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ESTUDO SOBRE A PSICOLOGIA SOCIAL Faculdade de Minas 2 Sumário NOSSA HISTÓRIA .......................................................................................... 3 INTRODUÇÃO ................................................................................................. 4 INSERÇÃO DA PSICOLOGIA NA ASSISTÊSICIA SOCIAL ........................... 7 A PSICOLOGIA SOCIAL DO FENÔMENO ORGANIZATIVO ....................... 10 A INSTITUIÇÃO ............................................................................................. 13 O PSICÓLOGO NO SUAS: CENÁRIO ATUAL.............................................. 16 COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA ................................................ 19 Implicações para uma ciência histórica do comportamento social ................ 23 REFERÊNCIAS: ............................................................................................ 29 Faculdade de Minas 3 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. Faculdade de Minas 4 INTRODUÇÃO O que hoje é chamado de psicologia do trabalho é uma lista de tópicos tão vasta que perde qualquer significado específico e é difícil considerar como um conjunto. Por exemplo tanto no trabalho empresarial, público ou no terceiro setor (entidades e associações filantrópicas, não governamentais ou de representação) são estudadas questões de: ergonomia, saúde do trabalhador, organização do trabalho, seleção, treinamento técnico, orientação vocacional, motivação e satisfação, comprometimento, significado do trabalho, relações interpessoais, liderança e comportamento grupal, estilo gerencial, treinamento e desenvolvimento gerencial, clima e cultura organizacional, comunicação e organização informal, relações de trabalho, negociação sindical e análise organizacional e institucional. Mesmo esta lista abreviada - na qual cada item é o ponto de partida para um microuniverso de tendências, métodos de pesquisa, pressupostos teóricos e valores Faculdade de Minas 5 sociais - demonstra que o termo psicologia do trabalho é tão descritivo quanto psicologia do fora-do-trabalho. Pior ainda, a multiplicação de elementos de atuação acontece sem nenhuma base teórica que sirva de moldura ou sem qualquer disputa teórica clara que possa servir como um diálogo de referência como, por exemplo, na área da psicologia clínica. Tão confuso é este tumulto de temas que não é de estranhar que a própria psicologia prefira deixá-lo sobreviver marginalmente no campo de recursos humanos, ou relegado a um tópico do quinto ano do curso de graduação e a uma experiência triste de estágio na área de seleção de pessoal. É raro encontrar psicólogos que fazem do terreno do trabalho seu foco substantivo; muito mais comum é ouvir que a presença neste campo se dá por razões instrumentais. Ora, não se pode criticar esta posição se o campo em si é de fato tão desencontrado; não é possível exigir que alguém fosse assumir algo se não há claras indicações de que este algo existe! Durante um período buscou-se criar um espaço mais coerente e menos problemático a partir de um enfoque institucional e com uma maior atenção ao funcionamento psicossocial de hospitais, centros de saúde, escolas e creches. Coerente, porque a ligação da psicologia com o desenvolvimento, a aprendizagem e a medicina sempre foi muito presente; menos problemático porque não são indUstrias com seus dilemas do capital. Esta abordagem tevê seus limites por pelo menos três razões: primeira, instituição é uma categoria específica de organização simbólica ou do universo simbólico do elemento organizado, e não um sinônimo para organizações que prestam serviços sociais específicos; consequentemente foi difícil manter as restrições frente ao aumento de interesse em cultura organizacional que exigiu uma definição mais clara do que é instituição. Segunda, também nestes tipos de organização há cargos, carreiras, tarefas sendo alocados e tecnologias a serem operacionalizadas; a abordagem mais psicodinâmica e psicanalítica da análise institucional teve poucas ferramentas para um universo que também é sociotécnico. Faculdade de Minas 6 Finalmente, o capital e os dilemas e conflitos da relação capital- trabalho podem não estar explicitamente presentes, mas as instâncias de estado e governo e sua relação com a cidadania nas questões de política social são igualmente ou até mais complexas e problemáticas. Surge, portanto a pergunta: o que fazer para diminuir a fragmentação e criar para esta área imensa uma possibilidade de atuação menos paradoxal? A resposta passa necessariamente pela compreensão do processo de fragmentação, e leva à proposição de uma nova unidade de análise psicológica que possa permitir o redimensionamento do campo como um todo: o processo organizativo enquanto fluxo de ações e significados sociais. Faculdade de Minas 7 INSERÇÃO DA PSICOLOGIA NA ASSISTÊSICIA SOCIAL Segundo a posição de Parker (2007) de que, historicamente, a Psicologia constituiu-se como um poderoso instrumento da ideologia burguesa a serviço da sociedade capitalista, sobretudo no Brasil onde majoritariamente se voltou à caracterização de um profissional liberal focado no indivíduo isolado de seu contexto social. No entanto, “a entrada em campos como o da política social força-lhe a reaprender a fazer e pensar Psicologia” (Yamamoto & Paiva, 2010, p. 155). Bock (2003) aponta três aspectos do caráter ideológico da Psicologia que acompanham as práticas profissionais, favorecendo o sentido