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Formas de Governo na História

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HERÓDOTO E PLATÃO
AULA 2
E - B O O K B P A S F O R M A S D E G O V E R N O N A H I S T Ó R I A
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Sejam bem-vindos à nossa segunda aula sobre as formas de governo 
na história; nessa aula trataremos da origem de alguns termos aos quais eu 
me referi na primeira aula. Para vermos a origem desses termos, temos de 
retornar ao livro Histórias, de Heródoto18 e, em seguida, conversaremos um 
pouco sobre a visão de Platão19 a respeito, justamente, desses conceitos. 
Este filósofo trata desses conceitos em três obras: A República, O Político e 
As Leis. 
DEMOCRACIA, ARISTOCRACIA E MONARQUIA
Comecemos tratando de recordar destas palavras; a primeira delas 
— uma palavra muito recorrente hoje em dia — é democracia, a outra é 
aristocracia, e, a seguinte, monarquia. Essas três são as principais formas 
de governo, pois são as três formas puras da Antiguidade que estão 
em consonância aos modelos de política que existiram na época. Aliás, a 
palavra política, se nós pensarmos nas pólis gregas, tem pouca relação, pois 
tratavam-se de proto-estados; proto é um prefixo que indica um estágio 
inicial, ainda não era o Estado como nós conhecemos na Modernidade. 
Nós temos na Grécia alguns modelos de pólis; por exemplo, em 
Esparta há uns poucos guerreiros dominando a circunstância das leis e do 
governo, a decisão sobre diplomacia, o início de guerra, e esses poucos são 
uma classe que governa e correspondem aos guerreiros; em Atenas houve 
uma tentativa — após as reformas de Sólon20 e Clístenes21 — de muitos 
governarem mediante sorteio, situação na qual nós temos a chamada 
democracia; já em Mégara, Corinto e muitas outras cidades gregas, há 
apenas um governando — chamado, na época, basileu— quando nós temos 
18 Heródoto (485-425 a.C.) foi um geógrafo e historiador grego, destacou-se pela sua obra Histórias.
19 Platão (aproximadamente 428-348 a.C.) foi um filósofo e matemático do Período Clássico da Grécia Antiga.
20 Sólon (638-558 a.C.) foi um estadista, legislador e poeta grego considerado como um dos sete sábios da An-
tiguidade. Foi o responsável por criar a Eclésia (Assembleia Popular) na qual todos os homens livres atenienses 
participavam.
21 Clístenes (565-492 a.C.) foi um político grego que, apesar de ser um membro da aristocracia ateniense, liderou 
uma revolta popular e reformou a constituição de Atenas.
INTRODUÇÃO
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as monarquias.
Um termo que merece atenção antes de continuarmos é Estado, 
porque, a rigor, o que pensamos hoje sobre esse termo consiste em 
constituição, formulação das leis, aplicação das leis, a escolha dos 
governantes. Isso não existia, então, quando eu falar Estado, coloquem entre 
aspas. Nos Estados orientais — por exemplo, quando assistimos ao filme 
30022 — notamos a existência de Xerxes23, que é justamente um monarca 
e este, por sua vez, se diferencia do governo de poucos como o espartano, 
que pode ser um governo oligárquico, e do governo ateniense, que pode 
ser um governo democrático.
HERÓDOTO
Heródoto, quando escreve o livro dele chamado Histórias, está 
descrevendo, no caso, uma cidade persa de Dario24, pai do Xerxes. No livro III, 
Heródoto escreve como funcionava o governo de Dario, no entanto, chega 
a um determinado ponto em que talvez as pessoas não o entendessem, 
então, ele cria um diálogo — não é só Platão que se utiliza deste recurso 
— entre três personagens persas que conversam sobre a melhor forma de 
governo. Nessa conversa, um vai defender o governo de poucos, dirá que 
o ideal é que haja um conjunto de pessoas notáveis com capacidades 
diversas, mas com excelência, e que sejam capazes de se entrosar e 
governar; o outro dirá que não, que esses poucos aprenderão a governar 
a sociedade para si mesmos, que darão um jeito de ficar mais ricos do 
que todos os outros, e que, quando houver guerra, mandarão aqueles que 
eles querem que morram. O terceiro interlocutor, o próprio Dario, diz que, 
tradicionalmente, eles praticavam a monarquia e se eles estavam podendo 
discutir isso, é porque um monarca havia permitido.
22 Filme de 2006 dirigido por Zack Snyder e baseado na história em quadrinhos homônima de Frank Miller.
23 Xerxes (518-465 a.C.) era filho de Dario e foi o xá Aquemênida de 486 a.C. até a data de seu assassinato. Herdou 
o trono por designação do pai e ficou conhecido pelas Guerras Médicas que empreendeu contra os gregos em 
vingança à Batalha de Maratona em 490 a.C.
24 Dario I (550-486 a.C.), também chamado de Dario o Grande, governou o Império Aquemênida durante o seu 
auge, quando compreendia parte da Ásia Ocidental, o Cáucaso, Ásia Central e partes dos Balcãs.
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 Eles continuaram discutindo e, no fim, cada um dos personagens 
disse três coisas a respeito da oligarquia, da monarquia e da democracia;. O 
personagem que defendeu a oligarquia, falou bem desta, mal da democracia 
e mal da monarquia, então, ele criou uma visão tripla; por exemplo, deu 
alguns argumentos contra a monarquia: a monarquia sempre será o 
governo de uma pessoa muito arbitrária, o monarca sempre governará para 
si mesmo e ele não conseguirá ser justo, porque tem poder demais e isso é 
errado; por outro lado, os muitos vão cair em discussões intermináveis e ela 
nunca terminará; conclui que o melhor consiste em que uns poucos que 
possuem capacidade. Notem que é um texto do século VI antes de Cristo, 
não foi escrito ontem.
