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Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 | ATENÇÃO À SAÚDE Abordagem a problemas musculo- esqueléticos MÓDULO 22 Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 | ATENÇÃO À SAÚDE Universidade Federal do Ceará Ministério da Saúde 2023 Abordagem a problemas musculoesqueléticos MÓDULO 22 Instituições patrocinadoras: Código de barras de identificação e número do ISBN Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Universidade Federal do Ceará (UFC) Faculdade de Medicina (Famed) Núcleo de Tecnologias e Educação a Distância em Saúde da Faculdade de Medicina da UFC (NUTEDS/UFC) B823a Brasil. Ministério da Saúde. Abordagem a problemas musculoesqueléticos [módulo 22] / Ministério da Saúde, Universidade Federal do Ceará. Brasília : Fundação Oswaldo Cruz, 2023 Inclui referências. 157 p. : il., organogs., tabs. (Programa Médicos pelo Brasil. Atenção à saúde ; 4). ISBN 978-65-84901-16-2 1. Problemas musculoesqueléticos. 2. Dor muscular. 3. Atendimento clínico. 4. Sistema Único de Saúde. 5. UNA- SUS. I. Título II. Universidade Federal do Ceará. III. Série. CDU 610 Bibliotecário: Fhillipe de Freitas Campos | CRB1 3282 Ficha Técnica © 2022. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Universidade Federal do Ceará. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica UNIVERSIDADE Federal do Ceará. Abordagem a Problemas Infecciosos [módulo 16]. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Programa Médicos pelo Brasil. Eixo 4: Atenção à saúde. Brasília: UNA-SUS/Fiocruz, 2022. 149p. Ministério da Saúde Marcelo Antônio Cartaxo Queiroga Lopes | Ministro Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Raphael Câmara Medeiros Parente | Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Renata Maria de Oliveira Costa | Diretor Coordenação Geral de Provisão de Profissionais para Atenção Primária (CGPROP) Carlos Magno dos Reis Venturelli | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Nísia Trindade Lima | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Sybele Avelino Pereira Assessoria Pedagógica UNA-SUS Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Vânia Moreira Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Pastor Alves Pereira Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Universidade Federal do Ceará Prof. José Cândido Lustosa Bittencourt de Albuquerque | Reitor Faculdade de Medicina da UFC Prof. João Macedo Coelho Filho | Diretor Núcleo de Tecnologias e Ead em Saúde da Faculdade de Medicina da UFC Luiz Roberto de Oliveira | Coordenador Universidade Federal do Ceará (UFC) Coordenação da UNA-SUS/UFC Endereço: Rua Professor Costa Mendes, 1608 - Rodolfo Teófilo - Fortaleza-CE -Bloco Didático - Térreo CEP: 60430-140 - (85) 3366-8055 / 3366-8654 E-mail:nuteds.comunica@nuteds.ufc.br Site: http://www.nuteds.ufc.br/ CRÉDITO DE PRODUÇÃO Revisão Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde Eduardo Ricardo Viegas Santo Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Rafaela Aprato Menezes Luciano Nunes Duro Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Pastor Alves Pereira Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck APOIO TÉCNICO UNA-SUS Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiro de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Silva Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Créditos Coordenador Geral do NUTEDS/FAMED/UFC Luiz Roberto de Oliveira Coordenador Acadêmico (relacionado à temática) Mônica Cardoso Façanha Gestão de Projetos Raquel de Melo Rolim Coordenador de Produção Pedagógica Andréa Soares Rocha da Silva Gerente de Tecnologia da Informação Diego Rodrigues Tavares Conteudista Allan Denizard Mota Marinho Carla Kerr Pontes João Victo Ferreira Alves Leandro Araújo da Costa Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro Severino Ferreira Alexandre Edição Textual Emanoel Alves Cavalcante Ana Josiele Ferreira Coutinho Designer Gráfico Emanoel Alves Cavalcante Francisco Lucas Castro de Almeida Junior Designer Instrucional Ana Josiele Ferreira Coutinho Ilustrador de EaD Francisco Cristiano Lopes de Sousa Francisco Lucas Castro de Almeida Junior Administrador de AVA/Moodle NUTEDS/FAMED/UFC Cleyson Carvalho Cândido Desenvolvedor HTML NUTEDS/FAMED/UFC Luis Diego Pereira Cavalcante José Flávio Vasconcelos Alves Assessoria de Comunicação NUTEDS/FAMED/UFC Paulo Jefferson Pereira Barreto Revisão Ortográfica Maiara Sousa Soares Sumário Apresentação do módulo 1. Unidade 1 - Lombalgia Introdução da Unidade 1.1 Do que se trata a Lombalgia 1.2 Etiologia 1.3 Classificação 1.4 Abordagem diagnóstica: o que fazer? 1.5 Anamnese 1.6 Exame Físico 1.7 Exames Complementares 1.8 Projeto Terapêutico 1.9 Tratamento Medicamentoso 1.10 Avaliação de Prognóstico e acompanhamento 1.11 Quando Encaminhar 1.12 CID 10 1.13 Fechamento de Unidade 2. Unidade 2 – Dor no ombro Introdução da Unidade 2.1 Anatomia do ombro 2.2 Do que se trata 2.3 História Clínica e Exame Físico 2.4 Exames Complementares 2.5 Diagnóstico Diferencial 2.5.1 Síndrome do Impacto do Ombro 2.5.2 Lesão do Manguito Rotador 2.5.3 Tendinopatia Calcária 2.5.4 Capsulite Adesiva (Ombro Congelado) 2.5.5 Degeneração da Articulação Acromioclavicular 2.5.6 Radiculopatia Cervical 2.5.7 Principais diagnósticos de dor no ombro e classificação por CID-10 2.6 Fechamento da Unidade 13 15 15 16 17 18 19 20 24 28 29 31 32 33 34 35 36 36 37 39 41 46 46 46 47 48 48 50 50 51 51 3. Unidade 3 - Dor no joelho Introdução da Unidade 3.1 Diagnóstico 3.2 Causas mais comuns/Exames/Tratamento 3.3 Prognóstico 3.4 Fechamento da Unidade 4. Unidade - Osteoartrite Introdução da Unidade 4.1 Sintomas e sinais da osteoartrite 4.2 Diagnóstico de osteoartrose 4.3 Plano Terapêutico 4.4 Impactos Sociais 4.5 Fechamento da unidade 5. Unidade 5 - Osteoporose Introdução da Unidade 5.1 Do que se trata a osteoporose 5.2 Fatores de risco relacionados à osteoporose e às fraturas na pós-menopausa 5.3 Propedêutica 5.4 Diagnóstico 5.5 Tratamento não farmacológico 5.5 Tratamento farmacológico 5.7 BI-FOSF0NADOS 5.8 Fechamento da unidade 6. Unidade 6 - Artride Reumatóide Introdução da Unidade 6.1 Apresentação Clínica 6.2 Exames Complementares 6.3 Diagnóstico e Classificação 6.4 Diagnóstico diferencial 6.5 Fatores prognóstico 6.6 Classificação da atividade da doença CID-10 6.7 Abordagem terapêutica- princípios gerais 6.8 Abordagem terapêutica- tratamento sintomático 6.9 Abordagem terapêutica- imunobiológicos 52 52 53 64 81 81 83 83 84 85 87 90 94 95 95 96 98 98 98 100 100 101 102 103 104 104 105 108 109 110 111 111 112 112 113 6.10 Fechamento da Unidade 7. Unidade 7 - Artride Gotosa (gota) Introdução da Unidade 7.1 Do que se trata a gota 7.2 Diagóstico 7.3 Exames Complementares 7.4 O que fazer 7.5 Manejo da fase aguda 7.6 Terapia a longo prazo 7.7 Fechamento da unidade 8. Unidade 8 - Dort (distúrbios ostemusculares relacionadosao trabalho) Introdução da Unidade 8.1 Epidemiologia 8.2 Diagnóstico 8.3 Prevenção 8.4 Tratamento 8.5 Legislação trabalhista 8.6 Fechamento da Unidade 9. Unidade 9 - Fibromialgia Introdução da Unidade 9.1 Diagnóstico 9.2 Tratamento 9.3 Tratamento não farmacológico 9.4 Fechamento da unidade Encerramento do módulo Referências Biografia dos conteudistas 114 115 115 116 117 119 119 120 121 123 125 125 126 127 130 131 132 136 140 141 142 145 146 147 148 149 156 Lista de figuras Figura 00 Anamnese no atendimento a pessoa com lombalgia Figura 01 Manobra de Romberg Figura 02 Reflexo do Aquileu Figura 03 Teste de Patrick Figura 04 Sinal de Lassegue Figura 05 Posicionamento em repouso para tratamento conservador da dor lombar Figura 06 Escala Visual analógica (EVA) Figura 07 Anatomia do manguito rotator Figura 08 Articulações acromioclavicular e glenoumeral Figura 09 Teste de Neer Figura 10 Teste de Gerber Figura 11 Manobra Bear Figura 12 Teste de Hawkins Kennedy Figura 13 Teste de Patte Figura 14 Anatomia do Joelho Figura 15 Escala de Dor Figura 16 Alinhamento dos joelhos na inspeção Figura 17 Nome dado a curvatura do joelho quanto a anterior e posterior Figura 18 Movimento de Extensão Figura 19 Incidências: AP e perfil (lateral) Figura 20 Ressonância Magnética de joelho Figura 21 Pontos de dor de acordo com a localização Figura 22 Luxação da Patela Figura 23 Raio-X do joelho mostra a luxação Figura 24 Osgood-Schlatter Figura 25 Condromalácia Patelar Figura 26 Bursite pré-patelar Figura 27 Bursite da Pata de Ganso Figura 28 Ligamentos do joelho e suas respectivas funções Figura 29 Teste da gaveta anterior Figura 30 Teste de Lachmann para cruzado anterior Figura 31 Pivot teste Figura 32 Teste de Godfrey 20 25 26 27 27 30 31 37 38 42 43 43 44 44 53 56 59 60 60 61 63 64 64 65 66 69 70 71 72 73 73 74 74 Figura 33 Lesões Meniscais Figura 34 Flexão do joelho Figura 35 Teste de McMurray Figura 36 Teste da Marcha de Pato Figura 37 Punção articular Figura 38 Raio-X de Artrose da articulação do joelho Figura 39 Osteoartrite de Joelho Figura 40 Sinais de osteoartrose Figura 41 Osteoartrose das mãos Figura 42 Osteoartrose dos Joelhos Figura 43 Fatores de risco para osteoartrite: sistêmicos e biomecânicos locais. Figura 44 Alterações radiologicas em joelho Figura 45 Rx de joelhos da paciente Figura 46 Dimensões da abordagem individualizada Figura 47 Tratamento do invidualizado osteoartrose de joelhos Figura 48 Abordagem clinica da pessoa com artrite reumatoide na APS. Figura 49 Desvio ulnar dos dedos Figura 50 Dedo em botoeira e dedo em pescoço cisney Figura 51 Mão em dorso de camelo Figura 52 Podagra Figura 53 Tofo Grosso Figura 54 Regiões de maior acometimento de dor relacionada ao trabalho FIgura 55 Avaliação inicial dos pacientes Figura 56 Exames Complementares Figura 57 Prevenção de DORT Figura 58 Tratamento de DOR Figura 59 Yellow Flags Figura 60 Red flags Figura 61 Sintomas de acordo com a localização da dor da fibromialgia Figura 62 Tratamento não medicamentoso Figura 63 Tratamento medicamentoso 75 76 77 77 79 79 80 83 84 84 85 85 86 90 91 104 105 106 106 117 117 125 127 130 130 131 131 132 139 142 143 13 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Lista de quadros e tabelas Quadro 01 Etiologias da dor lombar Quadro 02 Fatores que potencialmente causam dor lombar Quadro 03 Classificação quanto à duração Quadro 04 Classificação das lombalgias de acordo com semiologia e etiologia Quadro 05 Sinais de alerta vermelhos Quadro 06 Principais alertas amarelos Quadro 07 Elementos para o diagnóstico diferencial das lombalgias Quadro 08 Interpretação da marcha Quadro 09 Aspectos semiológicos da dor lombar e correspondência anatômica Quadro 10 Indicação de exames laboratoriais Quadro 11 Principais CIDs das lombalgias Quadro 12 Classificação etiológica do ombro doloroso Quadro 13 Principais causas da bursite subdeltoideana Quadro 14 Testes e aspectos e estruturas avaliadas Quadro 15 Fases da evolução clínica Quadro 16 Indicação Terapêutica Quadro 17 Classificação Internacional de Doenças os Principais Diagnósticos de dor no Ombro Quadro 18 Diagnóstico diferencial quanto a localização da dor Quadro 19 Causa da dor Quadro 20 Causas comuns de dor no joelho Quadro 21 Regras de Ottawa e de Pittsburgh Quadro 22 Terapia não Farmacológica para Pacientes com Osteoartrite Quadro 23 Terapia Farmacológica para Pacientes com Osteoartrite Quadro 24 Recomendações para solicitar densitometria Quadro 25 Avaliação complementar para pesquisa de osteoporose secundária Quadro 26 Fatores que influenciam negativamente no prognóstico da AR 17 17 18 18 20 21 22 24 26 29 34 39 40 42 48 49 50 55 58 58 62 85 86 94 95 106 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 14 Quadro 27 Posologia do metotrexato Quadro 28 Contra indicações para o uso de metotrexato Quadro 29 Considerações sobre o uso de AINES no tratamento da fase aguda da gota Quadro 30 Considerações sobre o uso de COLCHICINA no tratamento da fase aguda da gota Quadro 31 Critérios para considerar a terapia hipourecemiante Quadro 32 Principais aspectosconsiderados para efi caz Anamnese clínica Quadro 33 Anamnese clínica Quadro 34 Anamnese ocupacional Quadro 35 Exame físico Quadro 36 Critérios para a categorização diagnóstica de síndrome dolorosa miofascial Quadro 37 Metas de um Tratamento Adequado Quadro 38 LER/ DORT e os respectivos CIDs Quadro 39 Mapa da Dor Tabela 01 Escala avaliação de risco e vulnerabilidade Tabela 02 Exames de imagem Tabela 03 Critérios 2010 ACR-EULAR para classificação de AR Tabela 04 Critérios do Colégio Americano de Reumatologia Tabela 05 Objetivos da abordagem Tabela 06 Escala de Severidade dos Sintomas (7 dias) Tabela 07 Escala de Severidade dos Sintomas (6 meses) 109 109 116 116 117 122 122 123 125 126 129 132 136 94 105 106 114 115 137 137 15 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Olá, caro profissional estudante. Seja bem-vindo ao módulo Abordagem a Problemas Musculoesqueléticos. Abordaremos ao longo deste módulo os principais problemas musculoesqueléticos do ponto de vista diagnóstico, terapêutico, preventivo e da coordenação do cuidado em nível de Atenção Primária em Saúde (APS). O objetivo é guiá-los para as boas práticas no atendimento da pessoa com esses sintomas e de suas causas e, consequentemente, contribuir para melhoria de qualidade de vida, redução de incapacidades e redução individual e coletiva de gastos em saúde. Pensando nisso, o módulo foi organizado em nove unidades, são elas: Lombalgia, Dor no Ombro, Dor no Joelho, Osteoartrite, Osteoporose, Artrite Reumatóide, Artrite Gotosa (Gota), DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) e Fibromialgia. Os conteúdos foram estruturados considerando de modo geral o exame clínico, os diagnósticos diferenciais, as sugestões de tratamento medicamentoso e não medicamentoso e os critérios de encaminhamento. Esperamos que você esteja entusiasmado como nós para conhecer o conteúdo desse módulo. Desejamos a você bons estudos e uma excelente experiência! OBJETIVO GERAL DE APRENDIZAGEM DO MÓDULO Desenvolver competências clínicas para abordagem adequada dos problemas mus- culoesqueléticos mais frequentes e relevantes no contexto da APS. OBJETIVO DE ENSINO DO MÓDULO Capacitar o profissional estudante à abordagem dos principais problemas musculo- esqueléticos do ponto de vista diagnóstico, terapêutico, preventivo e da coordena- ção do cuidado em nível de Atenção Primária à Saúde (APS). CARGA HORÁRIA DE ESTUDO RECOMENDADA PARA ESTE MÓDULO Para estudar e apreender todas as informações e conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 30 horas para este módulo. Apresentação Lombalgia UNIDADE 1 INTRODUÇÃO DA UNIDADE A dor lombar acompanha o homem desde que assumiu a postura ereta, porém, diversos fatores têm contribuídopara o aumento da prevalência desses sintomas, dentre eles, o estilo de vida urbano sedentário, a obesidade, as novas realidades de trabalho (doenças ocupacionais), o tabagismo, o aumento da expectativa de vida da população e as alterações degenerativas associadas (DUNCAN, 2014). Tanta coisa mudou nos últimos anos, não é? Pois é, a lombalgia é a principal causa de incapacidade no mundo. Os gastos excessivos decorrentes da dor lombar ocorrem devido a faltas ao trabalho, a aposentadorias por invalidez e a despesas médicas. Por isso, o tratamento das lombalgias, após excluídas causas específicas, deve ser centrado no controle sintomático da dor para minimizar o sofrimento e propiciar recuperação funcional o mais breve possível. A boa notícia é que, através de um processo diagnóstico e plano terapêutico adequados, podemos colaborar para a melhoria da qualidade de vida da pessoa com dor lombar. Ao abordar a pessoa com dor lombar, utilizando-se do MCCP, o médico deverá compreender o paciente como um todo: não só a sua doença, mas sua história, o que está por trás da doença, o que a motiva e a faz permanecer. 17 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Realizar a avaliação da dor lombar, qualificando ritmo, local, qualidade, intensidade e perda funcional • Realizar a avaliação quantitativa da dor lombar • Realizar a classificação da lombalgia quanto à duração e identificar sua evolução temporal • Realizar a classificação da lombalgia de acordo com a semiologia e a etiologia • Realizar manobras e testes específicos para avaliação da dor lombar, assim como reconhecer padrões sugestivos de comprometimento neurológico • Identificar os principais sinais de alerta relativas à dor lombar • Indicar exames de imagem • Realizar o diagnóstico diferencial da lombalgia • Identificar casos que devem ser referenciados para o especialista • Estabelecer plano terapêutico interprofissional no contexto da atenção primária à saúde (APS) Para começar, vamos entender o que é a Lombalgia? 1.1 DO QUE SE TRATA A LOMBALGIA Estudos de prevalência e incidência indicam que 51 a 84% dos adultos terão lombalgia ao longo da vida. A prevalência é maior em mulheres e aumenta com a idade até os 60 anos (McBETH J; JONES K, 2007). Mais de 50% dos pacientes melhoram após 1 semana, 90% após 8 semanas e apenas 5% continuam apresentando sintomas por A lombalgia é a dor que acomete a região lombar inferior. A lombociatalgia é a dor lombar que se irradia para uma ou ambas as nádegas e\ou para as pernas na distribuição do nervo ciático. Conceitos importantes: Diante dessa realidade, a dor lombar é um dos principais motivos de procura de atendimento na Atenção Primária à Saúde (APS), sendo causa frequente de morbidade, incapacidade e ausência ao trabalho (GUSSO et al. 2019). Os distúrbios da coluna vertebral são a principal causa de limitação funcional em pacientes com menos de 45 anos. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 18 Os episódios de dor lombar costumam ser agudos e autolimitados. Entretanto, podem se cronificar ou serem recorrentes, causando grande sofrimento pessoal, repercussões socioeconômicas com prejuízos devido às possíveis faltas ao trabalho ou à impossibilidade de realizar atividades laborais informais. As dores lombares podem ser primárias ou secundárias, com ou sem acometimento neurológico. Por outro lado, outras afecções lombares ou em outros locais podem causar dor lombar, como inflamações, infecções, malformações congênitas, distúrbios metabólicos, traumáticas, processos degenerativos, por isso a importância de conhecer sua etiologia (BRAZIL AV et al, 2001). 1.2 ETIOLOGIA Sabemos que a coluna vertebral é composta por diversas estruturas (ligamentos, tendões, músculos, articulações, discos vertebrais, medula óssea). Nessa complexi- dade anatômica da coluna lombosacra, existem inúmeras causas para a dor e, con- sequentemente, inúmeras doenças sistêmicas não reumatológicas manifestadas por meio de dor lombar, conforme pode ser visto no quadro a seguir: Quadro 1 - Etiologias da dor lombar Mecânico-posturais Inflamatórias Infecciosas Neoplásicas Degenerativas Congênitas Psicossomática Fonte: elaborado pelos autores. A etiologia da maioria das dores lombares é o “uso inadequado” ou “uso excessivo” da coluna, resultando em entorses, distensões, pequenos traumas, lesões por es- forços repetitivos, dentre outras. O quadro 2 mostra os principais fatores que po- tencialmente causam dor lombar. Quadro 2 - Fatores que potencialmente causam dor lombar Excesso de peso Condicionamento físico inadequado Esforços repetitivos 19 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Erro postural Posição não ergonômica no trabalho Trabalho pesado Atividade física muito intensa Fonte: elaborado pelos autores Diante da multiplicidade de fatores que causam a dor lombar, o médico tem papel fundamental no diagnóstico e precisa conhecer detalhadamente a história da dor, bem como os fatores associados, para então ter insumos suficientes para classificar as dores lombares. 1.3 CLASSIFICAÇÃO Do ponto de vista evolutivo, a dor lombar pode ser classificada em agudas, subagudas ou crônicas. Quadro 3 - Classificação quanto à duração Classificação Duração Aguda Até 4 semanas (1 mês) Subaguda Entre 4 e 12 semanas (1-3 meses) Crônica Dor por pelo menos 12 semanas e\ou em pela metade dos dias nos últimos 6 meses Recorrente Duração inferior a 3 meses, mas que recorre após um período sem dor Fonte: elaborado pelos autores. Além disso, a dor lombar pode ser primária ou secundária, com ou sem acometimento neurológico (BRAZIL AV et al, 2001). Quando analisamos do ponto de vista da etiologia e da semiologia, ela pode ser classificada em não irradiada, irradiadas com radiculopatia (ciatalgia), visceral (referida) e sistêmica (outras causas específicas). Quadro 4 - Classificação das lombalgias de acordo com semiologia e etiologia. Classificação Etiologia Não irradiadas - Mecânica comum ou inespecífica (90%) - Degenerativa - Espondilolistese - Espondilólise EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 20 Irradiadas ou radiculopatia (ciatalgia) - Hérnia discal - Estenose - Cauda equina Referida (visceral) - Aneurisma aórtico - Pancreatite aguda - Pielonefrite aguda - Cólica renal - Úlcera péptica Outras causas específicas (sistêmica) - Fratura por osteoporose - Infecção - Neoplásicas - Espondilite anquilosante - Inflamatórias - Traumáticas Fonte: elaborado pelos autores. Conforme vimos, a abordagem complementar vai depender da classificação clínica da lombalgia quanto à evolução, à semiologia e à etiologia da dor lombar. Esses parâmetros servirão de base para a abordagem diagnóstica. 1.4 ABORDAGEM DIAGNÓSTICA: O QUE FAZER ? Normalmente, na APS, abordamos as queixas de lombalgia e lombociatalgia, visto que usualmente 15% dos pacientes terão o diagnóstico definido. Isso ocorre devido a múltiplos fatores, tais como: - A ausência de uma definição padronizada de degeneração discal, sendo por isso os estudos e resultados muito variados (GUSSO et al. 2019); - A inexistência de uma fidedigna correlação entre achados clínicos e de imagem (BRAZIL AV et al, 2001); - A complexidade da inervação da região lombar torna difícil a identificação precisa do local de origem da dor (BRAZIL AV et al, 2001); - As contraturas musculares frequentes e dolorosas não são acompanhadas de lesão histológica demonstrável (BRAZIL AV et al, 2001). Tais fatos fazem com que os diagnósticos de lombalgias e lombociatalgias sejam eminentemente clínicos, de modo que os exames complementares devem ser solicitados apenas em casos selecionados para investigação diagnóstica. 21 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 1.5 ANAMNESE No histórico do paciente, juntamente com os outros elementos da consulta, comoanamnese e exame físico, podemos perceber as dimensões da experiência da doença, isto é, sentimentos, ideias, efeitos no funcionamento e expectativas (SIFE) que ela gera na pessoa, sendo o MCCP ferramenta fundamental para a consulta. Lembre-se que a história clínica deve eliminar alguma patologia específica e classificar a lombalgia, conforme vimos no quadro 4. É válido considerar algumas perguntas-chave ao final da avaliação: Figura 00 -Anamnese no atendimento a pessoa com lombalgia Fonte: elaborado pelos autores. Quadro 5 - Sinais de alerta vermelhos Sinais ou sintomas sistêmicos: febre, calafrios, sudorese noturna Déficit neurológico focal progressivo e profundo Pacientes > 70 anos Ferida próxima à coluna Trauma moderado a grave EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 22 Déficit motor ou sensitivo Retenção urinária Incontinência fecal Perda de peso inexplicada História de câncer ou suspeita de cânce Imunossupressão ou uso crônico de corticoides Uso de fármaco intravenoso Falha terapêutica após 6 semanas de tratamento Fonte: elaborado pelos autores. Os sinais de alerta amarelos (yellow flags) são sinais que podem indicar a recorrência da lombalgia, de ausências no trabalho e de déficit funcional por longo tempo, pois sugerem fatores de risco psicossociais. Devem ser abordados e investigados utilizando a medicina centrada na pessoa, com destaque em seu primeiro componente, explorando a saúde, a doença e a experiência da doença. Quadro 6 - Principais alertas amarelos Humor deprimido ou negativo Isolamento social Crença que a dor e a manutenção da atividade são danosas “pensamento catastrófico” (antecipação do pior desfecho possível para o problema em questão) Tratamento prévio que não adequa às melhores práticas Indícios de exagero na queixa e esperança de recompensa. História de abuso de atestado médico Problemas no trabalho, insatisfação com o emprego. Trabalho pesado com poucas horas de lazer Superproteção familiar ou pouco suporte familiar Fonte: elaborado pelos autores. Os elementos da anamnese e sua fisiologia norteiam o raciocínio diagnóstico quanto à intensidade, horário de aparecimento, cronologia, irradiação, relação com atividade física e repouso e outras características da dor como indicado no quadro a seguir: 23 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Quadro 7 - Elementos para o diagnóstico diferencial das lombalgias Etiologia Intensidade Horário de aparecimento Cronologia Lombalgia mecânica comum Variável Pela manhã Aguda Hérnia de disco Intensa Piora nas primeiras horas do dia Aguda Dor lombar inflamatória Variável Acompanhada de rigidez matinal prolongada Osteoma osteoide Intensa Madrugada e início da manhã Estreitamento do canal raquidiano artrósico Espondiloartropatias soronegativas Exacerbação matinal dos sintomas Caráter insidioso e progressivo Espondilite ancilosante Rigidez matinal Caráter insidioso e progressivo Duração superior a 3 meses Síndrome da cauda equina Intensa Melhora com atividade física Aguda Fratura devido a osteoporose Variável Fonte: Elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 24 Irradiação Relação com atividade física e repouso Outras características da dor Limitada a região lombar e nádegas Dor piora com movimentos corporais ao longo do dia e longos períodos em pé Acompanhada de escoliose antiálgica Piora com atividade física Manobras semióticas positivas para compressão medular Para os membros Piora com repouso Melhora com atividade física Ausente Presença de sinais de alerta vermelhos Ausente Manobra de Romberg positiva Pode estar associado a ciatalgia Não apresenta relação com o movimento corporal Fisiopatogenia associada ao ciclo circadiano, secreção de cortisol e pelo sistema nervoso autônomo Sacroilitíase unilateral ou bilateral consolida o diagnóstico Não apresenta relação com o movimento corporal Pseudociatalgia alternante Início antes dos 40 anos Anestesia em sela Disfunção de bexiga Déficit neurológico progressivo ou grave de mmii Trauma menor devido a osteoartrite Fonte: Elaborado pelos autores. REFLEXÃO Considerando os pacientes que você já atendeu na APS com dor lombar, reflita sobre o grau de sofrimento, as expectativas geradas sobre a sua condição clínica e avalie sua estratégia de cuidado com o paciente. 