acima exposto. Primeiro, a naturalização do fenômeno psicológico, resultando em uma concepção de universalidade do fenômeno psíquico, o que distancia a Psicologia da realidade social. Destaca também que “os psicólogos não têm concebido suas intervenções como trabalho” (Bock, 2003, p. 21), descolando dessa maneira a prática profissional dos interesses sociais e das disputas políticas da sociedade. Por fim, ressalta que a Psicologia tem concebido as pessoas como responsáveis pelo seu desenvolvimento, descartando o papel da sociedade e compreendendo o fenômeno psicológico a partir do próprio homem. Tais aspectos tornam-se indispensáveis em uma análise crítica da inserção do psicólogo na área da Assistência Social. Partir de princípios como os predominantes historicamente na Faculdade de Minas 8 Psicologia redunda em uma prática conservadora e superficial diante da realidade da população atendida pelas políticas públicas de Assistência Social. Além disso, cabe uma análise da recente presença da Psicologia nos setores públicos da AssistênciaSocial. Isso se revela nas pesquisas realizadas (Botomé, 1979; Conselho Federal de Psicologia, 1988), que traçam um perfil da atuação do psicólogo, com predominância em consultórios particulares, demarcando o elitismo da profissão. Mello (1975), em estudo publicado no início da década de setenta, realiza uma crítica aos rumos da profissão, apontando que a Psicologia pela natureza de seu conhecimento deveria ser “muito mais que uma atividade de luxo” (p. 109) Campos (1983) afirmava que as contingências do mercado de trabalho estariam “empurrando” o psicólogo para as classes subalternas e que esta migração exporia as insuficiências teórico-técnicas da Psicologia tradicional. Esses estudos pontuaram, portanto, o elitismo da profissão, com a prática do psicólogo restrita àqueles que poderiam pagar pelos serviços profissionais, tornando inacessível o atendimento psicológico para a maior parte da população. O Conselho Federal de Psicologia reconhece, ao publicar referências técnicas para o exercício profissional para a área da assistência social, que “a despolitização, a alienação e o elitismo marcaram a organização da profissão e influenciaram na construção da ideia de que o (a) psicólogo (a) só faz Psicoterapia” (Conselho Federal de Psicologia e Conselho Federal de Serviço Social, 2007, p. 20). Uma análise da realidade concreta de vida das pessoas, a partir de uma compreensão histórica e social de constituição dos indivíduos exige, no entanto, novos posicionamentos da Psicologia e do fazer psicológico (o sofrimento psíquico Faculdade de Minas 9 não é igual para todos – ricos e pobres). Bock (1999) discute as limitações sociais do trabalho do psicólogo restrito aos consultórios particulares ou escritórios para a interferência ou a melhoria das condições de vida das pessoas atendidas. Dados de uma pesquisa solicitada pelo Conselho Federal de Psicologia (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, 2004) indicam que 55% dos participantes informaram que sua atividade principal era “atendimento clínico individual ou em grupo” e 53% que seu local de trabalho é o consultório particular (41%) e clínica (12%). Exercem suas atividades em políticas públicas de saúde, segurança ou educação 11% dos entrevistados. Mesmo considerando essa configuração profissional, ainda majoritariamente atuando de modo individual e com uma abordagem clínica, o envolvimento e a presença dos profissionais nos espaços públicos têm crescido, sobretudo em organizações não-governamentais e no poder público De acordo Yamamoto (2007), ao discutir esse movimento da área, pontua a importância do envolvimento dos psicólogos na área da saúde, sobretudo na participação na Luta Antimanicomial, “que acabam definindo algumas das condições para a inserção da categoria, de forma mais extensiva, no campo público do bem estar social” (p. 31). Faculdade de Minas 10 De acordo pesquisa realizada pelo IBGE (2006, p. 55), em 2005, o número de pessoas ocupadas na área de assistência social da administração municipal foi,aproximadamente, de 140.000 pessoas, sendo 18,3% com formação superior em Psicologia e mais da metade (51,2%) com formação em Serviço Social. Havia, portanto, uma predominância de assistentes sociais, com a Psicologia como segunda categoria profissional presente neste setor dos serviços públicos. Essa situação vem se modificando ao longo dos últimos anos, especialmente depois da implantação do SUAS. Desta inserção no campo da Assistência Social decorrem inúmeros desafios para o profissional de Psicologia. Em 2005, Senra conduziu um estudo em que os psicólogos da rede municipal de assistência puderam relatar as dificuldades encontradas em sua prática, considerando, sobretudo, uma formação pouco embasada na realidade de atuação da Psicologia Social. Os resultados desse trabalho apontaram para uma tensão entre o papel profissional do psicólogo e do assistente social diante das demandas do campo de trabalho. O trabalho conjunto entre estes dois profissionais (Serviço Social e Psicologia) constitui-se como um ponto de conflito gerando dúvidas quanto à complementaridade ou a especificidade em relação a sua atuação. Psicólogos e Assistentes Sociais questionam-se uns aos outros sobre seus papéis e funções diante da realidade com que têm que lidar no cotidiano do trabalho. A PSICOLOGIA SOCIAL DO FENÔMENO ORGANIZATIVO Faculdade de Minas 11 Se a organização enquanto um todo não é mais que um rastro da atividade que já passou, uma sombra pálida