O outro defende a democracia e dirá que não, se organizar de forma 
que os muitos tenham o poder de forma transitória e de acordo com regras, 
eles governariam pensando em todos, porque em algum momento eles 
estariam em outra posição; para o monarca as palavras se repetiram: o 
monarca governará sempre para si, acabará violando as mulheres que não 
deve, criará guerras só porque ficou irritado com o outro e coisas desse tipo. 
Parece que ele está falando do nosso momento atual — e isso é incrível — e, 
claro, há diferenças: na democracia deles havia sorteio, para nós existem o 
concurso público e a eleição. 
Posteriormente, Dario, já que ele é o monarca, termina a discussão 
dizendo que ele está certo e que os outros calem a boca. Dario fala muito 
bem da monarquia, em primeiro lugar diz é que tradicional; em segundo 
lugar, ele defende que para existir uma democracia primeiro tem de haver 
um monarca que diga: “Está bem, eu entrego a democracia para vocês”, 
porque se não houver isso, não haverá democracia, tem de existir alguém que 
coloque ordem antes; e, em terceiro lugar, Dario diz que quando alguém faz 
bagunça, ou seja, ele sempre diz que em algum momento na oligarquia um 
vai querer prevalecer sobre o outro e brigarão entre si, o mesmo acontecerá 
na democracia, os muitos criarão uma bagunça absurda e brigarão. E sempre 
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quando aparecer a bagunça, terá de surgir um monarca para organizar as 
coisas, então, decide não mudar nada, ele vai ficar no governo e pronto. Ele 
termina a discussão assim. Eu, particularmente, acho engraçado porque, 
de fato, o mediador da conversa é o próprio rei, ele se abre para ouvir os 
argumentos, mas não os acata.
É por isso que eu disse na primeira aula que existiam nove formas, 
na verdade, a partir desse diálogo, há nove visões: encontrarmos em 
Otanes, por exemplo, uma boa visão da democracia e a má visão tanto da 
aristocracia quanto da monarquia; Megabizo fala bem da aristocracia, mal 
da monarquia e da democracia; por sua vez, Dario fala bem da monarquia 
e mal da aristocracia e da democracia. Esse quadro nos ajuda a entender 
muitas coisas a respeito desse estudo:
 Primeiro, é possível que nós olhemos para esse objeto de estudo 
de forma descritiva como Heródoto escreve sobre os diversos estados que 
ele estava observando ao ponto de criar um diálogo para tentarformular 
quais são as diferenças e quais são as características fundamentais desses 
diversos estados; é como um botânico que olha para as plantas e diz suas 
características, ou um zoólogo que lista o habitat natural, a alimentação, o 
método de reprodução. Esse é o caráter descritivo desse estudo. Mas, nessa 
conversa, Heródoto já nos mostra algo prescritivo, ou seja, Otanes prescreve 
que a democracia é o melhor, Megabizo, por sua vez, fala de aristocracia e 
Dario da monarquia. Estamos vendo uma prescrição.
Esse é um dos dramas dos cientistas sociais e políticos; eu como 
historiador do Direito e também atuando, muitas vezes, como teórico político, 
tenho um lado cidadão — vocês sabem que eu também tenho uma visão 
cívica e uma participação na nossa sociedade. A minha visão conservadora 
implica em estudar a parte descritiva e, depois, chegar a conclusões que 
são prescritivas. Isso não é necessariamente um aparelhamento, isso é, 
muitas vezes, uma reflexão; de qualquer forma, tentarei definir como isso 
acontece desde Heródoto. Platão fez a mesma coisa e Aristóteles será o mais 
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próximo de ser um botânico e um zoólogo, mas, mesmo assim, tratará da 
forma melhor; quase todos os escritores de política da Antiguidade Clássica, 
Medievo e Idade Moderna fazem o mesmo. É possível ver que quase todos 
os professores de Ciência Política, Sociologia, Direito, hoje em dia nas salas 
de aula das universidades, descreverão para prescrever. Essa é a verdade, 
infelizmente, e essa é, também, a grande dificuldade das Ciências Humanas: 
é muito difícil estudá-las sem tentar encontrar o que é melhor e pior, o que 
é juízo de valor.
Mas tentemos, pelo menos, diferenciar o juízo do fato, e depois eu 
digo quais são os meus juízos de valor, para vocês não se confundirem. 
PLATÃO
Agora, falemos de Platão. Vencemos a origem dos termos e 
vencemos Heródoto, mas o problema é o seguinte: em Heródoto, se vamos 
ao grego, o termo democracia ainda não aparecia, a palavra é isocracia; ele 
não falava em aristocracia, mesmo na defesa, ele falava em oligarquia, e, 
para monarquia, eles usavam mais o termo basileu, e depois monarkhes. 
É importante trazer esse ponto de vista mais linguístico porque, 
primeiro, oligarquia é simplesmente o governo de uns poucos — isso é 
descritivo —, depois o lado prescritivo aparece. Essa terminologia vem de 
Norberto Bobbio25; quando estamos descrevendo, oligarquia faz sentido 
porque o prefixo oligos, quer dizer, justamente, uns poucos, mas quando 
definimos que há um governo de poucos bom e há um governo de poucos 
ruim, como aparece em Platão, então, ele já coloca a palavra aristos — o 
excelente, o melhor —, ou aristoi — os excelentes, os melhores— no plural. 