25 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 1.6 EXAME FÍSICO O exame físico deve ser dirigido pelos achados na anamnese, objetivando a detecção/ exclusão de alertas vermelhos e de causas que exijam intervenções específicas, sendo o primeiro objetivo localizar com precisão a dor e sua possível irradiação. Caso haja suspeita de radiculopatia, é mandatório realizar os seguintes testes (GUSSO et al. 2019): - Teste de elevação da perna reta (Laségue) - Teste de elevação da perna oposta: dor no membro não elevado a 30 a 60 graus. Agora conheceremos alguns procedimentos e manobras a serem realizados com o paciente em pé, apoiado e sentado na maca e paciente em decúbito dorsal. 1.6.1 PACIENTE EM PÉ Marcha na ponta dos pés e apoiado nos calcanhares com capacidade de agachar e levantar. QUADRO 8 - Interpretação da marcha Aspectos semiológicos Achados no exame físico Dor intensa Marcha “dura” Radiculopatia Favorecimento de um membro Compressão de L5, possível herniação de L4-L5 Dificuldade para andar apoiado nos calcanhares Compressão de S1, possível herniação de L5-S1 Dificuldade para andar na ponta dos pés (Sinal das pontas) Compressão de L4, possível herniação de L3-L4 Dificuldade para agachar e levantar Fonte: Elaborado pelos autores. MANOBRA DE ROSMBERG A manobra de Romberg é considerada positiva se o movimento compensatório do corpo for necessário para manter os pés fixos no mesmo lugar. Esse sinal costuma ser positivo na estenose de canal (BRAZIL AV et al, 2001). EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 26 Figura 1 - Manobra de Romberg Fonte: Elaborado pelos autores. INSPEÇÃO - Avaliar se há presença de hiperlordose (pode ser associada à posição antiálgica), cifose ou escoliose. - Observar presença de ferimentos e sinais flogísticos. - Realizar a inspeção estática e dinâmica. PALPAÇÃO - Palpar a musculatura paravertebral de toda a extensão da coluna, bem como as apófises espinhosas de cada vértebra. - Dor localizada sugere tumor, processo infeccioso ou fratura. - Dor difusa à palpação, mesmo em área restrita, é o principal sinal de lombalgia mecânica - Palpar região glútea para avaliar a síndrome do piriforme. 1.6.2 PACIENTE APOIADO NA MACA REFLEXO DO AQUILEU O reflexo do Aquileu deve ser avaliado bilateralmente. Quando diminuído, sugere lesão em S1. Pode ser realizado também com o paciente sentado na maca. 27 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Figura 2 - Reflexo do Aquileu Fonte: Elaborado pelos autores. Quadro 9 - Aspectos semiológicos da dor lombar e correspondência anatômica Aspectos semiológicos Achados no exame físico Reflexo patelar Alteração de L2 a L4 Reflexo aquileus Alteração de S1-S2 Fonte: Elaborado pelos autores. 1.6.3 PACIENTE EM DECÚBITO DORSAL MANOBRA DE VALSALVA Na compressão radicular, a manobra de Valsalva provoca a exacerbação da dor ou da irradiação dela até o pé TESTE DE PATRICK Este teste deve ser realizado quando há suspeita de doença do quadril ou da articulação sacroilíaca. O Teste de Patrick é realizado também com o paciente em decúbito dorsal e com um membro inferior fletido, abduzido e em rotação externa. Com uma das mãos, o examinador exerce uma pressão para baixo sobre o joelho ipsilateral e com a outra exerce uma força contra a espinha ilíaca ântero-superior da pelve, no lado contralateral. É relevante e geralmente positivo se existe alguma doença do quadril ou da articulação sacroilíaca, o que é muitas vezes confundidocom a compressão do nervo ciático. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 28 Figura 3 - Teste de Patrick Fonte: Elaborado pelos autores. MANOBRA DE LASEGUE É considerada positiva quando a dor se irradia, ou se exacerba, no trajeto do dermátomo L4-L5 ou L5-S1, quando a elevação do membro inferior faz um ângulo de 35 a 70 graus com o plano horizontal. Sua positividade a 60 graus sugere compressão radicular (GUSSO et al. 2019). Figura 4 - Sinal de Lasegue Fonte: Elaborado pelos autores. A Manobra de Lasegue com paciente distraído gera a possibilidade de fazer uma prévia do teste de Lasegue sem que a pessoa saiba que está sendo feito um exame para detectar possível sobrevalorização de sinais. Essa manobra só é indicada quando na anamnese observa-se sinais amarelos. Neste caso, deve-se estender cada perna 29 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos do paciente provocando estresse nas raízes nervosas. É possível detectar a raiz nervosa acometida apenas retornando a perna para posição que a dor desaparece. 1.7 EXAMES COMPLEMENTARES É importante salientar que os exames de imagem não estão indicados em casos de dor lombar inespecífica sem sinais de alerta e com evolução inferior a 6 semanas .Os protocolos aconselham que o diagnóstico por imagem seja somente indicado para pacientes que: • Apresentem sinais e sintomas de déficit neurológico severo ou doença séria de base (suspeita de neoplasia, por exemplo); • Não obtiveram melhora da lombalgia após 4 a 6 semanas; • Desenvolveram sinais de alerta para outras condições. Desta forma, os exames de imagem devem ser solicitados de acordo com situações específicas e devem ser bem indicados. É importante reforçar que estudos de TC e RM lombar em populações assintomáticas mostram incidência alta idade-dependente de lesões como protusão, degeneração discal e facetária. (DUNCAN 2022). A radiografia da coluna lombos sacra nas incidências anteroposterior e perfil pode ser indicada quando houver suspeita de tumor, espondilose e espondilolistese, além de outras instabilidades de coluna. No entanto, o exame radiológico possui diversas limitações, tais como: • Tem baixa sensibilidade (observa-se que radiografias normais não descartam causas específicas). • Muitas alterações são achados casuais e não possui relação com a dor (baixa especificidade). • Nem sempre o achado radiológico explica a etiologia da dor. A tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética têm indicação nas lombalgias e ciatalgias agudas que tenham evolução atípica; naquelas com evolução insatisfatória, cuja causa não foi determinada; após 6 semanas de tratamento sem resposta satisfatória; quando houver déficit neurológico grave ou em casos com suspeita de infecção. A eletromiografia não está indicada nas lombalgias agudas e crônicas ou nas lombociatalgia agudas. Porém, pode ser solicitada na suspeita de doenças do sistema nervoso periférico que possam mimetizar um quadro radicular. A densitometria óssea não está indicada para a avaliação inicial das lombalgias agudas e crônicas (BRAZIL AV et al, 2001). Os exames laboratoriais são indicados em situações específicas para realizar diagnóstico diferencial como se pode observar no quadro a seguir: EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 30 QUADRO 10 - Indicação de exames laboratoriais EXAME LABORATORIAL INDICAÇÃO Hemograma completo, VHS e PCR Processo inflamatório ou neoplasia Cálcio sérico e fosfatase alcalina Doença óssea difusa Eletroforese de proteínas séricas e urinárias Mieloma múltiplo Antígeno prostático específico (PSA) Metástase de câncer de próstata Análise qualitativa da urina Doença renal Exame sumário de urina Infecção do trato urinário Pesquisa de sangue oculto nas fezes Úlceras e tumores gastrointestinais. Fonte: Elaborado pelos autores. O diagnóstico das lombalgias é, na maioria das vezes, clínico com uma anamnese detalhada da dor e exame físico meticuloso. Exames complementares desnecessários e sem indicação em protocolos e diretrizes podem gerar ansiedade, gastos desnecessários e expor o paciente a riscos evitáveis. A prevenção quaternária é sempre muito bem-vinda! Lembre-se! 1.8 PROJETOS TERAPÊUTICOS 1.8.1 TRATAMENTO CONSERVADOR O projeto terapêutico deve ser centrado no pacienhte, avaliando a presença de outras comorbidades; considerando a classificação das lombalgias entre agudas e crônicas; assim como a presença ou não de radiculopatia. Destacamos que a lombalgia mecânica comum é sempre de tratamento conservador. Desse modo, o repouso, no momento inicial, é benéfico nas lombalgias, lombociatalgia e ciáticas. Ele não deve ser prolongado, pois a inatividade física tem também sua ação deletéria sobre o aparelho locomotor. Assim que as atividades e a deambulação forem possíveis, o paciente deve ser orientado a retomar suas atividades habituais. O posicionamento em repouso, principalmente nas hérnias discais, geralmente é feito com o corpo em decúbito supino, com joelhos fletidos e os pés apoiados sobre o leito e\ou flexão das pernas em um ângulo de 90 graus com as coxas e estas em ângulo de 90 graus com a bacia, objetivando a retificação da coluna lombar (posição de Zassirchon), conforme podemos observar na imagem abaixo. 31 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos É importante considerar que nas dores lombares agudas sem radiculopatia, a manipulação espinal e o calor local apresentam evidências para a sua indicação. Figura 5 - Posicionamento em repouso para tratamento conservador da dor lombar Fonte: Elaborado pelos autores. Nas dores lombares crônicas sem radiculopatia, são indicados a fi sioterapia e os exercícios de controle motor, Tai chi, yoga, acupuntura e reabilitação multidisciplinar. Salientamos que para as lombalgias e lombociatalgias crônicas com impacto na qualidade de vida e humor do paciente e\ou aquelas com componente psicossomático, está indicada a terapia cognitivo comportamental (TCC). REFLEXÃO Quais as alternativas que o serviço de saúde onde você atua oferece para abordagem de pessoas com dores crônicas? Você pode estimular e sugerir a formação de grupos terapêuticos com a colaboração de profi ssionais no NASF. Um exemplo de relato de experiência sobre este tipo de iniciativa pode ser visto em http://revista.redeunida.org.br/ojs/index.php/cadernos- educacao-saude-fi sioter/article/view/183 1.9 TRATAMENTO MEDICAMENTOSO O tratamento medicamentoso das lombalgias e lombociatalgia, após excluídas causas específi cas, devem ser centrados no controle sintomático da dor para minimizar o sofrimento e propiciar recuperação funcional o mais breve possível (GUSSO et al. 2019). Deve-se classifi car a intensidade da dor utilizando escalas de dor, como a escala visual analógica (EVA). EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 32 Figura 6 - Escala Visual analógica (EVA). Fonte: http://www.as.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2016/04/Escala-de-dor-LANNS-E-EVA. pdf (adaptado pelos autores) Os anti-inflamatórios não hormonais (AINES) são as medicações mais empregadas na prática clínica. Dependendo das doses empregadas em intervalos regulares, apresenta efeitos analgésico e anti-inflamatório. Todas as classes de AINES podem ser úteis desde que utilizados em doses adequadas e com cautela em pacientes de risco como os idosos. Desta forma, a medicação preconizada para tratamento de lombalgia é o AINE (Gusso, 2018). A dipirona, na dose de 1 g, quatro vezes ao dia, pode mostrar-se efetiva em pacientes com lombalgias de intensidade leve a moderada. O paracetamol nas revisões recentes demonstrou-se ineficaz. Os resultados de estudos controlados e randomizados sobre a utilização de corticoides nas lombalgias agudas mecânicas e não mecânicas são conflitantes. No entanto, na hérnia discal, considerando que a compressão radicular pode se acompanhar de infamação, lesão axonal edas células de Schwann, sua utilização pode trazer vantagens adicionais aos AINES. Relaxantes musculares como o carisoprodol e a ciclobenzapina são auxiliares no tratamento das lombalgias agudas. Os opióides não são recomendados no tratamento das lombalgias crônicas pelo risco de dependência. Podem ser utilizados com cautela nas lombalgias agudas de elevada intensidade da dor. Os antidepressivos tricíclicos são uma opção para o tratamento nas lombalgias crônicas mesmo que sem associação com depressão. 1.10 AVALIAÇÃO DE PROGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO A dor lombar pode trazer consequências e impacto na vida das pessoas, o que pode possibilitar que esta condição possa se cronificar. Fatores psicossociais e comportamentais podem interferir no prognóstico da lombalgia. Para melhor avaliação destes pacientes sugere-se a aplicação da escala, Subgroups 33 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Target Treatment Back Screening Tool (StarT), para avaliar estes fatores e possibilitar uma classificação que auxilie na tomada de decisões. Esta escala foi validada no Brasil para predição do risco de cronificação ou recorrência. Formulário 1 Pensando nas últimas semanas, assinale sua resposta para as seguintes perguntas: Discordo (0) Concordo (1) 1. A minha dor nas costas se espalhou pela pernas nas duas últimas semanas. ( ) ( ) 2. Eu tive dor no ombro e/ou na nuca pelo menos uma vez nas últimas duas semanas ( ) ( ) 3. Eu evito andar longas distâncias por causa da minha dor nas costas ( ) ( ) 4. Nas duas últimas semanas, tenho me vestido mais devagar por causa da minha dor nas costas ( ) ( ) 5. A atividade física não é realmente segura para uma pessoa com um problema como o meu ( ) ( ) 6. Tenho ficado preocupado por muito tempo por causa da minha dor nas costas. ( ) ( ) 7. Eu sinto que minha dor nas costas é terrível e que nunca vai mellhorar. ( ) ( ) 8. Em geral, eu não tenho gostado de todas as coisas como eu costumava gostar. ( ) ( ) 9. Em geral, quanto a sua dor nas costas o incomodou nas últimas semanas ( ) Nada (0) ( ) Pouco(0) ( ) Moderado(0) ( ) Muito(1) ( ) Extremamente (1) Pontuação total (9 itens):________ Subescala psicossocial (3-9 itens):____________________ Fonte: adaptado pelos autores. Os pacientes podem ser classificados de acordo com a pontuação obtida, como baixo, médio e alto risco, quanto ao prognóstico, e isto ajudará o médico de família e sua equipe no acompanhamento e seguimento destes. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 34 Escala Geral (9 Questçoes) Pontuação: ≤ 3 pontos Pontuação: ≥ 3 pontos Pontuação: ≤ 3 pontos Pontuação: > 3 pontos Médio Risco Alto Risco Pontuação da subescala psicosocial (Questões 5 - 9) Baiso Risco 1.11 QUANDO ENCAMINHAR? A maioria dos pacientes atendidos na APS com dor lombar poderão ser conduzidos pela equipe sem necessidade de encaminhamento, mas alguns casos deverão ser referenciados para o serviço de urgência ou especialistas. A seguir, destacamos situações em que o paciente com lombalgia deve ser encaminhado a outros pontos da rede de serviços de saúde: Quando o paciente com lombalgia deve ser referenciado Para Emergência: Sinais de síndrome da cauda equina (disfunção de esfincter, déficit motor progressivo, anestesia em sela) ou evidência de acometimento nervoso bilateral Para o especialista focal: - Progressão de déficit motor ou sensitivo, sem outros sinais da síndrome de cauda equina - Pacientes que apresentem patologia envolvendo medula espinhal - Dor irradiada, se melhora com 6 semanas de tratamento - Paciente que não apresenta melhora após 3 meses com tratamento conservador ou medicamentoso. 1.12 CID - 10 ‘O quadro abaixo apresenta os principais diagnósticos referentes à queixa de lombalgia, com o seu CID correspondente, que poderá auxiliá-los a identificar os códigos correspondentes a cada diagnóstico diferencial. 35 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos QUADRO 11 - Principais CIDs das lombalgias DIAGNÓSTICO INDICAÇÃO Dorsalgia M54 Paniculite atingindo regiões do pescoço e do dorso M54.0 Radiculopatia G54.1 Ciática M54.3 Lumbago com ciática M54.4 Dor lombar baixa M54.5 Outra dorsalgia M54.8 Dorsalgia não especificada M54.9 Espondilite ancilosante M45 Osteoporose pós-menopáusica com fratura patológica M80.0 Osteoporose não especificada com fratura patológica M80.9 Transtornos do plexo lombosacral G54.1 Luxação de vértebra lombar S33.1 Fratura de vértebra lombar S32.0 Entorse e distensão da coluna lombar S33.5 Fonte: Elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 36 1.13 FECHAMENTO DA UNIDADE Chegamos ao final da primeira unidade! Ao longo dos estudos, você pôde conhecer como controlar a morbilidade causada pela lombalgia, melhorar a qualidade de vida do doente e controlar os custos associados a essa condição. Para isso, será necessário fazer uso de tecnologias leves, como trabalho interprofissional, assim como utilizar ferramentas da prática diária do médico de família e comunidade, como o método clínico centrado na pessoa, a prevenção quaternária, a abordagem famíliar e comunitária. Agora, é chegado o momento de colocar em prática aquilo que você aprendeu. Aproveita essa jornada, pois só estamos começando! Até breve! Dor no ombro UNIDADE 2 INTRODUÇÃO DA UNIDADE Boas-vindas à Unidade 2 do Módulo de Abordagem a Problemas Musculoesqueléticos! Você sabia que a dor no ombro é a terceira maior queixa de dor musculoesquelética em consultas médicas? (GUSSO, et al, 2019) Pois é, o impacto negativo na qualidade de vida do paciente é muito significativo, visto que a articulação do ombro é primordial na realização de atividades diárias básicas e intrumentais. O ombro doloroso é uma síndrome caracterizada por dor e impotência funcional de graus variados que acomete estruturas responsáveis pela movimentação do ombro, incluindo as articulações, os tendões e os músculos, os ligamentos e as bursas. Neste módulo, você conhecerá testes específicos que deverão ser realizados de acordo com a suspeita clínica. Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Realizar a avaliação da dor qualificando ritmo, local, qualidade, intensidade e perda funcional • Diferenciar a dor articular e periarticular • Realizar a avaliação quantitativa da dor • Reconhecer padrões sugestivos de dor neuropática • Realizar manobras e testes específicos para avaliação da dor no ombro • Indicar exames de imagem • Realizar o diagnóstico diferencial de dores no ombro • Identificar casos que devem ser referenciados para o especialista • Estabelecer plano terapêutico da dor no ombro no contexto da atenção primária à saúde (APS) Para começar, vamos conhecer a anatomia do ombro? EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 38 2.1 ANATOMIA DO OMBRO A estrutura da articulação do ombro caracteriza-se pela quantidade superior de eixos, logo tem a maior amplitude de movimento (ADM) existente nas articulações do corpo humano, o que permite ao indivíduo realizar muitos deslocamentos em diversos sentidos. Essa liberdade de movimento desenvolveu-se e mantem-se à custa da estabilidade. A cintura escapular é composta de três articulações verdadeiras (esterno- clavicular, acrômio-clavicular e glenoumeral) e duas pseudoarticulações (escapulo-torácica e subacromial). As articulações trabalham junto em um ritmo harmônico, o que permite a movimentação global do ombro, incrível não é mesmo? O ombro é uma juntura móvel, com uma fossa glenoide rasa, com mínimo em suporte ósseo, e a estabilidade da articulação depende dos tecidos moles como músculos, ligamentos e cápsula articular. Essa conformação anatômica determina maior mobilidade articular em troca de menor estabilidade. O manguito rotador é composto por quatro músculos e tendões (supraespinal, infraespinal, subescapular e redondo menor), que se originamna escápula e se inserem nas tuberosidades do úmero, sendo responsáveis pela movimentação e pela estabilidade da articulação glenoumeral, conforme pode ser observado nas imagens a seguir. Figura 7 - Anatomia do manguito rotator. Fonte: Elaborado pelos autores 39 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Figura 8 - Articulações acromioclavicular e glenoumeral Fonte: Elaborado pelos autores 2.2 DO QUE SE TRATA A articulação do ombro é primordial na realização de atividades diárias básicas, como alimentação independente, asseio pessoal, atividades laborais, práticas esportivas e demais funções; logo essa articulação é exigida constantemente nas diversas AVD’S. O ombro doloroso pode ser ocasionado por várias etiologias, muitas vezes, associa- das, sendo originadas das estruturas da cintura escapular ou irradiadas de outras regiões. O ombro pode ser sede de uma variedade de lesões, a saber: estiramento, inflama- ção, fibroses, lesão incompleta ou completa do manguito rotador, associada ou não à degeneração articular. São várias as causas que concorrem para o desenvolvimen- to dos distúrbios do ombro, entre as quais o trauma, a hipovascularização na inser- ção do músculo supra-espinhoso e o impacto subacromial primário. A causa mais comum é o processo de envelhecimento. É importante você saber que os distúrbios de ombro são raros antes dos 40 anos e aumentam na faixa de 50 a 60 anos, continuando a crescer a partir dos 70 anos. Além disso, problemas específicos de ombro doloroso ocorrem em determinadas faixas etárias, a saber: • Entre 20 e 30 anos, predominam luxações, instabilidades; • Entre 30 e 50 anos, bursites, tendinites, tendinite calcária, síndrome do impacto • Entre 50 e 70 anos, síndrome de impacto com roturas do tendão. A síndrome do manguito rotador tem sido descrita em associação com exposições a movimentos repetitivos de braço, elevação e abdução dos braços acima da altura EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 40 dos ombros (MENDONÇA, 2012). Conforme vimos no início da unidade, a dor no ombro é a terceira maior queixa de dor musculoesquelética em consultas médicas, de modo que o impacto negativo na qualidade de vida do paciente é muito significativo. Ela pode ser proveniente de causas variadas, tais como: lesão do manguito rotador, artrose gleno umeral, cap- sulite adesiva, tendinite do cabo longo do músculo bíceps braquiais, artrose acrômio clavicular, lesões labrais, luxação acrômio clavicular e lesões ligamentares. O ombro doloroso pode ser classificado segundo o fator etiológico conforme o quadro 12: Quadro 12 - Classificação etiológica do ombro doloroso Afecção periarticular Tendinopatia do manguito rotador - Tendinite calcificada Ruptura do manguito rotador Tendinopatia do bíceps Ruptura Do bíceps Bursite subacromial Alteração da articulação glenoumeral Capsulite adesiva Artrites inflamatórias Artrites sépticas Ombro de Milwaukee Osteoartrites Osteonecroses Alterações estruturais Artrites esternoclavicular Osteoartrose acromioclavicular - Radiculopatia cervical Lesão nervosa Síndrome do desfiladeiro torácico Distrofia simpático reflexo - Tumores e metástases Outras afecções Polimialgia reumática Polimiosites Fibromialgia Dor referida Cólica biliar Cardiopatia isquêmica Abscesso subnefrético Tumor de Pancoast Fonte: elaborado pelos autores. 41 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos O quadro 13 apresenta as principais causas de bursites subdeltoneana e subacromial, para que o cursista consiga direcionar seu raciocínio clínico e pensar nos diagnósticos diferenciais, bem como elaborar um plano terapêutico adequado a seus pacientes. QUADRO 13 - Principais causas da bursite subdeltoideana Atividade excessiva Hiperabdução prolongada Ruptura do supra-espinhoso Ruptura do infra-espinhoso Ruptura da porção longa do bíceps Luxação acrômio clavicular Fratura de troquiter Irritação por osteófitos Aderência Alterações e\ou inflamações no manguito rotador Fonte: elaborado pelos autores. 2.3 HISTÓRIA CLÍNICA E EXAME FÍSICO O raciocínio clínico na avaliação de pessoas com dor no ombro deve iniciar com a identificação ou não de trauma. O passo seguinte é identificar se se trata de dor no ombro relacionada a uma causa intrínseca, própria das estruturas articulares, ou extrínseca, relacionadas a qualquer outra estrutura que não a própria articulação do ombro. Para tanto, a anamnese deve buscar obter o maior número possível de informações pertinentes à queixa, investigar os fatores que podem estar ligados aos sintomas. Além disto, é importante destacar as seguintes características: •Início; •Localização; •Tipo de irradiação; •Intensidade; •Dor após atividade física? •Dor noturna? •Uso de medicação? (se sim, qual?) O exame físico pode trazer informações sobre a localização e a gravidade da lesão EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 42 e consiste na inspeção e na palpação da cintura escapular; na análise da amplitude de movimento ativo e passivo da cintura escapular; nos testes para analisar a força motora dos diferentes grupos musculares; testes para avaliar o arco de movimento e testes de sensibilidade. Além disso, testes especiais direcionados à infecção podem complementar o exame, sendo indicados de acordo com a suspeita clínica. Pessoas com dor relacionada a condições intrínsecas ao ombro se apresentam com queixas de dor que se associam à movimentação da articulação, como redução da amplitude de movimentos, perda de força e de função, instabilidade ou a combinação desses sintomas. Essas características estão geralmente ausentes em pessoas com causas externas (GUSSO et al. 2018). Caso a dor do paciente seja muito intensa, não devem ser realizados testes que possam aumentar ou piorar a dor, como a análise da amplitude de movimento ativo e passivo da cintura escapular, análise da força motora dos diferentes grupos musculares e testes para avaliar o arco de movimento. Lembre-se! A seguir, serão apresentadas algumas das manobras e testes para avaliação da dor no ombro. No quadro 14, são descritos os testes e o aspecto e estrutura que será avaliada. Em seguida, seguem imagens em gifs das manobras e testes para avaliação da dor no ombro, a fi m de facilitar a visualização e compreensão dos procedimentos. Deve ser realizado um exame físico direcionado pelas queixas e pela história clínica do paciente, para identifi car o diagnóstico etiológico. Apesar de não haver evidências a respeito da sensibilidade e especifi cidades dos testes e manobras, devido à grande variabilidade dentre os examinadores, sugere-se que seja realizado o exame físico do ombro para qualifi car esta avaliação e consequentemente melhorar a especifi cidade e sensibilidade do avaliador. Sugerimos a leitura e avaliação do quadro 215.2: Correlação entre aspectos semiológicos e causas de dor no ombro presente no Tratado de Medicina de família e Comunidade (GUSSO; CERATTI, 2019) 43 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Quadro 14 - Testes e aspectos e estruturas avaliadas TESTES ESPECIAIS ASPECTO\ESTRUTURA AVALIADA Teste de Neer Avalia a impacto subacromial Teste de Hawkins Kennedy Articulação acromioclavicular Avalia o tendão supra espinhoso Teste de Yokun Avalia o impacto subacromial Teste do supra-espinal Avaliar afecções do tendão supraespinal Teste de Jobe Avaliar afecções do tendão supraespinal Avaliar o manguito rotador Avalia a cápsula articular glenoumeral Teste de Patte Avaliar afecções do tendão infra espinal Teste da Cancela Avaliar afecções do tendão infra espinal Teste de Gerber Avaliar o tendão do subescapular Bear Hug Teste Ruptura do tendão subescapular Teste de O’Brien Lesão ântero-póstero-superior do lábio glenóideo (lesão SLAP) Fonte: elaborado pelos autores. Ergue-se o ombro em extensão, rotação neutra passiva e rápida. A dor éum sinal de impacto subacromial ou ruptura do manguito rotador (BRITO, 2008), conforme imagem abaixo. Figura 9 - Teste de Neer Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 44 Para executar o teste de Gerber, solicite ao paciente que realize uma adução e rotação interna do membro superior a ser avaliado e peça ao paciente que coloque o dorso da mão na altura da região lombar. Posteriormente, solicite que o paciente afaste o dorso da mão da lombar. Caso o paciente não consiga levar o braço até a posição ou não consiga afastá-lo da região lombar, indica inflamação ou até mesmo ruptura do tendão do músculo subescapular. Figura 10 - Teste de Gerber Fonte: elaborado pelos autores. Na Manobra de Bear, o paciente é colocado em ortostase. A mão ipsilateral ao ombro acometido é posicionada sobre o ombro contralateral com os dedos esticados e o cotovelo posicionado anteriormente ao corpo. É solicitado ao paciente que mantenha a posição (rotação interna resistida) enquanto o examinador tenta realizar rotação externa, retirando a mão do paciente do ombro e aplicando uma força sobre o antebraço. Caso o paciente não consiga manter a mão sobre o ombro, ou a resistência fosse 20% menor que a do lado contralateral, o teste será considerado positivo. Figura 11 - Manobra de Bear Fonte: elaborado pelos autores. 