de um fenômeno multidimensional que desaparece quando a luz é acesa, segue que estes empreendimentos diversos de todos os tipos funcionam não porque as pessoas são administradas e direcionadas, mas porque a concentração de processos que seus cotidianos representam serve de ímã para o uso das caixas coletivas de ferramentas organizativas mundanas desenvolvidas ao longo da história social. Em última análise, pessoas sabem se virar. A estrutura de uma firma, hospital, escritório ou ongs é uma representação de ação congelada; de pouca importância no dia-dia de negociação de significado. Ela pode apoiar ou restringir a ação processual pelo seu efeito simbólico enquanto mecanismo de mediação, mas não a produz nem reproduz; igual à pegada, ela tem algo a contar - só que- é diferente daquilo que se está acostumado a ouvir. Será que a retificação da organização dentro de uma ideologia gerencial moderna, refletida no aumento vertical da quantidade de "best sellers" e seminários, precisa ser compreendida como um processo onde a negação implícita presente na ênfase na importância do bom gerente (a incapacidade organizativa do não-gerente) aponta justamente para a presença contrária (a capacidade organizativa autóctone)? Ideologia nunca foi somente uma referência à direção do poder mas também à direção do medo que o sustenta. Ao tornar natural a autoridade de alguém, desautoriza-se no mesmo tempo a autoridade do outro de quem ou do qual, enquanto conceito, se tem medo. A oferta da cidadania da organização reprime o exercício da cidadania que se deriva das contradições do dia-a-dia, como também a construção de uma cidadania limitada a direitos garante a manutenção de um estado. Consequentemente, e tal como a ideologia de assentamento humano representou o medo do não assentado cuja cultura e práticas igualmente complexas e morais desafiaram a lógica da vida assentada, o processo de colonização simbólica não se tornou ainda hegemônico e certas condições entre as quais a complexidade - poderia levar à desmistificação parcial do sistema enquanto meta narrativa frente às rupturas produzidas na parte. Faculdade de Minas 12 Estas ideais estão também presentes em outras áreas de análise social, onde a noção de atividade processual que forma um cotidiano intersubjetivo vem sendo trabalhada durante algum tempo. Reconhece-se a presença de uma consciência prática das contradições presentes nestes significados como também a possibilidade de transcender parcialmente a consciência prática em relação a uma consciência discursiva54. Admite-se a possibilidade das pessoas assumirem a agência do autor no ator social, porque a agência é própria da parte. Ao reconfigurar a psicologia do trabalho enquanto ação processual a partir da psicologia social do fenômeno organizativo abre-se a opção de reassumir a intervenção investigativa da pesquisaação como base para um diálogo que apoia a agência do outro na alteração de práticas e formas de agir. O estudo do fenômeno organizativo e do trabalho tem muito a ganhar com sua proximidade à psicologia social- e talvez a psicologia social tenha algo a aprender também. Peter K. Spink é professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social da PUC-SP eda Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas. Faculdade de Minas 13 A INSTITUIÇÃO Uma das principais finalidades da investigação realizada é o reconhecimento da natureza, da inserção histórica e das características das áreas profissionais Serviço Social e Psicologia, a partir de suas ações junto ao Poder Judiciário, o qual, contemporaneamente, se tornou “[...] uma instituição que tem de enfrentar o desafio de alargar os limites de sua jurisdição, modernizar suas estruturas organizacionais e rever seus padrões funcionais, para sobreviver como poder autônomo e independente” (Faria, 2001, p. 9). Configurando-se como locus das inúmeras mediações que se operam nas relações de trabalho profissional, é nesta instituição, de natureza eminentemente pública, que se configuram ações voltadas a objetivos explícitos, “[...] Como uma das instituições básicas do Estado constitucional moderno, em cujo âmbito exerce uma função instrumental (dirimir conflitos), uma função política (promover o controle social) e uma função simbólica (promover a socialização das expectativas à interpretação das normas legais)...” (ibidem, p. 8). A partir dessa complexa inserção, buscam-se compreender o projeto profissional de duas categorias, vinculadas ao Serviço Social e à Psicologia, chamadas, em tempos diferentes — em 1948 e 1980, respectivamente, a participar das funções mencionadas. Dada essa trajetória histórica, tanto uma quanto a outra Faculdade de Minas 14 área já vivenciaram experiências suficientes para sua autorreflexão e reconstrução de seus objetivos junto à instituição. Assim, acredita-se que seja possível aos profissionais dar nova dimensão a esse cotidiano de trabalho, quase sempre prejudicado pela grande demanda e pela insuficiência de recursos de infraestrutura, incluindo os humanos, fazendo que, muitas vezes, se vejam como executores de ações isoladas e imediatistas, nem sempre se recuperando em tempo e condições para reconhecerem-se como participantes das ações que configuram uma instituição ou “[...] um Poder em busca não de um autor, mas de espaços mais nítidos de atuação, de uma identidade funcional mais precisa e de maior legitimidade política” (ibidem, p.17). Entende-se INSTITUIÇÃO, neste caso, como o locus de intermediação entre o Estado e a população que a ela procura