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GUIA PRÁTICO DE FORMULAÇÃO DE CASOS EM TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL G943 Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental / organizadores Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela. — Novo Hamburgo : Sinopsys Editora, 2022. 176 p. ; 23 cm. ISBN 978-65-5571-065-6 1. Terapia cognitivo-comportamental. I. Nicoletti, Êdela Aparecida. II. Donadon, Mariana Fortunata. III. Portela, Carlos Eduardo. IV.Título. CDD 615.85 Catalogação na publicação: Vanessa Levati Biff — CRB 10/2454 2022 Êdela Aparecida Nicoletti Mariana Fortunata Donadon Carlos Eduardo Portela Organizadores GUIA PRÁTICO DE FORMULAÇÃO DE CASOS EM TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL © Sinopsys Editora e Sistemas Eireli, 2022. Supervisão editorial: Paola Araújo de Oliveira Assistente editorial: Vitória Duarte Martinez Capa: Eduardo Nunes Preparação de originais: Caroline Castilhos Melo Editoração: Juliano Gottlieb Todos os direitos reservados à Sinopsys Editora (51) 3066-3690 atendimento@sinopsyseditora.com.br www.sinopsyseditora.com.br Autores Êdela Aparecida Nicoletti. Psicóloga. Mentora e tutora do Programa de Pro- ficiência em Terapia Cognitiva-comportamental do Centro de Terapia Cog- nitiva (CTC) Veda. Diretora do CTC Veda. Professora honorária da equipe formadora do Nora Cavaco Institute, Portugal. Especialista em Terapia Cog- nitivo-comportamental pelo CTC Veda. Possui treinamento em Ensino e Su- pervisão pelo Beck Institute, Estados Unidos. Certificada em Transtorno de Estresse Pós-traumático pelo Beck Institute, Estados Unidos. Realizou treina- mento intensivo em Terapia Comportamental Dialética (DBT) pelo Behavioral Tech/Linehan Institute, Estados Unidos. Especialista certificada pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC) e pela Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT). Master em Terapia Cognitiva-compor- tamental no Adulto, em Crianças e Adolescentes pela ProfiConcept/DGERT, Portugal. Mariana Fortunata Donadon. Psicóloga e neuropsicóloga. Coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa e do Programa de Pesquisa e Extensão do curso de Medicina do Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto. Docente de graduação, pós-graduação e especialização em cursos de Psicologia e Medici- na no Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto e CTC Veda. Professo- ra convidada da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Membra da Comissão Científica do CTC Veda. Especialista em Terapia Cognitiva pelo CTC Veda. Especialista em Terapia Cognitiva Processual. Mestra e Doutora em Saúde Mental pela Universidade de São Paulo (USP). Terapeuta cognitiva certificada pela DGERT Internacional. Carlos Eduardo Portela. Psicólogo. Professor, coordenador pedagógico e supervisor clínico em Terapia Cognitivo-comportamental do CTC Veda na unidade de Brasília. Atua como preceptor e tutor do Programa de Residência em Saúde Mental do Adulto e como Preceptor Convidado no Programa de Residência em Psiquiatria na Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Pós-graduado em Saúde Mental pela Fiocruz. Especialista em Tera- pia Cognitiva pelo Instituto de Terapia Cognitiva (ITC). Mestre em Psicologia VI Autores Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB). Realizou treinamento no Beck Institute com o criador da abordagem, Aaron T. Beck, nos temas de depressão, suicídio, ensino e supervisão. Especialista certificado pela FBTC e Master em Terapia Cognitiva no Adulto pela ProfiConcept/DGERT, Portugal. Brisa Burgos Dias Macedo. Psicóloga clínica. Professora de cursos de Pós-gra- duação do CTC Veda. Pós-graduada e proficiente em Terapia Cognitivo-com- portamental pelo Centro Universitário Christus e pelo CTC Veda, respectiva- mente. Realizou treinamento intensivo em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e cursos de extensão na mesma área no Behavioral Tech/Linehan Ins- titute, Estados Unidos. Mestra em Psicobiologia pela USP. Doutoranda em Saúde Mental na USP. Layane Bilória Sisdelli. Psicóloga clínica. Curso de formação com crianças e adolescentes pelo CTC Veda. Mariana Guimarães Diláscio. Psicóloga clínica. Professora colaboradora do Instituto Milton H. Erickson. Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG. Marielle Rodrigues. Psicóloga clínica. Paola Victor Rodrigues. Psicóloga. Especialista em Terapia Cognitivo-com- portamental pelo CTC Veda. Especialista em Psicopedagogia com capacitação em Diagnóstico Psicopedagógico pela Universidade Católica de Brasília. Es- pecialista em Escola Inclusiva e Ensino Especial pela Faculdade Brasília e em Saúde Perinatal, Educação e Desenvolvimento do Bebê pela UnB. Capacitação em Saúde mental com ênfase em psicofarmacologia pelo Instituto de Saúde Mental (ISM) de Brasília. Mediadora do Programa de Enriquecimento Instru- mental (PEI/1) certificada pelo International Center for the Enhancement of Learning Potential (ICELP). Saulo Valmor Batista. Psicólogo clínico. Coordenador do curso de Graduação em Psicologia do Centro Universitário Estácio de Ribeirão Preto. Mestre em Psicologia pela USP. Prefácio A ideia de escrever este livro surgiu devido à reflexão profunda sobre a natu- reza e o processo da formulação de casos na prática clínica, ao treinar profis- sionais no Centro de Terapia Cognitiva (CTC) Veda, e por praticamente não haver bibliografia nacional e publicações disponíveis acerca do assunto. Quando os profissionais da saúde mental, sejam eles psicólogos ou psi- quiatras, deparam-se com um paciente, eles precisam saber identificar os pro- blemas e as dificuldades, bem como sua origem, e, ainda, quais obstáculos podem dificultar o processo de mudança, prevendo o melhor tratamento para esse paciente em particular. Muitos profissionais, ainda hoje, utilizam apenas o diagnóstico psiquiátrico para determinar sua conduta terapêutica, escolhendo as intervenções por meio de protocolos generalizados e, muitas vezes, inespecíficos. Seria o diagnóstico psiquiátrico o melhor preditor do tratamento psicoterapêutico? Outros tera- peutas utilizam apenas a sua experiência de vida e alguma experiência clínica para guiar o caminho, como que tateando, de forma quase cega, o tratamento do paciente. Pode o empirismo substituir o trabalho científico? Observam-se ainda, profissionais que consideram a escolha das intervenções por meio do autodidatismo, sem treinamentos específicos, a forma mais eficaz para o tra- tamento daquele paciente em particular. É aceitável formular a estratégia de tratamento sem preparo e treinamento específicos? Além disso, é uma inverdade a visão de que os protocolos de tratamento uniformes para cada transtorno, devidamente prescritos e aderidos, são efi- cazes para muitos problemas clínicos e para todos os pacientes, pois isso não corresponde à complexidade da psicologia aplicada. Ademais, os resultados ficam sujeitos ao conhecimento e às idiossincrasias de cada profissional. Além da terapia cognitivo-comportamental (TCC), algumas outras profis- sões veem a formulação de casos como central e essencial para seus tratamen- tos clínicos. Sabemos que isso representa responsabilidade para com o outro, que, em sofrimento, busca ajuda do profissional da saúde mental. Entender os pacientes a partir de uma perspectiva psicológica, bem como seu funciona- mento, e reconhecer a complexidade e a heterogeneidade das apresentações clínicas e dos problemas, em uma perspectiva teórica, com embasamento cien- tífico, cria uma hipótese ou uma série de hipóteses que guiarão o profissional na direção do tratamento mais eficaz para esse paciente. VIII Prefácio A formulação de casos é uma habilidade clínica treinável, utilizada rotinei- ramente por muitos profissionais da área de saúde mental. Embora exista al- gum acordo sobre os elementos comuns à formulação de casos, o conteúdo e a forma de apresentação dos variados tipos e a orientação teórica das diferentesformulações geralmente são bem peculiares. Os profissionais podem e devem fazer formulações a partir do seu referencial teórico. Mesmo dentro de cada referencial, as tecnologias e os conceitos específicos usados para desenvolver uma formulação podem variar consideravelmente. Formulações que respeitam a individualidade orientam um determinado plano de tratamento, e interven- ções individualizadas são éticas, inclusivas e, sem dúvida, mais eficazes. Este livro não tem a pretensão de esgotar este assunto tão importante em nossa prática clínica, assim como não impõe um modelo correto e único de fazer uma formulação de caso. No entanto, apresenta a formulação de casos do CTC Veda e argumenta a favor do uso da formulação de casos em TCC. Como em todas as publicações, estou certa de que muitos tópicos impor- tantes foram omitidos. Como a maioria dos profissionais brasileiros, encon- tramos dificuldade para dedicarmo-nos a um trabalho acadêmico, tendo em vista nossas múltiplas obrigações diuturnas. Tentamos fazer uma obra mais sintética, abrindo espaço para que outros estudiosos possam complementar e ampliar esse assunto, muito importante e pouco discutido em nosso meio. Minha esperança é que os profissionais interessados em TCC e no melhor tratamento para pessoas em profundo sofrimento encontrem o caminho para continuar se dedicando às melhores formulações de caso e a alcançar sucesso na escolha de suas intervenções. Quero expressar a minha gratidão aos meus companheiros desta jornada, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela, profissionais extrema- mente competentes e, acima de tudo, amigos e colaboradores que entregaram seu tempo e esforços para que pudéssemos empreender essa obra na esperan- ça de que seja útil aos profissionais da área. Sou imensamente grata a Brisa Burgos Dias Macedo, Layane Bilória Sis- delli, Mariana Guimarães Diláscio, Marielle Rodrigues, Paola Victor Rodrigues e Saulo Valmor Batista, que dedicaram seu tempo e experiência, trabalhando exaustiva e diligentemente na produção de suas excelentes contribuições. Êdela Aparecida Nicoletti Sumário 1 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas ............................................................................................................. 