoluiu ao longo do tempo,</p><p>refletindo as mudanças sociais e políticas da época. As revisões</p><p>do código foram feitas periodicamente para se adaptar às novas</p><p>circunstâncias e desafios, demonstrando um grau de flexibilidade</p><p>dentro do sistema legal dos Qing.</p><p>Nesse contexto, a influência da filosofia confucionista</p><p>no Direito chinês é evidente. Mesmo sob os Qing, vemos a</p><p>continuidade de princípios jurídicos que promovem a harmonia</p><p>24 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>social e a ordem moral. Esse legado da China Antiga, sem</p><p>dúvida, moldou o desenvolvimento do sistema jurídico chinês,</p><p>estendendo-se até os dias atuais.</p><p>A Influência Contemporânea do Direito</p><p>Chinês</p><p>A China tem uma rica tradição legal e filosófica, cujo</p><p>impacto é palpável não apenas na China contemporânea, mas</p><p>também em outras partes do mundo. O Confucionismo, que</p><p>moldou grande parte do pensamento legal na China Antiga,</p><p>continua a ser uma influência significativa na sociedade chinesa</p><p>moderna (CHEN, 2018).</p><p>O Confucionismo promove a harmonia social, a ética e a</p><p>moralidade, e esses princípios são evidentes na China de hoje.</p><p>O governo chinês contemporâneo, por exemplo, esforça-se para</p><p>manter a harmonia social e a estabilidade, e muitas das suas</p><p>leis e políticas refletem esses ideais. Além disso, a ideia de uma</p><p>governança ética, um conceito-chave do Confucionismo, também</p><p>é visível na China moderna (CHEN, 2018).</p><p>No contexto jurídico, o legado da Lei Penal Qing é</p><p>perceptível no atual sistema legal chinês. A ênfase em punições</p><p>proporcionais, por exemplo, é uma característica que foi herdada</p><p>da Lei Penal Qing. A aplicação rigorosa e uniforme da lei também</p><p>é uma continuação da tradição legal Qing.</p><p>25HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Globalmente, o pensamento jurídico chinês e o Confucio-</p><p>nismo têm impacto na comunidade jurídica internacional. Países</p><p>do Leste Asiático, em particular, foram influenciados pela filoso-</p><p>fia confucionista na formação de seus próprios sistemas legais. A</p><p>influência da China, tanto historicamente como contemporanea-</p><p>mente, não pode ser subestimada na compreensão do desenvol-</p><p>vimento do Direito no Leste Asiático (WANG, 2015).</p><p>RESUMINDO</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza</p><p>de que você realmente entendeu o tema de</p><p>estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que</p><p>vimos. Você deve ter aprendido que o Direito, nas</p><p>antigas civilizações orientais, foi um elemento</p><p>fundamental na organização social, refletindo</p><p>os valores, as crenças e as filosofias de cada</p><p>sociedade. Exploramos o Código de Hamurabi,</p><p>que trouxe as primeiras evidências de um sistema</p><p>jurídico na Babilônia, mostrando como as leis</p><p>eram estruturadas e implementadas. Em seguida,</p><p>examinamos o Direito e a sociedade no Antigo</p><p>Egito, destacando a ausência de um código legal</p><p>formalizado e a importância dos costumes e dos</p><p>decretos reais na regulação das relações sociais.</p><p>Por fim, exploramos os princípios jurídicos</p><p>na Antiga China, influenciados pela filosofia</p><p>confucionista, que enfatizava a harmonia social, a</p><p>ética e a moralidade.</p><p>26 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Direito</p><p>romano e seu legado</p><p>OBJETIVO</p><p>Ao término deste capítulo, você será capaz de</p><p>entender como funcionam a base e a estrutura</p><p>do Direito Romano e a relevância do seu legado</p><p>para o Direito contemporâneo. As pessoas que</p><p>tentaram exercer a advocacia ou compreender o</p><p>sistema jurídico sem a devida instrução sobre o</p><p>Direito Romano, muitas vezes, tiveram problemas</p><p>ao entender certas normas e princípios jurídicos</p><p>fundamentais. E então? Motivado para desenvolver</p><p>essa competência? Vamos lá. Avante!</p><p>Formação e Evolução do Direito</p><p>Romano: Da Monarquia à</p><p>República e ao Império</p><p>O Direito Romano, como enfatizado por Silva (2017),</p><p>foi um dos sistemas jurídicos mais influentes na formação das</p><p>sociedades ocidentais, exercendo um papel prepem querante na</p><p>formação do pensamento jurídico europeu e, consequentemente,</p><p>na formação do Direito brasileiro. Esse sistema jurídico</p><p>experimentou um processo contínuo de evolução, com várias</p><p>fases que transcorreram ao longo de quase um milênio.</p><p>27HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Figura 1 – Direito Romano</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Durante a Monarquia Romana (753 a.C. a 509 a.C.),</p><p>o Direito era, principalmente, consuetudinário, baseado em</p><p>costumes e tradições. Nesse período, surgiram as primeiras</p><p>formas de lei escrita, sendo a mais notável a Lei das Doze Tábuas,</p><p>apontada por Souza (2016) como um marco importante para a</p><p>codificação e formalização do Direito.</p><p>28 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Na República Romana (509 a.C. a 27 a.C.), houve um</p><p>aperfeiçoamento progressivo e sistemático das leis, em grande</p><p>parte devido à instituição do pretor, um magistrado que, como</p><p>afirmado por Santos (2012), foi essencial para a evolução do Direito</p><p>Romano. Nesse período, os pretores não apenas interpretavam</p><p>a lei, mas também tinham a capacidade de formular novas leis,</p><p>ajudando a moldar e refinar o sistema jurídico.</p><p>Já no Império Romano (27 a.C. a 476 d.C.), o Direito</p><p>Romano alcançou seu ápice, com uma série de reformas</p><p>jurídicas empreendidas por figuras notáveis, como Júlio César e</p><p>Justiniano. De acordo com Moraes (2018), durante esse período,</p><p>o Direito Romano tornou-se um sistema de Direito Civil altamente</p><p>desenvolvido, o que influenciou, profundamente, o pensamento</p><p>jurídico subsequente.