espaço esse transversalizado por forças e interesses criados no âmbito dos projetos da sociedade ocidental, para “[...] determinar e assegurar a aplicação das leis que garantem a inviolabilidade dos direitos individuais” (Ferraz Jr., 1994, p. 13). Entendendo que, desde sua constituição nos tempos antigos, a instituição judiciária chega aos tempos modernos como básica ao Estado. Em análise sobre as condições de exercício da Justiça a partir do Estado do bem-estar-social, o referido autor põe para a reflexão as novas responsabilidades do Poder Judiciário, afirmando que a transformação dessas condições, com o advento da sociedade tecnológica e do estado social, parece desenvolver exigências no sentido de uma desneutralização. Neste sentido, o juiz é chamado a exercer uma função socioterapêutica, liberando-se do apertado condicionamento da estrita legalidade e da responsabilidade exclusivamente retrospectiva que ela impõe, obrigando-se a uma responsabilidade prospectiva, preocupada com a consecução de finalidades políticas das quais ele não mais se exime em nome do princípio da legalidade (dura lex sed lex) (ibidem, p. 19).Em tempos de reestruturação do capitalismo, o Poder Faculdade de Minas 15 Judiciário se vê, então, em um cenário incerto, no qual o Estado-nação vai perdendo sua autonomia e o ordenamento jurídico vê comprometida sua história, sua unidade e sua organicidade. De acordo com Faria (2001, p. 9), este Poder tem o desafio de alargar os limites de sua jurisdição e rever suas estruturas organizacionais e padrões funcionais. É esse o espaço institucional que contrata e prevê ações profissionais para as áreas de Serviço Social e Psicologia. O Poder Judiciário, conforme esse mesmo autor, não costuma dispor de meios materiais e técnicos para fazer frente às novas demandas: “O tempo do processo judicial é o tempo diferido. O tempo da economia globalizada é o real...” (ibidem, p. 9).O corporativismo e a burocracia impregnam fortemente a mentalidade do Judiciário, contribuindo para a lentidão administrativa de suas decisões internas, e operacionais, no âmbito da aplicação da lei. “Nos burocratizados tribunais brasileiros, cujos integrantes parecem acreditar que os conflitos podem ser solucionados pelo simples apego a certas formas e/ou ritualização de certos atos, os direitos humanos e os direitos sociais vêm dificultando a rotina da aplicação da lei...” (Faria, 1994, p. 47). Nessa mesma direção, este autor destaca que o agravamento das questões sociais, em decorrência da crise econômica, sobretudo nos anos 1990, tem obrigado “[...] a magistratura a refletir um pouco mais sobre suas funções sociais” (ibidem, p. 47). Em alguns espaços do Poder Judiciário, essas funções sociais se expressam mais nitidamente, como aqueles nos quais tramitam as ações relativas à infância, juventude, família e criminais. Nessa realidade, expressões da ausência, insuficiência ou ineficiência do Poder Executivo na implementação de políticas sociais redistributivas e universalizastes se escancaram, na medida em que, além dos litígios e demandas que requerem a intervenção judicial, como regulamentação de guarda de filhos, violência doméstica, adoção etc., cada vez mais se acentua uma “demanda fora de lugar” ou uma “judicialização” da pobreza, que busca no Judiciário solução para situações que, embora se expressem particularmente, decorrem das extremas condições de desigualdades sociais. Faculdade de Minas 16 O PSICÓLOGO NO SUAS: CENÁRIO ATUAL A inserção do psicólogo na Assistência Social oficializa-se no país, portanto, por intermédio do SUAS, como um dos profissionais que devem compor as equipes dos CRAS e dos CREAS. Com o processo de implantação do SUAS em todo território nacional amplia- se, significativamente, o número de psicólogos inseridos no campo da Assistência Social no nível do Poder Público e das ONGs, na composição das equipes da rede socioassistencial. Mas não basta o ingresso dos profissionais de psicologia no campo. É preciso mais – acompanhamento e formação para a intervenção com uma análise crítica da realidade social e política. Botarelli (2008, p. 16) enfatiza esse aspecto: O trabalho de profissionais da área de assistência social passou por uma nova estruturação a partir deste novo ordenamento, mas ainda resta aprofundar-se sobre a consolidação do que e quais são as ações e os serviços sócio-assistenciais a serem caracterizados como básicos ou especiais. A atuação em contextos adversos, como em bairros na periferia das cidades ou em ocupações ou favelas implica a elaboração de metodologias alternativas às que são comuns e tradicionais nos fazer do psicólogo. Ao profissional de Psicologia cabe a análise da ausência histórica de investimento do Estado nessas comunidades, culminando com a inexistência e insuficiência de espaços e equipamentos públicos, assim como a necessidade de revisitar as próprias Faculdade de Minas 17 intervenções da Psicologia, que precisam transpor os limites de uma sala, para um outro modelo de atendimento fundamentado em uma análise crítica da profissão (Parker, 2007). Existem inúmeros desafios a serem enfrentados na construção do lugar do psicólogo nas políticas públicas de Assistência Social, em especial na atualidade, com a implementação do SUAS. Em alguns municípios, a contratação de muitos psicólogos oficializa-se por meio de ONGs, sob a justificativa deimpedimentos fiscais e legais pelos gestores municipais. Assistência social e psicologia: sobre as tensões e conflitos do psicólogo no cotidiano do serviço