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Disciplina | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL Fundamentos da Psicologia Organizacional | Sumário www.cenes.com.br | 2 Sumário Sumário ----------------------------------------------------------------------------------------------------- 2 1 Introdução --------------------------------------------------------------------------------------------- 3 1.1 A Psicologia --------------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 1.2 As Escolas Psicológicas ------------------------------------------------------------------------------------------ 7 1.3 Teorias Organizacionais --------------------------------------------------------------------------------------- 10 1.4 A Atuação do Psicólogo no Brasil --------------------------------------------------------------------------- 15 1.5 A Importância da Psicologia Organizacional------------------------------------------------------------- 19 2 O Homem e o Trabalho --------------------------------------------------------------------------- 20 2.1 As Organizações de Trabalho -------------------------------------------------------------------------------- 23 3 Evolução Histórica da Psicologia Organizacional ------------------------------------------ 29 4 O Psicólogo Organizacional ---------------------------------------------------------------------- 35 4.1 Aspectos Importantes nas Organizações ----------------------------------------------------------------- 36 Cognição -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 37 Motivação ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ 41 Equipes e Grupos de Trabalho ---------------------------------------------------------------------------------------------------- 45 Liderança ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 49 Comunicação -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 52 5 As Inovações Práticas ----------------------------------------------------------------------------- 54 6 Referências ------------------------------------------------------------------------------------------- 58 Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 3 1 Introdução A inserção da psicologia nas organizações é um aspecto-chave que abrange tanto os aspectos intrínsecos, que dizem respeito ao funcionamento interno do indivíduo, como as emoções, percepções e motivações, quanto os aspectos extrínsecos, relacionados ao ambiente em que o indivíduo está inserido. As organizações são sistemas complexos, cujo desempenho pode ser influenciado significativamente pelo comportamento humano. Nesse contexto, a psicologia tem um papel fundamental em mensurar, explicar e modificar o comportamento humano, conforme destaca Fiorelli (2009). A interseção da psicologia com a administração engloba também um debate acerca da natureza da administração como uma disciplina. A administração pode ser vista como uma ciência, uma arte ou uma técnica. Como ciência social, a administração busca estabelecer princípios e teorias que possam ser aplicados sistematicamente para o gerenciamento de organizações. Isto é importante pois ela lida com agrupamentos humanos, buscando uma integração coerente entre as pessoas, a estrutura e os recursos disponíveis. Contudo, a administração também pode ser entendida como arte, uma vez que envolve criatividade e habilidades interpessoais, que são cruciais na tomada de decisões e na implementação de ações. Além disso, a técnica administrativa faz uso de conhecimentos de várias áreas, incluindo direito, contabilidade, economia, matemática, e estatística, para abordar os aspectos organizacionais de forma abrangente. Avançando no conceito de organização, pode-se afirmar que esta é um sistema social que visa alcançar objetivos específicos através da coordenação de ações e recursos. De acordo com Schein (1982, apud Robbins, 2005), as organizações são sistemas sociais complexos, onde o comportamento humano desempenha um papel fundamental. Essas entidades são compostas por três elementos principais: pessoas, estrutura e recursos financeiros. As pessoas são fundamentais para as organizações, já que são elas que tomam decisões, realizam tarefas e interagem entre si para alcançar os objetivos da organização. A estrutura, por sua vez, refere-se à forma como as organizações são organizadas internamente, incluindo hierarquias, departamentos, e processos. Os recursos financeiros englobam o capital necessário para a organização operar, incluindo dinheiro, investimentos e ativos. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 4 O estudo aprofundado de como esses elementos interagem e são gerenciados é essencial para a eficácia organizacional. Compreender como o comportamento humano afeta e é afetado pela estrutura organizacional e pelos recursos disponíveis pode levar a melhores estratégias de gestão. Neste contexto, a psicologia desempenha um papel vital, pois pode ajudar a identificar e entender os fatores que afetam o comportamento dos indivíduos dentro das organizações, o que, por sua vez, pode contribuir para o desenvolvimento de práticas de gestão mais eficazes e a melhoria do desempenho organizacional como um todo. Em suma, a integração da psicologia no campo da administração e o entendimento das organizações como sistemas sociais complexos são fundamentais para o desenvolvimento de estratégias eficazes de gestão que levem em consideração os aspectos intrínsecos e extrínsecos do comportamento humano, bem como a estrutura e os recursos das organizações. 1.1 A Psicologia A psicologia, como disciplina científica, tem como base o estudo de um fenômeno singular, inserindo-se no campo das ciências humanas que visam compreender o ser humano e suas interações sociais (BOCK, 2003). Ao longo do tempo e em consonância com as perspectivas teóricas adotadas, as definições do que constitui a psicologia passaram por transformações significativas. Inicialmente, o termo "psicologia" deriva da palavra grega "psyche", que significa "estudo da mente ou da alma", sendo influenciado pelos fundamentos filosóficos que permearam os primórdios da psicologia. Com a preocupação dos pioneiros em estabelecer uma disciplina científica e sob a influência dos pressupostos positivistas, a psicologia foi concebida como a ciência que investiga o comportamento e os processos mentais. No entanto, é importante ressaltar que a psicologia contemporânea se dedica predominantemente ao estudo do ser humano em seus comportamentos observáveis e processos mentais. Considerando as situações em que um líder pode se encontrar, como ao comunicar-se com os membros de seu grupo ou diante de um conflito interpessoal, percebemos que o líder age, sente e pensa. Essas situações exemplificam a abordagem da psicologia contemporânea, que se concentra no estudo do comportamento observável e dos processos mentais. Essas duas dimensões estão intrinsecamente Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 5 ligadas e são fundamentais para compreender o funcionamento humano. No campo da psicologia, existem diversas abordagens ou escolas psicológicas que definem seu objeto de estudo, resultante da investigação das interações humanas. Cada abordagem enfatiza dimensões específicasdo comportamento e dos processos mentais. Por exemplo, a Psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud, trouxe o conceito de inconsciente, que engloba conteúdos latentes não prontamente acessíveis à consciência. Por outro lado, a escola do Behaviorismo, representada por pesquisadores como John B. Watson e B.F. Skinner, foca no estudo do comportamento observável e mensurável. No entanto, é importante ressaltar que essas são apenas duas das muitas abordagens existentes na psicologia. Cada uma delas oferece uma perspectiva única e contribui para a compreensão do ser humano em diferentes aspectos. Nas próximas seções, essas abordagens serão abordadas de maneira mais aprofundada, permitindo uma compreensão mais ampla de suas teorias e aplicações práticas. Em suma, a psicologia contemporânea tem como objetivo estudar o ser humano em suas dimensões comportamentais e processos mentais. As diferentes abordagens psicológicas fornecem diferentes lentes teóricas para compreender e explicar esses fenômenos complexos. Um Vislumbre da História e do Objeto da Psicologia Neste momento, empreenderemos uma análise do desenvolvimento histórico da psicologia até a sua consolidação como uma ciência articulada por diferentes perspectivas epistemológicas. A constituição da psicologia como ciência é considerada recente, ocorrendo somente no final do século XIX, o que justifica a existência de múltiplas explicações para os fenômenos psicológicos. De acordo com Kuhn (1978), a ciência é um processo cumulativo de conhecimento em uma determinada área, contribuindo para o estabelecimento de paradigmas científicos. As raízes da psicologia remontam à filosofia, que se manifestava por meio de reflexões sobre a natureza humana. No século V a.C., destacam-se três filósofos frequentemente reconhecidos por suas contribuições para a compreensão do ser humano: Sócrates, Platão e Aristóteles. Atribui-se a Sócrates a célebre frase relacionada aos fenômenos psicológicos: "Conhece-te a ti mesmo" (MARX; HILLIX, Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 6 1973, p. 51). Ao trazer essa frase para o contexto atual das organizações, é relevante que as pessoas tenham desenvolvido autoconhecimento por meio de autoavaliações e feedbacks, a fim de evitar distorções em sua autoimagem. A filosofia buscou determinar a natureza humana e suas relações com o mundo por meio de observações e reflexões sobre as atividades humanas. O cerne dessa busca residia na essência dessa natureza (MISIAK, 1964). À medida que as especulações acerca da essência humana foram se distanciando, as questões filosóficas se tornaram questões psicológicas, direcionando-se para métodos de conhecimento e intervenção no ser humano fundamentados no empirismo. Contribuições diversas também emergiram das ciências biológicas, sendo as de Darwin particularmente relevantes no século XIX. A obra "A origem das espécies" permitiu consolidar uma perspectiva determinista e naturalista sobre o ser humano. A proximidade identificada entre o desenvolvimento humano e o animal forneceu subsídios valiosos para a busca de "leis" equivalentes ao comportamento humano. Marx e Hillix (1973) observaram que essa possibilidade de "leis" regulares constituía requisito fundamental para a construção de uma Ciência Psicológica. A consolidação da psicologia como ciência ocorreu com a fundação do primeiro laboratório de psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha, no final do século XIX, por William Wundt. A partir desse marco, estabeleceram-se as condições necessárias para o desenvolvimento da psicologia como uma disciplina científica autônoma e como uma profissão nas áreas da saúde, educação e trabalho (FIGUEIREDO, 1991). Nesse laboratório, Wundt adotou uma abordagem empírica para estudar os processos mentais, inaugurando o estruturalismo, que buscava compreender a estrutura da mente humana por meio da análise de suas partes constituintes, como percepções, emoções e pensamentos. Posteriormente, no início do século XX, surgiu o funcionalismo, liderado por William James. O funcionalismo desviou o foco da estrutura da mente para as funções mentais no contexto das adaptações ao ambiente. James foi um dos primeiros a reconhecer a importância das emoções e comportamentos adaptativos para a sobrevivência. Outro marco significativo foi a introdução da psicanálise por Sigmund Freud, que enfocava nos aspectos inconscientes da mente humana, argumentando que os comportamentos e pensamentos são frequentemente o resultado de desejos e medos Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 7 reprimidos. À medida que a psicologia se desenvolveu ao longo do século XX, a perspectiva comportamental ganhou destaque com os trabalhos de John B. Watson e B.F. Skinner. O behaviorismo focava no estudo observável do comportamento e desconsiderava os processos mentais internos, que não podiam ser observados diretamente. A década de 1960 testemunhou o surgimento da psicologia cognitiva, que focava em como as pessoas percebem, pensam, lembram e aprendem, marcando um retorno à investigação dos processos mentais. O trabalho de Jean Piaget, com sua teoria do desenvolvimento cognitivo, foi fundamental neste período. Além disso, a humanista, com nomes como Carl Rogers e Abraham Maslow, enfocou a autorrealização e o desenvolvimento do potencial humano. A abordagem humanista considera que os indivíduos são inerentemente bons e têm a capacidade de fazer escolhas significativas. Na atualidade, a psicologia continua a ser uma ciência em evolução, articulada por diferentes perspectivas epistemológicas. A psicologia contemporânea abrange uma variedade de abordagens, incluindo a neuropsicologia, que explora a relação entre o cérebro e o comportamento, e a psicologia positiva, que estuda os aspectos positivos da experiência humana. No âmbito das organizações, a psicologia organizacional e do trabalho é fundamental para compreender e melhorar a eficiência e o bem-estar dos funcionários. O autoconhecimento, que ecoa a frase de Sócrates "Conhece-te a ti mesmo", é um conceito central na psicologia organizacional e contribui para o desenvolvimento de líderes e equipes eficazes. Em resumo, a psicologia evoluiu de suas raízes filosóficas para uma ciência multidisciplinar e multifacetada, enriquecida por diversas perspectivas epistemológicas que continuam a moldar nosso entendimento sobre a mente humana e o comportamento. O impacto dessa evolução é sentido em áreas tão diversas quanto saúde, educação e mundo corporativo. 1.2 As Escolas Psicológicas A ênfase na observação e o surgimento de um modelo científico influenciaram as tendências em busca de objetividade no estudo dos fenômenos psicológicos, resultando na identificação das principais escolas psicológicas do século XX. Dentre Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 8 essas escolas, o Behaviorismo se destacou, emergindo em consonância com a concepção positivista de ciência. Watson é considerado o fundador do Behaviorismo, também conhecido como Comportamentalismo, Teoria Comportamental, Análise Experimental do Comportamento e Análise do Comportamento (BOCK, 2003). Watson enfatizou o comportamento como a base dos dados psicológicos, adotando a comparação entre comportamento humano e animal como método e criticando as concepções mentalistas em prol da objetividade na psicologia. Posteriormente, outros psicólogos se destacaram no campo behaviorista, com destaque para Skinner e seu estudo do condicionamento operante. No condicionamento operante, ocorre a aprendizagem de comportamentos por meio da ação do organismo no ambiente e dos resultados que se seguem. O estímulo desempenha o papel de reforço, aumentando a probabilidade de resposta comportamental, e pode ser positivo ou negativo,conforme Bock (2003, p. 50). O reforço positivo consiste em qualquer evento que aumenta a probabilidade de uma resposta futura que o produz. O reforço negativo, por sua vez, é qualquer evento que aumenta a probabilidade de uma resposta futura que o remove ou atenua. Além disso, os estudos comportamentalistas também abordam a extinção de comportamentos e a punição, enfatizando o papel do ambiente sobre o organismo e as pessoas. O Behaviorismo é amplamente adotado no contexto organizacional devido à sua capacidade de utilizar práticas mais funcionalistas e alterar comportamentos de maneira sistemática. Atualmente, essa abordagem é empregada como orientação para práticas organizacionais, como descrito no texto da revista Você S/A - Exame, que aborda os mecanismos de punição nas organizações de trabalho brasileiras e como eles inibem desastrosamente a criatividade e restringem o desenvolvimento das pessoas. Compreender a natureza do erro cometido e trabalhar para sua correção requer competência e sabedoria. Essa história de aprender com os erros é verdadeira somente se houver alguém que avalie o erro e estimule sua correção adequada. Uma das desculpas mais frequentes de maus gestores (e pais) é que a falta de tempo impede a análise do erro e o trabalho de correção. No entanto, isso não é verdade. Aceitar o erro comum, investir tempo em sua análise e planejar a correção constituem um desafio gerencial extremamente difícil. Punir, por outro lado, é fácil! (CABRERA, 2007, p. 51). Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 9 A Psicologia da Gestalt é outra escola psicológica que emergiu na primeira década do século XX, a partir dos estudos de psicofisiologia dos fundadores da escola - Wertheimer, Kohler e Koffka. Esses autores se dedicaram a identificar "leis" ou princípios que permitissem compreender que os elementos da experiência não são suficientes para caracterizar a totalidade da percepção (MARX; HILLIX, 1973, p. 313). Uma de suas principais contribuições é a célebre frase de que "O todo é mais do que a soma das partes", ou seja, a percepção das partes não é suficiente para compreender o conjunto de um fenômeno, pois as partes estão em constante mudança e o campo perceptual pode ser integrado em uma totalidade diferenciada. Isso pode ser aplicado aos estudos sobre cultura organizacional, especialmente no que diz respeito às subculturas que influenciam a forma como as pessoas percebem a realidade psicossocial nas organizações de trabalho. Os estudos de Kurt Lewin sobre espaço vital, campo psicológico, dinâmica de grupos e liderança também são frequentemente aplicados nas organizações. Enquanto os estudiosos do Behaviorismo estão voltados para os elementos da experiência e do organismo em sua relação com o ambiente, os estudiosos da Gestalt concentram-se na interpretação das sensações e em uma psicologia da forma. Por outro lado, a Psicanálise, fundada por Freud, trouxe uma nova perspectiva que alterou as concepções predominantes. Com base em seus estudos iniciais sobre anatomia e observação de casos clínicos em consultório, Freud postulou a existência do inconsciente, explorando a influência das etapas iniciais do desenvolvimento, da sexualidade e dos problemas mentais, além da descoberta da transferência na relação terapêutica e seus mecanismos de defesa (MARX; HILLIX, 1973). Uma referência que utiliza a psicanálise no contexto organizacional e de trabalho é a obra de Chanlat: "O indivíduo na organização: dimensões esquecidas" (1994). Os estudos dos mecanismos de defesa realizados por Sigmund Freud evidenciaram resistências contra afetos e representações dolorosas (DORSCH, HACKER; STAPF, 2001). A compreensão desses mecanismos permite entender o processo de construção de comportamentos defensivos nas organizações de trabalho. Isso pode ser ilustrado com o exemplo retirado da revista Você S/A - Exame: Um micromanager - ou microgestor - não surge apenas da falta de experiência. "Existem causas psicológicas que explicam esse comportamento...", diz Elizabeth Zamerul, médica psiquiatra e consultora de recursos humanos. Às vezes, o problema é mais leve, sendo apenas uma defesa contra inseguranças profissionais", afirma Mariá Giuliese, consultora de programas de recolocação da Lens & Minarelli, de São Paulo Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 10 (CUNHA, 2007). As principais contribuições das abordagens psicológicas estudadas (Behaviorismo, Gestalt e Psicanálise) "...constituem-se em matrizes do desenvolvimento da ciência psicológica, propiciando o surgimento de inúmeras abordagens da Psicologia contemporânea" (BOCK, 2003, p. 85). Existe também uma abordagem mais recente desenvolvida na Rússia por Vigotsky, denominada Psicologia Sócio-Histórica. Essa abordagem psicológica é construída a partir da perspectiva do sujeito social, uma vez que as funções superiores do ser humano decorrem dessa condição. No que se refere à sua relação com o trabalho, podemos afirmar que a satisfação das necessidades individuais de cada pessoa, ou seja, suas ações particulares, são determinadas e definidas pela forma como a sociedade se organiza para o trabalho (BOCK, 2003, p. 89). Embora outras abordagens possam ser identificadas, as abordagens mencionadas anteriormente representam as principais. Em resumo, a definição de Misiak (1964, p. 15) sintetiza o objeto da psicologia, contemplando, em parte, as diversas perspectivas existentes nessa disciplina. A psicologia, por meio de métodos científicos, estuda o comportamento humano, tanto o manifestado em ações quanto as atividades concomitantes, como sentimentos, percepções e pensamentos. Nesse sentido, a psicologia se relaciona com outras áreas do conhecimento, como as ciências sociais e as ciências biológicas. 1.3 Teorias Organizacionais Existem diferentes teorias organizacionais que descrevem a estrutura e o funcionamento das organizações, abordando questões relacionadas a características distintas, estrutura, relações entre pessoas e interações entre as pessoas e a tecnologia. Para uma compreensão mais aprofundada desses aspectos, é importante conhecer os diferentes tipos de teorias organizacionais e entender como cada teórico aborda e pensa sobre as questões relacionadas às organizações. De acordo com Spector (2006), existem quatro tipos de teorias organizacionais que serão discutidos a seguir. A teoria da burocracia, desenvolvida por Max Weber no final do século XIX, é amplamente reconhecida como uma das teorias clássicas da estrutura organizacional. Na época, as primeiras organizações enfrentavam problemas de desorganização e ineficiência em sua estrutura e gestão. Weber buscou solucionar essas questões ao Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 11 propor um modelo burocrático de organização. Um dos principais objetivos da teoria da burocracia era trazer ordem e racionalidade para as organizações, tornando-as mais eficientes e previsíveis. Weber acreditava que uma estrutura organizacional burocrática poderia ser mais eficiente do que outros modelos, como o baseado em relações de parentesco ou patrimônio. Uma das características-chave da teoria da burocracia é a divisão do trabalho. Weber defendia que as tarefas deviam ser divididas e especializadas entre diferentes cargos e funcionários, o que aumentaria a eficiência e a produtividade. Cada membro da organização teria funções específicas e bem definidas, evitando a sobreposição de responsabilidades e o desperdício de recursos. Outro aspecto importante da burocracia é a delegação de autoridade. Segundo Weber, as organizações burocráticas são hierarquizadas, com uma estrutura de autoridade claramente definida. A autoridade é distribuída de cima para baixo, com níveis de supervisão e controle. A autoridademáxima é atribuída a uma pessoa no topo da hierarquia, que detém o poder de tomar decisões e estabelecer diretrizes para a organização. A amplitude de controle é outro conceito presente na teoria da burocracia. Refere-se ao número de subordinados que um supervisor pode gerenciar efetivamente. A eficácia do controle depende de fatores como as habilidades dos subordinados e o estilo de supervisão adotado. Quanto mais habilidosos os subordinados e mais adequado o estilo de supervisão, maior será a amplitude de controle ideal. Uma distinção importante feita por Weber é a diferenciação entre cargos de linha e de equipe. Os cargos de linha estão diretamente envolvidos na execução das atividades essenciais da organização, enquanto os cargos de equipe ou staff fornecem suporte e assessoria para os níveis superiores de supervisão. Essa distinção ajuda a definir as responsabilidades e funções de cada posição dentro da estrutura organizacional. A teoria da burocracia de Weber teve um impacto significativo no desenvolvimento das organizações modernas. Suas ideias e conceitos, como a divisão do trabalho, a delegação de autoridade e a estrutura hierárquica, contribuíram para a eficiência e o funcionamento ordenado das organizações. Embora a burocracia possa ter suas limitações e críticas, ela ainda é amplamente aplicada e estudada como um modelo organizacional válido em muitos contextos. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 12 A teoria X/Y, desenvolvida por Douglas McGregor em 1960, é uma abordagem dentro da teoria das relações humanas que explora a interação entre supervisores e subordinados. Essa teoria apresenta duas perspectivas distintas sobre a natureza humana e como ela influencia a gestão organizacional: a teoria X e a teoria Y. A teoria X representa a visão convencional do papel dos gerentes. Segundo essa perspectiva, os gerentes veem os funcionários como indivíduos desmotivados, preguiçosos e que têm uma aversão ao trabalho. Sob a ótica da teoria X, os gerentes acreditam que é necessário exercer controle e autoridade rígidos sobre os funcionários para garantir sua produtividade. Eles assumem que os trabalhadores têm pouco interesse em contribuir para os objetivos da organização e precisam ser supervisionados de perto. Por outro lado, a teoria Y propõe uma visão mais positiva e otimista dos funcionários. De acordo com essa perspectiva, os gerentes devem criar um ambiente de trabalho que incentive e capacite os funcionários a alcançar seus próprios objetivos, ao mesmo tempo em que direcionam seus esforços para os interesses da organização. Na teoria Y, os gerentes acreditam que os funcionários têm um desejo natural de se autorrealizar e de contribuir para o sucesso da organização. Eles confiam nos trabalhadores, dão-lhes autonomia e delegam responsabilidades, reconhecendo a importância da motivação intrínseca. É importante ressaltar que as teorias X e Y não são representações rígidas da realidade, mas sim conceitos que ajudam a compreender diferentes abordagens gerenciais. McGregor argumentava que a forma como os gerentes percebem seus subordinados e suas crenças sobre a natureza humana influenciam diretamente seu estilo de gestão e o clima organizacional. Ao adotar a teoria Y, os gerentes são incentivados a adotar uma abordagem mais participativa, dar espaço para o desenvolvimento das habilidades dos funcionários, promover a autonomia e a responsabilidade, e valorizar o trabalho em equipe e a colaboração. Por outro lado, se os gerentes aderirem à teoria X, eles podem adotar uma abordagem mais autoritária, com foco no controle e na supervisão direta das atividades dos funcionários. A teoria X/Y de McGregor contribuiu para a compreensão da dinâmica das relações humanas no ambiente de trabalho e ajudou a moldar práticas de gestão mais humanizadas. Embora a teoria Y tenha sido mais bem recebida e tenha influenciado significativamente a gestão moderna, a teoria X ainda é relevante em certos contextos ou situações em que a supervisão direta e o controle são necessários para garantir a Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 13 eficiência e o cumprimento das responsabilidades organizacionais. A teoria dos sistemas abertos, elaborada por Katz e Kahn em 1978, é uma abordagem teórica que considera as organizações como sistemas abertos, compartilhando características com organismos vivos. Essa perspectiva destaca a interação constante entre as organizações e seu ambiente externo, enfatizando a importância da adaptação e da troca de recursos para a sobrevivência e o crescimento organizacional. De acordo com essa teoria, as organizações são sistemas dinâmicos e complexos, compostos por diversos elementos inter-relacionados. Assim como os organismos vivos, as organizações têm a capacidade de importar energia do ambiente externo, transformá-la por meio de processos internos e, em seguida, exportar produtos ou serviços resultantes desse processamento. Essa troca de energia e recursos é essencial para a operação e o desenvolvimento das organizações. Katz e Kahn identificaram dez características organizacionais fundamentais, que são: 1) Importação de energia: as organizações buscam e adquirem recursos externos necessários para seu funcionamento, como matérias- primas, capital financeiro, informações e mão de obra. 2) Transformação de energia: as organizações utilizam os recursos importados para produzir bens ou serviços por meio de processos internos. 3) Produção: as organizações fabricam produtos ou prestam serviços que são comercializados ou disponibilizados para seus clientes ou usuários. 4) Ciclos de eventos: as organizações operam em ciclos de eventos temporais, como turnos de trabalho, sazonalidade ou padrões de demanda. 5) Homeostase: as organizações buscam manter um equilíbrio interno para garantir sua estabilidade e continuidade. Isso envolve o ajuste e a regulação de suas operações internas em resposta a mudanças no ambiente externo. 6) Fornecimento de informações: as organizações coletam, processam e distribuem informações relevantes para suas operações e tomada de decisões. 7) Especialização: as organizações dividem o trabalho em funções Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 14 especializadas para aumentar a eficiência e a produtividade. 8) Coordenação e integração: as organizações estabelecem mecanismos e estruturas para coordenar e integrar as atividades de suas unidades ou departamentos, garantindo a harmonia e a sincronização dos esforços organizacionais. 9) Finalidade equitativa: as organizações estabelecem objetivos e metas que são equitativamente distribuídos entre os membros, considerando suas habilidades e contribuições. 10) Ambiente: as organizações estão imersas em um ambiente físico e social que influencia suas operações e seu desempenho. Elas precisam se adaptar e responder às demandas e pressões externas para garantir sua sustentabilidade. A teoria dos sistemas abertos enfatiza a interdependência entre as organizações e seu ambiente, destacando a necessidade de ajuste e adaptação contínuos para enfrentar as mudanças e desafios externos. Essa abordagem reconhece a complexidade das organizações e destaca a importância da gestão estratégica e do equilíbrio entre as dimensões internas e externas para o sucesso organizacional. A última teoria descrita por Spector (2006) é a teoria dos sistemas sociotécnicos. É uma abordagem teórica que enfoca as relações entre pessoas e tecnologias dentro do ambiente organizacional. Essa teoria reconhece a interação dinâmica e mútua entre os aspectos sociais e técnicos de uma organização, buscando compreender como as pessoas afetam a tecnologia e como a tecnologia afeta as pessoas. Segundo essa teoria, as pessoasdesempenham um papel fundamental na configuração e no uso da tecnologia dentro de uma organização. Elas são responsáveis por operar, adaptar e desenvolver sistemas tecnológicos, influenciando sua eficácia e impacto organizacional. Ao mesmo tempo, a tecnologia também influencia as pessoas, moldando suas tarefas, habilidades e interações no ambiente de trabalho. Essa perspectiva considera que as pessoas e a tecnologia formam um sistema interdependente, em que mudanças em um componente afetam o outro. Portanto, é essencial compreender as interações complexas entre as dimensões social e técnica para promover um funcionamento eficiente e eficaz da organização. Além disso, a teoria dos sistemas sociotécnicos também reconhece a importância Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 15 do ambiente em que a organização opera. Esse ambiente envolve tanto fatores físicos quanto sociais, incluindo a cultura organizacional, as normas, os valores e as demandas externas. Esses elementos do ambiente podem influenciar a forma como as pessoas interagem com a tecnologia e como a tecnologia é projetada e implementada dentro da organização. Uma abordagem sociotécnica busca criar um equilíbrio entre as necessidades e habilidades das pessoas e as capacidades e limitações da tecnologia. Isso envolve projetar sistemas de trabalho que permitam a participação ativa das pessoas no processo de tomada de decisões, valorizando sua experiência e conhecimento. Além disso, também envolve a adoção de tecnologias que sejam adequadas às necessidades das pessoas e promovam a eficiência e a eficácia organizacional. Essa teoria, enfim, examina a relação entre pessoas e tecnologia dentro do contexto organizacional, reconhecendo a influência mútua entre esses elementos. Essa abordagem destaca a importância de projetar sistemas de trabalho que levem em consideração as dimensões social e técnica, visando o alcance de um equilíbrio que promova o desempenho organizacional e o bem-estar dos indivíduos., que examina a organização a partir das relações entre pessoas e tecnologias no ambiente organizacional. Essa teoria reconhece a influência das pessoas sobre a tecnologia e a influência da tecnologia sobre as pessoas, considerando também o ambiente em que a organização opera. Em suma, essas diferentes teorias organizacionais fornecem perspectivas variadas sobre a estrutura, funcionamento e interações nas organizações. Cada teoria enfatiza aspectos específicos e oferece abordagens distintas para compreender as complexidades das organizações. O estudo dessas teorias contribui para uma compreensão mais abrangente do campo da psicologia organizacional e sua aplicação no contexto organizacional. 