</p><p>Origens e Formação do Direito</p><p>Romano durante a Monarquia</p><p>A Monarquia Romana (753 a.C. a 509 a.C.), como</p><p>observado por Pereira (2012), é considerada o berço do Direito</p><p>Romano. Nessa fase inicial, o Direito era, essencialmente,</p><p>consuetudinário, significando que se baseava nos costumes e</p><p>tradições estabelecidos ao longo do tempo. Como nota Cardoso</p><p>(2014), a jurisprudência, nesse período, estava firmemente</p><p>enraizada na religião e no princípio da autoridade do rei.</p><p>Os primeiros passos rumo à formalização do Direito</p><p>Romano foram dados com a introdução da Lei das Doze Tábuas,</p><p>em 450 a.C. Conforme ressalta Lima (2017), a Lei das Doze Tábuas</p><p>foi um marco importante na história do Direito Romano, pois foi</p><p>a primeira tentativa de codificar as leis e costumes romanos.</p><p>Ainda que seu conteúdo completo seja desconhecido, as partes</p><p>29HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>que sobreviveram nos dão uma visão fascinante da vida social e</p><p>dos valores romanos da época.</p><p>Porém, a Lei das Doze Tábuas não abrangia todos os</p><p>aspectos da vida jurídica romana. As lacunas existentes eram</p><p>preenchidas por meio dos costumes, o que permitiu certa</p><p>flexibilidade dentro do sistema jurídico. Oliveira (2019) argumenta</p><p>que essa combinação de leis codificadas e costumes não escritos</p><p>representou uma abordagem pragmática à legislação que</p><p>permitiu aos romanos adaptar-se às mudanças sociais e culturais.</p><p>Evolução do Direito durante a República</p><p>Com o advento da República Romana (509 a.C. a 27 a.C.),</p><p>o Direito Romano entrou em uma nova fase de desenvolvimento.</p><p>Segundo Santos (2012), esse período é marcado por um</p><p>aperfeiçoamento progressivo e sistemático das leis, refletindo a</p><p>complexidade crescente da sociedade romana.</p><p>Figura 2 – República Romana</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>30 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Um dos marcos significativos dessa fase foi a criação</p><p>do cargo do pretor. De acordo com Mendes (2016), os pretores</p><p>tinham a capacidade de interpretar a lei e formular novas leis,</p><p>uma prática conhecida como ius honorarium, que possibilitava</p><p>a adaptação do Direito Romano às necessidades em constante</p><p>mudança da República Romana.</p><p>Nesse período, como apontado por Castro (2017), o Direito</p><p>Romano evoluiu de um sistema baseado, predominantemente,</p><p>em costumes para um sistema legal mais complexo, com normas</p><p>e instituições jurídicas formalizadas. A expansão territorial</p><p>de Roma, que trouxe a influência de outras culturas, também</p><p>contribuiu para a evolução do Direito Romano, como descrito</p><p>por Ribeiro (2019).</p><p>A fase republicana foi, assim, um momento de</p><p>intensa inovação jurídica, o que estabeleceu as bases para</p><p>o desenvolvimento do Direito Romano durante o Império.</p><p>Como conclui Silva (2017), esse período de aperfeiçoamento e</p><p>sistematização do Direito Romano foi crucial para formar a base</p><p>do pensamento jurídico ocidental.</p><p>O Direito Romano no Império</p><p>Durante o Império Romano (27 a.C. a 476 d.C.), o Direito</p><p>Romano alcançou seu apogeu em termos de desenvolvimento e</p><p>complexidade. As transformações desse período tiveram grande</p><p>influência na moldura jurídica romana, bem como em sistemas</p><p>jurídicos posteriores.</p><p>Os imperadores romanos, como destacado por Gomes</p><p>(2018), possuíam um papel singular na evolução do Direito</p><p>Romano. Detinham a autoridade para promulgar leis, emitir</p><p>decretos e tomar decisões jurídicas, que eram conhecidas como</p><p>constituições imperiais. Assim, foram instrumentais na condução</p><p>31HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>de reformas jurídicas e na promoção da codificação do Direito</p><p>Romano.</p><p>Uma figura-chave nesse processo foi o imperador</p><p>Justiniano (482-565 d.C.), que ordenou a compilação de todo o</p><p>Direito Romano existente em uma única obra, o Corpus Juris Civilis.</p><p>Segundo Silva (2020), esse compilado jurídico, composto por quatro</p><p>livros - Digesto, Institutas, Código e Novelas - representou um marco</p><p>na sistematização e na organização do Direito, sendo considerado</p><p>um dos documentos legais mais influentes da história.</p><p>NOTA</p><p>A essência do Direito Romano, conforme ressaltado</p><p>por Souza (2016), estava na busca constante por</p><p>equidade e justiça. Essa aspiração se manifestava</p><p>em princípios fundamentais, como o Dura Lex, Sed</p><p>Lex (a lei é dura, mas é a lei) e o Neminem Laedere</p><p>(não prejudicar ninguém), os quais permeiam o</p><p>Direito até hoje.</p><p>O Direito Romano no Império, como conclui Moraes</p><p>(2023), exerceu uma influência profunda no pensamento jurídico</p><p>posterior, com sua estrutura e princípios servindo de base para a</p><p>criação do Direito Civil moderno.</p><p>Princípios Fundamentais e</p><p>Instituições Jurídicas Romanas</p><p>Para compreender, plenamente, a complexidade e o</p><p>alcance do Direito Romano, é essencial conhecer não apenas as</p><p>leis, mas também os princípios fundamentais que orientavam</p><p>essas leis e as instituições que as promulgavam e aplicavam.</p><p>Conforme apontado por Silva (2017), esses princípios e instituições</p><p>ajudam a ilustrar a essência do pensamento jurídico romano e</p><p>suas contribuições duradouras para o Direito moderno.</p><p>32 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Os princípios jurídicos romanos, como relatado por</p><p>Ribeiro (2019), representam as diretrizes norteadoras do Direito</p><p>Romano. Surgem como expressões do pensamento jurídico</p><p>da época, traduzindo as noções de justiça, direitos e deveres.