público, concursos públicos para o cargo. A inserção profissional, articulada dessa forma, precariza o serviço público, além de assumir contornos de desvalorização da categoria profissional com baixos salários e alta rotatividade de profissionais. Botarelli (2008, p.52) apresenta proposição semelhante ao afirmar que: Ao considerarmos a agenda neoliberal no setor das políticas públicas, a probabilidade de envolvimento profissional do psicólogo por delegação do CRAS no chamado ‘terceiro Setor’ é mais promissora do que propriamente o desenvolvimento de trabalhos no âmbito do estado, mesmo que a ocupação seja significativamente maior também no setor público comparativamente às primeiras décadas após a regulamentação da assistência. Este contexto de terceirização do serviço público remete o psicólogo a um lugar de subalternidade aos gestores das ONGs, no atendimento dos interesses específicos de cada entidade. Os profissionais contratados pelas ONGs vivenciam dilemas semelhantes aos profissionais do Poder Público, mas em sua maioria participam pouco pelo temor da perda do emprego vulnerável e instável resultado do tipo precarizado de contrato de trabalho. Destacamos assim que, embora haja hoje uma preocupação crescente com a formulação de parâmetros e diretrizes para a atuação do psicólogo no SUAS, mais especificamente nos CRAS (Conselho Federal de Psicologia, 2007a; CFP e CFESS, 2007), isso não se traduz em uma prática profissional, de acordo com as diretrizes estabelecidas. Muitas vezes as diretrizes são subvertidas obedecendo aos interesses dominantes da gestão municipal ou da direção das ONGs. Por outro lado, os Faculdade de Minas 18 psicólogos (servidores públicos concursados) vivenciam os dilemas estruturais da atuação, que sofre as repercussões das mudanças administrativas e os impactos da falta de investimento em infraestrutura tanto para as comunidades quanto para os próprios serviços públicos. Mesmo com um contrato mais estável, esses profissionais também sofrem o temor da retaliação, dependendo da postura assumida pelos gestores municipais da Assistência Social. Observamos, portanto, que os avanços no discurso pertinentes à área da Assistência Social, assim como da própria Psicologia, ainda não são acompanhados de avanços no cotidiano da ação. Documentos oficiais não garantem a ocorrência na gestão dos municípios, muito menos a competência profissional para o exercício em condições totalmente adversas. Nesse sentido, Botarelli (2008) alerta para os riscos, na implantação dos CRAS, dentre uma das discussões na área: a permuta de plantões sociais centralizados para a periferia da cidade sem uma reflexão sobre ações de cunho transformador e com o agravante do isolamento das pessoas excluídas em seu próprio território. A prática profissional do psicólogo no âmbito da Política Nacional de Assistência Social configura desafios para além de uma atuação técnica (abordagens e metodologias psicológicas), pois esta inserção no campo de atuação Faculdade de Minas 19 é contraditória e muitas vezes tensa na articulação entre os profissionais, sua prática profissional e a instituição pública. Não se resolvem as questões sociais e a falta de acesso da população ao atendimento psicológico disponibilizando o profissional sem uma formação adequada ou infraestrutura de trabalho. Portanto, a importância do olhar crítico dos profissionais da Psicologia que atuam na área da Assistência Social e da articulação necessária entre a prática e a produção de conhecimento acumulada pela Psicologia nos últimos anos, especialmente, no contexto latino-americano com realidade social semelhante. COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA “No final dos anos 80, começaram novos movimentos de mudança na atuação profissional e adotou- -se o lema do compromisso social como norteador da atuação psicológica” (CFP e CFESS, 2007, p. 20). A “I Mostra Nacional de Práticas em Psicologia: Psicologia e Compromisso Social”, realizada em 2000 pelo Conselho Federal de Psicologia, pode ser considerada um evento marcante na visibilização das diversas práticas sociais dos psicólogos. Para Yamamoto (2007), destaca que o compromisso social do psicólogo passa de “tema a lema” nos debates sobre a profissão, vinculado a um grupo de psicólogos que lideraram este movimento. O compromisso social da Psicologia Faculdade de Minas 20 valorizava a construção de práticas comprometidas com a transformação social em direção a uma ética voltada para a emancipação humana (CFP, 2007a, p. 6). Os significados atribuídos a este compromisso, no entanto, têm sido diferenciados de acordo, por exemplo, com a formação do profissional, ideologia, contextos de atuação, entre outros fatores. Ao concordarem com Lopes (2005, p. 10) quando aponta que o “conteúdo ideológico está presente na construção e na utilização de todo e qualquer conceito dentro das ciências, com maior ou menor grau de consciência de quem dele se apropria”. Mas, ainda, não basta dizer de compromisso social. Para que uma profissão assuma para si a proposta de enfrentar a sociedade desigual e injusta, a serviço da emancipação humana, é preciso que ela rompa com suas próprias amarras históricas de uma profissão comprometida com a classe social dominante e que se mantém reproduzindo e mantendo o status quo (Martín- Baró, 1997; Prilleltenski, 1994). Destacam a discussão proposta por Guareschi (2001) de que se torna necessário explicitar de que social estamos falando, quando nos referimos ao compromisso social da Psicologia, desvelando a