1.4 A Atuação do Psicólogo no Brasil No Brasil, os conhecimentos no campo da psicologia foram adotados com certo atraso em relação a outros países. A regulamentação da profissão de psicólogo ocorreu por meio da Lei n. 4.119/62, que foi posteriormente regulamentada pelo Decreto n. 53.464/64, estabelecendo as funções características da atuação profissional. De acordo com Carvalho et al. (1988), essa legislação definiu duas principais funções para o profissional: ensino da psicologia e intervenção em três grandes áreas: clínica, Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 16 escolar e industrial. No Catálogo Brasileiro de Ocupações (CBO) do Ministério do Trabalho e Emprego, consta que o psicólogo estuda o comportamento e a estrutura psíquica das pessoas. Suas atividades estão principalmente relacionadas a contextos clínicos, organizacionais e educacionais, sendo definidas pela localização em que são realizadas, e não necessariamente pelos fenômenos em si. Portanto, cabe ao psicólogo elaborar e aplicar métodos e técnicas de pesquisa das características psicológicas dos indivíduos, organizar e aplicar métodos e técnicas de recrutamento, seleção e orientação profissional, realizar aferição desses processos para controle de sua validade, realizar estudos e aplicações práticas no campo da educação (creches e escolas), trabalhar em clínicas psicológicas, hospitais, ambulatórios, postos de saúde, núcleos e centros de atenção psicossocial, atuar em casos envolvendo famílias, crianças e adolescentes, sistemas penitenciários, associações esportivas, comunidades e áreas rurais (BRASIL, 2010). A psicologia organizacional é um ramo de atuação da Psicologia voltado para o estudo e estruturação do comportamento dos profissionais de uma empresa. Com isso, cabe dizer que se trata da psicologia que é usada para orientar a gestão de pessoas para promover a qualidade de vida e as boas relações no ambiente de trabalho. Agora que já foram apresentadas as principais etapas do desenvolvimento da psicologia como ciência e as atividades do psicólogo, é necessário estudar o desenvolvimento da psicologia organizacional no Brasil e as atividades específicas do psicólogo que atua nas organizações de trabalho. A área da psicologia voltada aos processos de trabalho e organizacionais começou a se desenvolver no início do século passado, em consonância com os pressupostos do Taylorismo, e teve como foco o estudo da produtividade em relação ao esforço despendido (SAMPAIO, 1998). Isso caracterizou uma abordagem de psicologia industrial, cujos principais fundamentos foram baseados na psicologia, nas diferenças individuais, no funcionalismo e no behaviorismo. O surgimento da psicologia organizacional no Brasil está intimamente ligado à expansão do processo de industrialização no final do século XIX e início do século XX, com o objetivo de avaliar e selecionar funcionários para as indústrias e militares para o exército (ZANELLI; BASTOS, 2004). Os estudos iniciados em 1924 deram origem a uma reação ao Taylorismo, conhecida como Escola de Relações Humanas, que reconhecia a existência de fatores humanos que influenciavam a produção. Nesse Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 17 período, houve um aumento do interesse pela motivação, comunicação e comportamento de grupos. Essa ênfase refletia uma tentativa de reduzir os efeitos das organizações mecanicistas, buscando melhorar o relacionamento entre os trabalhadores (SAMPAIO, 1998). Durante a Segunda Guerra Mundial, as atividades dos psicólogos foram ampliadas devido à avaliação psicológica para seleção de combatentes. As medidas de avaliação psicológica, os procedimentos de colocação, treinamento, classificação de pessoal, avaliação de desempenho e liderança foram o foco das intervenções nessa época. Também foram desenvolvidos estudos em ergonomia para projetar equipamentos levando em consideração as capacidades e limitações dos trabalhadores. Sampaio (1998) identificou que os profissionais de psicologia industrial estavam mais interessados nas tarefas de trabalho do que na análise da estrutura e dos processos organizacionais. As lacunas encontradas nessas intervenções contribuíram para uma primeira distinção entre a psicologia industrial e a psicologia organizacional: enquanto uma estava focada em questões humanas relacionadas à indústria, a outra estava voltada para a ampliação do mercado de trabalho. Historicamente, a psicologia organizacional se desenvolveu como uma ampliação do objeto de estudo da psicologia industrial. De acordo com Sampaio (1998), o caráter instrumental da psicologia organizacional levou a uma supervalorização das teorias comportamentais (behaviorismo) na psicologia, que enfatizavam a influência do ambiente no comportamento humano e minimizavam as influências intrapsíquicas. Essas influências intrapsíquicas eram abordadas principalmente no contexto da satisfação, tema que ganhou destaque a partir da década de 1950. No início dos anos 1970, os estudos em administração começaram a considerar os efeitos do ambientee da tecnologia no contexto organizacional. As abordagens administrativas, frequentemente criticadas por seu excesso de funcionalismo e prescrições, passaram a ser mais descritivas, explicativas e críticas. Paralelamente, surgiram os estudos da psicologia do trabalho, que tinham interesse em compreender o homem que trabalha e incluíam questões como ação de grupos nas organizações, relações de poder, conflito, emprego e desemprego. Até meados do século XX, as atividades do psicólogo organizacional brasileiro estavam relacionadas principalmente ao recrutamento, seleção, treinamento, análise ocupacional e avaliação de desempenho. Na década de 1980, essas atividades clássicas ainda predominavam, embora houvesse outras atividades que ampliavam o escopo profissional, como planejamento e execução de projetos, diagnósticos situacionais, assessoria e consultoria (ZANELLI; BASTOS, 2004). Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 18 Na década de 1990, críticas ao modelo clássico de atuação, que era excessivamente técnico, juntamente com as transformações sociais decorrentes da abertura do mercado e do aumento da competitividade, resultaram em novas formas de organização do trabalho e demandas por competências específicas do psicólogo, gerando tendências inovadoras na atuação da psicologia organizacional (ZANELLI; BASTOS, 2004). É importante ressaltar que o campo de atuação da psicologia organizacional pode ser representado por diversos subcampos, como administração de pessoal, qualificação e desenvolvimento, comportamento organizacional, condições e higiene do trabalho, relações de trabalho e mudança organizacional. Cada um desses subcampos envolve intervenções em níveis técnicos, estratégicos e políticos (BASTOS, 1992 apud ZANELLI; BASTOS, 2004). Com o intuito de proporcionar uma visão geral da área de conhecimento e do campo de atuação da psicologia organizacional e do trabalho, Zanelli e Bastos (2004) elaboraram a seguinte síntese: Enquanto a psicologia do trabalho está mais voltada para questões de mercado, emprego, organização do trabalho, ergonomia e saúde ocupacional, as atividades do Fundamentos da Psicologia Organizacional | Introdução www.cenes.com.br | 19 psicólogo relacionadas à gestão e ao comportamento estão mais direcionadas às atividades do administrador. O psicólogo contribui com conhecimentos, métodos e técnicas para a gestão de pessoas e processos organizacionais. A psicologia organizacional engloba o que geralmente chamamos de comportamento humano nas organizações ou comportamento organizacional. Em suma, a psicologia organizacional e do trabalho tem como tarefa central explorar, analisar e compreender a interação das múltiplas dimensões que caracterizam a vida das pessoas, grupos e organizações em um mundo cada vez mais complexo e em constante transformação. Seu objetivo é desenvolver estratégias e procedimentos que possam promover, preservar e restabelecer a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas (ZANELLI; BASTOS, 2004, p. 490). 1.5 A Importância da Psicologia Organizacional A psicologia organizacional, como campo de estudo e atuação, desempenha um papel de extrema importância na busca por um ambiente de trabalho harmonioso e saudável, capaz de evitar situações que possam prejudicar tanto os funcionários quanto a própria empresa. É preciso compreender que diferentes fatores, tais como o avanço tecnológico e as transformações sociais, têm influenciado significativamente a dinâmica do universo do trabalho, apresentando novos desafios tanto para os empregadores quanto para os trabalhadores envolvidos. Nesse contexto, a competitividade do mercado surge como um fator relevante, demandando metas ousadas e, consequentemente, acarretando níveis variados de estresse. Tal conjuntura é propícia para o surgimento de conflitos e até mesmo o desenvolvimento de doenças ocupacionais, cenário indesejável por todas as partes envolvidas. Dessa forma, torna-se natural que tanto os empregadores quanto os trabalhadores busquem maneiras de evitar esses problemas e promover um ambiente de trabalho saudável e produtivo. Cabe ressaltar que, sendo os empregadores o lado mais forte na relação de trabalho, recai sobre eles a responsabilidade de garantir condições apropriadas para o desempenho das atividades laborais. Essa responsabilidade abrange desde a adequação do espaço físico de trabalho até a consideração das demandas e das necessidades relacionadas ao bem-estar emocional dos funcionários. Nesse contexto, a psicologia organizacional se destaca, uma vez que sua atuação vai desde a valorização e o respeito às pausas e intervalos no trabalho até a importância de Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 20 promover um ambiente onde todos possam se expressar e ser ouvidos, contribuindo para a criação de um ambiente de trabalho agradável e acolhedor. É importante reconhecer que, quando uma empresa não se preocupa com o bem-estar e as relações interpessoais no ambiente de trabalho, a motivação e a produtividade tendem a ser afetadas negativamente, enquanto conflitos e pedidos de demissão podem aumentar. Os benefícios advindos da aplicação da psicologia organizacional são significativos e desejáveis para qualquer organização. Em um mercado cada vez mais competitivo, onde a demanda por inovação, agilidade e qualidade é crescente, alcançar esses objetivos de forma harmônica e eficiente é um desafio constante. É necessário reconhecer que o foco excessivo na produção, sem a devida consideração ao bem-estar dos funcionários, pode gerar resultados a curto prazo, mas trazer prejuízos a longo prazo. A queda na produtividade, os afastamentos e a alta rotatividade são situações que todas as organizações buscam evitar. Para isso, a psicologia organizacional desempenha um papel fundamental ao criar condições ideais para maximizar a produtividade e promover a retenção de funcionários. Imaginar uma realidade em que os trabalhadores se sintam motivados, engajados e satisfeitos em seu ambiente de trabalho é algo desejável e vantajoso para as empresas. Os benefícios obtidos vão além da melhoria do clima organizacional, abrangendo o aumento dos lucros e o fortalecimento da marca empregadora. É fundamental compreender que essas conquistas dependem da presença ativa de um profissional de psicologia organizacional e da formação de uma equipe especializada, capaz de atuar em diversas áreas da organização e abordar as demandas complexas do ambiente de trabalho contemporâneo. 2 O Homem e o Trabalho Ao iniciar o estudo da Psicologia Organizacional é importante entendermos um pouco sobre as concepções do trabalho, e o papel que ele desempenha na vida do homem. Quando pensamos no trabalho vários questionamentos nos vem à mente, de modo a tentarmos compreender qual o significado dele em nossa existência. A relação que se pode estabelecer entre o trabalho e a existência está centralizada nas constantes necessidades de verificar os diversos significados atribuídos pelo homem ao espaço social ocupado no contexto do trabalho (KANAANE, 2009). Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 21 Kanaane (2009) afirma que o trabalho sempre ocupou lugar central na vida das pessoas, nas mais diferentes comunidades, onde gradativamente foi sendo limitado pelas condições socialmente estabelecidas. Ao investigarmos os distintos significados atribuídos ao trabalho, encontramos a contribuição de concepções originárias não somente das ciências sociais, como a antropologia, sociologia, economia e psicologia; e ao nos referirmos a tais concepções, devemos destacar outras que alteram e definem essa relação: as concepções políticas, religiosas, econômicas, ideológicas, históricas, biológicas, culturais etc.Segundo Lacombe (2006), em relação ao conceito do trabalho, muitos adotam o ponto de vista de que ele é um fardo, de que o homem trabalha para sobreviver, ou, se for afortunado, a fim de conseguir dinheiro suficiente para poder fazer as coisas de que realmente gosta. Para este autor é preciso considerar que: • O trabalho é parte essencial da vida humana, uma vez que constitui aquele aspecto de sua vida que lhe dá status e o liga a vida em sociedade; • As pessoas tendem a gostar de seu trabalho, ou procurar um trabalho que lhe traga verdadeira satisfação profissional e pessoal; • O trabalho é uma atividade social; • A moral do trabalhador não tem relação com as condições materiais do trabalho. A temperatura, iluminação, barulhos e umidade afetam a saúde física e o conforto, e não a motivação; • Sob condições normais, o dinheiro é um dos incentivos motivacionais menos importantes; • O desemprego é um poderoso incentivo negativo, porque acaba por eliminar o homem da sociedade. Muitos são os estudiosos e teóricos do trabalho com visões e definições diferentes, mas todos, de certa forma, colocam o trabalho como algo essencial ao homem. Para Benetto Croce (apud Labombe, 2006 p. 4): O trabalho isento de coeficientes ideológicos, é a mais fecunda afirmação da vida humana. O trabalho não é pena e dor, pelo contrário, é essencialmente a alegria de viver, sendo trabalho penoso aquele que não conseguimos fazer nosso, que não se funde com nossas disposições e tendências, ou que não se torna nossas disposições e tendências, ou que não nos empenha Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 22 inteiramente. (Croce apud Labombe, 2006, p. 4). Outro que coloca uma definição sobre a importância do trabalho é Auguste Rodin (apud Lacombe, 2006, p. 4), para ele “o mundo não será feliz senão quando todas as pessoas tiverem a alma de artista, isto é, quando todos sentirem prazer no seu trabalho”. Analisando esses comentários, podemos ver o quanto é grandioso ao homem uma atividade profissional que lhe traga satisfação e realização, além de ser extremamente necessário para sua subsistência. Mas podemos ver muitas vezes que ocorre certa desvalorização do trabalho que é parte própria da divisão do trabalho, que embora existindo desde os tempos pré-históricos, foi grandemente acentuada na Revolução industrial, especialmente pela aplicação do taylorismo. A valorização do trabalho, principalmente o manual, não é exclusivamente brasileira, suas origens remontam à Idade Antiga, aos romanos e à maioria das civilizações orientais. Somente no século XX, a valorização do trabalho começou a evoluir positivamente. O regime da escravidão, que durou mais de quatro séculos no Brasil, certamente contribui para desvalorizar a natureza do trabalho no país (LACOMBE, 2006). Friedmann (1983, apud Kanaane, 2009 p. 17) coloca que o trabalho assume as seguintes facetas: • Aspecto técnico, que implica questões referentes ao local de trabalho e adaptação fisiológica e social; • Aspecto fisiológico, cuja questão fundamental se refere ao nível de adaptação homem/lugar de trabalho/meio físico e ao problema da fadiga; • Aspecto moral, como atividade social humana, considerando especialmente as aptidões, motivações, o grau de consciência, as satisfações e a relação íntima entre a atividade de trabalho e a personalidade; • Aspecto social que considera as questões do ambiente e os fatores externos (família, sindicato, partido político, classe social). Precisa-se se considerar sob tal perspectiva a interdependência entre o trabalho e papel social e as motivações subjacentes; • Aspecto econômico, como fator de geração de riqueza, geralmente contraposto ao capital, e unido em sua função a outros fatores: organização, propriedade, terra. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 23 Das disposições assinaladas, pode-se concluir que o trabalho é uma ação humana exercida num contexto social, que sofre influências de diferentes fontes, o que resulta numa ação recíproca entre o trabalhador e os meios de produção. Do ponto de vista psicológico, o trabalho provoca diferentes níveis de motivação e de satisfação no trabalhador, principalmente quanto à forma e à maneira na qual desempenha sua tarefa. As diferentes abordagens sobre motivação humana destacam o conceito de necessidade e o conceito de expectativa. Não basta apenas levarmos em consideração as necessidades como determinantes do comportamento do trabalhador; é preciso considerar também em que grau ele percebe as condições existentes no ambiente organizacional, como facilitadoras ou não, para atingir seus objetivos e suas necessidades (KANAANE, 2009). Podemos dizer que, de certa forma, ao sentir-se integrado em um processo de trabalho, o homem tende a responsabilizar-se por ele. Tal participação proporciona- lhe consciência mais ampla de si mesmo e dos meios de produção e possibilita-lhe desenvolver sua habilidade de opção diante do trabalho e, por extensão, da sociedade de maneira geral. Consequentemente, esse caminho lhe dá a possibilidade de apropriar-se de sua cidadania, que lhe proporciona condições de desenvolvimento e equilíbrio psicológico. É possível considerar, que tirando as condições de sobrevivência e subsistência, o trabalho possibilita ao indivíduo exercer sua criatividade, desde que as condições ambientais e profissionais sejam facilitadoras, levando-o à plena realização (KANAANE, 2009). Segundo Kanaane (2009, p. 22) “as energias individuais e grupais, se canalizadas efetivamente para a concretização de objetivos pessoais e/ou profissionais, possibilitam ao ser humano condições de dar vazão a suas potencialidades, resultando em realização pessoal”. Isso mostra a importância do trabalho como fonte que mobiliza as capacidades humanas. 