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O Ensino dos Números Naturais e do Sistema de Numeração Decimal Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções O Ensino dos Números Naturais e do Sistema de Numeração Decimal Responsável pelo Conteúdo: Profa. Ms. Simone Dias da Silva Profa. Ms. Janaina Pinheiro Vece Revisão Textual: Profa. Ms. Selma Aparecida Cesarin 5 Nesta primeira Unidade da disciplina, vamos aprofundar nossos conhecimentos acerca das diferentes crenças e concepções que permeiam e permearam o ensino dos números naturais. No ambiente, você encontrará o acesso para todos os materiais didáticos e atividades referentes a cada unidade. Em cada Unidade, são apresentados diversos recursos e elementos visuais e audiovisuais para tornar o processo de aprendizagem mais significativo e interativo. Fique atento aos prazos estipulados no calendário da disciplina. Não esqueça que o bom desempenho no curso online exige uma rotina de estudo organizada e de muita dedicação, separe um período para realização das leituras, dos fóruns de discussão e das atividades da disciplina. Em caso de dúvida sobre o conteúdo, o professor-tutor está à sua disposição para saná-la. Para os problemas técnicos, acione a equipe de suporte! T hinkstock/G etty Im ages Un id ad e Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções 6 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções Vamos dar início à Unidade, analisando o esquema ao lado. Esse Esquema reflete o que será discutido na primeira unidade da disciplina. Observe que nele são apresentadas algumas palavras. Essas palavras explicitam as crenças e concepções que permearam e permeiam o processo de ensino e da aprendizagem dos números no contexto escolar. Pense sobre o esquema e reflita sobre sua prática. As palavras indicadas estão presentes em sua aula de Matemática, principalmente, quando ensina números aos seus alunos? Contextualização 7 Esta Unidade de estudo aborda diferentes crenças e concepções que permearam e permeiam o ensino dos números na escola. A partir de uma linguagem dialógica, que estimula a reflexão sobre a prática, apresentam-se os principais aspectos da concepção tradicionalista e empírico- ativista, no que se refere ao papel que o aluno, o professor e o conteúdo matemático ocupam no processo de ensino e aprendizagem. Em seguida, trata-se do termo numeramento, empregado na atual perspectiva no ensino dos números. Para dar início à unidade, é necessário compreender, primeiramente, o significado de “crenças e concepções”. De acordo com Rico et al (2002), há grande diversidade nos termos “crenças e concepções”. Para esses autores, as crenças são verdades pessoais indiscutíveis, sustentadas por cada um, derivadas da própria experiência, que tem como forte componente os fatores afetivos e sociais. Em consonância, Pajares (1992) e Thompson (1992) consideram que concepções são marcos organizadores implícitos de conceitos, com natureza essencialmente cognitiva e que condicionam a forma como afrontamos as tarefas. Tardif (2000, 2002) e Schön (2000) afirmam que os saberes construídos na escolarização básica e no próprio ambiente social e cultural determinam as crenças e atitudes, que se não forem modificadas durante a formação inicial e continuada, provocarão interferências na atuação profissional dos professores. Para Tardif (2002, p.72): De acordo com Tardif (2002), em sua prática pedagógica, o professor se lembrará da personalidade marcante de algum de seus professores, de experiências traumáticas ou positivas. Introdução Durante a leitura, aproveite para registrar os aspectos que achar mais importantes. Em caso de dúvida, não hesite em perguntar ao professor tutor! Afinal, o que significa “crenças e concepções”? O professor, em sua atuação profissional, baseia-se em juízos provenientes de tradições escolares que ele interiorizou, em sua experiência vivida, enquanto fonte viva de sentidos a partir da qual o passado lhe possibilita esclarecer o presente e antecipar o futuro. 