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1 TEOLOGIA E CIDADANIA 1 SUMÁRIO 1 - Teologia e Cidadania ................................................................................................... 3 1.1 - O que é Teologia? .................................................................................................... 3 1.2 - Teologia Sistemática ................................................................................................ 3 1.3 - Teologia Reformada ................................................................................................. 4 1.4 - Teologia da Libertação ............................................................................................. 4 1.5 -Teologia da Prosperidade .......................................................................................... 5 2 - TEOLOGIA DA PROSPERIDADE ........................................................................... 5 2.1 - Introdução ................................................................................................................ 5 2.1. O que nos diz a Bíblia? .............................................................................................. 7 2.3. Deus nem sempre nos livra de sofrimentos e desastres ............................................. 8 2.4. Deus nem sempre nos avisa quando virá o infortúnio .............................................. 9 2.5 - Deus nos dá a verdadeira satisfação quando estamos nele..................................... 10 2.6 - O prazer final de todo homem é glorificar a Deus e experimentá-lo para sempre . 10 Conclusão ....................................................................................................................... 17 3 - Teologia Contemporânea .......................................................................................... 11 3.1 - Teologia hoje: limites e possibilidades .................................................................. 11 2 FACUMINAS A história do Instituto Facuminas, inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a Facuminas, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A Facuminas tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 1 - Teologia e Cidadania Nessa disciplina iremos nos utilizar de vídeos e textos de teólogos que discorrerão sobre a especificidade do campo da Teologia, suas abordagens e sua abrangência de significados. Portanto, assista aos vídeos e leia os textos em PDF, sugeridos nos links de cada módulo. A proposta é tornar mais leve e descontraído esse estudo. Bons estudos! Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-IU6rIw-azw - Danilo Moraes - Porque os cristãos devem estudar teologia 1.1 - O que é Teologia? Teologia é o estudo da existência de Deus, das questões referentes ao conhecimento da divindade, assim como de sua relação com o mundo e com os homens. Do grego “theos” (deus, termo usado no mundo antigo para nominar seres com poderes além da capacidade humana) + “logos” (palavra que revela), por extensão “logia” (estudo). A teologia estuda as religiões num contexto histórico, pesquisando e interpretando os fenômenos e as tradições religiosas, os textos sagrados, a doutrina, o dogma e a moral e sua influência nas diversas áreas do conhecimento, especialmente nas ciências humanas, como na Antropologia e na Sociologia. O conceito de teologia aparece pela primeira vez no pensamento grego, através de Platão, no diálogo “A República” para referir-se à compreensão da natureza divina por meio da razão, em oposição à compreensão literária própria da poesia, feita por seus conterrâneos. 1.2 - Teologia Sistemática Para estudar Teologia sistemática elegemos como eixo central de estudo que amplo e diversificado, a Bibliologia. Assista ao vídeo e leia o texto abaixo sugerido. As outras temáticas desse campo de estudo podem ser vistas na palestra. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=diCHSNvuBxw&list=PLESZEC96rpHnZT5 OlQ_KF1iyGzUM3LaH3 - Palestra de Introdução à Bibliologia 4 http://www.nazarenopaulista.com.br/estudos/bibliologia.pdf - Textos Profs.Dr. Caramuru Afonso Francisco; Roberto José da Silva; José Roberto da Silva; Ev.Luiz *Henrique de Almeida Silva Teologia Sistemática é a organização da teologia em diversas temas, seguindo fatos teológicos, de modo a formar um sistema específico de estudo: Própria – estudo de Deus, o Pai. Cristologia – estudo de Deus, o Filho, o Senhor Jesus Cristo. Pneumatologia – estudo do Espírito Santo. Bibliologia – estudo da Bíblia. Eclesiologia – estudo das igrejas. Angelologia – estudo dos anjos. Soteriologia – estudo da salvação. Hamartiologia – estudo do pecado. Escatologia – estudo do fim dos tempos. Antropologia cristã – estudo da humanidade. Demonologia – estudo dos demônios sob sua perspectiva cristã. 1.3 - Teologia Reformada Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wVdZWBTvT7M&list=PLu4VCw3SLcbji wmui17gt-YDlzNyXDbnh - DOUTRINAS REFORMADAS - Franklin Ferreira Teologia Reformada é a teologia que estabelece qualquer sistema de crença que traça suas raízes na Reforma Protestante do século 16, na obra de Calvino e de outros reformadores, como também nos documentos produzidos nesse período. Não é uma teologia uniforme, mas apresenta diferentes manifestações. Reúne as igrejas presbiterianas e muitas igrejas congregacionais, batistas, entre outras. 1.4 - Teologia da Libertação Teologia da Libertação é uma corrente teológica humanista, fundada pelo sacerdote peruano Gustavo Gutierrez, que procura interpretar a Bíblia através do sofrimento dos pobres e pela luta a favor da libertação das comunidades cristãs diante das injustiças sociais. Com tendências marxistas, a Teologia da Libertação, praticadas pelos bispos e sacerdotes da América Latina foi criticada pela hierarquia católica, por apoiar revoluções violentas e lutas de classes. No Brasil o teólogo Leonardo Boff, grande defensor da Teologia da Libertação, ficou conhecido pela defesa das causas sociais. Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da- libertacao/ - Texto de Leonardo Boff teólogo da Teoria da Libertação e sua indagações. 5 https://www.youtube.com/watch?v=njJW1xAMW3Y - Vídeo Rubem Alves, Teoria da Libertação, Igreja Presbiteriana e ditadura militar. https://www.youtube.com/watch?v=0s3PH1wf3lI - Vídeo Leonardo Boff fala sobre os 40 anos da Teologia da Libertação. 1.5 -Teologia da Prosperidade Teologia da Prosperidade, também conhecida como “confissões positivas” ou “Evangelho da saúde e da prosperidade”, é um conjunto de princípios que busca a interpretação de textos bíblicos para fazer com que os fiéis entendam que Deus tem saúde e bênçãos materiais para entregar ao povo, bastando para isso que tenham fé. As ideias básicas da “confissão positiva” surgiram de algumas seitas sincréticas, nos Estados Unidos, no início do século XX. Baseados na metafísica ensina que a verdadeira realidadeestá além do âmbito físico e que a mente humana pode controlar a esfera espiritual, principalmente no que diz respeito à cura de enfermidades. A teologia da prosperidade foi criada pelo pastor americano Essek William Kenyon, divulgada por Kenneth Hagin e adotada pelas igrejas neopentecostais, inseridas no grupo de religiões evangélicas, entre elas a Internacional da Graça de Deus, Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo e a Igreja mundial do Poder de Deus. Teologia da Prosperidade — satisfação cristã versus hedonismo 2 - TEOLOGIA DA PROSPERIDADE - satisfação cristã versus hedonismo 2.1 - Introdução A palavra hedonismo vem do grego hedoné, que significa “prazer”, “vontade”. Ela nasceu na Grécia antiga e preconizava a busca pela felicidade por meio do prazer http://ultimato.com.br/sites/estudos-biblicos/files/2013/05/imagens_eb_igreja_2.jpg 6 individual e egoísta. Adquiriu algumas formas, como o epicurismo, o psicologismo de Bentham, o homem dionisíaco nietzscheano e o materialismo contemporâneo. O ser humano, em todas as épocas, aplicou conceitos distintos à felicidade e ao prazer. “O importante é ser feliz”; “Não importa o preço a pagar, o importante é que o prazer seja satisfeito”, dizem. Deste modo, ao longo da História, inúmeras variações foram usadas pelo ser humano para a busca do prazer: o erotismo, a ética, as lutas políticas, as guerras religiosas, etc. Em nosso mundo contemporâneo, o materialismo é um dos prazeres mais evidentes em suas formas de consumismo e de fé. Após a grande virada filosófica e religiosa no final do