Prévia do material em texto
Políticas de Gestão Educacional e Escolar Gestão Educacional Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria TATIANA DE MEDEIROS SANTOS AUTORIA Tatiana de Medeiros Santos Olá! Sou formada em Pedagogia e especialista em Educação Infantil e também em Gestão Educacional, com experiência técnico-profissional na área de educação. Sou mestre em Educação Popular e doutora em Educação, professora do Ensino Fundamental e Ensino Superior há mais de 10 anos. Passei por instituições como a Universidade Federal da Paraíba, como professora substituta do curso de Pedagogia. Sou professora da rede municipal de ensino de João Pessoa, da UNAVIDA – UVA, da UNINASSAU e tutora do curso a distância de Pedagogia da UFPB. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Políticas e gestão da educação básica ............................................. 10 Estrutura e Funcionamento da Educação Básica ................................................... 14 Sistemas de Ensino da Educação Básica ......................................... 21 A Função Social da Escola e sua Relação com a Democracia .....................25 A Gestão Democrática da Educação e da Escola ......................... 31 Políticas que Influenciam na Gestão Escolar Democrática ....40 7 UNIDADE 01 Gestão Educacional 8 INTRODUÇÃO Você sabia que a área da Gestão Educacional é um campo muito importante na educação? Trata-se de uma área responsável pela geração de muitos empregos, pois gerir uma instituição educacional é a chave para o sucesso dos que ali transitam, além de ser um dos empregos que não acaba, visto que a educação está em todo lugar. Isso mesmo. A área de Gestão Educacional faz parte da cadeia de ações que devem acontecer em prol do processo de ensino-aprendizagem de uma instituição educativa, em nosso caso a escola. Sua principal responsabilidade é gerenciar questões financeiras, administrativas, pedagógicas e relações interpessoais. Tudo isso envolve normas, leis, princípios e gerenciamento de recursos humanos, já que o nosso principal capital dentro de uma escola é o ser humano. Por isso, vamos conhecer um pouco sobre a Lei de Diretrizes e Normas da Educação Nacional (LDBEN), ou Lei nº 9.394/1996, o Plano Municipal de Educação e como deve acontecer uma gestão na escola de forma democrática. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar neste universo! Gestão Educacional 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1, nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento dos seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Identificar as Políticas Educacionais na Gestão Escolar, a partir de seus conceitos, elementos constitutivos, princípios básicos, funções, desafios e paradigmas. 2. Explicar as políticas e organização da educação básica no Brasil: estrutura e funcionamento dos sistemas de ensino da educação básica. 3. Interpretar os fundamentos teóricos e legais da Gestão Democrática. 4. Analisar as instâncias Colegiadas enquanto instrumentos de participação coletiva. Acredito que agora você está pronto para iniciar seus estudos. Tudo pronto? Então, vamos lá, boa leitura. Gestão Educacional 10 Políticas e gestão da educação básica OBJETIVO: Caro aluno, estamos iniciando um capítulo sobre políticas e gestão da educação básica, vamos ler, estudar, fazer os exercícios e, ao término deste capítulo, você será capaz de compreender como se dão a estrutura e funcionamento da educação brasileira. Isso será fundamental para a sua profissão. As pessoas que tentaram ser um bom gestor sem a devida instrução tiveram problemas, pois, para realizar uma gestão escolar com compromisso e responsabilidade, primeiro é preciso conhecer como são determinados a estrutura e o funcionamento da educação básica, e o que está determinado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), ou Lei nº 9.394/1996. E, então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante!. Em se tratando de políticas para a educação básica brasileira, estas são pensadas e implementadas em momentos diferentes da nossa sociedade e, geralmente, a partir da ótica de grupos que se encontram no poder. Figura 1 – Políticas para a educação nas escolas públicas Fonte: Pixabay Gestão Educacional 11 Exemplificando essa realidade, podemos destacar o ensino técnico, pois nasce de uma necessidade de mão de obra qualificada para atender ao mercado de trabalho. DEFINIÇÃO: Sobre Políticas Públicas, Rodrigues (2010) explica que: são ações de Governo, portanto, são revestidas da autoridade soberana do poder público. Dispõem sobre ‘o que fazer’ (ações), ‘aonde chegar’ (metas ou objetivos relacionados ao estado de coisas que se pretende alterar) e ‘como fazer’ (estratégias de ação). (RODRIGUES, 2010, p. 52-53) Sobre o financiamento da educação, temos a garantia por lei de que haja escolas públicas e gratuitas. Desse modo, para garantir a eficiência dessa escola e que esta cumpra suas metas, é preciso ter recursos financeiros. Por isso, no âmbito de cada estado e do Distrito Federal, há o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, mais conhecido com FUNDEB. Tanto o estado como o município são responsáveis pela distribuição e fiscalização do uso desse recurso financeiro. A União também faz repasses de verbas para estados e municípios. SAIBA MAIS: Para saber mais sobre esse assunto e como funciona, recomendo a leitura do texto “O financiamento da educação básica: limites e possibilidades”, de Oliveira et al. ([s.d], on- line) clicando aqui. Gestão Educacional http://moodle3.mec.gov.br/ufmt/file.php/1/gestores/politica/pdf/fin_edu_basica.pdf 12 Com o estabelecimento da Constituição Federal, que define a educação como competência da União, estados e municípios, e que neste documento há a necessidade da organização de seus sistemas de ensino em regime de colaboração, Ferreira e Nogueira explicam que: a Constituição prevê também o sistema nacional de educação, a ser articulado por um plano decenal (Art. 214, alterado pela Emenda Constitucional 59/2009). O Plano Nacional de Educação (PNE) e, consequentemente, os planos estaduais, distrital, e municipais ultrapassam os planos plurianuais de governo. Exigem articulações institucionais e participação social para sua elaboração ou adequação,seu acompanhamento e avaliação. Para o cumprimento do dispositivo legal, foi publicado o Plano Nacional de Educação, aprovado pela lei n° 13.005/2014. Este plano nacional desdobrou-se nos planos estaduais e municipais3 e constituem, na atualidade, o desafio maior para implantação de uma educação de qualidade. Como política pública educacional proporciona reflexos diretos no cotidiano escolar. (FERREIRA; NOGUEIRA, 2015, p. 3) Os autores ainda explicitam que, no âmbito educacional, várias políticas públicas foram lançadas por todos os setores do governo federal para se alcançarem os objetivos propostos pela Constituição Federal e exemplificam com uma série de políticas públicas citadas a seguir. Porém, não é o objetivo deste componente curricular esgotar a discussão do que elas representam em suas especificidades: a) Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF); b) Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE); c) Programa de Dinheiro Direto na Escola (PDDE); d) Programa Bolsa Família; e) Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); f) Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); g) Programa Nacional de Transporte Escolar (PNATE); h) Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM; i) Sistema de Seleção Unificada (SISU); j) Programa Universidade para Todos (PROUNI); k) Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (PROINFÂNCIA). (FERREIRA; NOGUEIRA, 2015, p. 3) Gestão Educacional 13 No Brasil, o que temos de mais atual em termos de políticas públicas é o estabelecimento do Plano Nacional de Educação, que prepara metas para acontecer na educação para um período de 10 anos. Dessa forma, no PNE do decênio 2011-2020 foi estabelecido um total de 20 metas, que são referências para que sejam elaboradas políticas educacionais, com a finalidade de conquistar as metas que foram propostas. Desse modo, entre as 20 metas, temos 4 que versam sobre a formação de professores. No plano, essa tema ganha ênfase na meta 15, que traz estratégias voltadas para a formação de professores, como podemos ver a seguir. Meta 15: tem como estratégia garantir, em regime de colaboração entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, que todos os professores da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. E quanto às estratégias, há a possibilidade de trazer programas específicos de formação de professores