</p><p>Exemplos notáveis incluem o Dura Lex, Sed Lex, o Neminem</p><p>Laedere e o In Dubio Pro Reo, entre outros.</p><p>As instituições jurídicas romanas desempenhavam um</p><p>papel crucial na aplicação e interpretação desses princípios e</p><p>leis. Como discutido por Oliveira (2019), o pretório, o Senado, os</p><p>juristas e muitas outras instituições</p><p>foram fundamentais para a</p><p>promoção da justiça e da legalidade em Roma.</p><p>Princípios Fundamentais do Direito</p><p>Romano</p><p>Os princípios fundamentais do Direito Romano</p><p>constituem as raízes filosóficas e éticas que nortearam o sistema</p><p>legal romano. Como discutido por Silva (2017), tais princípios</p><p>desempenharam um papel crucial em direcionar a elaboração</p><p>das leis romanas, sua interpretação e aplicação.</p><p>Um dos princípios mais conhecidos do Direito Romano</p><p>é o Dura Lex, Sed Lex, que, traduzido literalmente, significa “a lei</p><p>é dura, mas é a lei”. Conforme discutido por Santos (2012), esse</p><p>princípio enfatiza o papel da lei como uma entidade imutável que</p><p>deve ser obedecida, independentemente de quão dura possa</p><p>parecer. Isso reflete a visão romana de que a lei é a base da</p><p>ordem e da estabilidade social.</p><p>Outro princípio importante é o Neminem Laedere, que</p><p>significa “não prejudicar ninguém”. Para Moraes (2023), esse</p><p>princípio ilustra a obrigação fundamental de cada cidadão de não</p><p>causar danos a outros, seja por ações ou omissões. Isso reforça o</p><p>33HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>conceito romano de justiça, que enfatiza a coexistência pacífica e</p><p>a proteção dos Direitos de cada indivíduo.</p><p>Por fim, o princípio In Dubio Pro Reo, ou seja, “na dúvida,</p><p>em favor do réu” ilustra a perspectiva romana sobre a inocência</p><p>presumida e o ônus da prova. Como apontado por Silva (2017),</p><p>isso reflete a compreensão de que, em casos de incerteza,</p><p>o sistema legal deve favorecer o acusado, a fim de evitar cem</p><p>quenações injustas.</p><p>Instituições Jurídicas Romanas</p><p>O Direito Romano não se resume apenas a um conjunto</p><p>de leis e princípios. Conforme discutido por Oliveira (2019), o</p><p>sistema legal romano era apoiado por uma série de instituições</p><p>que tinham, como função, criar, interpretar e aplicar essas leis.</p><p>Destacam-se, entre essas, o pretório, o Senado e a figura do</p><p>juriconsulto.</p><p>O pretório, como apontado por Soares (2013), era a sede</p><p>do poder judicial na Roma Antiga. Os pretórios eram liderados por</p><p>magistrados, conhecidos como pretores, que desempenhavam</p><p>papel fundamental na administração da justiça, desde a</p><p>interpretação das leis até a supervisão dos processos judiciais.</p><p>O Senado Romano, por sua vez, tinha um papel legislativo</p><p>e consultivo dentro do sistema legal romano. Como ressalta Silva</p><p>(2015), o Senado era composto por membros da elite romana, os</p><p>senadores, que debatiam e votavam sobre questões de política</p><p>externa, leis e questões administrativas.</p><p>Por fim, a figura do juriconsulto era de grande relevância.</p><p>Segundo Martins (2021), os juriconsultos eram profissionais</p><p>do Direito que atuavam como consultores legais, oferecendo</p><p>aconselhamento jurídico e interpretando as leis. Sua influência</p><p>34 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>no sistema jurídico romano era considerável, já que suas</p><p>interpretações e opiniões, muitas vezes, guiavam as decisões dos</p><p>pretores.</p><p>É importante ressaltar que essas instituições não</p><p>apenas definiram o funcionamento do Direito Romano, mas</p><p>também influenciaram a formação de instituições jurídicas</p><p>contemporâneas, deixando um legado que se estende até os</p><p>dias de hoje.</p><p>O Legado do Direito Romano:</p><p>Influências no Sistema Jurídico</p><p>Contemporâneo</p><p>O Direito Romano, como bem pontua Santos (2012),</p><p>exerceu e ainda exerce uma influência considerável em todo o</p><p>sistema jurídico ocidental. Mais do que um mero sistema legal de</p><p>uma civilização antiga, o Direito Romano representa uma fonte</p><p>duradoura de princípios, conceitos e instituições que moldaram</p><p>e continuam a moldar a jurisprudência moderna.</p><p>O imperador Justiniano, ao compilar o Corpus Juris Civilis</p><p>no século VI, não apenas preservou grande parte do Direito</p><p>Romano, mas garantiu sua continuidade e influência ao longo</p><p>dos séculos (FERREIRA, 2021). O Direito Romano sobreviveu</p><p>ao fim do Império Romano e passou a influenciar, de maneira</p><p>profunda, os sistemas jurídicos que surgiram na Europa na Idade</p><p>Média e no período subsequente.</p><p>35HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Figura 3 - Imperador Justiniano</p><p>Fonte: Wikimedia Commons.</p><p>Essa influência é evidente em várias áreas, desde o</p><p>Direito Civil até o Direito Canônico; e se reflete na linguagem</p><p>e na estrutura do Direito moderno (CARVALHO, 2020). O</p><p>objetivo deste capítulo é explorar, em profundidade, o legado</p><p>do Direito Romano e sua influência em nosso sistema jurídico</p><p>contemporâneo. Avançaremos de uma discussão sobre a</p><p>continuidade histórica do Direito Romano até uma análise de</p><p>sua influência na formação do Direito Civil e do Direito Canônico,</p><p>terminando com uma discussão sobre a influência do Direito</p><p>Romano na linguagem e na estrutura jurídica moderna.</p><p>Continuidade Histórica do Direito</p><p>Romano</p><p>A história do Direito Romano não se encerra com a</p><p>queda do Império Romano no século V. Pelo contrário, essa</p><p>é uma história que continua a ser escrita até hoje, como bem</p><p>36 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>observa Rodrigues (2014). Esse autor argumenta que o Direito</p><p>Romano persiste até os dias atuais, exercendo influência sobre</p><p>os sistemas jurídicos ocidentais.