Prévia do material em texto
VOLUME 50 Processamento de produtos cárneos Aspectos gerais, tecnologia e segurança CONSUELO DOMENICI ROBERTO MARIA EMÍLIA RODRIGUES VALENTE Esta obra foi selecionada para integrar a “Coleção Pesquisa Ufes”, a partir de Chamada Pública feita pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) aos programas de pós-graduação da universidade. A seleção teve por base pareceres que consideraram critérios de inovação, relevância e impacto. O financiamento da Coleção foi viabilizado por meio do Programa de Apoio à Pós-Graduação (Proap) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de recursos do Tesouro Nacional. Editora Universitária – Edufes Filiada à Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) Av. Fernando Ferrari, 514 Campus de Goiabeiras Vitória – ES · Brasil CEP 29075-910 +55 (27) 4009-7852 edufes@ufes.br www.edufes.ufes.br Reitor Paulo Sergio de Paula Vargas Vice-reitor Roney Pignaton da Silva Pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Valdemar Lacerda Júnior Chefe de Gabinete Aureo Banhos dos Santos Diretor da Edufes Wilberth Salgueiro Conselho Editorial Ananias Francisco Dias Junior, Eliana Zandonade, Eneida Maria Souza Mendonça, Fabrícia Benda de Oliveira, Fátima Maria Silva, Gleice Pereira, Graziela Baptista Vidaurre, José André Lourenço, Marcelo Eduardo Vieira Segatto, Margarete Sacht Góes, Rogério Borges de Oliveira, Rosana Suemi Tokumaru, Sandra Soares Della Fonte Secretaria do Conselho Editorial Douglas Salomão Administrativo Josias Bravim, Washington Romão dos Santos Seção de Edição e Revisão de Textos Fernanda Scopel, George Vianna, Jussara Rodrigues, Roberta Estefânia Soares Seção de Design Ana Elisa Poubel, Juliana Braga, Samira Bolonha Gomes, Willi Piske Jr. Seção de Livraria e Comercialização Adriani Raimondi, Ana Paula de Souza Rubim, Dominique Piazzarollo, Marcos de Alarcão, Maria Augusta Postinghel Este trabalho atende às determinações do Repositório Institucional do Sistema Integrado de Bibliotecas da Ufes e está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional. Para ver uma cópia desta licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/. Diretor da Graúna Digital Thiago Moulin Supervisão Laura Bombonato Seção de edição e revisão de textos Carla Mello | Natália Mendes | José Ramos Manuella Marquetti | Stephanie Lima Seção de design Carla Mello | Bruno Ferreira Nascimento Projeto gráfico Edufes Diagramação e capa Bruno Ferreira Nascimento Revisão de texto MC&G Editorial Fotografia da capa por Donald Giannatti em https://unsplash.com/. Esta obra foi composta com a família tipográfica Crimson Text. Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP) (Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil) R639p Roberto,Consuelo Domenici. Processamento de produtos cárneos [recurso eletrônico] : aspectos gerais, tecnologia e segurança / Consuelo Domenici Roberto, Maria Emília Rodrigues Valente. - Dados eletrônicos - Vitória, ES : EDUFES, 2023. 159 p. : il. ; 21 cm. - (Coleção Pesquisa Ufes ; 50) Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7772-535-9 Modo de acesso: https://repositorio.ufes.br/handle/10/774 1. Tecnologia de alimentos. 2. Carne. 3. Qualidade dos alimentos. 4. Segurança dos alimentos. I. Valente, Maria Emília Rodrigues. II. Título. III. Série. CDU: 637:52 Elaborado por Ana Paula de Souza Rubim – CRB-6 ES-000998/O http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Vitória, 2023 Processamento de produtos cárneos Aspectos gerais, tecnologia e segurança CONSUELO DOMENICI ROBERTO MARIA EMÍLIA RODRIGUES VALENTE Prefácio O livro “Processamento de produtos cárneos: aspectos gerais, tecnologias e segurança” foi elaborado com o propósito de atender a uma demanda por uma bibliografia que reunisse, de forma obje- tiva e clara, conteúdos relacionados ao processamento de produtos cárneos e que pudesse ser utilizada como suporte teórico, principla- mente para disciplinas de Tecnologia de carnes, em cursos de gra- duação na área de ciência e tecnologia de alimentos e outras áreas do conhecimento. A partir de uma ampla revisão da literatura técnica e científica, compreendendo diversos autores, pesquisadores e cientis- tas da área de ciência e tecnologia da carne, este livro aborda assuntos relacionados às técnicas aplicadas visando à conservação, qualidade e segurança da carne e produtos cárneos, incluindo conhecimentos e conceitos importantes para seu entendimento. Na parte 1 são abordados tópicos sobre aspectos gerais relacio- nados ao processamento de produtos cármeos, incluindo composição química da carne e ingredientes e aditivos alimentares, usualmente utilizados em formulações de produtos cárneos, e suas funções. Na parte 2 são abordados tópicos gerais sobre tecnologias tra- dicionais para fabricação de produtos cárneos incluindo salga, cura, defumação, produtos cárneos de massa fina e cozimento. Na parte 3 são descritos alguns métodos aplicados na fabrica- ção de produtos cárneos específicos e mais tradicionais como ham- búrguer, carne salgada, presunto cozido, bacon, salsicha e embutidos defumados para exemplificar as tecnologias apresentadas na parte 2. Aspectos relacionados à legislação, ingredientes e etapas do pro- cesso também são abordados, bem como a aplicação das informa- ções e conceitos previamente descritos na parte 1. As descrições das etapas e processos para a fabricação dos produtos cárneos, além da ampla revisão da literatura técnica e científica, também foram basea- das na formação e experiência profissional e conhecimentos adquiri- dos durante o desenvolvimento do conteúdo prático nas disciplinas ministradas para cursos de graduação em Agronomia, Engenharia de Alimentos, Medicina Veterinária, Nutrição e Zootecnia e além do desenvolvimento de pesquisas e extensão vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universi- dade Federal do Espírito Santo. Na parte 4 são abordados tópicos sobre programas de autocon- trole e ferramentas para garantia da qualidade e segurança de ali- mentos, abrangendo conteúdos de microbiologia, perigos químicos, físicos e microbiológicos; princípios básicos de higiene de alimentos e ferramentas da qualidade , incluindo os programas de boas práti- cas de fabricação, procedimentos operacionais padronizados, sistema de análise e pontos críticos de controle (APPCC) e análise de riscos. Agradecimentos À Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Uni- versidade Federal do Espírito Santo (Ufes) pelo apoio financeiro, através do PROAP e Recursos do Tesouro Nacional, para a publica- ção deste livro, parte do projeto “Coleção Pesquisa Ufes”. Ao Centro de Ciências Agrárias e Engenharias (CCAE) e ao Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimen- tos (PCTA) da Universidade Federal do Espírito Santo. À Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio dado ao PCTA por meio do programa Parcerias Estratégicas nos Estados (PDPG), destinado à consolida- ção e fortalecimento de programas de pós-graduação e promoção do desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação do País. SumárioSumário Parte 1 Aspectos gerais sobre o processamento de produtos cárneos ............. 12 1 Composição química da carne .................................................................... 12 1.1 Água ...................................................................................................... 13 1.2 Proteínas e estrutura do músculo ....................................................... 13 1.3 Proteínas miofibrilares ........................................................................ 15 1.3.1 Propriedades funcionais das proteínas miofibrilares .............................18 1.4. Proteínassarcoplasmáticas e estromais ............................................. 21 1.5 Desnaturação proteica ......................................................................... 23 1.6 Amaciamento da carne ....................................................................... 26 1.7 Lipídeos................................................................................................. 28 1.8 Demais componentes ........................................................................... 32 2 Conversão do músculo em carne: curva de queda do pH muscular x qualidade da carne ...................................................................................... 33 3 Ingredientes e aditivos alimentares usados em produtos cárneos processados ........................................................................................ 38 Referências ..................................................................................................... 43 Parte 2 Tecnologias tradicionais para processamento de produtos cárneos 50 1. Salga ............................................................................................................. 51 1.1 Métodos de salga ................................................................................. 54 1.2 Alterações na carne decorrentes da salga ........................................... 55 2. Cura ............................................................................................................. 56 2.1 Sais de cura: composição e funções ..................................................... 57 2.2 Cor de produtos curados ..................................................................... 59 2.3 Riscos à saúde associados ao consumo de produtos cárneos curados .....61 3 Defumação.................................................................................................... 62 3.1 Produção e composição da fumaça ..................................................... 63 3.2 Processo de defumação tradicional ..................................................... 66 3.3 Defumação com fumaça líquida ......................................................... 69 3.4 Defumadores e geradores de fumaça .................................................. 71 4 Produtos cárneos de massa fina ................................................................. 73 4.1 Formação da emulsão cárnea .............................................................. 73 4.2 Fatores que influenciam a formação da emulsão e sua estabilidade .....75 5 Cozimento da carne: principais alterações e métodos utilizados ............. 79 5.1 Alterações pelo cozimento ................................................................... 81 5.2 Métodos de cocção ............................................................................... 83 Referências ..................................................................................................... 85 Parte 3 Produtos cárneos: legislação, ingredientes/insumos, tecnologia ...... 91 1.1 Processamento do hambúrguer .......................................................... 93 1.2 Definição, critérios sensoriais, fisico-químicos e microbiológicos ... 93 1.3 Ingredientes e insumos ........................................................................ 94 1.4 Tecnologia de fabricação ..................................................................... 97 2. Processamento de Jerked Beef ..................................................................... 99 2.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos... 99 2.2 Ingredientes e insumos ...................................................................... 100 2.3 Tecnologia de fabricação ................................................................... 101 3. Processamento do presunto ..................................................................... 104 3.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos 104 3.2 Ingredientes e insumos ...................................................................... 105 3.3 Tecnologia de fabricação ................................................................... 107 4. Processamento do bacon ......................................................................... 113 4.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos 113 4.2 Ingredientes e insumos ...................................................................... 113 4.3 Tecnologia de fabricação ................................................................... 114 5. Processamento de produtos cárneos de massa fina ................................ 116 5.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos da salsicha ................................................................................................. 117 5.2 Ingredientes e insumos ...................................................................... 119 5.3 Tecnologia de fabricação .................................................................. 120 Referências ................................................................................................... 125 Parte 4 Programas de autocontrole e segurança de alimentos ...................... 128 1. Microbiologia e segurança de carne e produtos cárneos ....................... 129 1.1 Perigos microbiológicos, físicos e químicos ..................................... 129 1.2 Microbiota presente na carne e produtos cárneos .......................... 131 1.2.1 Alguns patógenos de importância em carnes e produtos cárneos ..........133 Escherichia coli .......................................................................................133 Salmonella ..............................................................................................134 Listeria monocytogenes ..........................................................................135 Clostridium botulinum ...........................................................................136 Staphylococcus aureus ............................................................................137 1.3 Considerações sobre a legislação brasileira ...................................... 138 2. Princípios básicos de higiene ................................................................... 139 2.1 Boas práticas de fabricação ................................................................ 140 2.2 Procedimentos operacionais padronizados ...................................... 141 3. Ferramentas para a garantia da segurança de alimentos ........................ 142 3.1 Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle ........ 142 3.2 Análise de riscos ................................................................................. 147 Referências ................................................................................................... 150 Sobre as autoras .......................................................................................... 157 Consuelo Domenici Roberto .........................................................................157 Maria Emília Rodrigues Valente .................................................................157 12 Parte 1 Aspectos gerais sobre o processamento de produtos cárneos 1 COMPOSIÇÃO QUÍMICA DA CARNE A carne fresca corresponde ao tecido muscular esquelético estriado de animais de diferentes espécies, e pode ser considerada uma matriz complexa em função da sua composição química e das alterações decorrentes de reações bioquímicas que ocorrem no músculo após abate do animal. Como alimento é rica em nutrientes, sendo uma das principais fontes de proteína na dieta humana (WEISS, 2010; LEE; JOO; RYU, 2010). O tecido muscular esquelético estriado é altamente estruturado e composto, principalmente, de fibras musculares (75 a 92 %), tecidos conectivo e adiposo, vasos sanguíneos e tecido ner- voso. Dependendo da sua localização e função no corpo do animal, os músculos diferem no conteúdoe distribuição de tecido conectivo e adiposo, e nas características (comprimento, diâmetro e tipo) das fibras musculares (REALINI et al., 2013). 13 Em relação à composição química, a carne é constituída, em média, por 75 % de água, 20 % de proteína, 3 % de gordura, 2 % de substâncias não proteicas, até 1 % de carboidratos, principalmente glicogênio, mine- rais e vitaminas. As proteínas, que correspondem quantitativamente ao segundo maior grupo de componentes químicos da carne, podem ser classificadas de acordo com a solubilidade e localização no tecido mus- cular em miofibrilares (cerca de 50 a 55 %), solúveis em solução salina; sarcoplasmáticas (cerca de 30 a 35 %), solúveis em água; e estromais (cerca de 10 a 15 %), entre as quais o colágeno é a principal proteína, insolúvel em água e solúveis em soluções ácidas ou alcalinas (LISTRAT et al., 2016; LAWRIE; LEDWARD, 2006; TONBERG, 2005). 1.1 Água Como constituinte a água representa de 70 a 80 % do peso da carne fresca e a quantidade de umidade presente na carne processada influencia características como suculência, maciez e outras. A água livre na carne é mantida por forças capilares em diferentes compar- timentos do tecido muscular, tais como nos espaços entre os miofi- lamentos, entre as miofibrilas e fora das fibras musculares, sendo a forma predominante da água na carne. A água ligada está associada às proteínas por meio de ligações de hidrogênio, as quais são influen- ciadas pela carga superficial e pela polaridade das moléculas protei- cas (STRASBURG; XIONG, 2019). A solubilidade, hidratação e retenção de água são proprieda- des importantes das proteínas da carne por influenciarem no rendi- mento e em atributos sensoriais como textura, maciez e suculência, além da aparência e coesividade. 1.2 Proteínas e estrutura do músculo O tecido muscular esquelético estriado consiste em, aproximada- mente, 75 a 92 % de fibras musculares e 10 % de tecido conectivo e 14 tecido adiposo. Representa de 35 a 65 % do peso das carcaças, depen- dendo da fase de crescimento e engorda do animal. É formado por um conjunto de feixes recoberto por tecido conectivo, denominado epimísio, que envolve o músculo como um todo. Cada feixe é consti- tuído por um conjunto de fibras musculares, também envolvido por tecido conectivo, o perimísio, e cada fibra muscular é recoberta pelo endomísio, que está conectado ao sarcolema da célula muscular. A organização do músculo que se encontra associado ao tecido conec- tivo pode ser, então, distribuída em três níveis, sendo o endomísio, que envolve cada fibra muscular; o perimísio, que compartimenta o músculo em feixes de fibras; e o epimísio, que recobre externamente todo o músculo. O epimísio, perimísio e endomísio se misturam com agregados massivos do tecido conectivo (tendões) que se ligam aos ossos (LISTRAT et al., 2016; ASTRUC, 2014; LAWRIE, 2005). As fibras musculares são células características do tecido muscular esquelético estriado, altamente especializadas e constituem a unidade estrutural do músculo. São células fusiformes, alongadas e multinu- cleadas de aproximadamente dez a cem micrômetros de diâmetro e comprimento variável de acordo com a espécie do animal e localiza- ção do músculo. Em todas as espécies, o tamanho das fibras aumenta com a idade do animal e é um importante parâmetro do crescimento muscular pós-natal. As miofibrilas estão presentes no sarcoplasma das fibras musculares e estruturalmente estão organizadas formando os sarcômeros (PEARSON; YOUNG, 1989; ZEOLA et al., 2007). As miofibrilas possuem diâmetro de aproximadamente um micrômetro e são constituídas por proteínas miofibrilares. São orga- nizadas em miofilamentos finos e grossos, apresentando um padrão definido de estrias ou faixas transversais alternadas, observada com microscopia de luz, formando zonas claras (Banda I) e zonas escuras (Banda A). Esse arranjo espacial dos miofilamentos finos e grossos origina a estrutura do sarcômero, que corresponde à unidade con- trátil envolvida na contração muscular, e que se repete ao longo de todo o comprimento da fibra muscular. A região central da Banda-A 15 é chamada de zona-H, e no centro desta pode ser observada a Ban- da-M. Os miofilamentos finos são formados, principalmente por actina, enquanto os miofilamentos grossos são formados, predomi- nantemente, por miosina. Longitudinalmente, a proteína titina se conecta à linha Z e à linha M. Outras proteínas miofibrilares princi- pais são a tropomiosina e a troponina composta por pelas subunida- des: T, que se liga à tropomiosina, a subunidade I, que se liga à actina impedindo sua interação com a miosina no músculo em repouso, e pela subunidade C, que apresenta alta afinidade pelos íons cálcio (ERTBJERG; PUOLANNE, 2017; LANA; ZOLLA, 2016; LAWRIE; LEDWARD, 2006). Na análise proteômica do tecido muscular esque- lético estriado estima-se que mais de 65 tipos de proteínas compõem a estrutura do sarcômero (FRATERMAN et al., 2007). As proteínas de um músculo magro, expressas em porcentagem, são constituídas de cerca de 55 % de proteínas miofibrilares, cerca de 30 % de proteínas sarcoplasmáticas e cerca de 15 % proteínas de tecido conectivo. Em termos de componente proteico as proteínas miofibrilares estão em maior quantidade, sendo a miosina e actina predominantes (FEINER, 2006; LIU et al., 2021). 1.3 Proteínas miofibrilares As proteínas miofibrilares são solúveis em solução salina (0,4 a 1,5 M), e podem ser divididas em três subclasses: proteínas contráteis: actina e miosina; proteínas reguladoras: tropomiosina e troponina; e proteínas estruturais, que atuam como um suporte na estrutu- ração do sarcômero: titina, nebulina, vinculina, desmina, distro- fina e outras (GOMIDE et al., 2013; LAWRIE; LEDWARD, 2006; TONBERG, 2005). A titina, uma megaproteína de aproximadamente 3MDa e de 2 a 2,5 µM de comprimento, com características elásticas, integra a linha Z e os miofilamentos grossos, com sua extremidade C-terminal localizada na linha M, na parte central do sarcômero e a extremidade 16 N-terminal integrando a linha Z. Mantém a localização dos miofi- lamentos grossos entre as linhas Z e o alinhamento do sarcômero durante a contração muscular. A nebulina também é outra mega- proteína (cerca de 600-900 kDa) que se estende para as extremidades do miofilamento fino. Proteína não elástica, sua extremidade C-ter- minal está inserida dentro da linha Z. Titina e nebulina são respon- sáveis por estabilizar os miofilamentos finos e grossos. A desmina compõem filamentos proteicos intermediários ao redor da linha Z, ligando miofibrilas adjacentes e as miofibrilas a outras estruturas celu- lares, incluindo o sarcolema (HUFF-LONERGAN, 2010). Actina e miosina representam cerca de 7-8 % do peso total do músculo. São os principais componentes dos miofilamentos finos e grossos, respectivamente, e responsáveis pela contração e relaxa- mento do músculo (FEINER, 2006). A actina corresponde a 20 % do total das proteínas miofibrilares, sendo actina globular ou actina G o monômero de actina formado por uma cadeia única de polipeptídios com cerca de 360 moléculas, que se polimeriza formando a actina F em formato de dupla hélice. A molécula de actina (actina G) contém 375 resíduos de aminoácidos e massa molecular de 41-42 kDa. Constitui-se de resíduos de ami- noácidos carregados negativamente (ácido aspártico e ácido glutâm- ico) e somente a lisina com carga positiva. Duas moléculas de actina F se enovelam assumindo a forma helicoidal característica do mio- filamento fino (DAMODARAN, 2019; PUOLANNE; HALONEN, 2010; GOMIDE et al., 2013). A actina é considerada a unidade básica que compõe o miofilamento fino. Associadas aos miofilamentos finos encontram-se a tropomiosina, uma proteína filamentosa, e a tro- ponina, proteína globular (LIU et al., 2021). A cadeia de actina F se enrola ao redor da tropomiosina e, em intervalos regulares, um com- plexo formado por troponina I, C e T se liga àactina. Tanto a tropo- nina quanto a tropomiosina atuam como reguladoras da contração muscular (FEINER, 2006). 17 A tropomiosina é o segundo componente mais abundante dos miofilamentos finos e compõe cerca de 7 % do total de proteínas miofibrilares. É constituída por duas cadeias polipeptídicas com peso molecular de aproximadamente 34 kDa (cadeia alfa) e 36 kDa (cadeia beta) que interagem entre si em formato α-hélice. Já a troponina nativa é um complexo constituído por três subunidades: troponina I, cujo peso molecular é de 23 kDA que se liga à actina e é capaz de inibir a interação da actina com a miosina; troponina T, com peso molecular de 37 kDa que se liga fortemente à tropomiosina; e a tro- ponina C de peso molecular igual a 18 kDa e com alta afinidade pelos íons cálcio. Um dos principais reguladores da contração mus- cular é a atuação conjunta da troponina e tropomiosina em resposta ao aumento da concentração de íons cálcio no sarcoplasma. Quando ocorre esse aumento, o cálcio liberado do retículo sarcoplasmático se liga ao complexo troponina através da troponina C promovendo mudanças conformacionais no interior da troponina, cuja subunidade T encontra-se ligada à tropomiosina. Essas mudanças resultam no afastamento da tropomiosina dos sítios de ligação com a actina, que ficam livres para se ligarem à miosina. Essa interação entre actina e miosina resulta na contração muscular (HUFF-LONERGAN, 2010). A miosina, que corresponde a 45 % do total das proteínas mio- fibrilares, é a proteína presente em maior quantidade no músculo. Sua molécula é constituída de seis subunidades, sendo duas cadeias pesadas (meromiosina pesada) e quatro cadeias leves (meromiosinas leves) (LAWRIE, 2005). A molécula de miosina tipo II encontrada no músculo estriado esquelético contém aproximadamente 4.500 resíduos de aminoácidos e tem um peso molecular de 490 - 500 kDa. Possui a região da cabeça e pescoço (meromiosina pesada) e uma cauda (meromiosina leve). A cauda é constituída por duas cadeias polipeptídicas que apresentam uma conformação em α-hélice e se entrelaçam em espiral. Contém 1.094 resíduos de aminoácidos, sendo muitos desses resíduos alifá- ticos, outros apolares (leucina, valina, alanina), alguns carregados 18 negativamente e muito poucos carregados positivamente (arginina e lisina). Tem alta densidade de aminoácidos carregados agrupados na superfície externa da molécula e contém a maior parte da carga líquida da miosina. Além da cauda, possui duas cabeças, sendo que na região S1 a cabeça contém a sub-região N-terminal, com sítio de ligação da molécula de ATP, e a sub-região central, que possui capa- cidade de se ligar à molécula de actina. É o componente predomi- nante dos miofilamentos grossos que contêm cerca de duzentas a trezentas moléculas de miosina (PUOLANNE; HALONEN, 2010). 1.3.1 Propriedades funcionais das proteínas miofibrilares As principais propriedades funcionais das proteínas miofibrilares de interesse no processamento de carnes são: solubilidade, emulsificação e gelatinização. Essas propriedades estão relacionadas com a intera- ção proteína-água, proteína-óleo e proteína-proteína, respectiva- mente. Essas interações geralmente são resultado de uma complexa combinação da conformação, estrutrura e composição de aminoá- cidos, que são características de cada proteína (LIU et al., 2021). As proteínas miofibrilares têm a capacidade de formar géis viscoelásti- cos tridimensionais, se ligar e reter a água, e formar membranas coe- sas na interface óleo/água de emulsões ou formar filmes flexíveis em torno de bolhas de ar (ALLAIS, 2010). A presença de aminoácidos carregados e agrupados na super- fície externa da molécula usualmente contribui para o aumento da solubilidade da proteína. O grau de extração das proteínas pode ser parcialmente atribuído à sua solubilidade, uma vez que quando solu- bilizadas as proteínas são facilmente isoladas das fibras musculares ou das miofibrilas (PUOLANNE; HALONEN, 2010; LIU et al., 2021). Proteínas da carne solubilizadas são consideradas excelentes agentes emulsificantes naturais, devido à natureza anfifílica de suas cadeias proteicas. Entre elas, a miosina tem contribuição significativa para o processo de emulsificação de gordura. Acredita-se que a maior 19 capacidade emulsificante da miosina em relação às demais proteínas miofibrilares resulta da concentração de resíduos hidrofóbicos na região da cabeça, dos grupos hidrofílicos na região da cauda e da alta relação comprimento-diâmetro da molécula que promove a intera- ção proteica e a flexibilidade molecular na interface (ALLAIS, 2010). A principal característica de um agente emulsificante é a de pos- suir, na mesma molécula, partes hidrofílicas e hidrofóbicas, o que per- mite a formação de uma camada (filme proteico) entre as duas fases imiscíveis de um sistema, separando-as e impedindo a coalescência das partículas da fase dispersa e formação de gotas grandes, o que resultaria em quebra da emulsão (SGARBIERI, 1996). Em sistemas alimentícios, as proteínas são os agentes emulsificantes preferenciais para as emulsões O/A (Óleo/Água), pois são comestíveis, ativas na superfície, solúveis em água e proporcionam resistência superior à coalescência das gotículas da fase dispersa. A presença de um emul- sificante, que reduz a tensão superficial existente entre as duas fases naturalmente imiscíveis (como água e óleo), é necessária não somente para formação de uma emulsão, mas também para fornecer estabi- lidade à emulsão após sua formação (DAMODARAN, 2019). Várias interações ocorrem no processo de emulsificação, sendo as principais proteína-água, proteína-gordura e proteína-proteína. Tecnologica- mente, as interações proteína-água têm maior impacto no inchaço e solubilização das proteínas e na capacidade de retenção da água adi- cionada. As interações proteína-proteína são as principais responsá- veis pela espessura da camada de proteína que recobre as partículas de gordura (FEINER, 2006). Um gel térmico proteico pode ser definido como uma rede de proteínas estruturais com a capacidade de reter água, cuja forma- ção se deve, entre outros fatores, à conformação e às propriedades das cadeias laterais de aminoácidos da molécula proteica. Em solu- ções de alta força iônica, miosina se encontra predominantemente na forma de monômeros livres e desempenha um papel importante no processo de gelatinização. Alterações na estrutura em α-hélice da 20 cauda da miosina resultam na liberação de grupos funcionais, como o grupo sulfidril e componentes hidrofóbicos, que permitem a liga- ção cruzada entre proteínas, através da ligação covalente ou não covalente, seguida pela formação de uma rede de gel tridimensio- nal agregada (LIU et al., 2021). Na formação de gel de miosina indu- zida por aquecimento, a primeira parte do processo ocorre entre 30 e 50 ºC, e envolve coalescência e agregação das cabeças globula- res da miosina; a segunda etapa ocorre em temperaturas acima de 50 ºC e envolve mudanças estruturais na estrutura α-hélice da cauda da miosina, levando à formação de uma rede, onde grupos hidrofó- bicos interagem entre si, formando grandes agregados globulares (TONBERG, 2005). A capacidade de ligar, imobilizar e reter água endógena e exó- gena da carne processada é atribuída às proteínas miofibrilares, cujas propriedades funcionais são influenciadas pelos componentes quími- cos do meio (STRASBURG; XIONG, 2019; HONIKEL, 2008). Um dos fatores responsáveis pela hidratação e retenção de água da carne é a expansão das miofibrilas induzida por íons salinos (ex.: NaCl), que geram uma repulsão eletrostática, a qual resulta em um inchaço transverso dos miofilamentos. Em condições fisiológicas (aproxi- madamente 1 % de NaCl, que equivale a 0,17M) as miofibrilas são insolúveis. Aumentando-se a concentração de sal do meio (cerca de 2 %) ocorre um maior intumescimento das miofibrilas com solubi- lização de apenas uma parte das moléculasproteicas. Esse intumes- cimento se deve ao movimento dos íons salinos e da água entre as cadeias de proteínas que constituem as miofibrilas, tornando fracas as forças de atração entre íons e grupos carregados dessas proteínas. O movimento molecular e o aumento do espaço entre as molécu- las de actina e miosina favorece o intumescimento das miofibrilas e o inchaço das fibras musculares, resultando na maior acomodação das moléculas de água e formação de um líquido viscoso, devido à maior solubilização das proteínas. (STRASBURG; XIONG, 2019; HONIKEL, 2008). 21 O pH do meio é outro fator importante que influencia a capa- cidade das proteínas de se solubilizarem e se ligarem às moléculas de água. O ponto isoelétrico de uma proteína corresponde ao valor de pH na qual a molécula proteica é eletricamente neutra, possuindo carga elétrica líquida nula (número de cargas positivas dos grupa- mentos iônicos das proteínas se iguala ao número de cargas negati- vas). Nesse valor de pH a capacidade das moléculas de proteínas se ligarem às moléculas de água do meio é mínima, enquanto a atração entre os grupos ionizáveis das moléculas proteicas (COO- e NH3+) é maior. À medida que o pH do meio se afasta do ponto isoelétrico das proteínas, as moléculas proteicas tornam-se carregadas positiva- mente ou negativamente (DAMODARAN, 2019). No músculo, o ponto isoelétrico do complexo actomiosina ocorre em valor de pH de cerca de 5,2, e muitos grupos carboxilas (COOH) e amino (NH2) estão presentes nas formas ionizáveis COO- e NH3+, respectivamente. Esses grupos se atraem e as moléculas de proteínas se ligam fortemente. Como resultado somente uma fina camada de água pode se ligar às proteínas. Quando o valor do pH se afasta do ponto isoelétrico, há um aumento no número de cargas no interior das moléculas de proteína. Consequentemente, ocorre um enfraquecimento das ligações entre as moléculas proteicas, o que geralmente melhora a capacidade de retenção de água. No tecido muscular o pH acima do ponto isoelétrico resulta em um aumento de cargas negativas no interior da molécula, o que gera uma repul- são eletrostática, e ligações mais fracas entre os miofilamentos que aumenta o espaço entre actina e miosina. Esses fatores, combinados com forças capilares no interior da fibra muscular, promovem maior acomodação e imobilização das moléculas de água (FEINER, 2006). 1.4. Proteínas sarcoplasmáticas e estromais As proteínas sarcoplasmáticas correspondem ao grupo de proteínas solúveis presentes no sarcoplasma da fibra muscular, a que pertence 22 a maioria das enzimas da via glicolítica, creatina quinase e a mioglo- bina, com peso molecular relativamente baixo variando de 17.000 Da (mioglobina) a 92.500 Da (fosforilase b), e estão associadas ao metabolismo das células animais. Cerca de 90 proteínas constituem o grupo de proteínas sarcoplasmáticas, sendo albuminas e globulinas as principais. A mioglobina, que confere a cor da carne, e a hemo- globina (que confere a cor do sangue) são tipos de globulinas impor- tantes na carne (TONBERG, 2005; FEINER, 2006). A concentração de mioglobina e hemoglobina (pigmentos heme) , o estado químico do átomo de ferro (oxidado Fe3+ ou reduzido Fe2+), os ligantes ao átomo de ferro (ex.: NO, O2, H2O), a integridade do anel pirrólico e a estrutura da molécula proteica (nativa ou desnaturada) são fatores que influenciam a cor da carne (BREWER, 2010; LAWRIE, 2005; GOMIDE et al., 2013). O colágeno (40 a 60 %) é o principal grupo das proteínas estro- mais, e tropocolágeno e elastina representam 10 % do total desse grupo de proteínas (FEINER, 2006). O tecido conectivo que envolve as fibras musculares e os feixes de fibras consiste, principalmente, de uma rede composta de fibras de colágeno envolvidas em uma matriz de proteoglicanos, que pode ser descrita como um gel hidrofílico (PICARD et al., 1998; ASTRUC, 2014). O colágeno é encontrado em ligamentos, tendões, pele e mui- tos outros tipos de tecidos com funções mecânicas e estruturais. É uma proteína fibrosa, sendo o tropocolágeno sua unidade estrutural básica em formato helicoidal constituído por três cadeias polipeptí- dicas formando uma espiral. Moléculas de tropocolágeno são esta- bilizadas por ligações intermoleculares para formar fibras de 50 nm de diâmetro. Essas fibras, por sua vez, são estabilizadas por ligações cruzadas intramoleculares e intermoleculares (NISHIMURA, 2015; LISTRAT et al., 2016). Um dos maiores componentes das fibras de colágeno é a hidroxiprolina (12,5 %). Quando submetido ao calor por um período prolongado, o colágeno se gelatiniza formando um gel 23 após resfriamento. O tecido conectivo encolhe a 60-65 ºC e entre 90 e 95 ºC o colágeno se gelatiniza (FEINER, 2006). Elastina é outro componente do tecido conectivo (cerca de 4 %). Apresenta coloração amarelada, contém cerca de 1 % de hidroxi- prolina e representa cerca de 0,8 % do total de proteínas do mús- culo. Muito pouco solúvel em água e solução salina e resistente a soluções ácidas diluídas. Grande parte do tecido conectivo, cerca de 30 %, é composto de outras proteínas insolúveis (FEINER, 2006) e mantêm-se insolúveis em soluções com alta concentração salina (CHEN et al., 2017). 