para as populações do campo, comunidades quilombolas e povos indígenas. Outro ponto é valorizar as licenciaturas, programar cursos e programas especiais para assegurar formação específica aos docentes que ainda não têm graduação (BRASIL, 2001). O Plano Nacional de Educação (2011-2020), no que se refere à formação e à valorização dos professores, em síntese, são propostas tanto a realização de provas para aprovação de docentes como a implantação de uma política nacional de formação continuada para professores, com o estabelecimento de planos de carreira para todos os profissionais da educação. Desse modo, Gadotti (1992, p. 70) explica que a estrutura educacional de nosso país deve garantir o “[...] acesso de todos à educação, independentemente de posição social ou econômica, acesso a um conjunto de conhecimentos e habilidades básicas que permitam a cada um desenvolver-se plenamente”. Gestão Educacional 14 Estrutura e Funcionamento da Educação Básica Agora vamos estudar a estrutura e o funcionamento da educação básica. Você sabe como funciona a estrutura da educação básica brasileira? Figura 2 – Legislação da educação brasileira Fonte: Pixabay Inicialmente, vamos entender o que é estrutura e funcionamento e, em seguida, compreender a influência das políticas públicas da educação. Para entender como é a estrutura e como é definida a nossa educação no Brasil, temos de conhecer primeiro a lei que rege a educação escolar: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), mais conhecida com LDBEN ou LDB. Para entendê-la, serão apresentados tanto as modalidades de ensino como os direitos e deveres do estado com a educação. Precisamos entender o que é estrutura e funcionamento, pois isso nos mostra ideias e valores que alicerçam o que deve acontecer nas escolas e as práticas dos profissionais nela envolvidas. Gestão Educacional 15 EXPLICANDO MELHOR: Quando nos referimos à estrutura e ao funcionamento de uma escola, estamos falando de como deve acontecer a organização de um sistema escolar e isso remete diretamente ao que minimamente deve acontecer no interior de uma escola, a exemplo da estrutura física do edifício escolar, isto é, as instalações (refeitório, pátio, quadra, bibliotecas, laboratórios, sala de aula, quadra, banheiros femininos e masculinos). Já em relação ao funcionamento, este depende da estrutura física, pois ela proporciona o local em que a escola deve estar em funcionamento e, para funcionar de fato, precisa de pessoas para garantir o seu funcionamento, como funcionários em geral (secretária, porteiros, pessoal da limpeza, professores, equipe técnica, diretores). Além disso, também precisamos dos alunos para frequentá-la. Em relação ao funcionamento da escola, se é bom ou ruim, isso dependerá das pessoas que frequentam e fazem parte dela, pois, antes de tudo, é preciso que se tenha compromisso com o trabalho e ao mesmo tempo com a aprendizagem (VIEIRA, 2001). NOTA: Por que estou explicando que ter a estrutura física de uma escola não garante o seu bom funcionamento? Porque a legislação garante a estrutura e como deve ser o seu funcionamento, conforme está descrito na LDBEN, mas o seu bom funcionamento dependerá de quem está dentro da escola fazendo a sua parte. Por isso, tanto há a possibilidade de encontrarmos escolas com boa estrutura e bom funcionamento como podemos encontrar com a estrutura definida pela legislação da educação brasileira, mas com um mau funcionamento. Gestão Educacional 16 Tudo isso é contraditório? Sim, é contraditório. Como trabalhamos com seres humanos, nas escolas o grande desafio é que as pessoas façam acontecer conforme dita a LDBEN. O correto seria a estrutura e o funcionamento conforme rege nossa legislação, pois, só assim, iríamos trilhar o caminho da qualidade da educação. Vamos falar sobre as políticas educacionais pós-1990, pois foi partir de uma nova Constituição Federal, em 1988, que garantimos a democracia em nosso país e que nossas escolas pudessem trabalhar no sistema democrático. Em seguida, em 1996, tivemos a instituição da LDBEN e, consequentemente, a Política de Educação Nacional, regidas pela nova configuração que o nosso país entrou, que foi o regime democrático, pós- ditadura militar e com novas eleições presidenciais. É nesse contexto, entre 1980 e 1990, que temos o uso da nomenclatura “educação básica” e quando começa a engatinhar uma política educacional que contempla os nossos alunos. Agora a luta passa a ser pela universalização da educação básica. No governo do presidente José Sarney, foi produzido um documento orientador para a política educacional do nosso país chamado: “Educação para todos: caminhos para mudança” (BRASIL, 1995). É com o estabelecimento da LDBEN, que se retira o uso das denominações primeiro e o segundo grau. Institui-se, então, o que ela denomina de educação básica, composta por educação infantil (creche e pré-escola), ensino fundamental e ensino médio, tendo como finalidade o pleno desenvolvimento do educando e assegurando a formação comum necessária ao exercício da cidadania e o desenvolvimento de meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores, conforme seu art. 22 (BRASIL, 1996). Dessa forma, compreende-se que a educação básica é necessária ao desenvolvimento do indivíduo,pois é por meio dela que o aluno buscará adquirir conhecimentos básicos, com a intencionalidade de progredir socialmente, além de trilhar para sua formação como cidadão crítico e atuante em nossa sociedade. Gestão Educacional 17 A LDBEN assegura, em seu cap. I, art. 24, que a educação básica será organizada com regras, tais como carga horária de 800 horas para os ensinos fundamental e médio, distribuídas em 200 dias de aula, no ano letivo, excluindo daí o tempo reservado a exames finais, quando houver (BRASIL, 1996). Também não podemos esquecer o que o art. 21, da LDBEN, que dispõe sobre os níveis e as modalidades de ensino. Os níveis da educação são: educação básica e educação superior. • Educação básica: educação infantil, ensino fundamental e médio. • Educação superior: graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado. As modalidades de ensino são: • Educação de Jovens e Adultos. • Educação Especial. • Educação Profissional e Tecnológica. • Educação a Distância. • Educação Especial. • Educação Básica do Campo. • Educação Indígena. • Educação Quilombola. Vamos entender um pouquinho mais sobre a educação básica de nosso país: Educação Infantil É a primeira etapa da educação básica, até os 5 anos, que se inicia na creche de 0 a 3 anos, e pré-escola de 4 a 5 anos, e será ofertada pelos municípios. Gestão Educacional 18 Ensino Fundamental É a segunda etapa da educação básica e está dividido entre Ensino Fundamental I e II, com duração de 9 anos, que deve acontecer com alunos de 6 a 14 anos. É ofertado pelos estados e municípios. Ensino Médio É a terceira etapa da Educação Básica, tem duração de 3 anos, contempla alunos de 15 a 17 anos, aproximadamente, e deve ser ofertado pelo estado. Ensino Superior Acontece após os 18 anos. É ofertado pelo governo federal. Apesar de ser fundamental para o desenvolvimento do alunado e preparação para o mercado de trabalho, ainda não há acesso para todos e, por isso, o processo se dá a partir de seleção, seja para faculdades públicas ou particulares. Educação de Jovens e Adultos É ofertada para aqueles que não tiveram acesso ou não puderam dar continuidade aos estudos no ensino fundamental e médio na idade apropriada. Educação Profissional e Tecnológica É entendida como uma ação voltada ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Educação Especial É destinada aos educandos com necessidades educativas especiais, promovida preferencialmente pela rede regular de ensino, também podendo ser ofertada em instituições especializadas. Vieira (2001) explica que sua estrutura administrativa e normativa é composta por normas, diplomas legais, metodologia de ensino etc.; suas entidades mantenedoras são poder público e entidades particulares; e sua administração se dá pelo Ministério da Educação, por Conselho Estaduais e Municipais de Educação e Secretarias de educação. Gestão Educacional 19 Educação Básica do Campo Atende à população rural. Deve se adequar às peculiaridades de quem vive no campo, que se diferem de região para região. A identidade da escola do campo deve estar atrelada diretamente com as questões da realidade deles. Assim, deve haver propostas pedagógicas que contemplem a diversidade nos seus aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia. Educação Escolar Indígena Deve acontecer em territórios indígenas, valorizando a cultura deles, estando assim