século 19 e início do século 20, com as propostas de racionalização, desumanização e da “morte de Deus”(1), o mundo se tornou muito mais apaixonado por aquilo que é material em detrimento das coisas que não podem ser vistas. A consequência desse processo de racionalização foi que as pessoas passaram a considerar como mais importante aquilo que pode ser demonstrado racional e concretamente, em detrimento dos valores e dos conceitos metafísicos construídos ao longo do tempo, quer pela teologia quer pela ética social. Com essa mentalidade racional, a existência humana passou a ser julgada a partir de sua própria utilidade na sociedade, e não mais por sua natureza e essência, gerando, por consequência, a necessidade de possuir e de valorizar as coisas em vez das pessoas. Estas passaram a ser degraus para se conquistar aquelas. No campo religioso, a fé que, de acordo com as Escrituras, é “a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1), transformou-se em uma espécie de muleta para escorar as necessidades existenciais das pessoas. Fé, no contexto religioso contemporâneo, é apenas um sentimento subjetivo que deve ser confirmado com realizações factuais e concretas no dia-a-dia, sob pena de receber a desconfiança total daqueles que a sugerem. Em outras palavras, a validade da fé depende do quanto ela é demonstrada objetivamente por meio de “bênçãos” materiais, concretas e numeráveis. Uma consequência da racionalização e da desumanização. Portanto, as necessidades humanas, quer sejam religiosas ou não, passam pela questão do “quanto se tem”, e não do “o que se é”. A essência foi trocada pela existência.(2) A questão é que “só podemos ver com nossos próprios olhos” (F. Nietzsche). O perspectivismo de Nietzsche tem toda razão neste caso. De fato, a relativização dos valores nos conduz à perda de sentido geral das coisas, de modo que nossas necessidades 7 mais próximas são as mais importantes naquele momento. Não conseguimos olhar adiante, porque o que está adiante de nós é apenas a necessidade imediata. 2.1. O que nos diz a Bíblia? Primeiramente é preciso dizer que o prazer não é pecaminoso. Deus criou o homem para se deleitar nas coisas criadas e para experimentar as bênçãos que ele nos dá: “Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada…” (Ec 2.26). Vários textos bíblicos mostram o quanto é perigoso ampararmos nossa fé nas circunstâncias temporais. Entretanto, veremos no livro de Jó algumas preciosas verdades que nos guiarão pelo modo como devemos encarar as relações entre as prazeres momentâneos e as realidades factuais da fé. O livro de Jó ensina algo importante sobre o modo como devemos lidar com a questão das materialidades, da fé e do consequente sofrimento que advém dessa relação entre o ter e o ser. Jó era um homem rico (1.3) e, ao mesmo tempo, temente a Deus (1.1,8; 2.3; 42.7-8). Pela informação que temos, especialmente nos capítulos 29–31 de Jó, vemos que ele era um homem cujo padrão ético era respeitado pelos de sua época. Parece que Jó lidava muito bem com a relação ter e ser. Entretanto, algo terrível aconteceu a Jó: ele perdeu os seus bens e seus filhos. Em uma sucessão de quatro eventos catastróficos, ele foi reduzido a pó. Sofreu ataques humanos – por meio dos sabeus e dos caldeus – e também naturais, como um incêndio e um vendaval. De fato, Deus havia permitido que Satanás afligisse Jó, considerando que ele não negasse sua fé no verdadeiro Senhor, dono e sustentador de todas as coisas. Jó estava entre o materialismo e a fé no verdadeiro governador do mundo. Ele estava entre o hedonismo secular e a satisfação em Deus. O auge dessa imensa confiança e fé real em Deus se demonstrou no contraste entre a perda do material – que abalou não somente as posses físicas de Jó, mas também sua afetividade na paternidade –, e a realidade de sua experiência com Deus. Em um curtíssimo trecho, toda a vida de Jó é posta abaixo, como num grande terremoto que abala as mais firmes estruturas e transforma tudo em ruínas. Ao se ver totalmente desnudado da materialidade, Jó se reconheceu como nada e, rasgando as vestes, talvez única coisa que restava a ele, prostrando-se, adorou ao Senhor e disse: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor”. 