45 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos No teste de Hawkins Kennedy, ergue-se o ombro do paciente a 90º, e flexiona-se o cotovelo em 90º, em rotação passiva e rápida para dentro. O diagnóstico indica síndrome do impacto com tendinite do infra espinhoso (BRITO, 2008). Figura 12 - Teste de Hawkins Kennedy Fonte: elaborado pelos autores. No teste de Patte, o paciente é instruído a realizar uma abdução de braço a 90º, flexão do cotovelo à 90º e rotação externa do braço contra a resistência do terapeuta imposta na altura do punho do paciente, conforme figura abaixo. Esse teste será mais direcionado para o tendão do músculo infra espinhoso. Se o teste for positivo, (lesão no tendão do músculo infra espinhoso) o paciente sentirá uma dor na altura do ombro. Figura 13 – Teste de Patte Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 46 2.4 EXAMES COMPLEMENTARES A anamnese e as manobras do exame físico normalmente nos apontam para o diagnóstico. Quando bem indicados, os exames complementares podem ser solicitados para avaliar outros aspectos importantes do diagnóstico e prognóstico, como localização precisa da lesão, grau de retração tendínea, grau de degeneração muscular e lesões associadas. A radiografia simples pode ser solicitada para avaliação de alterações ósseas, como artrose glenoumeral, esporão acromial e ascensão da cabeça umeral em relação a glenóide, para detectar causas de compressão externa do mangito rotator, além de traumas. Quando está indicada a realização de radiografia simples do ombro, as incidências mais importantes são a anteroposterior e a axilar. A ultrassonografia é o exame mais solicitado para avaliação do ombro, por não ser invasivo, de baixo custo, além de possibilitar a visualização das lesões de tendões, musculatura e articulações do manguito rotator. A ressonância nuclear magnética é o exame padrão ouro para avaliar as lesões do manguito rotador, podendo ser realizado com ou sem contraste, no entanto tem alto custo e não está disponível em todos os municípios. É importante ressaltar que existe o risco de dissociação entre a clínica e os achados de imagem, e que estima- se que mais da metade dos indivíduos maiores de 60 anos podem apresentar lesões assintomáticas de manguito. Lembre-se que os exames de imagem estão indicados na falha do tratamento conservador, nas condições graves, em que há limitação importante da mobilidade, e nos casos em que o diagnóstico é incerto (GUSSO, et al. 2019). Lembre-se! 2.5 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL 2.5.1 SÍNDROME DO IMPACTO DE OMBRO A Síndrome do Impacto do ombro (SIO) é a causa mais comum de dor no ombro, sendo uma condição que acomete muitos indivíduos levando à limitação funcional e à impossibilidade de realizar as atividades laborais devido à dor. A SIO tem como etiologia a compressão extrínseca do manguito rotador (MR) devido a alterações ósseas ou ligamentares (TURTELLI, 2001). O paciente aparesenta dor e disfunção do ombro, devido à compressão de estruturas 47 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos do manguito rotador pela articulação glenoumeral. Tais alterações podem ser comprovadas no exame físico e nos exames de imagem. A síndrome do impacto pode ser classificada de acordo com sua gravidade, variando em um espectro que vai desde apenas edema das estruturas envolvidas até a ruptura de tendões acometidos. • Estágio 1: Apenas edema e hemorragia tecidual. • Estágio 2: Tendinopatia cursando com processo inflamatório em maior ou menor intensidade e fibrose. • Estágio 3: Rupturas de tendões do manguito rotador ou da cabeça longa do bíceps ou alterações ósseas (GUSSO, 2018). O tratamento inicial da síndrome do impacto é conservador, com aplicação local de gelo, exercícios, e uso de analgésicos e anti-inflamatórios. Em caso de persistência da dor, pode ser realizada infiltração local de corticóides na APS e prescrição de fisioterapia, que também deve ser indicada quando houver limitação importante de movimentos. A grande maioria dos pacientes apresenta melhora em até três meses de tratamento. Quando isso não ocorrer ou se houver rotura completa do tendão do maguito, é mandatória a avaliação por Ortopedista, uma vez que podem ser necessárias intervenções cirúrgicas. 2.5.2 LESÃO DO MANGUITO ROTADOR A compressão do manguito rotador e das bursas adjacentes pelos elementos contidos nesse estreito espaço é a principal causa de dor no ombro. A etiologia pode ser relacionada a fatores mecânicos ou biológicos, sendo frequentemente multifatorial e o tendão supraespinal é o mais acometido. REFLEXÃO Com o nível de atividade crescente na população atual, lesões, que no passado eram prevalentes em pacientes mais idosos, atualmente, são vistas em pacientes mais novos (EJNISMANN, et al 2008). Reflita sobre as estratégias que podem ser implementadas para reduzir essa crescente Pacientes mais jovens, geralmente, estão envolvidos em atividades atléticas, com movimentos repetitivos do braço acima da cabeça (exemplo natação, basquete, acidentes de alto impacto ou trabalho pesado.) A dor ocorre, principalmente, durante a fase da atividade com abdução acima de 90°. A dor contínua, presente mesmo após a interrupção da atividade, é sinal de comprometimento mais grave, EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 48 e a ruptura do manguito rotador deve ser suspeitada e prontamente investigada (EJNISMANN, et al 2008). Na população idosa, devemos ter uma atenção especial à possibilidade de sobrediagnóstico de ruptura dos tendões do manguito rotador, visto que estima- se uma prevalência de 20% de rupturas assintomáticas, com aumento gradual conforme aumente a idade. Desta forma, deve-se ter cautela em assumir uma ruptura como única causa da dor, e, se não há um comprometimento funcional, poderá ser feito a opção pelo tratamento conservador (GUSSO, et al, 2019). 2.5.3 TENDINOPLATIA CALCÁRIA Na tendinopatia calcárea, ocorre formação de depósito de cálcio no interior do tendão do manguito rotador, sendo que o tendão do supraespinal é o mais acometido. A incidência na população varia entre 2,7 a 20%, sendo assintomática na maioria dos casos. Ocorre geralmente entre 30 a 60 anos e é mais frequente em mulheres (EJNISMANN, et al 2008). No exame físico, encontramos dor de característica subacromial, que pode variar de intensidade, conforme a fase da doença. A fase de reabsorção ou no caso de extravasamento do cálcio para o espaço subacromial é marcada por dor intensa.O aspecto radiográfico pode variar e os depósitos com bordas imprecisas, geralmente, estão associadas com a fase aguda da dor e com o estágio de reabsorção do cálcio. As calcificações com bordas precisas e de densidade homogênea estão associadas com a fase de dor subaguda ou crônica (EJNISMANN, et al 2008). O tratamento conservador com fisioterapia e medicamentos analgésicos deve ser sempre realizado, pois frequentemente ocorre reabsorção dos depósitos de cálcio espontaneamente. Caso não ocorra sucesso terapêutico, o paciente deve ser encaminhado ao ortopedista. A terapia por ondas de choque pode ser utilizada e visa à fragmentação dos depósitos. A drenagem cirúrgica está indicada aos pacientes com sintomas recorrentes e pode ser realizada de forma aberta ou artroscópica. 2.5.4 CAPSULITE ADESIVA (OMBRO CONGELADO) A capsulite adesiva é definida como uma rigidez articular glenoumeral associada à dor. Sua classificação ocorre de acordo com a etiologia, podendo ser idiopáticas ou traumáticas. A capsulite ocorre, mais frequentemente, em pacientes na quarta ou na quinta década de vida. O trauma, imobilização do ombro, diabetes melitus, tireoidopatias, cardiopatias, doenças pulmonares, cervicais, neurológicas, psiquiátricas e reação à medicação são fatores predisponentes para essa doença, e o diagnóstico é clínico, marcado pela limitação do arco de movimento passivo do ombro associado à dor (EJNISMANN, et al 2008). 49 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos O quadro clínico caracteriza-se por dor de início espontâneo, geralmente sem qualquer história de trauma. Essa dor se torna intensa e ocorre também à noite. Costuma diminuir de intensidade em algumas semanas. A mobilidade do ombro se torna limitada em todas as direções (elevação, rotação interna, rotação externa, abdução). O quadro costuma ser de evolução lenta (4-6 meses) antes que o diagnóstico seja corretamente estabelecido. A evolução clínica conta com três fases, as quais são descritas no quadro 16 Quadro 15 – Fases da evolução clínica: FASE NA EVOLUÇÃO CLÍNICA CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS Fase dolorosa Início insidioso, mal localizado no ombro Fase de rigidez Há dificuldade para usar o membro superior longe do tronco, mesmo que para funções simples como vestir-se, pentear-se; Restrição severa da mobilidade e a elevação vai a 90 graus à custa da articulação escapulotorácica. Persiste dor leve e contínua de piora com movimentos bruscos. Fase de “descongelamento” O retorno gradual dos movimentos do ombro ocorre de forma lenta e progride durante meses. Fonte: elaborado pelos autores. Deve-se observar que, na fase inicial da capsulite adesiva, os movimentos são preservados, o que pode levar à confusão diagnóstica com tendinite do supraespinhoso. Nos exames de imagem, as alterações são pouco frequentes. Nos casos avançados, pode haver porose do úmero proximal na radiografia. Na ressonância magnética, ocorre a redução do recesso axilar. Os pacientes com diagnóstico de capsulite adesiva devem ser classificados em três grupos distintos para indicação terapêutica. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 50 Quadro 16 – Indicação Terapêutica GRUPOS DE PACIENTES PROPOSTA TERAPÊUTICA Restrição de mobilidade e ausência de dor Se não houver melhora da mobilidade em 30 dias, encaminhar ao ortopedista para avaliação da necessidade de manipulação sob anestesia e distensão hidráulica da cápsula articular e manutenção do programa de reabilitação. Existência de restrição de mobilidade e presença de dor Alívio da dor Encaminhar ao ortopedista para avaliação e supervisão contínua. Encaminhar ao fisioterapeuta para reabilitação. Existência de restrição de mobilidade associada à patologia cirúrgica do ombro Encaminhar ao ortopedista para avaliação e supervisão contínua. Fonte: elaborado pelos autores. 2.5.5 DEGENERAÇÃO DA ARTICULAÇÃO ACROMIOCLAVICULAR A degeneração da articulação acromioclavicular é um processo natural da idade. Há uma incidência aumentada em pessoas que exercem atividades manuais pesadas com o membro superior e em atletas que utilizam repetidamente o membro superior. Essa afecção provoca dor na região da articulação acromioclavicular durante a palpação e a movimentação do ombro. A radiografia e a tomografia computadorizada detectam a artrose nos estágios moderados a avançados, e o tratamento é cirúrgico, com exérese em média de 5 mm da porção da clavícula, podendo ser realizado via aberta ou via artroscópica. 2.5.6 RADIOCULOPATIA CERVICAL A inflamação das raízes nervosas cervicais, como resultado de alterações degenerativas ou outras lesões da coluna cervical, é uma causa comum de ombro doloroso. A dor é intensificada pela hiperextensão do pescoço quando a cabeça é inclinada em direção ao lado envolvido, podendo haver fraqueza dos músculos envolvidos e alterações eletroneuromiográficas. As alterações cervicais, geralmente, são vistas na radiografia e na tomografia computadorizada, sendo que esse tipo de dor, geralmente, 51 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos regride com a correção do problema da coluna cervical.moderados a avançados, e o tratamento é cirúrgico, com exérese em média de 5 mm da porção da clavícula, podendo ser realizado via aberta ou via artroscópica. 2.5.7 PRINCIPAIS DIAGNÓSTICOS DE DOR NO OMBRO E CLASSIFICAÇÕES CID-10 A seguir, listamos os principais diagnósticos diferenciais que se apresentam como queixa de dor no ombro e o CID correspondente, para auxiliá-los na elaboração de hipóteses diagnósticas, assim como a codificação adequada. Quadro 17 - Classificação Internacional de Doenças os Principais Diagnósticos de dor no Ombro. DIAGNÓSTICO CLÍNICO OU SINDROMICO CID Síndroma do manguito rotador M75.1 Traumatismo do tendão do manguito rotador S46.0 Capsulite adesiva do ombro M75.0 Tendinite calcificante do ombro M75.3 Bursite do ombro M75.5 Outras lesões do ombro M75.8 Lesão não especificada do ombro M59 Ferimento do ombro S41.0 Luxação da articulação do ombro S43.0 Entorse e distensão da articulação do ombro S43.4 Tendinite biceptal M75.2 Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 52 2.6 FECHAMENTO DA UNIDADE Chegamos ao final de mais uma unidade! Ao longo dos estudos, você descobriu que o ombro é uma das articulações mais móveis do corpo e também mais sujeito a lesões. Afinal, a dor no ombro é a terceira causa mais comum de dor musculoesquelética. Cerca de sete em cada dez pessoas terão dor no ombro alguma vez na vida. Por esse motivo, o médico de família deve estar apto a conduzir os casos em pespectiva de trabalho interprofissional e utilizando o método clínico centrado na pessoa. Agora é com você! Até breve. Dor no joelho UNIDADE 3 INTRODUÇÃO DA UNIDADE Sejam bem-vindos à unidade Dor no Joelho. Você sabia que as dores de joelho são responsáveis por aproximadamente um terço de todas as causas de problemas musculoesqueléticos vistos na Atenção Primária à Saúde? (GUSSO, et al, 2019). As mais frequentes no adulto são artrose e Síndrome Dolorosa Patelo-Femoral (SDPF). Em virtudue dessa alta prevalência na clínica da APS, faz-se necessária a discussão sobre as dores no joelho, uma vez que, se houver uma adequada abordagem médica, pode evitar sequelas e, consequentemente, evitar a síndrome de imobilidade, impedindo que o paciente fique restrito à cadeira de rodas ou ao leito. O joelho é uma das articulações mais afetadas pela postura inadequada, pela prática de atividade física não supervisionada e pelo aumento do IMC (Índice de Massa Corporal), levando, dessa forma, a necessidade de estudar essa articulação e, por consequência, saber abordar e manejar o cuidado preventivo e reabilitador. Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Conhecer a anatomia do joelho; • Classificar os tipos de dores articular e periarticular no joelho; • Conheceras diversas patologias envolvidas na manifestação de dor em joelho; • Classificar a dor no joelho quanto ao tempo de duração e localização; • Classificar a patologia pelo tipo de comprometimento envolvido; • Investigar a patologia com adequados exames de imagem; • Diagnosticar os casos de dor em joelho ; • Conhecer os tipos de tratamento não medicamentoso e medicamentoso utilizado no momento; • Identificar casos que necessitem de referência ao especialista. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 54 Vamos agora, acompanhar um exemplo de caso clínico relacionado a dor do joelho, em que poderemos reconhecer as patologias a partir da faixa etária, assim como o grau de comprometimento envolvido na alteração articular apresentada no joelho do jovem de 18 anos. Caso clínico Rapaz de 18 anos comparece à unidade de saúde, relata dor em região de joelho há aproximadamente 15 dias. Relata que vem piorando com o tempo, afirma que notou que primeiro era em um dos lados do joelho direito e que depois se espalhou por todo o joelho. Notou também que o inchaço está em todo o joelho. O problema está dificultando o iniciar a deambulação. Dor ao subir escadas, agachar-se, entre outros. Pede ajuda para ficar bom logo. Com o caso acima, que tipo de hipóteses levantaria? Vejamos a seguir como proceder para buscar informações mais assertivas. 3.1 DIAGNÓSTICO Para uma adequada abordagem de uma queixa de dor no joelho, é necessário conhecer a anatomia dessa articulação. Além disso, deve-se realizar a anamnese adequada, buscando identificar a causa, os sintomas, as características, o tempo de doença, entre outros. 3 . 1 . 1 A N A T O M I A D O JOELHO Muito importante conhecer como, quando e que estrutura sofreu a injúria ou foi afetada devido ao evento ou à patologia. Por isso, a importância de se conhecer a anatomia do joelho. Observe na figura ao lado as estruturas do joelho. Figura 14 - Anatomia do Joelho Fonte: elaborado pelos autores. 55 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Dessa forma, é essencial que você realize uma história clínica e um bom exame físico, para diminuir as incertezas sobre os diagnósticos diferenciais. A PATELA é um osso sessamóide que fica acomodado dentro da capsula da articulação do joelho para articular-se com as superfícies anteriores e distal nas superfícies trocleares. Esse osso tem por finalidade aumentar o torque do músculo do quadríceps e o distanciamento do braço de força. Ou seja, distância do eixo de movimento oferece também a proteção óssea das superfícies articulares quando o joelho está fletido; isso diminui a pressão que pode ser exercida sobre o fêmur Ademais, previne forças de compressão lesiva no tendão do quadríceps no caso de flexões profundas do joelho, sua estabilização é feita através do mecanismo de extensão do joelho guiando o movimento da patela e o fêmur. Lembre-se! O LIGAMENTO CRUZADO POSTERIOR insere-se na fossa intercondilar posterior da tíbia e na extremidade posterior do menisco lateral e vai para frente e medialmente, sendo sua fixação anterior na face medial do côndilo medial do fêmur. É ele que impede o movimento de deslizamento posterior da tíbia ou o deslocamento anterior do fêmur, o chamado sinal de gaveta posterior. O LIGAMENTO CRUZADO ANTERIOR tem a inserção na eminência intercondilar da tíbia e vai se fixar na face medial do côndilo lateral do fêmur. Ele impede o movimento de deslizamento anterior da tíbia ou deslizamento posterior do fêmur. Além da hipertensão do joelho, caso ocorra uma ressecção do mesmo, ocorre à luxação anterior da tíbia sobre o fêmur, o chamado sinal de gaveta anterior. O LIGAMENTO COLATERAL MEDIAL é um feixe membranáceo, largo e achatado que se prolonga para parte posterior da articulação. Insere-se no côndilo medial do fêmur e no côndilo medial da tíbia. É intimamente aderente ao menisco medial, tem por função inibir o movimento de afastamento dos côndilos mediais do fêmur e tíbia ou simplesmente o genu valgum. O LIGAMENTO COLATERAL LATERAL é um cordão fibroso, arredondado e forte, inserido no côndilo lateral do fêmur e na cabeça da fíbula. Ele, diferentemente do colateral tibial, não se insere no menisco lateral; contudo também impede o movimento de afastamento dos côndilos laterais do fêmur e tíbia ou simplesmente o genu varum. Ambos os ligamentos têm uma função muito importante na estabilidade de rotação da articulação do joelho e impedem o movimento passivo do joelho no plano frontal. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 56 Os MENISCOS são duas lâminas de fibrocartilagens que têm por função aumentar a congruência articular e distribuir a pressão, essas são verdadeiros coxins cartilaginosos. • MENISCO MEDIAL: tem formato de meia-lua, um pouco alongado e mais largo posteriormente. É firmemente fixado à fossa intercondilar posterior da tíbia diretamente anterior à inserção do LCP; tem função de suportar as cargas compressivas da articulação, distribuí-las e aumentar a superfície articular. Por ser mais fixo, apresenta um índice maior de lesão quando comparado ao menisco lateral. • MENISCO LATERAL: também possui formato de meia lua e recobre uma extensão da face articular maior do que a recoberta pelo menisco medial. Sua extremidade anterior fixa-se na eminência intercondilar anterior da tíbia e a posterior na eminência intercondilar da tíbia. A fixação do menisco lateral é interrompida pelo hiato poplíteo através da qual passa o tendão do músculo popliteo. Ainda possui a mesma função do menisco medial. 3.1.2 ANAMNESE O profissional da ESF, durante a anamnese, deve seguir alguns pontos que o ajudarão na definição do melhor diagnóstico e na determinação da causa e consequentemente um adequado tratamento. Para isto, será preciso conhecer a característica da dor, o tempo que a dor acontece e o local da dor. É importante que você avalie a localização da dor, para obtenção de um diagnóstico e a escolha, quando necessário, de um exame laboratorial ou de imagem. Fonte: elaborado pelos autores. Localização da dor Diagnóstico diferencial Anterior Subluxação ou luxação recidivante da patela Apofisite tibial Joelho do saltador (tendinite patelar) Condromalácia patelar Medial Entorse do ligamento colateral medial Ruptura do menisco medial Bursite da pata de ganso Síndrome da plica medial Lateral Entorse do ligamento colateral lateral Ruptura do menisco lateral Tendinite da banda iliotibial Posterior Cisto poplíteo (cisto de Baker) Lesão do ligamento cruzado posterior Quadro 18 - Diagnóstico diferencial quanto a localização da dor 57 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Intensidade Quanta à intensidade, temos uma variável que depende de cada indivíduo e do limiar de dor de cada um, mas, para melhor quantificação, sugerimos aplicação da escala analógica de dor. Figura 15 - Escala de Dor (EVA) Fonte: http://www.as.saude.ms.gov.br/wp-content/uploads/2016/04/Escala-de-dor-LANNS-E-EVA. pdf (adaptado pelos autores) Além de quantificar, podemos qualificar a dor , fazendo as seguintes perguntas: Qualidade A qualidade possibilita a descrição da dor. Se esta ocorre em pontada, queimação ou pressão. Cada descrição pode corresponder a uma característica relacionada a uma patologia. Fatores de agravamento É importante você questionar o que piora o quadro do paciente. Postura? Movimentos? Fatores de alívio Importante questionar o que melhora. Postura? Medicamentos? Meios físicos? Pesquisando Sintomas e Sinais Associados Quanto aos sintomas e sinais associados ao comprometimento articular no caso do joelho temos alguns que são mais prevalentes. Entre eles citamos: Derrame articular O tempo de desenvolvimento do derrame articular pode auxiliar no diagnóstico: • Início rápido (em duas horas) e, se grande e tenso, sugere ruptura do ligamento cruzado anterior ou fratura do platô tibial; • Início lento (24 a 36 horas)de derrame médio a moderado sugere lesão meniscal EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 58 ou entorse ligamentar. Sinais inflamatórios – calor local, febre, hiperemia (vermelhidão) Bloqueio articular / sensação de falseio – sugerindo lesão meniscal. Presença de estalido, crepitações – sugere lesão ligamentar. O mecanismo da lesão, a história patológica pregressa e os medicamentos em uso são fatores que ajudam na elucidação diagnóstica. Mecanismo da Lesão História Patológica Pregressa Medicamentos em uso É fundamental questionar: como aconteceu? Como começou? Tem que ser investigada buscando lesões anteriores, traumas, cirurgias, comorbidades associadas e outros. Esta informação permite aventar a possibilidade de patologia, além de pesquisar a provável intereação medicamentosa com alguma opção terapêutica a ser utilizada. Fonte: elaborado pelos autores. Para facilitar o reconhecimento das lesões e o diagnóstico, seguem exemplos de traumatismo e estruturas e lesões correspondentes: Lesão em ligamento cruzado posterior - uma força aplicada na tíbia proximal com o joelho em flexão. Lesão em ligamento cruzado anterior - entorse com o pé fixo no chão e movimentos de desaceleração rápidos. Lembre-se! 3.1.3 CAUSA DA DOR Temos várias condições e mecanismos que podem ocasionar a dor no joelho. Para facilitar a avaliação da causa da dor, sugerimos no quadro a seguir as alterações clínicas que direcionam o raciciocínio clínico para determinadas causas. Desta forma, a partir da característica da dor, podemos chegar à causa dela, como exemplo: se o paciente apresentar dor com presença de edema, calor e rubor, podemos pensar em uma causa inflamatória. 59 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Quadro 19 – Causa da dor O que pode ocasionar Quando pensar Inflamação Dor local, edema, calor, rubor Desgaste/ degeneração Crepitação, história clínica, idade avançada, desvio do eixo Trauma História de trauma e dor, derrame, bloqueio, falseio do joelho, luxação, deformidade Infecção Febre, rubor, calor, edema Distúrbios metabólicos História clínica (p.ex. hiperuricemia) Doenças autoimunes História clínica, aumento da VHS e da PCR VHS, velocidade de hemossedimentação; PCR, reação em cadeia da polimerase. Fonte: adaptado de GUSSO et al., 2018. 