Aristokratos significa o governo daquele que é excelente, ou daqueles que 
são excelentes, portanto, já há um juízo prescritivo no meio da tentativa de 
descrição, é assim que surge o termo aristocracia em Platão e em Heródoto 
25 Norberto Bobbio (1909-004) foi um filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador 
italiano.
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nasce oligarquia.
O termo isokratos, quer dizer justamente uma situação na qual as 
pessoas são iguais, então, mesmo que seja a ideia de um sorteio, todos 
têm uma chance mais ou menos igual de participar do governo e um não 
prevalecerá sobre o outro em termos de poder. Depois é que surge o termo 
democracia, porque principalmente em Atenas, havia o demos, que não é 
exatamente o povo como todo mundo diz — e nem é o demônio —, mas 
justamente um distrito, então, demokratos quer dizer uma espécie de 
governo distrital. Havia eleições e sorteios — como já falei — para muitos 
dos cargos, inclusive, o que hoje chamamos de Poder Judiciário, que é a 
decisão feita por magistrados muito bem formados, na época, era formado 
através eleições; 
Sócrates foi condenado com quinhentas e uma pessoas votando, 
acusaram-no, ele se defendeu publicamente e votaram; foi quase meio a 
meio o resultado final, mas ele perdeu. Então, existia eleição também no 
judiciário. Essas palavras, judiciário ou Poder Judiciário, é tudo muito novo.
Quem julgava as coisas na Idade Média ou na Idade Moderna? 
Geralmente o rei, o tal do Judiciário só aparece na Modernidade — não 
quero complicar, mas, às vezes faço isso, porque quando eu uso uma palavra 
moderna, sei qual é a colocação dela, mas também sei que o meu ouvinte 
pode confundir as coisas.
Com o termo monarquia não há tanta dificuldade assim, é 
justamente a junção de monos e arkhé, a origem do governo está no um. 
E, agora, já que eu falei disso, qual é a regra fundamental para 
memorizar essas maneiras de descrever os possíveis governos? É pelo 
número, existe o governo de um, de poucos e de muitos. 
Um: monarquia; 
Poucos: oligarquia ou aristocracia; 
Muitos: democracia. 
Aparecerão outros termos como isocracia, tirano, tirania, mas, 
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no fundo, se você memorizar um, poucos e muitos, você já está muito 
adiantado nessa aula e entenderá o resto do curso com muito mais 
facilidade. 
Para entenderem melhor Platão, deixem-me explicar mais algumas 
coisinhas teóricas que vocês podem extrair dessa conversa inicial sobre 
Heródoto. 
Eu já falei do descritivo e do prescritivo, certo? Só que o prescritivo 
não é tão simples assim; os teóricos não dirão claramente que o melhor é 
a monarquia, como foi feito em Heródoto. Às vezes o teórico vai complicar 
a nossa vida, porque ele pegará o modelo histórico desses três tipos, por 
exemplo, pode pegar o modelo histórico de Esparta, e idealizá-lo um pouco.
Isso acontece, por exemplo, em alguns escritores romanos que 
idealizavam a república romana, tanto que quando existe a formação do 
império, eles o viam como uma degeneração. Cícero26 fez vários louvores à 
república romana, e há uma ideia até hoje entre muitos escritores de que 
a república romana foi modelar. Ao mesmo tempo, algumas repúblicas 
italianas tinham essa visão de si; na Modernidade, a monarquia inglesa 
era o grande exemplo, hoje em dia é a república norte-americana —talvez, 
o hoje em dia já não seja mais o hoje em dia de antes, dou aula desse 
assunto há muito tempo e fazia sentido dizer essa frase antes, mas agora 
a república norte-americana está dando alguns sinais de esgotamento — 
mas, de qualquer forma, vocês sabem que a república norte-americana é 
muito bem reputada, muito mais bem reputada do que qualquer república 
latino-americana, por exemplo, e até do que repúblicas europeias, como a 
francesa, que não tem boa reputação porque tudo acaba em revolta nas 
ruas.
É possível que algumas pessoas peguem os modelos históricos e 
os transformem no modelo ideal, e não é simplesmente um, poucos ou 
26 Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo. Destacou-se por suprimir 
a Segunda Conspiração de Catilina, que ficou imortalizada em sua obra Catilinárias, também, por liderar o retorno 
ao governo republicano, tornando-se assim, inimigo mortal do imperador Marco Antônio, até que este por fim 
ordenou a morte daquele em 43 a.C.
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muitos, é uma certa maneira de um — como a monarquia inglesa — de 
poucos e dos muitos governarem; você tem de, justamente, conhecer 
mais sobre esse modelo histórico e entender o porquê de o autor estar 
fazendo essa defesa. Muitas vezes, ele vai fazer uma idealização um pouco 
imaginativa.
Existe outra maneira de fazer essa prescrição? A prescrição pode 
também acontecer com uma mescla, esse é o chamado governo misto — é 
por este que eu tenho, digamos assim, a maior predileção. Como é o governo 
misto? Mescla-se duas ou três formas puras e originárias.Existem várias 
maneiras de se fazer isso, mas uma das maneiras é justamente observar a 
Constituição atual do Brasil: há o um (Presidente da República), os poucos 
(Senado e, talvez, o Poder Judiciário), e os muitos (Câmaras dos Deputados 
e Vereadores).
Essa ideia de governo misto vem desde a Antiguidade também, 
Platão fala menos, mas Aristóteles e Políbio tratam bastante disso. 