8 Diante do contraste que o mundo contemporâneo nos impõe, entre o ser feliz neste mundo ou ser feliz pela felicidade em Deus, é possível extrairmos importantes lições para o nosso tempo dessa passagem de Jó. 2.3. Deus nem sempre nos livra de sofrimentos e desastres Em primeiro lugar, é preciso aprendermos que Deus nem sempre nos livra de sofrimentos e desastres. Se o nosso prazer estiver colocado numa relação de satisfação com as circunstâncias sazonais, estamos totalmente errados e desfocados em nossa relação com Deus. Há uma pregação contemporânea que erroneamente tenta ensinar que qualquer tipo de problema na vida é sinal de falta de fé e de ausência de Deus. É impossível sustentarmos essa tese quando olhamos a vida de Jó. A Bíblia nos diz que ele era “íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.1). Jó tinha certezas teológicas inabaláveis: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro em mim” (Jó 19.25-27). Apesar dessa vida exemplar, Deus permitiu que Jó sofresse. “Perguntou o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa” (2.3). Observa- se que, aparentemente, não há razão alguma para que Deus permitisse a Satanás tentar a Jó. Mas somente no último capítulo do livro encontramos uma razão sublime: “Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia… Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (42.3,5). Deus havia preparado uma escola de fé para Jó. Essa era a razão de seu sofrimento. Deuspermite que soframos, pela fé. Em Hebreus 11, por exemplo, vemos vários servos do Senhor que sofreram, morreram, pela fé. O texto diz que, “por meio da fé, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados…” (Hb 11.36-37). Tudo isso pela fé! Portanto, é preciso que saibamos que Deus permite que passemos por sofrimentos. Isto não é exclusividade de quem não tem fé. Mesmo aqueles 9 que são retos diante do Senhor passam por provas, às vezes surpreendentes e terríveis, como foi com Jó. Vemos, então, a loucura da teologia da prosperidade, que deseja colocar sobre as pessoas o peso de que, se elas sofrem, é em razão de sua falta de fé. Absolutamente errado! A provação e as privações nos fazem mais fortes, porque nos fazem crer inteiramente em Deus, sustentador de todas as coisas, soberano em sua vontade e ações. “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.2-4). 2.4. Deus nem sempre nos avisa quando virá o infortúnio Em segundo lugar, é preciso observar que os eventos aconteceram de repente, pegando Jó desprevenido. Nem sempre há sinais claros da vontade de Deus de que passaremos por esta ou aquela situação. Os teólogos da prosperidade insistem no fato de que problemas pontuais são gerados por outra série de situações. Por exemplo, você está doente porque não tem dado o dízimo; você está com problemas financeiros porque não deu o salto de fé de entregar todos os seus recursos a Deus, etc. Mas, quando olhamos para Jó, vemos que ele não fazia ideia do que estava acontecendo e da razão de tamanha perda. Ele se reconhecia reto diante do Senhor, íntegro; mas, de repente, todos aqueles desastres vieram sobre ele, seus bens e sua família. Por quê? Na verdade, ele não sabia, mas Deus havia ordenado tudo como um grande teste de fé e de confiança que Jó demonstraria no decorrer da situação. Embora não saibamos os propósitos de Deus para nós, devemos ter a certeza de que ele já predestinou todas as coisas que acontecem. Jó não sabia o que haveria de acontecer, mas tinha plena convicção de que Deus estava no controle: “O Senhor o deu, o Senhor o tomou” (1.21). Assim, em nosso mundo de incertezas, cujos ataques à nossa fé são constantes e as dúvidas teimam em fazer parte de nosso cotidiano, é preciso que reafirmemos, como Jó, a certeza de que Deus controla o nosso destino. “As tuas mãos dirigem meu destino, acasos para mim não haverá”, como escreveu Sarah Poulton Kalley num de seus belos hinos. 