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ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Unidade 1 CEO DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial ALESSANDRA FERREIRA Gerente Editorial LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria JULIANE MARISE BARBOSA TEIXEIRA KARINE HERANI 4 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A U TO RI A Juliane Marise Barbosa Teixeira Olá. Sou Doutoranda em Engenharia da Produção e Sistemas pela (PUCPR) com foco em Engenharia das Organizações, Mestre em Tecnologia e Desenvolvimento do PPGTE na UTFPR, Especialista em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUCPR, Especialização em Psicopedagogia; Especialista em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa, Especialista em Formação Docente e Tutoria em EaD e possuo MBA em Administração pública e Gerenciamento de Cidades. Graduada em Letras pela PUCPR e Graduanda em Administração. Atuei como Diretora de EaD e Professora na Faculdade Inspirar. Orientadora do Programa Agentes Locais de Inovação (ALI SebraePR). Coordenadora da Agência de Inovação da UNINTER, Coordenadora Adjunta do Curso Tecnológico Superior em Gestão Pública, MBA em Administração pública e Gerência de Cidades e MBA em Marketing Político e Organização de Campanha Eleitoral, além de Especialização em Sustentabilidade e Políticas Públicas na Escola de Gestão Pública, Política e Jurídica da EGPPJ no Centro Universitário Internacional da UNINTER. Atuei como professora Tutora convidada na Coordenação de Tecnologia na Educação na COTED da UTFPR. Trabalhei quatro anos em Angola como coordenadora de Recursos Humanos em empresa de engenharia com aproximadamente dois mil funcionários e cinco filiais pelo país. Possuo experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Estratégica de Pessoas e Formação Profissional. Sou docente na área de Gestão de Pessoas na administração pública e Gestão da Inovação e Modelos de Gestão. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! 5ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Karine Herani Sou advogada com mais de 22 anos de experiência na área de consultoria jurídica empresarial e gestão de negócios, desenvolvimento de negócios, processos de inovação, negócios internacionais e gestão de projetos. Trabalho como consultora e tive oportunidade de trabalhar em diferentes setores da indústria, de alimentos a equipamentos, em 3 países diferentes. Estou imensamente feliz em iniciar com você essa jornada rumo a novos conhecimentos. Vamos lá? A U TO RI A 6 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 ÍC O N ES 7ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Os fundamentos da administração pública são parte integrante essencial para o entendimento da complexa gestão dos órgãos e serviços públicos. Seu entendimento é indispensável para que possamos pensar nos conceitos estratégicos e organizacionais da administração pública e em sua efetividade. Ao longo desta unidade, transitaremos entre estudos e teorias que o ajudarão a construir a base conceitual e estruturante que validará os princípios da administração pública, interagindo com as consequências e as influências da reforma do Estado e a modernização do setor público. Ao construirmos essa linha de entendimento da evolução histórica da administração pública no país, seremos capazes de conectar ação, reação e consequência dos serviços públicos de que temos conhecimento na contemporaneidade; e, até mesmo, de diferenciar esse cenário de cenários internacionais. Daremos início aos estudos pelo entendimento das heranças deixadas por nossos modelos do passado. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar nesse universo! IN TR O D U ÇÃ O 8 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Olá. Seja muito bem-vindo à nossa Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos. 1. Compreender a origem dos princípios da administração pública. 2. Discernir as inferências entre a reforma do estado e a modernização do setor público. 3. Entender a evolução histórica do trabalho e suas consequências na administração pública. 4. Distinguir a administração pública brasileira das demais formas de administração. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! CO M PE TÊ N CI A S 9ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Origem dos Princípios da Administração Pública ................ 11 Administração Pública.......................................................................................11 Base nos Princípios para Construção da Eficiência .....................................14 Princípio de legalidade .......................................................................16 Princípio da impessoalidade .............................................................16 Publicidade de obras e ações da máquina administrativa governamental .........................................17 Princípio da moralidade .....................................................................18 Princípio da publicidade ...................................................................19 Princípio da eficiência ........................................................................19 A Reforma do Estado e a Modernização do Setor Público .. 23 Gestão Pública ....................................................................................................23 Diagnosticando o Estopim da Reforma .........................................................27 Os objetivos da reforma ..................................................................................29 Ampliação da governança do Estado ..............................................29 Limitação da ação do Estado ............................................................29 Transferência da União para os estados e municípios em caráter local ........................................................................................................29 Transferência da União para os estados e municípios em caráter regional .................................................................................................30 As estratégias para a reforma ........................................................................30 O Trabalho na Administração Pública ................................... 36 A Perspectiva Religiosa ....................................................................................37 Perspectiva Econômica ....................................................................................38 Perspectiva Psicológica .....................................................................................39 As implicações no laboro público ...................................................................41 S U M Á RI O 10 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Classificação dos agentes públicos ................................................................42 Peculiaridades da Administração Pública Brasileira ........... 47 O passado e a construção dos modelos de gestão ...................................48 Três tipos de abordagens que constituíram a administração moderna .50 Abordagem estrutural .......................................................................50 Abordagem humanística ...................................................................52 Abordagem interativa .........................................................................58 A história e a convergência com os modelos brasileiros ..........................62 SU M Á RI O 11ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Origem dos Princípios da Administração Pública OBJETIVOAo término deste capítulo você saberá que falar de administração pública é sempre uma missão difícil, principalmente pelo descrédito social conquistado por décadas de sucessões administrativas sem gerência, objetivo e planejamento. Você verá que administração pública nada tem a ver com política ou partido político (ou, pelo menos, não deveria). O objetivo deste capítulo não é tratar de política ou debater o que não funciona na gestão pública, mas, sim, entender por que somos como somos quando o assunto é serviços públicos; como deveria ser e o que faremos para, depois de ter acesso a essas informações. Administração Pública A Administração pública é o poder de gestão do Estado por meio do qual o poder do Estado de legislar, tributar, fiscalizar e regulamentar se concretiza pelos órgãos e outras instituições que compõe a Administração. De forma objetiva, a Administração pública pode ser entendida como conjunto de órgãos instituídos para consecução dos objetivos do Governo; e sentido material é o conjunto das funções necessárias aos serviços públicos em geral, em acepção operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico do seu próprio Estado ou por ele assumido em benefício da coletividade. (MEIRELLES, p. 68, 2016) 12 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A Administração pública age em defesa do interesse público, e sua atuação deve estar norteada pela finalidade do Estado. Afinal, sua existência está vinculada ao Estado. O principal propósito do Estado é zelar pelo bem comum da coletividade, como ordem jurídica soberana. Sendo assim, a Administração pública atua como um instrumento para proteger e satisfazer os interesses coletivos gerais. Dessa forma, a Administração pública é o instrumento de atuação concreta do Estado, tendo o aparelhamento para atender às necessidades coletivas, como educação, cultura, segurança, saúde, dentre outros; e o interesse comum e a realização de serviços. A atuação da Administração pública se concentra, basicamente, em planejar, organizar, controlar, coordenar, desenvolver e liderar. Sendo essa administração pública, está relacionada a um município, a um estado ou a um país. Se estivéssemos falando de administração privada, discorreríamos sobre cultura organizacional, missão, visão valores; e por aí vai. Esses são princípios válidos, assertivos e essenciais para entender como funciona a organização, mas, se é pública, não pode inferir vontades, desejos ou planejamento de um Chief Executive Officer (CEO) ou de uma pessoa com maior autoridade na hierarquia da organização, e sim de uma nação. O Brasil é representado pela Constituição Federal de 1988. A finalidade da Administração pública há de ser, sempre, a atuação em interesse público; senão, configura-se o desvio de finalidade em sua atuação. Faz a gestão dos interesses públicos por meio da prestação de serviços públicos. 13ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A Administração pública se divide em direta e indireta. A direta é exercida pelo poder da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Esses entes não têm personalidade jurídica própria, patrimônio e autonomia administrativa. Na indireta, o Estado transfere a titularidade e a execução das funções para outras pessoas jurídicas relacionadas, como autarquias, fundações, sociedade de economia mista, empresa pública e outras entidades de direito privado. Essas entidades têm personalidade jurídica própria, patrimônio e autonomia administrativa. Essa transferência da titularidade de execução do Estado é feita por meio de procedimento específico, denominado licitação. A estrutura da administração pública é complexa, envolvendo diferentes entes e diferentes áreas de atuação, como se pode ver no organograma da administração pública. Imagem 1.1 - Estrutura da administração pública Fonte: Finanças Públicas ([s.d.], 2023). https://financaspublicas.files.wordpress.com/2010/03/imagem1.jpg 14 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 SAIBA MAIS Para saber mais sobre a estrutura da administração brasileira, acesse o artigo indicado. Disponível abaixo. Base nos Princípios para Construção da Eficiência O Direito Administrativo é a área do Direito Público que regulamenta e normatiza o exercício da função administrativa por órgãos e agentes públicos. Oferece um conjunto de diretivas para o funcionamento do estados e da máquina administrativa. Imagem 1.2 - Direito Público Fonte: Freepik. https://www.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/4-estrutura-da-administracao-publica-brasileira-a-os-sujeitos-da-acao-administrativa-do-estado-manual-de-direito-administrativo/1201071659?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=doutrina_dsa&utm_term=&utm_content=capitulos&campaign=true&gclid=EAIaIQobChMIiMGgzcOigAMVjC7UAR28fAqyEAMYAiAAEgIYHPD_BwE https://br.freepik.com/fotos-gratis/natureza-morta-com-a-balanca-da-justica_33123991.htm 15ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A ordem que rege os princípios da administração pública é estabelecida pela Constituição Federal: A administração pública direta e indireta de quaisquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. (BRASIL, 1988, on-line) Portanto, os princípios que regem a administração pública são os seguintes: • Princípio da legalidade. • Princípio da impessoabilidade. • Princípio da moralidade. • Princípio da publicidade. • Princípio da eficiência. A atuação da administração pública deve, imperativamente, estar limitada à finalidade de defesa de interesse público; portanto, a probidade e a legalidade são aspectos essenciais para a atuação da administração pública e dos serviços públicos. Todas as ações e as decisões devem ser voltadas para o interesse público e a coletividade em detrimento dos interesses privados. A administração pública deve agir e se organizar pelo bem coletivo do Estado enquanto empresa. Quem ocupa um cargo público não deve agir em razão de um bem próprio, mas para o bem da sociedade. Dessa acepção, surge a atuação da administração pública na execução de serviços públicos que promovem o desenvolvimento da sociedade e de seus membros. 16 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Sabemos, então, que os princípios da administração pública são regidos pela Constituição Federal e devem ser considerados no planejamento de qualquer ação pública. Vejamos cada um a seguir. Princípio de legalidade O papel da lei na vida privada é limitador da conduta do indivíduo; De acordo com o artigo 5.º da Constituição Federal, “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei” (BRASIL, 1988, on-line). Em relação à administração pública, a lei é guia orientador. A atuação da administração pública, assim como a de seus agentes, deve estar estritamente de acordo com a lei. A ação está vinculada à previsão legal. A atuação sem definição legal anterior é restrita e limitada a situações excepcionais, como uma grave perturbação da ordem. Nesse caso o princípio da legalidade tem extrema relevância, posto que a administração pública e seus agentes têm sua atuação limitada ao previamente definido pela lei. A interpretação correta para a legalidade na administração pública é que o administrador público só poderá fazer o que está previsto em lei. Princípio da impessoalidade A atuação da administração pública deve buscar o interesse público e o bem coletivo. Não deve visar ao favorecimento de grupos ou interesses privados; e não deve promover discriminações de qualquer natureza. O princípio da impessoalidade define o dever imperativo de imparcialidade da atuação da administração pública na defesa do interesse público. 17ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Os atos e as recorrências da administração pública devem estar pautados em ações impessoais e genéricas, com abrangência indistinta e sem preferência ou prevalência.A administração pública deve ser organizada de forma que todos os grupos sociais sejam acolhidos e beneficiados. O agente político deve, ainda, isentar-se de qualquer ação que promova seus interesses pessoais ou de um grupo específico. Imagem 1.3 - Impessoalidade na atuação pública Fonte: Freepik. Publicidade de obras e ações da máquina administrativa governamental Qualquer publicidade deverá ser educativa e informativa, prevalecendo o objetivo de educação social. Nunca deve ser feita realização em prol de interesses do agente político. https://www.freepik.com/free-photo/social-network-connection-avatar-icon-vector_16461892.htm#page=2&query=interesse%20p%C3%BAblico&position=6&from_view=search&track=ais 18 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Princípio da moralidade Certamente, um dos princípios mais importantes e de maior grau de dificuldade em processos de avaliação é o princípio da moralidade. Todo processo administrativo, para contar com a veracidade, deverá ser moral, obrigatoriamente. Os atos da administração pública devem ser orientados pela moral comum, pelo bom costume e por princípios como honestidade, boa-fé, ética, dentre outros. Assim, a atuação da administração pública pautada no princípio da moralidade não pode apenas se apoiar no princípio da legalidade (se está na lei, pode ser feito) mas, sim, deve ser associada aos pressupostos éticos necessários ao bem público; caso contrário, o bem público é nulo. EXPLICANDO MELHOR Vamos relembrar o caso da duplicação da Serra do Cafezal, na Rodovia Régis Bittencourt, que liga o estado do Paraná ao estado de São Paulo. Por mais de meio século, foi considerado um dos trechos mais perigosos das rodovias federais. Entre a primeira licença para início dos trabalhos até a finalização da obra, transcorreram, aproximadamente, quinze anos. A desapropriação de terras, as licitações para obras e os recursos estavam previstos em lei. Entretanto, existiu, por muitas décadas, uma discussão dos impactos na fauna e na flora da região. A lei permitia, mas os processos éticos e morais sobre o impacto na natureza levaram as ações a intermináveis discussões e procedimentos focados na minimização dos impactos ambientais para se concretizar. 19ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Princípio da publicidade Como a administração pública deve agir em defesa do interesse público e em nome da coletividade, todos os atos devem ser divulgados de forma geral, para que todos tomem conhecimento e possam exercer controle. Sendo objeto público, logo deve ser transparente. Na administração pública, todo processo deve ser dado ao conhecimento da sociedade, que financia as ações públicas por meio do pagamento de impostos. Nos regimes democráticos de governo, é permitido aos cidadãos fiscalizar as ações e os atos dos agentes públicos. É, também, por meio da publicidade que se controla e se combate a corrupção. O princípio da publicidade anda “de mãos dadas” com o princípio da impessoalidade. As ações dos agentes públicos devem ser voltadas ao bem comum. Seus atos não devem ser comunicados como heroicos, mas como a prestação dos serviços aos quais foi designado pelo povo por meio das eleições. A publicidade é o ato de transparência dos processos administrativos; é a prestação de contas à sociedade; e não uma vitrine pessoal. Só podem ser dispensados ou eximidos da obrigação de publicidade os atos de segurança nacional e as investigações cujo sigilo seja relevante para sua realização. Princípio da eficiência A atuação da administração pública deve gerar resultados positivos para a coletividade, buscando um desempenho que impacte, positivamente, um número maior de beneficiados. 