</p><p>Uma das principais razões para essa continuidade</p><p>é o Corpus Juris Civilis. Essa coleção de leis, compilada sob o</p><p>imperador Justiniano no século VI, preservou grande parte do</p><p>Direito Romano. Isso inclui o Código de Justiniano, o Digesto (uma</p><p>compilação de escritos jurídicos), as Institutas (um manual para</p><p>estudantes de Direito) e as Novelas (leis posteriores de Justiniano).</p><p>A importância do Corpus Juris Civilis não pode ser</p><p>subestimada. Conforme pontua Mello (2020), esse conjunto de</p><p>leis não apenas preservou a lei romana, mas também a propagou</p><p>para outras partes do mundo. O Corpus foi traduzido e estudado</p><p>na Europa durante a Idade Média e foi fundamental na formação</p><p>dos sistemas jurídicos de muitos países europeus.</p><p>Sendo assim, a história do Direito Romano é uma história</p><p>de continuidade. Mesmo com a queda do Império Romano,</p><p>as leis e princípios jurídicos que essa civilização desenvolveu</p><p>sobreviveram e continuam a influenciar a jurisprudência</p><p>moderna.</p><p>Influência no Direito Civil e no Direito</p><p>Canônico</p><p>A influência do Direito Romano no Direito Civil é notória.</p><p>A própria estrutura dos códigos civis modernos deve muito à</p><p>estrutura do Corpus Juris Civilis, compilado durante o reinado do</p><p>imperador Justiniano (SANTOS, 2012). Como bem ressalta Santos,</p><p>muitos dos conceitos e princípios fundamentais do Direito Civil,</p><p>como a ideia de propriedade e as noções de contrato e obrigação,</p><p>são derivados diretamente do Direito Romano.</p><p>37HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>EXPLICANDO</p><p>MELHOR</p><p>O Código Civil Francês, também conhecido como</p><p>Código Napoleônico, é um exemplo proeminente</p><p>dessa influência. Segundo Ferreira (2021), esSe</p><p>código, promulgado em 1804, incorporou muitos</p><p>princípios do Direito Romano, como a divisão</p><p>entre Direito Público e Privado, a definição de</p><p>propriedade e a regulação das relações contratuais.</p><p>No que tange ao Direito Canônico, a influência do Direito</p><p>Romano também é notável. O Direito Canônico, que regula a</p><p>Igreja Católica, incorporou muitas das instituições e práticas</p><p>jurídicas romanas. Moreira (2021) salienta que muitos dos</p><p>princípios do Direito Romano, como o princípio da legalidade e a</p><p>estrutura dos tribunais, foram adotados pelo Direito Canônico e</p><p>continuam a influenciar sua prática até hoje.</p><p>Figura 4 - Direito Canônico</p><p>Fonte: Wikimedia Commons.</p><p>38 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Em suma, tanto no Direito Civil como no Direito Canônico,</p><p>a influência do Direito Romano é evidente. Os conceitos,</p><p>princípios e instituições desenvolvidos pelos romanos continuam</p><p>a ser fundamentais para a compreensão e a prática desses ramos</p><p>do Direito.</p><p>RESUMINDO</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de</p><p>que você realmente entendeu o tema de</p><p>estudo</p><p>deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos.</p><p>Você deve ter aprendido que o Direito Romano</p><p>teve formação e evolução significativas ao longo</p><p>da história, passando pela Monarquia, República e</p><p>Império. Durante essas fases, foram estabelecidos</p><p>princípios fundamentais e instituições jurídicas</p><p>que moldaram não apenas o sistema jurídico</p><p>romano, mas também tiveram um impacto</p><p>duradouro no Direito contemporâneo. Além disso,</p><p>você deve ter compreendido a importância do</p><p>legado do Direito Romano. Suas influências estão</p><p>presentes em diversos aspectos do sistema jurídico</p><p>contemporâneo, desde os princípios do Direito</p><p>Civil até a organização de instituições judiciárias e</p><p>a aplicação de conceitos jurídicos fundamentais.</p><p>Ao longo deste capítulo, esperamos que você</p><p>tenha adquirido um conhecimento sólido sobre o</p><p>Direito Romano e seu legado, compreendendo sua</p><p>relevância para o sistema jurídico atual.</p><p>39HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Direito na Grécia antiga</p><p>OBJETIVO</p><p>Ao término deste capítulo, você será capaz de</p><p>entender como funcionava o Direito na Grécia</p><p>Antiga e sua relevância para o pensamento</p><p>jurídico contemporâneo. Compreender a Grécia</p><p>Antiga - o berço da democracia e um laboratório</p><p>para muitas ideias jurídicas que ainda influenciam</p><p>nosso mundo - é uma parte fundamental dessa</p><p>jornada de aprendizagem. E então? Motivado para</p><p>desenvolver essa competência? Vamos lá. Avante!</p><p>O Desenvolvimento do Direito na</p><p>Grécia Antiga: de Drácon a Sólon</p><p>Compreender o desenvolvimento do Direito na Grécia</p><p>Antiga, particularmente o período que vai de Drácon a Sólon,</p><p>é crucial para apreciar o legado duradouro da cultura grega na</p><p>tradição jurídica ocidental. O advento da lei escrita, iniciado por</p><p>Drácon, e a subsequente reforma democrática das leis por Sólon</p><p>são marcos significativos na evolução do pensamento jurídico</p><p>grego.</p><p>Drácon, como afirmou Aristóteles em sua obra Constitui-</p><p>ção dos atenienses, foi o primeiro a estabelecer um código de leis</p><p>escrito, supostamente no ano de 621 a.C., marcando uma tran-</p><p>sição significativa do Direito costumeiro para o Direito legislado</p><p>(ARISTÓTELES, 1984). No entanto, as leis draconianas, notoria-</p><p>mente severas, refletiam as tensões sociais e econômicas de uma</p><p>sociedade ainda presa à aristocracia e à escravidão por dívidas.