Fiz essas abordagens metodológicas, mas há um terceiro tipo de 
prescrição: é possível que o autor crie, ainda, um Estado que não é histórico 
nem uma mescla de possibilidades que estão na história, mas algo 
inovador que não existe; aqui já estamos no terreno do utópico. Algumas 
pessoas leem A República como se tratasse de uma utopia, embora Platão 
diga muito claramente que todos os modelos históricos são ruins, como 
se estivesse falando de uma espécie de céu, então, ele fala algo como: “Já 
que nunca vai acontecer mesmo, tentemos aplicar pelo menos isso que 
estudamos na nossa alma para estarmos prontos para essa espécie de 
Estado ideal”, ou seja, não é exatamente uma utopia, mas, dependendo da 
sua leitura, parecerá uma porque, de fato, ele cria um Estado que não existe. 
Podemos observar esse terceiro tipo de prescrição em São Thomas 
More27, que deu à sua obra o nome de Utopia, ou seja, outopós, um não-
27 São Thomas More (1478-1535) foi filósofo, homem de estado, diplomata, escritor e advogado. Foi Chanceler do 
Reino de Henrique VIII. Este, quando atribuiu-se líder da Igreja na Inglaterra, condenou More à morte e, no mo-
mento de sua morte, suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que “morria como bom servidor 
do rei, mas de Deus primeiro”.
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lugar. Existem outros escritores que também que imaginaram algo que 
não existe, como o próprio Karl Marx28, pois, como é que ficaria a sociedade 
depois do comunismo? Há alguns autores propriamente socialistas que 
dizem que Marx, Lênin29, Trótski30 e outros se preocuparam muito — volumes 
e mais volumes — primeiro em tentar entender qual é o mal do capitalismo 
e, segundo, em como chegar ao poder; descrever como governar e o que 
acontecerá quando o comunismo for implantado não há muitas palavras. 
Muitos teóricos, do ponto de vista do primeiro tipo de prescrição, entendem 
a União Soviética — embora ela tenha tido muitos momentos, alguns são 
leninistas, outros stalinistas — como um modelo histórico.
As três possibilidades foram entendidas? Um modelo histórico 
puro, um modelo histórico misto e um modelo utópico, a partir dos quais, 
pode-se criar tudo quanto é tipo de modelos. 
Alguns teóricos também colocaram essas categorias na História 
porque, na observação deles, isso parecia estar acontecendo. Lembram-se 
dos diálogos de Heródoto quando Dario fala que na oligarquia esses tais 
notáveis oligarcas brigarão entre si ou que na democracia surgirá a bagunça 
e em ambos os casos só o monarca é capaz de trazer estabilidade? Isso nos 
dá a ideia de que o próprio Heródoto estava descrevendo circunstâncias que 
ele já tinha observado, isso significa que alguns autores tentam enxergar 
uma dinâmica histórica em relação a esses conceitos. 
Como assim? Se você entende que, geral e historicamente, aparece 
um Estado a partir de um governante único, por exemplo, um guerreiro 
conquistador que subjuga um povo, impõe determinadas regras arbitrárias 
e cria uma nova circunstância, então, o início do governo seria por meio de um 
tirano. Depois do estabelecimento dessa tirania, haveria pela passagem das 
28 Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo, historiador, economista, jornalista e revolucionário socialista. Dentre a sua 
produção, destacam-se O Manifesto Comunista e O Capital, que tiveram grande influência no desenvolvimento do 
movimento comunista e seus desdobramentos posteriores como a Revolução Russa (1917) e a Revolução Comuni-
sta Chinesa (1949).
29 Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido pelo pseudônimo Lênin, (1870-1924) foi um revolucionário comunista, 
político e teórico político russo que foi líder do governo da Rússia Soviética de 1917 a 1924.
30 Leon Trótski, nascido Liev Davidovich Bronstein, (1879-1940) foi um intelectual marxista e revolucionário bol-
chevique, organizador do Exército Vermelho. Foi rival de Stálin na disputa pelo poder após a morte de Lênin, a qual 
perde e depois é perseguido pelo governo stalinista.
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gerações uma espécie de formação de uma classe superior que invejaria, 
talvez, esse monarca, faria de tudo para derrubá-lo a fim de que essa classe 
superior — às vezes superior entre aspas e às vezes superior de fato — 
governar. Essa classe, por sua vez, seria invejada depois de, talvez, muitas 
gerações pelos muitos, que perceberiam que eles estavam governando 
para si mesmos fingindo-se de notáveis, esses muitos derrubarão e criarão 
um governo de muitos. Este governo vai entrar em declínio justamente 
quando houver confusão, desestabilização, desorganização, instabilidade 
— os autores costumam usar essas palavras —, o caos da democracia que 
todos nós conhecemos bem. No fim das contas, terá de existir um monarca, 
ou seja, um líder, geralmente um militar muito forte, para impor respeito e 
ordem de novo. Isso é transformar em história esses conceitos observados 
de forma, a princípio, descritiva e prescritiva.
Há também uma visão, uma espécie de Filosofia da História, que 
tentará enxergar uma regularidade histórica nesse modelo. Considero 
muito interessante essa perspectiva, porque se examinamos a história 
romana, notamos que há a fundação de Roma por Rômulo31, e temos a partir 
dele uma sucessão de sete reis que termina em Tarquínio, o Soberbo32, ele é 
derrotado por um grupo de notáveis que cria o Senado; este, por sua vez, 
cria a república romana, que vai aos poucos se transformando em uma 
oligarquia — se era uma aristocracia, acaba como um governo que vai 
abusando dos muitos, principalmente do ponto de vista da escravidão e 
da conquista contínua de novos territórios. Os muitos acabam querendo 
participar do governo, disso surge a democracia na medida em que, por 
exemplo, cria-se o cônsul — aquele que exerce uma espécie de Poder 
Executivo — e será criado um outro tipo de cônsul, que é o tribuno da 
plebe e que fará parte também de uma assembleia. O governo degrada-se 
a ponto de chegar a uma democracia.