3.1.4 CAUSAS DE DOR DE ACORDO COM A IDADE Além da característica da dor, outro ponto que precisaremos estar atentos é quanto à idade da pessoa acometida pela dor, pois, a depender da idade, existem algumas patologias que estão mais relacionadas com determinadas faixas etárias. Existem exceções, mas seguindo a regra, ou o mais comum, devemos estar atentos a determinadas causas relacionadas à faixa etária, conforme pode ser observado no quadro a seguir. Quadro 20 - Causas comuns de dor no joelho FAIXA ETÁRIA CAUSAS COMUNS DE DOR NO JOELHO Crianças e adolescentes Subluxação e luxação recidivante da patela Apofisite tibial (doença de Osgood- Schlatter) Joelho do saltador (tendinite patelar) Epifisiólise do fêmur proximal (dor referida) Osteocondrite dissecante Adultos Condromalacia patelar Bursite da pata do ganso Síndrome da plica medial Trauma: entorses ligamentares, ruptura meniscal Artropatia inflmatória: artrite reumatóide, artrite reativa Artrite séptica Idosos Osteoartrite inflamatória induzida por cristais: gota, pseudogota Cisto poplíteo (Cisto de Baker) Fonte: adaptado de DUNCAN, 2014 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 60 3.1.5 EXAME FÍSICO EXAME COMPLETO DO JOELHO – Iniciamos o exame fisico com a marcha do paciente antes e ao entrar na sala, observando a caminhada, pontos de defesa, andar antálgico e dificuldade de movimento da articulação ou pela falta de musculatura (atrofia) como na marcha anserina. Dando continuidade, seguimos para a inspeção: 1. Paciente em repouso em decúbito dorsal, realizar a inspeção onde se avalia a presença ou ausência de deformidades, atrofias, cicatrizes, alterações na pele (en- contradas em artrites psoriáticas). 2. Depois, palpação, onde se busca pontos dolorosos e a presença de sinais flogísticos. 3. Na temperatura, utilizar o dorso da mão comparando a temperatura do joelho e da pele adjacentes a estes, assim como com o joelho contra-lateral. 4. O sinal da Tecla sendo importante para se definir se existe derrame articular avaliando, através de diversas manobras q’ue serão apresentadas a seguir, a bursa, patela e ligamentos. Inspeção Deve ser realizado com o indivíduo em pé, comparando um joelho com o outro, observar alinhamento (genuvaro, genuvalgo, recurvatum). Observar a presença de hematomas, abaulamentos, depressões, edemas, derrame articular, deformidades, cicatrizes, encurtamento de um dos membros, rigidez arco de movimento e atrofias musculares. Figura 16 - Alinhamento dos joelhos na inspeção Fonte: https://www.delgadotrauma.com/wp-content/uploads/2013/10/traumatologos-en-monter- rey-deformidad-genuvaro-genuvalgo-rodilla-blog-centro-toe.jpg 61 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos PALPAÇÃO Palpar rotineiramente a patela, a região peripatelar, o tendão patelar, a tuberosidade anterior da tíbia, os ligamentos colateral lateral e medial, a pata anserina (bursa anserina), assim como os côndilos femorais e o tubérculo de Gerdy (onde se insere o trato iliotibial). A dor durante a palpação fornece uma pista importante. AMPLITUDE DO MOVIMENTO O mais importante é o movimento de extensão. A pessoa com alteração de fl exão consegue viver, sem alterações, com limitação para a vida mesmo com fl exão até em 90°, mas a difi culdade de deambular por pequenas distâncias estará prejudicada se a extensão não estiver em 0°. Figura 18 - Movimento de Extensão Fonte: elaborado pelos autores. Figura 17 - Nome dado à curvatura do joelho quanto à anterior e posterior Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 62 3.1.6 EXAMES DE IMAGENS A história clínica e exame físico são fundamentais para apontar o caminho diagnóstico, sendo muitas vezes suficientes para abordagem aos pacintes com dor no joelho. No entanto, algumas situações necessitam de exames de imagem para complementar esta investigação. A seguir, faremos a descrição destes exames e suas principais indicaçõres. RADIOGRAFIA É útil para avaliar lesão nos ossos, ou nas articulações, com comprometimento da parte óssea. É muito utilizada para avaliação inicial de dor de joelho, quando necessário um exame de imagem. Pode ser solicitada na suspeita de osteoartrose ou lesão óssea. Figura 19 – Incidências: AP e perfil (lateral) Fonte: elaborado pelos autores. Para evitar a solicitação indiscriminada de radiografias de joelho no trauma agudo, algumas regras foram elaboradas. As regras de Ottawa têm uma sensibilidade de 97% e especificidade de 27% para fraturas de joelho no trauma, e as regras de Pittsburg têm uma sensibilidade de 99% e uma especificidade de 60% (GUSSO et al. 2018). Quadro 21 - Regras de Ottawa e de Pittsburgh Regras de Ottawa Regras de Pittsburgh (Trauma ou mecanismo, lesão tipo queda, associada a um dos seguintes) Incapacidade para andar quatro passos imediatamente após a lesão e no pronto- atendimento Incapacidade para andar quatro passos imediatamente após a lesão e no pronto- atendimento Idade > 55 anos Idade > 50 e < 12 anos Dor à palpação na cabeça da fíbula Incapacidade de flexionar o joelho > 90° Dor isolada da patela Fonte: (Gusso et al., 2018) – quadro 217.2 63 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos ULTRASSONOGRAFIA E TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA A Ultrassonografi a visa avaliar as partes moles da articulação como os ligamentos, menisco, tendões e bursa. A Tomografi a computadorizada pode ser indicada para avaliar com mais detalhes, a parte óssea e a articulação, observando qualquer alteração e,ao mesmo tempo, se usar contraste, pode-se perceber alterações em vasos ou partes moles. Ambos exames têm valor limitado na propedêutica de dor do joelho, sendo pouco recomendados. RESSONÂNCIA MAGNÉTICA A ressonância está indicada para avaliar lesões em partes moles e ósseas com mais acurácia, tais como músculos, tendões, bursa, ligamentos e menisco. No cotidiano, existe uma difi culdade maior de acesso para realizar o exame pelo SUS. Figura 20 – Ressonância Magnética de joelho Fonte: elaborado pelos autores. Em algumas situações, a resonância é fundamental para ajudar na defi nição se o tratamento será cirúrgico e para fazer um adequado planejamento cirúrgico. A ressonância nuclear magnética (RNM) é muito precisa para o diagnóstico de lesões ligamentares e meniscais. Alguns autores questionam o uso indiscriminado deste exame, uma vez que um exame físico realizado por examinador experiente aliado a radiografi as simples de joelho tem acurácia semelhante (GUSSO et al. 2018). Retomando o caso clínico iniciado no início da unidade, conseguimos desvendar como aconteceu a lesão e sobre a inspeção no exame físico. Diante disso, que tipos de testes no momento do exame físico você faria para buscar o diagnóstico? Quais exames de imagem seriam necessários ou não para auxiliarem nesse diagnóstico? 3.2 CAUSAS MAIS COMUNS/ EXAMES / TRATAMENTO Caso Clínico Rapaz de 18 anos comparece à unidade de saúde, relata dor em região de joelho há aproximadamente 15 dias. Relata que vem piorando com o tempo, afi rma que notou que primeiro era em um dos lados do joelho direito e que depois se espalhou por todo o joelho. Notou também que o inchaço está em todo o joelho. O problema está difi cultando o iniciar a deambulação. Dor ao subir escadas, agachar-se, entre outros. Pede ajuda para fi car bom logo. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 64 Ao ser interrogado sobre como aconteceu a lesão, este falou que estava jogando futebol, quando em um momento, de dividida da bola com outro jogador, acabou caindo no chão e se machucando. Desde então, este vem notando dificuldade para andar. Primeiro sentia dor de forte intensidade em lado interno do joelho e, quando andava, tinha sensação de travar o joelho e a dor era insuportável. Esse sintoma foi evoluindo e, no momento, a dor está em todo o joelho. Em inspeção, foi encontrado um andar antálgico, poupando a perna direita, um discreto edema. Localizado, comparado com o lado contralateral e sem rubor ou calor. Que tipos de testes no momento do exame físico faria para buscar o diagnóstico? Que exames de imagem seriam necessários ou não para auxiliaria nesse diagnóstico? Observe, nesta seção, as lesões mais frequentemente encontradas em joelho que causam dor. Figura 21 – Pontos de dor de acordo com a localização Fonte: elaborado pelos autores. A patela, devido ao trauma ou a pequenos movimentos, sai da fossa trocantérica e fica lateralizada (luxação), ocasionando muita dor e dificuldade para deambular. A história clínica mais comum é a sensação do joelho “sair do lugar” de modo repentino, “voltando ao lugar” espontaneamente ou com ajuda. Encontramos, normalmente no exame físico, um joelho edemaciado. A patela pode subluxar no exame físico, conforme imagem a seguir: 65 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Figura 22 – Luxação da Patela Fonte: elaborado pelos autores. A subluxação/luxação recidivante é a causa mais comum de dor no joelho em adolescentes do sexo feminino, e que deve ser referenciada ao ortopedista em caso de 3 ou mais episódios de luxação. EXAMES A seguir, através do Raio-X do joelho, podemos observar a luxação. Figura 23 – Raio-X do joelho mostra a luxação Fonte: elaborado pelos autores. TRATAMENTO Imobilização em primeiro momento, uso de analgésicos (paracetamol, dipirona) e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). O paciente deve retornar, aos poucos, a atividades físicas isométricas, buscando o fortalecimento do quadríceps. Com ajuda da fisioterapia, que às vezes é acessível no Núcleo de Apoio ao Saúde da Família –NASF. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 66 3.2.2 TENDINITE PATELAR CAUSA/CARACTERÍSTICAS Causada normalmente por inadequação de excesso de exercícios, ocorre no estirão da adolescência, e/ou em atletas e se caracteriza por inflamação no tendão patelar ou “joelho de saltador”. Normalmente, o jovem relata dor na parte anterior do joelho, frequentemente, após esforço físico, com piora ao subir escadas e ao se agachar, ajoelhar, correr ou fletir de forma prolongada o joelho. QUADRO CLÍNICO/DIAGNÓSTICO Sensibilidade aumentada na palpação da região do tendão patelar. Reprodução da dor na extensão do joelho contra resistência. Normalmente não tem edema. TRATAMENTO O tratamento consiste em usar analgésico como paracetamol, dipirona e/ou AINE (Anti-Inflamatório Não Esteroidal), repouso, compressas de gelo. Posteriormente, inicia fisioterapia fortalecendo a musculatura do quadríceps. 3.2.3. APOFISITE TIBIAL (DOENÇA DE OSGOOD-SCHLATTER) É uma lesão caracterizada por dor no tubérculo anterior da tíbia em crescimento. CAUSAS/CARACTERÍSTICAS Provavelmente causada por inflamação induzida por tração no tendão patelar e na cartilagem da placa de crescimento do tubérculo tibial durante a adolescência. Caracteriza-se por dores ao deambular (extensão da articulação) e que melhora em repouso. Figura 24 – Osgood-Schlatter Fonte: elaborado pelos autores. SINTOMAS/DIAGNÓSTICO O paciente queixa-se de dor no joelho, de início insidioso, com localização precisa sobre o tubérculo tibial. Há dor na palpação do tubérculo e, às vezes, inchaço localizado. Os sintomas podem durar de semanas a anos, quase sempre regredindo após 1 a 2 anos. O exame físico é muito específico. Nele, pode ser encontrado: • aumento da sensibilidade, • eritema, 67 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos • edema ou massa proeminente no tubérculo tibial (local onde o tendão patelar se insere na tíbia). A palpação pode desencadear dor no local. Geralmente, a movimentação, a marcha e os reflexos são normais. Raio X do joelho –. Raras vezes há necessidade de exames complementares, uma vez que a presença de dor e inchaço localizados no tubérculo tibial em adolescente praticamente fecha o diagnóstico . O Raio X do joelho poderá ser solicitado, se houver suspeição de outras patologias. Melhor visualizado de perfil com pequena rotação interna (10 a 20º) (DUNCAN, 2014). TRATAMENTO O tratamento depende dos sintomas apresentados pelo paciente: • Se dor em 24 h após a atividade, tratamento com analgésicos; • Se sintomas mais persistentes, pode necessitar de repouso, imobilização e de medicamentos mais potentes; • Fisioterapia (atividades iniciando com exercícios isométricos); • Em alguns casos, podem necessitar de infiltração de analgésicos (lidocaína); • Casos refratários ou com sintomas muito intensos, podem necessitar de trata- mento mais intensivo ou intervenção cirúrgica. A maioria dos pacientes melhora com tratamento conservador (redução das atividades que produzem dor e da prática desportiva, gelo 10 a 15 minutos 3x/dia, paracetamol ou AINEs, uso de protetor do joelho para minimizar o risco de contusão, fortalecimento dos quadríceps, inicialmente com exercícios isométricos, e alongamento dos músculos isquiotibiais). A doença é autolimitada, embora possa durar até 12 a 24 meses e deixar um aumento permanente no tamanho do tubérculo tibial. Lembre-se! 3.2.4. CONDROMALÁCIA PATELAR OU SÍNDROME PATELOFEMORAL CAUSA/CARACTERÍSTICAS Lesão na cartilagem da articulação femoropatelar, causada por diversas causas, a citar: idiopática, síndrome da compressão lateral patelar, instabilidade patelar, trauma, lesão do ligamento cruzado anterior prévia, imobilização prolongada por fratura e afecções sinoviais. Caracteriza-se por surgir após a segunda década de vida e quetem relação com dor anterior em joelho em mulheres. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 68 Figura 25 – Condromalácia Patelar Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Knee_MRI,_T1T2PD_08.jpg SINTOMAS/ DIAGNÓSTICO Caracteriza-se por dor frequente e intensa que piora ao permanecer vários períodos na posição sentada e/ou ao descer escada. O diagnóstico é clínico. Ao examinar, é possível encontrar edema ou crepitação. Como diagnóstico diferencial temos a bursite séptica, no entanto, essa apresenta dor, calor, rubor e edema no local e/ou presença de celulite. TRATAMENTO O tratamento pode ser de duas formas conservador (que impede o trauma pelo impacto) e o medicamentoso (quando acarreta o uso de medicamentos). Conservador – limitar as atividades que causem impacto na articulação. Estimular caminhadas e fortalecimento do quadríceps, do vasto medial obliquo. Medicamentos – paracetamol, dipirona e /ou antininflamatório não esteroidal (AINE). 3.2.5. BURSITES Inflamação em bolsas sinoviais. Nos joelhos, temos várias que ajudam a amortecer, diminuir o atrito dos tendões sobre saliências ósseas e proteger a pele ao redor de superfícies ósseas. 69 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 3.2.5.1 BURSITE PRÉ-PATELAR MAIS FREQUENTE CAUSAS/CARACTERÍSTICAS Aparece mais em pessoas que permanecem um grande período ajoelhado. Caracteriza-se por ter comprometimento da região anterior do joelho. Figura 26 – Bursite pré-patelar Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/98/Bursitis_olecrani.jpg SINTOMAS/DIAGNÓSTICO Presença de edema e dor em região anterior de joelho. Diagnóstico é clínico, tendo como diagnóstico diferencial a bursite séptica, gota e pseudogota. TRATAMENTO Os tratamentos podem ser sem uso de medicamentos com uso de medicamentos, classificando-se em oral e intraarticular. • Conservador com uso de faixas ou joelheiras compressivas. • Medicamentoso – paracetamol, AINE sistêmico ou local • Uso de corticoide intra-articular (puncionar e infiltrar o corticoide), observando- -se que a infiltração é reservada apenas para casos recorrentes. 3.2.5.2 BURSITE DA PATA DE GANSO A Bursite da pata de ganso fica localizada entre os músculos sartório, tendão do músculo grácil e do músculo semitendinoso com a metáfise tibial medial. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 70 Figura 27 – Bursite da Pata de Ganso Fonte: elaborado pelos autores. Causas/características Desencadeado por desequilíbrio muscular, em geral hipotonia do quadríceps e retração dos isquiotibiais. Caracteriza-se por comprometer a região medial do joelho. Sintomas/diagnóstico Os sintomas são dor em região medial do joelho, sendo o diagnóstico iminentemente clínico. Tratamento Os tratamentos para Bursite de Pata de Ganso não fogem muito do tipo de tratamento adequado para tratamento ortopédico, a citar a analgesia com medicamentos, meios físicos e exercícios a partir de fisioterapia e de reabilitação. • Controlar a dor – com analgésicos e/ou AINEs. • Compressa de gelo • Exercícios de reabilitação - princípios fisioterápicos para os distúrbios dos joelhos (alongamento e fortalecimento do grupo adutor e do quadríceps, em especial nos últimos 30 graus de extensão do joelho, usando o músculo vasto medial, além de alongamento dos tendões que formam a pata de ganso) 71 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 3.2.6 LESÕES LIGAMENTARES O joelho, para criar estabilidade, necessita dos ligamentos para assegurar o deambular e todos os movimentos necessários para a vida. Desta forma, as lesões ligamentares nos joelhos podem significar prejuízos para a função da articulação. Figura 28 - Ligamentos do joelho e suas respectivas funções Fonte: elaborado pelos autores. Causas/características As lesões ligamentares são muito comuns em esportistas devido à vulnerabilidade do joelho. Sintomas/diagnóstico Para diagnóstico, o exame físico, em particular os testes específicos para os ligamentos, aliado à história do trauma, pode ser muito elucidativo, gerando a hipótese e até praticamente fechando-o. Teste da gaveta anterior Com o paciente em decúbito dorsal com o joelho em 90 graus de flexão, o examinador apoia o pé do paciente e, com as mãos na região posterior da tíbia superior, empurra-a para anterior. Teste é positivo para lesão do ligamento cruzado anterior quando há deslocamento anterior excessivo. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 72 Figura 29 – Teste da gaveta anterior Fonte: elaborado pelos autores. Teste da gaveta posterior Com o paciente em decúbito dorsal com o joelho em 90 graus de fl exão, o examinador apoia o pé do paciente e, com as mãos na região anterior da tíbia superior, empurra-a para posterior. O teste é positivo para lesão do ligamento cruzado posterior quando há deslocamento posterior excessivo. Teste de Lachmann para cruzado anterior Figura 30 - Teste de Lachmann para cruzado anterior Fonte: https://media.istockphoto.com/illustrations/previous-drawer-test-illustration-i- d820764252?k= 73 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Com o paciente em decúbito dorsal e joelho fletido a 30 graus, o examinador coloca uma das mãos no fêmur distal e a outra na tíbia proximal, ainda promove movimento antagônico entre eles. Positivo para lesão do ligamento cruzado anterior - quando a tíbia se desloca anteriormente. Pivot teste (Pivot-shift) Figura 31 – Pivot teste Fonte: elaborado pelos autores. Com o paciente em decúbito dorsal, o examinador posicionando o joelho em extensão, rotação interna da perna e estresse em valgo (feito empurrando a perna medialmente), inicia-se lentamente a flexão. Quando, em torno dos 30 a 50 graus, perceber-se repentina redução de uma subluxação anterior, o teste é positivo para lesão do ligamento cruzado anterior. Teste de Godfrey (posteriorização passiva da tíbia) Figura 32 – Teste de Godfrey Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 74 Com o paciente em decúbito dorsal, com o quadril e joelho em 90 graus, o examinador segura o pé do paciente, solicitando que relaxe a musculatura. A subluxação posterior da tíbia indica lesão do ligamento cruzado posterior. Tratamento O tratamento varia de acordo com a extensão da dor e os sintomas relacionados. Poderemos diminuir a dor com analgésicos, anti-inflamatórios, abordagens conservadoras a tratamentos de imobilização e fisioterapia reabilitadora. • Paracetamol, dipirona 1 grama ou AINEs por 5 a 7 dias; • Manter o membro elevado para diminuir o edema; • Diminuir a carga no membro; • Imobilizar o membro; • Utilizar gelo no joelho (pelo menos 15 minutos 4x/dia); • Abordagem cirúrgica – se lesão for grave, se profissão de esportista; • Mobilização precoce protegida com uso de muletas; • Por último iniciar fisioterapia direcionada para o fortalecimento da musculatura do quadríceps, ligamentos. As Lesões Meniscais são muito comuns em esportistas. Normalmente, mais a medial devido a ter menor mobilização. A seguir, uma figura que ilustra as lesões. Figura 33 – Lesões Meniscais Fonte: elaborado pelos autores. Causas/características Movimentos bruscos, com impacto em joelho, normalmente, por movimentos rotacionais bruscos em joelho. Por isso, a associação com o esporte. Pode acontecer também devido ao desgaste (degenerativos), normalmente pessoas acima de 40 anos, sendo associados com outras lesões ligamentares. 75 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Sintomas/diagnóstico Dor nos joelhos, que podem iniciar em um dos lados e que posteriormente se espalha em toda a articulação, apresenta ainda edema no local, que pode ir aumentando, além de sensação de travamento (quando a pessoa está andando, o joelho trava em alguma posição e aparece uma dor de forte intensidadeque o impede de deambular) – trava. Os testes realizados consistem na associação de movimentos de fl exão e rotação do joelho e também de compressão. A presença de dor durante a realização dessas manobras é um indicativo de que o paciente pode apresentar lesão meniscal. Teste de Thessaly Realizado com 20 ° de fl exão de joelho. O examinador apoia o paciente segurando as mãos estendidas enquanto o paciente está de pé no chão. Figura 34 - Flexão do joelho Fonte: elaborado pelos autores. O paciente então gira seu joelho e corpo, interna e externamente, três vezes, mantendo o joelho em (20 °). O teste é sempre realizado primeiro no joelho normal para que o paciente possa ser treinado, especialmente no que diz respeito a como manter o joelho na posição correta e depois em 20 ° de fl exão. Teste de McMurray No teste de McMurray, com o paciente em decúbito dorsal com o quadril em 90 graus e o joelho em f lexão, o examinador coloca uma das mãos na interlinha articular e segura o pé com a outra mão. A presença de dor ou estalido à rotação externa da perna pode indicar lesão do menisco medial, e à rotação interna, do menisco lateral. Figura 35 - Teste de McMurray Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 76 Teste de Smillie No teste de Smillie, com o paciente em decúbito dorsal, a palpação dolorosa da interlinha articular medial do joelho pode signifi car lesão do menisco medial, e na região lateral para o menisco lateral. Marcha de Pato Figura 36 – Marcha de Pato Fonte: elaborado pelos autores. No teste da marcha de pato, com o paciente agachado sobre os calcanhares, pede-se que dê alguns passos. Na presença de lesão do menisco medial, a dor pode impedir a realização do movimento. Diagnóstico – para confi rmação se indica como padrão ouro à ressonância magnética do joelho. Tratamento A lesão menical nos pede um cuidado com essa articulação e tratamentos que vão desde conservador, com uso de medicamentos para analgesia, assim como exercícios e chegando a tratamento cirúrgico. • Paracetamol, dipirona, AINE; • Opioide, como a codeína (se a dor for mais intensa); • Fisioterapia (alvo inicial de alcançar pleno arco de movimento e, a partir de então, com exercícios de resistência, minimizar atrofi a e fortalecer os músculos quadríceps e isquiotibiais, responsáveis pela proteção do joelho); • Exercícios - progressivos, preferencialmente em cadeia cinética fechada, ou seja, com os pés fi xos no chão, para minimizar estresse na articulação; • Tratamento cirúrgico - (dependendo da idade do paciente, da resposta ao tratamento conservador, do tipo da lesão meniscal e da exigência funcional do membro). Pode ocorrer em qualquer faixa etária e está mais relacionado com a imunidade do paciente. 77 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Causas/características Pacientes imunodeprimidos (câncer, diabetes melito, alcoolismo, síndrome da imunodeficiência adquirida – AIDS, terapia com corticoides). Causadas por bactéria patogênica com disseminação hematogênica ou em decorrência de osteomielite metafisária, a infecção articular leva à destruição da cartilagem em 2 a 6 dias, e, em quatro semanas, ocorre a destruição completa da articulação. Sintomas/diagnóstico Relato de dor e/ou restrição de movimento, com presença ou ausência de história de febre e fatores de risco. No exame físico, é comum restrição da mobilidade articular, edema, dor, rubor, hiperemia e derrame articular. Na suspeita diagnóstica, o paciente deve ser encaminhado a um serviço de emergência ortopédica, pois é necessária a punção articular. articular. Punção com conteúdo purulento necessita internação. Figura 37 - Punção articular Fonte: elaborado pelos autores. Tratamento Com a confirmação da punção, o tratamento é cirúrgico com drenagem da articulação e antibióticos intravenosos. Causa mais comum de dor no joelho em pacientes após os 60 anos de idade. Figura 38 – Raio-X de Artrose da articulação do joelho. Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 78 Causas/características Desgaste da articulação que pode ser primário (pela própria idade) ou secundária, no caso de excesso de peso, desvios no alinhamento do membro, sequelas de fraturas ou lesões menisco-ligamentares, necrose dos côndilos femorais, patologias reumatismais ou infeciosas, entre outras. Sintomas/diagnóstico Dor que se inicia de forma gradual - agravada por atividades de carga no joelho e aliviada pelo repouso. O paciente tem a sensação de falseio do joelho, sobretudo, quando desce escadas, e apresenta limitação funcional. Em exame físico, encontram-se crepitações, movimentos dolorosos e/ou restritos e aumento do volume articular, este em parte devido à presença de osteófitos decorrentes de proliferação marginal da cartilagem/osso. Figura 39 – Osteoartite de Joelho Fonte: elaborado pelos autores. Diagnóstico é estabelecido a partir da história clínica e exame físico; e quando necessário, o estudo radiológico. Quando realizado, podem ser encontradas as seguintes alterações: diminuição do espaço articular, osteófitos, esclerose subcondral e alterações císticas. Tratamento O tratamento da gonartrose varia muito a partir do grau de comprometimento e/ ou de evolução da doença na articulação, devendo ser desde conservador a cirurgia com colocação de prótese. • Sintomas leves: medidas conservadoras; • O melhor tratamento é a combinação de medidas farmacológicas e não farmacológicas; 79 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos • Individualização do tratamento conforme obesidade, trauma, atividade física, idade, comorbidades, nível de dor e incapacidade funcional, inflamação (derrame), localização e grau de dano estrutural; • Educação frequente, exercícios, dispositivos (órteses, palmilhas, joelheiras) e perda de peso; • AINEs tópicos e capsaicina tópica são eficazes e seguros; • AINEs sistêmicos em pacientes irresponsivos ao paracetamol; • Analgésicos opioides, com ou sem paracetamol, são alternativas ao uso de AINEs ou se não houver resposta a estes; • A infiltração intra-articular de glicocorticoides está indicada na agudização (crise), com edema e calor, ou nos casos de dor refratária aos analgésicos e AINES. Não injetar glicocorticoide na suspeita de artrite séptica; Tem que ser com cuidado e apenas se for recidivante. • Artroplastia nos pacientes com alterações radiográficas e sintomas refratários. Na próxima unidade você terá acesso ao conteúdo sobre a osteoartrite e poderá aprofundar mais seus conhecimentos. 