de acordo com as particularidades de sua realidade, com pedagogia própria. Educação Escolar Quilombola É desenvolvida em unidades educacionais que estejam em territórios quilombolas. Deve valorizar a cultura deles, também com o uso de pedagogia própria, e considerar a especificidade étnico-cultural que, em cada território, possui suas particularidades. Sobre a organização e o funcionamento da estrutura escolar, observamos na LDBEN, no art. 23, que a educação básica pode ser organizada em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos e grupos não seriados. Para isso acontecer, pode estar baseada na idade, na competência e em outros critérios, sempre que o interesse do processo de aprendizagem o recomendar. No art. 50 da citada lei no que diz respeito ao acesso à escola, preconiza-o como um direito, podendo qualquer cidadão ou grupo de cidadãos acionar o poder público para exigi-lo. Já o art. 5º afirma que a educação básica é direito de todos e deve haver vagas para todos. No art. 6º é informado que é dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade (Redação dada pela Lei nº 12.796/2013). Por isso, é dever dos pais realizar a matrícula de seus filhos e, se não houver vagas, é preciso acionar o poder público para fazer valer esse direito. Gestão Educacional 20 RESUMINDO: E, então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que gestão escolar e políticas públicas devem caminhar de mãos dadas. As políticas públicas vêm para apoiar o gestor, que deve atuar de acordo com o que manda a legislação brasileira. Vimos que a gestão democrática está apoiada, no Brasil, a partir do momento em que saímos de um modelo de regime militar e passamos para o democrático. Com a Constituição Federal (1988), temos os primeiros registros de direito à gestão democrática e, logo depois, em 1996, temos estabelecida a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996). Nesse ínterim, houve abertura para outras legislações apoiarem as escolas públicas para a administração no modelo de gestão escolar democrática. Por fim, conhecemos os níveis (educação básica e educação superior) e as modalidades de ensino no Brasil (Educação de Jovens e Adultos, Educação Profissional e Tecnológica, Educação Especial, Educação Básica do Campo, Educação Escolar Indígena e Educação Especial). Gestão Educacional 21 Sistemas de Ensino da Educação Básica OBJETIVO: Caro estudante, neste capítulo, você vai ter a oportunidade de verificar a importância da função social no contexto escolar e na educação. Será que em ambas as áreas representa a mesma coisa ou em cada uma tem uma função específica, tanto na escola ou na educação? Será que a escola e a educação têm o intuito de colaborar com a formação das pessoas? Essas polêmicas serão trabalhadas por meio de teorias que nos possibilitam a chegar a uma conclusão em relação a essa temática. No contexto histórico da educação, os primórdios das comunidades primitivas eram considerados grupos que não possuíam residências fixas, ou seja, nômades que necessitavam mudar de lugar de acordo com suas necessidades de alimentação e água, e acabavam indo para onde pudessem garantir seu sustento. Com o passar do tempo, a população nômade passa a se fixar nas terras, pois já conseguia tirar dali seu sustento, plantando e caçando. Isso propiciou que parasse de se deslocar de um lugar para o outro em busca de melhorias para sustentar suas famílias. Observando a população nômade, passamos a indagar: naquele tempo havia escolas? Existia a parte da educação? Podemos concluir que a educação existia, mas não seguia um modelo formal, que tivesse lugar, hora e local específico chamado de escola. Você deve estar pensando como poderia existir educação se não tinha um local determinado chamado de escola. Mas a educação é ampla, ultrapassando os limites do ensino que ocorre dentro de uma escola. Gestão Educacional 22 Em relação à educação, Brandão menciona que: ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, paraaprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação? Educações. E já que pelo menos por isso sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre a educação que nos invade a vida. (BRANDÃO, 2002, p. 7) Dessa forma, podemos afirmar que a educação ultrapassa os limites do contexto escolar. Ela existe sem que a pessoa tenha estudado, pois o saber é repassado de geração para geração em todas as estruturas da sociedade, mesmo sem ter algum modelo formal e centralizado de ensino. Brandão (2002) relata que, desde os primórdios, já existia uma educação difusa, ou seja, que não tinha lugar, dia ou hora para ocorrer, repassada tanto de geração para geração quanto para as pessoas que tinham o desejo de aprender um ofício. NOTA: A educação tem um sentido mais amplo do que o que aprendemos na escola, o que se adquiriu após os estudos. Ela resulta da sociedade e da cultura em que estamos inseridos, vivenciada no cotidiano, no seio da sociedade. Desse modo, somos educados. Assim, Brandão (2002) explica que a escola, seja qual for a finalidade do ensino, é apenas um lugar com conhecimentos elaborados e pensados para acontecer naquele determinado lugar, com dia e hora marcada para promover uma determinada aprendizagem. Com a população deixando de ser nômade, começam a surgir novas maneiras da sociedade se organizar, as propriedades deixam de ser comuns e passam a ser privadas, mudando as relações entre as pessoas, ou seja, os proprietários de terras detinham o poder em relação aos menos favorecidos. Gestão Educacional 23 Sendo assim, Aranha (2006) explica que, a partir dos interesses individuais começam a ocorrer modificações na área da educação, na qual, anteriormente, era passado o ofício de geração para geração ou a quem se interessasse. Os interesses individuais passam a ser um ponto de desigualdade tanto na parte econômica na sociedade quanto na área da educação. EXPLICANDO MELHOR: Após essas reflexões, devem ter surgido algumas dúvidas, certo? Qual o objetivo de estudarmos a partir de uma estrutura da educação e suas divisões? Estudamos para que possamos ampliar nosso conhecimento acerca da temática, equiparando o contexto escolar passado e presente, verificando como ocorreu sua organização e políticas atuais para se trabalhar no interior das escolas do Brasil. Sendo assim, podemos compreender que do processo de divisão de bens dependiam as relações de poder na sociedade, mas a educação que antes era difusa, passa a ser para poucos. Os ricos ficavam com a educação intelectual e as classes abastadas com a educação profissional, o que fez com que houvesse desigualdades no campo da educação. Assim, surgiam as classes dos proletariados e assalariados, dominantes e dominados, ou seja, iniciou-se o que mais tarde passou a ser denominado como capitalismo. Não se olhava mais para o lado humano e sim para o lucro, o capital. Pouco importava se haveria exploração de pessoas, o que interessava era o quão se lucraria naquele negócio. Surge aí a venda da força de trabalho, tornando-se apenas uma pessoa indispensável à produção. Gestão Educacional 24 Essa nova organização de sociedade causa impactos, principalmente, nos modos de produção, mudando a concepção que tínhamos de homem, sociedade, educação e trabalho. Conforme Enguita: [...] não existe para elas outra via disponível de obtenção de seus meios de vida senão o trabalho assalariado, este goza já de aceitação social, os que o rejeitam têm sido relegados a uma posição marginal e a cultura dominante bendiz e reproduz a tudo isto. (ENGUITA, 1989, p. 30) Segundo Enguita (1989), analisando esse lado do capital, o qual desconsidera o ser humano e passa a visar ao lucro, a escola também começa a por em prática essa divisão de classes, ou seja, tornando-se o local específico para por em prática o que a sociedade determinava, seguindo o sistema capitalista. Assim, era na escola que os futuros adultos iriam ter conhecimentos do que mais tarde iriam fazer. O modelo de escola vigente à época seguia a lógica do capital, em que era repassado o mínimo de conhecimento acadêmico para as classes mais populares, adestrando em massa os futuros trabalhadores assalariados (ENGUITA, 1989). Porém, não se pode negar que a escola focava a disciplina, pontualidade, realização dos trabalhos, controle e frequência. Após a ampliação de nossos conhecimentos a cerca do que era a educação nesse contexto histórico, podemos compreender que a educação que almejamos não é essa que faz a divisão de classes com base no capitalismo. É preciso haver uma visão crítica em torno da realidade, que deve passar a valorizar o ser humano em todos os seus aspectos, seja no aspecto