2.1 As Organizações de Trabalho As pessoas passam maior parte do tempo de suas vidas no trabalho e dentro das organizações. A produção de bens e serviços não pode ser desenvolvida por pessoas que trabalham de forma isolada. Quanto mais industrializada for a sociedade, tanto maiores, numerosas e complexas se tornam as organizações. Estas passam a criar um grande e duradouro impacto sobre a vida e sobre a qualidade de vida das pessoas. As pessoas nascem, crescem, são educadas, trabalham e se divertem dentro das organizações. Sejam quais forem seus objetivos – lucrativos, educacionais, religiosos, Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 24 políticos, sociais, econômicos – as organizações envolvem as pessoas que se tornam cada vez mais dependentes da atividade organizacional (CHIAVENATO, 2003). Lacombe (2006, p. 8) coloca que “as organizações são feitas por pessoas. São elas que agem que tomam as decisões. Nada acontece em uma organização até que as pessoas tomem decisões e ajam em seu nome”. Denominamos aqui organização um grupo de pessoas que se constitui de forma organizada para alcançar objetivos em comum. Incluem-se nessa definição as empresas, as universidades, os hospitais, as escolas, as creches, as associações culturais, os partidos políticos, os sindicatos, os clubes, os condomínios, as cooperativas, as famílias, as organizações não governamentais, as associações de classes profissionais, as corporações militares, as associações de moradores de bairros e muitas outras. Quase tudo, portanto é realizado pela e dentro das organizações. Segundo Chiavenato (1998), a organização é um sistema de atividades conscientemente coordenadas de dois ou mais indivíduos. A cooperação entre eles é essencial para a existência da organização. Uma organização só existe quando há pessoas capazes de se comunicar e que estão dispostas a contribuir com ação conjunta a fim de alcançarem um objetivocomum. Como todos nós sabemos, as organizações passaram e ainda estão passando por muitas transformações. A cada dia o mercado fica mais competitivo e é necessário introduzir novas tecnologias, como maneira de modificar os seus produtos ou serviços, e para alterar o comportamento das pessoas. Mudando os seus processos internos, as organizações estão sempre mostrando diferentes características na sua estrutura e nos seus processos. Essas alterações provocam constantes impactos na sociedade e na vida das pessoas (CHIAVENATTO, 2003). Segundo Chiavenatto (2003) no decorrer do século XX, as organizações passaram por três fases diferentes: A Era da Industrialização Clássica, que ocorreu entre os anos de 1900 e 1950, foi um período marcado pela intensificação da industrialização impulsionada pela Revolução Industrial. Durante essa fase, a estrutura organizacional das empresas era caracterizada por uma hierarquia piramidal e centralizada, com departamentalização funcional e um modelo burocrático de gestão. As decisões eram centralizadas no topo da hierarquia, e eram estabelecidas regras e regulamentos internos para disciplinar e padronizar o comportamento dos funcionários. Nesse contexto, as pessoas eram vistas apenas como recursos de produção, Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 25 juntamente com outros recursos organizacionais, como máquinas, equipamentos e capital. Essa concepção era baseada nos três fatores tradicionais de produção: natureza, capital e trabalho. A gestão dos recursos humanos era conhecida como Relações Industriais, e seu principal objetivo era atender às demandas da tecnologia e da produção industrial. Nessa época, o ser humano era tratado como mero apêndice da máquina, e suas necessidades e bem-estar muitas vezes eram negligenciados em prol da eficiência produtiva. Os trabalhadores eram vistos como peças substituíveis no processo de produção, e a ênfase era colocada na eficiência e na produtividade. As condições de trabalho eram frequentemente precárias, com longas jornadas, baixos salários e falta de direitos trabalhistas. As relações entre os trabalhadores e a gestão eram frequentemente marcadas por conflitos e desigualdades, com os trabalhadores buscando melhores condições de trabalho e direitos sindicais. No entanto, é importante ressaltar que a Era da Industrialização Clássica também trouxe avanços significativos em termos de produção em larga escala, aumento da eficiência e crescimento econômico. A Revolução Industrial impulsionou o desenvolvimento tecnológico e a criação de indústrias modernas, transformando profundamente a sociedade e a forma como o trabalho era realizado. Embora a visão de tratar os trabalhadores como meros recursos de produção tenha sido predominante nessa época, ao longo do tempo surgiram movimentos sociais e trabalhistas que buscaram melhorias nas condições de trabalho e na valorização dos direitos dos trabalhadores. Esses movimentos foram fundamentais para o desenvolvimento de uma perspectiva mais humanizada e centrada nas pessoas no campo da gestão de recursos humanos. Com o passar dos anos, a administração e a gestão dos recursos humanos evoluíram para reconhecer a importância do ser humano no ambiente de trabalho, valorizando o desenvolvimento e o bem-estar dos funcionários. Essa mudança de paradigma resultou em abordagens mais humanas e estratégicas para a gestão de pessoas, com o reconhecimento de que o sucesso organizacional depende do engajamento, satisfação e desenvolvimento dos colaboradores. A Era da Industrialização Neoclássica foi um período que se estendeu de 1950 a 1990 e teve seu início após a Segunda Guerra Mundial, marcando uma época de intensas mudanças no mundo. Durante esse período, as transformações passaram a ocorrer de forma rápida, intensa e imprevisível. As transações comerciais deixaram de ser apenas locais e passaram a ocorrer em nível regional e internacional. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 26 O antigo modelo burocrático, piramidal e centralizador da Era da Industrialização Clássica revelou-se lento e inflexível para acompanhar as rápidas mudanças que ocorriam no ambiente organizacional. Diante desse cenário, as organizações precisaram criar modelos de estrutura que possibilitassem maior inovação e melhor adaptação às novas condições. Foi nesse contexto que surgiu a estrutura matricial, que introduziu um esquema lateral de departamentalização por produtos ou serviços. Essa estrutura permitia agilidade nos processos e uma resposta mais rápida às demandas, incorporando características de inovação e dinamismo para alcançar a competitividade. Além das mudanças na estrutura organizacional, houve uma transformação na cultura empresarial. A cultura organizacional passou a focar no presente, dando espaço para a inovação como um fator essencial para o sucesso das empresas. A visão tradicional de Relações Industriais foi substituída por uma nova abordagem na gestão de pessoas, conhecida como Administração de Recursos Humanos (ARH). Na Administração de Recursos Humanos, as pessoas passaram a ser vistas como recursos vivos e não apenas como máquinas de produção. Houve uma mudança de perspectiva, reconhecendo-se a importância do capital humano nas organizações. As pessoas foram valorizadas como agentes fundamentais para o sucesso das empresas, considerando-se suas habilidades, conhecimentos e potenciais de desenvolvimento. Outro aspecto importante desse período foi o avanço da tecnologia, que ocupou um espaço significativo nas organizações e transformou tanto a forma de trabalho quanto a vida das pessoas que faziam parte delas. A tecnologia trouxe inovações em processos produtivos, comunicação, armazenamento de dados e outros aspectos, possibilitando maior eficiência e produtividade nas empresas. A Era da Informação teve início por volta dos anos 90 e é caracterizada por rápidas e imprevistas mudanças. A disseminação instantânea de informações possibilitada pela tecnologia transformou a economia global, levando à globalização e ao surgimento de um mercado financeiro que atravessa continentes em questão de segundos, em busca de oportunidades de investimento. Nesse contexto, as organizações tornaram-se altamente competitivas, buscando agilidade, mobilidade, inovação e adaptabilidade. A estrutura organizacional em matriz, que anteriormente era considerada avançada, mostrou-se insuficiente para atender às demandas desse novo ambiente. Os processos organizacionais passaram a ganhar maior importância do que os departamentos em si, uma vez que as empresas Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 27 precisam se adaptar rapidamente às mudanças no ambiente e na tecnologia. Os cargos e funções dentro das organizações são constantemente redefinidos em resposta a essas mudanças. Os processos e serviços são ajustados de acordo com as demandas e necessidades dos clientes, que se tornaram mais exigentes. As organizações do futuro estão se movendo além das restrições de tempo, espaço e distância, permitindo uma maior flexibilidade e capacidade de resposta. A própria concepção de espaço físico nas organizações passou por transformações. Ambientes de trabalho coletivos substituíram as salas e espaços individuais, promovendo maior colaboração e interação entre os membros da equipe. Na Era da Informação, o conhecimento emergiu como o recurso mais valioso. Embora o capital financeiro ainda seja importante, é o conhecimento sobre como utilizá-lo e aplicá-lo de forma lucrativa que se tornou crucial. O trabalho manual foi substituído pelo trabalho mental, e muitas pessoas migraram do setor industrial para o setor de serviços. Indivíduos com habilidades mentais e conhecimentos especializados passarama ser altamente valorizados e se tornaram a base das organizações. Essa mudança de paradigma trouxe consigo uma nova abordagem na gestão de pessoas, hoje conhecida como Gestão de Pessoas. A antiga Administração de Recursos Humanos (ARH) deu lugar a uma abordagem mais abrangente, reconhecendo que as pessoas não são apenas recursos organizacionais, mas seres humanos dotados de inteligência, conhecimentos, habilidades e atitudes que contribuem para o sucesso das organizações. Em resumo, a Era da Informação trouxe consigo mudanças profundas nas organizações, impulsionadas pela tecnologia e pela disseminação instantânea de informações. A agilidade, a capacidade de inovação e a valorização do conhecimento e das habilidades das pessoas são elementos-chave nesse novo contexto, em que a gestão de pessoas assume um papel central na busca pela competitividade e pelo sucesso organizacional. Segundo Kanaane (2009) os estudiosos avaliam que a grande mudança nessa virada do século no mundo do trabalho trará uma nova organização do trabalho. Apenas uma minoria dos profissionais estará empregada em empresas que exigem e oferecem tempo integral, como o existente no estilo tradicional. Os que possuírem emprego em tempo integral serão somente os profissionais de altíssima qualificação, os demais serão divididos em três categorias diferentes no mundo do trabalho: Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Homem e o Trabalho www.cenes.com.br | 28 • 1ª Classe: refere-se a um grupo de profissionais que estão envolvidos em projetos específicos. Esses indivíduos são responsáveis por executar tarefas que exigem habilidades e competências especializadas. Por estarem envolvidos em projetos complexos e desafiadores, geralmente recebem uma remuneração mais alta. Esses profissionais podem ser contratados como consultores, especialistas ou membros de equipes de projetos. Eles devem possuir conhecimentos avançados em suas áreas de atuação e serem capazes de lidar com demandas exigentes. • 2ª Classe: compreende o trabalho em tempo parcial ou sazonal. Nesse caso, muitas pessoas trabalham apenas alguns dias ou algumas vezes por semana. Esses trabalhadores não precisam ter um alto nível de intelectualização, mas sim de habilidades especializadas para desempenhar suas tarefas específicas. Exemplos comuns são encontrados em setores como varejo, turismo e hospitalidade, nos quais os funcionários podem ser contratados para atender a picos sazonais de demanda, como feriados ou temporadas de férias. Geralmente, esses trabalhadores são treinados para desempenhar funções específicas e não requerem um alto grau de especialização ou qualificação. • 3ª Classe: engloba o trabalho individual ou em grupos familiares, que é realizado em casa, conhecido como Home Office. Nessa modalidade, as pessoas executam suas atividades profissionais em seu próprio ambiente doméstico. Essa forma de trabalho oferece flexibilidade em termos de horários e localização, permitindo que os profissionais se organizem de acordo com suas necessidades individuais. Essa categoria abrange uma variedade de profissões, como freelancers, empreendedores individuais, trabalhadores autônomos e profissionais que trabalham remotamente para empresas. O Home Office tem se tornado cada vez mais comum devido ao avanço da tecnologia e à possibilidade de comunicação e colaboração online. É importante ressaltar que cada uma dessas classes de trabalho apresenta características distintas e requer diferentes níveis de habilidades, especialização e remuneração. Compreender as particularidades de cada classe de trabalho auxilia na compreensão do panorama geral do mercado de trabalho e nas oportunidades disponíveis para os profissionais em diferentes setores e contextos. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da Psicologia Organizacional www.cenes.com.br | 29 Como pudemos observar, as organizações passaram e passam por constantes mudanças, e isso faz com que elas valorizem ainda mais o capital humano no ambiente organizacional. Este novo cenário vem trazer uma nova concepção para gerir as pessoas. A moderna e atual Gestão de Pessoas exige do profissional responsável a capacidade de trilhar novos caminhos para a valorização dos colaboradores, abrindo cada vez mais espaço e se fazendo necessária a inserção dos psicólogos dentro das organizações de trabalho. 3 Evolução Histórica da Psicologia Organizacional Após compreendermos a relação do homem com o trabalho e as organizações, vamos dar início ao estudo da Psicologia Organizacional. Segundo Spector (2005, p. 7) “psicologia é a ciência do comportamento humano (e não humano), da cognição, da emoção e da motivação”. Ela pode ser dividida em várias especializações, algumas delas se preocupam somente com o próprio conhecimento da psicologia como ciência, enquanto outras se voltam também para a aplicação daquela ciência. A psicologia organizacional está inserida nesta última categoria ocupando-se tanto da ciência psicológica como com a sua aplicação aos problemas das pessoas nas organizações. O campo da Psicologia Organizacional possui duas divisões principais: a industrial (de recursos humanos) e a organizacional. Apesar destes dois conteúdos se sobreporem e não poderem ser facilmente separados, tradicionalmente eles têm origens diferentes. A parte industrial, que deu início a este campo de atuação é a mais antiga e busca gerenciar a eficácia organizacional por meio do uso adequado dos recursos humanos. Ela se preocupa com a questão de eficiência no projeto de tarefas, seleção e treinamento de funcionários e avaliação de desempenho. A parte organizacional se desenvolveu a partir do movimento das relações humanas nas empresas. Seu foco no trabalhador como indivíduo é maior do que a existente na parte industrial. Ela se preocupa em entender e compreender o comportamento individual e aumentar o bem-estar dos colaboradores no ambiente de trabalho. Os aspectos organizacionais abordam o comportamento e as atitudes dos funcionários, o estresse no trabalho e práticas de supervisão. Como podemos observar a área industrial e organizacional não podem ser distinguidas com clareza, e juntas elas sugerem toda a amplitude da psicologia organizacional (SPECTOR, 2005). Aguiar (2002) coloca que “a psicologia organizacional no seu processo de Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da Psicologia Organizacional www.cenes.com.br | 30 desenvolvimento histórico enquanto ciência aplicada, tem se dedicado à adequação dos indivíduos membros da organização aos fins por ela definidos”. Isto caracteriza uma razão técnica identificada pela utilização dos indivíduos como meio para atingir objetivos determinados pela organização. A psicologia organizacional utiliza técnicas e instrumentos que atuam desde a seleção a partir de critérios pré-determinados pela empresa como características de personalidade, valores e sentimentos. O verdadeiro papel da seleção é atender a demanda da organização, admitindo pessoas que se moldem a ela e que se integrem à sua cultura e filosofia, sem questionamentos. O desenvolvimento da psicologia organizacional e o do trabalho no Brasil acompanharam as ocorrências mundiais relativas à área. Seu aparecimento está associado à crescente industrialização que ocorreu nos principais países do cenário Ocidental, no fim do século XIX e início do século XX (ZANELLI & BASTOS, 2004). Segundo Zanelli & Bastos (2004) a busca de critérios e procedimentos para atender as demandas de avaliação e seleção de pessoal para as indústrias em grande expansão e de militares para o exército fez com que os métodos e teorias tivessem seus primórdios na área. O desempenho e eficiência no trabalho constituíram, desde o começo, preocupações que orientam as atividades dos psicólogos nas organizações.Dois psicólogos são considerados os principais fundadores da área: Hugo Munsterberg e Walter Dill Scott eram psicólogos experimentais e professores universitários que se envolveram na aplicação de técnicas da psicologia para resolver problemas em organizações. Munsterberg estava mais interessado na seleção de pessoal e no uso de novos testes psicológicos, mas por falta de apoio dos colegas da universidade ele acabou mudando para a nova área da psicologia industrial. Scott também tinha os mesmos interesses de Munsterberg, assim como na Psicologia da Publicidade. Cada um deles escreveu um livro sobre esses tópicos, incluindo The Theory of Advertising, de Scott, e Munsterberg escreveu o primeiro compêndio sobre Psicologia Organizacional, com o título Psychology and Industrial Efficiency (SPECTOR, 2005). De acordo com Spector (2005, p. 14): A principal influência sobre o campo foi o trabalho de Frederick Winslow Taylor, um engenheiro que estudou longamente a produtividade de funcionários em sua carreira. Taylor desenvolveu o que ele chamava de administração científica como uma abordagem para manejar os operários de produção em fábricas. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da Psicologia Organizacional www.cenes.com.br | 31 (Spector, 2005, p.14). Ainda segundo este autor, a administração científica inclui diversos princípios para orientar as práticas organizacionais. Em seus escritos Taylor sugeriu o seguinte: • Cada trabalho deve ser analisado com atenção, para que o modo otimizado de executar as tarefas possa ser especificado; • Os colaboradores devem ser contratados de acordo com as características relacionadas ao desempenho do trabalho. Os gerentes devem estudar os funcionários para descobrir quais características pessoais são importantes; • Os funcionários devem ser treinados para executar suas tarefas; • Os funcionários devem ser recompensados por sua produtividade para incentivar melhor desempenho. Podemos observar que apesar de mudanças e ajustes ocorridos ao longo dos anos, estas ideias ainda são consideradas importantes nas organizações até hoje. Para Zanelli & Bastos (2004) as raízes que vinculam a Psicologia com o trabalho são encontradas no final do século XIX, fora dos Estados Unidos da América. Em 1889, Patrizi fundou o Laboratório da Psicologia do Trabalho em Moderna, Itália. Kraeplin, na Alemanha, e Mosso, na Itália, nos anos 90, investigaram aspectos psicofisiológicos ligados à fadiga e a carga de trabalho. Partindo das ideias de Taylor, Frank e Lilian Gilbreth passaram a investigar a forma pela qual as tarefas são realizadas pelas pessoas, desenvolvendo o que veio a ser chamado estudo do tempo e movimento. Estes estudos, cerne de uma perspectiva taylorista para potencializar a eficiência do desempenho no trabalho, estiveram na base do campo denominado Fatores Humanos, voltado para analisar e projetar ambientes de trabalho e tecnologias que levassem em consideração as características humanas. Depois, o avanço desta área ocorreu de modo tão rápido quanto as exigências dos acontecimentos do mundo se impuseram, como nas grandes guerras na primeira metade do século XX, quando os testes psicológicos tiveram longo uso e desenvolvimento, para atender as seleções de recursos humanos (ZANELLI & BASTOS, 2004). Durante as décadas entre as duas guerras mundiais, a psicologia organizacional cresceu para a maioria das áreas nas quais é utilizada hoje. À medida que as Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da Psicologia Organizacional www.cenes.com.br | 32 organizações foram ficando maiores, elas começaram a contratar psicólogos organizacionais para atender a muitos de seus inúmeros problemas funcionais, principalmente aqueles que eram relevantes para a produtividade. Em 1921, a Penn State University concedeu o que muitos consideravam o primeiro título de Ph.D chamado naquele tempo de Psicologia Industrial, a Bruce V. Moore. Os psicólogos organizacionais começaram a montar empresas de consultoria que podiam oferecer serviços às empresas mediante remuneração. A mais conhecida destas consultorias foi a Psychological Corporation, fundada em 1921 por James Mckeen Cattell, e que se mantêm ativa até hoje. Um dos mais importantes eventos desse período foram os estudos de Hawthorne, que duraram por mais de dez anos na Western Eletric Company, nos Estados Unidos (SPECTOR, 2005). Segundo Zanelli & Bastos (2004, p 468), “as investigações de Elton Mayo na Western Eletric Company, marcaram as décadas de 20 e 30 e revelaram a importância de considerar fatores sociais ligados às situações de trabalho”. As ciências do comportamento atingiram relevância no mundo dos negócios. Mayo divulgou The human problems of industrial civilization, em 1933, um livro que sintetizou as descobertas daqueles estudos e deu impulso à Era das Relações Humanas. O campo de aplicação até meados da década de 30 estava direcionado a estudos e intervenções juntos aos incentivos financeiros, como treinamento, fadiga e monotonia, luminosidade e ventilação, testes de admissão, estudos de tempo e movimentos, turnos de trabalho, segurança e disciplina. Nas décadas seguintes, cresceu também para outros países industrializados, além dos EUA, as atividades dos psicólogos e de outros profissionais ligados à Ciência do Comportamento, dirigiram- se para os incentivos financeiros como liderança e supervisão, relações interpessoais, comportamentos e atitudes, moral, avaliação de executivos, relação homem-máquina, entrevistas e aconselhamentos (ZANELLI & BASTOS, 2004). A Segunda Guerra Mundial provocou um efeito estimulador sobre o desenvolvimento da disciplina, com muitos psicólogos de todas as áreas e especialidades contribuindo para o esforço de guerra. Com o resultado da Guerra, as portas da psicologia aplicada se abriram, e criou uma divisão para a Psicologia Comercial e Industrial em 1944 e hoje conhecida com SIOP (Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional). Com o final da guerra, as duas áreas da Psicologia Organizacional continuaram a crescer, e por demonstrar seu valor à sociedade, as empresas privadas passaram a ter interesse cada vez maior no campo, implantando muitos procedimentos como os testes psicológicos (SPECTOR, 2005). Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da Psicologia Organizacional www.cenes.com.br | 33 Segundo Spector (2005) outro acontecimento que ajudou a formar o campo da psicologia organizacional foi a aprovação de da Lei dos Direitos Civis de 1964 nos Estados Unidos, colocando em movimento as forças que causaram um grande impacto na forma das organizações contratarem e lidarem com seus colaboradores, sendo necessário a mudança de muitas práticas antes discriminatórias. Os psicólogos foram chamados a elaborar procedimentos que pudessem eliminar a discriminação no ambiente de trabalho. Em 1991, houve a criação da lei que beneficia as pessoas inválidas e deficientes e outra vez os psicólogos foram chamados para encontrar meios de eliminar mais este problema envolvendo a discriminação. Abaixo o quadro histórico da Evolução Histórica da Psicologia Organizacional. Até agora estudamos a Evolução Histórica da Psicologia Organizacional nos Estados Unidos que é onde foi iniciada. Agora falaremos um pouco sobre este processo no Brasil e nos demais países do mundo. Segundo Zanelli & Bastos (2004, p. 473): Até quase o final do século XIX, a economia brasileira era essencialmente escravocrata. Com o aumento do fluxo migratório e a chegada dos imigrantes europeus, deu-se início ao cultivo do café foram incrementadas as manufaturas e pequenos negócios, sobretudo nas regiões sul e sudeste. (Zanelli & Bastos, 2004, p. 473). Fundamentos da Psicologia Organizacional | Evolução Histórica da PsicologiaOrganizacional www.cenes.com.br | 34 Uma figura importante neste período foi o Visconde de Mauá, cuja diversidade nos setores de atuação e sucesso nos negócios fez atrair o capital estrangeiro. Mais estrangeiros buscaram o país nas primeiras décadas do século XX. Antunes (1998, apud ZANELLI & BASTOS, 2004 p. 473) coloca que psicologia aplicada ao trabalho surge nesta época, ligada às tentativas de racionalização e à procura de um caráter científico e inovador no controle dos processos de produção, exigindo assim maior eficiência econômica sob o argumento de melhoria das condições de trabalho dos operários. Nesta mesma época Léon Walther trouxe a psicotécnica para o país que foi colhido como um instrumento para colocar em práticas as teorias de Taylor. Posteriormente Henri Piéron iniciou os estudos dos testes psicológicos, também em curso sobre Psicotécnica, ministrado na Escola Normal de São Paulo. As primeiras aplicações de testes foram em 1924, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, sob direção do Roberto Mange. A partir daí houve a expansão da aplicação de testes psicológicos na seleção de pessoas. Em 1930 foi criado o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) para atender as expectativas dos empresários, treinando profissionais para a aplicação do Psicotécnico, que passou a ter considerável penetração nas empresas. O IDORT teve grande participação e importância para a aplicação da Psicologia do Trabalho no Brasil (ZANELLI & BASTOS, 2004). Podemos observar que a inserção da psicologia no mundo do trabalho acompanhou as mudanças industriais e veio se tornando uma necessidade dentro das grandes empresas, um trabalho que tinha um foco inicial somente na seleção de funcionários foi se expandindo e ganhando seu espaço o que a tornou essencial para as organizações do mundo moderno. Segundo Zanelli & Bastos (2004), em um estudo importante realizado na década de 80, o Conselho Federal de Psicologia traçou uma descrição da atuação do psicólogo no Brasil, pontuando dificuldades que envolviam a atuação profissional e sinais de que as transformações ocorridas estavam começando a traçar novos afazeres ou novas práticas nos diversos campos da psicologia. A crítica de diversos autores e profissionais da área sobre o modelo clássico de atuação do psicólogo organizacional ajudou a consolidar linhas de atuação inovadoras. Linhas estas que nascem das transformações no mundo do trabalho decorrentes do aumento do mercado interno e da competitividade entre as empresas que passam a exigir novas competências e formas de trabalho. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 35 Com relação à prática da psicologia organizacional, podemos dizer que ela muda de acordo com o país e região. Nos Estados Unidos a psicologia organizacional dedica sua atenção para a parte industrial e menos para parte organizacional. No Canadá e na Europa, a prática concentra-se um pouco mais na direção organizacional. Em partes isso ocorre devido ao forte movimento dos sindicatos nesses lugares, que depositam mais atenção nos direitos dos funcionários. Desse modo, boa parte da pesquisa sobre atitudes dos funcionários, saúde, segurança e bem-estar vem do Canadá e da Europa. 4 O Psicólogo Organizacional Como pudemos observar no tópico anterior foram muitas as transformações ocorridas ao longo de todo o processo histórico da psicologia organizacional no Brasil e no mundo que vem moldando a prática e a carreira do psicólogo organizacional. Neste item estudaremos sobre o psicólogo organizacional. Como todos nós sabemos para iniciar uma carreira de psicólogo precisamos antes de qualquer coisa a graduação em psicologia. Trilhar caminhos para a vida profissional é algo que se constrói ao longo do tempo de acordo com as oportunidades que vão surgindo no início da carreira. A partir de então se começa a se formar a ideia de que especialidade seguir. Segundo Spector (2005, p. 21), “o caminho mais comum para se tornar um psicólogo organizacional é obter a pós-graduação (mestrado ou doutorado) em psicologia organizacional a partir de um dos muitos dos programas existentes nesse campo”. A maioria dos psicólogos organizacionais de sucesso possui doutorado em boas faculdades, mas é possível também ter uma carreira bem-sucedida com grau de mestre ou especialista. Os psicólogos organizacionais executam diferentes tipos de tarefas em uma enorme variedade de ambientes. Muitas vezes dividimos os ambientes naqueles que dizem respeito à prática e naqueles que dizem respeito à pesquisa. As funções práticas envolvem o uso de princípios psicológicos para resolver problemas como estresse no trabalho e baixo desempenho. A pesquisa oferece princípios que podem ser utilizados na prática. É importante termos em mente que tanto a prática quanto a pesquisa são importantes para a atuação do psicólogo organizacional. O foco principal do trabalho prático é a aplicação das descobertas e dos princípios de campo como mostra a lista desenvolvida por Spector (2005): Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 36 • Analisar a natureza de uma atividade (análise de tarefas); • Conduzir uma análise para determinar a solução de um problema organizacional; • Realizar pesquisas sobre sentimentos e opiniões dos funcionários; • Projetar sistemas para avaliação de desempenho dos funcionários; • Projetar sistemas de seleção de pessoas e programas de treinamento; • Desenvolver testes psicológicos; • Avaliar a eficiência de uma atividade ou prática, como um programa de treinamento; • Implantar mudanças organizacionais, por exemplo, como um novo sistema de bonificação e gratificação para os colaboradores com bom desempenho. Grande parte do esforço dos psicólogos que atuam em empresas concentra-se em ampliar a eficácia do funcionamento organizacional. Eles focam os diversos aspectos que podem melhorar a execução do trabalho, incluindo a seleção e treinamento de pessoas, a criação de atividades mais adequadas ou a criação de organizações que funcionem melhor. Também buscam mudar as organizações para que elas possam oferecer um ambiente mais agradável para as pessoas, mesmo que isto não resulte necessariamente em eficácia organizacional (SPECTOR, 2005). Segundo Zanelli (2004), a atuação do psicólogo nos processos administrativos depende de compreender o processo total do trabalho, ter consciência das atribuições individuais e das unidades, bem como de articular visão, missão, valores, metas e estratégias organizacionais. Pretende-se, com isso, aumentar a capacidade estratégica, consolidar predisposições para mudanças e fortalecer a formação de equipes de alto desempenho, visando desenvolver a capacidade gerencial de refletir e questionar as próprias finalidades, as formas de realizar os processos e a agilidade com que os utiliza. 4.1 Aspectos Importantes nas Organizações As organizações de trabalho são compostas por pessoas que fazem com que ela exista e possa atingir seus objetivos e propósitos dentro do ambiente ao qual está inserida. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 37 Os colaboradores das organizações são pessoas dotadas de sentimentos, emoções, percepções, anseios, medos entre outras características que os fazem ser diferentes uns dos outros. São estas diferenças que fazem com que a organização progrida e se desenvolva. Para tratarmos deste assunto abordaremos alguns aspectos importantes que estão presentes em todas as organizações e que o psicólogo organizacional deve conhecer para desenvolver seu trabalho. Cognição Para estudar as pessoas dentro das organizações de trabalho temos duas opções: considerar as pessoas como pessoas (com características próprias de personalidade,aspirações, valores atitudes, motivações e objetivos individuais) ou considerar as pessoas como recursos (com habilidades, capacidades, destrezas, conhecimentos e competências necessárias para as atividades de trabalho). A moderna gestão de pessoas procura tratar as pessoas como pessoas e ao mesmo tempo como importantes recursos organizacionais, mas deixando de lado a maneira tradicional de tratá-las somente como meios de produção, pois percebeu-se que essa maneira de visualizar as pessoas provocou fortes ressentimentos e conflitos trabalhistas, além de um gradativo distanciamento das pessoas em relação ao trabalho dentro da organização (CHIAVENATO, 2003). Segundo Zanelli (2009), a compreensão da mente humana e dos processos que geram o conhecimento é um grande desafio ao longo de toda história. Quando falamos em cognição, a primeira ideia que nos vem à mente é caracterizada pela noção restrita, leiga e difundida de atividade racional, intelectual e consciente. Esta noção está ligada a uma concepção tradicional de mente que integra três grandes domínios referentes aos processos mentais básicos: 1) Pensamento (cognitivo); 2) Sensação (emocional); 3) Vontade (conativo). Este modelo tripartite da mente humana associa-se à concepção cartesiana de mente. A visão de mente como uma substância de natureza imaterial, radicalmente diferente do corpo, configurando um mundo mental em oposição ao mundo físico, encontrou em René Descartes no século XVII seu grande sistematizador. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 38 Segundo Chiavenato (2003, p. 83), [...] cognição significa a maneira pela qual uma pessoa percebe e interpreta a si própria e o ambiente. A cognição constitui o filtro pessoal por meio do qual cada pessoa vê a si mesma e sente e percebe o mundo que a circunda. É a tomada de conhecimento que estabelece a crença e a opinião pessoal a respeito de si ou do mundo exterior. (Chiavenato, 2003, p. 83). Para entendermos um pouco mais sobre a cognição abordaremos sobre a Teoria de Campo de Lewin e a Teoria de Dissonância Cognitiva de Festinger. Lewin (1935 apud CHIAVENATO, 2003 p. 84) coloca que para compreendermos o comportamento humano, precisamos conhecer duas suposições básicas: 1) O comportamento humano é derivado da totalidade dos fatos coexistentes; 2) Esses fatos coexistentes têm caráter de um campo dinâmico, no qual cada parte do campo depende de uma inter-relação dinâmica com as outras. É o conhecido Campo Psicológico. O Campo Psicológico é o espaço de vida que contém a pessoa e seu ambiente psicológico. É ambiente psicológico ou comportamental, ou seja, o que a pessoa percebe e interpreta do seu ambiente externo. Mais do que isso, é o ambiente relacionado com suas atuais necessidades. Objetos, pessoas ou situações podem adquirir valências no ambiente psicológico, delimitando um campo dinâmico de forças psicológicas. A valência é positiva quando objetos, pessoas ou situações podem ou prometem satisfazer às necessidades presentes da pessoa e é negativa quando podem ou prometem causar algum prejuízo ou dano. Os objetos, pessoas ou situações carregadas de valência positiva geralmente atraem o indivíduo, enquanto as negativas tendem a causar-lhe repulsa ou fuga (CHIAVENTATO, 2003). Segundo Chiavenato (2003), o modelo de comportamento humano proposto por Lewin pode ser representado de forma esquemática pela equação: C=f (P, M), onde o comportamento (C) é resultado ou função (f) de interação entre a pessoa (P) e seu meio ambiente (M). A pessoa (P), nesta fórmula é determinada pelas características genéticas e pela aprendizagem por meio do seu contato com o meio. A teoria de Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 39 campo esclarece que um mesmo objeto, situação ou pessoa podem ser percebidos e interpretados de maneiras diferentes por cada pessoa. A teoria da dissonância cognitiva de Festinger baseia-se na premissa de que toda pessoa se esforça para estabelecer um estado de consonância ou coerência com ela mesma. Se o indivíduo tem cognições sobre si mesmo e sobre seu ambiente que são inconsistentes entre si, então ocorre um estado de dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva é uma das principais fontes de inconsistência no comportamento humano. As pessoas não toleram a inconsistência, e quando ela acontece, o indivíduo está motivado para diminuir o conflito. Esse conflito chamamos de dissonância. O elemento cognitivo é como se fosse uma crença, conhecimento ou opinião que a pessoa tem em si mesmo ou do meio externo. Esses elementos cognitivos podem estar relacionados de três maneiras: dissonante, consonante ou irrelevante (CHIAVENATO, 1998). Assim, o autor explica: • Relação dissonante: quando a pessoa acredita que fumar é nocivo, mas continua fumando. Duas cognições que são contraditórias, a pessoa sabe do perigo, mas continua fumando. • Relação consonante: quando acredita que fumar é danoso e, então, deixa de fumar. Duas cognições em relação consonante. • Relação irrelevante: quando considera o fumo danoso à saúde e gosta de passear. Elementos com uma relação considerada irrelevante. A relação dissonante é um fenômeno que ocorre quando uma pessoa possui duas cognições contraditórias ou em conflito. No contexto específico mencionado, essa relação se manifesta quando alguém tem plena consciência de que fumar é prejudicial à saúde, reconhecendo os perigos associados ao tabagismo, porém continua a fumar. Essa contradição entre o conhecimento dos riscos e o comportamento persistente de fumar cria uma dissonância cognitiva, um estado de tensão psicológica resultante da inconsistência entre as cognições. A teoria da dissonância cognitiva, proposta por Leon Festinger, destaca que, quando as pessoas se encontram nesse estado de dissonância, sentem um desconforto interno que as motiva a buscar uma redução da dissonância. Isso ocorre porque a inconsistência cognitiva é aversiva e gera um desejo de restaurar a harmonia cognitiva. No exemplo dado, a pessoa pode lidar com essa dissonância de diferentes Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 40 formas, como minimizando a importância dos riscos do tabagismo, encontrando justificativas para continuar fumando ou até mesmo decidindo parar de fumar para alinhar suas cognições. Por outro lado, a relação consonante é caracterizada por duas cognições em harmonia, ou seja, sem contradição entre elas. No caso específico mencionado, ocorre quando uma pessoa reconhece que fumar é prejudicial à saúde e, em consonância com essa crença, decide deixar de fumar. Nessa situação, não há conflito cognitivo, pois a pessoa está agindo de acordo com suas convicções, o que resulta em uma redução da dissonância cognitiva. Além disso, existe a relação irrelevante, na qual elementos cognitivos não possuem uma conexão direta ou relevância mútua. No exemplo mencionado, considerar o tabagismo prejudicial à saúde e gostar de passear são duas cognições independentes e sem relação direta entre si. Nesse caso, não há contradição nem consonância entre as cognições, elas simplesmente coexistem sem gerar tensão cognitiva. É fundamental compreender que a teoria da dissonância cognitiva vai além do contexto do tabagismo e pode ser aplicada a várias situações em que as pessoas experimentam tensões entre suas crenças, atitudes e comportamentos. A teoria busca explicar como as pessoas lidam com essa tensão cognitiva e buscam restaurar a consistência interna, seja por meio de mudanças comportamentais, ajustes nas crenças ou outras estratégias de redução da dissonância. Quando acontece uma relação dissonante, o indivíduo sente-se mal e para se livrar do conflito interno procura adotar umadas três alternativas abaixo: a) Pode diminui-la, mudando suas cognições pessoas para sintonizá- las ou adequá-las à realidade externa; b) Pode reduzi-la, tentando alterar a realidade externa e adaptá-la às suas cognições pessoais; c) Se não puder mudar suas cognições pessoais nem a realidade externa, então o indivíduo pode conviver com o conflito interno da relação dissonante ou inconsistente. A cognição permite ao individuo desenvolver referências para que ele possa se situar no mundo que o cerca e entendê-lo de maneira adequada. Destas duas abordagens – a teoria de campo e da dissonância cognitiva – conclui-se que o Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 41 comportamento das pessoas está mais relacionado às suas percepções pessoais e subjetivas do que os fatos objetivos e concretos que existem da realidade. Assim, as pessoas se comportam não de acordo com a realidade propriamente dita, mas de acordo com a forma pela qual a percebem e a sentem conforme suas cognições pessoais (CHIAVENATO, 1998). Diante do que foi exposto sobre cognição podemos afirmar que ela interfere no modo como as pessoas lidam com seu trabalho no ambiente organizacional. Esses aspectos envolvidos na maneira de perceber o ambiente externo está relacionado com o outro aspecto importante em todos os trabalhadores que é a motivação. Motivação Ao estudarmos os aspectos cognitivos e as diferenças individuais nas organizações de trabalho, devemos abordar também outra questão importante que é a motivação humana. Para Chiavenato (1998) é difícil definir motivação, pois esta é utilizada em sentidos diferentes. Ele coloca que a motivação deve funcionar em termos de forças ativas e impulsionadoras, ou seja, funciona como “desejo” e “receio”. As pessoas são diferentes no que se refere à motivação, pois as necessidades variam de indivíduo para indivíduo, produzindo diferentes padrões de comportamentos, valores sociais, e a capacidade para atingir objetivos. O ciclo motivacional se inicia com o surgimento de uma necessidade que desencadeia um comportamento, ou seja, toda vez que surge uma necessidade esta rompe com o estado de equilíbrio do organismo, causando certo desconforto, tensão, insatisfação e desequilíbrio, levando o indivíduo a um comportamento capaz de livrá- lo da tensão e do desconforto, segundo nos afirma Chiavenato (1998). Para este autor se este comportamento for eficaz, o indivíduo encontrará a satisfação da necessidade descarregando todas as tensões, fazendo com que o organismo atinja novamente seu estado de equilíbrio. Vale ressaltar que a satisfação de algumas necessidades é passageira, ou seja, a motivação humana é cíclica. Os seres humanos formam uma organização, porque esperam que a sua participação satisfaça suas necessidades individuais e para obter esta satisfação, as pessoas fazem certos esforços pessoais na empresa, pois esperam que a satisfação de suas necessidades seja maior do que o custo, e avaliam estes fatores por meio de seu sistema de valores. Sempre existe um relacionamento de intercâmbio entre os Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 42 indivíduos e a organização; a maneira como os objetivos de cada um são satisfeitos, determina sua percepção do relacionamento, que poderá ser analisado como satisfatório para que os indivíduos percebam que suas recompensas superaram as demandas feitas sobre ela. (CHIAVENATO, 1998). Existem diversas teorias motivacionais que são importantes para entendermos o comportamento humano. A teoria dos dois fatores de Herzberg será explicitada a seguir para melhor entendermos os processos motivacionais dentro das organizações de trabalho. Segundo Herzberg (apud CHIAVENATO, 1998, p. 83), a motivação das pessoas depende de dois fatores: • Fatores Higiênicos: diz respeito às condições que rodeiam o indivíduo enquanto ele trabalha, englobando as condições físicas e ambientais do trabalho, os benefícios sociais, as políticas organizacionais, o tipo de supervisão recebida, a relação entre a chefia e os empregados, os regulamentos internos e as oportunidades existentes. Constituem os fatores tradicionais utilizados pelas empresas para obter a motivação dos colaboradores. A expressão higiene serve para refletir seu caráter preventivo e para mostrar que se destinam a impedir fontes de insatisfação no meio ambiente ou ameaças ao equilíbrio. Quando estes fatores higiênicos são muito bons, evitam a insatisfação, mas sua influência sobre o comportamento não consegue elevar de modo duradouro a satisfação. Portanto quando são precários, levam a insatisfação, por isso são chamados de fatores insatisfacientes. • Fatores Motivacionais: diz respeito ao conteúdo do cargo, às tarefas, funções e deveres ligados ao cargo em si. Produzem efeito duradouro de satisfação e aumento da produtividade acima dos níveis normais. O termo motivação engloba sentimentos de realização, crescimento, e de reconhecimento profissional, manifestados por meio das atividades e tarefas exercidas no trabalho. Quando os fatores motivacionais são ótimos, a satisfação se eleva significativamente, quando estão precários levam a insatisfação. Por isso são chamados de fatores satisfacientes. (Herzberg apud Chiavenato, 1998, p. 83). O autor coloca ainda que, para introduzir maior dose de satisfação no trabalho, é necessário implementar o enriquecimento de tarefas que consiste em aumentar a Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 43 responsabilidade, objetivos e desafios das tarefas do cargo. Coda (1997) faz alguns questionamentos em relação ao desejo das empresas em querer os funcionários sempre motivados, dizendo que não existe uma contrapartida, ou seja, uma preocupação destas mesmas empresas em respeitar e garantir satisfação no trabalho para seus colaboradores. Sendo assim, pensa este autor que a motivação para o trabalho é ainda um grande desafio para as organizações, pois este assunto só recebe atenção quando a desmotivação interfere nos processos colando em risco o resultado delas. Segundo este autor, esses fatores extrínsecos ligados a salário, benefícios, reconhecimento, chefia, colegas, entre outros mais, precisam estar bem atendidos a partir da ótica dos colaboradores no ambiente de trabalho, pois são estes aspectos os elementos básicos formadores do clima organizacional que é o indicador do nível de satisfação ou insatisfação experimentada pelos colaboradores, influenciando na motivação. Sendo assim, um dos desafios é então tentar descobrir suas necessidades ou carências, pois além dessas carências fazerem parte do todo organizacional, é preciso também que elas sejam entendidas. Sievers (1997, p. 54) reforça as colocações de Coda, afirmando que “as empresas devem estar cientes de que, ao retirarem o reforçador extrínseco, a atitude que eles estimulavam desaparecerá, e isso pode dar origem a ambientes potencialmente frustrantes”. Quando analisamos as principais recomendações para apoiar nos processos motivacionais, percebe-se que muitas das sugestões são viabilizadas para o levantamento do nível de satisfação dos colaboradores, englobando às seguintes questões: • Fornecer aos funcionários informações necessárias para desenvolver suas tarefas; • Garantir feedback frequentemente; • Envolver os colaboradores nas decisões que os afetam; • Criar canais de comunicação eficazes; • Investigar diretamente com os colaboradores o que os motiva; • Garantir reconhecimento ao bom trabalho realizado; • Mostrar comportamento mais acessível por parte das chefias; • Criar oportunidades para que os funcionários façam o que também consideram importante e prestar atenção às necessidades dos funcionários (coda, 1997). Fundamentosda Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 44 Ao falar de motivação e satisfação no trabalho, surgem novos questionamentos, pois estes dois fatores, quando apresentam baixos níveis dentro da organização, geram muitos problemas recorrentes na empresa que levará à prejuízos financeiros e interferirá no sucesso dos processos organizacionais. Wagner (2003) afirma que a insatisfação no trabalho pode levar ao estresse, podendo exercer grande impacto sobre a saúde e o bem-estar dos colaboradores. Sendo assim, as organizações arcam com grande parte dos custos de assistência médica dos funcionários. Além das despesas com médicos, essa situação representa fonte de custos indiretos, em razão do absenteísmo e da rotatividade, sendo estes problemas organizacionais muito caros. O autor acrescenta que a insatisfação acelera a rotatividade de funcionários o que vem a prejudicar a organização em vários aspectos, pois quando as pessoas abandonam os seus trabalhos, as empresas perdem os investimentos feitos no desenvolvimento do colaborador e isto acaba revertendo em gratificação para a concorrência, que ganha um conhecimento muito grande sobre as operações da empresa original (WAGNER, 2003). Segundo Chiavenato (2004, p. 86), “ter funcionários não significa tê-los trabalhando durante todos os momentos do horário de trabalho”. As ausências dos colaboradores ao trabalho provocam distorções quando diz respeito ao volume e disponibilidade da força de trabalho. O número e a duração das ausências estão relacionados com a satisfação no trabalho. O absenteísmo é o tempo perdido quando os empregados não vêm ao trabalho, constituindo a soma dos períodos em que os funcionários se encontram ausentes, seja por falta, atraso ou por outros motivos. As causas e consequências do absenteísmo foram estudadas por meio de pesquisas que mostram que ele é afetado pela capacidade profissional das pessoas e pela motivação para o trabalho. Esta motivação pode ser afetada pelas práticas organizacionais, cultura de ausências, atitudes, valores e objetivos dos colaboradores. (CHIAVENATO, 2004). Diante do que foi exposto, podemos entender que o psicólogo organizacional, ao atuar na gestão de pessoas, precisa lidar diariamente com os fatores que envolvem a motivação humana, criando estratégias e políticas para manter um bom índice de motivação dos colaboradores de modo a manter a produtividade e bem-estar dentro da organização. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 45 Equipes e Grupos de Trabalho Dentre os fatores que contemplam as organizações de trabalho, estão presentes os aspectos que envolvem as equipes e os grupos de trabalho. É por meio das equipes que os colaboradores trabalham para atingir os objetivos propostos para a execução do trabalho e alcance de metas e resultados. Albuquerque (2004) fez um estudo que mostra que todos nós, nos diversos papéis que desempenhamos na vida, fazemos parte de diferentes grupos. Para ele, um grupo é um conjunto entre duas ou mais pessoas, que para alcançar objetivos, necessita de algum tipo de interação, durante um intervalo de tempo considerado longo. Levando em consideração o funcionamento dos grupos o autor entende que as equipes de trabalho se referem a um determinado tipo de grupo. Sendo assim, um grupo passa a constituir-se numa equipe de trabalho. Nos grupos, a realização das tarefas depende de maneira fundamental do esforço individual. Já nas equipes, a realização do trabalho depende tanto do esforço individual como do esforço coletivo de todos os seus membros. Nos grupos cada um se responsabiliza pelos resultados de maneira individual e, nas equipes, a responsabilidade pelo resultado é compartilhado por todos (ALBUQUERQUE, 2004). Para Moscovici (2003) não é fácil estabelecer parâmetros bem definidos na diferença entre grupos e equipes, pois a equipe é um grupo com funcionamento qualificado. Pode-se considerar equipe um grupo que entende seus objetivos e está disposto a alcançá-los, de forma compartilhada, sendo a comunicação entre os membros verdadeira, e opiniões divergentes são estimuladas. Existe alto grau de confiança e os seus integrantes não têm medo de assumir riscos e, como as habilidades dos membros complementam umas às outras, possibilitam alcançar resultados. Os objetivos compartilhados determinam seu propósito e direção. O respeito, mente aberta e cooperação permitem à equipe investimentos constantes no próprio crescimento. A autora enfatiza que um grupo se torna equipe quando passa a prestar atenção em sua própria forma de operar procurando resolver sempre que necessário os problemas que afetam o desenvolvimento e o sucesso da equipe na execução dos trabalhos. Um grupo que se desenvolve como equipe incorpora à sua dinâmica as habilidades de diagnose e de resolução de problemas (MOSCOVICI, 2003). Segundo Chiavenato (1998), as equipes de trabalho operam de modo participativo na tomada de decisões. Um aspecto fundamental é a habilidade Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 46 multifuncional. Cada integrante do grupo tem várias habilidades para desempenhar diferentes tarefas e são responsáveis por atingir resultados e metas. Têm autonomia para decidir sobre a distribuição das tarefas entre si, a programação do trabalho, treinam uns aos outros, avaliam a contribuição de cada um e são responsáveis pela qualidade do trabalho em grupo e pela sua melhoria permanente. O autor afirma ainda que os principais atributos para as equipes de alto desempenho são designados por: • A Participação: Quando se trata de participação, é fundamental que todos os membros da equipe estejam engajados e comprometidos com o processo de empowerment (empoderamento) e autoajuda. Isso significa que os indivíduos devem ter a autonomia e os recursos necessários para tomar decisões e contribuir ativamente para os objetivos da equipe. Um ambiente que promova a participação encoraja o compartilhamento de ideias, a colaboração e o crescimento pessoal e profissional. • A Responsabilidade: A responsabilidade coletiva é essencial para o sucesso da equipe. Quando todos os membros se sentem responsáveis pelo resultado e desempenho das tarefas, existe um maior comprometimento em entregar um trabalho de qualidade. A responsabilidade também engloba a capacidade de assumir os erros e aprender com eles, criando uma cultura de melhoria contínua. • A Clareza: É imperativo que todos os membros da equipe compreendam claramente os objetivos que estão buscando alcançar. Quando há clareza nos objetivos, os membros da equipe podem alinhar suas ações e decisões para atingir esses objetivos de forma eficiente. A clareza também ajuda a evitar mal-entendidos e conflitos. • A Interação: A comunicação aberta e confiável entre os membros da equipe é fundamental para a colaboração efetiva. Quando há interação genuína, os membros da equipe sentem-se à vontade para compartilhar suas ideias, preocupações e feedbacks, o que pode levar a soluções mais inovadoras e bem-informadas para os problemas enfrentados. • A Flexibilidade: Em um mundo em constante mudança, a capacidade de adaptar-se e estar aberto a mudanças é crucial. A flexibilidade dentro de uma equipe permite a rápida adaptação às novas circunstâncias, o que pode resultar em melhoria de desempenho e capacidade de superar desafios inesperados. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 47 • A Focalização: A concentração e dedicação em atingir as metas estabelecidas são fundamentais. Quando todos os membros da equipe estão focados, o grupo como um todo torna-se mais produtivo e eficiente, pois existe uma direção clara para a qual todos os esforços estão sendodirecionados. • A Criatividade: Valorizar e incentivar a criatividade dentro da equipe é essencial para o desenvolvimento de soluções inovadoras. Isso significa criar um ambiente onde novas ideias sejam bem-vindas e onde os talentos de cada membro possam ser utilizados de maneira a beneficiar o grupo como um todo. • A Rapidez: Em um ambiente de negócios competitivo, a capacidade de agir prontamente diante de problemas e oportunidades pode ser uma vantagem significativa. A rapidez envolve tomar decisões informadas em tempo hábil e mobilizar recursos de forma eficaz para responder às demandas. Cada um desses elementos é crucial para o funcionamento eficaz de uma equipe. Quando combinados, eles podem levar a um desempenho superior, maior satisfação entre os membros da equipe e, em última instância, ao sucesso dos objetivos traçados. A procura pelos procedimentos que prometem a eficácia das equipes tende a ficar incrementada de acordo com o aumento na divulgação de relatos de equipes bem-sucedidas. Sendo assim, nos relatos de sucesso, devem ser cuidadosamente avaliadas as evidências concretas do êxito atingido, a partir da implementação dos procedimentos, assim como as diferenças, entre a empresa em que ocorreu a experiência bem-sucedida e a empresa em que se está pretendendo implantá-lo (ALBUQUERQUE, 2004). De acordo com Spector (2002, p. 314): Existe uma crença que diz que o desempenho do grupo é superior ao individual em muitas tarefas. Esta crença está baseada na noção de que algo surge da interação entre as pessoas, possibilitando que o grupo seja melhor do que a soma de seus membros. (Spector, 2002, p. 314). Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 48 Sendo assim, podemos dizer que as pessoas inspiram umas às outras a serem melhores do que seriam se estivessem trabalhando individualmente. Para uma equipe funcionar bem e de maneira eficaz, é preciso que haja uma definição clara de papéis para os seus membros. Os papéis denominados formais são determinados pela organização e são parte de uma descrição formal do trabalho, podendo haver até mesmo documentos ou descrições na empresa como meio comprobatório para esta definição (SPECTOR, 2002). Com o passar do tempo e o desenvolvimento dos trabalhos, os papéis informais passam a surgir a partir da interação dos membros do grupo, ou seja, os grupos criam estes papéis informais que podem exceder os formais. Outro fator importante que precisa ser lembrado é que, a partir dos papéis determinados a cada um da equipe, é necessário que haja uma coesão do grupo, pois ela é a força que atrai os seus membros e os mantém unidos e, para que ele seja coeso, a maior parte dos integrantes deve estar fortemente motivada para se manter nele (SPECTOR, 2002). Quando se faz referência à coesão do grupo, é preciso entender que uma série de fatores estimula esta coesão. Entre as mais importantes estão: • Atitudes; • Valores ou interesses pessoais compartilhados, que tendem a sentir a atração recíproca; • Acordo quanto às metas da equipe; • Interação frequente e avaliação favorável. Estes fatores são de suma importância para que o grupo se mantenha coeso na realização do trabalho (WAGNER, 2003). Para Wagner (2003), as estruturas para desenvolvimento do trabalho, baseada em equipes, oferecem duas vantagens em relação às estruturas hierárquicas tradicionais. A primeira, é que permite à organização levar seus produtos ao mercado com maior rapidez. A segunda vantagem é que as estruturas baseadas em equipes eliminam as necessidades de níveis diferentes de gerenciamento, dando aos colaboradores maior autonomia nas tomadas de decisões que anteriormente eram somente de domínio dos gerentes. A autonomia produz um efeito muito positivo na motivação da mão de obra, e a redução do número de gerentes diminui despesas para a organização. Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 49 A progressão das equipes para uma maior autonomia exige algum tempo de esforços persistentes, reforço motivacional, e confiança na continuidade. Contudo, traz compensações significativas. A melhoria não está somente na produtividade aumentada, ela proporciona principalmente mudanças positivas das atitudes dos colaboradores para com a gerência, a organização e o trabalho. Porém, quando uma equipe se desenvolve, mas não alcança autonomia compatível com a sua competência, é possível que venham a surgir problemas relacionados à diminuição da efetividade e da criatividade, levando ao desapontamento dos seus membros, que acabam desistindo de resolver problemas emergentes (MOSCOVICI, 2003). Estudamos até aqui o processo que envolve os grupos e equipes de trabalho, e, diante de tudo o que vimos, existe um fenômeno muito importante que ocorre em todas as equipes que não pode deixar de ser abordado para melhor entendermos os processos grupais dentro das organizações. Este fenômeno é a liderança. Liderança Lacombe (2005, p. 201), em seu estudo sobre liderança, explica a origem etimológica da palavra liderar “que significa conduzir. Líder é o que conduz o grupo”. Smircich (1997) afirma que o conceito de liderança permeia e estrutura a teoria e a prática nas organizações. A maneira pela qual se dá a compreensão da natureza de uma ação organizada e suas possibilidades. O conceito e prática da liderança encontram-se muito arraigadas no pensamento popular e a ausência dela é vista como uma ausência da organização. Existem muitas organizações que ficam paralisadas em ocasiões em que os colaboradores apelam para serem dirigidos, sentindo-se desorientados e desorganizados quando não estão sendo liderados por alguém. Para este autor, a liderança ocorre no processo por meio do qual um ou mais membros da organização têm sucesso ao tentar retratar e determinar a realidade dos outros. Com efeito, as situações de liderança podem ser idealizadas como aquelas nas quais existe uma obrigação ou um direito percebido por certas pessoas em definir a realidade das demais. Pode-se observar que este processo nos grupos em que a liderança ocorre naturalmente, os indivíduos atribuem liderança àqueles que organizam e estruturam a experiência de modo significativo. De acordo com Moscovici (2003, p. 17): “A liderança de equipe é melhor exercida por pessoas que acreditam que precisam dos outros para o êxito da missão comum e Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 50 que contribuem integralmente com a sua parte no trabalho do grupo”. (Moscovici, 2003, p. 17). Gardner (apud LACOMBE, 2005, p. 205) coloca as principais características do papel do líder nas organizações, sendo elas: • Estabelecer objetivos; • Motivar os liderados; • Criar, manter e administrar uma equipe de bom nível; • Explicar as razões do que deve ser feito; • Servir de símbolo para os colaboradores; • Representar externamente a equipe e renovar os sistemas complexos que ele lidera. Spector (2002) volta sua atenção para as controvérsias existentes sobre o verdadeiro líder, pois, para o autor, dentro de uma organização é comum os líderes estarem associados a cargos de supervisão, mas ser um supervisor não garante que o indivíduo terá capacidade de influenciar os outros. Além disso, muitos líderes existentes em grupos e equipes dentro das organizações não têm um título formal pré-estabelecido. Estes são os chamados líderes informais, que são escolhidos de acordo com a interação nos grupos de trabalho e podem exercer maiores influências sob seus membros do que os líderes formais. Lacombe (2005) também faz considerações sobre o fato de líderes estarem com frequência associados a supervisores e aos grandes executivos da empresa. Para este autor, a liderança inicialé exercida pelo mais importante executivo da organização que pode ter o título de presidente ou membro do conselho administrativo. O fato é que esta figura lidera a empresa, projetando nela traços de sua personalidade, trazendo consigo as qualidades e os defeitos, e é nele que origina o modelo de liderança que irá permear toda a organização por meio de filosofias, princípios, crenças e valores compartilhados. Bergamini (1994) dá ênfase às diversas teorias que permeiam o estudo do fenômeno da liderança. Para ela, dentre os diversos aspectos sob os quais se estudou a liderança, percebe-se que alguns teóricos se preocuparam principalmente com aquilo que o líder é, procurando mostrar traços e características de personalidade que sejam responsáveis pela sua eficácia. Outros dão ênfase quanto à concepção do líder, buscando entender aquilo que o líder faz, traçando assim diferentes estilos de Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 51 liderança. Um terceiro grupo de estudiosos em liderança busca analisá-la em função das situações que determinam a eficácia do líder, tentando conhecer que variáveis do meio ambiente que podem influenciar no desenvolvimento do vínculo entre líder e seguidor. E por último, existe também um grupo representativo de teóricos que aprofundam seus conhecimentos estudando as motivações subjacentes às atividades de dirigir pessoas. Um dos estudos mais antigos sobre liderança diz respeito à teoria sobre a abordagem das características do líder. Ela está baseada na crença de que alguns indivíduos são melhores líderes do que outros e que é possível determinar as características de um bom líder. Alguns dos teóricos que defendem esta teoria argumentam que quem é um bom líder em uma situação, seria bom em qualquer outra (SPECTOR, 2002). Outra abordagem teórica destacada por este mesmo autor fala do Comportamento do Líder, “preocupando-se com que ele faz e não com quais devem ser as suas características pessoais” (SPECTOR, 2002, p. 336). Apesar dos estudos lidarem com comportamentos específicos, há certa concentração nos estilos de liderança que é um conjunto de comportamentos que representam a forma do líder em lidar com seus subordinados. De acordo com Gil (2001), uma das principais preocupações dos estudiosos desta teoria foi estabelecer uma concentração dos estilos de liderança. Os elementos que auxiliam nesta tarefa foram as funções de liderança, de acordo com a escola clássica de administração, e o movimento das relações humanas. A escola clássica dá ênfase ao interesse pelo trabalho, enquanto o movimento de relações humanas dá destaque ao interesse pelas pessoas. Daí então o surgimento de dois estilos: um orientado para a tarefa (o líder autoritário) e outro para as relações humanas (o líder democrático). O estudo sobre liderança é amplo e além das abordagens citadas existem outras teorias que buscam explicar como se dá o fenômeno da liderança. Uma delas é a teoria da contingência de Fiedler, que afirma que a liderança é uma função da pessoa dependendo da situação vivenciada. Uma característica do líder e três características da situação definem a eficiência da liderança (SPECTOR, 2002). Segundo Gil (2001, p. 225), a teoria de Fiedler afirma que: A eficácia do grupo depende de uma combinação adequada entre o estilo do líder e a exigência da situação. Assim a eficácia do líder Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 52 seria determinada pela interação da orientação do empregado com três variáveis situacionais básicas que influenciam a favorabilidade de uma situação para um líder: relações entre líder e membros do grupo; estrutura da tarefa; e posição de poder do líder. (Gil, 2001, p. 225). Olhando para além das teorias sobre liderança, Goleman (apud LACOMBE, 2005, p. 211) traz considerações interessantes sobre o tema fazendo uma relação entre liderança e inteligência emocional. Para este autor, líderes altamente eficientes se diferenciam por um alto grau de inteligência emocional, englobando autoconhecimento, autocontrole, motivação, empatia e habilidade social. Pessoas que têm um bom nível de autoconhecimento reconhecem como seus sentimentos afetam a si mesmo, aos outros e ao desempenho no trabalho. Revelam também a compreensão clara dos objetivos e valores. O autocontrole é um componente da inteligência emocional que nos livra de sermos prisioneiros dos nossos próprios sentimentos, ajudando a manter e a aumentar a integridade que não apenas é uma qualidade pessoal, mas sim força para a organização. A motivação é uma característica presente em todos os líderes, pois procuram obter êxito além das expectativas. A empatia é a qualidade mais facilmente reconhecida em um líder, pois ela significa considerar ponderadamente os sentimentos dos outros no processo de tomar decisões inteligentes. E, por último, a habilidade social que tende a fazer com que os líderes gerem um grande círculo de conhecimentos pessoais e procurem