</p><p>Sólon, por outro lado, promoveu reformas jurídicas sig-</p><p>nificativas, aproximadamente no ano de 594 a.C., que são reco-</p><p>nhecidas como a fundação da democracia ateniense (RUSSELL,</p><p>40 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>2005). Suas leis buscavam equilibrar os interesses dos ricos e dos</p><p>pobres e foram essenciais para evitar uma iminente crise social.</p><p>Figura 5 – Sólon</p><p>Fonte: Wikimedia Commons.</p><p>Ao longo deste subtítulo, exploraremos, mais</p><p>detalhadamente, o desenvolvimento do Direito na Grécia Antiga,</p><p>desde Drácon a Sólon, com foco no contexto histórico, nas</p><p>principais características das leis e nas reformas implementadas,</p><p>bem como em seus impactos e legado duradouro.</p><p>41HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Drácon e o Advento da Lei Escrita</p><p>Drácon, um legislador ateniense do século VII a.C., é uma</p><p>figura crucial na história do Direito Grego, notável pela introdução</p><p>da lei escrita. Antes de Drácon, a justiça era, em grande parte,</p><p>governada pelo Direito consuetudinário, baseado em tradições e</p><p>costumes transmitidos de geração em geração (FINLEY, 1985). No</p><p>entanto, essas tradições, frequentemente subjetivas e sujeitas a</p><p>interpretações variáveis, eram inadequadas para uma sociedade</p><p>complexa e em crescimento.</p><p>Com a promulgação do código de Drácon, um marco crucial</p><p>foi estabelecido na história jurídica. As leis foram formalmente</p><p>codificadas e tornadas públicas, proporcionando um meio mais</p><p>transparente e acessível de governança (CARTLEDGE, 1997).</p><p>Entretanto, as leis draconianas são lembradas, principalmente,</p><p>por sua severidade extremada; homicídio, roubo de repolhos e</p><p>dívidas eram crimes puníveis com a morte. Assim, a expresão</p><p>“leis draconianas” é usada hoje, frequentemente, para descrever</p><p>qualquer lei muito dura ou severa (HARRISON, 1998).</p><p>Apesar de seu rigor, o código de Draco marcou uma</p><p>mudança significativa na estrutura legal grega, estabelecendo um</p><p>precedente para o Direito codificado e público, que informaria o</p><p>futuro desenvolvimento do sistema jurídico grego.</p><p>Sólon e as Reformas Democráticas</p><p>Se Drácon é famoso por estabelecer a primeira lei escrita</p><p>na Grécia, Sólon é igualmente conhecido por suas reformas</p><p>jurídicas e políticas democráticas. No século VI a.C., diante</p><p>das crescentes tensões sociais em Atenas, Sólon foi nomeado</p><p>42 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>legislador com poderes para reformar o sistema legal e político</p><p>(WATSON, 1995).</p><p>Sólon aboliu muitas das leis draconianas, substituindo-</p><p>as por um sistema mais equitativo. Além disso, introduziu</p><p>reformas significativas para aliviar a situação dos cidadãos mais</p><p>pobres, cancelando as dívidas que, muitas vezes, levavam-nos à</p><p>escravidão (RUSSEL, 2005). Sua reforma legal mais significativa foi</p><p>a introdução do princípio da apelação: os cidadãos tinham, agora,</p><p>o direito de apelar de um veredicto em um tribunal popular, um</p><p>passo crucial na direção da democracia (RHODES, 2008).</p><p>As reformas de Sólon marcaram um avanço crucial na</p><p>evolução do Direito e do pensamento jurídico na Grécia Antiga.</p><p>Seu legado não está apenas nas leis que criou, mas também na</p><p>sua contribuição para a formação da democracia, fundamentada</p><p>na participação dos cidadãos e na sua proteção contra possíveis</p><p>abusos de poder.</p><p>Comparação entre Drácon e Sólon</p><p>Drácon e Sólon, apesar de separados por apenas algumas</p><p>décadas, representam dois momentos cruciais e distintos na</p><p>evolução do Direito na Grécia Antiga. Cada um contribuiu, de</p><p>maneira significativa, para o desenvolvimento do pensamento</p><p>jurídico e do Estado grego.</p><p>Drácon, atuando em um momento de transição entre a</p><p>tradição oral e a lei escrita, é conhecido por suas leis extremamente</p><p>severas. A sua maior contribuição foi estabelecer um código de</p><p>leis escrito acessível a todos os cidadãos, marcando a transição</p><p>do Direito consuetudinário para o Direito codificado (PARKER,</p><p>2004). Essa iniciativa ajudou a reduzir as disputas judiciais e a</p><p>promover uma maior uniformidade na aplicação da lei.</p><p>43HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Sólon, por outro lado, atuou em um momento de</p><p>crescente tensão social, buscando aliviar as desigualdades</p><p>socioeconômicas e estabelecer um sistema legal e político mais</p><p>equitativo e democrático. Introduziu reformas significativas,</p><p>como a proibição da escravidão por dívidas e a instituição do</p><p>princípio da apelação, ampliando a participação dos cidadãos na</p><p>administração da justiça (RHODES, 2008).</p><p>A comparação entre Drácon e Sólon é útil não apenas para</p><p>entender a evolução do Direito na Grécia Antiga, mas também</p><p>para refletir sobre a relação entre Direito, sociedade e política. As</p><p>leis draconianas refletem uma sociedade em transição, enquanto</p><p>as reformas de Sólon prenunciam a emergência da democracia,</p><p>em que a participação dos cidadãos e a proteção dos Direitos</p><p>fundamentais tornam-se princípios jurídicos chave.</p><p>Impacto e Legado de Drácon e Sólon</p><p>Os legados de Drácon e Sólon são indiscutíveis na história</p><p>do Direito, sendo que cada um deixou marcas profundas na</p><p>formação do pensamento jurídico e na legislação grega.</p><p>Drácon, com seu código de leis escrito, trouxe para a</p><p>sociedade grega a segurança jurídica. A implementação de</p><p>leis escritas garantiu que as normas não fossem alteradas ou</p><p>ignoradas facilmente, contribuindo para a consolidação do</p><p>Estado de Direito e da igualdade dos cidadãos perante a lei</p><p>(PARKER, 2004).