1.5 Desnaturação proteica Desnaturação é caracterizada por mudanças estruturais nas molécu- las de proteína que alteram sua conformação em função do efeito de fatores como temperatura (cozimento), pH (acidificação), altas con- centrações de sal e baixos valores de atividade de água no meio. Como consequência, a estrutura nativa das proteínas (altamente organizada) e suas propriedades funcionais são alteradas. As estruturas terciária, quaternária ou secundária das proteínas, geralmente mantidas por ligações de hidrogênio, forças de Van der Waals e interações eletros- táticas, são afetadas. Entretanto, a estrutura primária, mantidas por ligações covalentes, não sofre alteração durante o processo de des- naturação (FEINER, 2006). O calor, muito utilizado no processamento e conservação de ali- mentos, é um agente desnaturante. Dependendo do tempo e tempera- tura a que são expostas, as proteínas são submetidas a graus variados de desnaturação durante o processamento. O mecanismo de desna- turação das proteínas pela temperatura envolve principalmente o efeito da temperatura sobre a estabilidade das interações não cova- lentes das moléculas. As ligações de hidrogênio e as interações ele- trostáticas, que são exotérmicas, são desestabilizadas, e as interações hidrofóbicas, que são endotérmicas, são estabilizadas à medida que 24 a temperatura aumenta. A força das interações hidrofóbicas atinge seu máximo em aproximadamente 70 a 80 ºC e diminui a tempe- raturas mais altas (FEINER, 2006; PALKA; WESLERKA, 2014; DAMODARAN, 2019). Entre as proteínas miofibrilares, a α-actinina é mais sensível ao calor e torna-se insolúvel a 50 ºC; miosina e actomiosina desnaturam a temperaturas entre 54 e 58 ºC; actina entre 80 e 83 ºC; troponina e tropomiosina acima de 80 ºC. Titina do músculo de suínos desna- tura a 78,4 ºC e de bovinos a 75,6 ºC. A temperatura de desnatura- ção das proteínas sarcoplasmáticas é, geralmente, entre 62 e 70 ºC, sendo que algumas desnaturam a temperaturas abaixo de 50 ºC. A desnaturação térmica do colágeno ocorre em duas etapas iniciando com encolhimento entre 53 e 65 ºC, que envolve o rompimento de pontes de hidrogênio e perda da estrutura fibrilar, seguido de gelati- nização, entre aproximadamente 70 e 80 ºC, e rompimento de pontes intermoleculares instáveis ao calor (PALKA; WĘSLERSKA, 2014). Em geral, como as proteínas da carne iniciam o processo de des- naturação a temperaturas acima de 50 oC, se a temperatura no inte- rior do equipamento durante o cozimento for elevada e a superfície da carne ou do produto cárneo atingir rapidamente temperaturas acima de 50 ºC, a desnaturação das proteínas na superfície poderá ocorrer rapidamente interferindo de forma negativa no rendimento e em outrascaracterísticas da carne. Nesse sentido, recomenda-se um aumento de temperatura gradual de forma que esse processo ocorra de forma mais lenta (HANSON, 2004). A mudança no arranjo estrutural das miofibrilas, gerado pelo efeito da temperatura, ocasiona uma alteração na distribuição de água entre as miofibrilas e uma perda de água da carne durante o cozi- mento. No intervalo de 40 a 50 ºC, proteínas sarcoplasmáticas, a α-actinina e a miosina iniciam o processo de desnaturação e ocorre um encolhimento transversal das miofibrilas que se inicia a 45 ºC. A essa temperatura a água mantida dentro das miofibrilas diminui, pos- sivelmente, pelo encolhimento transversal miofibrilar. Entretanto, 25 no espaço entre as miofibrilas a quantidade de água tende a aumen- tar. Entre 50 e 60 ºC o comprimento do sarcômero diminui e inicia a desnaturação do colágeno, o que contribuiu para uma maior taxa de perda de água da carne. A 60 ºC, os espaços entre as fibras mus- culares diminuem e um encolhimento paralelo ao miofibrilar se ini- cia, o que contribui para a saída de água da matriz cárnea com alta concentração de proteína. O comprimento do sarcômero e o enco- lhimento das miofibrilas continuam com o aumento de temperatura, porém a taxa de perda de água diminui (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014). Em geral, a desnaturação da miosina e da actina resulta em um endurecimento da carne, principalmente pela desnaturação da mio- sina em temperaturas acima de 50 ºC. Entre 50 e 60 ºC ocorre um decréscimo na dureza da carne, provavelmente, devido à desnatura- ção parcial e um encolhimento das fibras de colágeno do endomísio (tecido conectivo intramuscular). A partir de 60 ºC inicia a desnatu- ração da titina (proteína citoesquelética) e entre 70-80 ºC da actina, o que pode explicar um novo endurecimento da carne. As tempe- raturas mais altas (acima de 75 ºC) ocorrem a gelatinização do colá- geno. Um dos efeitos da desnaturação da mioglobina, que se inicia a cerca de 60 ºC, é a mudança de cor da carne e produtos cárneos. Após expansão e desdobramento parcial da molécula, entre 60 e 67 ºC ocorre uma associação dessas moléculas dissociadas, podendo resul- tar em precipitação (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014; PALKA; WĘSLERSKA, 2014). O pH é outro agente desnaturante das proteínas. Em seus pon- tos isoelétricos, as proteínas são mais estáveis à desnaturação do que em outros valores de pH. Em pH neutro, a maioria das proteínas está carregada negativamente e, algumas positivamente e, geralmente, em pH próximo ao neutro a maioria das proteínas são estáveis. Em valores extremos de pH a forte repulsão eletrostática intramolecular provocada pela alta carga final da molécula proteica resulta em expansão e desdo- bramento da molécula. Esse grau de desdobramento é maior em valores 26 extremos de pH alcalino do que em valores extremos de pH ácido. A desnaturação induzida pelo pH, na maioria dos casos, é reversível. O cisalhamento mecânico elevado gerado por agitação, amas- samento ou batimento também pode provocar a desnaturação de proteínas. Muitas proteínas se desnaturam e precipitam quando são vigorosamente agitadas, devido à incorporação de bolhas de ar e à adsorção de moléculas de proteína na interface ar-líquido com uma modificação conformacional das moléculas proteicas na interface (DAMODARAN, 2019). 1.6 Amaciamento da carne À medida que ocorre o processo de conversão do músculo em carne, sua maciez tende a aumentar com o tempo de armazenamento post mortem. Essa maciez se deve, ao menos em parte, à degradação das proteínas miofibrilares e citoesqueléticas por enzimas endógenas naturalmente presentes no músculo. Essa degradação enzimática post mortem das proteínas, que conferem a estrutura e organização espacial das miofibrilas, é atribuída ao sistema proteolítico formado pelas calpaínas (proteases neutras), catepsinas (proteases ácidas), e proteassomas. (CRUZ et al., 2020; STRASBURG; XIONG, 2019). As catepsinas formam um complexo enzimático no qual estão envolvidas mais de vinte enzimas. São cisteína proteases presentes no interior dos lisossomos da fibra muscular e são liberadas devido à queda do pH muscular durante o período post mortem, que resulta no rompimento da membrana dos lisossomos. A atividade máxima das catepsinas é observada em valores de pH menor que 6,0 e atuam na degradação da linha Z, das troponinas e da proteína C, degradando len- tamente a tropomiosina, nebulina e α-actinina. Exercem também ati- vidade sobre as ligações cruzadas de colágeno durante a maturação da carne (LAWRIE, 2005; DAMODARAN, 2010; GOMIDE et al., 2013). O sistema das calpaínas é considerado o principal mecanismo responsável pela proteólise miofibrilar que conduz ao amaciamento 27 natural da carne (HERRERA-MENDEZ et al., 2006; KOOHMARAIE, 1995; OUALI; TALMANT, 1990). São as principais responsáveis pela degradação enzimática dos filamentos miofibrilares e citoesqueléticos levando ao amaciamento da carne (STRASBURG; XIONG, 2019). Esse sistema enzimático é formado, principalmente, pelas μ-calpaína e m-calpaína, ativadas por concentração de micromolar e milimolar de cálcio, respectivamente, e inibidas pela calpastatina (KOOHMARAIE, 1994). As proteínas citoesqueléticas como a desmina e integrinas, que desempenham papel importante na manutenção da integridade da fibra muscular, são substratos da μ-calpaína (HUFF-LONERGAN; LONERGAN, 2005; LAWSON, 2004). Alterações na estrutura miofibrilar do sarcômero e integridade do músculo têm papel importante no processo de amaciamento da carne e são resultados do afrouxamento ou degradação da linha Z; da degradação da desmina, que leva à fragmentação das miofibrilas, pro- vavelmente devido à ruptura das ligações transversas entre as mio- fibrilas (A desmina é uma proteína importante na manutenção da integridade das fibras musculares por conectar miofibrilas adjacentes e, as miofibrilas a outras estruturas celulares, incluindo o sarcolema); da degradação da titina, cujos filamentos unem os miofilamentos de actina e miosina ao longo do comprimento da linha M até a linha Z, contribuindo, portanto, com o enfraquecimento longitudinal da estrutura miofibrilar; da degradação da nebulina que enfraquece a ligação dos miofilamentos finos à linha Z e, ou dos miofilamentos finos em regiões próximos à Banda I do sarcômero. É possível tam- bém que a degradação da nebulina altere a interação entre actina e miosina de maneira que o alinhamento e a interação entre os miofi- lamentos finos e grossos no músculo post mortem sejam interrompi- dos; do desaparecimento da troponina T e aparecimento simultâneo de polipeptideos com peso molecular de 28-32 kDa; e formação de peptídios com peso molecular de 95 kDa, indicando proteólise (HUF- F-LONERGAN, 2010; KOOHMARAIE, 1994). 28 1.7 Lipídeos Os lipídeos constituem um grupo amplo de compostos quimicamente diversos, solúveis em solventes orgânicos, correspondendo à gor- dura (estado sólido) ou óleo (estado líquido) à temperatura ambiente nos alimentos. São classificados, de acordo com sua solubilidade, em apolares (ex.: triacilglicerol e colesterol) e polares (ex.: fosfolipídeos), que influencia suas propriedades funcionais. Contribuem com a tex- tura, sabor, nutrição e densidade calórica dos alimentos e, portanto, com a qualidade. Muitos lipídeos existem como dispersões/emul- sões em alimentos, sendo termodinamicamente instáveis, o que afeta sua estabilidade física e, consequentemente, a qualidade do alimento (McCLEMENTS; DECKER, 2019). São moléculas constituídas por carbono, hidrogênio e oxigê- nio, podendo conter outros compostos como fosforo (fosfolipídeos), nitrogênio e enxofre. São, em sua maioria, apolares, de natureza hidrofóbica (lipofílica) e, geralmente sem cor, mas podem apresen- tar ocasionalmente uma coloração amarelada (FEINER, 2006). Os ácidos graxos são os principais componentes dos lipídeos e a maioria de ocorrência natural possui um número par de carbonosem cadeia linear. A maioria na natureza são ácidos carbônicos com 12 a 24 átomos de carbono e são constituídos por uma cadeia alifá- tica longa de hidrocarbonetos com grupo ácido carboxílico (-COOH) terminal (McCLEMENTS; DECKER, 2019; FEINER, 2006)1. A maioria dos lipídeos da carne é formada por triacilgliceróis neutros, pequenas quantidades de fosfolipídeos de membranas celu- lares e pequena quantidade de colesterol encontrada, principalmente, na membrana plasmática muscular e no tecido nervoso (STRAS- BURG; XIONG, 2019). 1 A nomenclatura dos lipídeos pode ser consultada virtualmente. Disponível em: http://www.chem.qmul.ac.uk/iupac/lipid http://www.chem.qmul.ac.uk/iupac/lipid 29 A composição e o tipo de ácido graxo têm influência sobre o sabor da carne. Sua cadeia pode ser formada por uma estrutura linear com- posta por ácidos graxos saturados (ligações simples entre os átomos de carbono), ou insaturados apresentando uma ligação (monoinsatura- dos) ou duas ou mais duplas ligações (poilinsaturados). O ácido esteá- rico (C18:0), palmítico (C16:0), mirístico (C14:0) e láurico (C12:0) são exemplos de ácidos graxos saturados. O ácido oleico (C18:1) e os áci- dos linolênico (C18:2, ômega 3), linoleico (C18:3, ômega 6) e palmi- toleico (C16:1, ômega 9) são exemplos de ácidos graxos insaturados. Geralmente gorduras constituídas predominantemente por ácidos gra- xos saturados são sólidas, e os óleos constituídos predominantemente por ácidos graxos insaturados, são líquidos à temperatura ambiente (FEINER, 2006). O nível de ácidos graxos saturados em gorduras e óleos de animais, em geral, segue a ordem: gordura do leite > ovelha > boi > porco > frango > peru > peixes marinhos, sendo os ácidos pal- mítico e esteárico os principais ácidos graxos saturados encontrados (McCLEMENTS; DECKER, 2019). A presença de duplas ligações na molécula dos ácidos graxos influencia seu ponto de fusão, dependendo em grande parte do com- primento do ácido graxo, bem como do número de duplas ligações presentes. Ácidos graxos saturados têm ponto de fusão maior em rela- ção aos insaturados (ex.: Ponto de fusão do ácido esteárico (C18:0) é aproximadamente 70-73 ºC; ácido palmítico (C16:0) é ≈ 66 ºC; ácido mirístico (C14:0) é ≈ 58 ºC; e ácido láurico (C12:0) é ≈ 46 ºC e ácido oléico C18:1 cis-9 é de 13-14 ºC). Ácidos graxos insaturados cujas duplas ligações estão em configuração cis têm menor ponto de fusão, devido à conformação curvada da molécula. Os ácidos graxos com ligações duplas na configuração trans são mais lineares e apre- sentam ponto de fusão mais elevado que aqueles de configuração cis (ex.: Ponto de fusão 70-73 ºC ácido esteárico [C18:0 – octanodeca- noico] é aproximadamente 70-73 ºC; do ácido oléico [cis-9-octade- cenoico] é 13-14 ºC; e do ácido elaídico [trans-9-octadecenoico] é 44 ºC) (McCLEMENTS; DECKER, 2019). 30 A consistência da gordura é outra característica que depende em grande parte da saturação dos ácidos graxos da qual é constituída. Um maior número de ácidos graxos insaturados leva à gordura “mais macia”. Isto explica a variação na consistência (“Dureza” / “Maciez”) da gordura em carnes na sequência bovina (“mais dura”) > suíno > aves (“mais macias”). Gordura bovina contém predominantemente ácidos graxos saturados (55-60 %) e com consistência mais dura com ponto de fusão em torno de 43-47 ºC. A gordura de carne de ove- lhas e carneiros tem conteúdo de ácido graxos saturados similar ao da carne bovina. A gordura suína contém uma quantidade relativa- mente mais alta de ácidos graxos insaturados (apresentando cerca de 42-44 % de ácidos graxos saturados) o que resulta em uma gordura mais macia e ponto de fusão de 38-44 ºC, assim como, gordura de aves, com cerca de somente 30 % de ácidos graxos saturados e ponto de fusão que varia de 31-37 ºC (FEINER, 2006). A composição de ácidos graxos das gorduras animais depende do sistema digestório de cada animal, sendo que a gordura de não ruminantes (frangos, suínos e pescado) é parcialmente dependente da composição de ácidos graxos da dieta. Em ovinos e bovinos ocorre a conversão de ácidos graxos insaturados da dieta em saturados pela ação de enzimas microbianas do rúmen (bio-hidrogenação), podendo ocorrer a produção de ácidos graxos com ligações duplas conjugadas como o ácido linoleico. Como ruminantes consomem predominante- mente lipídeos de origem vegetal, com ácidos graxos principalmente da série de dezoito carbonos, o produto da rota da bio-hidrogenação é o ácido esteárico, encontrado em maior quantidade na gordura de bovinos e ovinos em relação à gordura de frangos, suínos e pescado (McCLEMENTS; DECKER, 2019). O grau de saturação da molécula de lipídeo também influência sua maior ou menor suscetibilidade à oxidação. Gorduras com maior número de ácidos graxos insaturados são mais propensos às reações de oxidação e, portanto, maior tendência à rancificação. 31 A oxidação lipídica na carne resulta na descoloração, no goteja- mento, no desenvolvimento de off-flavours e na produção de compostos potencialmente tóxicos. A reação de oxidação lipídica no tecido ani- mal é acelerada pela presença da hemoglobina e mioglobina, devido ao grupo heme. Durante a reação catalisada pelo grupo heme, o complexo protoporfirina-Fe++ é oxidado pelo oxigênio formando o complexo protoporfirina -Fe+++ e o íon superóxido. Forma-se, então o oxeno (P - Fe=O), que é a forma ativa da oxidação catalisada pelo grupo hemina (Fe+++), iniciando a oxidação dos lipídeos. Nessa condição, o grupo heme atua, portanto, como pró-oxidante (ARAÚJO, 2012). A oxidação de lipídeos na carne pode iniciar no período pré- -abate devido às alterações no metabolismo do animal decorrentes do estresse. Algumas horas após seu abate devido, em parte, à perda da circulação sanguínea, alteração da estrutura celular com libera- ção de íons metálicos e fragilidade do sistema antioxidante natural do organismo do animal, as reações de oxidação lipídica são favoreci- das, principalmente dos fosfolipídeos altamente insaturados presentes na membrana intracelular. Durante a manipulação, processamento, armazenamento e cozimento da carne, a oxidação lipídica se torna ainda mais significativa, devido à presença de íons metálicos, a expo- sição ao oxigênio e temperatura elevada, entre outros fatores. As car- nes quando processadas são susceptíveis à formação de radicais livres, seja pela trituração, cozimento e, ou adição de sal, o que contribui para a ocorrência de reações de oxidação de lipídeos. A oxidação lipí- dica é um processo complexo e dinâmico, sendo de difícil controle. O uso de antioxidantes e algumas práticas dentro da cadeia produtiva são importantes para diminuir seus efeitos indesejáveis, o que auxilia na conservação e manutenção da qualidade e da segurança da carne (FLORES et al., 2019; GRAY; GOMAA; BUCKLEY, 1996; MORRIS- SEY et al., 1998; KUFNER, 2010; LADIKOS; LOUGOVOIS, 1990). Na carne a gordura pode ser dividida em: intramuscular, que corresponde à gordura entre as fibras musculares e feixes de fibras, conhecida como gordura de marmoreio, e que desempenha um papel 32 importante para a suculência, sabor e maciez da carne; intermuscu- lar, localizada entre cada músculo; e subcutânea ou gordura de depo- sição, localizada sob a pele. A sensação na boca durante a mastigação entre diferentes tipos de gordura pode variar. Em geral, gorduras com maior quantidade de ácidos graxos insaturados apresentam um sabor mais agradável com uma sensação na boca mais suave, ao contrário das gorduras com maior quantidade de ácidos graxos saturados, que confere uma sensação arenosa e mais gordurosa na boca. Gorduras mais duras, geralmente, são encontradas mais no centro da carcaça e as mais macias se distribuem em direção ao exterior da carcaça (FEI- NER, 2006; STRASBURG; XIONG, 2019). 1.8 Demais componentes O tecido muscular é uma excelente fonte de vitaminas hidrossolú- veis (ex.: tiamina, riboflavina, niacina, vitaminasB6 e B12), porém sua quantidade depende de fatores como espécie, idade, sexo e con- dição nutricional do animal. Os níveis das vitaminas C, D, E e K ten- dem a ser baixos em todos os músculos comestíveis, no entanto os níveis de vitamina E podem ser aumentados significativamente por meio de suplementos na ração animal. Carnes vermelhas, devido ao maior teor de mioglobina, são excelentes fontes de Ferro, cuja forma Heme implica em maior nível de biodisponibilidade em comparação à maioria das fontes inorgânicas de ferro. Potássio, Fósforo e Mag- nésio são relativamente abundantes na carne, e o cálcio é encontrado em níveis muito baixos em relação àqueles requeridos nutricional- mente. Os carboidratos representam menos de 1 % da composição da carne fresca e a principal fonte de carboidrato do músculo é o gli- cogênio, convertido em lactato durante o processo de conversão do músculo em carne (STRASBURG; XIONG, 2019). A quantidade de glicogênio no músculo, apesar de pequena, tem contribuição fundamental na qualidade final da carne fresca, influen- ciando propriedades como cor, firmeza e capacidade de retenção da 33 água. Tais características podem ser associadas à formação das carnes com características DFD (Dark, Firm Dry/Escura, Firme, Seca), PSE (Pale, Soft, Exudative/Pálida, Flácida/Mole, Exsudativa) ou RNF (Red- dish Pink, Firm and Non-Exudative/Vermelha, Firme, Não exsudativa). 2 Conversão do músculo em carne: curva de queda do pH muscular x qualidade da carne A transformação do músculo em carne implica em mecanismos com- plexos e interdependentes, que se iniciam após a morte e sangria do animal e influenciam a qualidade da carne. Fatores como a reserva de glicogênio, pH e temperatura musculares interferem no desen- volvimento desses mecanismos bioquímicos, influenciando atributos sensoriais como a maciez, cor, textura e suculência (THOMPSON et al., 2006), além de outras propriedades físico-químicas importantes para a qualidade da carne. Tanto as etapas pré-abate quanto pós-abate têm influência no processo de transformação do músculo em carne e, portanto, o manejo do animal nesses períodos também influencia a qualidade final da carne. Os mecanismos oxidativo e glicolítico no músculo do animal vivo são responsáveis pela produção de energia consumida no pro- cesso de contração muscular, promovendo o deslizamento dos mio- filamentos finos sobre os grossos e o encurtamento do sarcômero. Esse deslizamento é possível, porque a cabeça globular da miosina, proteína que compõe o miofilamento grosso, possui atividade ATPá- sica. É, portanto, capaz de hidrolisar a molécula de Adenosina tri- fosfato (ATP) em Adenosina difosfato (ADP), produzindo a energia necessária para a formação do complexo actomiosina e resultando na contração muscular. Essa energia liberada atua no bombeamento do cálcio, no relaxamento e na manutenção do gradiente de sódio e potássio da célula (THOMPSON et al., 2006; HUFF-LONERGAN; LONERGAN, 2005; GOLL et al., 1984; GOMIDE et al., 2013). 34 A glicólise consiste em um mecanismo bioquímico de produ- ção de energia em que uma molécula de glicose é degradada em uma série de reações catalisadas por enzimas com liberação de moléculas de piruvato. Durante as reações, parte da energia livre liberada da quebra da glicose é conservada na forma de ATP e de NADH. Nos tecidos sob condições aeróbias, a glicólise constitui apenas o pri- meiro estágio da degradação completa da glicose pelo mecanismo oxidativo, que envolve a oxidação do piruvato e liberação de acetil- -coenzima A, do NADH que é reoxidado a NAD+ e a transferência dos elétrons originados dessas oxidações por meio da cadeia trans- portadora de elétrons, formando água e liberando energia para a sín- tese de ATP nas mitocôndrias. Para cada molécula de glicose, ao final do ciclo do ácido cítrico, ocorre a formação de moléculas de ATP (GOMIDE et al., 2013). No tecido muscular em condições de anaerobiose ou de baixa pressão parcial de oxigênio, o piruvato é reduzido a lactato pela via de fermentação do ácido lático através do mecanismo anaeróbio de produção de energia. Nesse caso, não ocorre a oxidação do piruvato que é, então, reduzido a lactato por recepção de elétrons do NADH e, consequentemente, regeneração do NAD+ necessário para a con- tinuidade do fluxo glicolítico. A produção de energia pelo meca- nismo anaeróbio ocorre quando são necessárias grandes quantidades de energia para realização de atividade muscular muito intensa ou em outras situações de estresse durante as quais o oxigênio não pode ser levado de forma suficientemente rápida aos músculos para oxidar todo o piruvato. Nesse caso, os músculos utilizam o glicogênio (forma pela qual a glicose é armazenada no sarcoplasma da fibra muscular) como substrato para produção de ATP pela via anaeróbia e, conse- quentemente com produção de ácido lático (GOMIDE et al., 2013; OLIVO; OLIVO, 2006). Após a morte e sangria do animal, a contração muscular só cessa completamente quando acaba qualquer fonte de produção de ener- gia ainda disponível e ocorre esgotamento de ATP no músculo. No 35 período post mortem, algumas das principais alterações são a perda do transporte de oxigênio pelo sangue e o consumo do suprimento de oxigênio armazenado no músculo. Neste momento o metabolismo energético das fibras musculares passa a ocorrer predominantemente pela via glicolítica com produção e acúmulo de ácido lático e abaixa- mento do pH muscular a valores próximos de 5,4, até esgotamento do ATP. Uma vez esgotado todo ATP, formam-se ligações perma- nentes entre actina e miosina e o músculo perde sua elasticidade. Nesse ponto, a carcaça do animal abatido apresenta uma contração intensa e irreversível. Essa rigidez máxima do músculo, que ocorre devido ao esgotamento das reservas de energia e de ATP e queda do pH caracteriza o rigor mortis (THOMPSON et al., 2006; HUFF-LON- ERGAN; LONERGAN, 2005; GOLL et al., 1984). O rigor mortis de um músculo normal é definido como o iní- cio da diminuição de sua elasticidade, que ocorre a 20 ºC, quando o pH atinge valores em torno de 5,9, com concentração de ATP de 1 μmol/g de músculo e continua até a queda do nível de ATP a 0,1 μmol/g e pH 5,5. No rigor mortis, a interação entre os monômeros de actina e as cabeças de miosina é de 100 %. Na contração muscu- lar no animal vivo está interação é de apenas 20 % (ROÇA, 2000). O acúmulo de lactato no músculo e a velocidade de queda do pH muscular post mortem influenciam na formação das carnes RNF (Verme- lha, Firme, Não exsudativa), PSE (Pálida, Flácida e Exsudativa) ou DFD (Escura, Firme e Seca). Em relação à curva de pH muscular post mor- tem, quando comparadas às carnes RNF as carnes PSE apresentam que- das mais acentuadas do pH, nas primeiras horas post mortem e as carnes DFD uma queda menos acentuada, influenciando propriedades como cor, capacidade de retenção de água e rendimento dos cortes cárneos. Alguns dos fatores que influenciam a velocidade de queda do pH muscular e o valor de pH final da carne após abate do animal são reserva de glicogênio e quantidade de oxigênio armazenado no mús- culo do animal no momento do abate. Esses por sua vez podem ser associados a outros fatores, entre eles manejo pré-abate do animal 36 (estresse, dieta etc.) e tipo de fibra muscular predominante no mús- culo, entre outros. Em condições normais (carnes RNF), o pH cai de aproximada- mente 7,0 no músculo vivo, para cerca de 5,6 entre 6 e 8 horas após abate, atingindo um pH final (medido após 24 horas post mortem) entre 5,4 e 5,8, que se estabiliza, devido à desnaturação das enzimas da via glicolítica e, principalmente, pelo esgotamento das reservas de glicogênio no músculo (GOMIDE et al., 2013). Em um músculo com curva de queda de pH muscular normal, a glicólise irá ocorrer nor- malmente até um pH final em torno de 5,5, resultando em alguma perda da capacidade de retenção de água das proteínas do músculo (LAWRIE, 2005), assimcomo alguma desnaturação proteica. Pode- -se considerar, porém, que tais mudanças ocorrem em um nível que não alteram de forma negativa a qualidade final da carne fresca. Na condição PSE, o pH cai rapidamente na primeira hora para valores por exemplo de 5,8 em 45 minutos após sangria, apresen- tando um valor final entre 5,2 e 5,6 (GOMIDE et al., 2013). A queda rápida do pH muscular nas primeiras horas post mortem, principal- mente quando associada à temperatura elevada da carcaça, favorece a desnaturação de uma maior quantidade de proteínas da carne. Como consequência, a capacidade de retenção de água das proteínas mus- culares diminui e, juntamente com o aumento do movimento das moléculas de água do músculo para os espaços extracelulares, a carne tende a ficar mole. A queda rápida do pH muscular, a alta temperatura da carcaça e o baixo valor do pH final do músculo nesse período post mortem expõem a mioglobina à condições que causam sua oxidação à metamioglobina, que tem baixa intensidade de cor e, cuja estrutura reflete a luz, conferindo um aspecto de palidez à carne (LAWRIE, 2005). Além disso, a maior perda de água tende a formar uma super- fície que reflete mais a luz também contribuindo para a coloração mais pálida das carnes PSE. As carnes PSE apresentam alterações indesejáveis na cor, menor firmeza e menor rendimento em rela- ção às carnes RNF. 37 Na condição DFD, o pH decresce muito pouco (alguns décimos) durante a primeira hora após o abate, permanecendo com valores relativamente altos e com pH final entre 6,5 e 6,8. Em geral o pH per- manece elevado em valores acima de 6,2 no tempo de 24 horas post mortem do animal (GOMIDE et al., 2013; LAWRIE, 2005). As baixas reservas de glicogênio no músculo do animal no momento do abate, favorecem a ocorrência de carne DFD, devido à menor produção de ácido lático pela via glicolítica e, consequente- mente, menor queda do pH muscular no período post mortem. Com um pH final mais alto na carne, há menor desnaturação das proteínas. Nesse valor de pH acima do ponto isoelétrico das proteínas muscula- res a ligação das moléculas de água com as proteínas é favorecida e as fibras musculares permanecem fortemente ligadas entre si, apresen- tando-se com uma barreira à difusão da água para o meio extracelu- lar. Como consequência, a superfície da carne tende a ficar seca. Em relação à cor, haverá predomínio da cor vermelho púrpura da mio- globina e uma menor camada de oximioglobina (coloração verme- lho-brilhante) conferindo uma coloração escura à carne. O pH mais alto ainda altera as características de absorção da luz pela mioglobina, tornando a superfície do corte ainda mais escura, o que representa uma característica indesejável para carne fresca (LAWRIE, 2005). Além de aumentar o risco de contaminação microbiológica da carne, diminuindo seu período de conservação. Parâmetros de cor e valor de pH medidos 24 horas após abate do animal auxiliam na identificação da qualidade da carne, indicando se as carnes apresentam características de RFN, PSE e DFD. O pH indi- cativo de carne PSE em frangos seria de 5,7 (KIJOWSKI; NIEWIA- ROWICZ, 1978), enquanto valores superiores a 6,2 indicam DFD (LAWRIE; LEDWARD, 2006). Em relação à cor, valores acima de 53,0 para o parâmetro L* (Luminosidade, escala CIELAB) para cor- tes de frango in natura, indicam carnes “PSE”, enquanto valores de L* abaixo de 44,0 indicam carnes “DFD” (PIZATO et al., 2017; PRA- XEDES, 2007). Em suínos, o PSE se instala quando o pH atinge 5,7 38 em 45 minutos post mortem, e em aves (perus e frangos), no tempo de 15 minutos post mortem (OLIVO; OLIVO, 2006). 3 INGREDIENTES E ADITIVOS ALIMENTARES USADOS EM PRODUTOS CÁRNEOS PROCESSADOS O tipo de carne e corte cárneo, a adição de ingredientes e aditivos alimentares e diferentes formas de processamento e preparo permi- tem modificar as características físico-químicas, tecnológicas e sen- soriais da carne e dos produtos cárneos. Carnes de animais de açougue são ingredientes obrigatórios no processamento de produtos cárneos. A composição química e pro- priedades da carne podem variar dependendo da localização do corte e, em geral, são utilizados músculos magros, podendo ser cortes dian- teiros ou traseiros, aparas e retalhos magros de cortes. É importante ressaltar que a carne deve ser proveniente de animais sadios, cujas criação e manejo seguiram as recomendações e exigências de bem- -estar animal e o abate humanitário sob inspeção sanitária. Aspectos relacionados com os procedimentos pré e pós abate do animal são extremamente importantes para garantir a qualidade e segurança da carne e produtos cárneos. A gordura, em geral, é um ingrediente opcional em formulações de produtos cárneos, porém sua adição pode contribuir com caracte- rísticas sensoriais, e a quantidade de gordura adicionada tem impacto sobre a textura, suculência e sabor do produto (FEINER, 2006). O cloreto de sódio (NaCl) é o sal mais utilizado na fabricação e preparo de carnes e no processamento de produtos cárneos. O sal é um dos conservantes alimentares mais antigos utilizados, e quando incluído nas formulações de produtos cárneos pode melhorar o sabor do produto, aumentar a retenção de água e melhorar a tex- tura, maciez, firmeza, suculência e rendimento da carne (KIRMACI; SINGH, 2012; ALLAIS, 2010). O sal também pode reduzir a ativi- dade de água e, em sinergismo com outros componentes do meio, 39 aumentar a conservaçãoe a segurança microbiológica da carne e de produtos cárneos. Entretanto, tem um efeito pró-oxidativo, acele- rando as reações de oxidação, principalmente, lipídica podendo con- tribuir para o desenvolvimento do odor e sabor característicos de rancidez (LINDSAY, 2019). A presença do sal, dependendo da concentração, induz a altera- ções importantes como a expansão da miofibrila, devido à repulsão eletrostática interpeptídica, promovendo uma hidratação e retenção de água pelas proteínas miofibrilares da carne. Essa condição favo- rece uma interação mais forte entre água e proteína e, consequen- temente, aumenta a capacidade de retenção de água da carne e a dissociação dos filamentos de miosina formando uma matriz poli- peptídica capaz de reter a umidade (LINDSAY, 2019; STRASBURG; XIONG, 2019). Outra alteração se deve à ligação seletiva dos íons salinos à molécula proteica que modifica o ponto isoelétrico das pro- teínas musculares. Esse efeito se deve ao fato de que os íons de sódio carregados positivamente (Na+) se ligam de forma mais fraca à pro- teína. Por outro lado, o íon cloreto negativo (Cl–) se liga fortemente à molécula proteica. Essa ligação mais forte dos íons cloretos tende a aumentar o número de cargas negativas da proteína. Consequen- temente, tem-se uma repulsão entre as proteínas miofibrilares e os miofilamentos, que resulta em um inchaço ou ainda uma solubili- zação parcial dos filamentos de miosina e um afrouxamento da rede miofibrilar (ALLAIS, 2010; FEINER, 2006). A pressão osmótica do meio é aumentada, devido ao efeito dos íons de sódio sobre as car- gas elétricas na superfície das moléculas de proteínas, também con- tribuindo para o inchaço dos miofilamentos (ALLAIS, 2010). Na formulação de produtos cárneos é comum se adicionar de 2 a 3 % de sal às formulações. O tripolifosfato de sódio (Na5P3O10) é o fosfato mais comum adi- cionado às carnes processadas. A ação dos fosfatos na melhoria das características da carne pode ser atribuída a sua influência nas mudan- ças de pH, efeitos da força iônica e interações específicas de ânions 40 de fosfatos com cátions divalentes (Ca2+; Mg2+) e proteínas miofi- brilares. A complexação do cálcio e o enfraquecimento da estrutura do tecido muscular, a ligação de ânions de polifosfatos às proteínas, e a clivagem simultânea de ligações cruzadas entre actina e miosina resultam no aumento da repulsão eletrostática entre as cadeias pep- tídicas e no inchaço do sistema muscular (LINDSAY, 2019). Quando um fosfato alcalino éutilizado, há o aumento do pH da carne de apro- ximadamente de 5,5-5,6 para valores entre 5,8 e 6,0, o que faz com que a miosina e as outras proteínas musculares retenham a água mais fortemente, devido ao aumento das cargas líquidas das molé- culas proteicas. O aumento do pH também permite que os espaços entre os miofilamentos possam se expandir via repulsões eletrostá- ticas para que mais água possa ser imobilizada. Baixas concentrações de tripolifosfatos (menores que 0,5 % ou 5mM) são capazes de dis- sociar o complexo actomiosina, o que permite uma movimentação mais rápida da água entre os espaços interfilamentares. A dissociação também aumenta a maciez da carne (STRASBURG; XIONG, 2019). Em geral, os fosfatos são frequentemente utilizados junto ao sal na formulação de produtos cárneos para aumentar a capacidade de retenção de água da carne. Algumas das principais alterações oca- sionadas pela adição desses sais em conjunto são a modificação na distribuição de cargas na superfície das moléculas das proteínas e alteração no ponto isoelétrico. Essas alterações aumentam a sepa- ração entre as cadeias das proteínas e favorecem a ligação dos íons carregados negativamente presentes no meio com as cadeias protei- cas de carga positiva, incrementando assim, a força repulsiva entre elas. Da mesma maneira, a estrutura tridimensional das proteínas se abre, expondo um maior número de grupos carregados para ligação com as moléculas de água presentes no meio, diminuindo a perda de água quando a carne é submetida ao aquecimento (TONBERG 2005; HONIKEL, 2008). Em carne suína cozida e salsichas de carne bovina, por exem- plo, aproximadamente a mesma quantidade de água retida quando 41 são adicionados 2,5 % de NaCl em pH 5,7 é alcançada com 1,5 % de NaCl no pH 6,1. Em salsichas cozidas o teor de NaCl pode ser redu- zido de 1,7 %, para 1,4 % quando se adiciona fosfato sem comprome- ter a qualidade tecnológica e rendimento do produto (ALLAIS, 2010). O aumento da hidratação e capacidade de retenção de água da carne induzida pela adição de NaCl e fosfatos pode ser explicada por alguns mecanismos como aumento do pH da carne, afastando do ponto isoelétrico das proteínas miofibrilares, em especial a miosina, o que resulta no aumento de carga superficial das proteínas; efeitos na força iônica, contribuindo para uma maior repulsão eletrostática entre as moléculas proteicas e interação mais forte entre proteína e água e maior capacidade de retenção de água pela carne; e interações específicas de ânions de fosfato com cátions divalentes e proteínas miofibrilares, com enfraquecimento da estrutura do músculo e rom- pimento das ligações cruzadas entre actina e miosina, desfazendo o complexo actomiosina e promovendo o inchaço dos músculos. A hidratação da carne tratada com sal e fosfato é ainda acompanhada de extração parcial das proteínas miofibrilares, remoção de proteínas dos miofilamentos grossos e a remoção de polipeptideos estruturais transversos como as proteínas M, X e C ligantes da miosina, o que pode resultar na perda de miofibrilas reticuladas e captação de água pelas fibras musculares (STRASBURG; XIONG, 2019). O ácido ascórbico e seus sais (ascorbatos), e o ácido eritórbico (isômero do ácido ascórbico) e seus sais (ex.: isoascorbatos) atuam como agentes redutores e, em geral, são adicionados em produtos cár- neos curados como fixadores e estabilizadores de cor e, indiretamente, podem contribuir para diminuir oxidação lipídica, bloqueando a ação de radicais livres (FEINER, 2006; McCLEMENTS; DECKER, 2019). A adição de ácido eritórbico na formulação de produtos cárneos curados é importante, porque para a formação da cor é necessário a conversão do nitrito (NO2) a óxido nítrico (NO) e ligação do NO ao Ferro heme da molécula de mioglobina. Tanto a reação de conver- são do NO2 a NO, via HNO2, quanto a ligação do NO à molécula de 42 mioglobina dependem dos valores de pH da massa cárnea e a pre- sença de ácido ascórbico ou do ácido eritórbico ou de seus respec- tivos sais promove uma leve redução do pH da carne, acelerando a formação do NO e, consequentemente, a reação de formação de cor. Como resultado, maior quantidade de NO é formado melhorando a fixação da cor do produto (FEINER, 2006; ROÇA, 2000). Entretanto, esses compostos nunca devem ser adicionados ao mesmo tempo que o nitrito em produtos cárneos curados ou em salmouras contendo nitrito. Nessas condições, a reação entre ácido ascórbico ou ácido eritórbico (ou de seus sais) e o nitrito é espontâ- nea e muito rápida, o que resulta em baixa disponibilidade de óxido nítrico e baixa concentração nitrito residual no produto. Conse- quentemente, resulta em produtos com coloração fraca e pouco está- vel. Além disso, a baixa concentração de nitrito residual aumenta o risco de contaminação microbiológica, uma vez que o nitrito tam- bém inibe o crescimento de microrganismos patogênicos (FEINER, 2006; FARIA et al. 2001). Condimentos, como temperos e especiarias, podem ser utiliza- dos para realçar ou conferir flavour aos produtos cárneos. Entretanto, em algumas formulações para realçar o sabor original da carne, prin- cipalmente da bovina, prefere-se a utilização apenas do sal. Muitos desses condimentos como noz moscada, alho, pimenta, entre outros possuem compostos que apresentam propriedades antimicrobia- nas e antioxidantes, e há uma tendência de empresas do setor de ali- mentos desenvolverem linhas de produtos utilizando-os por serem ingredientes naturais. Proteína texturizada de soja ou concentrados e isolados protei- cos texturizados de soja são utilizados, normalmente, porque contri- buem com a firmeza do produto e são capazes de imobilizar a água adicionada durante o processo, o que influencia parâmetros de tex- tura como mastigabilidade, elasticidade, maciez e suculência. A quan- tidade adicionada depende da quantidade de carne, gordura e água da formulação. Outros ingredientes como amido, especialmente, amido 43 modificado, eventualmente são utilizados, assim como ingredien- tes naturais como extratos vegetais que possuem propriedades anti- microbianas e antioxidantes como alecrim, orégano, tomilho entre outros. Açúcares, geralmente entre 0,2 e 0,5 %, podem contribuir com o sabor em equilíbrio com a quantidade de sal adicionada e com a aparência, devido à reação de Maillard (FEINER, 2006). No desenvolvimento de uma formulação de um produto cárneo, devem ser consultadas as legislações que fixam suas características mínimas de identidade e qualidade, bem como aquelas que determi- nam quais aditivos alimentares são permitidos para uso em alimen- tos e seus respectivos limites, além daquelas relacionadas à higiene e manipulação dos alimentos e critérios microbiológicos. REFERÊNCIAS ALLAIS, I. Emulsification. In: Handbook of Meat Processing. 