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PA GE \* ME FILOSOFIA GERAL AULA 1 INTRODUÇÃO – A FILOSOFIA I. O CONHECIMENTO. A CIÊNCIA. - Necessidade de conhecer em geral. 1. «Todo o homem, diz Aristóteles no princípio da sua Metafísica, deseja naturalmente saber» (Met. I, 1). De fato, a curiosidade é uma inclinação irresistível; todos, sábios e ignorantes queremos conhecer a verdade e evitar o erro. «Todos os homens se regozijam com a verdade; conheci muitos que quisessem enganar; nenhum que quisesse ser enganado» (S. Agostinho). 2. Esta inclinação é inata e radicalizada na natureza humana. “Curiosum nobis natura ingenium dedit”, (A natureza nos deu uma mente curiosa) diz Sêneca. A educação e o hábito podem desenvolvê-la sem dúvida, especializá-la e, sobretudo dar-lhe um objeto digno de nós; mas a fonte e origem dessa inclinação está na nossa natureza inteligente. 3. O desejo de saber é desinteressado. Amamos a verdade por si mesma, independentemente das vantagens que nos pode acarretar. Por isso que a verdade é o objeto próprio e o alimento natural e necessário do nosso espírito. Buscá-la é a sua lei; contemplá-la, a sua satisfação. Se alguém diz que a lei das inteligências não é distinta da dos corpos vivos, que para se manterem precisam de alimento contínuo, pode-se responder que todavia, há uma diferença: a inteligência, não podendo saciar-se nunca, vê crescer o desejo da verdade à medida que cresce o saber. - Necessidade de conhecer as coisas pelas suas causas. 1. O homem não se satisfaz com um conhecimento qualquer. Não lhe basta saber que existe uma coisa, que se deu um fato; aquilo que é como diz Aristóteles, não o satisfaz; quer saber o como, o porquê, numa palavra, quer compreender, dar a razão das coisas; O Ser Humano é um animal inquieto em busca das causas. 2. Com efeito, o homem é essencialmente racional: ora, a razão sente a necessidade de conhecer o porquê das coisas, isto é, as causas e os princípios. Por isso que estranhamos ao ver uma coisa que não compreendemos. A estranheza é o mal-estar da razão privada do seu objeto. Desta necessidade é que nasce a Ciência. 3. A Ciência é o conjunto de verdades certas e gerais, metodicamente ligadas entre si, pelas causas e pelos princípios. Mas, depois de ter explicado e classificado certo número de seres e de fatos, o homem sente ainda a necessidade de ligá-los entre si, e de formar um sistema geral das causas: Este é o trabalho da Filosofia. II - A Filosofia PA GE \* ME § 1. -Objeto da Filosofia. 1. As ciências particulares podem abranger toda a realidade em extensão, mas estão bem longe de esgotá-la, pois se limitam às causas próximas, contentam-se com a resposta aos primeiros porquês. Ora, o espírito humano não cessa de formular as suas perguntas enquanto não alcançar a razão última, que explica tudo, que tudo unifica; só então se declara satisfeito. 2. A Filosofia pretende responder a esta exigência superior da razão humana; por isso pode definir-se com Aristóteles: A ciência dos primeiros princípios e das primeiras causas; com S. Tomás e toda a Escolástica: Scientia rerum per altíssimas causas(Conhecimentos das coisas pelas causas mais profundas); - Descartes ensina: O conhecimento da verdade pelas causas primeiras. Mas isto não passa de definições abstratas. Quais são na realidade as primeiras causas, e por que degraus consegue a Filosofia elevar-se até elas? § 2. - As grandes divisões da Filosofia. 1. Toda a ciência tem por objeto reduzir a multiplicidade dos fenômenos à unidade da causa e da lei, a variedade das consequências à simplicidade do princípio; ora, este trabalho de redução e de coordenação é obra do espírito. A ciência do espírito, o conhecimento da alma humana, por outras palavras, a Psicologia será a primeira entre as ciências filosóficas. 2. Além disso, toda a ciência é conhecimento certo; e, para alcançar este objetivo, emprega métodos acomodados à natureza do objeto. A certeza, pois, condição de toda a ciência, e o método, o seu meio necessário, são ainda duas questões capitais que, apesar de interessarem todas as ciências particulares, de nenhuma são o apanágio exclusivo; pertencem de direito à Filosofia. Por isso vemos que todos os filósofos, desde Sócrates e Aristóteles até Bacon e Descartes, se ocuparam intensamente destes problemas, que constituem o objeto da Lógica. 