11 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 2 A formulação de casos sob o enfoque cognitivo-comportamental ............... 27 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 3 Os mitos e as verdades sobre a formulação de casos ..................................... 39 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 4 As miniformulações de casos ....................................................................... 45 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 5 A formulação de casos cultural .................................................................... 53 Mariana Guimarães Diláscio 6 Modelo de formulação de casos para adultos .............................................. 69 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 7 Modelo de formulação de casos para crianças e adolescentes ....................... 79 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 8 Modelo de formulação de casos para idosos ................................................ 91 Paola Victor Rodrigues e Carlos Eduardo Portela 9 Modelo de formulação de casos para pacientes com transtornos alimentares ....................................................................................................... 99 Brisa Burgos Dias Macedo e Êdela Aparecida Nicoletti 10 A formulação de casos para pacientes difíceis ou com problemas desafiadores.................................................................................................... 119 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela X Sumário 11 O diálogo entre a formulação de casos e a formulação de tratamento ..................................................................................................... 133 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 12 Avaliando a eficácia da formulação de casos de alto nível ........................ 141 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 13 Plantão psicológico sob enfoque cognitivo-comportamental e a elaboração de miniformulações de casos ................................................... 155 Marielle Rodrigues, Layane Bilória Sisdelli, Saulo Valmor Batista e Mariana Fortunata Donadon Considerações finais....................................................................................... 173 Êdela Aparecida Nicoletti, Mariana Fortunata Donadon e Carlos Eduardo Portela 1 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas Êdela Aparecida Nicoletti Mariana Fortunata Donadon Carlos Eduardo Portela Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. (Tabacaria – Fernando Pessoa) Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)... Sinto crenças que não tenho. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para refle- xões falsas, uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. (Não sei quem sou, que alma tenho – Fernando Pessoa) 12 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas De maneira geral, formular algo envolve o ato ou efeito de formular, de dar ou tomar caráter de fórmula. Envolve a exposição de uma ideia, um desejo, um pedido, uma meta. Se não for feito de modo claro e conciso, pode tornar-se complicado ou complexo. Formular é apresentar um texto escrito (ou oral) a fim de expressar, manifestar o que se observa ou se analisa através da visão de uma concepção teórica específica. A formulação de um caso nada mais é do que a descrição detalhada do modo como aquele paciente/cliente/sujeito funciona na vida e as razões que o levaram para a psicoterapia. É, também, uma descrição minuciosa e aprofundada – de certa forma, complexa e detalhista –, cuja função é guiar o terapeuta cogniti- vo-comportamental sobre como ele deve agir com aquele determinado paciente. A formulação de caso em terapia cognitivo-comportamental (TCC) é um método e uma estratégia clínica que usa o modelo cognitivo e a TCC para elaborar uma descrição do problema atual do paciente, uma compreensão de seus padrões mal-adaptativos, uma teoria sobre o porquê e como esses padrões se desenvolveram, bem como uma ou mais hipóteses de quais processos estão mantendo esses padrões ativos atualmente. Além disso, antecipa os possíveis problemas e obstáculos no processo terapêutico, orientando o foco do trata- mento. É, portanto, um modelo necessário a ser seguido, bem como um dire- cionamento a fim de guiar ao longo de todo o processo terapêutico, de forma a otimizar e/ou potencializar as intervenções e estratégias clínicas. É importante elaborar uma boa formulação de casos, pois ela é capaz de antecipar os possíveis problemas e/ou obstáculos que possam surgir ao longo de todo o processo terapêutico. Além disso, tem a função de orientar todo o foco e direcionamento do tratamento a fim de otimizá-lo. Muitos terapeutas utilizam, como método, apenas protocolos ligados ao diagnóstico a fim de guiar o processo de tratamento; porém, esses protocolos são insuficientes e incompletos quando utilizados como única estratégia de manejo ou entendimento do caso, bem como de escolhas de intervenções específicas. Segundo Parsons (2012), os protocolosde tratamento são uma ótima es- tratégia, porém não são capazes de orientar os terapeutas em muitas situações desafiadoras, como: � Quando os pacientes apresentam múltiplos distúrbios e/ou problemas. � Quando os pacientes recebem tratamento ou auxílio de múltiplas fontes. Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 13 � Quando o terapeuta precisa tomar decisões muitas vezes necessárias e não referenciadas em protocolos. � Quando os pacientes apresentam problemas para os quais não existem protocolos disponíveis. � Quando o paciente não adere ao protocolo de tratamento tradicional proposto. � Quando o paciente não desenvolve relação terapêutica colaborativa ne- cessária ao protocolo e/ou apresenta dificuldades no estabelecimento de relação colaborativa com o terapeuta. � Quando o paciente não responde satisfatoriamente ao protocolo. � Nos casos em que há um número cada vez maior de protocolos que o terapeuta precisa conhecer e dominar. Uma distinção importante precisa ser feita entre a conceituação cognitiva e a formulação de casos (Figura 1.1). Formulação de casos Conceituação cogni�va Figura 1.1 Comparação entre formulação de casos e conceituação cognitiva. A conceituação cognitiva compreende um padrão de funcionamento cog- nitivo ativado, no momento atual, e abrange uma descrição da interação entre as cognições, os comportamentos, as emoções e as reações fisiológicas decor- rentes. Já a formulação de casos apresenta uma visão ampla do caso de forma contextualizada ao longo do tempo. Além disso, apresenta hipóteses sobre o desenvolvimento desse padrão de funcionamento cognitivo, bem como sua manutenção na atualidade. A formulação de casos envolve o processo de aliar as queixas, os sintomas, os problemas e as dificuldades, os eventos e as si- 14 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas tuações relevantes, a história de vida e as experiências, somados ao modelo teórico e prático da TCC. A formulação de casos, quando bem feita, é a base para a formulação de tratamento. O terapeuta que ignora a formulação de casos corre o risco de realizar um trabalho terapêutico vago e impreciso, sem saber a direção do tratamento, seu objetivo e o porquê das intervenções reali- zadas. Freeman e Dattilio (1998) afirmam que a habilidade mais importante do psicoterapeuta é a capacidade para desenvolver formulações de tratamento e que, mesmo com a utilização de boas técnicas e protocolos de intervenção da terapia cognitiva, sem a formulação de caso, o tratamento não é eficaz. Dois exemplos clínicos aplicados da utilização da formulação de casos podem ser acessados na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas (Donadon et al., 2016; Rodrigues et al., 2017). História e estado atual das formulações Existem diversas terminologias encontradas na literatura para referir-se ao ter- mo formulação de casos: conceituações de caso, formulações de casos clínicos, formulações, conceituações, formulação diagnóstica e formulação clínica. O termo formulação de casos está em ascendência na atualidade, en- quanto o termo conceitualização (ou conceituação) cognitiva é o mais comumente usado historicamente na cultura ocidental. Isso porque o termo conceituação cognitiva entrou na literatura nacional trazido pelas obras de Aaron Beck e Judith Beck, as primeiras a chegarem no Brasil (Beck et al. 1997). Apesar de muitos autores utilizarem ambos os termos como sinônimos, há diferenças fundamentais na construção e nos objetivos de cada um deles, as quais discutiremos ao longo desta obra. A conceituação cognitiva é a demonstração da configuração afetiva, cog- nitiva e comportamental do paciente. Beck (1997) e Leahy (2006) descreveram a conceituação cognitiva em um diagrama apropriado para demonstrar o fun- cionamento do paciente no momento atual de sua vida. Segundo Persons (1989), a formulação de casos é a habilidade clínica mais importante que o profissional que segue a TCC precisa dominar. Por meio dela, ele terá um planejamento adequado do tratamento a ser realizado e um entendimento preciso das distorções cognitivas e dos comportamentos mal- Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 15 -adaptativos do paciente. A formulação tem diversas funções, e a principal delas é melhorar o resultado do tratamento. Juntos, o terapeuta e o paciente podem entender os mecanismos cognitivos e comportamentais do paciente, de forma mais profunda e ampla, em vez de apenas obter uma coletânea de sin- tomas ou uma classificação da Classificação estatística internacional de doenças e pro- blemas relacionados à saúde (CID). Outras funções