5. ed. Iowa, USA: Blackwell Publishing, 2010. p. 143-168. ARAÚJO, J. M. A. Química de alimentos: teoria e prática. 5. ed. Viçosa: UFV, 2012. 601 p. ASTRUC, T. Carcass composition, muscle structure, and contrac- tion. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier 2014. p. 148-166. BEJERHOLM, C.; TØRNGREN, M. A.; AASLYNG, M. D. Cooking of Meat. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Sciences. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. p. 370-376. BOLES, J. A. Thermal processing. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Han- dbook of Meat Processing. 5. ed. Iowa, USA: Blackwell Publishing, 2010. p. 169-183. 44 BREWER, S. Technological quality of meat for processing. In: Han- dbook of Meat Processing. 5. ed. Iowa, USA: Blackwell Publishing, 2010. p. 25-42. CHEN, X.; TUME, R. K.; XU, X.; ZHOU, G. Solubilization of myo- fibrillar proteins in water or low ionic strength media: classical tech- niques, basic principles and novel functionalities. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 57, n. 15, 2017. DOI: http://dx. doi.org/10.1080/10408398.2015.1110111. CRUZ, P. L.; PANNO, P. H. C.; GIANNOTTI,J. G.; CARVALHO, R. V.; ROBERTO, C. D. Effect of proteases from ginger rhizome on the fragmentation of myofibrils and tenderness of chicken breast. LWT: Food Science and Technology, n. 120, p. 108-921, 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.lwt.2019.108921 DAMODARAN, S. Aminoácidos, peptídeos e proteínas. In: Quí- mica de Alimentos. DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. (ed.). 5. ed., Porto Alegre: s.n., 2019. p. 239-354. ERTBJERG, P.; PUOLANNE, E. Muscle structure, sarcomere len- gth and influences on meat quality: a review. Meat Science, n. 132, p.139-152, 2017. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2017.04.261 FARIA, J. A. F.; FELÍCIO P. E.; NEVES, M. A.; ROMANO, M. A. Formação e estabilidade da cor de produtos cárneos curados. Revista TEC Carnes, v. 3, n. 2, p. 16-22, 2001. FEINER, G. Meat products handbook: practical science and technology. Woodhead Publishing Limited, Cambridge CB1 6AH, England, 2006. http://dx.doi.org/10.1080/10408398.2015.1110111 http://dx.doi.org/10.1080/10408398.2015.1110111 https://doi.org/10.1016/j.lwt.2019.108921 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2017.04.261 45 FRATERMAN, S.; ZEIGER, U.; KHURANA, T. S.; WILM, M.; RUBINSTEIN, N. A. Quantitative proteomics profiling of sarco- mere associated proteins in limb and extraocular muscle allotypes. Molecular & Cellular Proteomics, v,6, n.4, p. 728-737, 2007. DOI: https://doi.org/10.1074/mcp.M600345-MCP200 GOMIDE, LAM; RAMOS, E. M.; FONTES, P. R. Ciência e quali- dade da carne: fundamentos. Viçosa: UFV, 2013. 197 p. GRAY, J. I.; GOMAA, E. A.; BUCKLEY, D. J. Oxidative quality and shelf life of meats. Meat Science, v. 43, suppl.1, p. 111-123, 1996. https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00059-9 HONIKEL, K. O. Curing. In: Handbook of Meat Processing. 5. ed., Blackwell Publishing, Iowa: Fidel Toldrá, 2010. p. 125-141. HUFF-LONERGAN, E. Chemistry and biochemistry of meat. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Handbook of meat processing. 5. ed., Iowa: Blackwell Publishing, 2010. p. 5-24. HUFF-LONERGAN, E.; LONERGAN, S. M. Mechanisms of water- -holding capacity of meat: the role of postmortem biochemical and structural changes. Meat Science, v. 71, n. 1, p. 194-204, 2005. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2005.04.022 KIJOWSKI, J.; NIEWIAROWICZ, A. Emulsifying properties of proteins end meat from broiler breast muscles as affect by their ini- tial pH values. Journal of Food Technology, v. 13, n. 5, p. 451- 459, 1978. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1365-2621.1978.tb00825.x KIRMACI, B.; SINGH, R. K. Quality of chicken breast meat cooked in a pilot-scale radio frequency oven. Innovative Food Science https://doi.org/10.1074/mcp.M600345-MCP200 https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00059-9 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2005.04.022 https://doi.org/10.1111/j.1365-2621.1978.tb00825.x 46 and Emerging Technologies, n. 14, p. 77-84, 2012. DOI: https:// doi.org/10.1016/j.ifset.2012.01.003 KOOHMARAIE, M. Muscle proteinases and meat aging. Meat Science, n. 36, p. 93-104, 1994. DOI: https://doi.org/10.1016/03 09-1740(94)90036-1 KUFNER, D. E. Atividade antioxidante do extrato aquoso de manjerona (Origanum majorana L.), em linguiça frescal de frango. 2010, 56 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Ali- mentos) – Universidade Regional Integrada do Alto do Uruguai e das Missões, RS, 2010. LADIKOS, D; LOUGOVOIS, V. Lipid oxidation in muscle foods: a review. Food Chemistry, n. 35, p. 295-314, 1990. DOI: https://doi. org/10.1016/0308-8146(90)90019-ZLANA, A.; ZOLLA, L. Proteoly- sis in meat tenderization from the 418 point of view of each single protein: a proteomic perspective. Journal of Proteomics, n. 147, p. 85-97, 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jprot.2016.02.011. LAWRIE, R. A. Ciência da carne. 6. ed. Porto Alegre: Art- med, 2005. 384 p. LAWRIE, R. A. The structure and growth of muscle. In: LAWRIE, R. A.; LEDWARD, D. A. (ed.). Lawrie’s Meat Science. 7. ed. Woodhead, Cambridge, 2006. p. 41-74. DOI: https://doi. org/10.1533/9781845691615.41 LAWSON, M. A. The role of integrin degradation in post-mortem drip loss in pork. Meat Science, Barking, v. 68, p. 559-566, 2004. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2004.05.019 https://doi.org/10.1016/j.ifset.2012.01.003 https://doi.org/10.1016/j.ifset.2012.01.003 https://doi.org/10.1016/0309-1740(94)90036-1 https://doi.org/10.1016/0309-1740(94)90036-1 https://doi.org/10.1016/0308-8146(90)90019-Z https://doi.org/10.1016/0308-8146(90)90019-Z https://doi.org/10.1016/j.jprot.2016.02.011 https://doi.org/10.1533/9781845691615.41 https://doi.org/10.1533/9781845691615.41 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2004.05.019 47 LEE, S. H.; JOO, S. T.; RYU, Y. C. Skeletal muscle fiber type and myo- fibrillar proteins in relation to meat quality. Meat Science, n. 86, p. 166-170, 2010. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.04.040 LINDSAY, R. C. Aditivos alimentares. In: Química de Alimentos. DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. (ed.). 5. ed. Porto Alegre: s.n., 2019. p. 799-862. LISTRAT, A. et al. How muscle structure and composition influence meat and flesh quality. Hindawi Publishing Corpora- tion: The Scientific World Journal, v. 2016. DOI: https://doi. org/10.1155/2016/3182746 LIU, H.; ZHANG, H.; LIU, Q.; CHEN, Q.; KONG, B. Filamentous myosin in low-ionic strength meat protein processing media: assem- bly mechanism, impact on protein functionality, and inhibition stra- tegies. Trends in Food Science & Technology, n. 112, p. 25-35, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tifs.2021.03.039 McCLEMENTS, D. J.; DECKER, E. A. Lipideos. In: Química de Alimentos. DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. (ed.). 5. Ed., Porto Alegre: s.n., 2019. P. 175-238. MORRISSEY, P. A.; SHEEHY, P. J. A.; GALVIN, K.; KERRY, J. P.; BUCKLEY, D. J. Lipid stability in meat and meat products. Meat Science, n. 49, p. 1, p.73-86, 1998. DOI: https://doi.org/10.1016/ S0309-1740(98)90039-0 NISHIMURA, T. Role of extracellular matrix in development of skeletal muscle and postmortem aging of meat. Meat Science, n. 109, p. 48-55, 2015. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2015.05.015 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.04.040 https://doi.org/10.1155/2016/3182746 https://doi.org/10.1155/2016/3182746 https://doi.org/10.1016/j.tifs.2021.03.039 https://doi.org/10.1016/S0309-1740(98)90039-0 https://doi.org/10.1016/S0309-1740(98)90039-0 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2015.05.015 48 OLIVO, R; OLIVO, N. O mundo das carnes: ciência, tecnologia & mercado. 4. ed. Criciúma, 2006. 214 p. OUALI, A. et al. Revisiting the conversion of muscle into meat and the underlying mechanisms. Meat Science, v. 74, n. 1, p. 44-58, 2006. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2006.05.010 PALKA, K.; WĘSLERSKA, E. Physics ans chemistry. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. v. 1, p. 404-409. S. l.: Elsevier, 2014. PEARSON, A. M.; YOUNG, R. B. Muscle and meat biochemistry. In: Composition and Structure. San Diego, Califórnia: Academic, 1989. p. 1-29. PICARD, B.; DURIS, M.; JURIE, C. Classification of bovine mus- cle fiber by different histochemical techniques. The Histoche- mical Journal, v. 30, n. 7, p. 473-477, 1998. DOI: https://doi. org/10.1023/A:1003207922944 PUOLANNE, E.; HALONEN, M. Theoretical aspects of water-hol- ding in meat. Meat Science, v. 86, n. 1, p. 151-165, 2010. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.04.038 RANKEN, M. D. Handbook of meat product technology. 1. ed. Oxford, London: Blackwell Science, 245 p. RELANI, C. E. et al. Characterization of longissimus thoracis, semi- tendinosus and masseter muscles and relationships with technolo- gical quality in pigs. 1. ed. Microscopic analysis of muscles. Meat Sience, v. 94, n.3, p. 408-416, 2013. DOI: https://doi.org/10.1016/j. meatsci.2013.03.009 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2006.05.010 https://doi.org/10.1023/A:1003207922944 https://doi.org/10.1023/A:1003207922944 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.04.038 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2013.03.009 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2013.03.00949 ROÇA, R. O. Tecnologia da carne e produtos derivados. Botu- catu: Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, 2000. 202 p. SGARBIERI, V. C. Proteínas em alimentos protéicos: proprie- dades, degradações, modificações. São Paulo: Varela, 1996. 517 p. STRASBURG, G. M.; XIONG, Y. L. Fisiologia e química dos tecidos musculares comestíveis. In: DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. (ed.). Química de Alimentos. 5..ed., Porto Alegre: s.n., p. 953-1014, 2019. THOMPSON, J. M. et al. Genetic and environmental effects on the muscle structure response postmortem. Meat Science, v. 74, n.1, p. 59-65, 2006. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2006.04.022 TONBERG, E. Biophysical aspects of meat tenderness. Meat Science, v. 43, sup.1, p. 175-191, 2005. DOI: https://doi.org/10.1016/030 9-1740(96)00064-2 WEISS, J.; GIBIS, M.; SCHUH, V.; SALMINEN, H. Advances in ingredient and processing systems for meat and meat products. Meat Science, v. 86, n. 1, p. 196-213, 2010. DOI: https://doi.org/10.1016/j. meatsci.2010.05.008 ZEOLA, N. M. B. L.; SOUZA, P. A.; SOUZA, H. B. A. S.; SOBRI- NHO, A. G. Parâmetros qualitativos da carne ovina: um enfoque à maturação e marinação. Revista Portuguesa de Ciências Veteri- nárias, v. 102, p. 563-564, 2007. https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2006.04.022 https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00064-2 https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00064-2 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.05.008 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2010.05.008 50 Parte 2 Tecnologias tradicionais para processamento de produtos cárneos O processamento de produtos cárneos corresponde a qualquer pro- cesso que altere as características da carne fresca, compreendendo moagem/trituração, emulsificação, salga, cura, defumação, prensa- gem, cozimento, marinação, fermentação, emulsificação, condimen- tação e outras técnicas. O objetivo básico do processamento de carnes é a sua conserva- ção pela prevenção, inibição ou eliminação da contaminação micro- biológica, e inibição ou redução de reações químicas e enzimáticas que resultem na deterioração do alimento. Outros objetivos são o desen- volvimento de novos produtos e conveniências (produtos direcio- nados para um público específico etc.), agregação de valor e maior aproveitamento da matéria-prima. A carne fresca é um produto muito suscetível à contaminação por microrganismos e a reações de oxidação, que se intensificam após o abate do animal. A composição química da carne, juntamente com 51 as condições de criação, manejo e abate do animal, processamento (moagem, trituração, presença de oxigênio, cozimento, temperatura de armazenamento, embalagem e exposição à luz etc.), bem como as práticas higiênicas adotadas em todas as etapas da cadeia produtiva atuam na definição da qualidade conservação e segurança da carne e produtos cárneos. Os setores que compõem a cadeia produtiva da carne devem estar atentos aos métodos de criação, manejo, produção, processa- mento e de conservação, a fim de preservar seu valor nutritivo e pro- porcionar aos consumidores um produto com a qualidade desejada e seguro, principalmente, do ponto de vista microbiológico e químico (MORRISSEY et al., 1998; MARIUTTI; BRAGAGNOLO, 2009). Algumas técnicas tradicionais são empregadas no processamento da carne (salga, cura, defumação, fabricação de produtos cárneos de massa fina, marinação, maturação comercial, entre outras), sendo que a maioria dos produtos cárneos é obtida pela combinação de dife- rentes processos. Outras técnicas de conservação também já são bem conhecidas e aplicadas na conservação de carnes como a irradiação, pressão eletrostática e ultrassom. Nesse tópico, será dada maior ênf- ase às técnicas mais tradicionais do processamento (salga, cura, defu- mação, produtos cárneos de massa fina e cozimento). 1. SALGA A conservação da carne empregando o sal é um dos métodos mais antigos e ainda utilizados em diversos locais. Inicialmente, as carnes eram cobertas com sal e empilhadas, alternando-se camadas de sal e carne, permanecendo nessas pilhas por longos períodos. A presença do sal em concentrações elevadas e o contato com o sal por longos períodos resultavam na redução da atividade de água (Aw) da carne e, consequentemente, na estabilidade microbiológica, além do desen- volvimento de características sensoriais do produto cárneo salgado. Esse método ainda é utilizado para fabricação de carnes salgadas. 52 Alguns produtos cárneos como o charque e a carne salgada curada dessecada (Jerked beef) são regulamentados por legislação específica, enquanto o processamento de produtos, como a carne de sol, carne serenada, carne seca e jabá, varia de acordo com os procedimentos tradicionais da região em que são fabricados. O processo de salga se baseia no princípio de desidratação osmó- tica. Os tecidos do animal vivo atuam como membranas semiper- meáveis e após a morte do animal a permeabilidade a determinados compostos é alterada, o que permite a entrada de sal por difusão à medida que ocorre a desidratação do tecido muscular. Esta perda de água é responsável pelo aumento do período de conservação do pro- duto cárneo salgado, devido à redução da atividade de água e, conse- quentemente, inibição da atividade enzimática e da contaminação e multiplicação de microrganismos (OGAWA; MAIA, 1999). A legislação brasileira, através da Instrução Normativa n. 92 de 18/09/2020 do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), regulamenta o charque, a carne salgada curada dessecada, miúdos salgados, dessecados, e miúdos salgados, curados e desseca- dos. Esses produtos têm padrões de identidade e qualidade definidos, com parâmetros físico-químicos, microbiológicos e sensoriais fixa- dos pela referida legislação (BRASIL, 2020). A carne de sol e produtos salgados similares (com nomes regio- nais carne de sol, jabá, carne de vento, carne do sertão, carne salgada, carne de sereno etc.) são produtos cárneos levemente salgados tra- dicionalmente consumidos pela população brasileira principalmente da região do norte de Minas Gerais, Nordeste e Norte. Apresentam um método de processamento mais rudimentar e ainda baseado em técnicas artesanais. Sua composição e ingredientes variam de acordo com práticas desenvolvidas em cada região, resultando em produtos com características finais distintas e específicas. No Nordeste brasi- leiro, esses produtos surgiram como uma alternativa para conser- vação do excedente de produção da carne bovina, uma vez que as condições climáticas e a disponibilidade de sal marinho eram bastante 53 favoráveis a essa prática (GOUVÊA; GOUVÊA, 2007a). Entretanto, considerando as características físico-químicas do produto salgado (ex.: atividade de água, umidade e teor de sódio), o período de con- servação da carne de sol e produtos similares é inferior ao do char- que e Jerked Beef. Nos processos industriais de produtos cárneos salgados regula- mentados, normalmente, realiza-se uma salga úmida em tanques de imersão por 40 a 50 minutos, seguida da salga seca, em que as man- tas de carne são dispostas em pilhas de 1,20 a 1,80 metros de altura por um período de 24 a 48 horas, alternando-se uma camada de carne com uma camada de sal grosso, sendo recomendado que esse processo seja repetido para a redução da umidade e da atividade de água de carne. Posteriormente, realiza-se a etapa de tombos com inversão das posições das mantas de carne (mantas da parte infe- rior das pilhas são colocadas na parte superior da nova pilha e vice- -versa), sem adição de sal, a cada 24 ou 48 horas, sendo recomendado no mínimo de dois a quatro tombos por pilha. As mantas de carne, após o processo de salga e tombagem (inversão das pilhas), são lava- das para retirada do excesso de sal, estendidas em varais para seca- gem ao sol, cujo período varia de sete a vinte dias, dependendo do produto e das condições climáticas da região. Ao final de cada dia de secagem, as mantas são retiradas dos varais e empilhadas em pla- taformapavimentada e higienizada, cobertas com lona para man- ter o calor absorvido durante o tempo em que ficaram expostas ao sol. Essa operação favorece o crescimento de bactérias dos gêneros Micrococcus sp., Pediococcus sp., Lactobacillus sp., Streptococcus sp. e o desenvolvimento de atributos sensoriais característicos dos produ- tos salgados. O término da etapa de secagem e maturação é definido pela umidade, atividade de água e teor de cloreto de sódio no pro- duto. Em seguida as mantas são cortadas, prensadas e embaladas a vácuo (GOUVÊA, 2007a; GUERREIRO, 2006). As práticas higiêni- cas durante as etapas de processamento, o controle de temperatura, do tempo de salga e secagem e da concentração de sal, e a qualidade 54 da matéria-prima são fatores importantes para garantir a qualidade e segurança dos produtos cárneos salgados. 1.1 Métodos de salga A salga pode ser realizada por imersão da carne em salmoura concen- trada por determinado período, sendo que parte da salmoura pode, ainda, ser injetada na carne (salga úmida); ou por distribuição uni- forme do sal diretamente na superfície da carne (salga seca). Na salga úmida, emprega-se o sal comum (NaCl) em solução concentrada (a 23,5º Baumé ou 95º salômetros [335 g de sal/kg de água] a 15 ºC) , em tanque com movimentação constante das mantas de carne, que devem ser revolvidas manualmente com bastões de aço inox por trinta a cinquenta minutos. Para acelerar a penetração da salmoura nas mantas podem ser usados tanques rotativos (salgadei- ras), reduzindo para cerca de quinze minutos a etapa de salga úmida (GOUVÊA; GOUVÊA, 2007a). Em geral, no processamento do charque e do Jerked beef, faz-se uma combinação da salga úmida, seguida de salga seca, remoção do excesso de sal e secagem do produto para se atingir a umidade, ati- vidade de água (Aw) e teor de cloreto de sódio (NaCl) definidos pela legislação. Para o charque os ingredientes obrigatórios são carne e cloreto de sódio e no Jerked beef, além da carne e NaCl, também são adicionados agentes de cura. Para o charque, o produto deve ter umi- dade máxima de 50 %; Aw de 0,80; teor de cloreto de sódio acima de 12 % e teor de cinzas inferior a 23 %; e o Jerked Beef umidade máxima de 60 %; Aw de 0,80; teor de cloreto de sódio acima de 12 % e teor de cinzas inferior a 25 % (BRASIL, 2019). A fabricação da carne de sol se restringe a uma salga rápida e exposição ao sol e ao vento, ou ao vento, ao sereno, ao luar do ser- tão, à sombra em instalações cobertas, ou até mesmo somente ao sol, quando se deseja uma secagem mais intensa para prolongar a conser- vação do produto. Apesar da prática da adição de sal e da secagem, a 55 carne de sol possui elevada atividade de água e o produto possui vida de prateleira curta, de aproximadamente cinco dias em temperatura ambiente. Pode ser classificado como um produto cárneo levemente salgado (teor de cloreto de sódio próximo de 6,5 %) e parcialmente desidratado (umidade próxima de 68 %; e atividade de água de 0,92) (GOUVÊA; GOUVÊA, 2007b). A concentração do sal e a temperatura são fatores que influen- ciam a penetração do sal na carne. Em geral, concentrações mais ele- vadas de sal até que seja estabelecido o equilíbrio osmótico entre o meio e a carne, e menores temperaturas (ex.: salmoura e carne res- friadas) favorecem a maior absorção do sal. Sal fino com menor gra- nulometria formado de pequenos cristais tem uma absorção rápida no início do processo. Porém, podem promover a coagulação das proteí- nas na superfície da carne que, posteriormente, dificulta sua absor- ção diminuindo o efeito de conservação, principalmente em cortes de carne mais espessos. O sal grosso é absorvido lentamente pela carne, o que pode favorecer contaminação microbiológica devido ao tempo prolongado de salga (GOUVÊA; GOUVÊA, 2007a). Dessa forma, a combinação de salga úmida e salga seca e do sal fino com o sal grosso na etapa de salga seca podem acelerar o processo de absorção e difusão do sal pela carne e, consequentemente, diminuir o tempo de salga. A utilização de tanques rotativos (salgadeiras) na etapa de salga úmida, cuja rotação e atrito das pás do tambor com a carne facilitam a pene- tração da salmoura, também é uma alternativa para acelerar a difu- são do sal pela carne e diminuir o tempo de salga. 1.2 Alterações na carne decorrentes da salga No processo de salga, a penetração de sal na carne acelera a des- naturação de proteínas e a oxidação de lipídeos; e altera a cor do produto por promover alterações na estrutura da mioglobina e for- mação do pigmento metamioglobina de cor marron-acinzentada. O sal age como um pró-oxidante provocando a ativação da lipoxidase 56 do músculo e a oxidação dos ácidos graxos, principalmente polin- saturados presentes na membrana da fibra muscular, favorecendo reações de oxidação lipídica e a rancidez do produto cárneo salgado (SOBRINHO et al., 2004). Concentrações suficientes de sal têm efeitos tóxicos sobre os microrganismos e inibem o crescimento microbiano. Algumas bac- térias não crescem em ambientes com concentrações de 2 % de sal e, geralmente, concentrações superiores a 5 e 6 % são mais efetivas. Bactérias halotolerantes e outros microrganismos (leveduras, fun- gos) são capazes de crescer em uma faixa ampla de concentrações salinas elevadas (espécies de Micrococus e Bacillus). Algumas espécies de Halobacterium (tolerantes a concentrações de NaCl de 16 a 32 %) e Micrococus (tolerantes a concentrações de NaCl de 5 a 15 %) podem contribuir com a maturação e o desenvolvimento de característi- cas sensoriais desejáveis nos produtos cárneos salgados. Por outro lado, bactérias halofílicas (como Sarcina litoralis e Pseudomonas sar- cina litoralis e Pseudomonas sp), que produzem um muco avermelhado, podem contaminar a carne durante o processo de salga e produzir defeitos no produto cárneo salgado. Nesse caso o sal pode ser uma das fontes de contaminação, assim como práticas higiênicas inade- quadas durante o processamento. Em geral, a inversão das pilhas de carne durante as etapas de salga seca e a tombagem contribuem para evitar o crescimento desses microrganismos, associados às práticas higiênicas adequadas e à utilização de uma matéria-prima de quali- dade (ROÇA, 2000; GOUVÊA; GOUVÊA, 2007a; GOUVÊA; GOU- VÊA, 2007b; GUERREIRO, 2006). 2. CURA O termo “cura” está associado à conservação. Pode ser considerado um termo amplo empregado para classificar grande número de pro- dutos cárneos, embora seu significado possa variar dependendo do tipo de produto e país de origem. Tradicionalmente, significa o uso 57 de sais de cura, que pode ser associado a outros métodos de conser- vação como salga, secagem, cozimento e defumação. Os agentes de cura, geralmente nitrito de sódio (NaNO2) e nitrato de sódio (NaNO3), são utilizados para inibir o crescimento de microrganismos patogê- nicos; desenvolver cor característica do produto curado, contribuir com o flavour e, indiretamente contribuir com a inibição de oxida- ção lipídica e formação do “warmed-over flavour” (BARBUT, 2015; TOLDRÁ, 2002; RANKEN, 2000). 2.1 Sais de cura: composição e funções Os sais de cura são constituídos de uma mistura de cloreto de sódio, nitrito ou nitrato de sódio ou potássio. O cloreto de sódio (NaCl) é utilizado para conferir sabor, extrair proteínas miofibrilares, aumen- tar a pressão osmótica e reduzir a atividade de água do meio; e o nitrito (NO2) e o nitrato (NO3) são os principais agentes de cura, sendo o óxido nítrico (NO) o composto químico responsável pelas principais características dos produtos curados (HONIKEL, 2008). O nitrito é o precursor direto do óxido nítrico e o nitrato precisa primeiro ser reduzido por bactérias nitrato redutoras para nitrito. A conversão do NO2 a NO é uma reação química espontânea e depende de fatores como pH do meio, presença de agentes redutores, tempe- ratura e tempo de processamento (FLORES; TOLDRÁ, 2021). Para que ocorra a formação de óxidonítrico (NO) as moléculas do ácido nitroso (HNO2) devem estar na forma não dissociada, o que depende do pH do meio. Em pH 5,3, todo HNO2 se encontra na forma não dissociada; 80 % em pH 5,4; 75 % em pH 5,6; 60 % em pH 5,8; 40 % em pH 6,0; 20 % em pH 6,2; 5 %; em pH 6,4; e em pH acima de 6,5 todo o HNO2 encontra-se na forma dissociada. Assim, em meio ácido (como na carne) ou ligeiramente ácido (como em produtos cárneos), a partir do nitrito (NO2) forma-se o ácido nitroso (HNO2), e em seguida o anidrido nitroso (N2O3), que se mantém em equilíbrio com o NO e o NO2 no meio. NO reage com a mioglobina e aminoácidos 58 como cisteína promovendo alterações na carne e em produtos cár- neos curados. O NO2 pode reagir com a água formando novamente uma molécula de HNO2 e outra de HNO3. O HNO2 formado pode rea- gir com oxigênio e formar HNO3. E ainda, quando o oxigênio está presente, o NO pode ser oxidado a NO2. Longos períodos de cura e elevadas temperaturas favorecem a formação do NO, porém aumen- tam o risco de contaminação microbiológica (FLORES; TOLDRÁ, 2021; HONIKEL, 2008; FEINER, 2006). NO pode ser obtido por rea- ção química do NO2 em meio ligeiramente ácido com formação do HNO2 na presença de um agente redutor como o ácido ascórbico ou seus sais (ascorbatos), que quando adicionado ao meio reduz direta- mente o nitrito residual via HNO2 a NO (FEINER, 2006). NO é um gás muito reativo e um forte agente oxidante. Na carne e em produtos cárneos reage com o grupo heme da mioglobina for- mando o pigmento nitrosomioglobina. A nitrosomioglobina sob aquecimento resulta na formação do pigmento nitrosohemecromo, que confere a coloração rósea característica dos produtos cárneos curados. Em geral para se obter uma cor forte e estável em produ- tos curados cozidos a concentração de nitrito deve variar entre 30 e 50 mg/kg de produto (FEINER, 2006; HONIKEL, 2014; MAJOU; CHRISTEANS, 2018). O NO2 pode atuar indiretamente como um antioxidante em carne e produtos cárneos quando o HNO2 reage com o oxigênio pre- sente no meio e forma HNO3, o que favorece indiretamente a inibi- ção de processos oxidativos pelo sequestro do oxigênio. Entretanto, essa reação reduz a formação do pigmento nitrosomioglobina, o que pode interferir no desenvolvimento da cor. Outro efeito antioxidante indireto do NO2 se deve à ligação do NO com o ferro presente na mioglobina e hemoglobina, reduzindo a quantidade de íons de ferro que atuam com pró-oxidantes no meio. Concentrações entre 20 e 60 mg de NO2/kg de produto são necessárias para o efeito antioxidante indireto do NO2 em produtos cárneos. Outra ação do NO2 é sobre o flavour através de reações entre o NO e substâncias naturalmente 59 presentes na carne como aldeídos, álcoois, iosina, componentes sulfi- drílicos e compostos carbonílicos em concentrações entre 30 e 50 de NO2 mg/kg de produto (FEINER, 2006; HONIKEL, 2014; MAJOU; CHRISTEANS, 2018). Uma das funções mais importantes do nitrito em carnes cura- das ou produtos cárneos curados se deve ao efeito contra bactérias patogênicas, como Salmonella spp., Staphylococcus aureus e, princi- palmente, contra Clostridium botulinum, cujos mecanismos inibitó- rios ainda não são bem conhecidos. Pode atuar nos grupos aminos do sistema desidrogenase das células microbianas, inibindo o sistema e sua multiplicação. Além disso, os nitritos exercem uma ação ini- bitória específica contra enzimas bacterianas que catalisam a degra- dação de glicose, retardando seu metabolismo. Uma concentração entre 80 e 140 mg de NO2/kg de produto cárneo é uma barreira efe- tiva contra o crescimento de bactérias (FEINER, 2006; HONIKEL, 2014; MAJOU; CHRISTEANS, 2018). 2.2 Cor de produtos curados Em produtos cárneos cozidos, na reação de formação do pigmento nitrosomioglobina, o NO2, como forte agente oxidante, inicialmente oxida a mioglobina (Fe2+) e oximioglobina (Fe2+) a metamioglobina (Fe3+), ao mesmo tempo em que o NO formado pela via intermediá- ria do HNO2 se liga à metamioglobina, formando o pigmento nitro- sometamioglobina (coloração marrom-acinzentada). Em seguida a nitrosometamioglobina é reduzida a nitrosomioglobina (coloração rósea-avermelhada) naturalmente, de forma lenta na carne ou ace- lerada por agentes redutores, como os ascorbatos e isoascorbatos. A nitrosomioglobina não é um pigmento estável e somente após a des- naturação da mioglobina por aquecimento (entre 50 e 60 ºC) há for- mação do pigmento nitrosohemecromo, que é mais estável e confere a coloração rósea característica dos produtos cárneos curados (FEI- NER, 2006; HONIKEL, 2014; ROÇA, 2000). 60 Tanto a reação de conversão do NO2 a NO, via HNO2, quanto a ligação do NO à molécula de mioglobina ocorre mais lentamente nos valores de pH da carne e de produtos cárneos (pH entre 5,5 e 6,2). Assim, a presença de ácido ascórbico ou do ácido eritórbico e seus respectivos sais, geralmente utilizados como aditivos alimentares em produtos cárneos curados, acelera a formação do NO e, consequen- temente, a reação de formação de cor. Isso ocorre devido a uma leve redução do pH da carne que favorece a não dissociação da molécula de HNO2. Como resultado, maior quantidade de NO é formado, melho- rando a fixação de cor do produto (FEINER, 2006; ROÇA, 2000). Nos produtos cárneos, os agentes redutores também têm uma ação antioxidante contribuindo para a estabilidade da cor e para redu- zir a oxidação lipídica, neutralizando ou desativando os radicais peró- xidos formados quando os produtos são expostos à luz e ao oxigênio. Por reduzirem o teor de nitrito residual, o ácido ascórbico ou eri- tórbico ou seus respectivos sais previnem ou reduzem a formação de agentes de nitrosação como o N2O3 e a formação de nitrosami- nas em produtos cárneos curados cozidos (FEINER, 2006; ROÇA, 2000). Excesso de óxido nítrico pode ocasionar descoloração de pro- dutos cárneos devido à formação de nitrometamioglonina, que sob condições redutoras é convertida em nitromioglobina, que por sua vez, após o tratamento térmico forma nitrohemina, composto de coloração verde, resultando no fenômeno conhecido por queima pelo nitrito. Concentrações de nitrito acima de 600 mg/kg de carne resultam na queima pelo nitrito. Altas concentrações de nitrito geram elevados teores de ácido nitroso e essa acidez temporária nessas con- dições é suficiente para promover a desnaturação da mioglobina, resultando em uma carne com coloração amarelo-esverdeada (FEI- NER, 2006; FARIA et al., 2001). Por outro lado, a baixa disponibilidade de óxido nítrico, prove- niente da adição de quantidades insuficientes de nitrito ou de agen- tes redutores em excesso durante a cura, gera baixa concentração residual de óxido nítrico no produto, o que resulta em produtos com 61 coloração fraca e pouco estável e aumenta o risco de contaminação microbiológica. A distribuição desuniforme da salmoura pela peça também é indesejável, uma vez que promove o desenvolvimento de cor deficiente, uma maior deterioração microbiológica nos pontos nos quais os sais de cura não penetram, e a formação de áreas esver- deadas ou ácidas onde há acúmulo desses sais (FARIA et al., 2001). A oxidação lipídica é outro fator que promove alteração na cor da carne e produtos cárneos. Compostos provenientes da oxidação de lipídeos podem oxidar diretamente os pigmentos das carnes curadas, fenômeno conhecido por cooxidação, ou ainda reduzir a efetividade de agentes redutores como o ascorbato de sódio, dificultando a manu- tenção dos níveis da nitrosomioglobina. A incorporação de gorduras com elevado teor de ácidos graxos insaturados à massa cárnea, tam- bém, pode resultar em uma maior instabilidade da cor do produto. Pigmentos de carnes curadas também estão suscetíveis à descolora- ção pela ação de bactérias, desenvolvendo uma coloração verde na superfície do produto. Sob condições aeróbias, as bactérias respon- sáveis pelo esverdeamento produzem peróxido de hidrogênio, que oxida diretamente o pigmento da carne. Adescoloração é geralmente acompanhada pela formação de muco (limo), devido ao crescimento excessivo de microrganismos. A presença de luz, mesmo em combi- nação com quantidades mínimas de oxigênio pode causar uma sig- nificativa degradação do pigmento (FARIA et al., 2001). 2.3 Riscos à saúde associados ao consumo de produtos cárneos curados Nitrosaminas são compostos considerados potencialmente carcino- gênicos formados quando aminas secundárias presentes nos alimen- tos interagem com o NO2 em certas condições de calor (T ≥ 140 ºC) e acidez (pH < 5,6). Na presença de aminas secundárias (R2NH), o íon nitrosônio perde um próton, formando a nitrosamina. O ácido ascórbico ou eritórbico e seus sais derivados, além de catalisarem a 62 redução do nitrito a óxido nítrico inibem a formação de nitrosami- nas, ao reagirem com o anidrido nitroso, impedindo a formação do íon nitrosônio. A formação de n-nitrosaminas carcinogênicas a partir do con- sumo de nitratos e nitritos em produtos cárneos é um tema polê- mico, uma vez que a presença de NO2 e NO3 ocorre de forma natural em alimentos. Em termos tecnológicos, os métodos empregados no processamento de alimentos reduzem ou inibem sua formação, que não é restrita apenas ao processamento de produtos cárneos. Dessa forma, o que deve ser enfatizado é que a utilização racional desses ingredientes pela indústria, indiscutivelmente, gera mais benefícios do que efeitos negativos à segurança alimentar e à saúde dos consu- midores (OLIVO; RIBEIRO, 2018). 