31 Rômulo, segundo a tradição romana, foi o primeiro rei de Roma, cidade que fundou com seu irmão Remo em 
753 a.C, ambos nascidos do deus Marte, o deus da guerra, e, ainda crianças, foram condenados a serem jogados 
no rio, no entanto, o cesto no qual estavam atola em uma das margens do rio, onde são encontrados por uma loba 
que os amamenta. Mais tarde, conta-se que Rômulo matado Remo.
32 Lúcio Tarquínio, o Soberbo (535-496 a.C.) foi o último rei de Roma e o terceiro dos reis dos tarquínios.
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Essa democracia criará um caos de tal forma que o Senado e os 
cônsules não estão se entendendo, quando então virá o líder militar — 
no caso de Roma é César33 — que começará uma revolta, e o seu filho — 
adotivo, mas seu filho — Otávio Augusto34, imporá um império, que é uma 
monarquia novamente. 
Certa vez, arrisquei aplicar essa teoria à história do Brasil e ficou 
engraçado, porque, se formos ver, começa justamente com Pedro I35 
em uma monarquia, esta segue e se transformará em uma aristocracia, 
principalmente depois do Segundo Reinado, quando o próprio imperador 
vai se retirando, o Senado era vitalício e a Câmara ganha proporções de 
mando e, ao mesmo tempo, notamos o parlamentarismo. Essas pessoas que 
vão ganhando, por exemplo, um poder econômico muito grande, juntando 
com o poder político e desavenças religiosas criarão uma república, que era 
oligárquica36 e, evidentemente, não erademocrática; então, ela começa com 
uma república de militares, segue como uma república de ricos — paulistas 
e mineiros — e este regime oligárquico vai acabar com uma tentativa 
de implantar a democracia, que acontece na Revolta Tenentista37; nessa 
tentativa, tudo dará errado e, em muito pouco tempo, vai acabar voltando 
para uma espécie de monarquia, que é a ditadura de Vargas.
É engraçado aplicar essa teoria, não é? Eu forcei um pouco a barra, 
eu sei, mas ela às vezes funciona.
A REPÚBLICA DE PLATÃO
Vamos aos textos de Platão; em A República — o texto principal que 
nós usaremos são os livros VIII e IX — o filósofo trata mais detidamente 
33 Caio Júlio César (100-44 a.C) foi um patrício, líder militar, político romano e o principal responsável pela for-
mação do Império Romano.
34 Júlio César Otávio Augusto (63 a.C.-14 d.C) foi o fundador do Império Romano, governando desde 27 a.C. até o 
ano de sua morte. O termo Augusto de seu nome foi uma adição posterior que significa o elevado.
35 Pedro I do Brasil ou Pedro IV de Portugal (1798-1834) apelidado de o Libertador e de o Rei Soldado, foi o pri-
meiro imperador do Brasil até a sua abdicação em 1831.
36 República Velha, também conhecida como Primeira República Brasileira ou como República das Oligarquias 
foi o período da história brasileira que se estendeu da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, até 
a Revolução de 1930.
37 O tenentismo foi uma revolta político-militar baseado em uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e 
média patente que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica. Defendia reformas na estrutura 
do poder do país, fim do voto aberto — o chamado voto de cabresto — e a reforma da educação pública.
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dessas formas de governo e descreve-as de uma forma um pouco diferente 
daqueles personagens de Heródoto. Em um diálogo — evidentemente é 
Sócrates que protagoniza esse diálogo — temos uma espécie de governo à 
moda espartana, que não é o ideal, mas também não é tão ruim assim, que 
é a chamada timocracia, uma palavra que não apareceu antes na nossa 
conversa. Timo é até um órgão perto do coração, designa essa parte do peito 
que indicava masculinidade, coragem, a virtude masculina por excelência 
é a andréia (coragem), disso vem o termo andros (homem). A timocracia 
seria o governo dos corajosos, dos militares, dos líderes guerreiros. 
A timocracia para Platão não era ruim, ele gostava muito da 
timocracia, considerava-a um governo histórico possível, mas não o ideal. 
Essa forma de governo, geralmente, passava por confusões e problemas 
que faziam com que ela decaísse para a oligarquia. Para definir melhor, se 
oligarquia nasce simplesmente como o governo de poucos com Heródoto, 
agora, com a união da descrição e da prescrição de Platão, de Aristóteles e 
de Políbio, passa a significar o governo dos poucos em prol deles próprios, 
e não para o povo. Ou seja, a palavra oligarquia perdeu aquele conteúdo 
inaugural que aparece em Heródoto, do governo de poucos, e passa a ser o 
governo de poucos para os poucos, porque a aristocracia é que vai tomar o 
lado do governo de poucos para todos.
Os oligarcas serão aqueles que não governarão para existir ordem 
e vitória na guerra — como os timocratas —, mas, tão somente, para o seu 
próprio proveito; se uma guerra trouxer proveito para eles e não para o 
povo, eles guerrearão, e se evitar a guerra por covardia vai favorecê-los, não 
farão a guerra, mesmo que o próprio povo seja destruído nesse processo.
A timocracia espartana é muito bonita, mas ela sempre decai para 
a oligarquia. Alguém pode até se perguntar do porquê do pessimismo de 
Platão, mas ele estava vendo uma Esparta decaída na sua frente, estava 
presenciando isso; Platão foi muito longevo e já estava sentindo que Esparta 
decairia. 