biológico, material, afetivo, estético ou lúdico. Essa educação deve ter o intuito de valorizar o homem de acordo com sua necessidade. Nesse sentido, as escolas devem ter o anseio de trabalhar projetos que valorizem o lado humano, visando a respeitar cada realidade escolar, buscando desenvolver o lado crítico e reflexivo, buscando transformações na sociedade. Temos de ter em mente que a escola deve ter consideração ao seu papel na sociedade, buscando dar impulso à sistematização do saber e difusão da cultura que é passada de geração para geração. Gestão Educacional 25 EXPLICANDO MELHOR: Aqui, podemos verificar que a educação tem amplitude maior que a educação escolar. A educação, conforme explicação de Brandão (2002), está em todos os lugares, na rua, na praça, na igreja. De um jeito ou de outro, estamos sempre sendo educados. A escola é mais delimitada para transmitir conhecimentos teóricos, científicos, formando o cidadão para a vida, sabendo-se que em algum momento ele ingressará no mercado do trabalho. A Função Social da Escola e sua Relação com a Democracia Com base nas leituras anteriores, podemos ter noção da função social tanto no aspecto educacional quanto escolar. Podemos compreender que a educação é mais ampla, pois acontece por meio de práticas oriundas da sociedade em que estão inseridas. Logo, em relação à educação, podemos observar que esta também acontece além dos muros da escola (BRANDÃO, 2002). Figura 3 – Escola pública Fonte: Pixabay Gestão Educacional 26 A educação não tem uma forma pronta, ela provém do meio em que estamos inseridos, das constantes transformações, das relações com a natureza, o que acaba acarretando, entre os grupos sociais, leis, normas e regras com o anseio de que possam viver em harmonia com os demais grupos. Nesse contexto, compreendendo a escola enquanto criação humana, só tem sentido se ela se legitimizar perante a sociedade, baseando sua função social na formação humana com o intuito de viabilizar a construção e socialização do saber produzido. Assim, Frigoto (1999) retrata que tanto a educação quanto a formação devem caminhar de mãos dadas, visando sanar as necessidades humanas. Logo “[...] a educação e a formação humana terão como sujeito definidor as necessidades, as demandas do processo de acumulação de capital sob as diferentes formas históricas de sociabilidade que assumem” (FRIGOTTO, 1999, p. 30). Como instituição social, a escola deve trabalhar com base em valores, conhecimentos e atitudes, o que acaba causando possíveis mudanças na sociedade. Dessa forma, quando falamos sobre a função social da escola, nossos esforços giram em torno de repensar o seu próprio papel, sua organização e a prática de seus os atores. De acordo com Althusser (1980), a escola contribui para a reprodução da ordem social. No entanto, ela também participa de sua transformação, às vezes intencionalmente. Outras vezes, as mudanças se dão, apesar da escola. SAIBA MAIS: Leia a resenha do livro “Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado”, de autoria de Louis Althusser, por ViníciusSiqueira, clicando aqui. Gestão Educacional https://colunastortas.com.br/2017/06/19/ideologia-e-aparelhos-ideologicos-de-estado-louis-althusser-uma-resenha 27 A questão que deve ser posta, de fato, é que a instrução, ofertada na escola, não alcança de igual maneira todos os estudantes que estão contidos nela. De acordo com Silva (2005), o currículo escolar ainda está muito focado na cultura dominante. Emitem-se códigos que as crianças das classes dominantes podem facilmente entender, pois fazem parte da realidade delas. Mas, para as crianças das classes dominadas, tudo fica mais difícil de decifrar, se esse código não faz parte do seu dia a dia. Como elas não sabem do que se trata, a escola termina sendo algo estranho a elas. Algo que vai resultar em sucesso para as crianças das classes dominantes, que serão encaminhadas para o ensino superior. Porém, as crianças que fazem parte das classes dominadas, com o seu insucesso, acabam desistindo e não concluindo sequer o Ensino Médio. NOTA: Nas escolas, se pararmos para observar o contraste, percebemos a desigualdade. As crianças das classes dominantes veem a sua cultura reconhecida, já as crianças das classes dominadas, ao frequentarem a escola, não enxergam a sua cultura valorizada. Tudo fica muito mais difícil quando já se tem um capital cultural baixo ou praticamente nulo e não há incentivo para que haja seu aumento rumo à transformação da sociedade. E quando não se faz nada para que essa realidade mude, contribui- se para a reprodução dessa classe dominante (SILVA, 2005, p. 35). A essa altura você deve estar se perguntando por que estamos falando de relações de poderes, de reprodução, em vez de produzir. Porque isso que estamos expondo aqui é para explicar que o sistema escolar é um formador e reprodutor, mas isso é lamentável por reforçar que se perpetue a desigualdade social. Gestão Educacional 28 SAIBA MAIS: Leia a obra de Bourdieu e Passeron, intitulada “A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino”. Conforme Bourdieu e Passeron (1982), o sistema educativo é compreendido como o conjunto dos mecanismos institucionais, por meio do qual se garante a transmissão, entre as gerações, da cultura acumulada (herdada); as teorias clássicas que diferenciam a reprodução cultural de sua função de reprodução social. É com esse sentido que diretor, professor, pais, alunos e comunidade escolar devem compreender que a escola é um espaço contraditório. Tendo essa compreensão, é primordial que cada escola crie um Projeto Político-Pedagógico, com o intuito de atender às peculiaridades locais. As ações pedagógicas propostas devem estar dotadas de sentidos que reflitam diretamente a vinculação de concepções que possam ser autoritárias ou democráticas, que possam estar explícitas ou não. Desse modo, quando pensamos a função social da educação e da escola, isso requer que seja problematizada a escola que queremos. Por isso, esse não deve ser um documento realizado por apenas uma pessoa, mas sim por representantes de diversos segmentos da escola. Para isso acontecer, é preciso que a escola proporcione espaços e mecanismos de participação para esse processo de construção da documentação de forma democrática. Gestão Educacional 29 De acordo com Libâneo, é preciso pensar e repensar o papel da escola numa perspectiva emancipadora e, para que isso aconteça, o autor destaca quatro pontos: O primeiro deles é o de preparar os alunos para o processo produtivo e para a vida numa sociedade tecno-científica- informacional. Significa preparar para o trabalho e também para as formas alternativas do trabalho. (LIBÂNEO, 1998, p. 34) Em segundo lugar, o objetivo de proporcionar meios de desenvolvimento de capacidades cognitivas e operativas, ou seja, ajudar os alunos nas competências do pensar autônomo, crítico e criativo. “[...] O terceiro objetivo é a formação para a cidadania crítica e participativa.” O quarto objetivo é a formação ética. Assim, é urgente que diretores, coordenadores e professores entendam que a educação moral é uma necessidade premente da escola atual (LIBÂNEO, 1998, p. 1). A escola precisa repensar seu papel no sentido de ser espaço de formação geral, privilegiando habilidades e conhecimentos necessários para inserção na sociedade. É perceptível que, ao discutirmos sobre a função social da escola, caminharemos para discutir o papel das políticas públicas e o que isso implica para o sistema escolar regido pelo modelo de gestão democrática. A gestão democrática está garantida na LDBEN, que explicita como a função do diretor, atualmente chamado de gestor, não se limita a realizar atividades meramente burocráticas na escola. Mais que isso, é necessário garantir espaços na escola em que aconteçam ações de colegiados, que envolvam democraticamente os representantes de cada categoria que compõe a comunidade escolar. Gestão Educacional 30 RESUMINDO: E, então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a educação tem sua amplitude maior do que alcance da educação escolar. A educação, conforme explica Brandão (2002), está em todos os lugares e estamos sempre sendo educados. A escola é mais delimitada para transmitir conhecimentos teóricos, científicos, formando o cidadão para a vida e o mercado do trabalho. Em relação à especificidade da escola, sua função é de cuidar para deixar esse espaço mais humanizado. Vivemos em um país em que o regime é capitalista e temos que atender às necessidades do mercado. Mas como? Só pensando no capital a ser ganho? Entendendo a escola como reprodução do conhecimento ou como espaço para humanizar