destacam-se, entre elas: obter e organizar as informações sobre o caso, traçando um mapa resumido e claro de tudo que se refere ao paciente; auxiliar o terapeuta nas escolhas das inter- venções específicas para aquele caso; e reforçar a aliança terapêutica por meio de um trabalho produtivo e da relação colaborativa. Além disso, a formulação também serve para antecipar obstáculos e problemas no processo terapêutico e preparar o paciente para o término da terapia. Tipos de formulações existentes nas diversas abordagens Na literatura sobre a psicoterapia, há muitas referências a formulações de caso nas diferentes abordagens (Rinaldi & Bursztyn, 2008; Vorcaro, 2010). Para a prática da psicoterapia, independentemente da abordagem ou de estrutura para a formulação, é necessário que o terapeuta discrimine o problema que levou o indivíduo a procurar o serviço, entenda a história desse problema e descubra quais fatores o mantêm, para que, assim, seja possível fazer uma intervenção. Esses três elementos devem ser considerados por psicoterapeutas em diversas abordagens e ações interventivas (Persons, 2012; Sperry, 2010). É possível que a primeira versão da formulação de casos tenha acontecido por meio da abordagem psicodinâmica (Vorcaro, 2010). Basicamente, o psi- coterapeuta desenvolve uma narrativa que cria uma relação entre a teoria psi- canalítica e o problema/queixa, que seria visto como uma reação ou resposta ao contexto mobilizador da angústia, seja baseada em mecanismos de defesas ou como estratégia para lidar com o que faz sofrer, atendendo, ao mesmo tempo, as exigências de instâncias psíquicas em conflito (Rinaldi & Bursztyn, 2008). Então, o analista se dedica ao exame das relações objetais na fantasia inconsciente: como o indivíduo se vê na situação provocadora e conflituosa? (autoimagem); como ele vê o outro nessa situação? (imagem do outro); como 16 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas é o vínculo entre essas imagens e como é estabelecido e mantido?; quais são os afetos e impulsos envolvidos nesse conflito?; qual é, portanto, o conflito central e seu papel na situação atual e no passado?; e como esses padrões ocor- rem em sessão, nos processos transferenciais e contratransferenciais? (Naves, 2013). Assim, o analista intervém a partir da relação psicoterápica, fazendo interpretações com base nessa narrativa. Nas formulações de casos baseadas na psicoterapia junguiana, é igual- mente considerada a queixa/problema que traz o indivíduo, e atenta-se para os processos históricos constituintes dessa dificuldade. Contudo, são conside- rados, nesse tipo de formulação de caso, as imagens, os mitos, os arquétipos e os sonhos que se relacionam às dificuldades do paciente, bem como a atitude e a função dos tipos psicológicos, os aspectos que estão na sombra, como essa queixa e a sombra se projetam como queixa a respeito dos outros e da situação, como é a persona e suas funções que podem se relacionar com o problema, como os complexos contribuem para o mau ajustamento pessoal, e como essa narrativa resultante acontece nos processos transferenciais e contratransferen- ciais. O objetivo final da formulação de casos junguiana é trazer à consciência aspectos não conscientes e, por isso, muitas vezes projetados e integradosem uma narrativa, contribuindo para a individuação (Sant’Anna, 2001). A formulação de casos na análise do comportamento procura especificar variáveis de controle dos comportamentos disfuncionais. Assim, uma análise funcional dos problemas do cliente é realizada, e identificam-se contingências que operaram e operam na manutenção do comportamento-problema, a fim de criar um contexto de intervenções com base nessa análise (De-Farias et al., 2018; Flores & Costa Júnior, 2008). A formulação na terapia comportamental dialética A terapia comportamental dialética (DBT, do inglês dialectical behavior therapy), desenvolvida por Linehan (1993a, 1993b), é um tratamento cognitivo-com- portamental originalmente desenvolvido como tratamento ambulatorial para clientes diagnosticados com transtorno da personalidade borderline.* A DBT * O termo transtorno da personalidade borderline foi revisado pelos autores da DBT, os quais recomendam o uso do termo transtorno de desregulação emocional. Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 17 é, hoje, um tratamento de primeira escolha para pacientes graves e vem sendo muito procurada por profissionais da área da saúde mental (Linehan, 1993a, 1993b). A formulação de casos é essencial para uma DBT eficiente e eficaz. A DBT é guiada por uma teoria dos estágios do tratamento, pela teoria biossocial da etiologia e manutenção dos transtornos e por princípios comportamentais e ideias sobre padrões comuns que interferem no tratamento. Existem três etapas para formular um caso de DBT: a primeira etapa é a coleta de infor- mações sobre os objetivos do tratamento; a segunda etapa visa à organização das informações em um formato útil; e a terceira etapa trata-se da revisão da formulação conforme necessário (Linehan, 1993a, 1993b). Primeiramente, falaremos sobre a tarefa essencial da formulação de casos em DBT, e sobre como ocorre a reunião das informações a respeito das metas do tratamento. Nas sessões iniciais em DBT, é necessário avaliar a variedade de problemas que o paciente apresenta para determinar em que estágio apro- priado de tratamento ele se encontra. Um paciente se encontra na primeira área-alvo se ele estiver minimamente comprometido com o tratamento e apre- sentar comportamentos com risco de vida (ideação suicida, comportamen- tos parassuicidas, comportamentos que interferem na qualidade de vida e/ou comportamentos que interferem na terapia). Nessas situações, o terapeuta deve identificar e obter um histórico (o mais completo possível) desses alvos primários, incluindo os comportamentos relacionados à crise suicida, aos atos parassuicidas, como se dá a comunicação suicida para parentes ou correlatos, bem como expectativas, pensamentos, emoções ou crenças relacionadas ao suicídio (ver protocolo Parasuicide History Interview da University of Wa- shington [PHI-2]) (Linehan et al., 1995). A segunda área-alvo a ser verificada para formular o caso do paciente em DBT consiste nos comportamentos que interferem no tratamento. Isso inclui tanto os comportamentos do paciente como os do terapeuta que podem comprometer negativamente a relação terapêutica ou a eficácia do tratamento (falta nas sessões, hospitalização psiquiátrica excessiva, falta de colaboração na terapia e demandas excessivas ao terapeuta). Para os terapeutas, os comporta- mentos que interferem na terapia são: esquecer compromissos com o paciente, faltar ou se atrasar para a sessão, deixar de retornar telefonemas, estar desaten- to, e fazer outra tarefa enquanto atende o paciente. 18 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas A terceira área-alvo inclui comportamentos que comprometem severa- mente a qualidade de vida do cliente. São descritos como comportamentos que prejudicam a estabilidade ou o funcionamento e, assim, reduzem os efeitos do tratamento. Entrevistas de diagnóstico estruturado, como o International Per- sonality Disorder Examination (IPDE; Loranger, Janca & Sartorius, 1997) e a Entrevista Clínica Estruturada para Transtornos da Personalidade do DSM-IV (SCID-II; American Psychiatric Association, 1994; First et al., 1997), são úteis. O próximo passo — ou seja, o passo 1 — é especificar as variáveis de controle para cada comportamento-alvo. Para isso, a DBT utiliza a “análise em cadeia”, que envolve análises repetidas em cadeia que identificam fatores precipitantes, fatores de vulnerabilidade, vínculos e consequências associados a cada alvo principal. Cada link (na sessão ou fora dela) determina se a resposta do paciente é funcional ou disfuncional, ou seja, se move o paciente na direção das metas de longo prazo ou o afasta delas. O passo 2 da formulação é organizar as informações úteis para o terapeuta e o paciente. Nas primeiras sessões de tratamento, deve-se organizar as infor- mações sobre cada área-alvo em um formato escrito, sem um formulário espe- cífico para isso. O objetivo é criar uma configuração que ajude a identificar áreas que precisam de avaliação adicional. Priorizam-se as áreas que precisam de mudança, as quais levarão aos comportamentos problemáticos para a meta do paciente, considerando sistematicamente as vias de intervenções apropriadas (estágio do tratamento, teoria biossocial, teoria comportamental da mudança, dilemas dialéticos que interferem na mudança e dialética em si). O passo 3 consiste em revisar a formulação. Como em outras abordagens, a formulação de casos em DBT está sob revisão e refinamento constantes à medida que se entende mais sobre os gatilhos e as situações que determinam o comportamento problemático ou impedem o comportamento preferido. No princípio, o paciente nunca falha em terapia; então, quando algo não se desen- volve bem na terapia DBT, como a falta de colaboração, a falta de adesão ou o não progresso do paciente, a falha é dialética, ou seja, algo foi esquecido na formulação do caso e na formulação do tratamento. O trabalho do terapeuta é descobrir uma reformulação que faça o cliente avançar na direção das metas acordadas. Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 19 Comparando métodos de formular um caso: o que eles têm em comum? Pode-se observar pelo exposto anteriormente que, em pelo menos três aborda- gens além da TCC, existe uma estrutura semelhante em sua base que permeia as mais variadas formas de formulação de caso, ainda que a teoria psicológica seja diferente. Assim, embora haja diferentes métodos de formular um caso clínico, alguns itens são comuns a todos eles: � A discriminação do problema/dificuldade/queixa. � A identificação de fatores históricos relevantes para o surgimento do problema ou queixa em questão. � A descrição dos fatores de manutenção do problema. O objetivo final de toda boa formulação de casos é entender, segundo a teoria psicológica adotada, o que está acontecendo com o cliente naquele momento de vida específico a fim de produzir uma melhora pelo alívio ou a resolução do sintoma. Pesquisas sobre formulações e seus componentes Existem pesquisas que têm a função de examinar e/ou testar a validade das formulações, bem como o impacto da formulação de casos cognitivos no re- sultado da terapia (Bieling & Kuyken, 2006). A formulação de casos objetiva descrever os problemas ou queixas que uma pessoa enfrenta, e usa, para isso, uma teoria específica para fazer inferências explicativas sobre causas e fatores mantenedores dos problemas que possam interferir nas intervenções. Uma formulação de casos também compreende um conjunto de hipóteses sobre os mecanismos subjacentes que interligam todos os elementos. É um relato dos problemas de apresentação de uma pessoa, não da pessoa como um todo. ‘’Por que esse paciente tem apresentado essas queixas e quais são as variáveis que o fazem mantê-lo?’’ 20 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas Houve várias tentativas de fornecer sistemas de formulação de casos ba- seados na teoriacognitiva (Beck, 1995; Greenberger & Padesky, 1995; Linehan, 1993a, 1993b; Muran & Segal, 1992; Persons, 1993). O modelo de Persons (1993) concentra-se em dois níveis: 1. Descrição de dificuldades: as dificuldades evitadas são mapeadas e descritas. 2. Mecanismos cognitivos subjacentes: referem-se a uma explicação de como o processamento, as crenças e os comportamentos cogniti- vos mal-adaptativos causam e/ou mantêm problemas de apresentação. Há uma ênfase sobre a importância de identificar e trabalhar com as prin- cipais crenças e gatilhos para tornar a pessoa menos vulnerável. O modelo que Beck (1995) desenvolveu possui um sistema que contém: 1. A história do desenvolvimento. 2. Situações problemáticas típicas, a fim de auxiliar o psicoterapeuta a identificar crenças nucleares, suposições e estratégias compensatórias. Experiências desenvolvimentais adversas (pais que cobram demais ou são muito rígidos) levam a crenças centrais mal-adaptativas (“Eu não sou capaz, não consigo corresponder às expectativas”) e a crenças subsidiárias (“Se eu entregar tudo perfeito, ninguém vai descobrir que eu não sou capaz”) que são compensadas por uma série de estratégias comportamentais (“Com todas as demandas, tentarei ser o mais perfeccionista possível”). Embora haja modelos de formulação já testados por teóricos renomados, muitos psicoterapeutas, na prática, acabam usando a sua própria abordagem pessoal para a formulação de casos. Um estudo de Beckham et al. (1984) ava- liou que a confiabilidade de interavaliadores no desenvolvimento da formu- lação de casos e apontou 76% de precisão no seu preenchimento. Em suma, obteve-se que uma boa confiabilidade interavaliadores foi atingida nos itens descritivos e não nos inferenciais. Em relação à fonte de dados para inserir na formulação de casos, o psico- terapeuta pode coletá-la de uma infinidade de fontes, como a entrevista clínica, as observações, a aplicação de escalas ou questionários e até mesmo a coleta de informações concedidas pelos familiares e/ou outros profissionais envolvidos Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 21 no processo. A formulação de casos é mais completa que um simples aponta- mento de um diagnóstico pois envolve todas as hipóteses sobre os mecanis- mos que fizeram iniciar ou originaram o problema, bem como os mecanismos que os fazem se manter, os precipitam e os aumentam. O psicoterapeuta também acessa os problemas relacionados a todas as áreas da vida do paciente e pode, além disso, prevenir a não aderência dele, já que consegue escolher um plano de tratamento que se encaixa perfeitamente nas necessidades do seu paciente. Uma vez construída a formulação e colocada em prática, ela deve ser constantemente revisada, e o terapeuta deve verificar se os sintomas estão remitindo, se os resultados estão sendo alcançados como esperado, se o paciente está aderindo bem às intervenções, e se a aliança tera- pêutica está fluindo bem. Estado atual das formulações Hoje sabemos da importância da formulação de casos para todas as aborda- gens psicoterapêuticas. A formulação de casos tem demonstrado confiabilida- de e validade e é usada não só para demonstrar o conteúdo e o processo do paciente, mas também como ferramenta para pesquisa. Sperry et al. (1992) colocam que, na clínica, a formulação de casos organiza os aspectos de con- teúdo que compreendem a fotografia geral do funcionamento interno do pa- ciente e seus problemas atuais, bem como o processo que inclui as hipóteses de vulnerabilidades, a manutenção das dificuldades e a proposta de um plano de tratamento para o caso, ou seja, o componente prescritivo da formulação. Como ferramenta de pesquisa, colabora agregando estudos de casos in- dividuais na construção dos preditores, gatilhos e ciclos de manutenção