10 2.5 - Deus nos dá a verdadeira satisfação quando estamos nele Posses materiais, família, igreja, etc., são presentes de Deus e, por isso, devem ser recebidos com louvor por nós. Em todas dádivas que o Senhor nos concede, sem exceção, existem alguns valores mais preciosos do que outros, e é preciso que entendamos e vivenciemos isto na realidade. Jó entendeu isto perfeitamente. A teologia da prosperidade insiste que creiamos naquilo que estamos vendo: dinheiro aumentando na conta, muletas sendo jogadas fora, cadeiras de roda voando, laudos médicos modificados, etc. Embora, para Jó, fosse muito importante ter casas, campos, filhos (ele não desprezava tais bênçãos), era ainda para ele mais importante ter o Senhor como sustentador da vida. A fé não poderia ser abalada pelas circunstâncias. É preciso aprender a dar importância aos valores mais preciosos. O Senhor Jesus mesmo ensinou que se alguém descobrir um tesouro num campo, deve vender tudo o que tem para adquiri-lo. E também afirmou que “a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui” (Lc 12.15). De fato, é isso: há valores muito mais preciosos que outros e devem ser cultivados. Por isso, Jesus instruiu: “fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus…” (Lc 12.33). É preciso que depositemos nossa vida em Deus e vivamos neste mundo com frugalidade, sem colocar nosso coração nas coisas materiais, ainda que reconhecendo que são todas bênçãos de Deus para que vivamos satisfeitos nele. 2.6 - O prazer final de todo homem é glorificar a Deus e experimentá-lo para sempre Ainda uma quarta lição podemos extrair: se todas as bênçãos são provenientes do Senhor e se nossa suficiência é inteiramente nele, ele deve ser o alvo final de nosso louvor e nossa adoração. O culto verdadeiro é aquele que é prestado a Deus e somente a ele, com a demonstração de nossa dependência total dele. Nada levaremos deste mundo, por isso devemos nos subsistir no Senhor. O famoso hino de Martinho Lutero afirma: “Se temos de perder família, bens, prazer, se tudo se acabar e a morte enfim chegar, com ele reinaremos”. O salmo 103.1 declara: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome”. Nossa suficiência está no Senhor e, portanto, todaa nossa satisfação e todo prazer (2Co 3.5; 9.8). 11 É sobre isso que lemos na resposta à pergunta número um do Catecismo Maior de Westminster: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Nossa vida deve ser inteiramente de culto. Não somente quando as coisas estão bem, mas sempre, mesmo nos desastres, como fez Jó. Ele não cultuava a Deus apenas na teoria, como um legalista, mas de fato e de verdade, como um verdadeiro crente. Precisamos aprender a cultuar a Deus sempre. Diante das mais profundas adversidades, nas incertezas do futuro, e no cenário tenebroso que se nos apresenta às vezes, lembrarmos de que o culto a Deus precede a todas as demais circunstâncias. 3 - Teologia Contemporânea Teologia Contemporânea é a teologia dos tempos atuais. Surgiu no início do século XX, com o pastor Karl Barth, na busca de reaver a natureza e sentido da Bíblia como padrão de fé e prática da igreja. É o estudo de Deus no contexto atual e a evolução dos dogmas e dos pensamentos formados a respeito das doutrinas bíblicas no contexto que estamos inseridos. A Teologia Contemporânea recebeu influência de diversas outras tendências teológicas, entre elas: a Teologia Bíblica, a Teologia Católica, a Teologia Protestante, a Teologia Natural e a Teologia Especulativa. Conforme as direções que vai tomando, a Teologia Contemporânea recebe várias designações, entre elas: Teologia Modernista, Teologia Neomodernista, Teologia da Esperança e Teologia do Evangelho Social. Nesse módulo escolhemos a entrevista concedida pelo teólogo suiço Rudolf von Sinner para tratar das possibilidades e limites da Teologia nos dias atuais. Leia e bons estudos! 3.1 - Teologia hoje: limites e possibilidades O teólogo Rudolf von Sinner, de origem suíça, é pró-reitor de pós-graduação e Pesquisa e professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso nas Faculdades EST em São Leopoldo, bem como pastor da IECLB. Após um semestre sabático de pesquisa no Centro de Investigação Teológica (CTI) em Princeton (EUA), está completando um livro sobre as igrejas e a democracia no Brasil, explorando suas contribuições para a cidadania na visão de uma teologia pública. Entrevista publicada por: IHU Online 12 Von Sinner é autor do Cadernos Teologia Pública nº 9, intitulado Diálogo inter- religioso: dos “cristãos anônimos” às teologias das religiões. A publicação pode ser baixada para