visão de mundo dos psicólogos. “Em consonância com Lopes (2005), Guareschi (2001, p. 80) esclarece ainda que: A concepção que temos de social passa a se concretizar muitas vezes inconscientemente, na prática, em minhas condutas, ou comportamentos, e no tipo de relações que eu estabeleço.” É na prática que vem testar qual é o social, qual o compromisso social. A heterogeneidade e o uso banalizado do termo como constituinte de modismos e de vocabulário politicamente correto no meio dos profissionais sem uma correspondente mudança na realidade do trabalho dificultam o aprofundamento e a compreensão das questões envolvidas e esvaziam de sentido um projeto técnico- político para a profissão e para os profissionais em exercício. Martinez Mitjáns (2003) elenca questionamentos que consideramos de importância para a discussão do compromisso social na Psicologia. A autora considera complexa essa discussão, tornando-se necessária a reflexão sobre a Faculdade de Minas 21 quem se refere o compromisso social: É o corpo articulado de conhecimentos representado pela Psicologia como ciência particular que se compromete socialmente ou é o indivíduo psicólogo que produz esses conhecimentos ou que os utiliza nas suas práticas profissionais específicas? (Martinez Mitjáns, 2003, p. 144) Dessa forma, o compromisso social na psicologia pode assumir conotações variadas, cabendo o esclarecimento de com quem e de que forma ele é firmado. Assim, entendemos que o discurso de compromisso social da Psicologia deve estar articulado com uma prática coerente com tal propósito. A Psicologia é uma construção humana condicionada histórica e culturalmente (Martinez Mitjáns, 2003) e os psicólogos ocupam lugar central quando se pretende abordar esta questão do compromisso social. Os conhecimentos são produzidos por sujeitos concretos imbuídos de suas experiências, visão de mundo e interesses que se expressam em práticas diversificadas.Quando Yamamoto (2007, p. 34) aponta que “atuar com compromisso significa não somente superar o elitismo, mas dirigir aação para rumos diferentes daqueles que têm consagrado a Psicologia”, é preciso retomar o projeto da profissão com crítica consistente de diferentes elementos presentes na formação e no exercício profissional nos diferentes setores sociais onde a profissão se faz presente. Para uma atuação comprometida socialmente, não basta somente deslocar práticas e modelos teóricos de outros contextos de atuação do psicólogo para espaços comunitários, ou mesmo, restringir a abrangência de sua atuação.É insuficiente e ineficaz uma intervenção que não busque a contextualização das vivências dos diversos espaços sociais e das pessoas e comunidades que constituem o tecido social com o qual o profissional trabalha. Martin-Baró (1997) “aponta que o psicólogo deve despojar-se de pressupostos teóricos adaptacionistas e que para isso é necessária a elaboração de novas visões conceituais, novos métodos Faculdade de Minas 22 de diagnóstico e de intervenção – a construção de uma outra psicologia”. Em uma prática no campo da Assistência Social entendemos que é necessário um aguçamento do olhar crítico sobre as relações hegemônicas da sociedade, das políticas públicas existentes construídas nesse contexto e das condições concretas de vida da população atendida. “Conforme aponta Yamamoto (2007), a atuação do psicólogo no setor público, por si só, não representa um indicador do compromisso social do profissional. Muitas práticas intitulam-se de transformação social, sem, contudo significar mudanças na realidade das pessoas e das comunidades”. Determinadas formas de intervenção no setor público podem caminhar em direção oposta à transformação social e ao compromisso social. Muitas dessas práticas caminham no sentido oposto ao de transformação, embora no discurso intitulem-se como sendo práticas transformadoras. Faculdade de Minas 23 Implicações para uma ciência histórica do comportamento social Sob a luz dos presentes argumentos, a tentativa contínua de construir leis gerais do comportamento social parece mal direcionada, e a crença associada a ela de que o conhecimento da interação social pode ser acumulado como nas ciências naturais revela-se injustificada. Em essência, o estudo em psicologia social é fundamentalmente um empreendimento histórico. Estando essencialmente engajados em incontáveis questões contemporâneas. Utilizam metodologia científica, porém os resultados não são princípios científicos no sentido tradicional. No futuro, historiador poderá voltar-se para tais relatos do passado a fim de alcançar uma melhor compreensão acerca da vida nos dias atuais. Entretanto, é provável que os psicólogos do futuro encontrem pouco valor no conhecimento contemporâneo. Esses argumentos não são puramente acadêmicos e não se limitam a uma simples redefinição de ciência. Aqui estão implicadas significantes alterações na atividade de campo. Cinco dessas alterações merecem atenção. Rumo à Integração do Puro e do Aplicado Entre psicólogos acadêmicos encontra-se difundido um preconceito contra a pesquisa aplicada, um preconceito que é evidenciado pelo enfoque dado à pesquisa pura pelos periódicos de prestígio e pela dependência de promoção e manutenção de contribuições à pesquisa pura em oposição à pesquisa aplicada. Esse preconceito baseia-se, em parte, na suposição de que a pesquisa aplicada é de valor transitório. Enquanto esta se limitaria a resolver problemas Faculdade de Minas 24 imediatos, a pesquisa pura contribuiria para um conhecimento básico e duradouro. Do