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<p>DESCRIÇÃO</p><p>As teorias da argumentação e sua relação com a moral e o Direito.</p><p>PROPÓSITO</p><p>Compreender as teorias da argumentação e suas proposições na construção de critérios</p><p>racionais para as práticas morais e jurídicas é importante para sua formação, pois facilitará o</p><p>exercício da aplicação e justificação de normas morais e jurídicas em situações concretas.</p><p>PREPARAÇÃO</p><p>Antes de iniciar o conteúdo deste tema, tenha à mão um dicionário de lógica e argumentação.</p><p>OBJETIVOS</p><p>MÓDULO 1</p><p>Identificar os principais elementos conceituais das teorias da argumentação de Chaïm</p><p>Perelman</p><p>MÓDULO 2</p><p>Reconhecer os principais elementos conceituais das teorias da argumentação de Robert Alexy</p><p>e Klaus Günther</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Aprenderemos a identificar os principais elementos teóricos de algumas das teorias da</p><p>argumentação que tiveram forte influência nos debates morais e jurídicos na atualidade. No</p><p>módulo 1, estudaremos a Nova retórica dos filósofos Chaïm Perelman (1912-1984) e Lucie</p><p>Olbrechts-Tyteca (1899-1987). No módulo 2, reconheceremos os elementos das teorias da</p><p>argumentação de Robert Alexy (discurso jurídico como caso especial do discurso prático geral)</p><p>e Klaus Günther (discursos de justificação e discursos de aplicação na moral e no Direito).</p><p>MÓDULO 1</p><p> Identificar os principais elementos conceituais das teorias da argumentação de</p><p>Chaïm Perelman</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>Antes de introduzirmos o pensamento filosófico de Chaïm Perelman, cabe apresentar um</p><p>pouco de sua biografia.</p><p>Chaïm Perelman foi um filósofo, de nacionalidade belga, que nasceu em Varsóvia, capital da</p><p>Polônia. Em 1944, Perelman se tornou professor de lógica e metafísica na Universidade Livre</p><p>de Bruxelas. Também foi coordenador da faculdade de Letras e diretor da Escola de Ciências</p><p>da Educação, e escreveu muitos artigos sobre a lógica da Matemática.</p><p>Ao longo de sua carreira, também foi secretário-geral da Federação Internacional das</p><p>Sociedades de Filosofia, presidente da Sociedade Belga de Filosofia e da Sociedade Belga de</p><p>Lógica e Filosofia da Ciência. Foi, ainda, membro do corpo governante da Universidade</p><p>Hebraica e secretário-geral da Sociedade de Amigos Belgas da Universidade Hebraica.</p><p>Foto: Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos/ Wikimedia Commons/ Licença CC</p><p>BY-SA 4.0</p><p> Chaïm Perelman.</p><p>Em suas últimas obras, Perelman se dedicou aos temas da justiça e às formas do raciocínio</p><p>discursivo e dedutivo. As principais estão traduzidas para a língua portuguesa: Tratado da</p><p>argumentação: a nova retórica (1996), escrito em conjunto com Lucie Olbrechts-Tyteca;</p><p>Retóricas (1999); Lógica jurídica (2000); Ética e Direito (2002).</p><p>javascript:void(0)</p><p>LUCIE OLBRECHTS-TYTECA</p><p>Lucie Olbrechts-Tyteca foi coautora do Tratado da argumentação: a nova retórica em</p><p>conjunto com Chaïm Perelman. Sua contribuição para o desenvolvimento da retórica foi</p><p>marcante, tendo ocupado posições em organizações civis hebraicas.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Além de suas obras principais, numa busca refinada na internet, em língua portuguesa,</p><p>podemos encontrar pelo menos 49 mil referências sobre Perelman. Lido nos programas de</p><p>pós-graduação, em eventos acadêmico-científicos, bem como pelos juízes em suas práticas</p><p>nos tribunais, não seria equivocado afirmar que sua obra encontra espaço no pensamento</p><p>jurídico brasileiro, estando ao lado de outros filósofos e juristas como Hans Kelsen (1881-</p><p>1973), Herbert L. A. Hart (1907-1992), Ronald Dworkin (1931-2013), Robert Alexy, Manuel</p><p>Atienza, entre outros.</p><p>NOVA RETÓRICA: UM LUGAR PARA A</p><p>RAZÃO</p><p>Neste módulo sobre as teorias da argumentação, queremos mostrar a você que a</p><p>argumentação possui uma estrutura racional que vai além da forma científica e que exige</p><p>uma compreensão acerca dos valores.</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>Se observarmos as práticas jurídicas em sua dinâmica social, poderemos ver que o raciocínio</p><p>dedutivo e o formalismo da aplicação da norma são suficientes para satisfazer às expectativas</p><p>dos cidadãos em relação às suas instituições formais e aos valores com os quais podem se</p><p>engajar. O sentido das práticas jurídicas institucionais, sejam elas decisões judiciais ou</p><p>proposições legislativas, não consegue ser apreendido em sua completude pela demonstração</p><p>científica, tampouco pelo silogismo dedutivo. Porém, se a demonstração científica não é</p><p>conformável às práticas jurídicas, poderíamos afirmar que estamos, então, num ambiente</p><p>irracional?</p><p>Para responder a esse questionamento, as teorias da argumentação, jurídicas ou não, visam</p><p>demonstrar que as práticas jurídicas, embora não se apoiem única e exclusivamente em</p><p>raciocínios dedutivos, são passíveis de outra racionalidade: a racionalidade discursiva da</p><p>argumentação.</p><p>Uma primeira e central resposta é dada com a Nova retórica de Chaïm Perelman e Lucie</p><p>Olbrechts-Tyteca (1996) que, nos próprios termos de seus autores, constitui “uma ruptura com</p><p>a concepção da razão e do raciocínio, oriunda de Descartes, que marcou com seu cunho a</p><p>Filosofia ocidental dos três últimos séculos”.</p><p>A Nova retórica pretende demonstrar que a razão pode percorrer caminhos diferentes, em que</p><p>seja possível a articulação dos valores, evitando, por um lado, sua negação (neutralidade</p><p>cientificista), e, por outro, o relativismo, mantendo o cognitivismo segundo o qual os valores</p><p>possuem o predicado de verdade.</p><p>O prefácio de Michel Meyer à edição brasileira de 2002 resume:</p><p>Entre o ‘tudo é permitido’ e a ‘racionalidade lógica é a própria racionalidade’, surgiu a Nova</p><p>retórica e, de um modo geral, toda a obra de Perelman. Como atribuir à Razão um campo</p><p>próprio, que não se reduz à lógica, demasiado estreita para ser modelo único, nem se submete</p><p>à mística do Ser, ao silêncio wittgensteiniano, ao abandono da Filosofia em nome do fim –</p><p>aceito por Perelman – da metafísica, em proveito da ação política, da literatura e da poesia? A</p><p>retórica é esse espaço de razão, onde a renúncia ao fundamento, tal como o concebeu a</p><p>tradição, não se identificará forçosamente à desrazão. [...] A Nova retórica é, então, o ‘discurso</p><p>do método’ de uma racionalidade que já não pode evitar os debates e deve, portanto, tratá-los</p><p>e analisar aos argumentos que governam as decisões.</p><p>A Nova retórica é, ao mesmo tempo, uma teoria da argumentação, mas, também, da razão</p><p>colocada diante do pluralismo de valores que nos permite ir além dos limites impostos pela</p><p>ciência e lógica formal. Ao mesmo tempo, não nega a possibilidade de racionalidade ancorada</p><p>nos valores dos indivíduos que vivem em sociedade. Como ela, podemos ter uma racionalidade</p><p>que se certifica a partir das razões dadas pelos indivíduos que utilizam a força não coercitiva do</p><p>melhor argumento – portanto, uma alternativa ao irracionalismo.</p><p>Importante destacar que o Direito não pode ser demonstrado única e exclusivamente pelo</p><p>silogismo dedutivo, tampouco pelas evidências empíricas reveladas pelos fatos brutos da</p><p>natureza. Embora saibamos a estrutura do raciocínio válido no âmbito de uma argumentação</p><p>jurídica ou política, tomam corpo e forma as questões jurídicas que possuem em sua</p><p>substância elementos valorativos que não se deixam reduzir ao cálculo racional da lógica</p><p>dedutiva.</p><p>Para resgatar a racionalidade dos valores, bem como estruturar um método capaz de organizar</p><p>sua constituição, a Nova retórica retoma a Retórica aristotélica entendendo que esta não</p><p>conseguiu visualizar adequadamente o papel dos valores no discurso epidíctico.</p><p>Aristóteles divide os gêneros do discurso em três:</p><p>I</p><p>O judicial, voltado para a análise dos fatos, cujo tempo é o passado.</p><p>II</p><p>Deliberativo e político, voltado para o bem-estar da comunidade.</p><p>III</p><p>O epidíctico, voltado para os aspectos cerimoniais e apologéticos de situações presentes.</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Segundo a Nova retórica , o discurso epidíctico não foi suficientemente explorado por</p><p>Aristóteles, na medida em que o discurso deixou de verificar que sua centralidade está pautada</p><p>nos valores. O discurso judicial é circunscrito pelos fatos; o</p><p>moral? A reposta ao questionamento</p><p>dependerá da capacidade de descrever essa situação de maneira a destacar as propriedades</p><p>morais relevantes do caso, que atraem prima facie a aplicação daquela que é a norma mais</p><p>adequada para o caso.</p><p>O último teste então se dá quando a norma adequada ao caso está, também, coerente com o</p><p>conjunto de normas válidas do ordenamento jurídico. Exerce esse princípio formal de</p><p>coerência uma força holística entre os discursos de aplicação e os discursos de justificação.</p><p>Podemos concluir, então, acompanhando Keberson Bresolin (2016), que em Günther:</p><p>A adequabilidade depende da descrição situacional completa do caso, da seleção das</p><p>características relevantes do caso, da seleção de normas relevantes para o caso e de sua</p><p>aplicação prima facie num sentido holístico entre relevância e adequação;</p><p>Os discursos de justificação buscam a validade das normas;</p><p>Os discursos de aplicação buscam indicar a norma adequada para o caso,</p><p>considerando as circunstâncias relevantes;</p><p>Com um PU “fraco”, normas podem ser consideradas válidas quando atendem aos</p><p>interesses recíprocos de todos;</p><p>Segundo o princípio formal da coerência, a norma adequada deve estar em coerência</p><p>formal com as demais normas do sistema jurídico.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. NA TEORIA DA ARGUMENTAÇÃO DE ROBERT ALEXY, PODEMOS</p><p>CONSIDERAR QUE O QUE JUSTIFICA, DO PONTO DE VISTA INTERNO, O</p><p>DISCURSO JURÍDICO É O PRINCÍPIO:</p><p>A) Da inclusão</p><p>B) Da racionalidade</p><p>C) Da veracidade</p><p>D) Da pertença</p><p>E) Da universalizabilidade</p><p>2. NA TEORIA DA ARGUMENTAÇÃO, EM KLAUS GÜNTHER, HÁ UMA</p><p>ÉTICA QUE SUSTENTA SUAS FORMULAÇÕES:</p><p>A) Ética das virtudes</p><p>B) Ética utilitarista</p><p>C) Ética consequencialista</p><p>D) Ética do discurso</p><p>E) Ética das preferências</p><p>GABARITO</p><p>1. Na teoria da argumentação de Robert Alexy, podemos considerar que o que justifica,</p><p>do ponto de vista interno, o discurso jurídico é o princípio:</p><p>A alternativa "E " está correta.