download no site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, www.unisinos.br/ihu. IHU On-Line - Tomando por horizonte seus recentes estudos sobre Teologia da Libertação e Teologia Pública, quais são as transformações que hoje marcam o contexto sociocultural, eclesiale acadêmico de fazer teológico? Que desafios estas transformações apresentam à Teologia? Rudolf von Sinner - Temos a situação de uma competição acirrada tanto no mercado econômico quanto no mercado religioso, nacional e internacional. Isto gera um pluralismo religioso cada vez maior, o que em si não seria problemático. A princípio, é um sinal positivo da liberdade religiosa e do fim de uma hegemonia quase que absoluta de uma igreja específica. Contudo, há muito preconceito, difamação e até violência física nesta diversidade cada vez maior de igrejas. Isto é um triste testemunho de desobediência à vontade de Cristo que seu corpo seja unido, ainda que com diversos membros. Além disto, aumenta o clima já generalizado de desconfiança entre as pessoas e de desprestígio das igrejas como parceiras na construção da cidadania. As igrejas históricas (a católica romana e as protestantes) tendem, por um lado, para a introspecção e a volta ao tradicionalismo e confessionalismo, e, por outro lado, sentem-se tentadas a seguirem o caminho das igrejas que mais têm sucesso no mercado religioso, considerando que pela adaptação poderiam aumentar sua fatia do bolo. A consciência da responsabilidade dos cristãos pelas preocupações da sociedade como um todo, como o combate à pobreza, a diminuição da imensa disparidade em renda e patrimônio, o acesso efetivo de todas e todos aos direitos da cidadania e a consciência de seus deveres na co-responsabilidade com o poder público têm pouca prioridade no discurso ou na prática da maior parte das igrejas – a despeito de uma continuidade impressionante de posicionamentos da CNBB e algumas outras igrejas nesta linha da defesa da cidadania. A Teologia precisa refletir esta nova situação e desenvolver elementos que possam fomentar uma participação mais significativa das igrejas no espaço público que não seja de interesse próprio delas, mas vise ao bem comum. No âmbito acadêmico, a Teologia ainda está conquistando seu lugar, encontrando tanto acolhida e interesse quanto resistência por parte de outras áreas de conhecimento. A herança laica deixou marcas de suspeita em relação à religião, especialmente à teologia que não apenas a estuda, mas toma posição. Por outro lado, o estudo acadêmico da Teologia vem possibilitando um discurso mais neutral e 13 participativo sobre si mesma e os assuntos mencionados. Nos cursos de integralização do bacharelado em Teologia, por exemplo, temos a participação inédita de padres, religiosas, pastores e pastoras, que são assim forçados/as a dialogarem e conviverem, o que pode abrir as mentes para uma reflexão mais criativa e uma maior cooperação. IHU On-Line - Como você avalia a situação atual da Teologia da Libertação latino-americana? Rudolf von Sinner - A Teologia da Libertação foi e continua sendo um marco histórico, não apenas no continente, mas mundialmente. É absurdo dizer que ela teria morrido. A esta vertente pertencem os mais criativos e conceituados teólogos da contemporaneidade. Em termos de método e conteúdo, não há como voltar atrás da insistência na conexão entre práxis e Teologia (como segundo momento), nem da opção preferencial pelos pobres. Evidentemente, a situação mudou de tal forma que não há claros centros de opressão hoje. Portanto, não faz sentido continuar fazendo a mesma teologia de resistência dos anos 1970 e 80, uma vez que o dualismo entre opressores e oprimidos não existe mais daquela forma. Diferente do período do regime militar, a cidadania é, a princípio, garantida pela lei e pelo processo político democrático, e temos uma sociedade civil atuante e diversificada. As razões da pobreza são múltiplas e difusas, e as formas de opressão mais diversas. A Teologia já se deu conta de vítimas de opressão inicialmente esquecidas: mulheres, negros, indígenas, homossexuais, entre outras. Estes vêm se organizando e se afirmando como sujeitos de uma teologia na qual tenham lugar. Vem havendo uma grande riqueza de reflexão