as pessoas, formando um cidadão crítico e atuante, que vai saber reivindicar seus direitos quando necessário? Portanto, em meio a uma gestão democrática, deve se pautar para não focar mais questões meramente administrativas, pois não é a única responsabilidade do gestor. Este vai gerir com a comunidade escolar as questões administrativas, pedagógicas, financeiras e relações pessoais. Tudo isso deve acontecer na escola, a fim de que, juntos, num espírito de colaboração, haja melhorias no processo de ensino-aprendizagem. Gestão Educacional 31 A Gestão Democrática da Educação e da Escola OBJETIVO: Caro estudante, nesta unidade, você vai ter a oportunidade de verificar qual é a importância da gestão democrática da educação e da escola, seus conceitos e princípios. Será que gestão da educação e da escola têm, cada uma, uma função específica? Esses conteúdos serão trabalhados por meio de teorias que nos possibilitem chegar a uma conclusão em relação à temática abordada. Vamos lá?. A gestão democrática na escola pública, após anos 1990, veio para requerer mudanças de comportamentos e na forma de pensar a escola. No interior das escolas, deveriam ser promovidos espaços de atuação que formem os alunos para o exercício de sua cidadania. Para isso acontecer, é preciso trilhar rumo ao caminho que una sociedade, aluno e conhecimento. Para tanto, é necessário que, cotidianamente, se desenvolvam ações que viabilizem o diálogo e agreguem desejos, interesses e necessidades da comunidade. Figura 4 – Gestão democrática Fonte: Pixabay Gestão Educacional 32 Segundo Henriques (2002), esse movimento em favor da gestão escolar aconteceu durante a década de 1980, na qual eram comuns constantes discussões para a descentralização da gestão das escolas públicas, que, depois, teve apoio em reformas legislativas. Em meio a esses acontecimentos, três grandes mudanças foram propostas: as escolas passariam a contar com a participação da comunidade escolar para selecionar os seus diretores; haveria a criação de um Conselho Escolar; e o repasse de recursos financeirospara a escola utilizá-los com mais autonomia, representando a possibilidade de conseguir atender às diversas particularidades de cada escola do país. Conforme a autora, após a institucionalização da democracia e a promoção das discussões em prol da qualidade do ensino, a gestão democrática é uma prática que veio para somar e para estimular as formas de gerir as escolas brasileiras. No entanto, para que isso acontecesse, foi preciso mudar a concepção de participação. A colaboração dos pais, alunos, funcionários, professores e de todos os interessados na qualidade do processo de ensino-aprendizagem tornou-se uma premissa (HENRIQUES, 2002). Uma gestão que esteja interessada em integrar os desejos da escola deve ter como objetivo garantir a qualidade para todos e saber conduzir uma prática que respeite “diversidade local, étnica, social e cultural”. O desafio se baseia em educar e ser educado. Para que isso seja realizado de fato, é necessário romper com concepções estáticas e históricas dos acontecimentos internos da escola: “[...] como o consenso, a adaptação, a ordem, a hierarquia”, e isso requer profissionais que valorizem a dinâmica na escola em que “[...] a contradição, a mudança, o conflito e a autonomia” aconteçam de fato (HENRIQUES, 2002). Desse modo, ainda há muito a se fazer no interior de nossas escolas, pois é difícil conquistar os profissionais para participação e nem todos têm a consciência da importância do seu papel de colaborador, de divisor de responsabilidades. Não é uma tarefa fácil juntar pais, alunos, professores, funcionários e todos os envolvidos no funcionamento da escola pública. É neste sentido que, na atualidade, discussões primordiais giram em torno da aprendizagem dos alunos, para que se sintam sujeitos do processo Gestão Educacional 33 de aprendizagem. É preciso que o professor reconheça que seus alunos têm atitudes e desempenhos diferenciados no decorrer do processo de ensino-aprendizagem (GADOTTI; ROMÃO, 1998, p. 28). Segundo Lück (2001), a mudança do termo “administração” para “gestão” aconteceu com a intencionalidade de romper com a posição do administrador, que por muito tempo nas escolas centralizou suas ações em suas mãos. Com essa mudança, o uso do termo “gestor” não veio apenas para alterar a nomenclatura, mas para descentralizar as tomadas de decisões no interior das escolas, dividindo, assim, responsabilidades com toda a comunidade escolar. A gestão democrática passou a acontecer não mais a partir das relações de poderes, mas dos esforços para um trabalho coletivo, na busca por tomada de decisões e ações conscientes em prol de um bem comum. Por isso, o diálogo na gestão democrática é estar a disposição de compreender o outro. E se tratando de gestão democrática, é preciso que caminhos sejam abertos para que se promova a participação de todos que fazem parte da escola. Mecanismos que facilitem a participação em momentos decisórios, de forma democrática devem ser explorados. É preciso que seja esclarecido entre os participantes das reuniões democráticas que cada escola tem a sua realidade, e não é só com autoridade do “diretor” que isso será resolvido. Precisamos desenvolver na escola o hábito da participação, da colaboração e do envolvimento político-pedagógico (PARO, 1997). NOTA: Paro (1997) destaca que o Conselho Escolar é uma boa opção para que se exerça o espaço democrático dentro das escolas. As decisões que nele acontecem funcionam como uma forma de dividir responsabilidades, proporcionando autonomia para as escolas. Gestão Educacional 34 Na gestão escolar democrática nas escolas públicas, o gestor escolar deve se tornar o líder. Conforme Ferreira (2004, p. 30), um gestor deve ter um perfil que engloba conhecimento da realidade da escola, condições pessoais, vocação e formação contínua. O profissional deve ter esse perfil, pois se trata de uma tarefa muito complexa, que exige que ele seja um agente de mudança. Ainda segundo Ferreira (2004, p. 30), “o líder de mudanças é aquele que se encarrega de levar adiante as tarefas, enfrenta conflitos, busca soluções e arrisca-se sempre diante do novo”. Por isso, desenvolver o espírito de liderança, propondo coisas inovadoras, com parcerias e estratégias de ação, com muito trabalho em equipe, eficiência é primordial. Figura 5 – Legislação da educação brasileira Fonte: Freepik Na atualidade, o mercado torna as escolas mais competitivas, flexíveis a mudanças, e o gestor escolar deve estar aberto a essas mudanças, inovações no campo das ciências, da tecnologia, da comunicação e da informação. Por isso, é preciso se conscientizar de que todos são sujeitos responsáveis por sua atuação, pois fazem parte da evolução constante de nossa sociedade. Dessa forma, a democracia é o meio político de salvaguardar a diversidade social e cultural dos membros da sociedade nacional ou local, simultaneamente à manutenção de uma Gestão Educacional 35 língua nacional e um sistema jurídico que se aplique a todos; é a única possibilidade de limitar a crescente dissociação entre racionalidade instrumental e identidades culturais; é uma luta pela libertação em relação a um poder, seja o despotismo racionalista, seja a ditadura comunitária; é um espaço de tensões e conflitos, ameaçado constantemente por algum poder; é o espaço institucional livre, no qual se desenvolve esse trabalho do sujeito sobre si mesmo, trabalho pelo qual as pessoas encontram o papel de criadoras e produtoras, não somente de consumidoras. (GHANEM, 2004, p. 21-23) Sendo assim, o espírito democrático deve se fazer presente nas escolas. Esse é o principal norte da gestão democrática. A ideia é promover a população escolar, não importando a sua condição social. Portanto, devem ser proporcionadas oportunidades de acesso e permanência nas escolas. Vamos lá! Será que os participantes da escola têm consciência do que é democracia? Para que uma escola se torne democrática, deve formar as pessoas para que saibam cobrar seus direitos, tornando-se cidadãos atuantes. Diálogo na escola não significa consenso, também surgirão conflitos e isso não remete a uma coisa ruim. Mas deve ser aberto um diálogo, pois é por meio dele que serão tomadas decisões. Para que tudo isso aconteça, é preciso criar um ambiente seguro para o diálogo, no qual haja confiança, comprometimento e responsabilidade no papel que a escola desempenha. Nesse sentido, o Conselho Escolar tem se tornando um espaço que busca unir teoria e prática na democratização das escolas púbicas (PARO, 2005). Sobre essa questão, Libâneo (2004) explica que a participação leva a escola a um