</p><p>Um discurso é justificável internamente se atende ao princípio da universalizabilidade, que</p><p>estabelece que “há uma obrigação de tratar de certo modo todas as pessoas que pertencem à</p><p>mesma categoria” (ALEXY, 2001).</p><p>2. Na teoria da argumentação, em Klaus Günther, há uma ética que sustenta suas</p><p>formulações:</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>A teoria ética que sustenta a teoria da argumentação de Klaus Günther é a teoria do discurso</p><p>do filósofo alemão Jürgen Habermas. São válidas todas as normas que passam pelo teste do</p><p>PU, segundo o qual são consideradas válidas todas as normas cujo consentimento seja dado</p><p>por todos aqueles diretamente atingidos por elas.</p><p>CONCLUSÃO</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Visitamos três das principais teorias da argumentação que têm forte impacto sobre o nosso</p><p>pensamento moral e jurídico.</p><p>Como pudemos ver, a racionalidade prática não se deixa reduzir a uma forma lógica e</p><p>demonstrativa. Nesse aspecto, para garantir uma objetividade em nossos debates morais e</p><p>jurídicos, faz-se necessário estabelecer critérios capazes de serem recursivamente criticados e</p><p>justificados perante os indivíduos e a sociedade.</p><p>Esperamos que com as teorias da argumentação aqui apresentadas o seu senso crítico fique</p><p>mais aguçado diante dos necessários debates que você fará ao longo de sua jornada como</p><p>cidadão político, indivíduo ético e profissional.</p><p>AVALIAÇÃO DO TEMA:</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALEXY, Robert. Teoria da argumentação jurídica. São Paulo: Landy Editora, 2001.</p><p>ALEXY, Robert. Teoria discursiva do Direito. Organização de Alexandre Travessoni Gomes</p><p>Trivisonno. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.</p><p>ATIENZA, Manuel. As razões do Direito: teorias da argumentação jurídica. São Paulo: Landy</p><p>Editora, 2003.</p><p>ATIENZA, Manuel. O Direito como argumentação. Lisboa: Escolar Editora, 2014.</p><p>BRESOLIN, Keberson. Klaus Günther e a nova perspectiva sobre a teoria da</p><p>argumentação: justificação e aplicação. In: Revista Conjectura, Caxias do Sul, v. 21, n. 2, p.</p><p>338-361, maio/ago. 2016.</p><p>FRANKLIN, Mitchell. The philosophy and legal philosophy of Chaïm Perelman. In: Buffalo</p><p>Law Review, n. 261, 1970. Consultado em meio eletrônico em: 8 dez. 2020.</p><p>GROSS, Alan G.; DEARIN, Ray D. Chaïm Perelman. Albany: State University of Nova York</p><p>Press, 2002.</p><p>GÜNTHER, Klaus. Teoria da argumentação no Direito e na moral: justificação e aplicação.</p><p>São Paulo: Landy Editora, 2004.</p><p>MARTINS, Argemiro Cardoso Moreira; OLIVEIRA, Cláudio Ladeira de. A contribuição de</p><p>Klaus Günther ao debate acerca da distinção entre regras e princípios. In: Revista Direito</p><p>GV 3, v. 2, n. 1, p. 241-254, jan./jun. 2006. [Resenha].</p><p>PEDRON, Flávio Quinaud. A contribuição e os limites da teoria de Klaus Günther: a</p><p>distinção entre discursos de justificação e discursos de aplicação como fundamento para uma</p><p>reconstrução da função jurisdicional. In : Revista da Faculdade de Direito, Curitiba, n. 48, p.</p><p>187-201, 2008.</p><p>PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 1996.</p><p>PETERSON, Victor. Review essay: moral application discourses. In : Philosophy & Social</p><p>Criticism, v. 22, n. 1, p. 115-124, 1996.</p><p>EXPLORE+</p><p>Aprofunde os estudos sobre a teoria da argumentação de Chaïm Perelman e Lucie</p><p>Olbrechts-Tyteca lendo os artigos indicados a seguir.</p><p>GAMBA, Juliane Caravieri Martins; MONTAL, Zélia Maria Cardoso. A eterna busca pela</p><p>justiça: de Aristóteles a Chaïm Perelman. In: Semina: Ciências Sociais e Humanas,</p><p>Londrina, v. 29, n. 1, p. 3-22, jan./jun. 2008.</p><p>SILVEIRA, Regina Yara Martinelli. Retórica antiga e nova retórica: Chaïm Perelman e</p><p>os sofistas. In: Reflexão, Campinas, v. 31, n. 89, p. 75-82, jan./jun. 2006.</p><p>Aprofunde os seus estudos sobre as teorias de Robert Alexy e Klaus Günther:</p><p>BRESOLIN, Keberson. A “coerência” em decisões no Direito e na moral na teoria da</p><p>argumentação de Klaus Günther. In: Pensando: Revista de Filosofia, v. 7, n. 14, 2016.</p><p>SOARES, Marcos Antônio Striquer; LIMA, Priscila Rosa. Decisão judiciária: estudo do</p><p>pensamento de Robert Alexy. In: Revista de Direito Público, Londrina, v. 7, n. 2, p. 3-16,</p><p>maio/ago. 2012.</p><p>Para estudar um pouco mais sobre as implicações do caso Riggs versus Palmer no</p><p>Direito brasileiro, leia o artigo O caso Riggs vs. Palmer como um ‘modelo’ adequado para</p><p>decidir sobre os direitos fundamentais no panorama da constitucionalização do Direito no</p><p>Brasil .</p><p>CONTEUDISTA</p><p>Davi José de Souza da Silva</p><p> CURRÍCULO LATTES</p><p>javascript:void(0);</p><p>javascript:void(0);</p><p>político pelas possibilidades ou não</p><p>de aumentar o bem-estar da comunidade; e ambos apresentam limites no que tange à relação</p><p>entre orador e público. Tais limites são mediados pela objetividade dos fatos que sustentam o</p><p>conteúdo dessas modalidades de discurso. Todavia, o discurso epidíctico traz uma relação</p><p>diferente entre o orador e o auditório. Nele o auditório se relaciona diretamente com o orador, à</p><p>medida que, no tempo presente, o público precisa avaliar o discurso do orador.</p><p>Nessa relação direta, não existe o limite da “objetividade” dos fatos, das evidências, mas, sim,</p><p>uma liberdade de avaliar se esses valores foram ou não organizados de forma racional. Uma</p><p>vez que o discurso epidíctico não está sujeito às questões passadas do fato, nem às questões</p><p>futuras do bem-estar, a audiência precisa julgar aqui e agora se o discurso do orador é válido</p><p>ou não. Assim, os destinatários do discurso, o auditório, são centrais na construção dos</p><p>elementos persuasivos do orador.</p><p>A Nova retórica considera que:</p><p>Ao contrário da demonstração de um teorema de geometria, que estabelece de uma vez por</p><p>todas um vínculo lógico entre verdades especulativas, a argumentação do discurso epidíctico</p><p>se propõe a aumentar a intensidade da adesão a certos valores, sobre os quais não pairam</p><p>dúvidas quando considerados isoladamente, mas que, não obstante, poderiam não prevalecer,</p><p>contra outros valores que viessem a entrar em conflito com eles. O orador procura criar uma</p><p>comunhão em torno de certos valores reconhecidos pelo auditório, valendo-se do conjunto de</p><p>meios de que a retórica dispõe para amplificar e valorizar. [...] Os discursos epidícticos apelam</p><p>com mais facilidade a uma ordem universal, a uma natureza ou a uma divindade que seriam</p><p>fiadoras dos valores incontestáveis. Na epidíctica o orador se faz educador. (PERELMAN;</p><p>OLBRECHTS-TYTECA, 2002).</p><p>AUDITÓRIO</p><p>Para quem o orador, que exerce o papel de educador, articula a ordem universal dos valores?</p><p>Qual é o seu público? Quem é o destinatário de seu discurso? A Nova retórica considera que</p><p>existem dois tipos de audiências, de auditórios: particular e universal.</p><p>Para a particular, temos que todo argumento é dirigido a uma audiência específica em que o</p><p>orador tem de escolher quais são os fatos, as informações e as abordagens que irão gerar a</p><p>maior aderência possível. Por sua vez, o auditório universal tem como conteúdo os valores e</p><p>sua ordem. Ambos os auditórios não se constituem em algo fixo, pois dependem do orador, do</p><p>conteúdo, dos propósitos, da audiência.</p><p>Auditório particular</p><p>Audiência específica a quem o orador endereça os argumentos.</p><p>Audiência física que está presente.</p><p>Fatos, verdades e presunções.</p><p></p><p>Auditório universal</p><p>Potencial para escutar e concordar com o discurso do orador.</p><p>Formada pelo maior número possível de pessoas razoáveis e competentes para concordar.</p><p>Valores.</p><p>Confira a seguir um exemplo de auditório particular:</p><p>EXEMPLO</p><p>Podemos agora verificar um público específico, tal qual uma turma de alunos a quem um</p><p>professor se dirige; um grupo de pacientes a quem o médico realiza sua clínica; um grupo de</p><p>mecânicos a quem um piloto de Fórmula 1 passa um rádio; os eleitores a quem se dirige o</p><p>político; o tribunal a quem se dirige o advogado.</p><p>O auditório universal é uma construção mental e que não se confunde com a imagem de</p><p>assembleia ou de uma vastidão de pessoas. É importante que as razões trazidas sejam</p><p>universais, que tenham em sua estrutura a universalização dos argumentos. A questão está em</p><p>endereçar as razões ao público universal. O auditório universal modela o discurso do orador</p><p>em dois aspectos: o primeiro é que passa a ser um mecanismo heurístico que calibra as</p><p>escolhas dos argumentos selecionados pelo orador; o segundo é que passa a ser um critério</p><p>de seleção da qualidade do discurso que precisa ter aderência à qualidade do público.</p><p>Ao propor argumentos passíveis de universalização, é possível chegar a uma racionalidade</p><p>universal capaz de persuadir o maior público possível.</p><p>Agora, entenda como o discurso é direcionado no auditório universal:</p><p>EXEMPLO</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Um argumento endereçado à associação de desportos marítimos pode ser convincente para</p><p>esses atletas específicos. Certamente, não fará sentido para todos os cidadãos ou para</p><p>aqueles que não estão relacionados com desportos marítimos. Todavia, nada impede que um</p><p>discurso dirigido a um auditório particular carregue potenciais argumentos para um auditório</p><p>universal. Então, no mesmo exemplo, se estivermos falando da liberdade individual da prática</p><p>de desporto marítimos, ou seja, da escolha em torno da possibilidade de praticar desportos,</p><p>nada nos impede de ter razões universais sendo articuladas.</p><p>Mas o que torna possível o endereçamento de razões aos auditórios?</p><p>Tanto auditórios particulares quanto universais são possíveis porque entre orador e público</p><p>existe uma rede de significados comuns sobre os quais é possível fazer inferências, resgatar</p><p>sentidos, compreender palavras, vocabulário etc. Essa rede comum, na tradução em língua</p><p>portuguesa, é compreendida como contato de espíritos, aquilo que Perelman e Olbrechts-</p><p>Tyteca entenderam ser uma linguagem comum.