teológica na linha da libertação, não por último nos dois Fóruns Mundiais de Teologia e Libertação promovidos em 2005 e 2007. Penso, contudo, que ainda carecemos de conceitos agregadores que possam mostrar novos caminhos. IHU On-Line – Atualmente, você está se dedicando a debates e estudos de Teologia Pública. Como você compreende a proposta de uma teologia pública? Rudolf von Sinner - É precisamente esta teologia que me parece oferecer um conceito agregador. Uma Teologia da Libertação precisa constantemente explicar de que e para que pretende libertar. A Teologia Pública remete à contribuição da teologia para assuntos de interesse público, e procura dar esta contribuição de forma compreensível para o público mais amplo, além das igrejas. Procura ser parceira no espaço público, em conjunto com outras organizações da sociedade civil e em parceria crítica e construtiva com o Estado. Portanto, entendo a Teologia Pública como um conceito mais amplo, abrangente, podendo reagir com maior facilidade a uma variedade de desafios. Neste 14 momento, penso que no Brasil ela deveria ser especificada mais como uma teologia da cidadania, sendo este o desafio principal atual. Mas poderiam ser identificados outros, agora e futuramente. A busca da reformulação da Teologia no contexto da democracia, do pluralismo e da globalização, é algo que preocupa a Teologia no mundo inteiro, não por último na África do Sul, que tem uma história recente com muitas semelhanças ao Brasil. A Rede Internacional de Teologia Pública, criada em maio deste ano num encontro em Princeton (EUA), pretende articular tais reformulações num âmbito internacional. Estamos investindo especialmente no diálogo Sul-Sul, no caso entre Brasil e Argentina e a África do Sul. Convém dizer ainda que a Teologia Pública se entende não como nova área ou disciplina da Teologia, mas como dimensão e foco temático da teologia que engloba todas as áreas. IHU On-Line - A realidade do sofrimento, das injustiças e situações de vulnerabilidade humana e da vida em geral sempre foi questão importante para o fazer teológico. Que lugar esta problemática encontra na Teologia atual? Rudolf von Sinner - Apesar da situação ter melhorado em muitos aspectos ao longo das últimas décadas, continua, de forma espantosa, a miséria de milhões de pessoas neste país e mundo afora. Não é possível desconsiderar este fato. Mas a tendência geral hoje é de tratar isto como, no máximo, um assunto entre outros, ficando na periferia do afazer teológico. Ainda que a Teologia da Libertação, que sempre insistiu na centralidade do fato da pobreza e da exclusão social para a Teologia, continue tendo uma considerável publicidade, nos seminários e faculdades, ela fica minoritária entre questões de tradição, carismatismo, estratégias de evangelização e gestão de igrejas. Uma Teologia Pública pode resgatar esta centralidade, inclusive a partir de uma variedade de pressupostos teológicos, podendo agregar forças. IHU On-Line - Considerando o pluralismo religioso, cultural e de valores vigentes no atual contexto histórico, quais são as principais contribuições da Teologia e das igrejas para uma boa convivência humana em sociedade? Rudolf von Sinner - As igrejas têm acesso à população que nenhuma outra instituição neste país tem. Em muitos outros países, especialmente da América Latina e da África, não é diferente. O ensino e a vivência de valores básicos da convivência é uma importantíssima contribuição à sociedade e as igrejas, junto com as escolas, são lugares primários para tal. Contribuem também, embora nem sempre conscientemente, de forma prática para a formação de consciência cidadã e da liderança, capacitando pessoas e dando-lhes o amparo de uma comunidade e fortalecendo sua fé. Se este enorme potencial 15 estivesse sendo usado não somente para dentro de uma comunidade eclesial específica, mastendo em vista o bem-estar de todas e todos, poderia fazer uma contribuição muito mais relevante. Uma teologia que se entende como pública pode contribuir para fortalecer a noção de que o próprio Cristo atuava desta forma e louvou tudo aquilo que “fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mateus 25.40). A CNBB e seus órgãos, a liderança e