processo de alcance de autonomia em suas decisões. Desse modo: [...] requer vínculos mais estreitos com a comunidade educativa, basicamente os pais, a entidades e as organizações paralelas à escola. A presença da comunidade na escola, especialmente dos pais, tem várias implicações. Prioritariamente os pais e outros representantes participam do Conselho da Escola da Associação de Pais e Mestres para preparar o projeto Gestão Educacional 36 pedagógico curricular e acompanhar e avaliar a qualidade dos serviços prestados. (LIBÂNEO, 2004, p. 144) Por isso, o autor esclarece que para autonomia e democracia aconteçam na escola, é preciso deixar claro para os seus participantes a força transformadora que têm juntos. Para tanto, é preciso explicar como funciona as ações das instâncias colegiadas, como a Associação de Pais Mestres e Funcionários, o Grêmio Estudantil, o Projeto Político- Pedagógico e o Conselho Escolar. Como será que funcionam essas instâncias colegiadas? Associação de Pais, Mestres e Funcionários Deve ter representantes de cada segmento. Tem objetivos administrativos e pedagógicos, mas é fundamental sua atuação no setor financeiro da escola, pois precisa deles para gerir de forma direta as verbasrecebidas. São eles quem decide como os recursos que escola recebe serão gastos. Para que haja transparência sobre os gastos da escola, estes devem ser registrados e expostos em local visível para a comunidade escolar. Figura 6 – Associação de Pais, Mestres e Funcionários Fonte: Freepik Grêmio estudantil É uma liderança estudantil, na qual a participação deles na gestão democrática instiga a aprendizagem e a integração do aluno nas práticas sociais e democráticas. Gestão Educacional 37 Figura 7 – Grêmio estudantil Fonte: Pixabay Projeto Político-Pedagógico Figura 8 – Projeto Político-Pedagógico Fonte: Pixabay É um documento produzido a partir de planejamento, que deve acontecer com todos que fazem parte da escola e/ou por representantes de segmento escolar, com o intuito de construir um documento que vai Gestão Educacional 38 funcionar como a identidade da escola, trazendo o histórico da instituição, seus problemas e possíveis soluções. Conselho Escolar Realiza reuniões ordinárias, realizadas mensalmente, e, extra- ordinárias, quando preciso. Essas reuniões são o momento em que os representantes dos diversos segmentos da escola dialogam e, a partir daí, são tomadas as decisões. Também existe o Conselho Disciplinar, de natureza consultiva e deliberativa, que, caso necessário, aplica sanções disciplinares que constam no Regimento Escolar. Ao finalizar este documento, todos os que fazem parte da escola (gestores, docentes, discentes, pais, técnicos administrativos e de apoio, tais como porteiro, merendeira, limpeza e comunidade local), após terem colaborado para a sua construção, devem contribuir com a escola, no sentido de tentar cumprir metas, ações, para que os objetivos nele propostos sejam alcançados, fiscalizando e avaliando como as decisões estão sendo colocadas em prática. Figura 9 – Conselho Escolar Fonte: Pixabay Gestão Educacional 39 RESUMINDO: E, então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o formato de gestão de uma escola deve seguir a democracia, por isso a denominação Gestão Democrática. Para tanto, esses princípios devem ser colocados em prática por um gestor líder e não aquele que impõe as coisas sem o diálogo para resolver as particularidades de uma escola. Não podemos esquecer a legislação que rege a educação brasileira e, ao mesmo tempo, tem autonomia para que algumas decisões internas aconteçam em prol do melhor processo de ensino-aprendizagem. Por isso, é preciso colocar em prática a conscientização do papel de todos que fazem parte da escola e da importância das instâncias colegiadas: Grêmio Estudantil, Associação de Pais, Mestres e Funcionários, Conselho Escolar, Projeto Político- Pedagógico e a representação de pais, professores, alunos, funcionários. Todos que fazem a comunidade escolar devem ter seus representantes para discutir questões que dizem respeito à escola. Gestão Educacional 40 Políticas que Influenciam na Gestão Escolar Democrática OBJETIVO: Inicialmente, para entendermos a gestão educacional, precisamos entender por que nossa legislação brasileira tem um marco legal sobre Gestão Democrática nas escolas públicas. Sendo assim, o documento brasileiro que, inicialmente, assegura esse direito é a Constituição Federal de 1988. . Mas por que foi preciso fazer essa inserção do direito à gestão democrática das escolas na Constituição Federal? Porque nosso pai estava saindo de uma configuração de Regime Militar. Foram anunciadas eleições presidenciais e era preciso que esse documento fosse atualizado. Nele, temos garantido o direito à educação pública e gratuita e que as escolas serão administradas por meio da gestão democrática. Por isso, afirma-se que o marco legal da gestão democrática das escolas públicas se deu com o seu primeiro registro na Constituição Federal e, logo em seguida, de forma mais detalhada na LDBEN. Vamos conhecer como isso aconteceu e até os dias atuais continua sendo colocado em prática? Conforme explicado, o nosso país passou pelo regime ditatorial e, ao sair, em 1988, temos promulgada a Constituição Federal brasileira, que traz, em seus artigos 205 e 206, a base para se colocar em prática o princípio da gestão democrática na educação pública brasileira, para formar o cidadão integral e pleno a desenvolver a sua cidadania. Esse acontecimento muito importante de nosso país também o foi para a história da educação brasileira, pois acabávamos de sair do regime autoritário, para entrarmos na democracia de portas abertas para o diálogo e as críticas para tudo que acontece nas escolas públicas (CURY, 2005). Gestão Educacional 41 Na Constituição Brasileira (1988), art. 205, encontramos que: a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. E no art. 206, encontramos as seguintes afirmações: I- igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II- liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III- pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV- gratuidade do ensino público e estabelecimentos oficiais; V- valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; VI- gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII- garantia de padrão de qualidade; VIII- piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. (BRASIL, 1988) Para tanto, é preciso estar atento, pois, para ser um bom gestor, ser democrático em relação aos acontecimentos de uma escola não significa aceitar tudo e escutar a todos. É preciso diálogo, pois esse de é suma importância para entender o que é solicitado, quais são as necessidades de fato. E, para se chegar a algum encaminhamento, é preciso que este seja embasado na legislação brasileira. Para ser um bom gestor, é preciso que o escolhido se esforce para conhecer a legislação que rege a educação brasileira e as políticas públicas, pois deve zelar para que sejam colocadas em prática nas escolas públicas. Destaca-se que a escola tem o respaldo da ter certa autonomia para o seu funcionamento. Gestão Educacional 42 SAIBA MAIS: Neste momento de sua leitura, você pode estar se perguntando: se a escola é pública, até onde o gestor tem autonomia ou não para tomar decisões coletivas na escola? É preciso sempre ouvir todas as ideias e soluções que aparecerão por meio do diálogo como caminhos para ser resolvido algo, mas nem todas as propostas poderão ser colocadas em prática. O gestar dará a palavra final, se acata ou não as sugestões. Além disso, ele deve ter sensibilidade para saber ouvir, dialogar e, em meio às propostas, ter sabedoria para alcançar a melhor solução, que deve obrigatoriamente estar dentro do que manda a legislação brasileira. Ainda sobre a legislação brasileira e sua relação com a gestão democrática, após a promulgação da Constituição Federal (1988), foi sancionada, em 1996, a Lei nº 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que tem, em seus artigos 12, 13 e 14, informações que versam diretamente sobre a questão dos Sistemas de Ensino e como devem acontecer em relação à gestão escolar: Artigo 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: I - elaborar e executar a sua proposta pedagógica; II - administrar seu pessoal e seusrecursos materiais e financeiros; III - assegurar o cumprimento dos dias letivos e horas aulas estabelecidas; IV – velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente; V – prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento; VI – articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola; Gestão Educacional 43 