3 DEFUMAÇÃO O processo de defumação consiste em submeter a carne à ação da fumaça proveniente da queima de madeiras, aparas e serragens durante uma etapa do processamento e pode ser aplicada em diver- sos cortes, contribuindo com a conservação do produto. O contato e absorção de componentes presentes na fumaça são responsáveis pela cor e flavour característicos de produtos defuma- dos, aumento da atividade antioxidante e inibição do crescimento superficial de fungos e bactérias (ARNAU; ARBOIX, 2014). Com- postos presentes na fumaça com atividade antimicrobiana e antio- xidante como os fenóis, ácidos, formaldeído e outros contribuem com a conservação de produtos cárneos defumados, entretanto, o aumento efetivo do shelf life do produto depende do tratamento tér- mico (tempo e temperatura de cozimento) e da diminuição da ativi- dade de água durante o processo de defumação, entre outros fatores (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010). A fumaça utilizada na defumação de produtos cárneos é resul- tante da combustão incompleta da madeira (pirólise), cuja temperatura 63 de decomposição de seus componentes deve ser controlada. Depois de formada, a fumaça entra em contato com a carne alterando atri- butos sensoriais de cor, odor, aroma, sabor, textura, aparência e con- tribuindo para a conservação do produto cárneo defumado. Pode ser utilizada na forma tradicional como uma mistura gasosa ou pela aplicação da fumaça líquida. Na forma tradicional, a fumaça gerada é bombeada do gerador até o defumador e entra em contato com a superfície ainda úmida do produto sendo absorvida. No caso de pro- dutos cárneos defumados cozidos, posteriormente, ocorre a secagem e o cozimento com redução da umidade superficial do produto. No processamento de produtos cárneos defumados crus, os produtos são submetidos apenas à ação da fumaça sem ocorrer o cozimento (HANSON, 2004; FEINER, 2006). Em geral, madeiras hardwood como carvalho, jatobá, cedro, peroba, nogueira e árvores frutíferas são preferidas por gerarem fumaças mais claras, sem presença de alcatrão, não devendo ser uti- lizadas madeiras resinosas ou tratadas quimicamente (FEINER, 2006; SIKORSKI, 2004; RANKEN, 2000). 3.1 Produção e composição da fumaça A fumaça é uma mistura complexa de partículas sólidas (fase parti- culada) e água em meio gasoso, correspondendo 80 % à fração parti- culada e 20 % à fase gasosa, num total de cerca de 600 componentes já identificados (FEINER, 2006). Sua densidade é definida pela pro- porção de partículas sólidas e líquidas presentes. Sua composição depende do tipo de madeira usada (em geral hardwood), da tempera- tura de combustão da madeira e da quantidade de oxigênio disponível durante a combustão da madeira. Os principais componentes da madeira são celulose, hemicelulose e lignina na proporção de 2:1:1 e em menor quantidade resinas e óleos essenciais, sendo constituídas de cerca de 50 % de celulose (homo- polissacarídeo linear constituído por unidades de D-glicopiranose 64 ligadas através de ligações glicosídicas do tipo β-1,4), 25 % de hemi- celulose (heteropolissacarídeos constituídos na sua maioria por uni- dades repetidas de pentoses, e em menores quantidades por hexoses, e ácidos urônicos), e 25 % de lignina (polímero tridimensional com- plexo e ramificado, constituído basicamente por três unidades de fenilpropeno, p-hidroxifenila, guaiacila e siringila). Cerca de 50-70 % destes componentes são transformados em fumaça durante a pirólise (WURZLER, 2019; FEINER, 2006). A lignina é o segundo polímero natural mais abundante após a celulose, e é encontrada principal- mente na parede celular das plantas terrestres. Funciona como um agente de suporte na estrutura da célula e contribui com a resistên- cia contra o ataque microbiano da biomassa e sua consequente dete- rioração (WURZLER, 2019). Durante a pirólise da madeira, ocorre a decomposição grada- tiva de seus componentes, através de reações de oxidação, polime- rização e condensação dos polímeros em compostos orgânicos de baixo peso molecular, com formação de ácidos orgânicos, aldeídos, cetonas alifáticas e cíclicas, furanos, piranos e derivados, lactonas, álcoois alifáticos, fenóis (como guaiacol e seringol e derivados), dihi- droxibenzeno, e álcoois aromáticos. Inicialmente ocorre a secagem da madeira até cerca de 160 ºC, seguida da decomposição da hemice- lulose entre 180 e 250 ºC, da celulose entre 250 e 300 ºC e da lignina entre 300 e 550 ºC (BORYS, 2004; FEINER, 2006). A combustão incompleta da madeira resulta na produção da fumaça empregada na defumação composta por ar, CO2, CO e uma grande quantidade de diferentes compostos orgânicos resultantes da degradação térmica da hemicelulose (entre 180-300 ºC), celulose (260-350 ºC) e lignina (300-500 ºC). Os principais componentes da madeira que têm maior impacto sobre as características dos produ- tos defumados são fenóis, ácidos orgânicos e compostos carboníli- cos, muitos deles presentes na fase gasosa e não na fase particulada. A concentração total de compostos fenólicos depende do tipo de madeira, temperatura e densidade da fumaça, tendo a temperatura 65 de combustão e a concentração de oxigênio maior influência sobre o rendimento e a composição química da fumaça quando compa- rados à umidade e tipo de madeira (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010; FEINER, 2006). Compostos carbonílicos são responsáveis, principalmente, pelo desenvolvimento da cor, sendo absorvido na superfície ligeiramente úmida do produto e reagindo com aminas para formação da cor dese- jada dos produtos defumados. Os compostos fenólicos (siringol e guaiacol) e seus derivados, provenientes da pirólise e oxidação da lignina entre 200 e 400 ºC, são os principais responsáveis pelo desen- volvimento de características sensoriais, principalmente o flavour e pela conservação dos produtos cárneos defumados. Formaldeído, fenóis e ácido acético atuam como antimicrobianos contribuindo para aumentar o shef life dos produtos defumados. Componentes da fumaça, principalmente formaldeído e ácidos orgânicos interagem com proteínas na superfície dos produtos e após tratamento térmico forma-se uma firme camada na superfície do produto, alterando a textura e aparência (FEINER, 2006; SIKORSKI, 2004). Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA’s) são formados pela combustão incompleta da matéria orgânica a temperaturas ele- vadas. A temperatura de formação de HPA’s varia na literatura cien- tífica. A formaçãodesses compostos é favorecida por temperaturas elevadas (400 a 800 °C) e conforme a temperatura se eleva diferen- tes HPA’s podem ser formados (GARCIA et al., 2014). Geralmente, HPA’S são gerados em temperaturas acima de 420 ºC e estão presen- tes, principalmente, na fase particulada da fumaça. A concentração de HPA’s pode ser reduzida pela diminuição da temperatura de com- bustão da madeira e pelo uso de filtros (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010). A formação desses compostos depende de fatores como tipo da biomassa presente, quantidade de oxigênio disponível, pressão e, principalmente, de calor, pois a concentração de HPA’s aumenta linearmente na faixa de temperatura de 400 a 1000 ºC (CARUSO; ALABURDA, 2008). 66 Os HPA’s são poluentes orgânicos de importância ambiental e de interesse toxicológico, pois muitos apresentam propriedades carcinogênicas e/ou mutagênicas. A presença de HPA’s em alimen- tos defumados é indesejável, uma vez que a exposição a esses com- postos tem sido relacionada a um risco maior de desenvolver câncer de pulmão, pele e bexiga. O benzo(a)pireno é usado como indica- dor da presença de HPA’s em alimentos nos EUA. Na Europa, ben- zo(a)pireno, benzo(a)antraceno, benzo(b)fluoretano e crisano são utilizados como indicadores, mantendo-se um nível máximo sepa- rado para o benzo(a)pireno (NOVA; GONZÁLEZ-SCHNAKE, 2014; CARUSO; ALABURDA, 2008). No Brasil, a legislação sobre HPA’s não é específica e não aborda grupos de alimentos. A ANVISA e o MAPA ainda não estabeleceram os limites toleráveis máximos (LMT’s) para a maioria dos alimentos passiveis de contaminação por HPA’s. Para os poucos grupos de ali- mentos que há legislação, os LMT’s são estabelecidos somente para o benzo(a)pireno, através de Portarias e Resoluções Normativas da ANVISA (Resolução RDC, n. 2 de 15 de janeiro de 2007 da ANVISA; Portaria n. 518 de 25 de março de 2004 do Ministério da Saúde e Resolução RDC n. 274, de 22 de setembro de 2005 da ANVISA) e somente para alimentos os quais passaram por processo de defuma- ção, além da água e gelo (GARCIA et al., 2014). A exposição humana aos HPA’s pode ocorrer por diferentes vias, como inalação, pele ou por ingestão. Os alimentos podem ser conta- minados a partir de HPA’s disseminados no meio ambiente (ar atmos- férico, solo ou água), durante o processamento (secagem, defumação e cozimento) ou no preparo quando se utilizam altas temperaturas (grelhar, assar ou fritar) (CARUSO; ALABURDA, 2008). 3.2 Processo de defumação tradicional Para produção da fumaça, no processo tradicional em escala indus- trial, normalmente são utilizados geradores, nos quais serragem ou 67 aparas de madeira entram em contato com uma placa ou grelha aque- cida à temperatura controlada de cerca de 350 ºC. As serragens e apa- ras devem ser umedecidas com água (cerca de 20-30 % do peso do material) para que a queima ocorra de forma lenta, sem produção de chamas e com maior produção de fumaça, favorecendo a produção de compostos fenólicos. Presença de pedaços maiores de madeira pode favorecer a formação de chamas (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010; FEINER, 2006). A fumaça geralmente é bombeada através de tubu- lações para o interior da câmara de defumação entrando em contato com a superfície dos produtos cárneos. O ar deve circular livremente e de maneira uniforme, evitando-se a sobrecarga das câmaras com excesso de produto e a formação de regiões com temperaturas dife- rentes (regiões muito quentes ou frias). A quantidade de compostos que impregnam e se acumulam na superfície da carne e produtos cárneos depende de fatores como tem- peratura, umidade, circulação do ar e composição da fumaça; das propriedades dos componentes da fumaça, em especial volatilidade e solubilidade; características da superfície do produto; e o tempo de duração da defumação e de contato da fumaça com a superfície do produto (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010). A composição da fração absorvida depende mais das condições de defumação, especialmente da umidade na superfície da carne do que da concentração dos componentes na fumaça. Produtos com superfícies úmidas absorvem até 20 vezes mais compostos fenólicos que produtos com superfícies secas e a deposição dos componentes presentes na fase gasosa é mais efetiva do que de partículas e gotí- culas nessas condições (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010). Entre- tanto, produtos com superfícies muito úmidas podem desenvolver uma cor acastanhada ou apresentarem um aspecto de “listras” resul- tante de uma absorção desigual da fumaça. Produtos com superfícies muito secas, em geral, apresentam uma cor mais clara e absorvem menos fumaça. Teores moderados de umidade favorecem a absor- ção da fumaça e o desenvolvimento uniforme da cor dos produtos. 68 Basicamente, a superfície do produto a ser defumado deve estar leve- mente pegajosa antes da aplicação da fumaça (FEINER, 2006). Valores de umidade relativa do ar baixos (inferiores a 60 %) na câmara de defumação resultam em pouca impregnação dos compos- tos na superfície do produto, devido à baixa densidade da fumaça. Valores acima de 90 % provocam a condensação e gotejamento do vapor, carreando os componentes da fumaça sem que haja contato suficiente com a superfície do produto cárneo. Neste caso, há dificul- dade no desenvolvimento da cor do produto; maior probabilidade de crescimento de microrganismos, principalmente de fungos e; no caso de produtos cárneos emulsionados, quebra da emulsão. Valores de umidades relativas do ar entre 80 e 85 % na câmara de defumação são recomendados no início do processo para não ocorrer ressecamento excessivo da superfície do produto e ao final, recomenda-se a redução para 70-75 % para favorecer a deposição dos compostos da fumaça na superfície do produto (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010). O aumento de temperatura da fumaça também acelera a absor- ção dos componentes, que depositam na superfície do produto e são gradativamente dissolvidos. A difusão desses componentes para as camadas mais internas do produto ocorre devido a um gradiente de concentração. Grupos reativos de proteínas e lipídeos, em tempera- turas mais elevadas, podem reagir com os compostos fenólicos, car- bonílicos e os ácidos presentes na fumaça e desenvolver cor e flavour característicos. Já a interação com compostos nitrogenados da carne tem efeito sobre a textura do produto (SIKORSKI; KOŁAKOWSKI, 2010; FEINER, 2006). Na defumação a frio a temperatura da câmara de defumação é inferior a 28 ºC (20 a 25 ºC) e não promove o cozimento do produto. O processo é demorado, variando de horas a dias de defumação. Usada para processamento de produtos cárneos defumados crus, a refrige- ração da fumaça produzida no gerador é feita durante sua condução à câmara de defumação e o resfriamento provoca a condensação do alcatrão e outras substâncias nocivas à saúde que são removidos da 69 fumaça. Já na defumação a quente, a temperatura na câmara de defu- mação pode atingir valores de 80 ºC e o processo é mais rápido, com duração de cerca de uma hora. O processo de defumação de produtos cárneos cozidos pode ser dividido em três etapas, sendo que a pri- meira consiste na secagem, que remove a umidade superficial e tam- bém contribui para o desenvolvimento da cor da carne (iniciando o processo com temperatura entre 30 ºC e 35 ºC); na segunda etapa, em que a fumaça é aplicada enquanto a temperatura da câmara é ele- vada até 55 ºC; e na etapa final, que corresponde ao cozimento, na qual a carne é cozida no próprio defumador, finalizando com tem- peratura de até 80 ºC. Neste tipo de processo a umidade na câmara de defumação deve ser mantida por injeção de vapor e recomenda- -se alta velocidade de circulação do ar para evitar ressecamento da superfície do produto. O aquecimento da fumaça produzida no gera- dor é feito por eletricidade, vapor ou gás (RANKEN, 2000; SIKOR- SKI; KOŁAKOWSKI, 2010). 3.3 Defumação com fumaça líquida Os extratos de fumaça são cada vez mais utilizados pela indústriade alimentos e podem ser obtidos pelos métodos de condensação em água e purificação; de refinação por destilação fracionada ou filtração; ou fumaças artificiais, obtidas pela mistura dos compo- nentes da fumaça. A matéria-prima típica para a produção de condensado de fumaça é a madeira de espécies de árvores como carvalho, nogueira, castanheiro, eucalipto, freixo, árvores frutíferas e olmo na forma de serragem ou aparas secas até umidade de 10 %. A temperatura de combustão da madeira é o parâmetro mais importante, sendo a decomposição térmica da madeira realizada em condições con- troladas, pois determina a quantidade de condensado obtida e sua composição química. Os vapores e gases gerados no processo são absorvidos em purificadores com uma fase de água em recirculação 70 de condensado de fumaça, que após resfriamento é separado em uma fração de água e uma fração de alcatrão. A fração de água é armaze- nada por algum tempo para isolar a fração de precipitação lenta do alcatrão. Em seguida pode ser concentrada por destilação ou extra- ção. Esses condensados possuem propriedades corantes, antimicro- bianas e antioxidantes (BORYS, 2004). Os aromas ou condensados de fumaça podem ser encontrados como soluções líquidas ou sob a forma de pó e aplicados em produtos cárneos por atomização, imersão ou sistema de aspersão por chuvei- ros, adição na salmoura e por impregnação das tripas que envolvem os produtos cárneos. A secagem após aplicação da fumaça contribui para fixação dos compostos na superfície do produto. Quando se utili- zam as tripas pré-defumadas, o produto é embutido em tripas fibrosas impregnadas de fumaça, e essa fumaça líquida é absorvida das tripas para a superfície do produto (FEINER, 2006; HANSON, 2004). Na imersão em fumaça líquida, os produtos são imersos em tanques; e na incorporação direta na massa do produto ou salmoura de injeção, a fumaça líquida é adicionada juntamente com outros ingredientes da formulação, conferindo aroma e sabor de defumado de modo uni- forme. A fumaça líquida usada para adição direta é especialmente for- mulada para esse método. A adição direta adiciona sabor de fumaça a todo o produto, não apenas à superfície, mas não contribui signi- ficativamente para a cor da superfície (HANSON, 2004). Na atomização a fumaça líquida é pulverizada sob uma pres- são predeterminada através de um bico atomizador, formando uma “névoa” que é aplicada em câmaras totalmente fechadas, com tem- peratura e umidade relativa controladas. Forma-se uma nuvem de fumaça de partículas muito pequenas e finas que é absorvida pelo pro- duto cárneo. Antes que a fumaça líquida seja introduzida na câmara de defumação, o produto cárneo deve primeiro ser seco adequada- mente. Após atomização, a nuvem de fumaça pode permanecer por cerca de 10-15 minutos no interior da câmara, seguida de um período de secagem de 5-10 minutos do produto. O processo de pulverização 71 pode ser repetido várias vezes até que a cor desejada (normalmente marrom dourado) na superfície do produto seja obtida (FEINER, 2006; HANSON, 2004). Para sistemas contínuos, chuveiros de fumaça líquida são comu- mente usados num primeiro estágio do processo. Na fabricação de salsicha, por exemplo, o produto é geralmente transportado sob uma chuva de fumaça líquida diluída antes de entrar no primeiro estágio de cozimento e, após a aplicação superficial da fumaça líquida, um período de calor seco é necessário para o desenvolvimento adequado da cor (HANSON, 2004). O emprego da fumaça líquida na defumação de produtos cár- neos apresenta algumas vantagens como remoção de compostos can- cerígenos e indesejáveis; maior controle do processo de produção e padronização dos produtos defumados; maior vida útil dos equi- pamentos pela ausência da porção particulada da fumaça (fuligem); acelera o processo de defumação; e minimiza a poluição do ar e sem risco de fogo e/ou explosão. 3.4 Defumadores e geradores de fumaça Nos defumadores convencionais empregados na defumação direta do produto, a câmara é dividida em dois compartimentos, em que em um é disposto o produto cárneo (câmara de defumação) e no outro, localizado abaixo da câmara de defumação, é realizada a queima da serragem ou aparas (câmara de combustão). Construídos com base de tijolos e manilha, alvenaria ou de aço inox são equipamentos mais simples geralmente utilizados em produções em pequena escala, em batelada, ou em processos artesanais de defumação. A queima deve ocorrer de forma lenta e sem a produção de chama, produzindo uma fumaça clara. Esses defumadores podem ser adaptados para o método de fumaça indireto, em que a fumaça é produzida em um comparti- mento separado do compartimento em que se encontra a câmara com o produto cárneo, e apenas a fumaça é carreada para o defumador. 72 Os túneis de defumação são utilizados em escala industrial e o sistema é automatizado, permitindo controle de temperatura (aque- cimento a vapor ou a gás), umidificação do ar (injeção de vapor e controle de saída de exaustão), ventilação com movimentação e troca de ar e controle de tempo do processo. São contínuos e, geralmente, permitem o cozimento e defumação do produto simultaneamente. A fumaça é proveniente de uma fonte geradora e é conduzida até as câmaras de defumação por tubulações. Para geração da fumaça, podem ser empregados geradores com métodos de aquecimento por placas, vapor superaquecido, fricção ou gás direto (HANSON, 2004). No gerador de fumaça por fricção, um bloco de madeira é comprimido contra a superfície de uma roda den- tada que gira a determinada velocidade. A intensidade do atrito entre a madeira e a roda é responsável pela geração de calor e pirólise da madeira, sendo que a temperatura de combustão é controlada atra- vés do ajuste da pressão sobre o bloco de madeira e a velocidade da roda. A fumaça gerada contém teores elevados de fenóis, compostos carbonílicos e outros ácidos, e baixos níveis de alcatrão e HPA’s. Na geração de fumaça por via úmida ou vapor, uma mistura de vapor a baixa pressão (1,3 bar) e ar passa por um reaquecedor e atinge entre 300 e 450 °C. A serragem é conduzida por uma espiral transportadora até a área de passagem da mistura de vapor, água e ar, provocando a combustão. A fumaça gerada é resfriada a cerca de 85 °C até atingir a câmara defumação, o que causa um aumento na umidade da fumaça. A fumaça do vapor é basicamente isenta de alcatrão e de HPA’s (FEI- NER, 2006). Outros métodos de geração de fumaça para defumação de carne e produtos estão disponíveis no mercado: fumaça por flui- dificação; fumaça em 2 estágios; defumação eletrostática; defumação sem fumaça visível; defumação em ciclo fechado2. 2 NASSU. Disponível em: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/tec- nologia_de_alimentos/arvore/CONT000gc8yujq202wx5ok01dx9lcl786xho.html. http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/tecnologia_de_alimentos/arvore/CONT000gc8yujq202wx5ok01d http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/tecnologia_de_alimentos/arvore/CONT000gc8yujq202wx5ok01d 73 4 PRODUTOS CÁRNEOS DE MASSA FINA As emulsões cárneas constituem um sistema de dispersão grosseira de um sólido ou líquido (gordura/óleo) em uma matriz que constitui a fase contínua, no qual as proteínas da carne, principalmente as miofi- brilares, atuam como emulsificante. Neste caso, a fase contínua não é simplesmente a água e sim um sistema coloidal complexo, cujas pro- priedades são determinadas por macromoléculas de proteínas, além de sais e outras substâncias dissolvidas na fase aquosa (SGARBIERI, 1996). O termo “emulsão cárnea”, geralmente, é usado para descrever produtos cárneos submetidos a uma trituração fina, na qual a maté- ria-prima cárnea e, principalmente a gordura são reduzidos a tama- nhos bem pequenos. A fase dispersa é composta por partículas sólidas de gordura com tamanho entre 1 e 50 µm, gotículas líquidas de gor- dura e bolhas de ar. A fase continua é uma mistura de água, proteínas, sal, carboidratose muitas partículas fibrosas. Os ingredientes básicos da massa cárnea são, geralmente, carne magra, gordura, água e clo- reto de sódio, mas outros ingredientes não cárneos e aditivos alimen- tares são normalmente adicionados à formulação (ALLAIS, 2010). Produtos cárneos de massa fina ou tipo emulsão são feitos com carne finamente triturada de forma a se obter uma massa estável que retém a gordura e a umidade com textura característica quando submetido a cozi- mento (KNIPE, 2014). O resultado final é um produto homogêneo, de textura lisa, de corte fino, que pode resistir ao tratamento térmico sem a separação de gordura ou água, apresentando firmeza e boa mordida (FEINER, 2006). Para produtos cárneos, a etapa de emulsificação deve ser sempre seguida por um tratamento térmico que irá estabilizar a massa cárnea e desenvolver suas características sensoriais (ALLAIS, 2010). 4.1 Formação da emulsão cárnea Em carnes processadas, em especial de produtos de massa fina, a gordura é imobilizada pela formação de uma membrana proteica 74 interfacial e de redes formadas pela interação entre moléculas de pro- teínas. Durante a trituração fina grandes partículas de gordura ou de tecido adiposo são transformadas em finos grânulos por cisalha- mento, que serão revestidos por proteínas. A absorção de proteína na superfície das partículas de gordura diminui a energia interfa- cial enquanto a absorção das proteínas desnaturadas, após o cozi- mento, gera a formação de uma matriz de gel proteico. Esses dois fatores contribuem com o aumento da estabilidade da emulsão. A atividade relativa de emulsificação das proteínas do músculo segue a ordem miosina > actomiosina > proteínas sarcoplasmáticas > actina (STRASBURG; XIONG, 2019). Em geral, três etapas principais são requeridas para o processa- mento de produtos cárneos de massa fina: fragmentação/trituração da carne magra; solubilização de proteínas da carne; e estruturação da massa cárnea com formação do gel (ALLAIS, 2010). Na fase de fragmentação/trituração da carne magra, os parâme- tros para a trituração da matéria-prima cárnea e da gordura são bem específicos e, extremamente importantes para garantir a estabilidade da emulsão cárnea e atributos como textura, firmeza e aparência do produto. Duas formas podem ser citadas para o preparo da emulsão cárnea: “cold emulsions”, na qual os ingredientes crus são triturados, resultando em uma massa viscosa que, posteriormente é submetida a tratamento térmico; e “hot emulsions”, na qual a carne é pré-cozida e a gordura é submetida a um pré-cozimento, normalmente na faixa de 80 ºC. Posteriormente, a massa cárnea é triturada, misturada com os outros ingredientes e submetida ao cozimento final (ALLAIS, 2010). Na fase de solubilização de proteínas da carne, durante a tritu- ração os feixes de fibras musculares são separados e suas membra- nas (perimísio) são rompidas. O sarcolema também é rompido e as miofibrilas liberadas, favorecendo a retenção das moléculas de água e o inchaço das miofibrilas. Nesse ponto, a solubilidade das proteí- nas é um fator extremamente importante que vai influenciar as pro- priedades de emulsificação, gelatinização e retenção de água dessas 75 proteínas. Uma força iônica do meio de no mínimo 0,5 M é reque- rida para a solubilização das proteínas miofibrilares. Essa condição é normalmente encontrada em produtos cárneos processados, sendo que teor de sal e o pH podem ser considerados como os principais fatores que interferem na solubilidade das proteínas. Após solubili- zação das proteínas, há formação de uma estrutura coloidal, consti- tuída de uma fase sólida contendo proteínas não solúveis, pedaços de músculo e tecido conectivo e dispersos em uma fase aquosa con- tendo sal, proteínas solúveis e carboidratos (ALLAIS, 2010; MAN- DIGO; SULLIVAN, 2014). Na fase de estruturação da massa cárnea com formação do gel, as partículas de gordura são envolvidas por um filme proteico, for- mado pelas proteínas solubilizadas. A formação desse filme interfacial e o aprisionamento físico das partículas de gordura dentro da matriz proteica são responsáveis pela estabilidade da emulsão. A quantidade de proteína solubilizada e disponível deve ser suficiente para emul- sificar essas partículas. A falta de proteínas diminui a estabilidade, favorecendo a separação da gordura e um produto com textura mole. O excesso de proteína resulta em uma massa com textura semelhante à borracha (ALLAIS, 2010; KNIPE, 2014). 4.2 Fatores que influenciam a formação da emulsão e sua estabilidade As proteínas miofibrilares são responsáveis por cerca de 75 % da capacidade emulsificante (CE) da carne, principalmente a miosina. As proteínas sarcoplasmáticas são menos eficientes que as anterio- res em relação à CE, mas atuam como agente estabilizador do sis- tema (GOMIDE; RAMOS; FONTES, 2013). Dois aspectos são importantes: a capacidade de emulsificação, que corresponde à quantidade de lipídeos que as proteínas são capazes de emulsificar; e a estabilidade da emulsão, que mede a capacidade que as proteínas têm de manter a mistura homogênea quando submetida 76 à ação de uma força mecânica ou calor. Alguns dos fatores que afetam a formação e estabilidade de uma emulsão são: temperatura; tama- nho da partícula de gordura; pH; força iônica do meio; quantidade e tipo de proteína; e viscosidade da massa cárnea (SGARBIERI, 1996). As propriedades físico-químicas e reológicas da membrana das partículas de gordura e das matrizes proteicas contínuas são deter- minantes da estabilidade da emulsão. São influenciadas por fatores como pH, viscosidade da fase aquosa, tempo e temperatura durante a trituração ou emulsificação e relação carne-gordura. A composi- ção e as propriedades, tanto da membrana das partículas de gordura como da fase aquosa contínua podem ser modificadas por ingredien- tes e aditivos para se obter uma emulsão cárnea mais estável e evitar coalescência/aglutinação da gordura por altas temperaturas (STRAS- BURG; XIONG, 2019). No processo de emulsificação, as proteínas miofibrilares devem ser primeiramente extraídas e solubilizadas. A quantidade de pro- teínas solubilizadas depende primeiramente da quantidade de pro- teína presente na massa cárnea (relacionada ao tipo de carne e corte utilizado) e do tipo de proteína. A adição de fosfatos e sal como adi- tivos também contribui significativamente para a extração das pro- teínas, pois têm influência nas condições do meio como pH e força iônica, que por sua vez atuam sobre as propriedades funcionais da molécula proteica. A energia introduzida no sistema pela força de cisalhamento durante o processo de trituração no cutter ou no emul- sificador também é outro fator que contribui para a extração pro- teica (FEINER, 2006). Geralmente partículas menores de gordura são mais fáceis de emulsificar quando comparadas às partículas maiores, entretanto são necessárias quantidades suficientes de moléculas proteicas ativadas para formação de uma camada suficientemente elástica e resistente ao redor das partículas de gordura. O tamanho da partícula deverá também ser considerado em relação à espessura da película interfa- cial de proteína que forma a matriz (SGARBIERI, 1996), uma vez que 77 a redução do tamanho das partículas de gordura durante a operação de trituração promove, relativamente, um aumento da área superfi- cial, sendo necessárias maiores quantidades de proteína solúvel para encapsular essas partículas menores. A velocidade e o tempo de trituração influenciam o tamanho das partículas de gordura e a extração e ativação das proteínas da carne e, consequentemente, a estabilidade da emulsão, textura (textura “cre- mosa/pasta” característica) e aparência dos produtos cárneos de massa fina. Durante a trituração da massa cárnea no cutter, velocidades maio- res aumentam a força de cisalhamento, resultando em partículas de diâmetro menor. Para um tempo de trituração curto, geralmente, tem-se menor extraçãoe ativação das proteínas que resultará na for- mação de um filme interfacial proteico fino ao redor de partículas maiores de gordura durante o tratamento térmico. Para um tempo prolongado de trituração formam-se partículas muito pequenas de gordura na emulsão resultando em uma área superficial de gordura muito grande. Nessa condição, se a quantidade de proteína extraída e disponível para a formação do filme proteico ao redor das inú- meras partículas pequenas de gordura não for suficiente, a camada de proteína ao redor das partículas individuais de gordura também será fina, aumentando o risco de rompimento do filme proteico e a separação da gordura durante o tratamento térmico e reduzindo a estabilidade da emulsão (FEINER, 2006; KNIPE, 2014; MANDIGO; SULLIVAN, 2014). Em relação ao tempo e velocidade de trituração pode ocorrer: “Underchopping” que geralmente resulta em superfícies proteicas inter- faciais com camadas grossas de segmentos miofibrilares ao redor das partículas de gordura e sem distribuição eficiente de proteínas e/ou gordura em toda a interface; ou “Overchopping” que leva a formação de um filme proteico fino com baixa resistência mecânica incapaz de impedir a migração de partículas de gordura para a superfície do pro- duto cárneo, onde formam pequenos bolsões (ALLAIS, 2010; FEI- NER, 2006; KNIPE, 2014; MANDIGO; SULLIVAN, 2014). Nas duas 78 situações citadas, além da influência na espessura do filme proteico ao redor das partículas de gordura, o tempo de trituração poderá influen- ciar as propriedades da rede proteica viscoelástica formada durante o cozimento do produto, devido a uma redução da quantidade de proteína em contato com a água na matriz proteica. Consequente- mente, os filmes proteicos formados tendem a ter baixa elasticidade e resistência mecânica, rompendo-se mais facilmente resultando na separação da gordura. A textura final dos produtos cárneos de massa fina é resultado, principalmente, da rede proteica formada durante o cozimento. O processamento térmico causa desdobramentos proteicos e a forma- ção de uma rede ordenada, estabilizada por interações hidrofóbi- cas e ligação de hidrogênio. Essa agregação das moléculas proteicas induzida pelo calor é geralmente um processo irreversível que não pode ser rompido por meios físicos. Isso resulta em uma imobiliza- ção da gordura, da água e de outros constituintes. Uma falha na for- mação do gel pode produzir uma perda excessiva de água e gordura e modificar a textura final do produto. Nesse caso, a separação da gor- dura durante o cozimento poderá ocorrer devido à floculação e coa- lescência das partículas de gordura (ALLAIS, 2010). Na formação da matriz de gel proteico durante o processo de cozimento de produtos cárneos ocorre inicialmente o desdobramento inicial das moléculas individuais de proteína (desnaturação), seguido por sua agregação, principalmente por meio de interações hidrofó- bicas e, por fim, pela agregação de proteínas pequenas ou oligôme- ros que se ligam para formar pequenas fitas, resultando em uma rede viscoelástica contínua. Em condições normais de processamento da carne (pH 6,0 e 0,6 M ou 2,5 % de NaCl), observa-se a formação de uma rede de gel com alta elasticidade e capacidade de retenção de água, principalmente, pela gelatinização da miosina no extrato salino da carne processada. Essa gelatinização começa com o desdobramento da região da cabeça da miosina (≈ 35 ºC) e com a associação de gru- pos hidrofóbicos entre as cabeças das moléculas. Esses oligômeros 79 coalescem (≈ 48 ºC), produzindo certa elasticidade. Quando a tempe- ratura se aproxima de 50 e 60 ºC ocorrem mudanças conformacionais na cauda da molécula de miosina, criando uma estrutura aberta que expõe regiões hidrofóbicas e grupos específicos das cadeias laterais. A associação da miosina via interação cauda-cauda sob aquecimento leva à formação de uma rede de gel com alta elasticidade e capacidade de retenção de água. O gel formado após cozimento pode ser con- siderado como um sistema em que agregados formados a partir de proteínas miofibrilares extraídas, fragmentos de miofibrilas e partí- culas de gordura revestidas com proteínas interagem formando uma rede entrelaçada. Esse gel de matriz proteica é estabilizado por uma combinação de força, incluindo, principalmente, interações hidro- fóbicas e eletrostáticas, ligações de hidrogênio e interações de Van der Waals (STRASBURG; XIONG, 2019). Durante a etapa de cozimento do produto cárneo, temperatura muito acima de 60 ºC e umidades relativas muito elevadas, próximas ou acima de 90 % podem causar quebra da emulsão e separação da gordura, devido ao reagrupamento de pequenas partículas de gordu- ras dispersas, aumentando a pressão interna dessas partículas sobre as paredes do filme proteico interfacial. Esse reagrupamento é favo- recido pela fusão das partículas de gordura encapsulada, redução da viscosidade da massa cárnea e coagulação das proteínas, que ocorre devido às temperaturas muito elevadas. A quebra da emulsão pode acarretar o aparecimento de um filme de gordura na superfície do produto cárneo, no seu interior ou nas extremidades das embala- gens que o recobre. 5 COZIMENTO DA CARNE: PRINCIPAIS ALTERAÇÕES E MÉTODOS UTILIZADOS O cozimento é uma das formas mais antigas de processamento e preparo da carne. Mudanças na conformação nativa das molécu- las proteicas causadas pela ação do calor (desnaturação), associação 80 e agregação de moléculas (interação proteína-proteína) com forma- ção de gel, redução da umidade, perda de peso, alteração da forma e do tamanho, e de propriedades sensoriais são algumas das mudan- ças que ocorrem durante o cozimento da carne. O cozimento intensifica o flavour, altera a textura e a cor da carne e produtos cárneos; diminui a umidade e atividade de água; desnatura e coagula as proteínas da carne; tem um papel importante no desenvolvimento de uma grande variedade de produtos cárneos (BOLES, 2014), influencia a qualidade em relação à digestibilidade, palatabilidade, segurança e em termos nutricionais (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014; TONBERG, 2005) e contribui para a estabilidade microbiológica. Os métodos de cocção aplicados no processamento e preparo de um corte ou produto cárneo entre 74 e 80 ºC, até que seu cen- tro geométrico atinja 72 ºC, melhoram sua coesão, consistência e firmeza, e contribui para sua segurança microbiológica (BOILES, 2010). O aumento da temperatura promove alterações químicas e estruturais na carne, melhorando sua palatablilidade e eliminando células vegetativas e esporos de microrganismos patogênicos, depen- dendo do binômio tempo e temperatura aplicado, entre outros fato- res (JAMES; JAMES, 2004). Métodos convencionais de cozimento utilizam a condução (transferência de calor por difusão, quando há um gradiente de tem- peratura entre um meio estacionário sólido ou fluido), convecção (transferência de calor entre uma superfície e um fluido em movi- mento) e radiação (energia emitida na forma de ondas eletromag- néticas) como meios de transferência de calor. Outras formas de transferência de energia são empregadas em métodos denominados não convencionais como microondas. Os métodos mais empregados no cozimento de carnes e produ- tos cárneos envolvem o emprego do calor seco (assar; grelhar/dou- rar; fritar) e do calor úmido, que em geral ocorre a temperaturas mais baixas por maior tempo empregando vapor ou fervura. 