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HISTÓRIA DO DIREITO Alta Idade Média A alta idade média inicia-se no século V e vai até a consolidação do feudalismo. A mistura entre o direito romano e o direito dos bárbaros faz com que exista um peculiar jurídico próprio da época. 1. O direito costumeiro dos bárbaros: a Lei Sálica O direito dos bárbaros resulta de uma consolidação de costumes, sendo a Lei Sálica o exemplo maior. As disposições da Lei Sálica mostram bem a espécie de sociedade existente. Depois do primeiro título, relativo ao chamamento ao juízo (juízo popular e costumeiro), passa-se a normas relativas ao furto, ao roubo, a diversas formas de violência contra a pessoa. Vê-se ali que a violência não era reprimida com a prisão, esta invenção moderna do direito, mas com castigos e sobretudo multas ou indenizações, já que a multa prevista não era paga ao Estado mas à vítima, sua família, ou outra pessoa designada. Os castigos são públicos e espetaculares, assim como os processos. As multas variavam segundo as características pessoais da vítima, velho, mulher jovem e em idade fértil, homem adulto, romano, bárbaro, etc. O roubo em flagrante merecia a pena de morte. A descrição detalhada da lei mostra que tudo podia ser roubado, até sinetes de vacas. Em tudo isto, vemos o desaparecimento do Estado, da vida civil. As penas são torturas e castigos infligidos aos contraventores. São quase que formas de vingança privada. Não existe qualquer ideia de prisão. 2. O direito romano dos bárbaros (Lex romana babarorum) Ao lado de uma “legislação” como esta, os reinos bárbaros também tentaram conservar alguma coisa do direito romano. Havendo populações romanizadas vivendo nos seus territórios, a edição de um direito romano barbarizado ou vulgar desempenhava um papel político importante, pois podia significar uma garantia de legitimidade política e de aceitação. Exemplos disso são: Lex Burgundiorum, Lex Romana Visigothorum, dentre outras. 3. Os concílios e a Igreja Para compreender a importância que a Igreja detém nos séculos V a XI, é preciso destacar duas coisas: (1) o vazio político, ou incompletude política, da civilização medieval e (2) as instituições eclesiásticas que passam a existir. O “vazio” político medieval só existe quando o comparamos quer com a estrutura romana quer com a estrutura estatal moderna. Vale a pena mencionar especificamente o papel desempenhado pela Igreja latina porque nela sobreviverão elementos da romanidade e por ela se impõem mecanismos de regulação da vida social que adquirem crescente força. 4. O direito medieval feudal A sociedade medieval, em que o sistema feudal vigora para as relações de detenção da terra, é uma sociedade de ordens e estamentos. Seu direito é um direito de ordens: os homens dividem-se em oratores, bellatores, laboratores, isto é, aqueles que oram (clérigos, padres, monges, freiras, penitentes), aqueles que lutam (cavaleiros e senhores) e aqueles que trabalham (servos). Uma concepção organicista que justifica uma divisão de trabalho determinada historicamente desde o fim da Antiguidade clássica. Havia dois sistemas de relações: o feudal (relativo a vassalagem e tenência da terra) e outro senhorial (relativo à apropriação da renda da terra, relação senhorial entre servo e senhor. Em suma, o sistema feudal disciplina as relações entre senhores, e o sistema senhorial entre senhores e não-senhores. Governar é sobretudo administrar a justiça. Antes do estabelecimento de poderes estatais nacionais, as decisões de justiça retributiva ou corretiva eram muitas vezes proferidas por assembléias populares, com processo oral e sistema de provas era o dos ordálios, cheios de testemunhas, desafios e duelos. 4.1 As cortes senhoriais Oriunda do sistema carolíngeo, as cortes senhoriais eram presididas pelo senhor da região, sendo seu tema central as terras: heranças e contestações de heranças, retomadas de terras, instalação em terras de outrem, servidões, esbulhos possessórios, etc. As cortes senhoriais entram em crise quando o sistema político vê-se disputado por senhores inferiores em ascensão (econômica e militar), por senhores superiores (reis e príncipes) e pela jurisdição paralela da Igreja (bispados, papado). Disputas entre senhores resolvem-se ou com o processo ou com a guerra. A guerra é uma espécie de ordálio entre os senhores. Por isso, não é incomum que antes da guerra sejam invocados argumentos jurídicos, direitos tradicionais e históricos, mas não havendo acordo, ou senhor superior capaz de arbitrar o conflito, a guerra feudal assume esta característica de duelo em que Deus julgará. Os Direitos Romanistas (retorno às compilações de Justiniano, Escolástica, Glosadores, Comentadores e Humanistas) Vimos anteriormente, que após a queda do império romano e a assimilação da cultura dos povos bárbaros, há um retorno da população para o campo, o que vem a gerar o enfraquecimento das cidades e o aumento do poder do senhor feudal. Desse modo, os costumes passam a ter projeção e o direito escrito quase que desaparece, com exceção do direito canônico. Todavia, no século XII, o direito romano foi redescoberto, a partir do Corpus Iuris Civilis. 