</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>Para que haja uma relação entre orador e auditório é necessário que essa rede de significados</p><p>comuns esteja compartilhada, caso contrário a comunicação certamente se tonará sem sentido</p><p>e não será possível estabelecer as condições de exercício da racionalidade, ou seja, da</p><p>retórica.</p><p>Podemos verificar a quebra de comunicação utilizada na Nova retórica com o seguinte</p><p>exemplo:</p><p>EXEMPLO</p><p>Na obra Alice no País das Maravilhas , Alice, personagem central da história de Lewis Carroll,</p><p>não consegue estabelecer uma conversação com seus interlocutores porque, entendem</p><p>Perelman e Olbrechts-Tyteca, não há entre o País das Maravilhas e o nosso mundo (mundo de</p><p>Alice) regras comuns.</p><p>ARGUMENTAÇÃO E SEUS PONTOS DE</p><p>PARTIDA</p><p>A Nova retórica faz uma distinção entre demonstração e argumento.</p><p>Demonstração</p><p>Visa produzir verdade por meio do raciocínio consequente entre premissas e conclusões, as</p><p>quais podem ser produzidas num exercício solitário do cientista ou lógico, sem a necessidade</p><p>de conhecer as fontes ou as pessoas envolvidas na construção desse raciocínio. O que</p><p>interessa é a verdade do sistema, sua forma, sua capacidade de prever, o rigor formal de seus</p><p>axiomas, a ausência de ambiguidade de seus termos. Nesse aspecto, então, a demonstração</p><p>pode ser inteiramente um constructo do lógico formal, do cientista ou do lógico.</p><p></p><p>Argumento</p><p>Leva em consideração os aspectos psicológicos e sociais, sob pena de perder seus efeitos ou</p><p>seu objeto. Como sustentam Perelman e Olbrechts-Tyteca, o argumento visa à adesão dos</p><p>espíritos e, por isso mesmo, pressupõe a existência de um contrato intelectual. Só é possível a</p><p>argumentação, conforme vimos, se houver uma comunidade efetiva dos espíritos que esteja de</p><p>acordo, antes de mais nada e em princípio, sobre a comunidade intelectual.</p><p>Feita a presente distinção, podemos ver que o argumento parte de um quadro comum de</p><p>significados compartilhados entre os participantes da argumentação. Toda argumentação parte</p><p>de premissas aceitas pelo público, de um ponto de concordância, de uma base comum, que</p><p>Perelman e Olbrechts-Tyteca entendem ser dividida em duas categorias: a primeira lida com</p><p>fatos, verdades e presunções; a segunda lida com valores, hierarquias e lugares ou topos .</p><p>Com a primeira categoria, podemos afirmar que existem pontos de partida que lidam com a</p><p>javascript:void(0)</p><p>realidade. Com a segunda categoria, podemos dizer que existem pontos de partida que</p><p>lidam com o preferível.</p><p>Atenção! Para visualizaçãocompleta da tabela utilize a rolagem horizontal</p><p>Demonstração Argumento</p><p>Ponto de partida da realidade Pontos de partida do preferível</p><p>Verdades Hierarquias</p><p>Presunções Loci do preferível (Loci communes )</p><p> Categorias da argumentação.</p><p>Fonte: Davi José de Souza da Silva</p><p>DEMONSTRAÇÃO</p><p>- Solipsista (pode ser pensada sozinha)</p><p>- Axiomática</p><p>- Matemática</p><p>- Verdade</p><p>ARGUMENTO</p><p>- Intersubjetivo</p><p>- Social</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>- Psicológico</p><p>- Persuasão/Adesão</p><p>PONTO DE PARTIDA DA REALIDADE</p><p>Fatos</p><p>- Ideias discretas aceitas universalmente.</p><p>PONTOS DE PARTIDA DO PREFERÍVEL</p><p>Valores</p><p>- Ideias ou posições que são universais como generalizações, mas que só tem aderência</p><p>a certas audiências quando aplicadas sob certas circunstâncias. Valores podem ser</p><p>concretos ou abstratos. Concretos servem mais à manutenção das condições e abstratos,</p><p>à mudança das condições.</p><p>VERDADES</p><p>- Princípios ou ideias que são sustentados universalmente e que sistematizam fatos.</p><p>HIERARQUIAS</p><p>Sistemas que relacionam coisas de diferentes ou homogêneos tipos.</p><p>PRESUNÇÕES</p><p>Concepções que espelham a expectativa universal das audiências sobre o que é a</p><p>natureza e a realidade.</p><p>LOCI DO PREFERÍVEL (LOCI COMMUNES )</p><p>- Correspondem aos Topoi aristotélicos e constituem hierarquias baseadas em coisas</p><p>comuns ou diferentes.</p><p>Importante destacar os lugares-comuns (Loci communes ) ou Topoi . São quadros gerais</p><p>organizativos, “premissas de ordem geral que permitem fundar valores e hierarquias”. Para a</p><p>Nova retórica os lugares-comuns nos ajudam a “justificar a maior parte das nossas escolhas”.</p><p>Perelman e Olbrechts-Tyteca organizam seis categorias de lugares-comuns:</p><p>LUGARES DE QUANTIDADE</p><p>Afirmam que alguma é melhor que a outra por razões quantitativas.</p><p>LUGARES DA QUALIDADE</p><p>Contestam a virtude do número.</p><p>LUGARES DA ORDEM</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Afirmam a superioridade do anterior sobre o posterior.</p><p>LUGARES DO EXISTENTE</p><p>Afirmam a superioridade do existente, real, sobre o que é possível, eventual ou impossível.</p><p>LUGAR DA ESSÊNCIA</p><p>Afirma que o que é mais próximo do ideal é superior ao que se aproxima menos.</p><p>LUGAR DA PESSOA</p><p>Favorece o valor da vontade e do indivíduo.</p><p>PRESENÇA E COMUNHÃO</p><p>O argumento é um empreendimento intersubjetivo, ou seja, depende da ligação entre pessoas.</p><p>Diferentemente da demonstração, em que o lógico-matemático pode, de forma solitária, realizar</p><p>suas deduções, na argumentação é necessário que haja uma ligação entre o orador e o</p><p>auditório.</p><p>Já pudemos ver que essa ligação começa pela rede de comunicação compartilhada entre eles,</p><p>como a fábula Alice no País das Maravilhas nos mostrou. Assim, a argumentação reforça a</p><p>rede de comunicação existente. Considerando a diversidade de pontos de partida, sejam eles</p><p>os dados da realidade ou os valores, é necessário que o orador faça escolhas quando pretende</p><p>persuadir seu auditório. Essas escolhas devem ser suficientes para que o orador gere</p><p>presença e comunhão com o auditório.</p><p>PRESENÇA</p><p>A presença consiste em conseguir ganhar a atenção plena do auditório diante do discurso,</p><p>conduzindo-a para que leve em consideração os elementos relevantes da argumentação.</p><p>Poderíamos dizer, numa linguagem mais atual, que a presença é a capacidade do orador de</p><p>prender a atenção do público de modo a conduzir seu foco para os elementos relevantes do</p><p>diálogo persuasivo.</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Para que a presença se efetive, é necessário que o orador saiba dispor de maneira precisa</p><p>quais elementos trará para o discurso. Tais elementos precisam criar uma conexão com o</p><p>público.</p><p>Na Nova retórica , a presença atua de modo direto sobre a nossa sensibilidade, sendo um</p><p>dado psicológico que exerce uma ação no nível da percepção. O que está presente na</p><p>consciência adquire uma importância que a prática e a teoria da argumentação devem levar em</p><p>conta.</p><p>Veja, a seguir, exemplos de criação de presença:</p><p>EXEMPLO</p><p>Vejamos a história bíblica do encontro de Moisés com Javé. Ao se manifestar por meio da</p><p>sarça de fogo, que inibia Moisés de ver a força de Javé, o efeito da presentificação preparou</p><p>Moisés para que pudesse receber a mensagem. No filme O lobo de Wall Street , o</p><p>personagem Jordan Belfort, antes de iniciar uma venda, apresenta ao público, a um</p><p>destinatário específico, uma caneta. Prendendo a atenção do ouvinte com a visão da caneta</p><p>esferográfica, afirma: “venda-me esta caneta”. O clima, a ambiência e as imagens de um Ted</p><p>Talk prendem a atenção do público e para a mensagem.</p><p>COMUNHÃO</p><p>Quando a conexão psicológica é estabelecida com o público, podemos falar em , que ocorre</p><p>quando orador e auditório passam a compartilhar crenças comuns, valores e sentimentos,</p><p>gerando uma identificação.</p><p>Quando o orador comunga dos mesmos sofrimentos, das experiências, vivências e</p><p>inquietações, há maior possibilidade de persuadir o auditório em função do estabelecimento da</p><p>relação de identidade entre orador e público.</p><p>Veja, a seguir, um exemplo de comunhão:</p><p>EXEMPLO</p><p>Um técnico consagrado como Bernadinho tem bastante relação de identidade com jogadores e</p><p>profissionais do esporte em geral. Mas, também, por ter vivido em ambientes competitivos e de</p><p>muito estresse, Bernadinho tem a mesma comunhão com o mundo empresarial e de</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>executivos. Veja, a mesma pessoa é capaz de gerar comunhão em diferentes grupos, porque</p><p>sua vivência, história, suas crenças e atitudes podem ser compartilhadas.</p><p>LIGAÇÃO E DISSOCIAÇÃO</p><p>Conforme pudemos ver até aqui, o argumento é uma forma de expressão da racionalidade</p><p>discursiva existente entre o orador e o auditório. Nessa tarefa é necessário que o orador crie</p><p>conexões com o auditório. Para poder criar tais conexões é preciso organizar o discurso de</p><p>modo que reste fortalecido no sentido de que as premissas apresentadas possam levar às</p><p>conclusões indicadas. Nesse processo, devem ser estabelecidos esquemas argumentativos</p><p>que sejam sólidos e capazes de mobilizar o auditório para a conclusão defendida.</p><p>Por isso, a Nova retórica dedica uma parte de seu estudo à análise da estrutura dos</p><p>argumentos, considerados em si como maneira de explicitar em que bases podem ser criados.</p><p>Ligação</p><p>Dá-se quando um esquema argumentativo, do ponto de vista de sua estrutura interna, reforça</p><p>reciprocamente suas partes, ou seja, cada elemento contribui para a força do outro elemento</p><p>(E¹ + E² + E³....En).</p><p>Para a Nova retórica , a ligação está presente em esquemas argumentativos nos quais seus</p><p>elementos internos visam se reforçar reciprocamente, promovendo entre esses elementos uma</p><p>valorização positiva ou negativa. A ligação promove o reforço sistemático do argumento,</p><p>gerando solidez.</p><p></p><p>Dissociação</p><p>Está presente quando visamos deslocar o sentido de reforço mútuo, gerando uma força de</p><p>deslocamento, repulsão e criação de novo sentido.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Ligação e dissociação, entende a Nova retórica , constituem, para efeitos psicológicos, os dois</p><p>lados da mesma moeda. Para gerar ligação entre dois elementos de um argumento, é</p><p>necessário gerar uma dissociação em relação a um aspecto não desejado pelo orador. Sem</p><p>exaurir a temática e não deixando de contextualizar, a Nova retórica busca apresentar e</p><p>introduzir esses esquemas argumentativos para orientar os praticantes do discurso.