8 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções Por isso, muitas vezes, a maneira de trabalhar dos formadores, ou mesmo de selecionar os conteúdos, ou ainda organizar situações didáticas, influi sem querer na formação de concepções e atitudes nos futuros professores. Sendo assim, todas as espécies de conhecimento do professor são integradas e filtradas pelos valores e crenças pessoais, constituindo, desta forma, um saber que orienta a prática profissional. Para Blanco & Contreras (2002), como consequência de sua experiência escolar, os estudantes vão gerando crenças e concepções em relação à Matemática, seu ensino e aprendizagem. Revelam que se os responsáveis pela formação de professores não trabalharem essas crenças e concepções, elas podem se tornar obstáculos ao desenvolvimento de propostas curriculares mais avançadas do que aquelas vivenciadas no tempo de estudante. Portanto, a compreensão dos termos evidencia que toda prática pedagógica é determinada por crenças e concepções sobre como se ensina e como se aprende. Com relação ao ensino de Matemática, em especial, no ensino dos números, isso não é diferente. Durante muito tempo, e ainda nos dias de hoje, o ensino da Matemática tem sido sustentado por concepções equivocadas sobre o papel que o professor, o aluno e o conteúdo matemático ocupam no processo de ensino e aprendizagem. Considerando-se que a história de vida difere de acordo com a experiência de cada sujeito, a reflexão sobre a trajetória escolar enquanto aluno(a) pode auxiliar na identificação de diferentes crenças e concepções de ensino. Certamente, o resgate de memória faz emergir recordações do tempo de estudante sobre como lhe foi ensinado, quem lhe ensinou e como você aprendeu os números. A análise da própria trajetória escolar pode revelar que não é de hoje a existência de diferentes crenças e concepções. No entanto, cabe comparar e refletir sobre algumas delas: a perspectiva tradicional e empírico- ativista que, apesar de ultrapassadas, comumente são identificadas no contexto escolar, e a compreensão do termo numeramento, adotado pela atual perspectiva no ensino dos números. Ensino de Números: diferentes crenças e concepções Nos anos inicias do ensino fundamental, como lhe foi ensinado e como você aprendeu os números? 9 A partir do trecho de Moreno (2006), podemos identificar a concepção de ensino tradicional que, apesar de se sustentar na atual conjuntura, tem tido seu aspecto restritivo e obsoleto apontado por pesquisas e estudos atuais em Educação Matemática . No enfoque tradicional de ensino, o professor ocupa o lugar de destaque na transmissão do conteúdo matemático. Seu papel se limita a seguir uma progressão sistemática de exercícios e atividades, apresentando aos alunos os números, passo a passo. Nessa perspectiva, a aprendizagem é concebida como algo cumulativo e linear, como a somatória de pequenas “porções” de conhecimento adquiridas aos poucos. A aprendizagem como um processo em doses “homeopáticas”, da aquisição de conteúdos mais simples para os mais complexos, evidencia a ideia de um aluno desprovido de conhecimento, de capacidade intelectual e alienado em relação ao contexto sociocultural exterior aos muros da Escola. Neste enfoque, pensa-se que o treinamento é o mais importante e que as noções numéricas são construídas por meio exaustivo da repetição e memorização. A ideia que se tem de sujeito, portanto, é a de um sujeito tabula rasa, isto é, que não possui nenhum conhecimento prévio relacionado ao conteúdo a ser ensinado. “Somente assim, se pode compreender que se comece o ensino a partir do número 1” (MORENO, 2006, p. 44). É possível observar, no ensino tradicional, um tratamento excessivamente hierarquizado de ensinar os números. Trata-se de uma organização, dominada pela ideia de pré-requisito, cujo único critério é a definição da estrutura lógica da Matemática, que desconsidera, em parte, aspossibilidades de aprendizagem dos alunos. O Ensino Tradicional Sobre o ensino dos números, há um enfoque clássico arraigado na prática docente. Nele se afirma que se devem ensinar os números aos poucos, um a um e na ordem que a série numérica indica. De acordo com esta concepção, não se pode apresentar o 5 enquanto não se haja ensinado o 4; não se pode ir além do 9 até que não se tenha ensinado a noção de dezena etc. A escrita convencional dos números é central e, portanto, escrever linhas inteiras do mesmo número, desenhá-los, cortá-los, pintá-los etc. são atividades consideradas fundamentais. Uma das ideias principais é que o conhecimento entra pelos olhos, imitando, copiando, observando. (Adaptação a partir do texto de MORENO, 2006, p.43-4.) Na concepção tradicionalista, qual é o papel que o professor, o aluno e os números ocupam no processo de ensino e aprendizagem? 