81 5.1 Alterações pelo cozimento Alterações no arranjo estrutural das proteínas da carne durante o cozimento promovem mudanças significativas na estrutura e nas pro- priedades sensoriais e físico-químicas da carne. O arranjo intramole- cular e intermolecular de proteínas fibrosas como a actina, miosina, titina, formando uma espécie de bloco, são mantidos, especialmente, pelo grande número de ligações de pontes de hidrogênio e interações eletrostáticas. O rompimento dessas ligações, devido ao calor, resulta em alteraçõesdo arranjo espacial, promovendo o encolhimento des- sas proteínas quando a carne é submetida ao cozimento. Por outro lado, as moléculas de proteínas globulares como a mioglobina quando submetidas ao calor podem sofrer uma expansão e um desdobra- mento parcial, seguido pela associação dessas proteínas dissociadas (PALKA; WĘSLERSKA, 2014). O fornecimento de energia cinética e o aumento da agitação das moléculas, através do calor gerado pelo aumento da temperatura do meio, podem resultar no rompimento de forças intramoleculares mais fracas que mantêm as proteínas interligadas, e promover a desnatu- ração proteica, resultando em alterações na estrutura da molécula e perda de sua conformação nativa. Essa alteração resulta, em geral, no desdobramento da molécula e tende a aumentar com o aumento da temperatura, principalmente acima de 80 ºC. Ocorre uma perda da estrutura secundária e terciária, fazendo com que a proteína perca sua estrutura tridimensional (DAVIS; WILLIAMS, 1998). Além de mudanças na estrutura, o aumento da temperatura durante o cozimento resulta em mudanças na distribuição de água na carne. Há perda de água, derretimento e gotejamento da gor- dura, e mudanças no flavour e textura (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014). Como a desnaturação das proteínas da carne, em geral, inicia a 50 ºC, um aumento gradual da temperatura é recomendado, de forma que esse processo ocorra de forma mais lenta. O encolhimento 82 transversal das miofibrilas a 45 ºC, a desnaturação das proteínas sar- coplasmáticas e da α-actinina e miosina no intervalo de 40 a 50 ºC, a diminuição do sarcômero e início da desnaturação do colágeno entre 50 e 60 ºC são alguns dos fatores que contribuem para a perda de água da carne com o cozimento. Porém, apesar da alteração do com- primento do sarcômero e o encolhimento das miofibrilas continua- rem com o aumento de temperatura, a taxa de perda de água da carne diminui. Um endurecimento, geralmente, pode ocorrer em tempera- turas acima de 50 ºC, porém entre 50 e 60 ºC há um decréscimo na dureza da carne. A partir de 60 ºC pode ocorrer um novo endureci- mento, mudança de cor e formação do pigmento metamioglobina de coloração amarronzada. Um aumento progressivo da exposição da parte hidrofóbica (aumento da hidrofobicidade) das proteínas mio- fibrilares, ocorre a partir de 65 ºC e decresce novamente com tem- peraturas mais elevadas (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014; HANSON, 2004; BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014; PALKA; WĘSLERSKA, 2014;) como explicado anteriormente (Parte 1, Item 1.5, Desnaturação proteica). Outro efeito é a coagulação das proteínas da carne, que geral- mente ocorre entre 70 °C e 80 °C, e é responsável por características como a firmeza da carne e produtos cárneos após cozimento (JAMES; JAMES, 2004). Essas alterações induzidas pelo calor na estrutura das moléculas proteicas modificam a qualidade da carne, incluindo alterações na cor, maciez e capacidade emulsificante entre outras propriedades (SUMAN et al., 2013; SUN et al., 2011; CHRISTEN- SEN et al., 2000). O desenvolvimento do flavour ocorre a partir de 70 ºC, e assim como a oxidação de grupos sulfidrílicos com formação de compos- tos aromáticos, é responsável pela melhor palatabilidade da carne após cozimento. Em relação à textura, entre 66-68 ºC a dureza da carne tende a diminuir rapidamente, atingindo um valor mínimo e, então, aumenta até um valor máximo, atingido em temperaturas superiores a 80 ºC. Em um primeiro estágio do cozimento, acima 83 de 65 ºC, a atividade proteolítica de enzimas endógenas contribui para o rompimento da estrutura miofibrilar das fibras musculares; em um segundo estágio, entre 70 e 100 ºC, ocorre o rompimento da estrutura e a solubilização das fibras de colágeno; e acima de 100 ºC há rompimento da estrutura do colágeno bem como das miofibrilas (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014; TONBERG, 2005; JAMES; JAMES, 2004). O cozimento da carne pode ter um impacto negativo em rela- ção à oxidação de lipídeos, desenvolvimento de warmed-over flavour (WOF) e na retenção de vitaminas, especialmente aquelas solúveis em água com a riboflavina, tiamina e niacina (BOLES, 2010). 5.2 Métodos de cocção Os métodos de cozimento mais comuns empregados no processa- mento e preparo da carne e produtos cárneos diferem entre si basica- mente em relação ao método de transferência de calor (por contato, através do ar, água ou vapor, ou por microondas); à temperatura que se atinge na superfície da carne; e em relação ao perfil de tempera- tura no interior do corte ou produto cárneo durante o cozimento (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014). Apesar da grande variedade de equipamentos usados no cozi- mento, fornos, estufas ou túneis utilizam como meio de aquecimento basicamente ar quente (convecção natural ou forçada), vapor, água quente e microondas. Fornos de convecção de ar forçado, estufas a vapor e tanques de água quente (encamisados/banho-maria) são comuns na indústria de processamento cárneo (HANSON, 2004). Métodos de cozimento lento, que em geral envolvem tem- peraturas menores por um tempo maior (ferver, refogar), empre- gam um fluido como meio de transferência de calor e, geralmente são recomendados para carne e produtos cárneos com uma quanti- dade maior de tecido conectivo. Em métodos como assar, grelhar ou fritar, a transferência de calor ocorre diretamente entre o meio 84 de aquecimento e a superfície do produto. Em geral, os métodos de cozimento da carne envolvem mais de uma forma de transferência de calor (BEJERHOLM; TØRNGREN; AASLYNG, 2014). Métodos de cozimento que empregam ar úmido resultam em aumento mais rápido da temperatura superficial do produto quando comparados aos métodos empregando ar seco (BOLES, 2010). A taxa de transferência de calor na carne durante o cozimento vai depender da diferença de temperatura entre a superfície da carne e o meio de aquecimento (temperatura de cozimento); do coeficiente de transferência de calor do meio de aquecimento; e do tempo total de cozimento (RANKEN, 2000). Portanto, para se definir qual o método de cozimento empregar e quais parâmetros do processo apli- car (tempo, temperatura, velocidade do ar, umidade etc.) é impor- tante conhecer a composição da carne ou do produto cárneo, a taxa de transferência de calor entre o meio e a superfície da carne ou do produto cárneo, o tamanho e formato, e o perfil de temperatura da superfície até o ponto geométrico ao longo do cozimento, entre outros fatores (HANSON, 2004). O cozimento empregando o vapor e o cozimento em água quente são exemplos de métodos de cozimento que podem ser con- siderados processos simples, nos quais o tempo e temperatura de cozimento são as principais variáveis de controle. São métodos efi- cazes na transferência de calor para a superfície do produto, devido aos altos coeficientes de transferência de calor do vapor e da água quente. Outro exemplo seria método de cozimento e defumação de produtos cárneos, que geralmente são cozidos e defumados em for- nos de convecção de ar forçado contínuos (estufas ou túneis de cozi- mento e defumação) em processos industriais ou defumadores em processos em batelada (em pequena escala ou artesanais) (HANSON, 2004; BOLES, 2010). Nesse método além do tempo e temperatura de cozimento, o controle da velocidade e a umidade relativa do ar no interior do equipamento, entre outros fatores, interferem nas carac- terísticas do produto. 85 REFERÊNCIAS ALLAIS, I. Emulsification. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Handbook of Meat Processing. 5..ed. Iowa: Blackwell Publishing, 2010. p. 143-168. ARNAU, A. J. Cooked ham. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.) Encyclopedia of Meat Science. 2. ed., v. 2, p. 82-86. San Diego: Academic, 2014. ASTRUC, T. Muscle fiber types and meat quality. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed., v. 2, p. 442-448. San Diego: Academic, 2014. BARBUT, S. The science of poultry and meat processing. Onta-rio: University of Guelph, 2015. Chap. 13. BEJERHOLM, C.; TØRNGREN, M. A.; AASLYNG, M. D. Cooking of meat. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Handbook of Meat Processing. 2. ed. San Diego: Academic, 2014. v. 1, p. 370-376. BOLES, J. A. Thermal processing. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Han- dbook of Meat Processing. 5..ed. Iowa: Blackwell Publishing, 2010. p. 169-183. BORYS, A. Liquid smoke application. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. San Diego: Academic, 2004. p. 1272-1277. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ins- trução Normativa n. 92, de 18 de setembro de 2020. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 182. p. 3, 22 set. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n- -92-de-18-de-setembro-de-2020-278692460 Acesso em: 12 ago. 2021. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n-92-de-18-de-setembro-de-2020-278692460 https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-n-92-de-18-de-setembro-de-2020-278692460 86 CARUSO, M. S. F.; ALABURDA, J. Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos benzo(a)pireno: uma revisão. Revista Instituto Adolfo Lutz, v. 67, n. 1, p. 1-27, 2008. Diponível em: http://www.ial.sp.gov. br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/rial/2000/rial67_1_ completa/1146.pdf Acesso 27 ago 2023. CHRISTENSEN, M.; PURSLOW, P. P., LARSEN, L. M. The effect of cooking temperature on mechanical properties of whole meat, single muscle fibres and perimysial connective tissue. Meat Science, n. 55, p. 301-307, 2000. DOI: https://doi.org/10.1016/ S0309-1740(99)00157-6 DAVIS, P. J., WILLIAMS, S. C. Protein modification by thermal pro- cessing. Allergy, v. 53, suppl 46, p. 102-105, 1998. DOI: https://doi. org/10.1111/j.1398-9995.1998.tb04975.x FARIA, J. A. F.; FELÍCIO, P. E.; NEVES, M. A.; ROMANO, M. A. Formação e estabilidade da cor de produtos cárneos curados. Revista TEC carnes, v. 3, n. 2, p. 16-22, 2001. FLORES, M.; TOLDRÁ, F. Chemistry, safety, and regulatory con- siderations in the use of nitrite and nitrate from natural origin in meat products. Meat Science, 171, p. 108-272, 2021. DOI: https:// doi.org/10.1016/j.meatsci.2020.108272 GARCIA, L. P., GONÇALVES, B. L.; PANHO, G.; SCUSSEL, V. M. Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos em alimentos: uma revisão. PUBVET. 268. ed., Londrina, v. 8, n. 19, out. 2014. DOI: https:// doi.org/10.22256/pubvet.v8n19.1788 GOMIDE, L. A. M.; RAMOS, E. M.; FONTES, P. R. Ciência e qua- lidade da carne: fundamentos. Viçosa: Ed. UFV, 2013. 197 p. http://www.ial.sp.gov.br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/rial/2000/rial67_1_completa/1146.pdf http://www.ial.sp.gov.br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/rial/2000/rial67_1_completa/1146.pdf http://www.ial.sp.gov.br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/rial/2000/rial67_1_completa/1146.pdf https://doi.org/10.1016/S0309-1740(99)00157-6 https://doi.org/10.1016/S0309-1740(99)00157-6 https://doi.org/10.1111/j.1398-9995.1998.tb04975.x https://doi.org/10.1111/j.1398-9995.1998.tb04975.x https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2020.108272 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2020.108272 https://doi.org/10.22256/pubvet.v8n19.1788 https://doi.org/10.22256/pubvet.v8n19.1788 87 GOUVÊA, J. A. G. de; GOUVÊA, A. A. L. de. Tecnologia de fabri- cação do charque. Dossiê Técnico. Rede de Tecnologia da Bahia (RETEC/BA). Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas (SBRT), 2007a. 21 p. Disponível em: http://www.sbrt.ibict.br. Acesso em: 12 ago. 2021. GOUVÊA, J. A. G. de; GOUVÊA, A. A. L. de. Tecnologia de fabricação da carne de sol. Dossiê Técnico. Rede de Tecnologia da Bahia (RETEC/BA). Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas (SBRT), 2007b. 22 p. Disponível em: http://www.sbrt.ibict.br Acesso em: 12 ago. 2021. GUERREIRO, L. Produção de salsicha. Dossiê Técnico. REDETEC/ RJ. 41 p. Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas (SBRT), 2006. Disponível em: http://www.sbrt.ibict.br Acesso em: 12 ago. 2021. HANSON, R. E. Smoking and cooking equipment. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. v. 3, p. 131-142. HANSON, R. E. Smoking and cooking equipment. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Else- vier, 2004. p. 1062-1073. HONIKEL, K. O. Curing agents. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. v. 1, p. 200-205. JAMES, S. J., JAMES, C. Heat processing methods. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Else- vier, 2004. p. 599-606. http://www.sbrt.ibict.br http://www.sbrt.ibict.br http://www.sbrt.ibict.br 88 KNIPE, C. L. Emulsion. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Elsevier, 2014. v. 3, p. 256-260. KNIPE, C. L. Tumblers and massagers. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Elsevier, 2004. p. 1054-1057. MAJOU, D.; CHRISTIEANS, S. Mechanisms of the bactericidal effects of nitrate and nitrite in cured meats. Meat Science, n. 145, p. 273-284, 2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2018.06.013 MANDIGO, R. W.; SULLIVAN, G. A. Emulsions and batters. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Elsevier, 2014. v. 1, p. 283-288. MARIUTTI, L. R. B.; BRAGAGNOLO, N. A oxidação lipídica em carne de frango e o impacto da adição de sálvia (Salvia officinalis, L.) e de alho (Allium sativum, L.) como antioxidantes naturais. Revista do Instituto Adolfo Lutz, v. 68, n. 1, p.1-11, 2009. MORRISSEY, P. A. et al. Lipid stability in meat and meat pro- ducts. Meat Science, v. 49, n. 1, p. 73-86, 1998. DOI: https://doi. org/10.1016/S0309-1740(98)90039-0 NOVA, R.; GONZÁLEZ-SCHNAKE, F. Red meat animals. In: DIKE- MAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Elsevier, v. 2, p. 211-217, 2014. OGAWA, M.; MAIA, E. L. Manual de pesca. São Paulo: Varela, 1999. 430 p. OLIVO, R.; RIBEIRO, L. G. T. Novos conceitos sobre nitratos e nitri- tos. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research, v. 24, n. https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2018.06.013 https://doi.org/10.1016/S0309-1740(98)90039-0 https://doi.org/10.1016/S0309-1740(98)90039-0 89 3, p. 115-125, set./nov. 2018. Disponível em: https://www.mastere- ditora.com.br/periodico/20181103_222910.pdf. Acesso 27 ago 2023. PALKA, K.; WESIERSKA, E. Physics and chemistry. In: DIKE- MAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. S. l.: Elsevier, v. 1, p. 404-409, 2014. RANKEN, M. D. Handbook of meat product technology. Oxford, London: Blackwell Science, 2000. 245 p. ROÇA, R. O. Tecnologia da carne e produtos derivados. Botu- catu: Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, 2000. 202 p. Disponível em: https://www.fca.unesp.br/Home/Instituicao/Depar- tamentos/Gestaoetecnologia/Teses/Roca107.pdf Acesso 27 ago 2023. SGARBIERI, V. C. Proteínas em alimentos protéicos: proprie- dades, degradações, modificações. São Paulo: Varela, 1996. 517 p. SIKORSKI Z. E.; KOŁAKOWSKI, E. Smoking. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Handbook of Meat Processing. 5. ed. Iowa: Blackwell Publishing, 2010. p. 5-24. SIKORSKI, Z. E.; SINKIEWICZ, I. Traditional. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. San Diego: Aca- demic, 2014. v. 3, p. 321-327. SIKORSKI, Z. E. Traditional. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. San Diego: Academic, 2004. p. 1265-1272. SILVA SOBRINHO, A. G. DA; ZEOLA, N. M. B. L.; SOUZA, H. B. A. DE; LIMA, T. M. A. de. Qualidade da carne ovina submetida ao processo de salga. Ciência e Tecnologia de https://www.mastereditora.com.br/periodico/20181103_222910.pdf https://www.mastereditora.com.br/periodico/20181103_222910.pdf https://www.fca.unesp.br/Home/Instituicao/Departamentos/Gestaoetecnologia/Teses/Roca107.pdf https://www.fca.unesp.br/Home/Instituicao/Departamentos/Gestaoetecnologia/Teses/Roca107.pdf 90 Alimentos, v. 24, n. 3, p. 369-372, 2004. DOI: https://doi. org/10.1590/S0101-20612004000300011SUMAN, S. P.; JOSEPH, P. Myoglobin chemistry and meat color. Annual Review of Food Science and Technology, n. 4, p. 79-99, 2013. SUN, X. D.; HOLLEY, R. A. Factors influencing gel formation by myofibrillar proteinsin muscle foods. Comprehensive Reviews in Food Science Food Safety, n. 10, p. 33-51, 2011. DOI: https://doi. org/10.1111/j.1541-4337.2010.00137.x TONBERG, E. Biophysical aspects of meat tenderness. Meat Science, v. 43, suppl. 1, p. 175-191, 2005. DOI: https://doi.org/10.1016/030 9-1740(96)00064-2 WURZLER, G. T. Fragmentação e hidrodesoxigenação dos resíduos de cana-de-açúcar via processo organosolv catalí- tico para a produção de bio-óleo. Tese (Doutorado em Enge- nharia Química) ‒ COPPE. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2019. 148 f. Disponível em https://pantheon.ufrj. br/bitstream/11422/13583/1/GleicielleTozziWurzler-min.pdf Acesso 27 ago 2023. https://doi.org/10.1590/S0101-20612004000300011 https://doi.org/10.1590/S0101-20612004000300011 https://doi.org/10.1111/j.1541-4337.2010.00137.x https://doi.org/10.1111/j.1541-4337.2010.00137.x https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00064-2 https://doi.org/10.1016/0309-1740(96)00064-2 https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/13583/1/GleicielleTozziWurzler-min.pdf https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/13583/1/GleicielleTozziWurzler-min.pdf 91 Parte 3 Produtos cárneos: legislação, ingredientes/ insumos, tecnologia Produtos cárneos são sistemas alimentícios particularmente comple- xos devido à sua composição, em geral, apresentando elevados teo- res de proteína, lipídeos, água, além da presença de minerais e outros constituintes. O processamento da carne resulta em mudanças no odor, sabor, textura e aparência do produto, decorrentes de múlti- plas interações físicas e químicas dos componentes da massa cárnea, e destes com ingredientes e aditivos alimentares adicionados. Com o objetivo de aumentar a conservação, e de garantir a qualidade e a segurança da carne, o processamento inibe ou retarda reações quí- micas e enzimáticas associada à deterioração; previne ou elimina a presença de contaminantes químicos, físicos e microbiológicos; eli- mina ou inibe crescimento de microrganismos; além de possibilitar a agregação de valor e o desenvolvimento de produtos. Para o consumidor, além do valor nutricional, os atributos sen- soriais como sabor, maciez e textura são importantes na avaliação 92 e aceitação da carne e produtos cárneos. Nesse caso, a cor e textura juntamente com a maciez e suculência são as características que mais influenciam a decisão de compra dos consumidores. Os ingredientes e aditivos alimentares são adicionados para garantir a qualidade e segurança dos produtos. A quantidade insufi- ciente de um determinado aditivo alimentar pode resultar em redu- ção da segurança, ou de características como a coesividade com alteração da textura e aparência, da cor e do rendimento do pro- duto, entre outras. A utilização de ingredientes naturais na formu- lação de produtos cárneos industrializados e a substituição parcial ou total de aditivos alimentares tradicionalmente utilizados por com- postos naturais com propriedades antimicrobianas e antioxidantes têm se tornado exigências de um consumidor preocupado com uma dieta mais saudável. Legislações específicas sobre o uso de aditivos alimentares em carnes e produtos cárneos definem quais aditivos são autoriza- dos, suas respectivas funções, os níveis seguros e condições de uso no alimento, estabelecendo os limites máximos permitidos de um determinado composto no produto pronto para consumo. No desen- volvimento da formulação de um produto cárneo, além da questão técnica relacionada aos ingredientes, métodos e parâmetros empre- gados no processo, a consulta e o atendimento à legislação vigente são pontos importantes e que devem ser levados em consideração. Os regulamentos técnicos fixam as características mínimas de identidade e qualidade do alimento, definindo o produto, bem como suas características físico-químicas, microbiológicas e sensoriais. Algumas legislações podem ser destacadas como: a RDC n. 272, de 14/03/2019 – Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre aditi- vos alimentares autorizados para uso em carnes e produtos cárneos; a Instrução Normativa n. 42 – 29/12/1999 do MAA sobre contami- nantes orgânicos; Decreto n. 9.013, de 29/03/2017, que regulamenta a Lei n. 1.283, de 18 de dezembro de 1950, e a Lei n. 7.889, de 23 de novembro de 1989, e dispõem sobre a inspeção industrial e sanitária 93 de produtos de origem animal. Além daquelas relacionadas à higiene (“Código Internacional Recomendado de Práticas de Higiene para os Produtos Cárneos Elaborados”; “Código Internacional Recomendado de Práticas de Higiene para a Carne Fresca“; “Código Internacional Recomendado de Práticas e Princípios Gerais de Higiene dos Alimen- tos (Codex Alimentarius); aos critérios macroscópicos/microscópicos (relacionados à ausência de material estranho ao processo de industria- lização); aos critérios microbiológicos (Portaria n. 451, de 19/09/1997 do MS e Instrução Normativa n. 60, de 23/12/2019 do MS); ao con- trole de resíduos em produtos de origem animal (Instrução Norma- tiva n. 42, de 20/12/1999 do MAPA); aos pesos e medidas; à rotulagem (RDC Nº 429, DE 8 DE OUTUBRO DE 2020, ANVISA); aos méto- dos de análises (Instrução Normativa n. 20, de 21 de julho de 1999, do MAA; AOAC); e à amostragem (ABNT-NBR 5426, jan. 1985). Algumas técnicas tradicionais aplicadas na fabricação de pro- dutos cárneos mais convencionais como hambúrguer, carne salgada, presunto cozido, bacon, salsicha, e embutidos defumados serão des- critos a seguir, bem como aspectos relacionados à legislação, ingre- dientes e insumos, e etapas do processo. 1.1 Processamento do hambúrguer O hambúrguer tem grande aceitação e seu consumo é comum na ali- mentação em função do preparo rápido e fácil. Geralmente é comer- cializado cru e a cadeia do frio é o principal mecanismo de barreira para sua conservação. 1.2 Definição, critérios sensoriais, fisico-químicos e microbiológicos A Portaria SDA n. 724, de 23 de dezembro de 2022, do MAPA que aprova o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Ham- búrguer define hambúrguer como produto cárneo industrializado 94 obtido da carne moída dos animais de açougue, adicionado ou não de tecido adiposo e ingredientes, moldado na forma de disco ou na forma oval, e submetido a processo tecnológico adequado, podendo ser cru, cozido, congelado ou resfriado. Deve ser designado de ham- búrguer, seguido da indicação do nome da espécie animal de origem da carne, seguido das expressões que couberem (ex.: hambúrguer de carne bovina ou hambúrguer bovino; hambúrguer de carne de frango ou hambúrguer de frango; hambúrguer de carne bovina com queijo ou hambúrguer de bovino com queijo). A indicação do corte de carne utilizado na fabricação do hamburguer somente poderá ser incluída na denominação de venda, quando 100% da matéria-prima cárnea for proveniente desse corte (ex.: hamburguer de picanha). Se o hambúrguer for produzido com carne de mais de uma espécie animal, a indicação das espécies utilizadas deve constar na denomi- nação de venda do produto (ex.: hamburguer de carne suína e carne bovina) (BRASIL, 2022). As características sensoriais do hambúrguer são definidas de acordo com o processo de obtenção, devendo o produto apresentar textura, cor, sabor e odor característicos. Em relação a alguns parâme- tros físico-químicos estabelecidos pela legislação, o hambúrguer deve conter teor de gordura máximo de 25 %; teor de proteína mínimo de 15 %; teor de carboidratos totais máximo de 3 %; entre outros. O acondicionamento do hambúrguer deverá ser realizado em embala- gens de materiais adequados para as condições de armazenamento e que lhe confiram uma proteção apropriada (BRASIL, 2022). 1.3 Ingredientes e insumos Na composição do hambúrguer, a carne é ingrediente obrigatório e como ingredientesopcionais são permitidos gordura animal; gordura vegetal; água; Cloreto de sódio; sais hipossódicos; proteínas de ori- gem animal; proteínas de origem vegetal; mono e dissacarídeos; mal- todextrina; aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia previstos 95 em legislação específica do órgão regulador da saúde e aprovados pelo MAPA; condimentos, aromas e especiarias; vegetais; queijos; e outros recheios. A adição de carne mecanicamente separada (CMS) é permi- tido, no limite máximo de 30 %, exclusivamente em hambúrguer cozido. É permitido também o uso de vegetais, queijos e outros recheios e a adição de no máximo 4,0 % de proteína não cárnea na forma agregada. Devem ser observados os critérios microbiológicos para o hambúrger, estabelecidos em legislação específica vigente (BRASIL, 2022). Em geral, são utilizados músculos magros, podendo ser cortes dianteiros ou traseiros, aparas e retalhos magros desses cortes. A gor- dura é um ingrediente opcional, porém sua adição na elaboração do hambúrguer contribui com características sensoriais, melhorando, principalmente a textura e sabor. Normalmente, é adicionado tou- cinho suíno sem pele. Em hambúrgueres de frango ou peru pode-se adicionar pele de frango (normalmente entre 5 e 15 %). Em hambúr- gueres com menores teores de gordura podem ser utilizadas emul- sões, contendo, por exemplo, uma combinação de óleo: proteína de soja: água ou substitutos de gordura como a carragena, fibras, amido, amidos modificados entre outros (FEINER, 2006). A água é outro ingrediente opcional geralmente adicionada por contribuir com o rendimento do produto, solubilização de ingredien- tes como o sal e o fosfato e com a suculência. O cloreto de sódio (NaCl) é o sal mais utilizado e sua adição, em geral, ocorre em concentrações entre 1,5 % e 3,0 %, que aumenta a capacidade de retenção de água da carne e contribui com a redu- ção da atividade de água, o que auxilia na conservação do produto. Em formulações de hambúrguer, a adição de tripolifosfato de sódio (Na5P3O10) é recomendada quando são adicionadas quantidades de água superiores a 5 % em relação à massa cárnea, uma vez que um aumento significativo da retenção de água pela carne pode alterar a textura do produto, tornando-o mais firme e duro. Em geral, o ham- búrguer deve apresentar uma textura menos firme após preparo para consumo (FEINER, 2006). 96 Condimentos, como temperos e especiarias (noz moscada, alho, pimenta, entre outros), podem ser utilizados para realçar ou confe- rir, principalmente, sabor ao hambúrguer. Entretanto, em algumas formulações para realçar o sabor original da carne, principalmente da bovina, prefere-se a utilização apenas do sal. Nesse caso, alguns tipos de pimenta também podem ser utilizados. Proteína texturizada de soja ou concentrados e isolados proteicos texturizados de soja são utilizados em hambúrgueres, normalmente, porque contribuem com a firmeza do produto e são capazes de imobi- lizar a água adicionada durante o processo, o que influencia parâmetros de textura como mastigabilidade, elasticidade, maciez e suculência. A quantidade adicionada depende da quantidade de carne, gordura e água da formulação. Nos hambúrgueres com altos teores de gordura e água, geralmente, são adicionados de 4 a 6 % de concentrado ou isolado pro- teico de soja, e em hambúrgueres com teores menores, adicionam-se entre 1 e 2 % normalmente. Alguns isolados de soja podem ser adicio- nados diretamente à massa do hambúrguer, porém é comum a hidra- tação prévia da proteína de soja (ex.: proporção de 1:4 que corresponde a 1 parte de proteína de soja: 4 partes de água fria) (FEINER, 2006). Outros ingredientes como amido, especialmente, amido modi- ficado, eventualmente são utilizados na elaboração do hambúrguer. Assim como ingredientes naturais como extratos vegetais que pos- suem propriedades antimicrobianas e antioxidantes como alecrim, orégano, tomilho entre outros (SILVA; BERNARDES; PINHEIRO; GIANNOTTI; ROBERTO, 2022). Açúcares também podem ser uti- lizados, geralmente entre 0,2 e 0,5 %, por contribuírem com o sabor em equilíbrio com a quantidade de sal adicionada e com a aparência, devido à reação de Maillard que ocorre durante o preparo do ham- búrguer quando frito ou grelhado (FEINER, 2006). Um dos fatores considerados na escolha da carne e tipo de corte que serão utilizados na formulação de produtos cárneos dependerá do quanto valor se quer agregar ao produto e da relação custo-bene- fício. Porém, é extremamente importante e essencial para garantir 97 um padrão de qualidade adequado e a segurança do produto definir e especificar previamente os parâmetros de qualidade da matéria- -prima (ex.: teor de proteína, teor de gordura, pH, contagem micro- biológica, temperatura e outros), e especificações de ingredientes e insumos; a formulação (ex.: proporção dos ingredientes e aditivos ali- mentares); etapas e parâmetros do processo (ex.: tempo e tempera- tura de cozimento; tempo e temperatura de cura; tempo e velocidade de mistura; grau de trituração; tipo de embalagem, especificações de produto em processamento e produto acabado etc.); equipamentos; volume de produção, procedimentos de higienização, layout da planta de processamento, especificações para armazenamento e expedição do produto, procedimentos para controle de qualidade (ex.: análises físico-químicas, microbiológicas etc.) e outros aspectos. 1.4 Tecnologia de fabricação Cortes dianteiros ou traseiros e retalhos e aparas de cortes são nor- malmente utilizados nas formulações do hambúrguer. Hamburgue- res bovinos, por exemplo, são elaborados normalmente com cortes menos nobres como acém e paleta (geralmente para os hambúrgue- res industrializados tradicionais) ou cortes mais nobres como patinho, contrafilé ou alcatra (geralmente em produtos da linha gourmet ou arte- sanais). As carnes normalmente são processadas semicongeladas (entre -1,5 ºC e 2 ºC) , e quando fornecidas congeladas devem ser desconge- ladas em câmara fria até a faixa de temperatura citada e processadas. A etapa de moagem tem a finalidade de triturar a carne e redu- zir seu tamanho, garantindo uma massa uniforme, além de contri- buir para a ruptura das fibras musculares, o que influencia na maciez, aparência e textura do hambúrguer. Geralmente, na moagem das car- nes emprega-se uma trituração grosseira em moedor com discos de 8 a 10 mm. A gordura também é moída com a finalidade de facilitar a homogeneização da massa durante a etapa posterior de mistura, resultando em um produto com aparência mais uniforme. 98 Após trituração a carne e a gordura são misturadas e depois os ingredientes são adicionados à massa cárnea no misturador. O cálculo e pesagem da quantidade de ingredientes e de aditivos alimentares, em geral, são feitos com base na quantidade de massa cárnea a ser proces- sada. Porém, deve-se considerar sempre os limites máximos definidos pela legislação e as características de qualidade do produto descritas nos Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade. Cada ingrediente e aditivo alimentar devem ser previamente pesados separadamente e a mistura feita durante a adição no misturador. A pesagem deve ser rea- lizada em sala separada da área de produção e em condições higiênicas adequadas para se evitar possíveis contaminações da matéria-prima. Se utilizado fosfatos é comum adicioná-los e após um tempo de mistura (ex.: 30s), faz-se a adição, do sal e da água, misturando con- tinuamente (ex.: 1 minuto) até a massa apresentar algum grau de viscosidade (“massa pegajosa”). Posteriormente, os demais ingre- dientes são misturados por um curto período. O tempo de mistura (10 a 15 minutos) irá influenciar a textura menos ou mais firme do hambúrguer, que está relacionado ao grau de extração de proteínas miofibrilares. A temperatura da massa durante a mistura não deve exceder 4 ºC para minimizar, principalmente, o risco de contamina- ção microbiológica (FEINER, 2006). Na etapa de moldagem,a temperatura da massa cárnea mais baixa (em torno de -3 ºC a -1 ºC) pode facilitar a etapa de molda- gem do hambúrguer (FEINER, 2006). Os hambúrgueres são molda- dos por compressão, pressionados em moldes, e seguem por esteiras para congelamento. Normalmente na indústria, são utilizados como embalagem primária, materiais plásticos como polietileno e como embalagem secundária as caixas de papelão. O congelamento rápido pode ser realizado em congelador ou túnel em espiral, utilizando CO2 ou N2. Hambúrgueres congelados ou hambúrgueres não congelados armazenados apenas sob refrige- ração (entre 0 e 4 °C), geralmente são embalados em bandeja com uma folha de plástico de polietileno para evitar a perda de umidade. 99 O período de conservação de hamburgueres resfriados, entretanto, é inferior àquele armazenado sob congelamento. Após envase, os hambúrgueres devem ser mantidos sob conge- lamento ou refrigeração em câmaras frias com temperatura e umi- dade relativa do ar controladas. Na expedição as caixas devem ser acondicionadas em caminhões frigoríficos. Em geral, as etapas para fabricação de hambúrguer envolvem recepção da matéria-prima cárnea; seleção e limpeza da carne; cálculo e pesagem dos ingredientes, aditivos alimentares e condimentos; tri- turação da carne e gordura; mistura e homogeneização da massa cár- nea com adição dos demais ingredientes; moldagem; congelamento ou resfriamento; envase; armazenamento sob congelamento ou resfrige- ração e expedição. Como exemplo pode ser citada a seguinte sequên- cia de procedimentos a serem realizados na fabricação do hamburguer: Após recepção, desossar e limpar a carne e a gordura; Calcular e pesar os ingredientes da formulação; Se utilizada a proteína texturizada de soja (PTS) ou o isolado texturizado de soja, hidratá-los previamente; moer as carnes e a gordura separadamente em disco com orifícios de 8 mm; no misturador, misturar a carne e a gordura e, posteriormente a proteína texturizada ou o isolado texturizado de soja até se ter uma massa homogênea; adicionar os ingredientes em pó à massa cárnea até completa homogeneização; moldar o hambúrguer (60 g/unidade) intercalando embalagem de material plástico (ex: embalagem de polie- tileno) entre cada unidade e congelar (-18 ºC). Manter o produto con- gelado durante distribuição/comercialização até o preparo/consumo. 2. PROCESSAMENTO DE JERKED BEEF 2.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos A Instrução normativa n. 92, de 18 de setembro de 2020, aprova o regulamento técnico de identidade e qualidade de charque, da carne 100 salgada curada dessecada, do miúdo salgado dessecado e do miúdo salgado curado dessecado. A carne salgada curada dessecada é defi- nida como produto obtido de carne, com adição de sal e de agen- tes de cura, submetido a processo de dessecação. Se obtido da carne bovina, a denominação de venda é “carne bovina salgada curada des- secada” ou Jerked beef, seguida de expressões ou denominações que o caracterizem de acordo com sua apresentação para a venda. Pode ser utilizada adicionalmente a expressão “carne seca curada” após a denominação de venda, com mesmo tamanho e realce, para identifi- cação do produto. No caso da utilização de carnes de outras espécies animais sua designação será “carne salgada curada dessecada” seguida da denominação da espécie (BRASIL, 2020). Os seguintes parâmetros físico-químicos estabelecidos pela legis- lação para a carne salgada curada e dessecada são: atividade de água (Aw) máxima de 0,80; umidade máxima de 60 %; resíduo mineral fixo (cinzas) máximo de 25 %; e cloreto de sódio (NaCl) mínimo de 12 % (de acordo com a Instrução normativa n. 92, de 18 de setem- bro de 2020). O produto deve ser embalado com materiais adequa- dos para as condições de armazenamento e que lhe confiram uma proteção apropriada. 2.2 Ingredientes e insumos São ingredientes obrigatórios na elaboração de carne salgada curada e dessecada, a carne, sal (NaCl); e agentes ou sais de cura (nitrito de sódio ou nitrito de potássio, nitrato de sódio ou nitrato de potássio), não sendo permitido o uso de carne industrial na elaboração da carne salgada curada e dessecada. O sal deve ser isento de substâncias estra- nhas à sua composição e deve atender à legislação específica. É proi- bido o reaproveitamento de sal, para produtos comestíveis, após seu uso em processos de salga. É proibido, também, o uso de salmouras turvas, sujas, alcalinas, com cheiro amoniacal, fermentadas ou inade- quadas por qualquer outra razão, sendo permitido o tratamento para 101 recuperação de salmouras por meio de métodos como filtração por processo contínuo, pasteurização ou pelo uso de substâncias quími- cas autorizadas pelo órgão competente, desde que não apresentem alterações de suas características originais. São ingredientes opcio- nais na elaboração da carne salgada curada e dessecada os aditivos intencionais, sendo autorizado o uso com as seguintes funções: esta- bilizante, acidulante, regulador de acidez e antioxidante. Devem ser observados os critérios microbiológicos para a carne salgada curada e dessecada, estabelecidos em legislação específica (BRASIL, 2020). 