</p><p>ESQUEMAS DE LIGAÇÃO</p><p>Focaremos no primeiro e mais explícito esquema de ligação argumentativa, sobretudo para</p><p>ligar você aos estudos de lógica e retórica: o argumento quase-lógico, semelhante aos</p><p>argumentos lógico-dedutivo ou comparável às inferências da lógica formal.</p><p>Nessa modalidade, há muita semelhança entre o argumento e a demonstração formal da lógica</p><p>dedutiva. Todavia, a complexidade desses argumentos não se deixa reduzir à estrutura da</p><p>demonstração lógico-formal.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Para tornar persuasivo o argumento, há todo um trabalho, por parte do orador, de tornar os</p><p>elementos do argumento semelhantes aos elementos do silogismo dedutivo.</p><p>Nesse esforço é que reside, justamente, sua natureza não lógica, pois, para sustentar o</p><p>formalismo, o orador terá de fazer escolhas, reduções, simplificações, ampliações, todas</p><p>dependentes de um</p><p>acordo geral de pano de fundo passível de problematização pelo auditório.</p><p>Quando explicitadas essas “incoerências”, “insuficiências” ou “reduções simplificadoras”,</p><p>contestáveis, no esquema de argumentação quase-lógico, entram em cena argumentos de</p><p>autoridade ou ad hominem para sustentar sua “persuasão”:</p><p>“O rigor da demonstração é evidente”, “veja como é matemática a conclusão”, “estar contra</p><p>essa exposição é contrariar a lógica” etc.</p><p>A seguir, confira o exemplo de um esquema quase-lógico:</p><p>EXEMPLO</p><p>javascript:void(0)</p><p>“P1: A santidade da vida constitui-se um valor intrínseco”; “P2: por isso, todos os seres viventes</p><p>devem ter sua vida protegida”; logo, “devemos aprovar leis que protejam animais humanos e</p><p>não humanos”. Perceba que existe uma série de elementos nessa argumentação que</p><p>dependem de acordos prévios sobre fatos da realidade e sobre valores que demandam muito</p><p>mais argumentação do que a forma silogística pode abarcar.</p><p>Os demais esquemas de ligação, que não poderemos esgotar aqui, podem ser classificados</p><p>como:</p><p>ESQUEMAS QUE APELAM À ESTRUTURA DA</p><p>REALIDADE</p><p>Buscam estabelecer uma relação de ligação entre os fenômenos da realidade e as conclusões</p><p>que visam defender. Esquemas que apelam à estrutura da realidade irão trabalhar os dados,</p><p>fatos e as sequências de fatos para estruturar suas conclusões. Nesse sentido, a Nova</p><p>retórica apresenta tais esquemas em:</p><p>Ligações de sucessão: a causalidade dos fatos irá resultar em revelar causas primeiras,</p><p>consequências, efeitos etc.</p><p>Ligações de coexistência: visam reunir realidades de níveis diferenciados para que uma</p><p>dê sustentação à outra. Diferentemente da ligação de sucessão, que visa demonstrar a</p><p>série sucessiva de fenômenos como consequente e inevitável – por isso explicativa –, a</p><p>ligação de coexistência visa gerar uma linha de explicação em que diferentes ordens</p><p>estão relacionadas, sendo uma determinante da outra. Um primeiro exemplo dado por</p><p>Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) é a da relação entre essência e aparência. Todavia,</p><p>nossos autores consideram a relação entre pessoa e ato uma ligação de coexistência</p><p>fundante.</p><p>ESQUEMAS QUE ESTABELECEM A ESTRUTURA DO</p><p>REAL</p><p>Nesses esquemas as ligações de sucessão e coexistências serão articuladas para</p><p>fundamentar os acordos sobre os fatos. No esquema anterior, se partiam de “fatos já</p><p>existentes”; neste, procura-se formular o acordo sobre o que podem ser considerados fatos na</p><p>argumentação. Aqui são centrais três conhecidas formas nossas:</p><p>A argumentação por exemplo: procuramos resolver o desacordo em torno de um fato,</p><p>trazendo seus elementos para o caso em dissenso;</p><p>A argumentação por ilustração e modelo: visa dar suporte, ampliar a força persuasiva de</p><p>um argumento, aumentando, assim, a aderência ao acordo;</p><p>A argumentação por analogia: visa estabelecer relações entre os termos, entidades,</p><p>elementos, do argumento visando ampliar a adesão à sua concordância.</p><p>ESQUEMAS DE DISSOCIAÇÃO</p><p>Se esquemas de ligação visam reforçar a estrutura dos argumentos, as técnicas de dissociação</p><p>visam evidenciar que determinadas associações não podem ser feitas, isto é, que certos</p><p>elementos do argumento não deveriam ser unidos, mas sim ficar separados, distintos ou não</p><p>associados.</p><p>Porém, muito mais do que dividir (decompor, analisar), as técnicas de dissociação visam à</p><p>restruturação profunda dos elementos do argumento, procurando recompô-los com outro</p><p>significado. Não se trata apenas de dividir, separar, decompor, mas de decompor para</p><p>recompor um novo elemento argumentativo capaz de gerar persuasão.</p><p>A dissociação das noções, como a concebemos, consiste num remanejamento mais profundo,</p><p>sempre provocado pelo desejo de remover uma incompatibilidade, nascida do cotejo de uma</p><p>tese com outras, trata-se de normas, fatos ou de verdades. Algumas soluções práticas</p><p>possibilitam resolver a dificuldade no plano exclusivo da ação, evitar que a incompatibilidade se</p><p>apresente, diluí-la no tempo, sacrificar um dos valores que entram em conflito, ou os dois. A</p><p>dissociação das noções corresponde, nesse plano prático, a um compromisso, mas conduz, no</p><p>plano teórico, a uma solução que valerá igualmente no futuro porque, ao reestruturar nossa</p><p>concepção do real, ela impede o reaparecimento dessa mesma incompatibilidade.</p><p>(PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA; 2002).</p><p>Então, como o argumento dissociativo se dá? Confira a seguir um caso prático da Filosofia</p><p>moral:</p><p>EXEMPLO</p><p>Diante da crença moral de que matar um ser humano é errado, ao mesmo tempo admitimos</p><p>que a legítima defesa é moralmente permissível. Nesse caso, estamos diante de uma</p><p>incompatibilidade: como matar um ser humano pode ser errado moralmente e a legítima defesa</p><p>javascript:void(0)</p><p>parece ser razoável? Uma das formas de conseguir resolver essa incompatibilidade é entender</p><p>a vida como um bem sob o qual tenho um direito. Em circunstâncias normais, o direito à vida</p><p>não pode ser de forma alguma ameaçado por um terceiro. Mas, se a minha vida é ameaçada</p><p>por alguém, posso, então, defender meu direito à vida contra aquele que me ameaça, uma vez</p><p>que, ao cometer um ilícito moral contra mim, aquele que me ameaça renuncia a seu direito</p><p>moral a fim de preservar sua própria vida. A introdução das distinções em torno do direito à vida</p><p>entra no argumento para que a dissociação se opere de modo a reconciliar aquilo que, num</p><p>primeiro momento, era incompatível.</p><p>Na prática jurídica, sobretudo a judicial, os magistrados a todo momento são levados a fazer</p><p>distinções para resolver aparentes conflitos entre as leis. Em alguns casos, essas distinções</p><p>apelam a um esquema formal de hierarquia de normas, mapeando a possibilidade de invalidar</p><p>uma norma em detrimento da outra por meio de uma subsunção baseada na compatibilidade</p><p>ou não da norma com o ordenamento jurídico.</p><p>Contudo, em outros casos, é preciso que o magistrado interprete e dê solução a um conflito</p><p>aparente de normas, sem, necessariamente, invalidar uma delas, mas antes preservando as</p><p>duas, ao mesmo tempo que encontra uma solução para a aparente incompatibilidade.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Em nosso ordenamento jurídico temos uma diversidade de técnicas dissociativas para as quais</p><p>podem apelar os juízes diante de casos difíceis, entendendo a Lei de Introdução às Normas</p><p>Brasileira (Lei nº 12.376, de 2010) em seu art. 4º que na omissão da norma o magistrado</p><p>poderá decidir pautado na analogia, nos costumes e nos princípios gerais do Direito.</p><p>Se nossa legislação permitiu de início a possibilidade de reconstrução por meio da dissociação,</p><p>podemos encontrar nas práticas interpretativas dos tribunais constitucionais e superiores o</p><p>constante exercício dissociativo, à medida que, provocados, precisam resolver sobre conflitos</p><p>aparentes de normas, mantendo as mesmas e sustentando em que casos e de que forma</p><p>podem ser compreendidas as noções que lhes sustentam.</p><p>Um caso interessante é o da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº</p><p>187, mais conhecida como o caso da marcha da maconha, na qual os ministros do Supremo</p><p>Tribunal Federal (STF) decidiram de forma favorável aos manifestantes.</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>A marcha da maconha é uma manifestação de cidadãos no mundo inteiro em favor de</p><p>mudança das leis em torno do uso da maconha, sobretudo clamando pela sua legalização,</p><p>regulamentação do comércio e seu uso. Ocorre que, no ordenamento jurídico penal brasileiro,</p><p>a norma do art. 287 do Código Penal afirma que constitui crime “fazer, publicamente, apologia</p><p>de fato criminoso ou de autor de crime: Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa”.</p><p>Dessa maneira, manifestar-se a favor da legiferação da economia, do uso, da medicina etc.</p><p>envolvendo a maconha constituiria apologia ao crime?</p><p>Eis então que a procuradoria-geral da República demandou que o referido dispositivo fosse</p><p>interpretado conforme a Constituição de modo que as manifestações não fossem proibidas. O</p><p>dispositivo previsto no art. 287 do Código Penal Brasileiro tipifica a apologia ao crime ou a um</p><p>criminoso.</p><p>Aqui começa o exercício</p><p>dissociativo do STF:</p><p>Foto: Fernando2jr/Wikimedia Commons/Domínio Público</p><p>MINISTRO CELSO DE MELLO</p><p>Em primeiro lugar, por meio do voto do ministro Celso de Melo, houve uma caracterização da</p><p>marcha como um evento cultural que reúne uma série de atividades musicais, literárias,</p><p>cinematográficas, discursivas, políticas etc. Em segundo lugar, entendeu à época decano que</p><p>debater a descriminalização de um fato não pode ser constituído um ilícito penal, sendo</p><p>compreendida a marcha como um movimento dos cidadãos que não pode ser limitado, ainda</p><p>que suas ideias sejam contrárias às da maioria ou pareçam ruins.