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Para entender Esparta, temos de entender Licurgo e, para entendê-lo, 
recomendo o livro A Vida de Licurgo de Plutarco38 — mencionei-o no curso 
Os Titãs da Civilização Ocidental na Brasil Paralelo, recomendo que assistam 
a esse curso. Neste livro, Plutarco conta um pouco da vida de Licurgo e 
como é a lei em Esparta. Independentemente de Licurgo ou ter sido um 
homem real ou uma lenda, o fato é que as leis atribuídas a Licurgo eram 
cumpridas por Esparta, e quando não eram cumpridas, surgiam problemas 
muito graves. 
Em Esparta as coisas funcionavam muito bem, porque era tudo muito 
organizado, muito igualitário, a despeito de ser realmente uma oligarquia 
no sentido de Heródoto ou no sentido de Platão uma timocracia; havia um 
governo de poucos militares, mas toda a sociedade era organizada, porque 
as diversas colônias espartanas funcionavam como centro de produção de 
alimento e de construção, em suma, centros de produção geral de sustento.
Aqueles que decidem politicamente são aqueles que vão à guerra, 
os guerreiros, e estes só têm palavra a partir dos 31 anos — a maturidade 
era considerada nesta idade. Já os atenienses, achavam que com 18 anos 
já estava bom para participar de todas as deliberações públicas. Sábios os 
espartanos, não é?
Voltando à Esparta, o fato é que temos exemplos no próprio 
Plutarco, mesmo quando eles tinham dois reis, estes dependiam de muitas 
instituições abaixo deles, como os anciões que já tinham sido militares. 
A vida do cidadão espartano — a cama, a alimentação, o vestuário, até o 
tamanho da casa ou da propriedade rural — era regrada pela lei que era 
aplicada sem dó, e havia seleção para que os melhores chegassem aos 
melhores cargos, mas logo surgiam pedidos das mulheres que queriam se 
maquiar — sim, havia regras para isso —, ou algum parente de comandante 
que queria uma propriedade mais confortável.
38 Lício Méstrio Plutarco (46-120) foi um historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo platônico. Destacou-se por suas 
obras Vidas Paralelas e Morália.
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Isso ia pervertendo a forma espartana de vida; a tal da timocracia 
é como se fosse uma sociedade inteira voltada para os governantes que 
são militares, na verdade, a sociedade era um exército, era uma sociedade 
totalmente militarizada; essa timocracia, para Platão, decairia para a 
oligarquia, primeiro, porque ninguém aguenta por tanto tempo viver nesse 
ritmo e, segundo, porque era muito natural que na História tudo decaísse. 
Platão era um pouco pessimista com relação às coisas que existiam no 
mundo sensível — no curso Titãs da Civilização Ocidental detalho com 
mais precisão esse tema.
Depois da oligarquia, o que acontece? A democracia; Platão, embora 
vivesse em Atenas, considerava abominável a democracia, um governo 
realmente bagunçado — e ele sempre usava esse termo. Um exemplo que 
Platão sempre usava: quem quer comprar um cavalo, chama todo mundo 
que conhece e faz uma votação para saber qual cavalo deve-se comprar ou 
consulta-se um especialista em cavalo? Se você quer resolver um problema 
de saúde, consultará um médico ou faz uma votação de qual é o tratamento? 
Você consultará o especialista. 
Então, Platão pensa: por que, nas coisas públicas, tem de ser sorteio 
ou eleição? Ele ficava pasmo com isso e achava a democracia uma forma 
horrorosa. Temos de nos lembrar de que Sócrates havia sido morto pela 
democracia, então, Platão abominava a democracia, que não será bem 
vista em toda a Antiguidade.
Há aquele interlocutor de Dario no texto de Heródoto tentando falar 
bem de democracia, mas Heródoto só estava dando um exemplo do que 
existe em Atenas que, de repente, funciona assim; mas Platão está vendo 
uma Atenas em decadência que teve o seu esplendor no século anterior, o 
século V antes de Cristo. Não só Atenas está em decadência, mas Esparta 
também, em breve, virá Felipe II39 da Macedônia tomar tudo, e depoisvirá o 
39 Felipe II da Macedônia (382-336 a.C.) foi rei da Macedônia de 359 a 336 a.C.
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Alexandre, o Grande40, para arrasar tudo de vez. 
Enfim, ele está vendo uma decadência e está refletindo 
filosoficamente, às vezes, pressupondo um elemento histórico. Todos 
somos muito impactados pelo que está acontecendo em volta, e, ainda que 
Platão não estivesse sendo exatamente impactado, ele acreditava nisso. 
Dentro da nossa vida, da história do mundo sensível, as formas ideais nunca 
serão aplicadas perfeitamente.
O que pode vir depois da democracia? De repente, ela está em um 
estágio horroroso e o que vem depois da democracia para organizar a 
sociedade geralmente é uma tirania; aparece um tirano para botar ordem 
na casa, ele é militarizado, matará uns quantos, a coisa vai ficar ruim 
de novo — esse é o nosso Platão. Então, qual é a solução para o filósofo? 
Lembram-se de que há um lado descritivo e prescritivo? Neste momento, 
estamos na descrição platônica, mas qual é a sua prescrição? 
Repito: na minha leitura, Platão está fazendo uma investigação sem 
prescrever do ponto de vista prático, pois o que ele está tentando enxergar 
é como seria o governo ideal, mas não dizendo para tentar aplicar. O filósofo 
será muito mais claro, do ponto de vista prático, no diálogo O Político, que 
é um dos últimos diálogos, e somente em As Leis, que é o último diálogo 
dele, é que ele será um pouco mais prático, mas em A República acredito 
que Platão está fazendo realmente uma grande investigação e tentando 
imaginar.