órgãos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), entidades ecumênicas como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), entre outras, procuram dar uma contribuição relevante neste linha. IHU On-Line - Em meio a múltiplas questões que se colocam nos âmbitos científico, político, econômico, ecológico e religioso, impõe-se o desafio de se buscar, na ética, orientações e parâmetros que auxiliem na construção de uma sociedade mais justa e comprometida como o cuidado da vida em seu todo. Que contribuições a Teologia pode dar para isto? Rudolf von Sinner - Em faculdades e programas de pós-graduação em Teologia, existem, hoje, muitas pesquisas nesta área da cidadania e convivência, inclusive em instituições ligadas a igrejas onde estes temas não são comuns. A Teologia, especialmente quando se entende como pública – ainda que não se denomine assim -, serve como reflexão de ponte entre a fé na sua vivência e os desafios da sociedade. Entendo que a Teologia é sempre contextual, desenvolvida em interação com um contexto científico, social, econômico, político, religioso, ecológico específico, e também católica, no sentido de haurir suas referências do testemunho da Bíblia e da tradição de sua interpretação ao longo dos séculos e em todos os continentes. A justiça social é um tema central na Bíblia, desde a condenação do primeiro assassinato de Caim contra Abel (protegendo, inclusive, o infrator!) nos primeiros capítulos até a visão da Nova Jerusalém nos últimos capítulos. O cuidado com as pessoas e o meio ambiente é posto como mandato logo no início: “Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2:15). Este cuidado precisa ser ensaiado dentro e fora das igrejas, e ensinado nos cursos de Teologia. De fato, há, hoje, uma nova ênfase na questão do cuidado, especialmente nas áreas de aconselhamento pastoral, na diaconia e no ensino da ética. Em debate interdisciplinar, a teologia acadêmica pode dar uma contribuição mais qualificada para questões éticas em pauta, de justiça social, bioética, convivência inter- religiosa, cidadania, entre outras. IHU On-Line - O que mais você gostaria de dizer sobre estes temas? 16 Rudolf von Sinner - A proposta de uma Teologia Pública data dos anos 1970, quando foi cunhado o termo nos Estados Unidos. Desde os anos 1990, está tendo um reavivamento diante das mudanças drásticas no mundo globalizado e, ao mesmo tempo, fragmentado de hoje, bem como da perda de reconhecimento da relevância da teologia no espaço público. Países como a África do Sul e a Austrália estão descobrindo e explorando este conceito. Na América Latina, ainda há pouca reflexão sobre ele. O Instituto Humanitas da Unisinos – IHU - é a única instituição no Brasil, segundo meu conhecimento, que o utiliza de forma explícita. Mas, tendo o país e o continente grande experiência no desenvolvimento de conceitos teológicos relevantes para assuntos públicos, penso que a exploração deste conceito, em interação com outros países, poderia ser frutífera e oportuna. Disponível em: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article &id=1191&secao=230 17 Conclusão Deste modo, diante de um mundo materialista, focado nos resultados e nas estatísticas, racionalizado e desumanizado, voltado apenas para as posses materiais e para os valores concretos, para uma fé capenga que se escora no que é mensurável apenas, é preciso nos lembrar da experiência vivida por Jó. Após perder os seus bens, sua família e sua própria existência prática, ele descansou os seus pés no Senhor, fundamento da sua vida. Deus não nos livra do sofrimento. Ele pode vir e pode estar bem perto, mas certamente Deus nos mantém firmes com a fé inabalável, na certeza absoluta de que, nele, “somos mais do que vencedores”. (1). Tais como as defendidas pelo Positivismo Clássico de Augusto Comte, e levadas a rigor em suas formas antimetafísicas por Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche, dentre outros. (2). É um tipo de humanismo existencialista prático, conforme defendido pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, em seu livreto O Humanismo é um existencialismo Disponível em: http://ultimato.com.br/sites/estudos-biblicos/assunto/igreja/teologia-da- prosperidade-satisfacao-crista-versus-hedonismo