</p><p></p><p>Foto: Superior Tribunal de Justiça STJ/Wikimedia Commons/licença CC BY 2.0</p><p>MINISTRO LUIZ FUX</p><p>Na mesma linha, porém, complementando, o ministro Luiz Fux entendeu por criar critérios</p><p>segundo os quais a caracterização da marcha poderia ser considerada um movimento dos</p><p>cidadãos na sua liberdade de expressão. Assim, indicou que as marchas devem ser pacíficas,</p><p>que não podem utilizar armas, tampouco incitar a violência, e que devem ser informadas às</p><p>autoridades públicas, indicando data, horário, local e objetivo do evento.</p><p>Podemos então perceber que o exercício dissociativo faz parte do cotidiano do exercício da</p><p>magistratura. O Direito está repleto de problemas, conflitos, incompatibilidades, apresentando</p><p>aos seus praticantes, a todo momento, a possibilidade de exercer esquemas e técnicas de</p><p>dissociação. Estas, muitas vezes, são realizadas para:</p><p>Excluir a tipicidade penal de determinado fato;</p><p>Excluir a tipicidade tributária de um fato na arena tributária;</p><p>Caracterizar uma justa causa na seara trabalhista;</p><p>Caracterizar ou descaracterizar um ato como ilícito ou não, dando ensejo à indenização;</p><p>Modular ou não um entendimento acerca dos contratos.</p><p>Podemos, então, encerrar com um exemplo do Direito privado:</p><p>EXEMPLO</p><p>É possível dizer que a função social dos contratos exerce um papel heurístico de análise de</p><p>cláusulas contratuais, à medida que modulam seu exercício para que nenhuma das partes se</p><p>beneficie ilicitamente com ganhos que não poderiam ser suportados, tampouco que haja</p><p>afetação da sociedade em geral, devendo o contrato distribuir seus ganhos para além das</p><p>partes contraentes.</p><p>A NOVA RETÓRICA COMO UM CONVITE À</p><p>RECONSTRUÇÃO RACIONAL DAS NOSSAS</p><p>PRÁTICAS MORAIS</p><p>Ao final deste módulo, queremos uma vez mais destacar que a Nova retórica tem por</p><p>objetivo fundamental apresentar que o mundo prático, das nossas questões em</p><p>sociedade, não pode ser reduzido à investigação empírica da natureza e sua ferramenta</p><p>clássica, a lógica formal.</p><p>A vida cotidiana moral, política e jurídica abraça nuances muito mais abrangentes e</p><p>significativas que a mera regularidade formal da natureza, o que hoje nem ao menos</p><p>representa a visão mais adequada do exercício da realização da ciência, uma vez que também</p><p>depende de acordos sobre fatos e valores.</p><p>Se os acordos são necessários para que possamos compreender fatos e valores, será que tais</p><p>acordos seriam meramente voluntaristas, dependentes das vontades das partes, sem</p><p>objetividade alguma? A Nova retórica apresenta para todos nós a forma pela qual é possível</p><p>pensar uma racionalidade discursiva que seja capaz de articular nossos problemas, nos dando</p><p>uma objetividade com a qual podemos lidar, à medida que nos vemos envolvidos em práticas</p><p>recíprocas de justificação. A obra de Perelman e Olbrechts-Tyteca é uma leitura indispensável</p><p>para o desenvolvimento da formação de cidadãos e juristas.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>A Nova retórica poderia ser considerada um exercício de reconstrução da racionalidade das</p><p>nossas práticas morais cotidianas.</p><p>No vídeo a seguir, o especialista Davi José de Souza da Silva descreve a Nova Retórica de</p><p>Chaïm Perelman como uma teoria da argumentação que pretende dar racionalidade ao</p><p>discurso acerca dos valores na moral e no Direito.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. NA NOVA RETÓRICA , CHAÏM PERELMAN E LUCIE OLBRECHTS-</p><p>TYTECA (1996) CONSIDERAM QUE ARISTÓTELES NÃO LEVOU</p><p>SERIAMENTE DETERMINADA MODALIDADE DE DISCURSO. ASSINALE A</p><p>SEGUIR A ALTERNATIVA QUE CORRETAMENTE INDICA QUAL FOI ESSA</p><p>MODALIDADE.</p><p>A) Deliberativo</p><p>B) Judicial</p><p>C) Epidíctico</p><p>D) Dialético</p><p>E) Sofístico</p><p>2. LEVANDO EM CONTA A DISTINÇÃO ENTRE DEMONSTRAÇÃO E</p><p>ARGUMENTAÇÃO, PODEMOS AFIRMAR QUE NA NOVA RETÓRICA :</p><p>A) Demonstrações científicas são adequadas para fundamentar nossos acordos morais.</p><p>B) Argumentos possuem estrutura lógica, por isso são capazes de dizer a verdade sobre o</p><p>mundo.</p><p>C) A lógica dedutiva do silogismo é capaz de captar o sentido das nossas práticas morais.</p><p>D) A estrutura argumentativa não se restringe à mera descrição dos fatos, captando o sentido</p><p>dos valores em dada comunidade.</p><p>E) A racionalidade científica depende, em sua demonstração, de um empreendimento</p><p>investigativo coletivo.</p><p>GABARITO</p><p>1. Na Nova retórica , Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca (1996) consideram que</p><p>Aristóteles não levou seriamente determinada modalidade de discurso. Assinale a seguir</p><p>a alternativa que corretamente indica qual foi essa modalidade.</p><p>A alternativa "C " está correta.</p><p>Na Nova retórica , a modalidade de discurso que Aristóteles deveria ter considerado é o</p><p>epidíctico. Por estar situado no presente, permite que se estabeleça uma relação atual entre</p><p>orador e auditório de modo a possibilitar um debate sobre os fatos e valores que importam para</p><p>a comunidade diante de uma situação concreta.</p><p>2. Levando em conta a distinção entre demonstração e argumentação, podemos afirmar</p><p>que na Nova retórica :</p><p>A alternativa "D " está correta.</p><p>A argumentação ultrapassa a lógica científica porque é capaz de captar fenômenos distintos</p><p>que não se reduzem à causalidade natural.</p><p>MÓDULO 2</p><p> Reconhecer os principais elementos conceituais das teorias da argumentação de</p><p>Robert Alexy e Klaus Günther</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>O objetivo deste módulo é identificar e reconhecer alguns dos principais elementos de duas</p><p>teorias da argumentação jurídica para que possamos melhorar nossa compreensão acerca dos</p><p>fenômenos sociais e jurídicos. Para isso, apresentaremos dois autores que possuem teorias</p><p>acerca da argumentação aplicadas ao Direito. Diferentemente de Perelman e Olbrechts-Tyteca,</p><p>esses dois pensadores não estavam formulando uma teoria geral da argumentação para</p><p>explicar como nossos acordos sobre valores podem ser racionais – na vida em sociedade, na</p><p>política ou no Direito.</p><p>As teorias que abordaremos aqui, de Robert Alexy e Klaus Günter, foram apresentadas</p><p>inicialmente para resolver problemas específicos do Direito e que poderiam ser reunidas de</p><p>forma didática num questionamento: como as decisões judiciais podem ser consideradas</p><p>racionais?</p><p>ROBERT ALEXY</p><p>Fonte: Foto: Contrib32523/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0</p><p> Robert Alexy.</p><p>Alexy é, de longe, um dos mais influentes e ricos pensadores do Direito de tradição romano-</p><p>germânica. Sua obra tem alcance em seu país de origem, Alemanha, e nos países continentais</p><p>europeus, como Espanha e Portugal, e na América Latina, tendo grande impacto em nosso</p><p>país, na Argentina, no Peru etc.</p><p>Desde 2008, Robert Alexy tem recebido uma série de títulos de Doutor Honoris Causa ,</p><p>muitos deles em universidades brasileiras, como a Universidade Federal do Piauí, Universidade</p><p>Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade do</p><p>Estado do Amazonas e Universidade Federal de Roraima.</p><p>Neste módulo veremos, principalmente, os pontos centrais expressos por Robert Alexy na sua</p><p>tese de doutorado, já citada, a Teoria da argumentação jurídica , daqui em diante denominada</p><p>TAJ.</p><p>ROBERT ALEXY</p><p>Nascido em 1945 na cidade de Oldenburgo, tem uma carreira acadêmica de ampla</p><p>envergadura. Graduado em Direito e Filosofia pela Universidade Georg-August em</p><p>Göttingen, Alemanha, em 1978 obteve o título de doutor em Filosofia com a obra Teoria</p><p>da argumentação jurídica (2001). Em 1984, obteve a livre-docência com a sua tese</p><p>Teoria dos direitos fundamentais (2015). Alexy hoje ocupa a cadeira</p><p>de Direito público e</p><p>Filosofia do Direito da Universidade Christian-Albrechts de Kiel (Alemanha).</p><p>PROBLEMA DA JUSTIFICAÇÃO DAS</p><p>SENTENÇAS JURÍDICAS</p><p>Robert Alexy (2001) apresenta o problema de plano: como justificar as decisões dadas pelos</p><p>juízes em suas sentenças?</p><p>Tal questionamento é ampliado quando se enxerga a insuficiência dos métodos de raciocínio</p><p>lógico-formal diante dos desafios da decisão judicial. A aplicação dedutiva de normas encontra</p><p>muitas dificuldades diante de pelo menos quatro problemas apontados por Robert Alexy:</p><p>javascript:void(0)</p><p>I</p><p>A linguagem jurídica é imprecisa, portanto, cheia de ambiguidades, vaguezas, indeterminações</p><p>etc.</p><p>II</p><p>Normas jurídicas entram em conflitos – vimos com Perelman e Olbrechts-Tyteca que uma</p><p>norma pode ter exatamente o sentido contrário da outra.</p><p>III</p><p>Casos novos e novas situações podem surgir e não estar previstos em uma norma jurídica</p><p>prévia.</p><p>IV</p><p>Casos especiais, situações únicas, ímpares, em que podem demandar novas decisões,</p><p>diferente das que foram dadas até aqui.</p><p>O desafio é conseguir sistematizar a justificação das decisões judiciais. A primeira tentativa de</p><p>sistematização se deu com o estabelecimento de cânones interpretativos. Porém, mesmo que</p><p>esses cânones tenham se desenvolvido (utilizados até hoje, por exemplo, “normas penais são</p><p>interpretadas restritivamente”), os estudiosos da metodologia jurídica (o que poderíamos</p><p>chamar, atualmente, de hermenêutica jurídica) não conseguiram chegar a um acordo sobre a</p><p>quantidade de regras interpretativas, se possuem alguma hierarquia, qual a sua natureza, sua</p><p>utilização de forma prioritária etc. Uma segunda tentativa se deu com a conclusão de que seria</p><p>impossível tratar da decisão judicial e avançar possibilidades de justificação do processo</p><p>decisório dos juízes sem o apelo aos valores.</p><p>Essa segunda tentativa de resposta introduziu de maneira bastante conclusiva a ideia de que</p><p>não há como decidir casos sem que se recorram a valores. Porém, mesmo com a introdução</p><p>do valor como elemento da decisão judicial, muitas dúvidas sobrevieram, por exemplo: como se</p><p>dá a relação entre os valores e os cânones interpretativos?</p><p>Introduzir os valores nas decisões judiciais não diminuiu a demanda por justificação, levando a</p><p>questionamentos centrais feitos por Robert Alexy (2001), como veremos a seguir.</p><p>Até que pontos os valores são necessários no julgamento?</p><p>Como os julgamentos de valor se relacionam com os cânones da interpretação jurídica e da</p><p>dogmática?</p><p>Os julgamentos de valor podem ser racionalmente justificáveis?