O governo ideal para ele é o seguinte: o governo dos sábios. O 
problema da timocracia é que os militares estão no poder — dos quatro 
que eu falei, a timocracia é o melhorzinho.
A timocracia é ruim porque os militares não valorizam os sábios, mas 
precisamos de um governo de sábios, preferencialmente, aquele do rei-
filósofo. No final das contas, tanto faz se é um governo de poucos ou muitos, 
40 Alexandre III da Macedônia (356-323 a.C) conhecido também como Alexandre Magno e Alexandre, o Grande, 
foi rei da Macedônia. Antes dos 30 anos de idade criou um dos maiores impérios do mundo antigo, com territóri-
os que se estendiam da Grécia para o Egito e para o Noroeste da Índia.
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tanto faz aristocracia ou monarquia, o fato é que tem de ser um governo 
exercido por sábios, e essa é a visão platônica. É claro que se pensarmos no 
que é sábio para Platão, teremos de ler melhor A República, que explicará a 
formação do sujeito, veremos lá uma espécie de três castas:
Algumas pessoas têm acesso maior à sabedoria e a uma vida de 
inteligência, outras pessoas um acesso menor, e a justiça consiste em cada 
um estar no seu justo lugar dentro da sociedade. 
Então, aquele que só é capaz de enxergar a utilidade nas coisas 
para ter menos dor e mais prazer é útil, ele trabalhará, vai para o pastoreio, 
agricultura, pesca, etc. pois ele não precisa de muito ensino. É aquilo que 
vemos no cotidiano, nem todos tem vontade e compleição para passar horas 
e mais horas estudando, mas são bastante capazes de realizar trabalhos 
simples e honestos. Platão tinha um pouco dessa visão, chamava-os de os 
cidadãos de bronze, pois possuem a virtude que seria uma espécie de 
temperança, pois a pessoa é capaz de temperar os seus apetites para 
trabalhar.
Ele tinha a visão também de que alguns persistiam mais no estudo 
e rendiam melhor, mas eles tinham também uma noção de cumprimento 
de dever muito superior à noção de busca pela verdade, essas pessoas 
poderiam ser colocadas em cargos públicos correspondentes aos militares 
e análogos; podemos pensar em cargo de governo menor, não de decisão 
última, mas cargos de administração; ele não usou essas palavras, sou eu 
que estou fazendo uma analogia. Platão os chama de cidadãos de prata e 
a virtude correspondente seria a andréia, a virtude da coragem: há um 
dever a ser cumprido e a pessoa cumpre-o a despeito dos sacrifícios.
Mas, por fim, existiam aqueles que tinham de fato condição de 
acessar essas formas puras e de enxergar as coisas como elas são com 
sabedoria. Platão os chamaria de cidadãos de ouro, pois são aqueles que 
buscam e cultivam a sabedoria, e estes estudam até o final da vida. 
Em tese, seriam essas pessoas que passam pela educação infantil, 
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básica, ensino médio, graduação, outra graduação, pós-graduação, 
mestrado, doutorado, pós-doutorado. Se você ler Platão, parece que ele 
está descrevendo isso, mas se vermos os pós-doutores de hoje, pensaremos: 
“Não, não entrega o governo para eles, não!”. É claro que ele está falando 
de um outro tipo de sabedoria, mas, se você fizer uma analogia apressada, 
pode cair nisso. Atualmente, a atribuição de dizer quem tem saber ou não 
por parte do nosso Estado é do Ministério da Educação, então, o Fernando 
Henrique Cardoso, um doutor formado pela USP e que foi o nosso presidente, 
seria um “rei-filósofo”, gostou? Essa analogia é bastante complicada.
O que percebemos desse quadro? Platão imagina o governo dos 
sábios, mas ele entende que esse governo é impossível, logo, precisamos, 
pelo menos, arrumar a nossa alma — é uma conclusão interessante. 
Como arrumar a sua alma? Adquira a temperança e trabalhe, 
mas, se possível, priorize o cumprimento de altos deveres, seja como 
um militar, e, se você conseguir, procure cultivar a virtude da sabedoria, 
quando então, é possível uma arrumação da alma a que os filósofos vão se 
dedicar. 
O POLÍTICO DE PLATÃO
Em O Político, consta um diálogo longo, eles remontam quase que a 
história de Adão e Eva — claro que à moda grega — mas esse diálogo tem 
algumas características interessantes. Primeiro, porque é muito semelhante 
à obra O Sofista, a conversa, apesar de ser um diálogo de maturidade 
- Sócrates é jovem e não chega a conclusões terminantes -, eles apenas 
fazem reflexões. Segundo, porque esse diálogo faz com que as conclusões 
sejam um pouco diferentes de A República. 
Dentre aquelas três formas puras que vocês memorizaram — um, 
poucos e muitos — a forma pura do monarca é excelente ou péssima, por 
quê? Pensando, já não tanto como um modelo ideal como em A República, 
mas enquanto um governante que existe e que é virtuoso e sábio, o 
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governante ideal consegue, a partir das formas mais elevadas, atualizá-las 
na realidade.
Em A República, Platão coloca aristocracia e monarquia no mesmo 
patamar — o governo dos sábios é o ideal —, mas em O Político ele já diz que 
o melhor é o monarca sábio, em segundo lugar a aristocracia, e, em terceiro 
lugar a democracia, mas qual é o problema desse esquema? Ele percebe 
os possíveis perigos, o que até então era um governo de um monarca 
iluminado e virtuoso, se ele, digamos, em uma transição ou uma mudança 
de caráter, se transforma em um tirano, surge o pior governo possível.