3. As ciências inferiores ensinam-nos a conhecer os diferentes seres da natureza com os seus fenômenos e leis, mas nenhuma trata do uso que é necessário fazer deste conhecimento e destes objetos. É este um problema geral que se estende a todas as ciências e a todas as ações humanas e, por conseguinte, só a Filosofia pode resolver. É o objeto da Moral. 4. Finalmente, resta ainda resolver um último problema, para dar à nossa exigência de saber toda a satisfação de que é naturalmente susceptível. A alma, sujeito de toda a ciência, a matéria, princípio e teatro de todos os fenômenos físicos, e o universo inteiro, que origem, que natureza, que destino tem? - E, finalmente, o mesmo Deus, princípio absoluto destes seres relativos, que é ele, na realidade, que podemos nós saber dele? Tal é o objeto da Metafísica, a mais alta expressão da curiosidade humana, o supremo esforço da inteligência para a solução do problema universal. Por conseguinte, Psicologia, Lógica, Moral e Metafísica, são as quatro ciências que constituem a Filosofia. § 3. - O objeto da Filosofia reduzido à unidade. 1. Em primeiro lugar, a Metafísica abraça-as todas pela sua parte superior, reduzindo-as ao primeiro princípio, à causa suprema. a) Ela recebe a Lógica a verdade absoluta, origem e base de toda a verdade. PA GE \* ME b) Ela fornece à Moral as noções do soberano bem, fim último de toda a atividade; do soberano legislador, princípio de toda a lei e de toda a autoridade; do soberano juiz, distribuidor de toda a sanção. c) E finalmente a Psicologia oferece o complemento natural, desvendando-lhe a natureza, a origem e os destinos da alma. 2. Mas, se a Metafísica enlaça todas as ciências filosóficas pela sua parte superior, a Psicologia reúne-as pelas suas bases. “A ciência do espírito humano é a raiz das ciências filosóficas e o tronco que as nutre” (T. Reid). a) Com efeito, a Lógica e a Moral não são, na realidade, outra coisa senão corolários e dependências diretas da Psicologia; porque, depois de termos estudado as faculdades da alma com as suas leis e mecanismo, é impossível não nos preocuparmos com o seu funcionamento normal, e com as regras que hão de guiar a inteligência para a verdade, e a vontade para o bem. b) Por outra parte, conhecendo as aspirações e as exigências infinitas da alma humana, somos levados naturalmente à Metafísica; só esta nos pode ensinar onde se encontra a sua plena e completa satisfação. Vemos, pois, que se o objeto da Filosofia se pode reduzir à Metafísica, com igual direito se pode reduzir à Psicologia, isto é, ao estudo do homem, da sua natureza e dos seus destinos, e que esta é a base e o ponto de partida das ciências filosóficas, como aquela é o seu termo e coroa. Por isso, tomando-a no seu conjunto, pode dar-se esta definição concreta da Filosofia: A ciência que parte da alma humana para remontar-se até à causa primeira, até Deus; ou mais simplesmente: A ciência da alma, do mundo, de Deus e das suas relações. 3. Todos os grandes filósofos estão de acordo neste ponto: A sabedoria é, como definida pelos filósofos antigos, a ciência divina dos assuntos humanos. (Cícero, de Officiis). -S. Agostinho completava dizendo: Deixe-me conhecer-me, deixe-me conhecer você (Noverim me, noverim te). Sobre a sabedoria Bossuet dizia que ela consiste em conhecer a Deus e em se conhecer a si mesmo. Maine de Biran por sua vez dizia: “Os dois polos de toda a ciência humana, são a pessoa- eu donde tudo parte, e a pessoa-Deus onde tudo termina”. As diferentes partesda Filosofia podem se agrupar da forma seguinte: CIÊNCIAS PSICOLÓGICAS PSICOLOGIA, LÓGICA e MORAL. METAFÍSICA GERAL ONTOLOGIA. ESPECIAL COSMOLOGIA, PSICOLOGIA RACIONAL e TEODICÉIA. II RELAÇÕES ENTRE A FILOSOFIA E AS CIÊNCIAS A Filosofia, que domina e abarca todas as ciências pela sua parte superior, mantém, com cada uma delas, relações íntimas e profundas, que não se podem esquecer sem prejudicá-las a ambas; porque se todas as ciências precisam da Filosofia, a Filosofia, por sua vez, nada pode sem o concurso das outras ciências. 1. - As ciências precisam da Filosofia PA GE \* ME A Filosofia mantém com as outras ciências duas espécies de relações: relações gerais, comuns a todas as ciências, e relações especiais próprias de cada uma delas. § 1.