</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Mas será que a introdução dos valores nas decisões judiciais levaria necessariamente a um</p><p>subjetivismo? Três repostas a esse problema foram dadas.</p><p>PRIMEIRA TENTATIVA</p><p>SEGUNDA TENTATIVA</p><p>TERCEIRA TENTATIVA</p><p>PRIMEIRA TENTATIVA</p><p>Segundo Robert Alexy, deu-se com a possibilidade de justificar as decisões judiciais com</p><p>valores universais ou com valores específicos de uma comunidade. Porém, o problema de</p><p>como justificar as decisões judiciais permanece ante a multiplicidade de valores, comunidades</p><p>e fatos.</p><p>SEGUNDA TENTATIVA</p><p>Deu-se com a possibilidade de justificar os valores das decisões judiciais fazendo referência ao</p><p>próprio ordenamento jurídico. Todavia, a multiplicidade das normas, de sua hierarquia, de</p><p>momentos e fatos também traz imensa dificuldade para que se encontre uma metodologia</p><p>capaz de dar conta da justificação das decisões judiciais baseada em valores.</p><p>TERCEIRA TENTATIVA</p><p>A última tentativa levantada por Robert Alexy é o apelo a uma ordem valorativa “objetiva” e</p><p>“transcendente”, portanto atemporal, com o jusnaturalismo. Nesse caso, o problema ainda</p><p>permanece: como saber qual dos valores deve ser utilizado na ordem suprapositiva? Por</p><p>último, caberia apenas aos dados empíricos, mas estes não são passíveis de fundar normas.</p><p>UMA TEORIA ANALÍTICO-NORMATIVA</p><p>Para tentar solucionar o problema de justificação com base em valores de decisões judiciais,</p><p>Robert Alexy propõe conceber a atividade jurídica como um discurso prático. Discurso porque é</p><p>uma atividade essencialmente linguística, argumentativa; prático porque trata de normas, ou</p><p>seja, do estabelecimento de padrões coercitivos para a conduta. Alexy (2001) concebe então</p><p>que o “discurso jurídico é um caso especial do discurso prático geral”.</p><p>Como discurso, poderíamos pensar que o discurso jurídico pode ser visualizado em pelo</p><p>menos três possibilidades:</p><p>EMPÍRICO</p><p>ANALÍTICO</p><p>NORMATIVO</p><p>EMPÍRICO</p><p>Visa descrever o discurso em frequência, relevância, motivações, situações e outros elementos</p><p>que podem caracterizar o discurso do ponto de vista dos fatos. Nessa abordagem, deve ser</p><p>estudado por cientistas sociais.</p><p>ANALÍTICO</p><p>Dedica-se à análise da estrutura do discurso pelo ponto de vista da lógica.</p><p>NORMATIVO</p><p>Visa propor critérios justificatórios para a prática judicial.</p><p>Considerando essas três formas de abordagem, Alexy entende que sua teoria é uma proposta</p><p>analítico-normativa. Analítica porque pretende demonstrar a estrutura interna dos discursos</p><p>jurídicos como um caso especial do discurso prático geral. Normativa porque visa prescrever</p><p>em que situações, circunstâncias e regras uma decisão judicial pode ser justificada. Para isso,</p><p>pretende desenvolver os “critérios em que pode ser considerada racional uma decisão judicial”</p><p>(ALEXY, 2001). Uma vez que o discurso jurídico é um caso especial do discurso prático, Robert</p><p>Alexy já nos diz que uma das primeiras implicações dessa constatação é o fato de que o</p><p>discurso jurídico opera sobre circunstâncias limitadoras determinadas pelo próprio</p><p>ordenamento jurídico. O ordenamento jurídico possui limites impostos por si mesmo, devendo a</p><p>decisão judicial, como caso especial do discurso prático geral, atender a esses</p><p>constrangimentos impostos pelo ordenamento.</p><p>Um segundo aspecto a ser enfrentado pela TAJ concerne à relação entre discurso jurídico e</p><p>discurso prático geral, entre argumentação jurídica e argumentação prática geral. Nesse</p><p>sentido, estamos diante da relação entre Direito e moral, aqui traduzidos em termos de teoria</p><p>da argumentação. Segundo Robert Alexy (2001), essa relação tem sido descrita em pelo</p><p>menos três possibilidades:</p><p>TESE DA SUBORDINAÇÃO</p><p>TESE DA SUPLEMENTAÇÃO</p><p>TESE DA INTEGRAÇÃO</p><p>TESE DA SUBORDINAÇÃO</p><p>A justificação das decisões judiciais é fundamentada no argumento prático geral, sendo o</p><p>argumento jurídico meramente subordinado a este, uma forma de legitimação secundária ao</p><p>argumento prático.</p><p>TESE DA SUPLEMENTAÇÃO</p><p>Os argumentos jurídicos têm limites e quando os alcançam passam a ser suplementados por</p><p>argumentos morais.</p><p>TESE DA INTEGRAÇÃO</p><p>Quando são combinados argumentos jurídicos e argumentos morais.</p><p>DISCURSO JURÍDICO COMO CASO</p><p>ESPECIAL DO DISCURSO PRÁTICO</p><p>Um discurso prático é um argumento sobre normas morais. Assim, um conselho, “você deveria</p><p>estudar mais hermenêutica”, faz parte de um discurso prático. Uma regra proibindo entrar de</p><p>sapatos em casa é um discurso prático. Uma orientação médica é um discurso prático. Uma</p><p>norma de trânsito é um discurso prático.</p><p>Trata-se de discurso no âmbito de uma conversação que se comunica por meio de uma</p><p>linguagem comum. Trata-se de prático no sentido de que estabelece regras para o</p><p>comportamento dos agentes. Padrões de conduta.</p><p>Mas em que condições podemos considerar válida a formulação desses discursos que afetam</p><p>nosso comportamento?</p><p>A teoria de Alexy é uma teoria justificatória, porque se preocupa em investigar em quais</p><p>condições podemos considerar válido um discurso prático geral. Mas qual é a forma desse</p><p>discurso prático geral?</p><p>REGRAS DO DISCURSO PRÁTICO GERAL</p><p>Robert Alexy (2001) entende em primeiro lugar as regras básicas:</p><p>“Nenhum orador pode se contradizer.”</p><p>“Todo orador pode afirmar apenas aquilo em que crê.”</p><p>“Todo orador que aplique um predicado F a um objeto tem de estar preparado para aplicar</p><p>F a outro objeto que seja semelhante a Z em todos os aspectos importantes.”</p><p>“Diferentes oradores</p><p>podem não usar a mesma expressão com diferentes significados.”</p><p>Somadas às regras básicas do discurso prático geral, temos as regras da racionalidade do</p><p>discurso prático geral. Nesse caso, Alexy (2001) quer nos demonstrar quando um discurso</p><p>prático geral pode ser considerado racional, portanto, válido. Assim:</p><p>“Todo orador tem de dar razões para o que afirma quando lhe pedem para fazê-lo, a</p><p>menos que possa citar razões que justifiquem uma recusa em dar justificação” – Regra</p><p>geral de justificação.</p><p>e.1. “Qualquer pessoa pode participar de um discurso.”</p><p>Da regra geral de justificação decorrem, ainda, as regras que regem a liberdade de</p><p>discussão:</p><p>e.1.1 “Todos podem transformar uma afirmação num problema.”</p><p>e.1.2 “Todos podem introduzir qualquer afirmação no grupo.”</p><p>e.1.3 “Todos podem expressar suas atitudes, seus desejos e necessidades.”</p><p>e.1.4 “A liberdade de discurso é importante no discurso prático.”</p><p>Por último, a regra que visa proteger o discurso de qualquer coerção:</p><p>“Nenhum orador pode ser impedido de exercer os direitos estabelecidos por qualquer tipo</p><p>de coerção interna ou externa.”</p><p>Somadas, (e) e (f) podem ser consideradas o que Robert Alexy (2001) denomina de regras de</p><p>racionalidade do discurso.</p><p>Existem ainda as “regras para partilhar a carga da argumentação”, que irão distribuir os</p><p>encargos de justificar o discurso; as “regras de justificação” (ALEXY, 2001), conjunto de regras</p><p>que testa a validade das regras sendo aplicadas, e que, em sua maioria, constitui testes de</p><p>generalização; as “regras de transição” (ALEXY, 2001), para resolução de problemas tais como</p><p>questões de fato, previsão de consequências etc. Considerando que discurso jurídico é um</p><p>caso especial do discurso prático geral, resta explicitar as suas regras, lembrando que há uma</p><p>conexão com o discurso moral.</p><p>REGRAS DO DISCURSO JURÍDICO</p><p>Visto o discurso prático geral, Robert Alexy (2001) parte para definir as regras do discurso</p><p>jurídico. Assim, a primeira consideração é a de que a argumentação jurídica se diferencia em</p><p>relação à argumentação prático geral no sentido de que a primeira possui uma ligação com as</p><p>normas jurídicas, sendo caracterizada por ligar-se de alguma forma “com a lei válida”. A</p><p>consequência dessa ligação é que o discurso jurídico possui certas limitações impostas pelo</p><p>ordenamento jurídico, e tais limitações, segundo Alexy (2001), não estão abertas ao debate.</p><p>Dessa maneira, Alexy está nos demonstrando que os cânones e elementos jurídicos existentes</p><p>na ordem positiva, seja na legislação, seja na dogmática jurídica, restringem o campo de</p><p>atuação do discurso jurídico – limitações que o discurso prático geral não tem.</p><p>O discurso jurídico precisa se justificar de tal forma que consiga ser considerado pertinente ao</p><p>ordenamento jurídico. Por isso, Robert Alexy (2001) indaga:</p><p></p><p>[...] A EXIGÊNCIA DE CORREÇÃO, NA VERDADE,</p><p>TAMBÉM SURGE NO DISCURSO JURÍDICO, MAS ESSA</p><p>EXIGÊNCIA, DIFERENTEMENTE DO DISCURSO</p><p>PRÁTICO GERAL, NÃO SE PREOCUPA COM A</p><p>RACIONALIDADE ABSOLUTA DA AFIRMAÇÃO</p><p>NORMATIVA EM QUESTÃO, MAS APENAS COMO</p><p>MOSTRAR QUE PODE SER RACIONALMENTE</p><p>JUSTIFICADA NO CONTEXTO DE VALIDADE DA</p><p>ORDEM JURÍDICA PREVALECENTE?</p><p>A teoria do discurso jurídico como caso especial do discurso prático visa responder a esse</p><p>questionamento. Para tanto, Robert Alexy (2001) apresenta os seus traços. Vejamos seus</p><p>elementos principais.</p><p>Em primeiro lugar, Alexy entende que um discurso jurídico precisa ser justificado duplamente:</p><p>Justificação interna</p><p>De um ponto de vista interno, precisa demonstrar que seus argumentos são corretos se suas</p><p>premissas levam às conclusões defendidas – assim, um argumento jurídico precisa ter</p><p>justificação interna.</p><p></p><p>Justificação externa</p><p>Saber se as premissas escolhidas pelo argumento são em si justificáveis, sem considerar a</p><p>relação com as conclusões, é a tarefa para as regras da justificação externa.</p><p>Na sequência dos argumentos de Robert Alexy, comecemos pelas regras de justificação</p><p>interna. Tais regras dizem respeito à estrutura do silogismo jurídico e à forma pela qual pode</p><p>ser considerado racional. Na formulação básica de todo e qualquer silogismo temos que uma</p><p>norma jurídica pode enunciar:</p><p>p¹: Todo guarda de trânsito deve usar identificação.</p><p>p²: Marco Antônio é guarda de trânsito; logo, deve usar distintivo.