</p><p>Já Sólon, com suas reformas democráticas, abriu o</p><p>caminho para a participação popular na administração da</p><p>justiça e na elaboração das leis. Sua contribuição é vista como</p><p>fundamental para a consolidação da</p><p>democracia ateniense e</p><p>para a formação do conceito de cidadania (RHODES, 2008).</p><p>44 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O impacto desses legisladores foi sentido muito além das</p><p>fronteiras da Grécia Antiga. O código de Drácon, por exemplo,</p><p>influenciou o desenvolvimento de sistemas jurídicos em outras</p><p>partes do mundo, que adotaram a prática de registrar leis por</p><p>escrito para garantir a igualdade e a justiça. Da mesma forma,</p><p>as reformas de Sólon contribuíram para o surgimento da ideia</p><p>de democracia, que é um dos pilares do pensamento político e</p><p>jurídico ocidental.</p><p>Portanto, estudar Drácon e Sólon não é apenas estudar a</p><p>história do Direito na Grécia Antiga, mas também compreender</p><p>como algumas das principais ideias e instituições do Direito e da</p><p>política contemporâneos foram moldadas.</p><p>Instituições e Práticas Jurídicas</p><p>na Grécia Antiga</p><p>Para iniciar nossa jornada pelas instituições e práticas</p><p>jurídicas na Grécia Antiga, é preciso compreender que estamos</p><p>adentrando um universo profundamente enraizado na política,</p><p>na filosofia e na vida social da época. Os antigos gregos não</p><p>separavam o Direito de outros aspectos da vida da pólis, tornando</p><p>o sistema jurídico um reflexo direto dos valores e princípios que</p><p>regiam a sociedade (MIRANDA, 2002).</p><p>As instituições jurídicas na Grécia Antiga, particularmente</p><p>em Atenas, a mais conhecida pólis grega, eram democráticas,</p><p>com ampla participação dos cidadãos na administração da</p><p>justiça. Eram instâncias como o Areópago, a Assembleia do Povo</p><p>(Ecclesia) e os tribunais populares (Dikasteria) que, cada qual à sua</p><p>maneira, contribuíam para o funcionamento do sistema jurídico.</p><p>45HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Paralelamente às instituições, as práticas jurídicas</p><p>desempenhavam papel essencial na vida dos gregos antigos. A</p><p>figura do orador, por exemplo, era crucial nos processos judiciais,</p><p>em que a arte da retórica poderia determinar o destino de um</p><p>acusado (MIRANDA, 2002). Ademais, as leis de Sólon e o código</p><p>de Drácon, que você já conhece, moldaram, significativamente,</p><p>as práticas e instituições jurídicas, lançando as bases para o</p><p>desenvolvimento do Direito como o conhecemos hoje.</p><p>Prepare-se para adentrar o fascinante mundo do Direito</p><p>na Grécia Antiga, pois vamos explorar, a fundo, essas e outras</p><p>nuances desse sistema que, embora distante no tempo, ainda</p><p>ressoa na forma como pensamos e praticamos o Direito na</p><p>contemporaneidade.</p><p>A Organização das Instituições</p><p>Jurídicas na Grécia Antiga</p><p>A organização das instituições jurídicas na Grécia Antiga</p><p>é um tema riquíssimo, tendo em vista a maneira singular com</p><p>que os gregos concebiam o Direito e a justiça. Para começar, é</p><p>fundamental mencionar que a administração da justiça na Grécia</p><p>Antiga era, em grande medida, uma atividade política. A ideia</p><p>de separação entre os poderes, que é central na organização</p><p>dos estados modernos, não existia na Grécia Antiga, em que</p><p>as mesmas instituições que elaboravam as leis também se</p><p>ocupavam de sua aplicação (FINLEY, 1998).</p><p>O Areópago, por exemplo, era um conselho composto</p><p>por antigos arcontes (magistrados) que exercia funções judiciais</p><p>e políticas. Era responsável por julgar crimes de homicídio e</p><p>desempenhava um papel de supervisão geral da legislação e da</p><p>moralidade pública.</p><p>46 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>Já a Assembleia do Povo (Ecclesia) era a instituição central</p><p>da democracia ateniense. A Ecclesia era composta por todos os</p><p>cidadãos e tinha o poder de decidir sobre as leis e a política</p><p>externa. Também desempenhava funções judiciais, tendo o</p><p>poder de julgar magistrados e outros oficiais públicos (RHODES,</p><p>2008).</p><p>Os tribunais populares (Dikasteria), por sua vez, eram</p><p>a principal instituição judicial em Atenas. Esses tribunais eram</p><p>compostos por muitos jurados, que eram sorteados entre os</p><p>cidadãos. Os Dikasteria eram responsáveis por julgar uma ampla</p><p>gama de casos, desde disputas privadas até casos criminais e</p><p>políticos.</p><p>As Práticas Processuais na Grécia</p><p>Antiga</p><p>As práticas processuais na Grécia Antiga são notáveis pela</p><p>importância conferida à argumentação e à retórica, evidenciando</p><p>o quanto a concepção de justiça estava atrelada à capacidade</p><p>de persuasão e eloquência dos litigantes. Nesse contexto, as</p><p>figuras do réu e do acusador eram prepem querantes, já que</p><p>não existia um órgão de acusação independente, e, geralmente,</p><p>o próprio prejudicado ou um parente seu movia a ação contra o</p><p>réu (BEARZOT, 2016).</p><p>O uso de provas era, também, uma característica mar-</p><p>cante dos processos judiciais na Grécia Antiga. Testemunhos, do-</p><p>cumentos e exames diretos de escravos sob tortura eram meios</p><p>de prova aceitos (GAGARIN, 1997). Aqui, vale destacar que a tor-</p><p>tura de escravos para obter provas reflete a estrutura social alta-</p><p>mente hierarquizada da Grécia Antiga, em que a palavra de um</p><p>escravo só era considerada válida se obtida sob coação.</p><p>47HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>No entanto, talvez o aspecto mais emblemático das</p><p>práticas processuais gregas seja a ênfase na oratória. Com efeito,</p><p>a capacidade de persuadir o tribunal por meio da eloquência e</p><p>do apelo à emoção era vista como um elemento crucial para o</p><p>sucesso em um julgamento. Isso deu origem à arte da retórica,</p><p>que teve grandes mestres da Grécia Antiga, como Aristóteles,</p><p>cujo livro Arte Retórica é, até hoje, uma referência no estudo</p><p>dessa disciplina (KENNEDY, 1991).