10 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções De acordo com o PCN de Matemática (p.22, 1997): Por mais que atualmente haja insistência de que se deve levar em conta a potencialidade, utilização e instrumentação prática dos conteúdos para a vida, na perspectiva tradicional, o papel que os números ocupam é de um conteúdo matemático desarticulado e descontextualizado das situações cotidianas, ou seja, das práticas socioculturais vivenciadas pelo sujeito desde a tenra idade. Outra concepção, muito disseminada, e que se faz presente no discurso pedagógico, está relacionada à crença de que para ensinar Matemática, em especial os números, é preciso partir do concreto. Embora se saiba que alguns conhecimentos precedem outros e deve-se escolher certo percurso, não existem, por outro lado, amarras tão fortes como algumas que podem ser observadas comumente. Por exemplo, trabalhar primeiro apenas os números menores que 10, depois os menores que 100, depois os menores que 1.000 etc. Para saber mais sobre o ensino tradicional dos números leia o texto de Beatriz Ressia Moreno: MORENO, Beatriz Ressia. O ensino do número e do sistema de numeração na educação infantil e na 1ª série. In: Ensinar matemática na educação infantil e nas séries iniciais. PANIZZA, Mabel (Org.). Tradução de Antonio Feltrin. Porto Alegre: Artmed, 2006, cap.3. O Ensino Empírico-ativista Ao supor que a aprendizagem acontece pelo único fato de manipular um material concreto, promovem-se situações nas quais o professor “dita” para o aluno o procedimento a ser realizado. Nesse enfoque, ensina-se o número como uma propriedade dos conjuntos como classes de equivalências, razão pela qual uma das atividades mais comuns é apresentar, por exemplo, desenhos de conjuntos de quatro flores, cinco automóveis, quatro borboletas e cinco bexigas cada um, para que os alunos encontrem, por correspondência, os conjuntos que possuem as mesmas “propriedades numéricas”. Isso se baseia na suposição de que as crianças aprendem os números apenas por observação de conjuntos de objetos e imagens. (Adaptação a partir do texto de MORENO, 2006, p.45.) 11 Diferentemente do ensino tradicionalista, em que a aprendizagem se dá por repetição, o enfoque empírico-ativista – advindo do Movimento da Matemática Moderna, nos anos de 1970, prioriza a aprendizagem por meio de relações lógicas que o aluno estabelece entre conjuntos e elementos. Esta é uma das diferenças a ser considerada, pois enquanto a primeira concepção concebe o aluno como uma tabula rasa, a segunda adota-o como um sujeito puramente psicológico, dotado de processos e estruturas cognitivas. No ensino empírico-ativista, considera-se a teoria dos conjuntos como a mais adequada para que o aluno compreenda os números. A ênfase empírico-ativista de que a aprendizagem se dá pelo único fato de manipular materiais concretos, implica negativamente o papel do professor como aquele que não assume uma intencionalidade didática. Nesta concepção, de acordo com Nacarato (p. 1, 2005): O aluno passa a ser considerado o centro do processo e os métodos de ensino – tendo como pressupostos a descoberta e o princípio de que ‘aprende-se a fazer fazendo’ – são pautados em atividades, valorizando a ação, a manipulação e a experimentação. Enquanto na postura tradicional os números são apresentados de forma isolada do contexto sociocultural, no enfoque empírico-ativista, os números são entendidos, puramente, como a síntese das relações de contagem de conjuntos com pequenas quantidades de elementos. Além dos papeis assumidos e das relações estabelecidas entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem, um problema agravante, presente no enfoque tradicional e empirista, refere-se ao tratamento didático do conteúdo, ou seja, a forma como os números são ensinados. A partir das informações apresentadas no trecho acima, você consegue identificar alguma diferença no ensino dos números entre a concepção empírico-ativista e a tradicional? O aluno passa a ser considerado o centro do processo e os métodos de ensino – tendo como pressupostos a descoberta e o princípio de que ‘aprende-se a fazer fazendo’ – são pautados em atividades, valorizando a ação, a manipulação e a experimentação. Se fosse assim, como poderíamos compreender o número 35.897.200 se nunca vimos ou contamos 35.897.200 elementos dentro de um conjunto ou fora dele? 12 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções Em ambas as perspectivas não há, ou há pouquíssima preocupação