</p><p>Robert Alexy justifica racionalmente a lógica interna do argumento apresentado aqui,</p><p>baseando-se em algumas regras:</p><p>REGRA 1</p><p>REGRA 2</p><p>REGRA 3</p><p>REGRA 4</p><p>REGRA 1</p><p>Primeiramente, temos o princípio da universalizabilidade que fundamenta a justiça formal</p><p>segundo a qual não é possível tratar casos desiguais de maneira desigual. O quantificador</p><p>[todo] presente no silogismo impõe um elemento de universalizabilidade que alcança a</p><p>exigência normativa de se tratar igualmente todos os casos que estejam na mesma categoria</p><p>(ALEXY, 2001).</p><p>REGRA 2</p><p>Por conseguinte, surgem duas outras regras: “ao menos uma norma universal precisa ser</p><p>aduzida na justificação de um argumento jurídico”.</p><p>REGRA 3</p><p>E “um julgamento jurídico precisa seguir logicamente ao menos uma norma universal</p><p>juntamente com outras afirmações”.</p><p>REGRA 4</p><p>Mas é possível que uma primeira demonstração não seja suficiente, sobretudo considerando</p><p>casos difíceis: “tantos passos/desenvolvimento quanto possíveis devem ser articulados” para</p><p>que as regras anteriores sejam passíveis de serem aplicadas na justificação de decisões</p><p>judiciais (ALEXY, 2001).</p><p>Consideradas em conjunto, pode-se afirmar que essas regras da justificação interna da decisão</p><p>judicial formam a racionalidade interna do argumento judicial. Sua estrutura reunida compõe o</p><p>que Alexy (2001) denomina “regras e formas da justiça formal”. Todavia, essas regras não</p><p>garantem plenamente a racionalidade das decisões judiciais. É preciso um segundo passo: as</p><p>regras de justificação externa.</p><p>Para Robert Alexy (2001), no processo de justificação racional de uma decisão judicial, suas</p><p>premissas podem ser de três tipos:</p><p>Baseadas no Direito positivo, na lei;</p><p>Baseadas em afirmações empíricas;</p><p>Premissas que não são baseadas na lei nem nas afirmações empíricas.</p><p>Esses tipos de argumentos não são estanques e podem se relacionar. Por isso, Alexy organiza</p><p>as formas de justificação externa em seis grupos: (i) estatuto; (ii) dogmática; (iii) precedente;</p><p>(iv) razão; (v) fatos; e (vi) formas específicas de argumentos jurídicos. Trataremos de quatro</p><p>deles a seguir:</p><p>(I) ESTATUTO</p><p>Lida com a questão empírica trazida ao discurso judicial. Quando se fala em questão empírica,</p><p>está se falando de questões pertinentes às normas jurídicas, quando foram produzidas, quais</p><p>são superiores a outras, se uma norma atual revoga uma passada etc. Trata-se da empiria da</p><p>norma. Quais fatos deverão ser considerados na relação de pertinência ou não das normas. É</p><p>impossível descrever todas as situações e os elementos da empiria que podem ser aduzidos a</p><p>um discurso jurídico. Ao mesmo tempo, existem limitações temporais. Por último, o discurso</p><p>jurídico não se reduz aos dados da empiria.</p><p>Para resolver a relação entre a empiria e as decisões judiciais, cânones de interpretação</p><p>foram desenvolvidos pela prática e teoria jurídica. Alexy (2001) os enumera:</p><p>Argumentos semânticos: quando um argumento é justificado em função de seu</p><p>significado fazer parte da compreensão daquela comunidade sobre determinado termo.</p><p>Argumentos genéticos: quando uma interpretação é justificada por fazer parte da</p><p>intenção do legislador.</p><p>Argumento histórico: quando a história jurídica do caso é trazida para justificar ou não</p><p>um argumento.</p><p>Argumento comparativo: quando justifica decisões atuais com decisões do passado ou</p><p>de outro ordenamento jurídico.</p><p>Argumento sistemático: quando justifica uma decisão com base na posição de uma</p><p>norma ou na relação que ela tem com outras normas.</p><p>Argumento teleológico: quando justifica uma decisão judicial com base em</p><p>determinados fins.</p><p>Para dar racionalidade discursiva a esses cânones, Robert Alexy (2001) propõe as regras</p><p>descritas a seguir.</p><p>Saturação: todos</p><p>os argumentos pertencentes aos cânones devem ser saturados, ou</p><p>seja, esgotados (REGRA 5).</p><p>Precedência da vontade da lei ou do legislador: os argumentos pertinentes à vontade da</p><p>lei ou do legislador devem ter precedência sobre outros argumentos, devendo haver</p><p>justificação quando não for o caso (REGRA 6).</p><p>Argumentos de diferentes formas devem obedecer a regras de pesagem (REGRA 7).</p><p>Todos os argumentos produzidos sobre as condições de liberdade do discurso jurídico</p><p>podem contar como pertencentes ao cânone jurídico e merecem a devida consideração</p><p>(REGRA 8).</p><p>(II) DOGMÁTICA</p><p>A dogmática jurídica representa, para Robert Alexy (2001), a ciência do Direito em seu sentido</p><p>mais estrito, concernente a pelo menos três atividades:</p><p>Descrever a lei em vigor, denominada descritiva-empírica;</p><p>Conceituar e sistematizar a lei, denominada lógica-analítica;</p><p>Propor soluções aos problemas jurídicos, denominada normativa-prática.</p><p>Para que as proposições dogmáticas sejam consideradas racionais no momento do discurso</p><p>jurídico, a TAJ considera que “toda proposição dogmática tem de ser justificada com recurso,</p><p>ao menos um argumento prático geral, sempre que estiver sujeita a dúvida” (REGRA 9); “Toda</p><p>proposição dogmática tem de ser capaz de passar num eixo sistemático tanto no sentido mais</p><p>estreito quanto num sentido mais amplo” (REGRA 10); e “sempre que argumentos dogmáticos</p><p>forem possíveis, eles devem ser usados” (REGRA 11).</p><p>(III) PRECEDENTES</p><p>Um precedente é uma decisão judicial anterior que estabelece o padrão de decisão para o caso</p><p>vinculando todas as decisões judiciais que possuam os mesmos critérios para que decidam da</p><p>mesma maneira ou impondo a todas as decisões judiciais que possuam critérios análogos o</p><p>ônus de justificar por que decidirão de forma diferente. Robert Alexy (2001) considera que usar</p><p>os precedentes atende ao princípio da universalizabilidade, à medida que é uma exigência</p><p>da justiça formal tratar casos com os mesmos critérios de modo igual. A TAJ considera que, se</p><p>um precedente vier a ser utilizado, duas regras devem ser seguidas: “se um precedente pode</p><p>ser citado a favor ou contra uma decisão, ele deve ser citado” (REGRA 12); “quem desejar</p><p>partir de um precedente fica com o encargo do argumento” (REGRA 13).</p><p>(IV) FORMAS ESPECIAIS DO ARGUMENTO JURÍDICO</p><p>Alexy (2001) entende que são formas especiais do argumento jurídico os seguintes casos:</p><p>analogia, argumentos e contrário, argumentum a fortiori e argumentum ad absurdum . Já</p><p>estudamos neste tema a analogia, que é o oposto ao argumento e contrário, pois apela para as</p><p>diferenças e não para as semelhanças. O argumento a fortiori é um clássico argumento</p><p>jurídico, pautado na ideia de que uma razão mais forte deve prevalecer, também conhecido</p><p>pelo brocardo “quem pode no mais, pode no menos”. Assim, por exemplo, “se estou autorizado</p><p>a fazer reforma na casa, por força do contrato de aluguel, então estou autorizado a pintar as</p><p>suas paredes”, pois “se posso reformar uma casa, posso pintar suas paredes”. O argumento ad</p><p>absurdum , diante de um argumento, pode ser descartada uma das suas conclusões pelas</p><p>consequências esdrúxulas ou ridículas. Para essas formas de argumento, a TAJ entende que</p><p>uma decisão judicial, se pautada nelas, será racional quando “formas especiais de argumento</p><p>jurídico têm de ser razões para serem afirmadas plenamente, isto é, devem alcançar a</p><p>saturação”.</p><p>Conhecidas as regras, fizemos um resumo para você. Tal resumo está na obra original de</p><p>Robert Alexy (2001).</p><p>REGRAS DO DISCURSO JURÍDICO</p><p>Regras da justificação interna</p><p>1.1 Ao menos uma norma universal tem de ser aduzida na justificação de um</p><p>argumento jurídico.</p><p>javascript:void(0)</p><p>1.2 Um julgamento jurídico tem de seguir logicamente ao menos uma norma</p><p>universal juntamente com outras afirmações.</p><p>1.3 Sempre que houver uma dúvida se a é um T ou um M, deve ser apresentada</p><p>uma regra que resolva a questão.</p><p>1.4 O número de passos e de decomposição requerido é aquele número que torna</p><p>possível o uso de expressões cuja aplicação em dado caso não admita mais</p><p>disputas.</p><p>1.5 Devem ser articulados tantos passos de decomposição quantos forem</p><p>possíveis.</p><p>Regras da justificação externa</p><p>2.1 Não existe elaboração para regras e formas especiais.</p><p>2.2 Regras e formas de interpretação.</p><p>2.2.1 Regras de interpretação semântica</p><p>2.2.1.1 Em razão de W¹, R’ tem de ser aceito como uma interpretação de</p><p>R’.</p><p>2.2.1.2 Em razão de W², R’ não pode ser aceito como uma interpretação</p><p>de R’.</p><p>2.2.1.3 É possível fazer ambos, aceitar ou não aceitar R’, como uma</p><p>interpretação de R, desde que nem W¹ nem W¹ se mantenham.</p><p>2.3 Regras para os cânones</p><p>2.3.1 Saturação, todo argumento que pertença aos cânones deve ser</p><p>saturado.</p><p>2.3.2 Argumentos que dão expressão à vontade da lei e do legislador têm</p><p>precedência sobre os demais argumentos, mesmo se houver razões para que</p><p>a precedência seja revogada.</p><p>2.3.3 Argumentos de diferentes formas devem se conformar às regras de</p><p>pesagem.</p><p>2.3.4 Todo argumento possível que possa ser proposto de tal modo que não</p><p>possa ser cotado como um dos cânones da interpretação deve obter a devida</p><p>consideração.</p><p>2.4. Regras da argumentação dogmática</p><p>2.4.1 Regra geral para os precedentes.</p><p>2.4.1.1 Se um precedente puder ser citado a favor ou contra uma decisão, ele</p><p>deve ser citado.</p><p>2.4.1.2 Quem quiser partir de um precedente fica com o encargo do</p><p>argumento.</p><p>2.5 Formas especiais de argumentos jurídicos</p><p>2.5.1 Formas de argumentos jurídicos especiais devem ter razões para ser citadas</p><p>por completo, isto é, tem de chegar à saturação.</p><p>Identificar o discurso jurídico com um caso do discurso prático geral é uma forma de dar</p><p>racionalidade às decisões judiciais, retirando delas a possível acusação de subjetivismo. A</p><p>análise de Robert Alexy nos dá um quadro em que podemos nos orientar de maneira racional.</p><p>Evidentemente, suas proposições são passíveis de crítica, mas, ao fazê-las, já admitimos o</p><p>jogo da argumentação – portanto, passamos a acreditar que é possível fundamentar as</p><p>decisões judiciais de modo racional.</p><p>No vídeo a seguir, o especialista Davi José de Souza da Silva descreve o pensamento de Alexy</p><p>sobre a justificativa das decisões.