2.3 Tecnologia de fabricação Com base nos procedimentos descritos na IN, n. 92 de 2020, do MAPA, inicialmente é realizada a desossa das carnes, que consiste no seu preparo em cortes ou pedaços, seguida da manteação, na qual é realizado o adelgamento das porções musculares para padronização do tamanho e espessura das mantas de carne, que devem ser realiza- das em ambiente climatizado com temperatura máxima de 16 °C. Em seguida é realizada a salga úmida ou salmouragem, que pode ser reali- zada por injeção de salmoura (sal, sais ou agentes de cura e água) nos cortes ou mantas, ou pela imersão da carne em salmoura em tanques fixos (tanques em aço inox), podendo ainda serem utilizados tambo- res rotativos (salgadeiras) para acelerar o processo de penetração e difusão do sal pelas mantas. Posteriormente, ocorre a salga seca, que consiste na adição de sal aos cortes ou mantas, dispostos em pilhas formadas por camadas intercaladas de carne e sal, de forma que a altura da pilha seja suficiente para exercer uma pressão que permita a adequada penetração do sal e saída de água do produto. Tanto a salga úmida quanto a salga seca devem ser realizadas em ambiente clima- tizado com temperatura máxima de 20 °C. O processo de inversão das das mantas de carne, denominado tombo, é realizado durante a etapa de salga seca durante a reposição de sal. Os tombos geralmente continuam a serem realizados após a salga seca por um determinado 102 período, porém, realizando apenas a inversão das pilhas sem repo- sição do sal, na etapa denominada tombagem. Os calçados utilizados pelos funcionários que trabalham no ambiente onde ocorre a etapa de salga seca devem ser de uso exclu- sivo para esse fim, sendo permitido o trânsito de funcionários sobre as pilhas de carne nessa condição. A troca dos calçados de uso não exclu- sivo para a salga seca pelos calçados de uso exclusivo deve ocorrer em um local apropriado (pré-sala) que antecede o acesso ao ambiente da salga seca, dotado minimamente de local para sua guarda e higieni- zação (BRASIL, 2020). Após período de salga seca é realizada a remoção do excesso do sal da superfície do produto, podendo ser realizada por meio da lava- gem com água potável das mantas, em tanques, ou outro método físico, com posterior empilhamento, objetivando o escoamento da água. Em seguida realiza-se normalmente a secagem natural, que consiste na dessecação das mantas, que são estendidas em varais posicionados em ambientes externos e que podem ser varais não cobertos ou cobertos com material que permita a passagem da luz solar, ou ainda podem ser utilizadas estufas para secagem. No caso do uso de varais, esses devem ser de material higienizável. Por último realiza-se o corte/fraciona- mento, prensagem, seguidos do envase do produto,normalmente a vácuo, em embalagens de polietileno, armazenamento e expedição. Em geral, as etapas para fabricação da carne salgada, curada, dessecada ou Jerked beef envolvem recepção, dessosa e manteação da matéria-prima cárnea, cálculo e pesagem dos ingredientes, aditivos ali- mentares, salmouragem, salga seca realizada em três etapas ‒ pilha de salga, ressalga e pilha de volta ‒, tombagem, lavagem, secagem, corte/ prensagem/envase, e armazenamento/expedição. Como exemplo, pode ser citada a seguinte sequência de procedimentos a serem rea- lizados na fabricação do Jerked beef: Após recepção e desossa, formar mantas de carne bovina para padronização do tamanho e espessura dos cortes; preparar a salga úmida com adição de água, sal (Cloreto de sódio) e agentes de cura; realizar a salga úmida por imersão das mantas 103 em salmoura por aproximadamente sessenta a noventa minutos, sob agitação lenta e contínua, ou utilizando salgadeiras, nesse caso, por curto período; na primeira etapa de salga seca, empilhar as mantas de carne umas sobre as outras, intercalando uma camada de sal grosso com uma camada de mantas, sucessivamente e manter nessa posição por no mínimo 24 horas; na segunda etapa da salga seca denominada ressalga, repetir o procedimento anterior, invertendo-se a pilha, inter- calando uma camada de sal grosso com uma camada de mantas, de forma que a manta colocada na parte superior seja transferida para a posição inferior da pilha e mantê-las por mais 24 horas; e na terceira etapa denominada pilha de volta repetir a salga seca, de forma que as mantas retornem à posição original com nova adição de sal e mantê- -las por mais por 24 horas empilhadas; na tombagem movimentar as mantas, invertendo as peças que estão na parte superior da pilha para a parte inferior sem adição de sal a cada 24 horas. Recomenda-se a repetição desse procedimento por no mínimo três vezes (3 tombos) com intervalos de 24 horas entre as inversões; na etapa de lavagem, realizar a imersão das mantas em tanques com água clorada (0,5 mg de hipoclorito de sódio/litro de água potável) retirando-se o excesso de água e; estender as mantas em varais sob o sol por quatro a oito horas para secagem e depois empilhá-las e cobri-las com lona por 24 horas. Recomenda-se que os procedimentos para secagem natural das mantas devam ser realizados por no mínimo três vezes, depen- dendo das condições ambientais (temperatura e umidade relativa do ar), ou até a redução da umidade do produto a valores abaixo de 60 % e atividade de água inferior a 0,80, conforme parâmetros físico-quí- micos estabelecidos pela legislação. Ao final da etapa de secagem, as mantas, em geral, são cortadas, embaladas (normalmente são utili- zadas embalagens a vácuo) prensadas e devem ser armazenadas em local apropriado até expedição. As características do produto podem variar de acordo com os procedimentos empregados na sua fabrica- ção, resultando em um produto mais ou menos seco, duro e salgado, com maior ou menor tempo de conservação. 104 3. PROCESSAMENTO DO PRESUNTO 3.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos A Portaria SDA n. 765, de 6 de abril de 2023, do MAPA aprova o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do presunto cozido, presunto cozido superior, presunto cozido tenro e do presunto cozido de aves, no qual são fixadas a identidade e as características mínimas de qualidade dos produtos. Com base na referida Portaria, o presunto cozido, presunto cozido superior e presunto cozido tenro, sendo que este último deve ser obrigatoriamente defumado, é o produto cárneo obtido de cortes íntegros de pernil de suíno, curado, cozido, defu- mado ou não, desossado ou não, com adição de ingredientes. A forma de apresentação do produto deve ser informada na rotulagem, con- tendo o tipo de produto com as respectivas denominações de venda (ex.: presunto cozido superior, presunto cozido, presunto cozido defumado, presunto cozido com capa de gordura, presunto cozido sem capa de gordura, presunto cozido tenro defumado e outros). O presunto cozido de aves é o produto cárneo, obtido exclusivamente de carnes do membro posterior de aves desossadas, moídas ou não, curado, cozido, defumado ou não, com adição de ingredientes. As características sensoriais de cada produto são definidas de acordo com o processo de obtenção, devendo o produto apresentar textura, cor, sabor e odor característicos. Em relação aos parâmetros físico- -químicos, o presunto cozido superior deverá conter relação umi- dade/proteína (máxima) de 4,5; teor de proteína mínimo de 16,5 %; teor máximo de carboidratos de 1 %. Para o presunto cozido esses parâmetros são respectivamente 4,8 ; 16 % e 2 %. E para o presunto superior tenro, 4,2 (máxima relação umidade/roteína); 16,5 % (teor mínimo de proteína) e 1 % (teor máximo de carboidratos). Para o presunto cozido de aves, esses parâmetros devem ser de no máximo 5,2 , 14 % e 2 %. A quantidade de colágeno em relação à proteína total 105 presente deve ser de no máximo 25 % para os presuntos cozidos e de 10 % para o presunto cozido de aves. Os critérios microbiológi- cos para o produto devem seguir àqueles estabelecidos pela legis- lação específica vigente. O acondicionamento do produto deve ser realizado em embalagens de materiais adequados para as condições de armazenamento e que lhe confiram uma proteção apropriada (de acordo com Portaria SDA n. 765, de 6 de abril de 2023, do MAPA). 3.2 Ingredientes e insumos Para o presunto cozido, presunto cozido superior e presunto cozido tenro, os cortes íntegros de pernil suíno sem pele, sal (Cloreto de sódio), nitritos e nitratos e suas variações são ingredientes obriga- tórios. Como ingredientes opcionais são permitidos aditivos alimen- tares e coadjuvantes de tecnologia previstos em legislação específica do órgão regulador da saúde e aprovados pelo MAPA; água; condi- mentos e especiarias; maltodextrina; mono e dissacarídeos; proteínas de origem animal; proteínas de origem vegetal; e sais hipossódicos. Permite-se a adição de proteínas não cárneas na forma agregada máxima de 2,0 % para presunto cozido e máxima de 1 % para pre- sunto cozido tenro. No presunto superior cozido não é permitida a utilização de qualquer proteína que não seja proveniente de massa muscular do pernil, sendo permitido o uso de caseinato de sódio no limite máximo de 1 % (de acordo com a Portaria SDA n. 765, de 6 de abril de 2023, do MAPA). A adição de sal, geralmente NaCl, aumenta a solubilização e extra- ção das proteínas miofibrilares. Também melhora a capacidade de retenção de água das proteínas e imobiliza moléculas de água no meio. O uso de fosfatos promove a separação do complexo actomiosina. Em geral, a presença do fosfato alcalino aumenta o pH da carne. A força de repulsão entre as moléculas de proteínas miofibrilares é maior em carnes com pH entre 5,7 e 6,1, o que favorece à solubilização proteica, maior imobilização e retenção de água das proteínas da carne. Um dos 106 efeitos resultantes é o aumento do rendimento pós-cocção do pro- duto, devido à menor perda de água. Há também melhoria de carac- terísticas como textura, coesividade e maciez do presunto (FEINER, 2006; RANKEN, 2006; ARNAU; AIRBOX, 2014). Os fosfatos pro- porcionam o aumento da capacidade de retenção de água do músculo, e podem contribuir para a estabilidade oxidativa do produto por meio da complexação de íons metálicos pró-oxidantes presentes na carne. O tripolifosfato de sódio (Na5P3O10) é o mais utilizado na formulação de presunto, em misturas com hexametafosfatos de sódio [(NaPO3)n, n=10-15]. Nessa forma, além de favorecer uma maior retenção de água das proteínas, é capaz de complexar com o cálcio presente na carne, o qual permanece solúvel, prevenindo a formação e precipitação de fosfatos de cálcio (STRASBURG; XIONG, 2019; LINDSAY, 2019). Os ascorbatos e eritorbatos favorecem a redução do nitrito dire- tamente a óxido nítrico, melhora osteores de nitrosomioglobina, e acelera a formação da cor. Atuam indiretamente como antioxidante neutralizando ou desativando hidroperóxidos que são gerados a par- tir da formação da metamioglobina e como sequestrante de oxigênio. Reduzem também o nível de nitrito no produto cozido, prevenindo ou reduzindo a formação de agentes de nitrosação como o anidrido nitroso e a formação de nitrosaminas. Esses sais não devem ser adi- cionados juntamente ou misturados diretamente com o nitrito de forma a se evitar uma reação instantânea com formação de NO e NO2. Como o NO é altamente reativo, nessas condições, é transformado em NO2 na presença de oxigênio e o menor teor de óxido nítrico resulta na descoloração do produto (FEINER, 2006; MILLS, 2014). É recomendado que o pH das salmouras para presunto seja acima de 7,0 (7,6 - 8,4). Em soluções alcalinas os ascorbatos ou os eritorbatos não reagem com o nitrito presente na salmoura. Essa reação só iniciará quando a salmoura for aplicada à carne, que apresenta uma condição levemente ácida (pH em geral maior que 5,7) o que vai promover certo grau de dissociação do ácido ascórbico ou eritórbico, formados a par- tir dos sais (ascorbatos ou eritorbatos) adicionados. (FEINER, 2006). 107 3.3 Tecnologia de fabricação No processamento do presunto cozido parâmetros como seleção da matéria-prima cárnea, corte, preparo, composição e quantidade da salmoura injetada, tempo e velocidade de massageamento (“tumble- amento”), tempo e temperatura de cura, entre outros, e métodos de enformagem, cozimento e resfriamento são importantes para defi- nição do padrão de qualidade e segurança do produto. Na seleção da carne, o valor do pH é um parâmetro impor- tante para auxiliar na identificação de carnes PSE ou DFD. Presuntos cozidos elaborados com carne suína com pH inferior a 6,0, medido 45 minutos no músculo post mortem tendem a ter elevada perda de umidade, cor pálida, baixa coesividade da massa e textura mole após cozimento; e quando elaborados com carne com pH acima de 6,2, o risco de contaminação microbiológica aumenta e a taxa de con- versão de nitrito a óxido nítrico é mais lenta. Recomenda-se utili- zar carnes com valores de pH entre 5,8 e 6,2 e temperatura interna entre 2 e 4 ºC (ARNAU; ARBOIX, 2014). Cortes de pernil suíno devem ser selecionados quanto à ausência de características de carne PSE (pálida, flácida e exsudativa) ou de carne DFD (escura, firme e ressecada na superfície). Após recepção, seleção e limpeza, faz-se a pesagem dos cortes cárneos para cálculo dos ingredientes e adivitos alimentares. Em processos industriais para a fabricação dos presun- tos cozidos, geralmente, é preparada uma salmoura, que posterior- mente será injetada na carne. A composição da salmoura deve ser descrita numa planilha con- tendo os ingredientes, a quantidade e a ordem correta da mistura de cada um. A quantidade de cada ingrediente é calculada com base nas concentrações previamente definidas na formulação do produto. Após pesagem correta de cada ingrediente, todos são homogeneiza- dos em equipamento seguindo a ordem correta de mistura. Geral- mente as salmouras são preparadas em uma sala separada da área de processamento. Após essas etapas, a salmoura é acondicionada em 108 tanques de aço inox com temperatura controlada, por onde escoará através da tubulação até as injetoras. Para melhor dissolução e dispersão dos ingredientes e, principal- mente, reduzir o risco de contaminação microbiológica é recomen- dada uma temperatura entre -2 e 2 ºC. No preparo da salmoura, deve se considerar a ordem de adição dos ingredientes. Para se dissolverem completamente e evitar a formação de cristais, os fosfatos requerem maior quantidade de água livre e de dois a cinco minutos de agita- ção, dependendo do equipamento. Recomenda-se sempre adicionar antes do sal (NaCl) que também necessita de maior quantidade de água para dissolução completa. A solubilidade do sal em água gelada é de 35,7g/100 mL (FEINER, 2006). Para garantir completa dissolução dos compostos, o polifosfato deve ser adicionado primeiro, seguido do sal, dos sais de nitrito e nitrato e por último os ascorbatos ou eritorbatos e a temperatura final da salmoura ajustada para 2-5 ºC. A salmoura deve ser filtrada para evitar entupimento das agulhas do injetor, e os filtros e as agulhas limpas para garantir aplicação uni- forme da salmoura nos cortes cárneos. A concentração de cada ingre- diente na salmoura depende da quantidade desejada do ingrediente no produto após injeção e do ganho de peso do corte, sendo preciso definir previamente a quantidade de salmoura que será injetada nos cortes. O cálculo dos ingredientes da salmoura pode ser obtido pela equação 1 (ARNAU; ARBOIX, 2014). (100 I%)%B %P I% + = (1) % B = porcentagem do ingrediente na salmoura; % P = porcen- tagem do ingrediente no produto; % I = porcentagem de injeção (g de salmoura/100 g de carne). A quantidade e distribuição da salmoura irão influenciar a cor, rendimento, estabilidade, coesividade, textura, aparência e fla- vour do produto. 109 A injeção pode ser realizada através de injetoras manuais ou automáticas em diferentes pontos da peça. Recomenda-se o método de injeção múltipla para acelerar a penetração e difusão dos ingre- dientes no interior do músculo e para ocorrer uma distribuição uni- forme dos ingredientes. O método de injeção múltipla, normalmente, é realizado por um sistema de múltiplas agulhas que favorece a distribuição uniforme da salmoura e reduz o tempo de difusão dos ingredientes para as áreas não injetadas, que consequentemente, contribuem para a melhora da uniformidade da cor, do rendimento, e maior peso final do pro- duto, com menor perda de água após cozimento, além de favorecer a ligação entre os pedaços de carne e solubilização das proteínas. A salmoura deve penetrar profundamente entre as fibras musculares atingindo todo o músculo. A velocidade de bombeamento da sal- moura e volume de injeção devem ser controlados. Depois de inje- tados, é prática atual os cortes cárneos permanecerem em descanso por um breve período para ajudar a difusão de sal e aditivos em toda a peça (ARNAU; ARBOIX, 2014; TOLDRÁ; MORA; FLORES, 2010). A pressão de injeção e a velocidade da esteira da injetora são ajusta- das para garantir uma distribuição uniforme dos ingredientes da sal- moura em toda a massa muscular. Logo na saída do injetor pode-se ter um “tenderizador” que faz cortes e sulcos superficiais na peça ajudando na distribuição da sal- moura. Os cortes injetados passam por uma ação mecânica em mas- sageadores ou no tumbler. Nos massageadores, as peças de carne são esfregadas e massageadas umas contra outras com o auxílio de pás giratórias. No tumbler, que são tambores rotativos, a ação mecân- ica sobre as peças de carne é mais intensa que nos massageadores e envolve a energia gerada pelo impacto da queda das peças de carne ao caírem, devido à rotação do tambor (KNIPE, 2004). A ação mecânica das pás do equipamento e o movimento de rotação sobre as peças de carne causam rupturas no tecido muscular, que acelera a distribui- ção dos ingredientes de cura e rompe o tecido conectivo, evitando-se 110 o efeito de encolhimento e formação de gel de colágeno durante o cozimento do produto. Este processo, juntamente com a ação do sal e polifosfatos, favorece a extração e solubilização das proteínas mio- fibrilares, que reduz perda de peso durante cozimento e dificuldade de ligação entre os pedaços de carne. A ação mecânica intensa do atrito entre as peças e do impacto da queda dos cortes, devido à rotação contínua do tambor, resul- tam na formação de um exsudado proteico. Para evitar a formação de espuma, utiliza-se o equipamento a vácuo. A utilização do vácuo durante esse processo contribui para melhorar a capacidade de ligação das moléculas proteicas, aumentar a quantidade de proteína extraída, diminuir o tempo necessário de “tumbleamento”, além de remover bolhasde ar presentes entre as porções cárneas e no exsudado de pro- teínas, o que evita a formação de espuma. Essas bolhas, se presen- tes durante o cozimento, tendem a se expandir diminuindo a coesão entre a massa e formando buracos no produto. A utilização de vácuo também evita a reação de oxigênio com o exsudado, minimizando o processo de oxidação de lipídeos que influencia negativamente a cor e sabor do presunto. São recomendados intervalos periódicos entre as operações no tumbler para que ocorra a distribuição uniforme e a ação dos ingredientes da salmoura de cura através das peças de carne, evitando também uma fragmentação excessiva e danos à estrutura miofibrilar da carne, que poderia ocorrer em um processo contínuo. A temperatura da carne durante essa etapa influencia a extração das proteínas. Proteínas solúveis em sal são mais facilmente extraídas da carne magra a 2,2-3,3 °C. Portanto para garantir a maior extração e ativação das proteínas e a segurança microbiológica, recomenda- -se que os equipamentos devem ser operados em salas refrigeradas (4,4 °C ou mais frias) (KNIPE, 2004). Após o massageamento ou o “tumbleamento”, as peças de carne devem ser transferidas para tanques de aço inox e armazenadas a 4 ºC por doze a quinze horas. Esse tempo pode variar em função das eta- pas de injeção da salmoura e “tumbleamento”. O pH da massa cárnea, 111 nessa etapa, é um fator que influencia a velocidade das reações de cura, sendo recomendado mantê-lo entre 5,8 e 6,0. Após esse período as peças são enformadas em formas de aço inox. No caso do processa- mento tipo “cook in (cooked in bag)” as peças são embaladas em emba- lagens plásticas termoencolhíveis, seladas a vácuo e acomodadas nas formas, que darão o formato característico da peça de presunto. Essa operação pode ser realizada manualmente, com o controle de peso das porções por embalagem, ou automaticamente, com equipamentos dosadores volumétricos, que preenchem as embalagens. As formas que funcionam com uma prensa quando fechadas ajudam a melho- rar a aderência da peça de carne e diminuiu o aparecimento de bolhas no interior do presunto. O vácuo realizado durante a enformagem é importante para eliminar o ar preso e aumentar a ligação intramus- cular e evitar buracos no produto (ARNAU; ARBOIX, 2014). As formas, devidamente fechadas, são colocadas em estufas a vapor ou em tanques de cozimento, onde permanecem por um tempo suficiente para que a temperatura interna do produto atinja 72 ºC. Ocorre a coagulação das proteínas, eliminação de microrganismos, desenvolvimento de aroma e sabor e a fixação de cor do produto (for- mação do pigmento nitrosohemocromo). Recomenda-se a aplicação de um regime de temperatura escalonada, iniciando-se a 60 ºC com temperatura máxima de 80 ºC e sendo finalizado quando o produto atingir a temperatura interna na faixa de 72 ºC a 75 ºC (FEINER, 2006; ARNAU; ARBOIX, 2014). Após cozimento, as formas são resfriadas imediatamente com jatos de água gelada ou por imersão em um tanque de salmoura ou água gelada. É recomendado que o abaixamento da temperatura de 40 ºC para 15 ºC ocorra no máximo em quatro horas para reduzir a quantidade de exsudado e o risco microbiológico. A temperatura final de resfriamento do produto é atingida pela disposição do mesmo em câmara fria durante 12 a 24 horas, garantindo assim, a forma e estru- tura característica do presunto cozido. O produto, então, é desen- formado e embalado, ou no caso do processamento cook-in recebem 112 uma embalagem secundária com filmes plásticos ou laminados. Após o envase, as peças de presunto são acondicionadas em câmaras frias, sob condição de temperatura controlada (2 a 4 ºC) até expedição (ARNAU; ARBOIX, 2014; TOLDRÁ; MORA; FLORES, 2010). A aplicação de um rótulo permite a identificação do produto e deverá seguir a RDC n.429, de 08/10/2020 da ANVISA. Em geral, as etapas para fabricação do presunto cozido envolvem recepção da matéria-prima; seleção, preparo e limpeza da matéria- -prima cárnea; cálculo e pesagem dos ingredientes e aditivos ali- mentares; injeção da salmoura; tumbleamento; cura; enformagem; cozimento; armazenamento sob resfrigeração; desenformagem; envase e; armazenamento em condições controladas até expedição. Como exemplo pode ser citada a seguinte sequência de procedimen- tos a serem realizados na fabricação do presunto cozido: Após recep- ção e dessosa, limpar bem o corte de pernil suíno, retirando gordura e tecido conectivo; pesar o pernil e calcular os ingredientes para o preparo da salmoura; misturar os ingredientes em água até completa dissolução (na seguinte ordem: Tripolifosfato de sódio sob agitação vigorosa; sal; sal de cura; condimento para presunto; eritorbato de sódio); injetar uma quantidade pré-definida de salmoura (ex.: 10 % do peso do pernil) em injetoras, ou se realizada manualmente, injetar contra o sentido das fibras musculares com uso de injetores manuais apropriados; massagear a peça com o restante da salmoura em equi- pamento apropriado (tumbler ou massageador) ou colocar a peça de pernil imersa no restante da salmoura e mantê-la a 4 ºC por deter- minado período de acordo com o peso da peça; após o período de cura, enformar o pernil suíno, verificando a pressão exercida pela tampa da forma sobre a peça; cozinhar o produto enformado. Se realizado o processo de cozimento em banho-maria deve-se proce- der da seguinte forma: primeiro cozimento: 65 ºC/1 hora; segundo cozimento: 80 ºC/1 hora e 30 minutos até se atingir 72-75 ºC no centro geométrico da peça; resfriar as formas após cozimento com imersão em água gelada ou jatos de água; manter sob refrigeração até 113 resfriamento do produto; desenformar e embalar o produto e man- tê-lo sob refrigeração até expedição. 4. PROCESSAMENTO DO BACON 4.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos A Portaria SDA n.748, de 08/02/2023, do MAPA aprova o Regula- mento Técnico de Identidade e Qualidade de Bacon no qual são fixa- das as características mínimas de identidade do produto. Com base na referida Instrução Normativa, bacon é definido como o produto cárneo obtido do corte da parede torácico-abdomi- nal dos suínos, que vai do esterno ao púbis, com ou sem costela, com ou sem pele, com adição de ingredientes, curado, defumado, cozido ou não. É permitida também a fabricação do bacon apenas com a por- ção abdominal do suíno. No acondicionamento, o produto deverá ser embalado com materiais adequados para as condições de armazenamento e que lhe confiram uma proteção apropriada. As matérias-primas (carnes cruas) e o bacon devem ser manipulados, armazenados e transpor- tados em locais próprios de forma que não fiquem expostos à con- taminação ou sofram adição de qualquer substância nociva para o consumo humano. 4.2 Ingredientes e insumos Na elaboração do bacon, a barriga suína ou parede torácico-abdomi- nal dos suínos, que vai do esterno ao púbis, com ou sem costela, com ou sem pele, o sal (NaCl) e nitritos e nitratos e suas variações, isola- dos ou combinados são ingredientes obrigatórios e como ingrediente opcionais são permitidos mono e dissacarídeos, maltodextrina, con- dimentos e especiarias, água, aditivos alimentares e coadjuvantes de 114 tecnologia previsto em legislação específica do órgão regulador da saúde e autorizados pelo MAPA. O produto deve apresentar textura, cor, sabor e odor cacracterísticos e os critérios microbiológicos esta- belecidos em legislação vigente específica. Em relação aos parâmen- tros físico-químicos, a Portaria SDA n. 748 de 08/02/2023 do MAPA, estabelece que para o bacon apresentar estabilidade à temperatura ambiente, a atividade de água do produto deve ser de no máximo 0,85. Os ingredientes básicos usados no processamento do bacon são NaCl (solubilização e extração de proteínas, capacidade de retenção de água, flavour e conservação); nitrito/nitrato de sódio (desenvol- vimento de cor, estabilidade, contribuição para o flavoure redução de oxidação lipídica); ascorbatos ou eritorbatos (acelerar reação de conversão de nitrito a óxido nítrico e fixação de cor, indiretamente redução da oxidação lipídica); açúcar (neutraliza o sabor salgado e contribui com a cor superficial do produto pela reação de Maillard); condimentos (contribuição no flavour). Esses ingredientes podem ser dissolvidos em água, preparando-se uma salmoura, ou misturados e aplicados diretamente na superfície dos cortes (KNIPE; BELD, 2014). 4.3 Tecnologia de fabricação No processamento do bacon, são utilizados cortes inteiros de barriga suína ou a parede torácico-abdominal dos suínos que vai do esterno ao púbis, com ou sem costela, com ou sem pele. A desossa da carcaça suína para separação dos cortes deve ser realizada em salas climatiza- das entre 10 e 15 ºC sob condições higiênicas rigorosas envolvendo procedimentos de higienização do ambiente, utensílios, equipamen- tos e do manipulador para garantir a segurança da matéria-prima cárnea, prevenindo e evitando contaminações microbiológicas, quí- micas e físicas. No método empregando a salmoura, parte dessa salmoura pode ser injetada, sendo os cortes posteriormente imersos no restante da salmoura por cerca de dois a três dias. No método de cura seca, mais 115 frequentemente utilizado, os ingredientes são misturados e distri- buídos sobre os cortes de carne uniformemente, que são mantidos sob refrigeração (≈ 4 ºC) por cerca de sete dias. Após esse período de cura, na qual os ingredientes se difundem por todo o músculo, os cortes seguem para a etapa de defumação e cozimento, em que ocorre inicialmente uma secagem do produto entre 50 e 60 ºC, defumação entre 65 e 70 ºC e, finalmente o cozimento que termina quando a temperatura interna do produto atinge entre 72-75 ºC. Uma alterna- tiva a essa etapa seria apenas a defumação do produto sem um cozi- mento rigoroso, na qual a temperatura interna do produto atinge cerca de 53 ºC (FEINER, 2006; KNIPE; BELD, 2014). Em seguida, o produto deve ser rapidamente resfriado até 5 ºC e, posteriormente mantido em câmara fria. Os cortes resfriados são, então, prensados no formato retangular, podendo também ser fatiados e embalados a vácuo (KNIPE; BELD, 2014). Em geral, as etapas para fabricação do bacon pelo procedimento convencional de cura seca envolvem recepção da matéria-prima cár- nea; seleção, limpeza e preparo da matéria-prima cárnea; cálculo e pesagem dos ingredientes e aditivos alimentares; distribuição uni- forme dos ingredientes secos em toda a superfície das peças; cura em sala climatizada; defumação e cozimento; resfriamento; envase e; armazenamento em condições controladas até expedição. Como exemplo, pode ser citada a seguinte sequência de procedimentos a serem realizados na fabricação de bacon: Selecionar, limpar e pesar as barrigas suínas; calcular e pesar ingredientes e aditivos separada- mente; misturar os ingredientes e aplicar imediatamente na super- fície dos cortes de forma uniforme e massagear as peças. Pode-se também perfurar as barrigas com agulhas firmes até 0,6 cm do couro e, em seguida, distribuir os ingredientes uniformemente por toda a superfície do corte cárneo; colocar as peças em caixas, deixando sempre a parte com carne voltada para cima; armazenar as caixas em câmaras frias (4 °C) por um período equivalente a 3 dias/Kg de peso médio das peças; retirar as peças das caixas e remover o sal 116 superficial; pré-aquecer o defumador (com a chaminé totalmente aberta) a 50-60 °C; colocar as barrigas no defumador até que as super- fícies estejam secas; fechar a chaminé deixando apenas uma pequena parte aberta e manter o defumador a cerca de 70 °C, até as peças atingirem 72 °C internamente durante o cozimento; resfriar e enva- sar o bacon, seguido de armazenamento sob condições controla- das e expedição. 5. PROCESSAMENTO DE PRODUTOS CÁRNEOS DE MASSA FINA No processamento de produtos cárneos de massa fina um ponto a ser destacado é a solubilização do maior número possível de proteína, uma vez que a proteína solubilizada irá imobilizar uma maior quanti- dade da água, assim como emulsificar a gordura adicionada à formula- ção. A proteína solubilizada cria uma fina camada (filme proteico) ao redor das partículas de gordura finamente triturada, o que previne a separação da gordura durante o cozimento a que o produto será sub- metido posteriormente. A espessura do filme proteico é um dos fato- res que determina grau de estabilidade da emulsão. Na emulsificação da gordura, a eficiência da miosina solubilizada, tende a ser melhor que a da actina, a qual mostra maior afinidade pela água. Durante o cozimento, as moléculas de proteína que se organizam ao redor das partículas de gordura são desnaturadas e a gordura é aprisionada no inteiro do filme proteico, formando uma rede tridimensional. Esta rede proteica também previne a coalescência das partículas de gor- dura. Proteínas solúveis em solução salina como a miosina são con- sideradas bons emulsificadores de gordura (FEINER, 2006). Para que ocorra a formação do filme proteico ao redor das par- tículas de gordura e, posteriormente, da rede proteica é necessário que se tenha uma quantidade suficiente de proteína e que a maior quantidade possível dessas proteínas esteja solubilizada. Em geral, a quantidade de carne magra adicionada e, consequentemente de pro- teína não é suficiente para garantir a estabilidade da emulsão cárnea, 117 sendo prática usual a adição de ingredientes e aditivos alimentares que auxiliam nesse processo (KNIPE, 2014). 5.1 Definição, critérios sensoriais, físico-químicos e microbiológicos da salsicha Pela Instrução Normativa n. 4, de 31 de março de 2000, Anexo IV, MAPA, salsicha é definida como o produto cárneo industrializado, obtida da emulsão de carne de uma ou mais espécies de animais de açougue, adicionadas de ingredientes, embutido em envoltório natu- ral, ou artificial por processo de extrusão, e submetido a um pro- cesso térmico adequado. É classificada como um produto cozido e de acordo com a composição da matéria-prima e das técnicas de fabri- cação podem ainda ser classificadas em: Salsicha – quando elaborada a partir de carnes de diferentes espécies de animais de açougue, car- nes mecanicamente separadas até o limite máximo de 60 %, miúdos comestíveis de diferentes espécies de animais de açougue (estômago, coração, língua, rins, miolos, fígado), tendões, pele e gorduras; salsi- cha tipo Viena – quando elaborada com carnes bovina e/ou suína e carnes mecanicamente separadas até o limite máximo de 40 %, miúdos comestíveis de bovino e/ou suíno (estômago, coração, língua, rins, miolos, fígado), tendões, pele e gorduras; salsicha tipo frankfurt, ela- boradas com carnes bovina e/ou suína e carnes mecanicamente sepa- radas até o limite de 40 %, miúdos comestíveis de bovino e/ou suíno (estômago, coração, língua, rins, miolos, fígado), tendões, pele e gor- duras; salsicha frankfurt, elaborada com porções musculares de car- nes bovina e/ou suína e gorduras; salsicha viena – feita com porções musculares de carnes bovina e/ou suína e gordura; e salsicha de carne de aves, elaborada com carne de ave e carne mecanicamente sepa- rada de ave, no máximo de 40 %, miúdos comestíveis de ave e gor- duras. As salsichas também poderão ter como processo alternativo o tingimento, depelação, defumação e utilização de recheios e molhos. 118 As características sensoriais das salsichas variam de acordo com a técnica de fabricação, devendo o produto apresentar textura, cor sabor e odor característicos. Em relação aos parâmetros físico-químicos, as sal- sichas em geral devem conter teor máximo de amido de 1 a 2,0 %; car- boidratos totais (máx.) 1 a 7,0 %; umidade (máx.) 65 %; gordura (máx.) 30 %; proteína (mín.) 12 %. Para as salsichas com adição de carne meca- nicamente separada (CMS) o teor máximo de cálcio em base seca deverá ser 0,9 % para salsicha; 0,1 % para salsicha Viena; 0,1 % para salsicha Frankfurt0,1 %; 0,6 % para salsicha tipo Viena 0,6 %; 0,6 % para salsi- cha tipo Frankfurt 0,6 %; e 0,6 % para salsicha de ave 0,6 % (de acordo com a Instrução Normativa n. 4, de 31 de março de 2000, Anexo IV, MAPA). A somatória dos açúcares totais (carboidratos totais incluindo os de origem do amido ou da fécula) não deverá ultrapassar o teor de 7 %, sendo que o teor máximo de amido se limita a 2 %. O acondicio- namento das salsichas deverá ser realizado em embalagens com mate- riais adequados para as condições de armazenamento e que assegure uma proteção apropriada contra a contaminação. O uso de aditivos ali- mentares e coadjuvantes de tecnologia deve atender aos critérios exi- gidos pela legislação específica vigente. Os contaminantes orgânicos e inorgânicos não deverão estar presentes em quantidades superiores ao limite estabelecido pelo regulamento vigente. Toda a carne usada para elaboração da salsicha deverá ter sido submetida aos processos de inspeção sanitária conforme descritos no Decreto n. 9013, 29/03/2017, MAPA. As carnes cruas, miúdos e gor- duras e as salsichas já elaboradas, deverão ser manipuladas, armaze- nadas e transportadas em locais próprios de forma que não deverão ficar expostos à contaminação ou adicionados de qualquer substân- cia nociva para o consumo humano. As salsichas deverão ser trata- das termicamente em conformidade com as seções 7.5 e 7.6.1 a 7.6.7 do “Código Internacional Recomendado de Práticas de Higiene para Alimentos pouco Ácidos e Alimentos Acidificados Envasados” (de acordo com a IN n. 4, de 31/03/2000, Anexo IV, do MAPA). 