com o contexto social em que os alunos e os próprios números estão inseridos. As concepções aqui apresentadas não levam em consideração um aspecto mais do que evidente: as crianças, muito antes de ingressar na Escola, têm contato diário com os números naturais e com o sistema de numeração decimal. Desta forma, articular o ensino dos números às situações contextualizadas, que acontecem no meio social dos alunos, facilita a compreensão sobre o conteúdo matemático, tornando a aprendizagem mais eficaz. Considerando-se que ensinar os números por meio de atividades mecanizadas e repetitivas ou a partir da simples relação entre conjuntos é uma opção didática do professor, na presente discussão não poderíamos deixar de denunciar as fragilidades e os prejuízos na formação dos alunos que desencadeiam quando se opta por um enfoque ou outro Além disso, cabe ressaltar que tais práticas de ensino com base na concepção tradicional e empírico-ativista estão caindo em desuso. Nas últimas décadas, a alfabetização na perspectiva de letramento tem sido presente na formação inicial e continuada dos professores que atuam nos anos inicias do ensino fundamental, tornando-se um conhecimento consolidado e discutido entre os professores alfabetizadores, se compararmos com a formação docente em relação à Matemática. Considerando o contexto e as práticas socioculturais presentes em nosso cotidiano, estudos e pesquisas sobre a função social da escola têm colocado em evidência o processo de letramento, que além da aquisição e codificação dos códigos do sistema alfabético, considera a leitura e a escrita como práticas sociais inerentes à relação humana. Para saber mais sobre a perspectiva empírico-ativista, leia o texto de Adair Mendes Nacarato: NACARATO, Adair. Mendes. Eu trabalho primeiro no concreto. Revista de Educação Matemática, v. 9, n. 9-10, São Paulo: SBEM, 2005. Disponível em: http://sbempaulista.org.br/RevEdMatVol9.pdf. Numeramento: quebrando paradigmas Se a principal função da escola é garantir às gerações futuras o acesso ao conhecimento sociocultural construído pela Humanidade, o conteúdo matemático deve ser ensinado como algo isolado e escolarizado? Qual é a sua opinião sobre a contextualização no ensino dos números? http://sbempaulista.org.br/RevEdMatVol9.pdf 13 A partir dos atributos de letramento apresentados por Soares (2006), pode-se considerar que o processo de alfabetização nas escolas configura-se na medida em que a concepção de letramento considera o uso social daescrita e da leitura. Distante de conceber a alfabetização como um processo fragmentado e descontextualizado, as discussões até aqui apresentadas, mesmo que pareçam reincidentes, apontam que a escola não deve preocupar-se apenas com a alfabetização da língua, mas também, com o processo de aquisição e uso social dos códigos numéricos. As mesmas preocupações que demandam a democratização da leitura e da escrita devem ser assumidas à Matemática, oportunizando o acesso para a apropriação de práticas associadas ao sistema de numeração. A alfabetização matemática como iniciação ao mundo da leitura e da escrita aritmética contempla as primeiras construções do conceito de número, da aquisição da representação numérica do sistema decimal e, além disso, de outros conteúdos matemáticos como as operações e a própria geometria. No entanto, no presente texto, restringimos as discussões à aquisição e prática social dos números. A alfabetização matemática, mais especificamente dos números, “restringe-se aos aspectos mais estritamente técnicos ou cognitivos” (FONSECA, p. 52, 2009). Quando emprestada à dimensão sociocultural do fazer matemático, concebida como um conjunto de comportamentos e habilidades decorrentes da prática social, marcadas pelas contingências contextuais, introduz-se a perspectiva de numeramento. Estar preparado para atender às demandas e tarefas face à vida diária requer habilidades que vão além das capacidades básicas do registro matemático. Neste sentido, entende-se como “numeralizado” aquele que, além da aquisição da linguagem matemática, engaja-se com autonomia em situações que envolvam o domínio de dados quantitativos, quantificáveis e, sobretudo, compreende as diversas funções e usos dos códigos numéricos em diferentes contextos. O que você entende por letramento? A palavra letramento é tradução da palavra inglesa literacy. Para Soares (2006, p.170), o sufixo - cy indica “qualidade, condição, estado, fato