</p><p>Por fim, é interessante ressaltar que essas práticas</p><p>processuais refletem os valores e normas da sociedade grega.</p><p>A valorização da oratória, por exemplo, mostra o quanto a</p><p>habilidade de argumentação era estimada nessa sociedade,</p><p>em que as decisões políticas e jurídicas eram, frequentemente,</p><p>tomadas por meio do debate público.</p><p>A Importância das Leis de Sólon e o</p><p>Código de Drácon</p><p>Os códigos de Drácon e Sólon tiveram papel fundamental</p><p>na construção do arcabouço jurídico da Grécia Antiga. As suas</p><p>leis, embora distintas em natureza e propósito, refletiam-se,</p><p>de maneira profunda, nas práticas e instituições judiciárias da</p><p>Grécia Antiga, orientando e influenciando a aplicação do Direito</p><p>no cotidiano dos gregos.</p><p>O código de Drácon, marcado por seu caráter austero e</p><p>rigoroso, introduziu a escrita como forma de estabilizar as leis</p><p>e evitar a arbitrariedade no seu cumprimento. A escrituração</p><p>das leis permitiu um acesso mais amplo e igualitário à justiça,</p><p>uma vez que as normas estavam explicítas de forma objetiva e</p><p>clara, podendo ser consultadas por todos os cidadãos (GAGARIN,</p><p>1997).</p><p>48 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>As reformas de Sólon, por outro lado, trouxeram uma</p><p>orientação mais democrática ao sistema jurídico ateniense.</p><p>Sólon estabeleceu normas que favoreciam a participação mais</p><p>ampla dos cidadãos na vida política, inclusive no sistema judicial.</p><p>Criou a Bulé, um conselho de 400 cidadãos que tinha a tarefa</p><p>de preparar as leis que, posteriormente, seriam discutidas na</p><p>Eclésia, a assembleia dos cidadãos. Além disso, Sólon permitiu</p><p>que qualquer cidadão pudesse se apresentar como acusador em</p><p>um julgamento, ampliando, ainda mais, a participação popular</p><p>no sistema legal (BLOIS, 1991).</p><p>As leis de Drácon e Sólon, portanto, estabeleceram as</p><p>bases para um sistema jurídico que, longe de ser perfeito, foi um</p><p>passo importante no caminho para a instituição de um sistema</p><p>de justiça mais equitativo e participativo.</p><p>O Legado do Direito Grego:</p><p>Filosofia, Democracia e Direito</p><p>Moderno</p><p>O Direito Grego é uma peça central na formação dos</p><p>princípios e conceitos que sustentam os sistemas jurídicos</p><p>contemporâneos, com sua influência atravessando séculos e</p><p>continentes. A Grécia Antiga foi uma das primeiras civilizações a</p><p>reconhecer a importância da lei escrita e sua aplicação igualitária</p><p>para garantir a ordem social, um legado que é evidente no Direito</p><p>moderno (ZAMBRANO, 2012).</p><p>A filosofia grega, com sua ênfase na racionalidade, na</p><p>lógica</p><p>e na justiça, também desempenhou um papel significativo</p><p>na moldagem do pensamento jurídico, servindo como a</p><p>pedra angular para a estruturação de muitos dos princípios e</p><p>instituições jurídicas que conhecemos hoje (LOPES, 2014). Além</p><p>disso, a invenção da democracia na Grécia Antiga e a valorização</p><p>49HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>do papel dos cidadãos na criação e aplicação das leis trouxeram</p><p>uma contribuição inestimável para a concepção contemporânea</p><p>de Direitos civis e governança democrática.</p><p>Filosofia Grega e Direito Moderno</p><p>A Grécia Antiga é o berço de muitos dos maiores</p><p>pensadores que a humanidade já conheceu, e as ideias</p><p>desses filósofos tiveram um impacto profundo na formação</p><p>do pensamento jurídico. Pensadores como Sócrates, Platão</p><p>e Aristóteles contribuíram, de maneira significativa, para a</p><p>evolução da compreensão do Direito, moldando os fundamentos</p><p>de muitas teorias jurídicas contemporâneas.</p><p>Sócrates, por exemplo, enfatizou o papel da lei na</p><p>criação de uma sociedade justa e equilibrada. Ele defendia que</p><p>a obediência às leis era fundamental para o bem-estar social,</p><p>um conceito que é central para a doutrina do Estado de Direito</p><p>(KELSEN, 2012).</p><p>Platão, por sua vez, concebeu uma visão ideal de justiça</p><p>na obra A República, em que argumentou que uma sociedade</p><p>justa é aquela em que cada indivíduo desempenha o papel que</p><p>melhor se adapta às suas capacidades; e em que a justiça resulta</p><p>do equilíbrio harmonioso desses diferentes papéis (PLATÃO,</p><p>2017).</p><p>Aristóteles abordou o tema da justiça com uma</p><p>perspectiva mais pragmática, centrando-se nas leis e no seu papel</p><p>em garantir a equidade. Ele considerava que a justiça consiste</p><p>em tratar, igualmente, os iguais e, desigualmente, os desiguais,</p><p>uma visão que informou a teoria do Direito Natural e influenciou</p><p>a concepção moderna de direitos humanos (ARISTÓTELES, 1984).</p><p>50 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>A influência desses filósofos gregos na teoria e na prática</p><p>do Direito moderno é imensa. Eles ajudaram a moldar nossa</p><p>compreensão de conceitos fundamentais como justiça, equidade</p><p>e a importância da lei para uma sociedade estável e justa.</p><p>A Democracia Grega e o Direito</p><p>Moderno</p><p>A democracia, um legado indelével da civilização grega,</p><p>tem sido a principal influência no desenvolvimento do Direito</p><p>moderno. A concepção grega de democracia era inovadora</p><p>para sua época, e, ainda hoje, muitos dos seus elementos são</p><p>fundamentais para o funcionamento dos sistemas jurídicos e</p><p>políticos contemporâneos.