20 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 O princípio da eficiência tem, por premissa, a garantia dos serviços públicos ofertados para a comunidade com recursos, variedade, qualidade e menor tempo do que os serviços privados. Imagem 1.4 - A administração pública deve gerar resultados Fonte: Freepik. Diretamente interligado aos valores e aos pressupostos econômicos, esse princípio é a base para o agente público planejar e organizar os recursos de sua gestão. IMPORTANTE Existem outros princípios reconhecidos e construídos pelos adendos às leis ao longo da promulgação da Constituição Federal de 1988 e que são aplicados e considerados para a gestão dos processos da máquina pública: o princípio da supremacia do interesse público, o princípio da isonomia, o princípio da razoabilidade, o princípio da motivação, o princípio da boa-fé, o princípio da tutela, o princípio da continuidade, o princípio da proporcionalidade e o princípio da finalidade, dentre outros. https://www.freepik.com/free-photo/man-giving-bar-graph-presentation-using-high-technology-digital-pen_15601263.htm#query=efici%C3%AAncia&position=9&from_view=search&track=sph 21ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A função administrativa deve seguir a definição do artigo 37 da Constituição, determinado pela Lei n.º 9784/ 1999, que regula o processo administrativo no âmbito da administração pública. O artigo 2º define, de forma expressa, os princípios além dos previstos no artigo 37º que a atuação da administração pública deve observar. Art. 2o. A Administração pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. (BRASIL, 1988, on-line) Além dos princípios gerais de Direito Administrativo, há, também, princípios específicos que regem a prestação de serviço público, previstos no artigo 6.º da Lei n.o 8987/95, que trata da prestação de serviço adequada. 22 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 RESUMINDO Estudamos, mais detalhadamente, a administração pública e sua atuação. Suas funções incluem planejar, organizar, controlar, coordenar, desenvolver e liderar a atuação e execução efetiva do Estado. A administração pública deve, sempre, agir em defesa do interesse público e segundo os princípios estabelecidos no artigo 37º da Constituição Federal, atuando, imperativamente, dentro dos limites e da previsão legal (princípio da legalidade), com foco no benefício geral (princípio da impessoalidade), de forma transparente (princípio da publicidade) e com rígidos padrões morais e éticos (princípio da moralidade). A administração pública atua nas esferas Federal, estadual e municipal, sendo a sua atuação eficiente fundamental para que haja a concretização dos objetivos do Estado; e para que sejam atendidas às necessidades dos cidadãos. A Constituição Federal define o que a administração pública deve fazer e como se organizar pelo bem coletivo do Estado. Aprendemos, também, os princípio da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência. Esses não são os únicos orientadores da atuação da administração pública; outros, previstos em lei, também têm igual importância, como o de razoabilidade, o da ampla defesa e o da segurança jurídica. 23ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A Reforma do Estado e a Modernização do Setor Público OBJETIVO Neste capítulo, você compreenderá as ações do governo que desencadearam uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro, após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas como nos discursos de opinião pública. Você entenderá que o movimento, no Brasil, aconteceu após as estratégias e as ressonâncias vindas do contexto norte americano. Você verá que, com as reformas devidamente identificadas e dadas ao conhecimento público, enfrentaríamos uma reforma de Estado que redesenharia os modelos de gestão na administração pública. Gestão Pública Gestão pública é a administração focada no interesse público, no bem-estar coletivo, gerindo os recursos de forma eficiente para atender às necessidades da sociedade. A sociedade está em constante transformação,impulsionada por fatores de diferentes naturezas, como avanços tecnológicos, concentração urbana, maior interdependência econômica e comercial entre os países, dentre outros, impactando as necessidades da sociedade e os ambientes produtivos. A sociedade é dinâmica, e as transformações ocorrem em maior velocidade. Nesse cenário, é fundamental que a gestão pública acompanhe essas transformações e ganha mais relevância para que governos e políticas públicas atuem de forma eficiente. 24 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Dessa forma, a gestão pública não pode ser engessada e presa a padrões e modelos ultrapassados. Nesse contexto, a gestão pública também está se modernizando, valorizando a geração de valor público, o desenvolvimento social e a absorção de tecnologias; e promovendo inovações a fim de melhorar a eficiência da administração pública, seus resultados, sua qualidade e sua produtividade. A modernização dos Estados e dos processos públicos possibilita um Estado mais eficiente e abrangente e políticas públicas mais acertadas e com melhores resultados, refletindo em serviços públicos mais eficientes e de melhor qualidade. A modernização administrativa objetiva o aumento da eficiência no uso e na administração dos recursos disponíveis. Esse processo de modernização precisa ser organizado e, assim, realizado por meio de planos, para que promova as melhorias objetivadas em eficiência e qualidade e, também, proporcione redução de custos e desburocratização. Assim, a reforma do aparelho do Estado é essencial para assegurar a eficiência da administração pública. 25ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Imagem 1.5 - Modernização do Estado Fonte: Freepik. Conhecido como o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado e elaborado por Luiz Carlos Bresser Pereira, Ministro da Administração e responsável pela reforma do Estado durante a primeira gestão do presidente da República Fernando Henrique Cardoso, esse documento desencadeou uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro, após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas como nos discursos de opinião pública. De acordo com o ex-presidente, A crise brasileira da última década foi também uma crise de Estado. Em razão do modelo de desenvolvimento que governos anteriores adotaram, o Estado desviou-se de suas funções básicas para ampliar sua presença no setor produtivo, o que acarretou, além de gradual de deterioração dos serviços públicos, a que recorre em particular, a parcela menos https://www.freepik.com/free-photo/team-work-process-young-business-managers-crew-working-with-new-startup-project-labtop-wood-table-typing-keyboard-texting-message-analyze-graph-plans_1202206.htm#from_view=detail_alsolike 26 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 favorecida da população, o agravamento da crise fiscal, e por consequência a inflação (...). Esse “Plano Diretor” procura criar condições para a reconstrução da administração pública formal, baseada em princípios racionais- burocráticos, os quais se contrapunham ao patrimonialismo, ao clientelismo, ao nepotismo, vícios esses que ainda persistem e que precisam ser extirpados. Mas o sistema introduzido, ao limitar-se a padrões hierárquicos rígidos e ao concentrar-se no controle dos processos e não dos resultados, revelou-se lento e ineficiente para a magnitude e a complexidade dos desafios que o País passou a enfrentar diante da globalização econômica. (BRASIL, 2010, p. 6) Essa não foi a última reforma proposta. As reformas são necessárias e visam a promover melhorias. Em 2020, o governo propôs a PEC 32/2020 e enviou ao Congresso a proposta chamada de “Reforma Administrativa”, cujo foco é a reforma das regras para servidores públicos e da competência do Poder Legislativo para criar e extinguir ministérios e órgãos da administração pública. Essa proposta foi bastante polêmica e gerou muito debate, não tendo cumprido seu trâmite necessário. A retirada da PEC 32/20 é possível, mas isso depende de despacho do presidente da Câmara dos Deputados. Caso não seja retirada, pode ir a votos. O ponto central de nosso estudo é compreender a importância das reformas. Não restam dúvidas de que as reformas administrativas são formas de modernizar e de aumentar a eficiência da administração pública, reconhecendo a dificuldade de se promover mudanças no âmbito público. 27ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Diagnosticando o Estopim da Reforma Veremos, mais a fundo, a reforma que teve muito impacto na administração pública. Em 1995, o Brasil apresentava um inchaço exponencial com gasto com pessoal; não em razão da melhoria e da qualidade dos serviços públicos, mas, sim, como tentativa de suprir serviços ineficientes, reflexos da ingerência burocrática instituída e enraizada por administrações anteriores. Observe, no quadro 1, o montante de acúmulo de gastos em menos de quinze anos. Quadro 1 - Participação dos gastos com pessoal na receita disponível ao Estado entre o períodos de 1982 a 1995. Período Gastos percentuais MÉDIA 82-84 38,4% MÉDIA 85-87 40,6% MÉDIA 88-89 50,9% 1990 60,1% 1991 57,9% 1992 57,2% 1993 60,4% 1994 56,1% 1995 60,4% Fonte: Brasil (2010, p. 30). 