Então, a melhor forma de governo existe a depender de quem 
exerce o poder, a monarquia, por exemplo, pode ser a melhor forma ou a 
pior forma, e isso depende de quem a exerce; se a pessoa é virtuosa e sábia, 
vai ser a melhor forma, se a pessoa é degenerada, vai ser a pior forma. Neste 
ponto, Platão já usa dois termos também para a monarquia — monarquia e 
tirania, — para diferenciar o tirano do monarca. O monarca seria o virtuoso 
e sábio e o tirano seria o degenerado.
Mas qual que é a segunda melhor? E a segunda menos pior? São 
respectivamente a aristocracia e a oligarquia. Teremos na aristocracia o 
segundo melhor governo, pois é o governo dos excelentes e dos virtuosos. 
Ela não é tão boa porque é mais difícil que alguns poucos entrem num 
acordo, do ponto de vista prático, e o um, como arquiteto e realizador, é 
muito mais veloze muito mais prático. Mas esses poucos, quando se 
degeneram, criam uma oligarquia e esta é menos pior do que o governo do 
tirano único, porque a oligarquia ainda terá desavenças entre esses maus, 
entre esses poucos que governam para si, porque esse para si é entre aspas, 
é para eles, só que eles são plurais, são mais de um, então eles têm ainda de 
se encaixar uns nos outros as suas maldades e isso dificulta que a maldade 
plena apareça — isso é muito interessante em Platão.
E depois, na democracia, Platão usa uma palavra só, a democracia boa 
e a democracia ruim são só democracia. De qualquer forma, a democracia 
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boa seria aquela que de fato teria mais igualdade, mas ela é a pior das 
melhores formas, porque tudo demora, há confusão, incompetentes podem 
assumir cargos e por aí vai. E, assim como ela é a pior das melhores, ela é a 
melhor das piores. 
Se possível fizéssemos uma escala, da melhor para a pior ficaria assim
Monarquia
Aristocracia
Democracia
Oligarquia
Tirania
No topo temos a monarquia, lá embaixo, há a tirania; numa segunda 
faixa, logo abaixo do monarca, temos a aristocracia, e, numa segunda faixa 
logo acima do tirano, temos a oligarquia; e, no meio, temos a democracia. 
A democracia é o pior dos melhores, que é a democracia boa, e a 
democracia má é, justamente, o melhor sistema entre os piores. É assim 
que Platão conclui O Político, já um pouco mais maduro do que em A 
República.
AS LEIS DE PLATÃO
Quanto ao livro As Leis, não há como explicá-lo detalhadamente,.
Posteriormente, podemos fazer um curso sobre As Leis, é um livro grande e 
um pouco dificultoso, mas eu posso encerrar trazendo um vislumbre. Neste 
livro, existem representantes das cidades-estados gregas conversando 
tranquilamente e muito, digamos assim, cordialmente, mas explicitando 
quais são as características de seus respectivos Estados e fazendo uma 
defesa. Já não é mais um Sócrates interrogando os sofistas, nem um 
Sócrates jovem conversando filosoficamente com um personagem muito 
inteligente e culto. 
Temos três personagens muito experientes, inteligentes e cultos, mas 
de três realidades diferentes, é um encontro de mundos, e, nesse encontro 
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de mundos, eles percebem o seguinte: melhor do que focar nas pessoas, 
é pensar em como funciona, ou seja, no nomos, a regra válida para todos. 
Heródoto também tinha isso de que a obediência às leis é muito importante, 
principalmente na democracia, mas o que Platão nota é que é preciso uma 
racionalidade na sociedade que encontre uma espécie de fórmula de 
funcionamento que seja uma fórmula que funcione independentemente 
das pessoas que assumam.
Platão começa a desenhar um pouco de uma visão quase que 
moderna — só não digo moderna porque, de fato, a concepção de Estado 
não estava plena, eram pólis. Se compararmos Atenas, que era uma das 
maiores pólis da época, notaremos que era uma cidade menor do que a 
minha cidade, Santos, e o número de cidadãos realmente atuantes em torno 
de 10 mil, o que é muito se pensarmos que exerciam cargos por sorteio, mas 
é pouco se considerarmos que hoje todos exercem o voto, por exemplo.
Então, havia diferenças notáveis entre aqueles proto-estados, aquelas 
pólis, e os Estados atuais. Não existia propriamente uma constituição. 
Quando Aristóteles fala em constituição, o termo grego é politeia, 
inclusive o nome do livro de Platão, A República, em grego é Politeia. A 
tradução constituição ou república — como uma ideia de Estado, ou estado 
ideal — são a mesma palavra no grego, por isso, não pensem no Estado 
moderno, são proto-estados, são pré-estados, existindo, mas, mesmo assim, 
percebemos nascer a importância das leis — a importância do Direito é 
moderna.
Quanto ao direito, alguns podem pensar: “E o direito romano?” O 
direito romano adquire uma grande consistência, será base para muita coisa 
no medievo e na Idade Moderna, mas essa, digamos, idolatria pelo bacharéis, 
pelos magistrados, pelos juízes, é atual. O Direito Romano era importante, 
principalmente, o direito privado que regulamentava os contratos e o direito 
público que regulava a administração, não era um direito que prevê regras 
aos governantes e detalhes para os aspectos mais íntimos das nossas vidas.
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Então, nossa viagem de Heródoto a Platão está completada e vamos 
à próxima aula falar um pouco de Aristóteles.

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