119 5.2 Ingredientes e insumos São ingredientes obrigatórios na fabricação de salsichas, carnes das diferentes espécies de animais de açougue, conforme designação do produto, e sal. Como ingredientes opcionais são permitidos o emprego de miúdos e vísceras comestíveis (coração, língua, rins, estô- magos, pele, tendões, medula e miolos), limitado ao percentual de 10 %, utilizados de forma isolada ou combinada, exceto nas salsichas Viena e Frankfurt; gordura animal ou vegetal; água; proteína vege- tal e/ou animal; agentes de liga; aditivos alimentares intencionais; açucares; aromas, especiarias e condimentos. Permite-se a adição de proteínas não cárnea de 4,0 % (max.), como proteína agregada. Não será permitida a adição de proteínas não cárnea nas salsichas Viena e Frankfurt, exceto as proteínas lácteas (BRASIL, 2000b). Para os emulsionados cárneos, a gordura é adicionada em pro- porções maiores (cerca de até 20 % variando de acordo com o produto e a legislação), que influencia a textura, sabor e flavour. A composição e o ponto de fusão das gorduras incorporadas à formulação influen- ciam a estabilidade da emulsão cárnea. Tradicionalmente são adi- cionadas gorduras de tecido animal como ingredientes. A gordura suína e de frango tem maior quantidade de ácidos graxos insatura- dos do que a gordura bovina e, portanto, são mais propensos à ran- cificação (ALLAIS, 2010; FEINER, 2006), porém são mais palatáveis. Os ingredientes não cárneos desempenham um papel importante nos produtos cárneos de massa fina, uma vez que podem influenciar propriedades nutricionais, sensoriais e funcionais desses produtos. Uma variedade de ingredientes não cárneos tem sido usada em for- mulações de emulsificados cárneos, com objetivo de melhorar a qua- lidade como fibras, ligadores e enchedores (ALLAIS, 2010). Exemplos de ligadores usados são o leite em pó, os produtos derivados da soja (proteína texturizada, concentrada ou isolada de soja), e os enchedo- res como fécula de mandioca, farinha de trigo, cevada, arroz e amido. A carragena pode ser utilizada como um agente espessante. Agentes 120 ligadores, enchedores e espessantes podem contribuir na retenção de água e estabilidade da emulsão cárnea. Para reduzir os custos, muitos fabricantes incorporam grande quantidade de retalhos provenientes da linha de abate e desossa. Proteína vegetal e/ou animal; agentes de liga; aditivos intencionais (fosfatos, glutamato, sais de cura) coran- tes naturais (ex.: urucum), condimentos naturais (cominho, coen- tro, gengibre, cebola, alho, páprica, pimentas, orégano, salsa etc.) e outros de acordo com a legislação vigente. Em geral, os condimen- tos são adicionados nas etapas finais da preparação da massa, para evitar uma possível perda de aroma. A utilização de sais de cura tem por finalidade conferir sabor e cor aos produtos, além de atuar como conservador e com algum efeito antioxidante. O glutamato como adi- tivo é usado para melhorar ou acentuar o sabor do produto e o açúcar para abrandar o sabor do sal e dos polifosfatos (GUERREIRO, 2006). Além do propósito de manter ou melhorar a qualidade e a acei- tação pelo consumidor, dentre outros, a adição de ingredientes e adi- tivos alimentares à formulação de produtos cárneos emulsionados durante o processamento é importante para garantir a estabilidade dos emulsionados cárneos que são sistemas complexos. Em relação à qualidade de emulsionados cárneos, um dos defei- tos comuns é a quebra da emulsão, que consiste na separação da gordura do restante da matriz cárnea e sua migração para a super- fície do produto, ficando retida entre o envoltório de embutimento (tripa natural ou artificial) e a carne. Algumas das razões para que isso ocorra pode ser níveis insuficientes de sal ou fosfatos, muita gor- dura ou água sendo adicionada à formulação, partículas de gordura muito pequenas e baixa disponibilidade de proteínas miofibrilares solubilizadas (KNIPE, 2014). 5.3 Tecnologia de fabricação O cutter é o equipamento normalmente utilizado na elaboração de produtos cárneos finamente triturados. É composto por uma espécie 121 de bacia circular, curvada. A carne e a gordura são colocadas nessa bacia e transportadas em sentido anti-horário em direção a um con- junto de facas extremamente afiadas e rotativas que giram a alta velocidade (velocidades de até 6000 rev/min) (FEINER, 2006). A velocidade com que as facas giram e o tempo de trituração são parâ- metros importantes que influenciam o grau de trituração da carne e da gordura e, consequentemente, o tamanho das partículas de gor- dura. A trituração também reduz o tamanho da carne, promove rom- pimento das fibras e contribui com a extração das proteínas da carne. Uma opção é moer a carne e o toucinho (ou a papada) em disco com furos de 4 mm de diâmetro, antes da trituração no cut- ter. As carnes devem estar congeladas ou resfriadas, com tempera- tura entre -5 ºC e 2 ºC para se evitar o aumento da temperatura da massa cárnea e reduzir o risco de contaminação microbiógica. Depois de moídas, a carne e a gordura são trituradas no cutter, sepa- radamente e, por último, são adicionados os demais ingredientes. (GUERREIRO, 2006). Para maior extração das proteínas da carne, recomenda-se a adição dos sais (NaCl e fosfatos) combinados com parte da água ou gelo juntamente à carne magra. O exsudado de proteína resultante da extração e solubilização das proteínas da miofibrilares irá favo- recer a formação de uma rede viscoelástica, formando um produto de textura lisa e homogênea. Os aditivos alimentares como nitrito de sódio e ascorbatos/eritorbatos de sódio também devem ser adi- cionados nos estágios iniciais da trituração juntamente com a carne. Após trituração da carne, adiciona-se a gordura e o restante da água. Por último devem ser adicionados condimentos, especiarias, ligado- res, e demais ingredientes, continuando a trituração com controle da temperatura até se atingir consistência adequada da massa cárnea. O controle da temperatura da massa cárnea nessa etapa do processo é importante porque influencia a extração das proteínas miofibrilares e a estabilidade da emulsão cárnea. Gelo é frequentemente adicio- nado durante a etapa de trituração para manter a massa cárnea fria. 122 O aumento excessivo da temperatura da massa cárnea pode derre- ter as partículas de gordura, o que resulta na formação de bolsões de gordurana superfície do produto que tornam aparentes durante o cozimento (KNIPE, 2004). O atrito e a ação mecânica das pás do equipamento podem pro- mover o aumento da temperatura da massa cárnea. Temperaturas muito baixas (ex.: abaixo de 4 ºC) dificultam a extração das proteínas miofibrilares e temperaturas mais elevadas (ex.: acima de 16 ºC) nas etapas de trituração e mistura, além do risco microbiológico inter- ferem na estabilidade da emulsão. Outro ponto importante a ser considerado é a incorporação indesejada de ar na massa durante a trituração que pode influenciar tanto a capacidade de ligação das proteínas quanto à aparência final do produto. A incorporação de ar na massa pode reduzir a firmeza e a estabilidade da cor das salsichas. Por isso, recomenda-se o uso de equipamentos a vácuo durante as etapas de trituração e mistura da massa cárnea. Com o uso do vácuo mais proteínas serão ativadas e os processos como inchaço e a solubilização proteica tendem a ocorrer mais rapidamente, o que aumenta a estabilidade da emulsão e con- tribui positivamente para a firmeza e textura dos emulsionados cár- neos (ALLAIS, 2010; FEINER, 2006). Em outro método sugerido para o processamento de salsicha toda a carne e a gordura são triturados em velocidades baixas ou médias com rotações entre 1000 e 1500 rpm/min. Uma vez iniciada a trituração no cutter, são adicionados todos os aditivos (fosfatos, sal, ligadores e amido). Em seguida, a água ou o gelo entre -1 a 4 ºC (em geral cerca de 70 % do total de água ou gelo a ser adicionado) são adicionados gradualmente à massa cárnea e a velocidade de rotação das facas é aumentada. Nesse ponto, a temperatura da massa cárnea deve ser mantida aproximadamente entre -1 ºC e 2 ºC e a velocidade de rotação aumentada para 3500-5000 rpm/min para favorecer a máxima solubilização de proteínas da carne. Quando uma tempera- tura de cerca de 0 ºC é atingida, a velocidade e a trituração continuam 123 até a massa atingir 12 a 14 ºC. A essa temperatura pouca ou nenhuma gordura derrete. Ocasionalmente, os aditivos podem ser adiciona- dos em duas etapas, porém com fosfatos, sal, nitrito sendo adiciona- dos no início do processo, tendem a garantir maior solubilização da proteína e uma distribuição uniforme desses ingredientes. Espessan- tes, amido ou aglutinantes podem ser adicionados mais tarde no pro- cesso de trituração, quando a temperatura da mistura atinge 8-10 ºC. Se uma grande quantidade de espessantes for adicionada no início do processo de trituração parte da água livre, necessária para a solubiliza- ção proteica, será incorporada por esses compostos (FEINER, 2006). O tempo recomendado de trituração deve garantir a maior quan- tidade de proteína solubilizada e ativada, e que a gordura seja cortada o suficiente para favorecer a estabilidade da emulsão cárnea formada e que não seja visível no produto acabado. A trituração prolongada da gordura deve ser evitada porque resulta em partículas com uma grande área superficial, reduzindo assim, a estabilidade do emulsio- nado cárneo. Portanto, o tempo de trituração recomendado depende de uma série de parâmetros, incluindo as quantidades de carne, gor- dura e água da formulação, os tipos de carne e gordura utilizadas e o equipamento disponível. O tempo muito longo entre emulsifica- ção e o cozimento, o bombeamento e embutimento inadequados da massa cárnea emulsionada são fatores que também podem contribuir para a quebra da emulsão. Assim como umidade elevada nas estufas de cozimento (FEINER, 2006; KNIPE, 2014). Umas das formas de fabricação de salsicha tipo hot dog envolve as etapas de recepção da matéria-prima; seleção e preparo e limpeza dos cortes cárneos e da gordura; cálculo e pesagem dos ingredientes, e aditivos alimentares; trituração no cutter; embutimento; cozimento; resfriamento; depelagem e tingimento; envase e; armazenamento em condições controladas até expedição. Como exemplo, pode ser citada a seguinte sequência de procedimentos a serem realizados para fabri- cação de quantidades pequenas (cerca de 1 kg de massa cárnea de salsi- cha de frango): Após recepção e desossa, selecionar e limpar os cortes 124 cárneos (coxa e sobrecoxa de frango sem pele), retirando gordura e tecido conectivo; pesar a massa cárnea (carne e gordura) e calcular os ingredientes e aditivos alimentares; no cutter (capacidade de 8 litros) adicionar a carne, sal, tripolifosfato de sódio e sal de cura, e parte da água e triturar/homogeneizar a mistura por 1 minuto e 30 segundos; em seguida, adicionar a gordura e os outros ingredientes e aditivos, e o restante da água e triturar/homogeneizar a mistura por 1 minuto e 30 segundos; por último, adicionar a fécula de mandioca e triturar/ homogeneizar a mistura por 1 minuto e 30 segundos; embutir em tripas de colágeno; realizar cozimento escalonado a 55 ºC/30 minu- tos; 65 ºC por 30 minutos; 80 ºC por 30 minutos; resfriar, depelar/ tingir; envasar; e armazenar sob refrigeração até expedição. As salsichas, geralmente são embutidas em tripas de colágeno em embutideiras a vácuo. As tripas de colágeno, tanto comestíveis como não comestível, são elaboradas a partir do colágeno extraído da pele e do couro do animal. Em geral, são formados gomos de sal- sichas de 9 a 12 cm de comprimento, torcendo-se as tripas em equi- pamento mecânico de torção. As salsichas são, então, dispostas em varas e colocadas em gaiolas para serem transportadas para as estu- fas de cozimento (GUERREIRO, 2006). O cozimento pode feito de forma escalonada (ex.: 55 ºC/30 minutos; 65 ºC por 30 minutos; 80 ºC por 30 minutos) ou o produto enlatado e submetido à esterili- zação, dependendo do tipo de salsicha. Em seguida o produto é res- friado, geralmente em chuveiros ou jatos de água em temperatura ambiente. No caso das salsichas que passam pelo processo de depe- lagem, após resfriamento, as salsichas são imersas em tanques com gelo/água (≈ 2 ºC) para facilitar a retirada da tripa. O processo de tingimento a frio é opcional e depende do tipo de produto. O tingi- mento é feito em tanques próprios para esse fim. Após imersão no tanque de tingimento, com temperatura entre 70 e 75 ºC, normal- mente utilizando corante de urucum, as salsichas passam por outro tanque ácido (ácido acético ou fosfórico) para ajuste do pH. Após a retirada da tripa as salsichas são colocadas em contato com o corante 125 de urucum (≈ 2 minutos) e logo após passam por uma solução ácida (ácido fosfórico 1 %) para fixar o corante no produto, por um período aproximado de 1 minuto. A superfície das salsichas é seca antes de serem embaladas, normalmente a vácuo, colocadas em caixas de pape- lão e armazenadas em câmara fria (4 ± 1 ºC). A sala de embalagem deve ser climatizada em temperatura de 10 ºC (GUERREIRO, 2006). REFERÊNCIAS ALLAIS, I. Emulsification. In: Handbook of Meat Processing. Fidel Toldrá, 5. ed., Iowa: Blackwell Publishing, 2010. p. 143-168. ARNAU; ARBOIX, J. Cooked ham. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, Carrick (ed.). Encyclopedia of Meat Science. San Diego: Acade- mic, 2. ed. San Diego: Academic, 2014. v. 2, p. 82-86. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Defesa Agropecuária. Portaria SDA n. 724, de 23 de dezembro de 2022. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, p. 10, 26/12/2022. Edição: 242. Disponível em: https://pesquisa. in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-724-de-23-de-dezembro- -de-2022-453548742 Acesso em: 30 jun. 2023. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Defesa Agropecuária. Portaria SDA n. 748, de 08 de fevereiro de 2023. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, p. 5, 09/02/2023.Edição 29. Disponível em: https://pesquisa. in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-748-de-8-de-fevereiro- -de-2023-463362936 Acesso em: 30 jun. 2023. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Defesa Agropecuária. Portaria SDA n. 765, de 6 de abril de 2023. Diário OficialUnião 15, 18/04/2023. Edição: 74. https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-724-de-23-de-dezembro-de-2022-453548742 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-724-de-23-de-dezembro-de-2022-453548742 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-724-de-23-de-dezembro-de-2022-453548742 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-748-de-8-de-fevereiro-de-2023-463362936 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-748-de-8-de-fevereiro-de-2023-463362936 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-748-de-8-de-fevereiro-de-2023-463362936 126 Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-s- da-n-765-de-6-de-abril-de-2023-477630109 Acesso em: 30 jun 2023. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ins- trução Normativa n. 20, de 31 de julho de 2000. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, p. 12, 3 ago. 2000a. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?da- ta=03/08/2000&jornal=1&pagina=55&totalArquivos=88 Acesso em: 12 ago. 2021. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ins- trução Normativa n. 4, de 31 de março de 2000. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, p. 9, 5 abr. 2000b. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?da- ta=05/04/2000&jornal=1&pagina=54&totalArquivos=73 Acesso em: 12 ago. 2021. FEINER, G. Meat products handbook: practical science and tech- nology. Ed. Cambridge: Woodhead Publishing Limited, 2006. GUERREIRO, L. Produção de salsicha. 2006. Dossiê Técnico. REDETEC/RJ, 41 p. Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas (SBRT). Disponível em: http://www.sbrt.ibict.br Acesso em: 12 ago. 2021. KNIPE, C. L. Emulsion. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. v. 3, p. 256-260. KNIPE, C. L. Tumblers and massagers. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.) Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2004. p. 1054-1057. https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-765-de-6-de-abril-de-2023-477630109 https://pesquisa.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sda-n-765-de-6-de-abril-de-2023-477630109 https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=03/08/2000&jornal=1&pagina=55&total https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=03/08/2000&jornal=1&pagina=55&total https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=05/04/2000&jornal=1&pagina=54&totalArquivos=73 https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=05/04/2000&jornal=1&pagina=54&totalArquivos=73 http://www.sbrt.ibict.br 127 KNIPE, C. L.; BELD, J. Bacon production. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Else- vier, 2014. v. 1, p. 53-57. LINDSAY, R. C. Aditivos alimentares. In: DAMODARAN, S.; PAR- KIN, K. L. (ed.). Química de Alimentos. 5. ed. Porto Alegre: s.n., 2019. p. 799-862. MILLS, E. Bacon production. In: DIKEMAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Handbook of Meat Processing. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. v. 1, p. 1-6. RANKEN, M. D. Handbook of meat product technology. Oxford (London): Blackwell Science, [s.d.], 245 p. SILVA, B.D.da; BERNARDES, P. C.; PINHEIRO, P.F.; GIANNOTTI, J. Di G. (2022). Plenctranthus amboinicus (Lour.) Spreng. essen- tial oil as a natural alternativa for the conservation of beef patties stored under refrigeration. Food Bioscience. v. 49, 101896. DOI: 10.1016/j.fbio.2022.101896. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j. fbio.2022.101896 STRASBURG, G. M.; XIONG, Y. L. Fisiologia e química dos tecidos musculares comestíveis. In: DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. (ed.). Química de Alimentos. 5. ed. Porto Alegre: s.n., 2019. p. 953-1014. TOLDRÁ, F.; MORA, L.; FLORES, M. Cooked ham. In: Han- dbook of Meat Processing. 5. ed. Iowa, USA: Blackwell Publishing, 2010. p. 301-312. 128 Parte 4 Programas de autocontrole e segurança de alimentos Algumas atividades básicas do sistema de gestão de qualidade na indústria de alimentos são controle de qualidade da matéria-prima (ex.: inspeção no recebimento, análises microbiológicas e físico-quí- micas, inspeção visual, assistência técnica e orientação dos forne- cedores e outras medidas); controle de qualidade do processo (ex.: procedimentos de limpeza e higienização, treinamento para funcioná- rios, definição de padrões técnicos de trabalho, manutenção periódica de equipamentos, uso de técnicas estatísticas, e outras medidas); con- trole de qualidade do produto (ex.: análises microbiológicas, análises físico-químicas; análise sensorial; inspeção visual; análise nutricional, e outras medidas); controle de qualidade no transporte e distribui- ção do produto (ex.: treinar seus funcionários no acondicionamento e manuseio do produto durante o transporte; medição de variáveis, como temperatura e umidade do ar ambiente e outras medidas.); controle de qualidade no ponto de venda (ex.: orientações aos ataca- distas sobre como acondicionar o produto); vistorias nos postos de venda (ex.: própria empresa distribuir e organizar seus produtos nas 129 prateleiras dos pontos de venda) (CHAVES, 1998) e fornecimento de informações sobre as condições de preparo, acondicionamento e conservação do produto pelo consumidor final normalmente dispo- nibilizadas na embalagem do produto. Programas de autocontrole devem ser implantados pela indústria de alimentos ou estabelecimentos que os processam, comercializam e, ou distribuem com o objetivo de assegurar a identidade, a qualidade, a integridade e segurança desses alimentos. Em geral, esses proce- dimentos envolvem medidas para controle de processo e monitora- mento da conformidade das matérias-primas, dos ingredientes, dos insumos e dos produtos, procedimentos para higienização e desinfec- ção de instalações, equipamentos, utensílios e do ambiente da fábrica e outros que envolvem princípios básicos de higiene aplicados à cadeia produtiva de alimentos. Devem ser descritos, sendo o monitoramento e a verificação da eficiência desses programas de responsabilidade da indústria ou estabelecimento. Programas de Boas Práticas de Fabri- cação (BPF), Procedimentos Operacionais Padronizados (POP), Pro- cedimento Padrão de Higiene Operacional (PPHO) e o sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), normal- mente, são utilizados como referência para elaboração desses progra- mas e devem ser desenvolvidos de acordo com as especificações de cada planta de processamento de alimentos. Porém, os programas de autocontrole não se limitam a esses programas ou a programas equi- valentes, sendo importante que sejam reconhecidos e aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. 1. MICROBIOLOGIA E SEGURANÇA DE CARNE E PRODUTOS CÁRNEOS 1.1 Perigos microbiológicos, físicos e químicos Perigos em alimentos podem ser definidos com agentes físicos, quí- micos ou microbiológicos (ou biológicos) de provável ocorrência em 130 alimentos que podem causar risco de doença ou injúria ao consumi- dor caso não sejam prevenidos, reduzidos a níveis seguros ou elimi- nados. Portanto, a principal forma de fornecer alimentos seguros é evitar, eliminar ou reduzir a níveis seguros os perigos que possam estar presentes nos alimentos no momento do consumo. Perigos físicos, geralmente visíveis a olho nu, incluem mate- riais estranhos introduzidos involuntariamente nos alimentos que podem causar algum dano (lesões, cortes, asfixia) quando ingeridos. Na indústria de carnes, os perigos físicos mais frequentes são frag- mentos de metais, plásticos, agulhas, ossos, podendo ocorrer também a presença de fragmentos de vidro, madeira, insetos, cabelos, ador- nos, entre outros (FERNANDES NETO, 2016). No entanto, a possi- bilidade de um perigo físico causar danos ao consumidor é reduzida, uma vez que poucos materiais são afiados, suficientemente duros ou possuem dimensões capazes de causar problemas. Perigos químicos estãoassociados às substâncias químicas pre- sentes em sanitizantes, inseticidas, antibióticos, agrotóxicos, entre outros. Podem estar associados à água ou, ainda, com a contamina- ção durante as próprias etapas de processamento na indústria, por exemplo, resíduos de detergentes (PINHEIRO, 2009). Em carnes e produtos cárneos, são exemplos de perigos químicos nitrosaminas (em produtos curados), aminas biogênicas (em produtos cárneos fer- mentados ou carnes em condições higiênicas insatisfatórias), ami- nas heterocíclicas (produtos cárneos cozidos em altas temperaturas), hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (produtos cárneos defuma- dos), compostos derivados de oxidação lipídica e proteica (carnes cozidas ou processadas), além de medicamentos veterinários, pro- motores de crescimento e contaminantes ambientais (REIG; TOL- DRÁ, 2010). Já os perigos microbiológicos (ou biológicos) incluem aqueles causados por parasitas e, sobretudo, por microrganismos patogênicos – protozoários, fungos e suas toxinas, bactérias e vírus. Perigos microbiológicos são particularmente importantes nas indústrias de alimentos, sendo causados por microrganismos que 131 provocam intoxicações ou infecções alimentares (MATARAGAS; SKANDAMIS; DROSINOS, 2008). Mesmo com os avanços cien- tíficos na detecção e redução de patógenos de origem alimentar, as doenças transmitidas por alimentos ainda são problemas de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos, em todo o mundo, alimentos não seguros causam 600 milhões de casos de doenças transmitidas por alimentos e 420.000 mortes, sendo que 30 % das mortes ocorrem entre crianças menores de 5 anos de idade (OMS, 2021). No Brasil, foram registrados 6.809 sur- tos entre os anos de 2009 e 2018, com 120.584 pessoas doentes das quais 13,8 % foram hospitalizadas e 0,08 % vieram a óbito. Carnes e pescados e seus derivados estiveram envolvidos em 15 % desses sur- tos3 (BRASIL, 2019a). Em relação aos vírus de origem alimentar, norovírus, vírus das hepatites A e E, rotavírus e astrovírus podem estar associados à carne de animais infectados ou à contaminação de carnes e derivados por manuseio inadequado. Os vírus de origem alimentar tornaram-se mais relevantes e evidentes nos últimos anos e, apenas recentemente, as tecnologias de processamento estão sendo avaliadas quanto à sua eficácia em relação a esses microrganismos. Na carne crua, podem ser encontrados parasitas como Trichinella spp., Sarcocystis spp., Cysti- cercus cellulosae, C. bovis, Toxoplasma gondii e Taenia solium. (FRA- QUEZA et al., 2021). 1.2 Microbiota presente na carne e produtos cárneos Dentre os perigos microbiológicos presentes em alimentos, àqueles associados às bactérias são os mais relevantes, uma vez que há for- tes evidências de sua associação a surtos. De fato, de acordo com a ANVISA (Agência nacional de Vigilância Sanitária), 95,9 % dos surtos ocorridos no Brasil entre 2007 e 2017 foram causados por bactérias 3 Excluídos registros de ignorado, inconsistente e inconclusivo. 132 (BRASIL, 2017). Embora os tecidos musculares de animais vivos e saudáveis sejam considerados estéreis em condições normais, pro- cedimentos como remoção da pele/couro e evisceração, realizados durante abate dos animais, podem contaminar a superfície das car- caças e equipamentos com microrganismos presentes nas superfí- cies externas e no trato gastrointestinal dos animais, especialmente se as condições adequadas de higiene e manuseio não forem realiza- das (ASSIS et al., 2021). De forma mais específica, fontes de contami- nação microbiana para carne e produtos cárneos incluem o próprio ambiente de processamento, a água, resíduos de fezes, a pele/couro/ pelos/penas dos animais, o trato gastrointestinal durante a etapa de evisceração (caso haja o rompimento acidental) e os gânglios lin- fáticos se inspecionados por incisão ou outro corte, além dos equi- pamentos utilizados no processamento como as facas nas etapas de sangria e corte, e os próprios manipuladores que atuam no proces- samento (SKANDAMIS; NYCHAS; SOFOS, 2010). A carne é um substrato favorável para o crescimento micro- biano, pois apresenta alta atividade de água (aw∼0,99), pH favorável (5,5-6,5), além de diversos nutrientes. A microbiota inicial da carne crua é variável, inerente à espécie animal e ao manejo. Apesar disso, alguns microrganismos geralmente estão presentes, como bactérias lácticas (Lactobacillus, Leuconostoc), Brochothrix thermosphacta, Pseudo- monas spp. etc. (HORITA et al., 2018). Dentre os microrganismos alte- radores, que podem causar odores estranhos e limo na superfície da carne, podem ser encontrados bastonetes Gram-negativos (Acineto- bacter, Moraxella, Aeromonas, Alcaligenes, Flavobacterium, Pseudomonas e Enterobacteriaceae), bastonetes Gram-positivos (Corynebacterium, bac- térias lácticas, Brochothrix thermosphacta, Bacillus), cocos Gram-posi- tivos (Micrococcus, Staphylococcus e Streptococcus), além de leveduras e fungos (AIYEGORO, 2014). Os patógenos, que correspondem aos microrganismos que cau- sam intoxicação alimentar e representam um alto risco para a saúde humana, e que podem estar presentes na carne e derivados incluem: 133 Salmonella; Escherichia coli; Campylobacter jejuni; Campylobacter coli; Yersinia enterocolitica (em suínos); Listeria monocytogenes; Staphylo- coccus aureus; Clostridium perfringens; Clostridium botulinum; Bacillus cereus etc. (AIYEGORO, 2014). Os patógenos mais comuns em (a) carnes bovinas são: E. coli, Salmonella spp. e C. perfringens; (b) em carne suína, Salmonella spp., Y. enterocolitica, C. perfringens e S. aureus; (c) e em carne de frango: Salmonella spp., S. aureus, Shigella spp., B. cereus e vírus (MATARAGAS; SKANDAMIS; DROSINOS, 2008). Na Europa, Salmonella spp., L. monocytogenes e C. Perfringens, estão entre os 10 principais patógenos, com surtos de forte evidência relacionados a carnes e derivados, com o maior número de mortes (FRAQUEZA et al., 2021). Além desses patógenos, E. coli O157: H7 e Staphylococcus aureus são considerados microrganismos que causam grande preo- cupação de saúde pública global (MILIOS et al., 2021). O controle de patógenos na cadeia produtiva da carne requer o uso de procedimentos baseados em Boas Práticas de Fabricação e Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (HACCP) (ANTIC et al., 2021). 1.2.1 Alguns patógenos de importância em carnes e produtos cárneos Escherichia coli Dentre os patógenos de origem alimentar associados à carne, a E. coli produtora de toxina Shiga (STEC) é considerada um sério pro- blema de saúde pública, uma vez que surtos e casos esporádicos envol- vendo esse microrganismo têm sido relatados em todo o mundo (MAJOWICZ et al., 2014). E. coli é um bastonete Gram-negativo, anaeróbio facultativo, não formador de esporos, que ocorre amplamente na natureza, como nos intestinos de humanos e animais. A maioria das E. coli isoladas do meio ambiente não são patogênicas, entretanto existem seis classes pato- gênicas: as enterohemorrágicas, enterotoxigênicas, enteroinvasivas, 134 enteroagregativas, entero-patogênicas e difusamente aderentes. Embora o sorotipo O157: H7 seja o mais frequentemente envolvido em surtos, mais de cem sorotipos diferentes de STEC foram associados às doenças em humanos (ASSIS et al., 2021). Em 1993, um grande surto de E. coli O157: H7 nos Estados Unidos, envolvendo setecentas pessoas e resultando em quatro mortes, foi causado pelo consumo de ham- búrguer mal cozido servido por uma rede de fast-food (FUNG, 2010). STEC produz uma ou mais toxinas semelhantes à Shiga, também conhecida como verotoxina, que causa doenças, sobretudo em crianças e pacientes imunossuprimidos. Há três manifestações da doença: colite hemorrágica, síndrome hemolítico-urêmica e púrpura trombocitogê- nica trombótica. Os sintomas de colite hemorrágica se iniciam em um a dois dias após o consumo do alimento contaminado e começam com diarreia levee sem sangue, seguida de dor abdominal intensa e febre curta ou ausência de febre. A diarreia aquosa dura 24 a 48 horas, seguida por quatro a dez dias de diarreia com sangue, dor abdominal intensa e desidratação. Pacientes com colite hemorrágica podem desenvolver complicações com riscos de vida mais graves, como síndrome hemo- lítico-urêmica e púrpura trombocitogênica trombótica (FUNG, 2010). E. coli O157: H7 pode ser encontrada em animais vivos e está relacionada à contaminação de carne (MILIOS; DROSINOS; ZOIO- POULOS, 2014). Produtos derivados da carne bovina foram relatados como os veículos mais frequentes de surtos de doenças transmitidas por alimentos relacionados a E. coli O157: H7 (ASSIS et al., 2021), sendo este microrganismo considerado de alta prioridade, den- tre os riscos biológicos de origem bovina pela Autoridade Euro- peia de Segurança Alimentar (EFSA), juntamente com Salmonella (ANTIC et al., 2021). Salmonella Salmonella é uma bactéria Gram-negativa, anaeróbia facultativa, flage- lada e não formadora de esporos. Pode ser encontrada em uma grande 135 variedade de ambientes e em alimentos como leite, crustáceos, aves, ovos, e seus respectivos derivados, entre outros. Os seres humanos podem ser portadores assintomáticos desse microrganismo. Existem três tipos de doenças causadas por Salmonella: febre entérica causada por S. Thypi (febre tifóide), septicemia causada por S. Cholerasuis e gastroenterite (salmonelose) causada por S. Typhimurium e S. Ente- ritidis. Os sintomas de salmonelose ocorrem de 12 a 24 horas após a ingestão de alimentos contendo de um a dez milhões de células de Salmonella por grama e incluem náuseas, vômitos, dor de cabeça, cala- frios, diarreia e febre. A doença dura de dois a três dias. A maioria dos pacientes se recupera, entretanto, a doença pode levar a óbito pes- soas muito idosas, muito jovens e imunossuprimidos (FUNG, 2010). Salmonella pode ser encontrada nas fezes de animais e está rela- cionada à contaminação da carne, causando 1,4 milhões de incidências por ano apenas nos Estados Unidos (MILIOS; DROSINOS; ZOIO- POULOS, 2014). Esse microrganismo foi responsável por 29 % dos surtos nos Estados Unidos em 2017, sendo o sorotipo Enteritidis o mais comum em 27 surtos, seguido pelo Typhimurium (CDC, 2019). Na União Europeia, Salmonella foi o agente mais comumente detec- tado nos surtos envolvendo alimentos e água, com S. Enteritidis cau- sando um em cada cinco surtos (EFSA; ECDC, 2019). Listeria monocytogenes L. monocytogenes é um patógeno anaeróbio facultativo, Gram-posi- tivo, não formador de esporos e amplamente distribuído no meio ambiente, sendo encontrado no solo, água e material vegetal. Pode crescer em temperaturas de refrigeração, em pH 4,7 e com concen- trações de sal até10 % (JORDAN; LEONG; ORDÓÑEZ, 2015), sendo capaz de formar biofilmes em várias superfícies, tornando seu con- trole desafiador na indústria de alimentos (HORITA et al., 2018). Embora L. monocytogenes possa fazer parte da microbiota ini- cial da carne crua, ela é inativada durante a etapa de cozimento do 136 processamento de produtos cárneos. Surtos de listeriose associados a produtos cárneos cozidos pronto para o consumo foram relatados em todo o mundo. A presença desse microrganismo nesse tipo de produto indica contaminação pós-cozimento por meio do contato do produto com superfícies, utensílios, fatiadores e ambientes con- taminados (HORITA et al., 2018). Listeriose, infecção causada pela L. monocytogenes, pode ser uma doença leve, apresentando sintomas como mal-estar, diarreia e febre baixa (FUNG, 2010). Porém, a capacidade do patógeno de cruzar a barreira epitelial do intestino, a barreira hematoencefálica e a bar- reira feto-placentária também podem resultar em doenças mais gra- ves como a bacteremia, meningite ou aborto espontâneo. Embora relativamente rara, a infecção por L. monocytogenes pode ter uma taxa de mortalidade de até 30 %, resultando em um risco sério, particular- mente para os grupos de alto risco como idosos e indivíduos imuno- comprometidos (JORDAN; LEONG; ORDÓÑEZ, 2015). Clostridium botulinum Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia gram-positiva forma- dora de esporos, presente no meio ambiente (solo e água) e no trato intestinal de animais (LEBRUN et al., 2020). Esse patógeno cresce em temperaturas que variam de 3,3 °C a 50 °C, sendo que a maioria das cepas cresce bem a 30 °C com temperatura ótima de 37 °C. Teor de sal superior a 10 %, pH inferior a 4,6 e atividade da água inferior a 0,94 inibem o crescimento desse microrganismo. Células vege- tativas do C. botulinum são facilmente destruídas pelo calor, mas os esporos são muito mais resistentes ao calor e a outros métodos de conservação (FUNG, 2010), podendo não ser eliminados por tra- tamentos térmicos moderados utilizados na indústria de alimentos (JUNEJA et al., 2021). É capaz de produzir uma potente neurotoxina responsável por causar uma grave doença conhecida como botulismo, que constitui 137 um sério problema de saúde pública (JUNEJA et al., 2021). O botu- lismo de origem alimentar pode ocorrer pela ingestão da toxina botulínica por meio de alimentos contaminados com bactérias e/ou esporos e processados de forma inadequada (LEBRUN et al., 2020). De acordo com o Departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, os alimentos mais comumente envolvidos no botulismo alimentar são conservas vegetais, principalmente as artesanais, produtos cárneos cozidos, curados e defumados de forma artesanal (salsicha, presunto, carne frita conservada em gordura – “carne de lata”), pescados defumados, salgados e fermentados, queijos e pasta de queijos e, raramente, em alimentos enlatados industrializa- dos (BRASIL, 2006). Entre os anos de 2005 e 2015 foram registrados 74 casos confirmados de botulismo alimentar no Brasil, com taxa de letalidade de 16,2 %, sendo a maior prevalência de botulismo identi- ficada na região Sudeste (OLIVEIRA; BRUM; LOURENÇÃO, 2019). Staphylococcus aureus S. aureus é uma bactéria gram-positiva, anaeróbia facultativa (FUNG, 2010) que pode ser encontrada nos mais diversos ambientes como pele, narinas, cabelo e trato gastrointestinal de humanos e em mui- tos alimentos. Trabalhadores assintomáticos de indústrias de ali- mentos podem contaminar produtos por contato manual ou por secreções respiratórias, tornando-se fonte de intoxicações alimen- tares estafilocócicas. A intoxicação alimentar causada pela ingestão de enterotoxi- nas estafilocócicas pré-formadas em alimentos por cepas enteroto- xigênicas de S. aureus é uma das doenças de origem alimentar mais comuns (HENNEKINNE; DE BUYSER; DRAGACCI, 2012), cujos sintomas incluem vômitos, náuseas, diarreia e prostração. Enquanto na maioria dos casos os sintomas diminuem espontaneamente após 24 horas, as taxas de letalidade variam de 0,03 % na população em geral a 4,4 % em crianças e idosos (WATTINGER et al., 2012; LI et 138 al., 2021). Embora a maioria das pessoas se recuperem completa- mente da infecção sem assistência médica e tenha uma recuperação completa, em casos raros a infecção pode ser fatal. Portanto, a con- taminação de alimentos por S. aureus representa um sério problema tanto para a indústria de alimentos quanto para os sistemas de saúde (BENCARDINO; AMAGLIANI; BRANDI, 2021). Embora vários alimentos estejam comumente associados à into- xicação estafilocócica, carnes, aves, ovos e leite não pasteurizado, bem como seus respectivos derivados, se destacam (BENCARDINO et al., 2021; LI et al., 2021). S. aureus não é um bom competidor em compa- ração com outros microrganismos (por exemplo, Pseudomonas) em ali- mentos crus, como carne moída e peixe. No entanto, na ausência de concorrentes, como em alimentos salgados (ex.: presunto), o micror- ganismo pode crescer e produzir as toxinas (FUNG, 2010). 1.3 Considerações sobre a legislação brasileira Algumas regulamentações no Brasil, que visam proteger a saúde dos consumidores,foram estabelecidas para auxiliar no controle micro- biológico dos alimentos (ASSIS et al., 2021). A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 331, de 23 de dezembro de 2019 (BRASIL, 2019b), publicada pela Agência Nacio- nal de Vigilância Sanitária (ANVISA), dispõe sobre os padrões micro- biológicos de alimentos e sua aplicação e a Instrução Normativa n. 60, de 23 de dezembro de 2019, ANVISA estabelece as listas de padrões microbiológicos para alimentos, incluindo carne de aves, bovinos e suínos e pescado e seus respectivos derivados (BRASIL, 2019c). Já a Instrução Normativa n. 60, de 20 de dezembro de 2018, do Ministério da Saúde, Pecuária e Abastecimento (MAPA), estabe- lece o controle microbiológico em carcaça de suínos e em carcaça e carne de bovinos em abatedouros frigoríficos, registrados no Depar- tamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA), com objetivo de avaliar a higiene do processo e reduzir a prevalência de 139 agentes patogênicos (BRASIL, 2018). Além de outras providências, essa Instrução Normativa prevê a coleta de amostras para análise de Enterobacteriaceae e Salmonella spp. em carcaça de suínos e bovi- nos e coleta de amostras para análise de Escherichia coli produtora de Shiga toxina (STEC) em carne de bovinos ‒ sorogrupos O157:H7, O26, O45, O103, O111, O121 e O145. 