ponto de vista atual, o solo no qual se assentam tais preconceitos não é merecedor de respeito. O conhecimento que a pesquisa pura se dedica em estabelecer é também transitório; generalizações nessa área de pesquisa geralmente não perduram. A tal ponto que, quando generalizações da pesquisa pura têm grande validade transhistórica, podem estar refletindo processos de interesse periférico ou importantes para o funcionamento da sociedade. Psicólogos sociais são treinados para usar ferramentas de análise conceitual e metodologia científica a fim de explicar a interação humana. No entanto, dada a esterilidade em aperfeiçoar os princípios gerais ao longo do tempo, essas ferramentas mostram-se mais produtivas quando usadas na resolução de problemas de importância imediata para a sociedade. Isso não implica que tais pesquisas devam ser de alcance restrito. Um defeito fundamental de grande parte das pesquisas aplicadas é que os termos usados para descrever e explicar são relativamente concretos e específicos para o caso em mãos. Enquanto os comportamentos concretos estudados pelos psicólogos acadêmicos são frequentemente mais triviais, a linguagem explicativa é altamente geral, e assim mais amplamente heurística. É assim que os argumentos presentes sugerem uma intensa focalização em assuntos sociais contemporâneos, baseados na aplicação de métodos científicos e ferramentas conceituais largamente generalizadas. Da Predição à Sensibilização O objetivo central da psicologia é tradicionalmente encarado como a predição e o controle do comportamento. Do ponto de vista, esse objetivo é despropositado e oferece pouca justificativa para a pesquisa. Princípios do comportamento humano podem ter valor preditivo temporalmente limitado, e seu alto conhecimento pode torná-los impotentes como ferramentas de controle social. Todavia, previsão e controle não precisam servir de pedras angulares do campo. A teoria psicológica pode desempenhar um papel excessivamente importante enquanto dispositivo de sensibilização. Pode esclarecer-nos acerca da gama de fatores que potencialmente influenciam o comportamento sob várias Faculdade de Minas 25 condições. Podendo neste contexto oferecer algumas estimativas da importância desses valores num determinado momento. Seja no caso do domínio da política pública ou dos relacionamentos pessoais, a psicologia social pode aguçar a sensibilidade de um indivíduo para influências sutis e apontar suposições sobre o comportamento que não se mostraram úteis no passado. Quando se pede um conselho ao psicólogo social sobre um provável comportamento em uma situação concreta, a reação consiste em desculpar-se. É necessário explicar que o campo ainda não se encontra suficientemente desenvolvido a ponto de que predições confiáveis possam ser feitas. Do ponto de vista, tais desculpas são inapropriadas. O campo pode raramente fornecer princípios para que predições confiáveis possam ser feitas. Padrões de comportamento estão sob constante mudança. Contudo, o que o campo pode e deve oferecer são pesquisas informando o inquiridor do número de possíveis ocorrências, ampliando assim sua sensibilidade e preparando-o para uma acomodação mais rápida à modificação ambiental. Pode prover ferramentas conceituais e metodológicas com as quais um número maior de juízos de discernimento pode ser efetuado. Psicólogos sociais evidenciam uma contínua preocupação com processos psicológicos básicos, ou seja, processos que influenciam um vasto e variado conjunto de comportamentos sociais. Simulando a preocupação de psicólogos experimentais com processos básicos, como visão em cores, aquisição da linguagem, memória e assim por diante, psicólogos sociais detiveram-se em alguns processos, tais como dissonância cognitiva, nível de aspiração e atribuição causal. Entretanto, há uma profunda diferença entre os processos estudados nos domínios da psicologia geral experimental e no domínio da psicologia social. Os processos estão frequentemente guardados biologicamente no organismo, não estão sujeitos a efeitos de esclarecimento e não dependem de circunstâncias culturais. Ao contrário, a maioria dos processos de domínio social é dependente de disposições sujeitas a modificação ao longo do tempo. Assim,é um erro considerar os processos em psicologia social como básicos no sentido das ciências naturais. Antes, podem ser largamente considerados a contrapartida psicológica de normas culturais. Da mesma maneira que um sociólogo preocupa-se Faculdade de Minas 26 em medir preferências parciais ou padrões de mobilidade no decurso do tempo, o psicólogo social poderia atentar para os padrões de mudança das disposições psicológicas e a sua relação com o comportamento social. Se a redução de dissonância é um processo importante, então deveriam estar aptos a medir a prevalência e a força de tal disposição no seio da sociedade ao longo de tempo e os modos de redução de dissonância prediletos num dado momento. Se a elevação da estima parece influenciar a interação social, os amplos estudos culturais deveriam revelar a extensão dessa disposição, sua força em várias subculturas, e a forma do comportamento social com a qual se encontra mais associada a um dado momento. Embora experimentos em laboratório sejam adequados ao isolamento de disposições particulares, são pobres indicadores da série e da significância dos processos da vida social contemporânea. São extremamente necessárias metodologias que estabeleçam contato com a prevalência, força e forma das disposições sociais no tempo. Com