1. O retorno às compilações de Justiniano A Europa na idade média possuía centenas de direitos locais, de base consuetudinária, o que evidencia uma extrema variação. Essa variação era um empecilho ao progresso social e econômico, e isto (a necessidade) fez com que o direito romano fosse redescoberto. Inclusive vários países tinham o direito romano como supletivo (caso o direito nacional não fosse suficiente para resolver o conflito, utilizava-se o direito romano), foi inclusive o caso de Portugal. Frise-se que se trata de direitos romanistas (e não direito romanista), pois cada cultura local fez uma adaptação própria, levando essa adaptação até suas colônias. Ressalte-se também, que o direito estudado nessa época nas faculdades, além do direito canônico, era baseado no Corpus Iuris Civilis, sendo por isso considerado erudito. Vantagens do Direito Erudito em relação aos direitos locais Direito Erudito a) era um direito escrito Contrastava com os direitos das diferentes regiões da Europa, que ainda eram consuetudinários. b) era comum a todos os mestres Excetuando-se as normais variações de interpretação de escola para escola c) era mais completo que os direitos locais Havia previsões de várias instituições desconhecidas para a sociedade feudal. d) era mais evoluído A sociedade romana tinha sido superior ao estágio em que se encontrava a sociedade medieval européia. Seus Institutos serviam como uma luva para a necessidade de progresso econômico e social da época. Quadro extraído da obra História do direito. Frise-se ainda, que a burguesia exigia uma estrutura jurídica que trouxesse segurança às relações comerciais. “O mercantilismo exigia nova estrutura jurídica que garantisse a estabilidade do direito e auxiliasse na criação e manutenção de mercados internacionais.” 2. A Escolástica Após a conquista de Toledo (Espanha), pelos cristãos, em 1086, inicia-se nessa urbe a escola de tradutores, fruto de intenso intercâmbio cultural que ali se estabeleceu. Descobriu-se ali várias obras da cultura clássica grega, e igualmente o Corpus Iuris Civilis, que analisados e estudados trouxeram grandes novidades. Com os Escolásticos, no século XII, nasceu a ideia de sistema jurídico. Influenciados pelo direito canônico, que por sua vez, recebeu elementos da filosofia aristotélica, os escolásticos (principalmente Abelardo), passaram a sustentar que “a compreensão do todo possibilita melhor análise da parte, fato que permite identificar as lacunas, contradições e antinomias,que existiam no direito da época, dando impulso à hermenêutica jurídica”, em outras palavras “a verdade está no todo e não nas partes”. Ou seja, é possível a existência de textos legais contraditórios entre si, já que a solução surgirá justamente da chamada dialética de resolução dos opostos. Método Escolástico a) Questão É lançada uma dúvida acerca de uma verdade aceita. b) Proposição Apresentam-se citações de autoridade a favor da tese. c) Oposição Apresentam-se citações de autoridade contrárias à tese. d) Solução Conclusão apresentada pelo debatedor, defendida publicamente. Idem ao quadro anterior. 3. Glosadores Foram fiéis ao Corpus Iuris Civilis, interpretando os textos de forma analítica, parágrafo por parágrafo, preocupando-se com partes e não com o todo, ao contrário da Escolástica. O mérito dos glosadores consiste em ter fornecido material para que os juristas posteriores pudessem ir além do direito romano. Obs.: Glosa: comentário de um texto que segue a ordem em que é apresentado. 4. Comentadores Surgiram nos séculos XIV e XV, e foram conselheiros reais, de nobres, das comunas e de particulares importantes. Sucederam os glosadores, todavia, foram muito mais além. Não basta apenas comentar os textos, é necessário buscar solução para os litígios concretos, no conjunto da obra e não apenas em uma das partículas. Os comentadores também se preocuparam com os princípios fundantes do direito, e não apenas as regras específicas, através de uma interpretação filosófica, que tinha por base alcançar a justiça. 5. Humanistas Surgiram no século XVI, e não são uma escola de pensamento jurídico. Foram humanistas pessoas que partilhavam um conjunto de ideias. Criticavam severamente o retorno Corpus Iuris Civilis, já que produzido em outro ambiente histórico. Não aceitavam também as ideias dos glosadores e dos comentaristas. Seu método consistia de uma mescla (mistura) de métodos históricos e filológicos. Caros Acadêmicos, o material disponibilizado consiste apenas em uma compilação retirada da bibliografia do plano de ensino.