de ser”. Desta forma, o termo literacy está associado ao “estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever”. Traduzido para o português o sufixo – mento remete ao resultado de uma ação. No sentido atribuído por Soares (2006, p.18), letramento é o “resultado da ação de ensinar a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita”. Entretanto, a autora destaca que letramento se refere à condição de ser letrado. Nem todo sujeito alfabetizado é letrado, pois o letramento pressupõe saber ler e escrever, mas também responder às demandas sociais da leitura e da escrita. Concluindo, letramento trata-se de um conceito mais amplo do que o de alfabetização. 14 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções De acordo com Johnston (1999), o que leva o sujeito a ser “numeralizado” envolve quatro situações que são complementares interligadas: a aquisição de capacidades básicas para decodificar e escrever símbolos matemáticos; a participação ativa na construção do seu próprio conhecimento matemático; o uso da matemática em contextos práticos e significativos do cotidiano e, por fim, utilizar criticamente o conhecimento matemático para a transformação social. Compreender o ensino dos números na perspectiva de numeramento é o mesmo que superar o evidente paradoxo entre as concepções sobre a aquisição do sistema linguístico e do sistema numérico. Segundo Moreno (2006), ao mesmo tempo em que nas aulas de Matemática é suposto que o aluno não possui conhecimentos prévios, durante as aulas de Língua Portuguesa reconhecem- se, neste mesmo aluno, saberes e hipóteses sobre o sistema de escrita como produto de sua relação com um meio cheio de portadores textuais. Um dos fatores relevantes para o processo de aquisição dos códigos linguísticos é o grau de exposição da criança às práticas sociais que exigem que leia e escreva diferentes tipos de textos. Os ambientes nos quais se pratica a leitura e a escrita frequentemente motivam as crianças a ler e escrever e contribuem para que elas tenham um conhecimento prévio sobre os portadores textuais, como por exemplo: livros, panfletos, revistas, histórias em quadrinhos, bula de remédio, textos instrucionais de rótulos e embalagens, entre outros. Com relação aos números, este processo ocorre de forma semelhante. A familiarização das crianças com os números ocorre a partir do contado com diferentes portadores numéricos que existem em seu cotidiano. Calendários, fitas métricas, calculadoras, rótulos de embalagens, trenas, celulares, computadores, o próprio dinheiro, entre outros materiais que permitam ler números, todos são considerados portadores numéricos. Imersas num meio “matematizador”, as crianças têm contato com os números muito antes de entrar na Escola. Se prestarmos atenção às atividades cotidianas que realizamos, notaremos que os números estão presentes em diversas situações. Diante de tal contradição presente no processo da alfabetização da Língua e da Matemática, reflita: No meio social existem apenas portadores textuais ou também temos contato com diferentes portadores numéricos? A criança, como sujeito curioso, é capaz de construir hipóteses somente relacionadas à leitura e à escrita? E em relação aos números, a criança possui a mesma capacidade? 15 Diariamente, encontramos e utilizamos os números em suas diferentes funções, mas, como estamos acostumados com a sua prática diária, muitas vezes não paramos para pensar sobre suas diferentes finalidades. Pense em sua rotina diária de trabalho e reflita sobre as diferentes funções que os números desempenham não só no contexto escolar, mas, principalmente, no contexto social. Uma prática recorrente na sala de aula, principalmente com os alunos de 1º ao 3º ano, é a contagem diária do total de alunos presentes. A contagem e o registro de quantos são envolve a função cardinal do número, ou seja, de contar. Se analisar a lista de chamada, verá que cada aluno possui o seu respectivo número, que funciona como um código de identificação tanto no diário do professor, quanto no registro da secretaria da escola. A localização espacial faz com que a escola receba alunos de residências próximas ou distantes, neste exemplo, o número pode ser utilizado como medida, pois serve para representar a distância percorrida da residência à escola. Além de contar, codificar e medir, o número também exerce a função de ordenar: um exemplo simples, se refere à organização dos alunos em fileiras na sala de aula (primeiro, segundo, terceiro...). Para levantar os conhecimentos prévios dos alunos sobre as diferentes funções dos números em seu cotidiano (cardinal, ordinal, codificação e medir), você pode realizar um momento de conversa com seus alunos questionando-os acerca do que sabem sobre os números. Para este momento, proponha questões do tipo: Qual a importância e para que servem os números? Que números vocês conhecem? Em que situações do seu dia a dia vocês utilizam os números? Durante a conversa, procure registrar as respostas verbalizadas por seus alunos. 