es- pecíficos e idiossincráticos dos transtornos ou das dificuldades psicológicas. Ter conhecimento sobre o funcionamento psicológico individual pode ser um meio avançado de estudar o ser humano. Atualmente, existem várias publicações e muitos volumes individuais dis- poníveis sobre formulação de casos. A maioria das publicações se trata de abordagens cognitivas e cognitivo-comportamentais. Eells (2007) e Eells et al. (1998) apresentam formulações de caso com exemplos didáticos das perspec- tivas de várias abordagens. Hersen e Rosqvist (2008) publicaram um grande 22 Definição de formulação de casos em diferentes abordagens clínicas manual sobre conceitualização e tratamento de casos em adultos, que abrange todas as categorias de diagnóstico comuns do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM) e inclui muitos exemplos de formulação de casos, principalmente a partir de uma perspectiva cognitivo-comportamental. Outra obra importante é a de Sturmey (2007), que forneceu exemplos de abordagens comportamentais para conceituação e formulação de casos de todos os princi- pais diagnósticos do DSM-5. A maior contribuição para o estudo da formulação de casos vem da pers- pectiva cognitivo-comportamental. Entre elas, é fundamental ressaltar a obra de Persons (1989). Existem vários outros volumes menores que também en- focam abordagens cognitivas e cognitivo-comportamentais da formulação de casos (Bruch & Bond, 1998; Dobson & Dobson, 2010; Gauss, 2007; Kuyken et al., 2010; Nezu et al., 2004; Nicoletti & Becker, 2019; Persons, 1989; Sperry et al., 1992). Também existem exemplos individuais de formulação de casos espalhados por periódicos clínicos, incluindo alguns dedicados a estudos de caso e outros, como prática cognitiva e comportamental, que apresentaram formulações de casos com comentários e respostas subsequentes dos autores originais (Cronin et al., 2015; Hartley et al., 2016; McIntosh et al., 2016; Mumma et al., 2018; Nezu et al., 2015). As habilidades em formulação de casos podem ser ensinadas e treinadas sistematicamente. O terapeuta deve escolher a que melhor prediz e faz sentido para o seu trabalho. Para que essa escolha seja efetiva, o terapeuta precisa con- trastar as diferentes formas de construir, comparando-as entre si e com o seu raciocínio clínico. Assim, o treinador que oferece treinamento profissional em formulações de caso deve ser proficiente na abordagem terapêutica a que se propõe ensinar e saber todas as diferenças entre as formulações. Como treinadores em TCC, percebemos que os iniciantes apresentam insegurança e muita frustração com os formulários de formulação de caso, gerando dificuldades no aprendizado de conceituar seus pacientes. É comum oferecer orientações e estímulos para que o terapeuta iniciante faça uma ava- liação inicial com seu paciente, tendo como meta apenas a aderência ao tra- tamento e gerar esperança para o paciente. É um erro deixar que terapeutas encarem seus pacientes seguindo as suas intuições, interpretações e palpites. Pensar que o terapeuta deve, sistematicamente, aprender a conceituar desde Guia prático de formulação de casos em terapia cognitivo-comportamental 23 a sua primeira sessão e sair dela com um conjunto de hipóteses clínicas é um dever dos educadores. Saber do que eles precisam e fazer eles adquirirem habi- lidades interpessoais e conceituais é ser um treinador responsável e proficiente. Considerações finais A formulação de um caso envolve uma descrição minuciosa e/ou detalhada do modo como um paciente funciona na vida e as razões que o levaram a buscar a psicoterapia. É, também, uma descrição minuciosa e aprofundada, de certa forma, complexa e detalhista, cuja função é guiar o terapeuta cognitivo-com- portamental sobre como ele deve agir com determinado indivíduo. É um recurso útil, pois pode antecipar os possíveis problemas e obstácu- los no processo terapêutico, orientando o foco do tratamento. É, portanto, um modelo necessário a ser seguido, bem como um direcionamento para todo o processo terapêutico, de forma a otimizar e/ou potencializar as intervenções e as estratégias clínicas. A formulação decasos também pode envolver imagens, já que muitas vezes o tipo de cognição que afeta e mantém o problema de um cliente pode ser, para além de uma sentença verbal, uma imagem. Ela pode ser uma parte da formulação completa, mas também é específica e útil o suficiente para ser uma formulação em si e, a partir dela, definir plano e intervenções consequentes. A diferença é que a imagem é colocada como ponto de partida da análise do problema. Referências American Psychiatric Association (APA) (1994). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (DSM-IV). APA. Beck, J. S. (1995). Cognitive therapy: Basics and beyond. Guilford Press. Beck, J. S. (1997). Terapia cognitiva: Teoria e prá- tica. Artmed. Beckham, E. E., Boyer, J. L., Cook, J. B., Le- ber, W. R., & Watkins, J. (1984). 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