</p><p>KLAUS GÜNTHER</p><p>Nesta última etapa do nosso módulo sobre teorias da argumentação jurídica, veremos os</p><p>principais elementos teórico-conceituais da obra Teoria da argumentação no Direito e na moral:</p><p>justificação e aplicação (2004), do jurista alemão Klaus Günther. É reconhecidamente um</p><p>filósofo e jurista preocupado com uma diversidade de temas, desde o Direito penal até as</p><p>formas de justificação da decisão judicial. Neste módulo traremos suas contribuições para a</p><p>teoria da argumentação, nos concentrando, sobretudo, na argumentação jurídica.</p><p>A obra é apresentada pelo professor Luis Moreira (GÜNTHER, 2004), que nos explica sua</p><p>organização:</p><p>KLAUS GÜNTHER</p><p>Considerado um membro da terceira geração da Escola de Frankfurt, Klaus Günther é</p><p>professor na Göethe-Universität, em Frankfurt am Main, na Alemanha.</p><p>1ª PARTE</p><p>2ª PARTE</p><p>3ª PARTE</p><p>4ª PARTE</p><p>1ª PARTE</p><p>É dedicada ao problema da aplicação na ética do discurso – Klaus Günther indaga se seria</p><p>possível que discursos de fundamentação fossem substituídos por discursos de aplicação.</p><p>2ª PARTE</p><p>Aborda o problema de aplicação de normas no desenvolvimento da consciência moral.</p><p>javascript:void(0)</p><p>3ª PARTE</p><p>Estuda o processo de adequação na moral, no qual são analisados os problemas de colisão de</p><p>normas e os elementos de uma lógica da adequação na argumentação moral.</p><p>4ª PARTE</p><p>É dedicada à análise das argumentações de adequação no Direito, em que se analisa as</p><p>formas de diferenciação entre Direito e moral na ética do discurso e o problema da indefinição</p><p>das normas jurídicas.</p><p>Klaus Günther (2004) prefacia sua obra nos afirmando que sua tese principal é a de que não é</p><p>possível abdicar da razão prática. Por razão prática podemos entender a moralidade como</p><p>sistema normativo capaz de fornecer princípios e regras orientadores do comportamento e da</p><p>conduta.</p><p>Quando</p><p>Klaus Günther nos diz que não é possível abrir mão da razão prática, ele está nos</p><p>informando que sem a moral, no contexto da aplicação do Direito, sobretudo da decisão</p><p>judicial, não poderemos dar decisões que possam atender às expectativas das partes</p><p>interessadas na realização da justiça.</p><p>Por isso, Klaus Günter retoma o exemplo do caso Riggs versus Palmer (que chamaremos de</p><p>exemplo 1):</p><p>EXEMPLO 1</p><p>O herdeiro Elmer E. Palmer, sabendo que seu avô modificaria o testamento, não lhe deixando</p><p>herança, cometeu assassinato, tirando a vida de seu avô. O caso ocorreu no estado de Nova</p><p>York, nos Estados Unidos, e à época não existia uma norma jurídica positiva, uma lei, um</p><p>decreto etc. que proibisse um indivíduo que mata seu “genitor” de herdar seus bens. Apesar do</p><p>processo criminal, Elmer estaria, por ausência de previsão legal positiva, habilitado a receber a</p><p>herança. As tias de Elmer ajuizaram ação para invalidar o testamento deixado por seu pai,</p><p>solicitando a exclusão do sobrinho do testamento. A Corte de Apelações do Estado de Nova</p><p>York entendeu que Elmer não poderia herdar se beneficiando de seu crime, recorrendo ao</p><p>princípio geral de que ninguém pode se beneficiar de sua própria torpeza.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Klaus Günther retoma esse caso para nos dizer que, sem a utilização da razão prática, esse</p><p>caso não poderia ter sido resolvido. Para Günther, a relação entre moral e Direito será</p><p>fundamental, pois o Direito será subordinado à moral. Todavia, não apenas na busca ou</p><p>definição de princípios corretos para os casos a moralidade será necessária. No momento da</p><p>aplicação também será necessária, pois o “senso de equidade não se revela apenas em seguir</p><p>princípios corretos, mas também em aplicá-los de forma imparcial considerando todas as</p><p>condições especiais” (GÜNTHER, 2004). Com isso, Günther está querendo nos dizer que não</p><p>bastam apenas discursos de justificação, mas é necessário também que consigamos</p><p>estabelecer discursos de aplicação da moral e do Direito.</p><p>Em outras palavras, apenas critérios que estabeleçam a racionalidade do argumento de</p><p>fundamentação da decisão, ou seja, que informam que a Decisão D é racional em função de R,</p><p>não são suficientes, pois é preciso saber se a racionalidade R é adequada para o caso C.</p><p>Vejamos outro exemplo:</p><p>EXEMPLO 2</p><p>Imagine que você se comprometeu com uma agenda de trabalho a estar no escritório às 20h,</p><p>porém, no caminho para o compromisso, você encontrou uma pessoa ensanguentada na rua e</p><p>parou para ajudá-la. Percebamos que, nesse caso concreto, você está diante da obrigação de</p><p>comparecer ao escritório e, ao mesmo tempo, de salvar alguém em perigo. Nesse caso, qual</p><p>decisão seria mais adequada ao caso? Atentemos para o fato de que não é a justificação das</p><p>regras de salvamento ou de cumprimento de promessas que está em causa, mas sim de qual</p><p>norma parece mais apropriada ao caso concreto.</p><p>Para demonstrar a necessidade de adequação, Günther inicia com a distinção entre discursos</p><p>de justificação e discursos de aplicação.</p><p>Nos discursos de justificação o que se procura fazer é encontrar o critério que estabelece</p><p>quando uma norma moral pode ser considerada válida. Günther resgata a ética do discurso</p><p>de Jürgen Habermas para sustentar que uma norma moral é válida quando obedece ao</p><p>princípio de universalização (PU) da ética do discurso. Assim, para que compreendamos:</p><p>Para a ética do discurso, uma norma é considerada válida quando pode contar com a</p><p>concordância de todos aqueles diretamente atingidos por ela.</p><p>Esse critério de validade exige um teste de universalização em que o critério é a inclusão do</p><p>maior número de participantes envolvidos na justificação da norma. Todavia, ainda que PU seja</p><p>realizado, podemos considerar que, em algum momento, não conseguirá incluir a todos,</p><p>tampouco nas deliberações sobre ele conseguirá incluir todas as situações possíveis em que o</p><p>javascript:void(0)</p><p>caso se aplique. Dessa maneira, ainda haverá espaço para indeterminação da validade da</p><p>norma, bem como da sua aplicação.</p><p>Para resolver o problema de aplicação, Günther, então, concebe que é possível ter uma versão</p><p>“fraca” de PU. Essa versão fraca consistiria em entender as limitações temporais, espaciais,</p><p>físicas, relacionais etc. Decidir pela validade de uma norma na versão forte de PU significa que</p><p>teríamos de emular muitos cenários para que fosse considerada válida para todos os casos</p><p>possíveis, e consideradas todas as coisas possíveis. Tal possibilidade não só é inverossímil</p><p>como também representaria, num cenário ideal, um ônus cognitivo impossível de ser realizado.</p><p>Günther (2004) propõe uma versão fraca de PU segundo a qual uma norma pode ser</p><p>considerada válida se “[...] as respectivas consequências e os respectivos efeitos colaterais,</p><p>que resultem de seu cumprimento geral para a satisfação dos interesses de cada indivíduo,</p><p>possam ser aceitos por todos os envolvidos (e preferidos aos efeitos das conhecidas opções de</p><p>regulamentação)”.</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>Na visão de Günther, essa formulação mais fraca introduz a ideia de imparcialidade na</p><p>fundamentação. Ao fazer isso, abre-se o caminho para definir quais são os critérios da</p><p>imparcialidade, o que levaria a um princípio da aplicação imparcial de normas. A versão</p><p>fraca de PU passa a justificar normas prima facie que demandam a consideração imparcial de</p><p>todos os envolvidos no caso, testando os seus interesses, dada uma situação específica. Por</p><p>isso, para Peterson (1996), “o sentido pleno da razão prática imparcial é completado apenas</p><p>quando se pode determinar o sentido de adequação dos discursos imparciais de aplicação, de</p><p>modo a testar a adequação de normas levando em consideração todas as características de</p><p>uma situação concreta”. Concordamos que na visão de Günter sobre a imparcialidade, os</p><p>discursos de justificação são baseados numa “relação de interesses”, enquanto os discursos de</p><p>aplicação são baseados numa “relação situacional” (PETERSON, 1996).</p><p>Como considerar os discursos de aplicação?</p><p> RESPOSTA</p><p>O discurso de aplicação, na teoria de Günther, passa a operar a possibilidade de combinar a</p><p>validação universal com as propriedades situacionais do caso concreto. Günther traz o contexto</p><p>para dentro do debate da argumentação, sem perder de vista o critério de validade de PU, que</p><p>é a consideração de todos os atingidos. A imparcialidade, introduzida pela necessidade de</p><p>avaliar os interesses recíprocos, passa a ser um critério que depende de uma descrição mais</p><p>completa possível do contexto de aplicação da norma. Assim, as normas precisam ser</p><p>ponderadas prima facie , diante do caso.</p><p>No caso concreto, se estivermos diante da aplicação aparente de duas normas ao mesmo</p><p>caso, Günther propõe como metodologia duas soluções.</p><p>Colisão interna</p><p>Nesta metodologia, duas normas aparentam ser conflitantes. Diante de uma situação, devemos</p><p>aplicar PU na versão fraca e verificar qual norma deixa de atender ao interesse de todos os</p><p>envolvidos. Assim, a norma que viola o interesse dos envolvidos é considerada inválida.</p><p></p><p>Colisão externa</p><p>Esta metodologia corresponde à necessidade de considerar os fatos e as circunstâncias que</p><p>têm relevância para o caso, sem que haja a invalidade de uma das normas, pois a adequação</p><p>determinará a aplicação de uma norma e o afastamento da outra.</p><p>Em ambos os casos, é necessário que haja uma descrição situacional completa que leve em</p><p>consideração as características do caso de modo que seja demonstrada a sua relevância</p><p>moral. O exemplo dado por Günther para verificar a necessidade de uma descrição situacional</p><p>que gere relevância e adequação moral é o aparente conflito entre o amigo que promete ir à</p><p>festa e deixa de fazê-lo, porque precisa salvar alguém que aparece para ele enfermo. Então, se</p><p>Marco prometeu ir à festa de Flávia, mas, no dia da festa, no caminho, precisou salvar Luis</p><p>Antônio, que estava à beira da morte na avenida, cabe dizer que Marco descumpriu a</p><p>promessa que fizera a Flávia? Marco entrou num ilícito</p>

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