3.3 PROGNÓSTICO O diagnóstico precoce e correto, o tratamento adequado e o regresso às atividades de forma gradual e adaptada são favoráveis a melhores prognósticos. Lembrar que: a prevenção das lesões é tão importante quanto ao seu tratamento! 3.4 FECHAMENTO DE UNIDADE É chegado o momento de finalização desta unidade! Ao longo dos estudos, você pôde conhecer mais sobre o joelho, anatomia, doenças relacionadas com a idade, tipo de lesão e as consequências para o indivíduo, assim como exame físicos e tratamento. A dor no joelho é uma queixa frequente no atendimento diário do médico de família e comunidade e desta forma devemos saber abordá-la adequadamente. Esperamos que esta Unidade tenha contribuido para você aperfeiçoar suas competências! Agora é com você! Aplique tudo que aprendeu nesta unidade na sua prática e analise o resultado! Para continuar o aprendizado vamos adentrar na discussão sobre osteoartrite Bons estudos! Osteoartrite UNIDADE 4 INTRODUÇÃO DA UNIDADE Sejam bem-vindos a mais uma unidade do módulo de problemas musculosquelético: unidade 4 sobre a Osteoartrite. A osteoartrite é uma das patologias mais prevalentes nas pessoas acima de 40 anos. Caracteriza-se por um processo degenerativo da articulação e resulta de um processo anormal entre a destruição cartilaginosae a reparação dela. Iniciaremos nossa abordagem a partir do caso clínico de uma paciente portadora de dores intensas em região de joelhos Ao final da unidade, esperamos que o profissional estudante seja capaz de: • Realizar história clínica e exame físico • Solicitar e interpretar exames complementares, quando necessário • Orientar o tratamento farmacológico e não-farmacológico • Realizar abordagem multidisciplinar • Indicar medidas preventivas e de promoção 81 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 4.1 SINTOMAS E SINAIS DA OSTEOARTRITE O processo de evolução da osteoartrite é gradual, geralmente acometendo uma ou poucas articulações. A dor é o sintoma mais precoce, sendo algumas vezes descrita como dor profunda. Indivíduos com osteoartrite podem apresentar rigidez, comumente, após se levantar e com inatividade, podendo ocorrer limitação de movimento. Observe o infográfico abaixo sobre a evolulçao da osteoartrite: Manifestações clínicas da Osteoartrose Figura 40 - Sinais da Osteoartrose Fonte: elaborado pelos autores. Entre os sintomas encontrados na osteoartrite acima, nos deparamos com os sintomas mais presentes no dia a dia de nossa prática clínica. Encontramos desde apenas dor localizada, evoluindo para deformidades da articulação com creptações, até deformidades com perda muscular. A seguir, podemos conhecer alguns exemplos de complicações de osteoartrose de mãos e joelhos, com deformidade adquirida. Figura 41 – Osteoartrose das mãos Fonte: elaborado pelos autores. Dor A dor é o sintoma cardinal, embora não esteja sempre presente em pacientes com achados radiológicos de osteoartrose. Esta costuma ter início insidioso, de intensidade leve a moderada, piorando com o uso das articulações envolvidas e aliviando com o repouso. No começo, a dor é intermitente, autolimitada. Rigidez articular A rigidez matinal é comum nesses pacientes, a duração é mais curta do que na artrite reumatoide, sendo inferior a 30 minutos na osteoartrose. Os indivíduos com osteoartrose apresentam, também, rigidez articular fugaz e protocinética (após curtos períodos de repouso ou inatividade, para iniciar os movimentos). Limitação funcional Limitação para movimentação da articulação e do membro, limitando o andar e outros processos normais da vida. Com a progressão da doença, ocorre limitação de movimento associada à incongruência entre as superfícies articulares, espasmo muscular, contratura da cápsula e bloqueio mecânico devido a osteófitos ou corpos livres intra-articulares. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 82 Caso Clínico Senhora MNSP, 65 anos, portadora de dores intensas em região de joelhos bilateral, com relato de limitação para deambular e subir escadas. Comparece a uma unidade de saúde para conseguir tratamento para diminuir a dor. Como você abordaria esta paciente? Veja a seguir Figura 42 – Osteoartrose dos Joelhos Fonte: elaborado pelos autores. 4.2 DIAGNÓSTICO DA OSTEARTROSE Para realizar a avaliação e o diagnóstico do problema apresentado pelo paciente, a clínica é soberana nesse momento. Normalmente, observam-se que são acometidos indivíduos de meia-idade, com acometimento de uma ou mais articulações, com queixas de dor e rigidez. É importante considerar os fatores sistêmicos e biomecânicos locais. Figura 43 – Fatores de risco para osteoartrite: sistêmicos e biomecânicos locais Fonte: elaborado pelos autores. 4.2.1 ACHADOS RADIOLÓGICOS Vale salientar que na maioria dos casos de osteoartrite não existe a necessidade de realização de exame de imagem, visto que uma anamnese e exame físico adequados nos leva a uma adequada suspeição, sem haver necessidade da realização de exame de imagem. Além disto, pode haver a dissociação clínico radiológica, com uma discrepância entre os sintomas sentidos e o que é encontrado radiologicamente. O raio X de joelho pode ser indicado em algumas situações, para avaliar acometimento estrutural, piora ou progressão de sintomas, além de diagnósticos diferenciais, caso haja necessidade. Figura 44 - Alterações radiológicas em joelho Fonte: https://www.sportsmed.com.br/site/media/k2/ items/cache/184b7cb84d7b456c96a0bdfbbeaa5f14_ XL.jpg 83 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos • Osteófitos - achados clássicos são proliferação nas margens ósseas; • Diminuição assimétrica do espaço articular; • Esclerose óssea subcondral; • Formação de cistos subcondrais, 4.2.2 OUTROS EXAMES Normalmente, não há necessidade de realização de exames laboratoriais, visto que estes são inespecíficos, quando necessário realizar diagnóstico diferencial com outras condições, podem ser solicitados: hemograma, fator reumatoide e provas de atividade inflamatória (VHS e PCR), devendo-se ter cautela na interpretação dos resultados, uma vez que o VHS aumenta naturalmente com a idade, e o fator reumatoide positivo pode ser encontrado em cerca de 20% dos idosos saudáveis (Duncan, 2014). 4.3 PLANO TERAPÊUTICO O tratamento pode, em sua maior parte, ser efetuado na APS, com uma equipe multidisciplinar; no entanto, em alguns casos, é necessário encaminhar esta paciente para setor secundário e terciário, com especialista. Seguindo em nosso caminho de formação temos mais algumas infomações sobre o caso e também sobre o exame físico. Considerando o Raio-x do joelho abaixo, que diagnóstico podemos aventar sobre o caso em questão? Caso Clínico Senhora MNSP, 65 anos, portadora de dores intensas em região de joelhos bilateral, com relato de limitação para deambular e subir escadas. Comparece a unidade de saúde para conseguir tratamento para diminuir a dor. No momento da consulta, a paciente, em exame físico, apresentava joelho em Genovaro com deformidade importante, crepitação, limitação da mobilidade do membro. Crepitações grosseiras bilaterais principalmente em joelho direito. Figura 45 - Rx de joelhos da paciente Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 84 A abordagem não farmacológica engloba toda a parte do tratamento que não for medicamentoso. Perpassando por uma abordagem multidisciplinar com diferentes abordagens que acarretem na melhoria dos sintomas sem prejuízo para a articulação envolvida. Quadro 22 - Terapia não Farmacológica para Pacientes com Osteoartrite Educação Programas de apoio ao autocuidado Suporte social personalizado por meio de contato telefônico Perda de peso Programa de exercício aeróbico Terapia física Exercícios de ganho de amplitude (alongamento) Exercícios de reforço muscular (p. ex., contração isométrica ou contra resistência) Aparelhos para auxílio à marcha (p. ex., bengala, andador) Calçados apropriados (p. ex., tênis com sola flexível e absorção de impacto) Órteses (p. ex., palmilhas com cunha lateral para genu varum) Terapia ocupacional Proteção articular e conservação de energia (p. ex., joelheira) Aparelhos para auxílio às atividades do dia a dia (p. ex., segurador próximo à toalete) Fonte: elaborado pelos autores. 4.3.2 ABORDAGEM FARMACOLÓGICA O principal objetivo da terapia é alcançar o controle da dor com a menor toxicidade possível. Entre os fármacos, há os de ação sistêmica e local. Você deve sempre estar atento a outras medicações utilizados pelo paciente e sem dúvida um cuidado maior no uso indiscriminado de AINE. • AÇÃO SISTÊMICA: Paracetamol/ dipirona 1000 mg 6/6 h; • AINES (Anti-inflamtórios não esteroidais) com uso de bombas de prótons; • AINES inibidores seletivos da cicloxigenase 2 (COX-2) – ação similar, mas com menos efeitos gastrointestinais; • NARCÓTICOS – ação potente na dor e de melhorar a funcionalidade (tramadol); • FÁRMACOS SINTOMÁTICOS DE AÇÃO LENTA - diacereína (50 a 100 mg/dia), os sulfatos de glicosamina (1.000 a 1.500 mg/dia) e de condroitina (800 a 1.200 mg/ dia) e os extratos não saponificáveis de soja e abacate (300 mg/dia). O usodessas 85 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos medicações não é recomendado pois não há evidências que comprovem o seu benefício, além de terem custo elevado; • AÇÃO LOCAL: O tratamento com glicocorticóide intra-articular. Pode ser indicado se houver episódios de dor intensa e limitação de deambular. Pode ser realizado até 04 infiltrações por ano, com intervalo mínimo de 3 meses para controle da dor e da limitação da mobilidade. • A terapia tópica com AINES pode ser adjuvante no tratamento. Com resposta moderada a diminuição da inflamação no local. Quadro 23 - Terapia Farmacológica para Pacientes com Osteoartrite Terapia Farmacológica para Pacientes com Osteoartrite ORAL Paracetamol/ dipirona AINES Inibidores seletivos da COX-2 AINEs não seletivos, mais inibidor da bomba de prótons Tramadol Opióides INTRA ARTICULAR Glicocorticoides Hialuronato TÓPICA AINES tópicos Fonte: adaptado de DUNCAN et al, 2014. 4.3.3. QUANDO ENCAMINHAR O paciente para ser encaminhado necessita de algumas complicações apresentadas durante o acompanhamento do paciente a citar: Evidências de infecção na articulação Sintomas pioram rapidamente e estão causando incapacidade séria Interfere na qualidade do tratamento Terapia com fármacos causa efeitos colaterais indesejáveis Se há instabilidade articular apesar do tratamento ou evidências de inflamação aguda 4.4 ABORDAGEM EM EQUIPE MULTIDISCIPLINAR 4.4.1. INTEGRAÇÃO DAS AÇÕES EM EQUIPE A equipe multidisciplinar, agindo no tratamento de um paciente com osteoartrite, é essencial na condução, no tratamento, na recuperação e na reabilitação da capacidade funcional do indivíduo. Os pacientes portadores de uma doença crônica indicam uma série de complicações que fica difícil de lidar com a história natural EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 86 da doença, em que acarreta deformidades e complicações quanto ao bem-estar mental, físico e funcional de cada paciente vivendo com osteoartrose. Sendo esta equipe acionada a partir do diagnóstico em questão, havendo desde o início do tratamento uma visão macro e ao mesmo tempo direcionada para o cuidado amplo deste paciente, não apenas as articulações comprometidas. Desta forma, a integração na equipe com o envolvimento de cada profissional no cuidar é importante para evitar complicações e avanços nas deformidades que podem ser adquiridas pelo paciente em acompanhamento. 4.4.2. ABORDAGEM INDIVIDUALIZADA Cada caso é único, para isto deve ser realizada a abordagem é centrada na pessoa, e identificar o nível de comprometimento, as deformidades, incapacidades, no grau de atividade da doença e, consequentemente, no dano causado na articulação/ articulações afetada(s). Desse modo, a individualização do tratamento é de acordo com as articulações envolvidas, grau de inflamação, dor e limitação funcional, comorbidades e expectativas do paciente. Figura 46 - Dimensões da abordagem individualizada Fonte: elaborado pelos autores. 87 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Figura 47 - Tratamento do individualizado osteoartrose de joelhos Fonte: elaborado pelos autores. 4.4.3 ABORDAGEM EM GRUPOS As abordagens em grupos na APS, juntamente com o NASF (Núcleo de Apoio a Saúde da Família) com a participação dos profissionais Educador físico, Terapeuta Ocupacional, Nutricionista e Fisioterapia, são efetivas e melhoram a qualidade de vida dos pacientes. Sugere-se utilizar grupos de atividade física para estimular os exercícios diários e a determinação de metas como a diminuição de peso. Grupo de idosos com a realização de atividades lúdicas, pilates, zumba e recreação. Grupo de idosos – educação em saúde (orientações nutricionais para diminuir o peso) e atividades educativas para conhecer os riscos se não tratar a osteoartrite. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 88 Atividades elaboradas na unidade/ na comunidade com o intuito de fortalecimento de músculos, das articulações e dos tendões, diminuindo o risco de instabilidade das articulações e, consequente, luxação e quedas. Grupos de terapia – como terapia comunitária, terapia cognitiva comportamental que irão ajudar com o estresse da dor crônica, consequente, a própria patologia de osteoartrite. 4.5 IMPACTOS SOCIAIS A osteoartrite gera custos diretos (medicações + internações e cirurgias) e custos indiretos e não mensuráveis, representados por: imobilidade, diminuição da capacidade de trabalho, diminuição da autoestima, negativação quanto às deformidades, dentre outros. 4.5.1 FATORES INDIVIDUAIS Os fatores individuais envolvidos no impacto são diversos, desde características físicas, psicológicas, familiares, sociais e outras até o grau de dor e de comprometimento da ou das articulações envolvidas na osteoartrite, que vão influenciar diretamente no planejamento terapêutico e, consequentemente, na resposta clínica. Importante ressaltar que os eventos estressantes causados pela patologia, pela dor e por outros sintomas afetam a vida como um todo. Sabe-se que o paciente com osteoartrite tem uma tendência a buscar diversas estratégias para buscar a melhoria dos sintomas, consequentemente, da limitação progressiva. Os pacientes que possuem maior apoio familiar e têm maiores recursos e/ou acesso a serviços de saúde atuantes apresentam uma resposta melhor ao tratamento proposto, acarretando menos riscos de deformidade/incapacidade. 4.4.2 A REPERCUSSÃO EM ATIVIDADES DIÁRIAS É uma patologia em que o principal sintoma é a dor de carácter persistente, causando considerável incômodo com comprometimento direto da funcionalidade e da capacidade de realizar as tarefas da vida diária (TANIMURA et al, 2011). Outros sintomas igualmente presentes são a rigidez e a disfunção da articulação, que também têm impacto direto na vida do indivíduo, tornando-se uma experiência frustrante e estressante. 4.4.3 A REPERCUSSÃO EM ATIVIDADES LABORAIS A osteoartrite repercute na vida laboral em vários aspectos. O principal sintoma é a dor, o que leva uma grande parcela da população que sofre com essa patologia a aumentar o absenteísmo da atividade laboral, repercutindo na linha de produção. Algumas profissões possuem características que levam a ter um maior aumento de casos de osteoartrite entre os profissionais. A citar: • atletas profissionais – artrose de quadril e/ou joelho; 89 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos • professores / comerciantes – artrose de pés, pernas, MMII, podem atingir quadril e coxas; • músicos e dançarinos – artrose de articulação sobrecarregada como ombro, punho, quadril e outras que sofreram impacto além do esperado; • motoristas – impacto maior em articulações intervertebrais, nos discos cervicais, torácicos e lombares, principalmente devido a longos períodos sentados. • digitador/ executivo – da mesma forma do motorista permanece longos períodos sentados, acarretando comprometimento muscular e consequentemente da articulação. • dentistas/ manicure – diversas consequências da postura de estar debruçado, às vezes, de forma enviesados acarreta artrose em articulação cervical, ombros, coluna torácica e outros. 4.4.4 O PAPEL DA FAMÍLIA E DA COMUNIDADE O médico de família e comunidade tem a importante ação de diagnosticar precocemente, orientar através de ações educacionais a população para atuar o mais cedo possível, prevenindo a progressão da doença. Optar em atuar com equipe multidisciplinar no cuidado desses pacientes, levando à realização de exercícios, dieta adequada que leve a emagrecimento e atuação em alguns momentos dentro do ambiente de trabalho e/ou comunidade para prevenir, promover e reabilitar esse indivíduo. 4.5 FECHAMENTO DA UNIDADE Muito bem, você finalizou esta unidade! Sem dúvida o aprendizado adquirido até aqui será importante para todos os dias da nossa atividade na atenção primáriaem saúde. Ao longo da unidade, você aprendeu que precisamos pensar em osteoartrite em outras articulações, além do joelho; e a individualizar o tratamento, considerando o paciente como todo. Com essas discussões avançamos no sistema osteomuscular, mas precisamos continuar nos estudos e sem dúvida o próximo tema também é uma queixa frequente no ambulatório. Avante! Osteoporose UNIDADE 5 INTRODUÇÃO DA UNIDADE Sejam bem-vindos à unidade de Osteoporose. Nesta unidade vamos abordar o que é a Osteoporose, os fatores de risco associados a ela, o diagnóstico e o tipo de tratamento adequado. É importante você saber que a osteoporose afeta mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. É caracterizada pela fragilidade óssea e pelas alterações na sua microarquitetura e tem como desfecho clínico mais importante a ocorrência de fraturas por baixo impacto (BRAZIL AV et al, 2001). Ao longo da unidade, ficará claro que a ênfase no trabalho multidisciplinar, da atenção domiciliar, do método clínico centrado na pessoa deve nortear a promoção da saúde e a prevenção em seus níveis primário, secundário, terciário e quaternário da doença. Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Realizar história clínica e exame físico adequado • Solicitar e interpretar exames complementares • Orientar o tratamento não farmacológico de maneira interprofissional • Orientar o tratamento farmacológico • Debater os riscos, benefícios e incertezas relacionados ao rastreamento da osteoporose • Identificar fatores de risco para osteoporose • Identificar causas de osteoporose secundária • Indicar medidas preventivas e de promoção Vamos começar! 5.1 DO QUE SE TRATA A OSTEOPOROSE A osteoporose é a principal causa de fraturas na população acima de 50 anos. Trata- se de doença silenciosa que afeta principalmente as mulheres na pós-menopausa e os idosos. Possui elevada taxa de morbimortalidade e influência no processo de envelhecimento (senescência ou senilidade) e na qualidade de vida dos pacientes e famílias (GUSSO, 2019). As fraturas por osteoporose produzem graves repercussões físicas e psicológicas, afetando a qualidade de vida desses indivíduos, seus cuidadores e familiares (GUSSO et al. 2019). Ocorrem mais frequentemente nas vértebras, rádio distal, fêmur proximal e quadril. Essas fraturas ocasionam dor, incapacidade física, deformidades e promovem deterioração da qualidade e expectativa de vida. As fraturas do quadril são as mais graves e aumentam a taxa de mortalidade em 12 a 20% nos dois anos seguintes à fratura. Mais de 50% dos que sobreviveram a uma fratura de quadril são incapazes de ter uma vida independente e muitos deles necessitam viver em ambientes institucionalizados e\ou em domicílio restrito ao leito aumentando a demanda por cuidados domiciliares e de cuidadores (GUSSO et al. 2019). A baixa densidade mineral óssea (DMO), especialmente no colo femoral, é um forte preditor de fraturas. A cada redução de um desvio padrão na DMO, o risco de fratura aumenta em duas a três vezes. Além da baixa DMO, é importante a identificação dos fatores clínicos de risco para osteoporose e fraturas, pois nos auxiliam na avaliação do risco absoluto de fratura para cada indivíduo e na seleção dos pacientes a serem tratados. A abordagem de fatores sociais e ambientais deve também ser realizada pelo médico de família e comunidade (GUSSO et al. 2019). A ênfase no trabalho multidisciplinar, da atenção domiciliar, do método clínico centrado na pessoa deve nortear a promoção da saúde e a prevenção em seus níveis primário, secundário, terciário e quaternário. O risco de quedas deve ser considerado na avaliação dos pacientes com osteoporose, uma vez que eventos recorrentes constituem fator de risco independente para fraturas, particularmente quando existe comprometimento neurológico como hemiparesia, doença de Parkinson, demência e quadros de vertigens, alcoolismo e deficiência visual. Nos pacientes atendidos no domicílio, recomenda-se a aplicação da escala para avaliação de risco e vulnerabilidade (PINHEIRO et al, 2019), preenchendo ainda com os seguintes dados: Nome:__________________________________________________________DN:___/____/_____ Idade:_____Escala de risco e vulnerabilidade para atenção domiciliar na APS EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 92 Tabela 1- Escala avaliação de risco e vulnerabilidade *PPS: Palliative Perfomance Scale: Escala de Perfomance (PPS) é uma ferramenta utilizada para avaliação e classsificação de cuidados paliativos, sendo um instrumento validade para o contexto e linguagem em 2009. Fonte: PINHEIRO et al, 2019 5.2 FATORES DE RISCO RELACIONADOS À OSTEOPOROSE E ÀS FRATURAS NA PÓS-MENOPAUSA Os fatores de risco mais importantes relacionados à osteoporose e a fraturas na pós-menopausa são: idade, sexo feminino, etnia branca ou oriental, história prévia pessoal e familiar de fratura, baixa DMO do colo de fêmur, baixo índice de massa corporal, uso de glicocorticoide oral (dose ≥ 5,0 mg/dia de prednisona por período superior a três meses), fatores ambientais, inatividade física, tabagismo, consumo de alcool ( 3 ou mais doses/dia) e baixa ingestão dietética de cálcio (GUSSO et al. 2019). Indicador Situação Escore de risco e vulnerabilidade Pontuação obtida Idade 75 a 84 anos > 85 anos 1 2 Multimorbidade Número de comorbidades (>5) Descompensação clínica 2 5 Polifarmárcia Número de medicamentos 2 DependÊncia funcional AVDS instrumentais AVDS básicas e instrumentais 1 2 Mobilidade Dificuldade de marcha Risco de queda Acamado 1 2 3 Suporte familiar Disfução familiar Sobrecarga do cuidador 1 1 Fragilidade Síndrome demencia, depressão, Parkisson, neoplasia, sarcopenia, desnutrição, disfagia, incontinÊncia, paralisia cerebral 2 ( cada) Cuidados paliativos PPS () 80 a 100 PPS 50 a 70 PPS 30 a 50 PPS < 20 *PPS: Palliative Perfomance Scale 2 5 8 10 Total 93 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 5.3 PROPEDÊUTICA O exame padrão ouro para o diagnóstico de osteoporose é a densitometria mineral óssea (DMO). Trata-se de um exame rápido que avalia a densidade óssea em g\ cm2 e a compara com indivíduos jovens saudáveis do mesmo sexo, resultando no T-SCORE (GUSSO et al. 2019). Não há indicação de solicitar a densitometria para todas as mulheres com mais de 50 anos ou menopausadas, como exame de rastreamento, visto que esta conduta não apresenta evidência científica, e sim baixo poder preditivo e alto custo. Então para quem devemos solicitar a densitometria? Quais as indicações? O quadro abaixo apresenta as principais indicações para densitometria: Quadro 24 - Recomendações para solicitar densitometria Fonte: elaborado pelos autores. Sabe-se que o Tscore indica risco relativo, e não risco absoluto para fraturas. Em torno de 80% das fraturas osteoporóticas acontecem em pessoas com escore-T superior a –2,5 desvios-padrão. O diagnóstico de osteoporose pode ser feito em mulheres menopausadas e em homens com idade > 50 anos, se houver um escore-T (comparados à média das pessoas de 20 anos de idade) igual ou inferior a (–2,5) em qualquer um dos seguintes sítios ósseos, mesmo na ausência de história de fratura osteoporótica): fêmur proximal (colo femoral e fêmur total), coluna lombar Para quem solicitar densitometria? Mulheres com mais de 65 anos , independente de fatores de risco Homens com mais de 70 anos sem fatores de risco Homens entre 50 e 69 anos com fatores de risco Mulheres após menopausa com fatores de risco para fratura ( se o exame for norma, repetir a cada 5 anos) Evidência de osteoporose em radiografia simples Pacientes que apresentem patologias que podem estar associados com perda de massa óssea Pacientes que utilizam medicações que podem estar associados com perda de massa ósssea ( corticóides) Adultos que sofrem fratura após os 50 anos Mulheres na perimenopausa, o exame deveser solicitado somente na presença de fatores de risco específicos (baixo peso corporal, fratura prévia por pequeno trauma ou uso de medicamento(s) de risco bem definido EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 94 (L1-L4) e rádio 33% (diáfi se do rádio, com predomínio do osso cortical) (GUSSO, 2018). De quanto em quanto tempo devo solicitar densitometria? Não há um consenso sobre a periodicidade da densitomeria, para rastreamento da osteoporose. Esta indicação deve ser individualizada! E quanto a outros exames? Devido à alta prevalência de causas secundárias de osteoporose, sendo muitas delas subclínicas, recomenda-se uma avaliação laboratorial que inclua: Quadro 25 - Avaliação complementar para pesquisa de osteoporose secundária EXAMES COMPLEMENTARES Hemograma completo Cálcio Fósforo Creatinina TSH Calciúria de 24 horas Fonte: elaborado pelos autores. Outros testes específi cos devem ser feitos, apenas, em pacientes com suspeita clínica de doenças associadas, como as doençaş gastrointestinais (síndrome de má absorção intestinal, doença celíaca, de doenças endocrinológicas (hiperparatireoidismo primário, tireotoxicose, síndrome de Cushing, hipogonadismo e diabetes mellitus), reumatológicas, doenças pulmonares crônicas e outras. (BRAZIL AV et al, 2001). Os marcadores de remodelação óssea são úteis para avaliar o efeito de medicamentos, do próprio envelhecimento ou de alguma doença sobre as taxas de reabsorção e formação óssea, em um determinado intervalo de tempo, mas não devem ser usados para o diagnóstico da osteoporose, nem para a escolha da medicação a ser prescrita. Sugerimos a utilização da Ferramenta de Avaliação de Risco de Fratura (FRAX), acessando o link a seguir: https://www.sheffi eld.ac.uk/ FRAX/tool.aspx?lang=pr 95 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 5.4 DIAGNÓSTICO Existem critérios clínicos que devem ser adicionados a DMO para garantir a maior acurácia e inclusão de indivíduos com alto risco de fraturas. Dessa forma, o diagnóstico de osteoporose passa a ser realizado para as mulheres pós-menopausa e homens acima de 50 anos com: - T-score menor ou igual -2,5 desvios padrão. Considerar o pior valor entre as medidas da coluna lombar, colo femoral, fêmur total ou rádio terço distal.4 -- História de fratura de Bacia de baixo impacto (queda da própria altura por exemplo), vértebra, costela, antebraço ou úmero. (DUNCAN, 2022) - T-score entre -1 e -2,5 desvios padrão, com história de fratura de baixo impacto em vértebra, úmero proximal, pelve ou antebraço distal. - Resultado do Instrumento de avaliação do Risco de Fraturas (FRAX) apresentando elevado risco de fraturas (maior ou igual 3% em 10 anos para fratura de bacia, e\ ou 20% em 10 anos para fraturas maiores.. 