-Relações gerais. 1. E em primeiro lugar, a Filosofia ensina ao sábio as regras, que deverá observar no emprego das faculdades, para conseguir o melhor resultado possível; - previne-o para não ceder precipitadamente a certas aparências de verdade, e leva-o a contentar-se com o gênero de certeza que as coisas permitem; - indica a cada ciência os processos mais seguros e mais breves para conseguir o seu fim. 2. Além disso, há certos princípios primeiros, certas noções fundamentais, que constituem a base e a condição de todas as ciências. Tais são os princípios de identidade, contradição, causalidade e finalidade; as ideias de número, extensão, força e tempo, para as ciências matemáticas; as ideias de matéria, substância, causa e lei, para as ciências físicas; as ideias de vida, gênero, espécie e tipo, para as ciências naturais; e, para as ciências morais e sociais, as ideias de bem, direito, dever, liberdade, autoridade, etc. Todos estes princípios e noções, que as ciências particulares aceitam confiadamente sem discutir, - se é que não se arrogam o papel da Filosofia, - à Filosofia pertence aprofundá-las, e investigar a sua natureza, origem e valor; este estudo, intermediário entre a Filosofia propriamente dita e cada uma das ciências particulares, constitui o que se chama a Filosofia dessa ciência. §2. - Relações especiais. Além destas relações gerais da Filosofia com todas as ciências, há outras de caráter particular, que unem mais intimamente determinadas ciências com alguma parte da Filosofia, de sorte que o conhecimento desta se torna necessário não somente à Filosofia dessas ciências, mas às mesmas ciências. 1. E assim, é evidente que o fisiologista, por causa das estreitas relações que unem o corpo à alma, terá particular necessidade das luzes da psicologia; e que é imperdoável um médico ignorar o influxo da imaginação e das paixões no cérebro e no sistema nervoso. Já o dizia Bacon: Medicina in philosophia non fundata rés infirma est (A medicina que não se baseia na Filosofia, é coisa fraca). Por isso completava Leibniz: “Oxalá se pudesse conseguir que todos os médicos filosofassem ou que os filósofos medicassem”. 2. Do mesmo modo, certo conhecimento da lógica e da psicologia é indispensável aos que são chamados por profissão a usar a palavra em público. “Para ser orador é preciso ter uma Filosofia” (Cícero), isto é, uma doutrina, uma convicção sobre Deus, sobre o homem e sobre os seus destinos. O mesmo vale para um escritor. “Antes de escrever, aprende a pensar” (Boileau). 3. E a ciência da moral não é acaso necessária ao político, ao estadista? Como se pode governar ignorando o último fim para onde devem tender os indivíduos e a sociedade? Concluímos que todas as ciências têm necessidade da Filosofia. Hoje, mais do que nunca, quando o sábio se vê obrigado, sob pena de não passar de superficial, a confinar-se numa especialidade cada vez mais restrita, é necessário, se não quer deformar o espírito, tornando-se exclusivista, que se eleve de vez em quando sobre o seu objeto próprio, para conseguir uma vista de conjunto e respirar o ar puro dos princípios. PA GE \* ME 2. - A Filosofia precisa das ciências. Podemos concluir que nunca um sábio será demasiadamente um filósofo e igualmente nunca um filósofo será demasiadamente sábio. 1. Com efeito, a Filosofia está longe de ser a ciência universal; a seu lado, as ciências particulares têm um lugar, um objeto próprio e uma incumbência especial, que consiste em determinar as causas próximas e formular as leis particulares. 2. Pode dizer-se que a Filosofia está para as ciências como o arquiteto está para os operários. Estes apresentam o material disposto e lavrado; o arquiteto marca-lhe o lugar no edifício, porque só ele possui a vista de conjunto e o segredo do plano geral. O mesmo sucede ao filósofo; se não se apoia sobre os dados positivos da ciência, as hipóteses podem ser muito engenhosas e as deduções irrepreensíveis; mas não passam duma abstração, dum a priori. Por isso, não pode desinteressar-se de nenhuma ciência, nem manter-se indiferente às suas descobertas. Afirma- se com razão, “que o melhor sinal de espírito filosófico é gostar de todas as ciências”.