VII – informar aos pais e responsáveis sobre a frequência e o rendimento dos alunos, bem como sobre a execução de sua proposta pedagógica. Artigo 13. Os docentes incumbir-se-ão de: I – participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; II – elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino; III – zelar pela aprendizagem de ensino; IV – estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento; V – ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional; VI – Colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade. Artigo 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I - participação dos profissionais da educação na elaboração do Projeto Pedagógico da escola; II - participação da comunidade escolar e local em Conselhos Escolares ou equivalentes. (BRASIL, 1996) Assim, podemos verificar que os artigos 12, 13 e 14 têm atribuições e destacam as responsabilidades não só dos professores, como da necessidade de todo um trabalho conjunto dos demais profissionais da escola, que deve estar embasado na teoria e, consequentemente, na prática da gestão democrática. Gestão Educacional 44 DEFINIÇÃO: Compreende-se por comunidade local representantes de todos os componentes da escola, como pais, alunos, funcionários da escola e comunidade escolar, que devem agir em parcerias na busca incessante do melhor desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. Isso implica a colaboração de todos na elaboração do Projeto Político- Pedagógico da escola, pois a gestão deve trilhar para não ficar subordinada ao Ministério da Educação, à Secretaria de Educação Municipal ou Estadual, que propõem o mesmo modelo de projeto educativo para diferentes realidades sob o olhar de longe. A gestão democrática acontece de fato para colocar em prática normas e legislações previstas em lei e atender às particularidades das demandas de uma escola com autonomia e responsabilidade. Por isso, está posto na LDBEN que os estabelecimentos de ensino, regidos pela gestão democrática, devem ter a responsabilidade de elaborar e executar coletivamente a sua proposta pedagógica, administrando os recursos administrativos, financeiros, pedagógicos e humanos da escola, articulando-se também com a comunidade e as famílias, provendo a interação entre sociedade e a escola. Já discorremos sobre a importância e determinação da gestão democrática estar garantida por meio da Constituição Federal de 1988 e a LDBEN, mais adiante, vamos discorrer sobre a gestão escolar e o Plano Nacional de Educação. A gestão escolar democrática chega à legislação brasileira após discussões já terem ganhado corpo no cenário internacional. No Brasil, estávamos saindo do regime militar, por volta da década de 1980. A gestão escolar passa a acontecer nas escolas públicas com o objetivo de promover a descentralização de poderes. Gestão Educacional 45 O Plano Nacional de Educação foi uma exigência posta em nossa legislação e, quando passou a ter validade no Brasil, lançou diretrizes, metas e estratégias para acontecerem nas escolas, com o auxílio também de políticas educacionais que acontecessem e dessem conta das demandas em prazos de dez em dez anos. O PNE foi um desejo para acontecer em nosso país desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932. Na Constituição de 1934, no art. 150, já constava a solicitação para que a União estabelecesse um Plano Nacional de Educação, mas, naquele período, pouco se fez em relação a essa questão. Por isso, é perceptível que esse é um desejo antigo e que também se repete por meio das tentativas de atualizar as políticas educacionais que acontecem em nosso país. Em Jomtien, Tailândia, em 1990, o Brasil participou da Conferência Mundial de Educação para Todos, a convite da UNESCO, UNICEF, PNUD e Banco Mundial, e lá foram discutidas questões relacionadas à construção de bases para o Plano Decenal de Educação focando essa projeção para os países subdesenvolvidos. Nos encontros, foram debatidas temáticas em relação à educação, principalmente, referentes à democratização e descentralização na educação, que foram colocadas em prática mais tarde no Brasil. Algo que culminou no debate para serem colocadas em prática questões que envolvem assuntos administrativos e propostas de gestão escolar democrática com fins de melhorar o sistema de ensino. Desse modo, passamos a trabalhar com a prática de desenvolver a “autonomia das escolas”, a “descentralização dos recursos financeiros”, ou seja, surgiram e foram colocados em prática mecanismos com a finalidade de superar as dificuldades educacionais e administrativas. Lück (2000) explica que tudo isso, após o regime ditatorial e a abertura política do nosso país, no decorrer da década de 1990, culminou em novas legislações brasileiras, inclusive para as escolas públicas no que passaria a determinar o modelo de gestão escolar pública democrática. Gestão Educacional 46 A LDBEN trouxe orientações para a elaboração de um Plano Decenal de Educação. No art. 9º, é destacado que cabe à União, a elaboração do Plano, em colaboração com os estados, o Distrito Federal e os municípios. No art. 87, há a instituição da Década da Educação. Quando se passaram os primeiros dez anos, foi feita outra avaliação de como se encontrava a educação de nosso país, algo que reestruturou o PNE e resultou em algumas diretrizes: vinte metas e estratégias para serem colocadas em prática na educação no período de 2014 a 2024. Já o art. 2º trata do acesso à gestão democrática nas escolas públicas. O art. 9º estabelece o prazo de dois anos para aprovarem-se leis que detalhem como deve acontecer a gestão democrática. A Meta 19 do PNE traz a discussão sobre a aprovação de condições para a sua execução, estabelecendo 8 estratégias para a sua construção no âmbito educacional. 19.1 priorizar o repasse de transferências voluntárias da União na área da educação para os entes federados que tenham aprovado legislação específica que regulamente a matéria na área de sua abrangência, respeitando-se a legislação nacional, e que considere, conjuntamente, para a nomeação dos diretores e diretoras de escola, critérios técnicos de mérito e desempenho, bem como a participação da comunidade escolar; 19.2 ampliar os programas de apoio e formação aos(às) conselheiros(as) dos conselhos de acompanhamento e controle social do FUNDEB, dos conselhos de alimentação escolar, dos conselhos regionais e de outros e aos(às) representantes educacionais em demais conselhos de acompanhamento de políticas públicas, garantindo a esses colegiados recursos financeiros, espaço físico adequado, equipamentos e meios de transporte para visitas à rede escolar, com vistas ao bom desempenho de suas funções; 19.3 incentivar os estados, o Distrito Federal e os municípios a constituírem fóruns permanentes de educação, com o intuito de coordenar as conferências municipais, estaduais e distrital bem como efetuar o acompanhamento da execução deste PNE e dos seus planos de educação; Gestão Educacional 47 19.4 estimular, em todas as redes de educação básica, a constituição e o fortalecimento de grêmios estudantis e associaçõesde pais, assegurando-se-lhes, inclusive, espaços adequados e condições de funcionamento nas escolas e fomentando a sua articulação orgânica com os conselhos escolares, por meio das respectivas representações; 19.5 estimular a constituição e o fortalecimento de conselhos escolares e conselhos municipais de educação, como instrumentos de participação e fiscalização na gestão escolar e educacional, inclusive por meio de programas de formação de conselheiros, assegurando-se condições de funcionamento autônomo; 19.6 estimular a participação e a consulta de profissionais da educação, alunos(as) e seus familiares na formulação dos projetos político-pedagógicos, currículos escolares, planos de gestão escolar e regimentos escolares, assegurando a participação dos pais na avaliação de docentes e gestores escolares; 19.7 favorecer processos de autonomia pedagógica, administrativa e de gestão financeira nos estabelecimentos de ensino; 19.8 desenvolver programas de formação de diretores e gestores escolares, bem como aplicar prova nacional específica, a fim de subsidiar a definição de critérios objetivos para o provimento dos cargos, cujos resultados possam ser utilizados por adesão, (SAVIANI, 2014, p. 59-60) Todas as metas que se encontram no PNE foram propostas com a preocupação de sanar as limitações das práticas de gestão que há nas legislações anteriores. Por isso, esclarece mecanismos de como colocar as estratégias em prática, bem como mantê-las vivas nas escolas públicas, dando funções aos âmbitos estadual, federal e a