16 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções Os números estão por toda a parte, presentes em nossos documentos, na numeração das casas, códigos de telefone, jornais, revistas, nas páginas dos livros, cédulas e moedas e até mesmo nos diferentes recursos tecnológicos de que dispomos, como calculadoras computadores e celulares. Sendo assim, é controverso propor situações em que o significado dos números se restrinja à reprodução de escritas numéricas ou, simplesmente, às situações de contagens sem significados. Procurar refletir sobre as diferentes concepções que subsidiam a prática do professor é de suma importância para rever e quebrar alguns paradigmas obsoletos que permearam e permeiam o ensino dos números. Para tanto, conclui-se que assumir a concepção de numeramento para ensinar os números evidenciaa afirmação de que não é preciso esperar que as crianças saibam contar ou escrever convencionalmente para aprendê-los, afinal: Do que adianta decorar números se os alunos não compreendem suas diferentes funções e usos no cotidiano? 17 Aqui você tem acesso a conteúdos complementares ao material da unidade. Aproveite para aprofundar e sistematizar seus conhecimentos sobre as crenças e concepções que permeiam e permearam o ensino dos números. Material Complementar Leia: MORENO, Beatriz Ressia. O ensino do número e do sistema de numeração na educação infantil e na 1ª série. In: Ensinar matemática na educação infantil e nas séries iniciais. PANIZZA, Mabel (Org.). Tradução de Antonio Feltrin. Porto Alegre: Artmed, 2006, cap.3. Para saber mais sobre a perspectiva empírico-ativista, leia o texto de Adair Mendes Nacarato: NACARATO, Adair. Mendes. Eu trabalho primeiro no concreto. Revista de Educação Matemática, v. 9, n. 9-10, São Paulo: SBEM, 2005. Disponível em: http://sbempaulista.org.br/RevEdMatVol9.pdf. Aprofunde os conceitos sobre numeramento a partir do texto de Jackeline Rodrigues Mendes: Reflexões sobre Numeramento: práticas sociais de leitura e escrita em torno do conhecimento matemático. Disponível em: http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais15/Sem04/jackeline.htm http://sbempaulista.org.br/RevEdMatVol9.pdf http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais15/Sem04/jackeline.htm 18 Unidade: Ensino dos Números: Diferentes Crenças e Concepções BLANCO, Lorenzo; CONTRERAS, Luis. Um modelo formativo de maestros de primaria, em el área de matemáticas, em el ámbito de la geometría. (Org.). Aportaciones a la formación inicial de maestros em el área de matemáticas: uma mirada a la práctica docente. Cáceres: Universidad de Extremadura, 2002, p. 92-124. FONSECA, Maria da Conceição Ferreira Reis. Conceito(s) de numeramento e relações com o letramento. In: Educação matemática, leitura e escrita: armadilhas, utopias e realidades. LOPES, Celi Espassandin, NACARATO, Adair Mendses (orgs). Campinas: Mercado das Letras, 2009. JOHNSTON, Betty. Adult Numeracy. Literacy: an international handbook. In: WAGNER, Daniel A.; VENEZKY, Richard L.; STREET, Brian V. (eds.). U.S.A., Westview Press, 1999. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais, vol 3. Matemática. Brasília, DF: Secretaria de Educação Fundamental, 1997. MORENO, Beatriz Ressia. O ensino do número e do sistema de numeração na educação infantil e na 1ª série. In: Ensinar matemática na educação infantil e nas séries iniciais. PANIZZA, Mabel (Org.). Tradução de Antonio Feltrin. Porto Alegre: Artmed, 2006, cap. 3. NACARATO, Adair. Mendes. Eu trabalho primeiro no concreto. Revista de Educação Matemática, v. 9, n. 9-10, São Paulo: SBEM, 2005. Disponível em: <http://sbempaulista.org. br/RevEdMatVol9.pdf>. PAJARES, M. 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Referências 19 Anotações 20 www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 http://www.cruzeirodosulvirtual.com.br