</p><p>IMPORTANTE</p><p>Um dos elementos mais notáveis da democracia</p><p>grega foi a introdução do júri cidadão, que permitia</p><p>aos cidadãos comuns participar, diretamente, na</p><p>administração da justiça. Essa prática influenciou</p><p>o desenvolvimento do Direito moderno,</p><p>dando origem ao júri popular, um instrumento</p><p>fundamental para garantir a participação dos</p><p>cidadãos no sistema de justiça e assegurar a</p><p>imparcialidade dos julgamentos (FARIA, 2002).</p><p>Outro aspecto relevante da democracia grega foi a</p><p>participação dos cidadãos na criação das leis, por meio de</p><p>assembleias. Essa prática democrática é refletida no Direito</p><p>moderno por meio do princípio da soberania popular, que</p><p>atribui ao povo o poder de participar no processo legislativo,</p><p>seja diretamente, seja por meio de representantes eleitos</p><p>(HANSEN, 1999).</p><p>A democracia grega foi, portanto, uma influência</p><p>significativa no desenvolvimento do Direito moderno. As suas</p><p>51HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>práticas inovadoras de governança democrática, como o uso</p><p>de júris e a participação do público na criação de leis, ainda são</p><p>características fundamentais do Direito e da democracia hoje.</p><p>Influências Gregas no Direito Moderno</p><p>O legado jurídico da Grécia Antiga permeia diversos</p><p>aspectos do Direito contemporâneo. Embora a influência</p><p>direta do Direito Grego seja menos perceptível do que a do</p><p>Direito Romano, dada a maior disseminação desse último, é</p><p>indiscutível que as bases filosóficas e conceituais do Direito</p><p>Grego impactaram, significativamente, a construção de sistemas</p><p>jurídicos modernos (CASTRO, 2017).</p><p>Inicialmente, a influência do Direito Grego pode ser</p><p>identificada na formação do Direito Romano. A Grécia, devido</p><p>à sua posição geográfica e à sua influência cultural, exerceu</p><p>considerável impacto sobre Roma, influenciando, inclusive, suas</p><p>práticas e conceitos jurídicos. A própria retórica, tão valorizada</p><p>nos tribunais romanos, deve sua origem ao contexto grego.</p><p>No Direito contemporâneo, a influência grega é vista de</p><p>forma mais indireta, porém isso não é menos importante. A noção</p><p>de democracia, nascida na Grécia Antiga, é fundamental para o</p><p>funcionamento do Direito Constitucional contemporâneo. Além</p><p>disso, os pensadores gregos, como Sócrates, Platão e Aristóteles,</p><p>são, frequentemente, citados como fundadores do pensamento</p><p>jurídico, por suas contribuições às noções de justiça, equidade e</p><p>lei (CASTRO, 2017).</p><p>Portanto, a influência do Direito grego é encontrada em</p><p>diversos aspectos dos sistemas jurídicos modernos, desde o</p><p>Direito Romano até o Direito Civil contemporâneo. Mesmo que</p><p>de maneira indireta, o legado da Grécia Antiga continua presente</p><p>52 HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>e exerce impacto sobre nosso entendimento do Direito e da</p><p>justiça.</p><p>RESUMINDO</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza</p><p>de que você realmente entendeu o tema de</p><p>estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que</p><p>vimos. Você deve ter aprendido que o Direito na</p><p>Grécia Antiga se desenvolveu consideravelmente,</p><p>passando por um período de leis draconianas até</p><p>as reformas democráticas de Sólon. Drácon, com</p><p>suas leis duras, estabeleceu a primeira codificação</p><p>da lei, ao passo que Sólon introduziu reformas</p><p>mais equitativas, que renderam a fundação da</p><p>democracia ateniense. Além disso, você deve ter</p><p>percebido a complexidade das instituições e práticas</p><p>jurídicas na Grécia Antiga. O sistema jurídico era</p><p>composto por vários órgãos e instituições, cada um</p><p>com seu papel específico. As práticas processuais,</p><p>por sua vez, eram caracterizadas por uma profunda</p><p>valorização da retórica e da argumentação. Por</p><p>fim, deve ter ficado claro para você que o legado</p><p>do Direito Grego é relevante para o pensamento</p><p>jurídico moderno. A filosofia grega e o advento da</p><p>democracia contribuíram para a formulação de</p><p>importantes conceitos jurídicos utilizados até os</p><p>dias atuais.</p><p>53HISTÓRIA DO DIREITO E DO PENSAMENTO JURÍDICO</p><p>U</p><p>ni</p><p>da</p><p>de</p><p>2</p><p>O Direito na Idade Média</p><p>OBJETIVO</p><p>Ao término deste capítulo, você será capaz de</p><p>entender como funcionava o sistema jurídico</p><p>na Idade Média, com suas particularidades e</p><p>complexidades. O conhecimento da maneira como</p><p>a Igreja e os Tribunais da Inquisição aplicavam a lei</p><p>durante a Idade Média fornecerá insights valiosos</p><p>sobre as interseções entre Direito, religião, e</p><p>sociedade, ajudando a moldar uma abordagem</p><p>mais holística e contextualizada do Direito. E então?</p><p>Motivado para desenvolver essa competência?</p><p>Vamos lá. Avante!</p><p>O Direito Canônico e o Direito</p><p>Feudal: duas faces do Sistema</p><p>Jurídico Medieval</p><p>Na vastidão da Idade Média, dois sistemas jurídicos</p><p>distintos mas intimamente ligados emergiram como forças</p><p>orientadoras das relações sociais, econômicas e políticas: o</p><p>Direito Canônico e o Direito Feudal. Cada um, refletindo diferentes</p><p>aspectos da sociedade medieval, desempenhou um papel crucial</p><p>na forma como a lei era entendida e aplicada.</p><p>O Direito Canônico, por um lado, foi forjado a partir</p><p>do coração da Igreja Católica, procurando regular assuntos</p><p>eclesiásticos e proporcionar uma orientação moral e ética para a</p><p>sociedade em geral. Esse sistema de Direito não só regulamentava</p><p>a vida interna da Igreja, como o clero, os sacramentos e a doutrina,</p><p>mas também se estendia para governar vários aspectos da vida</p><p>cotidiana, como o casamento e a família (CONDREN, 2011). A</p><p>influência</p>