28 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Era certo que estávamos com pessoal para girar a roda pública, mas, ao mesmo tempo, os serviços, cada vez mais, estavam morosos e ineficientes. Essa conta não estava somente no setor de pessoal, mas, principalmente, nas esferas fiscais, resultado de falências e de retirada de investimentos no país diante da ausência de geração de recursos para estimular e dar garantias a novos investimentos. A palavra da vez era estagnação. Havia colapso em quase todos os setores da administração do país, e a insatisfação do povo era geral. Estávamos às portas de um grande movimento por mudanças, mas o que mudaria? Imagem 1.6 - Eficiência como objetivo Fonte: Freepik. https://www.freepik.com/free-photo/business-strategy-success-target-goals_1211528.htm#query=objetivo&position=0&from_view=search&track=sph 29ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Os objetivos da reforma É certo que a tecnologia “tirou o chão” do tradicionalismo dos modelos burocráticos de administração. A globalização trouxe, com o crescimento, altos índices de competitividade, novas ferramentas tecnológicas e abertura dos mercados globais, o que não se alinha à estagnação, à morosidade e à burocracia. A ordem era mudar para sobreviver. Assim, o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado deveria se basear em quatro importantes objetivos. Ampliação da governança do Estado A efetividade e a eficiência seriam as palavras de ordem para a máquina do Estado. Os serviços públicos deveriam ser pelo e para os cidadãos. Limitação da ação do Estado O Estado deveria focar e se concentrar nos serviços obrigatórios e essenciais, deixando a produção de bens e serviços para a iniciativa privada. Transferência da União para os estados e municípios em caráter local A participação dos estados e dos munícipios seriam ampliadas, assim como suas responsabilidades frente à obrigatoriedade da prestação de serviços com o devido cuidado quanto às necessidades regionais e à qualidade no cumprimento dos princípios da administração pública. Caberia à União intervir somente em caso de emergência. 30 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Transferência da União para os estados e municípios em caráter regional A participação dos estados e dos munícipios seria ampliada, estimulando a parceria entre estados e União, de modo que a prestação dos serviços seria designada para atender, com o devido cuidado, às necessidades regionais e à qualidade no cumprimento dos princípios da administração púbica, cabendo à União intervir somente em caso de emergência. As estratégias para a reforma Para que a reforma acontecesse, quatro importantes setores dos estados foram mobilizados: 1. o núcleo estratégico, 2. as atividadesexecutivas, 3. os serviços não executivos e 4. a produção para o mercado. 31ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Quadro 2 - Forma de propriedade e forma de administração segundo os setores Forma de Propriedade Forma de Administração Estatal Pública Privada Não Estatal Burocrática Gerencial NÚCLEO ESTRATÉGICO: Legislativo, Judiciário, Presidência, Cúpula dos Ministérios, Ministério Público. ATIVIDADES EXCLUSIVAS: regulamentação, fiscalização, fomento, segurança pública, seguridade social básica. SERVIÇOS NÃO EXCLUSIVOS: universidades, hospitais, centros de pesquisas, museus. PRODUÇÂO PARA O MERCADO: empresas estatais. Fonte: Brasil (2010, p. 48). Publicitação Privatização 32 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Efetivamente, as mudanças objetivaram estimular a concorrência e a competição como caminho para conquistar e consolidar a eficiência dos serviços públicos e o aumento da produção para o mercado. Três importantes dimensões foram acionadas para dar suporte à reforma e acompanhar a implantação das mudanças. 1. Institucional-legal: acompanhou as mudanças na legislação que beneficiassem os novos princípios gerenciais não burocráticos e eficientes. 2. Dimensão cultural: acompanhou a mudança comportamental dos atores da administração pública na nova postura gerencial. 3. Dimensão da gestão: acompanharia a capacidade de “ser” do novo modelo de gestão da administração pública. (BRASIL, 2010) ACESSE Para ler, na integra, o material sobre a reforma do aparelho do estado, acesse o documento seguinte. Disponível abaixo. A reforma do aparelho de Estado é a alteração de leis, da organização de rotinas e de processos, da cultura e do comportamento da administração pública, sempre objetivando aumento de eficiência e atendimento das necessidades da sociedade. http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/publicacoes-oficiais/catalogo/fhc/plano-diretor-da-reforma-do-aparelho-do-estado-1995.pdf 33ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A expressão “aparelho do Estado” é o Estado como organização, composto por servidores públicos, recursos financeiros, máquinas, instalações e equipamentos para prestação de serviços de interesse público. O aparelho do Estado executa as decisões tomadas pelo Governo e deve atuar com eficiência e respeito aos contribuintes. As reformas não visam tão somente a reduzir o tamanho do aparelho do Estado, mas, sim, a organizar e a tornar a administração pública mais eficiente e produtiva nas áreas necessárias para assegurar os serviços sociais e as necessidades da sociedade. Imagem 1.7 - Política de modernização do Brasil Fonte: Brasil. A modernização do Estado deve ser constante. Nesse sentido, o Decreto n.º 10609/2021 institui a Política Nacional da Modernização do Estado e o Fórum Nacional de Modernização do Estado. A política é composta por um conjunto de ações e programas do governo federal, objetivando atender às necessidades dos cidadãos e alcançar a otimização da administração pública. A política tem a finalidade de direcionar esforços para a modernização e eficiência da administração pública, a prestação de serviços e o ambiente de negócios para atender às necessidades da sociedade https://inovecapacitacao.com.br/moderniza-brasil-instituida-politica-para-modernizar-a-administracao-publica/ 34 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 SAIBA MAIS Para conhecer, na íntegra, o texto da Política Nacional de modernização do Estado, acesse o link indicado. Disponível abaixo. https://www.gov.br/casacivil/pt-br/assuntos/noticias/2021/janeiro/politica-nacional-de-modernizacao-do-estado-aumentara-a-eficiencia-da-administracao-publica https://www.gov.br/casacivil/pt-br/assuntos/noticias/2021/janeiro/politica-nacional-de-modernizacao-do-estado-aumentara-a-eficiencia-da-administracao-publica 35ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 RESUMINDO Você aprendeu a gestão da administração pública e como a gestão pública viabiliza a atuação efetiva do Estado, para que atenda às necessidades da sociedade. Para atender às necessidades da sociedade, que está em permanente transformação, é preciso que o Estado e a administração pública busquem se modernizar. A modernização do Estado é essencial para o desenvolvimento de uma atuação da administração pública mais eficiente e produtiva, promovendo prestação de serviços públicos de melhor qualidade e fazendo melhor uso dos recursos disponíveis. As reformas são movimentos mais intensos de mudanças. As ações do governo desencadearam uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro após diversas tentativas de acolhimento tanto nas pautas das agendas como nos discursos de opinião pública. Você viu que a Reforma de Estado redesenhou os modelos de gestão na administração pública. Você aprendeu que o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado desencadeou uma série de reformas no modelo administrativo brasileiro. O Brasil apresentava um inchaço exponencial no seu gasto com o quadro de pessoal; não em razão da melhoria e da qualidade dos serviços públicos, mas, sim, como tentativa de suprir serviços ineficientes, reflexos da ingerência burocrática instituída e enraizada por administrações anteriores. 36 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 O Trabalho na Administração Pública OBJETIVO Ao término deste capítulo, você entenderá como o serviço na administração pública é caracterizado e organizado. É importante que possamos entender como a história do trabalho foi entendida no país. Para tanto, no presente, vamos, também, retomar um pouco de história do trabalho. Desde a época dos pastores, os filhos aprendiam com seus pais o ofício da família ou com alguém mais experiente. Diariamente, os filhos assistiam a seus pais acordar cedo, a se preparar e a partir para o desempenho de suas funções, independentemente da importância social. Enfim, as profissões se perpetuavam e se desenvolviam à medida que a sociedade evoluía e suas necessidades aumentavam. E por que isso acontece? (TEIXEIRA; RIBEIRO, 2017 p. 11). Podemos responder a essa pergunta a partir de três perspectivas: religiosa, econômica e psicológica. 37ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Imagem 1.8 - Trabalho artesanal Fonte: Freepik. A Perspectiva Religiosa Segundo a religião, o trabalho é a forma mais pura e simples de alcançar a remissão dos pecados. Sem trabalho, não há como conquistar o Reino dos Céus; e, quanto mais pesado e sofrido for, maior será a compensação celeste. Acreditava-se que o ócio era propício para o mal e o pecado e que as pessoas deveriam viver segundo o exemplo de Cristo: trabalhar e servir. Para a Igreja, o trabalho é um caminho valioso para a salvação e a valorização da vida, fazendo-se útil e servil em reconhecimento à obra de Deus. Ao ser útil, o homem se sente feliz, próspero e realizado (TEIXEIRA; RIBEIRO, 2017). https://www.freepik.com/free-photo/concentrated-shoemaker-workshop-making-shoes_7573214.htm 38 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 SAIBA MAIS Para saber mais sobre a evolução do trabalho, acesse o link seguinte. Disponível abaixo. O desenvolvimento da organização social do trabalho implicou alterações profundas do seu valor filosófico, surgindo novas formas de organização do trabalho e dos trabalhadores, de normas trabalhistas e de estrutura de trabalho. Perspectiva Econômica Sob a perspectiva econômica, o trabalho é a fonte que gera recursos para a manutenção da vida e da sociedade. Aproxima- se da materialidade, da aquisição, da posse e do poder. Visto como uma relação de troca em que nem sempre as duas partes se sentem satisfeitas, o trabalho caracteriza a venda da força e da capacidade do sujeito. Para Marx (1993), o trabalho pode ser representado pelo know how de transformar a natureza em prol do benefício e do suprimento das vontades humanas (TEIXEIRA; RIBEIRO, 2017). A perspectiva econômica do trabalho engloba a busca pelo capital para a apropriaçãoe a expansão dos rendimentos. As economias dos Estados atuam como instrumento político e facilitador econômico para produção do capital. O mercado globalizado alargou as fronteiras de atuação geográfica, promovendo inovações, desregulamentação e liberalização comercial alcançando níveis globais. https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-do-trabalho/o-trabalho-e-sua-ressignificacao-ao-longo-de-historia/ 39ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 O trabalho tem o propósito de geração de recursos para o indivíduo e impacto positivo no sistema produtivo e na sociedade em geral. Imagem 1.9 – Capitalismo ligado ao emprego Fonte: Freepik. Perspectiva Psicológica Sob a perspectiva psicológica, o trabalho é responsável pela sensação de pertencimento. Somos reconhecidos no ambiente profissional a partir de nossas aptidões. A habilidade é o conjunto de aptidões que controla nossa individualidade, que nos destaca e nos faz compor um grupo social. As habilidades podem ser estritamente técnicas, cognitivas e emocionais. As competências têm forte impacto na força de trabalho. Por competência, compreendemos o conjunto de habilidades e conhecimentos relacionados a uma área, aprendidos e desenvolvidos por meio de estudo teórico, treinamento https://br.freepik.com/vetores-gratis/empresario-executado-sobre-notas_1076084.htm#query=capitalismo&position=39 40 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 e experiência prática, possibilitando a atuação efetiva em um trabalho, uma função ou um ofício. Já a capacidade se refere a um conceito mais subjetivo relativo ao potencial, ao conhecimento inato, que também pode ser fruto de aprendizado. O bem-estar e a sensação de realização profissional agem, diretamente, na manutenção da autoestima e na saúde psicológica do sujeito, já que, a partir do valor que se recebe pelo trabalho prestado, tornam-se possíveis as experiências em sociedade, a aquisição de bens e serviços e a segurança financeira (TEIXEIRA; RIBEIRO, 2017). O trabalho não representa somente um instrumento gerador de recursos financeiros para aquisição de bens, mas também é uma fonte de satisfação e realização pessoal (ou de frustração, se for o caso), impactando, diretamente, a qualidade de vida do indivíduo. Modernamente, a acepção psicológica do trabalho vem ganhando mais relevância e influência na atuação prática, no planejamento e nas escolhas de vida dos indivíduos, tendo em consideração que a qualidade de vida está relacionada à qualidade do trabalho e do ambiente profissional. Imagem 1.10 - Satisfação e depressão no trabalho Fonte: Freepik. https://br.freepik.com/fotos-premium/salientou-o-jovem-empresario-sentado-no-local-de-trabalho-no-escritorio_3149700.htm#page=1&query=%20depress%C3%A3o%20no%20trabalho&position=5 41ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 As implicações no laboro público Certamente, diante dessas três perspectivas, muitas pessoas pensam que podem “atingir” duas com segurança frente à estabilidade de um concurso público e a sensação de não cobrança, proteção e impunidade por morosidade, ingerência e mau serviço prestado. Esse é um pensamento que vem sendo construído por décadas e, mesmo com a Reforma do Estado e seu propósito de desburocratização, ainda se reproduz em grande parte da máquina do Estado. Entretanto, a tecnologia, a internet e as redes sociais hoje expõem, cada vez mais, as falhas e as ausências dos serviços prestados, mobilizando, em pouco tempo, uma massa sedenta por punições. Mesmo que, muitas vezes, sem base e veracidade, as pessoas têm fiscalizado os serviços e sua eficiência. Oliveira (2014) explica que as responsabilidades e a forma de gestão da administração pública são complexas e requerem conhecimento para que seja possível saber de quem cobrar. A estrutura administrativa dessa forma de gestão é dividida em duas partes: a administração direta e a administração indireta. A administração pública indireta conta com quatro subáreas que, juntas, apoiam a máquina do governo e fazem com que os serviços sejam prestados e mantidos. 42 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Classificação dos agentes públicos A classificação dos agentes públicos é importante para compreender a organização da administração pública e o desempenho de sua função. A lei de improbidade administrativa (Lei n.º 8429/92) define o agente público como o agente político, o servidor público e todos os que exercem cargo, emprego ou função pública. Os agentes públicos podem ser agentes políticos, agentes administrativos, agentes honoríficos, agentes delegados e agentes credenciados. Os agentes políticos compõem o governo para desempenhar as funções que lhes foram atribuídas. Os agentes políticos incluem os membros do Judiciário, do Ministério Público e do Tribunal de Contas; os representantes diplomáticos; e as demais autoridade que atuam com independência funcional nas atribuições governamentais distintas das do serviço público. Essa classificação não é pacífica, pois, no entendimento do STF, os membros do Tribunal de Contas são agentes administrativos, e não políticos, uma vez que ocupam cargos administrativos. Os agentes administrativos são considerados servidores públicos em sentido amplo. Os agentes administrativos são os que prestam serviço ao Estado e à administração indireta, com vínculo empregatício e remuneração paga com dinheiro público. Sendo assim, entendem-se como agentes administrativos os prestadores de serviço da administração direta e indireta. Nessa classe, estão incluídos servidores públicos, empregados públicos e servidores temporários. Vejamos a distinção entre esses. 43ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Servidores públicos: são os servidores em sentido estrito, com regime estatutário e titulares de cargo público, como um analista judiciário. Empregados públicos: são aqueles com vínculo contratual com a administração pública, majoritariamente com regras de Direito Privado e regime celetista, como agentes de Caixa Econômica Federal. Servidores temporários: são aqueles contratados para atender a uma necessidade temporária de interesse público; têm regime especial e vínculo com a administração não celetista, como agentes do Censo do IBGE. IMPORTANTE A expressão “funcionário público” está em desuso pela legislação desde a Constituição Federal de 1988. Contudo, ainda está presente nas legislações que precedem a Constituição e ainda estão vigentes. Mais acurada é a expressão “servidor público” para designar o servidor público em sentido estrito. Agentes honoríficos: são cidadãos convocados, nomeados ou designados; são servidores transitórios para atuação em serviço público relevante específico, sem vínculo ou regime estatutário. Não são considerados servidores públicos, portanto estão excluídos do artigo 37 da Constituição, salvo para fins penais, em que são equiparados aos servidores públicos. Exemplos de agentes honoríficos são os mesários das eleições. Agentes delegados: são os particulares contratados para a execução de obra, atividade ou serviço público específico; não têm vínculo com a administração pública e atuam em nome próprio, como os concessionários. 44 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Agentes credenciados: são os que representam a administração pública em ato ou atividade específica com remuneração. A estrutura da Administração pública é composta por Estado (União), estados, Distrito Federal e municípios; e se organiza em administração direta e indireta. Como vimos, gestão pública é o ato de administrar, organizar e planejar as organizações públicas na defesa do interesse público. A administração pública se refere à estrutura organizacional, englobando órgãos, agente e patrimônio público. Vejamos a Figura 11. Imagem 1.11 – Estrutura administrativa da gestão pública Fonte: Oliveira (2014, p. 4). 1. ADMINISTRAÇÃO DIRETA: conjunto de instituições e unidades organizacionais de cada um dos poderes da União, dosestados e dos municípios. 2. ADMINISTRAÇÃO INDIRETA: compreende as instituições com personalidade jurídica própria, criadas para realizar atividades governamentais de forma decentralizada. 45ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 A administração Indireta funciona a partir da conjunção de quatro subáreas. a. Autarquias: a prestação de serviço é de caráter autônomo, seguindo leis criadas a partir de personalidade jurídica de direito público, com a finalidade de proporcionar legalidade na descentralização dos serviços. b. Empresas públicas: corporações de personalidade jurídica de direito privado com patrimônio próprio e capital exclusivo da União (se Federal) com a finalidade de exploração econômica. c. Sociedade de economia mista: corporação de personalidade jurídica de direito privado em razão de autorização legislativa e devidamente registrada em órgão próprio, visando à exploração econômica e agindo como autônoma, com ações, em sua maioria, a favor dos interesses da União ou da administração indireta. d. Fundações públicas: corporações dotadas de personalidade jurídica de direito privado sem fins lucrativos; têm autorização legal e são dotadas de autonomia administrativa; têm patrimônio próprio, mas com funcionamento custeado por recursos da União (OLIVEIRA, 2014). 