5.5 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Por ser uma doença multicausal e com grande impacto na vida da pessoa e famílias a utilização do método clínico centrado na pessoa é fundamental para uma abordagem integral e efetiva, sendo fundamental considerar seus quatro componentes: Primeiro componente: explorando a saúde, doença e experiência da doença; • Segundo componente: entendendo a pessoa como um todo; • Terceiro componente: elaborando um plano conjunto de manejo dos problemas; • Quarto componente: intensificando a relação entre a pessoa e o médico; O tratamento da osteoporose deve ter como meta a prevenção das fraturas e consiste de medidas não medicamentosas e medicamentosas. Dentre as medidas não medicamentosas destacam-se o abandono do tabaco e álcool; dieta equilibrada com adequada ingestão de hidratos de carbono, gorduras, proteínas, minerais, especialmente o cálcio e vitaminas com destaque vitamina D que é essencial para a formação óssea; vida saudável e a prática regular de exercícios com carga, importantes fatores para a obtenção do pico de massa óssea e sua manutenção. Nenhum tratamento, disponível atualmente para osteoporose, consegue abolir o risco de fraturas (RADOMINSKI, 2017). Ensaios clínicos randomizados têm confirmado que a implantação de programa de atividade física contribui, de maneira significante, para melhor flexibilidade, equilíbrio, ganho de força muscular e melhoria da qualidade de vida, reduz o risco de quedas, embora ainda não existam evidências substanciais para a redução de fraturas com a implantação da atividade física (BRAZIL AV et al, 2001). EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 96 O cálcio é um nutriente essencial na regulação da homeostase do tecido ósseo. A ingestão adequada de cálcio é extremamente importante em um programa de prevenção e tratamento da osteoporose, bem como para a saúde óssea geral em qualquer idade, embora as necessidades diárias de cálcio variem conforme a idade. Para adultos acima de 50 anos, a ingestão diária recomendada é de 1200 mg, inclusive cálcio da dieta mais suplementos (em casos de ingestão alimentar deficiente) (BRAZIL AV et al, 2001). Importante salientar que a ingestão dietética diária de cálcio no Brasil está abaixo das recomendações: 400 mg, em média, independente da região, sexo e idade. O ideal é que uma dieta balanceada associada à adequada exposição solar possam suprir todas as necessidades de cálcio e outros minerais importantes no metabolismo ósseo e de vitamina D. O Brasil é um país tropical com elevada incidência solar em todo seu território. A generalização sobre a exposição solar não deve ocorrer, visto que cada indivíduo possui aspectos diferentes de vida. De nada ou pouco adianta morar em um país tropical, se não há exposição à radiação solar direta ou viver protegido dela. 5.6 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO Ainda não existe no mercado tratamento farmacológico disponível capaz de abolir o risco de fraturas. No Sistema Único de Saúde (SUS), as alternativas de terapêutica de primeira e segunda linhas para o tratamento da osteoporose são disponibilizadas pelos Componentes Básico e Especializado da Assistência Farmacêutica. Esses componentes são regulamentados pela Portaria GM/MS no 1.555 e 1.554, de 30 de julho de 2013 e respondem pela primeira linha de cuidado medicamentoso do sistema, assim como pela garantia às limitações de fragmentação do acesso, financiamento e fragilidades no elenco de medicamentos, através de pactuação entre os entes federados (PORTARIA MINISTERIAL, DIRETRIZ SUJERIDA) 5.6.1 SUPLEMENTAÇÃO DE CÁLCIO Em mulheres com mais de 50 anos, é recomendado e seguro o consumo de até 1.200mg de cálcio ao dia, preferencialmente por meio da dieta, especialmente com o consumo de leite e derivados. Quando há impossibilidade de fazê-lo por meio de fontes nutricionais, é recomendável a administração de suplementos de cálcio, com avaliação de riscos e benefícios. Apesar de o uso complementar do cálcio e da vitamina D ser fundamental para a mineralização óssea adequada, não se recomenda o tratamento da osteoporose em pacientes na pós-menopausa exclusivamente com cálcio associado ou não com a vitamina D. A suplementação de cálcio não deve exceder 500 a 600 mg por dose independente. 97 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 5.6.2. SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINA D Normalmente, não há necessidade de reposição de vitamina D. Deve sr orientado que os pacientes tenham uma dieta balanceada associada à adequada exposição solar, para que possam suprir todas as necessidades de cálcio e outros minerais importantes no metabolismo ósseo e de vitamina D. Naqueles pacientes que não consigam produzir quantidades adequadas de vitamina D, pode ser necessário maior ingesta pela dieta ou por suplementação. 5.7 BI-FOSFONADOS Pacientes com história de fratura de fragilidade prévia devem ser considerados para tratamento farmacológico sem a necessidade de uma avaliação adicional com a medida da DMO, embora essa possa ser apropriada, particularmente em mulheres pós-menopáusicas mais jovens, e com finalidade de monitoramento do tratamento. Pacientes comT-score igual ou menor do que -2,5 DP na coluna lombar, colo femoral, fêmur total ou radio 33% devem ser considerados para terapia farmacológica. Em pacientes sem fraturas de fragilidade prévias, a estratégia de tratamento deve basear-se na avaliação da probabilidade em 10 anos com o FRAX Brasil. O alendronato, o risedronato e o ibandronato são administrados por via oral nas doses de 70 mg/semana, 35 mg/semana ou 150 mg/mês e 150 mg/mês, respectivamente. O ácido zoledrônico e o ibandronato são os únicos bisfosfonatos aprovados para uso intravenoso para o tratamento da osteoporose pós-menopausa na dose de 5mg/ano e 3mg a cada 3 meses, respectivamente. Os bisfosfonatos orais devem ser tomados em jejum, 30 a 60 minutos antes da refeição matinal e com um copo cheio de água para que tenham o máximo de absorção e deve-se evitar a posição de decúbito após o uso do fármaco. Eventos adversos comuns são gastrointestinais, inclusive náusea e até esofagite, sintomas flulike, artralgias a mialgias leves. Em muitos pacientes, esses eventos podem estar relacionados à baixa adesão ao tratamento e afetar a capacidade desses fármacos de reduzir o risco de fraturas. Pacientes com doenças esofagianas e gastrointestinais graves, como a hérnia de hiato, estenose, alterações da motilidade esofagiana (esclerose sistêmica, por exemplo), varizes esofagianas e doença de Crohn, devem ter seu uso restringido ou contraindicado. Os pacientes com disfunção renal com clearance de creatinina abaixo de 35 mL/min também devem ter seu uso restrito ou contraindicado, especialmente os idosos e em uso de diuréticos. A hipocalcemia deve ser avaliada e corrigida antes do início do tratamento. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 98 5.8 FECHAMENTO DA UNIDADE Muito bem! Você finalizou mais uma unidade. Ao longo dos estudos, você pôde conhecer que a osteoporose é uma doença de elevada prevalência e que, na maioria das vezes, por ser assintomática, grande número de pacientes só descobrem a doença após uma fratura. Mas também, entendeu que ela pode ser prevenida e o diagnóstico precoce é comprovadamente eficiente para redução na incidência de fraturas. Esperamos que tenha gostado do conteúdo e que faça a diferença no tratamento desse acomentimento osteomuscular. Vamos adiante! INTRODUÇÃO DA UNIDADE Sejam bem-vindos à unidade Artrite Reumatóide. Durante o estudo desta unidade você perceberá que a Artrite Reumatoide (AR) é uma doença inflamatória sistêmica, crônica e de etiologia desconhecida. Causa destruição articular irreversível pela proliferação de macrófagos e fibroblastos na membrana sinovial após estímulo possivelmente autoimune ou infeccioso. Além das manifestações articulares, a AR pode cursar com alterações de múltiplos órgãos e reduzir a expectativa de vida (CONITEC, 2020; MOTA et al, 2012) As consequências da AR são elevada morbimortalidade, piora da qualidade de vida, incapacidade funcional, perda de produtividade e altos custos para a sociedade (CONITEC, 2020; MOTA et al, 2012). Dependendo de fatores prognósticos, sua evolução pode ser dramática, levando rapidamente ao dano articular irreversível, com deformidades fixas e incapacidade funcional. O diagnóstico precoce e a instituição de tratamento com medicamentos modificadores do curso crônico da doença são fundamentais para evitar sequelas (GUSSO et al. 2019). A AR é mais frequente em mulheres e na faixa etária de 30 a 50 anos, com pico de incidência na quinta década de vida. O histórico familiar de AR aumenta o risco de desenvolvimento da doença de 3 a 5 vezes (MOTA et al, 2014; LAURINDO, et al, 20104) Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Compreender a história natural da artrite reumatóide • Realizar o diagnóstico diferencial de poliartrites • Identificar os exames complementares necessários • Elaborar plano terapêutico de acordo com a fase da doença • Identificar necessidade de referência ao especialista Bons estudos! Artrite Reumatóide UNIDADE 6 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 100 6.1 APRESENTAÇÃO CLÍNICA Figura 48 - Abordagem clinica da pessoa com artrite reumatoide na APS. O que é importante fazer! Fonte: elaborado pelos autores. A história clínica deve ser detalhada e incluir, além da avaliação dos sintomas, a história de vida do indivíduo, incluindo análise do contexto socioeconômicos, hábitos de vida, aspectos ocupacionais e aspectos psicodinâmicos, caracterizando assim o tipo de dor e o comprometimento articular. O quadro típico presente em 75% dos pacientes possui início insidioso de dor poliarticular, simétrico com características inflamatórias. A localização mais frequente são as pequenas articulações das mãos e dos pés, persistindo por mais de 6 semanas. (GUSSO et al. 2019). Outras articulações sinoviais como ombro, quadril, joelhos e cotovelos podem ser envolvidas, porém em fases mais avançadas da doença. Além de uma história e exame físico completos, a avaliação inicial do paciente deve documentar sintomas de atividade da doença, estado funcional, evidências objetivas de inflamação articular, problemas mecânicos articulares, presença de comprometimento extra articular e de lesão radiográfica. Normalmente, identificam-se poliartrite simétrica e aditiva, artralgia, rigidez matinal e exames laboratoriais de atividade (O resultado de VHS e Proteína C reativa são exames que auxiliam pelo alto valor preditivo negativo para investigação de artrite, ou seja, se apresentarem resultados negativos ajudam a excluir doenças inflamatórias sistêmicas como as artrites reumatológicas). (DUNCAN, 2022) O teste do squeeze possui elevada sensibilidade para avaliar a dor de maneira mais objetiva, sendo referida após o examinador comprimir as articulações metacarpofalangeanas ou metatarsofalangeanas. Em fases tardias, surgem deformidades como desvio ulnar dos dedos ou “dedos 101 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos em ventania”, deformidades em “pescoço de cisne” (hiperextensão das articulações IFP e flexão das interfalangianas distais - IFD), deformidades em “botoeira” (flexão das IFP e hiperextensão das IFD), “mãos em dorso de camelo” (aumento de volume do punho e das articulações MCF com atrofia interóssea dorsal), joelhos valgos (desvio medial), tornozelos valgos (eversão da articulação subtalar), hálux valgo (desvio lateral do hálux), “dedos em martelo” (hiperextensão das articulações metatarsofalangianas - MTF e extensão das IFD), “dedos em crista de galo”, deslocamento dorsal das falanges proximais com exposição da cabeça dos metatarsianos) e pés planos (arco longitudinal achatado) (CONITEC, 2020). Figura 49 - Desvio ulnar dos dedos (Dedos em ventania) Fonte: elaborado pelos autores. Figura 50 - Dedo em botoeira e dedo em pescoço de cisney Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 102 Figura 51 - “Mão em dorso de camelo” Fonte: elaborado pelos autores. O acometimento da coluna cervical (C1-C2) geralmente manifesta-se por dor irradiada para a região occipital, perda da lordose fisiológica cervical e resistência à movimentação passiva. Quando surgem sintomas neurológicos, como parestesias periféricas ou perda do controle esfincteriano, a mortalidade é de 50% em 1 ano. As manifestações extra articulares (nódulos reumatoides, vasculite, derrame pleural, episclerite e escleromalacia perfurante, entre outras) correlacionam-se com pior prognóstico. Além da perda de capacidade funcional, pode haver aumento também da mortalidade, o que demonstra a gravidade da doença (CONITEC, 2020). Deve-se suspeitar de artrite reumatóide em pessoas que se apre- sentem oliartrite aditiva, distal e simétrica, rigidez matinal maior que uma hora e nódulos reumáticos. Lembre-se! 6.2 EXAMES COMPLEMENTARES Não existe nenhum teste isolado específico para o diagnóstico de AR, os exames complementares devem serincluídos dentre os critérios diagnósticos da doença. Dentre estes destacamos alguns, que podem auxiliar na investigação clínico-laboratorial. A titulação de autoanticorpos, tais como FR (sensibilidade de 75% e especificidade de 85%) e detecção de anticorpos contra anti-CCP (sensibilidade de 75% e especificidade de 95%) têm importância diagnóstica e prognóstica (CONITEC, 2020). Provas de atividade inflamatória (VHS e a PCR) são critérios incluídos na ACR-EULAR 103 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 2010 como veremos a seguir. Os exames de imagem são complementares ao diagnóstico e ao monitoramento da atividade da AR. Tabela 2 - Exames de imagem EXAME PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS Radiografias Baixo custo Acessíveis Razoável nível de reprodutibilidade Permitem avaliações longitudinais Radiação ionizante. Baixa sensibilidade para identificar inflamação em partes moles. Baixa sensibilidade para identificar alterações ósseas iniciais. Ressonância nuclear magnética (RNM) Detecção de alterações inflamatórias Detecção de destruição articular em fases iniciais Alto custo Ultra som com Doppler Permite delineamento das alterações inflamatórias e estruturais O Doppler permite avaliar em tempo real a neovascularização Baixa sensibilidade para avaliação de alterações ósseas. Operador dependente. Fonte: elaborado pelos autores. 6.3 DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO A AR faz parte de extensa gama de diagnósticos diferenciais de poliartralgia que se apresentam ao médico da Atenção Primária à Saúde (APS). Para o diagnóstico de AR devemos considerar os achados clínicos e exames complementares. Dentre estes, devemos considerar o tempo de evolução da artrite, a presença de autoanticorpos (quando disponível), a elevação de provas inflamatórias e as alterações compatíveis em exames de imagem. Nenhum teste isolado, seja laboratorial, de imagem ou histopatológico, confirma o diagnóstico (CONITEC, 2020). Dessa forma, em 2010, foram publicados novos critérios de classificação visando à maior sensibilidade no diagnóstico da AR conforme descrito na tabela 3 a seguir. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 104 Tabela 3 - Critérios 2010 ACR-EULAR para classificação de AR ENVOLVIMENTO ARTICULAR PONTUAÇÃO 1 grande articulação 0 2-10 grandes articulações 1 1-3 pequenas articulações (com ou sem envolvimento de grandes articulações) 2 4-10 pequenas articulações (com ou sem envolvimento de grandes articulações) 3 > 10 articulações(pelo menos uma pequena articulação)& 5 SOROLOGIA (pelo menos um resultado é necessário)&& PONTUAÇÃO Fator reumatoide ou antiCCP NEGATIVOS 0 Fator reumatoide ou antiCCP em baixos títulos 2 Fator reumatoide ou antiCCP em altos títulos 3 Provas de atividades inflamatórias (pelo menos 1 resultado é necessário) PONTUAÇÃO VHS e PCR NORMAIS 0 VHS ou PCR alterados 1 DURAÇÃO DOS SINTOMAS PONTUAÇÃO Duração dos sintomas Menor que 6 semanas 0 Maior ou igual a 6 semanas 1 Fonte: elaborado pelos autores. Como interpretar: Pessoas que apresentarem uma pontuação maior ou igual a seis (6) nos Critérios 2010 ACR-EULAR podem ser classificados como portadores de AR. No entanto estes critérios não podem ser considerados como diagnósticoss, eles ajudam ao médico a classificar e pensar na possibilidade do diagnóstico. Estes critérios foram desenvolvidos com o objetivos de aumentar a sensibilidade no diagnóstico de artrite reumatóide, podendo identificar um maior número de pesssoas em um est´pagio inicial, com possibilidade de tratamento e mudança do curso da doença. 6.4 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Uma série de patologias devem ser consideradas no diagnóstico diferencial de artrite reumatoide. Entre elas, podemos citar poliartrites, a osteoartrite, a fibromialgia, algumas doenças sistêmicas autoimunes, entre outras doenças sistêmicas que podem apresentar dores articulares. Em pacientes com poliartrite há menos de 6 105 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos semanas, deve-se considerar possibilidade de infecção viral, particularmente se houver febre e exantema. Para melhor compreensão do quadro 4, salientamos que: - Envolvimento articular refere-se a qualquer aumento de volume ou dor ao exame articular que pode ser confirmado por evidência de sinovite no exame por imagem; São classificadas grandes articulações: ombros, cotovelos, quadris, joelhos e tornozelos; - São classificadas como pequenas articulações as metacarpofalangeanas, interfalangeanas proximais, 2as - 5 as metatarsofalangeanas, interfalangeanas dos polegares e punhos; - Teste negativo refere-se a valores de UI menores ou iguais ao limite superior da normalidade (LSN) do laboratório e teste. Testes positivos baixos referem-se a valores de UI maiores que o LSN e ≤ 3 vezes o LSN para o laboratório e teste. - Testes positivos altos referem-se a valores que são > 3 vezes o LSN para o laboratório e teste. - Quando o resultado do fator reumatoide for somente positivo ou negativo, considera-se resultado positivo como sendo de baixos títulos de fator reumatoide Os vírus mais comumente associados à poliartrite são parvovírus B19, rubéola, HIV, vírus das hepatites B e C. Síndrome de Sjögren e lúpus podem ser confundidos com AR, especialmente se houver fator reumatoide positivo. Em pacientes idosos que apresentam poliartrite, deve ser considerado diagnóstico de polimialgia reumática ou manifestação paraneoplásica. 6.5 FATORES PROGNÓSTICOS Alguns aspectos clínicos e laboratoriais da AR estão relacionados à progressão mais rápida da destruição articular e devem ser identificados desde o momento do diagnóstico. Quadro 26 - Fatores que influenciam negativamente no prognóstico da AR Sexo feminino; Tabagismo; Baixo nível socioeconômico; Fator reumatoide e\ou anti-CCP em títulos elevados; Níveis elevados de PCR e\ou VHS; Grande número de articulações edemaciadas; Manifestações extra articulares; Elevada atividade inflamatória da doença; Presença precoce de erosões na evolução da doença. Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 106 6.6 CLASSIFICAÇÃO DA ATIVIDADE DA DOENÇA A AR pode ser classificada quanto a sua atividade de acordo com os sinais e os sintomas apresentados pelo paciente. A atividade é classificada em quatro níveis: alta, moderada, leve e remissão. O objetivo terapêutico é atingir nível leve de atividade ou, preferencialmente, remissão da doença (CONITEC) Há diferentes instrumentos para classificação da atividade da doença, sendo os mais utilizados: - SDAI (Simplified Disease Activity Index) - CDAI (Clinical Disease Activity Index) - DAS-28 (Disease Activity Score 28) A avaliação da atividade deve ser realizada, preferencialmente, em todas as consultas com pacientes com artrite reumatoide e sugere sempre utilizar o mesmo instrumento para permitir comparabilidade dos resultados. Todos eles estão disponíveis em aplicativos (Rheumatoid Arthitcs calculators). 6.7 ABORDAGEM TERAPÊUTICA- PRINCÍPIOS GERAIS O objetivo do tratamento geralmente é a remissão da atividade da doença, sendo aceitável baixa atividade em casos selecionados. A atividade da AR pode ser medida por meio de índices combinados de atividade de doença (ICAD) e algum instrumento de medida da capacidade funcional, como o Health Assessment Questionnaire (HAQ). Seguem orientações para abordagem ao paciente com AR: - O paciente deve preferencialmente ser acompanhado por equipe multidisciplinar (médico de família e comunidade, enfermeiro, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psicólogo e nutricionista), com suporte de médico reumatologista, se disponível. Cabe ao MFC a coordenação do cuidado de maneira integral e longitudinal; - Controle efetivo da dor; - Eficácia do tratamento deve ser avaliada a cada três meses; - Orientações para melhorar hábitos de vida (cessar tabagismo, reduzir ingestão de bebidas alcoólicas, reduzir peso,incentivar atividade física); - Tratamento e monitoração das comorbidades (hipertensão arterial sistêmica, diabetes, dislipidemia, osteoporose, obesidade, transtornos mentais etc.); - A cobertura vacinal deve ser atualizada; - Todo paciente deve ser rastreado para infecções com sorologias para HIV, HBV, HCV e sífilis, bem como para tuberculose através de história de contato com paciente 107 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos bacilífero, RX de tórax e PPD; - Realizar o rastreamento neoplásico indicado para idade; - Orientar o uso de meios contraceptivos nos pacientes em fase reprodutiva candidatos a usar o tratamento medicamentoso (Categoria X- risco proscrito na gestação). A medicação deve ser suspensa pelo menos três meses antes de uma gestação programada; - Usar estratégia com meta terapêutica (treat to target), esta é recomendada em pacientes com AR, independentemente do nível de atividade da doença baseada ainda na atenção primária enquanto aguarda avaliação do especialista focal. (DUNCAN,2022). 6.8 ABORDAGEM TERAPÊUTICA- TRATAMENTO SINTOMÁTICO Em qualquer das linhas discriminadas para o tratamento dos pacientes com AR, glicocorticoides e/ou AINEs podem ser prescritos para controle sintomático, optando- se pelo uso da menor dose pelo menor tempo possível (CONITEC, 2020). Em pacientes com AR de início recente de moderada ou alta atividade, durante o tratamento, devem ser recomendados anti-inflamatórios não esteroides e glicocorticoides em baixas doses (≤10 mg/dia) por curtos períodos de tempo (< 3 meses) (CONITEC, 2020). 6.9 ABORDAGEM TERAPÊUTICA- IMUNOBIOLÓGICOS Sugere-se que o médico da atenção primária inicie o tratamento com MTX enquanto o paciente aguarda atendimento prioritário com o reumatologista. Entretanto, não é recomendado o início na APS em pessoas com: - Citopenias isoladas (anemia, leucopenia ou trombocitopenias) ou bicitopenias; - TGO/TGP acima do limite superior de normalidade; - Doença Renal Crônica (TFG entre 30 e 60 ml/min/1,73m2). PRIMEIRA LINHA (MMCDSC – METOTREXATO, LEFLUNOMIDA, SULFASSALAZINA E HIDROXICLOROQUINA) O metotrexato (MTX) deve ser a primeira escolha terapêutica. Em casos de intolerância ao MTX oral, tentar dividir a administração por via oral ou empregar MTX injetável. O MTX está associado à alta taxa de toxicidade hepática e gastrointestinal podendo levar à baixa aderência ao tratamento. Para diminuir o risco de toxicidade, deve-se fazer uso de ácido fólico sendo sugerida a dose 5 mg, 1x por semana em 24 horas após o tratamento com MTX. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 108 Quadro 27 - Posologia do metotrexato Metotrexato (2,5 mg\comp.)- 6 comprimidos 1 vez por semana Em caso de idosos ou doença renal crônica iniciar com 7,5 a 10mg\semana Metotrexato (50 mg\2 ml)- 0,6 ml SC 1 vez por semana Preferir SC se doses superiores a 20 mg\semana A dose inicial poderá ser aumenta em 5 mg (2 comprimidos ou 0,2 ml) após avaliação clínica e laboratorial Fonte: elaborado pelos autores. Deve serem solicitados hemograma, transaminases e creatinina um mês após início da medicação. Quadro 28 - Contra indicações para o uso de metotrexato Hipersensibilidade conhecida ao medicamento, classe ou componentes Tuberculose sem tratamento Infecção bacteriana com indicação de uso de antibiótico Infecção fúngica ameaçadora à vida Infecção por herpes zoster ativa Hepatites B ou C agudas Gestação Amamentação Elevação de aminotransferases e\ou transaminases iguais ou 3 vezes acima do limite superior da normalidade Taxa de depuração de creatinina inferior a 30 mL/min/1,73m2 de superfície corporal na ausência de terapia dialítica crônica. Fonte: elaborado pelos autores. Em caso de falha da monoterapia inicial, isto é, persistência da atividade de doença (de acordo com meta terapêutica) após 3 meses de tratamento otimizado (doses plenas), recomenda-se encaminhamento para o reumatologista. Historicamente, vinham sendo utilizados imunossupressores como azatioprina e ciclosporina no tratamento de manutenção da artrite reumatoide. Esses medicamentos são efetivos na modificação do curso natural da doença; contudo, está associada a importante incidência de eventos adversos, em especial devido à imunossupressão. Esses medicamentos continuam disponíveis no SUS para uso em pacientes com AR, todavia sugerimos que pacientes em uso desses medicamentos tenham sua terapia reavaliada com reumatologista (CONITEC, 2020). 