2. PRINCÍPIOS BÁSICOS DE HIGIENE O Codex Alimentarius (do latim Lei ou Código dos Alimentos) é um programa conjunto da Organização das Nações Unidas para Agricul- tura e Alimentação (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) criado em 1962, e uma das finalidades é proteger a saúde da população mundial. Suas normas alimentares são internacionalmente reconhe- cidas e dirigidas a governos e a cadeia de alimentos (incluindo desde os produtores primários até o consumidor final), sendo apresentadas sob a forma de códigos de práticas, diretrizes e outras medidas reco- mendadas. Essa coletânea de normas e padrões alimentares é a base dos programas de autocontrole como Boas Práticas Agrícolas, Boas Práticas de Fabricação e Procedimentos Operacionais Padronizados. Os programas de autocontrole devidamente implantados são a base sobre a qual um eficiente plano de Análise de Perigos e Pontos Críti- cos de Controle (APPCC) deve ser construído para garantia da segu- rança dos alimentos em conformidade com as exigências sanitárias quanto à produção, elaboração e processamento de alimentos seguros. Os princípios básicos de higiene dos alimentos devem ser apli- cados desde a produção primária (ex.: manejo, criação, abate, pesca, ordenha, colheita) de forma a reduzir a probabilidade de introdução de um perigo que possa afetar a segurança do alimento ou a sua ade- quação ao consumo em etapas posteriores da cadeia de alimentos. As Boas Práticas Agrícolas se referem a um conjunto de recomen- dações que inclui princípios de higiene pessoal, de equipamentos, uten- sílios e instalações, desde a colheita ao armazenamento e transporte 140 do produto; itens para controle de pragas, aplicação de adubos, ferti- lizantes e defensivos agrícolas, e medicamentos veterinários de forma a garantir a inocuidade dos produtos do ponto de vista químico, físico e microbiológico. São aplicadas na produção primária em produtos de origem animal e vegetal, como grãos, cereais, frutas, hortaliças, leite, carne etc. Além de contribuir para a segurança desses produtos, os pro- gramas de BPA contribuem também para uma produção sustentável. 2.1 Boas práticas de fabricação Pelo Decreto n. 9013, de 29 de março de 2017, do MAPA (que dispõem sobre a inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal), Boas Práticas de Fabricação (BPF) englobam condições e procedimen- tos higiênico-sanitários e operacionais sistematizados, aplicados em todo o fluxo de produção, com o objetivo de garantir a inocuidade, a identidade, a qualidade e a integridade dos produtos de origem animal. Os princípios de BPF são aplicados nas indústrias de alimentos de forma a assegurar que todos envolvidos na elaboração e proces- samento dos alimentos tenham conhecimento, comprometimento e conscientização sobre os princípios básicos de higiene e controles aplicados aos processos e produtos, incluindo elementos previamente descritos que controlam as condições operacionais dentro da fábrica favoráveis à produção de um alimento seguro. Itens para controle geral de higiene e qualidade; controle de pragas; controle químico; treinamento; recepção de matéria-prima, ingredientes e materiais em geral; rastreabilidade; equipamentos; e estruturas físicas das plantas de processamento de alimentos, fazem parte desse programa. O programa de BPF compreende seis elementos: Pessoal, que enquadra todas as pessoas que tenham contato com o processo, maté- rias-primas, material de embalagem, produto em processo e produto acabado, e equipamentos e utensílios, devendo essas serem treinadas e conscientizadas a praticar as medidas de higiene e segurança para pre- venir possíveis contaminações físicas, químicas e microbiológicas dos 141 alimentos. Envolve princípios de higiene pessoal e saúde dos funcio- nários; Edifícios e instalações, que está relacionado à localização dos estabelecimentos e vias de acesso e plantas de processamento (áreas de manipulação, armazenamento, refeitórios, vestiários, banheiros, abastecimento de água, tratamento de efluentes, iluminação, instala- ção elétrica e ventilação). Deve ser considerada infraestrutura física da indústria, e no layout da planta de processamento, o fluxo de pro- dução deve ser ordenado e unidirecional, evitando contaminação cru- zada, que pode ocorrer pelo contato da matéria-prima, produto em processamento e produto acabado. Ingredientes e insumos devem ter áreas reservadas para armazenamento e manipulação separadas da área de produção; Equipamentos e utensílios, elemento relacio- nado às características, adequação e estado de conservação e funcio- namento de equipamentos e utensílios utilizados no processamento de alimentos, que devem ser usados unicamente para os fins aos quais foram projetados, fabricados de material inerte, de fácil desmonta- gem e higienização, com superfícies lisas; Produção, que se refere ao comportamento dos funcionários e aos procedimentos e medidas que devem ser adotadas na área de elaboração/processamento do produto. Manuais operacionais devem ser elaborados, considerando todo o processo; Armazenamento e distribuição, que se refere às instalações e edificações utilizadas para o armazenamento de matérias-primas, insumos, ingredientes, produto acabado, não conformes, descarta- dos e produtos empregados na higienização. Disposição e manuseio dos produtos no interior do armazém, entre outras medidas; e Con- trole de pragas, que compreende medidas preventivas para evitar a presença de roedores, insetos e outros tipos de animais que possam resultar na contaminação do produto (BRASIL, 1997). 2.2 Procedimentos operacionais padronizados Os Procedimentos Operacionais Padronizados (POP) são planos elabo- rados para prevenir a contaminação direta, indireta ou adulterações nos 142 produtos, envolvendo itens referentes à qualidade da água; condições de limpeza de equipamentos, utensílios e materiais em geral que entrem em contato com o produto; prevenção de contaminação cruzada; prote- ção dos alimentos contra contaminação por lubrificantes, combustíveis, defensivos agrícolas, agentes de limpeza e outras substâncias químicas e contaminantes físicos e biológicos; armazenamento de produtos quí- micos; controle das condições de saúde dos trabalhadores; higiene pes- soal; e de instalações sanitárias e controle de pragas. Os procedimentos de limpeza e sanitização da fábrica, equipamentos e utensílios devem ser descritos em manuais específicos e realizados por pessoal bem treinado. Pelo Decreto n. 9013, de 29 de março de 2017, do MAPA, pro- cedimento Padrão de Higiene Operacional (PPHO) corresponde aos procedimentos descritos, desenvolvidos,implantados, monitorados e verificados pelo estabelecimento, com propósito de estabelecer a forma rotineira pela qual o estabelecimento evita a contaminação direta ou cruzada do produto e preserva sua qualidade e integridade, por meio da higiene, antes, durante e depois das operações. 3. FERRAMENTAS PARA A GARANTIA DA SEGURANÇA DE ALIMENTOS 3.1 Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle O sistema de Análises de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), seus conceitos e sua introdução na prática foram relata- dos primeiramente pela Pillsbury Company no projeto de pesquisas de alimentos para o programa espacial americano. As bases do sis- tema APPCC foram desenvolvidas a partir do sistema de Análise de Modo e dos Efeitos das Falhas (FMEA - Failure, Mode and Effect Analysis) usado na indústria metalúrgica e mecânica, onde se observa em cada etapa do processo, aquilo que pode sair do controle, junta- mente com as prováveis causas e efeitos, estabelecendo-se os meca- nismos de controle (SBCTA, 1995). 143 Em 1971, o APPCC foi formalmente apresentado ao público em geral como um método preventivo para segurança dos alimen- tos na indústria de alimentos, durante a National Conference on Food Protection. O primeiro documento detalhando a técnica de APPCC foi publicado em 1973 e serviu como base para o treinamento dos ins- petores do Food and Drug Administration (FDA). Em 1993, a Comis- são do Codex Alimentarius incorporou o Guidelines for the Application of the HACCP System, sendo este sistema reconhecido internacional- mente como uma ferramenta de garantia da qualidade e segurança dos alimentos, recomendado por órgãos como a Organização Mun- dial do Comércio (OMC), Organização Mundial de Saúde (OMS) e Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) (SBCTA, 1995). É exigido por alguns segmentos do setor de alimentos da Comunidade Europeia e EUA. No Brasil, entre outras medidas, a Portaria n. 1428/93 do Ministério da Saúde estabeleceu um sistema de qualidade de acordo com as exigências do APPCC para as indústrias de alimentos, e a Portaria n. 46 de 10 de fevereiro de 1998, do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, ins- titui o sistema APPCC a ser implantado, gradativamente nas indús- trias de produtos de origem animal sob o regime do SIF (Serviço de Inspeção Federal), de acordo com o manual genérico de procedi- mentos para a implementação do sistema APPCC nessas indústrias (anexo à referida Portaria). Apesar da sua maior aplicação em indústrias do setor de alimen- tos, tal sistema vem sendo aplicado em todos os segmentos da cadeia produtiva, desde a fazenda até o consumidor final, sendo que sua apli- cação já ocorre também na produção primária. Apesar de ser um sis- tema efetivo, eficaz e uma referência para as exigências internacionais de garantia de segurança dos alimentos é complexo e caro, exigindo investimentos e recursos financeiros, operacionais e humanos para seu desenvolvimento, implantação e manutenção. A aplicação do sistema APPCC deve ser baseada em evidências científicas de riscos à saúde humana e construído sobre programas de 144 autocontrole sólidos e efetivamente implantados, como BPA e BPF, que podem ser considerados como a base para a implantação de um plano APPC efetivo. Na avaliação do sistema APPCC, devem-se con- siderar todos os perigos associados a ingredientes, matéria-prima, práticas de produção e processo, bem como armazenamento, distri- buição, comercialização do produto, entre outras etapas. Os contro- les e monitoramentos necessários para prevenir, eliminar ou reduzir, em níveis seguros, os perigos relevantes para a segurança do alimento devem ser identificados e implementados. De forma resumida, a elaboração de um plano APPCC ocorre basicamente da seguinte maneira: realiza-se, primeiramente, uma análise dos perigos associados com a produção do alimento, em toda a sua cadeia produtiva, desde a obtenção das matérias-primas e das entradas do processo até a mesa do consumidor ou do usuário do pro- duto; com base nessa análise e em dados de evidências epidemiológi- cas e científicas é feita a identificação dos pontos críticos de controle ao longo de toda a cadeia produtiva e distribuição do produto; por último, é estabelecido um plano de monitoramento, no qual cons- tam todas as medidas preventivas, ações corretivas, os parâmetros do processo a serem controlados e quais os limites críticos estabele- cidos, os responsáveis pelo monitoramento e registros do processo além dos procedimentos para verificação da eficiência do sistema na garantia da segurança do produto (SBCTA, 1995). São princípios do sistema APPCC: PRINCÍPIO 1 - Identifi- cação e análise dos perigos potenciais: A análise de perigos consiste numa série de perguntas relacionadas ao processamento de um pro- duto específico que ajudará a determinar os efeitos de vários fato- res sobre a segurança do alimento, sendo a chave para o preparo e desenvolvimento do plano APPCC. Envolve um estudo sistemá- tico dos ingredientes, do produto, das condições de processamento, manipulação, estocagem, envase, distribuição e consumo, que per- mite a identificação dos pontos críticos de controle. É realizada dire- tamente no ambiente de produção, sendo que cada processo é tratado 145 individualmente, exigindo a observação direta da cadeia produtiva. A identificação dos perigos potenciais é realizada por meio da ava- liação de todos os ingredientes e etapas do processo, sendo que tais perigos podem ser de natureza: microbiológica (ou biológica), asso- ciados à presença de microrganismos patogênicos (Salmonella sp., Clostridium botulinum, entre outros) e suas toxinas; química: resíduos inorgânicos ou orgânicos (sais de Hg e Pb, praguicidas, hormônios, antibióticos); física: materiais estranhos nocivos à saúde do consumi- dor (metal, vidro, insetos/parte de insetos, fragmentos de madeira, fragmentos sólidos); PRINCÍPIO 2 - Identificação dos pontos críti- cos de controle (PCC). A determinação dos PCC’s pode ser realizada através da árvore decisória, e baseada na análise de perigos, sendo que os PCC’s devem ser cuidadosamente identificados, documentados e utilizados somente para propósitos de segurança do produto, evitan- do-se o desenvolvimento de planos complexos, extensos e caros, difi- cultando sua execução e manutenção tanto em termos tecnológicos quanto econômicos; PRINCÍPIO 3 - Definição dos limites críticos: os limites críticos podem ser baseados em fatores como tempo, tempe- ratura, teor de água, atividade de água, entre outros parâmetros que podem ser controlados durante o processamento e devem ter emba- samento científico; PRINCÍPIO 4 - Definição dos procedimentos de monitoramento: os procedimentos de monitoramento devem ser de preferência contínuos ou então se deve estabelecer previamente sua frequência, e devem ser realizados através de métodos físicos e quí- micos, cujos resultados são mais rápidos. As medidas de monitora- mento incluem temperatura, tempo, pH, teor de água, observações visuais do processo e do produto, entre outras. Todos os registros e documentos, associados a esta etapa, devem ser datados e assina- dos pelo responsável; PRINCÍPIO 5 - Definição das ações correti- vas: para cada PCC identificado, uma ou mais ações corretivas devem estar associadas e serem executadas por pessoas que possuam um conhecimento aprofundado do processo, produto e plano APPCC; PRINCÍPIO 6 - Estabelecimento dos procedimentos de verificação: 146 durante a verificação, todos os documentos relacionados ao plano APPCC devem ser analisados, incluindo, por exemplo, a revisão dos PCC’s, revisão dos desvios e inspeções do processo para observar se os PCC’s estão sob controle, coleta aleatória de amostras e análises, revisão dos limites críticos e dos registros etc.; e PRINCÍPIO 7 - Esta- belecimento dos procedimentos efetivos de registros e documenta- ção: o plano APPCC aprovado e os registros associadosdevem ser arquivados na empresa. Os registros devem incluir: um resumo da análise de perigos e a forma como foi realizada, além das medidas de controle; os integrantes da equipe APPCC e de todos os funcioná- rios envolvidos com o plano e suas respectivas funções; descrição do produto, sua distribuição, intenção de uso e consumidor; verificação do fluxograma do processo; tabela com resumo do plano, contendo os PCC’s, limites críticos, procedimentos de monitoramento, ações corretivas, natureza do perigo, procedimentos de verificação e pro- cedimentos para registro; documentação e registros de validação do plano; registros gerados durante a operação do plano (BRASIL, 1998). Em relação à legislação brasileira aplicada ao setor de alimentos e relacionada à segurança de alimentos, podem ser citadas: a Porta- ria n. 1.428, de 26/11/1993 do Ministério da Saúde que estabelece as orientações necessárias que permitam executar as atividades de inspeção sanitária, de forma a avaliar as Boas Práticas para a obten- ção de padrões de identidade e qualidade de produtos e serviços na área de alimentos com vistas à proteção da saúde da população; Ava- liar a eficácia e efetividade dos processos, meios e instalações, assim como dos controles utilizados na produção, armazenamento, trans- porte, distribuição, comercialização e consumo de alimentos através do Sistema de Avaliação dos Perigos em Pontos Críticos de Controle (APPCC) de forma a proteger a saúde o consumidor. Avaliar os pro- jetos da qualidade das empresas produtoras e prestadores de serviços quanto à garantia da qualidade dos alimentos oferecidos à popula- ção; RDC n. 275, de 21/10/2002 da ANVISA, que aprova o regula- mento técnico de procedimentos operacionais padronizados (POPs) 147 aplicados às indústrias de alimentos e a lista de verificação das Boas Práticas de Fabricação nas mesmas; e dispõe sobre a lista de verifica- ção das Boas Práticas de Fabricação, que é apresentado na forma de check list (avalia o cumprimento do regulamento técnico constante do anexo I e do regulamento técnico sobre as condições higiênico- -sanitárias e de Boas Práticas de Fabricação aprovado pela Portaria n. 326/97, da ANVISA); Portaria n. 326, de 30/07/1997, da ANVISA que aprova o regulamento técnico sobre condições higiênico-sanitá- rias e de Boas Práticas de Fabricação para estabelecimento produto- res/industrializadores de alimentos; a Portaria n. 368 de 04/09/1997 do MAPA, que aprova o regulamento técnico sobre as condições higiênico-sanitárias e de Boas Práticas de Fabricação para Estabele- cimentos Elaboradores/Industrializadores de Alimentos; e a Porta- ria n. 46 de 10/02/1998 do MAPA, que institui o sistema de análise de perigos e pontos críticos de controle (APPCC) a ser implantado, gradativamente, nas indústrias de produtos de origem animal sob o regime do Serviço de Inspeção Federal (SIF), de acordo com o manual genérico de procedimentos, anexo à referida Portaria. 3.2 Análise de riscos Como produto comercial, os alimentos constituem a principal mer- cadoria do comércio entre os países e, ao mesmo tempo, tornam-se o veículo mais importante de transmissão de doenças infecciosas. A segurança sanitária dos alimentos, portanto, representa um problema amplo de saúde pública e um desafio para os sistemas de vigilâncias sanitárias (FIGUEIREDO; MIRANDA, 2011). O controle da quali- dade e da segurança dos alimentos, in natura ou processados, devem ser realizados em toda a cadeia produtiva, sendo responsabilidade de todos os profissionais envolvidos nessas atividades, envolvendo desde órgãos governamentais, fornecedores, indústrias, estabeleci- mentos comercializadores e os próprios consumidores (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008). 148 Em segurança de alimentos, a metodologia de análise de risco pode ser aplicada como uma ferramenta na cadeia produtiva de ali- mentos para auxiliar na identificação de um problema potencial, na avaliação da probabilidade da sua ocorrência, na estimativa do seu impacto e sugerir as medidas para solucioná-lo, sendo um processo interativo e contínuo, formado por três componentes: gerenciamento de risco, avaliação de risco e comunicação de risco. Possibilita, dessa forma, o estabelecimento de padrões, diretrizes e de outras recomen- dações relacionados à segurança dos alimentos, colaborando para a proteção da saúde do consumidor e para o comercio internacional. A análise de risco auxilia os gerentes de agências reguladoras com informações para tomadas de decisões relacionadas à regulamenta- ção sanitária dos alimentos e para minimizar riscos à saúde do con- sumidor (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008). Os princípios de implementação do método científico da aná- lise de risco, inicialmente aplicado à segurança industrial, ao meio ambiente e à saúde, foram adotados em 2003 pela comissão do Codex Alimentarius e descritos no documento de política geral Princípios de aplicación práctica para el análisis de riesgos aplicables en el marco del Codex Alimentarius, com o objetivo de aplicação e orientação do tra- balho da Comissão e dos seus órgãos subsidiários (FAO; WHO, 2005). Para a operacionalização da metodologia de análise de riscos na cadeia produtiva de alimentos o país deve possuir um sistema de segu- rança de alimentos efetivo e operante, incluindo legislação e regula- mentação, além de uma estratégia nacional de controle de alimentos, serviços eficientes de inspeção e análises laboratoriais, capacitação técnica e científica, dados epidemiológicos organizados, e estrutura para atividades de comunicação e educação. É necessária também a participação da indústria, dos consumidores, de representantes dos grupos implicados nos riscos e/ou responsáveis pelas ações de con- trole, formadores de opinião e profissionais de áreas relacionadas (autoridades oficiais e/ou representantes das áreas de saúde, agri- cultura, pecuária, agronegócio, pesca, indústria de alimentos, e os 149 meios de comunicação de massa e dos formadores de opinião), além de especialistas e profissionais da área de segurança dos alimentos (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008; FAO; WHO, 2009). O gerenciamento de risco é um dos três componentes da metodo- logia de análise de riscos que envolvem o levantamento de informações sobre o problema de segurança e saúde pública identificado, e corres- ponde a etapa em que se planeja, discute e define as medidas de controle que serão implementadas e que poderão efetivamente reduzir o risco ao nível de proteção desejado (SANT’ANA; FRANCO, 2009). Atividades de inspeção e monitoramento ambiental, vigilância sanitária, investi- gação de um surto e estudos epidemiológicos, toxicológicos ou clínicos, e alertas de consumidores, comunidade cientifica e indústria de alimen- tos podem ser usadas como fontes para a identificação do problema de segurança dos alimentos (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008). A partir da identificação de um problema de segurança em saúde pública, elabora-se o perfil do risco através do levantamento de informações disponíveis sobre o perigo e o alimento envolvido, forma de contaminação, entre outras informações, de forma a dire- cionar a necessidade e viabilidade de uma etapa de avaliação de riscos (CODEX, 2003; FAO; WHO, 2002; FAO; WHO, 2009). Compo- nente científico central da análise de riscos, a avaliação de riscos compreende a caracterização qualitativa e/ou quantitativa e a esti- mativa do potencial do efeito adverso à saúde associado à exposi- ção de indivíduos ou de uma população a um perigo. Em geral são formuladas hipóteses sobre o perigo, que são planejadas e testadas seguindo princípios e métodos científicos. Dados disponíveis na lite- ratura científica são utilizados, e a transformação de fatos e evidên- cias em informações auxiliam no processo de tomada de decisões dos gestores de risco (FAO; WHO, 2009; DUBUGRAS; PÉREZ-GU- TIÉRREZ, 2008; SANT’ANA; FRANCO, 2009). Pode ser definida como um processo científico estruturado formado peloscomponen- tes: identificação do perigo; caracterização do perigo; avaliação da exposição; e caracterização do risco. 150 A comunicação de riscos é outro elemento da análise de riscos, sendo um processo contínuo, realizado durante toda a análise de risco com o objetivo de divulgar as informações e promover discus- sões entre avaliadores, gestores, consumidores, comunidade cien- tífica e outras partes interessadas sobre os riscos, fatores de riscos, percepções do problema, natureza do efeito adverso associado ao perigo, resultados da avaliação e decisões do gerenciamento (DUBU- GRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008; FIGUEIREDO; MIRANDA, 2011; FAO; WHO, 2009). REFERÊNCIAS ANTIC, D.; HOUF, K.; MICHALOPOULOU, E.; BLAGOJEVIC, B. Beef abattoir interventions in a risk-based meat safety assurance sys- tem. Meat Science, v. 182, n. jul. 2021, p. 108-622. DOI: https:// doi.org/10.1016/j.meatsci.2021.108622 AIYEGORO, O. A. Microbial Contamination of fresh meat. In: DIKE- MAN, M.; DEVINE, C. (ed.). Encyclopedia of Meat Science. 2. ed. S. l.: Elsevier, 2014. v. 3, 2014. p. 285-288. BENCARDINO, D; AMAGLIANI, G; BRANDI, G. Carriage of Sta- phylococcus aureus among food handlers: an ongoing challenge in public health. Food Control, n. 130, p. 108-362, 2021. DOI: https:// doi.org/10.1016/j.foodcont.2021.108362 BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ins- trução Normativa n. 46, de 10 de fevereiro de 1998. Diário Oficial da União, 16/03/1998. seção 1. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ins- trução Normativa n. 368, de 4 de setembro de 1997. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF: 8 set. 1997. https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2021.108622 https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2021.108622 https://doi.org/10.1016/j.foodcont.2021.108362 https://doi.org/10.1016/j.foodcont.2021.108362 151 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual Integrado de Vigilância Epidemiológica do Botulismo. Brasília: Ministé- rio da Saúde, 2006. 88 p. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos no Brasil. S. l: s.n., 2017. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secre- taria de Defesa Agropecuária. Instrução Normativa n. 60, de 20 de dezembro de 2018. Estabelece o controle microbiológico em carcaça de suínos e em carcaça e carne de bovinos em abatedouros frigorífi- cos, registrados no Departamento de Inspeção de Produtos de Ori- gem Animal (DIPOA). Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF: n. 246, p. 4, 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos no Brasil: Informe. 2018. S. l: s.n., 2019a. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 331, de 23 de dezem- bro de 2019. Dispõe sobre os padrões microbiológicos de alimen- tos e sua aplicação. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF: n. 249, p. 96, 2019b. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Ins- trução Normativa n. 60, de 23 de dezembro de 2019. Estabelece as listas de padrões microbiológicos para alimentos. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF: n. 249, p 133, 2019c. 152 CDC. Center for Disease Control and Prevention. Surveillance for Foodborne Disease Outbreaks United States, 2017: annual report. Atlanta, GA: CDC, 2019. CHAVES, J. B. Controle de qualidade na indústria de alimen- tos. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 1998. (Material técnico) DE ASSIS, D. C. S. et al. Shiga toxin-producing Escherichia coli (STEC) in bovine meat and meat products over the last 15 years in Brazil: a systematic review and meta-analysis. Meat Science, n. 173, jun. 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2020.108394 DUBUGRAS, M. T. B.; PÉREZ-GUTIÉRREZ, E. Perspectiva sobre a análise de risco na segurança dos alimentos: curso de sensibili- zação. Rio de Janeiro: Área de Vigilância Sanitária, Prevenção e Con- trole de Doenças (OPAS/OMS), 2008. 160 p. Disponível em: https:// iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/34152/perspectivaanalise- -por.pdf?sequence=1. Acesso em: 27 ago. 2023. EFSA; ECDC. European Food Safety Authority; European Centre for Disease Prevention, and Control. The European Union one health: zoonoses report. EFSA Journal, n. 17, 2019 [2018], e05926. DOI: https://doi.org/10.2903/j.efsa.2019.5926 FAO; WHO. Food and Agriculture Organization of the United Nations; World Health Organization. Principles and Guidelines for Incorporating Microbiological Risk Assessment in the Development of Food Safety Standards, Guidelines and Related Texts. Kiel, Ger- many, p. 18-22, Mar. 2002. Report of a Joint FAO/WHO. Con- sultation. Disponível em: http://www.fao.org/3/y4302e/y4302e00. htm Acesso em: 23 ago. 2021. https://doi.org/10.1016/j.meatsci.2020.108394 https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/34152/perspectivaanalise-por.pdf?sequence=1 https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/34152/perspectivaanalise-por.pdf?sequence=1 https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/34152/perspectivaanalise-por.pdf?sequence=1 https://doi.org/10.2903/j.efsa.2019.5926 http://www.fao.org/3/y4302e/y4302e00.htm http://www.fao.org/3/y4302e/y4302e00.htm 153 FAO; WHO. Food and Agriculture Organization of the United Nations; World Health Organization. Principios de aplicación práctica para el análisis de riesgos aplicables en el marco del Codex Alimentarius. S. l: s.n., 2005. Disponível em: https://www. fao.org/3/y5817s/Y5817S04.htm. Acesso em: 27 ago. 2023. FAO; WHO. Food and Agriculture Organization of the United Nations; World Health Organization. Food safety risk analysis: a guide for National Food Safety Authorities. FAO Food and Nutri- tion Paper, Rome, n. 87, 2009. Disponível em: http://www.fao. org/3/a0822e/a0822e.pdf. Acesso em: 23 ago. 2021. FERNANDES NETO, A. P. Avaliação de perigos físicos numa empresa do ramo alimentar. 140 f. (Dissertação de mestrado) ‒ Universidade Nova de Lisboa. 2016. Disponível em: https:// run.unl.pt/bitstream/10362/20332/1/Neto_2016.pdf . Acesso em: 23 ago. 2021. FIGUEIREDO, A. V. A.; MIRANDA, M. S. Análise de Risco aplicada aos alimentos no Brasil: perspectivas e desafios. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 4, p. 2251-2262, 2011. Disponível em: http:// www.fao.org/3/a0247s/a0247s05.htm Acesso em: 23 ago. 2021. FRAQUEZA, M. J.; LARANJO, M; ELIAS, M.; PATARATA, L. Microbiological hazards associated with salt and nitrite reduction in cured meat products: control strategies based on antimicrobial effect of natural ingredients and protective microbiota. Current Opinion in Food Science, v. 38, p. 32-39, 2021. DOI: https://doi. org/10.1016/j.cofs.2020.10.027 FUNG, D. Y. C. Microbial hazards in foods: food-borne infections and intoxications. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Handbook of Meat Pro- cessing. S. l.: Wiley-Blackwell, 2010. p. 481-500. https://www.fao.org/3/y5817s/Y5817S04.htm https://www.fao.org/3/y5817s/Y5817S04.htm http://www.fao.org/3/a0822e/a0822e.pdf http://www.fao.org/3/a0822e/a0822e.pdf https://run.unl.pt/bitstream/10362/20332/1/Neto_2016.pdf https://run.unl.pt/bitstream/10362/20332/1/Neto_2016.pdf http://www.fao.org/3/a0247s/a0247s05.htm http://www.fao.org/3/a0247s/a0247s05.htm https://doi.org/10.1016/j.cofs.2020.10.027 https://doi.org/10.1016/j.cofs.2020.10.027 154 HENNEKINNE, J. A.; DE BUYSER, M. L.; DRAGACCI, S. Staphy- lococcus aureus and its food poisoning toxins: characterization and outbreak investigation. FEMS: Microbiology Reviews, v. 36, n. 4, p. 815-836, 2012. https://doi.org/10.1111/j.1574-6976.2011.00311.x HORITA, C. N. et al. Combining reformulation, active packaging and non-thermal post-packaging decontamination technologies to increase the microbiological quality and safety of cooked ready-to-eat meat products. Trends in Food Science and Technology, v. 72, n. Dec., p. 45-61,2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tifs.2017.12.003. JORDAN, K.; LEONG, D.; ÁLVAREZ, O. A. Listeria monocytogenes in the food processing environment. Springer briefs in food, health, and nutrition. Cham: Springer International Publishing, v. 5, 2015. DOI: 10.1007/978-3-319-16286-7. Disponível em: http://link. springer.com/10.1007/978-3-319-16286-7 JUNEJA, V. K. et al. A predictive growth model for Clostridium botu- linum during cooling of cooked uncured ground beef. Food Micro- biology, v. 93, n. Aug. 2019 [2021], p. 103-618. DOI: https://doi. org/10.1016/j.fm.2020.103618 LEBRUN, S. et al. Influence of reduced levels or suppression of sodium nitrite on the outgrowth and toxinogenesis of psychrotro- phic Clostridium botulinum Group II type B in cooked ham. Interna- tional Journal of Food Microbiology, v. 334, n. Mar., p. 108-853, 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijfoodmicro.2020.108853 LI, H. et al. Effect of lysozyme and Chinese liquor on Staphylococcus aureus growth, microbiome, flavor profile, and the quality of dry fer- mented sausage. Lwt, v. 150, n. Dec. 2020, p. 112059, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.lwt.2021.112059 https://doi.org/10.1111/j.1574-6976.2011.00311.x https://doi.org/10.1016/j.tifs.2017.12.003 http://link.springer.com/10.1007/978-3-319-16286-7 http://link.springer.com/10.1007/978-3-319-16286-7 https://doi.org/10.1016/j.fm.2020.103618 https://doi.org/10.1016/j.fm.2020.103618 https://doi.org/10.1016/j.ijfoodmicro.2020.108853 https://doi.org/10.1016/j.lwt.2021.112059 155 MAJOWICZ, S. E. et al. Global incidence of human shiga toxin-pro- ducing Escherichia coli infections and deaths: a systematic review and knowledge synthesis. Foodborne Pathogens and Disease, v. 11, n. 6, p. 447-455, 2014. DOI: https://doi.org/10.1089/fpd.2013.1704 MATARAGAS, M.; SKANDAMIS, P. N.; DROSINOS, E. H. Risk profiles of pork and poultry meat and risk ratings of various patho- gen/product combinations. International Journal of Food Micro- biology, v. 126, n. 1-2, p. 1-12, 2008. DOI: https://doi.org/10.1016/j. ijfoodmicro.2008.05.014 MILIOS, K. T.; DROSINOS, E. H.; ZOIOPOULOS, P. E. Food Safety Management System validation and verification in meat industry: carcass sampling methods for microbiological hygiene criteria: a review. Food Control, v. 43, p. 74-81, 2014. DOI: http://dx.doi. org/10.1016/j.foodcont.2014.02.041 OCKERMAN, H. W.; BASU, L. Encyclopedia of Meat Sciences. 2nd ed. S. l.: s. n., 2014. OLIVEIRA, J. F. de; BRUM, A. N.; LOURENÇÃO, L. G. Botu- lismo alimentar no Brasil, 2001-2015. Research, Society and Development, v. 8, n. 12, p. e478121942, 2019. DOI: https://doi. org/10.33448/rsd-v8i12.1942 OMS. Organização Mundial da Saúde. Estimating the burden of foodborne diseases. Disponível em: https://www.who.int/ activities/estimating-the-burden-of-foodborne-diseases. Acesso em: 20 ago. 2021. OPAS. Organização Pan-Americana da Saúde. Higiene dos alimen- tos: textos básicos. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Brasília: https://doi.org/10.1089/fpd.2013.1704 https://doi.org/10.1016/j.ijfoodmicro.2008.05.014 https://doi.org/10.1016/j.ijfoodmicro.2008.05.014 http://dx.doi.org/10.1016/j.foodcont.2014.02.041 http://dx.doi.org/10.1016/j.foodcont.2014.02.041 https://doi.org/10.33448/rsd-v8i12.1942 https://doi.org/10.33448/rsd-v8i12.1942 https://www.who.int/activities/estimating-the-burden-of-foodborne-diseases https://www.who.int/activities/estimating-the-burden-of-foodborne-diseases 156 Organização Pan-Americana da Saúde, 2006. 64 p. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/alimentos/codex_alimen- tarius.pdf; https://acisat.pt/wp-content/uploads/2016/10/codex_ali- mentarius.pdf Acesso em: 23 ago. 2021. PINHEIRO, S. C. da S. Sistema HACCP aplicado à indústria transformadora de carnes sistema HACCP aplicado à indús- tria transformadora de carnes. 104 f. (Dissertação de mestrado) ‒ Universidade da Beira Interior Sistema, 2009. REIG, M.; TOLDRÁ, F. Detection of chemical hazards. In: TOL- DRÁ, F. (ed.). Handbook of Meat Processing. S. l.: Wiley-Black- well, 2010. p. 469-480. SKANDAMIS, P. N.; NYCHAS, G. E.; SOFOS, J. N. Meat deconta- mination. In: TOLDRÁ, F. (ed.). Handbook of Meat Processing. S. l.: Wiley-Blackwell, 2010. p. 43-85. SANT’ANA, A. S.; FRANCO, B. D. G. M. Avaliação quantitativa de risco microbiológico em alimentos: conceitos, sistemática e aplica- ções. Brazilian Journal of Food Technology, v. 12, n. 4, p. 266- 276, out./dez., 2009. DOI: 10.4260/BJFT2009800900021 SBCTA. Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimen- tos. Análise de perigos e pontos críticos de controle. 2. ed. Campinas, 1995. WATTINGER, L. et al. Comparison of Staphylococcus aureus iso- lates associated with food intoxication with isolates from human nasal carriers and human infections. European Journal of Clini- cal Microbiology and Infectious Diseases, v. 31, n. 4, p. 455-464, 2012. DOI: https://doi.org/10.1007/s10096-011-1330-y http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/alimentos/codex_alimentarius.pdf http://www.anvisa.gov.br/divulga/public/alimentos/codex_alimentarius.pdf https://acisat.pt/wp-content/uploads/2016/10/codex_alimentarius.pdf https://acisat.pt/wp-content/uploads/2016/10/codex_alimentarius.pdf https://doi.org/10.1007/s10096-011-1330-y 157 Sobre as autoras Consuelo Domenici Roberto Professora do Departamento de Engenharia de Alimentos, desde 2009, e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, desde 2011, ambos do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias da Universidade Federal do Espírito Santo. Formada em Engenheira de Alimentos em 1999, com mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos, concluído em 2002, e doutorado em Engenharia Agrícola, concluído em 2008, todos pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Ministra disciplinas para os cursos de graduação em Engenharia de Alimentos, Agronomia, Zootecnia e Medicina Veterinária e para a Pós-Graduação em Ciência e Tecnolo- gia de Alimentos. Desenvolve pesquisas na área de atuação em Ciên- cia e Tecnologia da Carne. Experiência profissional em consultorias na área de qualidade de segurança de alimentos entre 2004 e 2008. Maria Emília Rodrigues Valente Professora adjunta, desde 2017, do Departamento de Engenharia de Alimentos do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias da Uni- versidade Federal do Espírito Santo. Graduada em Engenheira de 158 Alimentos em 2008, com mestrado e doutorado em Ciência e Tec- nologia de Alimentos, concluídos em 2011 e 2016, respectivamente, ambos pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Atua na área de Ciência, Tecnologia e Engenharia de alimentos. Ministra dis- ciplinas para os cursos de graduação em Engenharia de Alimentos, Agronomia, Zootecnia e Nutrição. _Hlk114599386 _Hlk114599364 _Hlk114599410 _Hlk114599310