46 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 RESUMINDO Quando usamos a expressão “administração pública”, envolvemos agentes como o servidor público concursado, um profissional da administração pública e, ainda, um colaborador da administração pública que presta serviços por meio de entidade pública, órgão público, corporação pública ou instituição pública. Estudamos como o trabalho, em suas diferentes perspectivas, organiza-se na administração pública; e como o trabalho no setor público deve seguir um regramento próprio e específico. A distinção entre agente público e agente político, conforme a Lei de Improbidade (Lei n.º 8429/92), indica que a categoria servidor público engloba todos que exerçam cargos, empregos e funções públicas. A classificação clássica dos agentes públicos consiste em agentes políticos, agentes administrativos, agentes honoríficos, agentes delegados e agentes credenciados. Os agentes políticos compõem o governo para desempenhar as funções que lhes são atribuídas. Vimos, também, que a atuação da administração pública se divide em dois tipos: direta e indireta. 47ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Peculiaridades da Administração Pública Brasileira OBJETIVO Ao término deste capítulo, você entenderá que a origem da administração pública brasileira não foi diferente da de outros países. Você compreenderá que diversas culturas influenciaram nossos modelos e sistemas, sendo que, até atualmente, sofremos reflexos, principalmente, da economia mundial frente às tomadas de decisão e aos movimentos legais dessa administração pública. Você verá, também, que, certamente, não há como um país ser governado isoladamente e alheio aos movimentos mundiais. Ainda, serão compreendidas as influências anteriores, seguindo com os modelos de gestão desenhados e adotados pelos governos. 48 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 O passado e a construção dos modelos de gestão No começo do século XX, com a consolidação da Segunda Revolução Industrial, fundados nas abordagens da administração, foram registrados os primeiros indícios de modelos de gestão realmente voltados à eficiência produtiva. Todavia, a construção desses modelos de gestão, que, ainda hoje, têm admirável importância, contaram com considerável influência de importantes filósofos, cujas teorias e descobertas assinalaram marcas na evolução e na consolidação das abordagens administrativas do mundo moderno. Sem um maior aprofundamento nas bases teóricas dessas influências, destacam-se quatro importantes contribuintes. 49ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Quadro 3 - Filósofos que influenciaram os modelos de gestão. René Descartes (1596-1650) A sociedade industrial teve, em sua construção, inúmeras contribuições de Descartes, principalmente nas linhas da abordagem estrutural, que procurava, por meio da lógica matemática, uma explicação racional do mundo e da sociedade em geral. Segundo Srtathern (1997, p.89), Descartes compreendia, intuitivamente, “a concepção inequívoca de um espírito claro e formado exclusivamente pela luz da razão”; e deduzia ”a necessária interferência a partir dos outros fatos tidos como certos.” Mais tarde, criou a fórmula do método cartesiano, que se fez presente na abordagem mecanicista de administração. Francis Bacon (1561-1626) Com uma passagem pela sociedade industrial marcada por inúmeros questionamentos a respeito da frivolidade do conhecimento puramente técnico e isolado do contexto social, Bacon condenava o conhecimento dissociado da ação, julgando-o uma manifestação sem lógica. Levantou a bandeira da utilização do método intuitivo e da experimentação. Na sua concepção, a indução foi marcada por duas vertentes em um mesmo segmento: a negação, que se constituía da libertação dos erros e dos preconceitos arrastados pelos indivíduos em determinada sociedade; e a construção, que era a descoberta da verdade comprovada pela ciência. Progressivamente, os experimentos de Bacon foram marcando, com considerável importância, a abordagem científica da administração.considerável importância, a abordagem científica da administração. Isaac Newton (1642-1727) Amplamente conhecido pela lei da gravidade, Newton também deu sua contribuição para a consolidação da ciência da administração moderna, principalmente trouxe outras respostas aos acontecimentos sociais e naturais que não eram puramente religiosas. Reverenciado, também, pelos estudos na área da tecnologia, da metafísica, da filosofia e da alquimia, Newton ajudou a introduzir na sociedade uma abordagem estrutural da administração, voltando as teorias de gestão a um caráter humanista, marca da sociedade industrial. 50 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Sócrates (399 A.C) Sócrates contribuiu, vastamente, com suas ideias na composição da chamada “teoria humanista.” Seu objeto de estudo não se baseava nos conflitos particulares dos indivíduos, e, sim, no conceito do processo dialético, que gerava, segundo ele, o fenômeno da indução. Esse fenômeno seria capaz de conduzir a consciência a um todo compreensível, resultando em um padrão de comportamento e previsibilidade. Fonte: Elaborado pela autoria com base em Ferreira et. al (2006). Três tipos de abordagens que constituíram a administração moderna Compreendidas as nossas influências pretéritas, seguiremos com os modelos de gestão desenhados e adotados pelos governos. Abordagem estrutural Em meados do século XIX, o Modelo Clássico de Administração imperava nas organizações, totalmente voltado ao poder produtivo das máquinas. Isso deu início à gerenciabilidade baseada na lógica mecanicista. Os trabalhadores ideais eram aqueles que incorporavam as características das máquinas: estabilidade, padronização, previsibilidade e passividade. Esses foram alguns dos fatores que contribuíram, pesadamente, para a desumanização do trabalho. 51ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Consequentemente, ligada a esses fatores no início do século XX, surge a abordagem mecânica. Os trabalhadores eram vistos como uma peça necessária aos processos de produção. Alguns dos pontos críticos da abordagem mecanicista se fazem presentes nas organizações em pleno século XXI. • Visão limitada do ser humano. • Abordagem limitada das organizações. • Propostas prescritivas e generalizantes. Entretanto, é inegável a importante contribuição da abordagem mecânica para o desenvolvimento social, envolvendo o notável desenvolvimento tecnológico e social. Também contribuiu para basear algumas das concepções de modelos de gestão utilizados, hoje, de forma mais racional e eficaz. Aindacomo um modelo de abordagem estrutural, destaca- se o Modelo Burocrático Organizacional. Caracterizado pela burocratização e pelo autoritarismo patriarcal e patrimonialista, esse modelo firmou-se como um modelo básico entre a maioria das organizações no século XX, principalmente por estar se desenvolvendo na Era Industrial, marcada pela criação do funcionalismo público. O poder designado ao funcionário estava ligado, diretamente, ao cargo ocupado, não à pessoa designada. Nesse modelo, a especialização e o treinamento profissional são fatores dispensáveis, privilegiando a eficiência e a qualidade adotada por padrões universais em todas as ações das organizações, internas ou externas. Suas principais características são separação entre propriedade e administração, caráter legal de normas e regulamentos das instituições, hierarquia da autoridade, impessoalidade das relações, rotinas e procedimentos padronizados, competência técnica e meritocracia. 52 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Finalmente, encerrando a abordagem estrutural, outra forma de administração foi chamada de teoria da decisão. Foi defendida, calorosamente, pelo estudioso Herbert Simon, que definia as organizações como um claro resultado de tomada de decisões. Herbert criticou, duramente, as teorias anteriores por julgá-las, erroneamente, resumidas às ações de seus sujeitos, sem perceber que ações são consequências de decisões. Com suas falhas, essa, também, foi uma teoria ultrapassada pela administração moderna, principalmente porque limitava e padronizava o caráter humano das organizações. Abordagem humanística Amplamente divulgada após a experiência de Hawthorne, a Abordagem Humanística desenvolveu novos modelos de gestão, chamados, a partir de então, de modelos de gestão humanizados. Hawthorne cresceu em um bairro da cidade de Cícero, em Illinois, nos Estados Unidos que abrigava a fábrica de relés telefônicos da Western Electric Company. Apesar de oferecer bons salários e boas condições de trabalho, essa empresa estava insatisfeita com a produtividade de seus empregados. Em 1927, liderada pelo professor Elton Mayo, uma equipe de Harvard desenvolveu, durante cinco anos, uma pesquisa e algumas experimentações baseadas em fatores biológicos e físicos no setor de produção da fábrica. Porém, mesmo após algumas mudanças físicas no setor de produção, havia um fator, até então desconhecido, que apresentava efeitos contraditórios. Para desenvolver a pesquisa, a equipe separou determinado grupo de operárias e aplicou a esse grupo ações em caráter de experiência. Uma dessas ações foi a redução da jornada de trabalho. 53ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Tão logo a experiência foi tomando forma, os índices de produtividade desse grupo aumentaram significativamente. Mesmo com o retrocesso do grupo à jornada antiga de trabalho, os índices de produtividade não baixaram. Observou-se, então, que as operárias destacadas para os experimentos se sentiam supervalorizadas e prestigiadas pelo interesse dos estudiosos e da direção da empresa, motivando-se a desempenhar um papel mais significativo em seu posto de trabalho. Também se observou que, dentro desse grupo, alguns grupos informais se formavam, liderados pelas operárias que, de certa forma, destacavam-se por características pessoais e espírito de liderança que aos poucos iam se desvendando, resultado da ausência da supervisão excessivamente rígida imposta a elas. A partir daí, os fatores psicológicos na produção passaram a ocupar um lugar de destaque no planejamento das organizações. Observou-se que uma organização não se caracteriza somente por plano formal, regras, normas, procedimentos e rotinas, mas também se constitui por meio de seus aspectos informais, como a cultura organizacional e seus grupos de afinidades. Nesse sentido, é correto afirmar que não é somente uma remuneração satisfatória que garante o rendimento do trabalhador, mas também as pessoas são motivadas por fatores psicológicos, como a necessidade de reconhecimento, a aprovação social e a efetiva participação no grupo social em que vivem. Apesar de a experiência de Hawthorne ter sido, mais tarde, severamente questionada e criticada por alguns estudiosos sociais, definitivamente instituiu um marco nas relações humanistas no trabalho. Para entendermos melhor os conceitos que constituíram a abordagem humanista, vamos observar alguns autores que 54 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 tiveram significativo destaque nas bases teóricas desse modelo de gestão. Quadro 4 - Quadro das influências no modelo de gestão humanista Mary Parker Follett (1868-1933) Questionou extensivamente os métodos de imposição da autoridade, enfatizando a importância da tarefa a ser exercida e não do poder empregado na delegação e execução dessa tarefa. Dedicou-se a desvendar os conflitos entre as diferentes camadas hierárquicas de uma mesma organização, enfatizando que a melhor forma de resolver os conflitos era através da integração e não da dominação ou da concessão como na abordagem estratégica. Abordou a importância de gerenciar o poder voltando-o para a unificação de um grupo e não pela sobreposição de um indivíduo sobre o outro. Basicamente, ela propunha a união das diversas qualidades que cada indivíduo possuía, formando um todo poderoso. Era o “poder com” e não o “poder sobre”. Despertou um olhar holístico sobre mmo desempenho dos trabalhadores. Ela entendia a separação do indivíduo como ser espiritual e ser social como um dualismo fatal para as organizações. Rensis Likert (1903-1981) Voltado a estudar os modelos de sucesso de liderança, concluiu que o sistema de melhor desempenho é o sistema participativo. Destacou a importância de um eficiente fluxo de comunicação entre subordinados e superiores. Evidenciou a forma participativa como a que obtém os melhores resultados. Assinalou a importância da busca pelo bem-estar dos indivíduos e as melhores condições de trabalho. Salientou o sucesso na integração entre planejamento conjunto e coordenação de esforços, intercâmbio de informações e o desejo de atingir objetivos como reforços positivos no contexto organizacional. Reforçou a importância do relacionamento inter e intrapessoal nas organizações, assim como, a afirmação da cultura organizacional. 55ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Douglas McGregor (1906-1964) Desenvolveu uma teoria de interpretação básica da natureza humana até hoje seguida por muitos gerentes. Dividiu essa teoria em dois segmentos: Teoria X baseada em valores conservadoristas típicos da abordagem estrutural e a Teoria Y calcada nos pensadores humanistas. Teoria X: • O operário típico não gosta de trabalhar e evita ao máximo o esforço produtivo. • Os empregados devem ser coagidos, controlados e ameaçados com punições para que trabalhem de acordo com os padrões de produtividade exigidos. • A maior parte das pessoas evita assumir responsabilidades no ambiente de trabalho. • Os trabalhadores colocam a segurança acima de tudo e possuem pouca ambição. Teoria Y: • A maior parte das pessoas encara o trabalho de forma tão natural como a alimentação e o descanso e pode obter satisfação na atividade produtiva. • Os trabalhadores são capazes de exercer autodireção e autocontrole, não precisando, assim, de uma supervisão rígida para cumprir as normas e padrões de produção. • As pessoas, em geral, aceitam as responsabilidades que lhes são confiadas se estiverem comprometidas com os objetivos a perseguir. 56 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Abraham Harold Maslow (1908-1970) Voltou suas teorias ao estudo da motivação: • “Qualquer comportamento motivado é um canal pelo qual diversas necessidades podem ser expressas ou satisfeitas simultaneamente. Cada ato costuma possuir mais de uma motivação.” • “O estudo da motivação deve concentrar-se nos objetivos finais das pessoas e não em seusobjetivos intermediários, que nada mais são do que meios para atingir os objetivos finais.” • “As necessidades humanas estão hierarquizadas segundo o seu valor. Assim, a manifestação de uma necessidade baseia-se, geralmente, na satisfação prévia de outra mais importante ou premente. Nenhuma necessidade deve ser tratada como se fosse isolada, uma vez que todas se relacionam com o estado de satisfação ou insatisfação de outras necessidades.” Frederick Herzberg (1923 - 2000) Segundo Frederick, motivação e desmotivação não são extremos opostos de uma mesma dimensão, mas sim faces de uma mesma determinada organização. As organizações devem buscar enriquecer as tarefas designadas aos seus trabalhadores, fazendo com que esses se sintam reconhecidos pelo trabalho que exercem. A concessão de alguns benefícios como salário, status ou segurança são fatores importantes numa organização, mas não são fatores motivacionais. É necessário que se dê uma constante atenção a fatores como reconhecimento, responsabilidade e desenvolvimento individual, para que os trabalhadores se sintam motivados. 57ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Warren Bennis (1925 - 2014) Bennis defendia que cada modelo de administração foi importante ao seu tempo e que eles só foram criados porque a necessidade da sua forma era inevitável dentro do contexto em que ela se encontrava. Assinalando que as mudanças foram se fazendo necessárias devido às condições emergentes no hemisfério organizacional, tais como: • Mudanças rápidas e inesperadas às portas do mundo moderno. • Aumento das dimensões das organizações. • Crescente diversidade. • Mudança no comportamento gerencial devido às perspectivas humanistas. Chester Barnard (1886-1961) Destacou o papel da tomada de decisão como centro da administração. Reforçou que o esforço cooperativo era a chave para o sucesso organizacional e eficácia administrativa. Formulou a “teoria da aceitação de autoridade” abordada por Mary Follett. Assinalou dentro dessa teoria que a eficácia da gestão consiste na capacidade do gerente de obter legitimação de sua autoridade com os seus subordinados. Sua posição era de que a verdadeira fonte de poder do executivo não é sua posição hierárquica e sim sua aceitação pelos trabalhadores. Fonte: Ferreira et. al (2006, [n.p.]). 58 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Nesse sentido, entendemos a abordagem humanística como uma transformação necessária da forma como as organizações operavam a gestão de pessoas; agora, não só limitada a processos burocráticos de seleção de trabalhadores, treinamentos práticos, controles de pagamento e frequência, como na visão clássica e mecanicista, mas como uma gestão humanizada, destacando valores da dignidade humana, observando o trabalhador como um ser social composto de sentimentos (visão holística) e que precisa ser motivado independentemente do ambiente em que atua. Essa abordagem também sofreu críticas e teve expostas suas falhas. Sua radical oposição aos procedimentos da escola clássica a cegou para as vertentes construtivas das teorias de racionalização dos processos produtivos. As teorias comportamentais foram acusadas de ter uma visão romântica dos conflitos administrativos, imaginando que a adoção de uma gestão mais humana atenderia, por si só, às necessidades dos trabalhadores. A teoria humanista acabou acusada de manipular os trabalhadores. Muitos críticos evidenciaram que a supervalorização do empregado era nada mais do que uma máscara dos verdadeiros interesses capitais. Abordagem interativa Após a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente na década de 1950, houve uma grande transformação no cenário econômico, e o mundo se viu às portas de grandes transformações, sobretudo no âmbito industrial. O grande e crescente desafio de gestão estava nos sistemas burocráticos do início do século, que 59ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 se instalavam, rapidamente, nos sistemas de produção depois das descobertas tecnológicas do período da guerra. A introdução de novos produtos instalou um novo desafio à economia do mercado: a competição. Explodiu uma vasta transformação em toda a sociedade: arte, cultura, literatura, música, religião e política sofriam transformações alavancados pelo surgimento de formas de comunicação que consolidavam o consumo em massa. O consumo desenfreado foi um forte propulsor das formas clássicas gerenciais. Os limites de ideias, de eficiência dos modelos burocráticos, das autonomias organizacionais e, principalmente, dos recursos naturais eram um entrave indigesto do mundo capital, e as organizações precisavam mudar. Ao observar melhor os sistemas sociais em que estavam inseridas, as organizações começaram a modificar, gradativamente, suas formas de se gerenciar, optando por um trabalho simultâneo entre os diversos tipos de estruturas e suas concepções organizacionais. Então, observamos as organizações como um sistema sociotécnico: os padrões organizacionais não dependiam somente de abstratos critérios técnicos, mas se encontravam relacionados, fortemente, com realidades dos sistemas sociais em que estão inseridos (FERREIRA et. al, 2006). Em contrapartida, surgem as organizações como sistemas abertos, consistindo em duas abordagens na realização de uma mesma tarefa: o trabalho executado de acordo com a interação própria de cada campo do conhecimento e a construção hierárquica de sistemas relacionados às complexidades dos conjuntos desse conhecimento. 