109 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 6.10 FECHAMENTO DA UNIDADE Finalizamos mais uma unidade! Até aqui você aprendeu que a artrite reumatoide é uma doença inflamatória sistêmica crônica autoimune, de etiologia desconhecida, expressando-se caracteristicamente como artrite simétrica, cumulativa, potencialmente erosiva, destrutiva e irreversível. Também entendeu que o caráter destrutivo da doença pode levar a uma importante diminuição na qualidade de vida, com manifestações cutâneas, neurológicas, pulmonares, cardiovasculares e incapacidade funcional crescente. Por isso a importância do médico de família e comunidade estar preparado e atento para o diagnóstico precoce, tratamento adequado e referência ao especialista. Contamos com você para evitar tais prejuízos! Até breve. Artrite Gotosa (gota) UNIDADE 7 Boas-vindas ao módulo de Artrite Gostosa (GOTA). A gota é uma doença caracterizada pelo acúmulo de cristais de urato monossódico (UM) em articulações, tecido sinovial, ossos e pele, independentemente da presença ou ausência de manifestações clínicas. Trata-se de condição frequente na atenção primária à saúde (APS), por isso a importância de tratá-la nesse módulo (GUSSO et al, 2019; AZEVEDO et al, 2017) Neste módulo você conhecerá do que se trata a GOTA, como constituir o diagnóstico e o diagnóstico diferencial, conhecerá alguns exames complementares, bem como o manejo da fase aguda da doença e o tratamento a longo prazo. Ao longo do módulo você perceberá que muitos eventos podem desencadear crises agudas de gota, inclusive ingestão excessiva de álcool, estresse metabólico, como aqueles que acompanham infarto agudo do miocárdio ou cirurgia, ou, mais comuns, grandes mudanças nos níveis de Ácido Úrico Circulante (AUC)(AZEVEDO et al, 2017). Ao final da unidade, o profissional estudante será capaz de: • Compreender a história natural da gota • Compreender a fisiopatologia da gota • Identificar causas de hiperuricemia • Realizar o exame físico nas monoartrites • Identificar os exames complementares necessários • Realizar o diagnóstico diferencial de gota e artrite séptica • Elaborar plano terapêutico de acordo com a fase da doença • Identificar necessidade de referência ao especialista • Realizar educação em saúde 111 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos REFLEXÃO O diagnóstico de gota deve sempre representar um alerta ao médico de família e comunidade quanto à avaliação do risco cardiovascular, pois independentemente de dúvidas se a hiperuricemia é um risco per se, ela está frequentemente associada a fatores de risco importantes para doença cardiovascular, como diabetes, obesidade, dislipidemia, hipertensão, consumo inadequado de álcool, além de doença renal. (GUSSO, et al, 2019, p.5710.) 7.1 DO QUE SE TRATA A GOTA A gota caracteriza-se por início rápido dos sintomas, com breve instalação (12-24 horas) geralmente em uma única articulação. A dor é de elevada intensidade e frequentemente acorda a pessoa à noite. Atenção aos fatores de risco: - Padrão de consumo de álcool; - Medicações em uso (exemplo imunossupressores); - Padrão de consumo de carne e frutos do mar; - Consumo de bebidas ricas em frutose; - História familiar. A articulação mais frequentemente afetada é a metatarsofalângica (podagra), seguida do dorso do pé, calcanhar, tornozelo, joelho, dedos, punho e cotovelo. Quase sempre existe um fator desencadeante na história recente,tais como ingestão excessiva de alimentos ricos em purinas, álcool e desidratação. A gota é uma doença caracterizada pelo acúmulo de cristais de urato monossódico (UM) em articulações, tecido sinovial, ossos e pele, independentemente da presença ou ausência de manifestações clínicas. Esse acúmulo de cristais de UM é decorrente da hiperuricemia persistente. Os cristais de UM são a forma sólida do ácido úrico, produto do metabolismo das purinas, que podem se acumular em tecidos orgânicos (GUSSO et al, 2019; AZEVEDO et al, 2017). O Ácido Úrico Circulante (AUC) na corrente sanguínea mantém seus níveis fisiológicos em concentrações próximas de 6,0mg/dL,6, o excedente é eliminado pelos rins. A hiperuricemia é considerada a alta concentração de urato e é o principal fator de risco para a gota. O AUC pode estar relacionado de forma dependente ou independente a diferentes EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 112 desordens multifatoriais. Há uma relação direta entre os níveis de AUC e o desenvolvimento e a progressão de doenças cardiovasculares, HAS, doenças renais e aumento do risco de eventos coronarianos (AZEVEDO et al, 2017). 7.2 DIAGNÓSTICO A regra diagnóstica do Colégio Americano de Reumatologia demonstrou que a presença de 6 entre 13 critérios se associou ao diagnóstico de gota com sensibilidade de 85% e especificidade 93%. É importante observar ainda que existem critérios que necessitam de exames complementares não indicados como rotina. Tabela 4 - Critérios do Colégio Americano de Reumatologia Mais de um episódio de artrite aguda Inflamação articular máxima dentro de um dia Crise de monoartrite Rubor observado sobre as articulações Dor ou edema na primeira articulação metatarsofalângica Crise unilateral na primeira articulação metatarsofalângica Crise unilateral de articulação tarsal Tofo provado ou suspeito Hiperuricemia Edema articular assimétrico em uma articulação na radiografia Cistos subcorticais sem erosões na radiografia Cristais de monourato de sódio em líquido sinovial durante crise Cultura do líquido sinovial negativa para microrganismos durante a crise Fonte: elaborado pelos autores. Um importante diagnóstico diferencial de monoartrite por gota é a artrite séptica, condição grave e que necessita encaminhamento para unidade de pronto atendimento para realização de punção articular e análise do líquido sinovial. Nesse sentido, pessoas que apresentam comprometimento sistêmico, com ou sem febre, com articulação inchada e quente devem ser referenciadas para uma emergência. Figura 52 - Podagra Figura 53 – Tofo Grosso Fonte: elaborados pelos autores. 113 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 7.3 EXAMES COMPLEMENTARES A avaliação bioquímica deve incluir ácido úrico, hemograma, creatinina, glicemia, perfil lipídico, mas não necessita ser durante o quadro agudo. A dosagem taxa de filtração glomerular também é indicada. O cálculo da taxa de filtração glomerular de ácido úrico sérico deve ser realizado após a crise, até um mês da resolução do quadro, pois 40% das pessoas não apresentam hiperuricemia durante a crise. Os exames de imagem não fazem parte da rotina diagnóstica, mas podem ser úteis para analisar alterações crônicas. A glicemia e o perfil lipídico se destinam à estratificação do risco cardiovascular. 7.4 O QUE FAZER Tratar-se de uma patologia que envolve fatores de risco metabólicos e comportamentais que devem ser abordados concomitantemente. Dessa forma, os objetivos da abordagem de uma pessoa com gota estão na tabela 7 a seguir. Tabela 5 - Objetivos da abordagem OBJETIVOS RECOMENDAÇÕES Confirmar o diagnóstico de gota e descartar artrite séptica - Descartar lesões de pele, febre ou outros sintomas constitucionais - Se necessário, analisar o líquido sinovial Realizar educação em saúde - Dieta e exercícios físicos - O nutricionista e o educador físico devem participar do projeto terapêutico Aliviar imediatamente a dor e a inflamação na crise - Estabelecer com a pessoa um plano de crise para garantir o pronto início do AINE, colchicina ou corticoide aos primeiros sintomas Reduzir o risco de ataques recorrentes -Tratamento com hipourecemiantes - Mudanças em estilo de vida Reduzir os riscos de desenvolver novos tofos e resolver os já existentes - Manejo para reabilitação Reduzir os riscos de complicações como lesões articulares, cálculos renais, nefropatia por urato - O fisioterapeuta deve participar do projeto terapêutico Identificar e modificar fatores de risco para gota - Anamnese detalhada Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 114 O tratamento da gota basicamente divide-se em duas etapas: manejo da crise aguda e terapia de longo prazo. 7.5 MANEJO DA FASE AGUDA Para o manejo das crises agudas, iniciamos classificando quanto à intensidade dos sintomas, principalmente a dor. Sugerimos a aplicação de uma escala de dor de 0-10 e\ou aplicação da escala de dor EMADOR (Anexo 1) sendo objetivos preponderantes aliviar a dor e diminuir a inflamação. Para crises de baixa ou moderada intensidade (índice de dor menor ou igual a 6 em uma escala de 0 a 10), a monoterapia é recomendada. Esta pode ser iniciada tanto com anti-inflamatórios não esteroides (QUADRO 1) quanto com colchicina ou corticosteroides (oral, intramuscular, intravenosa ou intra-articular). Sobre a dosagem recomendada da colchicina, há diferenças entre as recomendações da Liga Europeia Contra o Reumatismo (European League Against Rheumatism – Eular) e o Colégio Americano de Reumatologia (American College of Rheumatology – ACR). A primeira recomenda uma dose máxima de 0,5mg três vezes ao dia e a segunda propõe administrar uma dose de 1,2 g, seguida de outra administração de 0,6mg uma hora depois, repetida em 12 horas. O tempo esperado para resolução da crise é em torno de 1 a 2 semanas. A EULAR recomenda que a colchicina seja mantida por 6 meses em dose baixa (0,5 mg) para prevenção de novas agudizações. Encontramos disponível no Brasil comprimidos de 0,5 mg e 1 mg, não devendo serem partidos os comprimidos. A dose máxima diária recomendada são 7 mg. Trata-se de categoria C na gestação, devendo, assim, ser evitada. As diretrizes da ACR complementam que o tratamento com colchicina obtém melhores resultados se iniciado em até 24 horas do início dos sintomas, não deve exceder 36 horas e permanece até que a crise seja suprimida. (VALDERILIO, 2017) A aplicação de gelo por 30 minutos 4 vezes ao dia e repouso da articulação acometida é indicado em todos os casos. Em casos de crises de alta intensidade e\ou envolvimento poliarticular e\ou resposta insatisfatória à monoterapia, deve-se considerar a associação das medicações indicadas na fase aguda. Dipirona, paracetamol e codeína podem ser utilizados se houver contraindicação aos outros tratamentos, ou de forma complementar quando houver controle parcial. Tem-se contraindicado o início de hipourecemiantes durante uma crise de artrite por gota, pois, alterações súbitas na concentração sérica de ácido úrico podem prolongar a crise. Porém, não deve ser interrompido o uso do hipourecemiantes utilizado previamente (tratado). 115 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Quadro 29 - Considerações sobre o uso de AINES no tratamento da fase aguda da gota 1- Em suas doses alvo, os diferentes AINES trazem benefícios semelhantes 2- Podem ser utilizados em suas dosagens máximas 3- Pessoas com maior risco de sangramento gastrointestinal devem receber gastroproteção com inibidores de bomba de prótons 4- O uso de inibidores seletivos da cicloxigenase 2 (COX-2) deve ser ponderado por sua associação com eventos cardiovasculares 5- Considerar os efeitos deletérios sobre a função renal de todos os AINES Fonte: elaboradopelos autores. Quadro 30 - Considerações sobre o uso de COLCHICINA no tratamento da fase aguda da gota 1- Alcaloide derivado do açafrão do Prado 2- Inibe a divisão celular e no caso da gota interfere na função dos neutrófilos 3- O metabolismo da colchicina é feito pela família do citocromo P450 e, portanto, essa droga pode interagir com outros medicamentos metabolizados por essa via. 4- Antes do seu emprego, as funções renal e hepática devem ser avaliadas 5- A administração endovenosa de colchicina é extremamente tóxica e não recomendada Fonte: elaborado pelos autores. 7.6 TERAPIA A LONGO PRAZO A terapia, a longo prazo, no período intercrítico, tem como foco a prevenção de crises articulares e complicações e controle de risco de fatores de risco cardiovascular. O primeiro objetivo da terapia de longo prazo é reduzir os níveis circulantes de urato para baixo do ponto de saturação, manter o AUC menor do que 6,0mg/dL e prevenir a formação de novos cristais de US. O método mais efetivo para atingir esse objetivo é a terapia de redução de uratos (ULT) e diversas classes de drogas podem ser usadas na prática clínica atual, porém muitas como o Febuxostat ainda não disponíveis no Brasil. A ULT, todavia, não deve ser aplicada apenas em parâmetros medicamentosos, o tratamento não farmacológico na gota tem um papel de grande importância no EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 116 contexto da prevenção de novas crises. O primeiro passo após a resolução de um episódio de artrite gotosa aguda é explicar ao paciente a natureza da crise e conscientizá-lo acerca da possível etiologia e das modificações em seu estilo de vida que podem impedir que novas crises aconteçam. Para isso, é indispensável uma boa anamnese, centrada na história familiar, história mórbida pregressa e nos hábitos de vida. Pode-se dizer, portanto, que o tratamento da gota em sua forma crônica é deve ser utilizado o método clínico centrado na pessoa. Os pacientes devem ser informados sobre todos os fatores de risco não modificáveis que podem acelerar crises de gota, tais como idade, etnia e gênero. Quanto aos fatores de risco modificáveis – como hiperuricemia, obesidade, hipertensão, dislipidemia, doença isquêmica cardiovascular, diabetes mellitus, doença renal crônica, fatores dietéticos e modificações abruptas nos níveis de urato é imprescindível orientações sobre medidas de controle, como redução da massa corporal (IMC); redução do consumo de cerveja e destilados; redução do consumo de alimentos ricos em purinas, como carne vermelha e frutos do mar, e redução do consumo de bebidas e alimentos ricos em frutose como maçã e laranja (VALDERILO). O exercício físico moderado está indicado. Ao se considerar a terapia hipourecemiante, sugerimos iniciar considerando riscos e benefícios e considerá-la quando a pessoa apresenta. Quadro 31 - Critérios para considerar a terapia hipourecemiante 1- Episódios recorrentes de crises agudas, com intervalo intercrítico inferior a 12 meses 2- Altos valores de ácido úrico (> 10 mg\dl) 3- Presença de tofos 4- Artropatia crônica 5- Cálculos urinários de ácido úrico 6- Pacientes em uso de diuréticos (sem outra opção terapêutica) 7- Perda de função renal (TFG < 60mL\min) Fonte: Adaptado de Gusso et al., 2018. A medicação considerada como primeira escolha é o alopurinol, sendo seu início iniciado 1 a 2 semanas após resolução da crise aguda. Recomenda-se iniciar com dose de 100 mg\dia com aumento na dose de 100mg\ dia a cada 2 a 4 semanas até atingir valor do ácido úrico inferior a 6 (ou 5 na gota 117 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos tofásica crônica). A dose máxima de 800 mg deve ser respeitada e a função renal monitorizada e monitorados efeitos adversos. Trata-se de categoria C na gestação devendo ser evitada. Diante de uma nova crise de gota em pessoa que já faz uso do alopurinol, deve-se orientá-la a iniciar o tratamento da crise aguda sem suspender o alopurinol. 7.6 FECHAMENTO DA UNIDADE Nesta unidade, você aprendeu que a gota é uma doença com diferentes formas clínicas, sendo causada por depósitos de cristais de urato de sódio monoidratado no espaço extracelular de diversos sistemas e órgãos. Também vimos que o tratamento necessita de intervenções farmacológicas e não farmacológicas, envolvendo plano alimentar e mudanças no estilo de vida. E lembre-se: a abordagem correta da gota deve fazer parte das competências de um médico especialista em Atenção Primária à Saúde de modo a prestar cuidados adequados à comunidade reduzindo a morbidade da doença. Continue seus estudos. DORT (Distúrbios ostemusculares relacionados ao trabalho) UNIDADE 8 INTRODUÇÃO DA UNIDADE Sejam bem-vindos à unidade Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (DORT). Ao longo dessa unidade você será capaz de conhecer as patologias osteomusculares relacionadas ao trabalho, bem como conhecer os tipos de tratamentos. A expressão “Lesões por Esforços Repetitivos” (LER) quanto DORT são termos que abrangem as doenças do sistema musculoesquelético ligamentar. Tema relevante e prevalente na prática do médico de Família e Comunidade, que necessita que os profissionais de saúde tenham uma visão ampliada da vida do paciente e do seu dia-a-dia. Nestes distúrbios é muito importante estabelecer o NEXO CAUSAL. A relação primeira entre a injúria do trabalho diário com o distúrbio adquirido pelo paciente. Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Conhecer os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho • Relacionar os distúrbios com os diferentes tipos de trabalho • Realizar diagnósticos a partir da clínica • Saber quando solicitar exames • Conhecer os tipos de tratamentos elencados para distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho • Planejar atividades educativas, de promoção da saúde e de prevenção de DORT, incluindo a atuação intersetorial com instituições da área de abrangência quando necessário Bons estudos! 119 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 8.1 EPIDEMIOLOGIA De acordo com o estudo Saúde Brasil 2018, do Ministério da Saúde, o DORT/LER é mais recorrente em trabalhadores do sexo feminino (51,7%), entre 40 e 49 anos (33,6%), e em indivíduos com ensino médio completo (32,7%). A região que registrou o maior número de casos foi o Sudeste, com 58,4% do total de notificações do país no período. Em 2016, os estados que apresentaram os maiores coeficientes de incidência foram Mato Grosso do Sul, São Paulo e Amazonas (BRASIL, 2019). Utilizando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o levantamento aponta que, entre os anos de 2007 e 2016, 67.599 casos de LER/Dort foram notificados à pasta. Total de registros cresceu 184%, passando de 3.212 casos, em 2007, para 9.122 em 2016. (BRASIL, 2019) Lembre-se! 8.2 APRESENTAÇÃO CLÍNICA Vamos, agora, acompanhar um exemplo de caso relacionado ao DORT. Caso Clínico RMS, homem, 36 anos, comparece à Unidade Básica de Saúde por estar apresentando dor em região de punho direito há aproximadamente 2 semanas. Em primeiro momento, achou-se que tivesse dado uma torção na mão ao pegar o filho que ia caindo, mas vem notando que vem evoluindo com dor mesmo em repouso e que sente uma maior sensibilidade na pele do punho e da mão. Afirma que há poucos dias foi assinar um contrato e notou que não conseguiu firmar a caneta devido a esta ter deslizado na mão. Relata ainda, às vezes, chegar a derrubar as coisas que está levando. Encontra-se bastante preocupado. Como médico de família, quais perguntas seriam essenciais para definição do caso? Quais as perguntas devemos fazer para o paciente do caso acima? Será que perguntar como e como o que ele trabalha seria relevante? 8.2.1. ANAMNESE Durante a anamnese, deve-se considerar a história da pessoa, o contexto social, condições socioeconómica, questões significativas para adesão e no sucessodo tratamento, assim como: localização dos sintomas, duração, limitação funional, atividade laborativa, tempo em que exerce aquela função, identificar movimentos ou atividades de risco durante o trabalho, número de horas trabalhadas por dia e se já realizou algum exame complementar. A seguir, veja o infográfico com as regiões de maior acometimento de dor relacionada ao trabalho e verifique as possíveis correlações. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 120 Figura 54 - Regiões de maior acometimento de dor relacionada ao trabalho. Fonte: elaborado pelos autores. Verifi que abaixo um quadro com os principais aspectos que deverão ser levados em consideração para uma efi caz Anamnese clínica. Quadro 32 - Principais aspectos considerados para efi caz Anamnese clínica REGIÃO SINTOMA (AÇÃO) Dorsal Dorsalgia (postura inadequada) Cervical Cervicalgia (postura no trabalho, carregar peso na cabeça, ter que baixar a cabeça Lombar Lombalgia (postura e movimentos de pegar peso) Ombro Ombralgia (postura, esforço repetitivo de levantar os braços) Punho Tendinite por esforço repetitivo (como digitar Quadro 33 - Anamnese clínica Caracterização da dor Localização, início, progressão, duração, fatores precipitantes/agravantes, episódios anteriores Sinais e sintomas associados Insônia ou sono não reparador, depressão, parestesia/hipoestesia, formigamento, edema, alterações de cor (vermelhidão/palidez), de temperatura (calor/frio); limitação de movimento Revisão de sistemas Condições médicas preexistentes, musculoesqueléticas e psiquiátricas; condições favorecedoras de vulnerabilidade (diabetes e outras doenças endócrinas e metabólicas, obesidade, gravidez; doenças infecciosas recentes; fatores de risco para doenças crônicas como hipertensão, fumo, álcool, sedentarismo) Tratamentos anteriores Imobilização, infi ltração, anti-infl amatórios não esteroides, analgésicos, corticosteroides, fi sioterapia, cirurgia Fonte: DUNCAN et al, 2014. 121 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 8.2.2 ANAMNESE OCUPACIONAL Na história clínica, devemos identificar situações específicas, relacionadas as atividades laborativas. O quadro 34, aponta os principais pontos que devem ser abordados: Quadro 34 - Anamnese ocupacional Condição de atividade atual Ativo (empregado/desempregado) ou inativo (em benefício/aposentado); mercado formal/informal; demitido recentemente ou em aviso prévio; e se existe associação entre o início ou desenvolvimento dos sintomas e mudanças na condição de atividade Ocupações anteriores Tempo no emprego, tempo na função, ocupações anteriores e sua associação com sintomas Riscos Biomecânicos Considerando a localização dos sintomas, avaliação da consistência entre o tipo de exposição, a dose (tempo e intensidade) e o quadro clínico do paciente Organização do trabalho/riscos psicossociais Trabalho em esteira, demanda por produtividade, horas-extras, trabalho em turnos, hierarquia, grau de controle sobre a execução das tarefas, grau de satisfação com o trabalho, relacionamento com colegas e chefias Associação entre modificações na rotina (horários, carga de trabalho, troca de função, de chefia, de turno) e o desencadeamento/agravamento da DORT Evidência epidemiológica de risco ocupacional Existência de casos similares em colegas de trabalho Fonte: DUNCAN et al, 2014 Além disto, é fundamental, questionar e investigar se o paciente realiza movimentos repetitivos, se fica com posturas inadequadas ou se está sofrendo pressão psicológica no trabalho. 8.2.3. ABORDAGEM DO DORT EM ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE A avaliação inicial dos pacientes visa: Figura 55 - Avaliação clínica EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 122 Fonte: Adaptado Duncan et al, 2014 Ainda sobre o caso do paciente com dor no punho, leia a seguir: 8.2.4 DIAGNÓSTICO Podemos definir LER/DORT como: “agravos relacionados ao trabalho decorrentes da utilização excessiva, imposta ao sistema musculoesquelético, sem que haja tempo para sua recuperação fisiológica. Caracterizan- se pela ocorrência de vários sintomas, concomitantes ou não, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, tais como dor, sensação de peso e fadiga, limitação funcional, parestesia, geralmente acompanhada de sofrimento psíquico, dificuldades nas atividades da vida diária e incapacidade laboral” ( CAB 41, BRASIL) Desse modo, para identificar um caso de LER/Dort, deve-se coletar dados fornecidos pelo paciente, realizar o exame físico, integrá-los com dados epidemiológicos e fazer uma hipótese diagnóstica. 8.2.5 CLASSIFICAÇÃO DA DOR Após o diagnóstico, o próximo passo será a classificação da dor. Para melhor qualificação da dor, podemos classificá-la como: a) Dor difusa em membros superiores, cintura escapular e pescoço – fase inicial b) Dor mais localizada – lesão ortopédica c) Dor crônica regional moderada a severa d) Lombalgia crônica e) Muitas formas são caracterizadas como inespecíficas. 8.2.6 EXAME FÍSICO O quadro 34 sugere os principais aspectos que devem ser pesquisados no exame físico do paciente com suspeita de DORT/LER. 123 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Quadro 35 - Exame físico Observação (inicia-se na sala de espera e continua durante toda a consulta) Postura, gestos, como executa atividades como se levantar, deambular, sentar, gesticular, despir-se, bem como a atitude colaborativa ou não durante o exame físico Exame físico geral Peso, altura, pressão arterial, estado geral de saúde. Sinais de alerta (red flags) para outra patologia grave que mereça encaminhamento prioritário Exame físico específico orientado pela localização dos sintomas Inspeção, palpação de músculos, tendões e articulações Amplitude dos movimentos articulares passivo e ativo; dor à mobilização Sensibilidade e força; tremor Contratura muscular, banda fibrosa e pontos-gatilho Edema, alterações de cor, temperatura e trofismo da região em comparação ao membro contralateral; anquilose Manobras específicas para evidenciar compressão de nervos periféricos e sugerir condições ortopédicas localizadas Fonte: elaborado pelos autores. 8.2.7. RELAÇÃO ENTRE CONDIÇÃO, FATORES DE RISCO, PROFISSÃO E SINTOMAS Síndrome Miofascial Importante lembrar a Síndrome Dolorosa Miofascial e a Síndrome Dolorosa Regional Complexa que surgem com a não resolução do quadro. Lembre-se! A síndrome dolorosa miofascial caracteriza-se por dor persistente, contratura muscular, redução de força e parestesias na região afetada, fadiga, insônia e, frequentemente, depressão. O ponto-gatilho miofascial é o achado de exame físico característico. Ponto sensível localizado sobre uma banda muscular tensa, cuja estimulação mecânica provoca uma resposta local de dor e “retirada”, e um padrão de dor referida característico para áreas específicas em cada músculo que em geral reproduz o padrão relatado pelo paciente. Alguns consideram que o ponto doloroso, mesmo sem dor referida, é suficiente para a caracterização dessa síndrome. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 124 Quadro 36 - Critérios para a categorização diagnóstica de síndrome dolorosa miofascial: Sinais e sintomas indispensáveis para diagnóstico positivo Dor regional Hiperitonia regional Ponto gatilho: ponto(s) hispersensível(is) localizado(s) em músculos ou em bandas musculares tensas (caracterizadas por encurtamento de fibras musculares) nas quais a palpação produz reação de retirada com dor local ou referida. Sinais e sintomas adicionais Parestesia distais a área afetada Redução de força Incoordenação de movimentos finos Sinais e sintomas adicionais Tremor ao esforço Paciente deixa cair objetos Sensação de peso Força reduzida ao exame, na comparação com outro membro Alteração no padrão de sono Duncan, 2014. Tabela 126.6 8.2.8 EXAMES COMPLEMENTARES O diagnóstico deDort é eminentemente clínico. Os exames, normalmente, são realizados para seguimento, descartar outras patologias e, na maioria das vezes, como cunho administrativo, para conseguir afastamento das atividades laborais Figura 56 - Exames complementares Fonte: Elaborado pelos autores 8.3 PREVENÇÃO A prevenção do Dort necessita de uma série de estratégias elaboradas por equipe multidisciplinar responsável pela CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), onde existem estratégias elaboradas de acordo com cada função e com cada risco de evolução para doença ocasionada pelo trabalho, conforme visto a seguir. Figura 57 - Prevenção da Dort 125 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Fonte: elaborado pelos autores. 