efeito, uma tecnologia dos indicadores sociais psicologicamente sensíveis (Bauer, 1969) é desejada. Pesquisa em Estabilidade Comportamental O fenômeno social pode variar consideravelmente na medida em que se submete à mudança histórica. Certos fenômenos podem ser mais estreitamente vinculados a dados fisiológicos. A pesquisa de Schachter (1970) sobre estados emocionais parece ter uma forte base fisiológica, assim como o trabalho de Hess (1965) sobre afeto e constrição pupilar. Embora disposições adquiridas possam vir a superar algumas tendências fisiológicas, tais tendências deveriam se reafirmar gradualmente. Outras propensões fisiológicas, ainda, podem ser irreversíveis. Pode haver também disposições que são suficientemente poderosas para que nem o esclarecimento e nem mesmo as mudanças históricas venham a causar-lhe algum impacto. Algumas pessoas geralmente evitarão estímulos físicos dolorosos, apesar de suas sofisticações ou das normas correntes. Devem pensar, então, em termos de um contínuo de durabilidade histórica, com fenômenos altamente suscetíveis à influência histórica num extremo e processos mais estáveis no outro. Assim, métodos de pesquisa habilitando-nos a discernir a durabilidade relativa do Faculdade de Minas 27 fenômeno social são bastante necessários. Métodos interculturais poderiam ser empregados para esse fim. Embora a replicação intercultural seja repleta de dificuldades, similaridade numa dada função entre culturas amplamente divergentes atestaria fortemente sua durabilidade no tempo. Técnicas de análise de conteúdo poderiam também ser empregadas no exame de períodos históricos recentes. Até agora, tais empreendimentos têm fornecido pouco além de citações indicando que algum grande pensador pressentiu uma hipótese familiar. Tendo que travar contato com a vasta quantidade de informações referentes aos padrões de interação nos últimos períodos. Embora a progressiva sofisticação dos padrões de comportamento ao longo do espaço e do tempo fornecesse valiosas compreensões referentes à durabilidade, alguns difíceis problemas apresentar-se-iam. Alguns padrões de comportamento podem permanecer estáveis até uma observação minuciosa. Outros podem simplesmente tornar-se disfuncionais com o passar do tempo. A confiança do homem num conceito de deidade tem uma longa história e é encontrada em numerosas culturas. Entretanto, muitos são céticos sobre o futuro desta crença. Taxas de durabilidade teriam assim que contribuir para a estabilidade potencial tanto quanto atual do fenômeno. Ainda que a pesquisa por disposições culturais mais duráveis seja extremamente valiosa, não deveríamos daí concluir que seja mais útil ou desejável que estudar os padrões passados de comportamento. Grande parte da variabilidade do comportamento social deve-se indubitavelmente a disposições historicamente dependentes, e o desafio de capturar tais processos “em luta” e durante períodos preciosos da história é imenso. Rumo a uma História Social Integrada Sustentou-se que a pesquisa em psicologia social é fundamentalmente o estudo sistemático da história contemporânea. Assim, parece miopia manter a separação disciplinar (a) do estudo tradicional de história e (b) de outras ciências historicamente fronteiriças (incluindo sociologia, ciência política e economia). As particulares estratégias de pesquisa e a sensibilidade do historiador poderiam elevar a compreensão da psicologia social, passada e presente. Particularmente útil seria a sensibilidade do historiador às Faculdade de Minas 28 sequências causais no curso do tempo. Muitas pesquisas em psicologia social centram-se em segmentos momentâneos de processos em andamento. Tem concentrado muito pouco na função desses segmentos dentro de seu contexto histórico. Com pouca teoria em lidar com a inter-relação entre eventos dentro de longos períodos de tempo. Da mesma feita, historiadores poderiam beneficiar-se das mais rigorosas metodologias empregadas pelos psicólogos sociais tanto quanto de sua sensibilidade a variáveis psicológicas. Contudo, o estudo da história, passada e presente, deveria ser empreendido da maneira mais ampla possível. Fatores políticos, econômicos e institucionais são todos fatores necessários à compreensão numa perspectiva integrada. A concentração em psicologia apenas oferece uma compreensão distorcida de nossa condição presente. Faculdade de Minas 29 REFERÊNCIAS: Bock, A. M. B. (1999). A Psicologia a caminho do novo século: identidade profissional e compromisso social. Estudos de Psicologia, 4(2), 315-329. Bock, A. M. B. (2003). Psicologia e sua ideologia: 40 anos de compromisso com as elites. In A. M. B. Bock (Org.), Psicologia e o compromisso social (pp. 15- 28). São Paulo: Cortez Editora Botomé, S. P. (1979). A quem, nós, psicólogos, servimos de fato? Psicologia, 5(1), 1-16. Campos, R. H. F. (1983). A função social do psicólogo. Educação e Sociedade, 5(16), 74-84. Hess, E. H. (1965). Attitude and pupil size. Scientific American, 212, 46-54 Yamamoto, O. (2007). Políticas sociais, “terceiro setor” e “compromisso social”: perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia & Sociedade, 1(19), 30-37. Yamamoto, O. H. & Paiva, I. L. (2010). Formação e prática comunitária do psicólogo no âmbito do “terceiro setor”. Estudos de Psicologia, 15(2), 153-160. Parker, I. (2007). Revolution in psychology: Alienation to emancipation. London: Pluto Press. Mello, S. L. (1975). Psicologia e profissão em São Paulo. São Paulo: Ática POP). 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