60 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Imagem 1.12 - Sistema aberto: organização como um sistema incluso em outro sistema representado pelo ambiente social (supersistemas) Fonte: Teixeira e Ribeiro (2014, p. 44). Outro fator de destaque dentro da teoria sistêmica é a importância da cultura e do clima organizacional. Na cultura, refletem-se todas as influências tanto do sistema formal, com suas normas e mecanismos burocráticos, quanto da reinterpretação dessas influências pelo sistema informal. A teoria da contingência também apareceu dentro desse modelo de abordagem administrativa por volta das décadas de 1960 e 1970 juntamente com a expansão dos modelos japoneses de produção, de sistema organizacional e de suas características mais orgânicas. Abaixo, a quadro 6 resume bem as diferenças de cada modelo de abordagem. Quadro 6 - Diferentes modelos de abordagem administrativa Características básicas de cada abordagem Mecânica Orgânica Ambiente Tarefa Controle Autoridade Participação Comunicação Estável Padronizada Regras e regulamentos Centralizada Obediência Vertical Instável Mutante\emergente Maior fluidez Descentralizada Solução de problemas Informal\mais horizontal Fonte: Brasil (2010, p. 30). 61ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Existe um consenso na literatura e nas práticas contemporâneas de que se baseiam em três pontos fundamentais a serem destacados no processo de formação da função gerencial estratégica. 1. Organizar a ação gerencial sob todos os níveis: não deixar de observar as oportunidades e as ameaças que vagueiam em torno do ambiente externo, refletindo-se no ambiente interno, que podem ser fatais para o sucesso das organizações. 2. Todas as organizações são constituídas a partir de uma razão ou um negócio: só conseguirão sobreviver se processarem um modo eficiente em suas estruturas destinado a produzir ações, relevantes a seu ambiente externo, assim como suas influências. 3. As organizações não devem deixar de dar atenção à dimensão das necessidades de integração e de alinhamento das estruturas organizacionais. Os estudos acerca da abordagem integrativa contribuíram para a consolidação da gestão de pessoas nas organizações, assim como possibilitou a ampliação dos setores, atribuindo-lhes novas funções, como planejamento e o processo de recrutamento e seleção, a avaliação de desempenho e o treinamento de pessoal. Agora, as ações têm referências nãosó psicológicas e sociais, mas voltadas à relação entre ambiente interno e externo. As teorias modernas de gestão buscam previsibilidade, produtividade, expansão de habilidades e competências, harmonia, ajustamento, satisfação pessoal etc. A dialética socrática, assim como as teorias citadas, influenciou, vastamente, os estudiosos e os arquitetos da construção de um modelo administrativo mais completo e capaz de suprir as necessidades tanto das organizações como das pessoas envolvidas nesse processo. 62 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 Obviamente, não existe um modelo permanente, muito menos soluções universais que constituam o cerne da gestão ideal. É de extrema importância relembrar que as organizações estão, invariavelmente, expostas a ramos de negócio e a contextos políticos e econômicos distintos, refletindo-se, diretamente, no comportamento social. Os fatores humanos são de grande influência no desempenho das organizações, e esse desempenho está sujeito a alterações constates. A história e a convergência com os modelos brasileiros Obviamente, ao longo das décadas, a forma de gestão e administração pública foi se modificando e se adaptando às necessidades que apresentadas pela sociedade e pela economia. A cada nova “adaptação”, irrefutavelmente, a forma de exercer e oferecer os serviços à sociedade precisava se reorganizar, e esse processo se findava com lentidão na execução e nas dificuldades na oferta do serviço. Vejamos, agora, alguns ciclos vividos pela economia e pela sociedade brasileira que impulsionaram a adoção e o abandono de processos administrativos que contribuíram para o rótulo de ineficiência e descrédito de alguns discursos. Comecemos pelo período de 1890 a 1930, conhecido como Era do Coronelismo ou Estado Oligárquico. As questões sociais eram tímidas e tratadas apenas por seu caráter religioso, o que incentivou os primeiros movimentos sociais no país. Entre 1930 e 1950, o Brasil viveu um importante movimento na administração pública, principalmente pela estatização da economia resultante dos processos de empresas controladas pelo Estado. O objetivo 63ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 era descentralizar os processos, criando estruturas paralelas de gestão, o que acabou engessando e instituindo os movimentos burocráticos e lentos da administração pública. Esse período também conta com marcos históricos para o trabalho no Brasil: a Consolidação dos Direitos Trabalhistas, o aprimoramento do ensino público e a promulgação da Constituição de 1946. Temos a “Era Vargas”, populista e clientelista. Entre 1950 e 1980, os modelos de ensino brasileiros marcam a história do trabalho tanto no setor privado como no setor público. O ensino, melhorando as exigências pela prestação de serviço, também aumentava. É importante lembrar que, entre as décadas de 1960 e 1980, houve o controle do Estado pelo regime militar, que privilegiou a previdência social, a educação, a habitação e a reforma administrativa de 1967, que visava a minimizar os efeitos burocráticos das gestões anteriores. Já no fim da década de 1980, com a promulgação da Constituição de 1988, os processos que vinham acelerando a gestão voltam a ficar engessados, principalmente pela retirada de poder do Executivo. Desde então, até meados de 2010, várias tentativas de realizar uma reforma administrativa vêm sendo operadas sem grandes conquistas e consolidando a imagem de ineficiência, falta de qualidade e descaso dos sistemas de serviços públicos em geral. 64 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 RESUMINDO Estudamos os principais modelos e filósofos que influenciaram a gestão pública e abriram caminhos para o que temos hoje. Você viu que, no começo do século XX, com a consolidação da Segunda Revolução Industrial, foram registrados os primeiros indícios de modelos de gestão realmente voltados à eficiência produtiva. Você aprendeu que a abordagem humanística foi uma transformação necessária da forma como as organizações operavam a gestão de pessoas. As teorias comportamentais foram acusadas de ter uma visão romântica dos conflitos administrativos, imaginando que a adoção de uma gestão mais humana encerraria, por si só, as necessidades dos trabalhadores. Estudamos a abordagem integrativa e, ainda, os três pontos fundamentais que formam a função gerencial estratégica, a história e a convergência com os modelos brasileiros. 65ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA U ni da de 1 BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [1988]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em: 28 mar. 2023. 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RE FE RÊ N CI A S http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://financaspublicas.files.wordpress.com/2010/03/imagem1.jpg https://financaspublicas.files.wordpress.com/2010/03/imagem1.jpg Origem dos Princípios da Administração Pública Administração Pública Base nos Princípios para Construção da Eficiência Princípio de legalidade Princípio da impessoalidade Publicidade de obras e ações da máquina administrativa governamental Princípio da moralidade Princípio da publicidade Princípio da eficiência A Reforma do Estado e a Modernização do Setor Público Gestão Pública Diagnosticando o Estopim da Reforma Os objetivos da reforma Ampliação da governança do Estado Limitação da ação do Estado Transferência da União para os estados e municípios em caráter local Transferência da União para os estados e municípios em caráter regional As estratégias para a reforma O Trabalho na Administração Pública A Perspectiva Religiosa Perspectiva Econômica Perspectiva Psicológica As implicações no laboro público Classificação dos agentes públicos Peculiaridades da Administração Pública Brasileira A história e a convergência com os modelos brasileiros Três tipos de abordagens que constituíram a administração moderna Abordagem estrutural Abordagem humanística Abordagem interativa O passado e a construção dos modelos de gestão