8.4 TRATAMENTO O tratamento precisa ser completo, englobando o tratamento não farmacológico (com abordagem de equipes multiprofissionais), o tratamento farmacológico (com a introdução de medicamentos) e por último, mas não menos importante, a abordagem na reabilitação e consequentemente inserção deste usuário em um outro setor de trabalho, em que não acarretem consequências para a lesão já estabelecida. Figura 58 - Tratamento da DORT Fonte: elaborado pelos autores. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 126 8.3.1. YELLOW FLAGS (PERFIL PSICOLÓGICO) Yellow flags significa atitudes, características detectadas no perfil psicológico dos trabalhadores que acarretam em levantar uma bandeira amarela para este paciente. Pois existe uma chance de desenvolver algum trasntorno relacionado a doença ocupacional. Devendo haver este prévio diagnóstico com intuito de observar a evolução e o desenrolar do caso. Figura 59 - Yellow flags Fonte: elaborado pelos autores. 8.3.2. RED FLAGS – QUANDO ENCONTRADO TEM QUE SER TRATADO COM MAIOR URGÊNCIA O CASO DE DORT Quando se chama atenção para o caso de REDFLAGS, necessitamos de uma abordagem imediata, pois existe o risco de haver uma complicação grave, que pode acarretar uma doença incurável, entre elas temos como diagnósticos diferenciais: as neoplasias, doenças degenerativas e outras. Figura 60 - Red Flags Fonte: elaborado pelos autores. 127 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 8.3.3. METAS DE UM TRATAMENTO ADEQUADO Quadro 37 - Metas de um Tratamento Adequado Objetivo geral Meta terapeútica específica Redução da dor Reduzir a dor a níveis moderados; diminuir a frequeência e a duração dos episódios de exarcebação da dor. Melhoria funcional Voltar à escola/ ao trabalho; ampliar o número de tarefas domésticas realizdas; ampliar a participação nas atividades de lazer. Melhoria do sono Reduzir o número de despertares durante a noite; melhora o sono em geral, até 5 horas por noite. Melhoria do humor Ampliar a participação nas atividades sociais; reduzir o tempo passado no leito/inatividade; melhorar o aporte nutricional. Redução do uso dos recursos médicos Reduzir as consultas nas emergências hospitalares; diminuir o uso excessivo de analgésicos; reduzir as consultas ou os exames repetidos. Fonte:adaptado de CURRENT, 2014. 8.4 LEGISLAÇÃO TRABALHISTA Enquanto médico de família e comunidade, você precisa estar atento aos aspectos de sofrimento relacionados ao trabalho do paciente portador de Doença Osteomuscular relacionada ao trabalho encontrada nas pessoas com trabalhos monótonos e repetitivos, que acarretam a maioria das vezes comprometimento deste sistema e consequentemente lesões e perda da funcionalidade destes. As leis que defendem os trabalhadores estão na Constituição Federal de 1988, onde a execução das ações voltadas para a Atenção à Saúde do Trabalhador passou a ser atribuição do Sistema Único de Saúde (SUS), regulamentada pela Lei Orgânica da Saúde (LOS). Desta forma, em um capítulo que aborda uma doença relacionada ao trabalho, devemos esclarecer pontos cruciais no desenvolvimento da prática clínica relacionada a direitos destes pacientes. ATESTADO MÉDICO “O atestado médico é parte integrante do ato médico, sendo seu fornecimento direito inalienável do paciente, não podendo importar em qualquer majoração de honorários.” EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 128 “Ao fornecer o atestado para abono de faltas trabalhistas, é fundamental registrar em ficha própria ou prontuário médico os dados dos exames e tratamentos realizados, de maneira que possa atender às pesquisas de informações dos médicos peritos das empresas ou dos órgãos públicos da Previdência Social e da e da Justiça.” No atestado médico, “especificar o tempo concedido de dispensa à atividade, para a recuperação do paciente”. Fonte: Duncan, 2014 . PRINCIPAIS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS: Auxílio-doença previdenciário – Benefício que o trabalhador segurado recebe quando se afasta do trabalho por doenças ou acidentes não relacionados ao trabalho. Auxílio-doença acidentário – Benefício que o trabalhador segurado recebe quando o afastamento do trabalho é motivado por doenças ou acidentes relacionados ao trabalho. Auxílio-acidente – Benefício que o trabalhador recebe quando, após alta do afastamento do trabalho em gozo de auxílio-doença, retorna ao trabalho remanejado ou reabilitado para outra função em decorrência de incapacidade parcial ou total para a função/ocupação exercida antes do acidente/doença do trabalho. O trabalhador recebe esse benefício até a data da aposentadoria ou de forma vitalícia, se não se aposentar. Aposentadoria acidentária – Benefício por tempo indeterminado que o trabalhador segurado recebe por invalidez total e permanente, decorrente de acidente do trabalho ou de doença relacionada ao trabalho. Aposentadoria previdenciária – Benefício por tempo indeterminado que o trabalhador segurado recebe por invalidez total e permanente, decorrente de doença não relacionada ao trabalho. Aposentadoria por tempo de contribuição, por idade ou especial – Benefício vitalício que o trabalhador recebe após ter contribuído para a Previdência por tempo previsto para sua categoria profissional ou por ter atingido idade estipulada por lei, ou por se enquadrar em condições especiais. Casos especiais – Funcionários públicos que, devido à legislação própria, não são afastados pela Previdência Social, mas pelos próprios sistemas previdenciários municipal, estadual ou federal. 129 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos ACIDENTE DE TRABALHO Para fins previdenciários, o Artigo 19 do Decreto no 8.213, de 24/07/1991, traz a seguinte definição: “É o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados especiais, provocando lesão corporal ou perturbação funcional, permanente ou temporária, que cause a morte, a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho”. COMUNICAÇÃO DE ACIDENTE DE TRABALHO (CAT) Para fins previdenciários, a associação da doença com o trabalho só existe a partir do enquadramento como tal pela Perícia Médica Previdenciária. O médico da APS ou outro médico que assistiu o trabalhador pode/deve preencher o campo médico da CAT. A outra maneira é por meio do estabelecimento do nexo técnico-epidemiológico. Emissão de CAT é obrigação legal das empresas diante acidentes de trabalho, podendo ser preenchida por sindicato, profissionais de saúde do SUS, autoridades públicas ou mesmo pelo próprio assegurado ou seus dependentes. DUNCAN, 2022. Fonte: Duncan, 2014. A partir da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) o estabelecimento pelo profissional de saúde do nexo causal para doenças ocupacionais, garante ao trabalhador vários direitos , dentre estes: licença remunerada, auxílio doença, estabilidade no emprego e outros. Mas para que o trabalhador gatanta estes direitos é necessário que o médico e / ou os profissionais de saúde registrem o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT). Apesar de existir do ponto de vista do Ministério doTrabalho, a diferença entre trabalhadores formais e informais, para o Sistema Único de Saúde (SUS) não existe distinção. Sabemos a realidade do povo brasileiro e das pessoas que atendemos nas unidades de atenção primária, infelizmente boa parte destes apresenta vínculos informais, impedindo que recebam seus benefícios trabalhistas. Mas a partir de um dos princípios do MCCP- ser realista- podemos compreender a situação desta pessoa e de sua família, diante de uma situação de LER/ DORT ou acidente de trabalho, e sua repercussão e impacto na vida pessoal e familiar. O Ministério da Saúde definiu a lista nacional de doenças e agravos de notificação compulsória. Em relação a Saúde do Trabalhador estão relacionadas nesta lista os seguintes agravos: Câncer relacionado ao trabalho; • Dermatoses ocupacionais; • Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Ler/Dort); • Perda Auditiva Induzida por Ruído (Pair) relacionada ao trabalho; • Pneumoconioses relacionadas ao trabalho; EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 130 • Transtornos mentais relacionados ao trabalho. (Brasil, 2014) Aparecem na “Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho”, tanto no Grupo VI (Doenças do Sistema Nervoso Relacionadas com o Trabalho) quanto no Grupo XIII (Doenças do Sistema Osteomuscular e do Tecido Conjuntivo Relacionadas com o Trabalho) da CID-10 e abrangem os seguintes quadros nosológicos determinados no quadro abaixo. Quadro 38 – LER/ DORT e os respectivos CIDs Fonte: Caderno de Atenção Básica. N⁰ 41 131 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 8.5 FECHAMENTO DA UNIDADE Estamos chegando ao fim do módulo! Fica cada vez mais evidente que a Medicina de Família e Comunidade tem a pessoa como centro do cuidado e o profissional de saúde da Equipe da APS o responsável pela gerência do cuidado. Esta apropriação é importante para o desenvolvimento das ações direcionados para esta pessoa que se encontra vivendo, preocupando-se com o trabalho. O reconhecimento e, consequentemente, um adequado tratamento de um caso DORT/LER acarreta uma melhor abordagem, levando ao aumento da resolutividade na Atenção Primária em Saúde (APS). Importante observar ainda o nexo causal e consequentemente uma abordagem direcionada a pessoa. A Medicina de Família e Comunidade tem a pessoa como sendo o centro do cuidado e o profissional de saúde da Equipe da APS o responsável pela gerência do cuidado. Essa apropriação é importante para o desenvolvimento das ações direcionados para essa pessoa que se encontra vivendo, preocupando-se com o trabalho, pois lidará com a doença, o mental, o social e o financeiro dessa pessoa. Precisa então de uma visão ampliada, pois a doença é apenas a ponta do iceberg pelo que essa pessoa está passando. O médico de família e comunidade vai para além da “caixinha do atendimento”, muito importante em um ou mais casos de DORT a prevenção das lesões adquiridas, pois acarreta uma melhor qualidade de vida, melhorando a abordagem dentro das empresas que trabalham com posturas adoecedoras. Bons estudos! O adoecer faz parte da história natural de algumas patologias, mas a prevenção evita prolongar essa história para um patamar que permite uma abordagem mais precoce e consequentemente diminuindo as sequelas que podem advir do não tratamento. Siga com os estudos, o próximo assunto traz a fibromialgia para a discussão. Não esqueçamos que os casos de DORT não tratados podem evoluir para dor crônica, havendo desta forma a necessidade de abordar o caso com celeridade e prontidão. Lembre-se: Fibromialgia UNIDADE 9 INTRODUÇÃO DA UNIDADE A fibromialgia (FM) é uma causa comum de dor crônica musculoesquelética generalizada, frequentemente acompanhada de fadiga, distúrbios cognitivos, sintomas psiquiátricos e diversos sintomas somáticos. É uma síndrome de etiologia desconhecida e fisiopatologia incerta. Atualmente, acredita-se que esta se caracteriza como um distúrbio da regulação da dor, muitas vezes, classificado como uma forma de sensibilização central. A fibromialgia é uma síndrome clínica comumente observada na prática médica, sem etiopatogenia bem definida. Sua prevalência atinge até 5% da população geral e, no Brasil, é a segunda doença reumática mais comum depois da ostAcomete mais a população feminina, em uma relação e 9:1 e os sintomas iniciam entre os 25 e 65 anos, com média de idade de 49 anos. É mais frequente em pacientes com história familiar da doença, e o risco eleva-se em parentes de primeiro grau e pacientes portadores de doenças crônicas. Apesar de mais comum em idosos, pode acometer também crianças e adolescentes. Ao final da unidade, é esperado que você seja capaz de: • Diagnosticar caso de fibromialgia • Identificar comorbidades relacionada a fibromialgia • Realizar diagnóstico diferencial entre fibromialgia e outras patologias • Criar fluxo de atendimento com uma visão multidisciplinar • Saber conduzir um tratamento não farmacológico e farmacológico de fibromialgia • Criar ações de educação em saúde para a população de sua unidade de saúde. Bons estudos! REFLEXÃO A FM, por de ser uma síndrome comum na prática clínica, fará parte da gama de atendimentos de um médico de família e comunidade em sua prática cotidiana, necessitando, desta forma, de uma adequada abordagem para impedir gastos desnecessários com exames que não irão elucidar a síndrome em questão. Desse modo, conhecer e pensar no diagnóstico dessa síndrome é o primeiro passo para um adequado tratamento. 133 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 9.1 DIAGNÓSTICO As pessoas com fi bromialgia apresentam sintomas e sinais relacionados com múltiplas áreas da medicina, sendo a doença correntemente caracterizada como síndrome de dor musculoesquelética difusa (embora possa ser localizada), associada à fadiga, à insônia, a distúrbios disfuncionais variados e a sintomas psiquiátricos diversos. As dores são inespecífi cas, depende da pessoa, algumas pessoas o início dos sintomas é insidioso, e a dor pode ser relatada como queimação, peso, contusão ou “exaustão” da região afetada. A dor, que costuma ser ampla e difusa, frequentemente se inicia na nuca, no pescoço e nos ombros. Se o paciente procura assistência médica apresentando dor em apenas um ou em poucos locais, ao exame físico, percebe-se, com frequência, dor à palpação em outros locais onde antes não era observada. Sua intensidade, habitualmente, é de moderada a forte, chegando a algumas ocasiões a ser bastante incapacitante. Conheça as novas diretrizes acessando o artigo no link: https:// www.scielo.br/pdf/rbr/v57s2/pt_0482-5004-rbr-57-s2-s467.pdf Figura 61 - Sintomas de acordo com a localização da dor da fi bromialgia. Fonte: elaborado pelos autores. 9.1. ANAMNESE Quanto a anamnese devemos em primeiro ponto abordar o caso questionando sobre tempo de doença, associação com doenças psicológicas como ansiedade ou EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 134 depressão. Se houver associação de sintomas sistêmicos também estes deverão ser investigados. • Suspeitar se presença de dor multifocal crônica com mais de 3 meses; • Avaliar a presença de ansiedade, dificuldades cognitivas; • Presença de fadiga, cefaleia, parestesias e distúrbio do sono; • Avaliar o estado mental (transtornos de humor, somatizações e transtorno de ansiedade; • Abuso de substâncias (benzodiazepínicos ou medicamentos para dor). 9.1.2. CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO Os critérios diagnósticos se baseiam em uma avaliação sobre o MAPA DA DOR (Índice de Dor Generalizadas) e a ESCALA DE SEVERIDADE DOS SINTOMAS (ESS). Com bases nessas pontuações, podemos considerar como sendo muito provável FIBROMIALGIA. IDG – Índice de dor generalizada ESS – Escala de Severidade dos sintomas As três condições a seguir necessitam estar presentes: IDG >= 7 e pontuação da ESS >= 5 Ou 3 < IDG < 6 eESS >= 9 Os sintomas estão presentes em nível similar há, pelo menos, 3 meses A pessoa não tem um problema de saúde que explicaria, de outra forma a dor. Pontuamos desta forma o MAPA DE DOR com o índice abaixo, se nos últimos 7 dias houve dor em alguma das regiões citadas abaixo = marcar se positivo. Quadro 39 – Mapa da Dor Áreas Dor nos últimos 7 dias Áreas Dor nos últimos 7 dias Pescoço Abdome Mandíbula esq. Parte superior das costas Mandíbula dir. Parte inferior das costas Ombro esq. Quadril esquerdo Ombro dir. Quadril direito Braço esq. Coxa esquerda Braço dir. Coxa direita Antebraço esq. Perna esquerda Antebraço dir. Perna direita Região torácica Posteriormente seguimos para a avaliação da severidade dos sintomas e iremos 135 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos avaliar a pontuação adquirida com esta escala. Primeiramente nos últimos 7 dias. Tabela 6 - Escala de Severidade dos Sintomas (7 dias) Intensidade dos sintomas nos últimos 7 dias. Fadiga (cansaço ao reallizar atividades) 0 ausente 1 leve 2 moderado 3 grave Sono não reparador (acordar cansado) Alterações cognitivas (raciocínio/ memória) Fonte: American College of Rheumatology (2016). Depois avaliaremos o grau de severidade dos sintomas nos últimos 6 meses. Lembrando que neste temos sintomas sistêmicos e a própria depressão. Tabela 7 - Escala de Severidade dos Sintomas (6 meses) Intensidade dos sintomas nos últimos 6 meses 0- ausente 1-presente Cefaleía Dores ou cólicas abdominais Depressão Fonte: American College of Rheumatology (2016). 9.1.3. EXAME FÍSICO Realizado para afastar outras doenças como autoimunes (se houver dor localizada) e pele, unhas, mucosas, tireoide, sistema osteomuscular e sistema nervoso devem ser cuidadosamente examinados para se descartarem outras doenças. A palpação dos tender points deixou de ser critério a partir de 2010. Sendo considerados sintomas sistêmicos e de comprometimento comportamental. 9.1.4. EXAMES COMPLEMENTARES Não são necessários exames complementares, somente se houver suspeita de outra patologia durante a anamnese e o exame físico. Lembre-se: Nos casos suspeitos de alterações tireoidianas ou de doença muscular inflamatória, deve-se solicitar, respectivamente, tireotrofina (TSH) e creatinocinase (CK). Testes sorológicos como anticorpo antinuclear (ANA) e fator reumatoide (FR) devem ser solicitados apenas se a história e o exame físico sugerirem uma doença reumática inflamatória sistêmica. É comum eles serem positivos em pessoas saudáveis, tendo, assim, um valor preditivo muito baixo. EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 136 9.1.5. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Deve ser feito com todas as doenças que podem causar dor difusa, como hipotireoidismo, hiperparatireoidismo, osteomalácia, miopatias, mieloma múltiplo, infecções virais, síndromes paraneoplásicas, doenças autoimunes, síndrome da fadiga crônica e miofascial, entre outras. Caso clínico O médico da unidade fez todos os questionamentos necessários para a investigação. Seguindo os critérios de diagnóstico para fibromialgia. A paciente em questão pontuou no IDG – 8 pontos no ESS – 6 pontos – fazendo um total de 14 pontos. Estando estabelecido o diagnóstico de Fibromialgia, qual o próximo passo para a melhoria da qualidade dessa paciente? 9.2 TRATAMENTO O tratamento da Fibromialgia consiste no controle dos sintomas da fibromialgia, este deve ser individualizado e geralmente tem melhores resultados quando abordado por equipe multidisciplinar, abordando questões farmacológicas e não farmacológicas. Para melhor abordagem do caso e cientes da cronicidade relacionada à doença, é importante uma conversa sincera com o paciente sobre a evolução e o prognóstico da sua doença e a possibilidade de controle dos sintomas (mas não de sua cura) (GUSSO et al. 2019) 9.2.1. NÃO MEDICAMENTOSO Quanto ao tratamento não medicamentoso envolve abordagem multidisciplinar que agregue atividade física regular, educação em saúde e psicoterapia. Todos os níveis de evidência 1A (significando altamente indicado). Figura 62 - Tratatamento não medicamentoso Fonte: elaborado pelos autores. 9.2.2. MEDICAMENTOSO 137 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos O tratamento medicamentoso tem que ser completo, abordando todos os sintomas e as necessidades apresentadas por uma pessoa vivendo com fibromialgia. A citar o tratamento da dor, da insonia, da depressão. Os esquemas de tratamento são vários. Infelizmente na maioria dos casos o tratamento ainda não é ofertado pela rede pública, dificultando a abordagem terapêutica em nossa população mais carente. Dentre as opções, podemos iniciar com antidepressivo tricíclico com doses baixas, como amitriptilina 25 mg, 1 comprimido a noite. Outras opções seriam antidepressivas dual, como a duloxetina ou hipnótico associado a um relaxante muscular. Caso não apresentem boa resposta pode-se utilizar anticonvulsivantes como a gabapentina ou pregabalina e nos casos refratários iniciar opóides fracos como codeína e tramal. O tratamento deve ser individualizado e as opções devem ser pactuadas com o paciente. Figura 63 - Tratamento medicamentoso Fonte: Elaborado pelos autores Evitar benzodiazepínicos, AINEs, glicocorticóides e outros opioides (causam dependência). 9.3 QUANDO ENCAMINHAR? EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 138 Evidências apontam que pessoas acompanhadas na atenção primária têm melhor prognóstico e respondem melhor às terapêuticas não farmacológicas em comparação àquelas acompanhadas por especialistas focais ou em centros terciários. Referenciamentos para especialistas focais devem ser feitos: • Ao reumatologista: quando houver dúvidas em relação ao diagnóstico, para situações refratárias ao tratamento realizado, ou necessidade de combinação de medicações, caso o profissional da atenção primária não se sinta seguro para tal abordagem. • Ao psiquiatra ou psicólogo: para pessoas com comorbidades psiquiátricas importantes, ou pessoas que mantenham o quadro de saúde mental inalterado, apesar do tratamento instituído. Ao fisiatra, fisioterapeuta ou educador físico: para pessoas que não toleram o grau de exercícios recomendados ou tenham dificuldade no seguimento de tal orientação. 9.4 FECHAMENTO DA UNIDADE Chegamos ao final da última unidade do módulo! A partir desta unidade, você se encontra apto a pensar e abordar os casos de fibromialgia encontrados na prática clínica! Conforme dito anteriormente, precisamos de uma abordagem ampliada, contando com múltiplos atores na abordagem de um caso de fibromialgia. E lembre-se: não deixe de aprofundar os estudos. O conteúdo que foi abordado nesta unidade é apenas uma ponta do iceberg do que é esta condição clínica. Desejamos muito sucesso a você! Até breve! 139 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Encerramento do módulo Parabéns! Você finalizou as atividades do módulo abordagem aos problemas osteomusculares na APS! Durante este itinerário de aprendizado, tivemos a oportunidade de rever alguns conceitos importantes, critérios diagnósticos, relembrar manobras para avaliação diagnóstica dos problemas osteomusculares mais prevalentes na APS. Iniciamos este módulo com abordagem as queixas de dor osteomusculares em regiões topográficas mais comuns como coluna lombar, ombro e joelhos. Em seguida, abordamos patologias frequentes na APS, como osteoartrite, osteoporose, artrite reumatoide, artrite gotosa, distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho e finalmente fibromialgia. Ufa! Muita coisa, né gente! Mas, vocês conseguiram! Após este percurso, esperamos que vocês estejam mais seguros e capazes para identificar os principais problemas músculo e esqueléticos, realizar diagnósticos, interpretar exames complementares e elaborar um plano terapêutico adequado para o cuidado adequado às pessoas. Ainda temos muitas novidades paravocê ao longo do seu curso! Vamos em frente e excelentes estudos! EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 140 ALMEIDA, Darlan Castro; KRAYCHETE, Durval Campos. Low back pain: a diagnostic approach. Rev. Dor, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 173-177, abr./jun. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rdor/v18n2/pt_1806-0013- rdor-18-02-0173.pdf. Acesso em: 12 maio 2021. AMERICAN COLLEGE OF RHEUMATOLOGY SUBCOMMITTEE ON RHEUMATOID ARTHRITIS GUIDELINES. Guidelines for the management of rheumatoid arthritis: 2002 Update. Arthritis & Rheumatism, [s. l.], v. 46, n. 2, p. 328-346, fev. 2002. Disponível: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11840435/. Acesso em: 13 maio 2021. ARTRITE reumatoide: diagnóstico. [s. l.]: AMB, 2013. Disponível em: https:// diretrizes.amb.org.br/_DIRETRIZES/artrite_reumatoide_diagnostico/files/assets/ common/downloads/publication.pdf. Acesso em: 13 maio 2021. AZEVEDO, Valderilio Feijó et al. Revisão crítica do tratamento medicamentoso da gota no Brasil. Rev. Bras. 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Acesso em: 12 maio 2021. 145 EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos Brígida Emílio Pereira Quezado - http://lattes.cnpq.br/6371178635102028) Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Especialista em Saúde da Família pela Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE); Mestre em Saúde da Família pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Atua como Professora da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Médica de PSF - Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza.Trabalha como supervisora do Programa Mais Médicos do Brasil, Preceptora de Residência Medica pela Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (SMS). Marco Túlio Aguiar Mourão Ribeiro - http://lattes.cnpq.br/9198144232790180 Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestre em Saúde Público pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Doutor em Saúde Coletiva pela UFC. Atua como professor na UFC, atua como docente e coordenador do Internato de Saúde Comunitária, preceptor e supervisor do Programa de Residência de Medicina de família e Comunidade e docente do Mestrado Profissional de Saúde da Família, desenvolve ensino, pesquisa e extensão na atenção domiciliar na APS. Preceptor e coordenador/ supervisor do R3 de Medicina Paliativa da Universidade Federal do Ceará Vice presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (gestão 2020-2022). Tatiana Monteiro Fiuza - http://lattes.cnpq.br/3017521791582922 Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Especialista em Medicina de Famíla e Comunidade e Especialização latu senso em Hebiatria; Mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Doutora em Saúde Pública na UFC. Atua como Preceptora de Medicina de Família e Comunidade, opera na coordenação regional do Programa de Residencia de Medicina de Família e Comunidade do Sistema Municipal de Saúde Escola do Município de Fortaleza, além de constituir o corpo docente da UFC como professora adjunta. Biografia dos conteudistas EIXO 04 | MÓDULO 22 Abordagem a problemas musculoesqueléticos 146 Programa Médicos pelo Brasil EIXO 4 |ATENÇÃO À SAÚDE REALIZAÇÃO Ministério da Saúde. Universidade Federal do Ceará (UFC) 2023 Abordagem a problemas musculoesqueléticos MÓDULO 22