todos da escola. Portanto, está claro aqui que não há mais espaços para as antigas práticas autoritárias. Passam a ser redefinidas com políticas educacionais que fortalecem a prática da gestão escolar, com o estabelecimento da criação de projetos e programas do governo que visem à mudança do cenário educacional já existente. Gestão Educacional 48 Recapitulando, o Plano Nacional de Educação foi aprovado em 2001 e instituiu a obrigatoriedade de estados e municípios elaborarem os seus planos. Consta nas Diretrizes da Educação Nacional, no art. 5º, que: Os planos plurianuais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios serão elaborados de modo a dar suporte às metas constantes do Plano Nacional de Educação e dos respectivos planos decenais. (BRASIL, 2000) Por isso, é importante esclarecer a importância da participação de toda a comunidade escolar interna e externa à escola no processo de elaboração do Plano Decenal Municipal, pois nele deve estar expressa a articulação de ideias para sua elaboração com a identidade local bem esclarecida. De tal modo, na sequência deve haver a aprovação do plano a ser realizada na Câmara Municipal, pelo Poder Legislativo. Para tanto, o governo federal esclarece que a construção de um Plano Municipal de Educação, significa: [...] um grande avanço, por se tratar de um plano de Estado e não somente um plano de governo. A sua aprovação pelo poder legislativo, transformando-o em lei municipal sancionada pelo chefe do executivo, confere poder de ultrapassar diferentes gestões. Nesse prisma, traz a superação de uma prática tão comum na educação brasileira: a descontinuidade que acontece em cada governo, recomeçar a história da educação, desconsiderando as boas políticas educacionais por não ser de sua iniciativa. (BRASIL, 2005, p. 9) Desse modo, é obrigação de diversos segmentos participar dessa elaboração para produzir o Plano Municipal de Educação, pois: [...] constitui-se como o momento de um planejamento conjunto do governo com a sociedade civil que, com base científica e com a utilização de recursos previsíveis, deve ter como intuito responder às necessidades sociais. Todavia, só a participação da sociedade civil (Conselho Municipal de Educação, associações, sindicatos, Câmara Municipal, diretores das escolas, professores e alunos, entre outros) é que garantirá a efetivação das diretrizes e ações planejadas. O desafio para os municípios é elaborar um plano que guarde consonância com o Plano Nacional de Educação e, ao mesmo tempo, garanta sua identidade e autonomia. (BRASIL, 2005 p. 10) Gestão Educacional 49 NOTA: O Plano Municipal de Educação deve ter sua estrutura semelhante ao PNE. Nele, devem constar o diagnóstico da realidade do município, seguido de princípios e objetivos gerais. Deve ser realizando por meio dos conselhos municipais, pela análise de como está a realidade da educação daquele município, considerando o seu contexto social, os aspectos demográficos, avaliando dados dos censos escolares, do desempenho das escolas, da gestão e análise do currículo escolar. Será de posse das avaliações e dos resultados, que acontecerá a etapa seguinte, a de propor diretrizes, objetivos e metas para a educação no município, colocando-se em prática o princípio da gestão democrática. Com esse documento pronto e após a sua elaboração e aprovação, o processo não termina aí. Deve sempre passar por avaliação e reavaliação, com o intuito de melhorar a prática das metas nele proposto. Por isso, o documento tem um caráter dinâmico. Para tanto, é necessária a criação de um comitê permanente de avaliação do plano, com o objetivo de realizar as análises das propostas e políticas públicas referentes à educação. Por fim, é importante esclarecer que a gestão democrática é uma prática legalizada, que faz parte da legislação brasileira por meio da Constituição Federal (1988), da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e do Plano Nacional de Educação. Gestão Educacional 50 RESUMINDO: E, então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a educação brasileira tem uma estrutura e funcionamento da educação e está regida sobre o modelo de gestão educacional no que diz respeito à forma de gerir as escolas, que possui legislação específica. Vimos que o Plano Nacional de Educação acontece a cada dez anos e o último foi elaborado com metas que contemplam a qualidade da educação pública. E, para que isso aconteça, foram determinadas políticas públicas para auxiliar no alcance das metas estipuladas para a educação brasileira. Em suma, o Brasil também requer que haja os Planos Estadual e Municipal Escolar, ambos com especificidades das particularidades de onde a educação escolar se encontra presente. Gestão Educacional 51 REFERÊNCIAS ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3. ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980. ARANHA, M. L. A. História da Educação e da Pedagogia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. BOURDIEU, P.; PASSERON, J. C. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. BRANDÃO, C. R. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2002. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nova LDB (Lei nº 9.394/1996). Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselhos escolares: uma estratégia de gestão democrática. Elaboração Genuíno Bordigno. Brasília: MEC/SEB, 2004. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Documento norteador para elaboração de Plano Municipal de Educação – PME / Elaboração: Clodoaldo José de Almeida Souza. – Brasília: Secretaria de Educação Básica, 2005. 98p. BRASIL. Plano nacional de educação: Lei Federal nº 13.005, de 25 de junho de 2014. BRASIL. Plano Nacional de Educação-PNE. 2001. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/pne.pdf. Acesso em: 06 ago. 2020. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Imprensa Nacional, 1996. CURY, C. R. J. Gestão democrática daeducação pública: Gestão Democrática da Educação. Boletim 19, Ministério da Educação, Brasília, 2005. Gestão Educacional 52 ENGUITA, M. F. A fase oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. FERREIRA, L. A. M.; NOGUEIRA, F. M. B. Impactos das políticas educacionais no cotidiano das escolas públicas e o plano nacional de educação. In: Arquivo Brasileiro de Educação, v. 3, nº 5, p. 102- 129, 2015. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/ arquivobrasileiroeducacao/article/view/P.2318-7344.2015v3n5p102. Acesso em: 06 ago. 2021. FERREIRA. N. S. Repensando e Ressignificando a Gestão Democrática na Cultura Globalizada. Educ. Soc., Campinas, vol. 25, nº 89, p. 1227-1249, Set./Dez. 2004. Disponível em: www.scielo.br/pdf/es/ v25n89/22619.pdf. Acesso em: 10 maio 2015. FRIGOTTO, G. Educação e a crise do capitalismo real. 3. ed. São Paulo: Cortez,1999 GADOTTI, M. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro: Graal, 1992. GADOTTI, M.; ROMÃO, J. E. Escola cidadã: a hora da sociedade. In: BRASIL. Salto para o futuro: construindo a escola cidadã, projeto político- pedagógico. Brasília: MEC, 1998, p. 22-29. GHANEM, E. Educação Escolar e Democracia no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica/Ação Educativa, 2004. HENRIQUES, R. Raça e gênero nos sistemas de ensino: os limites das políticas universalistas na educação. Brasília: Unesco, 2002. LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 5. ed. revista e ampliada. Goiânia: Editora Alternativa, 2001. LÜCK, H. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2001. OLIVEIRA, J. F. et al. O financiamento da educação básica: limites e possibilidades, [s. d.]. Disponível em: https://www.mprj.mp.br/ Gestão Educacional https://www.mprj.mp.br/documents/20184/171752/financiamneto_da_educacao_basica.pdf 53 documents/20184/171752/financiamneto_da_educacao_basica.pdf. Acesso em: 6 ago. 2021. PARO, V. H. Administração Escolar – Introdução Crítica. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2005. PARO, V. H. Gestão democrática da escola pública. 3. ed. São Paulo: Ática, 1997. RODRIGUES, M. M. A. Políticas Públicas. São Paulo: Publifolha, 2010. SAVIANI, D. Plano Nacional de Educação – PNE 2014-2024: teor integral conforme edição extra do Diário Oficial da União de 26/06/2014. Campinas, SP: Autores Associados, 2014. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo). SILVA, T. T. Teorias do currículo. 2. ed., 9. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. VIEIRA, S. L. Estrutura e Funcionamento da educação básica. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, UECE, 2001. 144 P. Gestão Educacional https://www.mprj.mp.br/documents/20184/171752/financiamneto_da_educacao_basica.pdf