encontrar interesses comuns com estas pessoas, criando laços fortes com as pessoas que podem algum dia ajudá-lo. Diante do que foi exposto podemos ver que o líder ocupa papel fundamental na vida da organização e das equipes de trabalho, pois este deve ter a capacidade de motivar, direcionar e definir metas e objetivos incentivando os colaboradores a alcançar êxito na realização das tarefas. Portanto um bom líder ter características peculiares e traz bons resultados para sua equipe. Comunicação Como vimos até agora, uma organização de trabalho é composta por pessoas diferentes, com cargos diferentes e em vários níveis hierárquicos, que estão em constante interação, e, devido a esta interação, o processo de comunicação é um item Fundamentos da Psicologia Organizacional | O Psicólogo Organizacional www.cenes.com.br | 53 que precisa ser estudado para entendermos a dinâmica das organizações e as possíveis falhas que possam intervir no sucesso dos processos organizacionais. Segundo Chiavenato (1998), os seres humanos não vivem de maneira isolada e nem são autossuficientes, pois se relacionam com outras pessoas e com o ambiente por meio da comunicação. A comunicação é a transferência de informação de um indivíduo para o outro e as organizações não podem se manter vivas sem a comunicação, pois esta é a rede que coordena e integra todas as suas partes. O autor explica que a comunicação é um processo formado por cinco elementos fundamentais: emissor ou fonte, transmissor ou codificador, canal, receptor ou decodificador e destino. Em todo sistema de comunicação a fonte envia sinais e mensagens. O transmissor opera as mensagens enviadas pela fonte no sentido de codificá-las, isto é, transformá-las em formas adequadas de canal. O canal conduz a mensagem sob novo formato para um local distante. O receptor decodifica e traduz a mensagem enviada ao canal e a transforma numa forma clara e compreensível ao destino. A comunicação somente é efetivada quando o destino compreende a mensagem. Vale ressaltar também que, como a comunicação é um sistema aberto, pode sofrer interferências e alterações por meio dos ruídos, o que virá a prejudicar o processo desencadeando certos problemas para a organização. Outro aspecto que merece destaque é que cada pessoa tem seus valores pessoais, motivações e suas percepções, ou seja, é como se cada um tivesse um filtro codificador, de modo a condicionar a aceitação de qualquer tipo de informação (CHIAVENATO, 1998). Wagner (2003, p. 192) vem reforçar as colocações de Chiavenato afirmando que “uma série de fatores organizacionais, interpessoais e individuais podem dificultar a comunicação no interior de grupos ou organizações”. Para Drucker (apud LACOMBE, 2005), o maior filtro durante o processo de comunicação é apercepção que as pessoas têm do que ouvem, ou seja, ouvimos o que esperamos ouvir e percebemos o que queremos perceber. O inesperado não é todo captado, sendo ouvido de forma distorcida. Juntamente com as percepções de cada pessoa durante o processo de comunicação, temos as barreiras psicológicas individuais que também podem interferir na boa comunicação, tendo em vista a tendência que as pessoas têm para julgar, avaliar, aprovar ou reprovar qualquer coisa ouvida e interpretá-las dentro de suas referências pessoais formadas por seus valores, experiências e preconceitos. Uma forma de evitar que a mensagem seja destorcida é ver a ideia sob o ponto de vista da Fundamentos da Psicologia Organizacional | As Inovações Práticas www.cenes.com.br | 54 outra pessoa, sentir a maneira como ela se sensibiliza pela ideia e atingir seu quadro de referências, pois quanto mais fortes são as emoções, mais altos são os níveis de distorções, tornando-se mais necessário atingir o quadro de referências (ROGERS, apud LACOMBE, 2005, p. 254). Alguns estudiosos já comparam a comunicação com o sistema nervoso central, visto que o sistema nervoso é uma rede integrada que funciona em diferentes níveis, assim como os sistemas de comunicação de uma organização. Quando algo ocorre de maneira incorreta no sistema nervoso, o problema pode ter graves efeitos para o resto do corpo e, isso é verdadeiro também para a comunicação organizacional, pois uma comunicação perdida ou feita de maneira ineficaz, que nunca chega ao setor determinado, pode atrapalhar o sucesso nos resultados do trabalho acordo (KRUMM, 2005). O autor enfatiza que muitos erros na comunicação podem ser classificados como erros de omissão ou erros de inclusão. Os erros de omissão são vistos quando as informações são deixadas de lado, e são muito comuns devido a uma deficiência na filtragem das informações em que somente parte das mensagens são repetidas. Os erros de inclusão são resultantes de problemas que ocorrem a partir de alguma coisa adicionada ao processo de comunicação, onde são incluídos os exageros e sobrecarga de informações, ou seja, o colaborador recebe mais mensagens do que é capaz de manipular. A comunicação existe entre todos os membros da empresa, e esta precisa pensar em estratégias para que ela se torne eficaz e traga bons resultados para o dia a dia organizacional. É importante que a organização não perca de vista que é necessário realizar com frequência comunicação com seus colaboradores, pois isto pode melhorar a percepção deles com relação à organização e aperfeiçoar os processos. Porém, não basta apenas comunicar bem de cima para baixo. É preciso saber ouvir os colaboradores proporcionando canais adequados para que a comunicação seja eficaz (LACOMBE, 2005). 5 As Inovações Práticas A compreensão da dinâmica que tem impulsionado a produção de novos conhecimentos e formas de atuação na área da Psicologia Organizacional requer uma análise das transformações que estão remodelando o mundo do trabalho na transição do século XX para o XXI. As mudanças constantes no mundo contemporâneo têm Fundamentos da Psicologia Organizacional | As Inovações Práticas www.cenes.com.br | 55 causado impactos significativos nas dimensões sociais e individuais do ser humano. Dentre as principais transformações, destacam-se o desenvolvimento da tecnologia eletrônica e dos meios de comunicação, os mecanismos de controle social mais sutis, o avanço da biotecnologia, a fragmentação das grandes religiões, a ampliação do papel social da mulher, as alterações na configuração do núcleo familiar, o fortalecimento dos movimentos de conscientização ambiental, a retração do Estado e a consolidação das corporações transnacionais, a disseminação da hegemonia político-ideológica, o aumento da produtividade associado ao desemprego estrutural, a intensificação da economia globalizada, o aumento da violência física em decorrência do aumento da pobreza e o avanço da sociedade do conhecimento (Zanelli, 2003, p. 416). Essas mudanças sociais têm impacto direto no mundo do trabalho, levando as organizações a adotarem novos arranjos institucionais mais flexíveis e necessários diante do processo de globalização. As alterações sociais no mundo do trabalho geram situações como o aumento do desemprego e do subemprego, resultando em fontes de tensão psicossocial tanto para o indivíduo quanto para a comunidade. Nesse contexto, investimentos em terceirização têm se tornado mais comuns do que nunca. As inovações tecnológicas no trabalho alteraram a relação do indivíduo com sua atividade laboral, demandando novas competências e habilidades. Muitos trabalhadores, a fim de evitar ameaças de desemprego e atender às demandas das organizações, acabam adaptando seus objetivos e valores aos da empresa, alterando também a relação indivíduo-organização. No século XX, a psicologia organizacional, conforme abordado anteriormente, limitava-se a atender demandas, principalmente econômicas e políticas, das organizações. Sua atuação era restrita, preocupando-se apenas em fornecer soluções pontuais para problemas, e o profissional era visto meramente como um agente de reprodução do sistema. No entanto, diante do novo cenário, a psicologia organizacional passou por uma reconfiguração em quatro principais aspectos: práticas tradicionais, ampliação do escopo do cargo, intervenções e atuação externa à organização. Em relação às práticas tradicionais, houve importantes transições devido ao desenvolvimento científico e às transformações nos contextos de trabalho. Por exemplo, as atividades de recrutamento e seleção passaram a ser terceirizadas de forma expressiva, resultando no aumento significativo de consultorias especializadas. O treinamento e desenvolvimento de pessoal também sofreram mudanças, demandando uma cultura de educação continuada para estimular o potencial criativo Fundamentos da Psicologia Organizacional | As Inovações Práticas www.cenes.com.br | 56 de cada colaborador, superando a abordagem pontual da produtividade individual. A avaliação de desempenho, outra prática tradicional da psicologia organizacional, passou a considerar não apenas a avaliação realizada pela chefia, mas também outros aspectos, como o desempenho potencial. No que se refere à ampliação do escopo do cargo do psicólogo organizacional, ele passou a integrar equipes multidisciplinares nos setores de recursos humanos das empresas, contribuindo com suas habilidades e conhecimentos específicos. Além disso, sua atuação nas decisões estratégicas das organizações tornou-se mais presente, acompanhando e assessorando os processos de mudança implementados pela organização. No âmbito das intervenções, o psicólogo organizacional desempenha um papel fundamental na análise e compreensão das atividades intrínsecas ao trabalho realizado na organização, subsidiando a elaboração de instrumentos de gestão de recursos humanos e modernização administrativa. Ele também desempenha funções como a elaboração e implementação de programas de treinamento e desenvolvimento pessoal, avaliação de desempenho, políticas de estágio, políticas de saúde ocupacional, assistência psicossocial, movimentação interna de pessoal, processo seletivo, plano de cargos e salários, entre outras. No segmento externo às organizações, o psicólogo se dedica às consequências do trabalho informal e aos efeitos sobre aqueles que estão excluídos ou que buscam ingressar no mercado de trabalho formal. Isso inclui atividades voltadas para formação profissional, escolha de profissão, reorientação de carreiras e outras que focalizam a relação do indivíduo com o trabalho e a ocupação, mesmo fora das organizações. O psicólogo também precisa ter uma compreensão ampla do cenário de transformações que marcam o momento atual, como o desemprego, a fim de atuar junto à populaçãodesempregada e subempregada, auxiliando na sua reinserção no mercado de trabalho. Para desempenhar seu trabalho de forma efetiva, o psicólogo organizacional precisa estar comprometido, pensar criticamente sobre a organização, estar atento às demandas socioeconômico-políticas que afetam seu trabalho, ser criativo na definição das intervenções e agir de forma ética, buscando atender às necessidades psicológicas da comunidade organizacional. É necessário estar atualizado frente às mudanças sociais, acompanhar as transformações nas relações de produção e nas relações cotidianas para realizar suas atividades com a preservação máxima da natureza, qualidade de vida e bem-estar humano. Fundamentos da Psicologia Organizacional | As Inovações Práticas www.cenes.com.br | 57 Diante desse contexto, compreender o significado do trabalho para o ser humano torna-se fundamental para entender seu comportamento no contexto organizacional. A psicologia organizacional busca estudar as interações entre comportamento no trabalho e na organização, focando nos processos psicossociais que caracterizam as organizações de trabalho. Seu objetivo central é compreender e lidar com os processos psicossociais que permeiam as organizações, buscando a construção produtiva das ações de trabalho, preservando a natureza, qualidade de vida e bem-estar humano. Assim, é necessário reconhecer a importância do trabalho do psicólogo organizacional para o desenvolvimento das organizações e das pessoas que fazem parte delas, superando a visão limitada de um mero selecionador de pessoal. O contexto atual também pede uma compreensão mais abrangente dos fatores psicossociais que afetam a produtividade e o bem-estar do trabalhador. Com a globalização e a competição acirrada, a saúde mental dos funcionários se tornou uma preocupação significativa para as organizações. O psicólogo organizacional precisa entender os fatores estressantes e contribuir para o desenvolvimento de ambientes de trabalho que promovam o bem-estar e a saúde mental dos funcionários. Além disso, o psicólogo organizacional deve estar atento às novas configurações de trabalho, tais como o teletrabalho e os espaços de co-working, que têm se tornado cada vez mais comuns. Estas novas configurações desafiam as abordagens tradicionais para o gerenciamento de equipes e a motivação dos funcionários. O avanço das tecnologias da informação, por exemplo, trouxe a automação e a inteligência artificial para o centro das operações de negócios, alterando drasticamente os requisitos de competências para muitos cargos. Neste cenário, o psicólogo organizacional desempenha um papel fundamental na identificação e no desenvolvimento das competências necessárias para a força de trabalho do futuro. A diversidade nas organizações também é uma área que ganhou importância. Com a crescente pluralidade nos ambientes de trabalho, entender e gerir a diversidade tornou-se um imperativo. O psicólogo organizacional pode desempenhar um papel crítico no desenvolvimento de estratégias que promovam a inclusão e a igualdade. A responsabilidade social corporativa e a sustentabilidade são outras áreas que têm ganhado atenção dentro das organizações. O psicólogo organizacional pode contribuir para o desenvolvimento de políticas e práticas que alinhem os objetivos da organização com as necessidades e expectativas da sociedade em geral. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Referências www.cenes.com.br | 58 Além disso, a Psicologia Organizacional deve lidar com os impactos da globalização. As organizações estão cada vez mais atuando em um contexto global, e entender as diferenças culturais e os desafios de gerenciar equipes multinacionais tornou-se uma competência crítica para o psicólogo organizacional. É também imperativo que o psicólogo organizacional adote uma abordagem ética e esteja consciente das implicações éticas das decisões tomadas dentro das organizações. Isso inclui estar ciente do impacto das ações da organização sobre os stakeholders e o ambiente, assim como o bem-estar dos funcionários. Em suma, a Psicologia Organizacional no século XXI abraça uma variedade de tópicos e desafios. A produção de novos conhecimentos e formas de atuação requer uma visão holística que reconheça a complexidade das organizações modernas e a dinâmica do mundo do trabalho. Os psicólogos organizacionais precisam ser versáteis, adaptáveis, e estar preparados para abordar os desafios emergentes com inovação e sensibilidade às implicações éticas e sociais de suas ações. 6 Referências CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de Pessoas. Rio de Janeiro: Elsevier, 1999. ______. Recursos Humanos: Edição Compacta. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1998. CODA, Roberto; BERGAMINI, Cecília W (orgs). Psicodinâmica da Vida Organizacional: Motivação e Liderança. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1997. DECENZO, Robbins. Administração de Recursos Humanos. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2001. FREITAS, Maria Ester de. Cultura Organizacional: Formação, Tipologias e Impacto. São Paulo: McGraw-Hill, 1991. LACOMBE, Francisco. Recursos Humanos: Princípios e Tendências. São Paulo: Saraiva, 2006. RABAGLIO, Maria Odete. Ferramentas de Avaliação de Performance com Foco em Competência. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2006. SPECTOR, Paul E. Psicologia nas Organizações. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. ZANELLI, José C.; BASTOS Antônio V. et al. Psicologia Organizações e Trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2004. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Referências www.cenes.com.br | 59 SILVA, Narbal e TOLFO, Suzana da Rosa. Psicologia Organizacional. Departamento de Ciências da Administração: UFSC, 2014. FURBINO, Isabella. O Que É Psicologia Organizacional? Entenda sua importância nas empresas. Tangerino Blog, 2023. Faculdade de Teologia e Ciências [FATEC]. Psicologia Organizacional. s/d. PESCA, Andréa Duarte. Psicologia Organizacional. Natal: UnP, 2011. Fundamentos da Psicologia Organizacional | Referências www.cenes.com.br | 60 Sumário 1 Introdução 1.1 A Psicologia 1.2 As Escolas Psicológicas 1.3 Teorias Organizacionais 1.4 A Atuação do Psicólogo no Brasil 1.5 A Importância da Psicologia Organizacional 2 O Homem e o Trabalho 2.1 As Organizações de Trabalho 3 Evolução Histórica da Psicologia Organizacional 4 O Psicólogo Organizacional 4.1 Aspectos Importantes nas Organizações Cognição Motivação Equipes e Grupos de Trabalho Liderança Comunicação 5 As Inovações Práticas 6 Referências